
antagonismos, “mais uma vez vemos dualidade e dialética convergirem no mesmo
princípio formal” (ARANTES, 1992:62), para o qual não se apresenta síntese
144
. Ou
seja, diferente de uma contradição, que trabalha na lógica da crise e superação como
unidade, o mecanismo dual brasileiro assenta-se na ambivalência de uma economia
ao mesmo tempo capitalista e escravocrata, pois era próprio da classe dominante
combinar “aqueles dois ângulos, um tradicional e local, outro moderno e mundial –
por onde se vê que um não era resíduo nem o outro apenas horizonte virtual”.
(ARANTES, 1992: 75). Vemos assim que Arantes defende a presença de uma crítica
incisivamente dialética em Roberto Schwarz, e se, no entanto, aparecem termos em
oposição dualista, estes se referem mais à existência real e prática de uma condição
nacional, do que uma fraqueza na estruturação dos antagonismos em termos teóricos
e expositivos. No limite, o autor defende que a experiência dialética brasileira no
campo intelectual brasileiro tem sua matriz justamente no sentimento dual que
instiga o próprio processo a que fazemos parte. E, por conseguinte, a crítica dialética
forjada em Roberto Schwarz teve o mérito de entender e expor o dualismo brasileiro
144
Sobre a formulação de uma dialética sem síntese: ainda que pareça inevitável relacionar o uso da
dialética sem superação em Schwarz com a de Adorno, em Dialética Negativa, Arantes parece
questionar uma relação direta da noção dialética entre os dois teóricos. Isto é, Arantes não trata a
dialética empreendida por Schwarz usando como referência a noção de dialética negativa pensada por
Adorno.
Em Adorno, a dialética negativa diferencia-se da tradição dialética ocidental, desde Platão delineada,
para a qual seu sentido está orientado em nome de uma natureza afirmativa, com superação do termo
inicial. A dialética negativa de Adorno não trabalha nesses mesmos termos de constituição, dado pelo
movimento entre tese, antitese e síntese, que teria chegado até Hegel. A ausência da síntese, nesse
modelo de pensamento, não é irrelevante. Ela diz muito sobre o tempo em que Adorno escrevia,
colocando em relevo a própria situação da Alemanha nos anos 1960. Ela se refere a própria dificuldade
histórica de se pensar uma superação dos processos dados na realidade, da formação de um espírito
absoluto, da constituição de um indivíduo emancipado. Ou seja, há aí uma relação entre a experiência
real do país e a elaboração de um plano conceitual.
No Brasil, Paulo Arantes fala da elaboração da dialética sem síntese de Schwarz circunscrevendo-a
dentro do processo histórico brasileiro, ou seja, no papel que ocupamos em relação aos países centrais.
Diferentemente dos países clássicos, nossa condição periférica ao sistema capitalista nos relegaria a
condição de particularizar o projeto de emancipação ocidental, limitando-o a uma realização rebaixada.
Esse rebaixamento se deu com a convivência entre capitalismo (padrão europeu) com escravidão
(realidade local), entre liberalismo (ideologia prometida) com patriarcalismo (efetiva depêndencia). O
passado colonial permaneceu atravessando as relações sociais do país. Para ele, pensando a partir dos
romances de Machado de Assis, a noção de dialética clássica não funcionaria no Brasil, por que ela não
levou à superação: ela não constituiu um sujeito autônomo, uma nação idependente, uma sociedade de
classes nos termos clássicos (burguesia empreendedora de um projeto nacional e classe proletária como
sujeito histórico revolucionário).
ADORNO, Theodor. Dialética Negativa. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2009. Tradução: Marco Antonio
Casanova.
ARANTES, Paulo Eduardo. “Conversa com um filósofo zero à esquerda”. In: Zero à esquerda. São Paulo:
Conrad Editora do Brasil, 2004.
221