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Contudo, foi durante o chamado "post-boom
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"que outras escritoras dos mais varia-
dos países latinos avançaram em produção e publicação, graças ao desenvolvimento
da crítica feminista contemporânea e sua estreita ligação com os estudos literários,
gestados pelas mudanças provenientes dos movimentos feministas em voga desde
décadas anteriores. Poderemos, então, citar como representantes: Lúcia Guerra (Más
allá de las lágrimas, 1984), Laura Esquivel (Como agua para chocolate, 1989), An-
geles Mastretta (Arráncandome la vida, 1985) e mais recentemente Maridos, 2007,
Isabel Allende ( La casa de los espíritus, 1982), Martha Mercader (Juanamanuela,
mucha mujer 1980), (Belisario en son de guerra, 1984), Nelida Piñón (A República
dos sonhos, 1984), Rosario Ferré (Maldito amor, 1986), Gioconda Belli (La mujer
habitada, 1988)ou ainda mais recente de Belli El infinito en la palma de la mano,
2008, Marta Traba (Conversación al sur, 1981), Tânia Jamardo Faillace (Mario-Vera,
Brasil 62/64, 1983), Ana Teresa Torres (El exilio del tiempo, 1990), Milagros Matta
Gil ( La casa en llamas, 1989).
Os fundamentos desse novo enfoque literário reverberam, às vezes, mesmo sem
intenção explícita na figura da mulher, através de personagens, como sujeito da nar-
rativa e não como objeto do foco narrativo. Elas falam de si mesmas e, como do seu
lugar enxergam o entorno,reconhecem-no e sobre ele atuam, descartando a exclusi-
vidade do patriarcado, seja este exercido por figura masculina ou feminina — como é
o caso da personagem Mamá Elena, de Como água para chocolate.
Nesses romances reavaliadores da história latino-americana em uma literatura his-
tórica, sob a ótica feminina, permite-se à personagem feminina o valor de protagonista,
narradora e/ou escritora de sua trajetória, a exemplo de Tita, com seu diário de recei-
tas, de Como água para chocolate.
Na maioria das vezes, a mulher que é a personagem principal e narra-
dora da história, adquire um papel preponderante, uma função especí-
fica na narrativa: o de escritora. Não importa que espécie de criatura
ela produz. Pode ser escritora a partir da experiência pessoal que se
abre ao social e do jornalismo como a Cristina de Más allá de las más-
caras de Lucía Guerra e de Irene em De amor e de sombras de Isabel
Allende; romancista como Alba ou escritora de diários como Clara, am-
bas em A casa dos espíritos; historiadora/biógrafa como Breta em A
república dos sonhos de Nélida Piñón, ou até mesmo autora de teleno-
velas como Eva Luna. O que importa é a forma como essas mulheres
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Proposta literária que veio depois do Boom e apesar de ter um nome relacionado com esse movi-
mento apresenta muitos pontos de distanciamento como, por exemplo, volta ao realismo; a importância
do amor, em contraste com a obsessão dos escritores do Boom com o comportamento sexual; narrativa
histórica, linguagem como protagonista no sentido do fazer narrativo. Ver mais em: SHAW, Donald L.
Nueva Narrativa hispanoamericana: boom, postboom, posmodernismo. 7ªed. Madrid: Cátedra, 2003.