99
A dimensão temporal dos saberes não se limita à história pessoal ou escolar desses
professores, ela também remete aos processos nos quais os saberes são adquiridos no âmbito
de uma carreira no ensino. O trecho abaixo, retirado da entrevista de D3, aponta a edificação
dos saberes adquiridos no âmbito de uma carreira docente:
Bom, eu me graduei então, em terapia ocupacional, já faz bastante tempo,
não me lembro muito, mas já faz quase trinta anos. E trabalhei então por dez
anos nessa área. É... num centro da Unicamp, a Universidade de Campinas,
[...], quando eu me interessei pelo uso de computadores na educação. Então,
naquela época, eu estava mais, é... Como eu atuava junto a pessoas
deficientes visuais e auditivas, eu participei de um projeto, de divulgação da
linguagem logo dirigida a essa população. Em seguida, eu iniciei o mestrado
na área de educação, psicologia educacional, e fui, né?, aprender, estudar um
pouco mais sobre aprendizagem, né? Principalmente na época, isso aí já faz
bastante tempo, era, a gente estudava muito Piaget, muito, muito, muito
Piaget, é, Wallon, Vygostky, mais as escolas... mais o pensamento russo e
também um pouco mais de Piaget. Na verdade essas coisas, elas vão
mudando um pouco com o tempo. É... depois disso eu saí da Unicamp e fui
trabalhar numa empresa. Trabalhei na empresa IBM. Eu trabalhava na
implantação de projetos de utilização de tecnologia em escolas e
universidades. Um projeto que na época chamava “Projeto Horizonte” e
consistia na interação e formação de professor, formação continuada dos
professores e na gestão e coordenação de projetos educacionais nas escolas,
principalmente usando linguagem logo e software de autoria. Foi bem no
começo do uso dos computadores pessoais no Brasil, isso foi em 92. Depois
disso, eu trabalhei uns 10 anos nesta área, foi quando eu comecei a trabalhar
com EAD, participei da construção de sistemas de gestão da aprendizagem
no INEP.
Essa carreira é marcada por fases de continuidade e outras de ruptura. Nesse sentido,
merecem destaque as falas de D3 sobre a fase de “continuidade” – caracterizada aqui pelo fato
de trabalhar sempre com tecnologia – e sobre a de “rupturas”, que pode ser aqui
exemplificada pela mudança de empresas ao longo de sua carreira.
Na busca da compreensão da construção do saber docente, torna-se fundamental
analisar uma outra dimensão, a social, no sentido de superação de uma visão mentalista que
insiste em reduzir o saber docente a processos mentais, cujo suporte é a atividade cognitiva
dos indivíduos (TARDIF, 2006). Nesse sentido, Tardif propõe uma abordagem social à
edificação do saber docente, compreendendo que esse saber é partilhado por um grupo de
agentes (os professores) que possuem uma formação comum, trabalham numa mesma
instituição e estão sujeitos a uma mesma estrutura de trabalho. Além disso, é social por
repousar sobre um sistema que lhe dá legitimidade e orienta sua utilização, a exemplo da
universidade, portanto, não há conhecimento sem reconhecimento social. O autor também