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unindo população e espaço urbano, se apresentando como importante modo do viver na
cidade.
É naquele ambiente que grande parte da população se encontra em instantes de uma
“aproximação distante”, individual e ao mesmo tempo coletiva, num corriqueiro ir e vir por
pontos da cidade. Uns conversam, outros cochilam, alguns observam o embaço da urbe que
agora corre, muitos se isolam com seus fones de ouvidos. Os que leem sentam-se ao lado
dos que têm pressa. Tem gente que faz crochè, outros que preferem a algazarra em turma.
Desde o tempo dos bondes, quando o carnaval começava sobre as rodas
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ou as moças
paqueravam os condutores
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, até hoje, quando o veículo pende para um lado e outro com as
torcidas que rumam para o estádio de futebol e os motoristas trocam olhares pelo retrovisor
com suas “escovas”
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. Passageiros também enfrentam juntos problemas de um sistema de
transporte público ainda mal estruturado e que dificulta um deslocamento eficaz no
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Como mostra o texto de Sandra Cavalcanti, de 1979, intitulado Sábado de Carnaval: “Maria adorava
Carnaval. Meses antes começava a debater conosco sobre a sua fantasia. Debate mesmo. Hawaiana? Índia?
Pirata? Maria Antonieta? Naquele ano ela saiu de cigana. Estava animadíssima principalmente porque
arrumara um namorado. O rapaz da padaria do largo do França. Para nós o Carnaval também funcionava.
Púnhamos as nossas fantasias e íamos para um bloquinho que se formava na rua. Batíamos lata, cantávamos
as marchinhas do ano, fazíamos até uma coleta de fundos para comprar serpentina e lança-perfume. Mas
havia uma coisa que nos atraía mais do que tudo isso. É que as mulheres podiam, nos dias de folia, andar
penduradas no estribo do bonde! O nosso bondinho de Santa Tereza, dirigido por motorneiro amigo e
fiscalizado por cobradores muito familiares, o nosso bondinho deixava que a gente também fizesse nossas
artes. O bonde foi uma grande instituição carnavalesca! Era o próprio transporte da alegria e da
descontração!” (STIEL, 1984: 237).
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Assim narra Raimundo Ramos (Ramos Cotôco) no poema Estribilho: “Se o bonde passa,/ Está na janela;/
Se o bonde volta,/ Ainda ‘stá ella.../ Namora a todos,/ E’ um horror:/ Aos passageiros,/ E ao conductor./
Todas ellas, sem excepção,/ Têm as mangas dos casacos,/ De viverem nas janellas,/ Todas cheias de buracos./
Algumas eu tenho visto/ Correrem lá da cozinha/ Co’a bocca cheia de carne,/ Sujo o rosto de farinha./ Outras,
de manhã bem cedo,/ Acordam atordoadas,/ Vem o bonde.../ ellas lá surgem/ Co’as caras enferrujadas./ As
parelhas já conhecem/ Estas moças de janelas;/ Quando passam se demoram/ Para olharem para ellas./
Conheço algumas que moram/ Aonde o bonde não passa,/ Que gritam, fazendo troça:/ Esta rua é uma
desgraça!/ Não passa o bonde,/ Está na janella:/ O dia inteiro/ Ahi passa ella:/ Aos transeuntes/ Olha com
ardor,/ Namora á todos:/ E’ um horror! (sic)” (RAMOS, 2006: 107-108).
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Conforme nos mostra o seguinte trecho de entrevista do ex-motorista de ônibus Antônio Nunes Viveiros às
pesquisadoras Patrícia Menezes e Luciana Cardoso, em 17 de dezembro de 2003: “É, quando um motorista
arranja uma namorada ele chama escova. Arranjei uma escova e a paquera é escova também. Já tem gente que
sabe que a mulher do cara vem dentro do ônibus pra pegar a outra. (...) É só paquera se namorar é só fora, mas
lá mesmo no ônibus é só paquera aí se marca um encontro. (...) Acontece mais pelo retrovisor quando vem pra
frente pega na mão, deixa um bilhetinho com telefone. É marcado pelo retrovisor central aí se der certo o
telefone, olha eu vou deixar aqui ela anota e quando vai passando é bom dia, tudo bem, aí pega na mão e
deixa o número do telefone”. (FEDERAÇÃO, 2003-2004). A paquera no ônibus é, ainda, retratada em
entrevista concedida pelo ex-trocador de ônibus Edmar Honorato de Sousa, em 17 de dezembro de 2003, às
mesmas pesquisadoras: “Mas era só aquilo ali, por que tinha muitas delas que queriam paquerar só para
descontar, a gente dispensar a passagem dela. Quando encontrava a gente em outro local se fazia que nem
conhecia. Mas eu cheguei a notar algumas vezes que mais era interesse, porque às vezes tinha aquelas que não
tinha condição financeira e que faziam amizade com cobrador e motorista só para que não cobrasse a
passagem delas (sic)” (FEDERAÇÃO, 2003-2004).