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ESCOLA DE COMUNICAÇÕES E ARTES
UNIVERSIDADE DE SÃO PAULO
LUIZ AUGUSTO DUARTE DANTAS
ROTEIRO CINEMATOGRÁFICO:
NARRATIVA CLÁSSICA, ESTUDO E APLICAÇÃO
São Paulo
2010
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LUIZ AUGUSTO DUARTE DANTAS
ROTEIRO CINEMATOGRÁFICO:
NARRATIVA CLÁSSICA, ESTUDO E APLICAÇÃO
Tese apresentada ao Programa de Pós-
Graduação em Ciências da Comunicação, Área
de Concentração Estudo dos Meios e da
Produção Mediática, Linha de Pesquisa
Técnicas e Poéticas da Comunicação - Escola
de Comunicações e Artes da Universidade de
São Paulo, como exigência parcial para
obtenção do Título de Doutor em Comunicação,
sob a orientação da Profa. Dra. Esther
Império Hamburger.
.
Orientador: Profa. Dra. Esther Império Hamburger.
São Paulo
2010
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LUIZ AUGUSTO DUARTE DANTAS
ROTEIRO CINEMATOGRÁFICO:
NARRATIVA CLÁSSICA, ESTUDO E APLICAÇÃO
Esta tese foi julgada adequada à
obtenção do título de Doutor em
Ciências da Comunicação e aprovada em
sua forma final pelo Curso de
Doutorado em Ciências da Comunicação
da Escola de Comunicações e Artes da
Universidade de São Paulo.
São Paulo, ____, de __________ de 2010.
______________________________________________________
Professor e orientador Nome do Professor, Dr.
Universidade de São Paulo
______________________________________________________
Prof. Nome do Professor, Dr.
Universidade...
______________________________________________________
Prof. Nome do Professor, Dr.
Universidade...
______________________________________________________
Prof. Nome do Professor, Dr.
______________________________________________________
Prof. Nome do Professor, Dr.
Para Mara, Raquel e Heloisa,
que com muita sabedoria me
fizeram aliar alegria a tarefas
árduas servindo de inspiração
para horas de trabalho e
aprendizado.
AGRADECIMENTOS
Quero agradecer aos alunos Celso Duvecchi, Gustavo
Fattori e Richard Dantas, que me ajudaram a sistematizar em
cartões a escaleta para o roteiro de Cléo e Damião e com os
quais pude manter discussões sempre interessantes sobre
estrutura e dramaturgia. Gustavo ajudou também na montagem da
escaleta do filme Central do Brasil e Richard ajudou na
pesquisa relacionada ao sistema prisional de São Paulo.
Josmar Jozino, repórter policial do Jornal da trade e
autor de dois livros fundamentais para entender a
criminalidade em nosso estado, por ter me recebido e em várias
ocasiões discutido situações relacionadas à criminalidade e
suas repercussões.
A Karina Biondi, antropóloga, que me recebeu para
conversas, respondeu várias dúvidas sobre a atuação do PCC e
me repassou sua dissertação de mestrado antes mesmo de sua
conclusão.
A professora Esther Hamburger, minha orientadora, que
acompanhou a redação do roteiro e os vários caminhos trilhados
até chegar à composição final e definição da estrutura deste
trabalho. Esther, profunda conhecedora da realidade da
televisão brasileira, procurou sempre manter em perspectiva
para mim as diferenças entre uma indústria que existe e é
pujante, como a da televisão brasileira e a do cinema, que no
Brasil sempre sofreu e continua a sofrer por falta de um
mercado estruturado.
A meus pais que sempre que possível procuraram me
ajudar cuidando de tarefas que me distanciavam da dedicação à
pesquisa necessária.
A Mara, Raquel e Heloisa por entenderem que muitas
vezes o tempo que gostaria de poder dedicar a elas precisava
ser tomado com a redação deste trabalho.
Wonder, Surprise, and Admiration, are words
which, though often confounded, denote, in our
language, sentiments that are indeed allied, but
that are in some respects different also, and
distinct from one another. What is new and
singular, excites that sentiment which, in strict
propriety, is called Wonder; what is unexpected,
Surprise; and what is great or beautiful,
Admiration.
We wonder at all extraordinary and uncommon
objects, at all the rarer phaenomena of nature, at
meteors, comets, eclipses, at singular plants and
animals, and at every thing, in short, with which
we have before been either little or not at all
acquainted; and we still wonder, though forewarned
of what we are to see.
We are surprised at those things which we have
seen often, but which we least of all expected to
meet with in the place where we find them; we are
surprised at the sudden appearance of a friend,
whom we have seen a thousand times, but whom we did
not imagine we were to see then.
We admire the beauty of a plain or the
greatness of a mountain, though we have seen both
often before, and though nothing appears to us in
either, but what we had expected with certainty to
see.(Smith, Stewart et al. 1980 pg 66)
Smith, A., et al., Essays on philosophical subjects. The Glasgow
edition of the works and
correspondence of Adam Smith. 1980, Oxford
[Oxfordshire] New York: Clarendon Press ; Oxford University Press. ix, 358 p
– pg. 33-34
RESUMO
Através da discussão do modelo para análise da estrutura
dramática do cinema clássico proposto por Kristin Thompson e
David Bordwell em contraposição não somente aos ditamos
correntes na maioria dos manuais de roteiro norte-americanos,
mas também a uma posição preconizada por autores que procuram
analisar o cinema com modelos mais próximos à dramática, o
estudo de dois filmes, Cidade de Deus e Central do Brasil,
serve de subsídio para a composição de um roteiro
cinematográfico intitulado Cléo e Damião.
Palavras-chave: Roteiro. Dramaturgia. Cinema.
ABSTRACT
Through the discussion of the model for analysis of
dramatic structure in classical cinema proposed by Kristin
Thompson and David Bordwell contrasted with current terms in
screenwriting manuals and other works which try to bring the
analysis of film closer to drama, the study of two films, City
of God and Central Station serves as subsidy for the creation
of an original screenplay entitled Cléo and Damião.
Keywords: Screenplay. Drama. Film.
RÉSUMÉ
Se fondant sur la discussion du modèle d’analyse de la
structure dramatique du cinéma classique que proposent Kristin
Thompson et David Bordwell s’opposant à la fois aux normes
couramment adoptées dans la plupart des manuels de scénario
nord-américains, mais aussi à une position préconisée par des
auteurs qui cherchent à analyser le cinéma à partir de modèles
plus proches de l’art dramatique, cette étude de deux films
brésiliens : Cidade de Deus et Central do Brasil apporte sa
contribution à la composition d’un scénario cinématographique
intitulé Cléo e Damião.
Mots-clés: Scénario. Drama. Cinema.
LISTA DE GRÁFICOS
1. Estrutura dramática em Cidade de Deus.................163
2. Estrutura dramática em Central do Brasil..............173
LISTA DE TABELAS
1. Modelo de Thompson.....................................40
2. Modelos de Field, Seger, MacKee e Thompson............165
SUMÁRIO
1 INTRODUÇÃO .................................................................................................................... 11
1.1 CENTRAL DO BRASIL E CIDADE DE DEUS: .............. 12
1.2 O MOMENTO EM QUE SURGIRAM: ....................... 15
1.3 CRESCE O PÚBLICO DO FILME NACIONAL: .............. 19
1.4 POSICIONAMENTOS: ................................. 21
1.5 OS FILMES E A NARRATIVA CLÁSSICA: ................ 30
2 O MODELO DE THOMPSON ............................................................................................ 35
2.1 A DIVISÃO EM PARTES: ............................. 41
2.2 O PERCURSO DE THOMPSON ........................... 52
2.3 MANUAIS DE ROTEIRO NO BRASIL: .................... 61
2.4 NOVOS RUMOS PARA O ROTEIRO NACIONAL .............. 65
2.5 UM CINEMA TRANSNACIONAL .......................... 68
3 DEFINIÇÃO DO CINEMA CLÁSSICO: ....................................................................... 72
3.1 REDUNDÂNCIA: ..................................... 78
4 CIDADE DE DEUS ........................................................................................................... 82
4.1 FRAMING DEVICE: .................................. 85
4.2 CIDADE DE DEUS ENQUANTO ADAPTAÇÃO: ............... 89
4.3 PROTAGONISMOS: ................................... 95
4.4 CAUSA E EFEITO, PLAUSIBILIDADE E VEROSSIMILHANÇA: 100
4.5 A VOLTA DO PROTAGONISTA ......................... 102
4.6 MAS, AFINAL QUEM CONTA A HISTÓRIA? .............. 114
4.7 UMA DESCRIÇÃO DO FILME: ......................... 120
4.8 CONCLUSÕES: ..................................... 149
5 CENTRAL DO BRASIL.................................................................................................. 163
5.1 CENTRAL DO BRASIL EM PARTES ..................... 173
6 CONCLUSÃO ..................................................................................................................... 185
6.1 O INÍCIO ........................................ 187
7 CLÉO E DAMIÃO – ROTEIRO DE LONGA-METRAGEM ........................................ 194
BIBLIOGRAFIA ................................................................................................................... 294
11
1 INTRODUÇÃO
Este trabalho se insere no esforço de definir o campo de
pesquisa acadêmica em uma área de criação artística: a
elaboração de um roteiro cinematográfico de longa-metragem. O
trabalho dialoga também com o cinema brasileiro contemporâneo,
que, se por um lado vive momentos difíceis no tocante à
conquista de seu público, de outro traz exemplos de filmes que
conseguem atingir sucesso de bilheteria, apreciação positiva
pela crítica cinematográfica internacional e conquista de
mercados externos.
Os dois filmes analisados, Central do Brasil e Cidade de
Deus, são notadamente, os dois maiores expoentes deste cinema
brasileiro que alcança sucesso de público no Brasil. Foram
laureados em festivais internacionais e lançados em carreiras
internacionais que trouxeram visibilidade para a
cinematografia brasileira, para seus diretores e roteiristas e
outros membros da equipe criativa.
Ao buscar identificar os elementos clássicos na construção
de seus roteiros e avaliar através do estudo de suas formas
dramáticas, e da estruturação de suas narrativas, a
complexidade e sucesso no uso de procedimentos estabelecidos
na cinematografia clássica, este trabalho oferece subsídio
também para a elaboração do roteiro cinematográfico intitulado
Cléo e Damião, que busca também um diálogo com formas
12
clássicas de narrativa e estruturação dramática de roteiros
cinematográficos.
O processo de desenvolvimento do roteiro Cléo e Damião, me
levou por caminhos e trajetórias diferentes. Havia uma meta
inicial – estudar a estrutura dramático/narrativa de filmes de
trama múltipla e não linear na busca de um entendimento de
suas estruturas, pois o argumento que pretendia desenvolver
inicialmente como roteiro de longa-metragem fazia uso deste
tipo de estrutura. Mas, o argumento original foi sendo
alterado e o objeto de estudo foi também sofrendo mudanças
para acompanhar e dar subsídios para o processo de elaboração
do roteiro, que passou de um argumento com três tramas que
deveriam ser construídas de forma não linear, para este
roteiro final, com duas tramas principais e paralelas, mas
organizadas de forma linear e trabalhando o tempo de forma
bastante clássica, com a ação do filme restrita a um espaço de
72 horas.
1.1 CENTRAL DO BRASIL E CIDADE DE DEUS:
Central do Brasil e Cidade de Deus estão inscritos por
autores estrangeiros no que se denominou de ‘La Buena Onda’.
Segundo Stephanie Muir esta boa onda inclui títulos como
Amores Brutos (Alejandro Iñarritú, 2000, México), Y tu Mama
13
También de Alfonso Cuarón, 2001, México), e Os Diários da
Motocicleta (Walter Salles, 2004, USA/Alemanha/UK/Argentina)
que parecem rivalizar a popularidade em anos recentes de
filmes da Ásia, em especial aqueles produzidos por Hong Kong.
Para ela isto reflete a crescente globalização do cinema.
(Muir 2008)
Lúcia Nagib vê nestes filmes um exemplo do que denomina de
cinema transnacional, um boom ligado a novos cinemas de vários
países. Estariam incluídos aí os cinemas de países como Irã,
México, Japão, Argentina e Brasil. São, para ela,
cinematografias que mostram um interesse renovado pelas
peculiaridades locais e nacionais com relação aos respectivos
países; e isto vai contra a idéia de globalização como
diluição cultural. Para mim o mais importante na análise é que
a autora identifica um ressurgimento, ou uma recuperação do
cinema narrativo:
“Most of these films are also engaged in
reassessing narrative cinema, as a kind of
reaction against the deconstructive work carried
out by postmodern cinema of the 1980’s”.(Nagib
2006 pg 95)
Interessante é também verificar que uma publicação
relativamente recente do Departamento de Estado dos Estados
Unidos da América, o Journal USA (com o subtítulo Society and
Values), dedicou número a várias análises do negócio da
indústria cinematográfica. Um dos artigos tinha o título:
14
What´s American About American Movies? (Doherty 2007) A lógica
por trás da questão é o fato de que muitos dos filmes de
sucesso nos EUA, seja em termos monetários ou de crítica,
estão sendo feitos por imigrantes ou por cineastas vindos de
outros países, ou que vivem em dois mundos, o do país de
origem e a indústria Hollywoodiana. No texto estão citados os
filmes de Alejandro Gonzales Iñarritú, filmes citados também
pelos outros autores que comentam sobre a internacionalização
das narrativas cinematográficas, ou no caso de Nagib, a idéia
de um cinema transnacional. A introdução e a justificativa
para a edição são também bastante evidentes em termos de
apontar para uma necessidade da indústria hegemônica pensar
sua criação, e isto vindo de uma publicação do departamento de
estado:
“One of our purposes in presenting this issue of
eJournal USA is to make our readers aware that
American movies are far richer and more varied
than the blockbuster stereotype would suggest. The
articles in this issue capture an industry in
flux. Our authors analyze the increasing
internationalization of the film industry, both in
terms of audiences and filmmaking talent; the rise
of a more personal style of independent filmmaking
in recent years; the market for foreign- produced
films in the United States; and the effects of the
15
Internet and the digital revolution on how movies
get made and distributed.”
1.2 O MOMENTO EM QUE SURGIRAM:
Central do Brasil e Cidade de Deus foram gestados em um
sistema de produção, ou melhor, uma sistemática de produção
diferente daquela empregada nas décadas de 70 e 80 no Brasil e
foram os motores para a visibilidade de nossa cinematografia
no exterior depois de um período de quase total derrocada de
nossa produção. Se nos anos 70 e 80 o cinema Brasileiro chegou
a ocupar 35% do mercado, isto se deu com um modelo de produção
de parceria privada/estatal e verticalizado onde uma empresa,
a Embrafilme, passou a controlar a produção e distribuição da
maioria dos títulos da cinematografia nacional. Excetua-se
aqui o caso da boca do lixo e da pornochanchada
carioca(Almeida and Butcher 2003).
“No ápice de seu funcionamento, a Embrafilme
chegou a ocupar 35% do mercado e a conquistar 50
milhões de espectadores por ano para o filme
brasileiro. No fim dos anos 70 e começo dos anos
80, desbancou as companhias CIC e Columbia, que
até então se alternavam na liderança do mercado de
distribuição no Brasil. Por três anos (1978, 1979
16
e 1981), ocupou o topo do ranking do market share
no país. Este modelo permitiu também a formação de
uma mão-de-obra altamente especializada em
distribuição, formada por profissionais que
ficaram conhecidos como “a geração de ouro da
Embrafilme” e que, hoje, estão no comando das
majors norte-americanas instaladas no
Brasil.(Almeida and Butcher 2003 pg 22)”
Depois da derrocada do cinema brasileiro, imposta por
Fernando Color quando da dissolução da Embrafilme e extinção
do CONCINE
1
, o cinema brasileiro viveu momentos desesperadores,
com a produção caindo a níveis antes inimagináveis. Houve
posteriormente uma retomada e a mudança completa da forma de
produção dos filmes brasileiros, passamos de uma gestão como a
da Embrafilme para um sistema que utiliza leis de incentivo,
mas o retorno da produção não se deu inicialmente com a
utilização destas novas leis, e sim através do Prêmio Resgate
do Cinema Brasileiro. Foram três seleções entre 1993 e 1994
que premiaram 25 projetos de curta-metragem, 9 de média-
1
Segundo Matta, a base de intervenção estatal na atividade cinematográfica
brasileira até o início dos anos 1990, foi implementada com a extinção do
INC em 1975 e a criação do Conselho nacional do CINEMA (CONCINE), em
1976, que assumiu um papel essencialmente normativo e fiscalizador. Ainda
segundo ele, coube à Lei nº 6.281, de 1975, essa transformação, além da
formalização do aumento de capital e a ampliação das atribuições da
EMBRAFILME para agência financiadora, co-produtora e distribuidora de
filmes nacionais. As fontes de renda da estatal eram a venda de ingressos
padronizados, contribuições por título de filme para o desenvolvimento da
indústria cinematográfica, participação nos filmes co-produzidos e
distribuídos e recursos do imposto sobre a remessa de lucros de filmes
estrangeiros - Matta, J. P. R. d. (2008). Políticas públicas federais de
apoio à indústria cinematográfica brasileira: um histórico de ineficácia
na distribuição.
Revista Desenbahia. 8: 55-69.
17
metragem e 56 filmes de longa-metragem, finalizados numa
seqüência rápida. Para Lúcia Nagib este acúmulo é o que fez a
produção parecer um boom. (Nagib 2002)
Com a Embrafilme tínhamos um sistema de produção e
distribuição e também um sistema de controle e aferição do
mercado, com dados atualizados sobre média de público por sala
entre outros indicadores.
Butcher e Almeida, fundadores do site FilmeB, uma
iniciativa similar à Variety
2
norte-americana - o mais
importante trade paper para a atividade cinematográfica da
indústria hollywoodiana - indicavam ainda em 2003 que estes
dados estão hoje diluídos e com acesso bastante limitado pela
classe, principalmente pelos produtores. Mas afirmam também
que a derrocada da Embrafilme se deu justamente em função de
seu modelo verticalizado, que passou a financiar um grupo
restrito de produtores. Fato é que com a extinção da empresa,
o cinema brasileiro ficou órfão e sem estrutura para
desenvolver, produzir, levar seus produtos ao mercado e
avaliar seu rendimento e distribuição.
A promulgação de leis de incentivo implicou numa alteração
extremamente significativa com relação à lógica de
investimento na produção e na distribuição. Estas leis
significaram a privatização da administração de recursos
públicos. As duas principais leis foram a lei de incentivo à
2
www.variety.com
18
cultura (Lei Rouanet)
3
aprovada pelo congresso nacional em 1991
e que permite a aplicação de parte do imposto de renda devido
por empresas e pessoas físicas na produção de produtos
culturais; a segunda é a lei 8.685, a lei do Audiovisual
4
,
aprovada em 20 de julho de 1993 que também funciona com base
na renúncia fiscal, mas é específica para a atividade
audiovisual.
Roberto Farias, comenta sobre o novo “modelo de produção”:
“Não me dou bem com o sistema atual de
obtenção de recursos para o cinema. Todos os
filmes que fiz até hoje foram realizados com
recursos próprios, ou pegando dinheiro em banco ou
com agiota, como fiz no meu primeiro filme, sempre
acreditando no ressarcimento do mercado. Hoje as
condições adversas, o mercado encolheu e não
compensa mais, temos menos salas de cinema e não é
possível buscar dinheiro no banco. Se você
calcular a receita de quanto os filmes estão
dando, levando em consideração como é o mercado,
vai perceber que não paga. Os filmes não se pagam.
Na época em que comecei a fazer cinema, e mais
tarde um pouco, quando fui presidente da
Embrafilme, o cinema provocava e forçava o governo
com uma série de medidas para se fazer filmes.
3
Lei nº 8.313 de 23 de dezembro de 1991, que instituiu também o PRONAC –
Programa Nacional de Apoio à Cultura.
4
Instituída em 20 de julho de 1993.
19
Hoje não existe mais nada, existem fontes de
financiamento, mas não existe mercado, e dessas
fontes de financiamento eu não gosto muito, de
pedir para empresa colocar dinheiro no seu filme.
Depois de você fazer isto é como se o filme não
tivesse obrigação, é como se o seu filme não fosse
negócio, algo que você tivesse que transformar em
receita, numa atividade rentável, pagar seus
custos para haver uma continuidade mínima dessa
atividade”(Ramos 2000 pg 476).
1.3 CRESCE O PÚBLICO DO FILME NACIONAL:
Entre 1997 e 2003, houve um crescimento muito grande de
público para o filme brasileiro. Dados da ANCINE
5
e da FilmeB,
apontam para um crescimento de 2,4 milhões de espectadores em
1997 para 22,1 milhões em 2003, passando a participação do
filme brasileiro de 5% dos ingressos vendidos para 21,4%.
Segundo Matta, este crescimento foi impulsionado pela criação
das leis de incentivo, mas também pelos seguintes fatores:
5
A ANCINE, Agencia Nacional do Cinema, foi criada como autarquia especial
pela Medida Provisória nº 2.228-1 em 2001, ainda no governo Fernando
Henrique Cardoso. Ela é vinculada ao Ministério da Cultura e tem entre
suas atribuições a regulamentação, fiscalização e o fomento das
atividades cinematográficas e audiovisuais. De início as discussões
apontavam para a possibilidade da instituição ser vinculada ao Ministério
da Industria e Comercio.
20
“1) o crescimento e a manutenção do fluxo
anual de lançamentos, entre vinte e trinta filmes,
com a eficiência da distribuição alavancada pela
crescente adesão de grandes companhias
estrangeiras ao incentivo fiscal, previsto no Art.
3° da Lei do Audiovisual; 2) o aprimoramento da
qualidade e a diversidade das produções nacionais;
3) o movimento de integração entre a televisão e o
cinema, a partir da criação da Globo Filmes, em
1997; 4) a presença de astros e estrelas da
televisão nos lançamentos; 5) a aproximação da
produção e da distribuição, via parcerias; 6) o
crescimento do parque nacional de salas de
exibição, desde 1997, acompanhado do crescimento
do mercado interno e de um aumento médio relativo
maior do público do cinema nacional em relação ao
público dos filmes estrangeiros. (Matta 2008 pg
66). “
Mas, Cidade de Deus dificilmente se enquadra em todos
estes fatores. Não é um filme com estrelas, mas contou com a
participação da Globo Filmes, fez parcerias internacionais,
ainda que não tenham sido estas que viabilizaram o
financiamento da produção (Matta 2009). Com certeza o
crescimento do parque de salas de cinema ajudou na expansão do
mercado e a possibilidade do filme atingir um largo público.
21
1.4 POSICIONAMENTOS:
Do alto de seus mais de três milhões de espectadores no
Brasil, o filme suscitou incontáveis reações, seja por parte
da mídia, da classe, da academia ou do público em geral.
Arnaldo Jabor escreveu que Cidade de Deus não é apenas um
filme e sim um fato importante, um evento crucial que deixa
marcas profundas na consciência nacional. “Nós não assistimos
este filme, ele olha para nós... Cidade de Deus não é um
retrato lacrimoso das favelas; ele não tem um único traço de
sentimentalismo” (Jabor 2005).
Entre as várias recepções e trabalhos gerados a partir de
Cidade de Deus, vale citar colocações como a de André Gatti,
que vê no filme um evento sem paralelo, um fenômeno na
história do cinema do Brasil. Com ele a produção
cinematográfica nacional chega a um patamar antes nunca
alcançado, rompendo com o que chama de certa ingenuidade e
tradição na nossa indústria. Completando, Gatti afirma também
que Meireles, (diretor do Filme) vai contra aqueles que
acreditam que o cinema estrangeiro não tem nada a nos dizer. E
conclui que o filme demonstra uma posição de negociação
direta, sem hierarquias, com a tradição do cinema do ocupante
em detrimento de um diálogo exclusivo com a tradição do cinema
brasileiro.(Gatti 2005)
22
A posição de Gatti vem como contraponto a uma colocação
como a de Ivana Bentes, que cunhou o já famoso termo cosmética
da fome (Bentes 2001) para indicar filmes que em sua visão
rompem e de certa forma banalizam o tratamento da miséria
antes retratada no cinema novo sob a égide de uma estética da
fome (Rocha 1965). Bentes no dia seguinte ao lançamento de
Cidade de Deus se posiciona criticamente indicando acreditar
que a narrativa do filme se equipara a de filmes
hollywoodianos de ação e que o filme promove “turismo no
inferno em que as favelas surgem não como “museu da miséria”,
mas novos campos de concentração e horrores” (Bentes 2002).
Bentes ainda critica também o fato de que “a favela é mostrada
de forma totalmente isolada do resto da cidade, como um
território autônomo,” pois “em momento algum se pode supor que
o tráfico de drogas se sustenta e desenvolve (arma, dinheiro,
proteção policial) porque tem uma base fora da favela. Esse
fora não existe no filme. Aqui a ressalva vai no sentido de
perceber que o isolamento é próprio do estatuto do tráfico. O
traficante não tem espaço fora da favela, seu lugar seguro,
seu território é aquele, ele não trafega, não usufrui do
espaço urbano da mesma forma que cidadãos de classe média. E
porque a favela, esta realidade, não deveria ser mostrada como
isolamento? Este tema é tratado na estrutura dramática, Bené
não tem como entrar nas lojas de grife e comprar roupas
“bacanas”, roupas de cocotas, ele precisa da intermediação de
Tiago para acessar esta forma de se vestir. Mas, a
23
indumentária não o retira de lá, vestir-se de cocota, oxigenar
o cabelo, estando ali dentro, não o retira daquela realidade.
Concordo com Gatti, com relação à importância do filme,
seu diálogo com a tradição clássica e compartilho seu
desconforto com a posição sectária colocada por Bentes que
teve o mérito de levantar discórdia e continua até hoje citado
em textos acadêmicos, mas perde sua relevância em função do
alcance, penetração e poder de comunicação que o filme
demonstrou.
A polêmica gerada foi analisada por Fernando Mascarelo,
que busca identificar as raízes de uma oposição. Para ele, “a
crítica da cosmética da fome surge como manifestação radical
do campo que prioriza o estético-político em detrimento da
comunicabilidade, em reação, tudo indica, ao alto grau de
referendo popular obtido por este deslocamento (rumo ao
clássico) por ocasião de Central do Brasil e, acima de tudo,
Cidade de Deus. O elitismo da crítica da cosmética da fome
está ligado a uma posição ideológica que vê uma legitimação
implícita (de uma cinematografia moderno-revolucionária
supostamente herdeira da estética da fome) paralela a uma
dupla patologização explícita do público, designado para um
lugar passivo e assujeitado frente ao filme, e do cinema pós-
clássico, demonizado de forma essencialista e redutora).”
(Mascarello 2004).
Esther Hamburger recupera a legitimidade desta aproximação
do cinema com o drama nas favelas e a realidade do tráfico de
24
drogas, para ela “o filme constrói imagem terrível com
estatuto quase documental legitimado pelo testemunho do autor
do livro e dos atores que emprestam seus corpos e sua fala
para atestar a degradação da vida, reduzida a pó, na mira
casual de espectros de gente, meninos que como os
entrevistados em Notícias de uma Guerra Particular (João
Moreira Salles e Kátia Lund, 1999) e depois, Falcão, declaram
ciência da ausência de perspectiva de futuro que marca suas
vidas” (Hamburger 2007). Esther conclui que “a denúncia
contundente da violência provocou polêmica, especialmente pelo
registro brutal em que a ação dos grupos paralelos aparece. O
retrato chocou. A primeira reação é responsabilizar o filme
por uma interpretação sensacionalista da vida na
favela”(Hamburger 2007).
Nesta mesma onda de avaliação dos danos causados por
posições dogmáticas, que contrapõe uma suposta forma dominante
de contar histórias a uma que seria genuinamente local, ou
nacional, o comentário de Roberto Moreira é também pertinente.
Ao procurar trabalhar os ditames do cinema clássico, ele vê os
mesmos elementos aplicados a Central do Brasil, Pixote, a lei
do mais fraco (Hector Babenco, 1981) ou Dona Flor e seus Dois
Maridos (Bruno Barreto, 1976) que são filmes considerados
brasileiros, e nem um pouco menos atentos à narrativa clássica
e outros que ao longo de nossa história foram vistos como
imitação porque tentam se inserir dentro de um gênero
industrial. Os filmes por ele citados são O dia da Caça
25
(Alberto Graça, 1999) e o Assalto ao Trem Pagador (Roberto
Farias, 1962).
Para ele “a identificação do cinema americano com filmes
de gênero revela uma visão exclusivamente temática do
problema. Recusar o cinema preocupado com os gêneros como
antinacional não apenas prejudica o seu desempenho comercial
como também pode limitar o espectro expressivo de uma
cinematografia.... A exigência de clareza presente no cinema
americano, sua obsessiva procura da inteligibilidade, é outra
questão que deve ser enfrentada por todos os cinemas nacionais
na busca por seu público”(Moreira 2001 pg 123).
Esta identificação de gênero foi bastante marcada em
Cidade de Deus. Miranda Shaw (Shaw 2005), analisa como os
críticos prepararam o público internacional para receber a
obra e associa esta identificação com o gênero de filme de
Gangster a uma estratégia de marketing, no que ela não vê como
uma importação, mas sim um filme profundamente arraigado na
realidade brasileira.
Apesar dos dois filmes analisados aqui serem exemplos de
sucesso em termos de crítica e público, não se pode dizer que
o cinema brasileiro vive momentos tranqüilos, que tenha
público cativo, que esteja em momento totalmente auspicioso.
Há sim uma dificuldade muito grande de encontrar o público,
mas, paradoxalmente a dificuldade de encontro com o público
não se deve a experimentalismo nem à falta de qualidade
técnica. Ao contrário, os filmes em geral expressam o domínio
26
da linguagem e da técnica e a busca pelo público. Com isto em
mente, busco estudar Cidade de Deus e Central do Brasil para
identificar nos dois filmes os elementos clássicos na
construção de suas dramaturgias e narrativas. Acredito também
que seja possível dizer que o cinema brasileiro contemporâneo
busca nas estruturas narrativas clássicas suporte para a
comunicação com seu público.
Ismail Xavier cunhou o termo cinema de resultado, mas este
se aplica a filmes os mais variados – que apesar do esforço
são bem sucedidos em relativamente poucos casos. Cidade de
Deus e Central do Brasil talvez sejam os melhores exemplos. O
termo quer indicar uma vocação para o grande público. Um dos
problemas é que na maioria das vezes vocação não se transforma
em sucesso efetivo. Além disso, ao pensar vários filmes a
partir de um desejo, seja ele originário do produtor, do
diretor ou mesmo de uma equipe ou produtora com um todo,
descolamos o desejo do objeto. Vemos a resultante e a tomamos
como o objeto em si. Os filmes possíveis de serem catalogados
ou marcados como sendo parte desta vocação de mercado são
muito diferentes entre si. O que, no entanto, podemos
identificar nos dois filmes que escolhemos como objeto, é que
ambos tiveram reconhecidos o craft na construção de seus
roteiros. Central do Brasil e Cidade de Deus receberam suporte
do Sundance Institute na elaboração de seus roteiros. Central
do Brasil recebeu o Sundance/NHK International Filmmakers
Award. Cidade de Deus foi, para citar apenas o mais visível
27
entre inúmeros outros prêmios, indicado ao Oscar de Melhor
Roteiro Adaptado.
Analisar os filmes em questão nos traz a mente várias
introduções de manuais de roteiro, algumas mais interessantes
que outras, mas todas apontando para o seguinte: é necessário
ter uma história para contar, esta história precisa ter algo a
dizer e a forma como isto é dito, ou comunicado, ou a forma
como esta narração é encenada e encadeada é fundamental.
Lajos Egri autor de um dos manuais mais sensíveis em
termos de análise de obras clássicas da dramaturgia, comenta
no prefácio de seu livro o que vem a ser este básico
necessário para que uma peça, um roteiro sejam criados de
forma a permanecer em nosso imaginário e ocupar um lugar
importante em nossa cultura.
“We believe that the obligatory scene, tension,
atmosphere, and the rest are superfluous. They are
the effect of something much more important. It is
useless to tell a playwright that he needs an
obligatory scene, or that his play lacks tension
or complication, unless you can tell him how to
achieve these things. And a definition is not the
answer.
There must be something to generate tension,
something to create complication, without any
conscious attempt on the playwright’s part to do
so. There must be a force which will unify all
28
parts, a force out of which they will grow
naturally as limbs grow from the body. We think
we know what the force is: human character, in
all its infinite ramifications and dialectical
contradiction”.(Egri 1988)
A palavra grega drama significa ação. Ação como arte
mimética, como imitação ou representação de um comportamento
humano. Martin Esslin, ao traçar uma anatomia do drama indica
que uma das grandes forças do drama é a possibilidade da
“expressão da disposição imponderável, das tensões e simpatias
ocultas, das sutilezas das relações e interações humanas”, o
que para ele implica que “o drama é de longe a forma mais
econômica de expressão”, mas a afirmação mais importante com
relação à qualidade fundadora do drama é sua identificação de
que o drama se dá sem necessidade autoral, vem isto sim da
polifonia de conflitos que devem ser identificados na ação da
peça, na interação entre os personagens. Não é autor quem fala
através de um personagem. (Esslin 1976)
Robert Mackee, recorre ao mito para justificar o que
seriam histórias que ficam e viajam entre públicos muito
distintos, isto é, podem ganhar o mundo globalizado do cinema.
“Uma história arquetípica cria settings e personagens ricos
com os quais nossos olhos se refestelam a cada detalhe,
enquanto que sua narração ilumina conflitos tão verdadeiros
para a humanidade que viajam de cultura a cultura.”(Mackee
1997)
29
Já Howard e Mabley, preferem citar Frank Daniel que
segundo eles define de forma muito clara e sucinta o que seria
a situação dramática básica: “alguém quer muito algo, mas está
tendo dificuldade em consegui-lo”. Alie-se a isto a definição
deles de uma história bem contada, onde o elemento principal é
como o público experimenta a história. Isto está intermediado
pelo craft do roteirista, no sentido de domínio da artesania
na construção dramática, domínio da técnica a ser empregada. O
ponto favorável de uma definição com base no craft é que ela
foge de armadilhas que procuram definir a obra como arte ou
não-arte e com isso implicam em juízo de valor da mesma. Para
os dois, as técnicas empregadas para manter a atenção do
público são surpreendentemente parecidas, seja numa comédia de
Plautus ou Neil Simon, uma tragédia grega ou O Poderoso
Chefão, uma peça de Shakespeare ou um filme como Um Estranho
no Ninho (Howard and Mabley 1993 pg 22 e pg 4).
Tomei como base para uma análise fílmica detalhada dos
dois filmes o que David Bordwell e Kristin Thompson denominam
de estrutura clássica e me coloquei a seguinte pergunta: Quais
são os paralelos entre a estrutura dramática que os autores
identificam nos filmes do cinema Hollywoodiano e estes dois
filmes brasileiros?
30
1.5 OS FILMES E A NARRATIVA CLÁSSICA:
Ao analisar os filmes busco desvendar os artifícios, as
estruturas e recursos dramáticos e narrativos utilizados para
identificar também os grandes blocos constitutivos na
organização da trama dos mesmos. A referência para este
trabalho é a pesquisa empreendida por David Bordwell e Kristin
Thompson ao analisar a produção de Hollywood e o cinema dito
clássico desde seus primórdios até anos recentes. Como o
trabalho dos dois teve como base o cinema clássico, não assumo
de antemão que o modelo poderá servir para a análise dos
filmes brasileiros, produzidos dentro de uma realidade muito
distinta daquela em que foram gestadas as obras analisadas por
Bordwell e Thompson - na sua quase totalidade obras produzidas
em inglês, sejam estes filmes, norte americanos, ingleses,
canadenses ou australianos.
Para Bordwell o sistema clássico é um sistema fluído, com
dinâmica própria de estabilidade e mudança.
“O cinema clássico, constitui não apenas uma
escola estilística, no mesmo patamar que a escola
soviética de montagem ou o cinema neo-realista
italiano. A tradição clássica se tornou o
paradigma para a expressão cinematográfica
internacional, um ponto de partida para quase todo
cineasta. As premissas da narrativa clássica
31
desempenham papel similar aos princípios da
perspectiva nas artes visuais. Muitas escolas de
pintura diferentes, desde o classicismo da
renascença ao surrealismo e o figurativismo
moderno, trabalham com o pressuposto da projeção
em perspectiva. Da mesma forma, a maioria das
tradições do cinema comercial adotam ou relançam,
premissas de narrativa e estilo clássicas.”
(Bordwell 2006 pg 12)
A definição do cinema clássico americano veio como reflexo
de uma extensa pesquisa com os filmes produzidos pelos
estúdios americanos durante inúmeras décadas. No livro The
Classical Hollywood Cinema(Bordwell, Thompson et al. 1985),
Bordwell, Thompson e Staiger, se debruçam sobre a produção
americana desde 1917 até a década de sessenta. Bordwell
explica que a idéia do livro era analisar os princípios
narrativos que governam os filmes da era dos estúdios e que a
escolha do ponto final foi puramente uma questão de
conveniência, uma vez que ele e seus colegas acreditavam que o
sistema clássico continuava a florescer para além da década de
sessenta(Bordwell 2006 pg 4).
Para definir o instrumental a ser utilizado, listarei os
parâmetros lançados pelos autores acima na busca de entender
melhor a colocação de Thompson com relação ao que se denomina
comumente de estrutura em três atos e o que na avaliação dela
é falho neste modelo, com sua conseqüente elaboração de um
32
modelo em quatro partes, mormente setup [preparação],
complicating action [complicação], development
[desenvolvimento] e clímax, sendo que um epílogo curto
geralmente segue o clímax.
Para recuperar uma parte da discussão que se desvia do
eixo de análise de estruturas dramáticas, lanço mão da
discussão levantada por Roy Armes(Armes 1994) que busca
relativizar o papel da análise de viés mais literário que
dramático para mostrar que é possível uma conjunção da
argumentação de Thompson com relação ao motor das
transformações e pontos de virada num roteiro cinematográfico
e uma revalorização do drama quando da apreciação e análise de
filmes.
Ao utilizar o instrumental constituído pela análise de
Bordwell e Thompson, alio-o e busco incorporar ao conceito de
redundância, caro aos dois na definição de motivação e solidez
na trama, e base para o entendimento de estrutura dramática do
cinema dito clássico, uma expansão do mesmo, procurando
demonstrar que a redundância se desdobra em vários elementos
estruturantes da trama e que a análise pode ganhar maior
clareza ao recuperarmos alguns conceitos já comumente
incorporados a vários manuais de roteiro e que são
desdobramentos deste conceito de redundância.
Com Thompson e Bordwell compartilho a noção de que a
análise deve ser fundamentalmente guiada pelo empirismo. Mas,
dada a abrangência do trabalho dos dois - a análise de filmes
33
americanos desde os primórdios do cinema até a presente data -
vemos que a proposta de abordagem empírica que apregoam, se
vale de uma extensa lista de filmes exemplo a partir dos quais
se infere a estrutura padrão. Entendo que o mesmo não se
aplica ao presente trabalho, uma vez que, como mencionado
acima, optei por analisar dois filmes. Ao invés de buscar a
estrutura subjacente aos filmes brasileiros em todas as épocas
de desenvolvimento do cinema nacional, procuro identificar
semelhanças, similaridades e pontos em comum na forma de
estruturação das tramas nestes dois filmes da recente
cinematografia brasileira.
O que me leva a buscar este modelo é o fato de não se
poder definir de forma tão clara no Brasil um sistema de
produção, com códigos e procedimentos largamente reconhecidos
e de forma tão perene como o norte americano. Se para Paulo
Emílio(Gomes 1980), isto significou uma impossibilidade em
função de não sermos “europeus nem americanos do norte, mas
destituídos de cultura original, [de onde se tira que] nada
nos é estrangeiro, pois tudo o é.” E de onde ele conclui
que... “A penosa construção de nós mesmos se desenvolve na
dialética rarefeita entre o não ser e o ser outro. O filme
brasileiro participa do mecanismo e o altera através de nossa
incompetência criativa em copiar.” Mas é para mim
especificamente este copiar, ou melhor, este se apropriar que
está em questão. Os filmes analisados demonstram domínio no
uso do instrumental constitutivo de um roteiro
34
cinematográfico, dialogam com a tradição clássica e atingem
seu público em termos de mercado e comunicação. São
incontestavelmente filmes brasileiros, utilizam recursos
dramáticos e narrativos inscritos numa tradição clássica e
servem de modelo para entendermos como a estrutura
dramático/narrativa que alcançam advém do entendimento da
engenharia da construção da narrativa e como podem ser vistos
dentro de um sistema fluído que hoje em dia incorpora cada vez
mais influências advindas de outros países, continentes e
culturas.
O sistema clássico americano e sua dramaturgia e narrativa
sempre incorporaram talentos e competências de técnicos e
artistas estrangeiros, mas agora, mais que nunca, este sistema
que cobre e atinge o globo, se vê frente a uma gama enorme de
histórias, dramas e narrativas que se imiscuem e
interpenetram, se apropriando e se fazendo valer de um sistema
já clássico, evidenciando o que Bordwell indica - um sistema
que é referência para qualquer cineasta aspirante.
Através do estudo detalhado de dois filmes brasileiros
recentes, pretendo buscar elementos que possam indicar que o
sistema clássico vive bem também no Brasil, isto é, os
preceitos, ditames e regras são empregados de forma eficiente,
clara e com resultados comerciais e artísticos reconhecidos
tanto fora quanto dentro do país. Se isto implica
subdesenvolvimento, que seja. Se vai ser lido como maturidade
artística, muito bem. Não pretendo avaliar a sociedade
35
brasileira que gestou tais obras, apenas analisar através de
estudo dirigido, se estas obras podem ser consideradas como
operando os preceitos do sistema clássico e se o fazem de
forma eficiente, clara, inteligível e criativa. Para tanto
precisamos nos debruçar sobre as obras e buscar nas mesmas, os
elementos que identificamos como pertencendo ao cinema
clássico, e aqueles que evidenciam distanciamento deste
sistema.
2 O MODELO DE THOMPSON
No livro Storytelling in the New Hollywood (Thompson
1999), a autora lança as bases para um modelo novo de análise
de estrutura dramática para filmes de longa-metragem do cinema
clássico e do cinema Americano contemporâneo. Em livro
posterior a autora analise a televisão(Thompson 2003)
6
.
6
No livro Storytelling in Film and Television a autora analisa as
estratégias narrativas comuns aos dois meios, que incluem a
existência de duas ou mais tramas que se interpenetram, o uso de
indicadores temporais claros e evidentes tais como apontamentos e
prazos, técnicas de estabelecimento no início de cenas e o recurso
a causas pendentes (dangling causes) que servem para tecer e
alinhavar cenas separadas na temporalidade. Ela entende que os
dois são meios diferentes ainda que com inúmeras sobreposições,
mas justifica que neste livro não está preocupada com aspectos
técnicos e estilísticos, mas sim com entender as formas pelas
36
Thompson determina como objetivo demonstrar que os filmes
da Nova Hollywood continuam a se conformar às diretrizes do
cinema clássico da era dos estúdios e indica que vai fazer uso
de uma abordagem indutiva, examinando o que os artistas e
artesãos da indústria efetivamente fazem ao criar uma extensa
gama de narrativas.
In attempting to refute the claim that a post-
classical approach is dominant in modern Hollywood
storytelling, I present the ten extended analyses
in this book as evidence that the classical system
is alive and well.(Thompson 1999 pg 9)
Ela refuta argumentos de que o cinema americano passou a
ser tomado por estruturas fragmentárias, narrativas episódicas
e que os novos filmes de ação, em função da valorização do
espetáculo, descartariam a necessidade de lógica, coerência
interna e as regras de causalidade que governam o cinema
clássico. Para ela o modelo clássico persiste até hoje. Ela
analisa os próprios manuais de roteiro, e procura contrapor o
que ditam estes vários manuais àquilo que descobre ao analisar
os próprios filmes.
quais os dois meios têm sido utilizados para contar histórias. Pg.
Xi - Thompson, K. (2003). Storytelling in film and television
.
Cambridge, Mass., Harvard University Press.
37
Ao estudar os padrões da trama, ao invés de assumir uma
divisão em três partes, procura no próprio objeto os padrões
de divisão. Segundo ela, o estudo de uma grande amostra de
filmes revela a incidência de divisões em quatro partes. Mas,
de onde vem esta mudança? O ponto fundamental que, segundo
ela, possibilita esta diferenciação é a troca da noção de
mudança na ação da história - forma como Syd Field qualifica o
ponto de virada(Field 1984) - para mudança na motivação do
personagem. O primeiro é muitas vezes chamado de uma mudança
de marchas na ação. Field mantém ainda hoje o mesmo
posicionamento que colocou em seu livro inicial, a mudança que
introduziu foi a indicação de um plot point situado bem no
meio da trama. No livro em que analisa o roteiro de quatro
filmes, ele sintetiza sua teoria, incluindo o ponto de meio do
segundo ato.
Act I is a unit of dramatic action and is
about twenty or thirty pages long and help
together within the dramatic context known as the
Set-Up. Act I sets up the story, establishing Who
and what the story is about and defines the
relationships among the characters and their
needs.
Act II is a unit of dramatic action that is
approximately fifty or sixty pages long and is
held together within the dramatic context known as
confrontation.
38
Act II is a unit of dramatic action that is
about twenty or thirty pages long and is held
together within the dramatic context known as
Resolution.
A plot point is any incident, episode, or
event that “hooks” into the action and spins it
into another direction, from Act I to Act II, Act
II to Act II.
The Mid-Point connects the first half of
Act II with the Second Half of Act II; it is a
link in the chain of dramatic action.(Field 2006)
Mas, para Thompson a forma de entender melhor a mudança é
relacioná-la a uma mudança nos objetivos do protagonista. É em
função desta mudança que a história toma outro rumo
7
.
Como Thompson identifica que a meta do protagonista é um
elemento central na estruturação da trama no cinema clássico,
infere-se daí que a forma mais precisa de se dar conta da
dinâmica estrutural dos filmes clássicos é identificar suas
grandes partes com mudanças nos objetivos ou motivação dos
protagonistas. É com esta meta que ela se debruça sobre os 10
filmes que analisa em seu livro. Justifica também que ao invés
7
Aqui vale lembrar que para a autora, a motivação do protagonista ou
dos protagonistas é no sistema clássico elemento fundamental, algo
que na qualificação dos autores é mais branda quando se trata do
cinema que os autores identificam como de arte.
39
de se assumir a priori que todos os filmes devem ser passíveis
de uma divisão em três partes, deveríamos estudar os padrões
da trama encontrados em um grande número de filmes, desde
filmes da era dos estúdios, até filmes atuais. O que ela
encontra e justifica ao longo do livro é que a grande maioria,
ou a quase totalidade dos filmes analisados podem ser
divididos em quatro partes, e que as transições entre partes
são quase sempre identificadas com pontos de virada e que
invariavelmente estes pontos de virada se relacionam a
alterações na motivação dos protagonistas.
O modelo em forma de tabela fica assim:
Tabela 1 - Modelo de Thompson
Objetodeestudo
Identificaçãodaspartesestruturaisdatrama
Divisãoestrutural Traduçãodotermo
Cinemaclássico Mudançasnamotivaçãodoprotagonista
Setup Preparação
ComplicatingAction Complicação
Development Desenvolvimento
Climax+(epilog) Clímax+(epílogo)
Uma questão que poderia ser levantada é se no que os
autores identificam como cinema de arte, a mesma divisão seria
válida uma vez que a motivação dos protagonistas não é segundo
Thompson e Bordwell neste tipo de cinematografia, um dos elos
principais e motrizes da trama. Vale lembrar que Field chega a
40
afirmar que até mesmo um filme como O Ano Passado em Mariembad
8
pode ser analisado usando seu conceito de três partes e pontos
de virada principais da ação, pleiteando desta forma
praticamente a universalidade de seu modelo.
Bordwell no seu Narration in the Fiction Film
sintetiza da seguinte forma o alcance da definição de narração
do cinema de arte:
“...there exists a body of films which appeal
to norms of syuzhet and style which I shall call
art-cinema narration... We could say that the
shyuzhet here is not as redundant as in the
classical film; that there are permanent and
suppressed gaps; that exposition is delayed and
distributed to a greater degree; that the
narration tends to be less generically
motivated(Bordwell 1985).”
Com relação à causalidade e características dos
personagens típicos, Bordwell justifica que:
“certainly the art film relies upon
psychological causation no less than does the
classical narrative. But the prototypical
characters of the art cinema tend to lack clear-
cut traits, motives, and goals. Protagonists may
act inconsistently (e.g. Lidia in la Notte) or
they may question themselves about their
8
Field, Syd – Manual do Roteiro, editora objetiva, 1982, pg 8.
41
purposes. This is evidently an effect of the
narration, which can play down characters’ causal
projects, keep silent about their motives,
emphasize “insignificant” actions and intervals,
and never reveal effects of actions(Bordwell
1985).”
A questão do cinema que Bordwell classifica como de arte e
a motivação dos protaqonistas, neste tipo de cinema, deve ser
discutida em relação ao modelo proposto.
.
2.1 A DIVISÃO EM PARTES:
Outro ponto importante com este modelo é que, no universo
dos filmes analisados, o tamanho das partes mostrou-se
praticamente constante. Isto é, cada uma das partes variando
entre 25 e 35 minutos. Mas, além disso, muitas vezes em função
do tempo total de duração do filme, este pode conter as
quatro, ou apenas três partes e, da mesma forma, um filme mais
longo pode ter uma parte repetida.
“In long films, the complicating action or more
frequently the development section is simply
doubled, with na additional turning point setting
off the extra part”.(Thompson 1999 pg 37).
42
Tendo a concordar com a argumentação, uma vez que não faz
muito sentido pensar em partes estanques para filmes com
durações muito diversas. Por exemplo, um filme de 70 minutos e
outro de 220 minutos. Se seguíssemos o modelo de Field(Field
1994), no filme de 70 minutos o primeiro ato deveria estar
completo aos 17 minutos, o segundo ato deveria durar 35
minutos e seu ato final 17 minutos. Com um filme de mais longa
duração, o setup deveria ser alongado, e os atos estendidos. O
modelo proposto por Thompson me parece mais adequado quando
indica que as necessidades de atenção pelo espectador são as
determinantes.
Thompson se pergunta a razão destas partes terem tamanhos
balanceados, equivalentes. Entre os argumentos elencados estão
prover uma estrutura flexível e maleável o suficiente para
incorporar a dinâmica de subida e queda na ação. Ela suspeita
ainda que momentos de parada na trama podem ser incluídos para
prover elementos essenciais da narrativa clássica como
exposição, motivação, romance, redundância, mas também humor,
motivos, tramas secundárias entre outros elementos. Elementos
que precisam ser entrelaçados com uma ação forte. Estas partes
uniformes também ajudariam a construir mudanças graduais e
claras nos personagens. Mas, um dos argumentos mais fortes no
meu entender é que o tempo de 20 a 30 minutos pode atender ao
raio de atenção do espectador. Thompson indica que isto não
precisa ter sido um movimento consciente por parte dos
estúdios, mas que desde a década de 1920, todos os estúdios
43
começaram a fazer testes de audiência com anotações das
reações do público minuto a minuto e isto pode ter indicado
instintivamente aos executivos, roteiristas e diretores de
quanto em quanto tempo era necessário mudar o curso da ação
para manter a atenção do público(Thompson 1999 pg 43).
Aristóteles mesmo, ao mencionar as partes componentes do
drama, indicava que sua existência é função da atenção do
espectador(Aristotle 1961). Ao analisar as obras consagradas
de sua época, indicava claramente o que entendia serem os
elementos constituintes necessários para que a obra alcançasse
seu público, angariando a atenção deste. Francis Fergusson
comenta sobre isto:
“Aristotle never forgets that a play must, by
definition, hold and please an audience in the
theater, and his whole discussion of plot-making
is interspersed with practical suggestions for the
playwright… it is a useful formula for the
practical playwright, because it has to do, not
with the dramatist´s vision, but with the means of
making any action clear and effective in the
theater(Fergusson 1997 pg 21).
No meu entender, uma divisão em partes que contemple a
atenção do espectador, meta fim desta produção, é mais efetiva
do que um modelo rígido, estanque, apesar de supostamente
universal. Isto quer dizer que filmes maiores devem ter um
numero maior de partes, devem ter viradas, mudanças na
44
motivação dos protagonistas também em número maior para assim
manter a atenção, interesse e envolvimento dos espectadores.
Thompson define como princípio básico de qualquer filme
Hollywoodiano o fato de que a narrativa deve consistir de uma
cadeia de causas e efeitos que seja de fácil acompanhamento
pelo espectador. Mas, com isto ela não quer dizer que os
filmes sejam simples por pretenderem ser de compreensão
relativamente fácil. Pelo contrário, os filmes Hollywoodianos
de qualquer era, segundo ela, são tão ou mais complexos que
seus pares produzidos no que ela denomina de cinema de arte.
Segundo Thompson, a força do cinema de Hollywood, o cinema
clássico, está na sua habilidade de permitir a seus melhores
roteiristas, diretores e outros criadores tecer uma teia
complexa de personagens, eventos, tempo e espaço que podem se
apresentar de forma transparente e óbvia. (Thompson 1999 pg
11).
Esta conclusão com relação à complexidade, profundidade e
até mesmo ambigüidade possível de ser atingida pelo cinema
clássico é também compartilhada por Roy Armes, (Armes
1994)apesar deste se empenhar em criticar o ponto de partida
de Bordwell e muitas das teorias e análises do cinema feitas
com base em teorias transpostas de teoria literária mais do
que da dramática.
A aversão a ver o cinema como drama é antiga. Basta
lembrarmos Bazin em seu “Em defesa de um cinema misto”(Bazin
1967 pg 54), onde ele coloca o teatro como falso amigo,
45
afirmando que sempre foi tentador filmar teatro, mas já se
sabe o que queremos dizer quando falamos teatro filmado.
Apesar de indicar apreciar algumas adaptações, Bazin sempre
deixa claro que são adaptações, sem poder vê-las como
estruturas que podem se aliar, pois ambas têm em comum serem
formas de espetáculo.
O primeiro argumento de Armes vai no sentido de
reconhecermos que o teatro e o cinema têm ambos uma dupla
identidade, como texto dramático e como texto de performance e
que o fato do cinema e do teatro ambos terem em comum com
formas escritas de narrativa a distinção entre Plot (trama) e
Story (história) não significa que peças e filmes sejam
narrados. O cinema é para ele uma forma de encenação de uma
narração.
Armes afirma que todo drama em que uma história é
encenada, e não contada, tem uma identidade dupla em termos de
trama (a organização exterior dos eventos) e ação (o sentido
interno de coerência de tempo, espaço e sentido). O mais
importante é que o drama oferece sua ação sem uma explicação
autoral ou comentário, e por isso a ação é sempre rica (até
mesmo ambígua) em sentido e implicação.
Umberto Eco captura este sentido ao falar de Édipo rei de
Sófocles. Édipo investiga as causas da praga e ao descobrir
que matou o pai e casou com a mãe ele se cega: esta é a trama.
Mas as ações trágicas residem em um nível mais profundo, onde
a complexa relação entre o feito e a culpa se desenrolam de
46
acordo com leis imutáveis, arraigadas em angústia existencial.
A trama é absolutamente unívoca, mas a ação é carregada de
ambigüidade, e aberta a mil possibilidades de
interpretação.(Eco 1976 pg 191)
Armes argumenta que isto vale também para o cinema
clássico – que procura a construção de uma trama amarrada: a
ação é potencialmente mais rica e plena de ambigüidade não
importando quão bem trabalhada ou esteticamente gratificante a
trama possa ser(Armes 1994 pg 17). Eco continua sua apreciação
sobre o cinema clássico:
“A estrutura do enredo (trama) entendida
aristotelicamente permanece típica de muitos
produtos de amplo consumo, que apresentam uma
função própria importante e podem alcançar cumes
muito altos (pois o valor estético não se
identifica a todo custo com a novidade de técnicas
– ainda que o uso de técnicas novas possa ser um
sintoma daquela originalidade técnica e
imaginativa que é condição importante para
alcançar valor estético)(Eco 1976 pg 192)”.
A meu ver, duas linhas opostas se completam, a de Bordwell
que vem de um viés com base em teorias cognitivas aliadas a
modelos dos formalistas russos – cuja expressão máxima é seu
modelo de Schematas que buscam mostrar como o espectador
constrói sentido através da experiência - um modelo que serve
para entender a ação do espectador; e Armes que busca
47
reafirmar a primazia do drama para entender o cinema. Armes
não procura entender as divisões, as partes constituintes da
trama, mas Thompson sim. E estudar a ordenação da trama e suas
partes é estudar drama.
Aristóteles afirmava que a arte do poeta é esta, a
ordenação da trama, a escolha dos eventos, pois todas as
histórias são já conhecidas de onde se infere também que para
ele não há distinção entre técnica e arte. Se Édipo Rei é a
expressão máxima deste modelo, ele o é porque Sófocles
escolheu os eventos da forma mais dinâmica, indicou claramente
a meta para seu protagonista e o fez seguir diretamente para
seu fim, mas claro, sofrendo os altos e baixos que vem com uma
grande reviravolta.
Bordwell utiliza os termos fábula e syuzhet, termos dos
formalistas russos, e não os traduz como história e trama ou
Story e Plot. Em sua teoria a recuperação da história – e para
o qual elabora vários conceitos que ajudam a entender o
processo de geração de sentido empenhado pelo espectador, mas
tem também a função de nos ajudar a entender como operam os
vários elementos de linguagem no cinema – é ação fundamental.
Ele a define como:
... the fabula embodies the action as a
chronological, cause and effect chain of events
occurring within a given duration and a spatial
filed(Bordwell 1985 pg 49).
48
Os espectadores participam do pacto na expectativa de
conseguir juntar todas as partes em um padrão único de tempo,
espaço e causalidade. A trama (syuzhet) é a estruturação de
uma estória (fábula) conforme ela se desenrola na tela. Não é
o texto na totalidade. É uma construção mais abstrata, a
padronização da história como o recontar do filme
acontecimento por acontecimento a colocaria. (Bordwell 1985 pg
50).
Para Armes é a trama que nos interessa quando analisamos o
cinema enquanto drama.
The plot – the ultimate outcome of the efforts
of the writer, director, actors and crew to enact
the story in the most effective way possible – is
what immediately confronts us when we begin to
analyze a film as drama. It is what principally
concerns us when we investigate dramatic structure
in cinema, since it is in the shaping of the plot
that the artistry of the enacted storytelling is
most apparent. It is the plot – the unique, once-
and-for-all enactment of the events – that
constitutes one of the immediate sources of
aesthetic pleasure in a film(Armes 1994 pg 16).
Thompson consegue com sua análise, lançar luz sobre os
métodos utilizados na construção do texto dramático
cinematográfico, e com um enorme pendor para a elaboração de
categorias gerais, sistematizar em um nível elevado de
49
abstração, os elementos básicos constituintes de um modelo
para apreciar o cinema clássico.
É o próprio Bordwell quem explica e sintetiza o pensamento
de Thompson em um texto em que discorre sobre a anatomia do
filme de ação:
For a long time Kristin Thompson and I have
been interested in how films tell stories. We’re
fascinated by the principles that govern different
storytelling traditions. For the sake of
simplicity, we’ve called the principles norms. The
term implies a standard of craft competence, along
with a dimension of collective decision-making.
Norms are preferred alternatives within a
tradition. A norm isn’t a single and inflexible
law; it’s best seen as a roughly bounded set of
options. Within any cluster of norms, there are
always different ways to do anything(Bordwell
2007).
Bordwell sintetiza estas normas em 5 principais(Bordwell
2007):
1. Orientação por uma meta (goal orientation). Aqui estamos
falando tanto do protagonista quanto do antagonista. Ambos
têm metas e ao buscar atingi-las, fazem com que estes mesmos
objetivos sejam alterados. Aqui Bordwell une esta mudança
50
com a identificação do que normalmente se denomina de arco
do personagem.
9
2. A trama de linha dupla. Bordwell associa esta geralmente a
uma segunda linha que envolve o amor heterossexual e indica
que as metas geralmente governam estas duas linhas.
3. Estrutura de partes discretas. A ação gira em torno de metas
e é preciso defini-las, alterá-las e conseguir alcançá-las
ou não. Ele afirma também que os filmes de Hollywood mapeiam
esta trilha em partes que são consistentemente iguais em
tamanho e que giram em torno de 25 a 35 minutos - fazendo
uma ressalva com relação ao clímax que geralmente é mais
curto.
10
4. Plantio de causas para efeitos futuros. Ele define isto como
uma ação não resolvida em uma seção que é retomada em outra
posterior e pode até ser empurrada para frente numa seção
seguinte. Isto quer dizer que todas as cenas tendem a conter
assuntos não resolvidos que devem ser tratados mais para
frente.
5. Apontamentos - Esta é a bomba relógio, prestes a explodir,
ou então uma data, uma finalidade temporal que ajuda a
9
O arco do personagem é referência também à idéia/método de Stanislavski
que propõe que os personagens resolvem problemas tanto internos quanto
externos no curso da peça - esta linha transformacional que faz o
through-line da peça desenha o arco do personagem. As transformações
pelas quais este passa ao longo do curso da peça, fazem o sentido na
construção do personagem e também conferem estrutura para a construção
dos mesmos. Todo o trabalho está ligado à motivação do personagem, que
deve ser coerente e responder ao desenvolvimento da trama.
10
Neste ponto, Bordwell identifica que cineastas (roteiristas também,
imagino) trabalhando com o paradigma de três partes, simplesmente dividem
a parte do meio em duas seções. Neste caso, as partes são quatro e de
tamanho similar. O que é também uma forma de incorporar o midpoint de
Field.
51
emoldurar a ação e indicar ao espectador qual é o fim. Tem
função de apontar uma finalidade e também de aumentar o
suspense, vem sempre aliado a uma pergunta, o tempo será
suficiente para atingir a meta estabelecida?
Bordwell sintetiza as partes lançadas por Thompson da seguinte
forma(Bordwell 2006 pg. 41):
The setup acts as exposition, laying out what we
need in order to follow the story and to invest
some feeling in the character´s problems. The
Complicating action sharpens interest by changing
the terms of the Setup in ways that raise the
emotional stakes and refine the assumptions about
goals and character psychology we´re building up.
The Development, if handled adroitly, focuses our
attention on the steps the characters must take to
resolve their problems or broadens the film´s
range to include parallel story lines that shade
the main one. The Climax seeks to present the
resolution in a satisfying but not wholly
predictable fashion, while the epilogue asks us to
recall the path the protagonists have taken and
measure their success or failure.
Nesta qualificação, que entendo ser bastante genérica,
fica somente uma observação, especificamente com relação ao
desenvolvimento, uma vez que é nesta parte que Bordwell lança
as tramas secundárias ou paralelas. Isto precisa ser aclarado,
52
uma vez que tramas secundárias precisam ter também seu setup,
estes devem acontecer em vários filmes muito antes desta
parte. No exemplo clássico de todos os manuais de cinema
americano, filme também citado por Thompson, A testemunha, a
trama secundária, o envolvimento amoroso de Book com Rachel,
está plantado desde o início através de contrastes. Ela tem o
que ele não tem, ela é compreensiva, não violenta, vive suas
emoções; ele é solteiro, não encontrou uma mulher que o
entenda - são pares de contraposições que lançam desde o
início a possibilidade de ligação. São elementos de
caracterização que indicam que um pode completar o outro pela
falta. A história de amor se firma no que seria o
desenvolvimento, mas os elementos fundamentais de
caracterização são necessariamente introduzidos tanto no setup
quanto na complicação.
2.2 O PERCURSO DE THOMPSON
Ao se propor a analisar o que os artistas e artesãos fazem
ao criar uma gama extensa de narrativas, Thompson recupera
conceitos sobre construção dramática conforme elaborados e
comunicados em manuais de roteiro ao longo da história do
cinema de Hollywood. Desta forma identifica o uso corrente de
termos e as recomendações para a construção de uma norma e
53
estrutura. Um fato importante que correlaciona com a evolução
do modelo de produção dos norte-americanos é a ligação entre
roteiristas, sistema de trabalho e manuais de roteiro.
Thompson argumenta que em se tratando do craft (artesania)
relativo à construção dramático/narrativa, a pesquisa sobre a
técnica corrente, normas e procedimentos comumente empregados
pode recorrer aos manuais de roteiro existentes nas várias
épocas como fonte para entender a persistência dos conceitos
ao longo do tempo. Estes manuais, segundo ela, datam de 1910,
quando os estúdios ainda dependiam de roteiristas freelancer
para encaminhar material como estórias e roteiros. Com a
consolidação do sistema de estúdio a partir da década de 1920
e a conseqüente contratação de roteiristas fixos, os manuais
de roteiro deixaram de proliferar, tendência que se manteve
por décadas. A partir da década de 1970, com o avanço do que
se denomina de package production, ocorreu o ressurgimento em
Hollywood da figura do roteirista freelancer [Thompson 1999.
Pg11].
Houve um grande crescimento na circulação dos chamados
spec scripts, roteiros que não tem seu desenvolvimento
contratado dentro de uma estrutura de produção. São obras
escritas sem encomenda prévia, cujos custos de desenvolvimento
até a versão encaminhada são sempre cobertos ou arcados pelos
próprios autores. O encaminhamento destes roteiros para
produtores, produtoras e estúdios, é bastante normatizado no
sistema americano e, na maioria das vezes, empresas produtoras
54
e produtores, ligados ou não aos estúdios, exigem que o
material seja submetido por um agente de talento ou agência de
talento. Spec scripts são lidos somente quando submetidos por
um agente ou agência. Importante é notar também que neste
sistema de packaging esta é uma via que gera outro processo.
Uma vez que os roteiros não são escritos por encomenda dos
estúdios por roteiristas contratados, os roteiros submetidos
passam por uma filtragem de avaliação, onde leitores fazem uma
primeira apreciação do material recebido para depois elaborar
relatórios em que indicam se os roteiros submetidos para
apreciação devem ou não seguir adiante na cadeia de avaliação.
Isto é evidenciado também pela profusão de manuais de roteiro
que além de discutir estrutura dramática pretendem “ensinar”
ao aspirante a roteirista como proceder e o que escrever para
conseguir um agente. São inúmeras as agencias, desde pequenas,
com um único agente que pode representar alguns poucos
roteiristas, até as grandes packaging agencies, como a ICM,
CAA, William Morris, com centenas de agentes que representam
toda sorte de talento envolvido na produção de um filme - são
roteiristas, diretores, atores, production designers,
diretores de fotografia. E, por representar todo tipo de
talento, podem começar a montar pacotes: juntar um diretor com
um roteirista ou um roteiro já escrito e anexar o elenco
necessário para tornar o projeto vendável, isto é, atrativo
para um estúdio ou uma estrutura de financiamento.
55
Os dados acima indicam que esta cultura dos guias de
confecção de roteiros, influencia não somente aqueles que
pretendem escrever, mas também os que se colocam dentro da
estrutura que avalia o material submetido. Os leitores e
executivos de desenvolvimento são também público alvo destes
manuais e os critérios e indicações listadas passam a servir
de modelo para avaliação dos projetos. No livro Secrets of
Screenplay Structure, por exemplo, Linda Cowgill, indica a
função e o público alvo de seu livro:
It is a book designed not only to help
screenwriters understand how and why great films
work, but directors, producers and development
executives too.[Cowgill, 1999, xi]
Eleanor Breese, escreve um relato de seu trabalho onde
descreve as funções de um executive story editor e de um story
analyst, bem como indica as mudanças que ocorreram com relação
a esta função ser diluída ou misturada com o trabalho de
executivo de desenvolvimento e o produtor.
The title Story Editor is gradually
becoming a misnomer in large production companies
because the person holding the title doesn’t
really edit or develop stories, screenplays or
other literary material; that is the function of
the production executive and the producer working
on a specific project. But the story editor does
perform an essential service involving all
56
literary material circulating within the company
by acting as a sort of creative traffic director
of all submissions and coverage, consulting with
producers, writers, directors and production
executives and overseeing a staff of readers. The
story editor serves all of these creative
executives by handling, in the language of the
business, “submission material.”, after all,
literary material is the coin of the realm.
(Breese 1992 pg 107)
Os leitores, na sua maioria aspirantes a roteiristas,
indivíduos procurando se inserir no mercado das agencias de
talento, alunos em cursos de cinema ou egressos de cursos
formais de audiovisual, são também os propagadores dos ditames
estabelecidos nos manuais que passam a circular e impregnar
cada vez mais a cultura da escrita cinematográfica. Estes
manuais são também amplamente lidos pelos chamados executivos
de desenvolvimento.
O mercado Americano é tão prolífico neste sentido que há
uma extensa gama de manuais agora dirigidos a leitores de
roteiro. Vejamos alguns dos títulos mais óbvios: Reading for a
living: how to be a Professional story analyst for film &
television(Kathan 1990). O autor explica para quem escreveu o
livro: para executivos de desenvolvimento, story editors e
artistas que já trabalham no ramo e querem um guia conciso
sobre como escrever bons roteiros. Asher Garfinkel, em seu
57
Screenplay Story Analysis (Garfinkel 2007) alia bom humor ao
manual que também pretende atender o mesmo público. Asher
traça um paralelo entre a vida do leitor profissional e a de
um assassino. Segundo ele você passa o dia esperando uma
ligação para o próximo trabalho. Quando telefone toca o
trabalho quase sempre tem que ser executado em 24 ou 48 horas
e em 95% dos casos significa matar a criança de alguém, em
alusão à obra criada por um ou mais roteiristas e submetida
para avaliação. Interessante em todos os livros é verificar
como a vida de um leitor é quase um voto de pobreza. Garfinkel
lista a remuneração:
If asked to write standard full coverage –
including a top sheet, one to two pages of
synopsis, and one to two pages of commentary
within forty eight hours for a script under 135
pages – it would be reasonable to expect a bare
minimum of $40 per script(Garfinkel 2007 pg 114).
O livro é de 2007, os valores são portanto atuais. Mais à
frente ele calcula a expectativa de remuneração anual de um
leitor.
”On the low end you might receive three to
four a week at $55 per script, which would only
come to about $10.000 annually. On the other end,
I´ve seen some story analysts pore through an
average of ten scripts weekly for $75 apiece or
58
more and pull in about $35.000 per year.” (This is
before taxes).
É interessante pensar que uma indústria tão pujante
seleciona seu material com uma tropa de trabalhadores muito
mal remunerados. Mas, como mostram ou pretendem fazer
entender, a vida de um leitor é um processo de transição.
Se alguns livros ensinam o craft do leitor, outros
pretendem mostrar como driblar o sistema. Um dos títulos mais
sugestivos é: 500 ways to beat the Hollywood Script reader -
writing the screenplay the reader will recommend (Lerch 1999).
Jennifer Lerch, vende uma proposta diferente. Segundo ela, a
vida de leitor é algo transitório, e serve como uma escada,
uma escala na aquisição de um trabalho como roteirista ou
editor de estórias. Ela aliciou recomendações de vários
leitores e ex-leitores procurando dar dicas de como não
cometer erros comuns. Segundo a autora propaga, um deles acaba
de vender um roteiro por 1 milhão de dólares, (o sonho da
loteria hollywoodiana, o que eles chamam de seven figure
deal), um é atualmente um roteirista contratado para sitcoms,
outro conseguiu um emprego como executivo, e outro é hoje
produtor(Lerch 1999 pg. 15).
Para além do fato de que a cultura dos Americanos é uma de
do-it-yourself e uma infinidade de livros de auto-ajuda, isto
evidencia que há uma padronização muito grande na apreciação
de material dramático.
59
No Brasil, não existe a figura do script reader. As
produtoras mais estabelecidas estão agora procurando
implementar departamentos de desenvolvimento. Não há agencias
de talento poderosas como nos EUA. Claro, no Brasil não existe
uma indústria do cinema, os projetos aqui são escolhidos num
misto de peer evaluation e avaliação por membros indicados
pelas próprias instâncias de fomento, sendo que o tamanho do
mercado é pequeno demais para que os colegas não sejam todos
efetivamente conhecidos. Mas, ainda que o mercado seja muito
menor, a sua estruturação seja diferente, com as
particularidades das formas de financiamento dos filmes
brasileiros, ainda assim material precisa ser selecionado,
desenvolvido e oferecido para que possa ter sua produção e
distribuição financiadas.
David Putnam realça a importância do executivo de
desenvolvimento, do processo de avaliação, aferição e
adequação de roteiros e reforça a diferença entra a forma como
se faz isto nos EUA e na Europa.
“Hollywood has created a sophisticated
industry requiring people with highly specialized
skills, from script executives to market
researchers and marketing executives, to mediate
between the various creative talents and to act as
the eyes and the ears of the audience. While the
danger of such a system is that at times it can be
formulaic and can stifle risk, at its best it is
60
invaluable in gauging how effectively a writer is
communicating with the potential audience. Such a
system hasn´t developed to anything like the same
degree in Europe, partly because the director
(often doubling as the writer) can often secure
public subsidies without having to worry about
whether there is likely to be an audience for the
finished work. In such a climate, there is little
appetite or inclination to listen to script
editors. It has been estimated that in Hollywood
something like 15 percent of the money spent on
production goes toward developing scripts while in
Europe the equivalent figure is 2 or 3
percent”.(Puttnam 1998 pg 267)
O que salta aos olhos é a proporção do investimento em
desenvolvimento, na elaboração e revisão de roteiros. O dado
que Puttnam traz, de um investimento ao redor de 15% do total
da produção sendo investido na criação, adequação e
desenvolvimento de roteiros ajuda a justificar a voracidade
com que se produzem manuais nos EUA – há investimento
suficiente na aquisição de propriedades e no trabalho de
roteirização para justificar o interesse pelo produto.
Outra conclusão importante é que o investimento em
desenvolvimento é fundamental para criar uma cinematografia
perene. Se temos no Brasil evidencias claras de que nossa
técnica a nível de fotografia, som e processos de finalização
61
é comparável ao nível da cinematografia hegemônica a nível
mundial, evidente é também que o investimento atual em
desenvolvimento de roteiros, em formação de roteiristas,
analistas de roteiros, avaliadores e leitores é mínimo e
totalmente insuficiente.
2.3 MANUAIS DE ROTEIRO NO BRASIL:
No Brasil, os primeiros manuais voltados para a criação do
roteiro começaram a ser escritos no final da década de 80 por
alguns poucos autores. Alguns dos manuais internacionais mais
famosos começaram a chegar em traduções para o português.
Um dos livros mais lidos e dos primeiros a serem
publicados lidando com a problemática da roteirização foi
Roteiro, arte e técnica de escrever para cinema e televisão de
Doc Comparato, publicado em 1983. O livro seguinte em termos
de cronologia é O roteirista Profissional, televisão e cinema,
de Marcos Rei, publicado em 1989. Ambos deixam claro já no
subtítulo que vão tratar da construção de roteiros de cinema e
televisão. Isto indica já de início que o mercado para o qual
ambos estão voltados deve incluir as duas mídias. Não havia e
ainda não há, de forma estabelecida, um mercado de roteiros de
62
cinema, ou para roteiristas de cinema (ainda hoje é difícil
dizer que um mercado estruturado e especializado exista).
Comparato trata da questão da divisão em atos da seguinte
forma. Cita a divisão em três atos como norma clássica e
afirma que “todos os atos têm um princípio, um meio e um fim”
e segue para afirmar que quanto mais longo um filme, mais atos
deverá ter, mas alia a divisão à questão do intervalo
comercial. Qualifica os atos da seguinte forma(Comparato
1983):
1º ATO
Exposição do problema
Situação desestabilizadora
Uma promessa, uma expectativa
Antecipação dos problemas
CONFLITO EMERGE
2º ATO
Complicação do problema
Deteriorização da situação
Tentativa de normalização levando a ação a extremos
CRISE
3º ATO
Clímax
RESOLUÇÃO
Comparato segue para fazer uma construção gráfica das
curvas dramáticas, o que verifica é que todas são função do
63
tempo final que deve ter o produto e a quantidade de
intervalos esperados. É uma forma bastante prática de indicar
que o roteirista deve estar atento ao meio, procurar angariar
a atenção do público alvo e usar os recursos da técnica de
construção dramática para tanto. Ele faz uma ressalva ao
discutir estrutura: “Ainda não foi descoberta uma fórmula que
garanta uma perfeita estrutura. No entanto, já que a função de
um roteirista é a de emocionar a platéia e manter sua atenção
durante todo um espetáculo, vemos que é necessário que ele
invente novas maneiras de contar a mesma velha história.”
[Comparato, 1983, pg 96.] Ao discutir especificamente o
cinema, Comparato usa o tempo de duração dos rolos de filmes
para pensar em divisões, uma vez que não há intervalo entre
uma parte e outra como na televisão. “Um filme tem, em média,
de 1 hora e meia a 1 hora e quarenta e cinco minutos de
duração, perfazendo um total de 9 rolos”. Passa então a listar
vários números de rolos e divisões possíveis, “5 partes, 7
rolos, 9 rolos e sete partes”, etc. Conclui que a “escolha da
divisão varia de autor para autor...” e segue para listar
números padrão de páginas para roteiros televisivos.
Marcos Rey, não chega a tratar de questões estruturais
como a divisão em atos, centra seu guia na indicação de idéia-
story-line e o desenvolvimento do argumento(Rey 1989). Começa
com indicações práticas de como encontrar sua idéia, faz uma
distinção entre story-line para televisão e story-line para
cinema, indicando que para cinema a story-line é muito curta e
64
o argumento não tem mais do que 10 páginas, enquanto que na
televisão um argumento para telenovela, pela extensão do drama
televisivo, pode chegar a cem páginas.
O fato de que são poucos os livros de autores nacionais
dedicados ao assunto pode indicar duas coisas. A primeira é
que o mercado para tais profissionais não é muito grande. Se
fizermos um paralelo entre o que Thompson encontrou com
relação à elaboração e publicação de manuais voltados para a
construção de roteiros nos EUA – que sua existência era também
evidência de um mercado de profissionais free-lancer - os
grandes consumidores destes livros - e que na época dos
estúdios, com contratos com roteiristas fixos, os manuais
quase que deixaram de ser publicados, podemos também pensar
que a difusão destes manuais por aqui vem de uma crescente
expectativa com relação à viabilização de uma carreira nesta
área. A segunda coisa que se pode verificar é que o mercado
para tais profissionais estava à época restrito à televisão e
que esta trabalhava com núcleos de roteiristas fixos, não
buscando spec scripts, ou obras não solicitas, conforme a
definição americana. Além disso, o cinema era considerado um
meio basicamente de diretores. Ambos os manuais, o de
Comparato e o de Rey deixam isto claro. Doc Comparato,
escrevendo em 1983 sintetiza a situação da seguinte forma:
O mercado de trabalho para roteiristas, no
Brasil, é bastante contraditório: ao mesmo tempo
65
que se expande, ainda pode ser considerado
pequeno.
No cinema, e isso talvez seja por causa do
cinema de autor, o diretor é o homem dos 7
instrumentos, fazendo quase tudo, inclusive os
roteiros.
Atualmente isto está mudando. Os diretores já
sentem a necessidade de chamar roteiristas para
seus filmes.
É importante lembrar que carecemos de escolas
especializadas. Desse modo, os roteiristas são
quase autodidatas, aprendendo como podem e quando
podem.
Quanto a textos ou livros didáticos, não existe
quase nada publicado no Brasil. (Comparato 1983 pg
227)
2.4 NOVOS RUMOS PARA O ROTEIRO NACIONAL
Houve nos anos 1990 e 2000 um conjunto crescente de cursos
de roteiro promovidos por parcerias como Sundance Institute,
MINC, e também uma proliferação de escolas e cursos livres de
cinema. Lúcia Nagib (Nagib 2006)realça esta nova tendência e a
associa também a uma mudança global e ao surgimento de novos
66
cinemas como o iraniano, o taiwanês, o japonês, o mexicano, o
argentino e o brasileiro. Ela identifica neste novo boom, uma
conjunção de suporte local à produção associada a agencias de
financiamento, festivais e canais de Televisão e que, na
maioria das vezes, fundos adicionais são aportados com base no
roteiro que é analisado e aprovado por uma comissão de experts
em festivais ou ações como o Sundance, Hubert Balls Fund,
ligado ao Festival de Rotterdam na Holanda, o canal Arte na
França, Canal + na Bélgica e Fábrica na Itália. Ainda segundo
ela, o Brasil foi enormemente afetado por estes novos fatores,
que acredito poder serem vistos como uma rede de
desenvolvimento de projetos e viabilização de parcerias
internacionais. Para ela houve um ‘script boom’ no Brasil na
metade dos anos 1990 e início dos 2000.
Houve uma mudança na formação dos próprios roteiristas, na
elaboração dos projetos, nas parcerias, recebeu-se input de
produtores e roteiristas de fora do Brasil, tudo isto
contribuiu para formar uma nova determinante no
desenvolvimento de projetos. Nagib para corroborar este mesmo
pensamento, cita as vindas de Syd Field ao Brazil. O guru
máximo do modelo de três partes, dos Plot Points, e o primeiro
autor a ter tamanho alcance internacional, Field esteve
presente no Brasil inúmeras vezes. Este movimento na década de
90 coincidiu com a tradução de vários livros de roteiro e o
fato de que Field se tornou chique, moda.
67
Devemos citar outros livros ou manuais de roteiro escritos
por brasileiros. Um deles é um desenvolvimento a partir do
lançamento do filme Cidade de Deus. O livro de Leandro Saraiva
e Newton Cannito, intitulado Manual de Roteiro ou como diz o
subtítulo, Manuel, o primo pobre dos manuais (Saraiva and
Cannito 2004), além de bom humor mostra um sólido conhecimento
de dramaturgia e estrutura, discutindo tanto o cinema clássico
quanto o cinema contemporâneo e tudo com um sentido prático e
imediato de aplicação. O livro é fruto do workshop de roteiros
Cidade dos Homens, voltado para o desenvolvimento dos roteiros
para a série Cidade dos Homens, um spin-off do sucesso do
filme Cidade de Deus, em que protagonizam os personagens
Acerola e Laranjinha, personagens criados por Bráulio
Mantovani a partir do livro Cidade de Deus para o filme de
curta-metragem Palace II, feito como ensaio para a produção do
longa-metragem Cidade de Deus e integrado pela Rede Globo à
série Brava Gente Brasileira, uma série de episódios únicos,
independentes e sem continuação.
Outro livro editado nos anos 2000 é O poder do Clímax de
Luiz Carlos Maciel (Maciel 2003), que define seu trabalho como
uma proposta que parte da conveniência e até da necessidade de
domínio da técnica e, em conseqüência, do conhecimento da
teoria como condição do trabalho de roteirista profissional.
68
2.5 UM CINEMA TRANSNACIONAL
Esta cinematografia que percorre o globo é sucesso em seus
territórios nacionais e consegue alcançar públicos
transnacionais é analisada com foco em diretores Latino-
Americanos por Cléber Eduardo, que traça endo posteriores ao
lançamento dos filmes Central do Brasil e Cidade de Deus, são
evidência de uma necessidade de se refletir sobre a construção
de roteiros.
Para Nagib a característica básica destes novos roteiros,
ou destas novas cinematografias é que são tanto beneficiárias
quanto contribuintes de uma estética transnacional que tem o
objetivo de satisfazer as aspirações de uma audiência cujo
perfil é também novo. É o que ela denomina de novas classes
médias, motivadas pelos imperativos da velha esquerda mas
imbuídas com os princípios do politicamente correto e que
portanto preferem filmes instrutivos e construtivos ao invés
de filmes comerciais de ação. Isto a leva a concluir que um
produto intermediário deve ser ofertado para atender a esta
nova demanda e que este novo produto é um híbrido que deve
ficar entre o cinema de arte e o entretenimento, e que isto
demanda roteiros feitos sob medida. Para ela a fórmula para
estes roteiros pode ser resumida nos seguintes determinantes:
(1) Local colour. Globalised societies, including
the filmmakers and scriptwriters, bored with
69
the repetition of the same universe of
consumerism, long for untouched cultural
reservoirs often identified with national
identity. Thus new cinemas try to connect with
the culture of their home countries, in order
to convey a sense of belonging provided by
local specificities.
(2) Realism. The use of real locations in the home
country and often non-professional or unknown
casts supplies these films with the feel of
authenticity required to inform spectators
about original or picturesque aspects of a
given society. The result id the production of
a documentary backdrop to the film, thanks to
which audiences from the UK or Canada will get
acquainted with life in Bosnia, Mongolia,
Georgia, Iran, Mexico or the backlands and
shantytowns of Brazil.
(3) The private hero. To such realist backdrop a
fictional plot is applied, with the aim of
producing entertainment and launching the
process referred to in film studies as
‘identification’ and ‘illusionism’. At this
point, the screenplay must connect to some
basic rules of classic narrative cinema, since,
unlike auteurist or experimental cinema, the
70
fragmentary, improvised, enigmatic or
unfinished are not allowed here. Thus the
formation and singularisation of a hero with
well defined psychological features becomes
indispensable. Because realist narratives,
unlike the epic tale, focus on common people,
and not gods or super-heroes, the rule is to
concentrate the action on an ordinary
individual, subjected to extraordinary events,
which he/she eventually overcomes.
(4) The improbable but convincing event. These
events, often improbable in real life, become
convincing thanks to the well-constructed
script, whose main challenge is to make the
fictional plot naturally emerge from a
situation recognized as real. This is made
possible by the enclosure of the story within
the hero’s restricted private realm, where
his/her individual truth is exempt from the
factual requirements of the outside
world.(Nagib 2006)
Mas, o modelo proposto, de uma arquitetura do
convencimento, de uma estrutura que mascara suas
incongruências, ao enclausurar a estória dentro do espectro do
pessoal, se é correto em identificar elementos constituintes
na dinâmica de construção, deixa transparecer um certo juízo
71
de valor. Assim, quando a autora afirma que estes filmes são
um produto intermediário entre o cinema de entretenimento e o
cinema de arte, ela coloca as determinantes listadas em (3) e
(4) como se fossem demérito e estes fossem fatores que nos
impediriam de realmente valorizar tais obras. Aqui cabe
mencionar o argumento de Roy Armes, que enfatiza que o fato de
que um autor oculto tem sido uma característica da arte
dramática ocidental desde o tempo dos gregos, e que os
teóricos do cinema têm usado a ‘ausência’ como razão para
disputar a validade do que denominam o ‘texto realista
clássico’.
Armes segue para afirmar que “Hollywood movies carry
important ideological meanings in their structures as much as
in their content, but, as we shall see from the examination of
specific films, quite small structural variations... can
convey quite other meanings”.(Armes 1994 pg 09)
A questão do evento improvável, mas convincente, remete a
questões de verossimilhança e plausibilidade, que são base na
construção dramática. Fazer uso destes determinantes implica
somente que estas obras atendem a princípios de construção
lançados já em Aristóteles e reproduzidos em todos os manuais
de roteiro discutidos. São estes elementos que servem de base
para a construção do cinema clássico e o que fica claro é que
os filmes destas cinematografias nacionais que circulam o
globo, ou melhor, que atingem o público internacional, atendem
a princípios clássicos em sua formulação.
72
Com a globalização, a literatura específica foi largamente
traduzida, os manuais de roteiro tiveram ampla divulgação e
festivais e eventos de networking e treinamento serviram para
difundir uma forma de estruturar roteiros e contar histórias.
Mas, como mostra Nagib, este sistema fluído, incorpora sabores
regionais, assim como a indústria de Hollywood incorporou
influências de cineastas europeus emigrados ou não ao longo do
século passado.
3 DEFINIÇÃO DO CINEMA CLÁSSICO:
As definições básicas de um filme inserido no sistema
clássico são sistematizadas por Bordwell da seguinte forma:
Uma causa deve levar a um efeito. Mas, justifica ele, há
também o caso de causas pendentes (dangling causes). Estas são
causas que somente terão efeito mais adiante na trama.
A estrutura destes filmes deve atender a uma narrativa
unificada em que cada causa leva a um efeito e este é causa de
outro efeito, e assim por diante, numa seqüência sem quebras
até o final do filme.
Bordwell justifica que unidade e clareza demandam que tudo
deve ser motivado no filme, seja esta motivação apresentada
antecipadamente ou em retrospecto. Isto quer dizer que cada
evento, objeto, característica de personagem e outros
73
componentes narrativos devem ser justificados de forma
explícita ou implícita por outros elementos no filme. A
motivação pode ser um evento impessoal no filme que esteja
fora do controle do personagem. Mas, se um personagem se
comporta de forma contrária a suas características a narrativa
clássica deverá apresentar alguma explicação sobre o fato.
São preceitos Aristotélicos. Eco usa o conceito de
verossimilhança para discutir os mesmos pontos lançados por
Bordwell:
“Para Aristóteles, a verossimilhança
poética é determinada pela verossimilhança
retórica: quer dizer que é lógico e natural que
aconteça num enredo (trama) aquilo que, de acordo
com o raciocínio, cada um de nós seria levado a
esperar na vida normal, aquilo que, quase por
convenção, segundo os mesmos lugares-comuns do
discurso, se pensa que deve acontecer,
estabelecidas determinadas premissas(Eco 1976 pg
196).”
Kristin Thompson afirma que o protagonista movido por uma
meta é a principal fonte de movimento para adiante numa trama
clássica. Ao listar os filmes que deverá analisar para
comprovar suas hipóteses, ela justifica a exclusão do filme A
Primeira Noite de um Homem (Mike Nichols, 1967, USA). Ela usa
o comentário de Dana Cooper que analisa o filme e conclui que
o protagonista desta trama não sabe o que quer até um momento
74
bastante avançado da narrativa. Para Kristin este caso é uma
exceção e não a norma, são casos raros.
“one of the main jokes in The Graduate is
that Benjamin seems such an unlikely Hollywood
protagonist precisely because he has no goal. The
whole thrust of the story is for him to find
one(Thompson 1999 pg 15)”.
Ela se furta a trabalhar com este filme justificando que
ele não pertence ao grupo de narrativas mainstream de
Hollywood, ou o tipo principal de história trabalhada
pelo cinema hollywoodiano.
Ao analisar o que outros autores de manuais de roteiro
identificam como meta, como forma básica de estruturação da
ação do protagonista, ela discorda de David Howard e Edward
Mabley(Howard and Mabley 1993), quando estes afirmam
taxativamente que um protagonista deve ter somente uma meta,
uma meta clara para que o filme tenha unidade. A esta
afirmação contrapõe-se um primeiro argumento de que um filme
tem na maioria das vezes mais de uma trama, sendo o
protagonista ligado a uma trama principal, uma main plot, mas
também a uma trama secundária. Isto, por si só, já serviria de
indicativo de que há, sim, mais de uma meta - tramas
diferentes não podem indicar objetivos comuns, caso contrário
extingue-se o conflito e tem-se uma situação em que seria mais
apropriado unir as duas tramas, compô-las em uma só.
75
Thompson argumenta que os protagonistas na maioria das
vezes têm pelo menos duas metas, e que estas são também iguais
em termos de importância. Ela usa o exemplo do filme Back to
the Future, onde o personagem de Marty tem dois objetivos: um
é fazer com que seus pais se conheçam e comecem a namorar e
outro é conseguir resolver a volta para o seu tempo,
utilizando a energia descarregada por um raio para lançar ele
e o professor de volta para o futuro. Mas, a leitura que
Thompson faz do livro de Howard e Mabley precisa ser revista.
Sim, os autores afirmam taxativamente que “There can be only
one main objective if the film is to have unity(Howard and
Mabley 1993 pg 45)” mas o texto prossegue com os dizeres… A
story with a protagonist who has more than one ULTIMATE aim
must invariably dramatize the success or failure of one effort
before going on to the other, and this brakes the spine of the
work and dissipates our interest. Vale a ênfase que coloquei
em “ultimate” pois acho que ilustra melhor o sentido que os
autores pretendiam conferir à declaração.
Sim, um protagonista tem e pode ter mais que uma meta, a
trama secundária introduz sempre uma meta adicional, mas esta
invariavelmente se liga e reflete algo daquilo que está
implicado na meta básica. Vejamos o filme clássico utilizado
como exemplo em quase todos os manuais, citado inclusive por
Thompson e Field. Falo de A Testemunha, nele, Book (o
personagem de Harrison Ford) literalmente entra em cena aos 13
76
minutos no filme e declara o seu objetivo último: pegar os
bandidos que mataram um parceiro policial.
Outra autora, Linda J. Cowgill(Cowgill 1999 pg. 7, 9, 17,
89), professora da Loyola Marymount University, também faz uma
análise com base na motivação do protagonista. Ela de início
analisa o filme e lista em minutos eventos emblemáticos do
setup. O assassinato acorre aos 11 minutos, Book entra em cena
aos 13 minutos e Book e Samuel (o garoto Amish que testemunhou
o assassinato) se encontram aos 14 minutos. Ela se pergunta
então: Neste ponto, o problema de Book é - Será que ele vai
conseguir prender os culpados? Mas, em seguida ela contrapõe:
se o filme seguisse somente por este caminho, provavelmente
ficaríamos entediados depois de algum tempo. Começaríamos a
nos perguntar, mas porque é que ele ainda não encontrou os
culpados? Será que é só com isso que temos que nos preocupar
neste filme? Para ela, esta é a questão básica para o
entendimento do setup, pois este é apenas um dos componentes
do problema dramático. Há uma segunda parte que aprimora o
foco do conflito e aumenta o risco para o protagonista.
Ela segue para mostrar como a trama secundária se
relaciona ao objetivo do personagem, como ela aprofunda um
lado pessoal, traz metas distintas, mas também ajuda-nos a nos
relacionarmos ao objetivo principal, segundo ela o sentido do
filme muitas vezes toma forma na subplot. É nela que se
desenvolve o personagem, que passa a ser possível entender o
77
que o motiva, conhecer seus medos, sua maneira de se
relacionar, sua psicologia em um nível mais profundo.
“Alguns livros falam de uma única pergunta básica
que deve guiar o filme e o personagem, desde o
começo até o final. Eu acho que há mais do que uma
única pergunta nesta linha. Ainda mais se o que se
quer é desenvolver uma estória com uma trama
secundária. Ao invés de pensar em uma única
pergunta guiando todas as intenções do personagem,
vale nos perguntarmos o que é que motiva o
personagem. Pois este motivo, que deve estar claro
para nós ao escrevermos o roteiro e especialmente
em seu segundo ou terceiro ou no enésimo
tratamento, pode assumir formas intermediárias até
que seja revelado como um todo. Afinal, será que o
personagem sabe exatamente o que o motiva? Será
que isso é algo que faz parte de sua
jornada?(Cowgill 1999)”
Uma das distinções entre o que Thompson e Bordwell
denominam de cinema clássico e o chamado cinema de arte é
exatamente o quesito motivação do protagonista. Segundo os
dois, o protagonista do cinema de arte não tem necessariamente
um objetivo claro e, além disso, não está na maioria das vezes
circunscrito por uma mandamento de fim temporal, não tem um
78
chamado ticking clock inserido na narrativa que ajude o
espectador a identificar a direção da ação e sua finalidade.
3.1 REDUNDÂNCIA:
Outro elemento identificado por autores como Thompson e
Bordwell é a redundância na apresentação de informações
básicas. Mas, o que Kristin identifica apenas como
recorrência, tem na verdade mais que uma função meramente
informativa. O que ela não realça, mesmo nos exemplos que
utiliza, é a técnica que estrutura esta repetição de
informações. Ela cita o exemplo do filme Os Intocáveis, em que
o contador Oscar é designado para a equipe de Elliot Ness.
Oscar menciona que Al Capone não apresentou declaração de
imposto de renda e com isto planta uma informação crucial.
Depois, numa cena posterior em que um assecla do prefeito
tenta subornar Ness, Oscar está trabalhando examinando alguns
livros contábeis. Mais tarde, viajando de avião com Ness,
Oscar sugere que eles processem Capone por evasão de impostos.
Kristin justifica que depois destas três menções a equipe
começa a trabalhar com este objetivo. Mais importante que a
informação a meu ver é o fato dela estar plantada ao longo do
roteiro de forma consistente com um objetivo claro a ser
atingido - justificar a ação a ser tomada. Busca construir um
79
histórico para o evento, proceder à construção de uma linha
dramática e no processo, sim, apresentar a informação de forma
redundante. Mas, mais importante que isso, estruturá-la com o
objetivo de justificar uma mudança na ação do protagonista e
construir solidez na elaboração do roteiro. São estes
procedimentos que fazem com que o filme seja visto como uma
construção aparentemente simples - os inúmeros elementos de
ligação e preparação na construção da trama fazem com que o
espectador seja levado, tomado pela progressão da ação e,
tendo engajado sua atenção, não tenha tempo para parar e
avaliar a complexidade da construção. Aqui, mais importante
que a redundância na apresentação de informação é o fato de
que esta informação permeia momentos diferentes da trama e sua
apresentação e desenvolvimento servem de elo estrutural, muito
nos mesmos termos em que Kristin avalia o que ela denomina de
dangling cause. No próprio exemplo citado, o que salta aos
olhos não é a informação em si, mas as diferentes situações em
que é apresentada. Mais que a redundância é a persistência e
alteração na construção que chama a atenção. Além, é claro, da
artesania na construção de sua inserção na trama. Esta é a
parte do craft do roteirista.
Em função disto, redundância não me parece um bom termo,
em primeiro lugar porque não indica a forma como esta
informação deve ser inserida no roteiro, nem privilegia a
complexidade na construção da trama. Com esta definição vaga,
também não vemos que esta norma geral de redundância é na
80
verdade a somatória de vários elementos de construção da
trama. Vale citar, por exemplo a definição de Rust Hills, em
seu Writing in General and the Short Story in Particular(Hills
1987), quando define o que chama de foreshadowing. Para ele o
prenúncio, (foreshadowing) pode ser inserido de inúmeras
formas. Ele segue para listá-las: por descrição; em
simbolismo; em paralelismo; por inversão cronológica; no
diálogo; na seqüencialidade ou progressão; pelo tom; no tema;
por vários artifícios córicos; ou por intromissão do
sobrenatural ou finalmente; pelo que denomina de
aftershadowing. Já em Howard, algumas formas de redundância
são desdobradas em preparação e conseqüência, pista e
recompensa e elementos do futuro e anúncio(Howard and Mabley
1993). Vale lembrar que a classificação de Hills diz respeito
apenas ao desmembramento do que Howard denomina anúncio.
Se por um lado, temos um grupo de normas indicativas de um
sistema que foram estabelecidas através de uma análise
exaustiva da cinematografia Hollywoodiana, de outro temos
vários conceitos utilizados regularmente por um sem número de
manuais de roteiro que buscam indicar os instrumentos à mão do
roteirista quando este se põe a trabalhar. O que pretendo com
este arrazoado é indicar que para a análise dos filmes
brasileiros recentes e inscritos na dita retomada do cinema
brasileiro acredito ser possível utilizar o instrumental
lançado por Thompson e Bordwell para a análise do cinema
clássico, mas é necessário aliá-lo a conceitos que são
81
desdobramentos de generalizações como a redundância, por
exemplo.
A justificativa para a utilização do instrumental que
Bordwell e Thompson elaboram é que apesar de os filmes norte
americanos terem sido produzidos dentro de um sistema de
produção, uma indústria verdadeiramente estabelecida a partir
do qual os autores estudaram os filmes e as manifestações de
suas narrativas junto com a bibliografia que versa sobre
estruturação de roteiros para cinema, penso que os exemplos
brasileiros escolhidos estabelecem um diálogo com o público,
muito nos mesmos moldes desta cinematografia clássica. Que os
elementos constituintes de um roteiro cinematográfico vêm
sendo estudados no Brasil tomando como base a bibliografia
estabelecida internacionalmente. Que em função de várias ações
educativas e de desenvolvimento de capacitação, como elencado
no arrazoado sobre a publicação de manuais, as vindas de
consultores estrangeiros ao Brasil e a constante
internacionalização do tratamento de alguns roteiros de êxito,
os elementos constituintes desta narrativa clássica tem sido
apropriados pelos cineastas brasileiros e traduzidos em filmes
de sucesso tanto de crítica quanto de bilheteria.
Os dois filmes estudados – Central do Brasil e Cidade de
Deus - servem, no meu entender, para indicar, no primeiro como
o modelo clássico é seguido à risca e no segundo como apesar
da estrutura épica, o craft na construção de sua estrutura
dramática vem do domínio de elementos bastante clássicos.
82
4 CIDADE DE DEUS
Devo começar este capítulo com uma ressalva, Kristin
Thompson se explica perante o leitor ao justificar a forma de
apresentação de sua análise (Thompson 1999 pg 48). Ela
argumenta que, muitas vezes, ao analisar um filme é desejável
subordinar a descrição da ordem dos eventos na trama ao
argumento conceitual do crítico. Mas que, quando a análise é
estruturada pela progressão cena a cena do filme, a análise
mesma pode parecer por vezes uma sinopse ou uma escaleta
glorificada da obra. Nas páginas a seguir, os leitores deverão
encontrar descrições detalhadas, cena a cena, de parcelas
grandes do filme e, no espaço da descrição entre cenas,
comentários, apontamentos, indicações de causas suspensas,
recursos dramáticos e narrativos recorrentes. Não vejo outra
forma de proceder, sob pena de cobrar demais da memória de
cada um, ou deixar minha argumentação sem correspondente
imediato e a necessidade de o leitor, a todo o momento,
retomar o papel de espectador para validar cada comentário
elencado.
Os créditos iniciais em Cidade de Deus lançam uma série de
informações e plantam elementos gráficos que serão retomados e
83
justificados posteriormente. O mais evidente é o desenho em
silhueta de um garoto com uma câmera fotográfica, visto
através de uma malha de quadrados. A composição é baseada num
dos planos em uma das cenas finais do filme, quando Buscapé
testemunha e fotografa a derrocada e a execução de Zé Pequeno.
Os títulos iniciais são intercalados com imagens em detalhe da
preparação de um almoço, vemos uma faca, uma galinha presa por
um barbante, mãos, pés, uma galinha sendo degolada. Enfim a
galinha, centro de nossa atenção, percebendo que vai virar
almoço. A galinha foge e, comandados por Zé Pequeno, os jovens
armados que estavam esperando a preparação da comida tentam
deter a fuga do animal.
Este início segue em uma ação paralela, pois temos Busca-
Pé e Barbantinho caminhando juntos. Buscapé - levando sua
câmera fotográfica pendurada no pescoço - está comentando com
Barbantinho que se fizer uma boa foto pode conseguir o emprego
no jornal. Barbantinho diz que ele está arriscando a vida
tentando fazer isto. A seguir vem o gancho de diálogo. Busca-
Pé responde com uma pergunta – “Você acha que eu gosto de
ficar cara a cara com aquele bandido filha da puta?”. Há um
corte e estamos de volta à perseguição da galinha, quem dobra
a esquina e vem em direção à câmera, ficando cara a cara com o
espectador é o tal bandido filho da puta.
Segue-se o entrevero com o vendedor de panelas, que mostra
em ação o quão filho da puta realmente é o tal bandido. Se a
seqüência até aqui mantinha uma orientação mais tradicional
84
atendendo às regras clássicas de geografia de tela, que
indicam a manutenção de eixo nas cenas de movimentação, com
planos em eixo neutro para fazer passagem de um lado do eixo
ao outro, esta cena com o vendedor de panelas rompe a norma ao
pular o eixo e enfatizar o gesto violento de Zé Pequeno que
empurra o vendedor.
Zé puxa o revolver indicando que pode atirar, mas ri e
canaliza sua raiva de forma mais criativa: mandando seus
comandados “sentarem o dedo” na galinha.
Os comandados obedecem e começam a atirar na galinha. Mas
ela escapa para uma rua para ser quase atropelada por um
camburão da Polícia.
Na ação em paralelo Barbantinho avisa Buscapé: Se ele te
pegar ele vai querer te matar, heim. Cortamos para a rua para
ver a galinha que consegue escapar de ser atropelada, passando
por baixo de um camburão. Em seguida vemos o Camburão passar
ao lado de Buscapé. Neste momento o caminho das duas linhas
narrativas paralelas se cruza na geografia da tela. Buscapé
não se dá por vencido e responde a Barbantinho: para me matar
ele vai ter que me achar primeiro. Depois desta série de
ganchos clássicos de diálogo, onde em um plano o diálogo
aponta para o objeto e no plano seguinte o objeto nos é
apresentado, segue-se a resultante da montagem em paralelo -
no plano seguinte vemos a entrada de Zé e seus comandados na
mesma área. Pronto, Zé e os outros garotos aparecem na rua.
Buscapé se agacha para pegar a galinha.
85
Como a ação estava em paralelo estávamos aguardando o
momento em que os personagens se encontrariam. Aqui a ironia
dramática é que nós sabemos mais que nosso futuro narrador.
Mas, o campo vai se igualar. Foi lançado o mínimo necessário
de informação para definir os personagens e a situação. O
encontro finalmente acontece e coloca em pauta as forças
motoras do filme: a ascensão de Zé Pequeno e a trajetória de
nosso narrador.
4.1 FRAMING DEVICE:
A exuberância do efeito que vem a seguir - que lança o
espectador contemplando alguns giros completos de 360 graus ao
redor de Busca-pé, pego no meio de um típico standout de
western, mas aqui bastante aculturado, pois Buscapé se posta
em posição como um goleiro tentando se preparar para o
pênalti, para na verdade tentar pegar uma galinha - é
equiparada à efetividade do recurso narrativo: o que se
denomina comumente de framing device(Hills 1987 pg. 109 a
112)
11
, ou moldura. A estrutura que usa de um evento em dado
11
Rust Hills discute o flahsback para definir melhor o que
denomina de moldura: The differences between the two
86
momento temporal para lançar uma questão que deverá ser
resolvida/recuperada ao longo da narrativa.
A transição é muito efetiva em função da posição assumida
por Buscapé e da situação dramática em que ele se encontra:
literalmente no meio da linha de tiro de duas forças opostas –
bandidos e policiais. A ligação entre a cena da moldura e a
cena em que se inicia o recontar é também muito bem
trabalhada. Nesta cena, em um campinho de terra da Cidade de
Deus em seus primórdios, com Buscapé em posição como goleiro
para tentar defender uma falta, vemos que ele não consegue
apanhar a bola – ele não é um bom goleiro. Entram em cena,
Dadinho e Bené, garotos que vêm tentar bagunçar o jogo da
techniques known as the “flashback” and the “frame” show more
of what I’m trying to say about how plot structure involves
more than causal sequentiality. The flashback usually has an
explanatory-expositional function; the frame has an integral
relation to the whole of the story, they are two entirely
different methods, not just the inside and outside of one
another. A frame structure will usually have a relationship
to the story’s whole meaning. The method here is to set a
story inside another story that enhances it, or the other way
around, or both ways is what I really mean. Ele segue para
explicar o que acredita ser uma das funções básicas da
moldura. “One obvious function of the frame is to permit the
author to create a ‘voice’ for his narration”.
87
garotada. Bené já mostra seu bom humor ao aconselhar
Barbatinho a não passar a bola para Dadinho que segundo ele é
um perna de pau. Cabeleira (depois identificado como irmão de
Bené) recolhe a bola e começa a fazer embaixadas. Vemos os
outros dois integrantes que conforme nos relata Busca-pé
completam o Trio Ternura: Alicate e Marreco (irmão de busca-
pé). Em uma única cena, temos o núcleo de personagens
importantes da história. Uma introdução em ação que lança
questões sobre o desenvolvimento da trama – o comentário de
Busca-Pé quando afirma que nunca conseguiu acompanhar seu
irmão nos assaltos - adianta várias das características do
personagem. O roteiro faz isto de forma muito eficiente ao
conseguir definir vários deles em poucas ações ou com um
mínimo de intervenções do narrador (Buscapé).
A cena seguinte, a do roubo do caminhão de gás serve
também para firmar a personalidade de Dadinho – depois que o
motorista do caminhão foi levado ao chão, é ele quem aproveita
e mostra prazer em chutar o indivíduo já caído. Diferente da
ação do trio que bate porque o motorista estava tentando
esconder a féria. Um plano mostra o prazer de Dadinho em
bater. É ele quem anuncia a chegada da polícia.
A moldura ajuda também a estabelecer o narrador. É ele
quem está no meio do fogo cruzado e vai nos guiar pela
trajetória da Cidade de Deus, vai nos apontar e esclarecer
quem é importante na história, quem não é. A moldura exige
também que a história da moldura seja contada. Vamos portanto
88
chegar a ver as histórias do trio ternura, depois a ascensão
de Zé-Pequeno mas veremos também a história de Buscapé.
Outra conseqüência do estabelecimento da moldura é que
temos uma meta temporal, uma regra estabelecida, um elemento
bastante importante na composição de narrativas clássicas. A
pergunta lançada na moldura precisará ser respondida, o
público tem assegurada uma cena obrigatória, o retorno ao
tempo estabelecido na moldura no início do filme e a conclusão
desta moldura. Esta cena aponta para adiante no filme. São
elementos de construção do roteiro que quando bem arquitetadas
conferem solidez à sua estrutura.
A moldura apresenta e prepara também uma escalada: na cena
do duelo temos inúmeras armas - são revolveres, pistolas,
escopetas, metralhadoras. O que qualifica uma situação muito
mais dramática que a do campinho de futebol. Está indicado
através do elo entre o contraste dado pela presença de uma
única arma na cena no campinho de futebol – o revolver calibre
.38 na mão de cabeleira, e com o qual ele estoura a bola de
futebol - e uma massa de bandidos com inúmeras armas em
posição de enfrentamento com a polícia também armada mas em
desvantagem numérica. Estes desenhos todos indicam a estrutura
dramática, teremos uma escalada do perigo, dos conflitos e
poderemos entender como nosso narrador chegou a ficar naquela
situação.
89
4.2 CIDADE DE DEUS ENQUANTO ADAPTAÇÃO:
Sendo Cidade de Deus, o filme, uma obra adaptada de um
original literário, o livro homônimo de Paulo Lins, não posso
me furtar a comentar algo sobre o processo de adaptação.
Algumas comparações entre o livro e o roteiro/filme, são úteis
para entender como a estrutura do filme tomou corpo.
Ao discutir adaptação, não estou interessado na
fidelidade, em como o novo texto, no caso o roteiro - texto
que Gerard Gennette denominaria como de texto em segundo grau
(Genette 1997 pg. 5)
12
- opera a intertextualidade da
transposição. Também não me preocupa a questão da fidelidade,
busco identificar como a estrutura do roteiro, pode ser melhor
entendida a partir das opções feitas pelos roteiristas quando
confrontados pela tarefa de operar esta transposição e como
estas opções refletem uma forma de estruturação que atende a
ditames do cinema clássico.
12
Genette trata do que denomina de Hypertextualidade, ou seja
a relação que une um texto B (que ele denomina de hypertexto)
a um texto anterior A (que ele denomina de hypotexto), e como
ele define, “upon which it is grafted in a manner that is not
that of commentary. The use of the metaphoric “grafted” and
of the negative determination underscores the provisional
status of this definition. To view things differently, let us
posit the general notion of a text in second degree (for such
a transitory use, I shall forgo the attempt to find a prefix
that would simultaneously subsume the hyper and the meta-):
i.e., a text derived from another preexisting text”.
90
Linda Seger, autora de vários manuais de roteiro, escreveu
um especificamente voltado para o trabalho de adaptação(Seger
1992). Segundo ela, filmes como outras formas de drama ou
narração, também tem temas, mas no caso do cinema, o tema
geralmente está a serviço da história. O tema está lá para
reforçar e dar dimensão à história, não para substituí-la. Ao
contrário do romance, onde geralmente a história está a
serviço do tema(Seger 1992 pg 14).
Seger elenca algumas características para o que denomina
de cinema comercial americano e cinema estrangeiro (para os
norte-americanos). De fundo Aristotélico, ela recupera a
poética para afirmar que Aristóteles indicava que uma história
significa uma ação. Mas diferente da interpretação de
Thompson, não vejo a afirmação como um objetivo único para o
protagonista, mas sim que os eventos da história devem um ter
relação entre si, devem seguir um encadeamento.
“The writer selects and arranges a series of these
incidents so they build with increasing intensity
or suspense toward and exciting and dramatic
resolution(Seger 1992 pg 78).”
Seger desenha o que denomina de linhas de dimensão e
direcionalidade. Para ela uma boa história precisa de
direcionalidade, deve mover-se para frente em direção a um
clímax e com isto manter a atenção do espectador, que preso à
cadeira do cinema fica procurando antecipar os próximos
movimentos da trama. Mas, o roteiro deve trazer também
91
dimensionalidade. Ao mesmo tempo em que a história avança deve
revelar personagens e desenvolver temas.
Seger indica que o que denomina de Goal Oriented Story
Lines são as mais fáceis de adaptar, pois são movidas por uma
meta, e através da identificação da meta é mais fácil entender
o seu começo, meio e fim. O que o personagem quer? Quando este
consegue ou não o que quer, temos o final da história; O que o
personagem faz para alcançar sua meta? Temos aqui o meio do
filme; e o quando começa a se desenhar a meta? Aqui está o
começo do filme.
No romance de Paulo Lins, temos várias linhas, inúmeros
personagens, algumas dezenas de pequenas histórias que não se
ligam a uma história principal que conduz a narrativa.
Seger comenta também as story lines que denomina de
journeys, aquelas em que o foco está no arco transformacional
de um personagem. Assim:
“The story comes from the journey rather than
from defining a clear-cut goal. But even journeys
have beginnings, middles, and ends(Seger 1992 pg
81).”
A recomendação dela é para que o roteirista procure por
linhas dramáticas orientadas por metas ou procure identificar
um arco transformacional para o protagonista.
Uma das dificuldades no trabalho de roteirização é
exatamente identificar os elementos essenciais, a linha de
estruturação do roteiro, que no caso de Cidade de Deus
92
implicou transpor uma obra de 400 páginas (600 dependendo da
edição) para uma experiência de pouco mais de duas horas.
Aquilo que é sorvido em alguns dias, mesmo numa leitura rápida
e engajada, deve ser vivenciado, de preferência sem
interrupções, em duas horas na sala de cinema. Uma das
maneiras mais efetivas de trabalhar esta “redução” é combinar
personagens.
“Cutting characters usually means combining
characters. In many novels, there are a number of
characters with similar functions. There might be
several businessmen, villains, relatives, clients
or soldiers who all have some thematic importance.
For film, combining characters can streamline and
focus the storyline(Seger 1992 pg 127).
O roteiro de Cidade de Deus faz isso de várias maneiras
diferentes e identificar algumas destas escolhas poderá ajudar
a entender o desenho da trama e sua estruturação.
Um dos pontos mais importantes desta alteração diz
respeito ao personagem de Zé Pequeno (Zé Miúdo no livro). No
filme, um dos momentos que definem o personagem é o assalto ao
motel. No livro o personagem de Zé Miúdo não pratica o
extermínio. No filme, através da intervenção narrativa de
Busca Pé, podemos ver o que Zé Pequeno fez. Ele mata por
prazer, atira e ri. Fruto mesmo de discórdia com o autor do
livro, este evento ajuda a entender a progressão do roteiro.
Ele determina um destino para o personagem.
93
Há outros elementos de alteração de personagens que ajudam
a entender a estrutura do roteiro. Há a história no livro do
delator, que é morto, por ser informante da polícia. E a
história do Cearense. No livro são dois personagens distintos
e suas histórias terminam em morte, no caso do delator, e em
saída de Cidade de Deus, no caso do Cearense que encontra a
mulher adúltera com o amante.
A história do Cearense: Trabalhador na construção civil é
casado com uma moça identificada no livro como a cearense. O
diálogo da cearense com a vizinha é reproduzido quase que
textualmente no roteiro do filme.
- Seu marido não te chupa, não? Ah minha filha...
Você não conhece ‘as coisa’ boa da vida. Antes do meu meter,
tem que cair de língua uma meia hora. E no cu? Você não deixa
ele colocar no teu, não? Você não sabe o que é bom. Nas
primeiras vezes dói, mas depois vai que é uma beleza. Você
pega uma banana, esquenta ela um pouquinho, enfia na xereca e
mande ele colocar atrás. Parece que você vai voar. Você já fez
carrossel? Saca-rolha? Trenzinho? Funil? Dedinho? Meia nove?
Tapadinho? Enrola-enrola? Entupidinho? Suga-suga...?(Lins 2002
pg 107)
Movida pela curiosidade a Cearense primeiro procura o
marido para sugerir explorar estas novas alternativas. A
reação dele é uma surra na mulher a quem avalia ser devassa. A
Cearense não se dá por vencida e quer vingança. O narrador
descreve o devaneio dela. Ela deverá procurar um negro, com
94
quem deverá fazer sexo. Ela passa o dia pensando e decide que
será com o peixeiro. Ela consegue o que quer e tem os orgasmos
planejados. O marido volta um belo dia e quase a pega no pulo.
Ele começa a construir uma cisterna no quintal da casa. No dia
seguinte a cearense vai atrás do peixeiro assim que o marido
vai trabalhar. Mas ele os pega juntos, derruba o peixeiro com
uma paulada e amarra a esposa. Ele joga a esposa na vala que
abriu para a cisterna e em cima dela o corpo do peixeiro,
depois cobre tudo com uma camada de cimento. Por fim recolhe a
mala e volta para o Ceará.
No filme, é Marreco quem namora a mulher, que agora é a
mulher do Paraíba. A história do Paraíba é a junção da
história do informante com a do Cearense. Ao mesmo tempo, no
livro, esta história é estanque, separada e contada do início
ao fim em poucas páginas, assim como é feito com outras
histórias no livro. Estas quase sempre acabam em morte. Muitas
vezes é a indicação da fatalidade que importa na narrativa.
No roteiro é importante notar, que presente nesta história
está também Buscapé. Irmão de Marreco ele é definido como
oposição e contraponto a este. Marreco é namorador, bandido,
não muito inteligente, Buscapé é inteligente, possui
discernimento, é nosso narrador, está nos apresentando a este
mundo.
Estas concentrações e condensações de histórias fizeram
com que várias das narrativas do livro fossem compostas e
aproveitadas para construir um número menor de personagens
95
principais. Como os personagens principais que atravessam toda
a trama do filme são Buscapé e Zé pequeno, para manter a linha
dramática o roteiro estruturou e condensou as outras histórias
selecionadas entre inúmeras possíveis no livro e transformou
histórias estanques em elos na mesma progressão. A história da
Cearense e do Cearense se transforma em uma pequena trama que
ajuda a qualificar a diferença entre Buscapé e seu irmão
Marreco, dá finalidade à história do informante, que no
roteiro é junção de mais que um personagem do livro. Constrói-
se unidade na progressão, economia na exposição (exposition),
pois ao diminuir ou aliar pequenas histórias em um número
menor de personagens gasta-se menos tempo introduzindo
informação básica para podermos entender estes próprios
personagens.
4.3 PROTAGONISMOS:
Através da analise da progressão dos personagens na trama
podemos identificar os protagonistas.
Leandro Maciel, (Maciel 2008) em sua dissertação de
mestrado, um estudo detalhado que abarcou o livro de Paulo
Lins e sua adaptação desde o curta-metragem Palace II,
passando pelo longa-metragem Cidade de Deus, e culminando com
a série Cidade dos Homens, lida com a questão do protagonismo
96
no filme. O autor comenta duas observações de Bráulio
Mantovani que afirma primeiro que:
Se Buscapé não é o protagonista de nenhuma
grande história no livro, ele pode ser, no
filme, TESTEMUNHA OCULAR dos fatos. Ele não
precisa estar presente às ações. Mas ele tem
fotos de todos os personagens que entram e saem
das histórias. Sua vocação para fotógrafo vem da
infância. (Mantovani, Meireles et al. 2003)
E que, fazendo uso da narração de Buscapé, poderá ir e vir
no tempo, segundo as necessidades do roteiro. “Acho que a
espinha dorsal do livro ainda é a cronologia. Mas com momentos
de ruptura. O vaivém presente-passado é
fundamental”(Mantovani, Meireles et al. 2003)
Leandro Maciel conclui que o ponto de vista de Bráulio vai
ao encontro da sua definição do personagem Buscapé, dentro do
enredo do filme - “aqui podemos notar que os preceitos
técnicos podem ser usados para criar personagens, mas que
mesmo estes preceitos são bastante flexíveis. Como podemos
notar, assim seria Cidade de Deus: um filme ‘sem’ um
protagonista, mas com um antagonista muito forte e um narrador
observador na linha narrativa central. (Maciel 2008 pg 37)”
13
Não concordo com a afirmação, para mim Zé Pequeno é um
13
Comento diretamente a afirmação de Leandro Maciel mais à
frente na página 112 onde defino a questão do protagonismo no
filme.
97
protagonista, e Buscapé, além de narrador, protagoniza sua
própria história.
O que se vê no filme, é uma progressão na construção de
todos os personagens, uma apropriação de várias histórias do
livro e um trabalho de junção e composição que faz com que a
presença de todos esteja justificada, mostre uma evolução e
construa elos entre os vários momentos da trama. Todas as
alterações e todas as ações dos protagonistas são motivadas.
Zé pequeno é desenhado na trama como um menino que quer
participar de assaltos, que tem prazer em bater. Na
estruturação do roteiro a revelação das mortes perpetradas por
ele é retardada para um momento posterior, para um recontar,
que é disparado por Buscapé. O roteiro constrói passo a passo
a caracterização do personagem. De um menino com instintos
assassinos ele passa a maior traficante da Cidade de Deus. É
ele quem movimenta a ação da história, ele é o motivo do
recontar de Buscapé.
O personagem de Zé Pequeno tem uma meta, as cenas em que
Zé está presente apontam sempre neste caminho - ele vai chegar
a ser o dono do pedaço. Mas, ele não conhece redenção,
portanto o caminho desenhado acaba necessariamente em
destruição. O seu demise é plenamente justificado pelo plantio
de elementos de caracterização. Não é a narração de Buscapé
que nos faz aceitar a sua morte nas mãos dos meninos da caixa-
baixa. É todo um processo que vem com o desenho de sua
caracterização e da linha de ação tomada pelo personagem.
98
Quantas histórias são realmente condutoras da narrativa?
Temos a moldura que é construída através de Buscapé. A
história do Trio Ternura; mas eles são também parte importante
da definição e do setup das histórias tanto de Buscapé quanto
de Zé Pequeno. Teremos depois, já em momento em que Zé Pequeno
já está seguindo pelo caminho de seu demise, a história de
Mané Galinha (no livro Zé Bonito), que antagoniza Zé Pequeno e
ajuda a construir sua derrocada quando se associa à outra
figura que antagoniza a ascenção de Zé, Sandro Cenoura.
Vejamos outros filmes para comentar sobre possíveis
estruturas. Em o Poderoso Chefão não temos uma moldura, mas
temos neste filme, dois protagonistas. Don Vito Corleone e
Michael, o filho pródigo, herói ex-combatente numa guerra
justa - a segunda guerra mundial. Aqui são duas histórias, uma
levando à outra, quando o protagonista da primeira sofre um
atentado, vemos a ascensão do filho pródigo que toma para si
as dores da família e consegue vingar o pai e neste processo,
cumpre o papel muito clássico em todo o cinema americano do
herói reticente – ele tem tudo para ser um novo chefão e a
história de Dom Vito, em que Michael está não como força
motora, serve para mostrar todas as características
necessárias ao personagem (ele já matou, ele não está
envolvido até então com os negócios da família e pode com isto
trazer algo novo, ser insuspeito na hora da negociação do
encontro com aqueles que tentaram matar seu pai) e ajuda a
criar a empatia necessária para acompanhar o seu mergulho no
99
mundo do crime. A história de Dom Vito serve como setup para a
história de Michael. Aqui, a história do Trio ternura, cria
todas as condições para que entendamos o que acontece com
Dadinho e Buscapé. Bené além de humanizar a vida do crime,
serve muitas vezes como Buddy de Zé. Desta forma, se pensarmos
em mais de um protagonista, em tramas paralelas, sendo que uma
delas comenta sobre a outra, teremos duas forças, uma épica
que é a fonte estruturadora construída com recurso à narração
em Voz Over, mas que tem como meta clara, definir um lugar
distinto daquele programado pelo entorno. Buscapé, não sabe o
que quer, mas sabe o que não quer. Até mesmo sua tentativa de
fazer como os bichos soltos é cômica. Esta seqüência é na
história dele um ponto de virada. Ele não consegue ser
bandido, bicho solto, não é da sua índole. Agora ele precisa
perseguir ou encontrar outra saída. É uma questão do acaso
justificado, basta ver a construção da motivação do fotógrafo
ao longo do roteiro. No livro a carreira de Buscapé como
fotógrafo não está tão interligada a Zé Pequeno, a forma como
ele consegue uma máquina é distinta.
No roteiro estas preparações são trabalhadas
retrospectivamente e construídas aos poucos, sendo que traços,
justificativas e oportunidades são construídos cena a cena,
para que atendam a questões de plausibilidade e
verossimilhança - no livro, basta um comentário do narrador
para que esta alteração se efetive, mas no roteiro é
necessário construir uma série de eventos e indicações em
100
cenas distribuídas ao longo do filme para que possamos
acreditar na mudança.
4.4 CAUSA E EFEITO, PLAUSIBILIDADE E VEROSSIMILHANÇA:
Aqui vale uma pausa para discutir um pouco mais a relação
entre causa e feito, plausibilidade e verossimilhança. Para a
dramaturgia clássica o conceito de verossimilhança está ligado
à recepção do espectador, não é o que é verdadeiro, mas o que
necessariamente precisa parecer verdadeiro para o público. São
as ações, personagens e representações que devem ser aceitas e
não questionadas pelo espectador. Isto é parte de uma técnica
de construção e todos os manuais que tem a Poética como base,
realçam este lado prático de sua execução e construção.
Segundo Aristóteles:
“… it is not the function of the poet to
relate what happened, but what may happen – what
is possible according to the law of probability or
necessity. The poet and the historian differ not
by writing in verse or in prose… the true
difference is that one relates what has happened,
the other what may happen. Poetry therefore is
101
more philosophical and higher than history: for
poetry tends to express the universal, history the
particular”(Aristotle 1961 pg 68).
O verossimilhante caracteriza uma ação que seja
logicamente possível, levando-se em consideração o
encadeamento lógico dos motivos, portanto necessário como
lógica interna da fábula, o mesmo se reflete na construção dos
personagens:
“As in the structure of the plot, so too in
the portraiture of character, the poet should
always aim either at the necessary or the
probable. Thus a person of a given character
should speak or act in a given way, by the rule
either of necessity or of probability, just as
this event should follow that by necessary or
probable consequence.”(Aristotle 1961 pg 82)
Causa e efeito pode ser visto como um dos instrumentos,
uma das ferramentas para a construção de verossimilhança. É
neste sentido que o poeta, roteirista, se aproxima do
material, seja este um romance a ser adaptado, uma sinopse ou
uma estória original, entendendo que para que não haja falhas
na relação com a aceitação pelo público a verossimilhança deve
ser mantida e instrumentos como causas e efeitos se desdobram
em vários outros elementos que foram listados anteriormente,
como o recurso à redundância, por exemplo. A redundância é
também uma forma de construção de verossimilhança, exatamente
102
porque não é só uma questão de enfatizar novamente uma
informação necessária, mas na maioria das vezes de apresentar
ou justificar uma alteração na leitura ou na função da própria
informação plantada.
Isto é, causa e efeito, verossimilhança e plausibilidade
são interdependentes nesta estrutura. Numa dramaturgia regida
pela ação (ação no sentido aristotélico), causa e efeito não
se desprendem de verossimilhança. É nisto que por exemplo,
Nagib se questiona quando analisa Central do Brasil e afirma
que o filme apresenta “a series of improbable events made
credible by the ingenuity of the script”(Nagib 2006 pg 98).
Esta engenhosidade é exatamente o fato de tratar de forma
clássica a ligação entre plausibilidade e a construção da
trama com o recurso a elos causais para suspender a descrença
do espectador e validar o pacto dramatúrgico.
4.5 A VOLTA DO PROTAGONISTA
Quem tem um objetivo claro e impacta a vida de todos no
filme é Zé Pequeno. É pelas mãos dele que Buscapé consegue a
câmera. Isto é, as duas linhas se completam e na construção do
103
roteiro, foi feito o máximo para que as histórias fossem
ligadas uma à outra, dando organicidade à evolução das tramas.
Interessante é notar também o que foi retirado do roteiro,
ou melhor da montagem. As cenas omitidas são na sua maioria
cenas em que alguns dos personagens relatavam suas
perspectivas sobre os acontecimentos diretamente para a
câmera, estas foram cortadas na montagem. Segundo Meirelles
isto foi devido ao tempo de duração do filme, mas um dos
subprodutos desta remoção foi manter a unidade na narração,
não variar o ponto de vista, não incluir duas intervenções
épicas distintas(Mantovani, Meireles et al. 2003).
Vale lembrar que o recurso ao solilóquio, à narração em
voz over, as legendas, intertítulos, são intervenções épicas
que permeiam inúmeras manifestações dramáticas. O coro no
teatro grego é possivelmente a mais antiga, que adianta para o
público informações e posicionamentos. Vários filmes fazem uso
deste recurso, no cinema de gênero, especialmente o filme noir
é repleto de narração que orienta, comenta e por vezes se
mostra não confiável.
Não existe uma estrutura em cinema que seja drama puro,
mas tampouco o cinema deixa de ser drama ao utilizar recursos
épicos. Ainda que coloquemos a narração como fonte
estruturadora e elo entre partes, não deixamos de ter neste
caso um filme regido pelos preceitos listados no início deste
trabalho – personagens que se movem com orientação por uma
104
meta, causas pendentes estruturam a obra, a ação é logicamente
encadeada.
Thompson trata do que denomina de parallel protagonists,
algo que devemos considerar ao analisar Cidade de Deus.
Segundo ela, “protagonistas paralelos geralmente apresentam
características muito diferentes um do outro, e sua vidas de
início tem muito poucas conexões. Ainda assim logo no início
da ação um desenvolve uma fascinação pelo outro ou muitas
vezes um espia o outro, ou outra”... Mais adiante ela explora
a situação quando os dois protagonistas são do mesmo sexo:
“If the two protagonists are of the same
gender, one character’s fascination may develop as
a desire to become more like the other. At first
glance Amadeus, Desperately Seeking Susan and The
Hunt for Red October could not be more unlike in
terms of subject matter and tone.”
Ela segue para mostrar que nestes filmes muitas vezes um
dos protagonistas mostra-se fascinado por uma figura menos bem
sucedida, mas mais excêntrica, ou o personagem invejoso
espiona o outro. Mais interessante é o comentário dela quando
afirma que em muitos destes filmes, os dois protagonistas
muitas vezes nem se conhecem, ou como em Amadeus, tem um
relacionamento de poucas palavras e, portanto raramente são
vistos juntos. Ao que ela conclui:
“As a result, the filmmakers face the
problem of moving between the two and still
105
maintaining a clear, redundant, linear classical
narrative progression.”
Bem, a diferença aqui é que não podemos dizer que Buscapé
é fascinado por Dadinho/Zé Pequeno, no sentido de querer se
tornar um espelho do bandido ou aprender algo com ele. Mas há
obviamente uma ligação muito forte entre os dois, não de
implicação direta na ação – a história de Buscapé não altera
diretamente o rumo da ação de Zé Pequeno (ainda que em um
momento, Buscapé pense em matar Zé Pequeno – algo lançado mais
como lamento por não tê-lo feito, por não ter tido coragem
para matar o homem que matou seu irmão). Mas, a fotografia que
Buscapé tira dos bandidos é o que traz a fama para Zé Pequeno,
o olhar público, o que o personagem vê com alegria validando
sua existência enquanto bandido - a vontade de ser temido e
respeitado. Isto foi fruto de construção, de forma que a
ligação entre as duas histórias se dá pelas qualidades
inerentes aos personagens manifestas em ação.
O mesmo pode ser dito, por exemplo, da função de uma cena
no filme hollywoodiano, a Testemunha. Refiro-me à cena em que
o personagem Book não consegue conter sua raiva quando ao
visitar a cidade com um grupo de Amish, alguns garotões param
a carroça onde estão para fazer chacota com os Amish. Book
está somente travestido de Amish e não contém sua raiva e
quebra o nariz do jovem. Ele desta forma expressa a
característica que o trai e traz a possibilidade de vinda do
antagonista para o duelo final. Isto é, foi ao expressar o que
106
ele é no fundo que o antagonista pode encontrá-lo. Da mesma
forma, quando a foto é tirada por buscapé, duas linhas se
cruzam. O início do fim de Zé, que tomado por uma inveja do
outro, por não estar sendo citado como aquilo que vem tentando
construir ao longo de toda a sua vida (motivo e meta
dramática) - a idéia de que é o grande bandido dono da Cidade
de Deus; e a meta de Buscapé, também desenhada ao longo do
filme todo, de mudar de status e de vida pelas mãos do
interesse pessoal na fotografia. Assim, a apresentação
redundante da câmera fotográfica pode ser resgatada ao longo
do filme/roteiro para mostrar como a redundância se liga à
plausibilidade e aqui, neste ponto de inflexão da narrativa,
duas linhas que até então pareciam somente paralelas se cruzam
para construir o início do fim, que para Zé implica a morte e
para Buscapé a saída, a renovação. Na construção da unidade,
foi fundamental no roteiro fazer com que a câmera chegasse às
mãos de Buscapé, finalmente, pelas mãos de Zé Pequeno, esta
uma outra alteração fundamental com relação ao livro. É Bené
quem primeiro oferece a câmera a Buscapé, na cena no baile
funk, sua festa de despedida. Mas a câmera é quase o motivo da
morte de Bené. Zé pequeno e Bené brigam por ela, ou melhor ela
é uma desculpa para a briga. Desta forma redundante, ela é um
motivo recorrente, um elemento instigador de conflito e por
persistir ao longo de toda a trama ganha em importância e
vemos o objeto plenamente justificado.
107
A estrutura épica auxilia na construção da passagem de
uma trama à outra, ajuda a construir as ligações causais entre
as cenas e dá sentido de progressão unívoca para a ação. Todos
os atos dos personagens são justificados. Até mesmo o acaso é
justificado como intervenção divina. No livro isto é muito
forte e são várias as histórias de destinos traçados e
praticamente impossíveis de serem alterados. A lógica que
havia no livro era – se você evitou uma morte hoje, alguém
mais vai morrer no lugar desta pessoa amanhã.
Dois exemplos no livro são a história de Verdes Olhos e do
Butucatu. Verdes Olhos, que é parte do grupo dos cocotas, tem
como uma de suas atividades colocar e depois remover portões
de ferro que ele então novamente revende. Verdes olhos faz
isto com Bigodinho, bandido que está em dívida com Zé Miúdo
(no filme Zé Pequeno) por conta de um revólver. Verdes olhos
coloca o portão na casa de Bigodinho, pensando já em retirá-lo
de noite. Bigode recebe uma visita de Zé Miúdo, que vem para
matá-lo. Zé carrega Bigodinho para fora, mas Acerola, amigo de
Verdes Olhos, intervém ao encontrá-los no meio do caminho e
convence Zé a dar mais uma chance para Bigodinho. Zé
finalmente concorda, mas agora aumenta a dívida para 200 mil.
Bigodinho faz alguns assaltos seguidos, mas não consegue
levantar nada perto do valor necessário para pagar Zé. Quando
Verdes Olhos vem retirar o portão que havia colocado para
Bigodinho, este o vê e mata. No dia seguinte, Zé passa por
Acerola, amigo de Verdes Olhos, e lhe diz “olha que ironia, se
108
você não tivesse me impedido de matar o cara, teu amigo
estaria vivo, mas pode deixar – Já matei o bigode”.(Lins 2002
pg 226)
O mesmo acontece na historia de Butucatu, mas nesta quem
morre é Pardalzinho. Butucatu, bandido ruim, rapta a ex-
namorada, que está grávida. Descobrimos que ela está grávida
do inimigo de Butucatu. Ele a estupra e mata, auxiliado por um
colega. Zé miúdo fica enraivecido, por Butucatu ter feito isto
dentro da favela, trazendo atenção para seu pedaço. Zé quer
matá-lo por causa disto, mas Pardalzinho o convence que o
certo é lhe dar somente um “sal”. A namorada de Pardal morre
ao tentar um aborto, ele e Zé saem a caminhar pela favela. A
irmã de Butucatu avisa o irmão que Zé está caminhando pela
favela. Butucatu fica de tocaia, acerta Zé, mas acaba matando
Pardalzinho. Pardal ao ter impedido a morte de Butucatu é quem
acaba morto. Na lógica do livro, evitar uma morte significa
apenas que mais alguém vai ser morto ou aquele que impede uma
matança o será também.
No filme isto está presente na conversão de Alicate.
Depois que saem do matagal, tendo passado a noite no topo de
uma árvore, aguardando que os policiais Cabeção e Touro deixem
a perseguição, Alicate manca pela Cidade de Deus. Atrás dele
vem um trabalhador que se assusta com a voz de prisão dada por
Cabeção e Touro, corre, é perseguido e morre baleado pelos
policiais. Alicate caminha estóico, tomado pela convicção de
retornar para a igreja.
109
A fatalidade ou o destino, no caso de Alicate, que
sobrevive, pois decide voltar para a igreja, está também em
operação na justificação do acaso, ou na construção da
racionalidade da ação, ainda que inconseqüente de Zé Pequeno.
Auxiliados pela narração de Buscapé, vemos como Zé Pequeno
acabou não tomando a boca de Sandro Cenoura. Depois da morte
de Bené, Neguinho vai a Sandro Cenoura pedir ajuda, Sandro o
mata pois matar o ‘bandido mais responsa da favela’ não é
coisa que se faça. Nesta noite, Zé está com a tropa toda
reunida e a caminho da boca de Cenoura. Neste momento a
narração de Buscapé nos justifica que milagre só mesmo num
lugar chamado Cidade de Deus (milagre o Cenoura não ter
perdido a boca e a vida naquela noite). Zé e o grupo passam no
caminho pela namorada de Mané galinha. Ele mexe com ela e ela
o destrata replicando: vê se se enxerga. Ele pára, deixa de ir
atrás de Cenoura, vai atrás dela e a vê encontrando Mané
Galinha. Ele a estupra na frente do namorado. Cortamos para o
grupo a caminho da boca de Cenoura novamente. Intercala-se uma
cena em que vemos Mané em casa, se comiserando com a família e
se perguntando: porque ele não me matou? Há um corte e vemos
Zé se fazendo a mesma pergunta: ué, porque é que eu não matei
ele? Zé volta para matar Mané galinha.
Há dois movimentos nesta interação entre a ação dramática
e a narração. De um lado, a ação dramática está plenamente
justificada. Vimos anteriormente várias instâncias
preparatórias desta ação de Zé Pequeno. A que inicia e planta
110
a primeira justificativa para sua ação de abandonar a tomada
da boca do cenoura naquele momento vem da cena em que Bené,
diz para Zé que ele precisa de uma namorada. Depois Zé vê a
namorada de Mané Galinha no baile, se aproxima dela, mas a vê
com Mané e o humilha, mandando que ele tire a roupa na frente
de todos. Isto é, a narração nos auxilia, mas não é ela quem
prepara, houve já uma construção na trama, na ordenação das
ações que justifica a mudança de rumo naquele instante. A
narração, não altera o rumo da ação, ela comenta, e introduz
ironia, pois nos torna cúmplices de algo que Zé Pequeno ainda
não sabe - que vai sucumbir a seu complexo de inferioridade.
O que estamos procurando construir aqui é um modelo onde
possamos identificar Zé Pequeno e Buscapé como protagonistas,
pois não há sentido em pensar em Zé Pequeno como antagonista,
a existência de um antagonista pressupõe a presença do
protagonista. Protagonismo não é uma força para o bem, mas a
existência de uma ação, uma força que move a história adiante.
O termo vem do grego Prôtos, que significa primeiro e
agonizesthai, que significa combater.
14
Mackee faz uma
colocação suscinta:
Generally, the protagonist is a single
character. A story, however, could be driven by a
duo, such as THELMA AND LOUISE; a trio, THE
14
Para os antigos gregos protagonista era o ator que fazia o papel
principal. O ator que fazia o segundo se chamava deuteragonista e o
terceiro, tritagonista. Pavis, P. (1999). Dicionário de Teatro. São
Paulo, Perspectiva.
111
WITCHES OF EASTWICK; more, THE SEVEN SAMURAI or
THE DIRTY DOZEN. In THE BATTLESHIP POTEMKIN an
entire class of people, the proletariat, create a
massive plural-protagonist.(Mackee 1997 pg 136)
Thompson em seu Storytelling in the New Hollywood, divide
os filmes que analisa em três categorias, os com um único
protagonista, aqueles com o que denomina de protagonistas
paralelos e finalmente filmes com múltiplos protagonistas.
Linda Seger define o protagonista da seguinte forma:
O personagem principal é o protagonista, ou
seja, aquele em torno do qual a história gira.
Espera-se que o público o acompanhe ao longo do
filme, torça por ele, emocione-se com ele, enfim
que ele desperte a empatia do público... de quando
em quando o protagonista pode ser um personagem do
tipo negativo.. mesmo assim eles conseguem nos
envolver... Algumas vezes o protagonista é
composto de uma combinação de personagens. (Seger
2007 pg 228).
Armes, comentando vários autores de manuais e a forma
básica da narrativa Hollywoodiana conclui: “in the Hollywood
system of narrative, action and character are locked
indissolubily together”(Armes 1994 pg 126), ou como reitera
seguidamente Syd Field, “action is character”. Isto é, a ação
é desenhada para revelar o protagonista, e o protagonista é
estruturado para motivar a ação.
112
O protagonista, na estrutura clássica, é quem tem esta
ação, quem faz a história avançar. Fica mais claro pensar nas
metas de ambos, Zé Pequeno e Buscapé, na trajetória de suas
peripécias na busca de seus objetivos. Os dois conseguem ou
morrem tentando. Um é o herói trágico, Zé Pequeno, que em
função de não ter um arco de redenção está fadado ao final de
aniquilamento. As próprias forças que utiliza se transformam e
se voltam contra ele. A hubris do personagem é sua própria
força, seu ímpeto de tomar, matar. Isto não lhe deixa avaliar
corretamente a situação em que se encontra, o mundo lhe passa
à frente. Mas Buscapé também tem sua história presente no
filme. Ele não é somente o narrador, ele está sempre presente,
tem sua própria vida dramatizada, com sua tentativa de virar
bicho solto, mas finalmente sucumbindo a uma posição que
poderia ser de zé ruela, mas finalmente se desenha como de
superação em função de sua habilidade pessoal no manejo de uma
câmera fotográfica. Ele é o protagonista de sua história, que
comenta, narra e tem pontos importantes de cruzamento com a
história de Zé Pequeno.
Equacionado desta forma, vemos mais claramente como foi
importante o desenho da estrutura do roteiro – tanto Meirelles
quanto Mantovani comentam a criação de um fichário com os
vários personagens do livro e suas trajetórias(Mantovani,
Meireles et al. 2003). Os autores faziam questão de mostrar a
evolução e traçaram cena a cena o desenvolvimento dos
personagens. Se há muitos, eles todos estão unidos pela
113
história da ascensão de Zé Pequeno e estas várias histórias
estanques, que na estrutura do livro podem ser narradas de
forma esparsa, no roteiro tiveram que ser unificadas, os
elementos que retratam a vida na CDD foram escolhidos, mas
ligados ou incorporados de forma que não fossem vidas ou
histórias apresentadas uma a uma, mas fizessem parte de uma
progressão. Não são apenas informação, como vimos, servem para
qualificar os personagens e avançar a ação, dando a uma mesma
cena várias funções, a de caracterização, de foreshadowing, de
preparação, de causa suspensa, fazendo uso de elementos
constituintes de um roteiro que se quer clássico e
comunicativo com o público.
Outra mudança importante com relação ao livro é o que
acontece na historia do assalto ao motel. Schwarz comenta o
episódio como escrito no livro.
“The hotel attack – which had only degenerated
into a bloodbath because the boys were so nervous
– becomes a newsworthy event, an elevation of the
hoodlums’ authority and that of the terror they
inspire. A new mechanism of perversely inflating
integration has been set in place: the most
inhuman acts acquire positive value once they are
reported by the media – which in turn, become a
kind of ally in the struggle to break the barriers
of social exclusion. “Gangsters got to be famous
114
to get respect”, Long Hair told Little
Black.”(Schwarz 2005 pg 7)
No filme, o banho de sangue acontece, mas não é porque os
rapazes estavam nervosos, e sim porque Dadinho exercita seu
instinto assassino, demonstrando prazer em matar. Esta
alteração nos traz mais próximos de Zé, nos mostra que a
história é dele. Constrói uma ligação causal e temporal
(através da narrativa, da estruturação da trama e do recurso
de adiar a revelação) entre as partes do filme. Desta forma
temos uma progressão clara de uma parte à outra. A unidade vem
do fato da ação ser dada por Zé, construída em função das
necessidades e dos desejos dele. Não é acaso, a progressão
entre as partes é justificada e há desta forma a construção de
uma meta dramática que está plantada na primeira parte também.
4.6 MAS, AFINAL QUEM CONTA A HISTÓRIA?
O uso de narração no cinema sempre foi objeto de certo
preconceito, manuais de roteiro apregoam que é sempre melhor
mostrar do que contar. William Goldman, autor de vários
roteiros importantes
15
, vaticina: “In a movie you don´t tell
15
Butch Cassidy & the Sundance Kid (1979), Misery (1990), The Princess
Bride (1987), All the President´s men (1976), e vários outros. Lista
completa no www.imdb.com
115
people things, you show people things.”(Goldman 2000). Alguns
listam o uso de narração como uma muleta, um recurso dos
roteiristas desesperados que não conseguem encontrar uma ação
que resolva o problema. Sarah Kozloff lista inúmeras
instâncias como esta para mostrar que o preconceito contra o
uso do voice-over é antigo. Ao discutir o uso no cinema ela se
posiciona com respeito ao caráter próprio do meio:
For myself, try as I might, I cannot place
film wholly under narrative’s umbrella. There
seems to me a core component, the quasi-presence
of the actors and their independent contributions
to the text, that links the medium with drama.
However, at any rate, adding oral narration to a
film does not interject a literary technique into
an unadulterated dramatic form (once again, it
does not introduce a “telling” to an untainted
“show”); all it does is superimpose another type
of narration on top a mode that is already at
least partly narrative.(Kozloff 1988 pg 17)
A autora segue para mostrar que se quisermos pensar nesta
narração o romance não é o meio mais apropriado para procurar
similaridades. Ela coloca como mais próximo o papel do
narrador no teatro. Argumenta ainda que como pensamos o teatro
como o domínio do drama, esquecemos das instâncias narrativas
que são freqüentemente utilizadas no palco. Ela lembra que o
teatro grego e romano fazem uso de coro; as peças milagrosas
116
da idade média incluíam prólogos e muitas formas de teatro
oriental tradicionalmente usaram narrativa junto com a ação
dramática.
No cinema em seus primórdios, no cinema mudo, havia a
figura do narrador, o indivíduo que auxiliava a platéia a
entender as imagens projetadas na tela e a história que se
desenrola. Com o desenvolvimento da linguagem cinematográfica,
estes narradores foram perdendo espaço – o público se habituou
ao fluxo das imagens e ao código inerente para a construção da
narrativa. Com o advento do som, esta função deixa
completamente de existir. Mas, no Japão, a figura do benshi,
era tão comum e aceita que em 1927 havia 6818 benshi em
atividade, gozando de um status geralmente atribuído a
estrelas de cinema e mesmo depois do advento do som, a
profissão persistiu por vários anos. Eram tão famosos que
platéias inteiras escolhiam a sessão de cinema mais em função
do benshi do que do próprio título em exibição.(Cook 1990 pg
779)
O elo entre narração no sentido estrito de um contar está
dado desde os primórdios no cinema. Os intertítulos são outra
forma de intervenção narrativa, e se tiveram início no cinema
mudo, persistem até hoje como recurso utilizado em um número
maior ou menor de filmes. Mas, o uso do recurso não diminui a
dualidade no meio, ele existe enquanto forma dramática e
narrativa. Kozloff o coloca o recurso à narração mais próximo
do drama no palco.
117
Because theatrical narration, like voice-over,
is first intermittent, secondly, interwoven with
dramatic scenes that are not mediated through a
narrator; and thirdly – crucially – spoken aloud,
it parallels voice-over narration’s formal
characteristics much more closely than novel
narration.(Kozloff 1988).
A autora recorre a Christian Metz quando se pergunta quem
narra no filme. Segundo ela a posição mais clara é a assumida
por Metz ao propor a figura do ‘mestre de cerimônias, o ‘grand
image maker’ como instância de geração do discurso, pois desta
forma não se confundem o narrador do voz-over e a instância
que gera o discurso. E junto a isso ela assume as categorias
de Gerad Genette, que cunha os parâmetros de focalização
(interna – externa), relação (heterodiegético ou
homodiegético) e nível (extradiegético ou intradiegético).
(Genette 1990 pg 128)
Ao qualificar o que seria um narrador em voz over
homodiegético ela identifica que ele sempre será subordinado à
instância narrativa mais poderosa, o que seria o grand-image
maker, conforme colocado por Metz, que é quem dramatiza a
história na tela. Ao tentar colocar o espectador no processo,
ela nos identifica com uma vontade de não prestar atenção à
questão de quem narra e aceitar o personagem como principal
contador da história. Isto a menos que a narração torne
evidente o processo(Kozloff 1988 pg 48). Kozloff volta e
118
afirma que devemos reconhecer que o narrador em voz-over está
sempre falando para alguém, seja este alguém o público na sala
de cinema, um alguém a quem se narra dramatizado ou somente
ele mesmo e que o ato de contar a história em voz alta
evidencia a história fílmica como um ato deliberado e
consciente de comunicação. Desta forma, um filme com narração
em voz-over difere de um filme sem narração em voz-over em que
os personagens nunca estão ‘atentos’ á câmera e à presença de
espectadores e também um na qual os espectadores estão na
posição de espiar as atividades dos personagens. Se isto é
verdade, a narração em voz over funciona como que um
instrumento para inserir a culpa no processo que conforme
Laura Mulvey estabelece, está associado no filme clássico a um
prazer voyeurístico.(Mulvey 1992).
Em Cidade de Deus a narração em Voz Over ajuda a dar
estrutura ao filme e é usada para motivar a passagem de uma
parte a outra. Acontece aqui, ao assistir o filme, o que
Kozloff escreve como alerta. Tomamos o narrador (Voz Over)
como gerador da história e nos esquecemos de observar o
instante anterior, o instante de gênese. Nisto temos duas
tensões, uma a força dramática, dada pelo protagonismo de Zé-
Pequeno e outra a presença organizadora na figura de Buscapé.
Ismail Xavier, reconhece esta estrutura ao afirmar que “ele é
o dono da voz (se referindo a Buscapé), mas não o protagonista
do filme no plano do espetáculo(Xavier 2006 pg 142). Para
Ismail a força retórica do narrador vem do fato de “estar em
119
sintonia com os espectadores funcionando como pólo mediador
desta tragédia de vingança e luta pelo poder”.
Ismail aponta também para uma questão na construção do
roteiro. Não havendo quase nenhuma informação sobre o âmbito
familiar de cada um dos personagens, excluída a presença do
pai de Buscapé e Marreco, todos estão no espetáculo sem
explicação anterior, sem backstory, como diriam os autores de
manuais de roteiro, sem história pregressa. Esta presença
somente na ação, pode ser vista de duas formas, como uma
exclusão, no sentido de que os personagens têm seus destinos
traçados pelas ações presentes, sem passado, o que para alguns
comentadores parece indicar superficialidade no
desenvolvimento dos personagens e um certo determinismo
fatalista no seu desenho. “Todos exibem, desde a abertura, os
traços de comportamento que vão selar os seus destinos como
resultado de sua índole pessoal. Eles são o que são” (Xavier
2006).
Neste choque entre duas forças, a dramática dada pela ação
de Zé Pequeno e a força estruturadora da narrativa pela
narração em voz-over de Buscapé, torna-se possível presenciar,
com certo prazer e sem culpa, as matanças, chacinas,
calamidades e mazelas da vida particular dos personagens. A
presença de Buscapé, figura amigável, com quem podemos ter
empatia, e que nos guia, torna possível nossa entrada num
mundo totalmente desconhecido. Esta realidade passa a poder
ser vista por um público totalmente removido, que desconhece
120
seus códigos, seu modo interno de operar. A apresentação de
informação é exemplar. Desde a forma exemplar como é
estruturada a moldura narrativa, até o limite do didático na
explicação da atividade do tráfico de drogas – a endolação e a
venda. Aqui talvez seja melhor inverter a observação de Laura
Mulvey, afinal esvai-se um pouco da culpa por não sermos tão
voyeurs nesta atividade. Fomos, afinal de contas, convidados
para a festa.
4.7 UMA DESCRIÇÃO DO FILME:
O filme todo tem 120 minutos. A ação termina aos 118
minutos, quando Buscapé faz sua última intervenção em voz over
e nos avisa – ah esqueci de dizer, agora ninguém me chama mais
de Buscapé, agora sou Wilson Rodrigues, fotógrafo. Ainda nos
créditos finais, vemos a entrevista de Mané Galinha a Sergio
Chapelin, ao lado da foto do ator Seu Jorge. Mas estamos já
distantes do âmbito da ação. Estes elementos nos créditos são
um comentário, buscando reforçar a idéia de que a ação está
calcada na realidade, o mesmo se aplica às fotos do elenco
junto a fotografias de personagens reais.
O filme apresenta três tempos bastante distintos, os anos
60, os anos 70 e a atualidade da diegese que é representada
pelo tempo dado na história da moldura. Isto é reforçado pela
121
narração com o recurso a letreiros. Mas será que podemos
pensar em cada um destes tempos como uma das partes
identificadas por Thompson? Será que os elementos épicos
presentes desfazem a argumentação pelas partes motivadas pela
ação (Field) ou alteração na motivação do protagonista
(Thompson)? Há que se pensar desta forma com relação a este
filme? Pensar desta forma traz algum benefício no entendimento
de sua estrutura, alguma aplicação prática?
Vejamos primeiro a divisão em relação ao quesito duração
com relação às partes como indicadas pela intervenção de
letreiros sobrepostos à imagem, recurso recorrente no filme.
Temos o início do filme com a ação em paralelo de Zé Pequeno e
seus comandados que acabam correndo atrás da galinha e Buscapé
e Barbantinho que caminham pela favela. A ação em paralelo
leva ao encontro “casual” que gera a situação para o início da
narração em Voz Over de Buscapé e o estabelecimento do que se
denomina de moldura. A passagem da moldura acontece aos 3:48
na cena do campinho, com a legenda que indica a temporalidade,
ANOS 60, e o segundo letreiro que indica que veremos a
História do Trio Ternura”. Deste momento até a transição com
wipe aos 32 minutos vemos as histórias dos meninos Buscapé,
Barbantinho, Dadinho (futuro Zé Pequeno) e Bené, mas o
condutor da ação é a história do trio ternura.
Esta década e a história do Trio Ternura se encerram com a
morte de Cabeleira. Nesta cena fica marcado também o interesse
de Buscapé pela câmera do fotógrafo que está documentando o
122
evento. A narração em voz over de Buscapé reforça o que a ação
dele indica no plano dos eventos, sua ligação com a
fotografia.
Buscapé: tudo que eu me lembro no dia da morte do
Cabeleira é uma confusão de gente e uma máquina fotográfica.
Eu cresci paradão na idéia de ter uma máquina fotográfica.
A ação de Buscapé mostra este interesse - Barbantinho tem
que puxar Buscapé para longe da cena, pois ele está vidrado na
máquina do fotógrafo. É neste caminhar que temos a passagem
para o que será identificado como os anos 70.
Até aqui tivemos aproximadamente 30 minutos. Foi indicada
a vontade de Buscapé de ter uma máquina fotográfica, mostrou-
se a vida do Trio Ternura, um grupo de bandidos ainda estilo
antigo, que distribuem gás para a população, que são bons
vivants, mas que não tem neles o necessário para sobreviver
nas décadas que virão. São duas histórias, na verdade várias,
a do trio ternura, a da dupla Dainho e Bené, e a de Buscapé
que por ser irmão de Marreco, apresenta ligação direta com a
do Trio Ternura.
Já nos anos 70, uma cena curta do grupo de jovens a
caminho da praia, saindo da Cidade de Deus.
Buscapé está na praia com amigos e uma legenda indica:
ANOS 70. (Aos 32:30)
Buscapé tem uma máquina fotográfica, mas é a câmera mais
barata que se pode comprar, como ele mesmo diz em Voice Over.
O uso da máquina e das fotos reforça um dado na trama, o
123
interesse de Buscapé por Angélica. Ao posicionar os amigos
para uma foto, colocando Tiago na sombra, ele mostra que quer
apagar Tiago, o atual namoradinho dela. Novamente a narração
em voz over é reforçada pela ação no plano dos eventos. No
final da cena Buscapé se coloca uma tarefa, buscar um baseado
para Angélica.
Buscapé vai até a boca dos Apês, boca de um ex-colega que
largou a escola, o Neguinho. (35:00). A narração em voz over
da trajetória da Boca dos Apês é extremamente rápida e faz em
forma de sumário, o encadeamento das mudanças na posse do
local. Em três minutos (tempo de duração no filme), Buscapé
narra em voz over a história da boca, que reflete a
profissionalização no processo de venda da droga, se é que se
pode chamar isso de profissionalização. Nesta mudança, de
atividade de uma mulher que precisa de dinheiro para criar as
filhas, para o local de uma atividade que se impõe pela força,
vemos a passagem de Grande, para Cenoura (que ainda mata
Aristóteles, um quase irmão seu que atrasa no pagamento) e
finalmente para Neguinho.
LETREIRO: A HISTÓRIA DE ZÉ PEQUENO (38:40)
Retornamos ao assalto no motel, recuperando o final do
assalto que na ordenação da trama havia sido omitido. Desta
forma, a trama nos mostra novamente os anos 60 e conforme
Buscapé narra em voz over, “Dadinho matou sua vontade de
matar”.
124
Aos (39:33) Buscapé nos conta o período na infância de
Dadinho em que ele e Bené viveram nas ruas, assaltando pessoas
e vivendo de vários esquemas. Dadinho está trabalhando de
engraxate numa rua, um “otário” está tendo seu sapato
engraxado. Dadinho o chama de otário e Bené vem por trás e lhe
dá uma paulada, os dois roubam pertences do “otário” e fogem
correndo, perseguidos por policiais. Estava na cara que eles
iam se dar bem no crime, diz Buscapé em Voice Over. Muda a
cena e Dadinho e Bené estão na Cidade de Deus, o tempo da
diegese é o mesmo da fuga de Marreco, quando o Paraíba volta
para sua casa e o pega com a esposa. Aqui vemos como Marreco,
irmão de Buscapé, foi morto por Dadinho. Após a morte de
Marreco, vemos uma seqüência de montagem que apresenta vários
assassinatos praticados por Dadinho, indicando que ele é um
assassino com cada vez mais mortes nas costas. Vemos ao final
da seqüência ele e Bené, já adolescentes. No último plano
desta seqüência, Dadinho adolescente atira para baixo em
direção à câmera, matando alguém neste extra quadro, mas Bené
atira para cima – o que já reforça de um lado a diferença de
atitude dos dois personagens. (40:43)
Avançamos agora para uma cena que concentra muitos dos
personagens importantes do roteiro, é a cena do aniversário de
18 anos de Dadinho, o momento em que ele decide que o negócio
é o tóxico. Todas as figuras importantes do tráfico no local
estão presentes - mas faz-se também um elo com o passado,
Berenice, a namorada de cabeleira, irmão de Bené, está lá.
125
Estão lá Neguinho e Cenoura, donos de bocas de tráfico. Há
também a primeira apresentação de Mané Galinha a quem Dadinho
ameaça com uma arma por não ter percebido a presença do
bandido. É uma cena de condensação na apresentação de
personagens que serão importantes no desenvolvimento da
trajetória de Zé Pequeno. Reforça também as duas atitudes
diferentes, a de Dadinho, violento, e Bené, conciliador.
No plano da ação Dadinho expõe sua idéia: a gente mata
esses otários e toma a boca deles. Bené pergunta quando devem
começar, meio rindo, dadinho incisivo reponde – agora. O olhar
de Bené evidencia a dúvida de Bené com relação à idéia.
(42:27).
A seqüência seguinte é o batismo de Zé Pequeno, dura
aproximadamente 1 minuto e vemos que agora ele tem um novo
nome – Zé Pequeno. Ao estruturar seu plano ele muda de nome.
Ao executá-lo ele vai merecê-lo.
Numa nova aceleração em seqüência de montagem, vemos as
várias mortes perpetradas por Zé Pequeno. Além disso, a
narração nos apresenta agora uma folha de contato fotográfico,
fotos aéreas que mostram o desenho da favela. Traçado com
lápis vermelho estão os contornos das várias áreas da favela e
suas respectivas “bocas”. Não são fotos que Buscapé poderia
ter tirado, mas não nos questionamos quanto à validade da
apresentação. São uma intervenção como as apresentações de
mapas, ou desenhos que ilustram uma trajetória, um trajeto a
126
seguir
16
. O motivo fotográfico ajuda a ligar a proposta ao
desenho gráfico do filme e à motivação de Buscapé. É pela lupa
de fotógrafo que examinamos as várias bocas e seus contornos.
A imagem das fotos e o desenho em lápis colorido reforçam a
indicação da narração de Buscapé em Voz Over sobre as bocas
que foram tomadas. Buscapé diz que a boca do Cenoura não foi
tomada porque Cenoura era amigo de Bené. “Só ficou faltando a
boca dos Apês”.
Cena da chegada do grupo de Zé Pequeno para tomar a boca
do Neguinho. Agora, pela primeira vez estamos mais próximos do
ponto de vista de Zé Pequeno, ele entra na boca e vemos a ação
da tomada da boca repetida em planos diferentes. Bené não
deixa que Zé mate Neguinho. Buscapé, que estava ali para
comprar um baseado para Angélica, ao ver a arma de Neguinho
numa mesa, se lamenta em Voz Over, pois o que deveria fazer é
matar o homem que matou seu irmão. Mas Buscapé não tem coragem
e vai saindo de fininho. Zé o vê e aponta a arma para ele, mas
novamente Bené intervém e diz que aquele é Buscapé, irmão do
falecido Marreco – que foi morto por Dadinho. Zé manda que
Buscapé saia anunciando que agora ele é o dono do pedaço e que
ali vão começar a vender cocaína. (45:00)
Aos 45 minutos temos a narração em voz over de Buscapé que
discorre sobre a lógica do negócio do tráfico. É um negócio
16
Didático e eficiente como por exemplo os mapas desenhados e animados pela
Disney para a séria de 7 filmes intitulada Why we Fight, comissionadas ao
diretor/produtor Frank Capra para o esforço de guerra americano, durante
a segunda guerra mundial.
127
como qualquer outro, diz Buscapé que nos conta toda a
estrutura de operação, o plano de carreira, a interação com a
polícia, e como Zé em função de não deixar inimigo vivo acabou
tornando a CDD um paraíso para os compradores e drogados. Em
dois minutos temos uma aula sobre a estrutura do tráfico, e se
esta não é uma realidade que conhecemos, temos agora uma forma
de entender sua atividade. (47:00)
Agora, na ação e no Voz Over de Buscapé retomamos o motivo
da compra de um baseado por Buscapé – agradar Angélica. Ele
consegue comprar na boca do Cenoura e cortamos para os dois na
praia fumando o tão batalhado baseado. Mas, apesar de ter
conseguido o baseado ele não vai conseguir transar com
Angélica - os meninos da caixa baixa interrompem o momento em
que ele fuma na praia com a garota. Buscapé nos conta em V.O.
que ela já havia dispensado Tiago e ele estava quase
conquistando Angélica. Ela, no plano da ação observa fotos
tomadas por ele, que cometa serem ótimas. Os dois começam a se
beijar, mas os garotos da caixa baixa aparecem e interrompem o
entrevero amoroso. A narração em voz over de Buscapé adianta
que “essa foi a primeira vez que os moleques da caixa baixa
atravessaram o meu caminho”, plantando já mais uma causa
pendente (48:35).
Na cena seguinte, vemos filé com fritas - garoto que fica
com este apelido por ser o aviãozinho que traz comida para
Bené e os traficantes - receber uma boa gorjeta de Bené
(novamente reforçando o lado bom do bandido). Alí estão
128
Neguinho, devidamente mancando e Tiago que agora está
cheirando mais “depois que se separou de Angélica”. Aqui vemos
o momento em que Bené decide que vai se vestir como cocota.
Bené empresta a bicicleta de Neguinho e aposta corrida com
Tiago, que perde, por respeito e medo de Bené. Bené pede que
Tiago lhe compre roupas iguais à dele. Música extra diegética
com metamorfose ambulante, de Raul Seixas, realça o clima de
alegria, e comenta a mudança de Bené. (51:11) Ainda com a
música vemos o processo de transformação de Bené, que
experimenta várias roupas trazidas por Tiago. A mudança
culmina com a chegada dos dois na praia e um grupo grande de
cocotas. Bené já está com o cabelo oxigenado. Buscapé e
Angélica são apresentados por Tiago a Bené. Em dois planos
curtos já intuímos que vai haver um interesse entre Bené e
Angélica. (52:00) Ainda com a música de Raul Seixas, vemos
Bené entrando numa sala em que estão Zé e todos os
trabalhadores da boca. Uma cena cômica, a música é
interrompida exatamente na hora em que todos vêem Bené. Zé
Pequeno zomba do amigo - tenho uma notícia para dar pra vocês,
cocota bota ovo quando balança a bundinha no baile, diz ele.
Todos riem, Bené saca a arma e atira para cima, ao que todos,
menos Zé Pequeno, saem correndo. Zé nem se mexe, pois não se
intimida com a ação do amigo. (52:50)
No corte vemos Bené dançando ao som de Sex Machine, de
James Brown, estamos num baile funk. Zé vem até ele e indica
que quer matar Cenoura. Bené desconversa. A narração agora
129
mostra duas linhas temporais simultâneas, a tela se divide ao
meio; de um lado vemos Buscapé chegando com Angélica e do
outro a ação de Zé, confrontando Cenoura. Buscapé em Voz Over
reforça novamente a boa índole de Bené: “Ele era o bandido
mais responsa da Cidade de Deus, distribuía maconha pagava
cerveja... o Zé era o contrário, só trabalhava, só pensava em
ser o dono da favela, tava sempre arrumando desculpa para
tomar a boca do Cenoura”. No plano da ação vemos Cenoura que
desconversa e sai quando Zé vem até ele lhe cobrar sobre
deixar os moleques da caixa baixa assaltarem na área dele. Em
ação paralela na cena do baile funk, Bené tira Angélica para
dançar. Barbantinho diz para Buscapé que está tudo certo, ele
pode usar a casa de Barbantinho para ficar com Angélica e
perder a virgindade. Mas angélica está dançando com Bené.
Cenoura passa correndo e Bené vai atrás ver o que acontece. É
a briga de Cenoura com Zé, que quer usar como desculpa para
acabar com ele o fato dos meninos da caixa baixa estarem
assaltando na área de Cenoura. Angélica observa e mostra
interesse em Bené que age como mediador e impede a briga.
(55:34)
Agora passamos para a narração em voz over de Buscapé que
conta porque os moleques da caixa baixa causam tantos
problemas. No plano da ação os vemos tomando uma padaria, que
pela narração em voz over de Buscapé fica indicado que deve
ser na área do Cenoura. (56:06) Buscapé nos conta como a área
ficou segura: era só falar com o Zé Pequeno. No plano da ação,
130
vemos o dono da padaria reclamando com Zé. Bené pede que ele
não machuque os meninos. Zé vai atender, de uma certa maneira,
pois não será ele diretamente quem executará a maior
violência. Na cena seguinte vemos a ação de Zé indo resolver a
reclamação. Ele e seus comandados, sem Bené presente, passam
por Filé com Fritas, que é convidado a seguir com eles.
(56:40)
Eles atravessam uma ruela com barracos e chegam até o
local onde ficam os meninos da caixa baixa. Aqui em ação,
vemos Zé que atira nos pés de dois garotos que não conseguiram
fugir. Mas o ápice de violência na cena vem quando ele faz com
que Filé com Fritas tenha que escolher e matar um dos meninos.
Aqui a ação é mais impactante que qualquer narração e temos
talvez um dos períodos mais longos em ação sem interrupção da
narração de Buscapé. (60:00) São pouco mais de três minutos.
Temos um plano isolado de um cachorro comendo um pedaço de
carne no meio de uma ruela.
Volta a narração de Buscapé que nos conta que Zé Pequeno
ganhou o respeito dos moradores e Bené o coração da Angélica.
Mas no plano da ação, importante também é que vemos a namorada
de Mané Galinha numa mesa no mesmo buteco que Zé, que olha
para ela e no corte passamos para um plano rápido de Bené
beijando Angélica. Isto é, a cena reforça sutilmente a
presença de personagens que serão importantes no futuro - um
artifício recorrente no filme - a namorada de Mané Galinha,
que vira interesse de Zé e vai disparar o começo de seu fim.
131
No plano seguinte vemos Buscapé na praia que nos conta que
continua virgem, sem namorada e duro – “sem grana eu não tinha
outra saída”.
LETREIRO: VIDA DE OTÁRIO (60:24)
Pela narração em Voz over Buscapé nos conta que arrumou
emprego num Macro, mas que está esperando que o mandem embora
para poder pegar o fundo de garantia e finalmente comprar a
tão sonhada máquina fotográfica. Mas não foi bem assim que
aconteceu, confessa ele. Os meninos da caixa baixa estão no
Macro também e o vigia os vê cumprimentando Busca Pé. Na cena
seguinte vemos Buscapé sendo mandado embora, e por justa
causa, como vemos o gerente alegar e como comenta Buscapé em
V.O.
Segue-se um plano médio de Buscapé, que observa Bené e Zé
passarem rindo em suas mobiletes. Zé cai mais à frente e
Buscapé comenta: parecia uma mensagem de Deus, se liga aí ó,
honestidade não compensa.
LETREIRO: CAINDO NO CRIME (61:40)
Buscapé recupera a arma do irmão, que depois destes anos
todos continua na mesma caixa em que foi colocada quando
Marreco se aposentou da vida do crime para trabalhar para o
pai deles vendendo peixe, na década de sessenta.
Cena do ônibus, Buscapé está com a arma, junto com
Barbantinho. Mas ele não consegue assaltar o ônibus porque o
cobrador é da Cidade de Deus e muito boa gente. O cobrador é
Mané Galinha e pelo diálogo ficamos sabendo, enquanto ele
132
tenta convencer os meninos que devem sair de lá da CDD e
estudar, que ele serviu no quartel, fez o colegial e está num
trabalho que quer seja só temporário. Ele é bom de briga. A
Narração em V.O de Buscapé adianta já um elemento do futuro,
Quando barbantinho pergunta se Mané é bom de briga, ele diz
que é bom de paz, mas que se precisar... Buscapé completa no
V.O. - mal sabia ele que ia precisar e muito, mas não agora,
ainda não é hora de contar a história do Mané Galinha.
Os dois descem do ônibus e também não conseguem assaltar
uma padaria, a balconista era muito legal também.
Os dois caminham e um fusca para, o motorista pede
informação, pois está perdido. Naquele momento eu pensei, esse
paulista vai dançar, comenta Buscapé no V.O. - indicando que
eles vão subir no carro e assaltá-lo. Mas os eventos conspiram
contra a índole dos dois pretensos ladrões e o motorista se
revela um cara legal também e apresenta um baseado para os
dois.
Este é também um momento de junção de duas linhas de ação,
Buscapé, Barbantinho e o Paulista passam por algumas viaturas
que estão verificando um assassinato numa avenida junto a um
matagal.
Depois de passarem pelos policiais, entre eles Cabeção, o
Paulista oferece o baseado. Na falta de uma seda, Buscapé usa,
inadvertidamente, o papel onde a balconista da padaria havia
anotado o telefone dela. O V.O. é irônico, a ironia dramática
é construída tanto na narração em V.O. quanto pela ação, que
133
confirma e completa a frase de Buscapé. “Eu sempre fui um
mestre na arte de apertar um baseado, se eu tivesse a mesma
habilidade com as mulheres não teria perdido tanta chance de
acabar com a virgindade”. No plano dos eventos vemos o número
de telefone da garota queimando e desaparecendo com o cigarro
de maconha que se consome. (65:42)
Voltamos para a avenida e vemos o que descobriremos ser a
mulher de Neguinho, que ele matou e largou ali com o filho
bebê. Cabeção diz que isso só pode ter vindo da Cidade de
Deus. A cena seguinte é a resultante disto. (66:14)
A polícia passa por uma rua da CDD. Na boca dos apês, Bené
cheira e Zé Pequeno bate e ameaça matar Neguinho, pois ele
passou a mulher dentro da favela. Bené intervém e salva a vida
de Neguinho. Mais à frente veremos a conseqüência deste ato -
Bené vai morrer pelas mãos de Neguinho. Zé deixa Neguinho
sair, mas para ir embora da favela. A cena aqui avança duas
linhas também, retoma a vontade de Zé de tomar a boca de
Cenoura, mas com a intervenção de Bené, que diz a Zé que ele
precisa de uma namorada, Zé fica desconcertado. (67:50)
Num apartamento, Bené e Angélica fumam depois do sexo.
Angélica fala da vontade de mudar para um sítio e viver de paz
e amor. (68:40)
Agora Zé está se arrumando em frente a um espelho
quebrado. Ele vai atrás de mulher é o que subentendemos da
ação da cena anterior com a indicação de Bené de que ele
precisa de uma namorada.
134
LETREIRO: A DESPEDIDA DE BENE (68:54)
Seqüência da festa de despedida de Bené. O V.O. de Buscapé
retorna, para indicar que Bené esta indo embora. Esta
seqüência é extremamente complexa, unindo várias linhas de
ação, recolocando motivos como a câmera fotográfica, objeto de
desejo de Buscapé, como objeto conseguido depois retirado e
finalmente como um dos elementos de justificativa para a briga
entre Zé Pequeno e Bené, algo que dá chance para Neguinho, que
vem tentar matar Zé, errar o alvo e matar o bandido mais
responsa da Cidade de Deus. A narração em Voz Over está
presente no início da seqüência, mas a maior parte dela é
composta pela ação no plano dos eventos.
Zé, no seu afã de pegar alguma mulher, se aproxima da
Namorada de Mané galinha que está numa mesa, com outros
jovens. Aqui a construção é de uma típica cena de adolescente
que não sabe como se aproximar de uma mulher, vemos a
indecisão de Zé. O drama, vermos a ação e a intenção de Zé são
mais fortes do que a narração do constrangimento dele poderia
ser. A mesma coisa vale para o momento em que Zé, depois de
ser recusado pela garota, vai chamar Bené, e o puxa para o
lado, enquanto ainda vemos Angélica ao fundo do quadro. Zé diz
a Bené que ele não pode ir embora com essa piranha. Bené
replica que ela é a mulher dele. Que ele Bené, gosta muito de
Zé. Há um corte e vemos um plano dos dois na época de garotos,
isto reforça a histórica ligação dos dois. É uma forma de
narração, intervindo no plano dos eventos, um comentário da
135
narração. Mas, importante também é que a rejeição é vista no
plano dos eventos. Ficamos com a frustração de Zé, este
momento justifica sua explosão a seguir, quando ele vê a
namorada de Mané Galinha e Mané Galinha juntos. Ele segue para
lá e ameaça Mané, que tem que tirar a roupa e dançar nu no
meio de todos.
Agora vemos Neguinho, ele veio para matar Zé. A seqüência
se desdobra em três planos de ação.
Neguinho quer matar Zé.
Zé está humilhando Mané galinha.
A máquina fotográfica para Buscapé: Tiago traz para falar
com Bené, um amigo que quer trocar uma máquina fotográfica por
cocaína. Mas Bené diz que não faz mais isso. Angélica é quem
lembra Bené que Buscapé quer uma máquina. Bené então troca
alguns papelotes pela máquina e chama Buscapé. Buscapé fica
radiante com o presente.
Voltamos a Mané Galinha, agora pelado na frente de todos.
Zé ri, voltamos para Bené e Buscapé, que ri com a máquina nas
mãos. Zé olha, percebe a alegria dos dois e caminha para tirar
a máquina das mãos de Buscapé. Não há sentido em descrever em
V.O. a ação de Zé, a dramatização é mais eficiente. Ele e Bené
se pegam pela posse da câmera e caminham, um puxando a câmera
das mãos do outro, para longe de Buscapé e para o meio da
multidão que dança. A intervenção mais clara da narração se
dará pela troca da música e pela alteração no estilo da luz,
que começa a piscar, criando um ritmo, para a entrada de
136
Neguinho que finalmente atira, mas erra o alvo. A luz continua
frenética, alternando claro e escuro. Todos saem da pista de
dança, ficam somente Angélica e Zé Pequeno, agachado ao lado
de Bené. Ao final da seqüência Zé chora e atira para o alto,
depois de expulsar Angélica dali. (76:05).
Neguinho vai até Cenoura e lhe conta que matou por engano
Bené, na tentativa de matar Zé Pequeno. Cenoura o mata.
(77:00) A narração em V.O de Buscapé nos diz: o Cenoura sabia
que sem o Bené, só um milagre podia salvar a boca dele.
Uma seqüência de planos rápidos do grupo de Zé se
movimentando pela favela. A montagem é acelerada. A narração
em V.O. de Buscapé é irônica e comenta: mas tem um lugar
melhor para acontecer um milagre que uma favela chamada Cidade
de Deus? Neste momento no meio dos homens de Zé Pequeno passa
a namorada de Mané Galinha. Zé mexe com ela, mas ela retruca:
vê se se enxerga. Zé fica mordido e a segue. Ela encontra Mané
Galinha e os dois se abraçam, depois vêem que estão sendo
observados por Zé Pequeno. Aqui a narração de Buscapé nos
reforça o que já sabemos. O problema de Zé é que ele é feio,
Mané é bonito. Zé só consegue mulher pagando, diz Buscapé. Os
dois namorados começam a caminhar para longe, procurando se
afastar. Zé Pequeno observa, mas no plano do som já ouvimos os
gritos da namorada sendo estuprada. Os planos seguintes
reforçam o ponto de vista de Mané Galinha. Não conseguimos
discernir rostos de nenhum dos outros na cena, seja a namorada
ou Zé Pequeno. Depois com a câmera ao nível do chão, vemos as
137
pernas de Zé que vem e diz: muito gostosa a sua mulher ô Zé
ruela. Ele atira para perto do rosto de Mané Galinha. (78:40).
Zé está em casa se comiserando para seus familiares. Ele
se pergunta, porque é que aquele filha da puta não me matou?
Num corte, vemos Zé, em meio a seu grupo, novamente em
rota para tomar a boca de Cenoura, se fazendo a mesma pergunta
– Peraí, porque é que eu não matei o filha da puta? Vambora
voltar. Ele chama seus comandados que tornam a voltar. Aqui o
elo entre as cenas é direto, um pergunta o outro responde.
Causa – efeito – conseqüência. (79:40)
Na casa de Mané Galinha, Zé chega com a tropa, chama Mané
que é segurado por seus familiares, mas o irmão menor de Mané
pega uma faca de cozinha e sai para falar com Zé. Ele tenta
matá-lo com a faca, mas é morto na tentativa. Zé e seus homens
abrem fogo contra a casa, quebrando tudo e matando o tio de
Mané Galinha. Zé diz que está ferido, que vão ter que adiar a
tomada da boca de Cenoura e vai embora com o grupo. Mané
Galinha caminha para fora de casa e vê o irmão morto. Cenoura
se aproxima e lhe oferece um revolver. (82:45)
Tuba está fazendo um curativo no braço de Zé Pequeno que
se lamenta por ter deixado aquele moleque lhe ferir. Tiros são
disparados, é Mané Galinha que atira e caminha sem medo. Todos
os bandidos fogem. Mané mata um bandido. (83:20)
Zé Pequeno segue com Tuba, que não pára de falar em como
Mané dispersou os bandidos. Ele fala tanto que Zé fica de saco
138
cheio e o mata logo antes de entrar no edifício da Boca dos
Apês. (83:43)
Da janela de um apartamento Buscapé fotografa a cena da
matança. Buscapé: parece que de repente a Cidade de deus tinha
encontrado um herói. (84:11)
É dia e o V.O de Buscapé anuncia: eu achava que o Mané
galinha ia mudar a Cidade de Deus, mas Deus tinha outros
planos para ele. Tiago passa por Filé com Fritas. Ele quer
cocaína, mas pelo diálogo deles, ficamos sabendo que estão
todos entocados, em função da guerra com Cenoura. (84:40)
A cena seguinte é não é ao mesmo tempo uma ligação causal
com a cena anterior. De um lado, estamos aguardando que filé
com Fritas entre na boca pedindo a droga requisitada por
Tiago, mas isto não acontece. O que vemos é a boca dos Apês,
onde Zé caminha nervoso de um lado para o outro e finalmente
decide. Ele abre a porta e chama Filé com Fritas. Por um lado
esperávamos ver Filé com Fritas, mas aqui a função dele na
cena é outra. Zé manda Filé ir até a boca do Cenoura dar um
recado. Na cena seguinte veremos o recado sendo dado por Filé
com Fritas.
Cena na boca do cenoura. Filé está repetindo o que Zé lhe
mandou relatar: que ele deixará Cenoura em paz se este matar
Mané Galinha. Mas, Mané Galinha está ali com eles e se revela
atrás de uma cortina. Filé o vê e sai correndo. Novamente a
tela se divide em dois, de um lado vemos a continuação da ação
dentro da boca de Cenoura, no outro lado vemos Filé que tenta
139
correr, mas é alcançado e trazido de volta para a boca. Quando
Filé é trazido Mané tenta fazer um discurso perguntando o que
ele tem na cabeça, ainda criança e metido neste meio desta
forma. Filé responde que não é criança não, que fuma, cheira,
“já matei e já roubei, sou sujeito homem.” Mané Galinha decide
fechar com Sandro Cenoura, mas vai ser do jeito dele, ele não
é bandido e não concorda com esse negócio de matar inocente.
Filé é mandado de volta para Zé para informar Zé que agora
Mané Galinha e Cenoura estão juntos.
Cenoura abre uma caixa com revólveres. Mané galinha quer
uma automática. Cenoura sugere roubar uma loja de armas. Mané
diz que não é bandido que não está nisso para assaltar, que a
questão é pessoal. Cenoura o coloca contra a parede em termos
de opções: ele estuprou tua mina, matou teu irmão, matou teu
tio e você não quer nada. Cenoura abre a porta e sugere que
Mané vá embora, que ele não é bandido. Colocado contra a
parede em termos de suas opções, Mané fica parado e a cena se
encerra na dúvida de Mané.
LETREIRO: A HISTÓRIA DE MANÉ GALINHA (87:42)
Até aqui viemos sem intervenção do V.O. desde o momento em
que Buscapé anunciou que Deus tinha um plano diferente para
Mané Galinha, aos (84:20-87:40), são três minutos sem V.O. nos
adiantando a ação ou fazendo uma passagem temporal. Agora
teremos novamente um momento de grande intervenção da narração
140
em Voz Over de Buscapé que faz um sumário da ação de Cenoura e
Mané Galinha na atividade de um roubo para conseguir armas, um
assalto a supermercado e finalmente, um assalto a banco. Aqui
a ironia está dada pelo comentário de Buscapé que nos conta
como a regra de Mané Galinha, a de não matar inocentes, é
alterada pela realidade em que se encontram. É Sandro Cenoura
em ação e pelo diálogo que afirma, “toda regra tem uma
exceção” e reforça a narração de Buscapé que afirma o mesmo.
Isto, pois Cenoura salva a vida de Mané ao matar um segurança
que iria atirar nele. Em três assaltos vemos a mudança na
atitude de Mané Galinha.
Buscapé nos conta que Mané Galinha era o primeiro atirador
do batalhão. O grupo recebe a visita do Tio Sam, que vem
trazer armas. Mané em ação mostra seu conhecimento do
armamento ao comentar que uma pistola tem a mira desalinhada e
depois pedir por um fuzil, arma de precisão, um trinta zero
meia. Depois os bandidos rezam antes de partir para a batalha
e, em meio à reza, vemos uma montagem frenética de tiros,
planos de bandidos percorrendo ruelas escuras e atirando.
Buscapé diz em V.O. que cada tiro de Mané Galinha valia por
dez do bando de Zé Pequeno, e Zé não podia deixar por menos.
Vemos Zé e comandados disparando metralhadoras Uzi - a
profusão de tiros substitui a precisão. A conclusão em Voice
Over de Buscapé é: a vida na favela era um purgatório, virou
um inferno. Eu decidi que tinha que cair fora e foi assim que
comecei minha carreira de jornalista. (90:40)
141
História de Buscapé Jornalista (90:40). Não indicado por
letreiro mas claramente distinto como uma outra linha de ação.
Aqui a mudança de objetivo de Buscapé dispara uma mudança
na história, vamos ficar com a trajetória dele, sua carreira
de jornalista. A narração em Voice Over introduz isto como em
várias outras instâncias, com alta dose de ironia. Assim
começar por baixo no jornalismo é entregar jornais, mas isto é
apresentado através de uma revelação lenta. Um plano da foto
que Buscapé comenta no jornal como sendo de Rogério Reis,
revela, ao abrirmos o quadro, que Buscapé está dentro de uma
perua Kombi de entregador de jornais. A ironia é construída
entre o plano da Narração em Voz over e plano dos eventos, que
contradizem, e através da ironia, ajudam a reforçar nossa
empatia com o personagem.
A narração de Buscapé nos adianta informação que em ação
precisaria de mais tempo para ser colocada ao espectador. O
fato de que ele precisa ter acesso ao laboratório do
departamento de fotografia, fica estabelecido ao comentar que
ali ele encontrou um colega da Cidade de Deus. Assim Buscapé
tem acesso ao laboratório e não nos questionamos sobre a
plausibilidade. No plano dos eventos, Buscapé encontra Rogério
Reis, fotógrafo do Jornal, que vai posteriormente “facilitar”
sua vida ao mandar revelar as fotos que fez do grupo de Zé
Pequeno. “Facilitar”, porque ao mesmo tempo é isto que o
142
coloca no que ele acredita ser um enrosco, mas que se revela
na verdade sua grande chance na fotografia e na vida.
Novo momento de condensação com a narração de Buscapé nos
contando sobre o recrudescimento do que denomina ser agora uma
guerra aberta na CDD. Começa aos 91:40, vemos vários meninos
se juntando a um ou outro grupo, de Zé Pequeno ou Sandro
Cenoura/Mané Galinha, por motivos os mais espúrios e infantis.
Ao final, temos Tiago que se apresenta a Zé Pequeno, já
mostrando os sinais do vício da cocaína com uma evidente
olheira, mas afirmando que acha que seria melhor aproveitado
na administração da firma. A cena seguinte mostra o menino que
se junta ao grupo de Cenoura dizendo que quer se vingar do
homem que matou seu pai
17
. Mané Galinha não quer, diz que o
garoto é trabalhador, mas ao final aceita a entrada do garoto.
A narração novamente condensa enormemente o tempo no plano
dos eventos. Depois de um ano... (93:33), diz Buscapé no V.O.
No plano da ação, Mané galinha em meio a uma batalha, fica
para trás de seus comandados e vê o corpo de Filé com Fritas,
Ele faz o sinal da cruz e no plano sonoro, ouvimos a fala de
Filé: Eu fumo, eu cheiro, já matei, já roubei. Uma criança é o
17
Esta história é ainda outro desdobramento da guerra, o
garoto é filho do vigia de banco que foi morto por Mané
Galinha e está atrás de matar Mané, mas este não sabe. Nem nós
espectadores sabemos, esta ação será revelada mais tarde em um
flashback, quando da morte de Mané pelas mãos do garoto.
143
que nos diz a ironia entre o plano sonoro, a imagem e a ação.
Mané se agacha e leva um tiro. Ele cai, o atirador foge. A
narração de Buscapé justifica a chegada da Polícia, de forma
que aceitamos o acaso da chegada dela neste momento. No plano
dos eventos vemos somente uma viatura passando por uma viela
escura. A notícia da prisão de Mané Galinha é apresentada por
Sérgio Chapelin, em noticiário que está sendo assistido por
Buscapé em sua casa. Na televisão passa a entrevista de Mané
para a TV, dada no hospital onde convalesce. (95:00)
Na boca de Zé, ele está puto com o fato de Mané ter a foto
no Jornal e ele não, apesar de ele se considerar o dono do
pedaço. Todos os comandados estão procurando a foto de Zé no
jornal, ele quer ser mencionado, quer ser famoso. Está na hora
de mostrar quem é que manda nessa porra, diz ele. Esta fala de
Zé Pequeno não é colocada em sincronia, não o vemos falando.
Aqui a fala de Zé está descolada da imagem, se sobrepõe como
comentário também. Ele procura e acha a máquina fotográfica e
temos uma montagem de cenas em flashback dele com Bené e dos
dois disputando a máquina na festa de despedida de Bené. Desta
forma o motivo da máquina fotográfica é realçado mais uma vez,
de forma bastante redundante, aqui nos indicando novamente a
ligação entre, Bené, Zé Pequeno e Buscapé. (96:39) Os
comandados de Zé tentam tirar uma foto de Zé Pequeno com suas
armas em punho, mas nenhum dos comandados sabe usar a máquina.
Finalmente, Tiago tem a idéia de chamar alguém para resolver.
Num corte, no abrir e fechar da porta da boca, Tiago retorna
144
com Buscapé. Buscapé consegue tirar as fotos, mostra sua gana
de fotógrafo ao pedir várias poses para os bandidos e ao final
recebe uma grana de Zé e a câmera, que Zé diz que Bené queria
que ficasse com ele. (98:47)
Buscapé está no jornal e pede que Pierre revele o filme
para ele. Pierre diz que não, mas o fotógrafo Rogério Reis
entra no laboratório e indica que Pierre revele o filme de
Buscapé junto com os dele. Sorte de Buscapé e resultante de
uma preparação anterior, desde a admiração de Buscapé pelas
fotos de Regério Reis, na primeira cena em que Buscapé observa
uma foto na primeira página do jornal, passando pela cena no
laboratório quando ele encontra o fotógrafo e onde Pierre, que
também mora na CDD, o apresenta a Rogério como seu fã. (99:30)
Marina, a jornalista, vê as fotos em cima da mesa de luz e
as leva.
Na Kombi, de madrugada, Buscapé vê sua foto na primeira
página do jornal e exclama: Fudeu Mané, tou morto.
Buscapé volta ao jornal. V.O. “Alguém tinha me condenado á
morte e eu queria pelo menos quebrar a cara do infeliz”.
(100:17)
Buscapé confronta Marina, a repórter. Ela reverte a
situação e lhe mostra o pagamento. Buscapé se acalma.
Em paralelo e fazendo contraponto à idéia de Buscapé de
que ele está morto por ter tido as fotos colocadas no jornal,
vemos Zé que adora ver sua foto e compra vários exemplares.
145
Até que enfim vão saber que eu sou indigesto, meu irmão, diz
ele.
Marina pergunta se Buscapé topa trabalhar e tirar mais
fotos da favela e dos bandidos. Rogéria diz que vai lhe dar
máquina e equipamento. Buscapé volta para Marina e diz que não
tem onde dormir. Causa pendente a ser resolvida depois da cena
seguinte em que Rogério mostra o equipamento a Buscapé.
(102:40)
Em narração Buscapé comenta a sua sorte, numa tacada só
descola uma câmera e a chance de virar fotógrafo. Além disso a
noite ainda é uma criança... Ele e Marina fumam um baseado,
riem. Não há dois quartos na casa e Marina depois que ele sai
do banho diz isto ao que Buscapé comenta na Voz Over que
finalmente perdeu a virgindade, mas que não vai nos mostrar a
cena. Afirma que do outro lado da cidade a cena de sexo é mais
importante para a história. A imagem é a cena de uma
enfermeira transando com o policial que estava vigiando Mané
Galinha e conforme confirma a narração em Voz Over de Buscapé,
assim Cenoura resgatou Mané sem disparar um único tiro. Conta
também que Pequeno resolveu investir num arsenal, a indicação
de que isto vai gerar desdobramentos vem do final da frase,
mesmo sem dinheiro para pagar (pelas armas).
Zé pega as armas e não paga Tio Sam. Buscapé comenta que
por trás de um matuto tem sempre um fornecedor. Em cena vemos
Tio Sam com Cabeção, o policial corrupto que é o fornecedor
das armas. Cabeção mata Tio Sam que aqui Cabeção chama de
146
Charlie e anuncia para os outros policiais que vai cobrar a
dívida daquele traficante de merda. (106:49)
VOLTAMOS AO TEMPO MOMENTOS ANTES DO ESTABELECIDO NA MOLDURA
Os meninos da caixa baixa caminham e chegam na lage de
Zé, onde está sendo preparado o frango. Zé distribui
revólveres para que eles se juntem a ele para pegar Cenoura.
Um dos garotos atira para cima e vemos agora a faca sendo
amolada - o mesmo plano do início do filme. Estes planos nos
garantem a temporalidade. Vemos a lage num plano geral e de
cima. Sobre o plano vemos:
LETREIRO: O COMEÇO DO FIM (107:50)
Voltamos ao tempo estabelecido na moldura. A cena é
reapresentada, com a fuga da galinha, a correria, os tiros na
perseguição e até a reação de Zé ao homem com as panelas, mas
de forma mais condensada. Chegamos ao momento de impasse na
moldura. A ação paralela com Buscapé e Barbantinho – o diálogo
entre os dois ganha agora outro sentido. Barbantinho diz que
se o Zé te pegar ele vai querer te matar. Subentende-se que
Buscapé ainda acredita que em função da publicação da foto de
Zé e seu grupo no jornal, talvez Zé queira matá-lo. Desta
forma a ironia é retomada, mas a ação é mais rápida. Aqui Zé,
a princípio, parece não conhecer Buscapé. Apesar de já
147
sabermos que ele viu a foto, que perguntou o nome de Buscapé a
Tiago quando vê as fotos publicadas no jornal. A presença de
Cabeção está justificada na cena – ele está atrás de cobrar a
dívida de Zé pequeno pela tomada das armas sem pagar.
Os policiais intimidados fogem. Cheio de si Zé Pequeno -
que agora sabe o nome de Buscapé - manda que ele tire uma foto
do grupo todo alinhado e com as armas na mão. No exato
momento da foto faz-se o confronto entre o grupo de Cenoura e
Mané Galinha que ataca e acerta um tiro fulminando um dos
garotos de Zé Pequeno. Buscapé fica no meio do campo de tiro e
pula uma mureta para se proteger.
Aqui, em meio ao confronto, Buscapé fotografa a batalha.
Zé foge num caminhão de gás com Tiago, mas Mané Galinha acerta
Tiago e Zé acaba batendo o caminhão.
Um menino que está com Mané, é alvejado. Mané tenta ajudá-
lo. Agora vemos em uma série de flashbacks, a história de
Otto, o menino alvejado, filho do guarda de banco que foi
morto por Mané e se juntou ao grupo de Cenoura com o intuito
de vingar a morte do pai. O menino atira e mata Mané Galinha.
Temos uma pausa na ação, com a câmera revelando as
conseqüências da batalha, corpos dos vários jovens mortos no
conflito.
Ouve-se a sirene da polícia e Cabeção e os policiais tomam
Cenoura e Zé Pequeno prisioneiros.
Buscapé vê a ação dos policiais e corre atrás do camburão.
148
O camburão pára e Cabeção tira Zé Pequeno do chiqueirinho,
mas indica que Cenoura é presente para a imprensa.
Os policiais ficam com Zé, um deles volta com todo o
dinheiro que Zé Pequeno tem guardado e Cabeção e os policiais
vão embora, indicando que ele precisa encher a caixa de
dinheiro novamente. Buscapé, que alcançou o grupo, fotografa
por entre a lateral vazada do edifício, no que agora vemos ser
os elementos gráficos nos créditos iniciais do filme. Zé
Pequeno fica sozinho, os meninos da caixa baixa entram na
cena. Ele reclama alto - Mané galinha está morto eu estou
pobre. Em seguida Zé diz que eles têm que assaltar para ele,
para reerguer sua boca. Os garotos usam a mesma frase com que
Zé Pequeno anunciou a tomada da boca do Neguinho: e quem disse
que a boca é tua? Eles o fuzilam no que denominam de “um
ataque soviético”, depois saem gritando “a boca é nossa”.
Buscapé fotografa Zé Pequeno morto, cravejado de tiros.
Vemos as fotos reveladas em uma folha de contato. Agora
voltamos com a narração de Buscapé que indica a dúvida com
relação a como proceder com as fotos. (117:05). Tivemos aqui,
quase 10 minutos sem a intervenção de Buscapé em Voz Over. O
encadeamento da seqüência é todo dado pela ação. Segue-se o
que podemos chamar de um epílogo. O diálogo de Barbantinho com
Buscapé encerra a trajetória de Buscapé. Os meninos da caixa
baixa passam pelos dois e seguimos com eles que discutem quem
deve ser o próximo que eles vão “passar”. O diálogo é irônico,
evidenciando que eles nem mesmo sabem de quem exatamente estão
149
falando. O Falange Vermelho, por exemplo, é citado por um, e a
Falange Vermelha não é uma pessoa. O fecho ao final da ação é
o comentário em V.O. de Buscapé que diz que agora ninguém mais
o chama de Bucapé, agora ele é Wilson Rodrigues, fotógrafo.
LETREIRO: BASEADO EM HISTÓRIAS REAIS (118:50)
4.8 CONCLUSÕES:
Infelizmente, comentar um filme significa também muitas
vezes descrever sua ação em detalhes, o que pode parecer
redundante, mas é necessário.
O que salta aos olhos em Cidade de Deus, é que a
organização da trama realça sempre a presença dos vários
personagens, as cenas são construídas para condensar as várias
linhas dramáticas e as várias histórias que seguem em
paralelo. Mas, ainda assim, todas as histórias, todos os
personagens, se relacionam ou são impactados pela trajetória
de Zé Pequeno. Se temos várias histórias, a de Zé Pequeno, de
Cenoura, de Buscapé, de Mané Galinha, a do menino que tem o
pai segurança de banco morto por Mané Galinha, Bené e
Angélica, todos são impactados pela ação de Zé Pequeno.
Constrói-se uma curva ascendente dramática, que culmina
com o retorno à temporalidade da Moldura, que desta forma,
resolve ao colocar em choque, as metas de: Buscapé, que quer
150
ser fotógrafo; de Mané Galinha que se perdeu na vingança; de
Sandro Cenoura que precisa enfrentar Zé Pequeno; de Zé Pequeno
que quer ser o dono do pedaço; da polícia que quer recuperar o
dinheiro e o meio de sustento através da corrupção; dos
meninos da caixa baixa que querem se vingar de Zé por ter
matado um dos seus, ainda que a linha dramática inscrita na
trajetória dos meninos da caixa baixa se resolva mais próximo
do final. Isto é, são eles que executam Zé Pequeno.
As conseqüências da morte/execução de Zé Pequeno são
analisadas por Buscapé, com relação à sua atividade, vida e
carreira de fotógrafo e morador daquela comunidade. Como
recurso já estabelecido no filme, a conseqüência de uma
narração, de um ato, é vista em cenas posteriores. Desta forma
a revelação sobre qual foto foi mostrada ao jornal, vem na
cena seguinte, construindo a ligação causal entre uma cena a e
elipse na sua seqüência, quando vemos o jornal e a página de
miolo com a foto menos interessante, mas que garante a
integridade física de Buscapé e usa inserção no meio como
profissional. O epílogo é o relato destes desdobramentos. A
caminhada de Bucapé com Barbantinho, e novamente em paralelo,
replicando a estrutura no início do filme vemos a ação agora
dos meninos da caixa baixa ao invés da de Zé Pequeno. Aqui
sendo o final, não há cruzamento dramático na linha de
caminhada de Buscapé/Barbantinho e os meninos da caixa baixa.
O contraste entre a estrutura do início, em paralelo e aqui a
sua repetição, não como cruzamento dramático, mas sim
151
afastamento ajuda a dar o sentido de finalidade, de conclusão.
Estas duas histórias, a de Buscapé, e a dos meninos da caixa
baixa seguem cada uma um caminho.
A construção deste roteiro é extremamente complexa e
busca, a todo o momento, justificar o encadeamento da ação por
ligações de causa e efeito, por redundância e, por recurso a
elementos narrativos e dramáticos, manter a clareza no
desenvolvimento dos personagens e na linha dramática de suas
ações. Não há dubiedade, não há incertezas, os personagens
definem sempre o objetivo, a meta, claramente e a perseguem ao
longo do filme como um todo.
Podemos argumentar que alguns talvez não tenham metas tão
diretas e de caminho único, mas quando há alteração na linha
de motivação, esta funciona mais para reforçar a linha
original ou a opção final que desenha o personagem e que
sempre de alguma forma a narração oferece uma justificativa
para o comportamento em questão.
Vejamos Mané Galinha. Ele estabelece claramente sua meta:
tem um trabalho que quer temporário, como cobrador de ônibus,
é bom de briga, luta caratê, mas gosta de paz. Tem uma
namorada ao longo do filme. Este personagem só muda seu rumo
porque é forçado a tanto. Zé tem que estuprar sua namorada - e
isto não basta - ele precisa voltar e querer matá-lo, para na
verdade matar seu irmão, seu tio e destruir sua família. Mané
tem todas as justificativas para se lançar numa trajetória de
vingança, sua mudança de atitude está plenamente justificada.
152
Ainda assim ele hesita, não quer de forma nenhuma ser um
criminoso. Mas, este não é um lugar de heróis vingadores e sua
trajetória acaba em morte também. Ironicamente ele é morto por
um garoto que está fazendo exatamente a mesma coisa que ele,
vingando a morte de alguém.
Sandro Cenoura: é um traficante e como tal tem o objetivo
único de manter sua boca. Mas não é ganancioso como Zé
Pequeno, só reage ao fato de ter que comprar uma guerra. É
forçado a isto por Zé, assim como Mané Galinha.
Buscapé não tem objetivo claro de início e se expressa de
formas não muito incisivas. Na cena em que conversa com
Barbantinho sobre o que pretendem fazer da vida, ele diz que
não quer ser nem bandido nem policial, pois tem medo de armas.
O filme realça isto como diferença, pois o corte é novamente
uma ligação causal. A menção da arma por Buscapé leva ao corte
para um plano de um revolver, que é logo revelado estar na mão
de Dadinho.
Quem oferece orientação a Buscapé são os personagens ao
seu redor. Primeiro é Marreco, que lhe dá uma dura quando ele
pega a arma do irmão e lhe diz que é melhor Buscapé estudar
para não ser como ele. Buscapé responde que só estuda porque
tem preguiça de trabalhar. Mas, ao presenciar a morte de
Cabeleira ele vê o seu objetivo na vida expresso como objeto
de desejo - a câmera fotográfica do repórter que está
documentando a morte de cabeleira.
153
Depois o vemos sendo o fotógrafo, mas ainda sem os meios
necessários para realmente se expressar pelo que quer. Ele é o
fotógrafo do grupo de cocotas. Depois seu desejo vai no
sentido de sexo, perder a virgindade. Nesta linha ele perde e
quase ganha uma câmera fotográfica. Ele perde a namoradinha
para Bené, mas quase ganha a câmera das mãos de Bené também.
Depois que perde estes dois, ele tenta ser trabalhador, como
um Zé ruela, mas não pode porque vem da Cidade de Deus. Ele se
desencanta e procura ver se pode ser um bicho solto. Recupera
o revolver de Marreco e sai para assaltar. A realidade
conspira contra a sua empreitada e ele se vê como um otário.
Depois que a guerra entre Cenoura, Mané Galinha e Zé Pequeno
recrudesce, ele afirma que teve que procurar uma saída. Ele
vai perseguir seu desejo de virar fotógrafo. Mas a
possibilidade de alcançar seu objetivo inicial, o de virar
fotógrafo, vem exatamente do lugar que o fez perder o emprego
de “Zé ruela” no Macro - da Cidade de Deus e da possibilidade
que ele tem de contar as histórias ou documentar o tráfico por
dentro. Aqui, o mais importante é que na construção da linha
de causalidade, é Zé Pequeno quem lhe dá a chance de
fotografar, ao devolver a câmera que Bené já tinha lhe dado e
Zé tinha confiscado para deixar esquecida dentro de um baú.
Até mesmo personagens secundários tem objetivos claros,
definidos, que os propelem à ação. É o caso do filho do guarda
de Banco, morto por Mané Galinha. É pelas mãos dele que morre
154
Mané, justo no momento em que poderia finalmente acabar com Zé
Pequeno.
A narração em Voz Over adianta ação, opera como
foreshadowing, prenuncio, constrói ironia, e lança os dados
mínimos necessários em termos de informação para que a ação
seja justificada, ajudando a construir os elos de
plausibilidade. Se a primeira parte se estrutura, pela própria
separação temporal, em uma história com começo, meio e fim – a
história do Trio Ternura - ela lança as bases, e reforça a
ligação entre uma parte e outra através do recurso do roteiro
que liga o assalto do motel com a índole de Zé Pequeno, como
preparação para o que desenvolve nas partes seguintes, ou
seja, nos outros três quartos do filme. A primeira meia hora
prepara os objetivos distintos de Zé e do narrador, Buscapé. A
ação de Zé Pequeno é o que traz a atenção da Polícia para o
Trio Ternura, levando em última instância o trio à sua
destruição. Cabeleira morre pelas mãos da polícia, Marreco é
morto por Zé, o único sobrevivente do trio deixa a vida do
crime para se dedicar à igreja.
O objetivo de Zé Pequeno está sugerido, a nível da
história total, no momento em que ele executa as pessoas no
motel. Depois sua vida no crime se concretiza como passagem
para a maioridade quando ele executa Marreco. Mas é no dia de
seu aniversário que ele expressa claramente em diálogo com
Bené o seu objetivo final - tomar as bocas e se tornar o maior
traficante da Cidade de Deus. O objetivo de Zé Pequeno é
155
mostrado pela ação, reforçado pela narração de Buscapé e
sempre que a trajetória de Zé Pequeno sofre alguma alteração,
a narração oferecerá uma explicação. Vejamos o caso da
namorada de Mané Galinha. Ela está presente em várias cenas,
nas primeiras em que aparece, ela não tem fala, apenas está no
mesmo local e sendo observada por Zé Pequeno, depois ele a vê
novamente no baile, depois na despedida de Bené e, finalmente
quando Zé está a caminho de tomar a boca de Cenoura, depois da
morte de Bené. A mudança na atitude de Zé, para que ele deixe
de ir atrás de Cenoura e se volte para seguir atrás da
namorada de Mané Galinha está plantada de inúmeras formas, e
realçada, para que não se tenha dúvida, pela narração em Voice
Over de Buscapé que diz que milagre acontece num local chamado
Cidade de Deus. Portanto, a redundância é recorrente na
preparação e justificativa para a mudança de direção do
personagem.
Preparei uma tabela, onde listei no eixo horizontal, o
tempo do filme e em linhas paralelas a presença dos
personagens na história. As linhas verticais mostram
alterações na motivação dos personagens ou eventos
significativos. Coloquei também a indicação da moldura e das
épocas presentes no filme. A ressalva com relação à época é
que através da mudança no estilo da música, quando do baile de
despedida de Bené, fica indicado que houve uma passagem de
tempo, mas não há letreiro indicando década de 80 por exemplo.
Mas, o que fica implícito, é que o tempo da atualidade da
156
moldura não é a década de 70 exatamente, e sim uma atualidade
mais recente.
Ao montar o gráfico, o que me chamou a atenção foi a
divisão quase exata em 4 segmentos praticamente iguais e mais
um epílogo, quando observamos as mudanças na motivação de
Buscapé. Se pensarmos que ele, como agente organizador da
narrativa, tem as alterações na sua motivação marcadas em
blocos de 30 minutos, podemos pensar que a argumentação de
Thompson se aplica aqui. Mas, com uma trama múltipla como
esta, com dois protagonistas paralelos, Buscapé e Zé Pequeno,
os pontos de inflexão ou virada de cada uma de suas
trajetórias não coincidem no tempo. E nem poderiam, pois na
história de Zé Pequeno, temos ação, na de Buscapé duas
qualidades distintas a ação própria de Buscapé e sua narração.
Desta forma, a estrutura para a história de Buscapé, seria,
como indicado na tabela, a preparação, que vai até o momento
em que ele se aproxima de seu objetivo, quando vê a câmera
fotográfica na morte de Cabeleira e que se expressa em uma
motivação a ser perseguida que é o uso da fotografia para
indicar seu novo objetivo, conquistar Angélica. Depois aos 62
minutos sua motivação muda novamente, agora ele tenta ser
bandido e não consegue. Sua terceira mudança vem em função do
recrudescimento da guerra entre Cenoura e Zé Pequeno, a
descida ao purgatório, Buscapé decide que quer ser jornalista.
Para Zé Pequeno, as mudanças são indicadas da seguinte
forma: ele expressa o desejo de ser bandido ao planejar o
157
assalto ao Motel. Isto acontece aos 10 minutos. Os planos com
os empregados e clientes mortos estão a 13 minutos. Mas que
foi Dadinho quem os matou a narração só vai nos revelar
posteriormente. Zé retorna aos 38 quando a narração de Buscapé
recupera eventos dos anos 60, a matança perpetrada por Dadinho
no motel e o tiro em Marreco. Mas, em ação, Dadinho expressa
seu desejo aos 42 minutos. Zé Pequeno só pensa em algo
diferente quando Bené lhe questiona sobre uma namorada, mas
isto fica como causa pendente que vai ser retomada para
justificar o fato dele não ir pegar Cenoura e ao invés
estuprar a namorada de Mané Galinha. Desta forma, talvez as
motivações de Zé não ofereçam mudanças tão significativas
quanto as de Buscapé, mas as ações dele levam a conseqüências
que mudam seu destino. É assim que no ponto exato do meio do
filme, Zé faz com que filé com Fritas mate um dos meninos da
caixa baixa. Isto sela seu destino lá na frente,
causa/conseqüência, ele será morto pelos meninos da caixa
baixa. Sua outra ação que leva a desdobramentos negativos é
tomar as armas do vendedor que ele denomina de Tio Sam. Isto
não é uma mudança na sua motivação, mas um ponto de mudança na
ação. Ele continua a perseguir o mesmo objetivo, sua motivação
ainda é a mesma.
O ponto em que todas as tramas se cruzam é no clímax do
filme, no retorno á moldura. É o duelo final, duelo com
revólveres, escopetas, metralhadoras e finalmente uma câmera
fotográfica, a arma que vence todo o enfrentamento.
158
Por mais que eu tente, a proposta de Thompson não aprece
acomodar a construção deste filme, minha suspeita é que ao
tratar de questões relativas à motivação do protagonista, ela
se distancia de outras formas de construção dramática. Por
exemplo, não leva em conta a estrutura das tramas secundárias
e como estas são apresentadas ao longo do filme. A crítica que
Thompson faz a Mackee (Thompson 1999 pg 33), me parece
equivocada. Ela primeiro mostra que Mackee é, como ela, alguém
que reconhece que um filme pode ter mais de três atos, mas
porque ele afirma que geralmente o primeiro ato tem duração
aproximada de 30 minutos e o segundo ato, de setenta, o clímax
geralmente tem 18 minutos. Para a questão de segundos atos
longos que parecem não se mover para frente ela diz que a
solução proposta por Mackee é adicionar tramas secundárias ou
mais atos. E que, se ele conclui que um ponto de virada no
meio do segundo ato, um ponto central, divide o filme em
quatro partes, ele não reconhece isto como quatro atos, mas
sim como um clímax de meio de ato. Ora a terminologia se
presta a obscurantismos e avaliar a proposta de Mackee em
termos de minutos e divisão de um ato que ele não denomina
como dois atos separados não tira o mérito do ponto que Mackee
levanta e acredito ser fundamental: filmes mantém o interesse
dos espectadores com viradas, mudanças na motivação dos
protagonistas, na resultante dos atos dos personagens e, se um
filme tem mais de uma trama, sendo composto por várias tramas
secundárias, as viradas ou mudanças na ação e na resultante
159
das motivações dos protagonistas destas tramas secundárias
podem também funcionar como balizas para angariar a atenção do
espectador.
Although the Central Plot and three subplots
may have up to four different protagonists, an
audience could empathize with all of them, and
each subplot raises its own Major Dramatic
Question. So the interest and emotions of the
audience are hooked, held, and amplified by four
stories. What’s more, the three subplots have five
major reversals that fall between the Central
Plot’s Act One and Act Two Climaxes – more than
enough storytelling to keep the overall film
progressing, deepen the involvement of the
audience, and tighten the soft belly of the
central plot’s second act.(Mackee 1997 pg 220)
Se por um lado a crítica de Thompson é pertinente ao
colocar que Mackee não reconhece a divisão no segundo ato como
dois atos, ao invés disto indicando que esta mudança central
no filme é o que se denomina de Clímax de meio de ato, que
acelera o passo do filme no meio do caminho, Thompson se furta
a levar em consideração o fato de que tramas secundárias têm
também sua divisão e progressão e que as variações nestas
tramas com suas próprias mudanças podem angariar a atenção
necessária do espectador, garantindo que este permaneça
interessando nas várias linhas dramáticas do filme, incluindo
160
aí, a linha que pode ser central, mas que não apresenta uma
construção com tantas viradas. Desta forma as variações nas
tramas secundárias ajudam a construir a curva de progressão
dramática do filme.
Numa construção com inúmeras tramas a complexidade da
orquestração é maior, a necessidade de deixar claro para o
espectador o que está acontecendo, para quem, e em que linha
temporal a ação se desenrola é fundamental. Neste sentido, em
Cidade de Deus a orquestração entre as várias tramas,
temporalidades, com a moldura e flahsbacks dentro da história
da moldura, é conseguida com o recurso à narração de Buscapé e
às várias intervenções como legendas e indicativos de época ou
motivos associados a um personagem. Encarado desta forma, a
estrutura do filme pode ser melhor visualizada ao observarmos
o gráfico já indicado aqui.
A trama envolvendo Bené, por exemplo, constrói uma
interseção com a trama de Buscapé, afinal o interesse amoroso
de Buscapé, Angélica, acaba se tornando namorada de Bené. A
trama de Bené tem seu clímax com sua morte. Mas, neste mesmo
ponto, o clímax da trama de Bené e Angélica, é também o ponto
de virada para a trajetória de Zé Pequeno. Um mesmo ponto com
duas funções. Novamente, o mesmo recurso, de compactar em um
mesmo espaço, em uma mesma cena, em uma mesma ação, o
desdobramento e apresentação de personagens distintos.
Podemos, como já indiquei anteriormente vislumbrar uma
divisão em quatro partes em termos da motivação de Buscapé,
161
mas em termos da ação de Zé Pequeno e das alterações em sua
motivação, temos outros pontos de virada, que se relacionam à
história de Zé Pequeno conforme ordenada na trama do filme e
pontos de virada nas tramas secundárias envolvendo outros
personagens. Assim, os quatro blocos apresentam vários pontos
de virada no desenvolvimento das outras histórias, mas na
construção geral o que confere unidade ao filme é o fato de
que a maioria das tramas que são desenvolvidas a partir da
indicação da dedada de 70, convergem para um mesmo ponto. Elas
se resolvem no retorno á moldura.
162
Gráfico 1 - Estrutura dramática de Cidade de Deus
163
5 CENTRAL DO BRASIL
Lucia Nagib cita Alice nas cidades como modelo
encontrado por Walter Salles e os roteiristas para a
construção de Central do Brasil e comenta que “a nostalgia
romântica de uma pátria indefinida, típica dos personagens
Wenderianos, se vê substituída pela euforia da pátria
reencontrada. No processo, recupera-se também a escrita: em
lugar do jornalista bloqueado do filme de Wenders, temos uma
escrevedora profissional que, ao final do filme, redige
fluentemente a história de sua vida em sua própria carta. A
restauração do dom narrativo está intimamente vinculada à
reaquisição da “brasilidade”, à simpatia efusiva pela pátria
redescoberta, elemento este inteiramente ausente em Alice nas
Cidades e outros filmes do diretor alemão, em que o tema é
justamente a impossibilidade da nação e da pátria” (Nagib 2006
pg 67).
O comentário de Lúcia lança luz sobre várias questões
de interpretação de Central do Brasil e sua inserção na
história recente do país. O contraponto entre os filmes fala
muito às duas sociedades, a alemã e a brasileira, e evidencia
que apesar de um ponto em comum os dois refletem de formas
muito distintas os anseios e intenções de seus autores e a
inserção de suas narrativas nas sociedades que as gestaram.
164
Mas, minha análise pretende centrar foco no processo, na
artesania da construção dramático narrativa.
Se formos retomar a definição de virada na trama, veremos
que, conforme identificado na tabela abaixo, Field vê a virada
como um evento que engancha na ação e muda seu sentido (hooks
into the action). Seger, ao invés de usar o termo ponto na
trama (Plot Point), fala de ponto de virada, ao que parece
indicar não um evento único, mas mais um processo. Thompson
fala de identificar os pontos de virada na trama como
correlatos a alteração na motivação do protagonista.
Tabela 2 - Modelos de Field, Seger, MacKee e Thompson
FIELD SEGER McKEE THOMPSON
ATOI
SETUP
PLOTPOINT1
Setup
Catalisador
PrimeiroPontodeVirada
Incidentequeincitaàação
Complicaçõesprogressivas
Grandereviravolta
SETUP ATO1
ATOII
CONFRONTAÇÃO
Pinch1
PONTODEMEIO
Pinch2
PLOTPOINT2
Desenvolvimentoato2
Cenadepontodemeio
Segundopontodevirada
ComplicaçõesProgressivas
Clímaxdemeiodeato
Grandereviravolta
Grandereviravolta
Complicação ATO2
Desenvolvimento ATO3
ATOIII
RESOLUÇÃO

Clímax
Resolução
Clímax ATO4
Crise
Clímax
Grandereviravolta
Resolução
Epílogo
165
Field chega mesmo a afirmar que identifica 10 pontos de
trama (Plot Points) no segundo ato de Chinatown. Isto indica
que o ponto não é necessariamente uma grande alteração,
podendo um filme ter inúmeros. Mas, o que mais me incomoda é
que a idéia de ponto exclui a noção de fluxo. Ou seja, a
motivação de um protagonista não muda por um deus ex-máquina,
a costura desta mudança funciona exatamente da mesma maneira
que a costura da redundância, da verossimilhança e da
plausibilidade. Desta feita, em alguns filmes, esta mudança
pode ser mais evidente, especialmente se depender de eventos
externos ao protagonista, e da mesma forma seria menos
imediata caso dependa de conflitos internos. Howard e Mabley
definem estes como drama subjetivo e drama objetivo. Mas a
construção dramática depende de ambos e a passagem de uma
motivação a outra exige a construção nestes dois níveis. Além
disso, a narração pode escolher elidir o momento exato da
decisão, da mudança na motivação, e com isto, ficamos somente
com a resultante. Desta forma o ponto é aquilo manifesto na
trama, como um evento ou recuperado posteriormente quando como
espectadores juntamos os elementos da Shyuzet e recuperamos a
fábula, como sublinharia Bordwell.
Na análise de Central do Brasil, pode ficar mais claro o
que estou tentando evidenciar - não acredito que os termos
Turning Pont, como definido por Seger e ainda que aprofundado
por Thompson, ao indicar que as mudanças no rumo da história
quase sempre estão relacionadas a alterações na motivação do
166
protagonista, definam corretamente o processo. A definição de
um ponto exclui a idéia de fluxo.
A questão aqui parece mais relacionada com o mesmo
problema identificado anteriormente com a utilização do termo
redundância. É preciso nomear o processo, não um evento único.
É preciso acompanhar a escalada, a preparação de tal mudança.
Neste sentido, podemos identificar duas trajetórias para a
realização desta virada na direção da história. Uma é interna
ao personagem e envolve questões relativas a seu objetivo e
motivação, que como mostra Thompson vão se transformando ao
longo do filme. Outro processo, que deve necessariamente
correr em paralelo se dá no campo dos eventos, que podem ser
externos ao conflito interno do protagonista, fora de seu
controle. Desta forma, as intercessões é que nos levam a
identificar as mudanças na construção da trama.
Por exemplo, em Central do Brasil, quando Dora chega à
conclusão de que não vão encontrar o pai de Josué, ela propõe
que Josué volte com ela para o Rio de Janeiro. Josué aceita.
(86 minutos no filme de 105 minutos de ação). Dora liga para
Irene para comunicar o fato e vai comprar a passagem. Na cena
seguinte, Isaías (Mateus Nachtergale) vem até Dora e pergunta
se ela é a mulher que estava à procura do pai dele. Neste
momento, a história se encaminha para a resolução, não porque
o objetivo de Dora tenha mudado, mas em função de um evento
externo, fora de seu controle, pela ordenação própria dos
eventos. Mas, se formos acompanhar a mudança em Dora, veremos
167
que no momento em que ela assume a possibilidade de se
conectar realmente com Josué, o momento em que ela verbaliza
seu amor por ele, e expressa de forma clara sua mudança, no
momento em que eles têm a possibilidade de formar um par, a
busca pelo pai, plantada ao longo da trama como um todo,
retorna para lançar a história em seu desfecho. Visto desta
forma, de que adianta identificar a ação de Isaias como um
ponto de virada. Certamente o fato de ele os ter encontrado
mudou o curso da ação, mas assim como no termo redundância, o
que interessa não é a repetição da informação, mas o processo
de construção de sua inserção na trama. Assim, os termos
character (personagem) e ação, são também inseparáveis. Da
mesma forma, de que adianta apenas identificar a mudança ou a
proposta de Dora, de ser “mãe” de Josué, importante é que há
uma seqüência de eventos que conspiram contra uma motivação
para chegar a um movimento distinto, que neste caso vai levar
à resolução da trajetória e da mudança, do arco desenhado pela
personagem Dora.
O avanço proposto por Thompson vai no sentido de procurar
aliar a estrutura dramática à definição de personagem, mas
cenas não são entidades estanques, cenas são construídas como
um fluxo e na sua composição estão elementos de progressão,
causas pendentes, ligações causais, informação, níveis
diferentes de redundância e, como tal, não podem ser
identificadas como postes ou pontos, mas sim como linhas que
168
correm em paralelo. Não se trata de identificar um evento e
sim uma conspiração.
Novamente, refletindo sobre o momento de mudança de Dora,
ela, aos 87 minutos, muda sua motivação e convida Josué para
voltar com ela ao Rio. Mas, não é esta mudança na motivação do
personagem que traz a passagem para uma situação diferente,
afinal não fosse o acaso plantado da identificação de Isaias,
Dora e Josué poderiam voltar ao Rio e o filme seguir para
outro ponto. Isto é, as mudanças na história não são função da
mudança na motivação dos personagens, mas se identificarmos
uma alteração devemos olhar para as cenas próximas a esta
mudança e identificar elementos que levam a uma mudança no
rumo da história.
Vejamos o meio do filme Central do Brasil (vide tabela na
pg 176). Aos 47 minutos, Dora toma uma decisão que, por uma
conjunção de fatores, coloca ela e Josué em situação muito
precária. Aos 47 minutos no filme, Dora vê que Josué está
dormindo na sua poltrona no ônibus. Ela decide que vai voltar
ao Rio. Conversa com o motorista e pede que ele deixe o menino
na cidade de destino. Depois desce e compra sua passagem de
volta para o Rio de Janeiro. Este é um ponto em que a
motivação dela muda. Ela abandona o caminho que, com
hesitação, vinha trilhando. Mas, a ação conspira contra ela,
pois Josué desceu do ônibus, e só depois do ônibus já ter
partido é que Dora percebe que Josué ficou. Ela já gastou o
resto de dinheiro que tem para comprar sua passagem de volta
169
ao Rio de Janeiro. Ao ver Josué, percebe que ele deixou sua
mala no ônibus e com isso os dois estão sem o dinheiro que
Dora havia deixado para ele. A situação fica ainda mais
precária, pois é tarde demais para pedir o dinheiro da
passagem de volta, o ônibus para o Rio de Janeiro já partiu.
Neste momento os dois estão sem dinheiro, com fome e sem
perspectiva de solução para os problemas que precisam
enfrentar.
Assim, estamos numa situação em que os personagens
precisam se adaptar, procurar formas alternativas de continuar
em frente e em situação que implica em escalada do perigo ou
aumento na quantidade de problemas que precisam ser
resolvidos. Pois bem, o Plot Point aqui seria a decisão de
Dora de descer do ônibus? O fato de Josué descer do ônibus e
esquecer sua mochila? Afinal o que muda o sentido da ação é o
resultado e não a decisão de Dora de descer do ônibus. Josué
deixar a mochila seria apenas uma complicação?
O que os coloca numa situação de completo desalento é a
conjunção de fatores. E, desta forma, o Plot Point não poderia
ser também o fato de Dora não perceber de imediato que deveria
vender o bilhete de volta para o Rio de Janeiro e que ao não
fazer isto as coisas se complicam? Assim como a redundância, a
construção desta situação exige uma progressão de eventos que
juntos conspiram para a criação de uma nova situação
dramática. Desta forma, se pensarmos no conceito de Seger de
Turning Point, será que ficamos mais satisfeitos com a
170
definição do momento dramático? Um ponto de transformação
pode, como descrevemos anteriormente, englobar uma idéia de
fluxo, mas certamente a idéia de fluxo não está na base do
conceito. O importante é a motivação do personagem ou a
resultante da ação tomada em função da mudança na motivação?
Ou importante é reconhecer o estado final, a situação
dramática que traz novos desdobramentos?
Em função destas distinções, é comum em uma reunião para
discutir um roteiro, ter todos os evolvidos identificando
pontos de virada diferentes numa mesma história. Isto porque a
virada não é executada por um único evento. Se voltarmos ao
exemplo clássico, o filme citado por quase todos os manuais, A
testemunha, devemos identificar o ponto de virada no final do
primeiro ato com a identificação que o menino Samuel faz da
identidade do policial corrupto? Este evento acarreta uma
série de desdobramentos nas cenas seguintes. Mas, a motivação
do protagonista, o Policial Book, só vai mudar ao ser traído,
ao sobreviver a um atentado e perceber que o seu superior
imediato está envolvido em corrupção. Neste momento ele muda
de objetivo, ele precisa salvar Rachel e Samuel e desta forma
o filme muda de direção e de locação, algo comum também para
ajudar a definir a diferença entre uma situação dramática e a
outra. Aqui, o Plot Point de Field é o momento da
identificação que Samuel faz? Mas a mudança na motivação do
protagonista é posterior.
171
A distinção entre Plot Point, Turning Point, e a proposta
de Thompson de identificarmos os pontos de virada através da
identificação de alterações na motivação dos protagonistas,
parece não ser suficiente para abarcar a complexidade inerente
ao processo, ou à conspiração envolvida na execução de uma
transformação no sentido de movimentação da trama, ou nos
fatores determinantes de direcionalidade da mesma.
O termo para indicar estas mudanças, deve necessariamente,
abarcar o desenvolvimento do personagem e os eventos externos
ao seu controle que o levam a mudar de rumo. Uma conspiração é
geralmente um processo de trama, de um entendimento secreto,
conluio, maquinação. Todos estes sentidos estão mais próximos
da atividade de criação propriamente dita de um roteiro
cinematográfico. Claro, a questão da mudança no rumo da
história deve estar aliada a cada uma das conspirações
envolvidas em fazer nossa história partir do ponto inicial e
chegar a seu ponto final. Conspirar tem a vantagem também de
implicar algo que não deve ser sabido, que não pode ser
evidente, que não deve ser adiantado, esperado.
Vejamos o filme Central do Brasil em termos de divisão em
atos. Se seguirmos o modelo de Thompson, precisamos
identificar as alterações na motivação do protagonista para
localizar os pontos de virada. A seguir coloco um gráfico do
filme.
172
Gráfico 2 - Estrutura dramática de Central do Brasil
173
5.1 CENTRAL DO BRASIL EM PARTES
ROTEIRO: João Emanuel Carneiro e Marcos Bernstein(Carneiro and
Bernstein 1998)
História original de Walter Salles
Créditos em tela preta. Entra som ambiente e depois música
extradiegética. Plataforma da Central do Brasil, pessoas saem
dos trens. Mulher dita carta, declarando seu amor a marido
preso.
18
Plataforma cheia de pessoas. Vemos a cena por trás de
uma grade. Senhor dita carta a amigo que diz tê-lo enganado.
Plataforma lotada. Ana e o filho Josué chegam até Dora,
escrevedora de cartas. Ana dita carta ao marido que os
abandonou e fala da vontade da criança de conhecer o pai. Dora
termina de escrever a carta e a endereça. Quando mãe e filho
saem, ela os acompanha com o olhar.
Rapaz senta-se na banca de Dora, começando a ditar uma
carta, de conteúdo erótico, para sua namorada. Dora o ajuda na
escolha das palavras. Mulher diz não saber o endereço para o
qual quer destinar sua carta. Montagem com diversas pessoas
18
A mulher que dita esta carta é Socorro Nobre, personagem do
documentário intitulado Socorro Nobre, dirigido por Walter
Salles, sobre a relação de Frans Krajcberg e Socorro Nobre,
uma presidiária que lhe escreve uma carta ao ler sobre a
trajetória de vida de Krajcberg e como este perdeu toda a
família no gueto de Varsóvia e depois se mudou para o Brasil
onde descobriu sua arte e se recriou enquanto pessoa e
proposta de vida.
174
citando diversos endereços. Planos do movimento no saguão.
Dora arruma suas coisas, paga a propina para um policial local
e anda pela estação. Ela corre em direção ao seu vagão. Os
trens são cheios rapidamente. Ela balança no vagão.
Dora chega à sua casa. Está sozinha. Abre as janelas e
chama por sua amiga Irene, que mora no andar debaixo. Mesmo
contrariada, Irene ajuda Dora a abrir as cartas que ela
escrevera na estação. Discutem os conteúdos das cartas e
acabam por comentar o destino da carta que a mãe de Josué
escreveu. A carta vai para a gaveta.
Cenas de trens e plataformas. Dora trabalha na estação.
Chegam Josué e Ana, sua mãe, que quer escrever outra carta,
mudando o teor da anterior. Josué e Dora se desentendem por
causa do pião de Josué que ele insiste em usar para bater na
bancada de Dora. Dora termina a carta e mãe e filho saem da
estação. Ao atravessar a rua, Ana é atropelada por um ônibus.
Aqui temos o evento que vai levar Josué a procurar Dora. Ele
fica sozinho na estação e não tem a quem recorrer. Sua única
ligação com o pai que não conhece á a carta que a mãe ditou
para Dora. Dora guarda um lenço que Ana deixara cair ao lado
de sua bancada. O pião de Josué é um motivo recorrente também.
É com ele que Josué incomoda Dora quando esta está escrevendo
a segunda carta para o pai de Josué, e é também o motivo da
distração de Ana. Ao atravessar a rua, um passante o derruba
das mãos de Josué, que se volta para tentar pegá-lo, Ana o
chama do meio da avenida e percebe tarde demais o ônibus que
175
vem em sua direção à toda velocidade. Ana morre aos 13 minutos
no filme. Este é o incidente que incita à ação. As duas
histórias, a de Dora e a de Josué vão se cruzar.
Josué está sozinho na estação. Olhares estranhos dão o ar
de perigo. Dora está escrevendo cartas. Josué aparece querendo
escrever uma para seu pai. Dora pergunta pelo dinheiro para
pagar o serviço e como ele não tem, ela o expulsa dali. Dora
está indo embora e quando entra no trem, vê Josué encarando-a.
Josué segue o trem que se move, encarando Dora.
Josué está sozinho na plataforma vazia. Ele observa,
atento, a imagem de uma santa. A polícia expulsa outros
garotos da estação, depois Josué também.
Estação cheia. Dora está comendo e vê Josué dormindo na
estação. Ela se aproxima e oferece um lanche, ele recusa.
Vendedores, movimentação em geral. Dora escreve cartas. Há um
assalto. O vendedor grita por Pedrão, o “segurança” da
estação. Um dos homens de Pedrão alcança o rapaz que roubou o
walkman e o derruba. Pedrão chega até os dois e fuzila o
rapaz.
A Estação está fechando. Dora arruma as suas coisas.
Pedrão vai falar com Josué. Josué não dá trela a Pedrão. Dora
chega e diz que conhece o menino. Pedrão a chama para uma
conversa. Os dois se deslocam. Não ouvimos o que conversam,
pois eles estão postados à distância e recortados por uma
porta de ferro (21 minutos). Aqui, a narração omite a conversa
entre Pedrão e Dora, podemos vê-los conversando mas não
176
escutamos o que dizem. O assunto da conversa é uma causa
pendente, pois aqui fica estabelecida a oferta de Pedrão. A
opção por não mostrar o momento da conversa está relacionada à
questão da construção de empatia. É preciso primeiro colocar
os dois personagens mais próximos, para depois revelar o plano
macabro de Dora. Até mesmo porque se soubéssemos já a intenção
de Dora, todo o relacionamento inicial dos dois seria maculado
por este conhecimento. O ponto de virada seria este momento em
que a narração omite o diálogo, pois aqui fica estabelecido um
movimento novo para Dora - ela aceita a oferta de Pedrão e vai
se aproximar de Josué para levá-lo com ela.
Dora oferece um bilhete a Josué e diz que a decisão de ir
com ela é dele. Ela entra no trem, Josué a observa do lado de
fora. Aqui é elidido o momento de aceitação do convite por
parte de Josué. Ficamos com a resultante na cena seguinte, uma
cena que constrói através da composição do quadro e do desenho
do cenário, um momento de expectativa, até que vejamos que
Dora olha para o lado, e percebemos que Josué veio com ela.
Josué faz perguntas sobre a família dela. Irene chega e
conhece o menino. Os três conversam sobre suas famílias. Josué
olha as coisas da casa de Dora, ele vê a gaveta e as cartas
dentro desta. Acha a carta de sua mãe.
Dora o surpreende e diz que colocará a carta no correio.
Ele diz querer ir levar a carta ao pai em mãos e ela lhe diz
que é loucura. Aqui a apresentação de meta de Josué é
177
reforçada em diálogo no qual ele expressa o objetivo de ver o
pai.
Dora acorda e observa Josué dormindo no sofá. No trem ela
diz a ele que ele vai para um ótimo lugar.
Pedrão espera Dora num edifício. Eles batem no apartamento
de Iolanda, que agencia a venda de crianças para o exterior.
Iolanda “consulta” a saúde de Josué. Dora recebe mil dólares e
despede-se de Josué com um aceno. Ela sai visivelmente
contente com o dinheiro que conseguiu.
Dora carrega uma caixa pelo saguão do edifício. Depois
mostra sua nova televisão para Irene, que a questiona sobre a
origem do dinheiro que usou para comprar o aparelho.
Descobrindo a verdade, repreende a amiga e lhe diz que eles
usam as crianças para extrair órgãos. Que Dora enviou Josué
para a morte. A frase de Irene é: tudo tem limites Dora. Neste
momento aos 31 minutos do filme, Dora está numa encruzilhada.
Aqui, por exemplo, da mesma forma que em A Testemunha, o
segundo ato (na terminologia de Field) implica na mudança de
locação, a história se desloca para outra localidade. Mas se
em A Testemunha o reconhecimento de que o protagonista precisa
mudar de estratégia, de rumo, vem em função de Book reconhecer
que foi traído ao sobreviver a um atentado por Macfee, o
movimento em Central do Brasil vem do reconhecimento de Dora
de que Irene está certa – Dora entregou Josué para a morte.
178
A situação dramática toda está definida. Sabemos o que
move Dora, mas agora ela precisa mudar de objetivo, ela chegou
até o limite.
Se formos usar a estrutura proposta por Thompson, devemos
identificar esta parte como o Setup? Mas será que o Setup não
seria a ação até o momento em que Dora entrega Josué para
Iolanda? A mudança na ação vem em função das repercussões do
ato dela. Assim o setup tomaria 27 minutos ou 30 para
incorporar o reconhecimento por Dora de que fez algo horrendo?
A complicação seria composta pela ação que resulta do choque
de consciência de Dora e que a leva a mudar de rumo. Desta
forma a complicação seria composta pela ação dos 31 minutos
até o próximo movimento na trama em que Dora se vê frente a
outra mudança radical. A construção da complicação seria
composta pela fuga com Josué, as indecisões sobre seguir com
ele até o nordeste e o momento em que ela se revela para
César, que depois a rechaça, o que faz com que Dora não tenha
alternativa, ela deve seguir com Josué e trilhar o arco
transformacional em seu movimento de redenção que a levará a
se expressar de forma verdadeira, autêntica.
Voltando à trama, Dora liga para Irene, que em sua casa já
tem a presença de Pedrão com quem obviamente estava flertando.
Irene disfarça ao telefone, fingindo estar conversando com um
amigo, admirador, soldado. Dora pede que Irene se livre de
Pedrão, tranque seu apartamento e pede dinheiro emprestado.
Irene replica que sempre soube que “ele era um bom soldado”.
179
Reforçando o fato de que Dora afinal tem um lado bom, que
precisa ser revelado.
O desenvolvimento, recuperando a síntese de Bordwell,
“foca nossa atenção nos passos que o personagem deve tomar
para resolver seus problemas e alarga o escopo do filme para
incluir histórias ou linhas dramáticas paralelas que podem
sombrear a principal”(Bordwell 2006). Bem, aqui nesta parte do
filme, termos a ligação entre Dora e Josué finalmente se
aprofundando, em um movimento no qual Dora se apóia em Josué e
juntos os dois conseguem superar suas dificuldades. Mas, aqui
não há história paralela, esta aconteceu a meu ver na
complicação. A trama envolvendo César se resolve aos 60
minutos, e como indicado no gráfico, dura aproximadamente 12
minutos. É nesta história que não é paralela, pois envolve
todos os três personagens, que podemos ver Dora se entregar ou
procurar se conectar, ainda que da forma errada e não
autêntica, sem enxergar o próximo. A ação de Dora e a recusa
de César levam a um aprofundamento do conhecimento da
personagem, de seus problemas e anseios. Ela é solteira como
bem havia notado Josué numa das primeiras cenas na casa de
Dora no Rio de Janeiro e desta forma, não consegue seu “homem”
porque não reconhece os sinais dados pelo outro, se engana em
sua avaliação. Mas isto a coloca numa posição em que agora não
é o perigo que a lança em uma direção, mas sim sua necessidade
de se encontrar. É uma estrutura clássica de redenção. Desta
forma, a recusa de César marca o final da complicação.
180
O desenvolvimento é o aprofundamento da relação de Dora e
Josué, e a possibilidade dos dois realmente se conectarem,
estabelecendo um par mãe/filho. Mas, antes disso temos uma
falsa resolução. Ela e Josué encontram a casa do pai dele. A
pista é falsa, o pai, não mora mais lá. Além disso, fica a
informação de que Jesus não só vendera a casa, mas bebeu a
renda toda – uma confirmação de que ele é um pai que não
merece o filho, um bêbado.
Isto indica também uma diferença entre o modelo usado em
Witness e Central do Brasil. Em termos estruturais são muito
próximos, mas a ligação com a história policial no filme de
Peter Weir funciona como uma moldura que corre em paralelo, e
em função do gênero, deverá ser retomada como resolução,
trazendo desta forma a ligação entre duas linhas no seu ato
final. A trama secundária, de amor e a trama principal de
ação, o crime, devem se cruzar no clímax do filme. Em Central
do Brasil, a história que envolve crime serve somente para
catapultar nossos personagens para a estrada e não necessita
de resolução. Não há encontro de linhas dramáticas. As
histórias de Irene/Pedrão/Iolanda, não precisam ser retomadas
como encontro dramático. Irene é acionada, toda vez que é
preciso acirrar o risco na trajetória de Dora, a personagem é
usada na trama to raise the stakes, como diriam os manuais.
Irene faz o que não devia, e neste sentido funciona também
como instrumento para suspensão da descrença. Porque afinal,
uma senhora que sabe ler, tem acesso a rede bancária, conta em
181
banco, transferências, poderia se virar, e é preciso
justificar a situação de total despreparo e desalento, que
deve ficar cada vez mais grave.
Voltando à trama, logo depois que César vai embora, Dora e
Josué conversam sobre a partida de César e ele a elogia. Eles
vêem um caminhão pau de arara. Ela paga as passagens com seu
relógio. Dora chora durante a cantoria na boléia. O caminhão
estaciona.
Dora e Josué estão sentados em meio ao vazio do sertão.
Ele pergunta pela mãe. Ela o leva até uma cruz, repleta de
velas e fitas presas e coloca lá o lenço de Ana que trazia em
sua bolsa. O filme faz amplo uso de motivos, as cartas, a
atividade de Dora, o pião de Josué, o lenço de Ana. O pião é
utilizado para lembrar a falta do pai, marceneiro, e
finalmente retorna pelas mãos do irmão que ensina Josué a
fazer um pião. O motivo do lenço é resolvido aqui.
Chegam a um mercado popular. Josué não quer ser visto por
seu pai no estado em que está. Dora diz que o pai gostará
dele, mas acha que ele não gostará do pai. Eles discutem.
Pedem informação do endereço. Chegam a uma porteira, Josué
corre até a casa, seguido por Dora. Ele encontra um menino da
sua idade. Na casa, encontram a atual esposa de Jesus, mas ele
não está. Um vento traz Jesus para casa e Dora diz querer
conversar a sós com ele. Descobre que Jesus vendera esta casa
e que bebera o dinheiro todo na venda. Josué sai triste. Esta
foi uma falsa resolução, se parecia que iam finalmente
182
encontrar o pai, agora fica um sentimento de desalento que
parece confirmar que o pai não presta, que não será possível
encontrá-lo.
Dora liga para Irene, perguntando pelo dinheiro e descobre
que a amiga o enviou para o lugar errado. Isto acontece aos 71
minutos e como diriam os americanos, raises the stakes, pois
agora, os dois estão sem dinheiro e sem possibilidade recebê-
lo pelo banco.
Procissão. Dora e Josué brigam. Ela diz que ele é um
castigo para ela. Ele corre dentro da procissão e ela vai
atrás. Ela entra numa casa onde há diversas pessoas pagando
suas promessas e acaba, aturdida, desmaiando. Josué a ajuda.
Ela acorda dormindo junto a Josué.
Os dois estão juntos em meio ao comércio da cidade. Ele
não consegue acertar uma pêra dentro de uma lata e ela o
ensina como. Há várias formas de manifestação popular. Josué
começa a vender o serviço de escrevedora de Dora. Seqüência de
depoimentos. Josué acumula dinheiro nas mãos. Ao final do dia,
eles ficam felizes com a possibilidade de comer e até tiram
fotos com a imagem de Padre Cícero. Josué compra um vestido
para Dora.
Os dois chegam a um quarto de hotel. Josué começa a jogar
as cartas no lixo, mas Dora as pega dizendo ver o que faz com
elas depois. Ele pergunta quando irão atrás do seu pai e ela
diz que no outro dia, na hora do almoço. Conversam sobre sexo.
183
Estão esperando o ônibus. Dora vai ao correio, colocar as
cartas. Cenas de ônibus em movimento. Eles chegam a um
conjunto habitacional. Andam pelo conjunto habitacional
falando sobre a memória que tem de seus pais e Dora diz a
Josué que um dia ele vai se esquecer dela.
Batem em uma casa à procura de Jesus. Um homem diz que ele
sumiu no mundo. Josué pergunta à Dora se seu pai vai voltar e
ela diz que acha que não. Desacreditados da possibilidade de
sucesso, Dora convida Josué a retornar ao Rio com ela, ao que
Josué aceita. Novamente uma falsa solução. Assim, o final
desta parte vem logo depois que Josué aceita voltar ao Rio com
Dora. Isto acontece aos 86 minutos. Desta forma o
desenvolvimento tem 26 minutos. A reviravolta que nos lança em
direção ao clímax acontece quando Isaías encontra Dora e lhe
pergunta se era ela que estava à procura do pai dele. O Clímax
seria o restante do filme, com o epílogo sendo a leitura da
carta que Dora escreve para Josué, que encerra a trajetória
dos dois, e a coloca numa posição de reassumir seu poder sobre
as palavras, agora ela pode escrever uma carta verdadeira.
Voltando á trama, Dora liga para Irene contando e tenta
comprar passagens para o Rio. Aproxima-se dela Isaias,
perguntando se era ela a senhora que estava atrás de seu pai.
Ele os convida para ir à sua casa e eles aceitam. Josué se
apresenta como Geraldo. Chegam na casa e são recebidos de
maneira estranha por Moisés, irmão de Isaias. Josué vê um
retrato da mãe e do pai pendurado na parede. Mostram a casa e
184
a marcenaria nos fundos. Moisés faz um pião para o menino. Os
três irmãos jogam bola juntos.
Estão os quatro na sala da casa e Isaías pede que Moisés
dê uma carta que o pai escrevera para Ana, para Dora ler.
Isaías diz que Ana, a mulher com quem seu pai casara foi
embora para o Rio, levando o irmão mais novo deles e que esta
foi a ruína do pai deles. Dora lê a carta de Jesus que diz que
fora ao Rio buscar Ana, mas que está voltando. Aqui os irmãos
reconhecem e tem a confirmação de que Josué é o meio irmão
deles. Nada é dito, os olhares revelam o reconhecimento.
Noite. Josué e Dora estão fora da casa. Ele pergunta se o
pai falava na carta que queria realmente conhecê-lo e Dora diz
que sim. Ele diz que sabe que não. Isaías os chama para
dormir.
Dora põe seu vestido novo e passa batom. Outro elemento de
redundância, ou um motivo que é retomado, mas que deve ser
entendido como transformação. O uso do batom reforça a
mudança, antes impossível, mas agora real. Depois entra no
quarto dos meninos, observa-os dormindo juntos e sai. Deixa a
carta que Ana escrevera no Rio junto da carta que Jesus
escrevera para ela e sai da casa. Ela anda depressa pelo
conjunto habitacional. Josué acorda. Ele procura por ela e não
a encontra. Ela chora ao entrar no ônibus. Ele corre pelas
ruas do conjunto habitacional. Ela escreve uma carta para ele,
dizendo que Jesus há de aparecer. Escreve sobre seu pai e pede
que ele não esqueça que ela o fez dirigir um caminhão. Diz que
185
se tiver saudades, que olhe a foto que tiraram juntos, pois
tem medo de ser esquecida. Josué chora ao ver o ônibus
distante. Ela olha o retratinho e ele faz o mesmo. Choram em
meio a sorrisos.
6 CONCLUSÃO
Ao analisar os dois filmes, e argumentar por uma expansão
do conceito de redundância, ao vislumbrar divisões em partes,
ao procurar entender como todos os conceitos listados nos
manuais ou proclamados por Thompson são na verdade
interdependentes, espero ter chegado a um ponto em que se não
há uma fórmula tão simples de indicar os movimentos da trama
de um filme, estes conceitos, tomados em conjunto, podem
auxiliar no entendimento dos elementos necessários para o
entendimento do desenho da estrutura dos mesmos.
Não posso dizer que as análises listadas aqui balizaram
diretamente a construção do roteiro de Cléo e Damião, mas sim
que os conceitos de redundância, progressão dramática,
plausibilidade, verossimilhança, divisão em partes, ordenação
da trama em termos de comunicabilidade, formas de estruturar a
progressão dramática, todas me fizeram buscar a todo o momento
uma forma de comunicação que fosse clara, mantivesse o
interesse do espectador e junto a isso, procurasse comunicar o
186
drama de um indivíduo que não pertence, que não tem lugar
certo no mundo, que busca, muitas vezes sem um sentido claro
de objetivo, se colocar frente aos desafios que o mundo lhe
apresenta, reagindo de forma mais emocional que racional.
Discutir a estrutura de Central do Brasil e Cidade de Deus
e não comentar a de Cléo e Damião seria fugir de justificar
meu próprio trabalho, portanto lanço aqui alguns apontamentos
sobre a trajetória na construção do roteiro. Mas, lanço estes
na forma de dúvidas, discussões e conclusões que justificam a
forma de sua construção. Não posso, dado o envolvimento com a
obra, me distanciar da mesma para analisá-la. Estou
completamente tomado pelo objeto de estudo, sou e serei sempre
parcial a ele. Em função disto lanço apontamentos aqui na
conclusão, uma vez que o leitor deverá avaliar se estes
coadunam com o material dramático colocado nas páginas no
roteiro.
A primeira ressalva vai no sentido do próprio roteiro e
para tanto é preciso apresentar algumas informações sobre o
processo de criação. Como objeto de trabalho de tese, levei-o
até uma primeira conclusão como único roteirista da obra. É
esta que apresento aqui. Mas, no momento em que este se
transformou em projeto de produção, busquei dividi-lo com
outra pessoa que julguei poderia me auxiliar a trazer um
aprofundamento da personagem feminina e também me auxiliar na
construção dos diálogos. Desta feita, o roteiro tem duas
versões, a que está anexada aqui e que foi escrita por mim em
187
seu primeiro e segundo tratamentos e outra, que foi reescrita
por mim depois de comentários e colaboração com Beatriz
Gonçalves, dramaturga, de quem conheci uma peça curta que
muito me impressionou e com quem colaborei para tratamentos
posteriores do roteiro. Como produto em processo de produção,
o mesmo certamente sofrerá novas alterações, não somente para
adequação em termos de produção, mas como obra viva que
continua a ser aperfeiçoada. Neste sentido, o roteiro final,
aquele que será transposto para a tela, poderá ainda
incorporar novos autores, novos créditos, pois o que me
interessa não é a autoria solitária, mas o domínio do processo
colaborativo, sempre no sentido de aprofundar o drama e torná-
lo mais premente, mais verdadeiro e certamente mais bem
estruturado.
6.1 O INÍCIO
Quando apresentei meu primeiro projeto de tese, em 2006, o
roteiro proposto procurava trabalhar a construção de tramas
múltiplas e não lineares. As tramas múltiplas seriam as de
Palito e Damião; Ana, uma jornalista que a dupla rapta; a
“formação” do soldado Jefferson, tutorado pelo Sargento Mauro
e, junto a estas outras histórias havia também a de Gilvan e
Gian, dois irmãos, de respectivamente, 7 e 4 anos.
188
O estabelecimento da ligação entre todas as histórias era
um evento disparador da ação. A tomada da Boca do Irmão de
Damião pelo sargento Mauro, com a execução do irmão de Damião.
Josué, irmão de Damião era um traficante, alguns anos mais
velho que Damião, e único que conseguia manter o irmão menor
com os pés no chão. Damião nesta trama era um garotão de 17,
muito impulsivo, dado a explosões e de inteligência limítrofe.
Com a morte do irmão ele ficava totalmente perdido e não
conseguia reagir de forma racional, lógica.
A vingança que perpetuava era cega, puramente emocional e
voltada contra qualquer Policial Militar. O que movia o
personagem era uma vontade de conseguir falar, comunicar aos
outros o que ele e o irmão eram, de sair do anonimato. Palito,
garoto manco, funcionava como a inteligência dos dois, sempre
formulando as questões de lógica e encadeamento da ação da
dupla e desta forma auxiliava na suspensão da descrença.
Gilvan e Gian eram dois irmãos - vizinhos da boca do irmão
de Damião - que precisam sair de casa para conseguir levantar
dinheiro para comprar remédio para a mãe adoentada que cuida
sozinha dos dois. O cruzamento onde acabam indo “trabalhar” é
em frente ao batalhão do Sargento e de Jefferson. Outro ponto
de ligação entre as tramas era que – e isto era algo que os
meninos não ficam sabendo – a mãe dos dois morre ao ser
atingida na cama, quando o irmão de Damião é morto pelos
policiais. As balas rasgam vários casebres.
189
Damião ao retornar para casa via o corpo do irmão sendo
carregado pelos policiais, e conseguia passar sem ser
reconhecido. Ficavam ele e Palito andando de ônibus sem rumo
algum, até que Damião via um policial à paisana descendo do
ônibus. Ele segue o policial e o mata com uma faca. Rouba sua
arma, dinheiro e cartões. Ele e palito passavam então uma
noite na zona, mas Damião não consegue se divertir. De
Madrugada os dois continuam bebendo e ao amanhecer, cruzam com
uma equipe fazendo uma gravação. Bêbado Damião se aproxima e
quer conversar, a equipe o rechaça. Ao final do trabalho,
quando a repórter se despede para seguir em seu próprio carro,
ele e Palito a tomam de assalto, levando ela e o carro. O
filme seguia a trajetória de Damião e Palito junto com a
repórter Ana pela cidade de São Paulo, e terminava com a
formação do Soldado Jéferson que tendo capturado Damião o
executa sob o olhar do tutor, Sargento Mauro.
Com este argumento inicial, aqui bastante reduzido para
não me estender demais, iniciei pesquisa relacionada aos
personagens. Primeiro foram os contatos para conseguir mais
informações sobre a atuação, os anseios e os códigos internos
à corporação da Polícia Militar e seus membros.
A psicanalista Ieda Porchat, que trabalhou junto ao Centro
de Assistência Social e Jurídica (CASJ) da Polícia Militar,
atendendo oficiais da Polícia Militar, foi uma das pessoas
consultadas. Com ela foi possível discutir os problemas e as
posturas do oficial dentro da corporação. Com sua experiência,
190
Ieda pôde colocar algumas questões em perspectiva, como o
sentimento de grupo, a pressão a que são submetidos os
Policiais Militares e a forma como a corporação se fecha em
torno de questões como corrupção, medo e avaliação do que vem
a ser um bom policial.
A busca por informações sobre a ação da Polícia Militar, o
comportamento de seus membros e os dramas pessoais pelos quais
passam seus integrantes, me levou a procurar também trabalhos
acadêmicos voltados a estudar a ação dos policiais e sua forma
de pensamento. Foram vários os trabalhos consultados.
A dissertação de mestrado de Rodrigo Gainnangelo de
Oliveira, pesquisando a forma com os próprios policias vêem o
atendimento psicológico, procura abarcar a idéia de
sofrimento e demanda por parte dos policiais (Oliveira 2005).
Outra dissertação de mestrado estudou a permanência de
padrões de conduta autoritários na corporação para entender
sua inserção e permanência na ordem democrática (Neme 1999).
Como parte da pesquisa sobre a atuação da Polícia Militar
do Estado de São Paulo, o livro fundamental de Caco Barcellos,
Rota 66, apresentou uma visão da corporação e a atuação
criminosa de seus membros, ainda que o livro trate de eventos
deslocados no tempo (Barcellos 2004). Barcellos é autor de
outro livro pesquisado também - apesar de não tratar da facção
paulista do crime, e se concentrar mais na atuação criminosa
no Rio de Janeiro - Abusado, revela as expectativas, a vida e
191
a conexão sinistra entre o crime, a polícia e a política
(Barcellos 2009).
Foram feitas entrevistas com ex-policiais militares, nomes
dos quais não listo aqui, pois não se trata de um relato
jornalístico, nem de elencar fatos reais, mas sim, o espírito
de corpo da entidade, a ligação dos atos dos policiais com o
que denominam de justiça, e a lógica com a qual justificam
ações de extermínio. De forma mais institucional, foram
entrevistados capitães em serviço, oficiais e soldados, e
também a Seção de Comunicação Social no Comando Geral da
Polícia Militar do Estado de São Paulo. Com esta ação
recebemos alguns vídeos que a corporação julga serem
importantes para divulgação do trabalho da Polícia Militar
junto à sociedade. Um exemplo deste tipo de vídeo
institucional é Preleção (DVD, 1997, 8 minutos), uma produção
da produtora Áudio e Vídeo em co-produção com a Polícia
Militar do Estado de São Paulo.
O argumento sofreu alterações ao longo de 2007 e 2008,
para incorporar as ações do PCC e o ataque ao sistema
prisional, Polícia Militar, Bombeiros e sociedade Civil em
maio de 2006. Comecei então a pesquisar a atuação do PCC.
Com o trabalho da antropóloga Karina Biondi, pude ter
acesso à lógica de atuação do PCC, sua reestruturação e as
alterações pelas quais o movimento tem passado nos últimos
anos. A dissertação de Karina, um trabalho longo e exaustivo
com acesso a fontes diretas, foi muito importante para
192
entender o processo de construção do comprometimento entre os
membros do PCC. Importante também, pois houve, como a autora
realça em sua dissertação, uma mudança de paradigma, uma vez
alterado o estatuto do PCC para incluir uma quarta palavra em
seu mote máximo: Paz, Justiça, Liberdade e Igualdade (Biondi
2009). Além de poder ler sua dissertação antes de sua
publicação, Karina gentilmente se dispôs a algumas entrevistas
para que eu pudesse lhe dirigir questões específicas sobre a
atuação do PCC e de certa forma delimitar a atuação do
personagem Damião.
Outra fonte de pesquisa importante sobre a atuação do PCC
foi o Jornalista Josmar Jozino, vulgo Caveirinha, homem
franzino e fumante contumaz, Josmar iniciou sua carreira no já
extinto Notícias Populares, e atualmente é repórter policial
do Jornal da Tarde. Josmar é autor de Cobras e Lagartos, livro
que escreveu logo depois de receber ameaças de morte,
supostamente feitas pelo Primeiro Comando da Capital (Jozino
2005). Nele, Josmar narra a trajetória do PCC e diferentemente
de outros livros de fundo jornalístico, se insere na
narrativa. Profundo conhecedor da vida nas cadeias paulistas,
Josmar teve como fonte primordial as mulheres dos líderes do
PCC e por sua atuação em prol de condições mínimas para os
presos, chegou a ter trânsito com os líderes do movimento.
Josmar também me cedeu para leitura à época o manuscrito do
que viria a ser seu segundo livro, Casadas com o Crime, onde
narra várias histórias de mulheres que de diversas maneiras
193
acabaram associadas ao crime, ou presas por se associarem a
homens ligados ao crime (Jozino 2008). Josmar foi entrevistado
e em muitas ocasiões seu conhecimento serviu de baliza para
comportamentos plausíveis para os personagens.
O livro de Fátima de Souza – PCC a facção, foi outra fonte
de informação sobre atuação do Partido do Crime e narra, em
detalhes o desenvolvimento do PCC até os ataques fatídicos em
São Paulo (Souza 2007).
Já o livro de Percival de Souza(Souza 2006), apresenta um
relato bastante detalhado da ação jurídica contra o PCC e
narra inclusive sua ligação com o crime organizado em alguns
países da América Latina.
As mudanças no argumento original trouxeram a eliminação
da trama paralela com os meninos Gilvan e Gian, a
transformação da Jornalista em uma atriz atuando na periferia
em uma ONG que oferece cursos de teatro para a população
carente. O irmão de Damião passou de traficante a mecânico, e
não mais um irmão de sangue, mas adotivo. A história da forma
como Damião é passado aos pais de Josué, foi dado de realidade
incorporado à ficção.
Minha maior preocupação no trato com esta história foi, de
um lado, não deixar que os eventos dos “ataques do PCC”
tomassem a frente da narrativa. Eu não queria fazer um filme
sobre o PCC ou um relato colado na realidade. Mas, incorporar
ao reverso uma trama bastante clássica, a do herói reticente,
transformando aqui o bem último em morte, a coragem finalmente
194
encontrada em negação da vida. Ao mesmo tempo, não queria um
filme para baixo, com um final totalmente negativo. Acredito
que este pequeno alento necessário para tornar o drama
palatável está expresso no epílogo, na cena em que Palito
finalmente dança, apesar de sua manquidão.
Por fim, gostaria de acreditar que a trama ora proposta é
regida por regras claras de causalidade, que a redundância é
incorporada como instrumento para prenúncio, para causas
pendentes, como motivos e que a inteligibilidade da mesma
tenha sido uma meta não somente buscada com afinco, mas
espera-se atingida.
7 CLÉO E DAMIÃO – ROTEIRO DE LONGA-METRAGEM
Segundo tratamento – Julho de 2009
(Candido, Rosenfeld et al. 2000)(Rosenfeld 2000; Marquez 2001)(Barbaro 1983)(Carrièrre and Bonitzer 1996)(Pallottini 1989)(Maciel 2003)(Campbell 2008)(Wharton 1997)(Chion 1994)(Szondi 2004)(Johnson and Stam
1995)(Armes 1999)(Pallottini 1998)(Blumenthal and Goodenough 1998)(Cooper and Dancyger 1994)(Foss 1994)(Sharff 1982)(Armes 1974)(Bazin 1989)(Murch 2004)(Vieira 2005 pg. IX)(Pereira 2007)(Aronson 2000; MINC 2000)
EXT. ESTRADA DO ALVARENGA -- NOITE
Um CACHORRO BRANCO em posição de ataque. Um holofote o
ilumina de frente. É uma luz dura, luz de refletor de viatura
policial.
Vemos as pernas de um homem em pé ao lado do cão. O cão se
lança para o ataque em direção à câmera e é abatido a tiros.
UM, DOIS, TRÊS TIROS.
ÂNGULO NO cão caído com a respiração falhando.
Refletido nos olhos do animal vemos o vulto de um POLICIAL
MILITAR apontando sua arma para o HOMEM que estava ao lado do
cão. O Policial dispara, o homem vai ao chão e leva mais dois
tiros.
INT. PRESÍDIO MASCULINO -- DIA
Duas folhas de papel são passadas de mão em mão dentro de uma
cela.
Um dos homens na cela assina na folha da frente usando as
costas de outro detento como suporte. Este passa as folhas de
papel para um segundo detento que também assina na frente do
documento escrito à mão.
Este passa as folhas para DAMIÃO, 20, alto e negro.
Damião pega a caneta Bic já bastante usada da mão do último
detento que assinou. Ele se agacha para assinar.
No texto do manuscrito pode-se ler:
Paz, Justiça, Liberdade e Igualdade.
DETENTO
O primo agora é irmão. Na pista aí,
vai ter uma correria. É coisa certa
e tem que ser no proceder.
DETENTO II
Tá assinado o meu aí.
Damião se levanta, devolve o estatuto para o Detento.
DAMIÃO
O meu é na humildade, que eu sou
novo na caminhada e tou pra
aprender com os irmãos o proceder.
Mas é como tá aí, é todo mundo
igual e, assim ninguém manda em
ninguém.
INT. APARTAMENTO DE CLÉO E LÍVIA - DIA
CLÉO, 27, caminha rapidamente pelo pequeno corredor do
apartamento. Ela ainda está acabando de abotoar a calça e
fechar a blusa.
NA COZINHA
Cléo entra na cozinha, acaba de abotoar a blusa e apressada
abre a geladeira. Há um postit colado na garrafa com chá
gelado. Ele apanha o postit e lê:
CLÉO, O ALUGUEL ESTÁ ATRASADO. LÍVIA.
Cléo abre o refrigerador e retira o litro de chá gelado, o
pão de forma e a margarina. Ela passa margarina rapidamente
no pão e engole o chá.
Cléo se debruça na bancada da cozinha. Há um aparelho de
telefone na bancada. Ao lado dele um bloco de anotações. Cléo
coloca o copo de chá ao lado do bloco.
Vemos o nome de Cléo, escrito à mão, no bloco e um recado
deixado por Lívia.
Cléo, nervosa, balbucia algumas palavras, faz um movimento
circular com a cabeça e estica braços e pernas. Ela se
concentra nisso enquanto pega o copo de chá e o coloca na pia
para sair.
Cléo sai da cozinha e vemos o bloco de recados.
O texto do recado: Geraldo quer falar com você. Ligou várias
vezes. PS: eu paguei o aluguel de novo.
EXT. BATALHÃO DA PM -- DIA
CABO JOILSON, 36, conversa com SOLDADO SOUZA, 30, ao lado da
única BLAZER estacionada na frente do batalhão.
JÉFERSON, 19, calça de tergal e camiseta, com uma mochila
vazia nas costas, caminha até a frente do batalhão e pára.
Ele observa o movimento, os dois policiais conversando.
Cabo Joilson percebe a presença de Jéferson. Os dois se
olham, o Soldado Souza encara Jéferson também.
Jéferson finalmente se movimenta para entrar no batalhão.
Os dois o seguem com os olhos enquanto ele caminha.
196.
INT. OFICINA E CASA DE JOSUÉ -- DIA
A oficina é pequena. O espaço utilizado é o vão na base de
uma casa construída em vários andares que acompanham o
terreno escarpado e inclinado.
Na oficina há dois carros parcialmente desmontados.
JOSUÉ, 28, branco, está debruçado sobre o motor de um Monza.
Ele retira uma peça e a lava numa lata com gasolina. Ouvimos
um carro estacionando próximo, a porta se abrindo.
JOVEM 1
Aí, primo.
Josué se volta.
Dois jovens estão parados à frente da oficina. O Jovem 1 de
pé ao lado da porta aberta do motorista de um Astra.
Josué coloca a lata com gasolina de lado.
JOVEM 1 (CONT'D)
Primo, tá precisando de umas peças,
um motor novo, assim, na responsa,
coisa de mil reais?
JOSUÉ
Mil reais não compra um motor de
Astra.
JOVEM 1
Como é que é? Na firmeza, o carro é
bom.
Josué se volta para o trabalho.
JOSUÉ
Olha aqui, acho que vocês erraram.
Aqui na minha oficina a gente não
trabalha com Astra, na rua de baixo
me parece que tem duas oficinas, lá
um motor vale mil reais.
Os dois jovens se entreolham, olham o entorno e finalmente
percebem que vieram ao lugar errado. Sem nada dizer os dois
entram no carro e saem cantando pneu.
EXT. RUA DA CASA DE JOSUÉ -- DIA
O Astra passa e revela EDILENE, 26, caminhando do outro lado
da rua. Ela cruza a rua e se encaminha para a oficina de
Josué.
197.
INT. OFICINA E CASA DE JOSUÉ -- DIA
Josué acaba de encaixar a peça que havia limpado com
gasolina. Ele ouve alguém se aproximando e se vira para
pronto para responder aos jovens do carro novamente, mas ele
vê Edilene.
EDILENE
O que foi com o Astra ali, não
gostaram do serviço?
Josué limpa as mãos com gasolina e vai até Edilene.
JOSUÉ
Eles só vieram no lugar errado,
queriam vender algo que não era
deles, sabe como é.
Ele abraça Edilene.
EDILENE
Vai sujar minha roupa.
JOSUÉ
Se vai casar com mecânico, vai ter
que comprar muito sabão.
Os dois se abraçam no canto da oficina.
EDILENE
Você pegou os convites?
JOSUÉ
Ia fazer isso agora, precisava
terminar esse aí.
EDILENE
(enquanto se beijam) Deixa que eu
passo lá. Você fica e lava bem essa
graxa aí, que eu quero ver você bem
bonito.
Josué a aperta, mas ela o afasta um pouco.
EDILENE (CONT'D)
E quero ver o seu Juventino lá
também.
JOSUÉ
Você não tem jeito.
Edilene beija Josué interrompendo sua fala.
198.
INT. BATALHÃO DA POLÍCIA MILITAR -- DIA
Jéferson caminha pelos corredores até encontrar o P4 -
almoxarifado e registro de armas.
INT. BATALHÃO DA POLÍCIA MILITAR, P4 -- DIA
Do lado de fora de um balcão fechado por grades, Jéferson
estende um canhoto para o atendente. O ATENDENTE, também
policial militar, se volta para recolher alguma coisa. Ao
fundo vemos uma ESCREVENTE FARDADA.
JÉFERSON
Senhor... era pra vir semana
passada, assim eu tinha tempo de
passar.
O atendente entrega um pacote a Jéferson que abre o pacote -
é seu uniforme de PM.
Jéferson percebe então que faltam dois botões na camisa.
JÉFERSON (CONT'D)
Sem passar até dá, mas sem dois
botões não. Eu ganhei por
merecimento, tem que ser fardamento
correto...
O atendente volta com um coldre de couro, uma caixa de
munição e um revólver calibre .38. Ele dispõe os objetos no
balcão sem cerimônia e rapidamente coloca na frente de
Jéferson um documento a ser assinado.
Jéferson empurra o documento de volta para o atendente.
JÉFERSON (CONT'D)
A camisa tá sem botão.
O atendente pega o revólver e abre o cilindro, evidenciando
que este está sem balas.
ATENDENTE
O revólver também está sem munição,
você quer que eu coloque pra você?
A escrevente fardada é toda risinhos ao fundo. Jéferson
coloca a camisa de volta no balcão e a empurra na direção do
atendente.
JÉFERSON
Eu quero outra camisa, uma com
todos os botões.
199.
INT. CPT -- DIA
Close em Cléo. Ela está concentrada e começa a mover os
lábios abrindo a boca, arregalando os olhos, forçando
caretas.
Ela está fazendo exercícios de relaxamento.
Vemos agora que Cléo está na coxia, atrás dela vemos mais
ALGUMAS ATRIZES, todas aguardando sua vez.
Os sons são confusos, percebemos que no palco, fora de vista
há um teste sendo feito. Ouvimos a voz de uma atriz mas não
identificamos as palavras, nem qual é o texto do teste.
Cléo olha para o palco, a atriz que acaba de ser testada
encara alguém em direção à platéia.
DIRETOR
Muito obrigado.
A atriz sai do palco e passa por Cléo.
DIRETOR
Cléo Dias.
Cléo segue para o palco.
INT. PRESÍDIO MARCULINO -- DIA
Em uma fila organizada próxima a um guichê, estão dententos
aguardando a entrega de suas Cartas de Saída Temporária. O
dentento à frente de Damião recolhe sua carta da mão de um
funcionário. Damião se adianta e encara o funcionário.
DAMIÃO
Damião Santos Silva.
O funcionário mecanicamente busca pela carta em uma pilha.
Ele encontra, assina uma lista, vira a mesma para Damião.
FUNCIONÁRIO
Se não souber escrever, é rolando
dedão e xis.
Damião pega a caneta presa por um cordão. Uma caneta cortada
ao meio para ficar bastante pequena. Ele assina a lista.
O funcionário checa a assinatura e um documento com foto,
depois entrega a carta a Damião.
DAMIÃO
E os meus documentos?
200.
(CONTINUED)
FUNCIONÁRIO
É lagarto mesmo, e vamos deixar
você sair com RG, que nem se fosse
gente?
Damião recolhe a carta onde se lê "Dia das Mães", e a coloca
no bolso da camisa.
INT. BATALHÃO DA PM -- DIA
Jéferson está postado à frente de um painel no corredor
principal do edifício. Ele procura seu nome e encontra-o na
lista de escala do sábado, 13 de maio de 2006.
TENENTE BRANDÃO, 38, passa no corredor e percebe que Jéferson
é antigo (novato).
TENENTE BRANDÃO
Soldado!
Jéferson se volta, e ao ver o oficial, se coloca em posição
de sentido. A camisa fica aberta, pois faltam dois botões.
JÉFERSON
Sim, senhor.
TENENTE BRANDÃO
Isso aqui tá cada vez mais
avacalhado. Você é sangue novo.
Tenho muita preocupação com sangue
novo, mas abotoa esta camisa, isso
é uma desgraça.
SARGENTO MAURO, 38, caminha até o Tenente Brandão e se
apresenta a ele. O tenente vê Mauro e fica ainda mais
nervoso.
TENENTE BRANDÃO
Porra sargento, tua área só me
fode, agora deu aí que roubaram
dinamite lá na pedreira. Assim não
dá, tem que ter solução.
O Tenente segue pelo corredor. Sargento Mauro encara Jéferson
que tenta fechar a camisa sem os dois botões. O sargento ri
de Jéferson e depois segue o Tenente.
INT. CPT -- DIA
De costas para a câmera, uma atriz estica os braços e faz seu
aquecimento. Pelas cortinas laterais do palco, vemos Cléo que
acaba de fazer seu texto. Ela abaixa a cabeça, e depois se
estica, saindo do personagem.
201.
CONTINUED:
(CONTINUED)
Ela olha para frente, para uma platéia que não podemos ver.
Há um momento desconfortável de silêncio.
DIRETOR
Cléo, não é? Cléo Dias, é isso?
Cléo meneia com a cabeça. Na platéia, somente o diretor e ao
seu lado um assistente com uma prancheta onde faz anotações.
Só vemos as suas silhuetas, a luz não deixa vê-los por
completo.
DIRETOR (CONT'D)
Eu nem sei porque eu ainda faço
isso. Eu dou meu tempo, eu escuto,
eu vejo, eu posso até dar alguma
direção, pedir uma abordagem
diferente, alterar o sentido
daquilo que o personagem deve
querer na cena....
Cléo tenta ver o diretor cobrindo os olhos para barrar a luz.
Não consegue. Abaixa a mão e encara a platéia.
DIRETOR (CONT'D)
Mas aqui minha filha, aqui não dá.
Eu vou te dar um conselho que acho
que ninguém teve coragem de te dar
até agora. Talvez assim você pare
de desperdiçar o seu tempo, o nosso
tempo. Você não vai fundo, você
burocratiza, você se guarda toda,
isso não é atuar. Talvez tenha até
empenho, mas o que falta é TA-LEN-
TO E TALENTO É SABER SE JOGAR, SE
DAR, ARRISCAR.
Impassível, ela encara o diretor.
Vemos Cléo agora a partir da coxia, o som das palavras do
diretor começam a sumir.
Vemos a preocupação das outras atrizes que estão se
preparando para entrar no teste. Todas estão nervosas.
INT. CASA DE JOSUÉ -- FINAL DA TARDE
JUVENTINO, 52, atarracado e com a barba mal feita, está no
quarto acabando de colocar um terno puído.
SOM DE CHUVEIRO ELÉTRICO.
Juventino se olha no espelho do armário do quarto, retira um
pente do bolso interno do paletó e penteia seu pouco cabelo.
202.
CONTINUED:
(CONTINUED)
Ele gosta do que vê. Sorri para si mesmo, passa o dedo nos
dentes depois caminha até a cama e recolhe uma Bíblia no
criado mudo.
Juventino sai do quarto com a Bíblia nas mãos. Ele vê a porta
entreaberta do banheiro. Há alguém tomando banho. Juventino
passa de fininho pela porta do banheiro, tentando não ser
percebido.
INT. BANHEIRO DA CASA DE JOSUÉ -- FINAL DA TARDE
Água quente esfumaça o ambiente. Josué está esfregando
fortemente uma barra de sabão em seu braço, tentando remover
a graxa que teima em não sair.
Josué escuta um barulho no corredor. Ele puxa a cortina de
plástico.
JOSUÉ
Pai, pai. É o senhor?
INT. CASA DE JOSUÉ - FINAL DE TARDE
Juventino abre a porta da frente procurando não fazer
barulho.
JOSUÉ
Pai?!
EXT. CASA DE JOSUÉ -- FINAL DE TARDE
No corredor lateral da casa, vemos TIMÃO, um cão pastor
alemão de pêlos brancos. O mesmo da cena inicial do filme.
Juventino afasta Timão que tenta brincar com ele.
JUVENTINO
Sai, filho do cão.
Quando escuta o chamado do filho, Juventino se apressa e
passa logo para fora, fechando a porta atrás de si.
Juventino desce apressado a escada lateral da casa,
carregando a Bíblia na mão direita.
Timão late.
INT. ÔNIBUS -- DIA
O ônibus percorre uma avenida da periferia de São Paulo. Com
um giro do filtro polarizador passamos a ver o rosto de
Damião refletido no vidro do ônibus. Ele observa a cena pela
janela.
203.
CONTINUED:
(CONTINUED)
Algo lhe chama a atenção no banco da frente.
Uma jovem mãe brinca com seu bebê.
EXT. AVENIDA DE SÃO PAULO -- FINAL DA TARDE
O trânsito é intenso, vemos o ônibus ao lado de um ponto. Uma
massa de gente procura subir, alguns poucos passageiros
descem. Estamos no meio de um congestionamento.
EXT. TRÂNSITO -- FINAL DA TARDE
ÂNGULO EM Cléo que fuma nervosamente na direção do seu Palio.
Ela abre a janela do motorista e sopra a fumaça para fora.
Cléo aperta a buzina, o trânsito é intenso, todos os carros
estão parados.
Ela não se contém e extravasa a raiva contida depois dos
comentários no teste.
CLÉO
Filho da puta, filho da puta, filho
da puta, FILHO DA PUTA.
ÂNGULO NO carro, agora por trás, vemos o carro imóvel em meio
a um congestionamento monstro, podemos discernir o movimento
de Cléo e ouvir seus gritos que aos poucos são soterrados
pelos sons do congestionamento.
INT. BAR COM MÚSICA AO VIVO -- NOITE
No pequeno palco de um bar com música ao vivo, vemos 4
músicos sentados tocando um chorinho. Os músicos são, GILVAN,
24, que toca o VIOLÃO DE 7 CORDAS, GIAN, 22, que toca o
VIOLÃO DE 6 CORDAS, Mano, 29, que toca BANDOLIN e CIDO, 19,
que toca SURDO. Uma cadeira está vazia no palco, em cima dela
um CAVAQUINHO.
A platéia é pequena, não mais que 10 mesas. As pessoas bebem
e conversam, algumas prestam atenção à música sendo tocada.
Jéferson, carregando sua mochila, passa pelas mesas e sobe ao
palco, passando por trás dos colegas para se sentar na
cadeira vazia.
Jéferson coloca a mochila atrás de sua cadeira e apanha o
cavaquinho.
Os colegas sorriem.
Jéferson testa o cavaquinho e aguarda o momento na música em
que poderá entrar.
204.
CONTINUED:
(CONTINUED)
Jéferson e Gilvan se entreolham. É a deixa para Jéferson, ele
entra na música com um solo e abre um enorme sorriso.
EXT. PONTO DE ÔNIBUS EM FRENTE À PADARIA -- NOITE
Na frente do ponto de ônibus, do outro lado da avenida vemos
uma rua de terra, ladeada por um parque de diversões fechado
e, do outro lado, a padaria Sabor de Mel.
Um ônibus pára no ponto. Damião desce e com o movimento do
ônibus descortina-se a padaria e o parque de diversões.
Damião observa o trânsito da avenida e atravessa, parando na
esquina ao lado da padaria.
Vemos a padaria. Há pouco movimento de entra e sai.
Percebemos que o dono da padaria, PORTUGUÊS, 52, postado
atrás da caixa registradora, oberva o interior da padaria e
se volta para olhar para a rua.
O Português vê Damião.
Sentado numa mureta ao lado da padaria, um GAROTO, 12, pula
ao ver Damião. Ele corre em sua direção.
O garoto chega até Damião e lhe diz alguma coisa. Damião olha
para ele.
O Português fica atento, observando a cena.
DAMIÃO
Pode falar que ninguém manda em
mim, não. É na responsa, todo mundo
igual. Eu faço o meu e não tem
outra. Vai.
O garoto sai correndo em direção ao parque de diversões. Ele
entra por um buraco na cerca e corre por dentro do parque.
Um freguês chama a atenção do Português.
PORTUGUÊS
Pois espera um pouco, afoito
assim... ô Freitas, troca isso
aqui.
FREITAS, 45, funcionário da padaria, trajando um avental
azul, recolhe um saco de papel do Freguês e volta para trás
do balcão.
O Português recolhe o papelzinho com o valor a ser pago junto
com o dinheiro do cliente.
205.
CONTINUED:
(CONTINUED)
Antes de fazer troco ele pega o telefone e disca. Ele olha
novamente na direção de Damião, antes de falar ao telefone.
CLIENTE
O Portuga, tou com pressa.
PORTUGUÊS
(para si)
Vaso ruim não quebra mesmo.
(para o cliente)
Espera um pouco...
Ele devolve o troco, o cliente sai e o Português olha
novamente na direção de Damião, mas ele não está mais lá.
INT. CONGREGAÇÃO CRENTE -- NOITE
A igreja não é grande, mas está cheia. O PASTOR, 38, está se
dirigindo à plateia.
PASTOR
Orar sem evangelizar é como ter um
detonador na mão, mas não ter a
dinamite. Agora, com a dinamite...
com a dinamite é uma explosão, é
notável, é visível.
O pastor olha para Edilene que está ao lado de Josué, na
lateral do palco da igreja. Eles trocam olhares, Edilene
sorri. Ela está de mãos dadas com Josué.
PASTOR (CONT'D)
O detonador pode estar escondido,
pode estar distante do alvo. Quando
você ora, você pode estar no seu
quarto, na sua casa ou num lugar
oculto, mas suas orações tem um
efeito DEVASTADOR. É uma explosão
que ninguém contém. Depois de ouvir
o evangelho, as pessoas aceitam
Jesus.
O pastor faz sinal para Edilene. Ela e Josué caminham até o
pastor. Ele os abraça.
PASTOR (CONT'D)
(para eles)
Vão se casar? Trouxeram os
convites? Posso anunciar?
Edilene e Josué meneiam que sim com a cabeça. Edilene está
esfusiante.
206.
CONTINUED:
(CONTINUED)
O pastor sorri para os dois, cumprimenta Josué efusivamente.
Ele se coloca entre os dois, um braço em volta de cada um e
se reporta para a platéia.
PASTOR (CONT'D)
Aqui está o exemplo do que eu acabo
de dizer.
O pastor continua seu anúncio, nos afastamos e não ouvimos
mais o que ele diz. Instadas pelo Pastor, as pessoas da
platéia se levantam para orar.
EXT. CASA DE JOSUÉ -- NOITE
Damião caminha pela rua. Vemos a grade da oficina de Josué
que agora está fechada.
Timão está dentro da oficina. Um PEDRESTE passa na frente da
oficina, Timão pula na grade e late, o PEDRESTRE se
sobressalta e desvia alguns passos para a direita.
Damião se aproxima da grade, Timão de início late.
DAMIÃO
Timão, Timão, vem cá Timão. Isso,
sou eu.
Damião afaga Timão pela grade, o cachorro fica esfuziante,
salta quando Damião o larga e olha para um vão entre a grade
e o teto da oficina.
Damião se esgueira por entre a grade e pula para dentro da
oficina.
INT. OFICINA DE JOSUÉ -- NOITE
Ele brinca com Timão, os dois fazem truques juntos. Damião
levanta a mão esquerda e Timão rola para o lado e se faz de
morto.
Depois Damião dá um comando a Timão.
DAMIÃO
Pega, pega o coxinha.
Timão avança sobre a grade e late muito.
Damião sobe a escada lateral e chega até a porta de entrada
da casa.
A porta está trancada.
207.
CONTINUED:
(CONTINUED)
Damião se agacha e afasta Timão para conseguir levantar uma
pedra na escada, que revela um pequeno buraco.
Ele retira a chave da casa deste buraco.
INT. CASA DE JOSUÉ -- NOITE
Damião fecha a porta atrás de sí. Olha e vasculha a casa.
DAMIÃO
Josué, Josué?
Ele se solta no sofá, relaxa e puxa Timão para o sofá também.
Os dois ficam brincando no sofá.
INT. BAR COM MÚSICA AO VIVO -- NOITE
O show já acabou, o movimento do bar já está bem menor.
Gilvan, Gian, Mano, Cido e Jéferson estão encostados no
balcão do bar, cada um com o estojo de seu instrumento.
Mano, tem uma foto em suas mãos e a está mostrando para Cido
que está bastante interessado. Cido pega a foto, fica
admirado.
CIDO
É muito legal. Eu tou bacana para
caralho.
Cido passa a foto para Jéferson que sorri um sorriso amarelo
e segura a foto com uma mão enquanto morde um croquete com a
outra.
AGORA VEMOS A FOTO:
Uma foto posada e produzida do grupo.
GILVAN
Foto e croquete não vai junto.
MANO
É agora, a gente tem que fazer
isso. Sem um cd gravado não sai
disso. Temo que fechar.
Os grupo se entreolha, Cido, Gilvan, Mano e Gian decididos,
Jéferson hesitante.
208.
CONTINUED:
INT. CASA DE JOSUÉ -- NOITE
A porta da entrada da casa de Josué abre e vemos Josué, que a
fecha e só então percebe no sofá, Damião e Timão deitados,
juntos. Damião dorme abraçado a Timão. A Tv está ligada, mas
sem som.
JOSUÉ
Porra meu, quantas vezes eu num
falei que esse cachorro não é pra
ficar no sofá, o pai fica puto da
vida.
Damião abre os olhos, se senta e empurra Timão para o chão.
Timão desce do sofá. Damião esfrega os olhos.
Os dois irmãos se olham, há uma pausa e silêncio.
DAMIÃO
Faz muito tempo que eu não dormia
nesse sofá, tá velho, tem calombo e
o cacete, mas é um puta sofá.
Damião se levanta. Josué vem até ele, os dois se abraçam.
JOSUÉ
O sofá é assim porque você sempre
fodeu com ele. Desculpa não estar
aqui, mas já tinha marcado isso,
não ia dar tempo de te levar.
Damião não entende. Josué retoma a conversa.
JOSUÉ (CONT'D)
A assistente social me disse que
você fica até segunda, não é?
DAMIÃO
É mais ou menos isso.
JOSUÉ
Não me enrola garoto, olha aqui,
vem ver isso aqui.
Timão segue os dois subindo também a escada lateral.
Josué vai na frente e chega ao final da escada, ele dá um
passo no último degrau, bem mais alto do que os outros e sobe
no que parece ser a laje de cima da casa dele.
Lá de cima ele chama Damião novamente.
209.
(CONTINUED)
JOSUÉ
Sobe, aqui.
Timão passa à frente de Damião, que ri e sobe os últimos
degraus.
INT. CASA DE JÉFERSON E DONA OLÍMPIA -- NOITE
Água escorre pela torneira da pia da cozinha desta casa de
classe média. Louça está sendo lavada. Vemos as mãos de uma
senhora de seus 50 anos lavando a louça. Ouvimos som de chave
na fechadura da porta da frente.
Esta senhora é DONA OLÍMPIA, 52, ela coloca um prato de lado,
retira o avental, fecha a torneira e caminha para a porta da
sala.
Na sala podemos ver Jéferson que acaba de fechar a porta
atrás de si. Ele está carregando sua mochila e a caixa com o
cavaquinho.
Ele está meio desgrenhado e bebeu um pouco em excesso.
Jéferson se volta para a sala e vê sua mãe.
DONA OLÍMPIA
É o retrato do pai.
Jéferson se atrapalha com a mochila e o cavaquinho, tentando
passar a chave na fechadura da porta.
Dona Olímpia se move para ajudar o filho. Jéferson
finalmente consegue trancar a porta, pega a mochila e o
cavaquinho do chão.
DONA OLÍMPIA (CONT'D)
Deixa isso comigo.
Jéferson segura a mochila e segue direto para o seu quarto.
JÉFFERSON
Deixa, mãe, deixa.
DONA OLÍMPIA
Você está bem, meu filho?
JÉFERSON
Tou bem, mãe, só preciso dormir.
Amanhã eu tou de escala.
Jéferson entra em seu quarto e fecha a porta.
210.
CONTINUED:
(CONTINUED)
Dona Olímpia retira o prato, talher e copo que estavam na
mesa da sala e volta para a cozinha.
EXT. CASA DE JOSUÉ -- NOITE
A imagem vai entrando em foco até discernirmos do que se
trata: a vista da favela e do Morro da Pedreira a partir
deste ponto alto e privilegiado.
Como é noite, várias casas estão com suas luzes acesas. Há
pouco movimento nas ruas. Ouvimos aqui e acolá, sons de uma
ou outra festa, um RAP, um pagode.
Damião e Josué estão recostados cada um em uma pilastra. Não
há teto na laje, e as paredes ainda não subiram. A parte de
cobertura está sendo estruturada.
A noite está bastante estrelada. Os dois irmãos tem as
estrelas acima como teto.
Damião dá uma tragada em seu cigarro. Josué toma um gole de
refrigerante e passa a garrafa de dois litros para Damião.
DAMIÃO
Nem uma cerveja?
JOSUÉ
Sabe como é ...
Os dois admiram o céu estrelado.
DAMIÃO
Tô feliz mano, ela deve ser uma boa
mulher.
JOSUÉ
Tou contente, gosto muito dela. Ela
é muito boa pra mim. Quer até
cuidar do velho.
DAMIÃO
Ele sai com a Bíblia e passa a
noite no buteco.
JOSUÉ
É, tem coisa que não muda...
Josué toma um gole na garrafa.
DAMIÃO
Mas ela vai mudar isso.
211.
CONTINUED:
(CONTINUED)
Josué se engasga e cospe a coca-cola. Os dois se olham e caem
na risada. Josué lhe passa a garrafa.
DAMIÃO
Porra, eu queria algo mais forte
hoje.
Há um momento de silêncio entre os dois.
JOSUÉ
Maninho, eu sei que deve estar
difícil pra você. Estamos aí pra
você, você sabe disso.
Damião aquiesce com a cabeça.
JOSUÉ
Foi você que marcou teu caminho e
agora tem que pagá a dívida. Você
vai sair dessa mais homem.
DAMIÃO
É mano, é foda, aqui eu sei que
posso contar com você, você sempre
teve aí para me guiar e se eu não
fui na trilha certa agora eu sei,
eu respeito.
Josué olha com orgulho para Damião. Parece que Damião
concordou e ele fica satisfeito com isso.
DAMIÃO
Mas a gente tem que pertencer, a
gente não vive sozinho, aqui na
sociedade é uma coisa, é outra lá
no barraco, ali tem que ser
cabuloso, não dá pra deixar ninguém
entrar na mente da gente. Mas eu
sou senhor de mim.
JOSUÉ
Eu já te disse, se você seguir a
trilha, se for correto sempre vai
ter lugar aqui pra você.
DAMIÃO
Cada um tem uma caminhada, Josué,
eu tenho uma cobrança aí.
JOSUÉ
Cobrança ou não, dívida todo homem
tem que pagar.
212.
CONTINUED:
(MORE)
(CONTINUED)
Escuta aqui Damião, sou teu irmão
de criação, vi você sendo passado
pela janela do ônibus. Vi tua mãe
chegar de bicicleta, numa estrada
de terra batida e te passar pela
janela do ônibus para minha mãe. O
ônibus já tava engatado para partir
quando minha mãe ouviu o som da
bicicleta velha chegando. A mãe
abriu a janela, esticou os braços
para fora, e alcançou você; que a
menina estava levantando pra ela.
Ela te pegou, um embrulhinho, uma
trouxinha de pano branco, puxou o
manto e você chorava feito
desesperado. Eu olhei por cima do
ombro dela, você me viu e parou de
chorar. Se eu não te criei direito
é porque eu só tinha sete anos a
mais que você, e 12 quando a mãe
moreu, não sou pai, mas sou o irmão
que você tem.
DAMIÃO
Mano, você sempre me conta essa de
como minha mãe me passou pela
janela do ônibus, não quero mais
ouvir isso.
JOSUÉ
Eu não quero a polícia aqui dentro
dessa casa. Esse teto aqui é pra
uma família e isso não se mistura
com crime nem com polícia.
Josué se levanta e encara Damião.
JOSUÉ
Levanta, filho da puta.
Damião se levanta lentamente.
Josué o empurra. Damião não reage.
Josué o empurra novamente.
JOSUÉ
Vai pirralho, não te ensinei a não
levar desaforo pra casa?
Josué o empurra novamente.
Damião dá dois passos para trás e quase cai.
213.
CONTINUED: (2)
JOSUÉ (CONT'D)
(CONTINUED)
Damião se recompõe.
Josué novamente o empurra.
Damião avança sobre Josué.
Ligeiro, Josué desvia e empurra novamente Damião.
Damião fica muito nervoso e avança resoluto sobre Josué.
Josué novamente desvia, mas Damião consegue segurar seu
braço.
Os dois se atracam.
Josué segura Damião e dá um forte abraço no irmão.
Os dois irmãos se abraçam.
JOSUÉ (CONT'D)
Pra falar a verdade tem um lugar
onde eu ainda deixei uma
garrafinha... Se o pai não tiver
achado...
DAMIÃO
Agora tá falando... pega lá,
pega...
Josué desce a escada lateral.
Ficamos com Damião e o imenso céu desta periferia, as luzes
da favela e a noite de São Paulo.
Damião se senta na beirada da laje admirando a vista. Seus
pés soltos balançando.
Josué se senta a seu lado e lhe passa a garrafa de pinga.
Os dois irmãos bebem emoldurados pelas luzes das casas da
favela e da pedreira. São agora quatro pés balançando.
INT. CASA DE JÉFERSON E DONA OLÍMPIA -- NOITE
Jéferson está sentado na cama, a caixa do cavaquinho ao seu
lado.
Dona Olímpia entra trazendo um prato com um sanduíche.
Jéferson guarda o cavaquinho embaixo da cama.
Dona Olímpia observa o movimento mas não diz nada.
214.
CONTINUED: (3)
(CONTINUED)
Ela mostra o sanduíche para o filho.
JÉFERSON
Não tou com fome, mãe. Obrigado.
Dona Olímpia avança e estende o prato para o filho.
DONA OLÍMPIA
Você precisa comer algo.
Experimenta, eu fiz como você
gosta.
Jéferson concorda, pega o prato e leva o sanduíche até a
boca.
Dona Olímpia olha ao redor, e encontra o que estava
procurando, a mochila de Jéferson.
Ela caminha até a mochila e tira de dentro dela o uniforme do
filho.
DONA OLÍMPIA
Eu vou passar isso para você.
Dona Olímpia admira orgulhosa o uniforme do filho, mas, ao
sair se dá conta de que faltam botões na camisa. Ela fecha a
porta do quarto.
Jéferson coloca o prato de lado e se deita na cama novamente.
Ao lado da cama, na parede, descortina-se uma foto emoldurada
de um homem em seus 40 anos, vestido com um terno, em um
palco de restaurante, segurando um microfone. É o PAI de
Jéferson.
INT. CASA DE JÉFERSON E DONA OLÍMPIA -- NOITE
Dona Olímpia está sentada na frente de uma máquina de
costura. O quarto é também sua oficina.
Aqui temos vestidos sendo costurados, um armário repleto de
retalhos, material de costura e vários rolos de linha
multicoloridos.
Ela abre um armarinho com gavetas pequenas de onde retira
vários tipos de botões.
Dona Olímpia os alinha ao lado da camisa do uniforme de
Jéferson, à procura do botão ideal para repor os que estão
faltando.
Ela coloca os óculos e examina um botão próximo do abajur na
mesa.
215.
CONTINUED:
(CONTINUED)
Ela encontra o botão ideal e sorri.
INT. APARTAMENTO EM HIGIENÓPOLIS -- NOITE
Um canudo percorre uma carreira de pó, cocaína, esticada em
cima da caixa de plástico de um CD de música.
Uma mulher passa os dedos nas narinas.
Um GRUPO DE AMIGOS está reunido ao redor de uma mesa de
centro. É Cléo quem acaba de cheirar. Ela chacoalha a cabeça,
sentindo o efeito do pó.
AMIGA
Cléo, como foi o teste?
ALFREDO, 34, está passando o canudo pelo espelho. Ao acabar,
funga.
Cléo observa o grupo.
CLEO
O teste foi ótimo, foi super bem.
Alfredo que acaba de cheirar, se vira para Cléo.
ALFREDO
Eu acho o máximo esse negócio de
teatro, agora até na periferia.
Papo sério, tão assaltando citando
Shakespeare.
CLÉO
Vai se ferrar, Alfredo.
INT. CASA DE JOSUÉ, IMAGEM DE SONHO -- NOITE
Uma escadaria longa e escura. Algo se move nas sombras. Uma
porta ao final da escadaria é marcada por um pouco de luz.
INT. CASA DE JOSUÉ -- NOITE
Damião abre os olhos:
Pela porta entreaberta do quarto vemos a sala escura. O som
que ouvimos é o do relógio na cozinha. Ouvimos passos subindo
a escada lateral da casa. Uma chave gira na fechadura da
porta. A porta se abre.
A luz do luar marca a silhueta de Juventino, que cambaleia
para dentro da casa.
216.
CONTINUED:
(CONTINUED)
Damião vislumbra o pai cambaleando para seu quarto. Juventino
entra e tromba com a mesa que teima em ficar em seu caminho.
Ele a esconjura baixinho.
Juventino passa pela porta do quarto. Damião fecha os olhos e
vira de lado na cama.
INT. BATALHÃO DA PM, VESTIÁRIO -- DIA
Há vários armários de metal. VÁRIOS SOLDADOS se trocam e
guardam suas roupas civis. Ninguém fala com Jéferson.
Jéferson está vestindo a camisa e percebe que sua mãe colocou
botões novos. Ainda assim, a camisa está apertada pois é pelo
menos dois números abaixo do seu. A calça também incomoda no
cavalo.
Entra o SOLDADO SOUZA, 28. Ele vê Jéferson e caminha até ele.
SOLDADO SOUZA
Ô antigão..
Jéferson se volta.
SOLDADO SOUZA
Você é o 4º homem, azar militar,
vai começar de ostensiva com o
Sargento Mauro.
Souza vai saindo, pára e olha de volta para Jéferson.
Jéferson acaba de abotoar rapidamente a camisa e sai, ainda
amarrando o coturno.
INT. BATALHÃO DA PM -- DIA
Um corredor interno leva a outro corredor externo estreito e
mal iluminado. Ao fundo um pátio aberto banhado pelo sol.
O soldado Souza segue na frente e Jéferson tenta segui-lo no
mesmo passo, mas ainda está tentando amarrar o coturno.
O Soldado caminha pelo pátio. Jéferson pára um instante para
acabar de amarrar o coturno e vê a viatura Blazer. Souza
chega até a viatura sinalizando para o Sargento Mauro que
Jéferson já está vindo. Cabo Joilson está a postos ao lado do
Sargento.
Jéferson se levanta e caminha para o pátio iluminado. Agora
vemos que atrás da Blazer do sargento Mauro há mais uma
viatura, também com 4 homens prontos para entrar nela.
217.
CONTINUED:
(CONTINUED)
Jéferson atravessa o pátio. Impaciente, o sargento entra na
viatura, o Cabo Joilson assume a direção. No banco de trás
vão o soldado Souza e Jéferson, que fica atrás do motorista.
A viatura do sargento sai em disparada, a segunda viatura
segue da mesma forma.
INT. VIATURA DO SARGENTO, RUAS DE SÃO PAULO -- DIA
Jéferson se segura dentro da viatura que segue em alta
velocidade pelas ruas de Santo Amaro.
A segunda viatura segue colada na primeira.
Sargento Mauro disca em seu telefone celular.
SARGENTO MAURO
Opa, sou eu. Recebi o recado...
sim... tá certo. Não, sem problema
nenhum. Tá feito.
Ele desliga o telefone, troca um olhar com o cabo Joilson.
Ele de início fala a Jéferson sem olhar para trás.
SARGENTO MAURO
Soldado, hoje é o dia da tua
iniciação. Você pode não entender
agora, mas te garanto que depois
deste final de semana, ou daqui a
umas duas semanas você vai estar
esperto.
Close em Jéferson que escuta atento e se segura dentro da
viatura em alta velocidade.
O sargento se volta para Jéferson e o encara.
SARGENTO MAURO
Só tem uma forma de trabalhar. É em
conjunto, que nem mosqueteiro.
INT. CASA DE JOSUÉ -- DIA
A TV está ligada em um programa de sábado, nada interessante,
algum programa de auditório. Vemos Josué na cozinha, fazendo
alguns ovos.
Josué chama por Damião. Não ouvimos sua voz, mas ele está
chamando Damião para colocar os pratos na mesa.
218.
CONTINUED:
(CONTINUED)
SARGENTO MAURO
Hoje você vai aprender quem é quem
na cidade, quem é bandido, quem não
é. Quem só quer manter a ordem e
ajudar nosso trabalho.
Damião sai do banheiro levantando a calça e, todo
malemolente, caminha até o armário com os pratos.
A fala é cortada pelo som de um informe extraordinário na TV
da casa de Josué.
Damião e Josué, param o que estavam fazendo e vão até a
televisão. Nas imagens vemos uma base móvel da Polícia
Militar, alguns planos mostram marcas de tiros na base. Uma
mancha de sangue é enfocada na lateral da base.
EXT. RUAS DE SÃO PAULO -- DIA
A viatura do Sargento chega a um farol fechado. Desvia de um
Palio preto parado, acelera e atravessa o farol ainda
fechado.
SARGENTO MAURO
É azar militar pra você. Azar
militar.
DENTRO DO PALIO
De dentro do Palio vemos a viatura cruzar o farol, fazendo
com que alguns carros parem repentinamente dando passagem.
Cléo está na direção do Palio. Ela está procurando algo em
sua bolsa. Finalmente encontra, um ENGOV, que ela coloca na
boca e engole a seco.
Ela quase engasga quando a segunda viatura da Polícia Militar
passa, com sirene e giroflex ligados, parando carros no farol
fechado.
INT. CASA DE JOSUÉ -- DIA
Josué desliga a televisão e se senta à mesa para comer. Dois
pratos estão feitos com arroz, feijão e ovo mexido.
Damião se senta à mesa também. Os dois começam a comer em
silêncio.
JOSUÉ
Você tem alguma coisa a ver com
isso aí que está acontecendo?
219.
CONTINUED:
(CONTINUED)
DAMIÃO
Pô Josué, qualquer coisa que
acontece aqui a culpa agora é do
Damião, assim não dá.
Josué encara o irmão.
DAMIÃO
Caralho, vai te foder. Você tá pior
que teu pai, porra. Mas de um bosta
bêbado a gente pode até
desconsiderar.
JOSUÉ
Não fala do pai assim não.
DAMIÃO
E não é? O seu Juventino já voltou
com a Bíblia de baixo do braço e a
cabeça cheia de pinga?
Juventino sai do quarto, ainda vestido com as roupas de
ontem.
JUVENTINO
Quem falou de mim, aí. Não admito
falarem de mim pelas costas...
Ele percebe que é Damião na sala. Os dois se encaram com
desagrado.
JUVENTINO
Josué, o que é que esse coisa tá
fazendo na minha casa?
JOSUÉ
Calma pai, deixa, a briga não é
sua.
JUVENTINO
Você é o filho do demo, coisa ruim,
maldito o dia que tua mãe te passou
pela janela.
DAMIÃO
É um bêbado mesmo, só vê a cana.
JUVENTINO
Ela não te queria e tava certa,
você sempre foi azar, a Maria
morreu é de desgosto e por tua
culpa.
220.
CONTINUED:
(CONTINUED)
Damião avança sobre Juventino, Josué o segura.
JOSUÉ
Cala a boca pai, volta lá pro
quarto. Cala a boca.
Juventino abaixa a cabeça e atende Josué, mas continua
resmungando xingamentos.
Josué segura Juventino e o dirige para o banheiro.
Juventino vê Timão no sofá da sala.
JUVENTINO
Esse cachorro não pode ficar no
sofá. Sofá é lugar de gente e não
de animal.
JOSUÉ
Toma um banho pai, toma um banho.
Fica aí dentro.
NO BANHEIRO
Josué entra no banheiro e liga o chuveiro. O pai agora se
comporta mais como um doente que não tem vontade própria e é
levado pela enfermeira.
NA SALA
Damião recolhe sua mochila, deixada ao lado do sofá da sala.
Afaga Timão, entra no quarto rapidamente para pegar algo e
retorna para a sala.
Damião segue para a porta.
Josué saindo do banheiro percebe que Damião vai sair e vai
até ele.
JOSUÉ
Não fica assim mano, ele tá cada
vez pior, só bebe e dorme, nem
comer mais direito ele come. Só
fala bobagem, ele não é assim, ele
não é isso.
DAMIÃO
É, ele não é isso não.
Damião começa a abrir a porta da casa.
221.
CONTINUED: (2)
(CONTINUED)
JOSUÉ
Damião, peraí. Olha,
(pegando uma caneta e um
pedaço de papel)
Esse aqui é o telefone da Edilene.
A gente vai comer uma pizza hoje de
noite, eu quero te apresentar ela.
Josué coloca o pedaço de papel no bolso de Damião. Os dois se
olham, Damião fecha a porta ao sair.
Josué fica encarando a porta. Timão vem até a porta e começa
a arranhá-la querendo sair para ir atrás de Damião.
Josué finalmente abre a porta.
EXT. RUA DA CASA DE JOSUÉ -- DIA
O cachorro sai em disparada.
Damião já está na rua. Josué fica observando o caminho de
Timão, que passa pela garagem, pula o muro lateral e alcança
Damião na rua.
Damião e Timão brincam, Damião olha de volta para a casa e vê
que Josué deixou Timão sair. Eles trocam olhares.
Damião segue pela rua com Timão a seu lado.
EXT. ENTRADA DOS 7 CAMPOS -- DIA
Vemos os 7 campos de futebol e atrás deles a pedreira, com
suas ruas de terra que circundam este morro escarpado.
A viatura do Sargento está estacionada em um morrinho de onde
se pode ter uma vista de todo o complexo.
Jéferson está postado à frente da viatura, com o Sargento ao
lado desta.
SARGENTO MAURO
Pois é, o seguinte. Quem você vê
ali? Será que aquele é o moleque
que vai te dar um tiro? Será que é
o outro elemento alí?
O sargento aponta para um garoto, depois um jovem. Daqui se
avista a entrada da bairro.
SARGENTO MAURO
Você tem que saber quem é certo e
quem é errado. Você não tem muito
tempo para entender, senão...
222.
CONTINUED: (3)
(MORE)
(CONTINUED)
vamos vê se você sabe, ou se sabe
aprender.
A viatura começa a dar marcha ré. O sargento entra. Jéferson
olha para trás, mas o sargento indica que ele deve ficar no
lugar.
A viatura some atrás do morrinho. Jéferson fica sozinho. Há
um momento de silêncio, depois os sons começam a crescer em
intensidade e sentido.
SONS DISTORCIDOS:
Uma bola chutada.
Gritos de alguns torcedores
Pisadas na campo
Depois um dos moleques olha na direção de Jéferson, um outro
olha também. Eles estão distantes, mas Jéferson percebe que
virou motivo de atenção para as pessoas que estão nos 7
campos e na entrada do bairro.
EXT. RUA DO BAIRRO PEDREIRA -- DIA
Damião caminha por uma ruela junto com Timão. Damião vira
numa esquina, Timão corre e deixa Damião para trás.
A ruela se abre para uma área mais ampla com ruas de terra,
que é circundada por botequins simples. É a entrada dos 7
campos pelo lado da favela - lado oposto ao local em que o
Sargento estacionou a viatura e deixou Jéferson.
Timão entra num dos botecos.
INT. BAR DO PEDRÃO -- DIA
O bar é simples. Há um balcão e atrás dele vemos PEDRÃO, 42,
o dono do estabelecimento. A mulher de Pedrão, ZIZA, 38,
limpa uma das três mesas do bar.
PALITO, 17, magro e alto, está conversando com Pedrão que
parece não concordar com Palito.
PALITO
Pô Pedrão, é cultura.
PEDRÃO
É R$2,50 a cerveja. Se quiser a
festa, tem que pagar.
Timão se aproxima de Palito e late.
223.
CONTINUED:
SARGENTO MAURO (CONT'D)
(CONTINUED)
PALITO
Ô Timão, aí meu, te deixaram sair,
é?
DAMIÃO
É, deixaram ele sair.
PALITO
Olha lá, se veio o cachorro, o dono
tá logo atrás.
Os dois se abraçam como velhos amigos.
EXT. SETE CAMPOS -- DIA
ÂNGULO EM uma jogada de drible num dos jogos de várzea.
PERUCA, 38, meio careca, é driblado com a bola entre as
pernas por um rapaz de 22.
Um ESPECTADOR, 28, se levanta e grita, vendo Palito passar ao
lado do campo.
ESPECTADOR
Ó lá Peruca, o Palito alí joga
melhor que você.
Palito levanta o dedo médio para o espectador. Ele caminha ao
lado de Damião e agora percebemos que Palito é coxo, manca da
perna direita.
Damião olha para o espectador também. Faz menção de ir tierar
satisfação. Incita Timão, que começa a latir, mas Palito o
segura.
PALITO
Deixa disso, são uns merda...
Damião encara o espectador, que se senta constrangido. Timão
late novamente.
CUT TO:
EXT. SETE CAMPOS -- DIA
Damião e Palito estão sentados num morrinho ao lado do campo.
Damião abre a lata de cerveja que tem na mão, dá um gole e a
passa para Palito.
DAMIÃO
Que idéia essa meu, cerveja de
graça...
Damião joga um pedaço de pau e Timão vai correndo recolher.
224.
CONTINUED:
(CONTINUED)
PALITO
Agora sou produtor cultural.
DAMIÃO
Como é que é?
PALITO
O pessoal do Juninho perguntou se
eu tinha visto você, tão esperando
você dar as caras lá. Tem um monte
de boato rolando aí. Escutei umas
coisas bem sinistras.
Timão retorna, Damião o afaga.
DAMIÃO
Tou é com vontade de largar e caí
no mundo.
Os dois percebem que os jogadores nos campos param e olham em
direção à entrada dos 7 campos a partir da Estrada do
Alvarenga.
Damião e Palito se levantam e percebem a viatura do Sargento
estacionada em cima do morrinho na entrada dos campos.
Jéferson desce da viatura.
Os jogadores olham para a viatura. A viatura dá marcha a ré,
e Jéferson fica sozinho em cima do morrinho.
PALITO
Quer sumir um tempinho? Vou te
apresentar a minha mina, ela é a
mulher mais bonita que existe.
Vamos dar a volta aqui por trás.
Damião e Palito descem do alambrado e atravessam o mato que
circunda o campo. Timão os segue.
EXT. RUA DO INSTITUTO CRIARE -- DIA
O Palio de Cléo estaciona na entrada de uma casa. Vemos
alguns garotos e garotas, ao lado do portão, conversando.
Cléo vai até eles.
CLÉO
E aí gente, vamos entrar?
ELKE
Oi Cléo, não dá para entrar, tá
trancado.
225.
CONTINUED:
(CONTINUED)
CLÉO
(já chegando na porta da
casa)
Mas e o Genivaldo, ele não veio
hoje?
LUIS
Faz uns dias que ele não vem. Ontem
e anteontem tava fechado também.
Timão chega junto à Cléo. Ela se assusta com o tamanho do
cachorro.
PALITO
Pode deixar que eu abro.
CLÉO
Palito, você é bom de arrombar
também?
PALITO
Produtor tem que saber de tudo.
Palito se agacha perto da porta, levanta um vaso e retira uma
chave.
Palito faz uma reverência e abre caminho para que todos
entrem.
PALITO
(para Cléo)
Princesa, por favor...
Cléo ri e vê que Timão corre para Damião. Ela percebe Damião,
que se agacha e afaga Timão. Ela e Damião trocam olhares.
INT. CASA DO INSTITUTO CRIARE -- DIA
Cléo está ao telefone. Ao fundo vemos os meninos e meninas se
aquecendo na sala grande da casa. Todos estão falando ao
mesmo tempo. Cléo não consegue escutar o que está sendo dito
ao telefone. Ela gruda o aparelho à orelha.
CLÉO
Como assim? Não, não peguei teu
recado, na minha casa...
Cléo se vira para os meninos e meninas.
CLÉO
Gente, silêncio por favor.
Ela volta a tentar conversar ao telefone.
226.
CONTINUED:
(CONTINUED)
CLÉO
... falou com a garota que mora
comigo, ah, a Lívia?
Ela sinaliza que quer silêncio novamente.
Timão late e Damião o incita a latir novamente. Todos olham
para Damião e Timão e finalmente temos silêncio. Cléo volta
ao telefone.
CLÉO
Não acredito, mas assim de uma hora
para a outra? Poxa, que puta
irresponsabilidade. Eu tenho um
trabalho aqui com eles, tem muitas
horas de trabalho investidas. Horas
de todos!
Cléo, estupefata, olha para o aparelho de telefone.
CLÉO
Não, eu não aceito... Pois isso é
problema de vocês, arrumem outro
patrocinador. Eu não posso
interromper o trabalho.
Descrente, Cléo desliga e encara os meninos e meninas que
estão ansiosos.
EXT. ENTRADA DOS 7 CAMPOS -- DIA
A viatura avança e vemos agora que estamos de volta ao
morrinho ao lado dos campos de futebol.
Jéferson está postado no mesmo lugar. A porta da viatura se
abre. Jéferson olha para trás e encara o Sargento, Joilson e
Souza. Todos estão se divertindo com o medo de Jéferson.
Jéferson entra na viatura.
EXT. RUA DO BAIRRO PEDREIRA -- DIA
Jéferson está de cara fechada, a viatura em movimento.
SARGENTO MAURO
A coisa é assim. Nenhum soldado
joga sozinho, é tudo junto. Não tem
mais você, não tem Joilson, não tem
Souza, tem a equipe do Sargento
Mauro.
O Sargento puxa um cigarro, mas seu isqueiro não funciona.
227.
CONTINUED:
(CONTINUED)
SARGENTO MAURO
Você tem isqueiro, soldado?
JÉFERSON
Não fumo, senhor.
SARGENTO MAURO
De que me serve você, nem fósforo o
puto carrega. Joilson, vai, vamos
lá para o Portuga.
EXT. RUA DO INSTITUTO CRIARE -- DIA
Cléo se despede dos garotos e garotas. Palito fica na porta e
vem falar com ela.
PALITO
Cléo, o grupo vai continuar. Pode
deixar, a gente vai conseguir.
CLEO
Palito, você tá super empenhado, eu
sei. Vamos lá, a gente vai pensar
em alguma coisa. Mesmo sem grana,
eu já me comprometi.
PALITO
Você não tinha falado da gente
tomar uma cerveja para comemorar
fechar o espetáculo?
Melhorar fala de Palito, dois sentidos. Um é querer manter o
contato com Cléo e o outro é tentar manter o que ele já tinha
conseguido de intimidade com ela.
CLEO
O pessoal foi embora.
Timão chega perto de Cléo e começa a lamber seu sapato. Cléo
acha engraçado.
PALITO
Então vamos nós, a gente toma uma
cerveja pelo grupo.
DAMIÃO
Timão gostou de você, reconhece
gente boa.
CLEO
Ele tem jeito de que gosta de
qualquer um.
228.
CONTINUED:
(CONTINUED)
DAMIÃO
E a cerveja, se você não for o
Palito vai morrer de amor não
correspondido...
Palito enrubesce.
Cléo abre a porta do carro e indica para que entrem.
CLEO
Tá bem, mas eu não sei onde, tem
alguma padaria por aqui?
Palito se senta no banco da frente, Damião vai no banco de
trás. O carro arranca e Timão segue de perto.
Vemos o carro de Cléo seguir pela rua e Timão acompanhando
exatamente no mesmo ritmo ao lado da janela do passageiro,
seguindo a mão de Damião, estendida para fora.
Cléo ri da destreza com que Damião mantém Timão acompanhando
o carro.
EXT. RUA PRÓXIMA - DIA
Na rua, algumas mães passam apressadas, puxando seus filhos
pelo braço.
Cléo passa ao lado de um barzinho de esquina, mas este começa
a ser fechado.
Cléo pára o carro e Damião desce e vai falar com o DONO DO
BAR. O dono entra no bar e volta com algumas latas de cerveja
num saquinho plástico, que entrega a Damião, e depois baixa a
porta do bar.
DAMIÃO
Acho que não vai rolar um bar
agora, mas que tal uma vista?
Cléo não entende. Damião assobia para Timão que vem logo
atrás.
Damião levanta o banco da frente para que Timão possa entrar
no carro.
DAMIÃO
(para Cléo)
Posso?
Cléo meneia que sim. Damião indica para que Timão entre. O
cão entra no carro.
229.
CONTINUED:
(CONTINUED)
O carro segue pela rua.
NO CARRO
DAMIÃO
Entra aqui à direita, olha ali a
passagem.
Ao dobrar a rua, vemos já a entrada da pedreira. Uma das
cercas de arame está no chão e há uma passagem aberta.
DAMIÃO
Dá para entrar com o carro.
Cléo hesita.
DAMIÃO
Vale a pena.
EXT. PEDREIRA - DIA
O carro de Cléo segue pela ruela de terra que circunda a
pedreira. O carro sobe levantando poeira.
Ela olha pela janela e vemos o tapete de casas, casebres e
edificações de uma típica periferia de São Paulo.
Damião, do banco de trás, observa a nuca de Cléo.
Cléo sente que está sendo observada, passa a mão no pescoço e
se volta para ver Damião.
Timão tenta colocar a cabeça para fora do carro.
O carro dá mais uma volta no morro da pedreira.
Ao chegar ao topo, vemos um favela que toma o morro ao lado
da pedreira e uma avenida larga do outro lado.
Cléo estaciona.
Todos descem do carro. Damião distribui as cervejas. Damião
abre a sua lata e coloca um pouco na mão para dar para Timão.
CLEO
Ele bebe cerveja?
Cléo ri, Damião dá mais um pouco de cerveja para o animal.
Cléo faz o mesmo. Timão toma cerveja na mão dela.
230.
CONTINUED:
INT. CASA DE JOSUÉ -- DIA
Josué sai do banheiro enrolado numa toalha. Ele entra no
quarto, sua roupa está disposta sobre a cama. Faltam as
meias, e ele as procura numa cômoda.
Josué percebe algo em cima da cômoda. Ao pegar o papel vê se
trata da:
CARTA DE SAÍDA TEMPORÁRIA DE DAMIÃO.
JOSUÉ
Puta moleque irresponsável.
EXT. PADARIA SABOR DE MEL -- DIA
A viatura do Sargento está estacionada na frente da padaria,
Jéferson e Souza estão postados de guarda do lado de fora.
Jéferson está incomodado com a calça que está apertada no
cavalo.
EXT. MORRO DA PEDREIRA -- FINAL DO DIA
Cléo está olhando para Damião, que bebe um gole de cerveja na
lata.
DAMIÃO
Tem música nesse carro?
CLÉO
Tem sim.
Cléo entra e liga o som do carro. Ela escolhe um CD de música
instrumental. Damião e ela trocam olhares. Palito começa a
perceber um clima entre os dois.
PALITO
Cléo, tem um som agitado?
CLÉO
Palito, você tá sempre acelerado.
Cléo procura por algum outro CD e coloca um CD de música
lounge árabe.
O som ecoa na pedreira. O sol está se pondo.
Os três se encostam no capô do carro e ficam admirando a
vista escutando o som do carro.
DAMIÃO
E o instituto, acabou?
231.
(CONTINUED)
CLEO
Hoje é um dia muito difícil. Mas é
tudo muito chato, deixa pra lá.
Timão late e se levanta, algo lhe chamou a atenção. Ele sai
em disparada morro abaixo, em direção à avenida.
DAMIÃO
Talvez pro Timão seja chato, pra
mim não é não. Me conta...
Cléo sorri e os dois continuam a conversar, isto é, Cléo fala
e Damião escuta, embevecido pela figura dela.
EXT. RUA DO BAIRRO PEDREIRA -- PÔR-DO-SOL
Josué caminha pela rua, pára e assobia, chamando Timão.
Ele aguarda para ver se escuta algo, algum latido, mas nada.
Josué cruza a rua que dá entrada aos 7 campos. Ao fundo, o
bar do Pedrão.
EXT. PEDREIRA -- PÔR-DO-SOL
Cléo e Damião estão já de corpos mais próximos, reclinados
sobre o capô do carro de Cléo.
Palito está dentro do carro e acende os faróis. Ele escolhe
um funk, e aumenta bastante o som.
PALITO
Vocês já viram manco dançar?
Cléo e Damião se voltam para Palito que agora se posta à
frente do carro, iluminado pelos faróis acesos.
DAMIÃO
Não sabia que você dançava.
CLEO
No espetáculo o Palito faz uma
coreografia, ou disse que ia fazer.
Palito ensaia os primeiros passos para sua platéia.
PALITO
Eu disse que ia fazer, eu te
prometi, lembra? Se você saísse
comigo para tomar uma cerveja eu
dançava na peça.
232.
CONTINUED:
(CONTINUED)
CLEO
Você e o Palito são amigos faz
tempo?
Damião e Palito batem as mãos.
DAMIÃO
Vocês já foram pra Mongaguá? É
praia ne? Conhecem?
PALITO
Eu nunca entrei no mar.
CLEO
Sério?!
DAMIÃO
Não zoa não, eu também não.
CLEO
Monagaguá eu não conheço.
Damião abre um outra cerveja e levanta a lata.
DAMIÃO
Então tá, aqui vai, vamos descer e
passar o dia com o pé na areia?
Os três se entreolham, parecem concordar.
CLEO
Mas agora? Eu não tenho biquíni.
Assim de repente parece loucura.
DAMIÃO
A gente compra, gasolina eu pago, a
gente nada, come, toma caipirinha.
Aproveita o domingão.
Cléo hesita.
PALITO
Tem que arriscar, às vezes, é
seguir e dançar.
Os três se entreolham. Sorriem, concordando com a loucura.
Palito super animado, começa a dançar uma dança meio
desengonçada. Uma perna não acompanha a outra. Cléo e Damião
se divertem.
233.
CONTINUED:
(CONTINUED)
Palito percebe que Cléo e Damião estão cada vez mais juntos,
e faz uma dança ainda mais radical. Mas, na troca de um dos
pés, se confunde e acaba indo ao chão.
Palito cai. Cléo e Damião riem. Damião vai ajudar o amigo a
se levantar, Cléo abaixa o som do carro, que estava muito
alto.
DOIS TIROS ECOAM
Ao ajudar a levantar Palito, Damião procura ver de onde vem o
som dos tiros.
Damião vê, na avenida abaixo, uma viatura da Polícia Militar,
parcialmente encoberta por um edifício. É a viatura do
Sargento Mauro.
Um soldado entra na viatura e esta se desloca, revelando uma
mancha branca no asfalto.
Palito e Cléo também olham tentando identificar o que possa
ser.
Agora vemos com mais clareza, é um cachorro branco estirado
no chão.
Damião despenca morro abaixo correndo.
Palito e Cléo ficam na rua de terra da Pedreira.
Damião corre pelo mato alto, saltando alguns obstáculos no
caminho.
Cléo e Palito se voltam e entram no carro de Cléo.
EXT. AVENIDA DA PEDREIRA -- NOITE
Timão está estirado ao lado da guia do canteiro central da
avenida, envolto por uma poça de sangue.
Damião pára do outro lado da rua e hesita antes de
atravessar.
Damião caminha até seu cachorro. Damião coloca a mão para ver
se Timão está respirando. A respiração de Timão falha. O cão
morre.
A luz do farol do carro de Cléo ilumina Damião. Agora vemos
que Damião pegou Timão no colo.
Cléo pára o carro ao lado dos dois. Palito desce do carro.
234.
CONTINUED: (2)
(CONTINUED)
CLEO
Eu não entendo, o que aconteceu?
Palito vê algo próximo de Timão, ele se agacha e recolhe um
pé de sapato preto. Há outra poça de sangue ao lado do
sapato.
Damião se levanta carregando Timão.
CLEO
Aonde você vai?
DAMIÃO
Eu não sei, não sei, não sei o que
fazer.
CLEO
Você não quer levar ele até o
veterinário?
Damião desentendido, olha para Cléo. Palito levanta o sapato
sujo de sangue.
INT. CARRO DE CLÉO -- NOITE
A luz vinda dos postes na rua ilumina a cabeça de Timão que
está no colo de Damião. A cabeça do animal entra e sai da
luz.
Damião levanta a cabeça.
DAMIÃO
Vira aqui.
O carro de Cléo dobra a esquina.
Cléo olha para trás, para ver Damião.
EXT. RUA DA CASA DE JOSUÉ -- NOITE
O carro de Cléo estaciona na frente da casa.
Damião desce do carro carregando Timão.
INT. CASA DE JOSUÉ -- NOITE
A porta se abre e Damião carrega Timão para dentro. Atrás
dele vêm Palito e Cléo.
Palito carrega o sapato sujo de sangue.
Damião coloca Timão morto em cima do sofá da sala.
235.
CONTINUED:
(CONTINUED)
DAMIÃO
Deixa eu ver esse sapato aí.
Damião pega o sapato e vai para o quarto.
Na sala Cléo observa Timão no sofá.
CLEO
Porque matar um cachorro?
Damião volta do quarto com um sapato diferente nas mãos. Ele
compara o pé de sapato que acaba de recolher do armário de
Josué com aquele encontrado na rua. Ele coloca sola com sola,
verificando o tamanho.
São exatamente do mesmo tamanho.
Ele caminha direto para o telefone.
Damião consulta o telefone de Edilene no papel que Josué lhe
passou e disca o número.
PALITO
Pra quem você está ligando?
DAMIÃO
Merda, deu mensagem.
Damião desliga.
DAMIÃO
Pra Edilene.
PALITO
A noiva do teu irmão?
CLEO
Irmão? Que irmão?
Damião olha para Timão, depois pensa e conjectura.
DAMIÃO
A gente precisa passar no pronto
socorro de Diadema.
Damião começa a andar para a porta.
CLEO
Você tá todo sujo de sangue.
Damião começa a tirar a roupa ali mesmo, tira camisa e vai
tirando a calça e entrando no banheiro para uma chuveirada
rápida.
236.
CONTINUED:
(CONTINUED)
A porta fica entreaberta e Cléo observa o banho de Damião.
Ele sai com uma toalha enrolada no corpo e vai para o quarto.
INT. CARRO DE CLÉO -- NOITE
ANGULO na nuca de Damião. Ele enxuga a cabeça com uma toalha.
Damião está no banco da frente do carro de Cléo.
Damião olha para o lado e vê um boteco na rua. Dentro dele
podemos ver Juventino, pai de Josué. Ele está com a Bíblia em
cima do balcão e virando um copo de pinga.
Cléo, na direção, vira para entrar na avenida Estrada do
Alvarenga.
DAMIÃO
Pega alí, à esquerda.
CLEO
Eu não conheço, nunca entrei em
Diadema, só passando pela estrada
pra Santos.
Palito está limpando o banco de trás com um jornal. O banco
está sujo com sangue.
Damião se volta para trás.
DAMIÃO
Deixa eu ajudar.
Damião passa um maço de jornal no banco.
CLEO
Deixa isso, deixa. Só me diz o que
a gente vai fazer no pronto
socorro.
Damião larga o jornal, se acomoda de novo no banco da frente.
DAMIÃO
O que é que você não entendeu
ainda?!
Cléo olha para Damião. Ele está centrado, olhando para
frente, focado no caminho.
INT. HOSPITAL MUNICIPAL DE DIADEMA -- NOITE
O movimento é intenso, várias pessoas passam com parentes
pelos corredores. Vemos macas dispostas com pacientes
aguardando atendimento.
237.
CONTINUED: (2)
(CONTINUED)
Um ENFERMEIRO passa pelo corredor e uma MULHER ANSIOSA o
agarra para fazer perguntas. Ele nega com a cabeça e tenta
seguir seu caminho, mas 4 OUTRAS PESSOAS se aproximam. Ele se
irrita e indica que fiquem do lado de fora.
Um MÉDICO, estetoscópio no pescoço, passa próximo e chama o
enfermeiro.
O enfermeiro começa a direcionar as pessoas para fora do
corredor. Estas passam por uma porta dupla voltando para uma
área de espera.
Do outro lado da porta estão Cléo, Damião e Palito, também à
procura de informações.
O enfermeiro percebe a intenção dos três.
ENFERMEIRO
Aqui não entra! Informação é
naquele balcão alí.
ÂNGULO NO BALCÃO - não há ninguém para dar informações.
CLEO
Mas não tem ninguém lá.
ENFERMEIRO
Isso não é problema meu, se ela foi
no banheiro, teve que fazer alguma
coisa, tem que ir lá pedir
informação e dar entrada. Algum de
vocês está machucado, ferido? Não,
então é esperar alí ó.
O enfermeiro tenta fechar a porta para passar o ferrolho na
parte de baixo e impedir que ela seja aberta por outras
pessoas.
Damião coloca o pé na porta. Ele empurra a porta e encara o
enfermeiro.
DAMIÃO
Eu tou procurando um homem, 28
anos, ferido a bala e trazido pela
Polícia Militar.
ENFERMEIRO
Você não pode entrar aqui. Tem que
perguntar alí no balcão.
DAMIÃO
E como é que gente vai fazer?
238.
CONTINUED:
(CONTINUED)
Damião indica que não vai retirar o pé. Os dois se encaram.
ENFERMEIRO
Tá legal, você, vem, entra. Vou
fechar.
DAMIÃO
Eles dois entram comigo.
O enfermeiro abre a porta e deixa Damião, Cléo e Palito
entrarem, mas fecha a porta logo em seguida. O grupo que
havia sido colocado para fora percebe que os três conseguiram
entrar e voltam em direção à porta obviamente revoltados.
Mas a porta já está trancada.
O enfermeiro segue pelo corredor.
DAMIÃO
Eu quero saber se a PM trouxe
alguém pra cá.
ENFERMEIRO
Ali naquela sala esperando a
retirada. O IML está demorando.
Vocês tem que falar com o policial
civil de plantão, alí na sala do
outro lado.
Todos caminham pelo corredor. No final do corredor, o
enfermeiro pára esperando que eles entrem na sala para falar
com o Policial Civil, mas Damião entra direto na sala oposta
onde estão os corpos.
Cléo e Palito seguem Damião e entram na sala com ele.
O Enfermeiro fica nervoso e entra na sala do investigador da
Policia Civil para reclamar.
ENFERMEIRO
(entrando na sala)
Policial, policial, tem aqui uns
indivíduos, eu disse para...
INT. SALA DO INVESTIGADOR NO HOSPITAL -- NOITE
A sala é espartanamente mobiliada. Uma mesa já bastante
velha, alguns papéis em cima dela. Um paletó na cadeira, e um
copo de café em cima dos papéis.
239.
CONTINUED: (2)
(CONTINUED)
ENFERMEIRO
São todos uns filhos da puta mesmo.
Folgado pra caralho. Só eu trabalho
nesta merda...
INT. SALA COM CORPOS NO PRONTO SOCORRO DE DIADEMA -- NOITE
Damião está parado depois de ter avançado alguns metros para
dentro da sala.
Cléo se aproxima dele, Palito chega junto também.
Cléo cobre a boca e o nariz com a mão.
DAMIÃO
Sem sapato.
CLEO
Sem sapato?
Palito entende e remove o lençol de cima do primeiro corpo
numa maca. Vemos os pés de uma mulher de idade.
Damião descobre os pés de um homem em outra maca, este de pés
descalços.
Cléo fica parada observando, tentando não vomitar.
Palito avança para outra maca. Um velho, de pés descalços.
Cléo olha para a próxima maca.
Damião avança para ela e remove o lençol dos pés.
Cléo vê os pés de um homem. Um pé de meia, e outro ainda
calçando o sapato.
Palito percebe e se aproxima de Damião.
Damião puxa o lençol de cima do rosto do morto.
É Josué, Damião se dobra sobre o corpo.
DAMIÃO
Filhos da puta, filhos da puta.
Cléo avança entre as macas. Palito se aproxima de Damião pelo
outro lado.
DAMIÃO
Por quê? Josué, por quê?
240.
CONTINUED:
(CONTINUED)
PALITO
Damião, olha isso aqui.
Damião se volta para Palito. Palito indica um esparadrapo com
a identificação do morto colado bem no meio do lençol.
Cléo também vê o esparadrapo.
CLEO
Damião?
Damião olha a tarjeta, o nome escrito nela é o dele.
IDENTIFICAÇÃO NA TARJA: DAMIÃO ALVES SILVA.
CLEO
Como é o nome do teu irmão?
DAMIÃO
É Josué. Era Josué.
Damião retira o lençol de cima do corpo. Cléo não etende e dá
alguns passos para trás.
PALITO
Mas por que o seu nome então?
DAMIÃO
Palito, me ajuda aqui.
Damião levanta o corpo de Josué. Ele vasculha os bolsos da
calça e encontra a carteira de Josué.
Ele retira a carteira do bolso de trás, todos os documentos
estão lá. Carteira de Identidade, CIC, título de eleitor,
carteira de motorista, carteira de vacinação, cartões da
mecânica.
CLEO
Nem olharam nos bolsos dele?
Damião cobre o corpo do irmão.
O enfermeiro abre a porta.
ENFERMEIRO
Vocês já tiveram bastante tempo.
Vendo o estado de comoção de todos. O enfermeiro encosta a
porta e se posta do lado de fora.
241.
CONTINUED:
(CONTINUED)
Damião pega a carteira de identidade de Josué e a coloca no
peito do irmão, foto para cima. É evidente que o documento é
do defunto.
DAMIÃO
(ao ouvido de Josué)
Mano, isso não fica assim.
INT. CORREDOR DO PRONTO SOCORRO -- NOITE
O enfermeiro está parado ao lado da porta. Damião sai, Palito
e Cléo atrás dele.
ENFERMEIRO
O Policial deve estar voltando,
vocês têm que esperar do lado de
fora, agora.
Damião se aproxima do enfermeiro.
DAMIÃO
Os documentos do morto estão com
ele. É só verificar.
Damião sai pelo corredor. Cléo e Palito o seguem.
EXT. HOSPITAL MUNICIPAL DE DIADEMA -- NOITE
Alguns carros se movimentam na entrada do hospital. Uma kombi
passa e revela Damião. Ele está usando um telefone público.
DAMIÃO
(ao telefone)
Oi Edilene... é, eu sei você deve
tá mesmo preocupada, olha o Josué
precisa da tua ajuda. Não, não, vem
aqui no Hospital de Diadema. Ele tá
te esperando. Não, ele não pode
falar agora... vem aqui e pede para
ir na sala 34 no final do corredor
do pronto socorro. Um beijo no teu
coração Luciene e muita força pra
você.
Damião coloca o telefone no gancho. Vemos que Cléo caminha e
se aproxima dele. Damião segura o telefone. Não consegue
largar o aparelho.
Cléo se aproxima, os dois se olham.
Cléo estende os braços, Damião aceita, os dois se abraçam.
Damião começa a chorar, Cléo o aperta.
242.
CONTINUED: (2)
(CONTINUED)
O abraço fica mais forte.
Os dois começam a trocar carinhos.
O abraço vira um beijo.
Surpresos, os dois se afastam.
EXT. HOSPITAL MUNICIPAL DE DIADEMA, CARRO DE CLÉO -- NOITE
Palito impaciente está dentro do carro. Ele olha para o lado
e vê Cléo e Damião, caminhando lado a lado, vindo para o
carro. Palito se levanta, sai do carro e levanta o banco para
Damião entrar. Ele abraça Damião.
Damião retribui e lhe dá um tapinha na cabeça. Damião entra
atrás. Cléo assume a direção.
Ela liga o motor, engata a marcha mas pára, decidida.
CLEO
Isso não tá certo.
Ela se volta para Damião.
CLEO
Como é que você pode ir assim,
deixar teu irmão aí. O teu
cachorro, o Timão, a gente levou
pra tua casa.
Os olhos de Damião se enchem de água.
INT. BAR COM MÚSICA AO VIVO -- NOITE
No pequeno palco de um bar com música ao vivo, vemos GILVAN,
24, que toca o VIOLÃO DE 7 CORDAS, GIAN, 22, que toca o
VIOLÃO DE 6 CORDAS, Mano, 29, que toca BANDOLIN e CIDO, 19,
que toca SURDO. Uma cadeira está vazia no palco, Os músicos
trocam olhares, estão esperando o quinto componente do grupo.
Alguém na platéia assobia.
O platéia é pequena, não mais que 10 mesas. Os músicos se
entreolham. Gilvan checa seu relógio. Eles decidem começar a
tocar sem ter o grupo completo, sem Jéferson.
EXT. ESTRADA DO ALVARENGA -- NOITE
Cléo está digirindo. Os três seguem dentro do carro em
silêncio.
243.
CONTINUED:
(CONTINUED)
CLEO
Tem certeza?
PALITO
Tenho, deixa a gente na entrada do
campo.
DAMIÃO
Cara, isso não fica assim. Pára,
passa e pára o carro.
Cléo não entende. Damião está olhando pra fora.
Vemos adiante a Padaria Sabor de Mel, e a Blazer do sargento
estacionada na frente da padaria.
Jéferson e Souza estão postados de guarda na frente da
padaria. Jéferson tenta limpar a camisa com um papel.
Cléo passa na frente da padaria. Damião fica fitando os
guardas. Jéferson não percebe, Souza vê o carro passando e
leva a mão ao coldre.
O sargento sai acompanhado do Cabo Joilson. Todos entram na
viatura.
DAMIÃO
Vira aqui.
(indicando a próxima
esquina)
Cléo vira na esquina e pára o carro. Vemos pelo vidro de trás
a viatura passando na avenida.
DAMIÃO
Palito, dá licença quero sair.
Palito sai do carro.
CLEO
O que você vai fazer.
DAMIÃO
Vou falar com o tio da padaria,
trocar umas idéias. Quero saber
quem tava aí comendo coxinha.
Damião caminha, dobrando a esquina.
EXT. RUA DA CASA DE JÉFERSON - NOITE
Jéferson, caminha a passos firmes carregando uma mochila e um
saco com seu cavaquinho.
244.
CONTINUED:
(CONTINUED)
Qualquer movimento que se esboça na rua lhe chama atenção.
Um homem que sai de casa para jogar o lixo.
Um cachorro que late e passa atravessando a rua duas quadras
abaixo.
Ele olha ao redor antes de entrar em sua própria casa.
Ele caminha até a porta da frente e coloca a chave para abrir
a porta. Mas a porta se abre antes que ele consiga dar a
volta na chave.
DONA OLÍMPIA, mãe de Jéferson, é quem abre a porta.
DONA OLIMPIA
Ai, meus Deus, eu tava tão
preocupada.
Ela verifica a vizinhança e puxa o filho para dentro de casa.
INT. CASA DE JÉFERSON E DONA OLÍMPIA - NOITE
DONA OLIMPIA
O mundo tá virado, tá tudo errado,
eu não desliguei a TV. Mas o
importante é que você tá aqui.
Dona Olímpia tenta apanhar a sacola de Jéferson, mas este a
segura. Ela não insiste e vai para a cozinha.
DONA OLIMPIA
Eu tou com sua comida pronta, é só
esquentar. Senta filho.
Jéferson fica imóvel na sala. A mãe continua a falar da
cozinha mas sua fala soa como balbucios.
NA COZINHA
Dona olímpia retira do microondas um pedaço de frango para
incrementar o prato do filho que está já em cima da pia.
DONA OLIMPIA
Agora você não vai sair mais não,
não é?
JOSUÉ
Me deram 12 horas, tenho que me
apresentar, todo mundo tá com turno
dobrado.
245.
CONTINUED:
(CONTINUED)
Dona Olímpia apoia o prato na pia da cozinha, não era isso
que ela queria escutar.
DONA OLIMPIA
Toma um banho meu filho, um banho
vai ajudar a relaxar.
INT. BANHEIRO DA CASA DE JÉFERSON E DONA OLÍMPIA - NOITE
Água jorra de um chuveiro elétrico. A fumaça torna a imagem
difusa. Jéferson está no chuveiro, vemos a parte de trás de
seu pescoço. A água quente bate em seu pescoço que já está
vermelho.
INT. SALA DA CASA DE JÉFERSON E DONA OLÍMPIA - NOITE
Dona Olímpia observa Jéferson comer. Ele mais empurra a
comida de um lado para o outro do prato do que come.
DONA OLIMPIA
Ô meu Deus, como é que eu esqueci.
Fiz suco de maracujá.
Ela se levanta e vai buscar o suco na geladeira.
Jéferson coloca o garfo na mesa, o prato ainda cheio. Dona
Olímpia retorna com o suco e enche o copo do filho.
Jéferson toma o suco. Dona Olímpia afaga os cabelos do filho.
DONA OLIMPIA
Você é a única coisa que eu tenho
no mundo.
JÉFERSON
Ô mãe, deixa disso, senta aí.
Ela se senta e espera o filho falar.
JÉFERSON
... eu matei um cachorro hoje, a
gente matou um homem também, ele
tava de saída temporária para
visitar a mãe. Eu tava nervoso
paca, primeiro dia, você viu né,
quando eu saí de casa parecia que
ia explodir...
EXT. RUAS DO BAIRRO PEDREIRA - NOITE
A Blazer do Sargento Mauro, avança pela estrada do Alvarenga.
246.
CONTINUED:
(CONTINUED)
JÉFERSON
Eles me testaram, o Sargento tava
virado, nunca ví ninguém com tanta
raiva. Eu tava com medo mas tentava
não mostrar.
O Sargento Mauro apanha o rádio da viatura.
SARGENTO MAURO
QAP central, 1402 na escuta
aguardando 1708 em suporte. Estrada
do Alvarenga altura do 5mil.
O Sargento segura o rádio impaciente.
SARGENTO MAURO
Filhos da mãe, todo mundo põe o
rabo entre as pernas, isso não fica
assim não.
Jéferson avista a Blazer de apoio vindo duas quadras abaixo e
indica isto para o Sargento.
A segunda Blazer se aproxima, as duas ficam lado a lado e o
Sargento conversa com o cabo da outra viatura.
CABO MENEZES
A ordem é voltar, seguir de duas em
duas e não sair sozinho. Todo mundo
de olho que a coisa tá virada.
SARGENTO MAURO
Eu volto, mas só se for por alí ó.
Mauro aponta para o outro lado da estrada do Alvarenga.
Menezes conversa com os soldados em seu camburão. Há uma
pausa e silêncio.
SARGENTO MAURO
(para Joilson que está na
direção)
Vira logo essa merda e vambora,
vamos ver se eles vem atrás.
A Blazer arranca em disparada pela avenida.
Escutamos um ASSOBIO ao longe.
O Sargento, Cabo Joilson, Souza e Jéferson percebem.
O mesmo ASSOBIO se repete.
247.
CONTINUED:
(CONTINUED)
Timão passa em disparada atravessando a avenida.
Um cachorro branco que não pode deixar de ser notado pelos
policiais.
EXT. RUA DA PARADA, PEDREIRA - NOITE
Josué ASSOBIA usando a mão. Ele atravessa a rua e pára numa
pequena ilha quase sem grama.
Ao fundo podemos ver a pedreira se destacando do resto da
paisagem urbana.
UM LATIDO ECOA
Josué se volta na direção do som e vemos Timão atravessar a
rua em disparada vindo em sua direção.
Josué sorri e se agacha para afagar o cão que se aproxima.
Um facho de luz cai sobre Josué. Timão começa a rosnar. É o
farolete da Blazer do Sargento que se aproxima.
Josué cobre os olhos, ele só consegue ver um clarão se
aproximando.
A Blazer pára ao lado de Josué. Josué vê vultos desenhados
pelo contraluz.
O Sargento, Souza e Jéferson descem da viatura. O Cabo
Joilson desce, mas fica controlando o farolete.
SARGENTO MAURO
Mão na cabeça.
JOSUÉ
Quieto Timão, quieto. Eu só quero
que ele fique quieto.
Timão rosna em posição de ataque. O Sargenteo se aproxima,
sem medo do cachorro.
Josué está petrificado mas leva as mãos à cabeça.
JOSUÉ
Timão, fica quieto por favor.
Jéferson está de arma em punho do lado de fora da Blazer com
a porta aberta.
Josué olha ao lado para Timão que não atende a seu pedido e
avança sobre o Sargento.
248.
CONTINUED: (2)
(CONTINUED)
O cão salta e leva um tiro.
Jéferson está com a arma apontada e dispara um segundo tiro
em Timão. O cachorro cai antes de chegar no Sargento.
JOSUÉ
Eu sou trabalhador, sou
trabalhador...
O soldado Souza acerta um soco no estômago de Josué. Este se
contorce, mas não cai.
SARGENTO MAURO
Filho da puta, treinando cachorro
pra atacar.
Jéferson olha para Timão que apesar de alvejado ainda
respira. Ele se aproxima para verificar o estado do cachorro.
SARGENTO MAURO
Revista o elemento.
Jéferson passa as mãos pelas pernas de Josué para verificar
se ele está armado. Sobe as mãos pela cintura e percebe logo
que ele leva algo no bolso da camisa.
Josué retira uma folha de papel do bolso da camisa de Josué.
É a carta de saída temporária de Damião.
JÉFERSON
Não sei o que é isso.
O Sargento apanha a carta. Com a luz do farolete da viatura
ele vê logo que se trata de uma carta de saída temporária, em
nome de Damião Alves Silva.
Jéferson observa a respiração ofegante de Timão, e se
sobressalta com
UM TIRO.
Ele se vira para Josué e vê que o Sargento acertou-lhe um
tiro no peito.
Josué cai de joelhos.
Joilson acerta um OUTRO TIRO no ombro de Josué e o soldado
Souza um TERCEIRO TIRO no pescoço.
Jéferson fica paralizado, sem reação. Fica olhando para Josué
caído na frente da viatura.
249.
CONTINUED:
(CONTINUED)
SARGENTO MAURO
Sai dessa soldado. Tem que levar o
elemento pro PS. Joilson tem que
fazer os dedinhos da moça.
Joilson volta para a viatura e retira um revólver calibre .38
de baixo do banco do motorista.
Cabo Joilson caminha até o corpo de Josué, coloca o revólver
na mão direita do morto e faz com que ele aperte o gatilho
disparando a arma duas vezes.
Jéferson carrega o corpo de Josué auxiliado pelo soldado
Souza. Sangue escorre pelo pescoço de Josué.
A porta de trás do camburão é fechada.
Jéferson entra na viatura, se senta e ao colocar as mãos na
barra do banco da frente percebe que estão sujas, sujas de
sangue. Ele esfrega as mãos na camisa para limpar o sangue.
JÉFERSON
Passar no PS de diadema foi rápido.
A outra viatura veio com a gente,
mas depois o cabo não queria voltar
não. Eu não acreditei, no meio
disso tudo e ele...
EXT. PADARIA SABOR DE MEL - NOITE
A viatura está estacionada na frente da Padaria. A porta de
ferro está baixada a meio do caminho. Jéferson está postado
do lado de fora fazendo guarda.
Dentro vemos o cabo tomando uma cerveja sendo servido pelo
Português. Os dois sorriem e comemoram algo.
JÉFERSON
... fez o Português abrir a
padaria, ele já tava fechado, mas o
Sargento tinha que tomar a cerveja
dele. Eu não sentia nada, não tava
com medo. Tava incomodado.
Ângulo em Jéferson que tenta limpar a mancha de sangue de sua
camisa. Ele cospe num papel e tenta limpar o sangue. O sangue
impregna o papel, mas não sai da farda.
INT. CASA DE JÉFERSON E DONA OLÍMPIA - NOITE
Jéferson está sentado à mesa, Dona Olímpia se levanta e
começa a limpar a mesa.
250.
CONTINUED: (2)
(CONTINUED)
DONA OLIMPIA
Você não viu não, mataram é um
monte de Policiais Militares, até
bombeiro foi atacado. Isso é
bandido sanguinário. Você tem que
sair vivo meu filho. Se não for
eles, pode ser você. Me dói é muito
ver você saindo assim com uma
trouxinha de roupa, escondendo a
farda como se fosse coisa feia.
Quero ver você sair de peito aberto
com a farda nova, engomada, que
farda tem que ter é goma mesmo.
EXT. RUA AO LADO DA PADARIA SABOR DE MEL -- NOITE
Cléo está apreensiva. Palito postado ao lado dela.
CLEO
Palito, vai ver o que ele está
demorando.
PALITO
Você vai ficar aqui?
Palito caminha até a esquina, e se dirige para a padaria.
Damião está acabando de baixar a porta de ferro da padaria.
Ele traz um garrafa na mão e alguns copos de plástico.
Damião olha para traz e vê palito.
Damião caminha de volta para o carro.
DAMIÃO
Eu tava precisando de uma bebida
forte, acho que todo mundo.
NO CARRO DE CLÉO
Cléo olha pelo retrovisor e vê os dois chegando no carro. Ela
se volta, palito entra no carro, Damião se aproxima pelo lado
do motorista e lhe passa um copo. Ela olha para o copo.
DAMIÃO
Conhaque.
Cléo toma um bom gole.
Damião entra no carro.
251.
CONTINUED:
(CONTINUED)
CLEO
Ele disse alguma coisa? Conhece
eles?
DAMIÃO
Não disse nada não, tava com medo.
CLEO
Deixo vocês aonde?
DAMIÃO
Segue por ali.
Cléo liga o carro e segue na direção indicada. O carro vira
ao final da rua.
EXT. OUTRA RUA DO BAIRRO PEDREIRA -- NOITE
Palito fica observando a rua.
PALITO
A entrada pra Criare é por alí.
DAMIÃO
Pára o carro alí ó, na frente
daquela casa.
Cléo estaciona o carro no local indicado.
CLEO
O que é que a gente...
Damião desce do carro levando sua mochila. Já fora do carro
ele completa:
DAMIÃO
Só um minuto, vou pegar uma coisa
pra gente.
Damião entra pela lateral desta casa. Vemos então que são na
verdade várias casas, uma em cima da outra, e que o corredor
lateral é o acesso para todas elas.
EXT. NO CORREDOR DE SUBIDA DAS CASAS -- NOITE
Damião sobe a escadaria. A cada lance vemos a entrada de uma
nova casa, com sua porta de entrada voltada para a escadaria.
Damião sobe direto para a última casa.
Depois do último lance de escada, ele chega a um pequeno
patamar.
252.
CONTINUED:
(CONTINUED)
Um RAPAZ, 17, anos, postado na sombra, em posição que lhe
deixa observar a subida toda, meneia com a cabeça. Ele está
armado com um revólver.
DAMIÃO
Vim ver o Juninho, ele tá me
esperando. Damião.
INT. CASA DE JUNINHO -- NOITE
A casa é muito simples e de construção inacabada. Algumas
caixas fazem as vezes de cadeiras. Ao fundo vemos JUNINHO,
35, tênis, calça de moletom e agasalho, atrás da única mesa
no cômodo. Na frente dele, 5 celulares, uma pistola
automática, duas granadas.
Ele está vidrado esperando os celulares tocarem.
Juninho levanta os olhos para Damião.
JUNINHO
Tava te esperando aqui no começo da
tarde, porra.
Um dos celulares de Juninho toca, ele atende.
JUNINHO
(ao telefone) Mané é foda. Vocês
pegaram o lugar errado, não, não
era esse não, nessa rua aí é o do
INSS, o prédio do (soletrando)
Sindicato dos Agentes
Penitenciários fica na rua do lado,
porra.
Juninho desliga o telefone puto da vida.
JUNINHO
Tá motorizado?
Damião indica que sim com a cabeça.
Um AJUDANTE DE JUNINHO, 27, vem do cômodo ao lado, traz uma
caixa que coloca em cima da mesa.
Damião lhe passa a mochila. O ajudante coloca a caixa dentro
da mochila de Damião.
DAMIÃO
Não quero só isso não.
253.
CONTINUED:
(CONTINUED)
JUNINHO
(ainda preocupado com os
celulares)
Atrasado e ainda vem com...
Juninho alcança sua pistola.
JUNINHO
Não vai querer não.
DAMIÃO
Quero grana, uma pistola e uma
branca pra ficar rápido na parada.
Juninho encara Damião.
DAMIÃO
Vou fazer uma onda que todo mundo
vai ficar sabendo.
JUNINHO
Você sabe que isso tem
consequência. Bandido falou... Você
já atirou de automática?
DAMIÃO
Não.
Outro celular de Juninho toca. Ele atende. Mas antes olha
para o Ajudante indicando que pegue o que Damião pede.
JUNINHO
O Gê, caralho, os mano erraram
mesmo, fala aí pra tua amiga
jornalista que foi uns puta bandido
burro meu, puseram a bomba no
prédio errado, mas a gente acerta o
resto.
Damião pega a mochila que está pesada, coloca nas costas.
JUNINHO
Olha a responsa. Isso aí tem que
chegar lá. Não falha não, que
promessa é assim. Tem um montão de
mano aí esperando essa mochila.
O ajudante volta com um outro pacote do quarto.
Damião vê que foi atendido em seu pedido.
254.
CONTINUED:
EXT. OUTRA RUA DO BAIRRO PEDREIRA -- NOITE
Cléo e Palito estão impacientes dentro do carro.
Damião surge já ao lado da porta do passageiro. Ele abre a
porta e empurra Palito para frente para entrar no banco de
trás com sua mochila.
Damião coloca a mochila no chão do carro e retira algo de um
dos bolsos laterais.
DAMIÃO
Cadê a garrafa?
Palito passa a garrafa para Damião. Ele dá um gole, depois
levanta um pacote.
É um pacote de cocaína, em tubinhos. Ele abre um.
DAMIÃO
Quem tem cartão aí, e caderno.
CLEO
Você tá louco? Aqui? A polícia por
aí.
DAMIÃO
Eles não vem aqui não.
CLEO
Eu cheiro uma carreirinha e deixo
vocês.
Damião ri.
DAMIÃO
Vamos começar, depois eu quero ver
se alguém consegue parar.
Damião segura o pacote com a cocaína.
DAMIÃO
Não, não é assim, só vai começar se
a gente for pra Mongaguá.
Os três trocam olhares.
INT. CASA DE JOSUÉ -- NOITE
Juventino entra completamente bêbado, tropeça em algo na sala
e percebe que Timão está no sofá.
255.
(CONTINUED)
JUVENTINO
Isso não é lugar de cachorro.
Mas ele segue adiante e o vemos entrar no quarto e desabar na
cama, sem nem mesmo tirar os sapatos.
EXT. ANCHIETA IMIGRANTES -- NOITE
Cléo está na direção. Estão todos acelerados. O som do carro
dá o clima para o consumo de droga.
Damião avista um posto da Policia Militar Rodoviária. Uma das
faixas da rodovia foi fechada para que os carros passem mais
devagar.
Dois policiais estão de guarda avaliando os carros que
passam. Ao lado do posto, um Fusca foi parado e outros dois
Policias revistam o carro.
DAMIÃO
Ali, ó.
Cléo fica nervosa, faz que vai girar a direção.
DAMIÃO
Calma, calma. Olha pra eles.
Damião se deita no banco de trás e recolhe a mochila no chão
do carro.
O carro de Cléo se aproxima dos policiais. Cléo encara um dos
policiais.
O outro policial acena para que passem.
Cléo mostra alívio e satisfação ao mesmo tempo.
O carro some depois da curva na pista.
MAIS À FRENTE NA RODOVIA
Damião se levanta, Cléo e Damião se olham pelo retrovisor.
DAMIÃO
Vamos encher o tanque. Pára no
posto.
O mostrador do combustível está na reserva. Logo à frente, um
posto de gasolina e serviços.
256.
CONTINUED:
EXT. POSTO DE GASOLINA -- NOITE
O Atendente do posto verifica que o tanque está cheio. Remove
a mangueira e coloca a tampa de volta no tanque.
Cléo desce do carro.
CLEO
Eu vou no toalete.
Damião está ao lado da bomba e acena que entendeu com a
cabeça.
Damião recolhe a sua mochila do banco de trás e a coloca no
porta malas do Palio.
DAMIÃO
Palito, olha aí, eu vou pagar o
gás.
O atendente passa um papel com o valor para Damião.
Palito aumenta o som do carro. O posto está vazio.
INT. LOJA DE CONVENIÊNCIA DO POSTO -- NOITE
Damião está no caixa.
DAMIÃO
Tem um mapa de Mongaguá?
CAIXA
Tem do litoral sul.
Damião pega o mapa e paga por tudo em dinheiro.
DAMIÃO
Onde é o...
CAIXA
Alí atrás.
Damião olha e vê Palito dentro do carro. Ele está balançando
a cabeça ao som da música.
EXT. BANHEIROS DO POSTO DE GASOLINA -- NOITE
Cléo está saindo do banheiro. Damião está chegando, os
banheiros são lado a lado.
Os dois se olham e logo se agarram. Damião leva Cléo de volta
para o banheiro feminino. Os dois vão cambaleando, juntos sem
se desgrudar.
257.
(CONTINUED)
Damião levanta Cléo e a coloca sentada na pia do banheiro.
Ela puxa para cima a sua saia, Damião abaixa as calças.
Os dois transam na pia do banheiro feminino.
O sexo é rápido e intenso. Os dois se grudam e ficam olho no
olho. Eles se abraçam fortemente.
EXT. CARRO DE CLÉO NO POSTO -- NOITE
Palito está balançando a cabeça ao som da música. Não vê
Damião se aproximando.
Damião enfia a mão para dentro do carro e desliga o som.
DAMIÃO
Virou nóia, é? Não vai moscar, dar
mancada aí que você pode me
arrastar.
Palito se acerta no banco.
PALITO
Não, não, Damião, não mesmo. Meu,
meu, é que tava muito, muito
mesmo...
DAMIÃO
Calma aí Palito. Fica na sua.
PALITO
E a Cléo?
DAMIÃO
Sabe como é, mulher no banheiro
leva um tempão. Ela já deve tá
vindo.
Cléo desponta por trás do edifício, vindo da área dos
banheiros.
EXT. CARRO DE CLÉO -- NOITE
Vemos as luzes de um dos túneis passando acima.
O carro entra e sai de fachos de luz.
Damião está na direção conduzindo o carro. Cléo vem na frente
no banco do passageiro e Palito no banco de trás um pouco
contrafeito por ter perdido o lugar ao lado de Cléo.
258.
CONTINUED:
EXT. RODOVIA DOS IMIGRANTES -- NOITE
O carro de Cléo entra num dos túneis da rodovia.
EXT. RODOVIA DOS IMIGRANTES -- AMANHECER
Vemos o nascer do sol e a cidade de Santos abaixo. A vista é
linda. A câmera recua e vemos que o carro de Cléo está
estacionado num belvedere da rodovia.
Cléo, Palito e Damião estão observando a vista.
PALITO
Eu vou mergulhar com tudo nesse
marzão.
EXT. RODOVIA PEDRO TAQUES -- DIA
Placa indica a entrada de Mongaguá.
NO CARRO DE CLÉO
Damião vira para pegar a saída.
EXT. PADARIA SABOR DE MEL -- DIA
Freitas, empregado da padaria, está postado ao lado da porta
de ferro de correr.
Ele olha o relógio, impaciente.
Uma SENHORA, 54, se aproxima dele e lhe pergunta algo. Ele dá
com os ombros e aponta para a porta de ferro fechada.
EXT. PRAIA DE MONGAGUÁ -- DIA
Vemos a estátua de Iemanjá na praia de Mongaguá. Ao lado
dela, quiosques, um ao lado do outro. Um estacionamento atrás
dos quiosques e, ao lado, uma fileira de barracas que vendem
roupas, lembranças e bijuteria/artesanato.
Na avenida beira-mar, uma loja de esquina, CARLA MODA PRAIA,
anuncia em uma grande placa a venda de toda a variedade de
produtos, de bóias a biquinis. A loja está sendo aberta.
Do outro lado da estátua, um trecho de praia, um único
quiosque ainda fechado e vemos que há entradas na praia com
marcas de pneus de carro na areia.
Ao fundo um grande e longo pier abandonado.
Palito desce do carro e fica postado ao lado da estátua de
Iemanjá admirando o mar.
259.
(CONTINUED)
Cléo desce do carro também.
Todos respiram fundo para sentir o cheiro da maresia.
DAMIÃO
(para Palito)
Vai lá meu, vai lá.
Palito segue rápido, mancando, para a praia. Cléo acompanha
Palito.
Damião fica mais para trás observando os dois.
EXT. LINHA DA ÁGUA NA PRAIA DE MONGAGUÁ -- DIA
Palito está imóvel. Ele olha para a próxima onda que se
aproxima. Ele levanta a barra da calça e espera a onda chegar
e tomar seus pés.
Palito abre um enorme sorriso.
Cléo tirou o sapato e está caminhando descalça pela praia.
Damião está recostado na mureta em frente aos quiosques da
praia. Somente um ou dois deles estão abertos, as mesas,
ainda estão sem os seus guarda sóis.
Damião acena para Palito.
Cléo, ao fundo, caminha pela linha de arrebentação.
Palito chega até Damião.
DAMIÃO
Aqui ó, pega isso aqui.
Damião entrega algum dinheiro para Palito.
DAMIÃO
Compra um biquíni para a sua mina,
vê o que você quiser também. Hoje
não pode faltar nada, hoje é o
domingo de praia, mano.
Damião se levanta e começa a andar de volta para a avenida.
Ele tem as chaves do carro na mão.
PALITO
Onde você vai?
DAMIÃO
Cada um tem a sua caminhada, eu tou
fazendo o que eu tenho que fazer.
260.
CONTINUED:
(MORE)
(CONTINUED)
Mas ó, desenrola aí com a Cléo.
Compra protetor solar heim, não
quero nenhum camarão.
Palito olha de volta para a praia. Ele vê Cléo e caminha em
direção a ela.
EXT. RUAS DE SÃO PAULO -- DIA
A viatura do sargento se desloca em alta velocidade pela
cidade com a sirene soando e o giroflex ligado.
EXT. PADARIA SABOR DE MEL -- DIA
A padaria está com as portas de ferro levantadas. Algumas
pessoas se juntam curiosas do lado de fora.
A viatura do Sargento Mauro está estacionada na frente da
padaria.
FREITAS
Eu demorei para perceber, ele nunca
se atrasa, mas a porta estava
baixada. Só depois eu ví que estava
destrancada.
Seguimos para dentro da padaria.
Jéferson está ao lado da porta e vê uma poça de sangue que se
estende para ao chão da padaria vindo de trás do balcão.
Jéferson procura ver atrás do balcão.
Freitas está mostrando a cena para o Sargento, que pula o
balcão para ver melhor.
Jéferson consegue ver o Português estirado no chão, encostado
no balcão pelo lado de dentro. O Português tem um documento
de identidade colado com sangue na própria testa.
FREITAS
Isso estava aí, eu não mexi em
nada.
O sargento se aproxima do Português e descola o documento de
identidade da testa dele. O documento está sujo de sangue.
Jéferson se adianta e apanha um maço de guardanapos.
JÉFERSON
Quer que eu limpe?
O sargento hesita, depois entrega o documento para Jéferson.
261.
CONTINUED:
DAMIÃO (CONT'D)
(CONTINUED)
Jéferson limpa o documento. É a carteira de motorista de
JOSUÉ ALVES SILVA.
O sargento olha para Freitas, este percebe que o Sargento não
lembra seu nome.
FREITAS
É Freitas sargento, Freitas.
SARGENTO MAURO
Olha aqui Freitas, isso aqui eu vou
levar, não adianta nada dar isso
pra civil que eles nunca pegam
ninguém, você tá me entendendo?
O Sargento estende a mão para Jéferson, que lhe devolve o
documento de Josué, agora limpo.
O Sargento se dirige para fora.
Jéferson agora consegue ver o corpo todo do Português. Ele
está recostado no balcão, com as duas mãos segurando o
pescoço como se tivesse tentado estancar o sangue depois de
ter as veias do pescoço cortadas. Olhos vidrados.
SARGENTO MAURO
Jéferson!
Jéferson se vira. O Sargento indica que ele deve segui-lo.
INT. CASA DE JOSUÉ -- DIA
Juventino abre os olhos. O som de alguém batendo à porta vai
ficando mais claro, discernível.
NA SALA
Juventino vem para a sala. Ele esfrega os olhos e vê, pelo
vidro translúcido no meio da porta, um vulto.
EDILENE
(do lado de fora)
Seu Juventino, seu Juventino, é a
Edilene. Abre pelo amor de Deus,
seu Juventino.
Juventino caminha pela sala. Vê Timão no sofá e puxa o
cachorro. O cão cai do sofá. Só agora ele percebe que o
cachorro está morto.
Juventino fica parado olhando para o cachorro morto no chão.
Edilene continua a bater na porta.
262.
CONTINUED:
EXT. AVENIDA EM MONGAGUÁ -- DIA
Damião está na direção do carro, ele estaciona na avenida.
Ele está com o mapa da baixada aberto no colo. Damião
identifica um lugar, verifica o trajeto, coloca o mapa de
lado, e sai, novamente, com o carro.
O carro de Cléo se desloca pela avenida e dobra, na primeira
esquina, se afastando da praia.
INT. CARLA MODA PRAIA -- DIA
Um manequim recebe a luz da porta de ferro que cobre a
vitrine da loja e está sendo aberta.
Cléo já está dentro da loja. Palito observa a figura do
manequim feminino, e depois Cléo.
Cléo passa por uma arara com vários biquínis, escolhe alguns.
Depois se dirige à arara dos calções de banho.
NILZA, 19, vendedora da loja indica onde são os provadores.
Cléo caminha para os provadores. São dois, um ao lado do
outro. Ela entra carregando os cabides com os biquínis e
calções.
Cléo entra, fecha a cortina, depois estica o braço para fora
segurando os cabides com os calções.
Palito caminha até o provador e pega os cabides da mão de
Cléo.
Ele hesita. Cléo dentro do provador já está tirando a
camiseta.
CLEO
Palito deixa disso, você vai ficar
lindo. Eu escolhi os mais bacanas
pra você.
A cortininha do provador de Cléo parece que vai se abrir.
Palito vê um pouco do corpo de Cléo.
EXT. RUA MONGAGUÁ -- DIA
Damião estaciona o carro numa rua sem movimento, desce e abre
o porta malas.
Damião olha para a sua mochila. Depois olha ao redor para
checar que não há ninguém olhando.
263.
(CONTINUED)
Ele abre a mochila e checa o conteúdo. Não vemos o que está
dentro dela. Ele fecha a mochila e de pé ao lado do carro
fica parado por alguns instantes.
INT. PROVADOR NA CARLA MODA PRAIA -- DIA
Palito está dentro do provador. Ele pendura a calça e tira um
dos calções do cabide, o mais sóbrio e escuro. Ele coloca o
calção.
CLEO
Palito, tá decente?
Cléo abre a cortininha do provador de Palito. Ela está de
biquíni, Palito está acabando de colocar o calção.
CLEO
Tá um gato, mas acho que esse aqui
é mais alegre.
Cléo lhe entrega um calção mais surfista, verde limão com
laranja.
PALITO
Eu não vou usar isso aí não.
Cléo dá uma voltinha.
CLEO
E o meu tá legal?
PALITO
Tá super legal.
CLEO
O menino, não pode falar só isso
não, se não a mulher acha que não é
sincero, tem que duvidar, perguntar
do outro modelo.
PALITO
Mas tá legal, tá legal mesmo.
Cléo volta para o provador.
CLEO
Eu vou colocar outro, e você pode
ir colocando este calção também.
Cléo fecha a cortina de seu provador. Nilza, estende mais um
modelo para Cléo. Palito finalmente fecha a cortina de seu
provador também.
264.
CONTINUED:
EXT. CARLA MODA PRAIA -- DIA
Cléo e Palito saem da loja. Eles têm algumas sacolas, uma com
as roupas usadas. Os dois estão de óculos escuros, Cléo de
biquíni e saída de praia, sandálias Havaianas. O serviço
completo.
Música funk embala a cena. Os dois atravessam a avenida.
Palito oferece o braço a Cléo que aceita. Eles cruzam a
avenida como se fizessem parte de um desfile de moda. Palito
está esfuziante, uma linda mulher a seu lado. Mas ele manca.
EXT. RUA DE SANTOS -- DIA
Damião está observando o movimento da rua pelo retrovisor.
Ele percebe que um HOMEM DE CALÇÃO, 32, e camiseta, faz sinal
para ele. Damião desce e leva consigo a sua mochila, que
agora está no banco do passageiro a seu lado.
Damião caminha até o bar da esquina. O Homem de calção o
segue.
EXT. BAR DA ESQUINA, SANTOS -- DIA
Damião entra no bar, o Homem de Calção também. Ao sair, vemos
que a mochila de Damião está vazia. Ele vem tomando uma lata
de cerveja.
Antes de entrar no carro ele dá uma boa olhada ao redor e
depois toma um último gole de cerveja. Ele joga a lata vazia
no chão e entra no carro.
EXT. PRAIA DE MONGAGUÁ -- DIA
Cléo está saindo do mar. Palito está na areia, pernas
dobradas, tentando esconder seu defeito. Ele admira Cléo.
Cléo chega perto dele e o atiça jogando um pouco de areia.
Palito se levanta, Cléo gesticula para que ele venha com ela
até o mar.
Palito finalmente sorri, olha ao redor para ver se estão
olhando para ele. Depois assume um ar mais resoluto e caminha
até a água.
Cléo vai mais para o fundo. Mergulhando e nadando com
desenvoltura.
Palito caminha atento e espera a primeira onda quebrar para
seguir adiante.
Cléo já está mais para o fundo.
265.
(CONTINUED)
Palito se aventura, e segue mancando. Ele chega a ficar com
água perto do pescoço, mas pára.
PALITO
Cléo, Cléo.
Cléo se aproxima nadando. Ela faz uma volta ao redor de
Palito.
CLÉO
Tá vendo, você está ótimo.
PALITO
Eu não sei nadar.
CLÉO
Nossa, Palito, desculpa, eu não
sabia. Como é que eu não te
perguntei isso?
Cléo se aproxima, segura palito pelo pescoço. Ela fica meio
afoita em ajudar o amigo.
PALITO
Calma, ainda dá pé, eu não tou me
afogando.
Os dois começam a rir da situação e vão lentamente voltando
para uma parte mais rasa da praia.
EXT. PRAIA DE MONGAGUÁ -- DIA
DETALHE nas mãos de Palito que está passando protetor nas
costas de Cléo.
Ela se volta para ele.
CLEO
Você também precisa, senão vai
queimar.
Palito vira as costas para Cléo. Ela passa o protetor nas
costas dele.
CLÉO
Pronto. Assim tá bom.
Palito se deita na areia. Cléo se deita a seu lado e fecha os
olhos.
Palito, olha para Cléo e também fecha os olhos.
A TELA FICA ESCURA
266.
CONTINUED:
(CONTINUED)
CLEO
Palito, você e o Damião são amigos
faz muito tempo, não é?
Palito abre os olhos. Olha para Cléo, mas ela parece mais
preocupada agora em torrar no sol. Cléo está de olhos
fechados.
Palito nem responde, sorri e fecha os olhos também, feliz por
estar ao lado dela.
EXT. BATALHÃO DA POLÍCIA MILITAR -- DIA
A viatura do Sargento entra no pátio. Assim que estaciona, um
soldado se aproxima para falar com o sargento.
SOLDADO 1
Sargento, o Tenente quer uma
palavra com o senhor.
O sargento sai da viatura.
SARGENTO MAURO
Não deve demorar, só sabatina do
tenente, mas peguem algo pra comer
e beber.
Cabo Joilson meneia com a cabeça. O Soldado Souza recolhe seu
armamamento e sai. Jéferson o segue, mas logo retorna pois
esqueceu sua boina na viatura.
O Cabo pára e deixa que Jéferson recolha sua boina.
Jéferson caminha para o edifício do batalhão.
INT. BATALHÃO DA PM -- DIA
Sargento Mauro está postado ao lado de uma porta, do outro
lado vemos o Tenente Brandão. Ele caminha de um lado para o
outro.
TENENTE BRANDÃO
Sargento é melhor tomar mais
cuidado com as identificações. Não
fica bem reportar o nome errado do
meliante.
SARGENTO MAURO
Eu estou fazendo o melhor possível
senhor.
267.
CONTINUED:
(CONTINUED)
TENENTE BRANDÃO
Não é suficiente Sargento. Veio
comunicado da Polícia Civil de que
o nome do indivíduo morto ontem, em
troca de tiro, não era Damião Alves
Silva e sim Josué Alves Silva.
O sargento parece identificar o nome.
TENENTE BRANDÃO
O capitão está pegando no meu pé.
Aquele roubo na pedreira, alguma
notícia? Sargento, eu quero mais
trabalho nisso. Se você chegar com
alguma coisa, o resto ninguém vai
querer levantar, mas eu preciso de
alguma coisa.
No corredor, Jéferson está parado ao lado da porta. Ele
escutou a conversa.
O sargento se volta para o corredor e vê Jéferson.
Jéferson segue e passa pela sala onde estão o Sargento e o
Tenente Brandão.
EXT. PRAIA DE MONGAGUÁ -- DIA
Ondas batendo nas pilastra do pier.
SONS DE PESSOAS NADANDO. ÁGUA ESPIRRANDO.
VOZ DE CLÉO REPETINDO: PALITO, PALITO, VEM NADAR PALITO.
Imagens do enorme pier, que se estende em forma de T para
dentro do mar.
A TELA FICA ESCURA
Estes sons se misturam a SOM DE VENDEDOR DE BIJOU BATENDO SUA
TÁBUA PARA ANUNCIAR SEU PRODUTO.
Imgem de Cléo, debaixo da água, mergulhando em direção à
câmera.
O som do "Bijou" fica mais forte.
Palito abre os olhos, areia cai em seu rosto.
Um vendedor de bijou passa a seu lado, o som da tábua muito
alto.
Palito não entende, o sol está a pino.
268.
CONTINUED:
(CONTINUED)
Ele olha para o lado e vê a saída de praia de Cléo, mas ela
não está ali.
Ele se apoia nos cotovelos. Olha para suas pernas, estão
vermelhas. Ficou muito tempo exposto ao sol.
Depois percebe um casal no mar. Ele se senta e ao observar
melhor vê que são Cléo e Damião.
Cléo e Damião estão aos beijos e abraços na água. Palito fica
desconcertado. O mundo gira à sua volta.
Ele se levanta.
INT. CARRO DE CLÉO -- DIA
O Carro está estacionado na areia da praia. Os dois bancos da
frente estão reclinados.
Dentro do carro estão Cléo e Damião. Cléo tem a cabeça no
ombro de Damião.
Close em Cléo e Damião.
Ele passa a mão na cabeça de Cléo.
O som de uma roda de bicicleta girando, faz um barulho que
atravessa esta e a cena seguinte.
Tec, tectec, tec, tectec, tec, tectec
EXT. RODOVIÁRIA NO INTERIOR DA BAHIA - FANTASIA -- DIA
A rodoviária é nada mais que um casebre e o entorno é mais
rural que urbano.
GUILHERMINA, 31, está ao lado da porta do ônibus, todos já
entraram e o MOTORISTA vem chamá-la indicando que vai fechar
a porta para partir. Guilhermina hesita e pede mais um
minuto, mas JUVENTINO, aqui com 34 anos, seu marido, vem e a
puxa para dentro.
O motorista fecha a porta e dá partida. Guilhermina corre
para a poltrona 28 e abre a janela.
Ouvimos agora mais claramente o som da roda da bicicleta.
tec, tectec, tec, tectec, tec, tectec.
JOSUÉ, aqui com 7 anos, filho de Juventino e Guilhermina se
estica a partir do banco de trás para ver o que a mãe está
fazendo.
269.
CONTINUED:
(CONTINUED)
Guilhermina grita para que o motorista espere. Mas ele pisa
no acelerador e percebemos que a marcha foi engatada.
Josué observa pela janela do lado e vê a uns 100 metros do
ônibus uma JOVEM DE BICILETA carregando um embrulho e
pedalando o mais rápido possível para tentar alcançar o
ônibus.
Guilhermina grita novamente.
A bicicleta agora está mais próxima.
O Motorista observa a cena de seu banco na direção do
veículo. Ele vai engatar a ré quando percebe pelo retrovisor
que a Jovem de bicileta salta da bicicleta, deixando-a ir ao
chão e se lança com um embrulho na direção da janela do
ônibus.
Guilhermina já está de braços esticados para fora da janela.
A Jovem passa o embrulho para Guilhermina pela janela do
ônibus.
Guilhermina traz o embrulho para dentro e o segura como se
segura um bebê recém nascido.
A Jovem tenta observar do lado de fora, mas em momento algum
na cena vemos o seu rosto.
Juventino parece contrariado. Josué admira o pequeno embrulho
que agora revelamos ser um bebê mulato e nu.
Este é DAMIÃO RECÉM NASCIDO.
Guilhermina abraça a criança, Juventino vira o rosto
desaprovando a ação da esposa.
Josué admira o bebê, agora seu irmão adotivo DAMIÃO.
Pela janela do ônibus vemos a Jovem que ergue sua bicicleta
do chão e se prepara para ir embora.
Ela pára, de costas para a janela, parece que vai se voltar
para olhar o ônibus, que começa a se afastar, de forma que
finalmente possamos ver seu rosto.
Mas, ao invés disso, ela começa a pedalar lentamente se
afastando na direção oposta.
A poeira levantada pelo ônibus a encobre e a perdemos de
vista.
270.
CONTINUED:
(CONTINUED)
Vemos o ônibus passar por uma estrada de terra e no painel
externo do ônibus vemos que o destino é São Paulo. O ônibus
passa levantando poeira.
Estamos no sertão da Bahia.
INT. CARRO DE CLÉO NA AREIA DE MONGAGUÁ -- DIA
Close em Cléo. Ela está emocionada com a narrativa de Damião.
Ela acaricia o rosto de Damião.
CLEO
Você nunca viu ela?
DAMIÃO
Nunca, eu era bebê. Mas sabe, se um
dia ela passar na minha frente eu
sei, eu sinto isso. É coisa de
sangue, sei lá, eu vou saber, vou
saber que é ela.
Cléo abraça Damião, os dois se beijam.
DAMIÃO
Eu não tenho mais ninguém. Mas eu
tenho hoje, hoje é um puta dia.
CLEO
E amanhã?
DAMIÃO
Eu tou de saidinha, amanhã eu tou
na tranca de novo.
CLEO
Você tava preso?
Damião indica que sim.
CLEO
Aposto que não é culpado.
DAMIÃO
Não, eu assaltei sim, só que a casa
caiu.
CLEO
E amanhã você tem que voltar? E o
que você vai fazer sobre o seu
irmão?
Damião se senta no banco, numa postura menos próxima.
271.
CONTINUED: (2)
(CONTINUED)
DAMIÃO
Não sei.
CLEO
Desculpa, não é isso. Não dá pra
evitar a perda, tem que encarar,
velar o corpo, fazer a cerimônia
para realmente lidar com a perda. O
que você vai fazer?
Damião muda totalmente o tom.
DAMIÃO
Cadê o Palito, a gente não vê ele
faz um tempo. Cadê o palito?
EXT. PIER NA PRAIA DE MONGAGUÁ -- FINAL DO DIA
Do alto vemos as ondas quebrando numa das pilastras do pier.
Palito caminha na beirada do pier.
Ele não está somente mancando, está bêbado.
Caminha já bastante afastado da praia, com a garrrafa de
conhaque na mão.
Palito toma um gole.
Ele chega até a beirada, cambaleia.
Depois se volta e toma mais um gole.
Palito tropeça, vai ao chão, se levanta.
PALITO
(aos gritos)
Todo mundo é manco, porra. Todo
mundo manca!
Ele esbraveja com a garrafa na mão. Depois dá um último gole
e arremessa a garrafa ao mar.
A garrafa segue uma longa trajetória até atingir a água. A
altura é grande.
Palito se senta na beirada do pier. Seus pés ficam
balançando. A altura impressiona.
Ele se apoia com os braços para trás.
Damião se senta a seu lado. Palito vê o amigo, mas volta a
olhar o mar, não querendo falar com Damião.
272.
CONTINUED:
(CONTINUED)
Dois pares de pés balançando na beirada do pier.
DAMIÃO
Você não comeu nada. Não tem
estômago pra todo esse conhaque.
PALITO
Você é um filho da puta.
DAMIÃO
Vamo lá, vamos comer alguma coisa.
PALITO
Seu filho da puta, eu te disse que
ela era a minha garota.
DAMIÃO
Eu sou um filho da puta. Não tenho
o que dizer.
PALITO
Tem sim, fala "EU - SOU - UM -
FILHO - DA - PUTA".
DAMIÃO
Ela é uma puta mulher, eu nunca
pensei que podia ter uma mina
assim. É meu último domingo, meu
último dia.
PALITO
O manco é que vai ter que ficar
lembrando todo domingo que não
adianta querer a mina porque a mina
que interessa sempre vai com outro.
Mas, porra tinha que ser você?
DAMIÃO
Eu sou um filho da puta.
Damião mostra para Palito um saco de papel com sanduíches. Os
dois pegam um cada um.
DAMIÃO
Olha ela lá, ela é minha hoje, mas
se você aguentar ela vai ficar
contigo amanhã.
Palito não entende. Encara Damião, olha em direção à praia,
depois dá uma mordida em seu sanduíche.
Ao fundo, vemos os dois amigos sentados no pier. As ondas se
chocam com os pilares do pier.
273.
CONTINUED:
EXT. PRAIA DE MONGAGUÁ - CARRO DE CLÉO -- PÔR-DO-SOL
Cléo está sentada no banco da frente. Ela come um sanduíche,
toma um gole de Coca-Cola e devora um saco de batatinhas.
O banco está um pouco para frente e ela tenta colocá-lo mais
para trás. Algo prende o movimento do banco. Ela passa a mão
por baixo do banco e percebe algo.
Ela retira o revólver calibre .38 de baixo do banco.
Ela olha para o pier. Bem ao longe podemos ver Damião e
Palito. O sol está se pondo.
Cléo olha ao redor, não há ninguém a vista. Ela examina o
revólver - sem perceber ela solta a trava do tambor, o tambor
desengata, revelando que a arma está carregada.
Cléo fecha o tambor e coloca o revólver de volta de baixo do
banco.
Ela pega um punhado de batatas fritas do saquinho e continua
a comer.
EXT. PRAIA DE MONGAGUÁ -- NOITE
Um balé de luzes embalado por um som agitado.
Palito, Cléo e Damião estão dançando em frente ao farol aceso
do carro de Cléo.
O carro está na areia da praia. Os quiosques estão fechados.
Palito entra no carro e cheira algumas carreiras de pó.
Cléo entra pelo outro lado, um pouco do pó se vai com o vento
que entra no carro. Palito ri, mas garante que nada mais se
perca com o vento.
Cléo e Palito cheiram.
Na frente do carro, Damião faz uma dança frenética iluminado
pelos faróis do carro. A dança vai se transformando, fica
parecendo mais uma exibição de artes marciais. Um balé de
movimentos violentos e agressivos.
Cléo e Palito acham engraçado de início, mas vão ficando mais
quietos e soturnos à medida que Damião prossegue em sua
dança.
CUT TO:
274.
(CONTINUED)
Pedaços de corpos que se movem na frente do carro. Pernas de
Cléo, costas de homem, um braço ao redor de Cléo.
Damião de dentro do carro observa. Ele cheira mais uma
carreira.
Agora na frente do carro, vemos que quem está dançando são
Cléo e Palito. Os dois corpos se aproximam, se tocam. Palito
está extasiado.
Cléo e Palito se abraçam. Cléo vira o rosto de volta para
Damião.
Ela e Damião se olham cúmplices deste pequeno triângulo
amoroso.
Palito dança com Cléo alheio à troca de olhares entre Cléo e
Damião.
Damião cheira mais uma carreira.
Ao olhar de volta para fora, vê que Cléo está em pé sozinha.
Palito está caído no chão. Pelos movimentos de Cléo vemos que
ela está tentando chamá-lo, pedindo que ele levante.
Cléo olha para Damião dentro do carro, seu olhar evidencia
preocupação com Palito.
Ainda de dentro do carro, vemos Damião sair e ir até Palito.
A música continua a embalar a cena. Palito finalmente se
levanta, Cléo fica um pouco aliviada. Damião segura a cabeça
do amigo e o mantém de pé. Depois o ajuda a vir até o carro.
EXT. RUAS DO BAIRRO PEDREIRA -- FINAL DO DIA
Fechado em Jéferson com a Blazer em movimento.
SARGENTO MAURO
Vou te dar outra aula antigão. Nós
somos a ponta da lança. Quando o
governador diz para o Secretário da
Segurança, faça o que for
necessário para resolver o
problema, a coisa desenrola mais ou
menos assim:
EXT. RUAS DO BAIRRO PEDREIRA -- FINAL DO DIA
A viatura do Sargento Mauro está estacionada na rua da casa
de Juninho.
Uma segunda viatura está parada ao lado e dois PMs estão
postados guardando as viatura.
275.
CONTINUED:
(CONTINUED)
SARGENTO MAURO
O Governador dorme o sono dos
justos; o Secretário descança em
berço esplêndido; o comandante
repousa como um cristão...
A câmera sobe as escadas laterais.
SARGENTO MAURO
... e o soldado, aqui na ponta,
Chegamos ao final da escadaria, no local onde antes havíamos
visto o garoto de guarda, temos um Policial Militar que não
podemos identificar, a porta da casa de Juninho está aberta.
SARGENTO MAURO
... suja as mãos de sangue.
Vemos um homem com um saco plástico na cabeça sendo
espancado. São detalhes somente, não identificamos o homem
nestes planos.
SARGENTO MAURO
Se der merda o bagulho estoura aqui
e não lá, claro. Quem entra na
lista das entidades de direitos
humanos é o soldado.
Jéferson está segurando o RAPAZ, é o garoto que fazia guarda
na casa de Juninho.
O sargento observa. Joilson se movimenta para continuar a
torturar o garoto.
SARGENTO MAURO
O governador desconversa, diz que
as coisas estão sob controle e fica
tranqüilo, o secretário diz que
tudo está sendo feito para
preservar a ordem.
Jéferson avança e também acerta um soco no Rapaz.
SARGENTO MAURO
O comandante fala enviesado e
protege a honra e o emprego.
O sargento se aproxima do Rapaz, agora desmaiado. Ele se vira
para Jéferson e indica que ele deve lhe passar o balde de
água.
276.
CONTINUED:
(CONTINUED)
SARGENTO MAURO
Aí sobra, você, eu, o Souza e o
Joilson, porque a gente tem que
botar pra foder.
O sargento joga o balde e o Rapaz acorda.
SARGENTO MAURO
Cadê o explosivo porra. Para onde
levaram?
EXT. RODOVIA PEDRO TAQUES -- NOITE
Vemos os rosto de Palito pelo vidro traseiro do carro.
Palito, reclinado no banco de trás e olha para o céu. A luz
dos postes de iluminação vem e vai.
Cléo está na direção. Damião está com a mão na coxa de Cléo.
Damião se volta para ver como Palito está. Depois se senta
novamente.
DAMIÃO
O Palito não é muito forte.
Mais à frente na rodovia, Damião observa um ponto de ônibus.
Há somente um homem esperando o ônibus no ponto.
Antes do ponto, Damião avista um senhor, com um carrinho de
mão vendendo cocos.
O carro passa pelo ponto.
DAMIÃO
Cléo pára, vou comprar um coco pro
Palito. Pára, pára.
Cléo diminui e finalmente pára uns 20 metros depois do ponto
de ônibus, no acostamento.
Damião desce do carro. Ele caminha pelo acostamento, passa o
ponto de ônibus. Ao passar ele vê a sacola de plástico aberta
do HOMEM NO PONTO. O Homem está prestanto atenção num ônibus
que está passando do outro lado da pista.
Na sacola vemos um uniforme de Policial Militar.
Damião percebe o uniforme.
Damião caminha até o HOMEM DOS COCOS, compra dois cocos, paga
e aguarda que ele coloque os canudinhos.
277.
CONTINUED: (2)
(CONTINUED)
Damião caminha de volta com os dois cocos na mão, ele passa
pelo homem do ponto sem lhe dar atenção.
NO CARRO.
Damião abre a porta e coloca o corpo para dentro, passa um
dos cocos para Palito e o outro para Cléo.
Cléo pega o seu, Palito demora um instante para reagir, mas
recolhe o seu e começa a tomar também.
DAMIÃO
Também quero, vou pegar mais um pra
mim. Alguém quer mais um?
Os dois estão ocupados matando a sede e indicam que não com a
cabeça. Damião coloca a mão de baixo do banco e sem que Cléo
ou Palito percebam, retira o revólver.
NA RODOVIA
Damião caminha de volta para o homem dos cocos. O revólver
preso atrás de sua calça.
Ao se aproximar do Homem no ponto, ele saca o revolver. O
homem percebe que se trata de uma arma, mas, antes que possa
reagir, Damião lhe acerta um tiro no peito.
O homem sente o baque, mas avança sobre Damião. Damião lhe dá
outro tiro á queima roupa.
NO CARRO
Cléo levanta os olhos e vê pelo retrovisor. Palito se volta e
olha pelo vidro de trás.
NA RODOVIA
O homem ainda consegue segurar o braço de Damião. Damião
reverte o aperto e torce o braço do homem, que gira e vai ao
chão.
Caído no chão, Damião lhe acerta o tiro de misericórdia. Ele
encara o Homem caído.
Damião se vira para o Homem dos Cocos. O homem dos cocos está
em choque. Damião camiha até ele, recolhe um coco, e coloca
dois reais no carrinho.
Damião lhe diz algo e o Homem dos Cocos levanta seu carrinho
de mão dá meia volta, e some na escuridão.
NO CARRO
278.
CONTINUED:
(CONTINUED)
Cléo está em choque. Ela não consegue se voltar para trás
para olhar a cena. Ela vê Damião vindo em direção ao carro
pelo retrovisor. Damião sai do campo de visão do retrovisor.
EXT. RODOVIA PEDRO TAQUES -- NOITE
NO CARRO
Vemos um túnel que se aproxima. Dentro do carro não se vê
nada. Somente silhuetas, contra o fundo iluminado pela lua.
O carro de Cléo entra no túnel. Agora podemos ver os rostos
de Cléo, Damião e Palito.
Os três seguem em silêncio.
CLEO
Porque você fez aquilo?
Palito observa a nuca de Damião. Vemos Damião pelo POV de
Palito.
DAMIÃO
Eu tinha que fazer, pelo meu irmão.
CLEO
Mas você matou um homem, o que ele
tem a ver com seu irmão.
DAMIÃO
Ele não era um homem, era um PM.
Damião coloca a mão na coxa de Cléo. Ele se reclina e lhe
beija o pescoço.
DAMIÃO
Você viu o revólver de baixo do
banco, não viu?
Cléo não responde.
DAMIÃO
O homem lá tava certo, você quer ir
fundo, tem que arriscar.
O carro sai do túnel. Mais à frente vemos duas viaturas da
Polícia Militar Rodoviária. Um carro foi parado ao lado da
rodovia.
O POLICIAL RODOVIÁRIO acena para o carro de Cléo, indicando
que ela deve parar no acostamento.
NO CARRO
279.
CONTINUED: (2)
(CONTINUED)
DAMIÃO
Agora é com você. Eu tou nas tuas
mãos.
Cléo olha para Damião. Damião coloca a mão ao lado do banco.
NA RODOVIA
O Palio de Cléo pára no acostamento.
o Policial rodoviário se aproxima.
POLICIAL RODOVIÁRIO
Documentos por favor.
Cléo pega a carteira na bolsa, retira os documentos do carro.
O Policial examina os documentos, olha para Damião e Palito
que está estirado no banco de trás.
POLICIAL RODOVIÁRIO
Carteira de motorista.
Cléo sorri.
CLEO
É mesmo, me desculpe.
Ela pega a bolsa novamente e agora a carteira e retira a
carteira de motorista que passa para o Policial Rodoviário.
Ele examina o documento.
POLICIAL RODOVIÁRIO
O que aconteceu com ele?
CLEO
Ensolação, nunca tinha tomado sol
assim.
O Colega Policial Rodoviário se aproximando.
COLEGA POLICIAL RODOVIÁRIO
Passei rádio, o carro tá limpo.
O Policial Rodoviário devolve a carteira de motorista para
Cléo e se afasta.
O carro de Cléo se move e segue pela rodovia.
NO CARRO
280.
CONTINUED:
(CONTINUED)
Pelo retrovisor, Cléo vê os Policiais e suas viaturas se
afastarem à medida que o carro segue adiante.
EXT. INTERLIGAÇÃO COM ANCHIETA -- AMANHECER
O carro de Cléo segue pela interligação. O sol está nascendo.
EXT. RODOVIA ANCHIETA PRÓXIMO AO KM 28 -- DIA
Vemos a represa e a ponte que cruza a represa no KM 28.
O carro de Cléo entra em quadro.
Há casas por aqui e antes de chegar na ponte que já é
visível, vemos uma alça de saída.
PALITO
Eu não tou legal, pára o carro,
pára o carro.
Cléo pára no acostamento.
Palito desce do carro e corre para a beirada do acostamento.
Ele se ajoelha e vomita.
Damião vem até Palito.
DAMIÃO
Aí, melhor chegar em casa, você não
está bem.
PALITO
Não quero ir pra casa não, quero
descer aqui. E quero que ela venha
comigo.
DAMIÃO
Você não vai aguentar um mulherão
desses.
PALITO
Você mesmo dizia, manco. Mas tem um
boa direita, não é? Tou leve, não
tenho que carregar peso.
DAMIÃO
Você não vai me peitar, não. Eu não
tenho mais nada a perder.
ÂNGULO EM CLÉO
281.
CONTINUED: (2)
(CONTINUED)
Ela observa a discussão dos dois que baixaram a voz. Damião
continua a falar, Palito agora é todo ouvidos, ele parece
concordar com Damião.
CLÉO
(de dentro do carro)
Damião, Palito...
Palito fica parado. Damião caminha de volta para o carro.
DAMIÃO
Ele vai pegar um ar de represa pra
arejar as idéias, vomitar onde
quiser.
Damião encara Palito que começa a seguir a pé pela estrada.
Cléo dentro do carro olha para Palito e Damião.
Damião entra no carro.
DAMIÃO
Vai, segue pra frente.
O carro de Cléo segue pela estrada.
Eles passam por Palito que manca seguindo pela estrada.
DAMIÃO
Sabe uma história que eu ouvi? Sabe
aquela do Carandiru, os 111 que o
choque matou?
CLÉO
Sim?
DAMIÃO
Na semana depois disso, me disseram
que encontraram um PM fuzilado e no
peito dele tinha uma faixa, agora
só faltam 110.
CLÉO
E você vai sozinho vingar todo
mundo?
Adiante pode-se avistar um motel
DAMIÃO
Não, quero parar, comer e
descansar.
282.
CONTINUED:
(CONTINUED)
Damião olha para a placa que indica o caminho a seguir para
chegar ao Motel Ilha de Capri.
Cléo vê a placa também.
DAMIÃO (CONT'D)
Ali ó.
Eles atravessam a ponte sobre a represa Billings no KM 29 da
Anchieta.
A entrada do Motel se aproxima, Cléo hesita.
DAMIÃO (CONT'D)
Entra alí, a gente come alguma
coisa e depois você vai. Tem
garagem, você guarda o carro.
CLÉO
Eu sei como é um motel.
Cléo vira e pega a saída com indicação do motel.
EXT. RUA DE ACESSO AO MOTEL -- DIA
O carro de Cléo passa pela rua. De um lado vemos a represa,
mais adiante há uma curva e a rua depois da curva é escura e
ladeada de mata dos dois lados. O carro segue.
A sombra da mata toma o carro. Mais adiante pode-se ver a
entrada do motel. O carro segue até a entrada.
EXT. ENTRADA DO MOTEL -- DIA
O carro entra no motel. Há um momento de espera, é cedo e não
parece haver alguém na entrada.
Cléo estica o braço para fora e toca uma pequena campainha.
Finalmente um atendente aparece.
ATENDENTE DO MOTEL
Temos a Suíte Excellence, a
Master...
CORTE PARA:
INT. GARAGEM DO QUARTO DE MOTEL -- DIA
Cléo entra com o carro na garagem. Damião sai e vai fechar a
cortina que fecha a garagem.
Damião olha ao redor antes de fechar a cortina. Ele se volta,
Cléo está ainda dentro do carro.
283.
CONTINUED: (2)
(CONTINUED)
Damião se agacha ao lado da porta do motorista.
DAMIÃO
Tem uma cama, um chuveiro e a gente
pode pedir alguma coisa pra comer.
Damião abre a porta do carro e puxa Cléo para fora. Ele a
abraça.
INT. QUARTO DE MOTEL -- DIA
Uma vista parcial do quarto, vemos a cama de um lado, do
outro a porta aberta do banheiro.
Ouvimos o som da ducha do chuveiro.
Permanecemos com este som e o quadro vazio.
SOA UMA CAMPAINHA
Cléo, de roupão, atravessa o quarto passando em frente à
porta do banheiro. Ela segue até uma mesa ao lado da caixa
giratória para entrega de pratos e pedidos no quarto.
Ela abre a porta giratória e lá está uma travessa com vários
pratos de comida, uma garrafa de Whisky nacional e copos.
Cléo retira a travessa que é pesada.
O som da ducha é interrompido. Damião fechou o chuveiro. Cléo
fica aguardando Damião.
Damião sai do banheiro amarrando o cinto de um roupão de
banho branco.
CLÉO
Eu não vou conseguir comer.
DAMIÃO
Vai sim.
Damião se senta ao lado de Cléo. Ele começa a abrir as
travessas com os pratos.
DAMIÃO
Filé a cavalo...
Cléo meneia que sim com a cabeça.
DAMIÃO
Whisky.
284.
CONTINUED:
(CONTINUED)
CLÉO
Velho oito.
DAMIÃO
Huh?
A mochila de Damião está em cima da bancada ao lado da mesa.
Ele se levanta e retira de um bolso lateral da mochila um
saquinho com maconha e um pacotinha de sedas.
Cléo observa da mesa.
DAMIÃO
É pra abrir o apetite.
Damião acaba de enrolar a acender o cigarro.
Cléo dá duas tragadas.
Os dois encaram os pratos e a garrafa de whisky e começam a
rir.
MAIS TARDE
Damião se deita ao lado dela e começa a fazer cócegas.
CLÉO
Pára, que coisa chata, não sou
criança.
DAMIÃO
Cama redonda, tem uma porrada de
botão alí.
Damião começa a apertar alguns botões. As luzes do quarto
mudam, algumas acendem outras apagam, uma luz vermelha surge
quando ele aperta outro botão.
CLÉO
Pára eu já disse, não gosto de
cócegas.
Ela se volta e aperta um dos botões também.
A cama começa a girar.
Os dois começam a rir.
Cléo acende o cigarro novamente.
Pratos vazios.
Mesa Vazia.
285.
CONTINUED:
(CONTINUED)
DO CORREDOR DO QUARTO
Vemos uma parte da cama que gira. Pedaços dos corpos dos dois
aparecem e se vão à medida que a cama gira.
Lentamente os sons de sexo vão tomando a trilha sonora.
TRAVELLING IN
Nos aproximamos da cama e agora podemos ver que os dois estão
dormindo.
Os sons de sexo não são de Cléo e Damião. São de um filme de
sexo explícito na TV a cabo do motel, o casal do filme
balbucia algumas palavras em inglês. Fuck me, etc...
Cléo está deitada e Damião a seu lado. Damião dorme.
POV de Cléo que vê a TV passar com o girar da cama. Ela olha
para Damião.
Damião está dormindo profundamente. Ela tenta se levantar.
Damião se enrola nas pernas dela. Cléo consegue se sentar. A
cabeça de Damião fica no colo de Cléo. Ela observa e deixa
Damião se acomodar.
Damião se encolhe em posição fetal. Ele abraça as pernas de
Cléo e se agarra a elas com força.
Cléo e Damião ficam assim a girar, ao som do filme de sexo
explícito.
Cléo observa Damião mas agora parece incomodada. Não consegue
se desvencilhar. Ela alcança o controle remoto da TV na
cabeceira da cama.
A cama ainda gira e Cléo tenta mudar os canais, mas tem que
girar o controle para poder apontá-lo para a TV.
Ela muda o canal da TV.
Na TV, um grupo de jovens ao redor de um ônibus incendiado
movimenta-se como se estivessem num ritual tribal.
Depois a seguinte matéria:
Notícia de uma tentativa frustrada de fuga no presídio em
Praia Grande/Mongaguá. A matéria menciona que os bandidos
tentaram explodir o muro da penitenciária, mas o muro
resistiu, parece que usaram explosivo de menos ou avaliaram
mal a estrutura do muro. Vários bandidos foram presos em
flagrante.
286.
CONTINUED: (2)
(CONTINUED)
Cléo assiste mas a cama continua girando e as imagens entram
e saem de seu campo de visão.
Ela larga o controle remoto.
Cléo gira.
Damião gira no colo dela, ainda em posição fetal.
Pelo espelho do teto vemos os dois a girar na cama.
INT. BANHEIRO DO QUARTO DE MOTEL -- DIA
Ângulo na nuca de Cléo. Ela está tomando uma ducha. O jato de
água é bastante forte. Ela massageia a nuca com as mãos.
Cléo apóia as duas mãos na parede deixando o jato de água
percorrer suas costas.
Ela olha para a porta do banheiro.
Pendurado ao lado da porta há um roupão de banho branco.
INT. QUARTO DE MOTEL -- DIA
A câmera enquadra a cama a partir do teto. Damião ainda está
em posição fetal, deitado na cama que continua a girar.
Vemos o banheiro e, emoldurada pela porta do banheiro, Cléo
sentada na privada.
Damião continua a dormir na cama giratória.
Cléo sai do banheiro. Ela já está vestida. Ela carrega sua
bolsa e procura andar sem fazer barulho para não acordar
Damião.
Cléo abre a porta do quarto que dá para a garagem. Ela sai e
fecha a porta pelo lado de fora com cuidado.
INT. GARAGEM DO QUARTO DE MOTEL -- DIA
Cléo abre as cortinas de lona que fecham a garagem, depois
entra no carro e solta o freio de mão. O carro, desligado,
começa a sair em ponto morto.
A saída da garagem é para uma viela também em declive. O
carro começa a descer a viela em ponto morto. Cléo liga o
carro e segue para a portaria.
287.
CONTINUED: (3)
EXT. RUA DO MOTEL -- DIA
Cléo está guiando, agora já fora do motel, ela vira à direita
numa esquina e perdemos o Motel de vista.
Avistamos um orelhão na rua mais à frente.
O carro de Cléo pára ao lado do orelhão. Ela desce, vai até o
orelhão. Cléo fica encoberta pelo orelhão. Ouvimos o começo
da discagem.
CLÉO
Sim, eu queria informar...
INT. QUARTO DE MOTEL -- DIA
Damião acorda. Olha ao redor sem se levantar.
Depois de se espreguiçar Damião se levanta lentamente e
desliga o botão que faz a cama girar.
Ele vai até o banheiro.
Ouvimos que ele está mijando no vaso sanitário.
Damião sai para o quarto à procura de Cléo.
Ele escuta algo do lado de fora. Fica intrigado.
O som vem do corredor ao fundo do quarto, parte da área de
serviços que atende os quartos. Ele percebe pela fresta do
armário por onde é trazida a comida que alguém está se
movimentando.
Damião coloca a calça, camiseta, recolhe a arma e recolhe sua
mochila no armário.
Ele sobe na cama pois há uma pequena janela ao lado dela.
PELA JANELA ELE Vê:
EXT. PÁTIO DO MOTEL -- DIA
Uma Blazer da Polícia Militar estacionada a uns 50 metros, e
alguns Policiais Militares atravessando a ruela interna do
Motel.
INT. QUARTO DE MOTEL -- DIA
Ele escuta um barulho vindo da garagem, a cortina sendo
aberta.
Ele avalia a situação e não vê saída.
288.
(CONTINUED)
Vai até o banheiro e vê um alçapão que dá acesso ao forro
entre o teto e o telhado. Rapidamente ele pega uma cadeira na
sala. De volta ao banheiro, ele pega os seus tênis, e sai
pelo alçapão.
INT. TELHADO DO MOTEL -- DIA
Damião abre o alçapão e sobe chegando no forro. O telhado de
madeira é coberto com telhas de Eternit. Damião caminha
curvado. Vemos que este bloco do Motel é bastante comprido e
que ao final há um outro bloco que se junta a este.
Ele chega até a virada e neste novo bloco. Só há três
quartos. Ao chegar ao último, ele abre e desce pelo alçapão.
INT. BANHEIRO DE OUTRO QUARTO DE MOTEL - DIA
Damião desce já dentro do banheiro deste outro quarto. O
quarto está vazio.
Ouvimos o barulho feito pelos Policiais ao invadirem o quarto
de Damião.
Um barulho de porta sendo quebrada, gritos, depois uma pausa.
Damião abre a porta do quarto.
INT. GARAGEM DO OUTRO QUARTO DE MOTEL -- DIA
A cortina da garagem deste quarto está aberta. Damião sai
pela porta do quarto e caminha até poder ver a ruela do
motel. Ao longe ele vê alguns policiais.
Do outro lado da viela em frente a este quarto há um muro
alto com árvores.
Damião olha novamente, ao fundo é possível ouvir uma gritaria
ininteligível e o som de um motor de carro sendo ligado.
Damião atravessa a ruela correndo e sobe numa árvore para
conseguir pular o muro do motel.
EXT. OUTRO LADO DO MURO DO MOTEL -- DIA
Damião pula do muro. O terreno aqui é coberto de mato.
Damião corre para dentro do mato.
EXT. RUAS PRÓXIMAS -- DIA
Uma rua estreita, casas esparsas, depósitos e
estabelecimentos comerciais fechados.
289.
CONTINUED:
(CONTINUED)
Damião observa a rua antes de atravessá-la. Ele esconde o
revólver na cintura e atravessa a rua.
EXT. RUA PRÓXIMA À PEDREIRA -- DIA
Esta rua é mais movimentada. Alguns carros passam. Damião
caminha pela calçada.
Mais adiante vemos um ponto de ônibus lotado. Não parece
haver uma fila e sim um aglomerado.
Damião e outras pessoas caminham em direção ao ponto.
EXT. PONTO DE ÔNIBUS -- DIA
Um ônibus passa lotado, as pessoas no ponto forçam a entrada
e conseguem se pendurar. Damião está no meio da turba.
Quando o ônibus se move, descortinando o ponto, vemos que
Damião não subiu.
Damião vê ao fundo outro ônibus vindo para o ponto, este está
mais vazio.
EXT. REPRESA BILLINGS -- DIA
Um PAI e seus DOIS FILHOS DE 12 E 14 anos pescam na beira da
represa.
O menino de 12 se levanta. Atrás deles há uma geladeira de
isopor.
O menino abre a geladeira de isopor e, ao levantar os olhos,
percebe Palito de pé, a poucos metros.
Os dois se encaram.
O Pai se volta e olha para Palito também.
Palito fica impassível.
O pai se levanta. Palito olha para a geladeira.
O pai pega um refrigerante e estende para Palito.
Palito abre, bebe, agradece e segue adiante caminhando pela
beira da represa.
O pai e os meninos se sentam novamente e voltam a pescar.
Palito passa a lata gelada na nuca.
Palito caminha.
290.
CONTINUED:
EXT. ÔNIBUS DIADEMA, SANTO AMARO -- DIA
POV de Damião. Vemos as ruas passando e, vez por outra, um
grupo de pessoas que corre para tentar alcançar o ônibus.
O ônibus passa por um ponto sem parar, aqui a avenida é mais
larga e o motorista consegue desviar das pessoas sem parar.
Damião está espremido ao lado de uma janela perto da porta da
frente.
O ônibus passa pela rua e vemos que não há como enfiar nem um
passageiro a mais.
EXT. RUA 25 DE MARÇO -- DIA
Uniformes novos e vistosos estão dispostos numa vitrine. A
câmera percorre alguns detalhes das fardas desta vitrine de
loja de fardamento para Policiais Militares.
Com um giro do polarizador vemos o rosto de Dona Olímpia
refletido no vidro da vitrine.
Ela percorre com os olhos as fardas dispostas na vitrine e
finalmente se decide por uma. Ela sai de quandro, entrando na
loja.
INT. ÔNIBUS -- DIA
Algumas pessoas conseguem descer, o motorista abre a porta.
Damião agora está sentado. Ele observa o movimento na rua.
Poucas pessoas caminham, o trânsito está livre.
O ônibus começa a se movimentar novamente.
Damião está sentado.
No banco da frente uma JOVEM MÃE brinca com seu FILHO DE 1
ANO.
Ele observa os dois. Ela abraça o filho, a crinça se aninha
no colo da mãe.
Damião vê algo mais á frente. Recolhe sua mochila do chão.
EXT. BATALHÃO DA POLÍCIA MILITAR -- DIA
O ônibus pára no Ponto, ao seguir seu caminho, vemos que
Damião desceu. Ele está com sua mochila, mas a segura pela
frente.
291.
(CONTINUED)
Agora identificamos o local, vemos que ele está observando a
frente do batalhão do outro lado desta avenida de duas pistas
com um ilha que já viu um gramado em tempos idos.
Alguns tambores ajudam a bloquear uma das pistas. Blocos de
concreto estão posicionados na entrada do batalhão, deixando
espaço para que somente uma viatura entre por vez.
Damião acende um cigarro e acomoda algo na sua mochila.
Damião começa a caminhar em direção ao batalhão.
Damião caminha resoluto. Mas do outro lado da rua percebe uma
MULHER DE BICICLETA. Não vemos seu rosto.
Dois policiais atrás dos blocos de concreto não estão olhando
em sua direção.
Um outro policial vê Damião, e começa a prestar atenção em
sua movimentação.
Damião caminha e sorri para o Policial.
Os outros dois agora percebem que ele está se aproximando.
Sargento Mauro está postado na entrada do edifício, ele
conversa com Joilson. Os dois comem um sanduíche.
Damião segue adiante agora em direção ao Sargento. Ele coloca
o cigarro aceso dentro da mochila.
Jéferson chega até o sargento e percebe a aproximação de
Damião.
Damião sorri, levanta os braços como a se render e continua
andando.
Ele olha para trás e vê novamente a Mulher de Bicicleta. A
rua vazia, somente ela pedala pela pista oposta ao batalhão.
Os soldados do lado de fora apontam suas armas para Damião.
Mas Damião já está perto da entrada.
O Sargento saca sua arma, mas fica indeciso.
Damião caminha para dentro do edifício.
Jéferson percebe que algo queima dentro da mochila de Damião.
Há uma rápida troca de olhares e.
FADE PARA BRANCO.
292.
CONTINUED:
(CONTINUED)
NO BRANCO OUVIMOS O SOM DISTORCIDO DE UMA EXPLOSÃO.
Ainda no branco, discernimos vagamente o vulto de um cachorro
branco, Timão, cruzando a tela.
No meio do branco vemos uma jovem de bicicleta. Ela está se
afastando no branco, ela pára, parece que vai se voltar e que
assim poderemos ver seu rosto.
Mas ela chama o cachorro com um estalar dos dedos. O cachorro
vai até ela e os dois se afastam juntos, lado a lado.
INT. INSTITUTO CRIARE -- DIA
A sala do instituto está vazia. Tudo permanece igual, em
termos de disposição e colocação de mobiliário. Alguns passos
ecoam no local.
Palito entra em quadro. Ao fundo um pequeno palco
improvisado.
Palito, exausto, suado e sujo, se coloca no palco, encara o
vazio e lentamente começa a dançar.
A princípio a manquidão limita seus movimentos, mas à medida
que a dança progride, sua manquidão é incorporada e surgem
passos e sequências de movimentos extremamente elaborados.
São passos que ao mesmo tempo incorporam e superam as
limitações físicas de Palito.
A imagem congela.
FADE PARA BRANCO.
FIM
293.
CONTINUED: (2)
294
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