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Michel Foucaut, em torno da discussão do surgimento da medicina social
287
,
aponta três momentos diferentes, em que são tomadas medidas no sentido de favorecer a
contenção e a propagação de doenças. Foucaut, assim divide esses diferentes momentos:
a polícia médica alemã, uma medicina de Estado, que propunha medidas compulsórias
de controle de doenças, surgida em meados do século XVIII e instituindo “a
organização do saber médico, a normalização da profissão médica, a subordinação dos
médicos a uma administração central e, finalmente, a integração de vários médicos em
uma organização médica estatal”
288
. A medicina urbana francesa, saneadora das cidades
enquanto estruturas espaciais, que buscavam uma nova identidade social, e que
consistia, como vimos no capítulo anterior, em analisar os lugares de acúmulo e
amontoamento de tudo que, no espaço urbano, pode provocar doença, lugares de
formação e difusão de fenômenos epidêmicos e endêmicos. Controlar a circulação, não
a circulação dos indivíduos, mas das coisas ou dos elementos, em especial da água e do
ar. E, por fim, organizar o meio físico urbano, em outras palavras, saber onde colocar os
diferentes elementos necessários á vida comum da cidade
289
. O último desses momentos
foi a criação, segundo Foucaut, de uma medicina da força de trabalho na Inglaterra
industrial, onde havia sido mais rápido o desenvolvimento de um proletariado
290
.
Em todos esses momentos é indubitável que as diferentes medidas foram
propugnadas pelo Estado e por este postas em prática, sendo, por vezes, assimiladas às
práticas cotidianas, e, em outras vezes, geradoras de conflitos.
É nesse cenário de idéias e de concretização de idéias que despontam algumas
das discussões mais importantes e interessantes ocorridas naquele período em todo o
mundo, tanto quanto, é por essa época, a partir do último quartel do século XVIII, que
são materializadas as inúmeras transformações no corpo urbano de diversas cidades,
fazendo das mesmas um artifício que, incorporado ao capitalismo, procurava estabelecer
novas relações de sociabilidade, calcadas no estilo de vida da nova classe dominante: a
burguesia.
Como não poderia deixar de ser, em Natal, essas discussões e esses debates
estavam na ordem do dia. Tais questões se pautavam em princípios do urbanismo, da
287
O autor entende a medicina moderna, dita científica, que segundo ele surgiu no final do século XVIII,
como sendo um medicina social, pelo fato de se estabelecer quanto uma prática social, não sendo,
portanto, uma medicina individualizada como era, segundo ele, durante a Idade Média.
288
FOUCAUT, Michel. Op. Cit. p. 84
289
Idem. P. 89
290
Esse último momento apontado por Foucaut não será alvo de análise detalhada nesse trabalho devido,
essencialmente, à incipiência do proletariado natalense no período em estudo.