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Nesta atividade grega de criação repetida de cidades, Detienne lembra que
os deuses não são esquecidos. “Eles possuem seu lugar”,
127
recuperando da
epopéia homérica o rumor que corria entre os feácios. Entre o porto e a ágora a
história do fundador emblemático da cidade é repetida entre eles: “a cidade de
Alcínoos, rei dos Feácios, anfitrião de Ulisses, por ocasião de seu retorno à
Ítaca”.
128
Detienne descreve que o fundador se chamava Nausítoo, e que para
fundar a vila dos feácios cumpriu quatro etapas: traçou uma muralha; edificou
templos aos deuses; construiu casas; e partilhou a terra entre os cidadãos.
129
O autor afirma que entre os altares mais antigos edificados, o de Samos, no
santuário de Hera, seria contemporâneo aos descritos na Ilíada e na Odisséia. O
altar grego, desde o século VIII a.C., se define assim por um marco inaugural; é
sobre ele que o fogo é aceso, que o sangue das vítimas da thysía corre, que a parte
dos deuses é consumida pelas chamas. Com o altar inicia-se o processo de
territorialização, fabricação e construção de um espaço,
130
que ele indica na obra
com Giulia Sissa, ser objeto, primordialmente, da partilha divina.
131
Recuperando
um episódio referido por Heródoto nas Histórias, ilustra-o:
Por um dia de grande vento,
132
o deus Bóreo tornou-se cidadão da vila de Túrio,
nova Sibaris. (...) Mais especificamente, em 379 a.C., Denis de Siracusa em
guerra contra os cartagineses, lança uma expedição naval contra Túrio. Trezentos
navios carregados de homens armados, de hoplitas, de homens de bronze. O
Vento do norte soprou, Bóreo fez quebrarem as embarcações. Desastre para
Denis. Ao passo que os cidadãos de Túrio, salvos pelo deus Bóreo, votaram um
decreto concedendo a cidadania ao Vento: atribuíram-lhe uma casa como a um
novo cidadão, concederam-lhe um lote de terra, e, todo ano, celebravam uma
festa em sua honra.
133
(...) Os atenienses, por sua vez, que haviam tido um papel
central na fundação da nova Sibaris, decidiram tomar Bóreo por um parente
aliado. Tinham doravante, na fronteira de Ilissos um santuário reservado ao Vento
do norte que lhes havia dado a mão anteriormente contra a armada persa, próximo
ao cabo de Artemísio.
134
127
DETIENNE, « Faire du territoire, créer des dieux pour chaque cité » In : op.cit., 1989, IX, pp.
167-169.
128
Ibid., 167.
129
Odisséia, VI, 10. Cf. Claude MOSSÉ, « Ithaque ou la naissance de la cité » Annali dell’
Instituto Universiatrio Orientale. Archeologia e storia antica, II, Naples, 1980, pp. 7-19. Apud
Detienne, op.cit., 1989, IX, p.167.
130
DETIENNE, “De l’ autel au terroir: l’ habitat des puissances divines” In: op.cit., 1989, p.207.
131
DETIENNE, “Quand les Olympiens prennent l’ habit du citoyen” In: op.cit., 1989, IX, p.159.
132
A tradução é minha.
133
ELIEN, Histoires variées, XII, 61. Apud Detienne, op.cit., 1989, IX, p.159.
134
HERÓDOTO, VII, 188-189. Apud. Ibid, p.159.
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