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HUMBERTO BARBOSA DE FREITAS
SAÚDE E DOENÇA MENTAL NO MEIO RURAL
Dissertação apresentada à Universidade Federal de
Viçosa, como parte das exigências do Programa de Pós-
Graduação em Extensão Rural, para obtenção do título
de Magister Scientiae.
VIÇOSA
MINAS GERAIS BRASIL
2010
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HUMBERTO BARBOSA DE FREITAS
Saúde e doença mental no meio rural
Dissertação apresentada à Universidade Federal
de Viçosa, como parte das exigências do
Programa de Pós-Graduação em Extensão Rural,
para obtenção do título de Magister Scientiae.
Profª. Geralda Fortina dos Santos
Prof. Jubel Barreto
Profª. Maria Izabel Vieira Botelho
(Co-orientadora)
Profª. Nora Beatriz Presno Amodeo
(Co-orientadora)
Profª. France Maria Gontijo Coelho
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ii
Dedico esta dissertação a
todos aqueles que, de
alguma forma, foram
prejudicados por minha
falta de tempo, maior
injustiça a que,
involuntariamente, uma
pesquisa acadêmica
conduz: meus pais, meus
amigos, os pacientes a
quem assisto.
iii
A CRIATURA E SUA LOUCURA
A loucura é velha como a criatura...
Nasceram do mesmo ventre,
pintadas de verde,
na mesma hora da noite e do dia...
Banharam-se nas águas vermelhas
do mesmo rio
E se nutriram juntas
de fome e de frio
no seio materno.
A criatura, morena, queimada de sol,
a loucura, cinzenta, molhada de chuva.
Se uma delas se pronuncia,
a outra emudece...
se a primeira sorri,
a segunda entristece
e batem sozinhas os pés sobre o chão...
Quando a loucura desperta,
a criatura vira para o canto
e finge que adormece
sem dar satisfação...
Vão vivendo e convivendo assim,
meditando as overdoses
de gritos e silêncios,
persignando mil vozes
para ganhar o céu.
Laene Teixeira Mucci,
Versos Peregrinos
Ponte Nova, janeiro de 2010.
iv
AGRADECIMENTOS
Várias ocasiões nos dão oportunidade de reconhecer o quanto devemos aos outros, e
essa pesquisa me foi uma delas.
Agradeço inicialmente a France Maria Gontijo Coelho, por sua coragem em me
aceitar como orientando e por sua competência em fazê-lo com maestria. Agradeço tamm
às co-orientadoras, Maria Izabel Vieira Botelho e Nora Beatriz Presno Amodeo, pela boa
vontade com que assumiram essa função. Algumas pessoas tornam o ensinar um exercício de
generosidade.
Devo agradecer à banca examinadora, professora Geralda Fortina dos Santos
(UFMG) e professor Jubel Barreto (UFJF) pela disponibilidade e acréscimo de sua
participação para melhoria desta dissertação. Algumas pessoas fazem da crítica uma
condecoração.
Aos demais professores do departamento, em especial a Ana Louise Fiúza, Sheila
Maria Doula e José Benedito Pinho, e ainda a Neide Maria de Almeida Pinto, do
Departamento de Economia Doméstica, agradeço pelas contribuões preciosas que me
forneceram. Algumas pessoas fazem do saber um presente aos demais.
Aos funcionários do departamento de Economia Rural, cujos muitos nomes e
contribuições ficarão aqui representados por Carminha e Anízia, que com gentileza irrestrita e
inabalável bom-humor auxiliaram-me a cumprir todos os prazos e formalidades. Algumas
pessoas fazem da ajuda um exercício de vida.
Aos meus colegas de mestrado que, com paciência e amizade, toleraram minhas
limitações a colaboraram para que diminuíssem um pouco. Laene Mucci Daniel e Tiago
Nogueira Gallinari tornaram-se amigos íntimos por me ouvir e aconselhar nos momentos mais
difíceis. Algumas pessoas convertem a dureza do trajeto num prêmio para a memória.
Aos meus familiares e amigos, a quem devo tudo o que sou, pela paciência e
generosidade de continuarem me dando tanto, mesmo nos momentos em que eu lhes dava tão
pouco, e, em particular, a meus pais, Francisco Lopes de Freitas e Lêda Barbosa de Freitas,
eterna razão de prosseguir. Algumas pessoas nos fazem ver que o somos uma pessoa, e
que somos uma pessoa sem elas.
Não poderia deixar de mencionar minha gratidão às pessoas envolvidas nesta
pesquisa, funcionários e usuários do NAPS-Ervália, pois, enquanto me doavam seu tempo,
palavras e história, compunham o apenas o material que gerou este trabalho, mas meu
v
entendimento do ser humano. Em particular meu agradecimento a Luis Fernando de Souza
Lima, a quem muito admiro e cujo interesse e disponibilidade foram cruciais.
Uma pesquisa dessa natureza é feita por muitos: jamais poderia alcançar aqui
estender minha gratidão a todos que efetivamente colaboraram, de forma mais ou menos
direta. Sendo impossível mencionar a todas as pessoas ou ocasiões que tornaram este trabalho
concreto, gostaria de remeter meu agradecimento à vida, que me deu tanto. A todo o vivido,
agradeço.
vi
BIOGRAFIA
Humberto Barbosa de Freitas nasceu em Juiz de Fora, em 11 de setembro de 1974.
Filho de Francisco Lopes de Freitas, médico, e Leda Barbosa de Freitas, jornalista e
pedagoga, passou parte de sua infância em Guiricema, cidade do interior da Zona da Mata.
Iniciou graduação em Medicina pela Faculdade de Medicina da Universidade
Federal de Juiz de Fora (UFJF) em 1994, graduando-se em 1999. Especializou-se em
Psiquiatria pela mesma instituição entre os anos de 2000 e 2002. Nesse período fez formação
em Psicanálise pela Sociedade Brasileira de Psicanálise, Dimica de Grupo e Psicodrama
(SOBRAP) de Juiz de Fora.
Em 2002 muda-se para Viçosa. Trabalhou como psiquiatra do NAPS-Ervália
(Núcleo de Atenção Psicossocial) de 2002 a 2005, e como professor substituto do
departamento de Clínica Médica da Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Juiz
de Fora (UFJF) de 2007 a 2009. Ingressou, em março de 2008, no Programa do Mestrado em
Extensão Rural do Departamento de Economia Rural na Universidade Federal de Vosa
(UFV).
Atualmente trabalha como psiquiatra no SEMENTE Serviço de Saúde Mental do
AGROS-UFV.
vii
SUMÁRIO
LISTA DE QUADROS E GRÁFICOS
viii
ix
x
xi
1
LISTA DE ABREVIATURAS
RESUMO
ABSTRACT
CATULO 1 - INTRODUÇÃO
1.1- Aproximação ao tema e contextualizão da pesquisa
1
1.2- Problematizando saúde /doença mental
5
1.3- Objetivos
9
CATULO 2 - REFERÊNCIAS CONCEITUAIS
10
2.1- Representações sociais: história e conceito
10
2.1.1- Os limites de um estudo sobre representações
11
2.1.2- A origem social das representações
14
2.1.3- As funções das representações sociais
20
2.1.4- Operacionalizando conceitos
27
2.2- Identidade e loucura
30
2.2.1- O psicológico e o social
30
2.2.2- Ruralidade e Saúde Coletiva
33
2.2.3- A composição da identidade rural
36
2.2.4- Identidade, identificação e tipo rural
38
CATULO 3 - PERCURSO METODOLÓGICO
42
3.1- Descrevendo e interpretando procedimentos
42
CATULO 4 - RESULTADOS
51
4.1- Ervália do café: primeiras impressões
51
4.2- Saúde e doença mental no Brasil: história e contexto
58
4.3- As imagens da loucura numa cidade do interior
68
4.4- O NAPS-Ervália: história e funcionamento
74
4.5- Caracterização do perfil dos usuários
79
4.5.1- Caracterização dos pacientes
80
4.5.2- Os diagnósticos
84
4.6- As representações de saúde e doença mental nos registros dos
prontrios
90
CATULO 5 - O DIÁLOGO COM AS TEORIAS
106
5.1- Interpretando registros
106
5.2- Os valores de grupo e a identidade rural deteriorada
115
5.3- As instituições psiquiátricas e sua função social
124
CONSIDERAÇÕES FINAIS
137
PROPOSIÇÕES A PARTIR DA PESQUISA
142
REFERÊNCIAS
144
ANEXOS
150
Anexo A
150
Anexo B
153
viii
LISTA DE GRÁFICOS E QUADROS
GRÁFICOS
Gráfico 1. Distribuição dos pacientes por faixa etária e sexo........................................
81
Gráfico 2. Escolaridade por sexo..............................................................................
83
QUADROS
Quadro 1. Conteúdo dos campos de prontuário pesquisados e finalidade para a
pesquisa...............................................................................................................................
79
Quadro 2. Freqüência de citações diagnósticas (CID-10) por sexo....................................
85
Quadro 3. Freqüência dos diagnósticos de psicose (ou como comorbidade) por sexo......
87
Quadro 4. Freqüência diagnósticos de transtornos do humor (ou como comorbidades)
por sexo...............................................................................................................................
87
Quadro 5. Freqüência diagnósticos de transtornos neuróticos (ou como comorbidades)
por sexo...............................................................................................................................
88
Quadro 6. Permanência no NAPS por profissional/ano.....................................................
89
ix
LISTA DE ABREVIATURAS
PIB Produto Interno Bruto
CAPS Centros de Atenção Psicossocial
CID Classificação Internacional de Doenças
HU-UFJF Hospital Universitário da Universidade Federal de Juiz de Fora
INSS Instituto Nacional de Seguridade Social
NAPS Núcleo de Atenção Psicossocial
OMS Organização Mundial de Saúde
PSF Programa de Saúde da Família
SNAS Secretaria Nacional da Assistência à Saúde
SUS Sistema Único de Saúde
UFJF Universidade Federal de Juiz de Fora
UFV Universidade Federal de Viçosa
UNESP Universidade Estadual Paulista
x
RESUMO
FREITAS, Humberto Barbosa de, M. Sc., Universidade Federal de Viçosa, junho de 2010.
Saúde e doença mental no meio rural. Orientadora: France Maria Gontijo Coelho.
Coorientadores: Maria Izabel Vieira Botelho e Nora Beatriz Presno Amodeo.
O presente estudo aborda questões relativas à saúde e doença mental na pequena
cidade de Ervália, localizada na Zona da Mata de Minas Gerias. A questão central que
orientou esta pesquisa foi conhecer as representações sociais acerca da loucura, manifestas
entre agentes de saúde, pacientes e familiares usuários do NAPS (Núcleo de Atenção Psico-
Social) em funcionamento na localidade. O problema proposto envolve a relação entre as
semelhanças e diferenças de representações dos pacientes e dos profissionais de saúde,
enquanto carreadoras de expectativas e práticas tanto de estigmatização quanto de tratamento
das doenças mentais. Utilizou-se como metodologia a análise de conteúdo e observação
participante. Para tanto, foram analisados 660 prontuários, em que se buscou localizar
palavras e locuções remetidas às representações sociais visadas. Paralelamente, pôde-se traçar
uma caracterização dos usuários desse serviço, em sua maioria mulheres, moradoras da zona
rural, com baixa escolaridade, e com diagnóstico de depressão ou ansiedade. Alcançando os
objetivos propostos, verificou-se que as representões sociais sobre o tema loucura/saúde
mental cambiam entre médicos e não-médicos, embora o completamente: aproximam-se na
definição vaga de normalidade, divergem na compreensão da anormalidade e, parcialmente,
quanto ao tratamento. De modo geral, as representações entre não-médicos indicam um
entendimento não científico dos sintomas, valorização maior das condutas tidas como
irracionais, despreocupação com uma nomenclatura ou classificação rígidas, com conseqüente
maior tolerância em relação ao considerado louco embora não deixe de ocorrer sua
valorização negativa. Para os dicos, priorização dos sintomas, apego a uma classificação
nosográfica das patologias e conseqüente “medicalizaçãodos conflitos sociais. Quanto ao
tratamento, ambas as representações convergem quanto ao uso de fármacos, mas divergem
quanto ao recurso ao benefício do INSS, almejado por não-médicos, repudiado por dicos.
Finalmente, foi possível, a partir dos resultados e discussões, elaborar algumas sugestões para
o aprimoramento do atendimento aos usuários na instituição estudada.
xi
ABSTRACT
FREITAS, Humberto Barbosa de, M. Sc., Universidade Federal de Viçosa, June, 2010.
Health and Mental Disease in Countryside. Adviser: France Maria Gontijo Coelho. Co-
advisers: Maria Izabel Vieira Botelho and Nora Beatriz Presno Amodeo.
The present research approaches relative subjects to the health and mental disease in
Ervália, located in Zona da Mata of Minas Gerais. The problem investigates the relationship
between similarities and differences in the representations concerning to the madness among
health care workers and patient and families users of NAPS (Núcleo de Atenção Psicossocial)
in town. This kind of study is important because social representations are conductive of
expectations and practices, as much of stigmatization and mental diseases treatment. The
following methodological procedures were accomplished: analysis of content of the patients‟
files; interview with local historian and participant observation of the routine of NAPS. Thus,
660 files were analyzed, (regarding the period between February 2002 to March 2010) in
which were identified words and locutions that indicates those social representations. A social
characterization of the NAPS users was delineated: the great part was female (57,42%),
residents in country area, low education, and with depression or anxiety diagnosis. It was also
verified that the social representations about the theme mental health and illness exchange
among doctors and non-doctors, although not completely: they approach in the vague
definition of normality but diverge in the understanding of the abnormality and, partially, as
for the treatment. As expected, the representations among non-doctors, registered by the
physicians, indicate certain characteristics: a classification of the symptoms out of the patterns
of scientific language; large valorization of the conducts considered as irrational; a lack of
attention to a nomenclature or rigid classification and more tolerance with the considered
mentally ill, despite of their negative valorization. By the other hand, the doctors seem to be
more interested in symptoms and attach to a harder classification of the pathologies.
Concerning the treatment, the research results indicates that both doctors and non-doctors
representations converge as for the expectation of prescription of medicines, but they diverge
about the access to the resources or benefits of INSS (WELFARE DEPARTMENT), longed
for by non-doctors, rejected by doctors. Some suggestions are presented to improve NAPS as,
for instance, organization of the users' data and the consideration, by the physicians, that the
benefits of INSS are a right and a fundamental need of the patients.
1
CAPÍTULO 1
INTRODUÇÃO
1.1- Aproximação ao tema e contextualização da pesquisa
Este estudo surgiu da experiência profissional de um psiquiatra que trabalhou em
Ervália, entre os anos de 2002 a 2005. Na condão de agente de saúde em um pequeno
município da Zona da Mata de Minas Gerais, muitas inquietações se colocaram, o que
motivou a possibilidade de realização de uma pesquisa de natureza transdisciplinar junto ao
mestrado de Extensão Rural, cujos resultados são aqui dissertados.
Após a resincia em psiquiatria junto ao Hospital Universitário da Faculdade de
Medicina da Universidade Federal de Juiz de Fora (HU-UFJF), no início da vida profissional,
o convite para atuar no Núcleo de Atenção Psíquico e Social (NAPS), a ser inaugurado,
causou grande expectativa. O prefeito municipal da época o falecido Dr. Júlio César Dadalti
Barroso e o então coordenador do projeto de Saúde Mental, o psilogo Luis Fernando de
Souza Lima, tinham como idéia, ou ideal, que os pacientes psiquiátricos de Ervália não mais
precisassem se submeter ao traslado até Ubá para conseguir tratamento no Centro de Atenção
Psico-Social (CAPS) daquele município. Não havia um desacordo em relação ao tipo de
atendimento, considerado de muito boa qualidade, mas ao fato de que os pacientes, e
eventuais acompanhantes, ficarem penalizados por um transporte cansativo. O veículo que a
Prefeitura Municipal disponibilizava para transportá-los, por razões de necessidade, levava
ainda outras pessoas que se submeteriam a diferentes tipos de tratamentos naquela cidade. O
resultado disso era que, quase sempre, todos ficavam obrigados a permanecer o dia todo fora,
aguardando a realização dos outros procedimentos. Além do mais, mesmo que o CAPS em
Ubá oferecesse atividades integrativas e funcionasse durante os turnos da manhã e da tarde, as
idas muito espargidas, na maioria dos casos mensalmente, fazia com que ficasse
desfavorecida a regularidade da integração paciente-serviço, o que prejudicava a evolução do
tratamento, que não se dava como esperado. Apesar de todas as vantagens e possibilidades
daquele serviço prestado em outro município, para os pacientes era apenas um dia cansativo.
Em razão disso, acabava ocorrendo ainda algum vel de absenteísmo, uma vez que o centro
em que se dava o acompanhamento dico não era facilmente acessível sem o transporte
fornecido pela prefeitura.
2
Quando feito o convite para a montagem de um NAPS, foi ressaltado que fatores
climáticos, como épocas de chuvas, o envolvimento das famílias e pacientes com certas
atividades, como o período da colheita do café, além de limitões postas por imprevistos,
como o eventual adoecimento de um acompanhante, configuravam um quadro que favorecia o
impedimento das idas e as marcações de encontro mensalmente efetuadas. Essas abstenções
implicavam em adiamentos, com a conseqüente quebra da seqüência ideal do tratamento.
Adequar o serviço de saúde mental de Ervália era uma necessidade, não em razão do
contexto da política nacional de descentralização da saúde relacionada à desospitalização e à
criação de ambulatórios de saúde mental mas em virtude das limitações postas pela
dinâmica da assistência prestada aos doentes mentais em uma cidade com profundas marcas
de uma vida rural. A questão que na época se colocava era como oferecer um tratamento mais
humano e acessível aos pacientes, o que levou à definição dos principais objetivos da dupla
que organizou o nascente NAPS de Ervália, o prefeito e o psilogo.
Inicialmente, o maior entrave: a dificuldade de conseguir um profissional médico
especializado que atuasse no interior. Sabe-se da predileção dos especialistas por grandes
centros. Segundo Luis Fernando, o NAPS em Ervália tinha condições de ter sido
inaugurado e contava com o aval do prefeito da época havia anos, mas a carência do
psiquiatra impedia o começo do funcionamento. Por laços familiares, o pesquisador deste
trabalho foi atraído para a pequena cidade, terra natal de seu pai. Abraçando a oportunidade,
deixou sua Juiz de Fora, onde nasceu e residia, para trabalhar em Ervália, completando sua
atividade profissional na próxima Viçosa, uma cidade universitária.
A formação e especialização em um centro maior pode ter colaborado para que,
inicialmente, fosse percebido com alguma estranheza um “jeito diferente” entre muitos dos
pacientes. Eram em torno de 50, que vinham sendo remetidos do tratamento em Ubá. Quase
todos moradores da zona rural, manifestavam seus sintomas com expressões verbais e
corporais diferentes dos moradores de periferia de uma cidade grande, que lhes seriam os
mais similares, como se pensou à época.
Por um período de quase um ano, conhecemo-nos uns aos outros. Foi um momento
distintivo na formação médica e humana, cujo valor é incalculável: aprender com eles que
suas palavras remetiam a outros valores, sensações, sofreres. Esse foi o caso, por exemplo, da
noção de tempo. Foi possível compreender que o tempo no interior pode ser medido por
outras variáveis que não a exatidão do relógio. Por exemplo, um dia passado na cidade dura o
tempo entre a chegada do primeiro ônibus, que traz os moradores da roça, até a partida do
último. O tempo do retorno para a próxima consulta dura não um mês ou dois, mas o período
3
entre as chuvas que, na quaresma, separam o carnaval da semana santa. Para o paciente, essa
dinâmica da vida dita a data da vinda à próxima consulta tanto quanto ou mais que a
necessidade de mais remédios, ou do atendimento do médico, ou a necessidade de rever
exames ou pegar nova prescrição. A admiração e a curiosidade pelo entendimento do mundo
rural, despertadas durante a faculdade no período de um curto, mas riquíssimo, internato
rural numa cidade interiorana, cresceram grandemente nesse período, que durou um pouco
mais que três anos. Depois desses anos, mudanças no contexto político local e o afã de buscar
uma pós-graduação, um mestrado, implicaram no desligamento do NAPS.
Aquele mundo rural, vivenciado na condição de agente social de mudanças, que é
como se pode entender a ação profissional blica em saúde, deu sentido à busca de uma
instituição com mais de quarenta anos de tradição em estudos sobre a ruralidade. No mestrado
em Extensão Rural da UFV, buscou-se encontrar orientação adequada para o manejo e a
compreensão dos temas pertinentes ao universo rural.
Contudo, construir uma pesquisa premeditadamente sobre bases teóricas de outras
ciências, que o a biomédica, o foi tarefa fácil. Mais que um desafio, foi um sonho. Partia-
se de uma formação deficitária nos saberes concernentes ao humano durante a graduação, nos
anos noventa, pois à época não havia na grade curricular do curso nem antropologia médica,
nem sociologia, nem qualquer outra disciplina próxima. Na medida em que a medicina
encontra-se arrolada entre as ciências biológicas, sentia-se grande falta de uma fonte de
conhecimento que contornasse o que se pode considerar um equívoco. Como se podem
formar médicos para atender pessoas ou populações sem o conhecimento do que as constitui
enquanto seres ou grupos sociais? Se as dificuldades enfrentadas não foram poucas, no
sentido de contornar uma formação precária nesses conteúdos, considero-me cheio de êxito
pelo que pude aprender ao longo do mestrado, e essa dissertação é apenas a parte mais
concreta, visível, desse resultado.
Mas ainda outra razão que subjaz a essa trajetória: a ideologia. A experiência
como profissional naquela pequena cidade deixou evidente que era preciso tentar entender
o de psiquiatria para ajudar pessoas em sofrimento mental, era preciso compreender o
quê e como essas pessoas percebiam o que compunha seu sofrimento; era patente que apenas
assim se poderia reconhecê-las enquanto seres humanos, pessoas completas, enquanto sujeitos
sociais e cidadãos.
Em seu livro Clínica Peripatética, Lancetti (2008) defende a iia de que não é
possível construir poticas de saúde inclusivas nem realizar atendimentos em saúde mental
sem a parceria dos interessados, os pacientes. Mas, para tanto, é necessário conhecer seu
4
modo de vida, seu local de morada, sua compreensão de saúde e de mundo, “é preciso
negociar nossos conceitos e suposições e leituras a respeito de, por exemplo, um desequilíbrio
psíquico com as leituras de nossos interlocutores. O que para nós pode ser paranóia, para
nossos pacientes pode ser um trabalho, efeito de ebó ou obra de satanás” (LANCETTI, 2008,
p.109). E completa avisando que para isso é preciso conhecer as diversas culturas(IDEM).
A propósito do título, Clínica Peripatética, cabe um comentário: clínica vem de
klinos, inclinado, deitado em leito, posição tradicional do paciente apassivado pela atuação
dica. Já peripatético vem de peritatéõ, como esclarece Lancetti (2008), termo que remete à
filosofia aristotélica, propagada inicialmente em conversas pelos jardins de Apolo no Liceu,
em Atenas, durante caminhadas. Nesse sentido, este estudo tem muito desse passeio
peripatético pelas ciências, uma jornada da psiquiatria às ciências sociais, que vai e retorna
diferente. Do clínico, torna-se estático em movimento, uma aprecião e refleo sobre os
sentidos atribuídos ou percebidos, por si mesmo, mas orientados e desafiados por teóricos e
cientistas que, sabiamente, ensinam a ver para além do positivamente manifesto.
O nome de batismo do NAPS de Ervália é CAMINHOS. Nome significativo em toda
essa dissertação. Foram longos os muitos caminhos: na vida dos pacientes, a ida até Ubá, o
meu caminho de volta para a família, o caminhar conjunto de profissionais e pacientes que se
conheciam, o meu caminho errante por outros campos de saber... tudo isso remete aquele
nome. Por isso, este estudo compõe parte dessa trajetória, calcada também em muitas
conversas com colegas, orientadores e doentes. A linguagem o é aqui um adereço, mas
elemento constitutivo da problematização, da investigão, de sua discussão e,
conseqüentemente, da compreensão. Por isso, essa dissertão não é apenas de um jogo de
palavras, mas é pelas palavras que se torna possível elaborar a compreensão.
O que se segue, então, é uma caminhada de um psiquiatra maravilhado pela cultura
rural em seu entendimento da loucura, no encontro com uma instituição de tratamento oficial.
No limiar do abandono do uso da primeira pessoa, exigência do formato acadêmico de se
escrever pesquisas, espero que a leitura dessas páginas desperte pelo menos um pouco da
sensão que me proporcionou escrevê-las: uma viagem pelo mundo das representações sobre
a loucura numa pequena cidade do interior da Zona da Mata, um respeito reverente por uma
forma particular de compreender um pouco daquilo que nos faz, loucos ou sãos, tão humanos.
5
1.2- Problematizando sde /doença mental
Uma forma de se conhecer uma via de acesso às culturas seria por meio das
representações, cujos estudos continuam fornecendo importantes contribuições para a
compreensão do humano, cerne da antropologia, mesmo passado o século que nos separa dos
trabalhos inaugurais de Durkheim. O que propicia tal longevidade, que não deve surpreender,
é o fato mesmo que sugere a necessidade de continuados estudos: o caráter dinâmico das
representações, construção viva de um grupamento humano, fazendo dos estudos dessa
natureza uma tarefa sempre necessária.
Os trabalhos sobre as concepções da saúde mental das populações rurais ainda são
poucos, e sua ocorrência tende a limitar-se a certos temas como medicina popular e
fitoterapia, atendo-se muitas vezes à terapêutica, ou ainda aos problemas psiquiátricos
causados pelo uso de agrotóxicos. Destacam-se as pesquisas sobre a saúde mental de
trabalhadores rurais conduzidas por grupos de estudo vinculados à Universidade Estadual
Paulista (UNESP). Por outro lado, se grande interesse no estudo das representações sobre
corpo, adoecimento e cura de diversas populões e grupos, muito pouco foi produzido
especificamente sobre o conjunto de representações de saúde/doença mental na ruralidade.
Uma primeira concepção, que talvez explique essa lacuna de estudos, vem da idéia,
que se poderia chamar de fisicista, de que as doenças se manifestam igual e invariavelmente
em todos os corpos. Contudo, sabe-se hoje que, em certa medida, isso é questionável. Na
interpretação do adoecimento, como negar as representações em torno das doenças, do corpo,
da saúde e dos veículos e meios de cura? Todos esses aspectos modificam-se largamente em
diferentes populações e culturas. O corpo pode parecer igual, mas o universo de significados,
as estruturações e dinâmicas de funcionamento geram explicações e atitudes muito distintas
para com a saúde e a doença. Para compreender, e não explicar os aspectos mórbidos ou a
vitalidade, os variados contextos cio-culturais necessitam ser considerados (BOLTANSKI,
2004).
Por sua vez, os aspectos culturais não são absolutos ou adquirem forma única. Por
isso, as condições sócio-históricas, os valores constitdos e as condões sócio-ambientais e
econômicas necessitam ser articulados para não limitarem a abordagem dos desafios que
implicam os esforços de compreensão do adoecimento mental. Em princípio, pode-se dizer
que a abordagem aqui denominada fisicista absorve e rechaça do saber médico convencionado
a influência de outros modos de vida e valores, como seriam os que são próprios do mundo
6
rural, na medida em que tem como referência hábitos e modos de vida urbanos, mesmo que
esses se lhe apresentem no nível do impensado.
Nesse debate tem-se o próprio conceito de Saúde Mental proposto pela Organização
Mundial de Saúde (OMS) que sugere a impossibilidade de uma definição unânime, visto
que embute contextos culturais muito variados. Será preciso, então, demarcar quais as
especificidades do contexto cultural rural para se alcançar algum avanço conceitual. Acredita-
se que, ao se mapear as representações de saúde/doença mental entre uma população cuja vida
se faz no espaço mais rural, poder-se-á contribuir com uma teorização com implicações
práticas, a partir do que é entendido como doença e do que é considerado como condição de
saúde mental.
Por se tratar de um estudo acerca da doença mental é bom que se diga que, hoje, já se
configura como um problema de saúde pública e de natureza epidemiológica relevante
(ONOKO-CAMPOS & FURTADO, 2006). Além disso, trata-se de um tipo de condição
mórbida em que os fatores culturais sobressaem aos biológicos (SINGER ET AL, 1978), mais
que em outras patologias consideradas, academicamente, por seu caráter orgânico. A ligação
do adoecimento com a família, com o trabalho ou com diversas crenças revelam uma
oportunidade excepcional para captar nuances da constituição cio-cultural em sua interação
com os processos de saúde/doença. Para compreensão desses processos, a abordagem teórica
excede a muitos campos disciplinares, desde a extensão rural bem como ciências sociais,
antropologia, sociologia, história e, obviamente, saúde e, especificamente, medicina.
O estudo das representações sociais sobre os fenômenos psíquicos patológicos na
ruralidade é uma lacuna que aguarda preenchimento, quer se pressuponha existirem
especificidades ou similitudes entre as representações de saúde/doença mental no meio rural e
urbano. Quanto à ruralidade, ela poderá ser analisada por seus caracteres isolados ou, ao
contrário, vendo nela um continuum com o urbano. em relação à análise dos serviços de
saúde, de certa forma carece-se de estudos que enfoquem o movimento dinâmico de interação
entre saber popular e medicina oficial no que se refere ao adoecimento psíquico nesse
contexto rural.
Essa proposta justifica-se dentro do escopo dos estudos em extensão rural pois que,
nessa área, são pertinentes todos os estudos que revelam dinâmicas e identidades sócio-
culturais relativas ao campo. Questões de saúde estão intimamente ligadas às possibilidades
de compreensão das sociedades agrárias e podem fundamentar processos de pesquisa ou
intervenções com vistas à promoção do desenvolvimento local. As práticas da medicina e da
área da saúde, em termos epistemológicos, sempre tiveram proximidade com as práticas da
7
extensão rural, pois ambas se vêem envoltas em processos de mudança. Historicamente, as
campanhas de controle de endemia, de saneamento rural ou de doenças tropicais, por
exemplo, enfrentaram desafios similares aos da Extensão Rural e orientaram-se por
concepções metodológicas difusionistas semelhantes, como evidenciaram outros trabalhos
desenvolvidos no Programa de Mestrado em Extensão Rural, como os de Santos (1992) e
Regino (2007).
Para se construir este trabalho sobre a doença mental em uma pequena cidade do
interior de Minas Gerais foi preciso voltar o olhar para esse amálgama de fatores. Esse
contexto fez com que se enfocasse não apenas a doença, mas as representações do adoecer
e da cura nas condições de ruralidade, na convicção de que as formas primárias de interação
social face-a-face e as relações sociais de produção e trabalho no campo constroem e operam
nos grupos sociais e nos “doentes” distintas expectativas de tratamento, concepções sobre o
que é estar doente e maneiras de agir com vistas ao processo de cura ou controle. Esses
esclarecimentos poderão indicar estratégias de ação na promoção da saúde mental, o no
envolvimento do paciente, individualmente, mas no envolvimento das famílias ou grupos
sociais próximos, enfim, ações no sentido da saúde coletiva.
A presente pesquisa almejou investigar, portanto, qual a relação, isto é, como se
apresentam e reconstroem as representações sociais sobre saúde e doença mental entre
agentes de saúde em contato com a população rural de Ervália, uma pequena cidade da Zona
da Mata Mineira, usuária dos serviços prestados no NAPS. A questão de “como se
apresentam” remete a saberes locais tradicionais, proposição ainda pouco estudada no que
concerne ao aspecto da doença mental na ruralidade. Já “como se reconstroem aponta,
também, para o fato de que mudanças podem se processar após o contato dessas
representações com o saber oficial, representado pelo Serviço de Saúde Mental que vem
funcionando nesse município nos últimos oito (08) anos, e que pode ser considerado o locus
principal do tratamento oficial.
Para tanto, foram problematizados fenômenos que envolvem representações sociais
sobre saúde e doença mental nos seguintes termos: a que representões sociais lançam mão
pacientes e suas famílias e eventuais redes sociais de apoio ao lidarem com a eclosão de
uma doença mental em seu meio? Qual a relão entre essa forma de entendimento e a dos
profissionais de saúde, como isso pode alterar relações sociais e de trabalho, como se consti
ou é reformulada a estigmatização dos doentes mentais na família, grupo ou redes de apoio
envolvidas com o tratamento no NAPS-Ervália? Quanto à idéia de si do sujeito doente e à
8
idéia de “doente” por parte dos agentes de saúde e de sua família ou grupo social que lhe são
próximos, seriam representações aproximadas ou totalmente divergentes?
Como já dito, a vinculação desta pesquisa à área de conhecimento da extensão rural
vem do fato de se partir do saber sociológico sobre ruralidade, que transita pela metodologia
da antropologia/sociologia rural, e se dirigir às práticas médicas. Acredita-se que a
aproximação desses campos de saber possa contribuir na construção de algumas teorias
coadjuvantes. Destacam-se, nessa seara, estudos sobre saúde e gênero (DARON, 2006),
família e saúde (RABELO ET AL, 1999), redes sociais de apoio (ANDRADE &
VAITSMAN, 2002), construção do saber popular sobre saúde (BOLTANSKI 2004), e o
clássico estudo sobre representações da loucura de Jodelet (2005).
Assim, a concepção rural sobre o binômio saúde/doença se ime como objeto de
estudo por seu duplo caráter eminentemente prático e teórico. Sua relevância teórica justifica-
se pelo fato de ser o processo de adoecimento rico em significados e farto em associações, o
que o torna objeto de interesse também para as ciências sociais, como mostram alguns estudos
clássicos citados nesta dissertação, como Boltanski (2004) e Jodelet (2005), dentre outros.
Acredita-se, em adição, que esse estudo possa subsidiar a elaboração de poticas de
saúde mental dirigidas à população rural de forma que venham a otimizar o contato entre
profissionais de saúde e essa população por meio de programas específicos. Sua importância
vem do fato de que boas condições de saúde têm óbvias implicações nas condições de
sobrevincia e dignidade das famílias rurais. Qualquer proposta de desenvolvimento local
o pode desconsiderar a importância das condições de saúde e da estrutura cultural para sua
promoção efetiva. Identificar especificidades pode ser uma ação estratégica para não deixar a
população rural à margem de ofertas de serviços públicos e melhorias no atendimento. Eis seu
aspecto prático.
Conforme esclarece Cândido (2001), este tipo de estudo tem a pretensão de fornecer
subsídios acadêmicos para que as reformas das condições de vida da população rural
brasileira, quando necessárias e desejáveis, não se baseiem em enunciados meramente
políticos ou investigações especificamente econômicas ou mesmo técnicas. Ao buscar revelar
sua sociedade, permite construir um “saber competente” (OLIVEIRA, 1985, p.84) que
oportuniza articular a cultura das populações rurais com as intervenções pertinentes, sejam
elas experiências acadêmicas, administrativas, políticas ou terapêuticas, de forma que
permitam ações inclusivas em suas particularidades.
9
1.3 - Objetivos
Objetivo geral:
Compreender as representações sobre saúde e doença mental circulantes na cidade de Ervália
a partir dos registros nos prontrios dos pacientes usuários do NAPS.
Objetivos específicos:
*Analisar motivações, sentimentos e formas de compreensão que os pacientes (e seus
cuidadores) têm sobre o sofrimento mental e os processos de tratamento, a partir dos registros
feitos pelos agentes de saúde;
*Identificar concepções e expectativas que orientam as ações dos agentes de saúde;
*Descrever funções e o modo de funcionamento do NAPS-Ervália;
*Elaborar sugestões para debate com agentes de saúde, com vistas a otimizar o atendimento
prestado pelos NAPS.
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CAPÍTULO 2
REFERÊNCIAS CONCEITUAIS
2.1- Representações sociais: história e conceito
Um entendimento teórico sobre as representações sociais ficará facilitado ao se
historicizar a noção e demarcar o contexto de seu surgimento e evolão, intenção desde
pico inicial.
Reportando-se ao reconhecimento do valor teórico do conceito de representação
social, pois, Jodelet (2001) diz que essa noção ocupa uma posição central no campo das
Ciências Humanas e Sociais. Em consonância com tal iia, Sperber (2001) afirma que:
Todas as Ciências Humanas e Sociais: Psicologia, Psicologia Social, Sociologia,
Antropologia, Economia, Lingüística, Ciências das Religiões, Estudos Literários,
etc. m pouco ou muito a ver com representações culturais, mesmo que as
conceituem de modos muito diferentes (SPERBER, 2001, p.92).
A expressão representação social é, portanto, objeto de estudo de disciplinas
diversas, e seu domínio, desse modo, tem de ser igualmente vasto classifica Jodelet (2001):
científico, cultural, social e institucional, produção, ambiental, biológico e médico,
psicológico, educacional, estudos dos papéis sociais e relações intergrupais. Não se trata,
perceba-se, de campo restrito.
Pesavento (1995) posiciona o estudo das representações a partir do que chama de
crise dos paradigmas de análise da realidade no século XX: o fim da crença em verdades
absolutas e, citando o historiador Bronislaw Baczko, uma mudança da ciência em relação a
um discurso unitário sobre o homem.
Moscovici (2001, p.45), no campo da Psicologia Social, nota que, após a eclosão do
que considera o “fenômeno mais marcante da Ciência Social da França”, o estudo das
representações entrou em declínio. Sua explicação para tal fato perpassa o itinerário do
conceito nas ciências. Moscovici (2001) mostra como a Psicologia Social resgatou-o da
Antropologia para aplicação às sociedades chamadas desenvolvidas, depois de permanecer
por muito tempo limitado às sociedades ditas primitivas. O autor atribui importância
particular às contribuições de Piaget (ao estudar a natureza psíquica das representações e sua
relação com a antropologia de Levy-Bruhl e a sociologia de Durkheim) e às de Freud (que,
com seu estatuto do inconsciente erigido a partir do meio familiar, grupal, cultural, ajudou na
11
compreensão da passagem das representões do coletivo ao individual). Para o autor, foi
preciso que se percebesse tanto a atualidade do conceito quanto sua aplicabilidade também às
coletividades modernas, e não apenas às sociedade tradicionais, para que voltasse a despertar
interesse de estudo em outras ciências:
Representando-se uma coisa ou uma noção, não produzimos unicamente nossas
próprias iias ou imagens: criamos e transmitimos um produto progressivamente
elaborado em inúmeros lugares, segundo regras variadas. Dentro desses limites, o
fenômeno pode ser denominado representação social. Tem um caráter moderno
pelo fato de que, em nossa sociedade, substitui mitos, lendas e formas mentais
correntes nas sociedades tradicionais: sendo seu substituto e seu equivalente, herda,
simultaneamente, certos traços e poderes (Moscovici, 2001, p.63).
Jodelet (2001) credita aos estudos de Durkheim e de Moscovici os primeiros e
fundamentais textos sobre as representações, evidenciando como o conceito nasceu na
Sociologia e posteriormente se desenvolveu tamm na Psicologia Social. Em concordância,
Kaes (2001) ressalta a importância do estudo desenvolvido por Moscovici sobre as
representações da psicanálise como demarcador do conceito e metodologia das representações
sociais.
a História tradicional, nas correntes positivista ou marxista, permaneceria distante
do estudo do imaginário popular até que, nos anos 60 a 70, a História Social encenasse um
reposicionamento que permitiria com que, com a Nova História Cultural”, nos anos 80,
novos objetos de estudo passassem a merecer destaque: mitos, crenças e valores,
mentalidades, representações coletivas manifestas nas artes e instituições (PESAVENTO,
1995). No campo em que apenas os eventos políticos tinham relevância, as representações
sociais adquiriram estatuto digno de objeto de estudo ao longo dessas décadas.
2.1.1- Os limites de um estudo sobre representações
vezes em que os problemas enfrentados por uma ciência, muito mais que
empecilhos à sua sedimentação, funcionam como estimuladores de seu desenvolvimento.
Talvez seja o caso dos criativos estudos no campo das representações sociais.
Um primeiro obstáculo diz respeito à dificuldade de uma conceituação formal
sintética” (SÁ, 1996) relativa à complexidade da noção de representação social, gerando uma
gama variada e específica de conceitos nas diversas ciências que se utilizam da mesma.
Também Sperber (2001, p.92) ressalta essa grande variedade de nomenclaturas usadas: “ao
12
lado do termo representação, ele próprio tornado mais preciso, de modo diverso com o uso
dos adjetivos coletiva, social, simbólica ou cultural, encontram-se, em empregos próximos,
signo, significação, símbolo ou saber”. Por sua vez, Baczko (1985) relembra a polissemia
inevitável do termo imaginário e a ambigüidade do termo social. Coexistem, nas diversas
ciências, portanto, as expressões representações sociais, coletivas ou culturais, mentalidades
e visão de mundo, imaginário e imaginário social ou popular, simbólico, e seus conceitos
variam entre autores, enfoques e áreas.
Tratar de objetos de estudos semelhantes, afins ou próximos com nomenclaturas
diferentes é, em todas as áreas, uma boa forma de gerar imprecisão e, pior, confusão. O que
torna pertinente a pergunta de Chartier (1990, p.30): “mas, por detrás dessas diferentes
palavras haverá semelhança entre as coisas? Ou, noutros termos, o objecto [sic] que elas
designam de maneiras tão diversas será único e homogêneo?”.
À guisa de resposta, Baczko (1985) sugere que o estudo da imaginação social, por ter
caráter necessariamente multidisciplinar, apresenta, conseqüentemente, abordagem
metodológica diversa, de maneira que não surpresa, portanto, na ausência de uma teoria
unitária do imaginário social: “as pesquisas partem em diferentes direções. É mais fácil
verificar a complementaridade das questões que as orientam do que integrar num conjunto
coerente as respostas hipotéticas avançadas(BACZKO, 1985, p. 308).
Como mencionado anteriormente, outro dos supostos problemas que os estudos
sobre representações sociais enfrentam é decorrente justamente de sua prevalência em
diversos campos:
A noção de representação não pertence, por uma ligação preestabelecida, a um
campo disciplinar mais do que a outro. Muitas especialidades das ciências humanas
utilizam-na dando-lhe definições freqüentemente diferentes, isto é, recortando
núcleos de significado numa totalidade empírica extremamente vasta
(LAPLANTINE, 2001, p.241).
Fica evidente, no que concerne à teoria das representações, não apenas a
multidisciplinaridade, como tamm a conceituão diversificada dela decorrentes. Isso
poderia fazer ampliar o uso do conceito, contudo, acaba por assumir sentido negativo: termos
inconciliáveis em disciplinas diferentes.
Uma outra dificuldade seria a posição inferior que as representações sociais
ocupariam para o quadro teórico de muitas ciências, pois, de acordo com a proposição de
13
Pesavento (1995), haveria uma compreensão de que o imaginário como saber teria, enquanto
imaginação e num sentido cartesiano, valor de erro da razão, ou no máximo estágio inferior de
conhecimento, na medida em que se distancia dos rigores da lógica formal, que toma por falsa
esse imaginário coletivo. Devido a essa hierarquização artificial dos saberes, dar-se-ia, então,
uma separação entre saber racional e imaginário, e uma desvalorização do saber engendrado
pelas representações sociais, gerando uma posição secundária de seus estudos em diversas
ciências.
Assim, além das diversas denominações apresentarem um uso diversificado do
conceito, há a característica do uso de enfoques metodológicos diferentes. Essa configuração
terminológica e conceitual passa a equivocada impressão de imprecisão, ao invés da vantajosa
possibilidade de criativas abordagens aos problemas de pesquisa em sua multiplicidade de
focos. O fato das representações serem compreendidas como forma de conhecimento comum,
saber popular ou mera visão de mundo, colabora para sua colocação em posição periférica ou
inferior, em relação à pretensão de positividade e precisão explicativa do saber dito científico.
Esse entendimento revela, pelo menos, uma constatação: a de que as ciências são
também visões de mundo de uma cultura numa dada época e, embora utilizem alguns
pressupostos diferentes dos usados na construção das representações populares, ainda assim
operam também com base em representações coletivas, que não são, portanto, condição
paralela às ciências, mas constitutiva das mesmas.
A proposição de que as representações sociais são menos reais que o pensamento
científico, único capaz de desvelar a verdade, desconsidera o fato de que este também apenas
constrói uma leitura da realidade a partir de seus estatutos e critérios de verdade, que são
também experiências compartilhadas. Ambas são formas de saber que, apesar de lançarem
o de recursos diferentes para seus objetivos, seguem uma operação comum: representam
(re-apresentam) os objetos que captam quer mediante mitos, religiões, tradições, senso
comum ou modos de pensar, quer por hipóteses de evidências, descrições, postulados ou
teorias.
Em defesa da pertinência das representações sociais como saber legítimo, Jodelet
(2001, p.21) afirma que seriam um “saber que diz algo sobre a realidade” e que “trata-se de
um conhecimento outro‟, diferente da ciência, mas que é adaptado à ação sobre o mundo e
mesmo corroborado por ela” (JODELET, 2001, p.29).
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Em consonância, Laplantine (2003, p.79) alega que: “imaginário não significa [...]
ausência de razão, mas apenas a exclusão de raciocínios demonstráveis e prováveis, os quais
constituem o fundamento da imaginação científicae observa ainda que:
A ciência como a arte, aliás, não busca copiar a realidade e descrever o mundo tal
como ele é, mas elaborar sistemas simbólicos para apreciá-lo. Ela não é uma
atividade de reprodução do real, quer dizer a imitação de algo que seria anterior ou
exterior ao próprio ato da descoberta, mas da produção de experiências que serão
organizadas e reunidas, compostas e recompostas num texto (por exemplo, um
artigo em uma revista científica) que ele mesmo organiza a partir de outros textos
(LAPLANTINE, 2003, p.74; grifos meus).
Pesavento (1998, p. 54-5) esclarece que o valor das representões transcende a sua
cientificidade: “em nível das representações sociais, as idéias e as imagens são passíveis de
credibilidade, e não cabe avaliá-las segundo a sua veracidade. A representação construída
mede a sua força pelo seu grau de aceitação, socialização e capacidade mobilizadora”.
Afirmação que se aproxima de Darnton (1986), quando diz que:
Visões de mundo não podem ser descritas da mesma maneira que acontecimentos
políticos, mas não são menos „reais‟. A política não poderia ocorrer sem que
existisse uma disposição mental prévia, implícita na noção que o senso comum tem
do mundo real. O próprio senso comum é uma elaboração social da realidade, que
varia de cultura para cultura. Longe de ser a invenção arbitrária de uma imaginação
coletiva, expressa a base comum de uma determinada ordem social (DARNTON,
1986, p.39, grifos meus).
2.1.2- A origem social das representações
Mas como as representações sociais chegam a se tornar coletivas, no sentido de
compartilhadas, coletivizadas?
As representões sociais terão sua nese apresentada nas linhas seguintes como
uma tentativa de entendimento de sua origem coletiva, captada através de cada sujeito que
come um grupo. Não se deve entender esse esforço como uma proposição reificadora das
representações sociais, nem como uma visão organicista das mesmas: assim como as
manifestações psíquicas necessitam, para sua exteriorização, da participação concreta do
corpo, as representações sociais também recorrerão a algumas de suas funções para sua
manifestação.
E é pela fisiologia do corpo, nas propriedades perceptivas, que se começa: segundo
Laplantine (2003, p.10), “imagens são construções baseadas nas informações obtidas pelas
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experiências visuais anteriores. Nós produzimos imagens porque as informações envolvidas
em nosso pensamento são sempre de natureza perceptiva”. O autor começa pela
sensopercepção, pela captação orgânica do mundo que nos cerca, para iniciar a seqüência de
como se dá a construção das representações.
Laplantine (2003, p.10) prossegue: “imagens não são coisas concretas, mas são
criadas como parte do ato de pensar. Assim, a imagem que temos de um objeto não é o
próprio objeto, mas uma faceta do que nós sabemos sobre esse objeto externo”. O pensamento
coma pela apropriação mental do mundo externo.
A captação do exterior pela sensopercepção é o primeiro passo para a constituição
das imagens internas que formaram a base do processo de pensar, as idéias. Ainda segundo
Laplantine (2003):
As idéias são representações mentais de coisas concretas ou abstratas. Essas
representações nem sempre são símbolos, pois como as imagens podem ser apenas
sinais ou signos de referência, as representações aparecem referidas aos dados
concretos da realidade percebida (LAPLANTINE, 2003, p.12).
E o autor prossegue afirmando que:
A representação está ligada ao processo de abstração e a idéia é uma representação
mental que se configura em imagens que temos de uma coisa concreta ou abstrata.
Assim, a imagem se constitui como representação configurativa da idéia traduzida
em conceitos sobre a coisa exterior dada (LAPLANTINE, 2003, p.77).
Laplantine (2003) relaciona as representações às idéias, conteúdo e produto do
funcionamento psíquico, tomando como ponto de partida a percepção das coisas para fornecer
material para a representação das mesmas. E ressalta que nem todas as representações são
simlicas, algumas são imagens (sinais, apenas traços constitutivos do objeto, ou signos,
imagens diretivas). Para o autor “existem diferenciações e relações entre símbolo e o
imaginário(LAPLANTINE, 2003, p.21), pois “o imaginário é constitdo e expresso através
de símbolos”, e “consiste na utilização, formação e expressão de símbolos” (p.78) e “o
imaginário, como mobilizador e evocador de imagens, utiliza o simbólico para exprimir-se e
existir e, por sua vez, o simbólico pressupõe a capacidade imaginária” (p.23-4).
Propõe Laplantine (2003) que tanto as imagens quanto os símbolos o
representações, mas, se as primeiras são uma imagem mental concreta ou em relação direta
com o referente, os símbolos são convencionais, contextualizados, portanto, interpretáveis.
Enquanto a imagem está mais identificada ao seu referente (mesmo sendo apenas sua
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representação, e não reprodução concreta do objeto), o símbolo ultrapassa seu referente, daí
ser ambíguo, sincrético, polissêmico e substituível, variando entre as culturas e somente a
partir destas podendo ser interpretado (LAPLANTINE, 2003), proposição semelhante à de
Geertz (1989).
Como entende Pesavento (1995, p.22), o mbolo seria a expressão de uma imagem
(seu componente espacial) e um sentido: “através da imaginação simlica diz-se ou se
mostra uma coisa ou iia através de outra. Para Geertz (1989, p.150), os símbolos seriam os
“veículos materiais do pensamento”.
Em consonância, os psicanalistas franceses Laplanche & Pontalis (1970, p.627)
postulam que “empregamos o termo „simlico‟ para designar a relação que une o conteúdo
manifesto de um comportamento, de um pensamento, de uma palavra ao seu sentido latente”.
Para Moscovici (2001, p.52), “um símbolo representa outra coisa diferente de si
mesmo: é uma idéia compartilhada por homens, independente do próprio objeto” o fato de
independer do objeto, mas poder ser compartilhado, ressalta, aliás, como sua construção é
convencionada, arbitrada, enfim, no social.
Também Jodelet (2001) propõe a representão como conteúdo, modo de
funcionamento ou expressão mental: “representar ou se representar corresponde a um ato de
pensamento pelo qual um sujeito se reporta a um objeto” (JODELET, 2001, p.22; grifos
meus), ou: “conteúdo concreto do pensamento, a representação mental traz a marca do sujeito
e de sua atividade” (p.23; grifos meus). E ainda: a representação social tem com seu objeto
uma relação de simbolização (substituindo-o) e de interpretação (conferindo-lhe
significações). Estas significações resultam de uma atividade que faz da representação uma
construção e expressão do sujeito(JODELET, 2001, p.27). E Geertz (1989, p.59) acrescenta
que “não apenas as idéias, mas as próprias emoções são, no homem, artefatos culturais”.
No mesmo sentido, Sperber (2001, p.91) sugere que “uma lembrança, uma hipótese
ou intenção são exemplos de representações mentais”. Para esse autor, as representações que
permanecem na esfera do individuo são apenas mentais, mas as representações mentais que,
uma vez comunicadas, perduram no tempo e se tornam coletivas passam a ser representações
culturais. Isso já prenuncia que representações podem se desenvolver pelo processo de
enculturação próprio da educação, ou assimiladas pelo contato com outros conjuntos de
representações, como na aculturação.
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Então as representações mentais como conteúdo do pensamento individual,
mencionadas até agora, podem ser socializadas em representações coletivas e, se perdurarem
numa cultura, tornar-se representações sociais.
Pode-se, desse modo, esboçar uma gradação: o ser humano percebe organicamente
os objetos (imateriais ou materiais, imagens ou sons que os constituem), registra os traços
mais ou menos completos dos mesmos, resgata esse registro ao longo do tempo pela memória
e dele se utiliza como material do pensamento (desejos, lembranças, iias, valores, às vezes
no padrão de imagens, às vezes como sensações ou símbolos). Logo, o funcionamento
psíquico opera através das representações, segundo Sperber (2001) algumas apenas mentais
(individuais, se internas, blicas, se comunicadas), outras coletivas (compartilhadas na
socialização).
Como conteúdo da mente ou sua unidade básica de funcionamento, a representação
mental ou coletivizada pode ser agrupada, deslocada, condensada, recortada, fornecendo
partes para novas unidades, ou transmitida, mediante a comunicação, a outros membros de um
grupo.
Essas operações sustentam os atos mentais de pensar, recordar, antecipar e imaginar,
mesclados com os diversos afetos que podem se associar, a cada momento, a quaisquer desses
processos: uma boa ou iia, uma lembrança triste ou cômica, uma hitese aterradora ou
otimista, um desejo insensato, um comportamento suspeito, etc. Não se sugere, obviamente,
que tais operações ocorram na concretude.
Esse caráter dual da sua elaboração (entre o meio/externo e o mental/interno) leva
Moscovici (2001, p.62) a reconhecer “que as representações são, ao mesmo tempo,
construídas e adquiridas”. Percebe-se que a ocorrência do fenômeno se dentro do
psiquismo, mas remete a algo fora dele: não o objeto (mesmo que imaterial) representado,
mas, concomitantemente, a inflncia do grupo, nas representações coletivas, simbólicas,
convencionais.
Se essa relação dentro/fora, do interior para o exterior e vice-versa, não assegura a
fonte meramente interna (ocorrência mental, que não coincide com origem mental) ou externa
do fenômeno (entendido como construto apenas do meio), então resta concluir pela ligação
entre sujeito e cultura na articulação das representações, numa transição contínua entre as
duas esferas.
Sperber (2001) propõe que esse fenômeno se processa do modo seguinte:
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Veja-se um grupo social: por exemplo, uma tribo, os habitantes de uma cidade ou
os membros de uma associação. Pode-se considerar que um desses grupos sociais,
tomado em seu ambiente, é habitado por uma população muito mais numerosa de
representações, mentais e públicas. Cada membro do grupo tem, em seu rebro,
milhões de representações mentais umas efêmeras, outras conservadas na
memória por muito tempo , constituindo o saber do indivíduo. Dentre as
representações mentais, algumas uma proporção muito pequena são
comunicadas, isto é, levam seu usuário a produzir uma representão pública, que,
por sua vez, leva outro individuo a construir uma representação mental de conteúdo
semelhante à representação inicial.
Dentre as representações comunicadas, algumas uma porção muito pequena são
comunicadas repetidamente e podem até acabar sendo distribuídas por todo o
grupo, isto é, ser objeto de uma versão mental em cada um de seus membros. As
representações assim distribuídas amplamente num grupo social, e que o habitam
de modo duradouro, são representões culturais. As representações culturais
concebidas desta forma são um subconjunto de contornos fluidos do conjunto das
representações mentais e públicas que habitam um grupo social (SPERBER, 2001,
p.91-2; grifos meus).
Por isso, Sperber (2001, p.93) generaliza: “na prática, só se pode representar o
conteúdo de uma representação por meio de outra de conteúdo similar”, e a esse processo
chama de interpretação uma interpretação é a representação de uma representação por
outra” (idem), e, “nesse sentido, uma representação pública (...) é uma interpretação” (idem).
E acrescenta que o processo da comunicação se decome em dois processos de
interpretação: um do mental para o público; outro do público para o mental(idem). O autor
postula ainda que os modelos de transmissão das representações culturais encontram seus
vetores de transmissão nas formas de comunicação:
Uma representação, por exemplo, pode ser cultural de diferentes maneiras: algumas
são transmitidas sem pressa de uma geração a outra; é o que os antropólogos
chamam de tradições, comparáveis às endemias; outras representações, bastante
típicas das culturas modernas, difundem-se rapidamente em toda uma população,
mas têm uma duração bastante curta é o que se chama de moda e são comparáveis
às epidemias (Sperber, 2001, p.101).
Sperber (2001) considera que dessa maneira se transmitem e são coletivizadas as
representações em um grupo: horizontalmente, quando o receptor representa mentalmente
uma representação mental do enunciador que foi comunicada (tornada pública), ou
verticalmente, quando uma geração a recebe da anterior e a propaga à próxima.
A área de confluência do psicológico para o social perpassa, assim, a comunicação.
Recordando a posição de Durkheim e Mauss de que o psicológico está subordinado ao social,
Baczko (1985) afirma que uma sociedade se mantém se os sujeitos adotam uma
consciência coletiva em que o social prevalece sobre o individual num sistema de crenças
comuns e, para que tal ocorrência se sustente, é preciso que opere um sistema simbólico que
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garanta a comunhão a comunicação entre os homens de símbolos exteriores aos seus
estados mentais.
Jodelet (2001) ressalta o papel da comunicação na transmissão das representações:
sobressai a imporncia primordial da comunicação nos fenômenos representativos.
Primeiro, ela é o vetor de transmissão da linguagem, portadora em si mesma de
representações. Em seguida, ela incide sobre os aspectos estruturais e formais do
pensamento social, à medida que engaja processos de interação social, influência,
consenso ou dissenso e polêmica. Finalmente, ela contribui para forjar
representações que, apoiadas numa energética social, são pertinentes para a vida
prática e afetiva dos grupos. Energéticas e pertinências sociais que explicam,
juntamente com o poder performático das palavras nos discursos, a força com a
qual as representações instauram versões da realidade, comuns e partilhadas
(JODELET, 2001, p. 32).
Constatão que leva a autora a juntar-se a Piaget na proposição que a Psicologia e a
Sociologia são duas disciplinas que tratam do mesmo objeto(JODELET, 2001, p.40). E a
Kaes (2001, p.78), quando relembra “a afirmação reiterada de Freud de que a psicologia do
sujeito é, inicialmente, uma psicologia social”, pois “inscreve-se nessa perspectiva que
considera a dupla função da representação social: uma psíquica (...) outra social”.
Percebe-se que a construção das representações se dá numa interface entre o sujeito e
seu meio constitdo, além da natureza e objetos materiais ou imateriais a serem percebidos,
também pelos outros membros do grupo e suas representações individuais e compartilhadas
pela comunicação em suas diferentes formas. Ou seja, além de sua constituição sica, há seu
patrimônio simlico, que constitui, numa cultura, sua visão de mundo enquadre social do
entendimento da realidade e seu ethos conjunto de valores estéticos e morais de um povo
(GEERTZ, 1989).
Desse modo, o estudo das representações não pode prescindir de uma compreensão
sobre o meio cultural em que se erigiram, assim como os estudo das culturas mergulhará em
sua cadeia psíquica de representações. Dito de forma mais clara, toda psicologia deverá
envolver o meio cultural, bem como toda ciência social abarcará o psicológico.
Por isso, a insistência na proposição da prevalência do psicológico sobre o
sociológico, ou o inverso, pode distanciar-se do que talvez seja mais relevante: a articulação
entre ambos. Originalmente, o desenvolvimento das duas esferas garantiu que, hoje, uma deva
suas operações à outra. O que não quer dizer que não haja um ordenamento desse processo,
partindo do coletivo para o psíquico, e, posteriormente, garantido pelo psíquico para dar
sustentão à coletividade.
20
Mas todo esse processo bem engrenado o se esgota em seu próprio acontecimento,
ele se presta a algo maior e mais profundo, mas a ele intimamente ligado. Segue-se mais uma
etapa da presente sinopse: as funções práticas das representações sociais.
2.1.3 - As funções das representações sociais
Tentou-se mostrar, anteriormente, como as representações sociais sustentam os
processos mentais de contato com o externo. Mas seria possível pensar num modo de
funcionamento mental fora de uma cultura, um meio que fosse natural, mas não cultural?
Geertz (1989, p.33; grifos meus) afirma que “não dirigido por padrões culturais sistemas
organizados de símbolos significantes o comportamento do homem seria virtualmente
ingovernável, um simples caos de atos sem sentido e de explosões emocionais, e sua
experiência não teria praticamente qualquer forma”.
Isso sugere que as representações não se limitam apenas a permitir a comunicação de
idéias após uma interiorização de imagens: o processo a que conduzem é bastante mais amplo
e consideravelmente mais vasto que apenas a percepção do mundo e sua comunicação ele se
estende ao significado.
Resgatando a sociologia de tradição durkheimiana, Chartier (1990) sugere que os
conteúdos e esquemas do pensamento o ocorncias individuais (se processam no sujeito),
mas são inconscientemente interiorizados e condicionados pela sociedade que compartilha os
valores expressos em tais representações, sem que seja necessário explicitá-los. Essa
proposição se assemelha àquela formulada por Geertz (1989, p.179), quando afiança que “a
experiência humana a vivência real através dos acontecimentos não é mera sensação:
partindo da percepção mais imediata até o julgamento mais mediado, ela é uma sensação
significativa uma sensação interpretada, uma sensação apreendida”.
Percebe-se aqui que a condão natural do cérebro humano para captar informações
diversas (dentre as quais se destacam imagens e sons) o garante a sua compreensão, que é
determinada mediante aprendizado imposto pela cultura: o psiquismo não equivale
meramente ao cerebral, e o psicológico é, assim, perpassado pelo cultural.
Classicamente entendida como a relação de uma imagem presente de um objeto
ausente (CHARTIER, 1990), a representação não se trata de uma capacidade mental inata,
mas uma manifestação cultural básica, forma de expressão e ação que conjuga a aptidão
21
psíquica de registrar com a cultural de significar (a percepção é orgânica, mas a compreensão
é ditada culturalmente). O reconhecimento simbólico de um objeto não equivale apenas a sua
percepção. O símbolo seria então a expressão de uma imagem (seu componente espacial) e
um sentido (determinado culturalmente): “através da imaginação simbólica diz-se ou se
mostra uma coisa ou idéia através de outra” (PESAVENTO, 1995, p.22). Essa seria a base da
representação: representar é re-apresentar, dispensando a presença material da coisa, e
simbolizar é lhe conferir um valor arbitrário, cultural.
Veja-se o seguinte trecho, mais uma vez de Jodelet (2001):
Sempre há necessidade de estarmos informados sobre o mundo à nossa volta. Além
de nos ajustar a ele, precisamos saber como nos comportar, domi-lo física e
intelectualmente, identificar e resolver os problemas que se apresentam: é por isso
que criamos representações. Frente a esse mundo de objetos, pessoas,
acontecimentos ou idéias, não somos (apenas) automatismos, nem estamos isolados
num vazio social: partilhamos esse mundo com os outros, que nos servem de apoio,
às vezes de forma convergente, outras pelo conflito, para compreendê-lo,
administrá-lo ou enfrentá-lo. Eis por que as representações são sociais e tão
importantes na vida cotidiana. Elas nos guiam no modo de nomear e definir
conjuntamente os diferentes aspectos da realidade diária, no modo de interpretar
esses aspectos, tomar decisões e, eventualmente, posicionar-se frente a eles de
forma defensiva (JODELET, 2001, p.17).
Para a autora, “estas definições partilhadas pelos membros de um mesmo grupo
constroem uma visão consensual da realidade para esse grupo” (JODELET, 2001, p.21).
Ou ainda a afirmação de Laplantine (2003, p.77): “o conceito de representação
engloba toda a tradução e interpretação mental de uma realidade exterior percebida”. Aqui se
evidencia a função prática das representações: mediar o contato com o mundo envolvente, ou
seja, garantir a interpretação da realidade. Os riscos de não desempenhá-la suficientemente
são elevados: a não compreensão da realidade a partir de um dado esquema compartilhado, o
que se aproximaria da experiência da loucura, e a não inserção no grupo, o que corresponderia
à exclusão.
As representações sociais, portanto, apesar de circularem de forma coletivizada, têm
uma aplicabilidade imediata para o sujeito, em sua individualidade: garantir sua pertença a
uma cultura e a leitura da realidade a partir desse enfoque cultural.
Esse fenômeno está inserido no social e a ele remetido: para Jodelet (2001, p.21),as
representações sociais são fenômenos complexos sempre ativados e em ação na vida social”.
Não se nega seu caráter individual, mas sempre em associação com a cultura, que determina
os valores simbólicos coletivos às coisas e fatos percebidos.
22
Em semelhante posição, Baczko (1985) defende que os estudos sobre a imaginação
social não se propõem fixar uma faculdade ou poder psicológico autônomo, mas um aspecto
da vida social. O que equivale a dizer que, como a linguagem, o imaginário não é natural, mas
apreendido socialmente, ainda que utilize mecanismos psicológicos de bases mais orgânicas
(estímulos neuronais cerebrais, a mecânica muscular da fala, etc.). Ou ainda que, se os
dispositivos cerebrais podem ser semelhantes em todos os humanos, a manifestação do seu
uso está sujeita às culturas, que os estimulam, mas que, com sua diversidade, fazem-nos se
apresentar diferentemente em cada sociedade.
“Logo, o real é, ao mesmo tempo, concretude e representação”, afirma Pesavento
(1995, p.16), que completa postulando a constituição imaginária da sociedade que expressa
simbolicamente suas idéias sobre o real: o imaginário, enquanto sistema de idéias-imagens
de representações coletivas, é „o outro lado‟ do real” (p.19).
A propósito, Laplantine (2003) diferencia realidade, o que preexiste a ser
interpretado, e real, interpretação que os homens atribuem à realidade, e que constituiria a
finalidade cultural da representação. De acordo com o entendimento do autor, as
representações não correspondem à realidade, mas lhe dão significado.
Nesse mesmo sentido, Chartier (1990, p. 19) oferece a definição de Ernest Cassirer,
que propõe que a função simbólica, simbolização ou representação, é uma função mediadora
que informa as diferentes modalidades de apreensão do real, quer opere por signos
lingüísticos, por figuras mitológicas ou da religião, ou por conceitos do conhecimento
cientifico, ou seja, categorias e processos que constroem o mundo como representação”.
Constata-se, com estes autores, que a apreensão da realidade exterior para Jodelet,
(2001, p. 17) “realidades mentais , se é captada de modo semelhante em todos os seres
humanos (pois as propriedades sensoperceptivas orgânicas constituem uma capacidade
fisiológica da espécie), não seinterpretada de modo único por todas as culturas em todos os
seus momentos, bem como não terá sentido sem uma cultura que a sustente.
Então, dentre outros aspectos, o de tratar-se de forma de compreensão da realidade
é o que torna o fenômeno de representar universal, o que não equivale a dizer que se
representa universalmente de modo idêntico.
Não existe, entretanto, liberdade absoluta na composição do simbolismo de uma
sociedade: como ela o constitui a partir do que preexiste, é preciso que tenha alguma
verossimilhança com o mundo vivido para que seja aceita pela sociedade (JODELET, 2001).
23
É necessário que o real simbolizado esteja ligado à realidade, ainda que não seja sua cópia fiel
e integral, o que o poderia mesmo constituir, que é representação e não reprodução da
mesma.
A forma como se deve interpretar, simbolizar a realidade é aprendida pela educação
no processo que Berger e Luckmann (1985) chamam de socialização primária, e cujos
mecanismos, que seguem da família ao grupo social, podem ser melhor compreendidos a
partir da leitura de seu livro A construção social da realidade, uma vez que esse detalhamento
fugiria da finalidade do presente tópico.
Também Laplanche & Pontalis (1970, p.625) recordam As estruturas elementares do
parentesco, de Lévi-Strauss, em que se propõe que toda cultura pode ser considerada como
um conjunto de sistemas simbólicos, na primeira fila dos quais se situam a linguagem, as
regras matrimoniais, as relações econômicas, a arte, a ciência, a religião”. Daí que a
instituição família venha a ter papel fundamental nesse sistema, como será visto no arcaboo
teórico dessa pesquisa.
Tem-se, então, todo o arsenal simbólico de uma cultura, numa dada época, para que
o sujeito compreenda o meio em que se encontra e nele se expresse, garantindo, desse modo,
sua inserção e integração no grupo. Essa “linguagem e não se trata apenas do idioma, mas
de toda expressão cultural que, em A interpretação das culturas de Geertz (1989) aprende-se
a ler como um texto a ser decifrado preexiste ao sujeito na sociedade, e é oferecida e
apreendida por cada um ao longo de seu processo de formação, via de regra sem um
ensinamento explícito.
A cultura estimula e oferece um repertório variável para as manifestações de nossos
processos internos, mas esses dispositivos, se não são ilimitados numa sociedade, também não
são os mesmos em todas as culturas variam, aliás, como as línguas.
Ainda segundo Chartier (1990, p.17) “são estes esquemas intelectuais incorporados
que criam as figuras graças às quais o presente pode adquirir sentido, o outro tornar-se
inteligível e o espaço ser decifrado”.
Esse autor busca no conceito de utensilagem mental de Febvre argumento para essa
proposição: seriam, em cada cultura e em cada época de uma mesma civilização o estado de
língua (léxico e sintaxe) os utensílios e a linguagem científica dispoveis, e também o que
chama de “suporte sensível do pensamento”, o sistema de percepções (CHARTIER, 1990,
p.37).
24
Assim, “numa dada época, o cruzamento desses vários suportes (lingüísticos,
conceptuais, afectivos) dirige as „maneiras de pensar e de sentir que delineiam configurações
intelectuais específicas” (CHARTIER, 1990, p.37).
Chartier (1990), mencionando A mentalidade primitiva, de Lévy-Bruhl, relembra que
as categorias de pensamento não são universais, pois dependem das técnicas e ciências que as
sustentam e que não se encontram em progresso continuo e linear. Seriam idéias e modos de
sentir compartilhados de certas populações, forças agrupadoras, ou, nas suas palavras:
As idéias, apreendidas por meio da circulação das palavras que as designam,
situadas nos seus enraizamentos sociais, pensadas na sua carga afectiva e
emocional, tanto quanto seu conteúdo intelectual, tornam-se assim, tal como os
mitos ou complexos de valores, uma dessas „forças coletivas pelas quais os homens
vivem o seu tempo e, portanto, uma das componentes da „psique coletiva‟ de uma
civilização (CHARTIER, 1990, p.43).
Na mesma linha de raciocínio, Chartier (1990, p.38-9) acrescenta a definição de
Panofsky de hábito mental: conjunto de esquemas inconscientes, de princípios interiorizados
que dão sua unidade à maneira de pensar de uma época, ou seja, forças criadoras de
hábitos”.
Trata-se, portanto, do repertório cultural que num dado momento permite ao sujeito
de um dado grupo compreender sua realidade e com ela interagir psiquicamente mediante
pensamentos (que reproduzem internamente, através de imagens ou símbolos, o que é
percebido, ou seja, representam), afetos (a sensão de que algo é positivo ou negativo, num
encontro entre possibilidades culturais e preferências individuais, desencadeadas por
vivências ou desejos) e expressão (em que se transmitem ao exterior, mediante palavras ou
comunicação gestual, seus sentimentos ou pensamentos, que remontam às representações).
Devido a esse valor particular das palavras ou expressões como via para a
compreensão de quais seriam as representações sociais de um dado grupo cultural sobre
determinado tema, nessa pesquisa procurou-se identificar as expressões que médicos
registravam sobre as queixas de pacientes e familiares, como se verá na metodologia.
Propondo uma articulação entre esse grupo de pensamentos compartilhados e o
social, Chartier (1990, p.47) menciona ainda o conceito de visão de mundo, termo originado
em Lukàcs e que seria definido como “conjunto de aspirações, de sentimentos e de idéias que
25
reúne os membros de um mesmo grupo (de uma classe social, na maioria das vezes) e os opõe
aos outros grupos”.
Já se disse que as representações são abordadas concomitantemente como produto e
processo de uma atividade de apropriação da realidade exterior ao pensamento e de
elaboração psicológica e social dessa realidade” (JODELET, 2001, p.22).
Assim, do mesmo modo como se pode perceber num estudo sobre um aspecto de
uma cultura os componentes parciais de sua visão de mundo sobre determinados valores,
podem-se notar esses mesmos valores em operação em outros objetos ou fenômenos sociais,
de modo mais ou menos semelhante. É dessa forma que, reportando Mauss, Baczko (1985)
propõe que:
Na maioria das representações coletivas, não se trata da representação única de uma
coisa única, mas sim de uma representação escolhida mais ou menos
arbitrariamente a fim de significar outras e de exercer um comando sobre as
práticas. Freqüentemente, os comportamentos sociais não se dirigem tanto às coisas
em si, mas aos símbolos dessas coisas. As representações coletivas exprimem
sempre, num grau qualquer, um estado do grupo social, traduzem a sua estrutura
actual e a maneira como ele reage frente a tal ou tal acontecimento, a tal ou tal
perigo externo ou violência interna. Existe uma relação íntima e fatal entre o
comportamento e a representação coletiva (BACZKO, 1985, p.306).
Em adição, Jodelet (2001, p.34) afirma que partilhar uma idéia ou uma linguagem é
também afirmar um nculo social e uma identidade”, e ainda que:
Reconhece-se que as representações sociais, enquanto sistemas de interpretação que
regem nossa relação com o mundo e com os outros orientam e organizam as
condutas e comunicações sociais. Da mesma forma, elas intervêm em processos
variados, tais como a difusão e a assimilação dos conhecimentos, o
desenvolvimento individual e coletivo, a definição das identidades pessoais e
sociais, expressão dos grupos e as transformações sociais (JODELET, 2001, p.22).
Há, portanto, outro aspecto prático no fato de que todas as sociedades produzem
suas representões coletivas: ao estabelecer divisões e definir modelos de expressão e
condutas para seus membros, elas se prestam a atribuir-lhes uma identidade
(PESAVENTO, 1995).
Essa função leva Baczko (1985, p.309) a dizer que “o imaginário social é [...] uma
das forças reguladoras da vida coletiva”. Essa operação social, sistemática e inconsciente
funciona ao distribuir forças e nortear relações, de modo que, para Jodelet (2001, p.28), a
representação serve para agir sobre o mundo e o outro, o que desemboca em suas fuões e
26
eficácia sociais. As constituições dos grupos, inclusiva das individualidades que os
comem e da demarcação da alteridade a que se relacionam, devem-se grandemente a essa
função das representações.
Em decorrência, Pesavento (1998, p.56-7) afirma que o imaginário popular revela
o uma tradicional estrutura de dominação, expressa mediante recursos imagéticos e
discursivos, mas também algo mais fundo no processo de construção das identidades e
alteridades”. As palavras e expressões utilizadas pelas pessoas de cada grupo, para abordarem
uma parcela dos fenômenos dados ao seu entendimento mediante representação, serão parte
de sua cultura e, portanto, visceralmente ligadas a esse próprio esquema de entendimento o
que também levou à eleição da análise de conteúdo como um aporte metodológico dessa
pesquisa.
Uma cultura, em seu dinamismo, não é clara em todos os seus aspectos, mesmo para
quem nela se encontra inserido, quanto mais para quem pretende estudá-la. Geertz (1989, p.7)
entende a cultura como um texto a ser decifrado, e, desse modo, “fazer etnografia é como
tentar ler (no sentido de „construir uma leitura de‟) um manuscrito estranho, desbotado, cheio
de elipses, incoerências, emendas suspeitas e comentários tendenciosos”.
Laplantine (2001, p.242) também menciona esse caráter inconsciente e oculto das
representações: de fato, é próprio a uma representação nunca pensar-se como tal e
especialmente ocultar as distorções e deformações que indiscutivelmente carreia”.
De acordo com a proposição de Laplantine (2003, p.22), de que ”encontramos no
simlico um sistema de valores subjacentes, históricos ou ideais referidos aos objetos ou
instituições consideradas”, então se pode partir do estudo das representações sociais para
compreender certos grupos ou culturas, já que elas operam como constituintes parciais das
visões de mundo dessas coletividades.
Em resumo, tentou-se mostrar, através de uma revisão teórica de áreas afins das
Ciências Humanas, que 1) as representações são processos mentais de apreensão do mundo
mediadas pela cultura e a ela dirigidas, num processo continuo de mútua reciprocidade, e que
2) a fuão de tais operações vai além de a) sustentar a forma do pensamento, mas, b) ao
garantir uma leitura compartilhada da realidade, também permite c) um pertencimento à
coletividade daqueles que manifestam essa mesma visão de mundo, e d) sua diferencião de
outros grupos, demarcando individualidade, identidade e alteridade.
A posição desses teóricos pode ser resumida da seguinte forma: o imaginário popular
o é científico, como quase sempre a ciência não chega a ser popularizada, mas ambas são
27
representações do mundo, que operam por ferramentas externas diferentes, mas internamente
(mentalmente) constituem representações da realidade. Ambas são formas de saber que se
destinam a operar o mundo, mas encontram seu uso em grupos diferentes. Sobretudo,
agregam significados diferentes no modo como a realidade se configura a partir de seus
respectivos pressupostos.
Por isso, nessa pesquisa, tanto a compreensão popular da saúde e doença mental
quanto o entendimento médico considerado para a elaboração do diagnóstico e consecutivo
tratamento e avaliação da melhora foram tomados como representações de grupos distintos.
O esforço aqui é manter sob vigilância a tenncia da hierarquização ou qualquer valorização
etnocêntrica da compreensão psiquiátrica como sendo a verdadeira ou a principal.
Percebe-se, então, que o estudo das representações sociais é uma das formas de
compreender como se afirma uma cultura para seus integrantes e para outras coletividades, ou
ainda de um grupo a respeito de um dado objeto, sua visão de mundo, imaginário e redes
simlicas, e pode ser uma forma valiosa de compreender sua identidade a partir da forma de
apreensão da realidade por seus membros, bem como a alteridade a partir da forma como se
posiciona em relação a outros grupos.
Por isso, as representações sociais sobre a saúde e a doença mental falam mais que
apenas sobre esses tópicos, falam de alguns dos valores constitutivos da cultura rural e sua
relação com o saber erudito.
O fato de as representações sociais terem sido tratadas, neste texto, a partir de autores
de ciências diferentes com referenciais variados e ainda de forma muito resumida, não
invalida a perspectiva de sua contribuição para a pretensa tarefa de concatenar como se
elaboram, como operam e qual a função que desempenham. Na seqüência desse mapa
conceitual, são feitas novas imersões teóricas no sentido de complementar a fundamentação
desta pesquisa.
2. 1. 4 - Operacionalizando conceitos
Como esta pesquisa tenciona compreender fenômenos relacionados ao conceito
fundamental nas ciências sociais, qual seja, representações sociais, o alicerce teórico que
permitirá a sua sustentação deverá contemplá-lo. Dessa forma, serão utilizadas obras de
autores que se debruçam diretamente sobre o tema, mas também outros que indiretamente o
tangenciam ou acrescentam ferramentas teóricas auxiliares.
28
Primeiramente, o marco referencial é a definição de representação social como
componente comum ao grupo para a interpretação de sua realidade, ou seja “(...) uma forma
de conhecimento, socialmente elaborada e partilhada, com um objetivo prático, e que
contribui para a construção de uma realidade comum a um conjunto social(JODELET, 2001,
p. 22). Essa conceituação alia as vantagens de ser clara e de delimitar os fatores envolvidos na
elaboração das representações, quais sejam: 1) ser um saber, uma forma de conhecimento, 2)
ser construída e distribuída a partir do social, e 3) ter uma finalidade: permitir uma abordagem
da realidade, uma interpretação da mesma por um dado grupo e a inserção nesse dos sujeitos
que as compartilham.
Essa definição alinha-se ao conceito de cultura, necessário para o entendimento das
peculiaridades da cultura rural, proposto por Geertz (1989, p.10) como “sistemas entrelaçados
de signos interpretáveis”. Posto que “as formas da sociedade são a substância da cultura”
(GEERTZ, 1989, p.20), faz-se necessário entender a cultura rural para dela depreender este
aspecto da vida social” (CANDIDO, 2001, p.25) que é a relação com a saúde e a doença,
pois assim se procurou interpretar, no presente estudo, as práticas conduzidas no campo da
saúde mental.
A razão da abordagem dessa constituição cultural, concomitante ao estudo das
representações sociais de saúde e doença, justifica-se pelo fato das patologias que acometem
os indivíduos enquanto unidade poderem ser sempre definidas em termos sociais: “a
experiência da doença tem, certamente, uma nota de universalidade, mas ela também é
modelada pelo contexto cultural e social no qual ela ocorre” (ADAM & HERZLICH, 2001,
p.8). Articuladas como estão aos sustentáculos sociais de nossa existência ambiente,
relações familiares e de trabalho, etc constituem-se em “estados sociais (ADAM &
HERZLICH, 2001, p.12), isto é, vivências cotidianas passíveis, desse modo, de serem
condutoras de práticas e valores socialmente compartilhados. Portanto, enquanto
representações sociais, os cuidados com a saúde e as teorias populares sobre as doenças
integram-se na forma de compreensão e enfrentamento de fenômenos que envolvem a vida
coletiva e, por isso, sua interpretação é compartilhada sócio-culturalmente (CAROSO et al,
2004).
Também Laplantine (2001) ressalta essa característica na definição que segue:
(...) proporemos a seguinte definão de representação: é o encontro de uma
experncia individual e de modelos sociais num modo de apreensão particular do
real: o da imagem-crença, que, contrariamente ao conceito e à teoria que é sua
racionalização secundária, sempre tem uma tonalidade afetiva e uma carga
irracional. Trata-se de um saber que os indivíduos de uma dada sociedade ou de um
29
grupo social elaboram acerca de um segmento de sua existência. É uma
interpretação que se organiza em relação estreita com o social e que se torna, para
aqueles que a ela aderem, a própria realidade. De fato, é próprio a uma
representação nunca pensar-se como tal e especialmente ocultar as distorções e as
deformações que indiscutivelmente carreia, em particular a relação da doença e do
social, da doença e do psicológico, do psicológico e do social (LAPLANTINE,
2001, p. 242; grifos meus).
Tanto estar saudável quanto adoecer comportam, dessa forma, significações sociais,
e a compreensão dessas remete à própria constituição do grupo social:
Estar doente, estar bem de saúde são noções que transbordam de significações
(econômicas, políticas, morais, religiosas, existenciais), mas toda sociedade opta
por uma certa idéia da normalidade que é necessariamente acompanhada por uma
capacidade normativa e, para alguns, por uma normalização dos comportamentos
(LAPLANTINE, 2004, p. 102).
O estudo das representações sociais também gera oportunidades de se compreender o
contato dos saberes local e erudito. Cândido (2001, p.228) recorda o que ocorreu e ocorre no
domínio misto da terapêutica, onde se nota invasão progressiva do comportamento racional,
sem contudo desaparecerem as suas bases gico-religiosas”. Minayo (1998, p.32) realça
as resistências das populações locais em adotarem normas de conduta não condizentes com
sua cosmologia”.
Em adição, o julgamento que o grupo faz do doente inclusive para acionar
possíveis tratamentos interfere em seu lugar social, assim como os saberes oficiais ou
populares que se apropriam dos cuidados aos doentes ou ao restabelecimento do equilíbrio
da saúde local interferem na sociedade (ADAM & HERZLICH, 2001).
Os valores sociais do meio rural, seu ethos, bem como seu modo de compreender e
conceituar aspectos da realidade, expressos em sua visão de mundo (GEERTZ, 1989) tiveram
de ser considerados para o entendimento de suas posturas diante do adoecimento mental,
como será proposto a seguir. Se a saúde e a doença são condições relativas de adaptação à
normatividade do meio (CANGUILHEM, 2006), são os valores que definem a norma social
o “normal” e seus desvios a “loucura” (VELHO, 1977) aqueles que demarcam onde
comam e terminam a saúde e a doença, antes mesmo do diagnóstico médico oficial
(GOFFMAN, 1978).
Assim que, num meio em que a economia é indissociável da unidade familiar
(FERREIRA, 2006) e a saúde é sobrevalorizada como capacidade para o trabalho (SANTOS,
1992), são bem conhecidas as condições mórbidas associadas popularmente à atividade de
labor (BOLTANSKI, 2004), o que implica em representações concernentes ao excesso,
30
desgaste ao sol ou frio, prazer ou desprazer relacionados ao trabalho. Chega-se, assim, no
campo das representações sobre saúde e doença mental, no encontro entre o social e o
psicológico.
2.2- Identidade e loucura
2.2.1- O psicológico e o social
A discussão sobre identidade pode assumir muitas perspectivas. Neste estudo, ela
vem no sentido de subsidiar o entendimento de como a identidade do portador de doença
mental pode sofrer alterações a partir da percepção, pelo grupo de que faz parte, daquilo que
marca seu adoecimento”.
A identidade é um atributo psíquico dirigido ao social. Velho (1977, p.27) chega a
afirmar haver uma “descontinuidade arbitrária entre o „psicológico‟e o „social‟”, e que toda
psicologia é social”.
O mesmo ponto de vista é defendido por Lévi-Strauss (2003), que propõe haver uma
correlação frontal, de causa e efeito, entre o psiquismo e a cultura, uma vez que “a formulação
psicológica não é senão uma tradução, no plano do psiquismo individual, de uma estrutura
propriamente sociológica” (LÉVI-STRAUSS, 2003, p.16-7). Daí que sua constituição ou
alteração perpassará a cultura, pois:
...as condutas individuais normais jamais são simbólicas por elas mesmas: elas são
os elementos a partir dos quais um sistema simbólico, que pode ser coletivo, se
constrói. São apenas as condutas anormais que, por serem dessocializadas e de
certo modo abandonadas a si mesmas, realizam, no plano individual, a ilusão de um
simbolismo autônomo. Dito de outro modo, as condutas individuais anormais, num
grupo social dado, atingem o simbolismo, mas num vel inferior e, se podemos
dizer, numa ordem de grandeza diferente e realmente incomensurável àquela na
qual se exprime o grupo. Portanto, é ao mesmo tempo natural e fatal que,
simbólicas, de um lado, e traduzindo, de outro (por definição), um sistema diferente
daquele do grupo, as condutas psicopatológicas individuais ofereçam a cada
sociedade uma espécie de equivalente, duplamente diminuído (porque individual e
porque patológico), de simbolismos diferentes do seu próprio, embora vagamente
evocadores de formas normais e realizadas em escala coletiva (Lévi-Strauss, 2003,
p.17, grifos do autor).
-se que a conduta considerada anormal é definida pelo social quando vai contra
uma espécie de simbolismo compartilhável, uma vez que os fenômenos patológicos mentais
têm um simbolismo próprio que, diferentemente de outras condutas vistas como
transgressoras, faz com que a interpretação popular dos mesmos seja quase sempre
31
apresentada como uma compreensão comum: loucura. Sendo esta considerada conduta
negativa, socialmente inicia-se um processo diferente de relação com o louco, a
estigmatização. Na medida em que se prolonga ou agrava, acaba por afastar o sujeito de seus
contatos ou tornar difícil a relação. Se condutas sociais esperadas e assuntos apropriados
passam a não serem mais sustentados, o resultado final é um crescente alijamento social.
Recorde-se, com Goffman (2008), que:
a situação especial do estigmatizado é que a sociedade lhe diz que ele é um membro
do grupo mais amplo, o que significa que é um ser humano normal, mas também
que ele é, até certo ponto, „diferente‟, e que seria absurdo negar essa diferença
(GOFFMAN, 2008, p.134).
O autor acredita que:
Assim, mesmo que se diga ao individuo estigmatizado que ele é um ser humano
como outro qualquer, diz-se a ele que o seria sensato tentar encobrir ou
abandonar „seu grupo‟. Em resumo, diz-se-lhe que ele é igual a qualquer outra
pessoa e que ele não o é [...]. Essa contradição e essa pilhéria constituem sua sorte e
seu destino (GOFFMAN, 2008, p.135).
Goffman (2007, p.127) ainda se pergunta “até que ponto é limitada a concepção de si
mesma que uma pessoa pode conservar quando o ambiente usual de apoios é subitamente
retirado”, na medida em que “o eu pode ser visto como algo que se insere nas disposições que
um sistema social estabelece para seus participantes”(GOFFMAN, 2008, p.142).
Desse modo, aquilo que o autor chama de “o feedeback saudável do intercâmbio
social quotidiano(GOFFMAN, 2008, p.22) é que sustenta parte da sanidade, na medida em
que, ficando enfraquecido nas relações entre doente e seu grupo, deixa-o possivelmente
isolado, desconfiado, hostil, deprimido, ansioso e confuso (IDEM). Muito do que os não-
dicos entendem como manifestação da loucura não é, portanto, mais que efeito da ausência
ou esgarçamento das relações sociais, pois, possivelmente, a estigmatização nesses casos tem
menos a ver com qual conduta anormal é percebida e mais com essa percepção de uma
conduta que não se coaduna com os fios simbólicos que se interligam numa cultura.
Ocorre então que, na doença mental, o grupo entendido aqui “no sentido amplo de
pessoas situadas numa posição semelhante” (GOFFMAN, 2008, p.123) passa a ver o doente
mental numa condição diferente, inferior, pois não tem os atributos e não consegue se
desempenhar dentro do que esta coletividade entende como normalidade. O que fica numa
condição de fragilidade, a partir dessas relações, é então a identidade do portador de doença
mental que, num círculo muitas vezes contínuo e sem começo claramente definido, age de
32
forma inadequada porque é tratado de modo diferente, modo esse que supostamente
justificaria a forma como é diferentemente tratado. A manutenção dessa modalidade de
relação entre grupo e paciente pode incidir sobre a identidade do sujeito, dificultando a
retomada do convívio social mais vasto, uma vez que a natureza de uma pessoa [...] é gerada
pela natureza de suas filiações grupais” (GOFFMAN, 2008, p.124). Fica evidente que a
relação entre identidade e coletividade é de extrema proximidade, sobretudo porque
atravessada pelos valores culturais do grupo.
Entretanto, é importante salientar que, apesar de comumente se associar a cultura a
processos inconscientes e a identidade a vinculações conscientes (CUCHE, 2002), o que não é
um erro, defende-se aqui que ambas possuem aspectos conscientes e inconscientes: a
interação entre ambas é que interessa.
Lévi-Strauss (2003, p.17-8) afiança que “cada sociedade possui suas formas
preferidas de distúrbios mentais, e que estes, tanto como as formas normais, são função de
uma ordem coletiva que a própria exceção não deixa indiferente”. O mesmo autor adverte que
a sanidade do espírito individual implica participação na vida social, assim como a recusa a
prestar-se a ela (mas ainda segundo modalidades que ela impõe) corresponde ao aparecimento
dos distúrbios mentais” (LÉVI-STRAUSS, 2003, p.20, grifos meus).
Outros autores (BARROS, 2004; JODELET, 2005) ressaltam o quanto o processo de
tratamento aceito por uma cultura, mais que erradicar os sintomas e curar o doente, garante-
lhe uma nima permanência numa rede social. Por isso, sendo uma das funções do
tratamento tentar restituir parcialmente o estado anterior ao acometimento considerado
patológico, no caso da saúde mental deve-se visar também à reinserção social.
Diante disso, assume importância o conceito de estigma, definido por Goffman
(2008, p. 7) como a situação do indivíduo que esinabilitado para a aceitação social plena”.
Pode-se dizer que a estigmatização ocasionada pela doença mental em muitos casos
desqualifica aspectos importantes e repercute na identidade do sujeito portador, uma vez que
o valor atribuído, numa cultura, a cada sujeito dependerá de sua posição no quadro social, o
que Figueiredo (1995, p.27) descreve como identidades posicionais. Por isso, o
entendimento dessa atribuão de valor deverá conter uma descrição do modo como, no
Brasil, se come a identidade rural, aqui tomada como um dos eixos constitutivos da
coletividade estudada. Uma pequena revisão de alguns dos componentes sociais e psíquicos
do que aqui se denomina identidade rural exigiu o auxílio de textos sobre ruralidade da lavra
de autores consagrados de diversas áreas, tanto clássicos quanto contemporâneos, com os
quais se iniciará essa discussão.
33
Mas, antes, fez-se necessária outra pequena revisão sobre saúde coletiva por usa
relevância na compreensão desse universo cultural rural.
2.2.2- Ruralidade e Saúde Coletiva
Inicialmente, a demarcação da ruralidade, universo cultural desse estudo, pode ser
buscada em Cândido (2001, p.26), que oferece a um tempo definições para o rural e a
cultura rústica: enquanto o primeiro exprime, sobretudo, localização, a segunda relaciona-se
a “um tipo social e cultural, indicando o que é, no Brasil, o universo das culturas tradicionais
do homem do campo”.
Entretanto, a ruralidade não é um sistema cultural fechado e estanque, como adverte
o mesmo autor ao reforçar a constante incorporação e reinterpretação de traços que se alteram
ao longo do que nomeia de “contínuo rural-urbano” (NDIDO, 2001, p.26). Carvalho
(2005) reforça este ponto de vista, ao explicar que:
A racionalidade camponesa tem sofrido mudanças nas interações que estabelece
com as concepções de mundo, com a produção científica e tecnológica e com as
práticas culturais hegemônicas das sociedades capitalistas. As mudanças
provocadas por tais interações apresentam graus de intensidade distintos, sendo que
as inovações geradas pelos setores dominantes são adaptadas e reelaboradas pelos
próprios camponeses no sentido de se adequarem à sua racionalidade
(CARVALHO, 2005, p.171).
O interesse, portanto, em se estudar os componentes culturais do genérico meio
rural multiplica-se quando se compreende tratar-se de uma cultura que guarda caracteres
próprios, mas que está em reelaboração constante em razão da presença contraditória de
concepções de mundo vinculadas às desiguais condições sociais de interação.
Vários autores ressaltam que a ruralidade não se restringe ao agrícola (GRAZIANO
DA SILVA, 2001) e não é estanque, uma vez que se trata de um construto social
(FERREIRA, 1999) marcado pelo dinamismo (VEIGA 2006).
Além disso, Carneiro (1998) adverte que a identidade rural não é nem uniforme nem
imutável, mas forjada numa constante tensão mediante a relação de forças entre campo-
cidade. Isso permite pensar o processo de sedimentação cultural no momento mesmo em que
se , ou seja, um “estudo das mudanças dinâmicas na sociedade que podem ser observadas
no tempo presente”, como já alertava Boas (2006), ao postular que:
(...) cada grupo cultural tem sua história própria e única, parcialmente dependente
do desenvolvimento interno peculiar ao grupo social e parcialmente de influências
34
exteriores às quais ele tenha estado submetido. Tanto ocorrem processos de gradual
diferenciação quanto de nivelamento de diferenças entre os centros culturais
vizinhos (BOAS, 2006, p. 47).
Em princípio, acredita-se que, entre moradores das zonas rurais, o entendimento
tradicional de toda a dinâmica das doenças mentais ou seus sintomas deve divergir, em
variado grau, das concepções oficiais da medicina, levando a posturas e expectativas
diferentes quanto à cura e, eventualmente, à busca de tratamentos alternativos,
concomitantemente ou não. E, muitas vezes, não apenas como forma terapêutica, mas como
modelo explicativo para a causa, etiologia da doença.
Em decorrência, pode ocorrer o recurso preferencial ou, no mais das vezes, paralelo à
medicina popular (BOLTANSKI, 2004; SANTOS, 1992), composta por diversos tipos de
terapêuticas, como benzedores, curandeiros, especialistas em ervas e farmacêutico prático
(CANDIDO, 2001; SANTOS, 1992), cujas atividades podem se enquadrar no que Mauss
(2003, p.407) descreve como sendo a um tempo ato técnico, ato físico, ato mágico-
religioso”. Interferem aqui os saberes tradicionais desses grupos, “sistemas esquematizados e
organizados de pensamento e ação(GEERTZ, 1997, p.112), e as respostas que encontram
para suas questões de saúde: práticas rurais relacionadas ou não com religiosidade e próximas
ou distantes da medicina oficial.
Mas, também, acredita-se que a interação entre saber popular e erudito: a
coexistência, na ruralidade, da atuação das medicinas oficial e popular, como se dão seus
contatos, seus conflitos, sua complementaridade (OLIVEIRA, 1985), a influência que
exercem uma sobre a outra (BOLTANSKI, 2004; SANTOS, 1992), e ainda a visão dos
profissionais de saúde oficial sobre as concepções de saúde/doenças das populações rurais.
É nesse ponto exato que o sofrimento psíquico transcende o sujeito e alcança sua
cultura, encarnada nas suas relações sociais e redes de apoio. Por isso, ao repassar onde
comam os problemas mentais, em seu estado anterior, a saúde mental, tem-se como
referência a cultura, pois a própria Organização Mundial de Saúde (OMS) a define como um
Conceito que abarca, entre outros aspectos, o bem estar subjetivo, a percepção da
própria eficácia, a autonomia, a competência, a dependência inter-geracional e a
autorrealização das capacidades intelectuais e emocionais. À partir de uma
perspectiva transcultural, é quase impossível chegar a uma definição exaustiva de
saúde mental. Admite-se, entretanto, que o conceito de saúde mental é mais amplo
que a ausência de transtornos mentais (OMS, Informações para a Imprensa).
Como se vê, o conceito de saúde mental oficializado é amplo, pois abarca uma série
de fatores extra-psíquicos e, sobretudo, culturais. Ao se extrapolar a possibilidade da saúde
35
mental estar alocada apenas no psiquismo do sujeito doente, faz-se necessário remeter,
também, ao conceito de Saúde Coletiva. Esse termo tem sua origem e difusão a partir de
diversos movimentos de cunho político e acadêmico surgidos na década de 70, num contexto
de crítica aos movimentos de reforma em saúde europeus e americanos. Articula saberes de
áreas como a epidemiologia, o planejamento em saúde e as ciências sociais, num enfoque
inter e transdisciplinar e, como prática, enfatiza a promoção da saúde e melhoria da qualidade
de vida, contemplando as relações entre os sujeitos sociais.
Assim, tem-se que o termo Saúde Coletiva o coincide com o termo Saúde Pública
na medida em que o segundo remete à medicalização do espaço social perpetrada desde fins
do século XVIII pelos nascentes Estados europeus e levada a cabo na sociedade capitalista
contemporânea (ILLICH, 1975), ao passo que a primeira postula uma forma crítica de
aproximação multidisciplinar à saúde cristalizada, até então, como projeto dico-
naturalista destacando dimensões simbólicas, éticas e poticas que relativizam o discurso
biológico, sem, no entanto, ceder a perspectivas hierárquicas ou valorativas entre os diversos
discursos teóricos que a comem, de modo que a troca de significantes de público para
coletivo não é mero exercício de retórica (BIRMAN, 2005).
As interações entre os campos da Saúde Coletiva e Saúde Mental, enquanto,
respectivamente, políticas e práticas voltadas a um grupo social com características comuns,
quais sejam, a “loucura” e estigmatização social, tem revelado a necessidade de mais
pesquisas nessas áreas, como destacado por Onocko-Campos & Furtado (2006).
Devido a tais peculiaridades, numa aproximação do debate em torno da Saúde
Mental e da Saúde Coletiva, faz-se necessária uma abordagem histórica e sócio-antropológica,
além da médica. As relações do saber erudito e representações e práticas populares de saúde
criam objetos e problemas de pesquisa instigadores, como sugerem os estudos sobre Saúde
Coletiva. Tal conceito, é importante relembrar, não equivale restritamente ao atendimento
dico: o binômio doente-médico privilegia, no mais das vezes, aspectos biológicos na
etiologia da doença, ao passo que a saúde coletiva prioriza seus aspectos sociais (CAMPOS
ET AL, 1987).
Vinculado a esse conceito, pode-se tamm destacar a importância das redes sociais
de apoio: a solidariedade estabelecida entre moradores de comunidades, bairros ou mesmo
cidades. Essas redes de apoio vão desde os cuidados com a saúde até o fortalecimento da
cidadania, evidenciando a relevância das relações pessoais, pois “ainda que o conceito de rede
seja utilizado para fazer referência a distintas realidades, apresenta, no entanto, como iia
36
comum, a imagem de pontos conectados por fios, de modo a formar a imagem de uma teia”
(ANDRADE & VAITSMAN, 2002, p.927).
A partir dessa concepção, acredita-se que a eclosão de problemas mentais interfira
nas redes sociais bem como pode sofrer interferência das mesmas, uma vez que “ser doente
o é apenas uma condão biológica ou psicologicamente dada, mas um produto constituído
com base nas definições e reações dos outros” (SOUZA, 1999, p.121).
O estudo dessas redes, portanto, mais do que simplesmente a identificação dos
tratamentos médicos acionados, poderia dar conta do entendimento dos significados e
implicações dos processos de promoção da saúde, mas, sobretudo, da compreensão da
importância da participação da comunidade na abordagem da saúde e da doença mental em
seu meio.
2.2.3- A composição da identidade rural
Como mencionado anteriormente, falar do rural remete quase automaticamente,
como nos casos dos pares de oposições homologas, ao urbano, uma vez que se trata de locais
cuja definição espacial fica facilitada pela contraposição ao outro. Talvez por isso a
contraposição geográfica se estenda tão facilmente a todas as outras características.
E essa contraposição, no caso da ruralidade, é muito facilmente definida, pois o rural
o é rural em oposição ao silvícola, ou ao litorâneo: ele o é em relação ao espaço que ocupa
em contraposição ao urbano. Assim, identidade de grupo, como se explicará melhor adiante,
pode se destacar de outra mantida por um grupo oposto: é na articulação com a alteridade que
se demarca a identidade rural, logo, deve-se observar a relação campo-cidade para uma
primeira compreensão de como se opera sua construção.
Sabe-se que as cidades se desenvolveram em associão ao rural, tanto em sua
dependência como em seu controle (FAVARETO, 2007). Por outro lado, Buarque de Holanda
(2002, p.998, grifos do autor) adverte que os centros urbanos brasileiros nunca deixaram de
se ressentir fortemente da ditadura dos donios rurais”, o que remete à interdepenncia dos
dois locais.
Desnecessários são os exemplos para evidenciar o quanto os locais são plenos de
valor simbólico para as coletividades a eles relacionadas, daí porque são possíveis
demarcatórios de identidades (BOURDIEU, 1996). Ao longo do tempo, as representações
sociais sobre as cidades, em contraposição ao campo, passaram a significar liberdade
(FAVARETO, 2007, p.93), mesmo com a grande persistência do rural no urbano” (idem,
37
p.101). Entretanto, a mudança no tipo das trocas entre esses dois meios que não são apenas
físicas, mas simbólicas, possibilitadas ou favorecidas pelo tipo e velocidade da informação
opera por si uma alteração parcial nos modelos de construção da identidade. Se é norio
que as localidades são componentes dos traços identitários, e em se sabendo que ocorreram
transformações consistentes nas trocas entre as cidades e o campo, que guardam entre si
relação essencialmente de contigüidade (GRAZIANO DA SILVA, 2001), como não pensar
que a(s) identidade(s) rural(is) também não se transformaram? As imagens que chegam ao
meio rural, assim como o movimento de entes (sobretudo os mais jovens e, no caso específico
de Ervália, para Campinas, grande cidade da região norte do Estado de São Paulo), chancela
aos grupos rurais outros padrões de conduta para identificação. Outras identificações, outros
traços; outros traços, outras identidades.
Apesar de certa glamorização do campo e da vida na roça, em contraposição à
existência nas grandes cidades, como local de qualidade e sossego, e das pessoas do interior
como simples e honestas, coexiste, no imaginário popular, a impressão que associa o rural
brasileiro ao velho mito do jeca, que remete à idéia de atraso e violência (GRAZIANO DA
SILVA, 2001).
No entanto, a ruralidade, e as identidades a ela correlatas, não são um produto
acabado e definido simplesmente por uma antinomia rural/urbano. Ao recapitular, com base
em diversos autores, como se sedimentou a relação entre as cidades e o campo até os dias de
hoje, Favareto (2007) menciona a ocorrência do que seria a emergência de uma nova
ruralidade, concepção que se presta bem a mostrar como ruralidade não é um conceito
estático, mas que remete a fenômenos sociais complexos e não lineares, dinamicamente
condicionados às mudanças históricas, culturais e econômicas a que se relacionam (VEIGA,
2006). O rural não se define mais como espaço exclusivamente agrário, e o processo de
reestruturação a partir da incorporação de novos componentes econômicos, culturais e
sociais” (CARNEIRO, 1998, p.4) confere à identidade rural um dinamismo que não a
descaracteriza, mas que não corresponde ao paradigma que a associa ao tradicional, sinônimo
de ignorante e refratário à mudança. Ainda assim, e possivelmente por conta de sua história
pregressa, as representações sociais sobre o rural na América Latina associam-se a um viés
negativo: “patriarcal, escravista, ou como lugar por excelência da dominação tradicional, da
pobreza e da subordinão” (FAVARETO, 2007, p.102).
Defende-se, portanto, não só uma permanência do rural no urbano, mas uma contínua
relação entre urbano e rural, o que não equivale a alardear uma homogeinização progressiva
de ambas as identidades, mas apenas reafirmar o dinamismo originariamente dialógico com
38
que se operacionalizam os processos de identidade, tanto pessoais quanto grupais. Identidades
construídas, mais que herdadas, pois que não são inatas, mas adquiridas. A(s) identidade(s)
rural(is) não é(são) uma só e não é(são) estanque(s): compõe(m)-se de um conjunto de traços
estáveis, mas cambiáveis.
Mas qual a marca dessa nova ruralidade? Figueiredo (1995) entende que, no Brasil,
haveria uma persistência de traços arcaicos em tudo que se caracteriza como novo. Então, se o
Brasil se caracteriza por ser uma sociedade de história lenta, como classifica Martins (1994,
p.14), é provável que a nova ruralidade não se processe de forma tão homogênea como nos
países de capitalismo avançado, e que coexista, ao longo de um tempo indefinido, com suas
formas pretéritas (CARNEIRO, 1998): mesmo em se supondo que a nova ruralidade é o
caminho unívoco do rural no Ps, nota-se que essa linearidade será lenta e curvilínea. Por
isso o uso anterior do s” entre parêntesis para fazer menção a essa coexistência de momentos
e modos diferentes na identidade rural, que, não sendo única, só pode ser plural.
Como a ruralidade significa também diferentes modos de representação social
(CARNEIRO, 1998), pode-se pensar, então, nos fatores constitutivos da identidade rural, ou
ainda, quais os traços incorporados e manifestos como relacionados ao rural. Há um tipo rural
que representa todas essas formas? Certamente que não.
Sabe-se que as tipologias são importantes não por expressar um escime social real,
mas como “medida aproximativa, a partir da qual pode-se avaliar o quão próximo ou distante
determinada situação está do tipo ideal e, em seguida, interrogar as razões para tanto
(FAVARETO, 2007, p.89, nota de rodapé). Assim, um tipo rural serve apenas de
referencial para o estudo das identidades rurais, concebendo-se a própria identidade rural
como um amálgama de posições e disposições remetido a um contexto social em mutação,
que por sua vez repercute no dinamismo constitutivo dessa identidade, compondo uma
história tributária do passado, de seus fatos políticos, econômicos e sócio-psíquicos.
2.2.4 - Identidade, identificação e tipo rural
Ainda que a coexistência de propriedades contraditórias seja constante motivo de
desconforto, é mister reconhecer a riqueza dessa peculiaridade no que concerne aos estudos
de identidade: caso se tratasse de algo estanque e engessado, não ocorreriam muitas das
mudanças percebidas e desejadas por estudiosos e movimentos sociais, contudo, se o conceito
fosse totalmente instável, seria impossível apreendê-lo para fins de estudo ou definição de
políticas. Assim, a identidade pressupõe os atributos da personalidade de cada sujeito em
39
particular, mas também, na mesma condição está o grupo de que faz parte, de modo que todo
sujeito desse grupo apresentará muitos não necessariamente todos os seus traços de forma
estável o bastante para remeter a seu tipo cultural específico. Normalmente, são geralmente
esses traços os que recebem uma carga de exagero em piadas e outras situações sociais
depreciativas de grupos (como o “mineirimdas anedotas), que podem ser apreendidos pelos
neófitos ou dissimulados por dissidentes, não sem certo esforço, e com grande possibilidade
de fracasso, em ambos os casos (como nas “imitões da identidade ou nas tentativas de
esconder origens).
A identidade é manifesta e apreendida por um conjunto de caracteres. Cada traço
pode ter uma história, quiçá um valor, mas nenhum deles está em posição de ascendência
sobre os demais: não é um ou outro que configura a identidade de grupo, mas seu conjunto.
Exceção feita, talvez, a caracteres físicos muito evidentes, como, por exemplo, o grande nariz
de Cyrano de Bergerac, mas, em tais casos, o se trata de identidade de grupo, mas daquilo
que identifica particularmente um indivíduo, destacando-o mesmo do grupo. Tais atributos
podem, assim, ser desde caracteres sicos e, mais comumente, biográficos, como o local ou
classe de nascimento até a escolha vocacional, até valores e traços psíquicos compartilhados.
Por isso, cada identidade pessoal (GOFFMAN, 2008) terá características comuns aos outros
membros do grupo de que faz parte seu portador. Quando esse equilíbrio entre identidade
de grupo e identidade pessoal é que se delimitam peculiaridades numa coletividade. Dessa
forma, um chapéu de palha na cabeça ou montar num animal não são senão atributos
indumentários, cuja presença não garante e cuja ausência não exclui a identidade rural. Do
mesmo modo como piercings no supercílio e tatuagens, já mais comumente vistos entre os
jovens de zonas rurais que transitam pela cidade com s descalços sobre suas motos, não
lhes retiram sua identidade com o campo. Tais caracteres demarcam a borda da identidade
pessoal sem descaracterizar a identidade de grupo, e, em alguns casos, talvez, podem até
afetar a identidade social de seus portadores.
É preciso esclarecer que a identidade pessoal aproxima-se, em termos teóricos, da
abordagem desenvolvida por Goffman (2008), mas a identidade de grupo não equivale à sua
identidade social: enquanto esta remete à forma como os demais tomam a posição de um
sujeito em sociedade (sua “identidade social”, que pode ficar afetada pelo uso de adereços
diferentes), a identidade de grupo refere-se às características que um sujeito deve ostentar
para ser tido e se apresentar como integrante de um grupo (e que pode não ser drasticamente
comprometida pelo uso dos mesmos). A identidade de grupo não equivale à identidade
pessoal, mas se coliga a ela, assim como a identidade social. Se a identidade de grupo permeia
40
o grupo ou, drasticamente, um grupo oposto contra que esse se destaca, numa relação de
alteridade a identidade pessoal perpassa o sujeito. A identidade pessoal forma-se na
identidade de grupo que, por sua vez, forma-se das identidades pessoais. Cada sujeito pode se
aproximar, portanto, dos traços e condutas supostamente típicas de um grupo num dado
momento e numa determinada situação, mas responder de forma menos típica se forças
externas ou internas (desejos, crises, conflitos) assim direcionarem suas ações. O tipo
expressaria, então, uma probabilidade, não um determinismo.
Se a identidade é composta por um conjunto de traços mais ou menos estáveis e
carregados de valor cultural, uma mudança numérica e qualitativamente significativa das
ações dos componentes de um grupo pode alterar a conduta típica prevista para o mesmo, na
medida em que altera ou acrescenta outros traços e atributos identificadores (como, por
exemplo, se uma grande maioria trocasse o uso do chapéu de palha pelo piercing”). Assim,
cada novo membro, ao se identificar com os traços manifestos pelo grupo, incorpora-os e os
reproduz, guardando suas características, apesar da variância pessoal, mantendo dessa
maneira sua coletividade (ROUDINESCO, 1998). Devido à propensão da identidade de se
constituir por identificação (incorporação inconsciente e valorativa de caracteres ideais) e
como a coletividade (identidade de grupo) se compõe de sujeitos (identidades pessoais), dá-se
uma mudança que pode ter chances de se perpetuar até outra eventual alteração. Por outro
lado, quando mudanças facultam a possibilidade de identificação com outros atributos, a
identidade pessoal pode passar a se compor com modelos de outros tipos (como no caso dos
jovens com “piercings”). Isso é que permite, numa situação mais extremada, uma mudança
o da identidade de grupo, mas de grupo. E, antecipe-se, na cultura ocidental
contemporânea, a família ainda é o local inicial desse processo, que se estende,
posteriormente, para outros grupos (novamente, seguindo o exemplo proposto, do chapéu de
palha do avô aopiercing” do ator de telenovela).
É essa característica da identidade de grupo, de ser a um tempo estável, mas
mutável, pois permvel a relações e identificações novas, que permite não apenas sua
alteração, num processo acomodativo, ao longo de transformações rápidas (quando todos os
sujeitos que a ostentam passam, em alguma medida, pela mudança) ou lentas (quando serão
percebidas de forma muito diferente pelas gerões, nas quais também repercutirão de forma
desigual, marcadamente mais forte nos jovens (DURKHEIM, 1999). Isso oportuniza,
também, sua manipulação por motivos ideológicos, políticos e econômicos, em momentos
específicos da história dos grupos.
41
Pode-se tentar um arranjo textual como o seguinte: as identidades de grupo estão
para os grupos assim como os tipos estão para os sujeitos. Seus traços constituem menos
parâmetros (padrões, normas) que paradigmas (termos substituíveis numa estrutura).
No que se refere à ruralidade, sobressaem como traços mais evidentes o local de
origem, a atividade laborativa e o tipo (apenas mais ou menos apresentado como o caipira”).
Traços como esses poderiam até estarem sujeitos a uma rápida identificação, se muito
característicos, pois os indivíduos que os ostentam responderiam, supostamente, de modo
previsível a situações sociais condicionadas (parâmetros). Entretanto, os mesmo sujeitos
podem responder às mudanças do contexto social, como transformações, embates, impasses,
de forma alternativa (paradigmática) à preconizada pelo tipo, que significaria, assim, apenas
uma tendência de conduta, tanto mais forte quanto mais estáveis forem as situações, mas não
de maneira determinística.
Não é, portanto, a residência numa localidade rural, o uso de determinados adereços
ou adesão a certos costumes, nem o trabalho em atividade agrícola que definem ou tipificam a
identidade rural, embora essa possa se apresentar a partir dessas características. Pode-se
indagar quais valores direcionam essa identidade, mas o rural não se sustenta nem como
agrário (FAVARETO, 2007) nem como local (CARNEIRO, 1998). O que circunscreve a
identidade rural num contexto cultural (GEERTZ, 1989) seria o sentimento de pertença a um
grupo e a adesão tácita ao seu ethos e visão de mundo.
42
CAPÍTULO 3
PERCURSO METODOLÓGICO
3.1- Descrevendo e interpretando procedimentos
Esta pesquisa autorizada pelo Comitê de Ética da UFV, sob o registro Of. Ref.No.
124/2009, e pela Secretaria de Saúde do Município de Ervália (ANEXO A) configura-se
como um estudo de natureza exploratória e, para tanto, percorreu um caminho peculiar: como
as trilhas recém-abertas que têm de seguir os ditames do relevo, sua metodologia teve que se
ir adequando às configurações que se delinearam durante a coleta de dados. Essa conformação
reforça a posição de Bruyne & Schoutheete (1991, p.36), que propõem um modelo topológico
e não cronológico da pesquisa científica, descrita como “infinitamente variada no tempo e no
espaço”.
Como passo inicial, recorreu-se ao auxilio de moradores da localidade que, mesmo
o diretamente envolvidos com o NAPS, fossem conhecedores, por sua trajetória de vida e
atuação no Município, de histórias peculiares relativas ao contexto da loucura. Por isso
contou-se com uma historiadora e memorialista local, cujo depoimento oral colhido em
diálogo informal colaborou para a caracterização da história da loucura em Ervália.
Entende-se que essa ferramenta configura-se como o que se denomina “rede de
campo(SILVA, 2006, p.32), isto é, todo o conjunto de relações sociais estabelecidas entre
pesquisador e pessoas pesquisadas para execução do estudo. Reforça essa escolha
metodológica a percepção de que:
O que torna as entrevistas subjetivas e também objetivas e os dados coletados um
instrumento privilegiado para o pesquisador é a possibilidade de a fala ser
reveladora de condições estruturais, de sistemas de valores e símbolos e, ao mesmo
tempo, ter a magia de transmitir, por intermédio de um porta-voz, as representações
de grupos determinados, em condições históricas, socioeconômicas e culturais
específicas (PEREIRA, 2004, p.82).
Por se situar, segundo Jodelet (2001), na interface do psicológico e do social, a noção
de representação social engendra perspectivas diversificadas de estudos. As metodologias
utilizadas em sua pesquisa serão, logicamente, muito variadas: experimentação em laborario
e campo; entrevistas, questionários e associação de palavras; observão participante; análise
documental e de discurso (JODELET, 2001). Tratando-se de um sistema teórico complexo e
disciplinarmente transversal (IDEM), não se deve eleger uma metodologia como melhor que
as demais, mas escolher aquela que parece mais se adequar ao objeto e campo do estudo, além
43
das finalidades a que se propõe atingir. Pode-se afiançar, com alguma segurança, que a
condução dos estudos sobre representações sociais, questão da qual se parte nesta pesquisa,
reproduz, nas metodologias utilizadas, a abrangência dos campos em que elas se manifestam.
Aliás, Cândido (2001) também afirma que para os estudos sobre o meio rural podem
concorrer diversos saberes, em particular o sociológico e o antropológico, cujo compromisso
permite melhor entendimento de suas nuances. Ficaram, assim, dispostas como ferramentas
dessa pesquisa aquelas consentâneas a essas disciplinas: a pesquisa de campo, a observação
participante, coleta de depoimentos, uso de anotações caderno de campo , sempre
temperadas pela experiência de textos que sobre elas forneçam esclarecimentos e críticas,
como os de Cardoso (1986) e Da Matta (1978).
Na sequência metodológica desta pesquisa, visando alcançar o conjunto de
representações sociais sobre saúde e doença mental, seu pólo técnico (BRUYNE &
CHOUTHEETE, 1991) foi pensado considerando-se, inicialmente, a observação participante
no NAPS-Ervália, seguida da feitura de entrevistas com familiares de usuários e grupos focais
(ONOCKO-CAMPOS & FURTADO, 2006) com os profissionais. Esse planejamento
inaugural esbarrou, porém, em alguns empecilhos ao longo do processo, quais sejam: por se
tratar de poucos profissionais atuantes no NAPS, o grupo focal poderia impedir a livre
exposição de impressões sobre esse serviço, uma vez que todos teriam acesso às opiniões dos
colegas (fato não minorado com entrevistas isoladas, dado o número diminuto de servidores,
apenas quatro), causando exposição e constrangimento de modo que essa ferramenta foi
deixada de lado. Algumas impressões negativas coletadas foram oferecidas em depoimentos
livres por parte de mais de um profissional, sempre contando com o sigilo que, numa
entrevista ou grupo focal, não poderia ser garantido. Mas, além desse fato, outro se impôs
como motivador de mudanças do lo técnico: a presença do pesquisador nas instalações do
NAPS começou a despertar, em alguns pacientes, a expectativa de que haveria novamente um
psiquiatra no serviço sobretudo um que já fizera parte do quadro de atendimento, que vem
sendo conduzido, como se esclarecerá adiante, por um clínico geral razão pela qual foram
tomadas duas medidas com finalidade ética de respeito aos sentimentos dos usuários: a coleta
de dados de prontuários passou a ser feita, então, fora do horário que coincidisse com o de
atendimento aos pacientes no NAPS, e as entrevistas com familiares foram suspensas. Se, por
um lado, a condição de médico psiquiatra ajudou no acesso no acervo documental e no
diálogo com os funcionários, por outro, exigiu esses redirecionamentos.
Os eventuais prejuízos que esse reposicionamento metodológico possa ter imprimido
à pesquisa não podem obscurecer um compromisso ético com as pessoas envolvidas no objeto
44
de estudo (LANG, 1996), sobretudo numa instituição pública de prestação de atendimento à
saúde mental. Assim, como a análise documental dos prontuários configurava entre as
estratégias de pesquisa, procurou-se, como próximo passo metodológico, avaliar a totalidade
desses documentos, cujo conteúdo foi de tal forma procuo para a consecução desse trabalho
que se entende que as ações deixadas de lado foram compensadas pelos achados daí advindos.
Apesar desse redirecionamento metodológico, pôde-se efetuar, como passo seguinte,
a observação atenta da dinâmica de funcionamento do NAPS, tomando contato com a
realidade local, conhecendo parte de seu cotidiano e as ões ali conduzidas, ou seja, dentro
do possível, numa aproximação com o que se pode chamar de “mergulhos na vida nativa
(MALINOWSKI, 1978, p.31). Através dessa observação, enquanto executada, alcançou-se
descobrir os componentes subjacentes ao discurso social, ao extrair o que lhes é genérico, “as
dimensões simbólicas da ação social” (GEERTZ, 1989, p.21), método imprescindível para a
descrição analítica que permite a compreensão de uma cultura em sua diversidade (BOAS,
2006). Foi nessa ocasião em que se deram, na seqüência metodológica, os contatos com os
pacientes, os familiares e os profissionais (psilogos, atendente, médico psiquiatra, antes de
sua saída, e clínico geral) nas dependências do NAPS, sobretudo sala de espera no caso do
atendente, dos familiares e pacientes e consultórios, no caso dos dois psicólogos, do médico
psiquiatra e clínico geral. Durante esse período foi resguardado, naturalmente, o sigilo das
consultas psicológicas ou médicas, de que não se participou em nenhum momento, por
motivos evidentes. Quando os desdobramentos éticos já mencionados foram notados, a
observação participante foi deixada e seguiu-se apenas com a investigação dos prontuários,
mas assegura-se que as observações realizadas foram suficientes para permitir, em articulação
com os depoimentos e a interpretação dos registros das fichas dos pacientes, delimitar e
compreender o problema de pesquisa como elaborado anteriormente. Cabe dizer que, apesar
de tradicionalmente chamados “prontuários médicos”, esses documentos são, na verdade,
prontuários dos pacientes”, cujo preenchimento cabe aos agentes de saúde.
Deve-se também esclarecer que, apesar de haver uma correspondência entre “os
processos que estão operando no psiquismo, que podem ser apreendidos a partir do
procedimento clínico, e os materiais culturais recolhidos pelo etnólogo in loco
(LAPLANTINE, 1998, p.27), a finalidade dessa investigação apontou mais para o uso de
procedimentos de pesquisa distintivos antes dos métodos sociológicos que biomédicos.
Embora a formação médica não tenha sido descartada, foi usada como assessória, numa
perspectiva etnopsiquiátrica, para a abordagem do objeto, ou seja, analiticamente, num
enfoque pluridisciplinar que permitisse interpretar as estruturas do imaginário do grupo e sua
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eficácia simbólica (LAPLANTINE, 1998). Daí que os dados apurados, como no caso de
diagnósticos, não foram tratados por prismas psiquiátricos ou biológicos, mas buscou-se
entendê-los por sua significação social (ALMEIDA FILHO, 2001) ou de grupo (BOURDIEU,
1996).
Cabe ainda lembrar que as etapas descritas nesse tópico não foram estanques: as
diferentes fases da pesquisa estão complementarmente imbricadas, pois “na prática essas
etapas são processos que se comunicam e se constituem de forma circular ou espiral”
(SILVA, 2006, p.27). De acordo com o quadro que se delineava durante o levantamento de
dados, foi necessário efetuar, paralelamente, uma revisão de literatura sobre a história da
psiquiatria e a arte de curar no Brasil, haja vista a continuidade temática de tais picos com
esse estudo, como forma de robustecimento de seu pólo teórico (BRUYNE &
CHOUTHEETE, 1991). Dessa forma, as várias etapas da coleta do material para análise, a
observação do serviço, a coleta de depoimentos e a leitura complementar de obras para
suporte interpretativo deram-se concomitantemente, mais que de modo linear.
Os dados primários foram todos colhidos junto ao NAPS Caminhos, localizado em
Ervália. Essa escolha justificou-se porque esse serviço é local de encontro privilegiado entre
as representações, científicas e populares, sobre a saúde e doença mental e um dos pontos
onde começa a reelaboração do saber oficial pelos moradores do campo, pois, conforme
Geertz (1989, p.16) adverte, o locus do estudo não é o objeto do estudo”, mas apenas seu
lugar de realização. Dados secundários, como informações sobre o Município e o NAPS, logo
a seguir apresentados, ou ainda outros cuja relevância tenham se mostrado em qualquer fase
do processo, foram coletados durante a pesquisa de campo, análise do material ou no decorrer
da elaboração do texto.
A pesquisa documental dos registros sobre os pacientes (prontuários) foi conduzida
garantindo o sigilo dos nomes, omitidos de forma total e apresentados por números de três
dígitos, correlatos à ordem de numeração das fichas de atendimento. Dessa análise, buscou-se
identificar termos que remetessem à forma de manifestação da loucura ou a melhora (tanto
por parte da psiquiatria/medicina erudita quanto o registro, pelo psiquiatra, das locuções ou
expressões populares para denotar esses fatos). Aqui não se tratou de mera busca de palavras,
mas da construção de conceitos.
Na via principal aqui seguida utilizou-se como eixo essencial, para tratamento dos
achados da pesquisa dos prontuários dos pacientes, as orientações de Bardin (1976, p.44),
uma vez que “a análise de conteúdo procura conhecer aquilo que está por trás das palavras
sobre as quais se debruça”, tratando-se de técnica que “visa o conhecimento de variáveis de
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ordem psicológica, sociológica, histórica, etc., por meio de um mecanismo de dedução com
base em indicadores reconstruídos a partir de uma amostra de mensagens particulares”
(IDEM).
O material usado como unidade de registro, os prontuários, foi apenas o suporte
concreto para o texto a que se procurou analisar, e que constituiu um “sistema fechado e
acabado em si mesmo” (BARDIN, 1977, p.73).
Como unidade de contexto contemplou-se a presença ou ausência de itens e sua co-
ocorrência distribuição e associação perfazendo a análise qualitativa em que se considerou
o contexto, isto é, condições de produção, autor e modo da feitura (IDEM).
Com o critério de categorização semântico utilizado, foi possível associar algumas
palavras e expressões relacionadas às representões de saúde e doença mental, ou, melhor
dizendo, os termos em que as representões sociais ganham corpo e podem ser pronunciadas,
atingindo-se, dessa forma, como variáveis inferidas, os valores culturais do grupo o saber
popular, no caso dos usuários, e o dito científico, no caso dos profissionais (IDEM).
Como nos prontuários havia anotões feitas por médicos, reconhece-se que esses
profissionais de saúde seriam, então, os censores dos registros. Isso pode ser evidenciado
quando se observa que mudanças no preenchimento dos formulários acompanhavam a
mudança dos profissionais que os preenchiam como será visto adiante, passaram pelo
NAPS-Ervália 06 médicos, sendo 04 psiquiatras e 02 clínicos generalistas.
A análise do conteúdo textual dos prontuários, conforme orientava Bardin (1977),
permitiu coletar informações que se tornaram indicadores das representações presentes no
discurso médico oficial e, na forma de segunda e terceira o, no dos próprios pacientes. As
palavras, locuções ou depoimentos registrados no acervo dos prontuários remetiam ao tema
saúde/doença mental. A ocorrência de expressões populares e eruditas sobre doença e saúde
mental foi identificada na medida em que os profissionais registravam suas impressões dos
problemas dos pacientes fazendo uso de determinados termos, tanto originários das falas dos
pacientes e cuidadores, quanto da referência acadêmica por eles apropriada. As diferenças nas
expressões permitem, por isso mesmo, uma tentativa de tradução de pensamentos (IDEM).
Para melhor compreensão das informações dos prontrios, como se pode ver em
Geertz (1989), é interessante a proposta de escalonamento de proximidades com o que se
poderia denominar de „nativos‟. Assim, nos prontuários é possível perceber informações que
remetem a interpretações de primeira, segunda e terceira mão quanto às expressões originais
dos usuários. A fala do usuário „nativo‟ encontrava-se rodeada de outras fontes de expressão,
quais sejam, dos acompanhantes, do profissional observador, e, até do pprio pesquisador no
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momento da análise. Nos registros reconhece-se a ótica do profissional, porém, em alguns
casos, poder-se-ia considerá-la como remetendo à informão dos nativos (de primeira mão),
pois muitos registros evidenciam a fala expressa pelo paciente ou familiar e que foram feitas
sem qualquer pretensão de pesquisa, o que pode ser visto como certa originalidade. Ao se
buscar a ótica do usuário, sabe-se que ela sempre foi tomada em segunda mão, pois passava
pelo crivo do médico. Na decodificação, identificação e análise, sabe-se também que a ótica
do pesquisador perpassou essas leituras dos registros, o que seria a terceira mão.
Não se sustenta a objeção de que os prontuários, por terem sido escritos por médicos,
permitiriam inferir algo sobre as representações dos médicos, pois uma finalidade
pressuposta de tais anotões é, dentre outras, a de permitir refazer o trajeto da patologia
desde sua ocorrência até o curso do tratamento, e, para tanto, as representações dos usuários
têm necessariamente de ser contempladas. Contudo, se por um lado pondera-se que é mais
aceitável questionar se os prontuários cumprem satisfatoriamente essa função, na medida em
que o seu preenchimento deficitário em certo sentido poderia comprometer uma decodificação
mais precisa, por outro, seria exagero recusar que os prontuários sejam fontes de análise
relevantes e permitem identificar, inclusive, representações também dos leigos que circundam
o ambientes do NAPS, ainda que de segunda ou terceira mãos.
Sabendo dessas marcas das fontes documentais e da natureza da análise do conteúdo,
acredita-se e assume-se, entretanto, que pode ter havido alguma saliência, alguma preferência
ou silêncio sobre aspectos contidos nas informações e não captadas pelo pesquisador, mesmo
que fossem importantes a quem tivesse feito o registro.
Nesse delicado jogo de interpretões, para controlar a parcialidade inerente ao
pesquisador, buscou-se focar a textualidade do prontuário, ou seja, o conteúdo e a forma de
preenchimento, ou não, de seus campos, além do uso preferencial ou mais repetitivo de
algumas palavras ou locuções. Como proposta por Bardin (1977, p.38) essa análise do
conteúdo se fez por “um conjunto de técnicas de análise das comunicações, que utiliza
procedimentos sistemáticos e objectivos [sic] de descrição do conteúdo das mensagens”.
Assim, os dados foram compilados para fichas em que as informações dos campos ficavam
dispostas de modo a facilitar sua apreciação em conjunto e sua sistematização, buscando
atender aos objetivos desta pesquisa.
Cabe esclarecer que os prontuários foram manejados de forma ética e sigilosa,
ficando a cargo do funcionário do NAPS, que os arquiva e disponibiliza para os atendimentos
dicos e psicológicos, sua separação, e que, após a captação dos dados, eram todos
devolvidos ao mesmo, e em momento algum dessa pesquisa deixaram as dependências do
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NAPS ou foram lidos por outrem. Como sua organização naquela instituição se por ordem
alfabética, sendo a numeração feita a posteriori e, como se percebeu, com algumas falhas
e comoo há sistema digitalizado para esse controle, os prontuários eram separados e
pesquisados em grupos numéricos ordenados de 100 (cem) unidades, perfazendo o total
compreendido entre o começo do funcionamento, em 2002, e o ano corrente, com ponto de
corte nos registros numéricos feitos até fevereiro de 2010. Reconhece-se a colaboração e a
boa-vontade do atendente do NAPS como auxiliar dessa tarefa, bem como de todos os
demais, que em momento algum obstaculizaram este estudo.
Assim, foram analisados todos os prontuários registrados no NAPS-Ervália,
abrangendo o período março de 2002 até fevereiro de 2010. Cabe ressaltar que a numeração
apresentou alguns problemas: os números registrados iam apenas até 713, pois, em
decorrência de erros no arquivamento de alguns prontuários, e sabendo-se que vários se
encontravam com números repetidos, sobretudo aqueles abrangidos entre os números 500 a
600 preenchidos, aproximadamente, entre os anos de 2006 a 2007, época em que o NAPS
passou por mudanças de endereço e de profissionais. Por isso, a numeração efetiva ficava
aquém da quantidade de fichas, um montante que deveria ser composto de 720 prontuários.
Para melhor controle da pesquisa, no levantamento acrescentou-se aos repetidos, nos registros
de pesquisa, uma letra do alfabeto, a começar por A, por exemplo, 523A e 523B.
Além disso, chamou atenção o fato de que 60 prontuários dos 720 não foram
encontrados. De acordo com informação prestada pelo funcionário responsável por seu
manejo, muitos foram retirados do NAPS por pacientes ou familiares que pretendiam uma
transferência do tratamento para outros locais, em razão, sobretudo, da insatisfação com as
trocas de psiquiatra e pela substituição desse especialista por clínicos gerais. Assim,
concretamente, foi possível trabalhar com o total de 660 prontuários.
Segundo depoimento do psilogo que fundou o serviço, o modelo de prontuário
usado no NAPS-Ervália é o mesmo desde sua inauguração, e foi formulado a partir daquele
utilizado pelo NAPS de Ubá. Uma cópia encontra-se no ANEXO B.
Assim, naquele formato, o prontuário dispõe de informações de duas naturezas: 1) as
falas dos pacientes transcritas, via de regra sucintamente, de modo mais ou menos integral
pelos profissionais que registram as queixas e comentários ocorridos durante a consulta
dica ou em quaisquer outras ocasiões em que usuários, seus familiares ou outros
responsáveis vêm trazer informações sobre os problemas de saúde dos mesmos e 2) as
impressões dos profissionais sobre os pacientes isto é, sobre suas queixas, seus sintomas, o
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tratamento indicado e o resultado alcançado, ou ainda outras informações que consideram
relevantes.
Sistematizou-se a análise de conteúdo dos prontuários a partir de seu modelo,
separando-o em dois arquivos: um com os dados de identificão do pacientes (dados
relativos ao perfil do usuário) e outro com dados de registro da evolução, decorrentes da
queixa principal”, momento em que o profissional toma nota das palavras dos usuários tais
como foram proferidas, dos dados atuais”, dos dados da história”, do “diagnóstico”, e
seguimento das consultas subseqüentes. Essa separação, que se deve reconhecer como um
artifício de análise, apenas prestou-se a organizar o arquivamento dos dados para posterior
interpretação, pois se sabe que, na prática, no momento mesmo em que o preenchimento dos
prontrios realizava a grafia das representações, essas se precipitavam no papel, na forma da
difícil caligrafia dos profissionais ou na peculiaridade das locuções dos pacientes, quer faladas
por esses últimos, quer pensadas e escritas pelos primeiros.
Assim, a pesquisa dos campos das fichas dos pacientes (ANEXO B), preenchidas
quando da chegada de cada novo usuário, permitiu que se vislumbrassem caracteres do
público que utiliza o NAPS tais como idade, sexo, estado civil, local de moradia, número de
filhos e escolaridade. Durante a pesquisa, notou-se grande interesse por acesso a essas
informações por parte de alguns dos profissionais que atuam no NAPS-Ervália, haja vista não
existir, nessa instituição, banco de dados informatizado, pois poderiam futuramente auxiliar a
definição de programas e estratégias em momentos diversos do aprimoramento desse serviço.
Os registros do seguimento dos tratamentos, dispostos nas folhas de evolução clínica
(ANEXO B), permitiram que se rastreassem expressões, locuções picas, termos valorativos
ou indicativos das representações da loucura, quer no meio rural, quer por parte da equipe
atendente, pois, como alerta Bardin (1977, p.14) “por detrás do discurso aparente geralmente
simlico e polissêmico esconde-se um sentido que convém desvendar”. Cabe salientar que o
envolvimento dos profissionais oficiais impôs-se pelo fato de que também o corpo científico
representado por esses sujeitos ser detentor de subjetividades e representações
(LAPLANTINE, 2004) que podem influenciar ou se chocar com as da populão.
Além dessas observações sobre a organização do acervo pesquisado, muitos
prontrios analisados tinham vários campos não corretamente preenchidos ou cujas
informações estavam deslocadas dos espaços apropriados. Por isso, foi preciso organizar
algumas informações no momento da tomada de notas, mas, na maioria das vezes, foi possível
obter a informação desejada. Esta só não foi conseguida quando o profissional não registrava
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nada em lugar algum. Algumas vezes, os registros dos profissionais sugeriam tratar-se de
falas de terceiros (presumíveis responsáveis).
Associadas as representações sobre saúde/doença mental aos fatos sociais, na
acepção de Durkheim (1966, p.3, 12) “maneiras de agir, de pensar e de sentir exteriores ao
indivíduo”, delimitou-se o método qualitativo como abordagem de eleição, sobretudo por se
dedicarem os estudos qualitativos também ao processo e não apenas aos resultados
(SANTOS, 1992). Além disso, dada a natureza cio-histórica do objeto os fatos da vida
comum, como os cuidados com a saúde muito do que se pretende apreender com estudos de
cunho cultural escapa ao tratamento estatístico (MALINOWSKI, 1978). Cândido (2001, p.23)
afirma que o senso do qualitativo é condição de eficiência nas disciplinas sociais”, o que é
inegável, mas não se excluiu o tratamento de alguns dados estatisticamente, aplicados aqui de
forma apenas a permitir melhor cotejamento sobre o perfil dos usuários. No caso específico
das representações sobre saúde e doença mental, seguiu-se apenas a avaliação qualitativa,
pois, segundo Bardin (1977):
Na análise quantitativa, o que serve de informação é a freqüência com que surgem
certas características de conteúdo. Na análise qualitativa é a presença ou a
ausência de uma dada caractestica de conteúdo ou de um conjunto de
características num determinado fragmento de mensagem que é tomado em
consideração (BARDIN, 1977, p.21, grifos da autora).
Por fim, todo o desenrolar da pesquisa procurou mesclar a atividade de campo e a
elaboração teórica do objeto, “dupla atividade de trabalho construtivo e observação”,
(MALINOWSKI, 1978, p.25). O registro escrito de todo o material coletado na pesquisa foi
conduzido continuamente até o tratamento no texto, que almejou um “contorno verbal do
pensamento nativo” (MALINOWSKI, 1978, p.33). Ou, conforme aponta Cândido (2001,
p.13), visou descrever um processo e uma realidade humana”. E isto devido ao fato de que,
como acreditava Mauss (2003, p.311), “nas sociedades apreendemos mais que iias ou
regras, apreendemos homens, grupos e seus comportamentos”.
Fazer uma pesquisa cientifica o é meramente seguir um roteiro predefinido para se
alcançar um lugar: o mapa que guia a busca assemelha-se antes aos mapas do tesouro dos
piratas, com suas lacunas, substituições, anagramas e símbolos que ao ordeiro mapa dos
geógrafos, e por isso há tanto beleza quanto valor na tarefa de desvendá-lo. Espera-se que essa
tarefa possa ajudar na compreensão e aprimoramento dos serviços de saúde mental pois só
assim seu valor poderá ser dividido.
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CAPÍTULO 4
RESULTADOS
4.1- Ervália do café: primeiras impressões
O viajante que se dirige a Viçosa subindo pela Serra de São Geraldo passará, logo
após Coimbra, por um trevo rodoviário sem maiores atrativos e que, desviando-o à direita,
conduzirá a Ervália. Tampouco a paisagem da estrada que o leva até lá, outrora recoberta pela
monocultura do café, e agora dividida entre áreas de pastagem e plantio de café, milho e
tomate, deverá diferir das cercanias. E, sem o casario colonial que caracterizava as cidades da
região, sem ter preservado os exuberantes sobrados em estilo eclético que, com seus bordados
em estuque, proliferaram entre o fim do século XIX e começo do XX, talvez sequer chame a
atenção desse visitante, ao circular pela cidade, a presença de uma casa simples. Nada tem de
especiais, a uma primeira mirada, seu portão lateral pintado de cinza, a janela solitária
colocada sobre a fachada de cerâmica amarronzada, a varanda alta e recuada sobre a qual uma
grande placa amarela traz as letras vermelhas e azuis formando N.A.P.S. Saberá ele o que essa
sigla e seus desdobramentos significarão?
O viajante desavisado, como o leitor dessas páginas, não tem a obrigação de saber
que NAPS significa Núcleo de Atenção Psicossocial, e que Ervália foi uma das primeiras
cidades de pequeno porte da região a ter um ambulatório de psiquiatria. Mas isso ainda não
esclarece qual a importância desse fato. Será preciso, para conduzir o leitor dessa pesquisa
por uma viagem pelas representações de saúde e doença mental no meio rural, tomando como
locus o NAPS-Ervália, lançar alguma luz sobre sua história.
Origens e características
A experiência de falar de uma localidade guarda mais semelhança com a
metamorfose que proporcionam algumas viagens que com o relato de guias turísticos: as
informações podem ser sempre as mesmas, mas cada um as percebe pelo prisma muito
particular das vivências que, a posteriori, tiver no local. A descrição a seguir é, portanto, uma
vero possível dentro dos limites dessa pesquisa.
Localizada no sudeste mineiro, tendo ao norte os municípios de Araponga e Canaã,
ao sul São Sebastião da Vargem Alegre e Guiricema, a leste Muriaé, Miradouro e Rosário da
Limeira, e a oeste Coimbra, São Geraldo e São Miguel do Anta, Ervália dista apenas 32 km
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de Viçosa e 264 km de Belo Horizonte. Com toda a graciosidade de seus 357,9 km quadrados,
Ervália não é conhecida por suas atrações turísticas, mesmo sendo parte da afamada Serra da
Mantiqueira, cuja denominação da porção local é Serra da Ventania.
Os principais viajantes das terras ervalenses não são turistas, mas rios e ribeies,
tributários das bacias dos rios Paraíba do Sul e Doce. Nascido em seu terririo, na Serra da
Ventania, o rio Casca é acompanhado em seu deslocamento diário por diversos afluentes,
como os córregos e ribeirões cujos nomes muitas vezes remetem às localidades rurais cuja
paisagem comem: Jetiboca (ou Jatiboca), dos Macacos, Grão-Mogol, dos Machados, do
Baixinho, do Sapateiro, Santa Cruz, São Matias e Serra do Grama, além do rio dos Bagres,
dos córregos da Fazenda Velha, dos Godinhos, dos Quirinos. Um dentre seus afluentes tem
importância particular: o Turvão, que, com suas águas escuras, corta a cidade que viu crescer
em suas margens. Ervália, como muitas cidades mineiras, nasceu gerada pela sinuosidade e se
desenvolveu no vale de um rio que, a cada dia, se vai sempre, sem nunca deixá-la.
Mas foi no século XVII que a região, habitada por silvícolas, recebeu outro visitante,
o bandeirante Antonio Rodrigues Arzão que, em torno de 1693, esteve na região em busca de
ouro, sendo seguido por outros colonizadores que se estabeleceram na região do Casca, que
deveria sua origem a uma lendária casa de casca, localizada na Serra dos Arrepiados. O
primeiro povoado foi batizado de Capela Nova, devido à construção de uma capelinha em
1820, e seus habitantes eram oriundos principalmente de Piranga, Ouro Preto e da região de
Ponte Nova.
Em 1839 o povoado foi promovido a distrito e rebatizado de o Sebastião dos
Aflitos, para, em 1840, ganhar status à paróquia, vinculada a São Miguel das Almas e dos
Índios Arrepiados, atualmente Araponga.
Mas o progresso, como as águas do Turvão, seguiu adiante e, em 1853, São
Sebastião dos Aflitos foi elevada à categoria de freguesia, desvinculando-se de São Januário
de Ubá e filiando-se a Santa Rita do Turvo, atual Vosa, que, como tantas outras cidades,
perdeu de seu nome a padroeira, temendo, talvez, que com isso lhe tivesse perdido as bênçãos.
Nova mudança de nome, em 1886, agora para São Sebastião do Herval, em
homenagem a Manuel Luis Osório, personagem histórico nascido em 1808 no Rio Grande do
Sul, conhecido posteriormente como Marquês do Herval, herói da Guerra do Paraguai que
depois seguiu pela potica, elegendo-se senador em 1877 e falecido no Rio de Janeiro em
1879. Não o claras as razões dessa homenagem, uma vez que o homenageado sequer era da
região.
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A emancipação de Viçosa vem em 1938, quando o distrito chega a ser cidade, agora
chamada Herval, nomenclatura já corrente desde 1923. O nome Ervália é assumido por
decreto de 1943, sem o “h”, para diferenciá-la de outras que ainda rendiam homenagem ao
Marquês.
Hoje Ervália tem população estimada em 18.855 habitantes (IBGE, 2010) e é
formada por cinco povoados Ventania, Santa Teresinha, Careço, Dom Viçoso e Godinhos
além de várias localidades como Casca, São João, Córrego Frio, Turvão, Campestre,
Jetiboca, Matinha, Tabuleiro, Grão Mogol, Pau Mulato, Capelinha, Turvãozinho, Córrego dos
Lima, Vargem Alegre, Usina, Córrego dos Ferreira, Córrego dos Sapateiros, Charneca, Poço
Redondo e Fazenda Velha (REZENDE, 2006).
Seu clima tropicalmido, com temperatura média de 17º C e inverno seco lhe
confere o ar serrano responsável por madrugadas frias, até durante o verão. A vista confirma
facilmente a afirmação técnica dos geógrafos que dizem predominar as declividades fortes:
seu relevo montanhoso segundo Rezende (2006), 10% plano, 40% ondulado e 50%
montanhoso encontra o ponto mais alto, o Morro do Pai Inácio, a 1.671m, e o mais baixo, a
rzea do Casca, a 660m, mas a altitude média fica em torno de 700m (BOSCHI, 1995). Os
solos aluviais de coloração escura, ácidos, mas muito férteis, com predomínio nas várzeas,
sofrem com a erosão devida à remoção da cobertura vegetal, o uso das encostas para
pastagens e com o pisoteio de animais, além dos cafezais. Aliás, a ocupação humana, com
suas pastagens e áreas de plantação destituíram o que outrora foi o império quase absoluto da
floresta tropical atlântica, cujo reinado deixou poucos vestígios, hoje encontrados, sobretudo,
em topos e vertentes (IDEM).
Não havia ouro, mas houve o café. Desde sua fundação no século XIX, o café foi e
ainda é importante fonte de renda e chega a ser um demarcador da circulação de capital na
localidade, definindo períodos de investimentos e mesmo a data do pagamento de contas nos
mercados. Apesar de também haver lavouras de milho e feijão, além de, em menor escala,
arroz e cana de açúcar, aprecia-se que o eixo basal da economia da cidade gira em torno das
7.000 toneladas anuais de café (REZENDE, 2006): 4.779 toneladas em 2006 e 9.666 em 2008
(IBGE, 2010). outras atividades de menor importância, como criação de bovinos, suínos,
caprinos e ovinos, extração de madeira, marcadamente eucalipto, e de minério, restrita à brita
e cascalho, bauxita e caulim (BOSCHI, 1995; REZENDE, 2006). A agricultura familiar
predomina, como nos demais municípios da Zona da Mata Mineira.
O Município comporta pequenas empresas: fábricas de blocos, serrarias, serralherias,
panificadoras, torrefão de café e confecções têxteis (IDEM). O comércio local tem as
54
características comuns às cidades de mesmo porte: diversificado, mas o completo, oferece
oportunidades de emprego e melhores salários para quem reside na cidade. açougues,
muitos, farmácias, diversas, lojinhas das mais variadas, e os famosos mercados, em que se
vende de tudo um pouco. O setor de serviços não se distingue do habitual para as cidades
pequenas, com as restrições picas fomentando a depenncia de centros próximos, no caso
as cidades de U, Muriaé, Viçosa e Juiz de Fora. Na cidade duas agências bancárias,
Banco do Brasil e Credimur. Pelos dados do IBGE (2010), o PIB (Produto Interno Bruto) per
capita municipal é de 5.693 reais.
Ervália é uma cidade de características marcadamente rurais, o que pode ser
demonstrado pelo grande contingente da população residente no campo. se fez,
anteriormente, uma breve discussão sobre o que quer dizer, nesse contexto, ruralidade, mas,
agora, dados estatísticos devem ajudar a compor minimamente um quadro demográfico. Em
1995, 67% da população habitava a zona rural para 33% na área urbana (BOSCHI, 1995),
mas, segundo Rezende (2006), esse número era de 60% em 1996 e decresceu para 56% em
2004. Quanto à distribuição fundiária, entretanto, os autores convergem ao mencionar que a
densidade rural, caracterizada por propriedades de pequeno porte, a grande maioria
minifúndios, e o número crescente de proprietários herdeiros levam a uma situação em que a
subsistência fica comprometida pela diminuta extensão da terra, ampliando situações em que
o proprietário se converte em meeiro ou empregado de outra propriedade maior, quando não
leva à emigração para a cidade (BOSCHI, 1995; REZENDE, 2006).
Boschi (1995) também chama a atenção para um fato notável, embora não exclusivo
de Ervália: a presença marcante do café como pilar econômico interfere em outras áreas da
vida, como a educação, pois ocorreria um conflito entre os períodos letivos e de plantio e
colheita, gerando considerável índice de evasão nas escolas rurais, cujos estudantes já seriam
penalizados pelas grandes distâncias a percorrer de casa até elas e pela pouca especificidade
do conteúdo escolar à realidade rural, dificultando o entrosamento entre os alunos e sua
formação.
De acordo com Rezende (2006), Ervália tem 18 escolas municipais das quais 14
estão situadas na zona rural e 10 escolas estaduais sendo 07 delas rurais e, se a
alfabetização é elevada (81,3% da população), a escolaridade é baixa, com média de 3,6 anos
de estudo apenas, o que corrobora a análise de Boschi (1995) acima reportada. São
computadas pelo IBGE (2010), que traz dados condizentes, 2.704 pessoas com mais de 10
anos sem instrução ou com menos de um ano de estudo, sendo que a grande concentração se
dá entre 04 e 07 anos de estudo (5.916 pessoas) e 01 a 03 anos (3.056).
55
Como tendência nacional, a maioria da população é jovem, com menos de 40 anos, e
a pimide etária afila consideravelmente acima dos 50 (IBGE, 2010). O trabalho rural é
muito comum, havendo 1.247 estabelecimentos agropecuários próprios, dos quais 1.128
pertencem a homens e apenas 119 a mulheres, quando a distribuição da população por sexo é
quase pareada, com pequena prevalência de homens (IDEM). De acordo com dados do IBGE
(2010) relativos ao ano de 2006, o número de pessoas ocupadas com atividades em
estabelecimentos agropecuários seria de 3.705 homens e 1.732 mulheres, mas o salário médio
mensal, de 408,11 reais, seria distribuído entre 448,06 para homens e 337,82 para mulheres.
Surgem algumas características humanas que é preciso apreciar. Não se falará de
conceitos como raças, nem de cor da pele, nem de tipo físico. Não é possível dizer que
alguém é morador da zona rural por seus trajes ou seus modos, mas um jeito peculiar que
remete à ruralidade.
Como o uso do chapéu que protege do sol inclemente durante o dia e do sereno frio
para quem volta para casa de madrugada, o modo de se acocorar para conversar em locais em
que as cadeiras são poucas (como no NAPS), as mãos calejadas da colheita do café, mostradas
muitas vezes como prova cabal do esforço do trabalho, a pele ressecada e vermelha pela
exposição direta e contínua às variações climáticas, todos são sinais de uma rotina e um
significado que pode ser traduzido, desavisada e pejorativamente, como “descuido de si”.
Contudo, esse jeito de ser tem uma razão plena de sentido num dado tipo de existência. O tipo
rural faz menção a um tipo de vida.
Não é infreqüente que pelas ruas da cidade se veja um casal de meia idade andando,
o homem à frente, a mulher um pouco atrás. Pouco conversam, até pela disposição em que
caminham. Ele vestido de modo muito próximo ao descrito poeticamente por Cândido (2001),
quando falava do caipira: chapéu, calça larga, camisa com as fraldas soltas, descalço, com
guarda-chuva pendurado na escápula, feito espingarda. Ela usa vestido de peça única,
estampado, nada de chapéu, tem os cabelos partidos no meio da cabeça, descendo por ambos
os lados e atrás, sobre os ombros e costas, às vezes presos em rabo ou coque. Quase sempre é
à mulher que cabe levar os filhos, se pequenos ou de colo”, ficando para o homem fardos
mais pesados, como as compras de mercado. Nessa imagem pode haver menos de estereótipo
que de habitus, na acepção dada ao termo por Bourdieu (2005). É que, como demonstram os
dados do IBGE (2010), a renda é pouca e as roupas, muitas vezes, mandadas fazer. O valor da
mulher e suas atribuições são bem definidos, assim como seu lugar em relação ao homem,
como sugerem as poucas proprietárias em relação aos muitos proprietários. O entrosamento
entre ambos fixado pela inflncia dos costumes, havendo assuntos próprios e locais
56
adequados para tratá-los. Saber seu lugar, inclusive na família, é um valor muito presente.
Tais modos são aqui destacados, pois ajudam a compreender o contexto da eclosão de um
problema psíquico, mais do que habitualmente se pode pensar antes de uma reflexão
cuidadosa. Mas essa não chega a ser uma imagem rígida: não mostra uma verdade, mais
indica uma tendência. Claro está que novos hábitos interferem em velhos habitus, e que
possibilidades econômicas emergentes, a chegada do comércio, a presença da televisão, outras
formas de diversão, maiores contatos com outras realidades, mudanças nas lidas e costumes, a
luta por direitos iguais entre homens e mulheres, tudo isso compõe um quadro dinâmico, nada
estanque. Essas interveniências, porém, são processuais, e por isso fluem e refluem: as
mudanças são lentas, e as incorporações parecem se dar mais por camadas sobrepostas que
pela remoção do velho e adesão ao novo, sem mesclas, como sugerido por Martins (2000).
Outro traço que sobressai é o humor da população, que oscila entre o grosseiro e o
discreto, paradoxo aparente que já se explica. Grosseiro pela franqueza com que constrói
críticas, discreto por aparecer aqui e ali, insidiosamente, nas conversas, sem se evidenciar. Por
isso parece, aos de fora, mais rudeza que humor. Um exemplo é o comentário de que Ervália é
a cidade do “jateve”: já teve cinema, teve praça central arborizada, com coreto e chafariz,
etc. O que marcaria esse passado de glória? Qual o sentido dessas perdas? Essa forma de
humor parece uma defesa psíquica frente a sensação de decadência.
Afirma Boschi (1995) que uma das características de muitos pequenos municípios é
a descontinuidade de ações poticas implementadas, decorrente da falta de planejamento que
favorece com que interesses individuais prevaleçam sobre os coletivos. o se pode afirmar
com a mesma segurança que foi essa a causa única que extinguiu cinema e chafariz, mas
que se dar crédito ao fato de que a falta de poticas estruturadas e continuadas pode impedir
ou fazer retroceder melhorias. É também notável o interesse manifesto na comunidade
ervalense por questões político-partidárias, ocasionando empecilhos, dificultando ações que
visem beneficiar a comunidade, por parte do poder municipal e dos órgãos de serviços”
(BOSCHI, 1995, p.33).
Isso, de certo modo, se reflete na saúde do município. Ervália “já teve” um hospital
de 66 leitos que dava suporte ao posto de saúde da zona urbana e aos seis postos de saúde
rurais (BOSCHI, 1995), mas medidas administrativas desfizeram o convênio que unia, através
de repasse de verbas, a Prefeitura e o hospital. Hoje, de acordo com fonte do IBGE (2010), há
10 estabelecimentos de saúde no município, 08 ligados ao SUS: três postos de saúde na área
urbana sendo um central e cinco nas zonas rurais, e oito equipes de PSFs (Programa de
Saúde da Família), funcionando duas delas em localidades rurais. O município dispõe-se
57
ainda de serviços odontológicos e bioquímicos bancados pela Prefeitura. Inevitavelmente,
ainda se recorre a outras cidades para procedimentos de saúde de maior complexidade. A água
é clorada e fluoretada, um sistema de captação pluvial, ainda que precário, e a rede de
esgoto serve a mais de 94% da população urbana, embora ainda sem tratamento (BOSCHI,
1995). um asilo para idosos administrado pela Sociedade São Vicente de Paula. A saúde
mental, como já mencionado, conta com um ambulatório especializado desde 2002,
atendendo a um número flutuante de pacientes (os registros de prontuário indicam mais de
700, embora essa pesquisa tenha evidenciado que o tratamento não está ativo para a maioria,
pois o abandono é considerável, e que muitos só passaram por uma única avaliação).
Não se pode deixar de mencionar outro de seus traços impressionantes: as festas,
sobretudo as religiosas. Sem lhes negar importância, o Carnaval ou as exposições
agroindustriais não se destacam das oferecidas pelas cidades da rego, mas sua Semana Santa
é, possivelmente, o maior acontecimento de lazer do município, com características muito
peculiares. A cidade fica lotada, e o afluxo dos moradores da zona rural é intenso, o cortejo
nas procissões parece intermivel. Assistir a uma missa na igreja matriz impressiona pelo
fato de, mesmo sendo muito grande, ficar toda ocupada, com muitos fis atentos ou nem
tanto do lado de fora. Mas não pela fé o evento tem sua importância: marco social anual,
faz muito mais que atualizar a espiritualidade do povo, pois promove encontros de falias,
inícios de namoros, fixação de fatos no calendário mental das pessoas (como, por exemplo,
antes da Semana Santa do ano retrasado adoeceu um membro da família), oportunidade de
donativos para quermesses da Paróquia, lazer para os que vem da roça passar a semana na
cidade muito comum, por sinal, o hábito de famílias da zona rural, se têm recursos para
tanto, manterem uma casa na cidade para facilitar o estudos dos filhos e para uso nessas
ocasiões festivas. De resto, são os campeonatos de futebol, oficiais ou improvisados, que
oferecem algum divertimento democrático tanto na cidade como nas localidades rurais, já que
o velho cinema só existe na memória do povo.
Tentou-se acima fornecer um mínimo de informações que contextualizem social e
historicamente o município, de modo a que se permita uma adequada compreensão dos
achados dessa pesquisa. Não é possível, sequer desejável, esgotar uma descrição de uma
cidade, é possível fornecer o que se considera mais importante a falar dela. Ficariam de
fora o frio de suas noites, o cartesianismo de sua linear rua principal, a imponência da Igreja
Matriz, a serenidade da larga Rua São José, a ausência de sombras e de árvores pelas
calçadas, a feiúra de muitas casas inacabadas, a beleza de seu entorno, a tristeza de seus cães
58
abandonados, a cordialidade de seu povo, sua lendária violência, seu apreço por uma
combinação culinária de “galo com macarrão”, prato comemorativo para ocasiões diversas.
Algumas vezes se é obrigado a remeter a obras originais aqueles que buscam por
informação adicional sobre um tema: que essa descrição não seja mesmo completa, e que não
substitua a visita dos interessados a Ervália, para que tirem suas próprias impressões.
História e narrativas são sempre versões possíveis para ajudar a compreensão de certa ordem
nas vincias e convivências humanas.
4.2- Saúde e doença mental no Brasil: história e contexto.
Para melhor compreensão dos significados dos dados encontrados (tanto nos
prontrios quanto nos relatos), tornou-se necessário esboçar uma abordagem histórica da
saúde mental no Brasil. Tal resumo constitui tarefa hercúlea, pois esbarra não apenas na
dificuldade, inerente a qualquer empreendimento semelhante, de separar o essencial de um
conjunto em que tudo parece importante, sem o risco de desfigurá-lo.
ainda outro risco, este um pouco mais sério, que envolve a definição de alguns
objetos de estudo histórico: o termo saúde mental é relativamente recente. Tomar ações que
envolviam a loucura em períodos como o colonial ou do Brasil Império pode implicar
descaracterizar seu efetivo sentido socialmente institdo e -lo apenas como parte de uma
seqüência obviamente planejada que, de fato, não lhe era concernente. Mas foi forçoso correr
algum risco nesse trajeto, e que esse pequeno preâmbulo sirva de alerta.
O caminho aqui trilhado demarcou aspectos sócio-históricos mais que teórico-
conceituais: por se tratar de um estudo que almeja alcançar representações de saúde e doença
mental no meio rural, a abordagem do pensamento de filósofos, dicos e autoridades não
pode ser o foco principal, e contemplar-se-ão, em igual medida, as narrativas não
especializadas. É também possível que a ausência de poticas consistentes e planejamentos
seqüenciados, como bem alerta Resende (2001), reflita-se em uma descrição dessa hisria de
maneira que para mais circular que retilínea, quando, na verdade, seu curso é espiral.
Entretanto, apenas a consideração pelo que foi a história da lida com a loucura no Brasil
permite também entender seu contexto atual.
Ainda é preciso advertir, comungando com a opinião de Resende (2001, p.18) que,
guardadas as peculiaridades locais e a defasagem no tempo”, o louco como problema social e
os dispositivos institdos para a questão aproximam o Brasil do século XIX à Europa do
século XVI, de modo que uma exigência exata quanto ao que se produziu de saber sobre o
59
tema no Velho Mundo pode requerer aplicação mais aproximativa que exata quando se tratar
de falar de Europa e América Latina.
Empiricamente, pode-se dizer que não foram poucos os registros hisricos do
sofrimento dos africanos que, na condição de escravos, sofriam de banzo, conduta traduzida
no período colonial como “saudades da terra natal”. Outra constante nos registros históricos,
historiográficos ou literários, são as condutas suicidas entre populações indígenas aculturadas
ou que perdiam o controle do espaço de uso em razão da chegada dos colonizadores.
Da mesma forma são memoveis os relatos de europeus que se viam
desequilibrados diante dos desafios tropicais implícitos na sobrevivência na colônia. Entre
evidências e representações literárias, a terra brasilis afigurou-se, desde o descobrimento,
como espaço de exploração, onde a nova sociedade herdava, do mundo ibérico conservador,
as marcas e as condições de possibilidade de um espaço social das aparências (MARTINS,
2000).
Herdeiros da cultura européia, os colonizadores e primeiros habitantes do País se
referiam à loucura para refletir sobre o que se passava com aqueles que, em idéias ou
condutas, manifestassem desvios entendidos como aberrantes. Expressões eruditas, como
insanidade, desatino ou alienação, ficariam restritas em seu uso a determinados grupos
profissionais, sobretudo médicos e juristas, e apenas em períodos posteriores. A obra de
Foucault, A História da Loucura na Época Clássica, que norteia muitos dos achados do
presente estudo, utiliza a palavra loucura para se referir a esses desvios. Acontece que aqui,
como na matriz, a cultura se pautou em parâmetros semelhantes para classificar de loucos
alguns tipos de desviantes. Mas também a compreensão indígena e, posteriormente, a dos
africanos escravizados e trazidos para a Colônia contribuíram para a configuração de um
amálgama cultural no entendimento social da saúde e do adoecimento.
Diante da necessidade de contextualizar culturalmente a compreensão das doenças,
da saúde e do tratamento, mas sem negar historicidade aos fatos, é preciso executar o que
Laplantine (2004, p.39) define como condição de atuação em antropologia médica: realizar
um estudo das relações recíprocas entre os modelos etiológicos e terapêuticos que devem ser
analisados em sua variedade”. Isto porque seria de interesse da antropologia precisamente
essa gama de variações, percebidas, naturalmente, não por uma escala valorativa, mas através
de sua observão por certo número de invariantes.
Dessa forma, para melhor entendimento das representações de saúde e doença no
espaço pesquisado, cabe retomar aqui as matrizes do amálgama cultural que as coms. Serão
apresentadas, de forma sucinta, algumas informações histórico-culturais de como lidavam
60
com o adoecimento e o processo de cura as três principais culturas que compõem nossas
tradições, a saber, indígena, européia e africana e, como exemplos, resumos de estudos a elas
correlacionados.
Se, antes da chegada dos colonizadores europeus estavam aqui os indígenas que,
dentro dos parâmetros de sua cultura, detinham um saber sobre o corpo e sobre a saúde, seria
justo começar, em ordem cronológica, falando dos aspectos dessa medicina. Tarefa que
encontra pelo menos duas grandes dificuldades: 1) em decorrência da própria cultura
indígena, não registros feitos pelos próprios nativos, tendo ficado aos cuidados dos
colonizadores essa descrição; 2) os estudos sobre a medicina indígena não o muitos, pelo
menos os construídos nos moldes que aqui interessariam: mais que os tipos de rituais ou os a
eficácia dos recursos farmacológicos disponíveis na flora, a forma como se dava a percepção
social da doença e, sobretudo, do doente.
Santos Filho (1966), em seu Pequena história da medicina brasileira, traz algumas
informações sobre a medicina pré-cabralina, apesar do forte teor etnocêntrico de seu estilo.
Afirma o autor (SANTOS FILHO, 1966) que a medicina indígena era “mágica” e “empírica”,
que as doenças causavam repulsa, fazendo-se evitar os enfermos, que eram, por sua vez,
fatalistas, sugestionáveis e apáticos quanto ao tratamento, aguardando na rede, em silêncio, a
visita do pajé. Também comenta que, com as mesclas ocasionadas pela colonização, a
medicina indígena, fundida com a africana e a européia acabou sobrevivendo, de forma
periférica e adulterada, entre curandeiros, feiticeiros e pais-de-santo. Embora sua descrição
fique comprometida pelo evidente viés etnocêntrico, aponta para uma evincia inconteste:
o sendo científica dentro dos moldes europeus se é que, à mesma época, a medicina
praticada na Europa poderia merecer o adjetivo de científica seria mesmo mágica, de acordo
com a cosmologia dos povos ameríndios.
A esse respeito, Laplantine (2004) esclarece que a compreensão da medicina
indígena sobre o processo de adoecimento e as doenças em si é relacional, ou seja, envolve
o apenas o indivíduo e seu organismo, mas sua relação com seu ambiente, e até suas
crenças, tomam parte como fatores causais ou vetores para os males conhecidos.
Pode-se cotejar essa proposição com os achados do recente estudo de Ferreira &
Gutfriend (2007) sobre o alcoolismo numa aldeia indígena guarani, em que os autores
verificaram que as representações do problema, para os membros da tribo, envolveriam o
contato com o branco, a quebra das tradições e a interferência de espíritos, o sendo, de
modo algum, um problema individual de quem consome o álcool.
61
Com base nessa compreensão social da doença, não é difícil se entender por que os
processos curativos, nas culturas indígenas ameríndias, envolviam rituais coletivos mais que
um saber diretivo, uma vez que, sendo o problema o particular, mas difuso, a figura do
curador funcionaria apenas como intermediária entre as suplicas dos participantes e as forças
sobrenaturais. Não se pretende negar, entretanto, com essa afirmação, a importância do
conhecimento de diversos processos terapêuticos e fitoterápicos dentro dessas culturas.
Discorrer sobre da medicina da outra matriz componente, a cultura européia, seus
modos de compreensão do adoecer e do tratamento, também guarda dificuldades, mas desta
feita pela grande quantidade de registros históricos e de diferentes vertentes possíveis para
interpretação. De modo geral, e para os fins desse trabalho, de acordo com as referências
utilizadas, sobretudo Foucault (2006), é possível se falar de cuidados com a saúde de maneira
mais unitária a partir do Renascimento, período em que começa o processo da colonização
portuguesa no Brasil colonial. Deve-se também reconhecer que a medicina erudita não era
então menos mágica que a popular, como afirma Freyre (2002), havendo nas atuações dos
dicos, até o fim do século XIX, uma sobreposição de práticas cientificas e religiosas,
conforme esclarece Figueiredo (2002).
Nesse período, os médicos eram poucos no Brasil, o registro do primeiro “físico”
data de 1543 (SANTOS FILHO, 1966) e o tratamento de doenças cabia, sobretudo, a
mulheres, chamadas comadres (FREYRE, 2002), e as terapêuticas eram uma mescla de
conhecimentos práticos sobre o efeito de chás e ervas, além de orações e benzeduras,
coerentes com o catolicismo popular (OLIVEIRA, 1985). Como atestam Foucault (1979,
2006), Starr (1991) e Singer et al (1978), sabe-se que, também nesse período, tanto na Europa
quando no Brasil, os cuidados à saúde não eram exclusividade dos médicos, mas dispensados
ainda por familiares ou religiosos aqui, sobretudo, os jesuítas.
O fortalecimento dos Estados Nacionais europeus e todas as mudanças político-
econômicas decorrentes desse e de outros fatos históricos geraram modificações que
culminaram na oficialização, pelo Estado, dos médicos como os cuidadores preferenciais da
saúde e, conseqüentemente, da perseguição a outras práticas de medicina. As obras de autores
nacionais como Oliveira (1985), Scliar (1987) e Camargo JR. (2003), ou de estudiosos
estrangeiros, como Foucault (2006), Starr (1991) e Szasz (1978), podem, desde diferentes
concepções, apresentar um apanhado pormenorizado dessa transformação a partir de
parâmetros sócio-histórico, histórico-político ou epistemológico, e filosófico-cultural, sócio-
econômico e sócio-psicológico, respectivamente.
62
Quer no contexto europeu, norte-americano ou colonial brasileiro, essa seqüência do
cuidado privado ao público se mantém, mesmo com todas as respectivas especificidades
sócio-históricas. Recapitular a passagem dos cuidados com a saúde de um âmbito familiar ao
profissional (STARR, 1991) representaria mais uma bifurcação. Para evitar esse desvio,
sugerem-se as obras acima citadas, que proporcionam informações suficientes, cada uma com
seu estilo próprio, de como dispositivos poticos associados a ou a serviço de forças
econômicas processaram ao longo do tempo tais mudanças.
A passagem que se segue, da lavra de Singer et al (1978), merece, porém, destaque
por sua objetividade ao sintetizar qual a força motriz da apropriação da saúde pelo Estado, de
quem a medicina oficial figura como representante: ao produzir saúde, portanto, o que os SS
[serviços de saúde] fazem é produzir condões materiais e psicológicas indispensáveis ao
desenrolar da vida potica, social e econômica em determinados moldes (SINGER ET AL,
1978, p.37). Desnecessário dizer que os moldes a que se refere são os da produção capitalista.
É fato, porém, que a oficialização da medicina erudita nunca excluiu a busca por
práticas alternativas de cuidados à saúde, e houve mesmo um período em que, até fins do
século XIX, o brasileiro tratava a medicina oficial com suspeição, fossem por um
desconhecimento das figuras dos médicos, fosse por uma descrença na ciência
(FIGUEIREDO, 2002).
A lida ocidental contemporânea com a saúde e o corpo assumiu, ao longo desse
longo e complexo processo histórico e cultural, as características que hoje a definem. Nas
palavras de Laplantine (2004, p.28), nossa sociedade “considera a doença uma aberração que
deve ser destruída”. Se o corpo é um veiculo a serviço da produção, as doenças que o
acometem m materialidade, são localiveis e é possível isolá-las: o exemplo mais
pertinente a esse modelo é o da infecção bacteriana, com agente reconhecido ocupando um
espaço e passível de erradicação (IDEM).
É evidente que nem todos os processos patológicos podem se adequar
satisfatoriamente a esse modelo, chamado pelo autor de ontológico porque, em oposição ao
relacional, tem forte caráter biológico. Claro está que esse não é o único modelo manifesto
em nossa sociedade. Tampouco se sugere que não variará, ou que não se conjuga com outros,
ou que foi sempre o mais comum desde o período colonial. O que se propõe, em consonância
com Laplantine (2004) é a maior tendência atual de que seja o mais prevalente. Os resultados
apresentados nesta dissertação sugerem que esse modelo está longe de ser o único, uma vez
que as representações da doença podem apresentar modelos sobredeterminados (IDEM), mas
é de fato tão demarcado que chega, em alguns momentos, a encobrir os demais.
63
Além disso, nessa forma de compreensão da doença, ao doente cabe um papel
passivo, enquanto o médico figura como detentor do saber sobre a doença e a cura, surgindo,
propriamente, o papel do paciente (CAMARGO JR., 2003). Eis aqui outro entendimento com
que corroboram os achados deste estudo.
Seguindo a ordem cronológica de chegada como componente cultural na formação
da cultura brasileira, segue-se um breve relato sobre a compreensão africana da doença e do
tratamento. Aqui, novamente, os estudos escasseiam, mas seu pequeno número é compensado
por sua grande qualidade. Servem de referência o clássico da antropologia dos anos 30,
Bruxaria, Oráculos e Magia entre os Azande, de Evans-Pritchad (2005), e o contemporâneo
estudo de Barros (2004) sobre a loucura entre o povo africano dogon.
Em ambos se percebe como as doenças quase sempre se relacionam a processos
externos ao corpo, quebras de tabus ou, mais freqüentemente, a feitiços ou bruxaria
conduzidos por desafetos e adverrios, ainda que, para tanto, recorram não a poções e
venenos, mas a forças sobrenaturais. A doença teria inegável caráter negativo e o doente
procuraria o terapeuta no sentido de erradicar o mal ou corrigir o desequilíbrio.
Segundo Laplantine (2004), haveria uma superposição de modelos, mas a
predominância de pelo menos dois: o aditivo/subtrativo e o mencionado relacional, na
medida em que o mal pode ser posto pelo feitiço tanto quanto retirado pela terapêutica
mas se refere a fatores integrados, e não a uma propensão do corpo ao adoecimento.
Os achados desta pesquisa indicam haver noções superpostas de todos esses modelos
de compreensão na doença mental e seu tratamento, indicativos dessa formação cultural
polissêmica, e que mostram a clara inflncia dessas três matrizes culturais. O sobrenatural, o
corpo como sede do sofrer, mas ligação do sofrimento com as relações ou com o meio, o
tratamento pela intervenção quase mágica do profissional, mas também a necessidade de um
ajustamento às expectativas sociais do meio. Todos esses fatores indicam o agregado cultural
que antecede as representações, mas também que sua ocorrência tem uma história.
Os culos XVII e XVIII assistiram, durante o período colonial, nas Minas Gerais,
primeiro ao período da extração aurífera e, depois, ao surgimento dos pequenos vilarejos na
Zona da Mata que, forneciam alimentos e animais para suporte da produção e escoamento do
ouro para o Rio de Janeiro. O povoamento que originaria a cidade de Ervália inicia-se nesse
mesmo período, num cadinho cultural de que participaram, primeiramente, portugueses,
índios e negros, e depois, já no final do século XIX, espanhóis e italianos.
Enquanto isso, na Europa praticava-se o que Foucault (2004) tão bem descreve: a
chamada grande internação, em que todos os desviantes sociais, fossem loucos ou não, eram
64
objeto de intervenção policial, mais que médica, e o alijamento do convívio social era
instituído como medida. Não será possível reproduzir com o mesmo estilo e detalhamento sua
descrição, e talvez sequer seja preciso. O leitor interessado poderá recorrer a sua obra,
insuperável até então. Aqui bastará fazer lembrar que o Brasil colonial desconhecia essa
instituição, sobretudo pela própria carência de dispositivos que a sustentassem: o primeiro
manimio do País foi criado apenas em 1852 (RESENDE, 2001).
De acordo com Resende (2001), a loucura no Brasil colonial era mais “silenciosa
que aquela descrita na Europa do mesmo período, tanto porque as famílias mais abastadas
podiam recorrer ao expediente de construir quartos apropriados onde os loucos ficavam
trancafiados (prática ainda não totalmente erradicada até hoje, diga-se, mesmo que o quarto,
em muitos casos, se resuma a uma corrente), quanto porque a vastidão do território diluía a
presença do louco.
Conforme Singer et al (1978), os doentes mentais no Brasil Colônia eram tratados de
acordo com suas condições financeiras, sendo os mais ricos mantidos em casa ou enviados à
Europa, e os pobres deixados pelas ruas ou trancafiados em cadeias, se agitados.
Curiosamente, esse fato coaduna com o relato de Dona Helenita Gomes de Castro,
historiadora e professora ervalense que, em entrevista particular para esse estudo, menciona
que na antiga cadeia municipal, que foi demolida para a construção da nova, morava apenas
uma louca, em que pese ser tal ocorrência datada já no século XX.
Merecem confiança os relatos que afirmam que, como regra geral, os cuidados
dispensados aos loucos no Brasil colonial e durante o Império variavam dos maus tratos ao
descaso. Informa Singer et al (1978) que, já em 1830, a Comiso de Salubridade da
Sociedade de Medicina do Rio de Janeiro protestava publicamente contra a desumanidade do
tratamento dado aos insanos.
De acordo com esse Singer et al, o primeiro hospício brasileiro teve sua criação
autorizada apenas quando da sagração do segundo imperador, em 1841, mas foi inaugurado
em 1852, chamando-se então Hospício Pedro Segundo, anexado à Santa Casa de
Miserirdia, essa por sua vez fundada em 1582. Resende (2001, p.37) relata que essa
instituição tinha capacidade para 350 pacientes e destinava-se a todo o Império o que
entende como “um contra-senso dadas as dimensões do terririo e as dificuldade de
comunicação” e que, começando com 144 internos, em pouco mais de um ano atingiu a
lotação total. A crescente demanda obrigava à construção de outros locais para a guarda dos
loucos. De acordo com levantamento de Singer et al (1978), seguiram-se as criações de
instituições semelhantes em São Paulo (em 1852), Recife (em 1861), Olinda (em 1864), na
65
Bahia (em 1874), Porto Alegre (1884), em Alagoas (em 1891), Belém do Pará (em 1892), em
Manaus (em 1894), no Cea(em 1886), Paraná (1890) e em Barbacena (em 1903). Como o
vilarejo de Ervália crescia no fim do século XIX, e com a maior proximidade geográfica, é
razoável pensar na possibilidade de que alguns de seus antigos loucos possam ter sido
internados nessa última cidade, cujo hospital-colônia recebia doentes de todo o Estado de
Minas Gerais (DELGADO, 2001), fato também reforçado pelo depoimento de Dona Helenita
Gomes de Castro.
Tratando do interesse que os doentes mentais despertavam nas autoridades, Resende
(2001) chega a resumir em uma palavra o que seria, em seu entendimento, a marca nacional
na assistência aos loucos: exclusão, conduzida mais pelo que classifica como tendências que
por políticas consistentemente planejadas.
Segundo Singer et al (1978), as primeiras medidas oficiais relativas à saúde mental
parecem estar incluídas na Reforma dos Serviços Sanitários do Império, conduzidas em 1885,
por ocasião da investidura do Barão de Mamoré como Ministro de Estado dos Negócios do
Império. Após a Proclamação da República, ainda durante a chamada República Velha, o
Hospício Pedro II foi desanexado da Santa Casa e rebatizado de Hospital Nacional dos
Alienados, sendo que em 1904 surge um novo regulamento da Assistência a Alienados que,
eliminando camisas de força e prisões, transformam o lunático em doente comum (IDEM).
No governo de Rodrigues Alves, em 1903, a Saúde Pública é entregue a Oswaldo
Cruz, enquanto a direção da Assistência a Alienados e a gestão do Hospício Nacional são
entregues ao psiquiatra Juliano Moreira (RESENDE, 2001), fato que merece destaque
histórico por associar a saúde publica ao alienismo. Com a criação do Ministério da Educação
e Saúde, em 1930, foi possível reformular a assistência aos psicopatas, já que a saúde passa a
ter legislação própria a partir de 1937 (SINGER ET AL, 1978).
A partir da década de 30, o cuidado aos doentes mentais, quando praticado, resumia-
se ao internamento em asilos, e, mesmo após a crião do Serviço Nacional de Doenças
Mentais, em 1941, os manicômios operavam todos em regime de superlotação, como
demonstram os relatos críticos realizados nos anos 50 (sobretudo a partir das experiências
conduzidas pela psiquiatra Nise da Silveira), sendo que os ambulatórios oficiais em que se
dispensava tratamento psiquiátrico clínico figuravam, em 1961, em apenas 17 em todo o
território nacional (RESENDE, 2001).
Sobre este peodo, é relevante o depoimento de Nise da Silveira (s/d), em seu livro
Terapia Ocupacional: teoria e prática, sobre o pouco interesse das autoridades, poticas e
administrativas, por uma forma de atendimento mais humanizado do doente mental: oficinas
66
terapêuticas como as que propunha poderiam significar uma forma de tratamento mais ativa,
em contraposição à mera internação dos loucos em manicômios, mas nunca chegaram a serem
sistematizadas nos grandes hospitais psiquiátricos, mesmo depois de decreto presidencial de
1961, que instituía a terapia ocupacional nessas instituições.
Nos anos 60 e 70, enquanto o número de internos em hospícios públicos mantinha-se
estável, viu-se um afluxo de internações em hospitais psiquiátricos privados: segundo
Resende (2001), foram internadas em clinicas privadas, em 1965, 35.000 pessoas e, em 1970,
90.000, constituindo-se tais internações o que chama de empresa hospitalar”. O mesmo autor
credita à avidez dessa indústria hospitalar o fato de as internações nesse período serem
prolongadas com tempo dio superior a mais de três meses e também a mudança no
perfil nosográfico dos pacientes psiquiátricos internados, com um aumento do número de
neuróticos e alcoolistas, e interpreta que isso pode evidenciar que os desviantes encontravam
na internação psiquiátrica uma resposta social de exclusão.
Curiosamente, é durante o Regime Militar que surgem as primeiras propostas para
uma reformulação da saúde mental no Brasil, motivadas, sobretudo, por críticas a esse
esquema, considerado dispendioso e cronificador, de internações em clínicas particulares
conveniadas, o que passou a ser conhecido como “indústria da loucura” (RESENDE, 2001,
p.62).
Resende (2001) acredita que o aquecimento da economia, a partir de 68, e a
necessidade de absorção de mão de obra não deixaram de interferir nas propostas que
passavam a mencionar que os doentes deveriam, preferencialmente, ser mantidos em suas
comunidades e respeitados seus vínculos com o trabalho, mas o fato é que a as internações
passaram a ter durão inspecionada e o número de encaminhamentos foi reduzido de
impressionantes 36% para 12% em cinco anos (IDEM).
Foram tomadas algumas iniciativas que acenavam para uma mudança de bitos: os
Estados de Pernambuco e Minas Gerais foram pioneiros na criação de centrais para disciplinar
as internações, sobretudo resistindo à pressão dos chamados casos sociais, em Santa Catarina
e Rio Grande do Sul surgiram iniciativas de impedir o afluxo de pacientes do interior para a
capital, mantendo-os em suas localidades, enquanto em São Paulo ficaram proibidas as
internações no abarrotado hoscio do Juqueri (RESENDE, 2001).
Foi apenas em 1972 que o Ministério da Saúde aderiu ao discurso crítico. Através de
documento assinado em Santiago do Chile, conjuntamente, pelos ministros da saúde dos
rios paises latino-americanos, foram lançadas as diretrizes norteadoras da assistência
psiqutrica no Brasil, recomendando a diversificação da oferta de serviços, sua
67
regionalização, propondo alternativas à hospitalização, condenando os grandes manicômios e
sugerindo campanhas para a reintegração dos pacientes cronificados. O mesmo autor informa
sobre a não continuidade dessas propostas a partir de 1974, devido, sobretudo, à perda de
legitimidade do governo militar, quando se chega ao fim do período que ficou conhecido
como “milagre econômico” (IDEM).
O conjunto dessas medidas poticas acabou por trazer como conseqüência um
considerável incremento das internações psiquiátricas a partir dessa data, mormente de
categorias desfavorecidas, descritas em prontuários, segundo o ramo de atividade exercida,
como “mal definidos e sem declaração”, evidenciando o caráter de “recolher e excluir os
dejetos humanos da sociedade” (RESENDE, 2001, p.69).
Novamente a situação de abuso volta a despertar críticas, e a classe dica
psiqutrica, aderindo às reformas que vinham ocorrendo na Europa do pós-guerra e Estados
Unidos a partir da década de 60, iniciam o movimento conhecido como
desinstitucionalização, ou, como foi chamado no Brasil, luta anti-manicomial.
Esse movimento tem suas raízes na Itália, quando a reforma à assistência aos doentes
mentais internados em manicômios públicos passou a questionar a atuação da psiquiatria
depois de constatar que esses pacientes “eram quase exclusivamente oriundos das classes
populares: desempregados, migrantes, filhos de subempregados, pacientes portadores de
patologias físicas, etc” (DELGADO, 2001, p.178). Quadro muito semelhante ao do Brasil,
que adere ao movimento reformista no fim dos anos 70, depois de a opinião pública ser tocada
por uma série de reportagens do jornal O Estado de Minas sobre a condição sub-humana dos
internos do Hospício de Barbacena, por ocasião, em 1979, do III Congresso Mineiro de
Psiquiatria, que recebeu a visita de Franco Basaglia, psiquiatra italiano que liderava a reforma
naquele País (IDEM).
Seguiram-se, então, uma série de medidas, assumidas mais pela ideologia dos
profissionais que as conduziam que por determinações legais, visando mudar o cenário
vigente, e as experiências em Santos, e, São Paulo, e Belo Horizonte, em Minas Gerais, foram
pioneiras: a criação de ambulatórios que funcionassem como alternativas de tratamento às
internações. Medidas oficiais teriam que aguardar quase uma década.
O marco oficial dos processos de reforma à assistência em saúde mental na América
Latina foi a Declaração de Caracas, de 1990, que, em encontro de autoridades da saúde de
diversos paises reunidas nessa cidade, propunha, em linhas gerais, a racionalização dos
atendimentos, sua humanização e regionalização (BRASIL, 2002).
68
O Brasil adere em seguida a essas proposições, e uma série de portarias dá chancela a
medidas que vão desde o controle do tempo de internação ao realocamento de recursos para o
atendimento em ambulatórios de saúde mental, preferencialmente às internações em hospitais
psiqutricos. Portaria da Secretaria Nacional da Assistência à Saúde (SNAS) de 1992 a
portaria 224 já determinava que o atendimento preferencial deveria ser oferecido em
ambulatórios e por equipe multiprofissional, regionalizando os tratamentos no que definia
serem os NAPS/CAPS (Núcleos/Centros de Atenção Psicossocial): unidades de saúde
locais/regionalizadas que oferecem cuidados intermediários entre o regime ambulatorial e a
internação hospitalar (IDEM).
Mas a lei federal que garante os direitos dos portadores de transtornos mentais,
assegurando tratamento local e condenando a internação compulria, a lei 10.216, foi
aprovada apenas em 06 de abril de 2001, doze anos após ter dado entrada no Congresso
Nacional.
Como um de seus princípios e diretrizes, na reorientação do modelo assistencial em
saúde mental, o relatório final da III Conferência Nacional de Saúde Mental, realizada em
Brasília em 2001, expressava a meta de garantir a extinção, até 2004, de todos os leitos de
hospitais psiquiátricos no País, consolidando o projeto do que chamava de “Sociedade sem
Manicômios” (SUS, 2002, p.25). É sabido que essa meta, critivel ou defensável, não foi
atingida e que, salvo exceções, que, felizmente, não são poucas, o tratamento ao louco
continua sendo a exclusão, mais ou menos velada, se o do hospício, de outras formas de
silêncio.
Espera-se, com esse resumo da história da atenção ao chamado “loucono Brasil,
proporcionar um entendimento das circunstancias e da importância da criação de um serviço
de saúde mental numa cidade interiorana como Ervália, além de se chamar a atenção para a
necessidade continuada de reflexão sobre suas necessidades sociais e dos direitos a serem
concedidos.
4.3- As imagens da loucura numa cidade do interior
O presente tópico tem como fontes o livro de Rezende (2006) e as preciosas
informações coletadas em comunicação pessoal com a historiadora e memorialista ervalense
69
Helenita Gomes de Castro
1
, que relatou, em outubro de 2009 e março de 2010, os dados que
se seguem.
A coleta desse depoimento baseia-se na consideração de que o exercício mnemônico
de um indivíduo terá valor maior que a mera finalidade de reconstituição de um passado
pessoal, na medida em que memórias compartilhadas, como no caso das que envolvem
personagens de uma localidade associados à loucura, constituem o que Halbwachs (1990)
chama de lembrança coletiva e que decorrem do que nomeia como comunidade afetiva,
formada por conterrâneos ou contemporâneos que dividem experiências e valores culturais.
Este autor afirma que “nossos sentimentos e pensamentos mais pessoais buscam sua fonte nos
meios e nas circunstâncias sociais definidas” (HALBWACHS, 1990, p.36), de modo que “só
temos capacidade de nos lembrar quando nos colocamos no ponto de vista de um ou mais
grupos e de nos situar novamente em uma ou mais correntes do pensamento coletivo
(IDEM).
Ervália, como muitas outras cidadezinhas, se não todas, tem seus personagens
folclóricos, quase todos conhecidos por traços que os diferenciam, que os destacam dos
demais. Essa diferenciação, que não fica muito longe da esquisitice, já recende a loucura. Não
que se pretende alegar que no fundo das estranhezas haja a loucura, mas, com o que se relatou
acima, mormente com base em Foucault (2004), dá-se exatamente o contrário: a
peculiaridades de idiossincrasias humanas são muito facilmente notadas como doença mental.
Por isso, nessas cidades, o tido como louco, com suas marcantes excentricidades, tem grande
chance de estar fora dos padrões sociais, indicadores de estabilidade, quais sejam, trabalho,
casamento e inserção social.
Como o caso, relatado por Rezende (2006), do conhecido Euclides Frankiln Jr.,
autodidata e poliglota, que dormia de dia e trabalhava de noite, consertando rádios, e por isso,
pouco saia de casa. Seus hábitos de vida menos convencionais lhe renderam um lugar entre as
figuras excêntricas do município.
Dona Helenita possui diversos relatos sobre a loucura na cidade nas suas palavras,
e brincando com o dito popular, “cada doido com a sua mania inclusive de muitos casos de
suicídio no Rio Turvão. Muitas pessoas passaram a ser conhecidas como loucos famosos nas
historietas populares da cidade, e os casos mais antigos remetem aos anos 30.
1
Cabe dizer que Dona Helenita foi presidenta do Conselho Municipal do Patrimônio Cultural de Ervália, órgão
vinculado à Prefeitura Municipal em atividade na cidade desde 2003, e é possuidora de reconhecido acervo
particular sobre a história do município.
70
Nessa década, sabe-se da existência de dois personagens, JoEmygdio, redator de
um jornal local, considerado muito inteligente, mas que, em crises episódicas, “ficava nu e
usava gravata” morreu supostamente louco vinte anos depois, internado em hospício em
Barbacena e a andarilha Malvina, que, vestida como cigana, tinha crises durante as quais era
recolhida em uma cadeia de madeira chamada “sapucaia” nome que hoje batiza um bairro
simples da cidade. Aparecem, nesses dois casos, componentes freqüentes da loucura no
imaginário popular: a doença advinda de uma sobrecarga mental, esforço intelectual ou
inteligência destacada, fatores até certo ponto positivos, mas que seriam diferenciadores
naturais da dia, e a loucura como processo perigoso, que requer a contenção do louco,
inclusive em cela.
Os relatos saltam depois para os anos 60, período em que a lista se robustece,
chegando a uma dezena de nomes. Personagens cujas histórias de vida foram eclipsadas pelas
condutas estranhas que manifestavam, e que ficaram conhecidos não pelo sofrimento por que
podem ter passado, mas pelo riso ou surpresa que causaram.
Algumas expressões típicas são oriundas de seus hábitos, como no caso de João
Laurindo, que costumava repetir insistentemente que ia se casar no sábado seguinte e, quando
alguém o confrontava com a não realização de seu casamento imaginário, repetia “sábado
sai”, expressão usada em Ervália quando algo é demorado. Maria Doida, mendiga que andava
com uma cruz, Babão, Saravá Piquitote, e Maria Rosa são alguns dos pedintes que ficaram
conhecidos como loucos, assim como o andarilho Tobias, a moradora do albergue da cidade,
Nega (Niltinha, que gostava de passar roupas), e Rosa, Sinhana do Beco (glutona
conhecida da época) e Felipa (que, como a Volpina do Amarcord, de Fellini, gostava de se
banhar no rio).
Tobias e Maria Rosa gostavam de “jogar pedra”, expressão muito associada
popularmente à loucura: o “louco de jogar pedra” é a um tempo indicativa da alteração
mental, uma vez que pessoas “normais” não saem por ai jogando pedra, como também da
gravidade do problema, uma vez que se trataria de uma atitude agressiva. O que a expreso
o esclarece é o contexto da cena: é conhecida a forma como esses desviantes são tratados
ainda hoje, motivos de brincadeiras e escárnio. Muito freqüentemente, as respostas a esse
tratamento repetitivo e continuado são uma indisposição prévia, baixa tolerância a pequenas
provocações e irritabilidade. A cena da pedra como arma do louco, e o ato de jogá-la como
indício de sua loucura são tão fortes no imaginário popular, que o cancioneiro de raiz já lhe
rendeu homenagem, na música João Bobo, da dupla sertaneja Tião Carreiro e Pardinho,
71
composta por Carreirinho e Godoy, cuja trágica letra descreve um louco que, para se
defender das zombarias de que é vítima, atira uma pedra que mata uma criança.
Nos anos 80 e 90 são mencionadas sete pessoas, duas das quais moravam no
albergue: Mariquinha Pereira (que pedia presentes de aniverrio a todos, e achava que
aniversariava diariamente) e Maria Popoa (que se considerava dona de tudo); havia os que
tinham algum esboço de trabalho, ou passado de trabalho: Pedro Lage, morador da casa
paroquial, sempre trajando um terno, vendedor de quitandas, passou a ser conhecido como
Pedro Suspiro; o ex-policial Zé-Parafuso, que discursava sobre potica no coreto da praça
principal e, supostamente, batia na mãe (outro indicativo, pela transgressão que representa, de
loucura grave); mas todos tinham em comum essa marca, a estranheza dos atos, evidente nos
casos do Viuvinho Tal-tal, com seu eterno guarda-chuva em punho, Salina e sua mania de
reclamar de doença e Trajano, que conversava com seu cavalo gerando a expressão local
cavalo de Trajano”, usada para se referir às pessoas que seguem as outras.
Por motivos éticos não serão mencionados os personagens ainda vivos e que são
conhecidos na cidade como loucos. Pelo menos dois dos onze nomes arrolados por Dona
Helenita estiveram em tratamento no NAPS-Ervália, e pelo menos mais dois passaram por
uma avaliação nesse serviço, consistindo em mais motivos para que não sejam relatadas suas
histórias aqui. Fica, entretanto, o registro de como o tratamento que recebem de crianças e
muitos cidadãos não difere do que se relata ter sido o dispensado aos loucos de antigamente:
ainda o motivo de troça, apelidos pejorativos ou escárnio.
Pereira (2002) apresenta um estudo introdutório sobre a insanidade e os valores que
se depreendem do modo como o louco é visto nas sociedades ocidentais. No que concerne à
loucura, encontram-se estigmas que inferiorizam, demonizam e animalizam os doentes
mentais, que estão, freqüentemente, de modo temporário ou definitivo, afastados da produção,
do trabalho ou da estabilidade de um vínculo social constituído a partir da produção
capitalista. O estigma recai sobre quem está à margem da produção e socialmente inadequado,
o que justifica e favorece esse tipo de tratamento desrespeitoso por parte de uma parcela da
sociedade.
Para Szasz (1978), o doente mental ocupa o mesmo lugar destinado a outros
desviantes em suas respectivas culturas em dados momentos, seja a bruxa ou o homossexual.
Ao perder seu contorno personalizado e tipificar caracteres tidos como anormais, funciona
como um bode expiatório e presta-se ao enaltecimento dos valores positivos de uma
sociedade. Sua eliminação como símbolo atenderia a um deslocamento da erradicação do mal
72
que representam e, para tanto, sua construção cultural engloba muitos dos valores negativos
contra os quais o grupo se posiciona, desvelando seus valores positivos. Também aqui o
imaginário popular sobre quem são os bodes-expiatórios revela a visão de mundo do grupo
nos valores envolvidos na eleição dos mesmos. O que remete à afirmação de Jodelet (2001,
p.36) de que a representação tem um “caráter prático, isto é, orientado para a ação e gestão da
relação com o mundo.
Uma figura que tipifica bastante claramente o lugar social do louco como
estigmatizado, inferior, desviante e bode-expiatório na medida em que é objeto de escárnio
social é a do louco andarilho, muito comum em várias cidades do interior, pois, por sua
dimensão e configuração, é possível aos moradores segui-lo, vigiá-lo e dizer que passou por
aqui e foi por ali. Na maioria das vezes sem família que se ocupe de seus cuidados, sem
trabalho estável ou de reconhecimento pelo grupo, ou sem endereço fixo, fica sujeito à
caridade de certas instituições muitas vezes religiosas, sobretudo a Igreja Católica ou à
benesse de particulares políticos, mandatários, beatos, etc. O andarilho seria, enquanto tipo,
um antípoda do coronel, no mundo rural.
A estigmatização desses sujeitos desvela a normatização proposta através da visão de
mundo do grupo, expressa por seus valores, quais sejam, trabalho, família e sociedade. Assim,
aqueles que são doentes ou preguiçosos e estão, portanto, fora da estabilidade dos ocios e
ocupações, desviam-se em relação aos preceitos capitalistas de produção, o que lhes dificulta
a formação de falia (foco de organização social) e impede não apenas a troca de bens
produzidos, mas a vinculação a um lugar bem marcado na sociedade. Dessa forma,
encontram-se fora dos campos definidores do humano: trabalho/produção,
família/estabilidade e sociedade/pertença.
No caso particular dos tidos como loucos, sua função de expiação não tem mais a
radicalidade da destruição ritual, mas aparece, mal velada, no tratamento desrespeitoso que
recebem de muitas pessoas, e não apenas de crianças: sua conduta aberrante é muitas vezes
mencionada, ainda que em sua ausência, quando se quer atingir a alguém, comparando-o ao
louco.
Verificam-se, então, duas funções, correlatas, na verdade, mas que podem ser assim
separadas: 1) objeto direto de escárnio, que exemplifica o destino dos desviantes função
educativa para crianças e oportunidade de exercício coletivo de pules sádicas e 2) padrão
negativo de comparação para aqueles que, dentro da norma, encontram ocasionalmente o
risco de tocarem suas bordas.
73
Não foi possível neste trabalho averiguar o quanto a presença de um serviço de saúde
mental na cidade poderia ter interferido na percepção desses “loucos” por parte dos cidadãos,
uma vez que o público estudado, ainda que representativo dessa coletividade, o a engloba, e
ainda tem uma característica peculiar, que é o parentesco com um doente mental.
Entretanto, sabe-se que uma personagem contemporânea muito conhecida por se
despir na rua, depois de seguir o tratamento e não mais manifestar essas atitudes, causou
espanto na comunidade por sua melhora, mas não se pode tomar esse caso isolado, nem o
relato de poucos comentadores, como significativo de mudanças consistentes, até porque a
presença de um ambulatório de psiquiatria não tem o poder de, por si só, mudar o preconceito
cultural de uma localidade. Contudo, pode-se dizer que o impacto do serviço tornou-se, assim,
evidente.
A aqui se tentou um apanhado geral, simples resgate histórico da loucura na
memória da cidade. Note-se que a biografia dos personagens envolvidos quase se resume aos
traços definidores de sua loucura. A história da doença mental em Ervália, porém, não se
encerra com essas pessoas.
A criação do NAPS acabou projetando a possibilidade de tratamento local, vantagem
inegável do ponto de vista de acesso a serviços de saúde, ainda que não isenta de críticas,
como as construídas por Singer et al (1978), comentadas anteriormente nessa dissertação. Se
for considerado o número de pacientes avaliados mais de 700 em 08 anos mesmo que não
estejam todos em tratamento ativo, não se trata de um número pequeno, sobretudo quando se
considera que o preconizado pela lei que regulamenta o atendimento ambulatorial em saúde
mental é de 30 pacientes por equipe (BRASIL, 2002).
Além disso, há que se destacar que, de acordo com as diretrizes para a assistência em
saúde mental no País (BRASIL, 2002), Ervália conseguiu pelo menos criar um serviço
regionalizado. O NAPS-Ervália foi inicialmente composto por equipe multidisciplinar
constitda de um enfermeiro, um psicólogo e um psiquiatra. Sua configuração sofreu
algumas mudanças, marcadas, sobretudo, pela eliminação do enfermeiro, pela aquisição de
mais um psilogo e da substituição do profissional da medicina: passaram pelo serviço
quatro diferentes psiquiatras e, desde o ano passado 2009 sua condução tem cabido a um
clínico geral. Note-se que o NAPS-Ervália comou a operar menos de um ano após a lei que
norteia a atenção ao doente mental, tendo contado, em sua inauguração, com a presença do
deputado Paulo Delgado, relator do texto da lei.
74
4.4 - O NAPS-Ervália: história e funcionamento
O NAPS-Ervália surgiu em 2002, como forma de cumprir determinações legais, mas
também humanizar o atendimento à saúde mental no Município. razões para se crer que a
segunda motivação superava a primeira em força: a lei ainda não impôs aos municípios
vizinhos as diretrizes que em Ervália vigoram 08 anos. Para uma idéia mais clara disso,
note-se que o CAPS de Viçosa surgiu em 2003, e que cidades como Coimbra, São Miguel
do Anta e Araponga, para mencionar poucos e mais próximos exemplos, ainda o dispõem
desse tipo de serviço.
De acordo com Onocko-Campos & Furtado (2006), os transtornos mentais
representam 12% das doenças, mas os investimentos da maioria dos países com a saúde
mental não ultrapassam 1% de seus gastos totais com saúde, 40% carecem de poticas
consistentes em saúde mental e 30% sequer possuem programas dirigidos à área. Informam
que o número de NAPS e CAPS no Brasil saltou de 160 em 1995 para mais de 500 em 2004.
Segundo esses autores, a importância que assumem os dispositivos de atendimento
ambulatorial dentro de perspectivas anti-manicomiais, como os CAPS e NAPS, mostra a
especial relevância dada a essas estratégias na reversão do modelo hospitalocêntrico: se as
internações removiam e esgarçavam laços sociais, os NAPS e CAPS, sobretudo se articulados
com os Programas de Saúde da Família (PSFs) , garantem a criação ou a manutenção de redes
locais de saúde mental, tanto institucionais quanto sociais.
Recapitular a história do NAPS-Ervália é, portanto, uma forma de reconhece-lhe
importância e demarcar sua identidade. E essa história começa numa casa simples do bairro
Vale do Sol. Foi nesse bairro recém nascido (as primeiras casas que ocuparam o terreno de
uma fazenda que antes servia para o evento da Festa da Cidade, surgiram no fim da década de
90, e, em 2002, as ruas ainda eram marcadas por muitos terrenos vazios) que o serviço teve
seu primeiro endereço.
O NAPS ocupava todo o segundo pavimento de um sobrado construído fazia pouco,
e podia contar com o quintal do primeiro pavimento para fazer o que seria uma primeira
oficina de terapia ocupacional, a horta. Havia uma sala de espera, três quartos (um para o
atendimento de cada profissional), uma cozinha e banheiros. Compunha-se então de uma
equipe pequena, mas muito coesa, unida, sobretudo, pela afinidade ideológica de um
tratamento que recorresse o mínimo possível ao expediente da internação psiquiátrica.
Havia um psilogo (a quem cabiam os atendimentos psicológicos de pacientes e
familiares), um psiquiatra (responsável pela condução clínica dos tratamentos) e um técnico
75
em enfermagem (a quem competia orientar sobre uso de fármacos, administrar medicações
injetáveis, quando necessárias), além de uma assistente social (que, mesmo alocada em outro
posto da Prefeitura, acompanhava alguns pacientes em risco social).
Os atendimentos psicológicos ocorriam todos os dias da semana, em um turno, o
psiqutrico uma vez por semana, em dois turnos seguidos, e os de enfermagem e assistência
social, quando necessários, nos respectivos horários de funcionamento. Pretendia-se iniciar
com um blico definido de aproximadamente 45 pacientes a serem encaminhados de Ubá,
mais outros casos de necessidade aguda. Reconhecia-se que, com o aumento do número de
usuários, seria preciso ampliar o horário de funcionamento.
No primeiro ano de atividade, a tarefa que se impunha era assistir aos doentes
transferidos do CAPS-Ubá e alguns que vinham de internações em hospícios de Juiz de Fora e
Leopoldina, de modo a dar-lhes a segurança necessária num momento delicado que seria a
mudança do tratamento, como também auxiliar as suas famílias no seu acolhimento.
O trabalho, portanto, envolvia não atendimentos médicos, mas esclarecimento
quanto ao modo adequado do uso de fármacos, à maneira de lidar com os pacientes e a
importância das vindas regulares ao NAPS. Conseguir a adesão desse grupo era crucial para o
objetivo a que o NAPS se prestava, mas também era preciso assistir aos casos emergentes,
pois não se justificava encaminhar esses novos pacientes para Ubá. Havia, pois, os pacientes
antigos e os novos, os casos crônicos e os agudos.
Nessa etapa da implementação do NAPS alcançou-se uma adesão bastante
satisfatória dos pacientes ao tratamento, sobretudo no que concerne aos pacientes transferidos,
mas a implementação de oficinas ficou muito aquém das expectativas: a horta tinha poucos e
irregulares adeptos, a oficina de canto era errática e a de pintura nunca pode estender sua
função para além de algumas crianças acompanhadas pelo psilogo.
Uma possibilidade de entendimento desse fato seria, além de limitações técnicas da
equipe, a própria representação da doença por parte dos usuários, na medida em que se crê
que dificultaria a propensão ao trabalho, e as oficinas proposta, até pelo nome, remetem a
labor.
Quando se contava aproximadamente um ano de funcionamento, a visita de uma
especialista em deficiência auditiva que veio à cidade para participar de um evento promoveu
uma primeira mudança. A visitante, sensibilizada com a questão da inclusão e acessibilidade,
comentou com a equipe do NAPS que as escadas que levavam ao segundo andar poderiam
impor alguma restrição para o acesso de pessoas doentes, idosas ou com qualquer dificuldade
de locomoção.
76
Esse comentário, associado à percepção dos desdobramentos de um serviço
destinado à população discriminada ocupar um bairro de periferia, acabou por conduzir a uma
rápida mudança de endereço, articulada pelo psicólogo da equipe com o apoio do prefeito
municipal, para uma ampla casa de um pavimento na principal rua da cidade, em seu
centro comercial. Compunha-se, como antiga casa de morada que era, de duas salas contíguas,
que funcionavam como salas de espera, um quarto maior, que era usado para palestras e
reuniões, um quarto menor que funcionava como repouso e posto de enfermagem e dois
outros quartos em que se davam os atendimentos psicológicos e psiquiátricos. Completavam-
na uma pequena cozinha, banheiros e uma área coberta ladeada por uma despensa, em que
funcionariam as oficinas.
O resultado dessa mudança foi interessante. Os pacientes e seus familiares
comaram a afluir ao NAPS de modo diferente, agora não mais chegando apenas para as
consultas e partindo logo em seguida. Costumavam chegar mais cedo, para verificar se
podiam ser atendidos, pois uma medida que se tomou nesse período foi abolir parcialmente a
rigidez das horas marcadas (tempo) para cada consulta, pois muitos pacientes não se atinham
ao relógio; atendê-los, portanto, de acordo com sua chegada causava-lhes menos
constrangimento e, se acaso tivessem que aguardar uma pouco na sala de espera, isso podia
ser motivo de conversas e contatos com companheiros e colegas. Muitas vezes circulavam
pela cidade enquanto aguardavam atendimento, com ou sem seus familiares, que
aproveitavam o dia e a localização do NAPS para fazerem compras.
A maior permanência dos usuários no serviço ocasionou que suas depenncias se
tornassem mais vivas, que as conversas entre os usuários ficassem mais freqüentes e que o
espaço adquirisse mais aspecto de casa que de ambulatório. Havia alguma vez em que os cães
que acompanhavam seus donos ao tratamento entrassem para as salas de espera ou mesmo
para os consulrios.
Essas observações reforçam a impressão do Nise da Silveira sobre a importância do
contato entre doentes mentais e animais (SILVEIRA, s/d). Não é possível mensurar, mas é
possível supor que a maior visibilidade de um serviço destinado a doentes mentais (espaço),
quando alocado num ponto privilegiado da cidade, pode ajudar a mudar, no imaginário
popular, a estigmatização do louco, mas esse objetivo escapou aos definidos para este estudo.
Mais uma vez, porém, não é demais ressaltar o quanto disposições geográficas podem
interferir nos meandros do psiquismo.
Outro detalhe que merece destaque: como essa casa dispunha de um imenso quintal,
em que se destacam alguns pés muito antigos e altos de mangueiras, o psilogo, afeito à
77
jardinagem, e o técnico em enfermagem se ofereceram para, voluntariamente, cuidar do
jardim aos fins de semana. O NAPS ganhava então o que seria à época um dos mais belos
espaços de Ervália, com pingos-de-ouro e ibiscos ladeando os grossos troncos das árvores,
enquanto o branco do cascalho, tão comum nas estradas rurais mais bem cuidadas, desenhava
as áreas de circulação. Em muitas ocasiões, os atendimentos a pacientes deprimidos ou
paranóicos provenientes da zona rural se deram sob a copa dessas árvores, num formato mais
de conversa que de consulta, aproximando-se do que sugere Lancetti (2008) ser uma clínica
de circulação, peripatética, não restrita ao consultório, local em que, tradicionalmente, o
psiquiatra exerce seu poder.
Nessa casa alcançou-se quase triplicar o número de pacientes assistidos, que
saltaram, entre 2002 e 2005, de 45 iniciais para em torno de 190, o que, se por um lado
merece críticas quanto à quantidade ideal de usuários atendidos por equipe, por outro lado
revela a grande demanda por atendimento em saúde mental e as condições, mais idealistas que
ideais, nas quais ainda operam muitos serviços municipais de saúde.
O bom funcionamento do NAPS-Ervália acabou por trazer para a cidade alguns
pacientes de Coimbra, que usavam o CAPS-Ubá e foram transferidos, por acordo entre os
Municípios, para Ervália, visando às mesmas comodidades, mas mudanças de gestores
municipais em ambas as cidades acabaram por romper com essa parceria, que durou
aproximadamente um ano.
Uma primeira mudança na equipe se deu após três anos de funcionamento, em 2005,
quando o técnico em enfermagem foi dispensado, surgiu o cargo de recepcionista, mais um
psicólogo foi incorporado e foi substitdo o psiquiatra, que passaria a atender apenas em um
turno.
Nova mudança na equipe se deu em 2006, também por substituição desse
profissional, e em 2007, quando se deu outra substituição do psiquiatra. Conta-se, portanto, a
passagem de quatro psiquiatras pelo NAPS-Ervália, sendo três formados pela UFJF e outro
pela UFMG, ambas reconhecidas universidades de Minas Gerais. Note-se que, geralmente, a
permanência de cada um deles fica em torno de um ano, aproximandamente.
Em 2007 o NAPS mudou novamente de endereço, e em 2009 passou a ocupar, na
mesma rua, a casa ao lado, onde se encontra desde então, na região central, muito próximo à
praça principal e paralela à rua em que estava localizado. Esta casa consta de uma sala
pequena, contígua à copa, ambas funcionando como sala de espera, além de dois quartos em
que acontecem os atendimentos médicos e psicológicos, e ainda uma cozinha, banheiros e
área coberta, posterior à cozinha, além de quartinho de repouso. Não há jardim e o quintal não
78
tem maiores cuidados. As oficinas de terapia ocupacional o têm sala especifica e, em
consonância com o ocorrido desde sua criação, não têm no NAPS-Ervália maior
expressividade.
Durante a pesquisa de campo, a observação da conduta dos usuários na sala de
espera, reforçada por depoimentos, permitiu notar que o tempo de permanência nas
acomodações do NAPS parecia restringir-se à espera e duração dos atendimentos, o que pode
sugerir uma mudança na relão dos mesmos com o ambiente, que volta a ter mais ares de
ambulatório que de casa.
Quando essa pesquisa estava em andamento, o psiquiatra responsável pelo NAPS
demitiu-se segundo um funcionário, por insatisfação com a postura dos usuários, que
queriam laudo”, documento necessário para se conseguir o benefício do INSS. Houve então
a primeira substituição, em 2009, do especialista por um cnico geral, que permaneceu na
função por menos de seis meses, sendo substituído por outro clínico, que ainda atua no
serviço.
Não cabe aqui julgar a necessidade de um especialista num serviço de saúde mental,
até porque se deve reconhecer que um clínico geral experiente terá conhecimentos também no
campo da psiquiatria, que a ocupação da função por um generalista é melhor que o
encerramento dos atendimentos e que, como já dito anteriormente, as condões ideais nem
sempre são mais potentes que as imposições da realidade.
A equipe do NAPS-Ervália conta atualmente, então, com um recepcionista (que
trabalha todas as manhãs), dois psilogos (um deles trabalha um turno por dia e outro se
reveza entre o NAPS e outro órgão municipal) e um clínico geral. Segundo o funcionário
responsável pelas marcações de consultas, este clínico atende, numa manhã por semana, a 15
pacientes por vez, o que indica alguma dificuldade de agendamento e uma espera longa pela
assistência, fato facilmente captado pelas observões e depoimentos colhidos.
Quando o texto desta pesquisa tomava sua conformação final, veio a informão de
que o NAPS-Ervália mudaria novamente de endereço, transferindo-se para a casa que
abrigava anteriormente o Conselho Tutelar da cidade, no mesmo bairro em que começou a
funcionar.
79
4.5 Caracterização do perfil dos usuários
Os prontuários dos pacientes, a principal das fontes da coleta de dados primários para
esta pesquisa, são as fichas nas quais ficam anotadas informações sobre os pacientes e seu
tratamento. Apesar de serem fichas dos pacientes, quem toma notas nelas é sempre o médico.
Seu conteúdo, muito diversificado, foi pesquisado, como se mencionou na
metodologia, mediante a procura, em campos específicos, de termos remetidos ao tema
loucura a e doença mental. Assim, no QUADRO 1, são mostrados os conteúdos analisados e
sua finalidade:
QUADRO 1: Conteúdo dos campos de prontuário pesquisados e finalidade para a pesquisa.
Item
Conteúdos
Finalidade
1
Referência: pessoa, instituição ou departamento que fez a
indicação do usuário para o tratamento
averiguar quais os profissionais e órgãos
parceiros do NAPS-Ervália;
2
Identificação: sexo, naturalidade, idade, estado civil,
número de filhos, escolaridade, local de moradia,
responsável e contato
Caracterizar a origem familiar e social do
usuário
3
Queixa principal: fala do paciente
Identificar palavras ou expressões típicas e
significativas de seu entendimento e
representações sobre a doença mental
4
Histórico do paciente: avaliação psiquiátrica e evolução do
tratamento
Identificar como os profissionais entendiam ou
traduziam as queixas e sintomas formais em
diagnósticos
Fonte: dados da pesquisa (2010).
Foi possível evidenciar certa predileção, diferenciada entre os profissionais, por
alguns campos no preenchimento. Alguns profissionais deixavam totalmente em branco os
campos do formulário que buscavam registrar a origem social dos pacientes. Já outros, faziam
certos registros, mas fora dos campos apropriados.
Em muitos prontuários não havia, por exemplo, menção ao local de moradia do
usuário (impossibilitando verificar tratar-se de morador de zona urbana ou rural), mas havia
menção a ser trabalhador rural (independentemente de local de moradia). Daí se pode inferir a
relação dos usuários com o meio rural.
Como cada campo apresentava universo de preenchimento diferente dos demais, em
alguns casos a estratégia de identificação foi buscar alguma precisão na configuração de todo
o prontuário. Por exemplo, o sexo foi verificado em quase todos os prontuários, tanto pela
facilidade proporcionada pelos próprios nomes, quanto pelo fato de os envelopes com as
fichas terem sinais de cores diferentes para os dois sexos: rosa para o feminino e azul para o
masculino. Quanto aos outros campos o preenchimento variou muito, sendo que em muitos
80
o se conseguiu alcançar o mputo total de 660. Entretanto, isso não inviabilizou a análise
de conteúdo pretendida, mas exigiu, pelas restrições, cuidado na análise quantitativa.
As explicações para omissões ou deslocamento das informações nos prontuários são
muitas, mas cabe destacar a falta de tempo dos médicos para atenderem à grande quantidade
de pacientes. Isso pode interferir sobremaneira no resultado final dessa parcela do encontro
entre profissionais e usuários. Assumir, entretanto, essa como a única causa para as ausências
consistiria numa interpretação simplista, haja vista que posturas e omises podem significar
valores e preferências por parte dos agentes aos quais cabe tal tarefa. Além do mais, acredita-
se que lacunas ou registros mal postos podem refletir a falta de formação dos profissionais
para uso mais adequado daquela padronização imposta pelos prontuários. Contudo fica, então,
a questão sobre o sentido que aqueles campos têm para os profissionais. Sobretudo porque,
como afirma Bardin (1977):
A análise de conteúdo constitui um bom instrumento de indução para se
investigarem as causas (variáveis inferidas) a partir dos efeitos (variáveis de
inferência ou indicadores; referencias no texto), embora o inverso, predizer os
efeitos a partir de factores conhecidos, ainda esteja ao alcance de nossas
capacidades (BARDIN, 1977, p.137).
Nesse sentido, por exemplo, quando o campo da origem social não é preenchido,
pode-se inferir que o profissional não via conexão de sentido entre as queixas manifestas e as
condições de moradia, de vida, de trabalho ou atividades produtivas nas quais o paciente e sua
família estivessem envolvidos. Esse ponto será retomado novamente adiante.
A seguir serão dispostos outros achados dos prontuários, divididos em dois grupos: o
perfil dos usuários, constitdo a partir da sistematização dos dados de identificação, e as
categorias deduzidas a partir da análise de conteúdo, que evidenciam representações sobre
saúde e doença mental no NAPS-Ervália.
4.5.1- Caracterização dos pacientes
Considerando-se um total de 660 prontuários, foi possível identificar claramente que
116 (17,57%) usuários eram provenientes da zona rural e apenas 66 (10%) eram ligados à
zona urbana. Dos registros foi possível identificar que 154 (23,33%) eram de Ervália, e 41
(6,21%) de outras localidades da região. Cabe observar que esses campos foram preenchidos
em apenas 182 (27,57%) e 195 (29,54%) prontuários, respectivamente. Como dito
anteriormente, o campo para identificação da origem e localização espacial foi pouco
81
preenchido e imagina-se que essas informações tiveram pouca importância para o profissional
que registrou os atendimentos.
Quanto ao sexo dos usuários, em apenas 10 deles não foi possível obter tal
informação, em razão de problemas de identificação dos nomes ou de os envelopes não
conterem as fichas de cores diferentes para identificação dos sexos. Nos demais, o nome ou as
cores deixaram clara essa diferença. Verificou-se uma distribuição por sexo de 379 (57,42%)
usuários femininos para 271 (41,06%) masculinos.
Já o campo referente à idade foi aquele com maior número de preenchimentos 105
(15,90%) em branco contra 555 (84,09%) adequadamente registrados e distribuídos conforme
o Gráfico 1 abaixo:
Distribuição dos pacientes por faixas etárias e sexo
0
10
20
30
40
50
60
70
80
00 a 04
11 a 15
21 a 25
31 a 35
41 a 45
51 a 55
61 a 65
71 a 75
81 a 85
91 a 95
faixas etárias
MASCULINO
FEMININO
TOTAL
GRÁFICO 1: Distribuição dos pacientes por faixa etária e sexo.
Fonte: dados da pesquisa (2010).
A faixa etária dos usuários entre 21 a 60 anos, a chamada idade produtiva, foi a que
abarcou maior número de pacientes (somadas, 435, ou seja, 65,90%) contra todas as demais
(somadas, 120, ou 18,18%). Com menos de 20 anos 86 (13,03%) pacientes, e acima de 60
anos há 34 (5,15%).
Note-se que os campos mais preenchidos são exatamente os que se dirigem a
informações biológicas mais marcantes sexo e idade em contraposição com as sociais, de
todos os outros campos das fichas.
82
Sobre o estado civil, dos 372 (56,36%) prontuários em que efetivamente essa
informação foi registrada, apurou-se que 141 (21,36%) pacientes eram solteiros (63 mulheres
ou 9,54% para 78 homens ou seja, 11,81%), 181 (27,42%) casados ou amasiados (124
mulheres 18,78% para 57 homens 8,63%), 34 (5,15%) separados ou divorciados (18
mulheres 2,72% para 16 homens 2,42%) e 16 (2,42%) viúvos (12 mulheres 1.81% e
04 homens 0,60%). A julgar pelo preenchimento desse campo, pode-se pensar que os
profissionais se interessam mais pelo estado civil que pelo local de moradia ou ocupação dos
pacientes.
Quanto ao número de filhos verificou-se, nas 340 (51,51%) fichas que continham
algum registro a respeito, que 131 (19,83%) usuários o tinham, à época da consulta em que
se obteve o registro da informação, nenhum filho; 145 (21,96%) possuíam de 1 a 3 filhos, e
31 (4,69%) de 04 a 05 filhos; com mais de 06 filhos, havia 33 (5%) usuários. Houve 320
(48,48%) prontuários que não tinham nenhum registro neste espaço.
Analisando a escolaridade registrada nos prontrios, tem-se que 343 (51,96%) o
tinham nenhum registro neste campo. Dos 317 (48,03%) com registro, apurou-se que 58
(8,78%) pacientes receberam registro como sendo analfabetos (31 mulheres e 27 homens) e
08 (1.21%) como semi-analfabetos (metade deles de cada sexo), que juntos somaram 66
usuários (10%). Como tendo cursado até a 4ª série primária, conforme nomenclatura do
registro, havia 142 (21,51%) usuários (55 homens e 87 mulheres), e 61 (9,24%) com até a
série (34 homens e 27 mulheres). Ou seja, 203 (30,75%) deles receberam registro como tendo
apenas o primeiro grau, completo ou incompleto. Houve 35 (5,30%) usuários com segundo
grau completo ou não (07 homens para 33 mulheres), e 10 (1,51%) com curso superior
completo ou incompleto (dos quais 08 eram mulheres e apenas 02 homens). Observe-se essa
distribuição no Gráfico 2, a seguir:
83
Escolaridade por sexo
0 20 40 60 80 100 120 140 160
analfabeto
semi-analfabeto
até 4a. Série
até 8a. Série
2o. Grau incompleto
2o. Grau completo
3o. Grau
outros
TOTAL
FEMININO
MASCULINO
GRÁFICO 2: Escolaridade por sexo.
Fonte: dados da pesquisa (2010).
Notável que em todas as faixas de escolaridade as mulheres foram mais prevalentes,
à exceção da comportada entre a e séries e segundo grau, o que talvez se explique pelo
fato de as escolas rurais oferecerem ensino apenas até a 4ª série, fazendo-se necessária, para a
seqüência dos estudos, a ida até a cidade, dificultada, talvez, para as moças. Contudo é
interessante notar que as mulheres têm menor taxa de escolaridade incompleta para a faixa do
segundo grau.
Um campo interessante no prontuário, sobre o responsável pelo paciente, foi também
muito pouco preenchido, contudo foi possível aferir, por leitura em demais campos, alguma
menção a familiares ou outros responsáveis. Num total de 130 (19,96%) prontuários,
averiguou-se uma presença marcante de mulheres cuidadoras: mães (36), irmãs (21), esposas
(13) e filhas (08) e mais 10 outras pessoas do sexo feminino (03 vizinhas, 04 cunhadas, 01
sobrinha e 01 nora), que somaram 88 (13,33%) mulheres para 42 (6,36%) cuidadores do sexo
masculino (entre esses, 12 pais, 07 irmãos, 18 maridos, 02 filhos e 01 vizinho, 01 sobrinho e
01 tio). Em diversos prontuários havia registros de falas que, pelo uso do verbo e pelo
pronome, remetiam a terem sido emitidas por outros que não o pacientes, mas esses prováveis
cuidadores não tiveram nome ou sexo identificados pelo profissional que fez as anotações,
impossibilitando sua identificação mais precisa. Interessava ao médico a informação dada e
o quem as disse. Essa objetividade retira da análise a necessária contextualização, que nos
84
remete a Bourdieu (1996): quem fala, de onde fala para quem fala, traz a diferença de sentido
do que foi dito. Aos psiquiatras a informação sobre familiares não parece soar interessante.
Ainda nesse último tópico, cabe ressaltar que o campo que indicava os contatos dos
usuários, e que refletiria, possivelmente, sua rede social de apoio, foi tão pouco preenchido
que não permitiu aferir mais que o provável desinteresse por parte dos profissionais de saúde
por essa outra referência de análise do processo saúde doença: nos apenas 24 (3,63%)
registros ocorridos, 05 (0,75%) remetiam ao próprio paciente ou a familiares, enquanto que
em 19 (2,87%) casos não havia identificação do contato.
Os dados abaixo não se referem exatamente ao perfil do usuário, e talvez indiquem
mais sobre o perfil do NAPS-Ervália que de seus pacientes, embora haja, reconhece-se,
alguma sobreposição dos fatos: trata-se das instâncias que indicaram os pacientes para o
tratamento. Campo pouquíssimo preenchido pelos médicos (457 não preenchimentos, ou
69,24%), permitiu computar 54 (8,18%) pacientes remetidos do CAPS-Ubá número que
condiz com o dos aproximadamente 50 cuja transferência justificou a criação do NAPS-
Ervália e mais 76 (11,51%) remetidos das Unidades Básicas de Saúde (UBS) da cidade, 23
(3,48%) encaminhados pelo Fórum do Município para avaliações periciais, 41 (6,21%)
encaminhados pelos próprios psicólogos do NAPS para tratamento psiquiátrico, e ainda 04
(0,60%) encaminhamentos a partir do Hospital Jorge Caetano de Matos hospital da cidade
, 02 (0,30%) da Secretaria de Saúde do Município, 01 (0,15%) de médico particular da cidade,
01 do Conselho Tutelar e 01 da Assistente Social da Prefeitura Municipal do período em que
foi feito o encaminhamento.
Com base nesse esboço, pode-se aventar que o perfil do usuário comporta mais
mulheres que homens, moradores ou trabalhadores da zona rural, a maioria em idade
produtiva e jovem, entre os 20 a 40 anos, com 02 filhos e baixa escolaridade (geralmente até
série). os cuidadores, em sua maioria, são pessoas da própria família do paciente e do
sexo feminino.
4.5.2- Os diagnósticos
Considerando o total de 660 prontuários, 245 (37,12%) deles não tiveram nem
mesmo o campo diagnóstico preenchido. Dos 415 (62,87%) preenchidos, houve 92 (13,93%)
casos em que o paciente recebeu mais de uma rubrica diagnóstica, por um ou mais de um
profissional, o que constituem as chamadas comorbidades, ou seja, a ocorrência de mais de
uma patologia diagnosticada. As mulheres apresentaram mais de comorbidades (55, ou
85
8,33%) que os homens (37, ou 5,60%), o que não deve surpreender, pois o número de
mulheres é superior ao de homens. Os diagnósticos, conforme registrados nos prontuários,
seguem a codificação proposta pela CID-10 (Classificação Internacional de Doenças, 10ª
vero) da OMS (1993), que consta de uma letra maiúscula que indica patologias mentais, F,
e dois algarismos que indicam o subgrupo e a patologia especifica. O QUADRO 2 apresenta a
freqüência dos diagnósticos e sua ocorrência por sexo (considerar que alguns pacientes
receberam mais de um diagnóstico):
QUADRO 2: Freqüência de citações diagnósticas (CID-10) por sexo
Diagnóstico da CID-10
Masculino
Feminino
TOTAL
Transtornos mentais Orgânicos: F-00 a F-09
11
04
15
Transtornos decorrentes do uso de substância psicoativa: F-10 a F-19
16
04
20
Esquizofrenia, transtorno esquizotípico e delirante: F-20 a F-29
64
58
122
Transtornos do humor:F-30 a F-39
43
96
139
Transtornos neuróticos, relacionados a estresse e somatoformes: F-
40 a F-48
26
86
112
Síndromes comportamentais e relacionadas a perturbações
fisiológicas e fatores físicos: F-50 a F-59
0
01
01
Transtornos de personalidade e comportamento em adultos:
F-60 a F-69
04
05
09
Retardo Mental: F-70 a F-79
29
32
61
Transtornos do desenvolvimento psicológico: F-80 a F-89
02
0
02
Transtornos emocionais e de comportamento na infância e
adolescência: F-90 a F-98
06
03
09
Total de citações
205
289
494
Fonte: dados da pesquisa (2010).
As patologias de fundo orgânico (F-00 a F-09) figuraram da seguinte forma: 08 casos
masculinos, mais 03 como segundo diagnóstico, perfazendo um todo de 11; 04 casos
femininos, e totalizando 15 casos.
Os casos de etilismo e uso de drogas (F-10 a F-19): 13 casos masculinos, mais 03
como segundo diagnóstico, num total de 16, contra 03 de mulheres, mais 01 como
comorbidade, perfazendo 04. Total: 20.
Casos de transtornos psiticos (F-20 a F-29) somam 122, sendo 64 homens (09
como segundo diagnóstico) e 58 mulheres (11 como comorbidades); notem-se, em destaque,
os casos de esquizofrenia (F-20), único diagnóstico em que número gritantemente superior
de homens: 32 (sendo 01 como segundo diagnóstico), contra 21 (02 comorbidades), ou seja,
quase um terço a mais de homens.
86
Dentre os transtornos do humor (F-30 a F-39), 139 no total, 43 homens contra 96
mulheres (09 comorbidades para eles, 08 para elas); destaque para a depressão (F-32), com 57
casos femininos para 18 masculinos (apenas 02 comorbidades para cada sexo). nessa
rubrica diagnóstica, 79 casos, (20 masculinos, 59 femininos). Aqui se trata de depressão,
comumente identificada como doença de mulheres ou a doença do século.
Para os transtornos neuróticos (F-40 a F-48), num total de 112, houve 26 masculinos
(sendo 02 comorbidades) e 86 femininos (sendo 17 comorbidades). No caso dos transtornos
de ansiedade (F-41), com 57 diagnósticos, 12 são para homens e 45 mulheres. O maior
número de mulheres nesses casos confirma o que tem orientado a literatura. Em alguns
estudos (ALMEIDA FILHO, 2001; DARON, 2006) são postas indagações acerca do quê
deixa as mulheres tão ansiosas ou como os homens que vivenciam a sua ansiedade.
Para os transtornos comportamentais (F-50 a F-59), apenas um diagnóstico
feminimo, e para os de personalidade (F-60 a F-69), apenas 04 masculinos (03 comorbidades)
e 05 femininos (04 comorbidades).
Muitos casos de oligofrenia (F-70 a F-79): 61 no total, 29 masculinos (23 diretos e
06 como segundo diagnóstico) e 32 femininos (23 diretos e 09 comorbidades).
Apenas 02 casos de transtornos do desenvolvimento (F-80 a F-89), ambos em
crianças e do sexo masculino.
nos transtornos emocionais e de comportamento da infância e adolescência (F-90
a F-98), 06 masculinos para 03 femininos.
Uma curiosidade: houve 18 casos de epilepsia (G-40), problema mais propriamente
neurológico que psiqutrico daí a letra inicial G da CID-10, ao invés do F característico dos
transtornos mentais , sendo 12 homens (06 desses como segundo diagnóstico) e 06 mulheres
(apenas 01 caso direto e 05 como comorbidade). Esses casos, comumente chamados de
acesso” estigmatizam e são de difícil camuflagem de apreciações sociais depreciativas.
Algumas rubricas diagnósticas, entretanto, destacaram-se, sobretudo, nos grupos de
diagnósticos mais freqüentes. Foi o caso do diagnóstico de esquizofrenia (F-20) no grupo das
psicoses (F-20 a F-29), com 53 menções 32 para homens e 21 para mulheres. Veja-se no
QUADRO 3 a seguir:
87
QUADRO 3: Freqüência dos diagnósticos de psicose (ou como comorbidade) por sexo
F-20 a F-29
Masculino
Comorbidade
Feminino
Comorbidade
TOTAL
Esquizofrenia: F-20
31
01
19
02
53
Transtorno Esquizotípico:
F-21
01
0
01
0
02
Transtorno delirante
persistente: F-22
03
0
05
01
09
Transtornos psicóticos
agudos e transitórios: F-
23
03
0
01
01
05
Transtornos esquizo-
afetivos: F-25
03
04
03
03
13
Psicose não orgânica não
específica: F-29
14
04
18
04
40
Total
55
9
47
11
122
Fonte: dados da pesquisa (2010).
Algo bastante semelhante se passou no caso dos transtornos do humor (F-30 a F-39).
O diagnóstico de depressão (F-32) teve 79 menções 20 para homens e 59 para mulheres, ou
seja, quase o triplo. Das demais rubricas, apenas a distimia (F-34) teve variância marcante
entre os sexos, com 12 casos para as mulheres e apenas um para os homens. O QUADRO 4
oferece uma visão geral:
QUADRO 4: Freqüência diagnósticos de transtornos do humor (ou como comorbidades) por sexo
F-30 a F-39
Masculino
Comorbidade
Feminino
Comorbidade
TOTAL
Episódio maníaco: F-30
02
0
01
0
03
Transtorno afetivo bipolar: F-31
12
01
14
02
29
Episódio depressivo: F-32
18
02
57
02
79
Transtorno depressivo
recorrente: F-33
04
0
05
02
11
Transtornos persistentes do
humor: F-34
01
0
10
02
13
Transtornos do humor o
especificados: F-39
01
02
01
0
04
Total
38
5
88
8
139
Fonte: dados da pesquisa (2010).
O caso da distribuição por sexo dos transtornos neuróticos (F-40 a F-48) também é
interessante, pois são aqueles mais claramente relacionados a estresse e condições de vida.
Veja-se que a rubrica de ansiedade (F-41) sobressai às demais para ambos os sexos (57 ao
88
todo, contra 55 de todas as demais somadas), mas é mais prevalente entre mulheres (38
diagnósticos diretos e 07 comorbidades, num total de 45). Note-se no QUADRO 5 que segue:
QUADRO 5: Freqüência diagnósticos de transtornos neuróticos (ou como comorbidades) por sexo
F-40 a F-48
Masculino
Comorbidade
Feminino
Comorbidade
TOTAL
Transtornos fóbico-ansiosos: F-40
02
0
01
0
03
Outros transtornos ansiosos: F-41
11
01
38
07
57
Transtorno obsessivo-compulsivo: F-
42
02
01
03
01
07
Reação a estresse grave e transtorno
de ajustamento: F-43
03
0
05
02
10
Transtornos dissociativos: F-44
01
0
08
04
13
Transtornos somatoformes: F-45
01
0
0
01
02
Outros transtornos neuróticos: F-48
04
0
14
02
20
Total
24
2
69
17
112
Fonte: dados da pesquisa (2010).
Fica bem evidente que os grupos diagnósticos registrados mais prevalentes
apresentam algumas variações correlacionadas ao sexo com exceção dos casos de retardo
mental, em que a variação entre mulheres e homens é ínfima.
Os significados para isso podem ser diversos, e uma pretensão de explicar tal
fenômeno deve ser evitada nesse trabalho, sobretudo porque escaparia de seus objetivos.
Pode-se apenas mencionar que a grande prevalência de casos de depressão e ansiedade entre
mulheres no meio rural já havia sido observada por Daron (2006), que salienta que “parte
dessas doenças está ligada à dinâmica de vida e trabalho que as mulheres e os camponeses
enfrentam em seu cotidiano” (p.191-2).
De modo muito aproximado, Almeida Filho (2001), ao inventariar diversos artigos
sobre a epidemiologia social dos transtornos mentais na América Latina, encontra sempre
fatores como sexo (mais mulheres), escolaridade (baixa), desemprego e grupo social
(migrantes, pobres, pardos) como correlacionados à loucura.
No NAPS-Ervália, os grupos diagnósticos mais prevalentes (transtornos de humor e
neuróticos) comportavam mais pacientes do sexo feminino que masculino, e apenas no caso
específico da esquizofrenia (no grupo das psicoses, tamm esse muito prevalente) houve
mais homens considerados portadores que mulheres.
De modo sintético, pode-se dizer que, no NAPS-Ervália, tratam-se principalmente
homens esquizofnicos e mulheres deprimidas e ansiosas.
89
Desdobramento natural do diagnóstico, o tratamento também chamou a atenção:
foram as anotações concernentes às medicações que, pela sua freqüência, invariável em
praticamente todos as fichas, destacaram-se mais, mesmo sem o preenchimento total do
campo diagnóstico. Prescrições de fármacos e suas trocas ou alterações de doses, efeitos
colaterais ou terapêuticos, eis aqui o que, sugerem as notas, interessava a todos os médicos.
Os mais prescritos parecem se relacionar aos casos mais diagnosticados, ou seja,
antidepressivos em primeiro lugar, tranilizantes na seqüência, anti-psicóticos depois.
Medicamentos utilizados com finalidade de estabilizar o humor e anticonvulsivantes também
foram muito registrados. Por outro lado, as indicações para outras formas de tratamento,
mesmo junto aos psilogos da instituição, eram ínfimas.
Dentre os profissionais, as variações de estilo o consideráveis, mas seria
impossível reproduzir aqui algumas nuances, como ocupação do espaço pela grafia, tipo e
tamanho de letra, legibilidade, prolixidade. Foi notável que alguns profissionais parecem
anotar mais (psiquiatras A e C, clínico geral B), ao passo que e outros são mais parcimoniosos
(psiquiatras B e D e clínica geral B, que, mesmo ao se desconsiderar o pouco tempo em que
atuou no NAPS, pouco ou nada anotava). O QUADRO 6 alguma iia do tempo de
permanência dos profissionais médicos no NAPS, desde sua criação:
QUADRO 6: Permanência no NAPS por profissional/ano
Ano/Profissional
2002
2003
2004
2005
2006
2007
2008
2009
2010
Psiquiatra A
Psiquiatra B
Psiquiatra C
Psiquiatra D
Clínico Geral A
Clínico Geral B
Fonte: dados da pesquisa (2010).
Segue-se agora a apresentação das falas extraídas dos prontuários.
90
4.6 - As representações de saúde e doença mental nos registros dos prontuários
Segue-se agora a descrição das categorias criadas a partir da pesquisa nos prontuários
e a análise subseqüente que possibilitou alcançar as representações sobre saúde e doença
mental no meio estudado.
Serão apresentados alguns excertos dos prontuários, ilustrativos das palavras,
expressões ou noções utilizadas por pacientes, familiares, acompanhantes e também pela
equipe ligada ao NAPS-Ervália. Recorde-se que tais extratos foram retirados de alguns
campos do prontuário, quais sejam, queixa principal, em que se dá voz ao paciente ou
acompanhante, dados atuais, história ou evolução, com falas tanto de usuários, quer
pacientes, quer familiares, e impressões dos profissionais.
Quando a fonte for o paciente, será apresentado apenas o número do prontuário (com
três dígitos e, em caso de numeração repetida, uma letra); quando for outra pessoa, será
apresentada, se for conhecida, sua relação com o paciente (familiar, vizinho, etc.). Se o
registro referir-se a pessoa desconhecida, ou seja, sobre a qual não se foi possível identificar a
relação de parentesco, apenas se fará indicação de que se trata de acompanhante. Para os
profissionais, que ao longo do período pesquisado foram seis ao todo, será feita meão à
especialidade e diferenciação dos mesmos por meio do uso de letras: psiquiatra (A, B, C, D) e
clínico geral (A e B).
Uma primeira surpresa que a análise dos prontuários oportunizou foi a verificação do
pouco uso, ou pequeno registro, da palavra loucura nos prontuários, tanto da parte dos
profissionais quanto nos registros de falas dos usuários ou familiares. Tampouco aparecem
seus termos substitutivos, como doido ou maluco, eles próprios de ocorrência rara.
Quando usada, a palavra loucura aparece como substantivo, “eu tinha uma loucura
que tirava a roupa” (pront. 145), é uma loucura essa timidez toda” (pront.171), mas tamm
se verifica como adjetivo: “[ela é] louca”(esposo, pront.70), [histórico] familiar: avô paterno
descrito como louco’”(psiquiatra A, pront.114), “sou meio louco”(pront. 122), “[ela] está
louca”(esposo, pront.154).
Do mesmo modo, a palavra doido foi utilizada, ou pelo menos registrada,
parcimoniosamente. Aqui tamm se verifica sua utilização como adjetivo, mas tamm
como forma verbal: “ela fica falando que vai casar... quem é que vai querer casa com uma
doida dessas” (irmã, pront.005); “tô doidinha de tudo”(pront. 020); “[história] familiar: tia-
avó da paciente era „meia doida‟”(psiquiatra A, fazendo menção a fala de paciente ou
acompanhante, pront. 026); tô com esquisiteza doida (pront. 035); “fiquei doida de
91
tudo”(pront.051); “sou doida varrida mas tenho vergonha na cara”(pront. 084); “comecei a
ficar doido (pront.162); eu me convenci que sou doida e sempre fui e sempre serei
assim”(pront. 095); “meu marido fala que sou doida”(pront. 291); “pai [da paciente] endoidô
(pront.449).
Assim, pode-se supor que a doença mental é uma condão percebida pelos não-
dicos através de uma forma de compreensão que dispensa a nomeação, pois se baseia numa
série de características ou condutas evidentes que podem ser arroladas no lugar de um termo
único e, muitas vezes, incômodo.
1ª categoria: doença mental como problema de cabeça, dos nervos ou das idéias.
Para se referir à condão de doente mental, mais comumente foram usadas não
palavras, mas locuções, associadas à expressão ter problema: geralmente problema de
nervo ou problema de cabeça, algo comum no caso das descrições „não- médicas‟ da saúde
alterada, como “problema de fígado” em lugar de hepatopatia, ou “problema de junta” no caso
de artropatias. Como exemplos de queixas que remetem a problemas têm-se:
“sempre fui uma criança com problema”, “lá em casa quase todo mundo tem
problema de nervo(pront. 028)
“sempre teve problemas de nervos... quando criança era arteiro e não parava
quieto” (mãe, pront.081)
“eu tenho problemas de nervos, sou muito nervosa” (pront. 112)
“eu tenho problema de cabeça”(pront. 141)
“eu tenho problema de nervo”(pront. 143)
“[irmão do paciente] tem problema psiquiátrico” (mãe, pront.169)
Note-se que, em associação, o verbo empregado, ter, sugere maior concretude do se
fosse usado o ser ser probletico , do que se pode depreender uma provável conceão
orgânica e temporária do sofrimento mental, ou seja, por um lado é uma coisa que pode
mudar (algo que se tem e não se é), mas, por outro, é fixada numa parte do corpo, sem
controle. Se, para os outros, aquele que tem problema é “problemático” – termo sequer
mencionado –, „pessoa difícil de conviver‟ ou vista como „o próprio problema familiar, o
doente parece localizar nos nervos o seu” problema, nessa parte de si que, mesmo doente,
o pode ser erradicada, requerendo piedoso tratamento que controle oproblema”, os nervos,
como se verá em seguida.
Em outros casos, o “problema” está associado a uma localização na cabeça ou em
outro local ou órgão, localizacionismo freqüente em casos de queixas de “problema de
coluna” ou problema de vista”. Nessas localizações da doença, normalmente os relatos são
92
remetidos à idéia, ao pensamento global ou funcionamento da mente. Por isso surgem
expressões como problema de cabeça ou de idéia. A cabeça aparece como locus do
problema, mas sem menção a dor, que talvez sugerissem outras patologias, neurológicas e não
psiqutricas. As falas registradas são exemplares:
“cabeça esquisita, “cabeça agitada (pront. 017)
“eu fico muito preocupada e com a cabeça ruim(pront. 032)
“eu tenho problema de cabeça”; “peso na cabeça” (pront. 036)
“tenho sentido a cabeça meio esquisita...”, “ficava com a cabeça ruim, sem
expediente” (pront. 043)
“cabeça oca (pront. 073)
“eu sinto uma coisa ruim na cabeça... umas coisas estranhas nas vistas e nos
ouvidos, eu não sei nem explicar...” (pront. 079)
“ruindade na cabeça” (pront. 116)
“cabeça leve (pront. 132)
“não posso com sol na cabeça ...” (pront.142)
“tenho cabeça ruim” (pront. 154)
“eu fiquei fraco da cabeça”(pront. 165)
“às vezes fico esquisita, cabeça ruim...” (pront. 229)
“pontada na cabeça” (pront. 234)
“cabeça pesada ( pront. 270)
“cabeça não ajuda a fazer o serviço (pront. 289)
“cabeça ruim, vazia” (pront. 363)
“minha cabeça tá muito ruim (pront.449)
“tá com a cabeça boa” (esposo, pront. 460)
“cabeça esquisita (pront.467)
“estalo na cabeça” (pront. 480)
“cabeça fraca” (pront.547)
“cabeça variada” (pront. 593)
“cabeça ruim” (pront. 597B)
“branco na cabeça, pensamento ruim (pront. 642)
“cabeça ruim demais” (pront. 692)
Nesses casos, a cabeça parece indicar não apenas a parte do corpo, local do cérebro,
mas o ponto de ocorrência dos sentimentos e fenômenos mentais. Equivale a idéia, enquanto
função de pensamento, volição, memória, avaliação da realidade, ou todas essas capacidades
globais reunidas: perder o controle da idéia é de fato grave e sintoma de mal estar. Esse
sentido aproximado surge nas falas que contém o termo idéia:
“idéia ruim desde pequeno” (pront.008)
“queria ficar boa da idéia” (pront. 020)
“estou bem das idéias... tenho fraqueza no corpo” (pront. 021)
“idéia virada(pront.036)
“da idéia tô bom” (pront.045)
“idéia fraca (pront. 052)
“me dava uma coisa ruim na idéia”(pront.068)
“a idéia [da paciente] já vai voltando e está falando as coisas mais certas...”
(esposo, pront.104)
“começou a variar da idéia”, muito bem da idéia” (mãe, pront. 118)
“ele está com a idéia variada (esposa, pront.142)
“ele é fraco da idéia” (pai, pront.179)
93
Chama atenção, nesses casos, a associação dos dois termos a algumas palavras: ruim
ou bom/boa, fraca, leve, variada, esquisita todas expressando uma alteração em relação a
uma condição normal supostamente anterior, mas que não se define, sendo a suposta alteração
adjetivada pela palavra acessória. Não há ocorrências como “eu tenho cabeça”, ou “não tenho
idéia”: a cabeça e a idéia são as condições ontogênicas que sofreram alguma modificação
anômala denominada durante a consulta, ficando ruins, fracas, leves, variadas (haveria relação
com avariadas‟?) ou esquisitas, termo mais impreciso, mas que talvez defina bem a
apresentação da alteração, sem a preocupação de demonstrar o porquê e como ocorreu. Sobre
os que expressaram os trechos acima se pode dizer que a quase totalidade compreende
moradores da zona rural com baixa escolaridade (até a série), havendo algum caso de
analfabetismo.
Outras formas algo freqüentes para indicação de doença mental foram o uso dos
termos ser ou estar nervoso, o sofrer dos nervos ou ainda a descrição direta de uma situação
ou conduta do paciente, que indicariam, indiretamente, sua condição de doente.
No caso do nervoso têm-se falas como:
“antes ele era nervoso, mas depois que voltou de [BH] voltou doente,
dizendo que via umas mulheres querendo pegar ele, via coisas que ninguém via,
ria sozinho, outra hora ficava parado sem falar com ninguém; dizem que ele
usou foi droga” (pais, pront.097)
“eu fiquei nervoso e eles achou que precisava [consultar](pront.099)
“tô nervoso demais” (pront.264)
“crise de nervoso” (acompanhante, pront. 358)
“às vezes fica bem nervosa” (mãe, pront.457)
“sou muito nervosa” (pront.523A)
“sempre fui muito nervosa” (pront. 525B)
“nervosismo, abafamento (pront.572)
Para exemplificar as alterações dos nervos, servem as falas:
“boa dos nervos” (pront. 013)
“eu sofri dos nervos quando tava novo... (pront. 034)
“ruim dos nervos” (pront. 049)
“os nervos repuxam” (pront.102)
“eu tomo remédio de nervo” (pront. 115)
“os remédios me deixaram de nervo bambo” (pront. 221)
“arranco nos nervos” (pront. 324)
“crise de nervo” (pront.588)
“dor nos nervos” (pront. 655)
Nelas, nervoso parece sugerir conduta, irritação e agitação, mas ainda ansiedade,
preocupação ou outro mal-estar; enquanto nervo pode desdobrar-se em mais que essas duas
possibilidades, pois também indica alguma composição anatômica não precisamente
localizada, mas que toma todo o corpo. O nervo enquanto suporte orgânico para o sofrimento
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fica mais evidente quando se faz menção a crise ou a dor, e enquanto estado geral, vem
acompanhando do qualificativo bom/ruim. Pode-se ainda pensar numa gradação no caso do
nervoso a partir dos verbos acessórios: ser e estar nervoso seriam condições diferentes,
embora ambas valoradas negativamente. O caso de se estar nervoso sugere contingências
desfavoráveis, que deveriam ser a causa do que se considera um sofrimento transirio e que,
se persistente, poderia até levar ao sofrer dos nervos. Assim, este é um estado mais
permanente, embora adquirido. ser nervoso pode remeter a um traço de caráter muitas
vezes herança familiar que acompanharia o sujeito desde seu nascimento, como se pode
perceber em várias menções a parentes “nervosos”. Novamente os emissores dessas
expressões estão ligados de alguma forma à ruralidade e outra vez ocorre baixa escolaridade
(até o 1º grau incompleto, havendo uma excão, no caso do pront. 525B, com grau).
Algumas descrições prescindiram de palavras sintetizadoras de problemas, e foram
apresentadas apenas as condutas ou sensações atípicas. Nessas queixas indiretas, indicativas
de uma conduta alterada sem o uso de expressões condensadas, ocorreram falas como:
“ele fazia tratamento em Ubá” (irmão, pront.003)
“tô meio esquisita (pront.006)
“[a paciente fica] muito diferente (esposo, pront.017)
“a gente tinha que segurar ele pra ele não pular no rio...” (mãe, pront. 026)
“ele tá igual criança (esposa, pront.040)
“[mamãe está] amuada” (filha, pront.075)
“eu não tava comendo nem dormindo” (pront. 103)
“eu com umas esquisitezas” (pront. 182)
“eu esbarrada” (pront.192)
“[sinto/tenho um] abafamento(pront. 455)
“ele só xinga eu” (mãe, pront. 553)
“pula janela, foge pro mato (irmã, pront. 668)
Note-se como, quando um acompanhante é o emissor, a descrição se aproxima da
delão. Nos prontuários em que foi feito o registro, observou-se outra vez a aparição da
ruralidade e da escolaridade baixa, embora o não preenchimento de muitos deles impeça uma
afirmação taxativa, como nos casos acima.
Com base nesse apanhado de expressões, pode-se tentar uma primeira sistematização
categorial. Em decorrência do uso variável de termos para descrever, de modo genérico, a
condição de doente mental, para a categorização que segue foram eleitas as palavras
correlatas aos dois estados identificados, saúde e doença, que sintetizam todas as utilizadas,
ao indicarem, ainda que indiretamente, quando ocorrência da loucura e quando não há.
Ambas são condições erigidas conjuntamente, e por oposição, sendo que os atributos que
constituem cada uma não têm apenas finalidade em si, operando, de maneira modular, como
indicadores de respectiva inclusão em um dos grupos. Por isso, falar de uma é falar da
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ausência automática da outra, ou seja, e se um elemento é componente de uma deverá estar,
como em um negativo, vazado na outra. Seriam condições, de modo quase automático,
opostas e mutuamente excludentes.
2ª categoria: normal/saudável e anormal/doente em saúde mental.
Na categoria saúde, tanto para não-médicos quanto para profissionais, os traços são
mais subjetivos, quase invisíveis, de tão naturalizados, sequer carecendo de maiores
explicações, enquanto na categoria doença parece surgir o plus que marca os desviantes. De
maneira mais objetiva, para os não-médicos, a conduta é o traço que evidencia a
anormalidade, está doente aquele que faz algo inesperado, ou deixa de fazer o devido. Ao
passo que, para profissionais, estes são somente sintomas que a demarcam. Por isso, parece
haver um acordo tácito entre usuários e profissionais: não é preciso descrever a condição de
saudável, mas a anormalidade deve ser descrita e registrada suas manifestações. Os não-
dicos o fazem provavelmente para atestar a veracidade do adoecimento para os médicos,
que nem sempre os ouvem, seja para não atrapalhar a relação de confiança com o paciente,
seja pelo pouco interesse em suas informações, seja pelo pouco tempo de que dispõem. E isso
porque, enquanto os profissionais esperam construir o diagnóstico para um tratamento ou
tratar algo que se possa formular em diagnóstico os familiares ou responsáveis podem
esperar uma correção do problema”, tenha ele o nome que tiver: o importante seria recobrar
a conduta “normal”.
Nos exemplos que seguem pode-se perceber como, aliás, o uso do termo normal é
seguido da descrição do que se considera “anormal”:
“antes era normal; deu crise de cair e babar” (irmã, prontuário 001)
“até os 15 anos era normal, depois ficou andando pros matos, igual mendigo”
(irmão, pront. 003)
“era normal” (pront.009)
“[a paciente] está como era antes de adoecer” (esposo, pront.056)
“[pai do paciente] o era muito normal” (esposa, pront.113)
Uma dessas curiosas exceções que parecem confirmar a regra, na medida em que a
normalidade é descrita de maneira dispersiva, com ações comuns do cotidiano, sem maior
relevância, pode ser vista nesse relato de uma esposa, que apresenta a melhora do marido,
ressalvando-a num “quase”: “em vista do que teve está quase normal, está feliz, conversa,
conta caso, todo domingo quer vir na missa” (pront. 106).
96
Veja-se que a normalidade dispensa qualificações na fala registrada dos
acompanhantes, enquanto a anormalidade se concretiza em alguma ação imprópria, como cair
e babar, fugir de casa, andar sem rumo, ou ausência de ação devida, como não se alimentar,
o dormir, não se comunicar, como se verá em exemplos fornecidos adiante.
A baixa escolaridade poderia explicar essas expreses na medida em que foi
verificada nas fichas de que foram extraídos tais excertos. Essa pouca propensão a definições
mais elaboradas remete à mesma ausência de descrição detalhada que caracteriza os registros
de profissionais, mesmo entre os que receberam formação na especialidade da psiquiatria:
“inncia: normal até os 11 anos; sintomas de humor desde os 11 anos” (psiquiatra A, pront.027); “era
normal; internada as ser atacada por um cão „com um trauma [segundo o ] irmão (psiquiatra A,
pront. 115).
Note-se a oposição silente entre normalidade e ocorrência de sintomas. Isso pode
sugerir que, tanto para “não-médicos” como para experts, a noção de normalidade é sentida
sem ser pensada. Pode-se supor que seja percebida, por ambos, de forma desigual, o que é
bastante razoável. Aos leigos a normalidade das condutas ou do funcionamento mental não
deve ter sido ensinada de maneira consciente, e, enquanto aprendizado, a captação da
normalidade dos demais também não deve ter sido exatamente um esforço intelectivo
premeditado, daí a dificuldade de, posteriormente, formulá-la em palavras. Ao passo que entre
os profissionais que, antes de sua formação, também foram leigos, podem ter a seu dispor
teorias do funcionamento alterado da mente, mas dificilmente algum comndio sobre o que
seria um homem normal universal.
A ocorrência de dados fenômenos (para os o-médicos, alterações, para os
profissionais, sintomas) deve convocar cada grupo para uma tarefa: enquanto os não-médicos
procuram restituir o estado de normalidade num dos seus, empresa que requer a atuação do
expert, este se preocupa com o diagnóstico, fio condutor de sua ação ante o paciente, desde o
tratamento à melhora, quando e se essa é considerada possível.
No caso dos profissionais, isto está sugerido na evidente predileção dos mesmos por
tomar notas, em frases curtas, apenas do essencial para a formulação do diagnóstico, de
identificar indicadores do curso do tratamento, e de, invariavelmente, anotar informações
sobre os fármacos prescritos ou em uso. Alguns psiquiatras costumam anotar mais sobre fatos
sociais e o contexto dos pacientes (psiquiatras A e C), outros são muito econômicos nessas
informações (psiquiatra B), e há os que se interessam, sobretudo, por informações mais
propriamente médicas como resultados de exames e farmacoterapia (psiquiatra D e clínico
geral B).
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Apesar do pouco tempo de atuação dos generalistas no NAPS, o que impede melhor
avaliação do serviço, pois as anotões são numericamente poucas, em comparação com
aquelas feitas pelos psiquiatras, sua atuação sugere alguma proximidade com a conduta dos
especialistas, pelo menos no que concerne às prescrições que ocupam grande parte das notas
, distanciando-se, talvez, pela menor preocupação com a elaboração diagstica. A clínica
geral A quase não fazia anotões, deixando muitos prontuários em branco, ao passo que o
clínico B, mais experiente e com mais anos de atuação, anota mais, mas quase sempre
informações sobre resultados de exames e repetição de receitas.
Dentre os especialistas, os sintomas, o diagnóstico e a evolução foram os três eixos
principais das notas. Para a evolução, destacam-se alguns termos, cuja oposição indica os dois
caminhos possíveis, erradicação ou permanência dos sintomas, que passa a ser a grande
referência, quer para o diagnóstico, quer para a evolução: melhor/ pior (com as variações:
melhorou/piorou, melhora/piora), bem/mal (com variantes: bomtimo/péssimo/ruim) e
estável/crise (em que a crise, algumas vezes, é descrita pelos sintomas que a compõem).
“alucinações, delírios; queda do rendimento escolar, afastamento social,
irritabilidade, agressividade (psiquiatra A, pront.047)
“ansiedade, difícil controle de impulso, irritabilidade (psiquiatra B, pront. 198)
“surto psicótico, delírio persecutório, alucinação, reagudização psicótica”
(psiquiatra C, pront.369)
“disfórica, choro, hipotímica” (psiquiatra D, pront. 480)
Os usuários, naturalmente, não precisam verbalizar ou perceber, como os psiquiatras,
o que são os sintomas. Eles relatam, via de regra, as condutas alteradas que efetivamente
observam. Descrevem, por exemplo, uma alucinação ou delírio como “ouvia voz, ria sozinha”
(pai, pront. 039); “cismava e conversava sozinho(irmão, pront.109), “mãe diz que ele fala
sozinho e „balança a cabeça‟”(psiquiatra A, pront. 180); “fala muito sozinho (mãe, pront.
499); “ele via coisa que não tava acontecendo” (esposa, pront. 522B).
Os não-médicos, entretanto, não se guiam às cegas, e há pontos que parecem chamar
mais sua atenção quando descrevem condutas alteradas.
Nas falas dos usuários, a inquietude, o evadir-se de casa, a agitação e até a
agressividade são particularmente mencionadas, pois nesses casos o sujeito rompe tanto com
uma rotina de permanência e disponibilidade supostas quanto quebra uma conduta calma e
cordial esperada:
“melhorei da andação(pront. 038)
“ficou agressivo e cismava que as pessoas queriam matar ele...” (esposa, pront.
040)
“às vezes fico nervoso e bato em minha mãe” (pront. 045)
“[está] falando em cortar o pescoço dos outros (pai, pront.052)
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“ficou agressiva, saia de casa... o dormia, o fazia nada direito... chegou a
agredir minha mãe” (esposo, pornt. 060)
“fica nervosa”, “só sei que ela tinha cisma só com a mãe, até bateu nela...
(cunhada, pront.069)
“ficava chorando, andava sem parar, com um pedaço de pau” (pront.084)
“dei crise que eu nem sabia que existia, de tão ruim eu queria sair levando tudo
que estava na minha frente, meus filhos é que seguraram...” (pront. 088)
“parou de comer e de dormir e ficava andando...” (filha, pront. 103)
“... aí de repente ficou agitada, saindo de casa... (esposo, pront.104)
“dormindo no mato(mãe, pront. 108)
“se ele ficar calmo, fica bom de tudo” (sobrinho, pront. 131)
“não pára em casa”, “desinquieto e sai andando(irmã, pront. 163)
“agitado, enjoado” (pai, pront.437)
Por trás das queixas manifestas algumas semelhanças chamam atenção. Tudo indica
que, enquanto a anormalidade se manifesta em nomadismo e violência, a normalidade
encontra-se posta numa certa estabilidade da conduta, presente em alguma fixidez relativa a
lugar (a casa, o lar), postura (parado ou, pelo menos, com movimentação circunscrita ao
espaço das ações previstas) e na relação com os demais (em que se infere tanto a calma nos
contatos sem atacar ninguém nem se defender do que não existe quanto, e acima de tudo,
o agredir fisicamente entes familiares sobretudo os pais).
Parecem ser outro indício de anormalidade percebido pelos não-médicos as
alterações na comunicação, a articulão de um discurso inteligível, e o que seria a
sociabilidade ou interação com os outros, que explicita a necessidade dessa capacidade de
estabelecer contato verbal:
“não fala coisa com coisa”, “só fala abobrinha” (acompanhante, pront. 012)
“[está] falando coisas esquisitas (sobrinha, pront. 038)
“[está com] falação(filho, pront. 054)
“também ficou sem falar...” (esposo, pront.060)
“não fala coisa com coisa” (filho, pront. 065)
“ele não vai falar nada direito...” (mãe, pront, 66)
“[a paciente] fica sem falar e fora do ar” (irmã, pront. 093)
“... não fala nada certo” (esposo, pront. 104)
“senão fica só acordado, de pé, numa posição, numa reparação, numa esquisiteza”
(esposa, pront.106)
“ele ficou uns 70% melhor, parou de falar coisas sem sentido e ficou mais
sossegado...” (mãe, pront.108)
“ficava muito nervoso, falando muito... cismava e conversava sozinho...” (irmão,
pront.109)
“[a paciente] xinga, fala sozinha...” (acompanhante, pront. 141)
“ela perdeu a fala” (esposo, pront. 174)
“ficava muito nervoso, falando muito (irmão, pront.109)
“sai de si (acompanhante?, pront. 249)
“fica falando coisa com coisa [sic]” (pront. 282, comenrio entre colchetes no
original)
“[o paciente] perdeu a fala” (acompanhante?, pront. 391)
99
A capacidade preservada e coerente de comunicação de iias é mais que mero
suporte de expressão do pensamento: constitui excelente ferramenta para manifestação do Eu,
e não surpreende que qualquer alteração do discurso, ao afetar a possibilidade de interação
relacional e, em conseqüência, esgarçar papéis sociais, seja percebida como anormalidade.
Finalmente, a incapacidade para executar as tarefas esperadas parece muito
relacionada, na fala dos usuários, à percepção objetivável de erupção da doença mental, sendo
a incapacidade para o trabalho um indicativo cultural de falta de saúde ou, as seu abalo, a
retomada das responsabilidades operativas e laborais um sinal de melhora:
“desanimada de trabalhar, com a cabeça pesada (pront. 004)
“o corpo não dá pro trabalho” (pront. 008)
“não consegue mais [trabalhar]” (pront.030)
“ando meio cansado... será cansaço físico e mental?”, “ sem disposição pra
nada” (pront. 034)
“a última filha dela está com 16 anos e não foi cuidada pela e, que estava
doente” (tia, pront. 038)
“ficava com a cabeça ruim, sem expediente...” (pront. 042)
“não to valendo pra nada, acho que sou de barro mesmo”; achei que não ia mais
arribar, mas melhorei...”; “eu estava descaída mesmo, mas já arribei um pouco...
(pront. 051)
“é que eu trabalhava e estudava... agora não faço mais...” (pront. 052)
“[mamãe] fica só deitada” (filha, pront. 075)
“ele está muito bem hoje em dia, até ajuda a fazer alguma coisa...”, “[sente]
fraqueza para trabalhar” (mãe, pront. 078)
“ficava sem dormir, trabalhava noite e dia, começava as coisas e parava tudo pela
metade...” (mãe, pront. 081)
“eles falam que eu o tenho nada, que é frescura que não me deixa trabalhar...
[eles] não entendem...” (pront. 084)
“eu bem, trabalhando, tomo o remédio direitinho...” (pront. 094)
“ela está ainda melhor, mas o 100%: falta expediente...” (esposo, pront.104)
“ele ficou fraco da idéia eo presta pro trabalho...” (mãe, pront. 119)
“tô sem expediente” (pront. 293)
“não estou conseguindo trabalhar” (pront. 389)
“não agüento trabalhar” (pront. 622)
Os profissionais, por sua vez, ao elaborarem seus diagnósticos, operam uma
tradução em sistemas classificatórios (sintomatologia), próprios da disciplina Psiquiatria.
Nesse sistema, tais sintomas têm a pretensão de equivalência operativa na medida em que são
eles que demarcam a orientação dos procedimentos no tratamento pelo qual o profissional é
responsável. Alterações relatadas pelos pacientes ou acompanhantes, em muitos casos, não se
encaixam automaticamente nas categorias classificatórias dos sintomas durante o exame
psiqutrico. Toda classificação, como disse Bourdieu (2007), implica o agrupamento de
semelhanças e distinção das dessemelhanças, e também em qualificação ou desqualificação,
pois, mais que ordenamento de saber, a ordem do discurso científico (FOUCAULT, 2006)
comporta escolhas e valores contextualmente definidos. Por isso, a descrição do paciente ou
100
responsável é depurada para a confecção do diagnóstico, como no trecho: “dava a impressão
que eu ia morrer de repente, dava batedeira [taquicardia], o fôlego faltava e eu ficava com os
pés e as mãos frias e suava” (pront.088, expressão entre colchetes no texto original do
prontrio). Dessa descrição, gerou-se um diagnóstico de “F-41.2” transtorno misto de
ansiedade e depressão (psiquiatra A, pront.088).
Outros exemplos de tradução: “fiquei doidinho de tudo: andava sem pará, o tinha
sossego, fui pará lá em Coimbra.... peguei muita friagem, não dormia, cismava
muito”(pront.094) converte-se em “F-31” – transtorno bipolar do humor (psiquiatra A,
pront.094);
crise de enrolar os braços e cair... se passar nervoso, entorto” (pront. 152) torna-se
“F-48.9” – transtorno neuróticoo especificado (psiquiatra A, pront.152);
eu encontrei um punhal que meus filhos esconderam e levei um susto de justiça
muito forte” (prontuário 167) foi traduzido como “surto psitico, ideação delirante,
alterações de fala, inquietação, humor exaltado” (psiquiatra A, pront.167) e em seguida “F-
29” – psicose não orgânica não especificada (IDEM);
“não aprende estudar” (acompanhante, pront.204) vira “F-71.1” retardo mental
moderado (psiquiatra B, pront.204);
agitada e nervosa” (acompanhante, pront. 356) é apresentado como dificuldade de
aprendizado” (psiquiatra C, pront. 356) e vem a significar “F-90” transtorno hipercinético
(IDEM);
às vezes fico triste” (pront. 381), passa a “F-32” depressão (psiquiatra C,
pront.381);
“não pára 1 minuto” (acompanhante, pront. 526) vira F-90” (psiquiatra D, pront.
526);
ele via coisa que não tava acontecendo(esposa, pront.522B) converte-se em “F-
22” – transtorno delirante (psiquiatra D, pront.522B);
“medo, cabeça ruim, impressionado” (pront. 597B) passa a “F-32” – depressão
(psiquiatra D, pront. 597B);
À frente se falará um pouco mais sobre os desdobramentos dessa compreensão de
problemas como sintomas e da tradução de queixas em diagnósticos por parte dos
profissionais.
101
3ª categoria: causas da doença mental.
É conveniente mencionar aqui que a categoria doença é separada, tanto por médicos
quanto por o-médicos, em duas vertentes, causa e tratamento. É evidente que médicos e
usuários terão compreensões e valorações diferentes para as observações e as manifestações
de adoecimento ou melhora, mas nem sempre diferença quer dizer divergência.
Na causa, para médicos, tenta-se esboçar alguma etiologia para a doença. Sabe-se
que os problemas mentais constituem situações multideterminadas, e fala-se em uma origem
bio-psico-social para o fato. Contudo, ao analisar os prontuários para abordar esse complexo
tema, foi possível perceber certa distância entre essa expectativa bio-psico-social e a
operatividade que se na relação médico-paciente. Entretanto, nada parece ficar claro ou
definido, nenhuma prova cabal, irrefutável ou inconteste é mencionada em momento algum
dos registros. Os psiquiatras, representantes de um saber médico que trata do psíquico,
parecem acreditar numa causa corporal invisível ou microscópica, como a química dos
neurotransmissores que parecem pretender restaurar com os fármacos que não deixam de
registrar em suas anotações embora indiquem algum evento externo, vivido pelo paciente,
como o desencadeador, algo como um „conflito‟. No mais das vezes, a compreensão do
desencadeamento do transtorno, por parte dos profissionais, a partir do que se pôde identificar
ou inferir dos prontuários, apontou para algo exterior ao sujeito, muito freqüentemente nas
relações pessoais dos mesmos. As falas de alguns pacientes coadunam com essa percepção:
quando eu era solteira eu não tinha nada” (pront. 004), seguida de anotação do profissional,
problemas com o esposo etilista” (psiquiatra A, pront. 004). Ainda outras falas de pacientes
corroboram a impressão de que também estes concebem o adoecimento como resposta a algo
que vem de fora:
“foi muita falação que me deixou assim” (pront. 022)
“desde que meu amigo morreu eu fico preocupado” (pront. 025);
“fico muito preocupada e com a cabeça ruim... mas é por problema com meu
namorado...” (pront. 032)
“eu quero internar... eu fico sozinho, meus filhos e muié não querem saber de mim,
lá no hospital pelo menos eu fico no meio dos outros” (pront.033);
“o que atrapalha agora é a enchão de saco em casa... eu quero separar a casa
porque fico melhor sozinha e Deus, longe de filho e de marido...” (pront. 084);
“contrariada (pront.092);
“ela arrumou essa mal-querência” (mãe, pront.111)
“[estou] angustiada, terminei namoro (pront. 450)
“meu marido me largou” (pront. 493)
102
Nalgumas vezes, o problema exterior não é claramente demarcado, ou sequer vem de
relações sociais: “adoeceu após ter „comido comida ruim e malfeita‟ (psiquiatra A, pront.
011); “o nervosismo vem do nada...” (pront. 073).
Noutras vezes, aparecem crenças populares como explicação: “a misturação da
barriga subiu para a cabeça e a idéia ficou fraca... só melhorei porque a tratadeira me benzeu,
e a misturação desceu pretinha, mas minha iia sempre foi fraca...” (pront. 016); “tomou um
„banho destemperado‟ e passou a „sofrer dos nervos‟” (psiquiatra A, fazendo menção a fala de
paciente, pront. 049); “foi resguardo quebrado” (pront. 145).
Na fala que segue, a doença parece até ter sido “transmitida” por contágio (ou seria
castigo por quebra de tabu?): “adoeceu por ter relações com a esposa enquanto ela estava com
a „iia fraca por picada de cobra‟” (psiquiatra A, fazendo meão a fala de paciente, pront.
023).
A explicação pode se aproximar das ditas científicas, pela importância que assume o
nexo causal: “ele [anticoncepcional] me dava sistema nervoso” (pront. 062).
Outros prontrios traziam relatos do entendimento de que as causas da doença
seriam sobrenaturais: cismei que jogaram de macumba em mim(pront. 039); relaciona
a feitiço feito por vizinhos; melhorou com benzedeira” (psiquiatra A, pront.147); “[a paciente]
acha que tem um espírito invadindo seu corpo(psiquiatra A, pront.155); de 8 em 8 dias e
virada de lua ele [paciente] pega a vomitá com sangue e olho vermelho, pois o pai fez feitiço
para nós” (mãe, pront. 707).
Esses relatos, fortemente influenciados por crenças em forças sobrenaturais, além de
constarem em poucos registros, não parecem implicar em orientação para elaboração de
diagnósticos, principalmente se feitos por familiares. Tudo indica que, para os profissionais,
essas não seriam informações importantes.
também o entendimento de „problemas de nascença‟, sobretudo nos casos de
retardo mental, ou „de família‟, em que a herança dos antepassados se transmite na propensão
à doença mental. Em todos os casos em que os problemas pareciam ocorrer desde o
nascimento, quem enuncia a suposição é sempre um acompanhante, e o diagnóstico
formulado pelo expert (se há dois, pelo menos um deles) é oligofrenia:
“ela é doente desde novinha” (cunhada, pront. 046)
“é assim desde nascença...” (cunhada, pront. 069)
“nasceu com problema...” (ir, pront. 080)
“é atrasada desde pequena” (vizinha, pront. 178)
“[a paciente] é doente desde os 06 dias” (acompanhante, pront. 306)
103
Muitas são as menções a familiares portadores de transtornos mentais, informação
que, a julgar pelos registros muitas vezes não preenchidos , pareceu interessar de modo
desigual aos profissionais. Algumas vezes, a família como um todo é citada como padecendo
de adoecimento mental:
“a família inteira tem isso [doença mental] ”(filha, pront. 043)
“a família do [meu] pai é toda assim, nervosa...” (pront. 056)
“[sou] muito parecido com o pai que é nervoso também...” (pront. 099)
“a [minha] falia inteira tem problema de nervo” (pront. 132)
Uma última causa parece relacionar-se ao desgaste do trabalho, que aparece tanto no
uso direto da expressão quanto em menções indiretas ao esforço, às ões envolvidas ou às
condições desfavoráveis em que se trabalha:
“se esforçar, capinar, grito a noite inteira dormindo e falta de lego” (pront.
027); “piora depois de ter ficado „ficado catando café no sol‟” (psiquiatra A,
IDEM)
“agora tá tudo bem... só não posso trabalhar e ficar nervosa” (pront. 030)
“eu tremo quando faço esforço” (pront. 056)
“o dia que eu esforço não consigo dormir...”, “quando volto a trabalhar, fico
pior...” (pront. 116); “mais nervosa na época de pegar café; bambeza quando
trabalha na enxada” (psiquiatra A, IDEM)
“não posso com sol na cabeça” (pront.142)
Aos psiquiatras, de outra forma, a relação entre adoecimento e trabalho parece
despertar, em alguns casos, certa suspeição, como sugerem as anotões abaixo:
“„depois que operei [laqueadura] não sirvo mais para trabalhar na roça‟ ganho
secundário? (psiquiatra A, pront.068, comentário entre colchetes no original)
“por causa de muito sol e esforço de trabalho, afirma que voltou a ouvir vozes.
Após parar de trabalhar melhorou novamente. Ganho secundário? (psiquiatra A,
pront. 118)
“não relata melhora; choro, simula?”(psiquiatra C, pront. 388)
“mantém discurso sobre impossibilidade de trabalho, relata que seu problema é
„por causa do INSS‟ (psiquiatra D, pront.447)
“parou de trabalhar como babá (se é que já trabalhou)” (psiquiatra D, pront. 481)
“comunico que não será fornecido mais laudo [para o INSS](psiquiatra D, pront.
622)
Significaria essa postura por parte dos experts que esses assumem o usuário como
enganador em potencial e possível oportunista? Seria o „jeca tatu‟, o tipo rural tido como
preguiçoso e pouco afeito ao trabalho, assombrando o imaginário dos psiquiatras? Ou seria
uma identificação inconsciente desses com o INSS, enquanto representante do governo e,
assim, do poder. Por isso, acabariam por defender o poder mais que os direitos dos pacientes,
por razões de demarcação de identidade e alteridade (médico x paciente, louco x normal) e de
classe (profissional x usuário, doutor x usuário).
104
4ª categoria: tratamento e cura da doença mental
Nessa categoria foi possível aferir, pela demanda dos usuários, que estes concebem
dois tipos de possibilidade: o uso dos remédios e o recebimento do beneficio. Seriam
exemplos do primeiro caso:
“o remédio tá fraco” (pront. 049)
“agora tem 15 dias que eu sem o remédio, mas com ele eu fico bem...” (pront.
050)
“acho que o remédio ta fraco...” (pront. 051)
“fico bem, se tomar remédio...” (pront. 055)
“os remédios perdem o efeito e o problema volta...” (pront. 073)
“eu tomando remédio (pront. 076)
“eu tomo um remédio aqui...” (pront. 082)
“[vim] trocar receitas, eu tô bem... (pront. 089)
“acho que não vou conseguir ficar sem ele [remédio] mesmo não...” (pront. 100)
“se ele fica sem remédio piora muito...” (esposa, pront. 106)
“até hoje se não toma remédio não tem jeito de lidar com ele...” (irmão, pront.
109)
“eu tomo remédio de nervo... (pront. 115)
“eu tomo remédios...” (pront. 155)
“[o paciente] melhorou com a injeção de vitamina para os nervos” (mãe,
pront.119)
“...o problema dele [paciente] é que ele tem que tomar o diazepam senão ele fica
agitado...” (irmão, pront. 134)
“eu tomo paroxetina até hoje, e não posso ficar sem...” (pront. 189)
“tomo remédio... (pront. 202)
“tomo amitriptilina” (pront. 301)
“tomo remédio controlado (pront. 369)
“usotio” (pront. 463)
No caso do uso dos remédios, a tomar pelos registros, parece haver uma confluência
entre as expectativas dos pacientes e dos profissionais, na medida em que as prescrições, por
parte dos profissionais, ocupam grande parte das anotões a que se dedicam nos prontuários.
Se isso significar que ambos concedem importância à prescrição, então deverá haver
harmonia entre a representação do que é um tratamento psiqutrico adequado entre médicos e
usuários.
Contudo, quando o tema „demanda por recebimento do benefício do INSS‟ é posto
na relação, essa conflncia não é tão óbvia, ou inexiste. O desejo de aposentar, a necessidade
de atestado para ausentar-se do trabalho e, algumas vezes, num termo curioso, encostar,
provoca a tal „desconfiança ou „sentimento de abuso‟ entre dicos. Eis o „jeca tatu‟, esse
aventureiro oportunista, rondando novamente. Os pacientes se expressam assim:
“[queria] encostar por uns tempos [no INSS]” (pront.004)
“[quero] encostar no INSS”(pront. 010)
“tenta „encostar‟” (pront. 018)
“quer „aposentar‟” (psiquiatra A, sobre demanda da paciente, pront. 053)
“eu preciso de atestado de psiquiatra para aposentar...” (pront.124)
105
“eu preciso me aposentar...” ( pront. 139)
“quer „encostar pelo INSS‟” (psiquiatra A, sobre demanda da paciente, pront. 143)
“suspenderam pagamento [de benefício]” (pront. 261)
“tô encostada [no INSS]” (pront. 292)
“quero encostar” (pront. 304)
“busca benefício [do INSS]” (psiquiatra D, sobre demanda do paciente, pront. 468)
“busca um atestado „caprichado‟” (psiquiatra D, sobre demanda da paciente, pront.
481)
Encostarpode ser traduzido por estar apoiado em algo para não cair, firmar-se,
deitar-se reclinado, sobreviver de ajuda ou favor. Não foi possível determinar qual desses
significados prevalece nesse uso, se é que não estão todos, de alguma forma, presentes. A
julgar pelo desconforto dos profissionais como se pode verificar mais acima, mal-disfarçado
em suas anotações como „ganho secundário‟ ou „simulação‟, estes em o “encostar” mais
como um abuso que como uma necessidade ou um direito. Tudo indica que, para os médicos
esse desejo dos pacientes de „receber o benefício do INSS não é legítimo e sempre se corre o
risco de cair na „lábia de aproveitadores‟.
nos prontuários, como se disse, um campo que indica os parceiros do NAPS na
indicação dos pacientes para tratamento. Esperava-se que, na medida em que algumas vezes
os próprios psicólogos do NAPS encaminham usuários para os psiquiatras, estes também
indicassem outras formas de tratamento que não a medicação. No entanto, o que se observa é
a despreocupação do preenchimento desse campo por parte de muitos dos especialistas e um
silêncio sobre o encaminhamento para terapias psicológicas ou de outras linhas (como as
oficinas de arte, como propunha por Nise da Silveira).
E, por fim, o que dizer da cura? A pouca menção a ela nos prontuários não lhe
confere um status categorial explícito. Se sua raríssima ocorrência de registro for proporcional
à esperança de que seja possível, médicos e pacientes estão empatados na descrença. pelo
menos uma fala que é taxativa: quem tem problema de nervo não melhora nunca...” (pront.
064). A ausência de registro só vem confirmar essa expectativa. Contudo, não se pode
afiançar que a vastidão do silêncio ou a dureza da desesperança sejam uma impressão geral.
E, se forem, bem pode ser que outra afirmação, também única, sirva de compensação à
desesperança, pela singeleza de sua perseverança: “bem a gente não passa... vai vivendo”
(pront. 088). A cura parece, assim, circunscrita ao controle, manutenção da vida e convincia
com as limitações. Doença mental é sentida como coisa crônica e é representada como uma
jaula. Sentida dessa forma, como um destino inelutável, a doença mental pouco poderia contra
estigmatização, e o tratamento seria menos uma forma de combate, e mais de controle. E tudo
segue como deve ser: no dizer de uma paciente, “vou levando a vida” (pront. 062).
106
CAPÍTULO 5
O DIÁLOGO COM AS TEORIAS
5.1- Interpretando registros
A análise que segue versa sobre o que se depreendeu dos registros feitos, mas
também das omissões percebidas. Como esclarecia Bardin (1977, p.109), “a aparição de um
item de sentido ou expressão, será tanto mais significativa em relação ao que procura atingir
na descrição ou na interpretação de realidade visada quanto mais esta freqüência se repetir.
Adverte, no entanto que, “a ausência de elementos (relativamente a uma certa provisão) pode,
nalguns casos, veicular um sentido” (BARDIN, 1977, p.108). Por isso, poder-se ia dizer que a
ocorrência mais freqüente ou repetitiva, insistente até, de dadas expressões guarda
significados de importância e que certas formulações dos pacientes tocam mais
profundamente os médicos, por lhes chamar mais a atenção. Entretanto, as lacunas e omissões
nos registros feitos pelos mesmos podem apontar, também, aquilo que menos os interessa ou
mais os incomoda.
O não preenchimento dos campos do prontuário relativos às características sociais
dos pacientes pode indicar que os médicos não percebem muita relação entre sua condição de
vida e o adoecimento, que seria, assim, principalmente orgânico, invariável em cada corpo em
que se manifesta, e não relacionado, portanto, ao modo e experiências de existência do
portador. Se o problema é físico, por que saber das especificidades do rural?
Além disso, sabe-se que determinadas palavras ou expressões focadas por esta
pesquisa remetam a um tema que permite melhor estudar motivações de opiniões, de
atitudes, de valores, de crenças, de tenncias, etc.” (BARDIN, 1977, p.106). Por isso as falas
de pacientes e profissionais, enquanto registros gráficos de suas representações sobre loucura
e saúde mental, indicaram algo sobre seus valores e práticas quanto ao tema.
Primeiramente, em se supondo que os registros guardam relação com o que foi dado
a registrar, o que significará o pouco uso do termo loucura? Carregará a palavra tamanha
força de estigmatização que, como no caso do câncer, sua própria menção deve ser evitada?
Talvez. Parece que as falas em torno da loucura devem ser sutis, quiçá para não acor-la.
Mas o eufemismo pode ser apenas o último escárnio da estigmatização.
Essa peculiaridade de falar da loucura sem nom-la diretamente foi percebida no
estudo clássico de Jodelet (2005), que acredita ser essa evitação uma reserva em relação à
própria loucura, na figura de seu portador, mas também manifesta no uso dos termos:
107
prudência redobrada pelo medo do poder gico da palavra. Falar da doença é torná-la
presente, simbolicamente, mas também provocar, pelo desvio da rememoração, sua
ressurgência” (JODELET, 2005, p.205).
A autora afirma ainda que “o medo paralisa a comunicação, assim como desvia a
atenção e suspende o discurso, para que não aflore essa „certa coisaainda indefinida que o
doente traz consigo e que parece escapar à tomada de consciência(JODELET, 2005, p.205).
Por isso, é defenvel que não sejam somente os profissionais que sonegam o seu registro,
mas os usuários que evitam o termo. A palavra problema pode se prestar, então, a obturar a
lacuna deixada pela evitação do termo loucura, por ser mais neutra e de uso mais corrente.
Algumas palavras ou locuções que surgiram na fala dos pacientes e familiares são
comuns quando se trata dos problemas mentais. Pessotti (1994) já destacava que a cabeça
aparece como local privilegiado nas queixas concernentes ao sofrimento mental, enquanto
Figueiredo (2002) fala do uso do termo nervoso, que, curiosamente, muda de sentido: antes
vigoroso e intenso, passa a fraco e abalado. Nenhum deles, entretanto, foi usado com
exclusividade, de modo a propiciar a criação de uma categoria uvoca. Ambos podem indicar
que o corpo, em sua anatomia e função, é tomado como uma quina, ferramenta de trabalho,
que pode enfraquecer com o desgaste ou sofrer avarias pelo uso continuado e extenuante.
As palavras escolhidas, nesta pesquisa, para nomear as categorias saúde e doença
mental poderiam ter sido outras, como loucura versus razão, mas a escolha se deu em razão de
dois fatores principais: a varião dos termos usados quando se pensa a doença mental e a
procura explícita por um serviço de saúde mental. De algum modo, a população concebe
tratar-se de um problema de saúde, manifesto, quando de sua perda, no adoecimento, ainda
que recorra a outros expedientes para a melhora ou que desconheça suas causas, mesmo que
eleja explicações não científicas.
Evidenciou-se alguma crença em causas sobrenaturais, mas essas ocorrências o
pouco registradas (ou faladas) e pouco claras. Serão os médicos desinteressados nesses
aspectos ou os pacientes cautelosos em lhes relatar suas experiências? Foi possível, a partir da
metodologia utilizada nesse trabalho, identificar que esta questão está posta. Porém,
reconhece-se que a pequena aparição nos registros pode indicar algo mais que a não
ocorrência: sabe-se que os pacientes recorrem a expedientes extra-oficiais de cura sem mesmo
notificá-las aos dicos (BOLTANSKI, 2004; CÂNDIDO, 2001; LAPLANTINE, 2004;
OLIVEIRA, 1985), e que o tema, ainda que relatado, pode não interessar aos profissionais.
“Como sabemos, o discurso dos psiquiatras é destinado primeiro ao uso dos psiquiatras”,
prefacia Moscovici (2005, p.29). Isso explicaria mais que a provável sonegação de
108
determinadas informações nos registros, mas a própria maneira fragmentada e sucinta como
os profissionais tomam nota daquilo de que se queixam os pacientes e do que factualmente
observam eles mesmos. Esse “estilonão invalida certas conclusões neste trabalho, sobretudo
porque, quando ocorre, não procura deliberadamente “apagar” algumas informações: a
espontaneidade da omissão deixa, por assim dizer, o “rastro”, a marca no caminho a ser
percorrido pela pesquisa. E essa diferente valorização nos registros pode gerar conseqüências
que repercutem na outra ponta, nos usuários.
Ainda existem dois importantes fatos para essa análise: a imprecisão das noções de
saúde e doença e a procura por atendimento especializado. Aqui a teoria, manifesta no
conceito de representação social assumido nesta pesquisa como balizamento, encontra a
prática: sendo, recorde-se, uma forma de conhecimento, socialmente elaborada e partilhada,
com um objetivo prático, e que contribui para a construção de uma realidade comum a um
conjunto social (JODELET, 2001, p. 22), a noção de doença mental, inicialmente imprecisa,
apresentou-se forte o bastante na análise dos relatos, pelo menos para nortear a busca por
auxílio profissional. Entretanto, não pode ser identificada no pólo contrário de uma tamm
imprecisa, mas muito clara, noção de saúde/normalidade, porque, no modo de sua ocorrência,
ela desencadeia, tão logo possível, os dispositivos práticos à disposição da comunidade para
correção ou atenuação dos problemas que, sabem bem os não-médicos, a loucura pode fazer
eclodir. Dizer que uma noção não é clara não é dizer que seja inútil.
Essa imprecisão da descrição da doença mental foi notada também no estudo de
Jodelet (2005, p.218): “a doença, mal definida, ainda aparece apenas como uma força
operante, suscetível de afetar as diversas determinações e expressões do individuo”. O que se
quer dizer é que, possivelmente, qualquer familiar sabe se um dos seus é doente ou saudável,
mas talvez não saiba dizer claramente o que caracteriza cada estado. Não parece ser, portanto,
a nomeação do problema que os usuários buscariam no tratamento, talvez nem mesmo a
confirmação do adoecimento, mas sua erradicação ou, se não se crê que esta seja possível, sua
compensação. Aqui, talvez, esteja o grande distanciamento entre as expectativas dos pacientes
e a atuação dos profissionais, procurados quando e se o grupo familiar entende tratar-se de um
problema de saúde.
A preocupação dos experts com o diagnóstico dentro do sistema oficial da disciplina
a Classificação Internacional de Doenças, 10ª versão, a CID-10 talvez possa ser explicada
por aquilo mesmo que os constitui como tal: ao operar uma “mágicaem que as informações
dos pacientes são convertidas numa atuação especializada e cujo processo Goffman (2007)
descreveu com tanta erudição o profissional assegura sua posição de poder perante aqueles
109
que lhe concedem autoridade e ainda intercede como uma espécie de retribuão a esse grupo,
dando um enquadramento médico para conflitos que, ainda que não exclusivamente, são
necessariamente sociais, na medida em que incidem sobre as relações sociais (SINGER ET
AL, 1978). Mas ainda mais uma possível razão: diagnosticar compete ao médico e até
mesmo os clínicos parecem se arriscar menos a fazer diagnósticos no campo da especialidade.
Ato por excelência da competência do expert, remonta ao peodo em que tudo que o médico
podia fazer no campo do tratamento da loucura era classificar e aprisionar (FOUCAULT,
2004). Classificar é uma forma, sabe-se bem, de exercer poder simlico sobre grupos
(BOURDIEU, 1996). E, reconheça-se, não apenas a palavra loucura guarda força simbólica:
os impronunciáveis nomes da doença mental, demônio que se chama legião, porque são
muitos, também despertam temores, e respeito por quem os manipula.
Em decorrência, alguém levado por familiares a um especialista em saúde mental,
mormente um psiquiatra, tem grandes chances de ser diagnosticado e tomado como doente
(GOFFMAN, 2007; SINGER ET AL, 1978). Sobretudo se for considerado que o candidato a
paciente já pode começar a ser observado pelo especialista dentro de um modelo que Goffman
(2007, p. 77) entende tratar-se de um esquema de interpretação”. O modo como o
pensamento dico se constitui a partir de determinados modelos de referência se aproxima,
de acordo com os pressupostos teóricos deste trabalho, com a noção de visão de mundo
proposta por Geertz (1989), de que os sistemas classificatórios seriam ferramentas operativas,
ou seja, uma conduta anômala percebida gera diagnóstico se pode ser correlacionada a
alguma rubrica diagnóstica constante do catálogo, mas a possibilidade da classificação gera
um entendimento de condutas desviantes como patológicas. Não é sem razão que a psiquiatria
amplia seu poder quando mais condutas sociais desviantes passam a compor diagnósticos,
dentro do que se compreende como medicalização da vida (ILLICH, 1975).
Estas evidências permitem aventar como usuários e familiares compreendem a
intervenção do especialista. Se a noção de doença é difusa, imprecisa, mas calcada em
alterações perceptíveis da conduta comumente, a patologia que inicialmente chama a
atenção para a condição do paciente é o comportamento que é „inadequado na situação‟”
(GOFFMAN, 2007, p.295) , desvela-se a expectativa encoberta do que é considerado
adequado, normal, que se desdobra em mais que meramente ações diárias de cunho prático:
anuncia traços de identidade que facultam a permanência num grupo seja a família, seja a
sociedade. O tratamento, então, restituiria ao máximo esse indefinido estado de normalidade,
mesmo que o sucesso completo, a cura, seja pouco provável.
110
A atuação do psiquiatra vai além de transformar queixas vagas em diagnósticos a
medicar, pode resvalar para algo que muitas vezes passa despercebido a este, pois as
decisões de diagnóstico, a não ser em casos de sintomas extremos, podem tornar-se
etnocêntricas” (GOFFMAN, 2007, p.295). Se o profissional desconhece o arcabouço cultural
que sustentação para o entendimento de normalidade do grupo, pode ser levado a supor
que houve melhora onde o grupo o a percebe e, inadvertidamente, intensificar a
estigmatização dos desviantes e esgarçar laços familiares e sociais mais que reforçá-los.
Tampouco o entendimento dos o-médicos sobre normalidade da categoria saúde
foi bem traçado pelos usuários, o que pode até ser usado para explicar a facilidade com que os
psiquiatras utilizam a sua própria noção. Isso não os desincumbe de estarem atentos à esse
padrão de referência do grupo. Goffman acredita que, “mais precisamente, segundo a
definição do senso comum, a saúde mental é a capacidade para jogar qualquer jogo de vida
social, e jogá-lo bem” (GOFFMAN, 2007, p.295). Excluindo-se qualquer metáfora
americanizada de esporte ou competição, pode-se dizer que, no meio rural, a saúde mental é a
capacidade de se desempenhar bem não num “jogo”, mas num “mutirão”, a vida comum, e
fazê-lo bem.
Assim, a imprecisão da doença mental na ruralidade não constitui pobreza cultural,
mas um desdobramento de como esta cultura valoriza o corpo veículo de atuação sobre o
meio e de sua transformação , o trabalho e as relações sociais rede que contem e protege
aqueles ligados por seus laços. Se o trabalho é um valor, isto pode decorrer da pobreza e das
dificuldades de sobrevincia que essa população enfrenta, desde os primórdios da
colonização, como condição constante de existência, e que o sistema de produção capitalista
veio e exacerbar. E, se o trabalho é tão importante, é o corpo, essa máquina, que deve
desempenhá-lo. Não causa espanto que não-médicos remetidos à zona rural tomem o corpo
como ferramenta, cheio de nervos bambos e idéias variadas, que não consegue trabalhar
direito ou sucumba às intempéries, como o calor exaustivo do sol. O trabalho é sempre muito,
mas a saúde nem sempre o é. O remédio, primeira expectativa dos não-médicos quanto ao
tratamento, funcionaria, assim, como algo entre o óleo lubrificante e o combustível
revigorante.
E isso, por usa vez, desdobra-se na outra expectativa concernente ao tratamento, que
o se restringem à tomada de uma medicação: espera-se que algum dispositivo, no caso, o
recebimento do benefício do INSS, conceda ao doente condições de continuar no “mutirão
que é a vida. Se os problemas estão nos nervos, mas também advêm das relações, o
surpreende que os usuários queiram, a partir de uma vida mais confortável e relações mais
111
amenas, conseguir acalmar os nervos. Daí que busquem algum tratamento que aplaque o
desconforto de o participar das trocas sociais como se espera dos não adoecidos, ditos
“normais”. Não se nega que possa haver casos de simulação, algum abuso há, s intenções
na obtenção de benefícios e direitos tamm. Não é possível crer, por outro lado, que haja
isso.
Os médicos, por seu turno, seguem com a constante tarefa de diagnosticar. Mas, se é
assim, o que dizer das lacunas deixadas no campo dos diagnósticos? Deve-se reconhecer,
primeiramente, que diagnosticar é, como diria Mauss (2003, p.407), “ato técnico, ato sico,
ato mágico-religioso”, pois o „desconhecido ou „oculto precipita-se, por uma ação de
prestidigitação ou de raciocínio, num nome que pode ser transportado, manipulado, exibido.
Os médicos algumas vezes diagnosticam processualmente, não de forma imediata, como
sugerem os registros de diagnóstico fora dos campos propícios, mas no meio de uma outra
anotação qualquer, quase como se o diagnóstico tivesse se revelado‟ e fosse anotado ali, fora
do lugar. Ato gico, muitas vezes se deve manter em segredo o truque: assim como as
receitas, que antes eram escritas em latim e agora, com caligrafia ilegível, em formulações
químicas impronunciáveis, os diagnósticos usam nomenclatura erudita ou, último requinte de
uma ciência convertida em tecnologia, uma sigla, F-20 ou F-32. Se os diagnósticos,
entretanto, algumas vezes demoram a surgir, a medicação quase nunca deixa de ser prescrita
no primeiro encontro, antes de qualquer formulação diagnóstica ter sido registrada. Isso
pode indicar que, nas representações dos dicos, prescrever é a tarefa principal ou a mais
urgente, e nisso se igualam especialistas e generalistas, demonstram-no a presença marcante
de notas sobre psicofármacos nas fichas, em oposição à ínfima menção a outras formas de
terapêutica. E não esperariam os pacientes que lhes fosse mesmo dada alguma medicação,
essa poção ou elixir que os médicos aprenderam a fornecer com as mães e com as bruxas?
Na outra ponta do tratamento, o recebimento do benecio pelo Instituto Nacional de
Seguridade Social (INSS) constitui motivo de possível discordância entre médicos e usuários.
Pacientes e familiares reconhecem que „encostar‟ é legítimo. O INSS funcionaria
neste caso como uma espécie de compensação para a família, num duplo sentido. Primeiro,
porque o sujeito doente, ao deixar de trabalhar, representa uma perda para o orçamento
familiar total, fato parcialmente compensado com o recebimento do benefício. Segundo,
porque a família, dada sua proximidade e responsabilidade para com os cuidados exigidos no
tratamento, pode funcionar como agravante ou atenuante do estigma, de acordo com a
maneira como se conduz com o doente, e mesmo como o conduz em suas relações sociais
(abandonando-o, mantendo sua inserção social ou promovendo sua reinserção). Havendo
112
ausência de trabalho, mas ocorrendo a permanência de um ganho, este operaria uma correção
parcial do desvio em relação às normas sociais, segundo as quais o trabalho seria um valor
humano crucial, uma vez que nas pequenas propriedades o trabalho rural é entendido como
substancialmente familiar e a ajuda mútua, mutirões e trabalhos coletivos são marcas
constitutivas da vida laborativa rural (QUEIROZ, 1973).
Também para o grupo de que faz parte o doente, ao se reconhecer que sua ausência
no trabalho contribui para a estigmatização, o recebimento do benecio serve, no vel social,
para explicar e justificar tal impossibilidade, enquanto, no familiar,como proposto, presta-se a
compensá-la, daí a demanda de pacientes e familiares pelo atestado para as perícias do INSS,
como parte constituinte do tratamento devido nas expectativas desse grupo.
Mesmo que essa busca por recebimento de pensão do serviço de seguridade possa
parecer indicar o contrário, uma vez que os candidatos pretendem “encostar” no INSS para
garantir o seu “SUS-tento”, de modo geral os pacientes afirmam que tentam trabalhar,
esforçam-se para seguir ou recuperar capacidades e, mesmo não o conseguindo
completamente, valorizam o bom desempenho no trabalho como indicativo de saúde, e assim
de normalidade, como nesse caso: “não é que eu queira encostar, eu sofro muito, queria
melhorar... mas já que não tem como, eu recebo do INSS” (pront. 116). A própria participação
dos pacientes, ainda que de modo menos produtivo, na colheita do café, junto com seus
familiares ou sem eles, é demonstrativo da permanência desse valor, mais que de sua
fragilidade. Além do que, essa presença facilita as relações sociais, ainda que o trabalho se
processe, de fato, precariamente, em comparação aos outros trabalhadores, melhor inseridos,
talvez, no modo de produção de mercado.
E mais ainda: na medida em que, a partir do recebimento do beneficio
previdenciário, pode começar a contribuir ou continuar contribuindo em casa, mantém-se um
sistema de dádiva familiar, entendido o conceito de dádiva como “qualquer prestação de bem
ou de serviço, sem garantia de retorno, com vistas a criar, alimentar ou recriar os vínculos
sociais entre as pessoas” (GODBOUT, 1999, p.29). No circuito dar-receber-retribuir, a
manutenção de um papel e um lugar na hierarquia familiar (no caso da mulher, o cuidado com
os filhos e com o lar, e, no dos homens, com o trabalho na lavoura e o sustento da família)
garante a retribuição quando se trata de algum agravo à saúde. Aqui aparecem outros dois
valores estruturais da identidade rural: o lugar na hierarquia familiar e o respeito pela
instituição família, ambos integrados. As trocas ocorrentes, então, seriam não de uma quantia
financeira por um serviço, mas de estabilidade garantida por um papel e sua função na família
por outra, a saber: continuar cuidando (com alguma ajuda pecuniária para as despesas) para,
113
quando preciso, ser cuidado (como doente), o que reforçaria, de acordo com o conceito
anteriormente apresentado por Godbout (1999) para dádiva, as relações e os laços entre os
atores envolvidos. Esse temor toma corpo em falas como “minha irmã falou que vai me
desdeixar...” (pront. 052, o mesmo que diz que “antes trabalhava e estudava... agora não faço
mais”) note-se como o neologismo, desdeixar, aproxima-se de desleixo, falta de cuidado.
Apesar de o ter sido possível verificar o uso ou recurso de formas paralelas de
medicina, que, exceto por poucos casos de benzeduras, não constam dos registros de
prontrios significará essa exclusão uma atitude de superioridade dos representantes da
medicina erudita em sequer investigar ou tomar notas sobre esse recurso por parte dos
pacientes, ou é destes últimos que parte, como uma espécie de defesa de classe, a não
informação sobre esse uso? pode-se supor que o recebimento do beneficio previdenciário
tem características semelhantes à busca por formas alternativas de medicina. O entendimento
de que alguma causa externa ou sobrenatural levava à loucura autoriza essa inferência.
Ocorreria, inicialmente, um processo ritual de certo risco, envolvendo recusa ou
aceitação, uma vez que, como no mundo espiritual, o suplicante pode não ser aceito pelas
graças do INSS. Geralmente, e de modo semelhante ao recurso a feiticeiros e benzedeiras, o
ritual é percorrido com a ajuda de algum familiar, que conduz o paciente, que o apóia em seus
passos num trajeto incerto e marcado pelo medo do insucesso, ou muitas vezes o guia num
percurso em que adquiriu experiência própria. Requer igualmente certos signos de
passagem: primeiro, conseguir o atestado por parte do médico assistente, depois peregrinar”
até o posto do INSS mais próximo (no caso de Ervália, segundo relatos de alguns pacientes,
mais comumente Visconde do Rio Branco, mas também Viçosa e, mais dificilmente, Muriaé
ou Juiz de Fora), onde se a avaliação do perito, já previamente marcada, e ocasionalmente
temida, dependendo de ser o perito grosseiro ou temperamental. Em havendo a aprovação, o
recebimento da pensão, muitas vezes com atraso de alguns poucos meses, representa última
dificuldade que pode acrescentar ao processo um caráter de provação, seguido da salvação.
Todo o ritual deve ser repetido, quantas vezes forem necessárias, até que se alcance a
aposentadoria definitiva por invalidez.
Ademais, assim como o recurso a formas de medicinas alternativas, todo esse
processo guarda alguma capacidade de socialização, na medida em que compõe uma rede de
apoio invisível aos olhos dos médicos: são trocas de favores (vizinhos que levam doente e
familiar até outras cidades), reforço de laços (parentes aposentados que vão acompanhar o
doente no processo de perícia), oportunidades de cuidados (familiares que cuidam para que o
prazo do recebimento não expire sem que sejam providenciados outros atestados e marcadas
114
novas perícias), de retribuições (pagamentos em espécie ou em presentes após o sucesso da
empresa). Seria uma oportunidade interessante de a cultura rural adequar ditames capitalistas
às suas tradições de sociabilidade, e a estigmatização poderia, que sublime, ser atenuada pela
dádiva. Supor, portanto, que o recebimento carreia apenas interesses financeiros é ver o
fenômeno por um ângulo muito restrito, imputando ao modo de entendimento das condições
de ruralidade uma característica que talvez ocorra principalmente nas formas de trocas
econômicas mais propriamente capitalistas.
Pode-se inferir, então, que a consecução do beneficio do INSS, ao invés de afastar o
sujeito doente dos valores sociais do grupo, uma vez que, oficialmente, não pode trabalhar,
garante, no mais das vezes, sua permanência no mesmo, pois que aceito como contribuinte do
orçamento da casa ou, pelo menos, mantenedor de alguns de seus gastos. Essa permanência,
fator de sanidade mental, reforça laços grupais e familiares e relações de dádiva, garantindo a
sustentão dos outros valores lugar social e tradições de família e pode facilitar, assim, o
próprio retorno ao trabalho, depois de cessado o recebimento do benefício, por preservar ao
máximo o seu lugar social e sua identidade. Poderia, portanto, funcionar como prótese sócio-
econônica temporária. Assim como o envolvimento com o trabalho é índice de melhora da
doença mental (GOFFMAN, 2007), o que também foi percebido nas falas de alguns usuários,
o recebimento da pensão, ainda que traga o resultado final sem o processo laborativo em si,
pode, se bem conduzido, funcionar do mesmo modo, e facilitar ou acelerar o retorno ao
trabalho, quando da maior estabilização do paciente, e não apenas gerar aproveitadores” que
simulariam loucura para ganhar o benefício. Para não dizer que o benefício previdencrio
pode ser o último recurso a um direito que já claudica no âmbito trabalhista.
Mas o peso da doença: a cronificação, prisão sem muros, o estigma, internação
sem alta, o abandono, morte simlica lenta. Se os psiquiatras não parecem conseguir uma
explicação etiológica para o mal que procuram tratar, não conseguirão evitar esses
desdobramentos. Qualquer que seja a causa das doenças mentais, não parece que o
conseguirão se não tiverem o auxílio dessas pessoas, os pacientes, para lhes guiar na tarefa, e
do grupo social de que fazem parte esses últimos, para uma mudança de postura.
De um modo muito geral, pode-se dizer que as representações sociais de saúde e
doença mental para os não-médicos parecem gerar posicionamentos que se aproximam
daquela descrita por Foucault (2004) como vigente até fins do século XVIII, resumida da
seguinte forma: entendimento não científico dos sintomas, valorização maior das condutas
tidas como irracionais, despreocupação com uma nomenclatura ou classificação gidas, com
conseqüente maior tolerância em relação ao considerado louco embora não deixe de ocorrer
115
sua valorização negativa. De outro lado, e novamente com a ajuda de Foucault (2004), a
postura dos médicos sugere que suas representações operam em sentido diferente, mais
comum a partir do século XIX: priorização dos sintomas, apego a uma classificação
nosográfica das patologias e conseqüente “medicalização” dos conflitos sociais esta última
idéia também está presente em Singer et al (1978), mas, que se saiba, o termo é de Illich
(1975). Ambos parecem concordar em construir uma compreensão mais organicista da
loucura, sediada no corpo, contando com fatores relacionais apenas como desencadeadores
corpo como máquina, remédios como tratamento. Os não-médicos, quem diria, sem o
(des)preparo acadêmico, é que reconhecem que o social pode funcionar não como
condenação, mas como tratamento, ao demandarem seus direitos pelo recebimento do auxílio
do INSS. Até parece que leram Nise da Silveira.
Se representações conduzem práticas, podem ser esperadas essas divergências entre
dicos e não-médicos. Mas como explicar, então, a procura dos usuários pelo serviço de
saúde mental? Isso talvez se deva, em parte, ao modo mesmo como se constitui a identidade
de um grupo acostumado a ter que contar com (ou “encostar” nas) autoridades, para subsistir
enquanto grupo.
No pico que segue será apresentada uma tentativa de entendimento do
desdobramento do encontro entre a função da psiquiatria (e instituições de saúde mental em
que opera) com a identidade rural e seus valores.
5.2- Os valores de grupo e a identidade rural deteriorada
O contexto das consultas médicas oportuniza uma importante observação quando,
para identificação do paciente, a entrevista clínica investiga sobre local de origem e residência
e atividade profissional: duas respostas muito freqüentes são sou da roça” e o mostrar das
os calejadas, num misto de humildade e orgulho. A identificação/identidade que o paciente
apresenta de si fala de sua criação, ocupação e valores, todos atributos dispostos em
tautocronia, uma vez que roça” significa, ao mesmo tempo, as regiões não urbanas, a lavoura
e o preparo da terra, cujo esforço no trabalho se materializa na apresentação das mãos ásperas,
sinal de denodo, embora também de pobreza.
O problema está em que o médico muitas vezes sabe o que procura quando procede à
entrevista e argúi sobre essas questões, mas não entende o que encontra quando se depara com
esse “mostrar de mãos calejadas”: saber das origens não é necessariamente conhecer o ethos
de um povo, sua cultura, sua história. Há, portanto, o risco do sujeito ser tomado como tipo, e
116
da identidade pessoal submergir na identidade de grupo, ou, mais gravemente, na identidade
social que o profissional de saúde atribui ao doente.
Serão apresentados agora alguns dos valores morais segundo Geertz (1989), o
ethos de um grupo constitutivos da ruralidade enquanto identidade de grupo, e,
paralelamente, o quanto esses valores, no caso dos transtornos mentais, culminam, com a
estigmatização, no que Goffman (2008) chama de identidade deteriorada. Como dito
anteriormente, a identificação de entes de um grupo com os traços identitários que o
demarcam requer a adesão a valores morais, e isso se processa de forma semelhante quer se
trate de grupos urbanos ou rurais, variando apenas, e sequer completamente, o conjunto
desses valores.
Na medida em que um grupo se constitui, de forma muito básica, de um conjunto de
pessoas que compartilham valores, cuja relação diária sedimentará laços, Goffman (2008,
p.138) afirma que pode-se tomar como estabelecido que uma condição necesria para a vida
social é que todos os participantes compartilhem um único conjunto de expectativas
normativas, sendo as normas sustentadas, em parte, porque foram incorporadas”. Nas palavras
desse autor, “os valores de identidade gerais de uma sociedade podem não estar firmemente
estabelecidos em lugar algum, e ainda assim podem projetar algo sobre os encontros que se
produzem em todo lugar na vida cotidiana (GOFFMAN, 2008, p.139). Os agentes
envolvidos serão, dessa forma, pessoas, grupos e valores normativos.
Uma vez que “a consciência de si tornou-se apanágio da pessoa moral” (MAUSS,
2003, p.391), a noção fundamental de pessoa no mundo ocidental, que é a de pessoa cristã,
base moral ocidental, constitui-se a partir do uno, em relação à dupla natureza de Cristo e da
tplice na Santíssima Trindade: a pessoa humana seria “substância e modo, corpo e alma,
consciência e ato (MAUSS, 2003, p.393) e, portanto, substância racional indivisível,
individual” (IDEM).
Como a unicidade dessa noção de pessoa comporta dois aspectos, um cognitivo (que
abarcaria fatos intangíveis como consciência, razão, entendimento) e outro material (corpo,
posição, lugar, espaço), pode-se desdobrá-la num primeiro valor de grupo na ruralidade, que
poderia ser descrito como saber seu lugar(aqui, em associação, os aspectos cognitivo e
concreto) numa hierarquia, seja em casa, na família, no trabalho, no grupo social, nas origens,
etc.
A própria concepção de que é a autonomia, marcada por autoconsciência e domínio
da vontade, que constitui o sujeito desde a Idade Moderna (FIGUEIREDO, 1995) já aponta
como a doença mental com toda a marca de descontrole da vontade, impulsividade (que nos
117
prontrios ficou indicada pela “agressividade”) e da inconsciência (o “estar fora de si”)
colide com o status proativo da normalidade, que se torna desfavorável nos casos de
portadores de transtornos mental (GOFFMAN, 2007).
Essa noção de sujeito inteiro, que não se divide, enfim, o indivíduo (FIGUEIREDO,
1995) fica comprometida por parte da percepção que a sociedade tem do louco como ser
agressivo e irracional, enquanto, por parte do portador, a concepção do EU é que fica
combalida, uma vez o estigma muitas vezes lhe retira a autonomia do ato, a economia
pessoal de ação” (GOFFMAN, 2007, p.42), prerrogativa de organizar as próprias condutas de
modo a que alcancem um fim particular. Goffman (2007) descreve esse efeito como
componente da internação em manimios, mas não nas instituições totais, senão que a
condição de estigmatizado, pode causar semelhante repercussão. Não possuir objetos que
constituem o EU, e que Goffman (2007) classifica como estojos de identidade, é outra
manifestação indicativa desse desvalor, o que se reflete no controle de cigarros por familiares
ou da impossibilidade de adquirir um novo objeto ou vestimenta.
Se a ausência de um lugar social estável pode fazer com que um sujeito seja tido
como desequilibrado (FIGUEIREDO, 1995), o desequilíbrio mental também pode repercutir
circularmente desestabilizando o lugar social do doente. Isso ocorre tanto nas famílias,
quando o louco passa a perder direitos de circulação e, em casos mais extremos, termina no
quartinho” construído para prendê-lo, nos fundos da casa e longe da vista de todos, ou na
sociedade, quando o tratamento a ele dispensado não oportuniza sua participação em rodas de
conversas ou quaisquer outras atividades em grupo. Figueiredo (1995) ressalta o quanto os
serviços de saúde oficiais destinados a populações carentes no Brasil podem desqualificar os
usuários, ao lhes converter em um número, ou em “o próximo”, retirando-lhes as marcas
identitárias do EU, destinando-lhes um lugar social vazio e sem valor.
Assim, quando um doente mental se desestabiliza e fica “fora de si”, e outro alguém
vem fazer as vezes de seu porta-voz, descrevendo seu sofrimento (ou o incômodo que traz à
família), fica patente, no relato sobre o problema, o modo como a conduta desarticulada
rompe com as expectativas do grupo sobre as ações do doente e, conseqüentemente, sobre o
valor do louco como pessoa. Estar “fora de sié estar fora de seu lugar esperado, o “si”, fora
de sua consciência habitual, ausente da percepção dos próprios atos e, conseqüentemente,
rompendo com todos os lugares sociais e espaciais decorrentes dessa atitude, cordata e calma,
de estar em “si”: ficar em casa e não fugir para a estrada ou para a mata, respeitar os mais
velhos, seguir para a lavoura, dormir à noite, respeitar os preceitos religiosos, etc.
118
Essa expectativa desvela uma norma de conduta garantida aliás, em ambos os
grupos, rural e urbano por uma instituição que, ainda que em processo de transformão
sobretudo nas cidades persiste de maneira significativamente forte e é a depositária e
condutora dos valores manifestos e atualizados no e pelo processo de educação: a família,
essa empresa formadora de pessoas. Buarque de Holanda (2002) lhe confere particular
importância nos processos de transformação social. Surpreende que a obra Raízes do Brasil,
de 1936, já tenha antecipado tão apropriadamente esse aspecto do pensamento foucaultiano.
Afirma Foucault (1988) que a família o é a lula de reprodução social, é
também o alvo de uma estratégia de aplicação e replicação de poder sobre os corpos que
encontra na sexualidade, na normatização e na educação algumas de suas formas principais de
atuação. A família, base de desenvolvimento social do Estado Nacional e fornecedora de seus
cidadãos, por sua vez aloca-se também sobre uma forma de poder, corporificado na
autoridade paterna. Buarque de Holanda (2002) recorda sua origem etiológica: famulus, termo
latino que remete à escravidão. É também o mesmo autor que associa à família patriarcal o
modelo que depois se reproduz entre governantes e governados: por isso, comenta,
estereotipada por longos anos de vida rural, a mentalidade de casa-grande invadiu assim as
cidades e conquistou todas as profissões” (BUARQUE DE HOLANDA, 2002, p.996).
Martins (1994) avança no entendimento da relação entre a família e a sociedade,
mostrando como é na família do período colonial que encontramos a base de nossas relações
sociais e civis atuais: “a unidade familiar, além de ser uma unidade fiscal era também uma
unidade política de primeira instância(MARTINS, 1994, p.25). Trata-se, pois, daquilo que
chama de uma concepção patriarcal de autoridade (MARTINS, 2004). O autor segue
argumentando que essa origem repercute mesmo sobre questões éticas como a corrupção,
débitos e créditos morais e vinganças entre famílias. Pode-se supor que se manifeste
igualmente na avaliação que se faz de condutas menos diretamente políticas, e mais
propriamente sociais, inclusive no caso da doença mental.
A família não é apenas o substrato do social, mas tem sido tamm sua mantenedora,
numa interação simbiótica que mutuamente se alimenta. Muitas das percepções do
adoecimento mental, no contexto estudado, iniciam quando os familiares notam, no doente,
o apenas uma ruptura com a sociabilidade esperada, quando se afirma que o paciente quer
“fugir para o mato” ou sair andando, mas também na descrição da ruptura da forma de relação
familiar, com a ocorrência de algum tipo de agressividade, sobretudo dirigida a figuras de
autoridade, ou seja, pais e mães cujo respeito, aliás, está garantido na moral cristã pelo
quarto mandamento. A relação entre a hierarquia social e o apego às tradições familiares é de
119
contigüidade, e o segundo valor demarcatório da moral (sustentada e sustentadora) da
identidade rural seria o respeito à família. O fato de os valores familiares e sociais serem tão
integrados gera como conseqüência que, na prática, a separação de ambos para observação
corra o risco de parecer demasiado artificial.
Em que pese a crescente alteração dos papéis de gênero mesmo na sociedade rural, a
família é depositária de tradições cuja propagação ainda se dá, sobretudo, a partir da figura de
autoridade do pai (como se evidenciou em tópico anterior, são principalmente as mulheres
que se incumbem de cuidados à saúde dos entes). Pode-se estender essa mesma análise à
figura de autoridade do coronel, tipificado como aquele que conserva os traços mais
destacados desse patriarca de que emanam os atributos constitutivos da identidade rural, seja
para os que o seguem, seja para os que o temem. O que o tipo coronel incorpora, ou melhor,
“imantiza”, não é somente o poder que ele representa, mas toda a miríade de propenes de
identidade que os demais, ao se relacionarem com ele, devem manifestar. É preciso pensar se,
na atribuição desses pais, também não operam os processos que Mauss (2003, p.187)
relacionava a “fenômenos sociais totais”. Seja como for, o componente pessoal, nesses casos,
representa relativamente pouco diante do tipo, da incorporão e utilização do poder que,
muitas vezes, é mais simbólico que econômico. “O problema não é, portanto, de ordem
pessoal, se bem que os fatores ligados à personalidade de cada um possam apresentar, neste
ou naquele caso, características mais acentuadas: ele está profundamente vinculado a nossa
estrutura econômica e social (LEAL, 1949, p.38). Recorde-se a relação constitutiva entre
família e economia afirmada por Foucault (1988), que na ruralidade pode ficar ainda mais
evidente.
Pode-se questionar, finalmente, se o tipo coronel de fato tipifica algo sobre a
identidade rural, numa época em que o próprio termonão guarda a mesma força de uso que
teve no passado. Recorde-se que o tipo é um parâmetro mais que um espécime. Assim, a
identidade dos subalternos se constrói em consonância à dos patrões, e não apenas em
oposição a ela, pois, em ambos os casos, cada um incorporará, pela educação em família, a
forma tácita como deve se comportar e seu lugar no mundo. Ambos apreenderão as regras do
jogo, mas cada um jogará em uma posição e em um time. Ademais, sempre é possível que
aqueles que sempre obedecem esperem o dia de mandar. Prova desse fato é que, também nas
famílias mais abastadas, os filhos de coronéis ficavam sujeitos ao seu mando até o dia em que
os substituíam: aí a identificação se materializava na obediência que antecedia a apropriação
do poder, que as utilizava, dessa forma, para fins de propagação. A identidade tem que ser,
portanto, plástica, para dobrar-se a um poder que em seguida incorporará. Evidentemente,
120
cada identidade tem o seu poder, mas cada poder tem a sua identidade. Se não mais
coronéis, há patrões, políticos, doutores. Fenômeno semelhante separa e demarca ainda
o “lugar” de pais e filhos, doentes e “normais” e médicos e pacientes.
Numa sociedade em que as identidades de grupo se constroem de forma tão
imiscuída, como é o caso da brasileira, não surpreende que, num paradoxo apenas aparente, os
limites entre o público e o privado sejam tão tênues, pois cada um se constitui na presença e a
partir da oposição ao outro, numa relação constante, para os quais contribuem, como visto
acima, identificações e identidades. A esses dispositivos de poder relacionados e
decorrentes do contato íntimo entre identificação e identidade os quais Leal (1949)
classifica como paternalismo, filhotismo e mandonismo (termos em cujas raízes se notam
expressões que também remetem à hierarquia da família), corresponde uma cadeia social
ascendente de poder, cuja base seria, para o autor, a figura do coronel, e sobre a qual se
constrói todo um sistema de reciprocidades poticas e, nesses casos, os cuidados com a
saúde sempre podem ser material de troca, da alimentação à aquisição de remédios, do
encaminhamento a especialistas à manutenção de vagas.
As dificuldades de mudança social afirmadas por Leal (1949) parecem ancoradas
nessas formas complementares e completas de aquisição de identidade, quer urbana ou rural,
que comporta os atributos necessários à subserviência, mas aguarda o momento do uso
próprio da autoridade. Ao “mecanismo interno de grande complexidade” (LEAL, 1949, p.56)
apresentado para o fenômeno social do coronelismo devem-se acrescentar os mecanismos de
arranjos e rearranjos psicossociais anteriormente descritos na constituição da identidade
pessoal. É possível discordar do autor apenas no ponto em que aloca no tipo coronel a base do
sistema de reciprocidade em que se sustenta o fenômeno: reconhece-se que, por uma questão
de identidade social (GOFFMAN, 2008), esse seja o “lugar” ou o papel de maior destaque e,
assim, mais evidente, mas bem pode ser que a base seja outra, encoberta pelas relações de
poder. Esse poder, como sugere Foucault (1979; 1988), é microfísico, e está alocado e
presente nas relações, até entre os camponeses, agregados e dependentes da figura do coronel,
ou, num contexto mais contemporâneo, nos filhos, pacientes e loucos pois os que não têm
nome nem vez cedem a vez e reforçam o nome de quem tem.
Deixando a figura do coronel, também Figueiredo (1995) percebe nas relações de
poder ditadas pela economia, marcadamente entre proprietários e assalariados, um modelo
que sustenta a “lógica do favor, do apadrinhamento, do clientelismo” (FIGUEIREDO, 1995,
p.47). Isso pode ser visto no modo como muitos pacientes vêm contar com a solicitude do
dico, quando lhe pedem, conforme se de ver, um atestado que possibilite conseguir
121
passar na perícia” (espécie de “prova” ou teste oral do sistema de seguridade) para encostar
no INSS” (que, além de um direito, pode ser visto como esse coronel rico, mas
temperamental, de cujos favores ainda se depende). O valor familiar que se manifesta nesse
ponto, e que se presta à manutenção das relações econômicas (e, conseqüentemente, de poder)
é a obediência à autoridade pais, patrões, mandatários, doutores e perdê-la, na
impulsividade e agressividade associadas à doença mental, significa perder um pouco do
status de pessoa, sendo ambos os atores definidos pelo seu “lugar” na hierarquia social. Nota-
se que os valores família e o saber seu lugar são construídos em consonância, um a partir do
outro.
Percebeu-se que, em Ervália, as identidades não se constroem simplesmente por
oposição, mas por uma interação, mesmo que contradiria, num plano horizontal: rurais e
urbanos, patrões e empregados, pais e filhos, pacientes e médicos, dependentes e INSS. Mas,
com a identificação, essa oposição se torna ascendente, vertical: rurais e urbanos se
reincorporam, filhos ascendem sobre os pais (inclusive quando se tornam pais), empregados
se tornam pates (ou desejam maior igualdade),dicos servem (deveriam servir) a doentes,
o INSS garante direitos (ou espera-se que o faça).
Defender essa mobilidade não é afirmar que seja fácil ou freqüente em todos os
casos. E isto porque o poder manifesto (ou, em alguns casos, camuflado) nessas relações está
a serviço de dispositivos sociais mantenedores do modo de produção capitalista
(FOUCAULT, 1988). Sob esse aspecto, os tipos são também o encontro de uma identidade
pessoal com uma realidade em que se manifestam as identidades de grupo, e o modo de vida
coincide com sua manifestação num contexto sócio-histórico e econômico, muitas vezes duro
e com parcas possibilidades, tanto de existência quanto de mudança.
Na seqüência, e ditado também por fatores econômicos que se estendem da
subsistência ao modo de produção capitalista, um terceiro valor percebido claramente como
componente da identidade rural local, e em estreita associação com os anteriores, é a
disposição para o trabalho, até de forma muito contrária à imagem preguiçosa do jeca
presente no imaginário popular, sobretudo nas regiões urbanas. Sabe-se o quanto o trabalho
garante vínculos entre o sujeito e uma entidade social ou seu meio, marcando, inclusive,
alguns de seus traços identitários, sobretudo quando se considera seu aprendizado desde a
infância, com a observação dos pais e até com a participação precoce nas tarefas que
executam.
Alguns autores da sociologia rural recorrem às origens políticas do Brasil, com seu
passado colonial ainda muito presente, diga-se para verificar como se processou esse traço
122
de identidade a partir de caracteres econômicos. Pode-se computar a tenncia de um
entendimento histórico das bases da identidade nacional ao que Prado Jr (2002, p.1126)
classifica como uma certa atitude‟ mental coletiva particular”: como mudanças econômicas
o são rápidas nem abrangentes, as identidades manteriam algumas marcas desde o período
colonial. Sua proposta de uma permanência do passado nas transformações havidas remete
ainda a Martins (1994), que defende ser o Brasil uma sociedade de história lenta, como
mencionado anteriormente. Também Graziano da Silva (2001) menciona a colonização e seus
desdobramentos sociais e econômicos como fator componente da ruralidade no Brasil.
Ao discorrer sobre a questão da repercussão do modo de trabalho no psiquismo e na
personalidade, Buarque de Holanda (2002) constrói pares de opostos, a que classifica como o
aventureiro e o trabalhador. De forma sintética, pode-se dizer que a origem colonial ibérica
predisporia o brasileiro ao tipo aventureiro, trazendo como conseqüência uma aversão ao
trabalho, apreço pela nobreza e apego aos títulos, valorização das relações familiares e a
pessoalidade, o que culminaria, de modo geral, na forma de sociabilidade que o autor chama
de o “homem cordial” e nesse fenômeno, o valor relacionado à família reaparece, o que não
deve surpreender, dada a simultaneidade dos fatos aqui apresentados em separado. A
sociabilidade do brasileiro tenderia, dessa forma, a reproduzir firmemente o modelo
hierárquico das relações familiares e suas tradições.
Em adição, Garcia Jr. (2003) chama atenção para o fato de o modelo dessa
sociabilidade estar relacionado também à forma de exploração da terra desde o período
colonial, à monocultura: o homem desqualificado pedia morada ao poderoso senhor de terras,
fazendo com que o sistema que o desfavorecia fosse o mesmo que o abrigava. Novamente
aqui, o poder emana dessas figuras alternativas de poder: senhor de terras, coronel, patrão,
pai. Como pretender mudar uma constituição social que afirmava ao trabalhador rural que ele
valia muito pouco, mas que, ainda assim, seria cuidado pelo benerito senhor, sobretudo se
o modelo familiar reforça esse tipo de relação de cuidado aos desvalidos? Nada mais cordato
e cordial. Seria desmesurado perceber, também na população camponesa do período inicial da
colonização, o mesmo espírito aventureiro dos primeiros colonizadores, descrito por Buarque
de Holanda (2002), quando se sujeitava a tais condições? De acordo com o entendimento
elaborado por Garcia (2003), os mecanismos desse clientelismo, iniciados desde esses
primórdios, seguem na contemporaneidade, adaptados às eventuais mudanças que, afinal, não
foram completas. Durante a pesquisa foi possível vislumbrar, indiretamente, que queses de
caráter político atravessavam o encaminhamento de alguns pacientes ao tratamento,
sugerindo, talvez, mais uma forma desse dispositivo de favores. Impossível quantificar o
123
quanto repercutiria na auto-percepção da identidade do paciente a oferta de um direito
transformado em favor.
O tipo aventureiro não daria lugar ao tipo trabalhador quando, concedidos um
mínimo de recursos financeiros e autonomia, por exemplo, por meio do acesso e posse da
terra, o camponês passasse a se dedicar à sua sobrevincia? Assim, o brilhante trabalho de
Buarque de Holanda (2002) poderia ser cotizado com o que se processou com a reforma
agrária ou a aquisição de terras, de modo a averiguar se o peso de um passado colonial seria
suficiente para impedir necessárias mudanças sociais, cujos desdobramentos econômicos
repercutiram em novas disposições psíquicas.
Voltando agora à articulação dos valores constitutivos da identidade rural com a sua
repercussão da identidade deteriorada pela estigmatização, como é o caso na doença mental,
Goffman (2007) sugere que o doente fica sujeito, após o diagnóstico psiquiátrico, a uma
seqüência que lhe retira, gradual e inexoravelmente, possibilidades estendidas, tacitamente, a
qualquer cidadão, o que constituiria aquilo que o autor chama de sua carreira moral
(GOFFMAN, 2007, p. 24). Como negar que a doença, na medida em que pode cursar com a
ruptura de expectativas sociais de conduta e com a perda da capacidade de trabalhar como os
outros, incide sobre o valor social e o auto-valor, e assim sobre a identidade? Essa situação
coincide com o que o mesmo autor chama de estigmatização, como já descrito, e também
incide sobre a autonomia do sujeito. A expressão baixa auto-estima não é freqüente nos
prontrios, como se verá adiante, mas é possível supor que, ainda que não mencionada por
pacientes, a identidade do doente mental fique prejudicada a partir da percepção do
adoecimento, e o apenas pelo grupo social circundante: o portador de transtorno mental, se
fora de uma crise, pode, a partir da percepção dos outros, ver a si próprio com valor
diminuído, pois não pode trabalhar como os demais e não contribui com as despesas de casa
muitas vezes, aliás, contribui para que aumentem, se o tratamento não for gratuito e todos os
medicamentos ganhos. O valor do trabalho na ruralidade, que remete, para além do sustento,
ao lugar social e às tradições familiares, torna-se crucial para o entendimento da busca pelo
recebimento do benefício previdenciário, como se pôde ver na discussão apresentada
anteriormente.
A presença do passado, em idéias, valores e atitudes, mentais ou práticas, aproxima
todos esses valores, mas não os torna impermeáveis às modificações trazidas pelo presente ou
planejadas para o futuro. A sociabilidade do brasileiro, habitante do meio urbano ou rural,
teria a marca dessa cordialidade, não no sentido da amabilidade, mas das coisas “do coração”.
Percebe-se, nesses fatos integrados, o apego às tradições e à família, bem como uma
124
valorização de atributos correlatos aos títulos nobiliárquicos, no caso em questão o posto
político ou a especialização dos profissionais atendentes em saúde, que se relaciona a saber o
lugar” das pessoas, mas não pouco apreço ao trabalho. Até mesmo a especialização do
“médico estudado é algo perceptível e importante para os usuários do NAPS, e poderia
significar um desdobramento da valorização tanto do “lugar” social quanto da disposição para
o trabalho ou estudo. Pode haver um sentido correlato entre trabalho e escolaridade, ainda
que esta relação não se destaque no meio rural de modo geral: isso pode indicar não
simplesmente um desinteresse do grupo, mas as dificuldades impostas pela localização das
escolas recorde-se o seu pequeno número, sua distância e horários de funcionamento
desfavoráveis , as restrições de conteúdo frente às exigências práticas da vida rural, ou as
escolhas políticas dos governantes recorde-se a onda de fechamentos que envolvem as
escolas rurais no País.
Em resumo, apego às normas familiares dispostas pela tradição, força para o
trabalho, obediência à hierarquia e sociabilidade enquadrada por essas mesmas normas são
os valores mais evidentes no meio rural, embora seja impossível separá-los na sua realidade
como se fez aqui, didaticamente.
5.3- As instituições psiquiátricas e sua função social
Este pico pretende analisar parte da função social de instituições psiquiátricas. A
história dos brilhantes avanços tecnológicos e farmacológicos no campo da medicina o
esconde um outro lado, menos agradável, de seu desenvolvimento desde o crepúsculo do
século XVIII. Não será novidade afirmar que um dos aspectos dos cuidados à saúde encontra
como fim a garantia de cidadãos saudáveis para o modo de produção capitalista, e que,
segundo Singer et al (1978), a própria medicina dita científica pode ser considerara um
produto da 2ª Revolução Industrial. Sua função primordial foi propiciar aos Estados Nacionais
emergentes cidadãos saudáveis que servissem ao capitalismo nascente e o fizessem avançar,
fenômeno sócio-potico-econômico que, juntamente com a atuação de outras instituições
Igreja, escola, família promoveu o que Foucault (1988) chama de docilização dos corpos.
No que tange às instituições médicas, é bem conhecida a função de controle dos
serviços de saúde, que devem “impor aos particulares normas de comportamento tendo em
vista a defesa da saúde da população” (SINGER ET AL, 1978, p.25). A chamada Revolução
Vital, que procurou combater e controlar as doenças infecciosas, foi o primeiro movimento
nesse sentido, mas logo em seguida vieram ocupar a posição de inimigas públicas doenças
125
crônico-degenerativas e desordens comportamentais, cujo modelo não se enquadra bem no
paradigma das doenças infecciosas, fazendo com que os limites entre saúde e doença ficassem
mais tênues (IDEM). O contexto social, com seu mais elevado nível de tensão, parece estar
envolvido como fator etiológico desse grupo de morbidades. Curiosamente, então, o meio
social, que deveria ficar protegido pela normatização que, juntamente com outras instituições,
o saber médico deveria garantir, passou a ser fator de adoecimento para uma parcela da
população, justificando, inclusive, novas formas de controle por parte da medicina (ILICH,
1975). Sua atuação se desdobraria em dois aspectos principais: cuidar da saúde de modo ativo
e erradicar possíveis riscos, os inválidos e desviantes. Saúde, ordem pública e
desenvolvimento econômico caminharam, assim, pari passu.
No caso específico da saúde mental, em que o suposto risco não é de contágio e o
modelo infeccioso não se sustenta, qual seria a forma e o fim desse controle?
Recorde-se que a doença mental passa a se destacar de conduta aberrante e desatino,
sem maiores exigências de cuidados médicos, para conduta patológica e doença mental, que
requer tratamento especializado, entre o fim do século XVIII e o século XIX, e esse processo
coincide com o nascimento da psiquiatria como especialidade médica aliás, de origens
comuns ao surgimento da pedagogia para a educação infantil e da pediatria para o tratamento
de saúde das crianças. Possivelmente nenhum outro autor se debruçou tão séria e
profundamente sobre o tema da psiquiatria enquanto prática social quanto o fez Foucault
(1988; 2004), delineando mais claramente seu exercício de poder. Naturalmente, isso torna
sua obra um dos pilares centrais de qualquer estudo sobre o assunto. O que faz de seus livros
tão afamados não é a pretensa ubiidade da psiquiatria, mas o fato de a loucura, essa sim, ser
universal: ainda não houve civilização ou tribo que não tivesse que lidar com fenômenos
mentais, embora as apreciações venham a variar amplamente. Em suas palavras:
Não existe cultura que não seja sensível, na conduta e na linguagem dos homens, a
certos fenômenos com relação aos quais a sociedade toma uma atitude particular:
estes homens o são considerados nem completamente como doentes, nem
completamente como criminosos, nem feiticeiros, nem inteiramente como pessoas
normais. Há neles algo que fala da diferença e chama a diferenciação (apud
RESENDE, 2001, p.20).
Das muitas interpretações a que sua extensa obra margem, o recorte desse
trabalho, de forma muito sintetizada, abarca o entendimento da loucura no ocidente como
tributário de valores morais ...la locura, ésta ocultaba um sentido y um origen oscuramente
moral”(FOUCALT, 2004, p.52, tomo II). Como esses valores carregam normas que guiam
condutas sociais consideradas apropriadas, os que não os seguem são vistos como desviantes,
126
em alguns casos como doentes e, assim, estigmatizados, devido a seu comportamento. Singer
et al (1978, p.70) chega a afirmar que “na sociedade capitalista hodierna, as pessoas são
consideradas doentes não tanto em virtude de um diagnóstico dico, mas em função de sua
incapacidade de desempenhar seus papéis habituais”.
O louco torna-se um risco não por sua tendência à impulsividade e agressividade
exageradas, diga-se, no imaginário popular mas por representar um desafio às normas
sociais estabelecidas e um exemplo de transgressão: “as pessoas afetadas por perturbações de
alguma maneira desafiam o consenso social, pondo em perigo a ordem vigente num plano por
assim dizer micro-social” (SINGER ET AL, 1978, p.58-9).
Loucura, então, é uma palavra que expressa o exatamente uma patologia clara e
definida, mas alguma conduta ou constituição desviantes e que não são automáticas. Dizer
ele é louco” não é e não pode ser uma mensagem tão direta quanto “ele é louro”. Foucault
(2004) já alertava para o impreciso conceito de loucura como praticado na Europa do
Classicismo. É forçoso concordar que, no mesmo período, o Brasil colonial desconhecia
maior precisão para o termo. Aqui, como alhures, os loucos eram bem conhecidos, sem
necessidade de maior rigor conceitual: antes que o saber psiquiátrico se apropriasse das
manifestações humanas hoje entendidas como sintomas, já se conferia ao louco um potencial
estatuto de diferença que o encerrava em vários planos, dos mais subjetivos a alteridade
aos mais concretos o encarceramento. Goffman (1978) adverte que a percepção da alteração
mental é via de regra assumida por familiares ou circundantes antes mesmo que pelo
especialista, embora, comumente, a partir de entendimentos diferentes. Singer et al (1978)
complementa dizendo que a função dos serviços de saúde seria oficializar, pelo diagnóstico, o
status de doente desses sujeitos e Goffman (2007) acrescenta que o papel do especialista e sua
forma de atuação é captar como sintomas condutas sociais discrepantes dos pacientes em suas
relações cotidianas.
Pelo que se de verificar nos prontuários, sobretudo quando se toma o campo da
evolução dos tratamentos, percebe-se que ainda impera certa imprecisão quanto a quê,
exatamente, seria a saúde mental, a melhora com o tratamento e a doença que o motivou.
Um aprofundamento conceitual no termo loucura se distancia do objetivo maior
dessa pesquisa, e o que se segue é apenas uma rápida sinopse sobre seu uso, de modo a
facilitar a compreensão da função social dos serviços de saúde mental. Para mais
detalhamentos, Pessotti (1994), em A Loucura e as Épocas, proporciona informações
preciosas sobre como o conceito de loucura é entendido desde a antiguidade clássica grega ao
século XIX.
127
Afirma o autor que, desde a antiguidade, “a loucura, na verdade, é a perda do caráter
distintivo do humano(PESSOTTI, 2004, p.78), ressaltando que não são teorias constituídas,
mas modelos de entendimento não formulados da loucura. Ainda que seja de considerável
importância a forma como se entendia e lidava com a loucura no período greco-romano, foi a
partir da Idade Média que um fato passará a marcar a existência das pessoas que manifestem
aquilo que hoje se classificam como doenças mentais. É no contexto da demonologia cristã do
medioevo que o louco, visto como tomado de paixões, passa a ser estigmatizado, porque tido
como antinatural, uma vez que, de acordo com a cosmologia do cristianismo do período, essas
o eram constitutivas da natureza humana, mas vistas com suspeição por sua origem
maligna: “O louco passa a ser suspeito, a ser perigoso e, por isso, a ser evitado” (PESSOTTI,
1994, p.100).
Essa evitação será, doravante, a companheira mais constante da loucura. Foucault
(2004) mostra, com a erudição que lhe é peculiar, como a mesma passa, no período
compreendido entre o Renascimento ao fim do Iluminismo, de erro da razão a falha moral,
ressalvando, entretanto, que a mudança de compreensão o alterou as práticas de exclusão,
antes, acentuou-as. E realça que, se o Tratamento Moral proposto por Pinel, no fim do século
XVIII, ganhou contornos de proposta curativa, mal escamoteava o valor ou, mais
acertadamente, o desvalor que os tidos como loucos mantiveram no século XIX. Seu caráter
mais disciplinar que curativo aproxima-o, e à psiquiatria, das instituões responsáveis pelo
processo de normatização dos homens e de constituição daquilo que Foucault (1988) chama
de biopoder.
É possível, assim, que a mudança de termo para classificar os profissionais do ramo
da medicina responsável pelos loucos, considerados até o século XIX como alienados, tenha
mudado de alienistas para psiquiatras, como um reflexo da própria mudança de concepção da
loucura, de desatino para doença, embora, com a mudança de nomenclatura, não se tenha
alterado seu caráter de falha moral. A especializão médica reflete o refinamento dos
dispositivos usados para a condução dos considerados loucos.
Se, desde o seu próprio ponto de vista, a psiquiatria pode ser apresentada como um
ramo da medicina que se ocupa das alterações mentais, Resende (2001) alerta para o fato de
que a psiquiatria, do mesmo modo que todas as instituições, cumpre determinadas funções
sociais, múltiplas e variáveis com o tempo e as diversas sociedades, e a natureza deste
mandato é função das sociedades concretas onde ela opera” (RESENDE, 2001, p.30). A partir
daí, não é desarrazoado propor a psiquiatria como a forma institucionalizada pela medicina
incumbida de lidar com a loucura, do ponto de vista científico, mas também social, no mundo
128
ocidental posterior ao século XVIII, funcionando como uma polícia moral (SINGER ET AL,
1978). É evidente que havia, desde períodos anteriores, médicos que se interessassem pela
loucura ou até que se dispusessem a tentar tratá-la, mas fala-se aqui da psiquiatria enquanto
instituição oficial e oficializada, reconhecida tanto pelo Estado quanto pela populão como
instância legítima de saber sobre o tratamento dos problemas mentais, com a vantagem de dar
para a estigmatização um inatacável colorido científico (IDEM).
Evidentemente, a prática da psiquiatria nos períodos descritos por Foucault, e mesmo
nos dias atuais, pode e deve ser avaliada criticamente. Mencionando Castel, Resende (2001)
propõe que as funções da psiquiatria seriam basicamente curar, produzir, normatizar e
controlar. Mas, alertando para o risco de se perceber, indiferenciadamente, em toda e qualquer
ação psiquiátrica, a ocorrência dessas funções, o autor as discrimina melhor:
a) curar, b) recuperar a força de trabalho, c) abrir e criar novas fontes de trabalho
para o pessoal da saúde mental, d) auto-reproduzir o próprio sistema de assistência
e de setores da economia a ele ligados: hospitais, indústrias de medicamentos, etc,
e) ideologizar as relações sociais, conferindo, desta forma, racionalidade à
irracionalidade do sistema, f) dar um lugar aos desviados, excluindo-os, g) difundir
e inculcar normas de comportamento visando homogeneizar as diferenças
individuais (RESENDE, 2001, p.60).
E o autor é ainda mais contundente, ao falar da psiquiatria brasileira em seus
primórdios embora esse quadro, infelizmente, ainda se mantenha quando afirma que:
“Remover, excluir, abrigar, alimentar, vestir, tratar. O peso relativo de cada um desses verbos
na ideologia da nascente instituição psiquiátrica brasileira pendeu francamente para os dois
primeiros da lista, os demais não entrando nem mesmo para legitimá-los(RESENDE, 2001,
p.39).
Segue, à guisa de exemplo, o trecho de reportagem veiculada pelo Jornal do Brasil,
em 5/5/75, apresentada pelo autor, e que pode ser ilustrativa do que se mencionou acima:
A segurança e a tranqüilidade dos grupos sociais mais abastados depende, em certa
medida, do estado sanitário e da capacidade de trabalho das camadas mais pobres.
Conseqüentemente, as transferências de recursos da população mais rica para
assistir aos mais pobres poderiam ser contabilizadas como investimento em
segurança nacional (apud RESENDE, 2001).
Deve-se apenas esclarecer que a passagem, conclamando a população endinheirada a
contribuir, menciona os elevados custos que as internações psiquiátricas representavam para
os cofres públicos no período. De resto, pelo seu teor, o trecho fala por si.
129
Em que pese a acidez de tais críticas, é necessário reconhecer sua pertinência. Ao
longo da coleta de dados para este estudo, puderam ser notadas várias das funções que o autor
arrolou acima.
A doença mental deve, então, ser controlada pela medicina, representada por sua
especialidade, a psiquiatria, porque o desviante, ao não aderir às regras propostas/impostas
pela normatização necessária para que os cidadãos saudáveis sirvam ao modo de produção
que atende aos interesses privados e aos do Estado, questiona indiretamente e faz questionar
tal modelo. Parte do estigma que sofrem em seu meio e parte do tratamento excludente que
recebem dos serviços de saúde serviriam, desse modo, para mostrar o destino que têm aqueles
que não aderem docilmente às normas: os loucos andarilhos e os internados em manicômios
cumpririam, ambos, papel social semelhante, embora em pontos sociais diferentes quer nas
ruas, quer nos hospícios, seu tratamento desumano os torna os bodes-espiatórios desse modelo
(SZASZ, 1978).
Naturalmente, o fator trabalho é central nesse fenômeno, uma vez que uma
ligação estreita entre loucura e improdutividade (FOUCAULT, 2004; JODELET, 2005), e a
o adesão a esse tópico da norma social é imediatamente mais grave que aos demais,
sobretudo porque onera todo o sistema capitalista, em que as trocas monetárias sobressaem às
meramente sociais. Por isso Jodelet (2005) declara que:
Condição de existência, o trabalho também é participação na vida social; ele
implica que se possa ocupar um lugar, manter-se nele e aceitá-lo. Por não se
governar suficientemente, o doente, sob a lei do seu desejo, não pode submeter-se
à lei da sociedade, quer se trate, para ele, de tolerar as desigualdades morais e
financeiras ligadas ao seu estado ( JODELET, 2005, p. 242).
Daí que a função das instituições de seguridade social parecem ser mais a de
defender as necessidades do Estado que a dos cidadãos, ainda que a aparência seja exatamente
do contrário, pois “a criação da previdência social sob a égide do Estado tem assim um claro
caráter político: o de assegurar a lealdade da classe operária à ordem constituída” (SINGER
ET AL, 1978, p.30).
No caso especifico de trabalhadores rurais, o próprio sistema previdencrio mostra
como o doente mental tem seus direitos menos assegurados que seqüestrados: recorde-se que
a Lei Orgânica de Previdência Social, de 1960, excluía trabalhadores rurais e domésticos, e o
Estatuto do Trabalhador Rural, de 1963, conseguiu efetivar o FUNRURAL (Fundo de
Assistência e Previdência do Trabalhador Rural) anos mais tarde (SINGER ET AL, 1978). Se
os pacientes e familiares se queixam da dificuldade de conseguir passar” na perícia, o
130
funcionário do NAPS que marca as consultas afirma (em depoimento informal) que um
grande número dos usuários só deseja o “laudo”. Outras representações, outras práticas.
É aqui, então, que a psiquiatria pode cumprir seu papel social, seja o de excluir e
conduzir os desviantes, seja o de reincluí-los, com todas as suas diferenças, no seu meio
social. Recorde-se que “os doentes mentais são pessoas que, no mundo externo, provocaram o
tipo de perturbação que fez com que as pessoas próximas a eles as obrigassem, física, se não
socialmente, à ação psiquiátrica” (GOFFMAN, 2007, p.247). Tanto no caso do recebimento
de beneficio quanto na prescrição, com ou sem confecção do diagnóstico, a atuação do
dico especialista aparece como determinante. Lembre-se do depoimento do atendente sobre
a insatisfação dos usuários quanto à substituição de especialistas por generalistas.
Sabe-se que o diagnóstico é esse rito de passagem em que alguém sobre quem paira a
suspeita de louco ganha a confirmação do rótulo (GOFFMAN, 2007) embora não se
pretenda com isso afirmar que apenas o diagnóstico oficial imprima a alguém a pecha de
doente. Nas palavras de Singer et al (1978):
... a intervenção dos agentes dos SS [serviços de saúde] em situações que se
caracterizam por conflitos interpessoais, derivados em geral das contradições
sociais, tende a „medicalizar‟o seu resultado, ao levar as pessoas envolvidas a
„reconhecer‟ um dos seus participantes como doente mental. O diagnóstico da
doença mental tem geralmente muito pouco de científico, pois se baseia no relato
do denunciante sobre o comportamento passado da pessoa a ser examinada e a
reação desta (SINGER ET AL, 1978, p.55).
Por isso o autor se pergunta a quem a psiquiatria atende: se ao doente mental ou se à
sua família e ao meio social que, muitas vezes, o quer excluído, uma vez que uma das funções
da medicina seria a de proteger a sociedade contra os transgressores (IDEM).
Para Singer et al (1978), e em concordância com Resende (2001), a psiquiatria
também promoveria uma maior sensibilização dos leigos para condutas desviantes, antes
vistas talvez como originais ou excêntricas. Paradoxalmente, isso levaria a um aumento dos
quadros nosográficos de patologias mentais, o que aumenta o poder e o prestígio dos
psiquiatras, únicos habilitados oficialmente para o diagnóstico (SINGER ET AL, 1978).
Goffman (2007) já alertava para, no caso dos serviços que trabalham com pessoas, o
risco de que as “impessoalizem”, tratando-as como objetos de que cuidar, uma vez que o
modelo médico ocidental requer do paciente uma posição passiva (GOFFMAN, 2007;
LAPLANTINE, 2004). Pode-se perguntar se esse risco não fica aumentado no caso de
pessoas sobre as quais paira algum estigma, com o valor diminuído que necessariamente
significa. Sobretudo quando se associa tal tenncia a outra, também descrita por Goffman
(2007), que seria o esquema de interpretação institucional: uma perspectiva pronta para
131
explicar todos os tipos de decisão” (GOFFMAN, 2007, p.77). Do diagnóstico, antecedido pela
anamnese, à condução terapêutica, tudo seria conduzido menos por escolhas racionais e
cientificas, e mais por condutas automatizadas, que partem de pressupostos diversos. Estes
poderiam envolver tanto o pouco tempo para cada atendimento (levando, fatalmente, a uma
escuta prejudicada do sofrimento do sujeito e das peculiaridades que o constituem,
padronizando, provavelmente, as terapêuticas), quanto o pouco valor concedido a sua queixa e
sua história. Daí adviriam, pelo menos, duas graves conseqüências: a desumanização, que
muitas vezes acompanha a alteridade, e o desinteresse pelos desdobramentos os “efeitos
colaterais” que um tratamento pode causar para o sujeito que a ele adere, aos quais o autor
chama genericamente de carreira moral, a trajetória percorrida por uma pessoa durante sua
vida (GOFFMAN, 2007, p. 111). Impossível negar que o tratamento, o diagnóstico,
eventuais internações podem marcar com outras vias, desvios e possibilidades essa carreira,
daí a importância de que a intervenção médica seja planejada com cuidado. Sobretudo quando
se considera, com Goffman (2007), que muito da carreira moral dos doentes mentais tem
pouca relação com o tipo de diagnóstico feito, ou com os sintomas que de fato o manifestos
pelo paciente, e mais com seu status social diminuído para paciente, ou seja,
independentemente de o quão “loucopossa ser tomado, ser desviante já sela parte de seu
destino.
Também por isso, Goffman (2008, p.24) adverte que ex-pacientes mentais, por
exemplo, às vezes receiam uma discussão acalorada com a esposa ou o empregador por medo
da interpretação errônea de suas emoções”. O estigma, em alguns casos, pode se tornar
indelével, prisão de ferro com grades invisíveis, mas muito duras.
As instituições psiquiátricas guardam ainda outro poder: como o estabelecimentos
sociais, que Goffman (2007, p.15) classifica como “locais [...] em que ocorre atividade de
determinado tipo”, têm, em decorrência, um valor e uma função social tanto para quem é
obrigado a interagir nelas/com elas quanto para aqueles que nela trabalham e dela vivem. Há,
dessa forma, funções sobrepostas.
Como afirmado anteriormente, sua função social de resguardar a sociedade dos
desviantes seria “externa”, por assim dizer. Sua função social “interna” seria, por outro lado, a
de se ocupar dos desviantes, de forma corretiva ou mantenedora, através do tratamento.
Seriam feitas operações, mais ou menos claras, no sentido de corrigir ou adequar o EU para
suas funções de convívio e produtividade sociais. O eu surge, e não apenas através da
interação com outros significativos”, lembra Goffman (2007, p.127), “mas também de
disposições que se desenvolvem numa organização, em beneficio de seus participantes”. O
132
tratamento pode se restringir à correção medicamentosa dos sintomas (como propõe a
psiquiatria organicista) ou a algum expediente terapêutico que vise à retomada dos laços de
convívio ou da capacidade para tanto (mais aos moldes do tratamento proposto por Nise da
Silveira). Viu-se como as representações de médicos e de não-médicos registradas pelos
agentes de sáude convergem quanto ao tratamento, mas podem divergir quanto a outras
modalidades de terapêutica dirigidas a um resultado social e socializante.
Esse é, possivelmente, o caráter mais ambíguo da função social de uma instituição
psiqutrica, pois sua função externa (isolar e corrigir desviantes) pode coincidir com sua
função interna (moldar o EU) ou com ela colidir (fortalecer o EU para se opor contra
determinadas exigências do meio social). Nesse ponto, a fuão social “interna” de uma
instituição decorrerá grandemente do modo como os profissionais atuam participação em
entidade social que, para além de quaisquer ideologias, correlaciona-se com aquilo que
Goffman (2007) chama de compromisso e adesão e das relações que nela ocorram, e essas,
por sua vez, serão marcadas, necessariamente, pelo modo como os profissionais vêem seu
trabalho, a loucura e os usuários do serviço. É preciso considerar, desde um ponto de vista
ético isto é, pelos motivos e impulsos que condicionam as ações humanas e moral ou
seja, a idéia de dever que justifica a ação (COELHO, 2005), que as condutas dos agentes de
saúde não têm apenas uma origem técnica. Quando um profissional atua, além de uma ação
terapêutica, procederá ainda uma ação que, por seus desdobramentos, repercute, em grau
variado, na vida do paciente. Daí a necessidade de que essa ação seja refletida, e o apenas
realizada (IDEM). Essa reflexão pode ficar prejudicada se a formação do profissional é
deficiente na compreensão da cultura do meio em que atuará.
Com isso se quer defender, em consoncia com Lobosque (2001), que um
profissional ou uma equipe podem simplesmente fazer um trabalho burocrático em troca de
um salário, ou realizar procedimentos em saúde que considerem minimamente seus
desdobramentos éticos, as forças sociais envolvidas no caso da doença mental, o respeito
pelas diferenças, tudo aquilo envolve a responsabilidade da ação clínica no serviço público, e
que se classifica como tomada de responsabilidade, ou seja, “responder de fato pelos
atendimentos na área de abrangência de um determinado terririo (LOBOSQUE, 2001,
p.137). Evidentemente, uma miríade de fatores intervenientes, das condições políticas de
trabalho à formação pregressa de cada profissional, come esse quadro. A simplicidade com
que é aqui apresentado não pretende nem remotamente dizer que sua ocorrência real é
igualmente tão elementar, mas apenas fazer lembrar o que costuma ficar soterrado por uma
133
série de problemas tidos como mais imediatos, mas cujo conjunto pode criar uma impressão
de irresolubilidade para os problemas dos serviços públicos de saúde.
Ainda dentro do escopo da função social “interna” de um serviço de saúde, deve-se
ressaltar que pode servir de ponto de apoio em que usuários (quer paciente, quer familiares)
possam procurar auxílio para dúvidas, necessidades, crises e conflitos, mas também direitos,
sem a pretensão de funcionarem como um poder legislador ou judicrio, mas como agente
parceiro. Para tanto, deve ser acessível, em termos de localização, visibilidade, entrada e
permanência recorde-se que, por exemplo, a sede do NAPS-Ervália passou por uma
primeira mudança de endereço para contornar o problema da escada de acesso ao segundo
andar, que poderia dificultar a vinda de pacientes com quaisquer problemas de deambulação
ou locomoção.
A própria ocupação do espaço sico repercutirá, em maior ou menor grau, na adesão
e compromisso e agora não se faz menção apenas aos profissionais com que usuários
recorrerão a um serviço de saúde. A imagem das longas filas de espera e os corredores cheios
de doentes e moribundos de muitos dos hospitais do SUS talvez explicite bastante bem o que
se pretende sugerir aqui. O NAPS-Ervália teve um quintal em que os pacientes se sentiam
muito à vontade, até pela semelhança que todo o ambiente suscitava com uma casa de morada
rural, mais que com um ambulatório. Salas de espera bem montadas e acolhedoras não são,
nem podem ser, o principal que um serviço de saúde terá a oferecer como índice de qualidade;
mas, em se tratando esse espaço de um local de encontro e trocas informais de informações
(GOFFMAN, 2007), e sendo essas a um só tempo matéria e essência das trocas entre pessoas
para reforço de laços de convívio (GOFFMAN, 2008), propiciar cadeiras e um ambiente
humano para a espera, encontro e descanso dos usuários (considerando que muitos vêm de
longínquas áreas rurais) pode ser uma forma de conceder dignidade, se não cidadania. O
mesmo se passa com o que se pode, tomando a expressão de empréstimo da psicanálise,
chamar de setting, e que, no caso dos serviços públicos, envolve desde o ambiente sico até o
tempo disponibilizado para cada atendimento. Esses fatores micro-físicos não são estéreis de
poder, e seu mau uso pode mesmo ser fator patológico para o psiquismo (GOFFMAN, 2007).
Outro desdobramento importante concerne à conjunção às vezes ao choque entre
as representações sociais de usuários, que esperam um tipo de tratamento, e de profissionais,
mais ocupados com o diagnóstico e com a prescrição. O número de pacientes que abandonam
o tratamento ou, mesmo depois de alguma prescrição farmacológica, é elevado, e pode ser
notado ainda que não tenha sido computado numericamente durante a coleta de dados desta
pesquisa. Mesmo sem a apresentação de números exatos, os 60 prontuários não
134
encontrados, que, segundo informação do atendente, indicam abandono de tratamento, já
representariam a 8,33% do total atendido, mas o mero de fichas deixadas no NAPS sem que
os usuários as peguem é muito maior, embora não computado. Pode-se supor que esse
abandono também tem relação com a o adesão ocasionada por expectativas não atendidas e
destoantes das representações de tratamento que os médicos sustentam.
Recorde-se a questão do preenchimento dos campos dos prontuários, quando alguns
eram deixados em branco: o poder na relão médico-paciente, que é classificatório
(BOURDIEU, 1996) além de censor, permanece camuflado pelo que seria apenas uma das
atribuições do profissional, ou seja, a obrigação de preencher o formulário. Bourdieu (1996)
articulará as representações, enquanto carreadoras de poder de impor ou interferir em visões
de mundo, às ações políticas, cuja eficácia consiste em demarcar grupos, desvelando a
participação das ciências (de que a medicina erudita é representante) nesse processo, no
encontro das palavras, enunciados e classificações. O autor constrói criticamente sua
impressão de que, populares ou eruditas, “as classificações práticas estão sempre
subordinadas a funções práticas e orientadas para a produção de efeitos sociais
(BOURDIEU, 1996, p.107, grifos no original): os critérios objetivamente observados pelos
etnólogos e sociólogos são subjetivados, ou seja, tornados signos, emblemas, estigmas ou
poderes. O autor desvela, portanto, que as lutas entre classificações são lutas de poder, de
definições legitimadas de divisões do mundo social, portanto, têm o efeito de “fazer e
desfazer os grupos” (BOURDIEU, 1996, p.108). Pode ser grande o paralelo com a
importância que o diagnóstico parece assumir para os psiquiatras.
Bourdieu (1996) ainda se aprofunda na questão de o que legitima uma classificação a
se impor a outras, e conclui que o que sustenta que um enunciado assuma força de verdade é a
autoridade. O “ato de magia social”, a eficácia do discurso performativo” (BOURDIEU,
1996, p.111) garante que o enunciado sustentado por autoridade existência a um grupo e
uma visão única de sua identidade e uma visão idêntica de sua unidade” (IDEM). Daí que o
psiquiatra pode interferir numa identidade já deteriorada pela estigmatização se deixa o rótulo
do diagnóstico prevalecer sobre a tarefa de reinserção social, mormente num grupo que, como
se viu, sequer quer saber dessa classificação nosográfica, mas valoriza muito o lugar social de
autoridade.
Muitas vezes os psiquiatras, ocupados demais em atender grandes contingentes de
pacientes, medicalizando seus conflitos sociais, com todas as restrições de tempo que
costumam caracterizar os serviços públicos, desocupam-se de observar sua atuação política
subjacente a esses atendimentos, se é que a notam. Por isso, Bourdieu (1996) também entende
135
que a ação política se sustenta porque seus agentes, ao fazerem parte do mundo social,
conhecem-no e sobre ele agem ao atuarem sobre esse conhecimento que dele têm o que
requer, tudo indica, reflexão. Seria o objetivo dessa ação impor representações e fazer e
desfazer grupos “produzindo, reproduzindo ou destruindo as representações que tornam
visíveis esses grupos perante eles mesmos e perante os demais” (BOURDIEU, 1996, p.117)
daí o risco de uma atuação irrefletida. Chega-se, assim, à questão de como a ordem social se
sustenta pela imposição de esquemas de classificação, cuja objetividade encobre sua
fundamentação arbitrária, e que, no caso da doença mental, muitas vezes segue com o
diagnóstico sem sequer questionar a loucura. Faz-se necessária uma oposição a essa “visão
comum que apreende o mundo social como mundo natural(BOURDIEU, 1996, p.118), que
torna realidade o que anuncia pela simples razão de enunciá-lo. Recorde-se a postura médica
diante da demanda de atestados.
As construções teóricas, inclusive as dicas, seriamprogramas de percepção”,
uma vez que as palavras carreiam um poder estruturante, ancorado em “sua capacidade de
prescrever sob a aparência de descrever, ou então, de denunciar sob a aparência de enunciar”
(BOURDIEU, 1996, p.118). Assim, a relação entre o poder das representações que as
palavras/enunciados/classificações sustentam, e a demarcação de grupos, que a ciência
inclusive a medicina , enquanto autoridade, propõe, não pode deixar de ser objeto de estudo
e reflexão da mesma, se essa se pretende ética e atuante.
Essa conduta atuada e pouco refletida é propagada inconscientemente, mas não
menos operante, como habitus (BOURDIEU, 2007), visão de mundo (GEERTZ, 1989) ou
esquema de interpretação (GOFFMAN, 2007), mas, qualquer que seja o conceito que a
demarque, reflete não apenas uma falha de formação ou deficiência de informação, mas o
poder da formatação disciplinar, que caracteriza a maneira como os profissionais de saúde
vêm a ocupar seu lugar, a partir da identidade social que, também eles, virão a ter. É ético e
desejável que aquele que ocupa esse lugar social use da autoridade que lhe confere poder para
algo mais que manter seu status. A psiquiatria tem o dever de tentar batalhar, junto com os
doentes mentais, por uma melhoria do status desses.
Tudo isso se articula, voltando agora, depois desse longo desvio, ao benefício
previdenciário que os usuários do NAPS-Ervália pleiteiam. Assim como cadeiras em que
sentar, tempo para falar de seus problemas e um remédio para seus males, verificou-se que
muitas vezes os usuários buscam uma compensação para sua suposta invalidez. Sem conhecer
o seu universo cultural, o especialista pode ficar restrito em sua competência para melhor
avaliação, incapacidade que, apenas de um modo etnocêntrico, prevalecerá sobre a
136
necessidade do paciente. Pelo que se pode verificar em depoimentos, a integração entre os
profissionais do NAPS é pouca, a indicação de outras formas de terapia por psiquiatras é
restrita, não participação, em seu quadro atual, de assistentes sociais, não parece haver
informação sobre o direito ou não à pensão previdenciária para os pacientes. Uma de suas
funções internas deveria ser contemplar demandas dos usuários, sobretudo se estas não o
ilícitas.
Pleitear o recebimento de um benefício é um direito do cidadão, logo, garantir acesso
a esse direito é oferecer condições de exercício de cidadania. Recorde-se, com Daron (2006,
p. 178), que as poticas blicas de saúde no Brasil vêm sendo demarcadas pelo confronto
entre as necessidades do povo e os interesses do capital com as duras conseqüências para as
classes populares”. Os psiquiatras não deveriam isentar-se de sua participação nesse contexto.
Como se percebe, o NAPS-Ervália, como instituição psiquiátrica, apresenta muitas
das funções sociais acima arroladas. Primeiro porque está incluído, na localidade, naquilo que
Goffman (2007) chama de estabelecimento social, cuja função mais imediatamente
apreendida seria sua razão de funcionamento: os atendimentos em saúde mental, conduzidos
pelos profissionais que ali trabalham e cuja formação está relacionada à prestação de serviços
em saúde, quais sejam, psicólogos e médicos. Entretanto, conhecendo as funções sociais das
instituições psiquiátricas, sabe-se que, ainda que de forma indireta, implícita e não
premeditada, o NAPS deve por em andamento as demais ações que ocorrem
concomitantemente a esse atendimento, e que, ideologicamente, o parasitam: medicalização
dos problemas sociais, normatização do doente mental, exclusão social (ainda que parcial,
ainda que restrita àquelas ligadas ao ambiente de trabalho, se é que tal separação pode, de
fato, ser feita na prática), definição de um problema como sendo mental (a partir de um
sistema de classificação diagnóstico) e conseqüente propagação de uma forma de
entendimento dos problemas mentais (no caso, a da psiquiatria convencional e seu sistema
diagnóstico), garantia de um lugar definido para o louco, resguardando uma hierarquia na
família (quando há acompanhantes) e a ordem social, na medida em que os transtornos
mentais, na figura viva de seus portadores, têm um lugar a que serem encaminhados.
Não se sugere que essas ações se dêem em ordem, de modo planejado nem pensado.
Elas são consentâneas à própria intenção de tratar. O que se pode esperar é que esta
instituição, na medida em que atende um blico com necessidades específicas e direitos
assegurados, exerça algo além de sua função social externa de dar um enquadre para a
loucura: que exerça sua função social interna no sentido de garantir acesso a direitos,
desempenhado o tratamento do modo inclusivo com que este possa se dar.
137
CONSIDERÇÕES FINAIS
Chega ao fim essa caminhada. O caminho prossegue, o caminhante é que estaciona.
Ainda tanto para seguir: tantos livros não lidos, tantos dados por esgotar, tanto por refletir.
Mas o mais tempo. Como anuncia o provérbio latino: vita brevis, ars longa a vida é
curta e a arte é longa. Um trabalho científico, como tudo o mais, tem um limite, ainda que
algo tenha que ser deixado de fora. O leitor paciente das páginas que precedem deve procurar
ver agora o que foi alcançado, a partir do problema e dos objetivos desta pesquisa, não o que
foi deixado, para vindouros estudos.
Foi notável o quanto a lida com conceitos correntes nas ciências humanas, tal qual o
de representações, gera uma condição de pesquisa muito diferente daquelas propiciadas por
estudos que lidam com objetos concretos”, como comumente se propõe entre as práticas de
pesquisa no campo das hard sciences.
A natureza subjetiva, poder-se-ia dizer até etérea, das representações, faz com que as
conclusões a que se chega sejam sempre parciais, no sentido de que fazem “parte de um
todo”, e que se realizam em partes”, e em razão do que foi possível se obter e ter em mãos.
Sempre marcadas pelo “par” estudioso-grupo estudado, serão constituídas pela natureza desse
encontro, pela forma como as informações são oferecidas e captadas, como partiram do
emissor e como são compreendidas pelo receptor. Isso não cria uma condão contrária à
ciência, mas eleva a pesquisa científica à realidade da vivência, logo, da vida. O pior que pode
acontecer à uma pesquisa científica não é aproximar-se do mundo real, é distanciar-se dele.
Uma das questões de que se partiu nessa pesquisa foi quanto à relação, às
semelhanças e diferenças entre as representações sociais acerca de saúde e doença mental de
moradores da zona rural e agentes de saúde. A partir dos prontuários dos pacientes, os
registros dos médicos permitiram-nos inferir que elas não são nem totalmente inticas nem
absolutamente divergentes: as representações sobre a doença mental na ruralidade guardam
proximidade, mas não equivalência com as dos profissionais; constroem-se de acordo com os
valores simbólicos de seu universo e ambas encontram-se, por sua vez, em contato dinâmico e
constante, em razão de necessidades de saúde ou para acesso a direitos sociais.
Neste momento, faz-se mister reconhecer que os registros dos prontuários, tomados
aqui como unidade de análise, indicaram algo sobre a apresentação das representações
sociais dos profissionais e agentes de saúde, além das representações existentes entre famílias
moradoras da zona rural e periurbanas de Ervália, contudo recortadas pelo olhar e
classificação dos primeiros. Mesmo assim, é possível ver nos registros aspectos
138
representativos da configuração sócio-espacial de Ervália, e de pacientes portadores de
transtornos mentais em tratamento no NAPS. Verificou-se, ali, como se materializam as
apresentações instituídas.
Assim, dos prontuários permitiram inferir diferenças entre as representações de
dicos e de pacientes e familiares sobre a saúde mental, mesmo que possa parecer que estas
são pouco claras nos registros, mas com certeza são muito tenazes em algumas expressões: a
normalidade, dificilmente descrita, é muito facilmente percebida, se capitula.
a doença, chamada de problema, mas não de loucura, fica sediada na cabeça
(continente) ou idéia (conteúdo), afeta os nervos (instrumento), deixa nervoso (condição).
Mesmo sem uma etiologia definida como pretende a ciência dica embora se vislumbrem
tendências familiares ou causas sobrenaturais depreende-se facilmente dos registros uma
concepção orgânica, ainda que as relações pessoais sirvam de desencadeante. Essas
evidências seriam, talvez, típicas do pensamento médico oficial traduzido como registro
intencionado da expressão popular. Nenhuma evidente preocupação com minúcias
diagnósticas foi registrada como característica da fala dos pacientes.
Contudo, no que se refere ao tratamento, tudo indica ser condizente com essa dupla
causa atribuída, física (predisponente) e social (precipitante): remédios e atestado. Encostar”
no INSS é receber o justo ressarcimento para quem perde muito: seu lugar social, no trabalho,
na família, em “si”.
os médicos, enquanto agentes de saúde, parecem deixar claro nos prontuários que
compactuam com a iia de uma normalidade inespecífica, mas captam os desvios da conduta
normal enquanto sintomas, que traduzem, a partir da observação ou das falas dos usuários
recortadas para registro, em diagnóstico. Apesar de causas pouco evidentes, tudo sugere
também uma compreensão orgânica, biológica, da doença, como as prescrições de remédios
parecem o indicar em consonância, aliás, com as expectativas dos usuários, mas em
contraposição a outras formas de tratamento, inclusive referentes à psicologia.
São essas representações que guiam as ações dos médicos, como a prescrição
massiva de psicormacos, pouca indicação a outras formas de terapia, recusa frontal ou
indireta de compactuar com os pedidos de atestado por parte dos pacientes e familiares. A
prescrição massiva de psicofármacos desvela a medicalização de conflitos de outra natureza,
que não é exclusivamente orgânica.
Tudo indica que a função profissional internalizada é daquele que cuida da saúde
como sendo um problema exclusivamente orgânico sem clareza de como o tal social”
vincula-se ao problemaque se lhe é apresentado. O social lhe é apresentado como cultural
139
(valores), e nem sempre se está com o olhar preparado para ver as condições econômico
reprodutivas neste social.
As condições de depenncia e fragilidade, como são as do trabalhador rural, com
certeza influem nos padrões de morbidade. Esses, geralmente o têm sua própria terra e
ainda são obrigado a aplicar, de forma intensiva, os agrotóxicos nas lavouras de café dos
patrões. A Ervália do café não aparece em nenhum momento nos prontuários.
Contudo, a teoria encontrou aporte na prática: grupos diferentes podem ter
representações sociais diferentes, ainda que se aproximem e se afastem em alguns pontos, o
que levaria a posturas e práticas diversas.
Isso permite dizer algo sobre o objetivo arrolado para este estudo de descrever o
funcionamento do NAPS: pelos prontuários, tudo indica que são os objetivos dos
profissionais que parecem se sobrepor aos dos usuários, ainda que haja grande troca de
agentes eles se vão, mas sua forma de atuar permanece institda, como se pode ler nos
registros.
O NAPS não é uma instituição inclusiva, nem em sua localizão, nem na disposição
do ambiente, nem na forma como são marcados os atendimentos, nem no modo como se
processam os encontros. Cumpre bem sua função social externa, a de dar um lugar, para a
sociedade, em que possam ser tratados os loucos, mas deixa a desejar em sua função social
interna, que é a de mediar, para os loucos, um lugar digno na sociedade.
Além disso, a inter-relação entre os profissionais do NAPS parece ser pouca, sem
contatos ou reuniões para planejamento de estratégias poticas ou terapêuticas de atuação.
Também parece ser pequeno o contato com os órgãos parceiros, sobretudo outros pontos de
atenção à saúde municipais, com destaque para os PSFs.
O o preenchimento dos campos de prontuário ligados a informações sobre as
condições sociais de vida dos usuários pode indicar que os profissionais médicos observam o
paciente e não um cidadão. Por isso, pode ser que eles não estejam sendo preparados em sua
formação para a abordagem e compreensão dos fatores socioeconômicos como referência e
análise importantes para compreensão dos casos que se lhes apresentam. Esses fatores estão
o envolvidos no processo de adoecimento e nas possíveis formas de tratamento, mas são
talvez os que explicam a busca do pprio serviço.
Quanto à relação entre o tratamento e a estigmatização e à idéia de “doençaentre
pacientes e familiares, outras questões puderam ser levantadas. Pelos registros, pode-se aferir
que a idéia de si do doente e de seu grupo é confluente, pois, tudo indica que o médico
considera os dois (família e paciente) um mesmo grupo.
140
Acredita-se que essa consideração tem implicações para a autonomia do paciente,
dentre elas o fato de que não chega a eliminar a estigmatização: o doente é que adere a ela,
vendo-se, pelo desvario da loucura, o como um deus, mas, pela tabela de valores do grupo,
como um doente. Busca o tratamento esperando que possa melhorar, ainda que o se cure, e
com a melhora alcance retornar ao seu lugar social, ainda que encostado”.
Por sua vez, o remédio remedia a condição de estigmatizado: controla a conduta
anômala e a explica para os demais (o doente não é mau, o está nele que, afinal, não
está em “si agir assim, logo, precisa do remédio que o controle, de fora para dentro).
Ainda no que concerne à autonomia do sujeito doente, a falta de dinheiro, ocasionada
pela incapacidade para o trabalho regular, tangencia os mesmos efeitos, para o que o benecio
do INSS vem, às vezes, corrigir a estigmatização e o alijamento social. É essa condição criada
pela doença que justifica a demanda dos usuários de que o atestado faça parte do tratamento.
Sobre o tema benefício do INSS, cabe aqui uma observação. A busca de recebimento
de benefício do INSS por parte dos usuários parece apontar para uma lacuna quanto à
prestação de informação, por parte do NAPS, dos direitos dos pacientes.
O entendimento dos profissionais de saúde de que os pacientes seriam enganadores,
aproveitadores e oportunistas é minimamente simplista, pois desconsidera esse conjunto de
valores culturais e de condições de reprodução sócio-econômicas, tão importantes na
configuração da identidade rural desses usuários.
Não essa teia cultural simbólica e as expectativas dos usuários dela decorrentes
têm sido negligenciadas: a comunidade e as redes sociais de apoio que envolvem o doente não
foram percebidas no tratamento. Mas negá-las não é fazê-las desaparecer.
O tratamento deve ir além da erradicação do sintoma, e, de acordo com os valores do
grupo, garantir ou reforçar a permanência do doente nas redes de apoio. O recebimento do
benefício do INSS pode ser parte desse processo, e não apenas interesse cúpido. Conceder
direito não é fazer um favor.
O NAPS pode, portanto, aprimorar a oferta do importante serviço que presta ao
município no campo do atendimento à saúde mental ao procurar compreender a maneira como
os usuários interpretam seu sofrimento mental e como esperam alcançar melhora. Numa
cultura que reconhece o lugar social e o trabalho dos indivíduos e de suas famílias, o estudo e
a autoridade do médico têm mais que um poder, têm um dever ético de pensar sobre suas
ações e usá-las em favor da aquisição de cidadania para e pelos usuários. Sua ação será
sempre política, e nunca apenas técnica.
141
Os agentes de saúde seriam, portanto, importantes atores para trabalhar contra a
estigmatização social que assola os loucos. Atuar no atendimento à saúde mental sem
considerar esse contexto socioeconômico, cultural e sua história é fazer apenas parte da tarefa
esperada para oferecer aos usuários condições de cidadania, além de remédios. Espera-se que
este estudo tenha contribuído para que essas questões, se não ficam resolvidas, fiquem pelo
menos evidentes.
Ainda que tenha alcançado responder suas questões e atingido seus objetivos,
também esta dissertação realizou apenas parte da tarefa no sentido de iniciar um processo
para melhor compreender as representações sociais sobre saúde e doença mental no meio
rural, uma vez que não teve a pretensão de esgotá-las. O universo rural, aliás, dada sua
diversidade, talvez jamais permita esgotar um estudo dessa natureza. E, além disso, considerar
que, para compreender os fenômenos da vida em sociedade, é preciso captar as representações
sociais em sua polissemia, eo buscar apenas um conjunto estanque de representações
invariantes, o que é o caminho de uma ciência, necessariamente, parcial.
Com certeza, esta pesquisa deixa explícita a necessidade de novas abordagens que
consigam maior aproximação das expectativas e representações de grupos sociais compostos
de famílias e seus doentes mentais no meio rural. Certamente outras metodologias, que
comportem entrevistas com usuários e familiares dos serviços blicos, seriam de grande
valor compreensivo.
No mesmo sentido, seriam muito interessantes entrevistas com os agentes de saúde,
de forma que esses se sintam à vontade e com liberdade para expressar, também, suas
anstias profissionais e apresentar propostas para melhoria do atendimento público aos
doentes mentais e suas famílias.
Para tanto, novas e complementares pesquisas, metodologias com clareza ética, mas
criativas, que reúnam estudiosos com formações variadas, olhares diferentes sobre fenômenos
semelhantes, tudo isso pode compor essa trajetória incessante que é a busca de um
entendimento científico para o mundo real, ainda que em se tratando de fenômenos cuja
conformação é, à princípio, subjetiva, como no caso das representações. No fim dessa
caminhada, constata-se, sobretudo, que ainda há mais caminhos a se percorrer.
142
PROPOSIÇÕES A PARTIR DA PESQUISA
Como parte final dos objetivos demarcados, essa dissertação deixa aos agentes de
saúde mental, quer do NAPS-Ervália, que tão gentilmente acolheu esta pesquisa, quer de
outras instituições voltadas ao tema, as seguintes sugestões, para seu eventual aprimoramento:
- no que concerne ao espaço físico: um ambiente que faça do tratamento algo contra
a estigmatização, e não algo estigmatizante local adequado, agradável, acessível, bem
localizado, bem mobiliado;
- no que diz respeito ao funcionamento: utilização mais completa dos recursos
dispoveis (informatização de listas, fichas, arquivos, talvez até de marcações de consultas,
etc.); maior contato/reuniões da equipe entre si e do serviço com outras instituições de atenção
à saúde, ou mesmo com outras finalidades, como o Judiciário local, visando à melhor
utilização de vagas ou ainda a outras modalidades de atendimento, que não apenas as perícias,
como palestras ou campanhas; horários pertinentes às características da população rural;
- no que se refere aos atendimentos: preparo da equipe para a compreensão do
público a que se destina (ou que prevalece) o serviço; composição mais ampla da equipe de
atendimento (com participação mais ativa do serviço social); reflexão, por parte dos médicos,
sobre o recurso aos fármacos e a pouca indicação de outras abordagens terapêuticas;
- em relação ao planejamento: mudanças freqüentes de endereço e profissional
podem levar a melhorias necessárias, mas podem ocasionar rupturas prejudiciais devem
acontecer, mas de modo refletido; é preciso planejar estratégias de atuação, formas
terapêuticas que contemplem as necessidades do público usuário, campanhas de
conscientização da população para a questão do estigma da loucura, eventos de reinserção
social, informação sobre direitos de deveres do cidadão doente mental e seus familiares;
- quanto ao usuário: maior espaço para escuta dos saberes e desejos dos pacientes e
familiares, mais respeito por seus valores, mais compreensão por suas necessidades, mais
diálogo com quem pensa diferente.
Ao contrário dessa dissertação, a história da lida com a doença mental não vislumbra
estar perto de seu fim. Além de toda uma mudança nos valores sociais sobre aqueles que se
afastam da norma, seria preciso ainda sedimentar as determinações legais, avançar com a
garantia mínima dos direitos humanos aos doentes mentais e balizar ações de assistência e
práticas ideológicas não somente umas pelas outras, mas ambas pela ética. Aliás, o passado
mostra que nem sempre se pode esperar a ideologia atuar: é preciso organização potica. As
populações rurais enfrentaram e enfrentam desafios semelhantes.
143
Modestamente, é preciso reconhecer que estas páginas, sozinhas, são apenas o
esforço de análise e interpretação uma pesquisa em nível de mestrado. Porém, falar de uma
situação já é um primeiro passo no sentido de torná-la mais clara, depois é preciso reflexão e
ação para as mudanças desejadas. Reconhece-se que uma dissertação pode muito pouco frente
a uma condição social tão dura como é a estigmatização da loucura.
É bom chegar ao fim dessa caminhada com a sensação de que foi feito o que pôde ser
feito. Agora é o momento de tomar fôlego, e continuar a caminhar...
144
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150
ANEXO A
151
152
153
ANEXO B
154
155
156
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