Falaremos quando aí for, Não me faças esperar muito, a partir de agora não
terei um instante de sossego, Tranquilize-se, por favor, de uma maneira ou
outra neste mundo tudo acaba por se resolver, Às vezes da maneira pior, Não
há-de ser o caso, Oxalá, Um beijo, minha mãe, Outro, meu filho, tem cuidado
contigo, Terei. (SARAMAGO, 2002, p.137)
A escassa pontuação imprime o ritmo da oralidade, que se delineia pela presença e
entrecruzamento de muitas vozes (autor/narrador/personagens) no discurso. Como
consequência desse modo de proceder, os períodos e parágrafos são longos, entremeados de
inversões sintáticas, comentários, digressões, brincadeiras linguísticas:
Até agora não havíamos tido necessidade de saber em que dia da semana se
estão dando estes intrigantes acontecimentos, mas as próximas acções de
Tertuliano Máximo Afonso [...] exigem a informação de que este dia em que
nos encontramos é sexta-feira, donde se tirará facilmente por conclusão que o
dia de ontem foi quinta-feira e o de anteontem quarta. A muitos irão parecer
provavelmente escusadas, óbvias, inúteis, absurdas, e até mesmo estúpidas, as
informações complementares com que resolvemos beneficiar os dias de ontem
e de anteontem, mas desde já nos adiantamos a contrapor que qualquer crítica
que viesse a expressar-se nesses termos só por má-fé ou ignorância o faria,
uma vez que, como é geralmente conhecido, línguas há no mundo que
chamam à quarta-feira, por exemplo, mercredi, miercoles, mercoledi ou
wednesday, à quinta-feira jeudi, jueves, giovedi ou thursday, e à própria sexta-
feira, se não tivéssemos tido o cuidado de lhe proteger frontalmente o nome,
não faltaria por aí quem começasse já a chamar-lhe freitag [...].
(SARAMAGO, 2002, p.69-70)
O excerto de um único (e imenso) parágrafo transcrito anteriormente apresenta apenas
dois longos períodos em que o jogo de palavras (tão frequente no texto do autor) denota o
gosto pelo floreio barroco.
A respeito desse estilo prolixo, ouçamos o comentário do jornalista e escritor José
Castello:
Ao romper com as regras clássicas da gramática e optar por uma linguagem
flutuante, Saramago questiona um dos mais sagrados dogmas
contemporâneos: a clareza. Nem sempre a objetividade e a transparência são
garantias de acesso à realidade. Ao contrário: retendo as coisas em sua
moldura de luz, a clareza é, com frequência, falsificação. Para ele, só uma
linguagem dançante, que acompanhe os deslizes e imperfeições do
pensamento, nos aproxima, de fato, do mundo. (CASTELLO, 2010)
Outro ponto a destacar na construção do discurso do autor consiste na prática
recorrente (neste e em outros romances) de salpicar o texto com expressões e ditados
populares. Selecionamos apenas alguns: “não é porque o burro deu o coice que se lhe vai
partir a perna” (SARAMAGO, 2002, p.51). “Fiquemos portanto com este pássaro na mão em