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UNIVERSIDADE FEDERAL DE PERNAMBUCO
CENTRO DE ARTES E COMUNICAÇÃO
PROGRAMA DE PÓSGRADUAÇÃO EM LETRAS
Roberto Piva, panfletário do caos
RECIFE
JANEIRO – 2009
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II
UNIVERSIDADE FEDERAL DE PERNAMBUCO
CENTRO DE ARTES E COMUNICAÇÃO
PROGRAMA DE PÓSGRADUAÇÃO EM LETRAS
DISSERTAÇÃO DE MESTRADO
TÍTULO:
Roberto Piva, panfletário do caos
AUTOR: BRUNO EDUARDO DA ROCHA BRITO
Dissertação apresentada ao Programa de PósGraduação em
Letras da UFPE para obtenção do grau de Mestre em Teoria
da Literatura, orientado pela professora doutora Lucila No
gueira Rodrigues
RECIFE
ABRIL – 2009
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Brito,BrunoEduardodaRocha
RobertoPiva,panfletáriodocaos/BrunoEduar
dodaRochaBrito.–Recife:OAutor,2009.
118folhas.
Dissertação (mestrado) – Universidade Federal
dePernambuco.CAC.Letras,2009.
Incluibibliografiaeapêndices.
1.Literatura.2.Surrealismo(Literatura)Brasil.
3.Surrealismo(Literatura)–AméricaLatina.4.Sur
realismo(Literatura)França.5.Piva,Roberto,1937
Críticaeinterpretação.6.Xamanismo.I.Título.
869.0(81) CDU(2.ed.) UFPE
B869 CDD(22.ed.) CAC200954
IV
V
A Roberto Piva. Ao xamã. Ao alimento do divino. À alma dos surrealistas mortos
em combate.
VI
AGRADECIMENTOS
Àminhafamíliaque,comojáédepraxe,dispensamaiorescomentários.
ALucilaNogueira,mestradosobscuroscaminhosdarazãoedadesrazãosurrea
listas.
AVirgíniaCarvalho,irmãmaisvelhaeque,umdia,vaimeaparecervestidade
vermelho(esperoqueaindademoreumbocado).
ALeoZadi,companheirodevôosxamânicosaospésdajográrvoreherbértea.
AJohnnyMartins,pelosconselhosecamaradagem(ouseja,avelhaeboavozda
experiência).
EaAdéliaCoelho,florquenascenapontademeusolhos.
VII
euapertavaumaárvorecontrameupeito
Comosefosseumanjo
Meusamorescomamcrescer
Passamcadillacssemsangueoshelicópteros
Mugem
Minhaalmaminhacançãobolsosabertos
Daminhamente
Eusouumaalucinãonapontadeteusolhos
Meteoro,in
Paranóia
,RobertoPiva.
Whenthemenonthechessboard
Getupandtellyouwheretogo
Andyou'vejusthadsomekindofmushroom
Andyourmindismovinglow.
GoaskAlice
Ithinkshe'llknow.
Whenlogicandproportion
Havefallensloppydead,
AndtheWhiteKnightistalkingbackwards
AndtheRedQueen's"offwithherhead!"
Rememberwhatthedormousesaid:
"Feedyourhead.Feedyourhead.Feedyourhead"
Whiterabbit
,JeffersonAirplane
VIII
SUMÁRIO
Página
Dedicatória .............................................................................................................................. IV
Agradecimentos ...................................................................................................................... V
Epígrafes .................................................................................................................................. VI
Resumo .................................................................................................................................... 9
Abstract ................................................................................................................................... 10
INTRODUÇÃO ...................................................................................................................... 11
CAPÍTULO 1  A VIDA É SONHO .................................................................................... 13
CAPÍTULO 2 – UM MOVIMENTO CIDADÃO DO MUNDO ....................................... 30
2.1. Uma breve trajetória do surrealismo na América Latina .......................................... 35
2.2. Os Estados Unidos: a geração beat ............................................................................... 47
2.3. Timothy Leary e a revolução psicodélica .................................................................... 57
CAPÍTULO 3 — O SURREALISMO NO BRASIL ............................................................. 68
CAPÍTULO 4 — PASSEIOS PELOS BOSQUES VIVOS DE ROBERTO PIVA .............. 78
4.1. Uma cidade à beira da
Paranóia
........................................................................ 82
4.2.
Ciclones:
um vôo xamânico numa
jam session
................................................. 91
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ..................................................................................... 100
APÊNDICE A .......................................................................................................................... 106
APÊNDICE B .......................................................................................................................... 112
IX
C des songes
, s.d.
“A poesia tem uma porta hermeticamente fechada para os
imbecis, aberta de par em par para os inocentes. Não é uma
porta fechada com chave ou com ferrolho, mas sua estrutura
é tal que, por mais esforço que façam os imbecis, o conse
guem abrila, enquanto cede à simples presea dos inocen
tes. Não há nada mais oposto à imbecilidade do que a ino
cência.”
Aldo Pellegrini, poeta argentino
X
Resumo
Oobjetivodestetrabalhoérealizarumaapresentãodaobrapoéticadopoeta
surrealista brasileiroRoberto Piva,cujo períododeatuãose situa a partir de
1962atéosdiasdehoje.Tramos,aprincípio,umpanoramadasituãomun
dialdomovimentosurrealista,dogrupoparisienseformando emtorno do poeta
AndréBreton,arecepçãodeseusideaisnocontextotantodaAméricaLatinae
EstadosUnidose,finalmente, suaconturbadatrajetórianoBrasil.Nosso estudo
percorreaatuãodopoetaportuguêscontemporâneoHerbertoHelder,asvan
guardasultraístasecreacionistasnaArgentinaenoChile,oGrupoMandrágora”
eoMovimentoPânico,tambémchilenos,agerãobeatnosEstadosUnidose
a revolução psicodélica deTimothy Leary na culturaamericana, atéchegarmos
aostrêsestágiosdosurrealismonoBrasilesuaobscurarecepçãoinicalpelacrí
ticanacional,culminandonoconfrontoentreosdoislivrosmaismarcantesdeseu
representanteRobertoPiva,
Paranóia
e
Ciclones
.
PalavrasChave: surrealismo brasileiro,surrealismolatinoamericano, movimento
surrealistafrancês,gerãobeat,psicodelia,xamanismo.
XI
Abstrac t
Ourobjectivehereistoattemptapresentationconcerningtheworksofbrazilian
surrealistpoetRobertoPiva,whosepoetrycomprehendstheperiodbetween1962
untilnow.Tomakethisenterprisepossible,itwasstablishedaviewofthesurrea
listicmovementsglobalsituation, fromtheParisiangroupformedbyAndré Bre
ton,thereceptionoftheiridealsinLatinamericanterritoryandU.S.A.,andfinally
itstroublesomeactuationinBrazil,focusinginvariousefforts,asthepoetryofpor
tugueseHerbertoHelder,ultraistsandcreationistsavantgardesinArgentinaand
Chile,aswellasChileanMandrágora”andPánicogroups,AmericanBeatGe
neration andTimothy Learyspsychedelicrevolutions,untilthethreedistinctsta
ges of Surrealism in Braziland its obscure reception by Brazilian criticism, rea
chingitsclimaxintheconfrontationofRobertoPiva’smasterworks,
Paranóia
and
Ciclones
.
Keywords: Brazilian Surrealism, LatinAmerican Surrealism, French Surrealism,
BeatGeneration,Psychedelics,Shamanism
11
Introduç ão
A harmoniadocosmosnafúriadocaos
EnriqueMolina,  emumensaioparao catálogo daexposiçãoSurrealismo
NuevoMundo,afirmaraqueoprimeiroatosurrealistanahistóricafoiquandoum
homem, em cujo peito se abrigaa chuva eo trovão, afuma dovulcão e um
desmedidodesamparoprimordial,gravaaimagemdeumbisãonapedra”(1999,
23),emdesafioaummundode“delicadezadinossáurica”.Nãoapenasoprimeiro
gestoderepresentãodoimagináriohumano,esteprimeiroartistalevantavao
brocontraummundoquedesafiavasuasobrevivêncieraumprimeirogesto
demagia,quandoeletalvezintencionasseaprisionaropoderosoespíritodanatu
reza numdesenhoestáticoesubjugáloàsuaprópriavontadecriadora.Emmeio
aocaos,surgiaoprimeiroanseiodecosmogonia.
Milhõesdeanossepassaram.Civilizaçõesseergueram,dominaramede
sapareceram.O homemaprenderaaenfrentaranatureza,acreditandovaidosa
mentequeapoderiadomar,commuitomaisquedesenhosemocre.Ohomem
tornouseumdinossauro.
Suaganância,suasedeporconquistaraseusiguais,suaganaporimporo
seupensamento,asuarazãosobreosespíritosalheios,acabouporbanirosa
grado doscírculos da terra, mutilou a arteem uma monstruosidade de plástico
queserviriaàssuasfrivolidadesegoístas,querendosubjugarseucaráterlibertário
ecurativo.
No como do século XX, quando a situão tornarase definitivamente
insuportávelcomaexplosãodaPrimeiraGuerraMundial,umgrupoheterogêneo
de artistas, de várias partes da Europa, uniuse para fundar a resposta a essa
degenerãocrônicadahumanidade,libertandoopodervitaldoonirismo,resga
tandoasacralidade, afúriaeainocênciade umaarteprimordial. Ohomemdo
bisãoseriaredivivodentrodosurrealismo?
Decertaforma,acoesãodessarebeliãonãoseagüentoupormuitotempo.
Divergênciasprofundascomopoços semfim, principalmente nocampo político,
foramaospoucosesfarelandoogrupoembrigasinternas.Masdooutroladodo
oceano,noNovoMundo,ooutrorarepositóriodasesperançasparaumfuturode
12
sobrevidadasvelhasmetrópoles,aindaforteemseusmuitosmatizesprimitivos,
receberiaosurrealismoeofariaprosperar,afinal.
NoBrasil,paísqueapresentaraumaforteresistênciaaosideaissurrealis
tas–ideaisestesqueferiamsuamoralconservadoraepositivistanassuasmais
profundasraízes(dosoutros),surgiriaumpoetaxamã,prontoparafazersuare
voluçãopessoalnaliteraturabrasileira,fazendodesuapoesiaotambormágico
queofariacruzarcéueinferno,carregandoopoderdivinodacuraxamânicapela
palavra.
RobertoPivanãoestevesozinhonessaempreitada.Foranutridopeloshe
róismartirizadospeloidealsocialista,pelosdefensoresdoamorloucodeParise
aquelesquefundiramsuamísticabarroca eindígenaaoidealcosmopolitadosur
realismo, pelos beats santificados pela música e pela viagem interior. E, clara
mente,pelos pioneiros darevolução surrealistano Brasil, comoJorge deLima,
criadordecosmosatravésdocaosdapalavra.
EmvisitaaoBrasil,JeanPaulSartre,oarquivilãodeAndréBretoneseus
companheiros,declararaqueoBrasiléumpaíssurrealista”(frasemaiselegante
doqueoBrasilnãoéumpaíssério,doGeneraldeGaulle)aodescobrirqueo
motoristadesua Kombieratambémsoldadodapolícia militarecontrabandista.
Estavisãopejorativadosurrealismo,queoquersinônimodetudooqueforama
lucadoesemsentido,paratersidooadotadopela
intelligentsia
nacional,quevar
reratodasastentativassurreaisnopaísparadebaixodotapete.
Daprimeiraobra,
Paranóia
,atéumadassuasúltimaspublicões,
Ciclo
nes
,RobertoPivaassumiraumaposiçãomísticaparasuaobra,fundindoemseu
cadinhodealquimistadaselvaoseflúviosdagerãobeat,apsicodelia,amagia
dita“primitiva”eaposiçãocombativadossurreais.
Apropostadestapesquisaéapresentarastrilhastradasporessaaven
tura,culminandonafusãoexperimentalqueéapoesiadeRobertoPiva,umpoeta
quefinalmentetocaraoespíritodaquelehomemdascavernas,outalvezmesmo
dobisãoaprisionadoporsuastintas.
Amissãodapoesiaécriarummundonovoacadapoema.E,parahavera
ordenadaharmoniadocosmos,éprecisoquesepropagueocaos.
13
CapítuloUm
Avidaésonho
Wearesuchstuff
Asdreamsare madeon,andourlittlelife
Isroundedwithasleep.”
WilliamShakespeare,
TheTempest
,AtoIV,CenaI
Há uma antigalenda querezaque, uma veza cada cem anos, assidua
mente,odemônioeojudeuerranteseencontramparaconversarebebernuma
tavernaemalgumlugardeLondres,possivelmentedesdeofinaldoséculoXIV.
Entretanto, nodiadeseucostumeiroencontro secularno anode1589,osdois
nãoeramasúnicascelebridadesacolocaremaconversaemdia,poisoutradu
pla,queaolongodosanosacabariasetornandoigualmentelendária,aliestava
discutindoem voz alta, sobreteatro, talento e pactos compoderes obscuros. À
mesaaoladosentavam seChristopherMarloweeWilliamShakespeare.
Aessaaltura,Marlowejácolhiaoslourosdeseureconhecimentopela
Trá
gicahistóriadoDoutorFausto
,sendosaudadocomoomaiordramaturgodeseu
tempo;Shakespeare,poroutrolado,lamentavaototaldesastre”dosversosde
suaprimeirapa,aPrimeiraPartede
HenriqueVI
,queixandoseaoamigosobre
suaprópriafaltadetalentoechegandomesmoaopontodedizerlhequebarga
nharia,“comoseuFausto,paraserigualmentetalentoso,oupelomenos,darso
nhosimorredourosaoshomens.
Acontecequeodemônioestavalogoaolado,conversandocomseuami
goimortal,eouviuatentoodesejodojovemator:foientãoqueeleseergueue
caminhou, rumoàmesaondesereuniamosdoispoetas,umhomemmuitoaltoe
depelemuitobranca,comolhossombrioseavoznegracomoanoite,epergun
touporWilliam:
WILLIAM:Jánosvimosantes?
O DEMÔNIO: Sim. Mas os homens esquecem, quando estão
despertos. Ouvi sua conversa, W ill. Você gostaria de escrever
14
grandespas?Decriarnovossonhosparainstigaramentedos
homens?Éesseoseudesejo?
WILLIAM:Sim.
ODEMÔNIO:Entãovamosconversar.( GAIMAN,2005,p.127)
A partir desse encontro,William encontrouseu tão desejadotalento.Co
mouatersonhosparadarsonhosaoshomens,sonhosessesquesobreviveri
amasimesmoeatodosqueporelespassassem,portodaaeternidade.Quanto
aohomem misteriosocomquemconversarana taverna,esteapenasencomen
douparasiduaspas:essasdeveriamser
Sonhodeumanoitedeverão
esua
últimacrião,
Atempestade
,ambastendocomocentroosonhar.Poisopatro
noe bemfeitordeWilliam Shakespearenão era o reles Mefistófelesdodoutor
Fausto:eleeraoSonhoempessoa.Foiassimqueomaiordetodosospoetas
inglesestornouseoinstrumentoatravésdoqualoSenhordasHistóriaspoderia
eternizarossonhosnoscorõesdoshomens.
Ahistóriadessepacto,pertencenteàumcontoaindamaiorsobreoencon
tro entre dois seres imortais, é uma crião do romancista e quadrinista inglês
NeilGaiman, e faz parte de sua obra maisfamosa e bem sucedida,a sériede
históriasemquadrinhos
TheSandman
,publicadaentreasdécadasdeoitentae
noventa.Essasériesededicaacontarosfeitoseadesventurasdeumaentidade
queé a manifestão física dosonho – o Sandman dotítulo,ouhomemda
areia”,éumpersonagem folclóricoinglês,quederramaareianosolhosdascrian
çasparaadormecêlasedarlhesbonssonhos.Contudo,Gaimannãosededica
apenasacontaraventurasemqueseuheróiseenvolve,ousuahistóriapesso
al,seus amoresfrustradosesuarelãotensacomafamília(seusseisirmãos,a
saber:aMorte,oDestino,aDestruição,oDesejo,oDesesperoeoDelírio,seres
queantecedemmesmoaexistênciadosdeuses,oumesmodouniversoemsi),
mastambémfazquestãodemostrarosefeitoscausadospeloseucaminharentre
todasaspessoas;eénessashistórias,normalmente,queobrilhodesuamitolo
giapessoalsemostraemtodaasuaintensidade.
Ora, oSonho recebeeacolhea todosemseureino,oSonhar,pormais
queasmentesdespertasjamaistenhamlembrançadessesencontros.Ospiores
pesadelos da humanidade derivam de si. Tanto os deuses quanto os animais
buscamrefúgioemseusbros.Seuspassosecoamànoiteemtodaparte,seja
15
no mármore outrora real dos fóruns do Império Romano, seja pelos corredores
desesperadosdofictícioAsiloArkham.TodosestãosujeitosàãodoSonho,e
deseusirmãos:tantooimperadorAugustoquantoomendigoqueseacreditava
ImperadordosEstadosUnidos.TantoadeusaegípciaBastquantoopalhopsi
cótico de origem desconhecida que aterroriza Gotham City. E, principalmente,
tanto os artistas quanto as fadas que estes, descuidadamente, crêem ser suas
criaçõesprópria.Criadoresecriaturas,sãoseloucos,homensreaiseficcionais,
todosseencontramempédeigualdadediantedoSenhordosSonhos.
Assim,grandepartedatônicadaobradeNeilGaimandedicaseatrafegar
nolimiteexatoentreaficçãoearealidade,omundodespertoeomundonotur
no,eporváriasvezesesse limiaréapresentadocomoocampodaarte:oponto
fulcraldessaarteserrepresentadopelosonhoéacontribuiçãomagistraldeGai
mannademonstrãodesuaimportânciaessencialparaoofíciodoartistim
portânciaessaqueencontraseusaltosebaixosaolongodahistória,comoregis
trapontualmenteGilbertDurandemseulivro
Oimaginário
,noqualapontaospe
ríodosiconoclastas,queéformacomoeleserefereaosmovimentosquesededi
caramaassumirapreponderânciadeumarazãosobreoimaginário,sempreen
tremeados–continuamente–pormovimentosderupturaeresgatedoelemento
onírico.
UmahistóriacriadaporGaimanretratabemessadivagãoacercadaarte
de do sonho: em Calíope”, republicada no volume
Terra dos sonhos
, Richard
Madoc,umromancistafracassadoeseminspirão,compra”deoutrovelhoes
critor, talentosíssimo e renomado, a chave de seu sucesso– Calíope, uma das
musasgregas,capturadanomonteHéliconeescravizadaparaservirdeinspira
çãoaseudono.Aodescobririsso,oSonhoparteemseuresgateeoefetua,mas
nãosem antespuniroescritor/impostor,dandolheagra quetantodesejava,
porémtransformandoaemumamaldiçãoterrível:
MADOC:Masvocênãoentende...precisodela.Senãoatives
se,nuncaconseguiriaescreve r.Nãoteriaidéias.(...)
SONHO:(...)Vocêserecusaalibertálaporquenecessitadei
déias”? Você me enoja, Richard Madoc.Queridéias?Quer so
nhos?Querhistórias?Então, idéiasvocêterá. Idéiasemabun
dância.(GAIMAN,2005,p.27)
16
RichardMadocfoiinvadidoporidéias.Suamentepululavadenovashistó
rias, roteiros, romances, filmes, todos ao mesmo tempo, acometendo o escritor
agraciado por um desespero insuportável, uma necessidade tão premente de
escrevertudooquevinhaasua menteemfrangalhosque,nomeiodarua,passa
a escrevernasparedes, com os próprios dedos, em letras de sangue, até que
estes se reduzissem a tocos sangrentos e deformados. Até que Calíope fosse
restituídaesuamente,derepente,seesvaziasseporcompleto,asidéiasoaban
donando.Comisso,Calíope”setornaa visãopervertidasobreaexaltãoàs
musas,quecompõemaintroduçãodospoemasépicos.RichardMadocnãope
diuapermissãodeCalíopeparaquepudessecontarassuashistórias;elesim
plesmenteinvadiuafonteeforçouumainspirãoquelheeravedada.
Calíope”éoexatoopostodoqueGaimanquermostraraoinserirWilliam
ShakespearenasagadeSandman.Comofoivistoacima,numtrechodahistória
Homensdeboafé”,editadanovolume
Casadebonecas
,oSonhoseaproxima
empessoadopoeta,queseconsideraum fracasso,elhe ofereceoacessoao
seureino,umavezquereconheceraneleuminstrumentoidealparaseusdesíg
nios.Shakespearetornase,assim,umpersonagemdedestaquenasérie,ainda
quesóaparatrêsvezesaolongodasaga.Suamodestaecoadjuvanteapari
çãoem“Homensdeboafé”éaprimeiradelas.
AsegundaaconteceemSonhodeumanoitedeverão,editadaem
Terra
dossonhos
,históriaganhadorado
WorldFictionAwards
de1991nacategoriade
melhor“shortfiction,sendooprimeirogibiaganhartalprêmio.Nessahistóriafica
claro,então,queomisteriosopatronodeWilliamShakespearelheencomendara
duaspasespecíficas,parapagarodomqueforaconcedidoaodramaturgo:a
primeiradelasseria
Sonhodeumanoiteverão
,eéemtornodesuaprimeiraen
cenão,realizadaaoarlivre,queocontosedesenrola.Acontecequeopúblico
quechegaparaassistila,osconvidadospessoaisdoSonho,sãoninguémmais,
ninguémmenos,osprópriospersonagensdapa–Oberon,reidasfadas,esua
esposa,Titânia,acompanhadosporPucketodooseuséquitofantástico.Um
mi
seenabime
deproporçõesfantásticas,ondeosmaisirreaispersonagenspodem
assistirasuaprópriahistóriacontadapormortais,rendendoseàestranhamagia
doteatro,embevecidosmesmoaoquestionarafidelidadedafarsaencenadaem
relãoaos“fatosreais.DizPuck:“issoémagnífico...eéverdade!Nuncaacon
17
teceu,masainda assiméverdade.Queartemágicaéessa?(GAIMAN,p.75).
Pertodofinal darepresentão, umdiálogoexpõenãosópartedaintençãodo
Sonhonarealizaçãodesseespetáculo,comotambémumavisãomuitoparticular
daa rte:
SONHO: ...eles nunca os esquecerão. Isso é importante para
mim:queoreiAuberonearainhaTitâniasejamlembradospelos
mortaisatéqueessaeratermine.
OBERON:sagradecemos,Moldador,masestefolguedo,em
boraagradável,nãoéverdadeiro.Nadasucedeudessaforma.
SONHO:Oh,maséverdadeiro.Algonãoprecisateracontecido
paraserverdadeiro.Históriasesonhossãosombrasde verda
des,queresistirãoquandoosmerosfatostornaremsepoeirae
cinzas,eforemesquecidos.
(GAIMAN,2005,p.8 3)
AúltimaparticipãodeWilliamShakespeare,jáaofimdesuavida,sedá
naexataúltimaediçãodasérie
Sandman
,noqualassumeumaposiçãodestaca
dadeprotagonista.EmmeioaojámoribundocasamentocomAnneHathaway,o
carinhodafilhaJuditheconversasregadasacervejafracaefrangofriocomo
amigoeescritorBenJonson,Williamsevêàsvoltascomaconclusãodesuaúl
timapa,quetambéméaúltimadasduasencomendadasespecialmentepelo
Sonho:tratasede
Atempestade
,ahistóriadeummago,Próspero,queoutrora
foraumnobreitalianoequeviveentãoexiladonumailha,comsuafilhaMirandae
espíritos mágicos sob seu comando.Enquanto
Sonho de uma noite de verão
é
umacomédiainofensivasobreumanoitedeencontrosedesencontrosamorosos
entrefadas emortais,vivendosonhosdespertosesobopoderdefiltrosdea
mor,
Atempestade
setornaumtestamentoemhomenagemaospoderesdoho
memedaarte,damagiae,principalmente,doSonho.
ShakespeareimaginaporqueessapaseriaaescolhidapeloSonhopara
quitarsuadívida,emdetrimentodealgumatragédiapoderosacomo
Macbeth
ou
Hamlet
, mas assim explica seu benfeitor, com uma justificativa bem pessoal:
porque nuncadeixareiminha ilha. (...) Eu sou... ao meu modo... uma ilha. (...)
Pergunteisevocêseenxergavaemsuahistória.Eu,não.EunãoPOSSO.Souo
PríncipedasHistórias,Will,masnãotenhominhaprópriahistória.Enuncaterei.
18
Masagradoavocê.(GAIMAN,p.182)O SonhonãoéPróspero, massima
própriamagiaquenelehabitaequesemanifestaportodaailhaqueele,“aoseu
modo,é.QuantoaShakespeare,queaolongodahistóriadiscuteseurealvalor
enquanto criador,questionando adiferençaentre arte”e técnica”, desconfiado
desuafunçãoumavezquereconheceestarservindocomouminstrumentopara
umaentidadecomquemfizeraumpactoeque,mesmodepoisdetantotempo,
aindacultivadúvidassobresenãocometeraumpecadograveaoentraremco
mérciocomumacriaturapossivelmentepagã,aofinaldacomposiçãodesuape
ça,estetambémsereconheceemsuaobraecompreendequeseutrabalhotam
bém é um usode magia, e que elepróprio é Próspero. Nãoapenas Próspero,
mastudoomaisqueexistedentrodesuaobra.Ele seassumeumcriador,um
autor
,aoresponderaindagãodoSonho:
SONHO:Digame,Will:vocêsevêrefletidoemsuahistória?
WILLIAM: Eu seria um tolo se negasse. Sou Próspero, certa
menteconfioqueserei.MastambémsouAriel...umespírito
incandescente,crepitandocomoumrelâmpagonocéu.Esouo
rústicoCalibã.EsouotaciturnoAntônio,semprefazendoplanos.
EovelhoGonzalo,dandoconselhosingênuos.EsouTrínculo,o
bufão,eEstéfano,ocriado,poiselessãopalhosetolos,eeu
tambémsouumpalhoeumtolo.E,àsve zes,ébriocomoe
les.
(GAIMAN,2008,p.175176)
Terminada asuaobrigãocomoSonho,esteodeixalivreparadarasua
conclusãoàpa,eassimWilliamShakespearecompõeotextofinaldePróspe
ro,personagemjáapaziguado,cajadopartidoelivrosdemagiaabandonado,as
sumindoseenfimcomo umhumanocomum;Shakespeareentãoseassumeigual
àsuacriaturaepode,afinal,aposentarse,abandonandoapenaeopapelefale
cendoanosdepois,aoscinqüentaedoisanosdeidade.
Mais do que uma homenagem a um dos principais vultos da literatura
mundial,uminventordohumanocomoosaúdaHaroldBloom,queocolocaco
moepicentrodetoda a criãoartística posterior a si(e com certeza osenhor
Bloomoconsiderariapaidaliteraturaoqueoprecedeu,porémadecênciadeve
refreáloàsvezes–sebemoprópriodáaentenderqueacreditaclaramenteque
19
tudooqueveioantesfoiumapreparãoaosurgimentodesseimprovávelmessi
as...),oqueNeilGaimanquisdefatoaotransformarShakespeareemumperso
nagemdesuahistória – e um personagem importante, dada a sua importância
comoprotagonistadoposfáciodesuaobra–foidemonstraraimportânciaqueo
sonhotemparacomaarte.Umahomenagemmerecidaaesseaspectodamente
humana,equecomcertezaseriaaplaudidapelopaidosestudossobreoimagi
nário,Ga stonBachelard,eporbarrocos,românticosesurrealistas.Talvezopró
prioWilliamShakespearenãoaplaudisse:eleapenasassentiriacomumgestode
caba erepetiriaafraseditapelarepresentãodeseurealbenfeitor, desua
magia:essepactonãoprecisateracontecidoparaserverdadeiro.
WilliamShakespearefoiograndemestredeumaépocaquesedelineava
comoumaresistênciadoimaginárionocampodasartes;parasermaisexato,um
terceiro grande movimento de resistência, como afirma Gilbert Durand. Era a
épocadaContraReformanaIgreja,queoporáaosexcessosdaReformaosex
cessos inversos da arte e da espiritualidade barroca (DURAND, 2004, p. 24),
momentoesseemquearte,espíritoesonhosóencontrarãoresistênciaferozao
esbarrarcom oadventodoIluminismo,suafilosofia“neoracionalapregaroculto
aohomemeumretornodasartesaosmodelosestéticosclássicos,embuscade
uma funcionalidade pura” e alegorias insípidas. Uma romanomania”, como
chamaDurand.
Em seuensaio acerca dasciências e da filosofia da image m, o livro
O
imaginário
,GilbertDurandnãodispõedemuitotempoeespoparaprestarcon
tasdetalhadasdeautoreseobrasdosprincipaismomentoshistóricosderuptura
contrao“racionalismo,assim dandoum breveolharàcontribuiçãodeShakespe
areaodesenvolvimentodoimaginário:
O imaginário teatral de um certo Shakespeare apresentará du
ranteaencenãoprincipaldeumapaumacenasecundária.
Issoétãoverdadeiroque,atingira profundidadeda iluminão
pelaprópriaaparênciaepelosentido,asensibilidadeeaespiri
tualidadebarrocascomprazemsenamultiplicãodasaparên
cias“porabismos.(2004 ,p.26)
20
Omiseenabîme”éumrecursoriquíssimoecaroaShakespeare,surgin
doaofinal de
Sonho de umanoite deverão
comouma montagem teatral para
divertirosreisdeTebas,equeganhaumrealestatutodeespelhodeformantee
multiplicadordarealidadeem
Hamlet
,emqueCláudio,ousurpadorassisteàre
presentãodacenadeseuprópriocrime,eindignaseaenxergarestesincero
reflexodesuaprópriaimagem.UmrecursotãocaroaShakespearequeéreto
madomesmonarecriãofictíciadesuabiografiapropostaporNeilGaiman,que
estende o abismo para as profundezas doinconsciente, ou o reino do Sonhar.
Nãoseria,afinal,a relãoentreo sonhoeaobradearteum jogoaindamais
delicado demiseenabîme”,ondeum refleteedistorceooutro continuamente,
propondoumconfrontoentreoespectadordespertoeoadormecido?Ora,otea
tro elisabetano tinha como marca principal o esforço constante de imaginão
entre o público e o encenador. Era preciso alguma imaginão e muita boa
vontadeparaacreditarqueumrapazimberbeéarainhaClpatrmaisainda,
paraacreditarque meiadúziadesoldados portando bemaltoalgunsgalhosde
árvorespudesseserinterpretadacomoaflorestadeBirnamamarcharemdire
ção às muralhas de Dunsinane, cumprindo a maldição fatal de Lorde Macbeth.
ParaolhoscontemporâneoshabituadosaElizabethTaylor(perdão,paraoscon
temporâneos é melhor falar em Angelina Jolie,
La
Taylor já pareceriaestranha
comacoroadoEgitodiantedessesolhos)eaosefeitosespeciaisdaLucasfilm,
assistir a um espetáculo shakespeariano legítimo no Globe Theater do século
XVII pareceria um absurdo alienígena,ou um mambembe amador razoável, na
melhordashipóteses.Claro,acapacidadedeimaginãodoespectadoratualfoi
decertaformaseqüestrada”duranteaEradaimagem. Mas algoháquenão
deixarádeexistirtãocedo( esperemos),pormaisquesofratransformõesea
justesaolongodosséculosedasescolasfilosóficas:umpactoficcional,pacto
esse que sóé possívelgras à prevalência inextrincáveldoimaginário, doin
consciente,dosonho.
Shakespeare se utilizou dos recônditos misteriosos e noturnos da mente
comotemaecomoferramenta,talvezdeumaformaquenenhumoutroanteces
sorseutenhausado.Eleéoestopimparaasconfusõesde
Sonhodeumanoite
deverão
;eleestápresentenodelíriodeLadyMacbetheasmãoseternamente
ensangüentadasdeseumarido,alémdasvisõespremonitóriasqueasTrêsIrmãs
desvelamperanteseus olhos deguerreiro.Ele estápresentenaloucura suicida
21
da inocente Ofélia e do cruel espelho em abismos oferecido a Cláudio por um
grupodeatores.Eleocupaumpapelfundamentalem
JúlioCésar
,nosonhoreve
ladordatragédiadosIdosdeMarçoqueCalpúrnia,suaesposa,temeque,não
poracaso,semultiplicanaformadeumdelíriocoletivoqueafetaapopulãoque
vêfantasmaspelasruasdeRomaumdiaantes.E,porfim,otestamentoeareve
lãoqueShakespeareconcedeàbocadePróspero,em
ATempestade
:somos
feitosdamatériadossonhos,eanossavidabreveseencerracomumsono.”Dia
logandodepertocomShakespeareePróspero,opoetaespanholCalderóndeLa
Barca,tambémumrebeldedoimagináriobarroco,legaestapoderosahomena
gem:
¿Quéeslavida?Unfrenesí.
¿Quéeslavida?Unailusión,
Unasombra,unaficción,
Yelmayorbienespequo:
Quetodalavidaessuo,
Ylossuos,suosson.
Os esforços bemfazejospara a valorizaçãodo imaginário, do sonho, do
inconsciente,queaquerelaentreaReforma eaContraReformapropiciarame
queconduziu,paracitarexemplos,aobarrocoespanholdeCalderóneoteatro
elizabetanodeShakespeare,podemterencontradoumabarreiraracionalistadi
ante da filosofia iluminista que envolveu a Europa dos finais do século XVII ao
longodetodooséculoXVIII.Porém,oimagináriorecobroufôlegonessemarde
razã oultravalorizada,comoadventodedoisoutrosnovosmovimentosderesis
tência:o
romantismo
,cujosprimeirosindíciossedãocomomovimentodo
Sturm
undDrang
em1770(ouseja,umchoquefrontalcontrao“SéculodasLuzes),eo
simbolismo
, quefinalmente entronizao estadolibertado – elibertário– daima
gem.
Oromantismo,comoovêGilbertDurand,seconfiguracomoaquartare
sistênciadoimaginárioaosataquesmaciçosdoracionalismoedopositivismo.A
respeitodoalcancedoconhecimentoqueessemovimentopreconiza,oestudioso
francêsassimcondensa:
22
(...) Estaestéticareconheceedescreveumsextosentidoalém
dos cinco que apóiam classicamente a percepção. Mas este
sextosentido,quepossuiafaculdadedeatingirobelo,cria,
ip
sofacto
,aoladodarazãoedapercepçãocostumeira,umater
ceira via de conhecimento, permitindo a entrada de uma nova
ordemderea lidades.Umaviaqueprivilegiamaisaintuiçãopela
imagemdoqueademonstrão pelasintaxe. (DURAND,2004,
p.27)
Essanoçãodeumsextosentido,queaindaseráassociadodecertafor
maàidéiadegênio,tãoprezadopelosromânticosequeserácombatidotantas
vezes,equeconduzàpercepçãodenovasrealidades,nãosedistanciamuitoda
idéia platônica de mito, cujo reencontro e renovão costumamser uma das
buscasdesses movimentospróimaginário:grasàlinguagemdomito,Platão
admiteumaviadeacessoparaasverdadesindemonstráveis:aexistênciadaal
ma,oalém, amorte,osmistériosdo amor...alionde adialéticabloqueadanão
conseguepenetrar,aimagemmíticafaladiretamenteàalma.”(DURAND,2004,
p.1617).
Entretanto,claroqueoromantismocaiuemarmadilhas.Aidéiadeperfei
ção imanente das imagens acabou por se tornar um entrave à libertão dos
sentidos (inclusive do sextodeles) e daima gem, alçando a arteao estatuto de
umareligiãoautônoma,noséculoXIX.Asalvão,comoafirmaDurand,seráa
insurgênciadeumanovidadeestéticaquecoloqueemprimeiroplanooimaginá
rio,osimbólico.Estaforçaderesgateseráopenúltimo(atéopresentemomento)
movimentoderesistênciadoimaginário:osimbolismo.
Será preciso aguardar a chegada da corrente simbolista para
desprezaraperfeiçãoformaleelevaraimagemicônica,poética,
atémusical,avidênciaeconquistadossentidos.(...)Darotítulo
desímboloàimagemartísticasignificaapenasfazerdosignifi
cantebanalamanifestãodeumsimbolismoinefável.(...)Ao
bradearteirálibertarseaospoucosdosserviçosantespresta
dosàreligiãoe,nosséculos18e19 ,àpolítica.(DURAND,2004,
p.29)
23
Agora a imaginão pode ser entronizada como a Rainha das Faculda
des,comodizCharlesBaudelaire.Opoetaédotadodepoderes visionários. O
versosofreumdesdobramentometafóricomuitoamplocomoavançodasespe
culõesarespeitodosefeitosdasinestesiasobreotexto,echegaseassimàs
Vogais deArthur Rimbaud, omesmopoeta que sentou a Beleza  (tãocastiça
mentereligiosa”)emseucoloeaachouamarga,durantesua
Temporadanoin
ferno
.Oresgatesimbolistaàsteoriasdascorrepondênciasdofisofo,tlogoe
místicocristãoEmanuelSwedenborgtornaseumesteioparaapluralizaçãodas
imagens e metáforas das obras, nãoescapando, e com razão, do elo do movi
mentocomumatradiçãoesotérica.Ousodepsicotrópicos,drogasquealteramo
estadomentalou,antesainda,abremas“portasdapercepção,nuncaforamuma
incrívelnovidadenocampodacriãopoética–perguntemaHomeroeoslotófa
gosdesua
Odisséia
–,porém,aqui,oinebriamentodossentidossetornapúblico
e notório e forma uma tradição quecontinuará a se prolongar, de Baudelaire e
seus
Paraísosartificiais
ao
U ivo
deAllenGinsberg,umséculodepois.
Aqui estão, entre escritores e pintores, Arthur Rimbaud, Marcel Schwob,
SaintPol Roux, Maurice Maeterlinck, Tristan Corbière, Gustave Moreau, Odilon
Redon.Alémdesses,tambémfiguraGerarddeNervalesuaescritaonírica,
Auré
lia
sendoumromancequetransitaaolongodeseuscapítulosentremomentosde
realidade desperta e instantes de pura deformão pesadelística noturna, uma
loucuraquesóencontaparnosilêncioda“razãodeRimbaud.Tambémháafigu
raicônicadeLautréamont,ojogoculturaldascolagens,nos
CantosdeMaldoror
,
jogado no mundo da grande retórica do romantismo (CHÉNIEUXGENDRON,
1992,p.21),eoteatrodeAlfredJarry,queforneceria,tambémaoladodeLau
tréamont,osprimeirospassosparaafuturaformãodochamado“humornegro.
Todosessesnomesfuncionamcomoumpontodepartidaparaoúltimobastião
resistênciadoimaginário,quevemasero
surrealismo
.
Olhandoporesseprismaaquioferecido,podesecompreenderqueosur
realismo, em si, não foi uma novidade completamente autêntica e inédita, mas
simaevoluçãonaturaldeumprocessoquecaminhaatéaqui,aostrancosebar
rancos,basicamentedesdeaigrejabizantina.Ouantesainda.Entreossimbolis
tas,jásepodiaperceberogérmendochamado
cogito
dosonhadorqueGaston
Bachelarddesenvolveemsua
Poéticadodevaneio
,jáemmeadosdoséculoXX,
24
enoqualeleexibirá,clarocomoaágua,tudoaquiloqueossurrealistastentaram
tornarsuateoriaeprática.
Os surrealistas tinhamprofunda consciênciadessa linha evolutiva, e não
sefizeramderogadosemafirmarasuaafilião,porvezesconsideradamaldi
ta”,semalditoforaquelequenadacontraacorrentedasfilosofiasemoraisvigen
tesou,principalmentenosúltimostemposdedomíniodaimagem,contraacor
rente capitalista do mercado da arte. No
Primeiro manifesto surrealista
, André
Breton, figura central do movimento surrealista, enumera uma série de poetas,
contemporâneosepassados,apontandoseussurrealismoslatentes,quasecomo
seformasseumaincomumárvoregenealógica:
As NOITES deYoung sãosurrealistas do comoaofim; infe
lizmenteéumpadrequefala,maupadre,semdúvida,maspa
dre.
Swiftésurrealistanamaldade.
Sadeésurrealistanosadismo.
Chateaubriandésurrealistanoexotismo.
Constantésurrealistaempolítica.
Hugoésurrea listaquandonãoétolo.
DesbordesValmoreésurrealistaemamor.
Bertrandésurrealista nopassado.
Rabbeésurrealistanamorte.
Poeésurrealistanaaventura.
Baudelaireésurrealistanamoral.
Rimbaudésurrealistanapráticadavidaealhures.
Mallarméésurrealistanaconfidência.
Jarryésurrealistanoabsinto.
Nouveauésurrealista nobeijo.
SaintPolRouxésurrealistanosímbolo.
Fargueésurrealistanaatmosfera.
Vachéésurrealistaemmim.
Reverdyésurrealistaemsuacasa.
SaintJohnPerseésurrealistaadistância.
Rousselésurrealistanaanedota.
25
Etc.
Insisto, eles nem sempre são surrealistas, nesse sentido que
descubro neles um certo número de idéias preconcebidas, às
quais,bemingenuamente,elesseapegavam.Apegavamporque
aindanãotinham
ouvidoavozsurrealista
(...)(BRETON,1985,
p.5859)
Claro,éprecisomencionarqueBretontambémincluinumanotaderodapé
opintoritalianoPaoloUccello(1397–1475),sobrequemosimbolistaMarcelSch 
wob,numadasbiografiasfantásticasdeseulivro
Vidasimaginárias
,dizquenão
selembravamaisdarealidadedascoisas,masdesuamultiplicidadeedoinfinito
daslinhas(1997,p.94),umareferênciaasuaspesquisasacercadaperspectiva
easváriasnarrativasconcomitantesrepresentadasemseusquadros.Tambémé
impossíveldeixardemencionar,obomnúmerodepoetas[que]poderiampassar
porsurrealistas,acomarporDante,e,emseusmelhoresdias,Shakespeare.”
(BRETON,1985,p.58)
Emtermosdeelementos,períodohistóricoeartefatos,ossurrealistastive
ramentresuasmãosumagamaincrívelderecursosparadaraoimaginárioade
finitiva posição de honra. Primeiramente, derivavam da revolução psicanalítica
perpetradapelosestudosdeSigmundFreud,sobreaqualsesustentavaomítico
DepartamentoparaaPesquisaSurrealista”naruedeGrenelleno.15eseusim
bólicomote:Parents!Racontezvosrêvesavosenfants[Pais,contemseusso
nhosaseusfilhos].Basicamente,eradeseusestudossobreFreudquesederiva
ramasgrandestécnicasdecriãosurrealista,especialmenteaescritaautomá
tica”esuasfrasesdedespertar,queconsistiamnumaespéciedepilotoauto 
mático para a escrita, que deveria acompanhar a velocidade do pensamento,
normalmentepartindodeummoteque fosseumafraseadvindadofinalde um
sonho:
TotalmenteocupadocomoaindaestavacomFreudnaquelaaltu
ra[istoé,1916,quandotrabalhounodepartamentodeneurolo
giadohospitaldeNantes](...)resolviobterdemimprópriooque
estávamos a tentar obter deles [os pacientes], nomeadamente
ummonólogofaladotãorapidamentequantopossívelsemqual
26
querintervençãoporpartedasfaculdadescríticas,ummonólogo
consequentementenãoobstruídopelaligeirainibição,equeera,
tãorigorosamentequantopossível,parecidocomo
pensamento
falado
.(BRETON,apudKLINGSÖHRLEROY,2007,p.8)
Essatécnica,junto comasdecolageme
frottage
dasartes plásticas(“mis
tura”deimagenspréexistentesedesconexas,eoefeitoobtidopeloesfregamen
to doinstrumento de pintura na superfíciesobreumatextura específica,nessa
ordem), e também as experiências de acaso objetivo na poesia, das quais a
maisconhecidaéocadáverdelicado(
cadavreexquis,
nome
e
quesedáaopo
emacompostoporversosescritospordiversosautores,semoconhecimentopré
viodoversoanterior,tendoapenascomoreferênciaummotepréestabelecido–
eàsvezesnemisso),erammaneirasdealçarasforçascriadorasaocampodo
inconsciente, de certa forma neutralizando a autoria pessoal. Uma morte do
autorbarthesianapostaàprovanaprópriapráticaartística,eque,decertafor
ma,marcaumaespéciederupturadeAndréBretoncomaidéiadepoetacomo
visionário de Arthur Rimbaud, essas técnicas aproximam esse nãoautor da
idéiaconcebidade
cogito
dosonhadordeGastonBachelard,anteriormentecita
da.Aditafrasededespertar,ou
incipit
,advindaaoserdespertadodopoetaori
unda deumestágio mais superficialdosono (omomentodedespertar),aproxi
masedacriãoquevematravésdo“devaneio,osonhodesperto(nãonoturno)
noqual,paraBachelard,oindivíduopreservasuaidentidadeoseusujeito.Jáa
criaçãoautomáticaquesesegue,semqualquerintervençãoporpartedasfacul
dadescríticas(nocaso,aconsciênciaouum
superego
),acabaporestarrelacio
nadaaosonhonoturno,ondenãoépossívelaexistênciadeumsujeito,deum
cogito
,deum“pensamentoqueofa“ser.
Em tais sonhos o sonhador nunca encontrará uma garantia de
suaexistência.Esses sonhosnoturnos,essessonhos de extre
manoite,nãopodemserexperiênciasondeseformulaum
cogi
to
.Osujeitoperdenelesoseuser–sãosonhos semsujeito.(...)
Mesmoquesetratedesonhosque,saídosdanoite,podemser
desenvolvidossobreofiodeumahistória,alguémjamaisnosdi
rá qualé o ser verdadeiroda personagemarrebatadora
?
É ele
27
realmente
nós
? Sempre nós? Reconhecemos neleonossoser
arrebatador,essesimpleshábitodeviraserqueestáligadoao
nossoser?Aindaquepossamosredizêlo,reencontrá lonoseu
estranhoviraser,osonhonãoéotestemunhodoserperdido,
deumserqueseperde,deumserquefogeaonossoser?(...)É
certamente difícil trar a fronteira que separa os domínios da
PsiquenoturnaedaPsiquediurna,todaviaessafronteiraexiste.
Há dois centros de ser em nós, porém o centro noturno é um
centrodeconcentrãovaporoso.Nãoéumsujeito.(BACHE
LARD,2001 ,p.141142)
Asegundagrandeforçadaqualossurrealistasseaproximaramfoia
Revo
luçãoSocialista
,acujacausao grupose apegoupraticamentedoiníciodesua
formãoatéseufim–mesmoqueparaissoosseusprojetosiniciaissofressem
gravesmutilões,oumesmoverdadeiroscismasentreseusmembrosfundado
res.Ora,osobjetivosdaRevoluçãoseadequavamperfeitamente,ouassimacre
ditavam,aosanseiossobreosquaisosideaissurrealistasestavamfundamenta
dos;unsdeleséretratadopelolemadivulgadonaprimeiraediçãodarevista
La
RévolutionSurréaliste
:éprecisoconseguirumanovadeclarãodosdireitosdo
homem.”(DUPUIS,2000,p.26)Osegundo,eaindamaisclássico,éaherança
queIsidoreDucasse, o Condede Lautréamont,lheslegara: a poesiadeve ser
feitaportodos.”Someseaissooconstanteconfrontocontraadegradãobur
guesaecapitalistacontraaarte,existentejáhátantosséculosequepareceter
alcançadoagoraoseulimiar,comavastagamaderecursostécnicosparaapro
duçãoeareproduçãodessamesmaarte.Essaeradareprodutibilidadetécnica
daarte”,comoachamaWalterBenjamin, éaquelaqueconsolidaaconstruçãoda
civilizaçãodaimagem,nosdizeresdeGilbertDurand,umaeraemqueaima
gemmentalparecealcançarumasobreposiçãoàditagaláxiaGutemberg,isto
é,asupremaciadaimprensaedacomunicãoescrita–comsuaenormerique
zadesintaxes,retóricasetodososprocessosderaciocínio(DURAND,2004,p.
5).
Aambigüidadedessaeraégrande.Emborafinalmenteparadaràima
gemumestatutohonrosoquesemprelhefoinegado,aomesmotempoelacon
seguiuumefeitoperversoqueninguémnuncapreviuporquenuncadesejaram
28
levaraimagemrealmenteasério.Aspesquisascientíficascomrelaçãoaosapa
ratoseatecnologiadessatalerasempresemaravilharam maiscomseutecni 
cismodoquecomseusimpactoseefeitos,comoaconteceracomosfísicosnu
clearesesuasinocentespesquisasatéatragédiadeHiroshima,numaanalogia
feitaporDurand,eindicativadacrisedacultura.
Comoaimagemsemprefoidesvalorizada,elaaindanãoinquie
tavaaconsciênciamoraldeumOcidentequeseacreditavava
cinadoporseuiconoclasmoendêmico[comoobservadoaolongo
detodaaobra].Aenormeproduçãoobsessivadeimagensen
contrase delimitadaaocampodo“distrair.Todavia,asdifusoras
de imagens – digamos a mídia” – encontramse onipresentes
emtodososníveisderepresentãoedapsiquedohomemoci
dental ou ocidentalizado. A imagem mediática está presente
desdeoberçoatéotúmulo,ditandoasintençõesdeprodutores
anônimosouocultos(...)àsvezescomoinformão,àsvezes
velandoaideologiadeumapropaganda”, enoutrasesconden
doseatrásdeumapublicidadesedutora...(DURAND,2004,p.
34)
Omovimentosurrealista,mergulhadonessaeraderevoluçõesecrisedos
valoresdacultura,entretanto,acabanãosuportandoechegandoavera“derrota”
deseusobjetivosprincipaispor,decertaforma,nãotersabidoatuaremmeioa
todas essas novidades. Quanto à Freud, por exemplo, suas pesquisas mostra
ramseincrivelmentelimitadas,segundoosestudiososdotema.
Um uma determinada altura de seulivro
O surrealismo
, Jacqueline Ché
nieuxGendronafirmaquehaviaumadeficiênciamuitograndenaaproximãoàs
obrasdeSigmundFreudnaFrançadadécadadevinte,devidoapoucastradu
ções(oumesmodetraduçõesdequalidadeconsiderável)e,logo,apenasosinte
grantesalemãesdomovimento–MaxErnst,porexemplo–podiamterumhori
zontemaisamploacercadofreudismo.JáJulesFrançoisDupuisémaismaldoso
quantoaoconhecimentodecausafreudianadeBretonecompanhia,aoexplicitar
que,muitasvezes,aousardosrecursosoníricosemsuascriões,elesselimi
tavamavoltarseao
Interpretãodossonhos
,únicaeexclusivamente,comose
29
fosseumlivrodecabeceira.Aindasobreaaproximãodosurrealismoàpsica
nálise,Dupuisa firma:
Aartedapsicanálise–assimdesembaradadesuasecapre
tensãoterapêutica–eapsicanálisedeumaartefeitaportodos
teriam, no espírito dos surrealistas, lançado as bases de um
comportamentosocialradicalmenteoutro.Ofracassodestepro
jecto, antes mesmo de ter sido formulado com clareza, pesará
esmagadoramentenaaproximãoaopartidocomunista.(2000,
p.74)
Afinal,oscomunistassãobastantedesconfiadosdapsicanálise,numaati
tudenãomuitoesperta,umavezqueapartirdelapoderiamcombater,emcom
pletoconhecimentode causa, osprocessos afectivosda família, da religião,da
pátria,etc.”(YOYOTTE,apudDUPUIS,2000,p.55),oqueeraumadasintenções
iniciaisdaditarevoluçãosurrealista.E,comocomunismo,vemaoutragrande
conseqüênciadaderrocadadosurrealismo:oesfacelamentoqueogruposofrerá
grasàsconstantesdisputasdecabodeguerraentreosdesejosrevolucionários
artísticoseosanseiospelamilitânciafirmejuntoaospartidoscomunistas.Osur
realismonãosobreviveuàsbrigasinternasgeradaspelomesmosanseiosdea
tingirumobjetivoemcomum–seucorpofoiesquartejadoporideologiasconflitan
tes,portrotskistasestalinistas,atéacabarporarrefecerechegaraumpontofi
nal,coma morte de seulíder, AndréBreton, e suasúltimas manifestões de
gringolaremnoaspectomercantilistaAvidaDollarsdecoisascomoa
popart
ea
publicidade.Afastadosdeumapráticasocialgeneralizada,deumamilitânciapoé
ticafielaseusprincípios,presosapassarmaistempoplanejandoaãoemco
mitêdoquerealmenteagindo,restaafraseconclusivatriste,porémapaixonante,
deJulesFrançoisDupuis:essesrevolucionáriosdecorãosófarãogolpesde
Estadonoreinodoespírito.”(2000,p.64)
30
CapítuloDois
Ummovimentocidadãodomundo
Insistoexpressamenteemfazeresta
comunicãoemParisporqueaFrançaé
opaísmaisinteligentedomundo,opaís
maisracionaldomundo,enquantoeu,
SalvadorDalí,venhodaEspanha,queéopaís
maisirracionaldomundo,
opaísmaismísticodomundo.”
SalvadorDalí,
Libelocontraaartemoderna
,p.17
Ocantodecisne dosurrealismo,comofalecimentodeAndréBreton em
1966eoesfacelamentodefinitivodogrupooriginalnãoquisdizer,contudo,que
seusesforçosforamemvão.Muitopelocontrário,asespeculõesestéticas,t
ricas, morais e afins do movimento renderam frutos que ainda perdurariam ao
longodetodooséculo,eemtodapartedomundo.Ora,apesardeospreceitos
estritamente surrealistas serem seguidos, a princípio, estritamente em Paris (e,
porextensão,tambémnaBélgica),cosmopolitismosemfronteirasdomovimento
estavaestabelecidonaprópriacomposiçãodogrupooriginal.Estainternacional
surrealista” é listada porJean Schuster:ogrupo, em Paris, reuniaos alemães
ErnsteBellmer,oaustríacoPaalen,osrome nosTzara,Brauner,HéroldeTrost,o
norteamericanoManRay,oscubanosWifredoLameCamacho,oscanadenses
BenoîteMimiParent,osespanhóisDalí,BuñueleDominguez,omexicanoOcta
vioPaz,ostchecosHeislereToyen,etc.”(1999,108)
NaBélgica,ogrupo “Correspondance”,deCamilleGoemansePaulNougé
afiliaramse a Breton desde 1925; daqui sairia um grupo surrealista
revolucionário, formado por Paul Borgoignie, Achille Chavée, Christian Dotre
mont, MarcelHavrenne,RenéMagritte,MarcelMariene Louis Scutenaire,além
dojáreferidoNougé,queacusariamovelhogruposurrealistadeumconservado
rismoinaceitáveleassumiriam,parasi,amissãosagradadepôrabaixoosalicer
cesdaburguesiaintelectual.Pelomenosatétambémencontraremopartidoco
31
munistaecremnamesmaarmadilhaemqueforampegosBretoneseus“cama
radas.Segueseaadvertênciapublicadapelogrupoem7dejulhode1947:
Proprietários,vigaristas,druidaseperaltas,oquevocêsfizeram
nãochega:éaindaaoSURREALISMOqueassociamosanossa
tentativadeorientarnoMESMOSENTIDOOUniversoeodese
jo [...] E para comar ele não servirá mais de estandarte aos
gloriosos,detrampolimaoscautelosos,detrípodeàspitonisas,
nãoserámais ocalhaufilosofaldosdistraídos,afrondadostími
dos,abiscadospreguiçosos,oacabaéquesimdosimpo
tentes,oataqueapopléticodospoetasouoataqueapopolítico
dosliteratos.(apudDUPUIS,2000, p.46)
Ainda na Europa, podese mencionar o grupo iugoslavo encabado por
MarcoRisticeogrupotchecofundadoem1933erelacionadoaotricoepoeta
KarelTeigeeaopintorJindrichStyrský.ÉdesnecessáriomencionaraEspanhae
aAlemanha,umavezqueentreosprincipaiscabasdomovimentofrancêse
ramosartistasplásticosSalvadorDalíeMaxErnst.
Em Portugal, cuja tradição literária já estava imbuída de um pré
surrealismosensacionistacomMáriodeSáCarneiroeFernandoPessoa,épre
cisofazermençãoaHerbertoHelder,poetanativodaIlhadaMadeiraequecola
borouemmuitasrevistasliterárias,sendoumdosnomesdemaiorpesodomovi
mentosurrealistaportuguêsnadécadadecinqüenta,doqualacabariaporsea
fastar,devidoàsuanaturezadiscretaereservada,avessoàsinstituiçõesliterárias
canônicas.Suaobra,dopoema
Oamoremvisita
,datadode1958,até
Domundo
,
de1994,passandoporseulivrodecontos
Ospassosemvolta
,de1963,é inteira
pontuadapelodesdobramentometafórico
adinfinitum
,acosmogoniapoéticaxa
mânicadesuascriõesestandorelacionada àbuscapelarecriãoerenovão
domito, preceito caroaossurrealistas, além doresgatedo pensamento selva
gem–ouseja,aorigemdopensamentosimbólicodohomemmoderno,estatuto
queesterecobracomosestudosdeRogerCailloise,principalmente,ClaudeLévi
Strauss–,oqueficapatenteemseuinteressepelatradução(outranscrião)de
poemasmitológicosdatriboindígenacaxinauá,etambémcantosmaiasdecura,
emseulivro
Ouolof
.
32
AindasobreacriaçãosurrealistadeHelder,háqueseapontarqueapre
sença insidiosa do método paranóicocrítico, desenvolvido por Salvador Dalí e
queteriaporexemplodosmaisradicaisolivro
Paranóia
,deRobertoPiva,éuma
marcaconstanteemseujámencionadolivrodecontos
Ospassosemvolta
.Um
exemplonotáveléoconto“Teorema”,noqualtomaporenredoofatohistóricoda
punãodosassassinosdeDonaInêsdeCastro,amantedopríncipeherdeiro,e
conseqüentementerei,PedroI,filhodeAfonsoIV,noséculoXIV.
OpontocríticoparanóicoaDalíqueHerbertoHelderempreganesseconto
é demonstrado atravésde uma sobreposiçãodeépocase narrativas, fundindo,
numamesmalinha,oPortugalmedievaldapuniçãosanguináriadeDomPedroe
obuzinodasavenidasdaLisboacontemporâneadopoeta.Criaseumaponte
condutoraentreLuísdeCamões,imortalizadordalindaInês,eHelder,queaqui
funde,numasópessoa,amorta,omatadoreoprovedordapunão,opríncipea
deliciar sedosanguedocorãoextirpadodoalgozdesuaamada.Assim,aes
truturasurrealista docontoéamesmafusãoinformedesons,coresesensões
deumsonho,trazendonessecaldotodaasuasignificão.
OmomentoeolocalondeCoelho,umdosalgozesdeDonaInês,éexecu
tado,éoPortugalnascidodessafusãoparanóica”:IdadeMédiaeContemporâ
neanummesmoinstante,entretecidosdamaneiramaisnaturalpossível.Ali,orei
DomPedrofitajuntoaospombosaestátuadomarquêsdeSádaBandeiraea
BarbeariaVidigal,aosomdopovosedentoporsanguejustiçaeParaísomescla
doàsbuzinasdocarro.Oqueomitonacionalpropõeéessafusão,eHerberto–
criadordemitoscomoé–demonstraquenãohádoisinstanteseduasnões,
nemmesmoumnasceudooutro,nemsetornouprolongamentonatural:oPortu
galdosmestrestrovadoresnuncadeixoudeseroPortugaldeOrnatosVioletas.
Em“Teorema”,omitovaialémdeumaponteentredoisinstantes:oInstanteuno
eeternofoierguidoesemprepermanecerácontidosobreessaponte.
Nãosónaconstruçãodocenárioessaparanóiasefazpresente,mastam
bém na construção do personagem e a narrão que proporciona ao lei
tor/espectador.Coelho,ocriminoso,narraosfatos durante sua execuçãocomo
seestivesse emoutrolugarquenãoseucorpomorto,talvez atravésdosolhos
dos pombos que voejam em torno da estátua de Sá da Bandeira. Na verdade,
isso porqueCoelhonãoéapenasCoelho.Eleéaencarnãodomitorecriado
por Helder e seu misticismo de tons obscurecedores. Dona Inês morta nasceu
33
paraapátria,paraaHistória,paraoMitoatravésdesuamorte pelas mãos de
Coelho,epelasdeDomPedroqueomatou.Inês,quelibertasedocasulocar 
nal,transformaseemluz,emlabaredas,emnascenteviva”(HELDER,2005,p.
97),fazpartedeCoelhoeestádentrodele,noaindapulsanteequentecorão
arrancado.ECoelhosobrevivedentrodeDomPedro,quecomeesteórgão,sim
bólicoparaavida,oamor,odesejo,numgestodecrueldadeebenevolência,re
cebendoassimtambémapartedeInêsquehabitanocorpodocriminosopunido.
SãotrêspersonagensaformaremadefinitivaSantíssimaTrindadedaformão
dopovo–edaliteraturaportuguesa.
DooutroladodoOceanoAtlântico,osurrealismoencontrouumabenfazeja
sobrevida. A América já era bem conhecida dos surrealistas franceses, para o
bemouparaomal,umavezquesetornouoterritóriodeautoexílioparaartistas
eestudiososeuropeusduranteaascensãodonazismoeaexplosãodaSegunda
GuerraMundial.ParaosEstados Unidos,em1940,partiramMax Ernst, Marcel
Duchamp,AndréMassoneAndréBreton,láencontrandoYvesTanguy,quepara
lájá haviaseadiantado,eentrando em contatocomDavid Hare, reunião essa
querendeuapublicãodarevista
VVV
em1942(CHÉNIEUXGENDRON,1992,
p. 91 ), na qualinclusive foi publicada pelaprimeira vezos
Prolegômenos aum
terceiromanifestosurrealistaounão.
BretonjáestiveranoMéxico,ondetravarao
famosoencontrocomopintormuralistaDiegoRiveraeorevolucionárioexilado
LevTrotsky,escrevendocomeles(Trotsky,entretanto,acaboupornãoassinar)o
manifesto
Pourunartrévolutionnaireindépendent
.AoMéxicotambémviajouBen
jaminPéret,umdosmembrosmaiscombativos(literalmente)domovimentopari
sienseeque,valefrisar,játiveraumapassagempeloBrasil,deondefoiexpulso
(...)pordecreto.–atode10dezembrode1931assinadoporGetúlioVargas(LI
MA,a pudNOGUEIRA,2004,p.174).
Osurrealismo,desdeoseuinício,foiconquistadopelamagia” quetranspi
radasartesdeculturasdistanteseestranhasàvelhaEuropa,comoasdaÁfrica
e da Oceania – Jacqueline ChénieuxGendronlembraa publicão de fotos de
máscarasmelanésiasacompanhasdepoemasdePhillipeSoupaultnarevista
La
révolutionsurrealista
no.7(1992,p.22).Osmotivosdesseinteressesãotambém
expostosporeladaseguinteforma:
34
Énaartedessasterras
estranhas
(maisfacilmentedoquenasli
teraturasinacessíveisemrazão dabarreirada língua, ou cujos
vestígiosescritossãoinexistentes)queosurrealismopodereco
nhecerossinaisdeumabelezareveladora,cujaorigemseriaa
consciência em que se encontra o artista de sua participão
cósmica.(19 92,p.21)
Uma comunicãoimagética,livredebarreiras conscientes,acolocaro
artista em comunhão com as manifestões simbólicas do pensamento selva
gemaoqualClaudeLéviStrausspropõeumresgatedosparâmetrospositivistas
vigentesnaantropologia,verificandooqueGilbertDurandafirma,arespeitodas
pesquisasdoantropólogofrancês:emcadahomemsubsisteumpatrimôniosel
vageminfinitamenterespeitáveleprecioso.(DURAND,2004,p. 50).AAmérica
tambémcausariaessemesmo
frisson
entreossurrealistas,comoévisívelnase
gundaexposiçãodaGaleriaSurrealistade1927,ondeseexibemobjetosdaA
mérica”,vindosdaColúmbiaBritânica,doNovoMéxico,doMéxico,daColômbia
edoPeru,alémdadescoberta”dosíndiosHopiedosPueblosfeitaporBreton
em1945,
Omundomágicodosmaias
pintadoporLeonoraCarrington,eaeleva
çãoaoestatutodeobradearte”,atéentãonãorealizadopormuseuamericano
algum, dos objetos rituais dos índios da costa noroeste americana a que Max
Ernst sededicouem1941:sejá pertenciamàscolõesdoMuseudeHistória
Natural, não eram ainda reconhecidos como objetos de arte.” (CHÉNIEUX
GENDRON,1992,p.2425)NoMéxico,ascomemorõesdodiadelosmuer
tos,ondeamorteécelebradacomumfestejoanimado,quasecomoumcarnaval
mórbidodeoferendas,dançasecaveirassorridentesaestamparatémesmodo
cesinfantis,mostraseamaiscompletatraduçãoquealmejavamossurrealistas
comoseuhumornegro,apredilãodohumorporbrincarcomaimagemda
morte,poisentãoéelevadaaomáximoasuapotênciaderecuperãodoreal
(CHÉNIEUXGENDRON,1992,p.105).Nãoéàtoaquesetornoucélebreafrase
deAndréBretonpelopaís,saudandoocomoopaíssurrealistaporexcelência.
35
2.1.Umabrevetrajetóriadosurre alismonaAméricaLatina
Porquécantáislarosa,¡ohpoetas!
Hacedlafloreceremelpoema.
loparanosostros
ViventodaslascosasbajoelSol.
ElpoetaesumpequoDíos.”
VicenteHuidobro,
Elespejodeagua
OcasodaAméricaLatina,emparticular,équeelasemostraumterreno
maisfértilaosurrealismoquequalqueroutro,umavezquepreservou,noíntimo
desuacultura,atradiçãode seuscolonizadoresespanhóis:o
barroco
,quenão
deixadeserumadasfontesancestraisdomovimentonascidoemParis,oque
mantémvivaemsuacriãoartísticaogostoexplosivopelaimagemepelomito,
oque,afinal,tornaocontinenteinteirotãodisparatadodoBrasil,comsuasentra
nhas eternamenteemaranhadasnos ramos meticulosamentefarpadosdoracio
nalismo francês (racionalismo esse que se manteve num sangrento cabode
guerracomAndréBretoneseus correligionários, naFrança).Oimaginário, eo
desejo da imaginão barrocos advêm ao pensamento latinoamericano desde
sua catequização jesuítica, uma vez queopróprio padre catequista, de acordo
com os
Exercitia spiritualia
de Santo Inácio de Loyola, precisava transitar pela
imaginão, se quisesse sercapaz deconduzira pureza dapalavra divina aos
filhosdesgarradosdeNossoSenhor:
O companheirodeJesusé submetido a exercícios deimagina
ção sistemáticos desde o noviciado: visualizão seguida de
contemplãodecenasdoInferno,daNatividade,dafugadoE
gito, da crucificão e da raríssima representão de Jesus à
suamãe(umaapariçãoconcreta,segundoumexercíciodeapa
rições).(DURAND,2004,p.26)
36
Ariquezavanguardistalatinoamericanaégigantesca,calcadanumatradi
çãoimagéticaforteoriundadochoque entreo
chiaroscuro
doVelhoMundobarro
coeamagiainscritanapeledosjaguaresdaculturaprécolombiana.Dessafu
sãoindissolúvelnasceumaliteraturadetintasverdadeiramentegenuínas,concre
tizandocomclarezaoespíritocosmopolita(oumesto,naspalavrasdeSérgio
Lima), tornando a América (e principalmente a América hispânica) a base para
prática surrealista dita autêntica, após a diáspora do grupo que ocorreu com a
irrupçãodaSegundaGuerraMundial.Porautêntica”,deveselevaremconside
rãooscritériosestabelecidosporJeanSchuster,membrotardiodomovimento,
notextoAdiásporasurrealistanaAméricaduranteaSegundaGuerraMundial:
a)atividadecoletiva,b)duradoura,c)ligadaàhistóriacontemporânea,d)eisenta
depreocupãoproselitista.”(1999,108)Nessemomento,aAméricarecebiaos
principaisativistasdogrupofrancês,espalhadoscomoaexplosãodeumabomba
defragmentão,confrontandosepessoalmentecomoimagináriofortequedaria
umnovovigoraomovimentosurrealista.Nãoqueaidéiadecosmopolitismote
nhasidorecebidadebrosabertosdoladodecádoAtlântico,umavezquea
AméricaLatina,incluindooBrasil, aindaestavanoafãdeiníciodeséculodabus
ca pela identidade nacional – entretanto, e agora excluindo o Brasil, havia um
grandeeimportantenúmerodeartistasqueenxergavammaisalémdocabresto
institucional, comungando com a idéia defendida pelo poeta mexicano Octavio
Paz,estetambémumsurrea listaàsuamaneira:
Umaliteraturanascesemprefrenteaumarealidadehistóricae,
freqüentemente, contra essa realidade. A literatura hispano
americananãoéumaexcãoàregra.Seucarátersingularresi
denofatodequearealidadecontraaqualselevantaéumau
topia.Nossaliteraturaéarespostadarealidaderealdosameri
canos à realidade utópica da América. Antes de ter existência
históricaprópria,comamosporserumaidéiaeuropéia.Nãoé
possívelentendernosseseesquecedequesomosumcapítulo
dahistóricadasutopiaseuropéias.(PAZ,1996,p.126127)
A HispanoAmérica não estava estagnada durante o momento em que a
roda da fortunadacrise culturalgirava enlouquecidamente como uma máquina
37
futuristaemarinettescanaantigametrópole,semeandooscamposdeondebro
tariaosurrealismodeAnréBretone seuscompanheiros.Deformaalguma.Ela
acompanhava,àsuamaneira,acaminhadadasvanguardas,adequandoasàsua
verdadeimaginativa.Nessemesmoperíodo,aAméricaLatinatambémestavaem
ebuliçãocultural,ansiosaporencontrartambém osseusprópriosismos. Claro
que,paratanto,estavamabertosànovidadequevinhadooutroladodomar.Por
ironiadodestino(sempreele),oquevinhanãodeixavadeestarfazendoocami
nhodevolta.
AquestãodotrânsitodavanguardaentreaEuropaeaAmérica
edasrelõesentreseusrespectivosfocoséinteressanteemui
to reveladora de outro aspecto essencial do movimento [o sur
realismo]:ocaráterautenticamenteinternacionaldesuaspropos
tasedesualinguagem.Avanguardafalatodasaslínguasea
parece, com variões naturais, quase em toda parte – até
mesmoalém domundoocidental – e quase ao mesmo tempo.
(OVIEDO,2001,p.291)
Com o esgotamento do modernismo hispanoamericano por volta de
1920, abrese espo para a poesia de vanguarda, ou dita contemporânea”.
Quantoa“modernismo,assimfoichamadooperíodoliterárioqueteveiníciocom
apublicão,em1888,de
Azul
,dopoetanicaragüenseRubemDarío,ogrande
mentordomovimento,equetevecomoexpoentesJoséMartíeLeopoldoLugo
nes,entretantosoutros.Grossomodo,essemodernismoestava calcadonospre
ceitosdosimbolismoedoparnasianismo.ParaocríticomexicanoJoséLuisMar
tínez,professordaUniversidadeAutônomadeMéxico,essapoesiasubseqüente
aomodernismoseguiamduasvertentesdistintas.Umadessastendênciasépor
elechamadadepós modernismo,dedicavaseacorrigirexcessosoudefeitos
queidentificavamnosmodernos,tentandocomissoabuscadasimplicidadeeda
intimidadelírica,reaçõescontraatradiçãoclássica,contraoromantismo,contrao
prosaísmo sentimental ou contra a sensibilidade e as formas modernistas por
meiodaironia”(MARTÍNEZ,1987,p.76):nofinal,boaparteacabavaporseruma
espéciedeprolongamento,ourefinamento,daquelesaquemdesejavamconser
tar.JáasegundavertenteapontadaporMartínezeraacompostapelosincon
38
formadoseosrevolucionários,quebuscavamaliberdadeartísticaeodespren
dimentodopassado,poetasdefatoemsintoniacomasgrandesrevoluçõesartís
ticas européias. A essa tendência da nova poesia latinoamericana, Martínez
chamadeultramodernismo,ousimplesmenteultra”.Aquisesituamoperuano
CésarVallejo,inventordepalavraseusuáriodaescritaautomática,enovamente,
JorgeLuisBorges.
Osultramodernostinhamcomobaseosseguintesparâmetros:adedica
çãoàmetáfora,sobretudoasmaischocantesedesconcertantes,depreferência
relacionadasaoutrasáreasoumesmoàinovãotecnogica,acriãodeneo
logismoseporquenãodelínguastotalmentenovas(tomeseoexemplodoartista
plásticoargentinoXul Solar), a eliminão de inutilidades verborrágicas, formas
poéticas estritas, rimas e, principalmente, a abolição de sentimentalismos e a 
dornoexcessivos,oqueéumaclaraafirmãodeuma“rupturadatradição,en
trandodiretamenteemchoquecomomovimentodeRubenDarío.Essesjovens
poetas,dedicadosapublicarnasrevistas
Proa
,
Prisma
e
MartínFierro
,paracitar
asmaisimportantes,tambémsetornouconhecidaposteriormentecomaalcunha
degerãoheróica”,comoapontaBorgesemumartigode1937,publicadohoje
novolume
Textoscativos
.Anovagerão,ouheróica,comotambéméchama
da, cumpriu plenamente seuintento:arrasou a Bastilha dospreconceitosliterá
rios,impondonovasidéiasestéticasàconsiderãodeachacosossimbolistas...
(BORGES,1999,p.300).Essetrecho,escritoporumjovemdenomeCambours
Ocampoecitadonoreferidoartigo,éumamostradoimpactocausadopelosul
trasnaliteraturaargentina.
AvindadoultrsmoparaaAméricapelasmãosdoescritorargentinoJor
geLuisBorgesé,deumacertamaneira,umretornodesseparaapátriadeseus
pais;afinal,oultraísmoespanholtemumagrandedívidaparacomocreacionis
mo,oriundodoChileequeinfluenciarafortementeasvanguardasdametrópole
hispânica,criãodopoetaVicenteHuidobro.
Huidobrofora,àsua época,omaisgenialeinventivopoetadaAméricaLa
tina,desenhandoparasipróprioumfuturograndiosoderevolucionáriodasletras
eevoluindoteoriaspoéticasvigorosasdesdeseusprimeiroslivros.AindanoPeru,
quandoescreveolivro
Elespejodeagua
,lançaasbasesdocreacionismo,que
levariaparaPariseMadri,ondetiveraumarecepçãoacolhedora,querporadmi
radores,querporpolemistas.
39
Nãodemorou muitoparaqueentrasseemcontatocomalgumasdas me
lhorescabasdaEuropa,colaborandojuntoaelesemdiversaspublicões,na
EspanhaenaFrança.ConheceraRafaelCansinosAssens,TristanTzara,Hans
Arp, Apollinaire, muitos dos membros do grupo surrealista parisiense, além de
Pierre Reverdy, cofundador e diretor da revista
NordSud
, com quem brigaria
posteriormente,alémdeGuillermodeTorre,comquemtravariaumagravepolê
micaemtornodacriãodocreacionismo.DizJoséOrtega:
Éimportantesublinharque,entretanto,aidéiacreacionistajáe 
xistiaantesdeopoeta[Huidobro]chegaraPariseaMadri,por
que durante um tempo circulou uma errônea (ou mal
intencionada) versão do ultraísta Guillermo de Torre. Segundo
este,Huidobroeraumplagiador,poisteriaalteradoadataorigi
naldeElespejodeagua[ouseja,1916,emBuenosAires]para
ocultarquefoiemParis–esobainfluênciadePierreReverdy–
ondeconcebeuocreacionismo.(2001,308)
IndependentedavalidadedasacusõesdeTorre,ofatoéqueodesen
volvimentoeraiodealcancedocreacionismo,independentedesuapaternidade,
deveseúnicaeexclusivamenteaochileno, queassimilaraaoseuprojetoodada
ísmoocubismoemesmoorelutanteultraísmo,queemboradeclarassesuainde
pendência do creacionismo, seria indelevelmente influenciado por ele. Mesmo
assim,nãoagradavamaHuidobroofuturismo(que,deacordocomotestemunho
deBorges,encontraraummeiodesemisturaraoultraísmo),oumesmoosurrea
lismo,contrao qual se mostrava especialmente cruel, chegando a chamálode
um simples passatempo familiar para depois das refeições (OVIEDO, 2001,
310).Porém,JoséMiguelOviedoacreditaqueodesgostodeHuidobroporMari
nettieBretonsejamaisdeordempessoaldoqueestética,umavezqueopoeta
chileno competiria com ambos pelo controle total das vanguardas, submetendo
todasasoutrasaseuprojeto,alémdeserpossívellocalizaremanõesdeam
bososmovimentosemsuacrião.
Seu movimento era audacioso, e em muitos pontos compartilhava da
mesma audáciainovadora do surrealismo de André Breton. O creacionismo se
pautavanaidéiadopoetacomoumpequenodeus,ignorandoarealidadefísica
40
erecriandoum mundonovonumapoesiaviva,emancipada,acriãoverbalo
pondoseànaturezaviva,buscandoassimumaautonomiademrgicaatravésde
uma linguagem única, de imagens fortes livres do sentimentalismo modernista,
implodindoasintaxedeumamaneirapróximaàdadaísta.AobraprimadeHuido
bro,
Altazor
,éomaisgloriosofrutodaaventuracreacionista:umpoemaextenso,
emumaquedavertiginosa, quedesenrolaumacosmogoniainvertida dalingua
gem,grandiosaeaindaassimlimitada.Enquantodesenvolveserumoaodesfe
cho,alinguagemsepurificadeseusexcessos,deexcrescências,deconectivos,
depontuões,jogandoosesposembranco,atéseesfacelarnumcantoprimi
tivo,cadavezmaispróximodocantodospássaros,esvaziado,reduzidoaopuro
esimplessom,transformadoemumalinguagemprimordial,adâmica,sagradae
universal.Ocreacionismoéumavastaoperãodelimpezadalinguagem,não
sópelaformãodeumnovosistemadeimagensedeumaredederelõesin
sólitasentreelas,mastambémporreformarasleisqueregemaestruturadover
so castelhano. Reformar? Mais apropriado seria dizer
revolucionar.
(OVIEDO,
2001,311)
A experiênciade Vicente Huidobro não seria oprimeiro exemplo deuma
forteinfluêncialatinoamericananaartedaantigametrópolvaleapenalembrar
queIsidoreDucasse,oCondedeLautréamont,umdosmaisimportantesprecur
soresdosurrealismo,nasceranoUruguai,viajandoparaaFrançanumaidadeem
quesuaformãoculturaljáestariabemconstituída.Apesardisso,JoséOrtega
denunciaqueamemóriadapresençadeHuidobroemParis,eopapelquecum
priraemmeioàsvanguardas, teriasidosoterrada,edesconfiasequeissosede
vaàinfluênciadePierreReverdy.
Apesardisso,peloquesepodedepreenderdotestemunhodeJorgeLuis
Borges,aaventuraamericanadoultraísmo(deinfluênciacreacionista),nãoatraí
raospoetasargentinoscomaintensidadequepoderiaseesperar;aprópriaex
periênciapessoaldeBorgesfoiumfracasso,eserveparailustraroladodemenor
glamour
daexplosãovanguardista,pelomenosnaEspanha.Suafrasefinalsobre
oassuntonãoprecisadegrandeselucubrõesparasefazerentender:depois
dequasemeioséculo,aindacontinuomeesforçandoparaesqueceressecanhes
troperíododeminhavida.”(BORGES,2000,p.70)Funes,omemorioso,nãosoa
riamaisinfelizqueisso.
41
Deacordocomoquedizno
Ensaio
,Borgesjásemostravabastantedesi
ludidopasmadotalvezsejaapalavra,aindaquedramáticademais–comoque
viraentreosinovadoresecombativoseenergéticosvanguardistasdaEspanha,
desde oprimeiromomentoemqueseaproximaradoscolaboradoresdarevista
Grecia
: seus integrantes se autodenominavam ultraístas e se haviam proposto
renovar a literatura, ramo da arte do qual não entendiam absolutamente nada”
(BORGES,2000,p.53).Éassimqueeleiniciasuadescriçãodaparticipãodo
movimento,semcompreendercomoumpoetapodesededicaraumarevolução
napoesiadeclarandoabertamentequesóhavialidoaBíblia,Cervantes,Ruben
Darío(aomenosisso,paraatacáloéprecisonomínimoconhecêlo)e,nomais,
um ou dois livros do mestre, Rafael CansinosAsséns (sic)”. Incomodavalhe
pensarqueosmembros deummovimento queseconsideravacosmopolitapu
dessemignorar,comoelediz,alínguafrancesa,suapreciosaliteraturainglesa,
queohumanista”dogrupotivesse umlatim maispobre doqueoseu(Borges
tinhaapenasuns20anosdeidade,afinal)e,omaismedonhodetodos,queum
deseuspoetasnocaso,opróprioeditordarevista
Grecia
,IsaacdelVandoVillar
–tivesseumaequipedepoetasqueseencarregavamdecomporsuaprópriao
bra poética. Os ultraístas em seu estranho cosmopolitismo rechavam a cor
locale spanhola,edaísepodepensarnumabismoentreelese,digase,oposte
riorFedericoGarciaLorca.AoentraremcontatocomogrupodeRamónmez
delaSerna,poetafamosoporsuasgreguerías–poemasdeumversosquesão
basicamente piadas –, ficou impressionado com o comportamento infantil, para
nãodizerdebilóide,deseusintegrantes.Certavez[delaSerna]meolhoucom
orgulhoecomentou:vocênuncaviunadasemelhante emBuenosAires,não é
mesmo?.Admitiquenão,grasaDeus.”(BORGES,2000,p.58)Talvez serefe
risseaquiaalgumprotótipodos
happenings
surrealistas,queacabariamporpulu
larduranteseuestadoterminal,aoladoda
popart
.AforatalvezopoetaGuillermo
deTorre,aquelequepolemizaracontraVicenteHuidobroacercadapaternidade
docreacionismo,equesetornaracunhadodoargentino,oúnicoquepareciame
receralgumrespeitodeBorgeseraopróprioCansinosAssens,emtornodequem
giravamasilustresfigurasdessemomentoilustrementeignóbil,comoaparecia
aosolhosdosenhordosespelhos.ParaBorges,nofinaldascontas,opadrinhoe
mentordogrupoeraoúnicoverdadeiroultraísta.
42
VanguardaseismosdosmaisvariadostipospulularamnaAméricaLati
na,comsucessobastantediversoentresi,masindependentedequalquercoisa,
prepararamconfortavelmenteoterritórioparaodesembarquedosurrealismoeu
ropeuaotempodaguerra.Suaassimilãotambémpassouporpolêmicas,como
oposicionamentoassumidoporOctavioPaz,quededicouumtextocontundentee
importante acerca da publicão da
Antologia da poesia surrealista latino
americana
organizadaporStefanBaciu,comodelicadotítuloSobreosurrealis
mohispanoamericanoeofimdopapofurado,noqualfazumacríticaferrenhaà
dedicãoconfusadaacademiaacercadotema,alémdeomissõesimperdoáveis
nocorpoda antologia, dandoaentenderquepouco,ouquasenada,sesabeaqui
sobreosurrealismo,emuladoporuma“contínuaosmose”.DizPaz,afinal:
Osurrealismonãofoinemumaestética,nemumaescola,nem
umamaneira:foiumaatitudevital,total–éticaeestética–,que
se expressou na ão e na participão. Daí que, com maior
sensatezqueseuscríticos,amaioriadestespoetastenhaescla
recido que suasafinidadesmomentâneas com a linguagem, as
idéiaseaindaostiquesdapoesiasurrealistanãopodemconfun
dirsecomumaatituderealmentesurrealista.(PAZ,1999,164)
Deumaformaoudeoutra,apesardosachismosdeumaparceladaco
munidadeacadêmicahispanoamericanadenunciadaporPaz,ouporoutrolado,
oconservadorismodasinstituiçõescontraasquaisosurrealismopregavaamor
te, muitosgrupos coesos se formaram em todoocontinente, especialmente no
México e na Argentina. Explicitar todas as ocorrências surrealistas na América
Latinaseriaumesforçoextensodemaisparaoespoaquipresente:entãolimi
tarseáaatençãoparaaexperiênciasurrealistanoChile,quesemostraummi
crocosmocompetentedessapresençanocontinenteamericano,doinícioaofim
do século, comando com o já mencionado Vicente Huidobro e seguindo em
frente com o grupo Mandrágora, liderado por Braulio Arenas, Enrique mez
Correa,TeófiloCideJorgeCáceres,econtinuadopelointernacionalMovimento
Pânico,encabadopelomultiartistaAlejandroJodorowsky.
Formado em1938,formalmentecoma leitura depoemasnoauditórioda
UniversidadedoChilenodia12dejulhorealizadaporBráulioArenas,TeófiloCid
43
eEnriquemezCorrea,oMandrágora” assumiaumafiliãocriativacomVi
centeHuidobro,aindaque,comotempo,acabaramporseafastardesuasom
bra.BráulioArenas,surrealistadetoquesromânticosalemães,era,segundoJosé
MiguelOviedo, o poetamaisconhecidoede obra mais extensa(maisde trinta
livros)eamaisdiversa,poisabarcapoesia,romance,conto,crônicaetextospro
gramáticos(OVIEDO,2000,410),porémomaisprofundoetranscendente”era
mezCorrea,defensordeuma“poesianegra”ecultordosaspectosmaisfortes
dosurrealismoradical,emsuaexaltão“àviolência,aoerotismoeaodelírio.
DeacordocomFlorianoMartins,esse era consideradoo mais coerente,
relevanteeexplosivogruposurrealistaemtodoomundo,desdeaeclosãoinau
gural,naParisde1924(...)nãosetratatãosomentedeumainfluênciadoSur
realismo parisiense, mas sim de uma nova erupção surrealista em território de
certaformajápreparadoparatalexplosão,principalmenteselevarmosemconta
agrandetradiçãodapoesiachilena”(MARTINS,2001,2021),querecebiaparti
cipões esporádicas de diversos poetas nas páginas de sua longeva revista
Mandrágora
(setenúmeros,de1938a1943),comoJorgeCáceres,CarlosdeRo
kha,GonzaloRojasemesmodopróprioVicenteHuidobro,eposteriormente, com
acriãodarevista
Leitmotiv
,ondetraduzemepublicamos
Prolegômenosaum
terceiromanifestosurrealistaounão
,jápublicados,comodito(bem)anteriormen
te,narevistanovaiorquina
VVV
.OMandrágora”eramuitogratoaossurrealistas,
especialmenteaAndréBretoneBenjaminPéret,quecontinuavamleaisàcausa
nesse momento da história surrealista– afinal, há muitoLouisAragoncaíra na
armadilhadoPartidoComunistaedaAssociãodosEscritoreseArtistasRevo
lucionários,aA.E.A.R.,quandoforaforçadoaassinar,juntocomGeorgesSa
doul,umadeclarãoqueexigiaa“dessolidarizaçãodo
SegundoManifesto
[deA.
Breton] na medida em que ele contraria o materialismo dialético, denúncia do
freudismo como ideologia idealista’, do trotsquismo como ideologia social
democrataecontrarevolucionária.’(BRETON,apudDUPUIS,2000,p.36).Isso
se deuainda em 1932 e marcou a rupturaentre Bretone Aragon,omaiordos
cismas do movimento parisiense e que, dentro em breve, perderia também a
companhiadePaulÉluardque,numatotristede“viracasaca”–sófaltouaJules
FrançoisDupuisassimsereferiraele,emborausedepalavrasmaisduras–,jun
touseaAragonetornousemaisumstalinistaalegrementeiludido.Outroexem
plodagrandequalidadedoMandrágora:nãosedeixouvencerporideologiasin
44
compreensíveis mesmoparaseusidlogos.AMandrágorafoivitoriosa porser
umarevolucionárianocorãoenosatospoéticos,corajosaedesimpedidapor
partidosecomitês,comoatestaEnriqueGómezSerna:
AoSurrealismochegamosnãocomoporreflexoouporimpreg
nãodestereflexoeuropeuou,sequerem,porimitãooupor
esnobismo, mas sim como um desenvolvimento orgânico. Esti
vemosmaisnoespíritodo quenaletradoSurrealismo.Fomos
surrealistasdecarneeosso,detempointegral.Enossasmani
festõesassimodemonstram.(apudMARTINS,2001,21)
Um novo momento surge para o surrealismo com Alejandro Jodorowsky.
Nascido em 1929, poeta, romancista, dramaturgo, roteirista, diretor de teatro e
cinema, ator, quadrinista, titereiro, tarólogo, psicólogo e psicomago – aliás, um
dosraríssimosaterpermissãoparatrabalharcomapsicomagia,criadapor ele
próprio(seAlfredJarrypodecriarapatafísica”,porqueJodorowskynãopoderia
criarasuaprópriaciência?),elemilitouaserviçodosurrealismoempraticamente
todocampopossíveleimagináveldacriãoondeavozdeseupensamentopu
dessefluirsembarreiras.Seuslongametragens,
FandoyLis
(baseadoemtexto
deseuparceiro de atividadespânicasFernandoArrabal),
Lamontamágica
,
SantaSangre
e
Eltopo
,esteúltimoumfaroestesurrealista”,nãodeixamnadaa
deveraseusprincipaisreferenciais,SalvadoreLuísBuñuel,diretorde
Umchien
andalou
e
Lâge d´or
, funcionando como manifestos das intenções estéticas de
seugrupo,oMovimentoPânico,formadoporele,oespanholFernandoArrabal,
autorde
Pateandoparaísos
e
Oarquitetoeoimperador da Assíria
eofrancês
RolandTopor,escritoreartistaplástico, alémdealguns outrosintelectuais,que
discutiamsuasnovasidéiasnoCafédeLaPaix,emParis.
AforçamotrizdoPânicoestavanohumor,noterror,noacaso,nasimulta
neidade,tudoissojogadoprincipalmenteemseusfilmes,suaspasenoshap
penings,buscandooobjetivodeatingirdiretamenteoespectador,desenvolvendo
umritualcomoqualpudessemcomungarartistaseplatéia,indomuitoalémdo
teatrofísicodeGrotowskiebuscandoapoionomanifestodoteatrodacruelda
de”deAntoninArtaud:
45
O teatro nãopoderátornar a ser ele próprio, ou seja, constituir
um meio de ilusão verdadeira, se não fornecer ao espectador
modelosverídicosdesonhos,emqueseuapetitedecrime,suas
obsessões eróticas, sua selvageria, suas quimeras, sua noção
utópicadevidaedascoisaseseuprópriocanibalismotransbor
demparaumplanoquenãoésupostonemilusório,masinterior.
(ARTAUD,apudARRABAL,1976,p.xvi)
Bem,quandoRolandToporresolverealizarumhappeningutilizandoqui
nhentosquilosdecarnefrescaemplenaParisdosanossessenta,podesenotar
queoPânicoseguiuaprescriçãododoutorcomprecisão.Comotempo,Alejan
dro Jodorowsky, já desenvolvendo os preceitos de sua psicomagia”, decide a
bandonaressaleituracrueleviolentadosatospânicos,entendendoqueoteatro
nãodeveserviraohomemcomoumaautomutilão(literalmente,umavezque
Jodorowskysedeixou flagelarnomeiodarua durantealgunsdosseushappe
nings,semfalar,claro,nosgansosdegolados)esim,umcaminhoparaencontrar
purificão,libertãoeacura.Essesetornouocaminhodapsicomagia.
Omovimentopânicotambémtinhaporvocãorealizarumaretomadados
ideaissurrealistasafogadospraticamentedesdeoberço;sualutacontraasinsti
tuões,aburguesia,aartemercantilizada.Deumacertamaneira,eraumarea
çãoaoprópriosurrealismo,entãoenfraquecidoemoribundo,decaindoaolongo
dopróprio campo que desejara um dia combater.Numapassagemdivertidade
suabiografia,
LadanzadeLarealidad
,Jodorowskydescreveoseuprimeirocon
tatocomAndréBreton,assimquedesceranaFrança,vindodoChile:
A primeira coisa que fiz, assim que saltei do trem às duas da
madrugada,foiligarparaAndréBreton, cujotelefoneeu nãoti
nha de memória. (em Santiago, o férvido grupo surrealista La
Mandrágoramantinharelõescomopoeta,queestavacasado
comumapianistachilena,Elisa,aquempregouatampadopia
no,poródioàmúsica.)Merespondeucomumavozpastosa:
–Oui?
–Vocêfalaespanhol?
–Sí.
46
–ÉoAndréBreton?
–Sim.Equemévocê?
–SouAlejandroJodorowskyevenhodoChileparasalvaroSur
realismo.
–Ah,bom.Quermever?
–Imediatamente!
–Agoranão,émuitotarde,jáestoudeitado.Venhaameuapar
tamentoamanhãaomeiodia.
–Não,amanhãnão,agora!
–Vourepetir:issonão éhoraparavisitas.Venhaamanhãecom
muitoprazerconversareicontigo.
–Umverdadeirosurrealistanãoseguiapelorelógio!Agora!
–Amanhã!
–Entãonunca!
Einterrompi a ligão. sete anos depois, acompanhado por
FernandoArrabaleTopor,assistiaumadasreuniõesquepresi
dianocaféLaPromenadedeVenus,etiveoprazerdeconhecê
lo...(JODOROWSKY,2001,p.194)
Apesardocaráteranedóticodestapassagemdesuabiografia,oconfronto
entreojovemlatinoamericano,ansiosoemtrilharseucaminhonarevoluçãoso
cialista,eovelholíderrevolucionário,presoàsamarrasdeumsonoburocrático
(“um surrealistanãosedeixaguiarpelorelógio!”),nãodeixade serumafábula
queexpõeasituãoentreovelhoeonovomundosurrealistas.Afinal,naspala
vrasdeMuriloMendes, “Quem, deresto,podesersurrealistaem
fulltime
?Nemo
próprioBreton.”ÉaAméricaque,então,deveassumiraliderançaefazeratão
sonhadarevoluçãoatravésdaarte.
47
2.2.OsEstados Unidos:ageraçãobeat
Estoufeliz,Kerouac,seuloucoAllen
finalmenteconseguiu:achouumcaranovo
eminhaimagemdeumgarotoeterno
passeiapelasruasdeSanFrancisco,
lindo,emeencontranascafeterias
emeama.Ah,nãopensequeestoumaluco.
Vocêestázangadocomigo.Pelosmeusamantes?
Édurocomermerda,semtervisões;
quandoelesmeolham,paramiméoParaíso.
AllenGinsberg,“MalestCornificituoCatullo
Osurrealismonasceu–oumelhor,explodiucomoumabombarelógiode
engrenagens finamentereguladas, para acenardelonge àspalavrasdeWalter
Benjamin–duranteumaépocadeturbulênciaque ameaçavalevaràderrocadaa
potênciahistóricadaEuropanoiníciodadécadadevinte,emtermospolíticose
econômicos.Asartes,entretanto,essasjáestavamsendoesmagadas,trituradas
evendidasempequenospedos emsaquinhoscomformolpelamáquinabur
guesaemercantilistaháanosincontáveis,práticaqueatingiriaseuápicenaera
dareprodutibilidadetécnica”daarte,comotambémdiriaBenjamin,oque,parao
bemouparaomal,catapultouaobradearteao
status
debemdeconsumo,le
vandotelasclássicasaoslivrosdearte
coffeetable
ouacamisetasserigrafadas
atravésdapopartdeAndyWarhol,estesendoumfilhodogêniorinocerônticodo
semprecontroversoSalvadorDalí,oSr.“AvidaDollars.Afinal,operíodoentreas
duasguerrasmundiais,quedevastaramamoraleuropéianaprimeirametadedo
século,disparouosmovimentosdevanguardaqueimpediramqueessemomento
fosse uma lápideparaessaartedesmembrada,queseriarevivificada como um
tratamento de choque para essa moral burguesa agonizante, recuperando (ou
intentandorecuperar)asuarelãolegítimacomosagradoprimordial.
Damesmaformapodesedizer,guardadasasdevidasproporções,queos
Estados Unidos viveram uma revolução artística similar, dentrode um contexto
históricoigualmente tumultuado. Talvez a palavra rebelião, como usa o poeta
48
ClaudioWiller,seencaixemuitomelhoraqui,aosetratarda
beatgeneration
,mo
vimentoqueimpactouofazerpoéticoamericanoemmeadosdosanoscinquenta
equeinfluenciouintimamenteacontraculturadasdécadasposteriores,indomuito
alémdasfronteirasdo
americanwayoflife
.Emsuma,foiumapoesiaparaquei
marascerquinhasbrancasdossubúrbiosdepropagandademargarina.
Os Estados Unidos sobrevivera do massacre econômico da Grande De
pressãode1929(massacreestequedeixariaseqüelassociaiseculturais)para
se tornar uma hegemonia indiscutível ao final da Segunda Guerra Mundial, na
qualumaEuropaarrasadaepostadejoelhosprecisoureconheceroheroísmoda
nova potênciatransatlântica.Assimsendo, opoderpolíticoe cultural do mundo
saiudasmãosdadetestávelburguesiadoVelhoMundoparaencontrarseentre
asgarras da jovem eemergenteburguesiaamericana,dotadadeuma máquina
mercantilistaquesemostrariaaindamaiscruelqueaantiga.Eraoaugedeuma
culturadeguerra”,inerenteaosEUAdesdesuaformãoenquantonãolivre
até hoje, quandocandidatos à presidênciase valemorgulhososde suas condi
çõesde“heróisdeguerra”.
Diantedisso,valeapenaoferecerorelatodadopelopoetaMichaelMcClu
re, emseulivro
Anovavisão
:
Omundodaqueladécada,peloqualtemerosamentenosaventu
rávamos,era amargo ecinza.(...) Minhaautoimagem naqueles
anoséadeumjovemdrogado,umtantolouco,precisandocor
tarocabelo,numelevadorlotadodebrucutuscomcortesàes
covinhaequeixosquadradosmeencarandocomoseeuestives
senolugarerrado.sodiávamosaguerra,adesumanidadee
afrieza.Opaísestavasobumclimadeleimarcial.Umaatmos 
feramilitarnãodeclaradasaltaradostanquesdeguerraesees
palharapelapaisagem.Estávamosoprimidoscomoartistas,ede
fatoanãotodaestavaoprimida.(2005,22–23)
Pormaisqueamáquinaideológica,o
establishment
,investisseoorgulho
patriótico, nas cerquinhas brancas e tortasde mã de seriados da década de
cinqüenta,oclimahostildos Estados Unidos permeava a tudo comincertezae
temor.Dessadécadaemdianteestabeleceuseumestadodeautênticaparanóia
49
militarizada, em nada parecida com o gosto beligerante ianque dos tempos da
conquistadaFronteiraOeste:eraaépocadaameaçavermelha,doterroratômi
co,daGuerraFriadenervosetensões,domacarthismoquefaziaatodosolha
remcomdesconfiançaparaocolegaaolado.Alémdisso,édignadenotaaGuer
radaCoréia,primeiradosEstadosUnidosnofrontasiáticoequeacabariasendo
umprelúdio paraatristeGuerradoVietnã.Falandonisso,écuriosonotarcomoa
representão do combatente da Coréia se distancia, em termos arquetípicos,
daquela imagem do soldado no Vietnã: enquanto o último sempre surge como
vítimadeumsistemabeligeranteecarniceiro,paranóicoemutilado,oheróida
Guerra da Coréia parece ser sempre retratado como o personagem bem
acomodadoao
establishment
,patriota,orgulhoso,honradoepaidefamíliacare
ta.TomesecomoexemploopaideKevinArnold,dacultuadasérie
AnosIncrí
veis
(quesepassaàépocadomovimentohippieeomedodoVietnã),eopaide
EricFormanno
That70’sShow
,querecordacomsaudadesostemposdofront
masque,curiosamente,sofreduramentecomofechamentodasfábricasdeau
tomóveis, oqueoameaça comodese mprego–péssimarecompensaparaum
heróiquelutouporseupaís.SeucontextojánãoémaisaGuerradoVietnã,e
simosEUApósRichardNixon.Aintençãodassériessemprepassapelotípico
conflito de gerões, aqui denotando uma clara distinção entre uma gerão
Coréia e uma gerãoVietnã, a primeira como que ainda imersa na ideologia
burguesaamericana,asegundaquebrandoesseimpedimentodevisão.
Era uma situão social que fervilharia no campo da cultura americana,
principalmentenachamadaculturademassa,paraobemouparaomal.Aindús
triadequadrinhos,queconquistaraolucrativo(eatépoucotempoignorado)mer
cadoadolescente, éumretratodisso.Ora,foiaépocaemquesurgiramossuper
heróis que ganhavam seus poderes com a radião nuclear, como o Homem
AranhaeoIncrívelHulk(osbenefíciosdauniãoentreoátomoeosEUA),sempre
combatendovilõesmegalomaníacosqueameaçavamdestruirahumanidadetodo
diaeentreasrefeições(osmalefíciosdauniãoentreoátomoeaURSS).Ecomo
nãoselembrardovalorosoCapitãoAmérica,vestidoemseuuniformeestampado
comas
stripesandstars
dabandeiraamericana,ecombatendoumvilãoquea
tendepelasugestivaalcunhade“CaveiraVermelha”?
Poroutrolado,háosartistasquebuscavamromperdevezcomessaideo
logia,enxergando ooutroladodo
establishment
àbeiradofracasso:músicose
50
poetasretomamosvaloresperdidosdaarte,avozdosexcluídos.Amúsicaretor
naàsraízesfolkeàmúsicanegra,ospoetassequestionamsobreoqueestáde
fato acontecendo com os valores queWalt Whitman, seu guru espiritual, tanto
louvavacomoacarneesanguedaglóriaamericana.Nesseponto,oquestiona
mentodagerãobeattocaintimamenteaquelaquefaziamossurrealistasfran
cesesnocomodoséculo,buscandoessemesmoobjetivoemcomum:resta
belecer,nocorãodavidahumana,osmomentosencantadosapagadospela
civilizaçãoburguesa:apoesia,apaixão,oamorlouco,aimaginão,amagia,o
mito,o maravilhoso,osonho,arevolta,autopia.” (LÖWY,2002,09)Issoétão
almejadonaobradeAllenGinsberg,JackKerouac,William Burroughs,Gregory
CorsoeGarySnyderquantoeraparaAndréBreton,LouisAragon,PaulÉluarde
BenjaminPéret,décadasantes.
Atrindadedagerãobeat( Ginsberg,KerouaceBurroughs)seconhecera
em1943 ,porémarebeliãodemorariamaisdedezanospara,defato,eclodir.Sua
data de nascimento oficial, entretanto, é bem marcada: 7 de outubro de 1955.
Nessedia,naSixGalleryemSanFrancisco,umagaleriadeartequefuncionava
como cooperativa de jovens estudantes ligados ao San Francisco Art Institue”
(MCCLURE, 2005, 22) onde também se faziam recitais e encenões teatrais,
aconteceuaprimeiraleituradepoemasbeat,o
6Poetsatthe6GalleryReading
,
comaparticipãodosurrealistaPhilipLamantia(que,segundoMcClure,nãoleu
seusprópriospoemas,massimosdeJohnHoffman,falecido),MichaelMcClure,
AllenGinsberg,GarySnyder,PhilipWhaleneKennethRexroth.Foinessaocasi
ãoemqueGinsbergergueuapedra fundamentaldomovimento, aoleroentão
inéditopoema
Uivo
,quecausouumaverdadeiraeuforia entretodososparticipan
teseaplatéia–inclusoJackKerouac.
Uivo
seriapublicadonoanoseguinte,em1958,esofreuumprocessopor
pornografiaque atingiu o poeta e seueditor, otambém poeta Lawrence Ferlin
ghetti,dono da editora City Lights, o quartelgeneral dosbeats. A polêmica em
tornodesseprocessoacabouporfinalmentealavancaromovimento,rendendoa
Ginsbergumaauraheróica,queotornaria umemblemaparaseuscompanheiros.
Em 1959, Jack Kerouacpublica oromance
On the Road
,queé imediatamente
aclamadocomoabíbliabeat,ouolivroquereescreveua América”.DizPenny
Vlagopoulos,noprefáciode
OntheRoad:theoriginalscroll
,publicadopelapri
meiravezem2008:SevocêforaumalivrariaemNovaIorque,vocênãoencon
51
trará Kerouac nas prateleiras, e sim atrás da caixa registradora. Reza a lenda
que,juntocomaBíblia,
OntheRoad
éumdoslivrosroubadoscommaisfreqüên
cia”(2008,53).Daíemdiante,arebeliãocoma.
Apróprianomenclatura,beatgeneration,temumaorigemampla.Dizse
queelefoicriadoporKerouac,em1948,sugerindoqueasconvençõessociais
estavamacabadas,cansadas,usadas(HOMES,2007,05),emrelãoàex
pressãoi’mbeat,porexemplo.Essadefiniçãoseencaixacomdelicadezaàpe
çaescritapelopróprioem1957,
GerãoBeat
.Podesertambémencaradacomo
umaalternativaàchamada“lostgeneration,daqualfazparteErnestHemingway.
Poroutrolado,tambémpodeserumareferênciaàbatidamusicaldo
bop
,tãocaro
aessespoetas.E,maisainda,podeserumabeatifiedgeneration–umagera
ção que encontrou a beatitude, todos poetasbudas, poetasxamãs, poetas
iogues.Independentedeseavaliarqualseriaadefiniçãodefinitiva”, todaselas
seencaixamperfeitamenteaoespíritodessesartistas:osufocamentodo
establi
shment
queosdeixabeated,abatidadamúsicaeabuscado
satori
beatifica
dor,issoéserumbeat.
Apoesiabeateraenfimumdesejoderenovão,criãoeinvenção,em
queavidaealiteraturaeramunidasnumacoisasóenummesmodesejodein
tensidade,destacandosedos queixosquadradosecabelos aescovinha”que
os cercavam pelos elevadores e ruas de toda parte, como dizia o supracitado
McClure.Foiumaguerrilhalingüística–umabombaatômicaliterária”,nosdize
resda escritora A. M. Homes, prefaciadorado
Gerão Beat
de JackKerouac.
Sobreisso,MichaelMcClurediz:nouniversoeuro americanodediscursoacredi
tamosqueparaalgosersério,temqueservisivelmentegrandiosoesoturno–e
realista.Kerouacdesafioujocosamenteospoetasgrandiosos,sériosesoturnos
–cutucandooartificialismorígidodoautoinvestimentoliterário.”(2005,96) Claro
que,comotodarebeliãocontraoscânoneseasigrejinhasliterárias,essesartis
tassofreramumgranderepúdio,sendotratadoscomoalienadosdedicadosape
nasaovandalismoliterário,comocostumaacontecernessassituões.Nadaque
André Bretoneseuscompanheirosnãotenhamsofridonapele,naFrançadePa
ulClaudel.
Ofatoéqueospoetasbeatstinhamumaculturabastanteextensaeuma
amplagamadereferências,canônicasounão.JackKerouacforamuitoinfluenci
adopelofluxodaconsciênciadeJamesJoyce,alémdeSamuelBecketteJohn
52
dosPassos,alémdeWilliamCarlosWilliams,quefoioprefaciadororiginaldo
Ui
vo
deAllenGinsberg.EzraPoundtambémtevesuainfluênciasobreKerouacke
Michael McClure. William Burroughs tinha uma extensa leitura de Dostoievski,
alémdeArthurRimbaud,JeanCocteaueHartCrane,eGregoryCorsoteveuma
vastaleituraemseusdiasnacadeia.AllenGinsbergderaaulasdepoesiaromân
tica,comoWordsworth(muitasdessasaulasestãopreservadasemáudioedis
ponibilizadasnaInternet).
Ainfluênciadosurrealismotambémébastantemarcada.ClaudioWiller,na
introdução de sua traduçãopara
Uivo
, aponta que Lawrence Ferlinghettifoium
dosprincipaisresponsáveisemestabeleceraponteentreomodernismoanglo
americano, de Ezra Pound e William Carlos Williams, e a vanguarda francesa”
(2005,10),inclusivefazendo aprimeirapublicãodeAntoninArtaudnosEUA,
quandodafundãodaCityLightsem1955.Artaudfoiumadasgrandesinfluên
ciasparatodososescritoresdogrupo.Tambémvaleapenamencionarumacarta
aosurrealistaMalcolmdeChazal(T.S.Eliottambémfoiumdosdestinatários,ao
queconsta),escritaporAllenGinsbergeCarlSolomon(aquemoprimeirodedi
cara
Uivo
), duranteoperíodoem que estiveram internados num hospício (para
Solomonjáeraasegundainternão),momentoquedeuorigemàterceiraparte
dolongopoema:
EuestoucomvocêemRockland
Onde somos grandes escritores na mesma abominável má
quinadeescrever(GINSBERG,2005,36)
Alémdessasreferênciasdepeso,édignodenotaquetodososmembros
dogruposeautoreferenciavam,ouseja,elesvivenciavamsuasobrasemconjun
to,referindoseextensivamenteentresi–algocadadiamaisrarodeacontecer,
aindamais(“otempora,omores!”)numaépocaemqueumjovempoetapodeser
íntimodeT.S.Eliot,masnãofazamínimaidéiadoqueocolegadaportaaolado
produz.Claro,issotambémfazpartedaexperiênciadefusãoentreavidavividae
aliterária,umadasmarcasmaisfortesdomovimento,emquetodossãoperso
nagensesuasvidas,fatosliterários.Assim,AllenGinsberg,NealCassadyeWilli
amBurroughssãopersonagensconstantesdosromancesdeJackKerouac,ain
daquecompseudônimos(o“textooriginalde
OntheRoad
,entretanto,abremão
53
desserecurso).Ginsbergnomeiaoscompanheirosem
NotaderodapéparaUivo
,
santificandoostodos,ebatizaumdeseuslivros,
RealitySandwiches
,comuma
frasede
AlmoçoNu
,deWilliamBurroughs,paraquemescreveopoemaSobrea
obradeBurroughs:
Ométododeveseramaispuracarne
Enada demolhosimbólico,
Verdadeirasvisões&verdadeirasprisões
Assimcomovistasvezporoutra.
Prisõesevisõesmostradas
Comrarosrelatoscrus
Correspondendoexatamenteàqueles
DeAlcatrazeRose.
Umlanchenunosénatural,
Comemossanduíchesderealidade.
Porémalegoriasnãopassamdealface.
Nãoescondamaloucura.
(GINSBERG,2005,164)
Como discutidoanteriormente,noqueserefereànomenclatura
beatgene
ration
,amúsicaeomisticismosãopontosfulcraisparaacriãodessanovalin
guagempoética,servindodebandeirascontraaagressividadeW.A.S.P.deseus
dias.Ojazzeobluesdãootomdaestruturadeseuspoemasemesmodosro
mances,transformandoalinguagemnuma
jamsession
.Ouseja,écomosepen
desseumpoucoparaoladodaescritaautomáticasurrealista,porémdevedorade
umritmomusicalinstintivomaisdoquedocampoinconscientedosonho,porém
comumacasoobjetivosimilar.Issoébemdestacadonapoesia–poucoconhe
cida–deJackKerouac,sobreaqualMichaelMcClurefazapontamentoslumino
sos.
Para McClure, essa poesia é como um organismo vivo, inspirado pelos
Cantos
deEzraPound:elevinhadesenvolvendopensandoemcriarumaprosó
dia
bop
espontâneaeaparentementeeleapenascomouadeixaropoemafluir
54
comoo
bop
(nãoqueo
bop
sejasimples)”(2005,93).Kerouacconsideravaseum
escritorderefrões,seuspoemassendomesmointituladosdeblues,comoMe
xico City Blues, San Francisco Blues, Berkeley Blues, anotando refrões e
complementandooscompoemas,cadaversosendoindependente,quasecomo
umlegítimoexercíciosurrealista.
Queroserconsideradoumpoetadejazzsoprandoumlongoblu
es numa
jam session
de domingo.Fo 242refrões; minhasi
déiasvariameàsvezespassamderefrãoemrefrãooudame
tadedeumrefrãoparaametadedoseguinte.(KEROUAC,apud
MCCLURE,2005,992)
Areligiosidadetambéméumamarcaprofundanacriãodagerãobeat.
Diferentementedossurrealistas,quesededicavamaumataqueàinstituiçãoca
tólicacomopartedeseuprojetodedemoliçãodaburguesiadaninhaaohomem,
osbea tstinhamumaexperiênciarealesinceracomasmanifestõesmísticas,
sobretudoasorientais. Ouseja,nãoéapenas umarecitãoeruditadetermos
culturaiseantropogicos,expostoscomoumacuriosidadeartística,comofizeram
ossurrealistasemsuasexposiçõesdeartefatosemáscarasafricanasouaborí
genes,massimumapráticaconstanteemsuasvidaseque,logicamente,trans
bordariaparasuacriãopoética,semnecessariamenteserempanfletárioseca
tequistasdeBuda.
NovamenteaatençãodeveservoltadaaJackKerouac,que sededicavaa
issotantoemseuspoemasquantoemalgunsdeseusromances.
Osvagabundos
iluminados
,porexe mplo,éumaespéciede
OntheRoad
pelasestradasrumoao
satori
:aqui,seuprotagonista/alteregoparteemviagensconstantesparabuscaro
Nadabudista,seguindoseudarma,nacompanhiadomontanhista JaphyRider,
umaencarnãodoidealzenbudistaquebuscavamKerouaceseuscompanhei
ros.Voltandoàquestão biográfica,éinteressanteapontaroconfrontonotávelen
treaaproximãocontemplativaaquealmejaoprotagonista,RaySmith,eaprá
ticaritualísticatântricaesensorialdeseuamigoAlvahGoldbook,opersonagem
que interpreta” Allen Ginsberg. Este demonstra constantemente em seus poe
mas,defortetomerótico,essasuatendênciaritualaomisticismooriental.
55
Também é o budismo que influenciaKerouaca comporseusnumerosos
haikais.Ohaikaihámuitosetornouumexercíciopoéticolivredeexperimenta
çõesespirituais,paranãodizerquehojeemdiatodomundoqueversejasemete
acomporumlivrinhodosfamigeradospoemassimples(queessamaioriamuitas
vezesconseguecomplicar,tamanhaasimplicidadeartificialaquealmejam)–não
éocasodeKerouac,afinal.NãoéatoaqueRaySmithseguesuasviagens,em
Osvagabundosiluminados
,sempredecadernetaempunho,compondohaikais
deacordocom sua vivência mística, tornandoolivromuitopróximo doclássico
japonês
Narrowroadtoafarprovince
,deMatsuoBashô,ograndemestredohai
kai:umdiáriodeviagemondeopoetajaponêsvivea naturezaqueocerca,trans
formandotudoo quevê numpoemadelicado, o congelamento de umpequeno
instante,comoohaikaideveser.
Avivênciadanaturezatambéméumaexperiênciamísticaparaosbeats,
quetambémbuscavamresgatareassimilarosagradopurodosíndiosamerica
nos, porexemplo. Naleitura da SixGallery, GarySnyderleu Um banquetede
amoras,poemacalcadona mitologiaindígenadoCoiote,oespírito“tricksterque
nãoseprendealados,sendotantooheróiprovedordasociedadequantooen
ganadordestrutivo.
Casacocordebarro,opassomacio,
Ovelhocrápula,umperdido,
Saudões!doCoiote,oSacana,ogordo
Filhotequeabusoudesimesmo,ofeio
Jogadorquetrazasguloseimas.
(apudMCCLURE,2005,27)
Nãoéapenasoresgatedeumaetnopoesia,mastambémumabusca,tan
todapartedeGarySnyderquantodeMichaelMcClure,devivenciaroanimismo,
típicodasculturasxamânicas,detomarconsciênciadaprópriaalmaprofunda,o
espíritodasbestas,emcontrastecomaalmahumana”,comocolocaMcClure.
Aténumapartamentosepodeterpensamentostribaisouhumanos,pensamen
tosdemamíferos–oupensamentosnaturais,amenos,lindos,quefalamdauni
dade,do monismo daNatureza.”(2005,41)Junte aisso abuscapormaneiras
56
naturaisdelibertaramenteeentraremcontatocomocosmo,internoeexterno,a
harmoniaperfeitacomanatureza:oalimentodosdeuses,opeiote.
Evidentemente,aquestãodasdrogasestáintimamenteligadatantoàex
perimentãodomísticoquantodopoético;dofinaldadécadadecinqüentaem
diante,surgeumvastolequedepossibilidadesdiantedospoetas,indomuitoalém
doópiooudohaxixeclássicosnahistóriadaliteratura.
57
2.3.:TimothyLearyearevoluçãopsicodél ica
Ohletthesunbeatdownuponmyface,starstofillmydream
Iamatravelerofbothtimeandspace,tobewhereIhavebeen
Tositwitheldersofthegentlerace,thisworldhasseldomseen
Theytalkofdaysforwhichtheysitandwaitandallwillberevealed
LedZeppelin,“Kashmir
OLSDsetornouocarrochefeemsuaépoca:criadoporumacidentede
laboratório,éumpsicotrópicosintéticoque,apesardeserdesvinculadodeuma
tradiçãoreligiosa,comoopeioteouaayahuasca,temumavantagemavassalado
ra, queacabouporgarantirparasitantosadeptos:nãotemefeitoscolateraisfisio
lógicosdesagradáveis;assim,oLSDgaranteumaviagemtranqüilaparaaspro
fundezasdamente,semenjôos,doresdecaba,diarréiasouafins.Oúnicoris
coéoqueoviajantevaiencontraremsimesmo.
Apesardemuitosdebatesepolêmicasnosmeiospolíticosecientíficos,o
LSDganhouumaimportânciatãofundamentalquegerouaoredortodoumfenô
menocultural,oquepassouasechamarpsicodelia.Otermofoicunhadopor
umcientista,odr.HumphryOsmond,em1957,aoprocuraronomemaisadequa
doaosefeitosdadrogapsicomimética:
Tentei achar (...) um nome que incluísse os conceitos de enri
quecimentodamenteealargamentodavisão.Algumasdaspos
sibilidades são: psicofórico, transformador da ment psico
hórmico,excitantedamentepsicoplástico,moldadordamen
te.Psicozínico,fermentadordamente, comefeito éapropriado.
Psicoréxico,explosordoespírito,apesardedifícil,émemorável.
Psicolítico, libertador da mente, de satisfatório. Minha escolha
realcaisobrepsicodélico,manifestadordamente,poisotermoé
claro, eufônico e contaminado por outras associões. (apud
CASHMAN,1 980,1718)
Otermologocaiunasgrasdopovoe,principalmente,dosartistasefor
madoresdeopinião,quenuncasefizeramderogadosemcantarlouvoresaoalu
58
cinógeno, do ator Cary Grant ao escritor Aldous Huxley, autor de
As portas da
percepção
,quesetornariaumadaspedrasdetoquedomovimentopsicodélico.
NãodemoroumuitoatéqueoLSDganhasseumestatutomístico.Issosedeveu
emgrande parteaopsicólogoTimothyLeary,guruda
newage
psicodélica.
TimothyLearyéumafiguraincrivelmenterepresentativadofinaldadécada
desessentafinal,nãoéàtoaqueumagrandeparceladosignificadodessaé
poca sedevaàssuascontroversasexperiênciaseatitudes.Odr.Learygozava
deumarespeitávelreputãonoscírculosacadêmicos,doutorandoseemPsico
logiaClínicapelaUniversidadedaCalifórniaeatuandocomoprofessorvisitante
noMéxicoeempaísesdaEuropa, atéfixarseemumcentrodepesquisanoHar
vardsCenterforResearchandPersonalityem1959,ondeumanodepoisiniciaria
suasquestionáveispesquisas.Issoapóstravarcontato comcogumelosalucinó
genosemsuasfériasdeverãoemCuernavaca,noMéxico–quandofinalmente
descobriu,palavras suas,que o cérebrohumano possui umainfinidade de po
tencialidadesepodeoperaremdimensõesdeespoetempoinusitadas(apud
CASHMAN,1980,64).Apartirdeentão,juntocomodoutorRichardAlpertega
nhando a atenção do escritor Aldous Huxley, este um partidário declarado da
mescalina,Learypassaapalestrarafavordachaveparaumadmirávelmundo
novoqueseabriraparasiemCuernavaca.
DentrodeHarvard,TimothyLearyeseuassistentetinhamacessototalao
LSD,aopsilocibin–princípioativodocogumeloquesedisseminaraembolorante
emseudestino–eàscobaiasideais,seusprópriosalunos.Tudoisso,aprincípio,
comaaprovãodainstituiçãoquedemorariaademitiloporcontaseusmétodos
poucoortodoxos.Oprimeirodeseusexperimentosatéencontroualgumsucesso:
o uso do psilocibin na recuperão de detentos do Massachusetts Correctional
Institute,queviuamédiadereincidênciadoscriminososcairde67%para32%,
abrindocaminhoparaaexperimentãodoLSD.Entretanto,acomunidademédi
cadesacreditouesserelativosucessoaoalegarqueoquerecuperaraosdeten
tosnãofora adrogaemsi,esimascondiçõesprivilegiadasoferecidasaospresos
submetidosaotratamento,essassimreconhecidascomoterapêuticas.Dizodou
torSidneyCohen:ogrupoquefoisujeitoaopsilocibinnãosógozavadeum
sta
tus
especialnaprisão,mastambémacabouporterumrelacionamentoverdadei
ramenteamigávelcomospesquisadores.Umcursodeinstruçãoespecialfoies
tabelecidoparaeles.Foilhesdadaassistênciaespecialparaqueobtivessemca
59
saeemprego.MantiveramcontatocomseusamigosemHarvard[istoé,ospes
quisadores,queconsumiamigualmenteopsilocibin].Nenhumdessesbenefícios
estavaaoalcancedogrupodeprisioneirosquefoiusadoparacomparão.”(a
pudCASHMAN,1980,67)
Foientãoqueobomdoutorganhoudestaquecompolêmicasinstitucionais
ealçouseaopostodegrandegurudapsicodelia.Acomunidadeacadêmicade
Harvardenfureceusecomocaosquesua“livrepregãodosbenefíciosdoLSD
propagaraseemmeioaosestudantesnãograduadosdocentrodepesquisa,de
umaformaquenemseusprotetores puderam(ouquiseram)abafar.Logooes
cândalo estouraria pelaimprensa americana e Timothy Learyganhariaas man
chetessensacionalistas dos jornais.LearyeoLSD,queganharatalvisibilidade
queacabouporprejudicarosavançosdepesquisassériasacercadadroga,en
volvidaporumadensa camada decontrovérsiae criminalização. Mas oafasta
mentodaacademianãooimpediudeprosseguiradisseminãodapromessade
libertãodocorpofísicoque oLSDoferece entreseusdedosde perfumesiri 
descentes,juntoaogrupodeiniciadosquearregimentara,entreestudantes,ar
tistasdevanguardaemilionários.Em1962 ,umanoantesdademissãodeLeary
eAlpert,elesfundariamumaFederãoInternacionalparaaLiberdadeInterior
(
InternationalFederationforInternalFreedom–IFIF
).Eraoquefaltavaparaque,
decientistas, osdoissetornassemcultistas,naspalavrasdeseuantigoprotetor
emHarvard,odr.DavidC.McClelland.Oquemelhorilustraonovo
status
depro
fetaemísticodeTimothyLearyfoiacolôniaquefundaraem1963nacidadede
Zihuatanejo, no México, uma sociedade alternativa” que, apesar da vida curta
(foram precisas poucas semanas para que o governo mexicano expulsasse os
utopistas psicodélicosdeseuterritório),chegouaarregimentarsegundoJohn
Cashman–maisdecincomilcidadãosamericanossedentospeloconhecimento
interior.Juntemseaissoaquelesqueacampavamdoladodeforadacomunida
de– “beatniks,paracitara expressãousadaporCashman–equesemostravam
verdadeirosarruaceiros,alémdoshóspedesquesofriamgraves“badtrips.
E,mesmocomofimdaIFIFapósofracassoemZihuatanejo,TimothyLe
aryaindainsistiuemfundaroutraorganizaçãoemproldoLSD,umacertaCasta
lia F oundation, que dessa vez ganhou uma sede em terreno novaiorquino, no
condadodeDutchess.Essafundãoteveumtempomaiordesobrevidaporque
Leary,pressionado,declararanãousarostensivamenteoLSDaí,dedicandoseà
60
criaçãodeumainstituiçãoquevisavaatranscendênciadoegodeumamaneira
limpa,atravésdeexercíciosrespiratóriossemelhantesaosdasioga[sic],proje
çõesdeluzestroboscópicanotetoeousodemúsicapsicodélica.”(apudCASH
MAN,1980,75)
Timothy Leary articulara toda uma mística em torno do LSD, casando o
ritual deseuconsumo com as religesorientais, em voga nosEstados Unidos
desdeostemposdagerãobeat,criandoassimumaalternativamaissegura”e
eficazaos cultosnativosemtornodoconsumodecogumelos ecactos, comoa
ayahuasca,porexemplo.Paratanto,Learyescreveraobrascalcadasnosgrandes
livrosmísticosdoorienteegrandesinfluenciadoresdacontraculturanaépoca:em
1964publicara
Thepsychedelicexperience
,ummanualbaseadonoLivroTibe 
tanodosMortos,escritoemparceriacomRichardAlperteodr.RalphMetzner,
colegadeambosnaspesquisascomapsicodeliaemHarvard;eem1966,o
Psy
chedelicPrayers,
baseadono
TaoTeChing
deLaoTsé.Esteúltimoéumconjun
to de poemas que tenta fundir a filosofia do tao aos benefícios libertadores do
LSD–suaprimeiraparte,intituladaHomagetoLaoTse”,édedicadaexclusiva
mente ao processo ritual das sessões, palavra esta que se repete cansativa
menteem cada poemadessa parte.Vale apena mencionaro título do terceiro
poemadessaparte:LSD(lifelightlove,seedsunson,deathdaughterdna)”.De
certaforma,cadaumadaspartesdolivro,seisnototal,dedicaseaumestágio
específico da experiência psicodélica, comando com os preparativos esclare
cedores(esemprereiterantesdeseusbenefícios,afinal,persuadirémaiseficaz
doquemeramentepregar,comodiziaopróprioLeary),eterminandocomare
entrada”,emuma“Homenagemàmentesimbólica”.
Já
Thepsychedelicexperience
semostramuitomaiscuriosoemesmoa
traente,sendoconcebidocomoumverdadeiroguiadeorientãoparaaprática
psicodélica:defato,éumlivrodidáticoqueensinaamaneiramaisprática,segura
eproveitosaderealizara viagem emgrupo,semprecalcadonasexperiências
realizadasporLeary,AlperteMetznerdesdeHarvard.Olivroédivididoempartes
explicitamenteintituladasdeformaaressaltarseucaráterdemanual:aquiestãoa
introduçãogeral,dotadadetributosaC.G.Jung,aW.Y.EvansWentz(antropó
logoe pesquisador do budismo tibetano) eaoLama Govindhá um esclareci
mentosobre
Olivrotibetanodosmortos
,onde seassociacadaestágiodaexperi
ênciapsicodélica aumdosbardo,ouseja,asprópriasdivisõesdo
Livrotibetano
61
(cujonomeoriginalé
BardoThödol
háosComentáriostécnicos,especificando
desdeousodesselivroemumasessãoatéasdosagensrecomendadasdoLS
easInstruçõesdeuso,queéoguiadeviagempropriamentedito,oqualcon
téminstruçõesparacomolidarcomcadaumdosbardos,ouseja,cadaestágio
dasessãodeconsumo doLSD,seja paralidarcomsintomasfísicos,sejapara
lidarcomvisões,nessemomentodescrevendo,naaberturadecadavisão,até
mesmoumasituãogeraldousuárionaqueleinstantepreciso–porexemplo,a
aberturadaVisãoCinco,intituladaasondasvibratóriasdaunidadeexterna”:(o
lhosabertos[situãodoviajante];envolvimentoarrebatadocomestímulosexter
noscomoluzesoumovimentos[influênciadomeio];aspectosemocionais[oefei
topsicodélicoemsi,podendoseremocionalouintelectual,dependendodoestá
gio])(LEARY,1995,133).
Na introdução ao
The psychedelic experience
, Leary esclarece a função
práticadoLSDemrelãoàiluminãoalmejadapelosusuáriosdolivro,des
vinculandoa de uma aura de alimento dos deuses que uma leitura desatenta
poderiaapontar:“éclaroqueadosedadroganãoproduzaexperiênciatranscen
dental.Ela agemeramente como umachavequímica – abre a mente, libertao
sistemanervosodeseuspadrõeseestruturasordinários.”(1995,11)Apartirdes
ta libertão química, a transcendência seráconduzida pelo queTimothy Leary
chama de
set
e
setting
: o
set
se refere à condão dousuário,suadisposição,
personalidadeehumor;jáo
setting
estárelacionadoàscondõesexternasque
afetamesseusuário,podendoserfísicas,sociaisouculturais.Porissoanecessi
dadedomanualdeLeary,quedeveservircomoumaorientãoaesses
sets
e
settings
,semoqualaverdadeirailuminão,catalisadapeloLSD,nãosedará.
Nofrigirdosovos,nãoétãodiferentedaexperiênciaconduzidapelooutroraDou
torLearynaprisãoemMassachusetts.
Assimsendo,atomadado
Livrotibetanodosmortos
comosuporteestru
turalparaassessõesterapêuticasdousodoLSDnãofoideformaalgumaarbi 
trária:deacordocomopróprioLeary,na introdução geraldo
Thepsychedelic
experience
,o
Livrotibetanodosmortos
éostensivamenteumlivroquedescreve
asexperiênciasesperadasnomomentodamorte,duranteumafaseintermediária
de quarenta e nove (setevezes sete)dias,edurante o renascimentoem outro
invólucrocarnal(LEARY,1995,12)”,seuestiloderivandodareligiãotibetanapré
budista.Logoemseguida,Learyinterpretaosentidoesotéricodaobranãocomo
62
umatrajetóriadocorpofísico,massimdamorteeressurreiçãodoego.Ora,o
livronãosemostraapenascomoumcódiceparaatrajetóriadoespíritoaofimda
matériafísica,eletambémofereceaosvivosocaminhoparaumarevoluçãopes
soal.AquioLSDseapresentacomoachaveidealparaabriressapossibilidade
dolivro,umavezqueelepermite,emvida,queseuusuáriomergulhenasprofun
dezasdeseuego eexperimenteaverdadedefinitivasobresimesmo.Cadaestá
giodaexperiênciapsicodélicaestáconcatenadoaumadaspartesdo
Livrotibe
tano
,representandonosefeitosdoconsumodoLSDaexperimentãodamorte,
datransiçãoentreplanoseoretornoaumanovavida.Basicamente,aalterão
dossentidosreais,omomentoalucinatório(eestético,comoseveráadiante)ea
ree ntradanarealidade:
O primeiro período (Chikhai Bardo) é o da completa transcen
dência – além das palavras, além do espaçotempo, além do
self
.Nãohávisões,nenhumsensode
self
,nenhumpensamento.
Háapenasconsciênciapuraeliberdadeextáticadetodoenvol 
vimentoesquemático(oubiológico).Osegundoperíodoextenso
envolve o
self
, ou a realidade esquemática externa ( Chönyid
Bardo)–comumaclarezaextraordináriaounaformadealucina
ções(apariçõescármicas).Operíodofinal(SidpaBardo)envolve
oretornoàrealidadeesquemáticaeao
self
.Paraamaioriadas
pessoas, o segundo estágio (estético ou alucinatório) é o mais
longo. Paraos iniciados, oprimeiro estágio de iluminãodura
mais tempo. Paraos despreparados, [...] aqueles que se pren
demansiosamenteaosseusegos,eosquetomamadrogade
formanãosustentada,alutaporvoltaràrealidadecomalogo
egeralmenteduraatéofimdasessão.
(LEARY,1995,13)
Dessaforma,cadapartedo
BardoThodol
,eassubseqüentesvisõesa
presentadasnapartefinaldolivro,atuamcomoguiasdeinstruçãopararegular
os
sets
decadaindivíduoenvolvidoeo
setting
queenvolveaexperimentão.
OsesforçosdeTimothyLearyno
Thepsychedelicexperience
e,emmenor
escala,no
Psychedelicprayers
levaramoLSDaocuparumaposiçãodestacada
num misticismo popular, disseminandose com muito maior presença entre a
63
populãodoque,porexemplo,amescalinaouopeiote,osfavoritosdadécada
decinqüentaequeocupamumaposiçãocentraldentrodeumsistemareligioso
real.Adrogaacabariasendointerpretadacomoasoluçãodefinitivaparaumzen
instantâneo,umcaminhorápidoparaseatingirotãodesejado
satori
,ouades
cobertadeDeusvivonointeriordohomem,eissocomummínimodeesforço.Se
existeumaânsiaespiritualnosjovensqueamerapregãoreligiosanãosacia,
aquelesqueelevamoLSDaostatusdelegítimocorpodeDeuspossuemumar
gumentopersuasivobastanteforteaseufavor:aexperiêncianãopodeserdescri
taobjetivamente(todorelatofeitoporusuários,sejaeleestudanteuniversitárioou
agentedaFDAamericana,se tornaumapade riqueza sintáticaemetafórica
dignadeestarladoaladodosmelhorespoemaspsicodélicos),elasópodeser
experimentada. Com isso, a experiência mística é esvaziada de uma estrutura
antropológicaemesmodeumafunçãoreligiosa.
Queodigaosartistasdagerãobeat,precursoresindiscutíveisdajorna
da espiritual empreendida pelos jovens das décadas seguintes. Curiosamente,
JohnCashmancitaumdepoimentocuriosodeumusuárioanônimodeLSD,co
lhidoem1966nasãolivredo
LosAngelesFreePress
,emcujofinalmenciona
o posicionamento de três dos mais influentes e ativos membros do movimento
beat:
AllenGinsbergé contraoLSD.BobDylandizqueéremédioe
pedequesetenhacuidado.WilliamBurroughs,queexperimen
toutodasasespéciesdedrogas,nãogostadoLSD.OLSDnão
é o tipo de consciência que eu estou procurando, e concordo
comGinsbergquandoelediz:tenhamaisconsiderãoconsigo
mesmo,Harry.”
(apudCASHMAN,1980,126)
Pode nãoseresteumamerarejeiçãoaoartificialismodadrogasintética,
emcomparãoaointeressemaior deGinsbergeBurroughs,porexemplo, aos
expansoresdamenteoriundosdoscogumelosecactosmexicanos–afinal,todos
elesestavamconstantementeembuscadeumadoseviolentadequalquercoi
sa”,paralembraro
Uivo
deGinsberg.Porém,podesepensararespeitodesua
superficialidadebarataemrelãoaopapelqueoLSDocupounessemisticismo
delaboratório.Paracomplicaraindamais,PeterStafford,autorda
Psychedelic
64
Encyclopedia
,chegaamencionarque,em1 959(antesmesmodaspesquisasde
Leary),AllenGinsbergforalevadoaparticipardeumprogramadepesquisacom
adroganaUniversidadedeStanford,patrocinadaemsegredopeloexército,que
aessasalturas,estavainteressadonapotencialidadequeoLSDpoderiateren
quanto“drogadecontrole:talpesquisapodeservistanoromancedeKenKesey,
Umestranhononinho
(STAFFORD,1993,44).Dequalquerforma,emboraaa
firmão a respeito do posicionamento de Burroughs seja aceitável (afinal, sua
reputãocomoíntimoconhecedordedrogasdeveserlevadoemconsiderão),
GinsbergaindaflertarabastantecomaspossibilidadesexpansivasdoLSD,che
gandomesmoatercontatopróximocomTimothyLeary.Édignodenotaseupo
emaÁcidolisérgico,publicadoem
Kaddishandotherpoems
,livroquecontém
aindapoemassobreamescalinaeoóxidonítrico(ovulgogáshilariante”):Clau
dioWillerqueforaumpoemacompostoduranteassessõesemStanford,numa
experiênciagravada:
Eleéummonstromúltiplodeummilhãodeolhos
eleestáescondidoemtodososseuselefantese eus
elezumbenamáquinadeescreverelétrica
eleée letricidadeligadanelamesma,setiverfios
eleéumaenormeteiadearanha
eeuestounoúltimomilionésimotentáculoinfinitodateia,
ansioso
perdido,separado,umverme,umpensamento,umeu
umdosmilhõesdeesqueletosdaChina
umadaspartículasdeerros
euAllenGinsbergumaconsciênciaseparada
(GINSBERG,2005,137)
Osbeats,entretanto,nãoerammerosusuáriosdedrogaspsicodélicasa
penaspelobarato;eles eram,sim,profundosconhecedores edivulgadoresda
experiênciareligiosa dos nativosamericanos.Serve comotestemunhoaexperi
ênciadeWilliamBurroughsnaAmazônia,noanode1953,ondebuscavao“yage
(tambémconhecidocomoayahuasca”),umcompostodepropriedadescurativas
diretamenterelacionadasaoxamanismo–sendoqueessassessõesdeyagena
65
florestaforamvistasporpesquisadoresocidentaiscomoumaespéciedeconsul
tapsiquiátrica”(STAFFORD,1993,354)–e,alémdisso,supostaspropriedades
telepáticas:essaexperiênciadeuorigemaolivro
Theyageletters
,compostopela
troca de correspondência entre Burroughs e Allen Ginsberg. Alguém que tivera
umaexperiênciatãovivazquantoessa,numaépocaemqueamescalinaeopei
oteeramasprincipaisviasdecomunicãodoespírito,dificilmentesedobrariaà
experiênciavaziaepopqueoLSDofertava.
Popporque,aocontráriodaquelas,tornouseumfenômeno(ameaçador
paraas autoridades)em território americano – os números fornecidos por John
Cashmansãosurpreendentes.Afinal,agrandemaioriadosalucinógenosnaturais
nãoatingeograndepúblicojustamentepelarestriçãomística,edissooLSDestá
isento, e isso ajudou nadisseminãodadroga.O próprioTimothy Learytinha
noçãodisso,mesmoaoquererempregaroLSDemumcontextoespiritual:duran
te o experimento de Zihuatanejo, ele proibira o acesso àqueles que, aparente
mente,queriam apenas fazer a caba” sem, contudo, vivenciarem a proposta
extáticaqueeraocernedesteempreendimentodaIFIF.Sobreesteêxtase,ace
nandonovamenteàsintençõesdosbeats,Cashmanlembraqueasopiniõesso
breoLSD dividiramse entre os seus consumidores zenbudistas: háalguma
poio adicional para os aspectos místicos do LSD, por parte de
alguns
zen
budistas,quedizemqueo
satori
Zen,ouiluminão,ésimilaràexperiênciado
LSD.Entretanto,algunszenbudistasqueexperimentaramoLSD,abandonaram
noapósumasessão,retornandoàmeditãocomoúnicocaminhoparao
satori
.”
(1980,89)
IgnorandoadiscussãosobreseupapelcomoprofetamártirdaVerdadedo
tartaratodeddietilamidadoácidolisérgicooucomooGrandeSatãdacastamo
ralamericana,entretanto,ofatoéqueaampladivulgãodapsicodeliaporTimo
thyLearyacaboudisparandoumaverdadeirarevoluçãoculturalnosEstadosUni
dos:seelecomparavaapotencialidaderevolucionáriado LSDàenergiaatômica,
podese dizer que surgira uma Era Psicodélica concomitante à Era Nuclear. O
consumodadrogasequereravelado,tornandoseinclusiveumsímbolodestatus
entreestudantes,artistaselivrepensadores:
Aúltima fronteira do tabusãoas drogas. Osexoagoraé O.K.
DizerquevocêodeiaamamãeéO.K.Limparonarizcomaca
66
misa limpa é O.K. A nova gerão mudou e deslocouse para
uma espéciedepontodevistaantiagressivo.Estaé aprimeira
gerãocujospaissãoorientadospsicologicamente.Foramen
sinadosapensarsobreseuinterior.Asdrogasacontecemnoin
terior.Eousodadrogaétambémumarebeliãocontraaautori
dade, apesar deseruma espécie estranhade rebelião.É uma
rebelião muito pacífica. Esta gerão viveua de modo muito
bom.
(CASHMAN,1980,99)
Afinal, essa foi a gerão que, pega pelo ápice do afã consumista, pelo
terrordoVietnãeaparanóiacoletivadaGuerraFria,viunadrogaenaabertura
damenteporelaproporcionadaocaminhoparareligarseaosagrado,comouma
tábuadesalvãopacifistaemmeioàtempestadedaviolênciaideológicaaque
forasubmetida.ÉaépocadonirvanadoWoodstock,dabuscaporShangriláno
KashmirdoLedZeppelin,doensinamentodaSongforJeffreydoJethroTulle
do
jaigurudevaohm
deAcrosstheuniverse”edaexperiênciadeLucyinthe
SkywithDiamondsdosBeatles.Eraaépocaemquecópiaspiratasde
Osenhor
dosanéis
deJ.R.R.Tolkiencirculavamnasuniversidadespelasmãosdosestu
dantesqueviamneleumlibeloantibelicista,emqueoCondadohobbiteaélfica
Lothlórienseriamarquétiposideaisparaascomunidadeshippies.Eraaépocaem
quetodososouvidosestavamatentosaspalavras( echeiros,ecores)sopradas
pelovento,comoensinaraBobDylan,eemqueo
OntheRoad
deJackKerouac
ofereciaumcompletamentenovoeideal
americanwayoflife
.
Ocampodasartesbeneficiouseenormementedessarevolução.Nãoque
ousodedrogassejaalgumanovidadenessemeio,afinal,aíestãooslotófagos
da
Odisséia
deHomero,naalvoradadaliteratura,atéoscomedoresdo(hojera
ro)ópiolegítimodofinaldoséculoXIX,comofoiditoanteriormente.Ofatoéque
as novas descobertas no campo da expansão mental causaram um verdadeiro
boom
nacriãoartística,tornandooséculoXX,semsombradedúvida,umdos
maisricosnahistóriadoimaginário–riquezaessaqueteveorigemnaânsiapor
seuresgateperpetradopelossurrealistaseuropeus,“caretasaoseumodo,eque
certamentetiveramumpapelideológicofundamentalnessarevoluçãopsicodélica.
Afinal, também os surrealistas derivavam de uma revolução importante para a
mente humana, aquela inaugurada por Sigmund Freud. A expansão da mente
67
tornaramuitomaisacessíveloacessoaoinconsciente,almejadoporeles,apartir
domomentoem quepermitelibertarsonhos.Aidéiadamáquinadeescrever
experimentalqueTimothyLearypropusera,comseusvinte botõesà mercêde
umusuáriosobefeitodadrogapresoporcorreiasasi,cadabotãorepresentando
uma sensãodiferentequedeveria serpressionado deacordo comas sensa
ções,medo, prazer,emoção, malestar,sendoqueessa máquina seriaoúnico
meiodeexpressaroinexprimíveldaexperiência,seriaquaseoepítome(mecani
cista,éverdade),àsuamaneira,domotorsurrealistaporexcelênciaqueéaprá
ticadaescritaautomática.Seosartistasdadécadadevinteseviramdianteda
descoberta de uma consciência profunda e noturna,os dadécada de sessenta
emdianteaprenderiamausaraschavesqueapuxariamparaaluzdodia,ante
osolhosdeum mundoquejánãopodemaisseassumiriconoclasta.
Apsicodelia,comsuatransposiçãodouniversoinconscienteparaareali
dade da vida desperta, atua como um potencializador catártico para toda essa
proposta de revitalizão doimaginário queforadesperta desde osromânticos.
Os artistas redescobriram uma intimidade ainda mais profunda com a natureza
viva,reconhecendoosdeusesemcadapartículasua–aecologiadeveriaservi
vida para que o homem pudesseadentrálae retomarsuaposição comoparte
dela,como afirma Michael McClure e também RobertoPiva, avessoà idéia de
ecologiacomoprotestodemagogodesalvemasbaleiaseosbebêsfoca”.Are
volução dalinguagem expandiutodososlimites de resistênciada sintaxe, e as
metáforasforamsemultiplicandocaleidoscopicamente,àmaneiraparanóicaque
sugeriaSalvadorDalí,apoiadasnarupturadasfronteirassensíveis,numproces
sodesinestesiaquealçariaoindivíduoaestadosesensõesquedesafiariamo
próprioArthurRimbaud.E msuma,apsicodelia setornara,enfim,o
granfinale
de
umplanodereconquistaerecuperãodaarte,esfaceladaemescombrospela
máquinavorazdaburguesiaedoracionalismoiluminista,queestáemconstante
ebuliçãoháséculos,disseminandoseportodoomundoocidental.
68
CapítuloTrês
OsurrealismonoBrasil
HojeosolhosdopoetaGarciaLorcaerram
nestasplaníciesassassinadas&gritamcomMaiakovski:
Abandonemfinalmenteavenerãopormeiodos
jubileuscentenários,ahomenagempormeio
dasediçõespóstumas!Artigossobreosvivos!
Pãoparaosvivos!Papelparaosvivos!
RobertoPiva,
Relatóriopraninguémfingirqueesqueceu
,p.176
O mundialmente famoso calorhumano e fraternalcomquerecebemos o
estrangeiro de bros abertos? No Brasil, país cujo histórico racionalis
mo/positivismoàfrancesadesuaeliteintelectualsempreestevemaisparaAnato
leFrancedoqueparaIsidoreDucasse,arecepçãoaosurrealismoparisiensefoi
fria.Muitofria.
Friaaopontodetersidoestranhamenterejeitadoemfavordofuturismode
Marinettieodadaísmo(!)deTristanTzarapelosmodernistasde1922(guardadas
asdevidasproporções,logicamente).
Geladaaopontodacríticaliterária,comopesodeseusmaioresnomes,
fazer vistas grossas (ou simplemsente não fazer vista alguma) a toda tentativa
surrealistadeautoresdispersosaolongodetodooséculo.
GlacialaopontodeBenjaminPéret,figuradeliderançadomovimentoem
Parise heróide guerranaRevolução Espanhola, ser enxotado dopaísporum
decretodeGetúlioVargas.
ComoSérgioLimaaponta,naintroduçãodoprimeirotomodesuacolossal
obra
Aaventurasurrealista
,osurrealismonoBrasilocupoupormuitotempouma
posição irregulareobscuranahistóriadaliteraturabrasileira:aolongodesuatra
jetória,esteve sempremarcadopordesdém,desconfiança,receio outotaligno
rância,enãosópelaacademia.Oobscurantismonoqualfoienvolvidopormuito
tempo,devidoaos“préconceitos,[à]informãofacciosaouincompleta”daposi
çãoacadêmica, oqueSérgioLimachamadeoinfortúniocríticodoSurrealismo
69
noBrasil(1995,16),teminíciojáem1925,épocaqueaindaviviaaefervescên
ciavanguardista,eapenasrecrudescecomopassardo tempo, nãoapenas no
campoartísticoeestético,mastambémnopolíticoesocial,umavezqueoSurre
alismoé,antesdetudo,ummovimentoextremamentepolitizado.OBrasilestava
imersonumprocessodeestabelecimentopopulistaenacionalista,conduzidosob
aégidedeGetúlioVargaseabradapelomeioartístico,patrocinadaporeste–
deumaformatãoanódinaquemesmooempobrecidoPartidoComunistadoBra
sil,mergulhadonopositivismostalinista,eomovimentointegralista,detintasfas
cistas,apoiavaoEstadoFederalcaudilhesco.SegundoValentimFaccioli,trata
vase, portanto, de uma situão anterior àquela que Walter Benjamin indicara
comoprojeto epráticasurrealistas. Amentalidade brasileiraestavaassimatra
sadaemrelãoaoVelhoMundo.
Osurrealismoaquiencontratrêsépocasdistintas,cujadivisãonãoéarbi
trária de forma alguma. A primeira tem início com o movimento modernista de
1922, quando é excluído (de maneira questionável) do conjunto de influências
vanguardistasdogrupodeOswalddeAndrade,equesóencontraráumabrecha
luminosaapartirdadécadadetrinta,comJorgedeLima,MuriloMendes,Rosário
FuscoemesmoJoãoCabraldeMeloNeto,deumamaneiraque,comodesaten
tamente aponta Afrânio Coutinho,só se mostra nasuperfície ouem impregna
çõesdispersas(apudFARIAS,2003,p.31) .ParaSérgioLima,noapêndiceque
ele escreveu ao
Estrela da manhã: marxismo e surrealismo
, de Michael Löwy,
essaprimeira faseteminíciocomavisitadeBenjaminPéretaoBrasil,noperíodo
entre1929e1931.VicenteFacioliacena paraoano1924,comafundãoda
revista
Estética
,noRiodeJaneiro.
Asegundafasepartedadécadadesessenta,comachamadagerãodos
Novíssimos, poetas publicadossobretudoatravés dosesforços doeditorMas
saoOhno(queporsuavezfoioeditordemuitosoutrosautoresqueseconsagra
riammaistarde,comoHildaHilst),equecomavam,desdealgunsanosantes,a
entraremcontatocomagrandeerecentenovidadeamericanada
beatgenerati
on
,chefiadaporJackKerouac,AllenGinsberg,WilliamBurroughseGregoryCor
so,escritoresquealiavamosrecursossurrealistascomanascenteondapsicodé
lica,queexpandiriaaindamaisalémassuasexperiênciasoníricas.Essespoetas
declaramseabertamenteumagerãosurrealista”legítimanoBrasil,tendoiní
ciocomapublicãode
Paranóia
deRobertoPiva,
Amore
deSérgioLima,e
Ano
70
tõesparaumApocalipse
,deClaudioWiller.Umaterceiraeraseinicianadéca
dadenoventa,comoativismopoetaeartistaplásticocearenseFlorianoMartins,
alémdaconstânciadaproduçãodosmentoresdogrupoanterior,ClaudioWillere
RobertoPiva.Sãoreflexosdessafasedebonança,paracitaralgunsexemplos,a
formãoderevistasdedicadasaotema,comoaeletrônica
Agulha
,olançamento
dasobrascompletasdeRobertoPiva emtrêsvolumes, e mesmoumresgatee
relançamentodoacademicamenteesbatidoRosárioFusco;podemseincluirtam
bémumreaquecimentonointeressepelagerãobeatearepublicãodastra
duçõesfeitasporClaudioWillerdos
CantosdeMaldoror
deLautréamonteo
U ivo
,
deAllenGinsberg.
OmodernismobrasileiroadvindodafatídicaSemanadeArteModernade
1922 construiuse inteiramente a partir das vanguardas que, acreditavam eles,
melhorseadequassemaseusanseiosprogressistasenacionalistas,abuscapor
estabelecerdefinitivamenteaoBrasilumaartelegítima.Claroque,comisso,as
sumiramse partidários de duas tendências em essência opositoras entre si: o
futurismodeMarinetti,eodadádeTristanTzara,opositordasidéiasdoprimeiro.
Dodadá,OswalddeAndradeassimilouasidéiasque olevariamaoconceito do
antropofagismo,atrásdopoetafrancêsBlaiseCendrars,queporaquicirculava
naépoca.TalveztenhasidoumcontatotãosuperficialcomooqueJulesFrançois
Dupuisapontaqueforaodosprimeirossurrealistasparisienses,queconhecem
sobretudoaversão morna deParis,aspalhadasdeTzara”(2000,p.19).Diz
ClaudioWiller,ementrevistaaFlorianoMartins:
(...) AprópriaidéiadeAntropofagia,nelahavialugarparaSurrea
lismo,paraumaincorporãodeSurrealismoquenãofoilevada
adiante, nem por Oswald, que preferiu ser, em suas palavras,
"casacadeferrodoPartidoComunista",nempormaisninguém.
(2002)
Averdadeéqueosmodernistasacreditavamnãohaverrazãoparaadotar
osurrealismoporquetinhamaidéiadequetodososrecursoseprincípiosjáesta
riamnointeriordodadáe(outrorivaldosamigosdeTzara)ocubismo.Isso,pelo
menosnoqueserefereaodadaísmo,éumameiaverdadcontudo,háquese
entenderarelãodeatrãoerepúdioqueummovimentogeravaemoutro.O
71
surrealismonãocompartilhavadomeugraudepessimismodadaístaesuapulsão
simplesmente destrutiva: como condensa em poucas linhas JulesFrançois Du
puis,quandodadadenunciavaemtodaaparteapoluiçãoculturaleoapodreci
mento espectacular, o surrealismo chega com projectos de limpeza geral e de
regenerão(2000,17).Grossomodo,emoutraspalavras,enquantoo
Cabaret
Voltaire
aniquilaedestrói,o
Departamentoparaapesquisasurrealista
redescobre
erenova.Tambémastécnicascticascomunsaambos,comooacasoobjeti
vo(ojogodocadáveresquisitoetãopróximodojogodaspalavrasrecortadas
dejornaletiradasaesmode umsaco),encontramdiferençasformaisbastante
radicais:
(...) OarbitrárionãosesituanomesmonívelnostextosdeTzara
enosdeBreton,mesmonessaépocadeãocomum;elenão
produz os mesmosefeitos. Asintaxe é rompida no texto dada,
não notextodeBreton;aaproximãodos termosimpedeai
magemdesurgir,emTzara(“eleéestrelaconvencidomandarim
numcartãodevisitadesertoeselevantabemcedoaaproxi
mão dos termos tende a gerar imagem ou mesmo a fazer
sentidoemBreton,naprosaautomáticae
afortiori
nospoemas,
tal como acontece em
ForêtNoire
. (CHÉNIEUXGENDRON,
1992,p.39)
O motivo principal para a negão do surrealismo entre os modernistas
brasileiros,claroestá,éoseuposicionamentoideológico.Numprimeiromomen
to osurrealismonãointeressou aos espíritos brasileiros, porque pregava a a
narquiadabeleza,aanarquiadoamoredoestadoburguês.Nosegundomomen
to, tornouse muito mais perigoso, porque aderiu ao PCF [Partido Comunista
Francês]decarteirinhaetudomais.“(LIMA,apudNOGUEIRA,2004,p.174)Co
mo um movimento que participava da eterna busca pelo espírito nacional, com
todos os seus antropofagismos, pausbrasil e verdeeamarelismos poderia as
sumir como inspirão um grupo completamente antipatriótico, cujos membros
bradavammorteàFrança!evivaaAlemanha!emjantaresdegalaoferecidos
pela
intelligentsia
residente?Umgrupoquelouvavaemincontáveispoesiasapar
ricidaVioletteNozières,alçadaàcondiçãodemusadalutacontraosvaloresca
72
quéticosdafamília?UmgrupoassociadoàRevoluçãoRussanassuasmaisvari
adascoresebandeirasideológicas,dovermelhosanguenasmãosdeStálinao
vermelhomiolosnumaparededeTrotski?E,principalmente:comoumgrupode
artistasrespeitáveiscomoOswaldeMáriode Andrade,MenottiDelPicchiaeAni
taMalfattipoderiamaceitarinfluênciasdeumgrupodoqualumdeseus membros
maisilustres,umcertoartistaplásticocatalãoedebigodesesquisitosqueatende
pelonomeSalvadorDalí,glorificaAdolfHitlernãopelaadmirãopeloditadore
a sua propaganda política”, mas simplesmente porque estava fascinado pelas
costascarnudasemolesdeHitler,sempretãofirmementeapertadasnoseuuni
forme”(apudKLINGSÖHRLEROY,2007,p.40)?
Apesardasvistasgrossasaosurrealismodapartedosmodernistaspaulis
tanosde22,omovimentoencontroualgumapoioapartirde1924,comapublica
ção controvertida da revista
Estética
(apenas três edões) , editada por Sérgio
BuarquedeHolandaePrudentedeMoraesNeto,sendoquasequeimediatamen
teatacadoporTristão deAthayde, precursordabrigadaantisurreal:Athayde,
católico fervoroso, atacava o repúdio do surrealismo à igreja e o seu erotismo,
combustívelessencialdomovimento.Aindaassim,émuitoquestionávlafunção
dessa revista quanto a sua função surrealista. A ofensiva acadêmica apontava
suasarmasnãoapenasparaapolíticaestrangeirista,mastambémmilitariaafa
vor da moral e dos bons costumes, não muito diferente da reação de Anatole
France e PaulClaudel em Paris. Sérgio Limacredita a esse mesmocomporta
mentopuritanistaopróprio“seqüestrodobarrocodahistóriadaliteraturabrasilei 
ra,quesóforareabilitadomuitotempodepois,atravésdosesforçosdeHaroldo
deCampos(justiça sejafeitaaele).
Aidéiadocosmopolitismosurrealistatinhacertasimpatiadoprojetoan
tropofágicodeOswalddeAndrade:assimilaroestrangeiropara,apartirdele,ge
rarumaartegenuinamentebrasileira.Nadécadadetrinta,entretanto,acoisato
mouumaformacompletamentediferente,eoprojetonacionalistadeVargas,a
poiadopelosartistasprestigiadosefuncionáriospúblicos(equantoaisso,vejase
atomadadefôlegodoregionalismoneorealistainauguradopelagerãode30).
Ocosmopolitismoeointernacionalismoeramcondenadoscomoalienãoede
sinteresse patriótico (FACIOLI, 1999, 296). A mestagem inerente à cultura
latinoamericana, como diz Sérgio Lima, era objeto de racismo no Brasil. Uma
dissidênciadogrupode22,encabadaporMenottiDelPicchiaequeassimilara
73
nomescomoPlínioSalgado,seopôsaoPauBrasildeOswald,fundandooVer
deamarelismo, detendênciaintegralista,defendendoumnacionalismoexacer
badocom exaltãode valores conservadores dafamília, da ra, da terra,da
moralcristãtradicionalista”(FACIOLI,1999,302)eque,em1926,radicalizouse
comooAnta”,que,naspalavrasdosupracitadoPlínioSalgado,aceitavatodas
asinstituiçõesconservadoras,poisédentrodelasmesmoquefaremosainevitá
velrenovãodoBrasil(apudFACIOLI,1999,302).Poucodepois,jáem1931,
OswalddeAndradeingressounoPCB,abandonandoosideaisantropofágicose
em1937 dáse o golpe de estadodeGetúlioVargas: o então fundado Estado
Novoradicalizouseusprocessosufanistaseagiucomoumabarreiraparaasma
nifestõessurrealistas,limitandosuaatuãopública.Facioliaindamencionao
fatodequeissonãofoiexclusividadedoBrasil,umavezqueforaconcomitante
comaascensãodeoutrasditadurasnaAméricaLatinaemesmoaascensãodo
nazismonaEuropaeasubseqüenteinvasãoalemãàFrança.
Masénadécadadetrintaqueumamanifestãosurrealistaconseguede
fatoencontrarumaformadealcançarapoesiabrasileira,atravésdeJorgedeLi
ma e Murilo Mendes. Quanto ao primeiro, seu romance
O anjo
recebeu uma
grandequantidadedeelogiosdacríticajornalística,saudandoonomeadamente
comoumsurrealista,ouatémesmoumdiscípulo damais pura ecaracterística
maneira”dosobrerealismodeAndréBreton(NOGUEIRA,2004,p.177),edaí
parafrente,com
AnunciãoeencontrodeMiraCeli
e
InvençãodeOrfeu
,jáao
longodadécadadequarenta,semfalaremsuaspinturas,declarainfluênciasur
realista.Contudo,acríticaatéhojetemumaaproximãotímidaàessaclarapre
sençaemsuaobra–comodizSérgioLima,preferemdarmaisatençãoà
Negra
Fulo
doqueao
Anjo
,aindahojebastantedesconhecido.
JáMuriloMendes,em1930,recebeumacríticaaseuspoemasdopróprio
Mário deAndrade,quejáodeclaradesdeentãoumsurrealista.Contudo,nãoum
poetasurrealistaporescola,mascomumaprofundamentosedutordaliçãosur
realista’.MuriloMendesé,então,umingênuosurrealistaàbrasileira”.Floriano
Martins,poetasurrealistadaterceirafase,oconsiderainclusivenocivo,porachar
queademasiadaatençãovoltadaaumatortapresençasurrealistaemMuriloco
laboraparaalimentarastrevasqueencobremarea linfluênciadomovimentono
Brasil,roubandoumaatençãoquenãoéjustamentedevotadaaJorgedeLima,
estesimumlegítimoestandarteparaa causa.
74
HáumhábitodacríticaesclarecidaemsituarMuriloMendesco
moexemploisoladodeSurrealismonoBrasil.Dealgumaforma
destacasenessepoetaumaconcentrãodeestalossurrealis
tasqueacabamporsacramentálocomonossopoetasurrealis
ta”.Muitos
ismos
sugeridospelomundotodo, noáureoperíodo
dasvanguardas,nãopassaramdesucursaisdasidéiasdadaís
tas,cubistasousurrealistas,estrategicamentemascaradascom
um
plus
queasremetiaaumaindividuãoprogramática.Murilo
Mendesbempoderiateranunciadoumnovo
ismo
paraseu“Sur
realismoàmodabrasileira,comopreferiaelemesmoreferirse.
Nãoofez.(MARTINS,2001,p.34)
Aoadotaressesurrealismoàbrasileira,MuriloMendesfaziaaopçãode
ignorara ortodoxia do movimento parisiense, fazendousodele em sua crião
comoumatécnicadevanguarda”,nodizeresdeFacioli,adotandoaparaobter
efeitosestéticosenãoassumindoocompromissosocialinerenteaele:“abraceio
surrealismoàmodabrasileira,tomandodeleoquemaismeinteressa”(MENDES,
apudFACIOLI,1999,300).
ApesardessaresistênciadeFlorianoMartins,éfatoqueMuriloMendesé
tomadocomooprimeirotricodosurrealismonoBrasil,comoatestaGilberto
MendonçaTeles,atravésdeseuslivros
Aidadedoserrote
,de1968,e
Retratos
Relâmpagos
,de1973,textoconsideradoporG.M.Telescomoomaisimportan
tedocumentoquesetemdoescritorbrasileirosobreosurrealismo(NOGUEIRA,
2004, p. 178). Em seus textos, Murilo estuda Max Ernst, René Magritte, Luis
Buñuel,AntoninArtaud,alémdetratardeSigmundFreudeapontarumautormui
tocaroaopaidapsicanáliseequeseriaumprésurrealistaalemãoemplenosé
culoXVIII,umcertoGeorgChristophLichtenberg.
A Jorge de Lima e Murilo Mendes somamse outros nomes de vulto no
campo da literatura (muitos, entretanto, misteriosamente obscurecidos por uma
críticamalinformada),comoRosárioFusco,autorde
Oagressor
eque,em1945,
foialvodeumacríticaprecáriadeAntonioCandidoemOsurrealismonoBrasil,
publicadoem
Brigadaligeira
equesetornariaumdosinstrumentosquecondena
riaoestudodosurrealismonoBrasilaolimbodaignorâncioumesmoCampos
75
deCarvalho,autorde
A vacadenarizsutil
,
AluavemdaÁsia
e
Opúcarobúlgaro
equefoicontemporâneo,naprosa,aClariceLispectoreGuimarãesRosa,porém
ficandodeforadodireitodeocuparumamerecidaposiçãodedestaqueaolado
destesbaluartestãocarosàcríticabrasileira.Aquantidadedeestudos,aindaque
breves,sobreaobradeCamposdeCarvalho,éridículaaoextremo:émuitopro
vávelqueexistammaisestudossobreseusobrinhomaisfamoso,MárioPrata–
nãoé interesse aqui,digase de passagem, questionara qualidade da obrade
Prata,muitoprovavelmenteconsideradanulapelaacademiamalhumoradaeque
tempruridosaoouvirapalavra“comercial,maséinegávelqueestámuitoaquém
daqualidadenarrativaaimaginativade seutio. Aliás,três quartosda produção
atualemesmocanônica”noBrasilficamaquémdeCamposdeCarvalho.Tam
bémédesumaimportânciafazermenção aosurrealismodeJoãoCabraldeMelo
Neto,especialmente em
Ocão sem plumas
, resgatado por LucilaNogueiraem
suatese
Ocordãoencarnado
.Nenhumgrupocoesomarcaessaprimeirafasede
surrealismodifuso.
A formão efetiva de um grupo se dá a partir da década de sessenta,
quandoogrupodosNovíssimos,editadosporMassaoOhnoemSãoPaulo,co
maapublicar.Temposmaissimples,aqueles,emqueClaudioWiller–umdos
Novíssimos–afirmaquetalvezporexistirmenosgenteescrevendoeproporcio
nalmentemaislivrariasemercadoeditorial,erafáciloacessoàpublicão(NO 
GUEIRA, 2004, p.18 3). Era um grupo que se mostrava completamente oposto
emseusprojetosàfebredaveznapoesiabrasileira:oconcretismo,capitaneado
pelaConcretíssimaTrindadeHaroldodeCampos–AugustodeCampos–Décio
Pignatari (partes integrantes, não podem ser vendidos separadamente: contém
paspequenasquepodemseringeridas).
Aindanosmeadosdadécadadecinqüenta,SérgioLimapassaaseapro
fundaremautoresnacionaisquedemonstramumapropensãoaexpressõessur
realistas,entreosquaisfiguramRaulPompéia,RochaPombo,AugustodosAn
jos, Pedro Kilkerry, César de Castro, Ernani Rosas e Gilka Machado (LIMA,
2002,p.133).Tambémcomaaseaventurarnaescrituraautomáticaenasco
lagens,período esteemquecompõeoseuprimeirolivro,
Amore
,elaboradoentre
1959e1960.Porvoltadessemesmoperíodo,(1955–1956),eisqueBenjamin
PéretretornaaoBrasil,vagandopeloNorteepeloNordeste,tocandoemfrentea
76
pesquisaquealimentariaseuensaio
Anthologiedesmythes,legendesetcontes
populairesdelAmérique
.
Nocomodadécadadesessenta,LimaviajaparaPariseentraemcon
tatocomossurrealistaslegítimos,sendoconvidadopessoalmenteaparticipardo
grupoporAndréBretone,assim,passaafreqüentarasjámitológicasreuniõesdo
café
ÀLaPromenadedeParis
,vindoaconhecerpessoalmenteasmaisilustres
figurasdaépoca.Apenasparacitaralguns,juntamentecomElisaeAndréBreton:
Annie Lebrun, Julien Gracq, Georges Bataille, Gaston Bachelard, Octavio Paz,
FernandoArrabal,MeretOppenheimeatémesmooatorBusterKeaton.
Doseiomundialdosurrealismo,devoltaparaSãoPaulo,em1962,Sérgio
LimaseuneaosNovíssimoseformaumnúcleodedebatessobreosurrealis
mo,juntoaRobertoPiva,ClaudioWiller,AntonioFernandodeFranceschieDé
cioBar.Devidoàssuasligõesdiretascomadiretoria(ogrupodeBreton,atra
vésdeLima),osNovíssimosestavamsempreapardasnovidadessurrealistas
aolongodomundo.Contudo,umgrupodefinitivoaindanãoestáformado:
Insistoquedomeuretornoatéfinsde1964nãoseconstituium
grupoorganizado,apesardasatividadescoletivas,panfletagens
eprovocõesqueincentivamosepromovemos comcertosar
roubose atéentusiasmos. O grupo só se formalizaria noinício
de 1965, estendendose até 1969. Assim, mesmo sem ogrupo
estarformalizado,houve,sim,umasériedeeventoseprovoca
çõesquerespondemexplicitamenteporumavisãosurrealistado
amoredaarte,domundoedasociedade.Iniciavaseumrigore
umaradicalizãoéticapoucousuaisemnossosmeiosexpres
sivos.(LIMA,2002,p.139)
Aconsolidãodogrupoem1964sedácomapublicão dostrêsprimei
roslivrosdogrupo:
Paranóia
deRobertoPiva,nofinalde1962 ;
Amore
,deSérgio
Limaem1963;
Anotõesparaumapocalipse
,deClaudioWiller,nocomode
1964:livronoqual,segundoLima,seencontramasprimeirasreflexõesdeWiller
emrelaçãoà
beatgeneration
esuasimplicõesliterárias(LIMA,2002,p.142).
ClaudioWiller,poroutrolado,opõeseàsdataseadeterminadasinforma
çõestransmitidasnessetextoporSérgioLimaafirmando,porexemplo,queolivro
77
deestréiadeRobertoPivaforapublicadonosprimeirosmesesde1963edesdiz
queolivro
Paranóia
(...)devaqualquercoisaàsiniciativasdeSérgioLima”(NO
GUEIRA,2004,p.187),equetantoelequantoPivajáestavambemadiantados
noestudoda
beatgeneration
paraquepudessemterse“afastadodosurrealismo
porcontadisso.Enfim,ofatoé que,independentedeum cabodeguerraentre
PariseSanFrancisco,estavaconsolidadooprimeirogrupoautodenominadosur
realistanoBrasil,que durariaenquantoatividadecoletivaeacéuabertopelome
nosaté1969–1970,oiníciodeuma idadedastrevas noBrasile odefinitivo
destroçamentodo grupoparisiense,coma morte de AndréBreton easconvul
sõespolíticasde1968.Oquenãoquerdizerquesuaproduçãotenhaseestag
nado.
Nadécadade90,porém,umnovocicloseiniciaeosurrealismoentraem
umprocessoderevitalização,reerguidopornovospoetasqueseuniramàcaus
OprocessodoestudodosurrealismonoBrasilsereaquece,eseiniciaumresga
tedapresençadomovimentonahistóriadaliteratura.Valeressaltaropapelde
Floriano Martins, poeta e estudioso do movimento, autor de importantes textos
sobreatrajetóriasurrealistanoBrasilenaAméricaLatina.Éimportanteressaltar
odiferencialdesuacriãoartística,querompecomagerãobeat,tãocaraa
WillereaPiva,eencontraafinidadecomaproduçãorealizadanaAméricahispâ
nica:nessecampo,éfundamentalolivro
Ocomodabusca
,noqualdescrevea
trajetóriadetodososmovimentoslatinoamericanos,eorecente
Mundomágico:
Colômbia
,umaantologiadapoesiacolombianadoséculoXXI,traduzidaempar
ceriacomapoetarecifenseLucilaNogueira,quedeixaclaroaintensasobrevida
surrealistanops,etambémpresentenorestodocontinente.Esperançosamen
te,assementesdomovimentocaminhamparadarsuculentosfrutosnoBrasil,a
partirdeagora.
78
CapítuloQuatro
Passeiospelosbosquesvivosde
RobertoPiva
ProvidodeumatalconcepçãodinâmicadaRealidade
Poética&da‘alucinãodaspalavrasemtermos
DeRimbaud,euatingiaPoesiavisandocoroar
DeAmoresemprimeirolugaraExistência.Contra
AinibiçãodeconsciênciadaPoesiaOficialBrasileira
Aserviçodoinstintodemorte(repressão),
minhapoesiasempreconsistiunumverdadeiro
ATOSEXUAL,istoé,numaAGRESSÃOcujopropósito
Éamaisíntimadasuniões.”
RobertoPiva,posfáciode
Piazzas
ArriscarumesboçodebiografiasobreRobertoPiva,apenasparaadentrar
oleitordeformamaisconfortávelaoespetáculodoconfrontocomsua poesianua
écrua,éumatarefabastantedesnecessária.
Bastarádizerqueeleéumpoetapaulista,nascidonoanode1937,quena
década de sessenta perambulava pelas ruas Major Sertório e Maria Antônia e
freqüentavaoIstitutoItalianodiCultura”paraestudarDanteAlighieri?Queforao
típico
enfantterrible
no colégio tradicionale, posteriormente, se tornariaum es
tandarte
ala
AllenGinsbergdeumamaneiranovadesepensarpoesia,emmeio
ao concreto dacidadede SãoPaulo e dos versos velhosnovos dosirmãos de
Campos?QuetinhaumaafeiçãofilialporMáriodeAndradeecarinhoportodos
osmortospoéticosdaRevoluçãoRussa?Queforainiciadonosrituaisdosmais
diversoscultosreligiosos,eaprendidoaoperarcurasxamânicascomodomde
suavozanimal?
Omelhorasefazeréoferecercomointrodutórioumarelãodaspublica
çõesdeRobertoPivaatéentão:suacarreirainiciousecomapublicãode
Pa
ranóia
,em1963;emseguidavem
Piazzas
,de1964;
Abraosolhosedigaah!
foi
publicadoem1975,
Coxas
em1979,
Vintepoemascombrócoli
em1981e
Qui
79
zumba
em1983.
Ciclones
,oúltimo,foipublicadopelaeditoraNankinem1997.A
grandemaioriaforapublicadaporMassaoOhno,
Coxas
sendopelaFeiradaPoe
siae
Quizumba
pelaeditoraGlobal.
Paranóia
foireeditadopeloInstitutoMoreira
Sallesem2000,numa edãoincluindoasfotografiasdoartistaplásticoWesley
DukeLee,presentesnaediçãooriginal,e
Piazzas
ganhounovaediçãoem1980
pelaeditoraKairós.Someseaissodiversasantologiase apublicãodesuas
obrascompletaspelaEditoraGlobo,organizadas porAlcirPécoraem três volu
mes:
Umestrangeironalegião
,em2005,reunindo
Paranóia
e
Piazzas;Malana
mãoeasaspretas
,tambéme m2005 ,reunindo
Vintepoemascombrócoli
,
Abra
osolhosedigaah!
,
Coxas
e
Quizumba
;eem2008
EstranhossinaisdeSaturno
,
quereúne
Ciclones
,diversosmanifestoseoinéditoquedánomeaovolume,a
lémdoCD
NamacoracibustutelaMercurii
,comaleituradeumapanhadodesua
obrafeitapelopróprioPiva.
Adistânciaentreostrêsblocos(ousurtos,comodizAlcirPécora)desua
produçãopoéticasãoextensos,mantendoacuriosaregularidade”dedozeanos,
comoapontaoorganizadornoprefáciode
Umestrangeironalegião
.ParaPéco
ra,évisívelumadimensãoquasetemáticadessesblocos,comoquejustificando
adivisãodareuniãodaobranostrêsvolumes:umparaoprimeiroperíodo,de
viés
beat
,whitmannianoepessoano;outroparaosegundo,detrospsicodéli
coseexperimentais;eumterceiro,para umperíodomaisrecente,predominan
tementemísticoevisionário(PÉCORA,2005,10).Claroquenãosedevelevar
essadistinçãoaferroefogo,eissoopróprioPécoraafirmaaseguir:todosestes
elementos coexistemaolongode sua poesia, mesmoque hajapredominâncias
localizadas.Oerotismoviolento,quaseum
leitmotiv
dafasede
Quizumba
e
Co
xas
, de escancaradas cores homoeróticas,éumapresença constante de
Para
nóia
a
Ciclones
–afinal,oerotismoéumdosmotoresdosurrealismo.
Quantoaomisticismo,pormaisque sejaexplicitadonapresençaxamânica
de
Ciclones
,tambéméumfiocondutorauniremfirmecosturatodososlivros.O
posicionamentodeRobertoPivaanteosagradonãosecircunscreveaumatemá
ticalimitadaou experiêncianovaem sua vidapoética. Alguns
releases
sobreo
lançamentode
Ciclone
teimavamemafirmar,comoseveráadiante,queestelivro
eraumaexposição,oumesmoconclusão,dosseusestudosxamânicos,ignoran
doqueestemesmoxamanismojáexistedesdesuaprimeirapublicão.Oespa
çodetempoentreocaosurbanóidede
Paranóia
eanaturezaselvagemde
Ciclo
80
nes
representaumestadodematurãoquepodeencontrarumparalelometafó
rico(eque,esperase,sejadoagradodePiva)nosmitosdeeducãodosxamãs
iacutos,aosquaisaludeMirceaEliadeequeRobertoPivaconhecemuitobem:o
períodoemqueoescolhidoépostoemumovo,numninhodaÁrvoresmica,
umpinheirogigante,chocadopelaAvederapinamãe,atésetornaraptoareali
zarsuacura(ELIADE,2002,53).
Por analogia, podese associar a trajetória poética de Roberto Piva, de
pontaaponta,comoprópriocaminhodainiciãoedesenvolvimentodoxa mã,
queseguepadrõescomunsnasmaisdiversasculturas,segundoEliade.Em
Pa
ranóia
,aaventuraangustiantedevivenciaroespourbano,mortoemtodooseu
concreto,podesercomparadoaosonhoiniciáticodoescolhido–afinal,Claudio
Willerapontaoonirismoconstantedospoemas.Umadescidaaoinferno,ocorpo
retalhadoedevoradopelamáquinaepelohorrordametrópole,atéterseucorpo
recompostoeconsagrado,ROBERTOPIVATRANSFERIDOPARAREPARODE
VÍSCERAS”( PIVA,2000,139),atéoápiceemquedavertiginosade“Meteoro:
Euapertavaumaárvorecontrameupeito
Comose fosseumanjo
Meusamorescomamcrescer
Passamcadillacssemsangueoshelicópteros
Mugem
Minhaalmaminhacançãobolsosabertos
Daminhamente
Eusouumaalucinãonapontadeteusolhos
(PIVA,200,1 50)
Pararealizaracura,segundoMirceaEliade,oxamãdeveelepróprioado
ecer.Paracuraraparanóia,eledeveserumparanóicotambém.Paracombatero
grandecemitérioqueéacidade,Pivadevevivêla.Asuasegundafase”,pontu 
adapeloerotismocarregado,compõeumademonstrãoritualísticapropriamen
tedito;amísticaagressiva,adançacomosespíritos,otambor,aanimalização
dopoetaxamã, umaantropofagiaritual,a festados sentidos psicodelicamente
escancarados,oêxtaseemsuaformamaispuraquenecessariamentepassapelo
corpo.Vejaseumtrechode“Osso&Liberdade”,de
Coxas
:
81
OnçaHumanaagarrouPólen&foramtreparatrásda
Cortina,porqueOnçaHumanagostavadosmocósdignosda
SabedoriafelinadaOnçaanimaltotemdemuitastribosde
Índiosbrasileiros&comelesameaçadadedesaparecersem
Queninguémfalenissooupoucosfalemnisso&Onça
Humanaqueriaqueissovivessenamentepermanentedos
Garotosdoclube&elesgostavamdeOnçaHumanaqueos
Observavagulosaquandoosviaenrabaremsemutuamente
OuvindoaNonaSinfoniaouChicodoCalabarouGuerraPeixe.
(PIVA,2005,61)
Efinalmente,em
Ciclones
,éapresentadoumPivadefinitivamenteconsa
gradocomograndeXamãPoeta,finalmenteresidindonocorãodanaturezae
bem distante doinferno da metrópolenecrópole. Ele realizaa cura, ele dita os
rituaisdosjovensaprendizes,meninosonça,eletemoplenodomíniodaviagem
planar,estabelecendoum
locus
poéticosagradoatravésdeseuusodalinguagem
(PÉCORA,2008,09).
Aseguir,serãoapresentadasanálisesdasduaspontasdaobradeRoberto
Piva: a inicião de
Paranóia
e a plenitude de
Ciclones
, investigando em seus
poemasasaproximõessurrealistasebeatsdoprimeiro,efocalizandoaeduca
ção–evocão–xamânicadopoetanosegundo.
82
4.1.Umacidadeàbeirada
Para nóia
NaesquinadaruaSãoLuísumaprocissãodemilpessoas
acendevelasnomeucrânio
hámísticosfalandobobagensaocorãodasviúvas
eumsilênciodeestrelapartindoemvagãodeluxo
fogoazuldegimetapetecoloridoanoite,amantes
chupandomecomoraízes
RobertoPiva,“VisãodeSãoPauloànoite”
Paranóia
éoprimeirolivropublicadoporRobertoPivanoiníciodadécada
desessenta.Sumiuvelozmentedasprateleirasassimquefoipublicado,atraves
sandodécadasemsilêncioatéretornarem2000,comarepublicãopeloInstitu
to Moreira Salles e posteriormente em 2005, fazendo parte do primeiro volume
dasobrasreunidasdeRobertoPiva,
Umestrangeironalegião
,pelaeditoraGlo
bo,comaorganizaçãoacargodeAlcirPécora,responsáveltambémpelasreedi
çõesdeHildaHilstpelamesmacasa,comojáforaditoanteriormente.
Estelivro,apesardasaparências,nãoéumpoemaparaacidadedeSão
Paulo–eissonãoéditoapenaspelofatode,emnenhuminstante,porformaou
intenções,ter o aspectolaudatóriodaqueles poemasevocões que se espa
lhamaosmontes,emescalasdequalidadeestonteantementedíspares.Todoele
é
acidadedeSãoPaulo,comosereconstruída emversosfluidoscomooconcre
todeseusprédios,atravésdosespelhoscaleidoscópicosedeformantesdosur
realismo praticado por Piva em fusão ao seu espírito beat, presença marcante
aqui.
Olivroéumaviagemaointeriordacidade,uminteriorquenãoserefereao
movimentoespacialdeumalinhadeônibusoumetrô,trávelemummapafísi
co,masatravésdesuascamadas,quaseumaviageminterplanaraoinfernoxa
mânico,revelandoascoreseasluzesdeumpesadelonarcóticoemturbilhãoque
assuasformascinzentascontêm.IndependentedofatodeRobertoPivacitarlo
caisobjetivosemseusversos,mesmobatizandopoemascomoNoParqueIbira
puera”,PradaRepúblicadosmeussonhosouRuadasPalmeiras,acidade
sematerializadentrododelírio–outalvezocontrário,odelíriosematerializana
83
formadacidade,formandocalçadasquebradas,murosescondidossobcamadas
dahistóriadoteatroedorocknrollcontadaem cartazesvelhoseempilhadosuns
sobreosoutros,bocasdeloboebotequinscheirandoafritura,foraafumade
motocicletas.
ACidadesetransformanumtexto.Umacidadeaberta,emtodasassuas
portaspolissêmicas,econstruídanosmaisdiversosestilos,pelasmaisdiversas
mãos,eporessemotivoseofereceàsmãosdopoetaparaviverdentrodeuma
novaperversão,deumanovatransgressão.Transformadaafinalemescritura,a
transgressãoemquesetornaSãoPaulotambémsetornaatransgressãoàLite
ratura,agoratambémdevassadapelofocoparanóico.Cidadeàbeiradaeterni
dade”,ummundoàbeiradoabismo:ambassãodefiniçõesparaodomíniodo
concretoeodomíniodasletras.
Umleitorpaulistano,emgeral,serácapazdereconhecerpassoporpasso
deseucotidianoacadaverso:porqueeleéfeitodomaterialqueessapoesiaex
põe,arrancadoàsentranhasdacidade.Paraobemouparaomal,umpaulistano
éfeitodeSãoPaulo.Versossingelosentretecidosaosmaishorrendos.E,falando
embelezaouhorror,esseefeitoquePivageraaquinãoéalcançadoaomostraro
belodaCidade,ouotristeefeiodaCidade–elesimplesmenterevelaacidadena
Cidade.Quesejacomolhosdeparanóico,então.
Paranóia
éumimensopesadelo.TransformeiSãoPauloemumavisãode
alucinões.ApliqueiométodoparanóicocríticocriadoporSalvadorDalí:opara
nóicosedetémnumdetalheetransformaaquilonumaexplosãodecores,dete
mas,depoesia.Fizisso,masapenasseguindoaintuiçãoeainspirão.”(PIVA,
2000)ÉdessaformaqueRobertoPivaserefereaoseuprimeirolivropublicado,
ementrevistaconcedidaà
FolhadeSãoPaulo
emabrilde2000,acenandoparaa
importânciaveladaqueseutítulocontém,contrariandoopreceitosurrealistaque
reza quetítulosnãoprecisamterabsolutamentenadaavercomospoemasque
seguemlogoatrás(afinal,seulivro
20poemascombrócolis
sequernecessitaria
deumesclarecimentodessaespécie...)
Umacaracterísticapeculiardaparanóia,eque,porisso,suscitou
grandeinteresseentreossurrealistas,équeodoenteparanóico
interpretaosfenômenosqueocorremnarealidadeemfunçãode
suasobsessões,realizando,continuamente,
umasínteseentreo
84
real e o imaginário, fazendo com que o mundo do delírio se
transporteparaoplanodarealidade
.(BRAUNE,2000,p.47)[gri
fomeu]
Inspirado nosgrandes avançosdedesdobramento imagéticoquepoderia
apreenderaotentaromundocomolhosdeparanóico,SalvadorDalídesenvolveu
seumétodoparanóicocrítico,queRobertoPivaadotariaparasinacomposição
de
Paranóia
eque,muitotempoantes,salvouossurrealistaseuropeusdodes
gastequeaescritaautomáticajácomavaasentiremseusexperimentos,am
pliando a síntese consciente+inconsciente”. Assim sendo, esse método encon
trou espo entre ashostes surrealistas dos tempos do
Segundo Manifesto
de
Breton,nummomentoemquecomavamasedistanciardeFrancisPicabiapa
raacompanharo“fanáticoe“rinocerônticopintorcatalão.
Alguns exemplos podem ser demonstrados para melhor entender o que
Dalíqueriadizercomtudoisso.Seu
Sonhocausadopelovôodeumaabelhaem
tornodeumaromãumsegundoantesdeacordar
éumexemploclarodofuncio
namento dessa extrapolãoparanóica das imagens (e aqui podeser acompa
nhadaem uma reproduçãoinseridano ApêndiceA) . Aqui,deumaromã aberta
saltaumpeixedecujabocasaltaumtigredecujabocasaltaoutrotigredequem
jásaltouumaespingardacujabaioneta estápara saltarcontraobrodeGala
quedormindopairasobre um blocode pedra sobreomarenquanto aliperto o
detalheminúsculodeumaabelhavoejandosobreumaromãaindanãoparanoi
cizada”comoasuairmãdesdobradaemmonstrosagressivos.Numavisãogeral,
atenteseparaofatodequeotemado“sonhoaindaéofiocondutordoquadro.
JáJulesFrançoisDupuis,quenãosimpatizamuitocomodesavergonhado
mercantilista Avida Dollars – comoBreton anagramizou onome do catalão(e
estesimplesmenteadorou)–,forneceemsua
Históriadesenvoltadosurrealismo
umexercíciotípicodeaplicãodométododorinoceronteàpoesia.E,comoé
bemdogostosurrealista,partindodoexemplodaonipresenteVioletteNozières,
musadosparricidas:
Dalí inventa a técnica da paranoia crítica”, que define como o
métodoespontâneodeconhecimentoirracionalbaseadonaas
sociãointerpretativacríticadosfenómenosdelirantes”.Aplica
85
onomeadamenteaVioletteNozières,cujasextensõesparoními
casnazières,nazi,dinazos,nez,lheditamumarepresen
tãonásicacujosimbolismosexuallembra,simultaneamente,a
garridice da jovem e a tentativa de estupro do pai. (DUPUIS,
2000,p.79)
Em Roberto Piva, sobretudo na maioria dos poemas de
Paranóia
, esses
exercícios de expansão imagética através de um olhar que funde consciente e
inconscientenumplanoconcretoúnicosãoconstantes.Tomese,porexemplo,o
poemaRuadasPalmeiras,noqualumpasseioaoentardecerporumaruamo
vimentadapodesetransformarnumaodisséiadeimagensviolentas:
Minha visãocomoscabelospresosnosrumoresdeumaruao
solfazendofloresceraspersianaspordetrásdofumo
MeuimpulsodeconquistaraTerraviolentamentedescendouma
ruagasta
Minha vertigem entronando a alma violentamente por uma rua
estranha
Os insetos as nuvens costuram o espo avermelhado de um
céusemdentesascopeirasseestabelecemnassacadaspara
gritar
Osanguefermentadebaixodastábuas
MeninassaemdemãosdadassemqueaTardedeixemarcanas
unhas
OndeestátuaalmasemprequeovelhoAnjoconquistaasárvo
rescomseusêmen?
Osaviõesdesencadeiamumasaudademetálicadooutroladodo
mundo
Colunasdevômitovacilampelosolhosdosloucos
Corposdebebêsmortosapontamnadirãodeumapravazia
Otapumeosvultosmeudelírioprestesaseremobliteradospelo
crepúsculo
Almasinoxidáveisflutuandosobreaestãodasangústiassua
rentas
86
Aspalavrascobremcomcaríciasnegrasosfiostelefônicos
Noaroventonaspoçasasbocasapodrecemenquantoanoite
soluçanoaltode umaponte.
(PIVA,2000,101,103)
Aqui,osimplescontrastedeluzesombrarealizadopelosoldocrepúsculo
sendofiltradoporentreaslâminasdeumapersianatornaestafértildefloreslu
minosas; escapamentos de automóveis se tornam olhos de uma agressividade
insana,vomitandoafumanegradaloucuraqueenxerga,semão.E,quando
aspalavrascobremcomcaríciasnegrasosfiostelefônicos,éprecisoatentarao
outroartistaqueconjugasuapoesiaaoladodeRobertoPivaem
Paranóia
:oar
tistaplásticoWesleyDukeLee,quejuntaaopoema,napágina102(apêndiceB,
figura 01), a foto de umletreiroluminosoque sesobrepõe à fiãodos postes
telefônicos,dialogandosuaimagemvisualigualmenteparanóicaàimagemmental
proporcionadapelopoemadePiva.
WesleyDukeLeeéumartistavisualquealcançougrandenotoriedadena
décadadesessentaeadiante,aomesmo tempoemque os poetasda gerão
dosNovíssimos,principalmenteduranteoperíododorealismomágico,surgido
àépocadas tendênciasneofigurativassurrealizantes (as neofigurõesfantásti
cas e os neosurrealismos), ou seja, relacionadas ao processo de revitalização
surrealistanopósguerra.Essastendênciasseabriramàutilizaçãodediferentes
meiosexpressivos,oriundosdeváriosmovimentosartísticos:abstracionismolírico
eexpressionismoabstrato,dadá,
pop
,entreoutros(ALVARADO,1999,p.19)
Adenominãorealismomágico,noqualDukeLeefoiclassificadoeque
serelacionavatambémaummomentodetransiçãometafísica”,reuniadoister
moscontraditórios:oprimeirodenunciavaseucompromissocomarealidade,pre
cisamente com a realidade cotidiana, escavada, recortada e representada, se
guindoosesquemasimaginativosdamitologiapessoaldoartistosegundo,su
asraízesfantásticasesurrealistas.Osdoistermosestavamemsituãodeos
mose ininterruptaentrereferênciasàrealidadeeàfantasia.Esse processo não
ocorreriamedianteoautomatismopsíquico,massimpelacontínuaeassociativa
evocãofantasiosa”.(ALVARADO,1999,p.21)Ouseja,algoqueroçaoefeito
pretendidoporDalípeloentrechoquedapercepçãorealeapercepçãoaumenta
dadodelírio.Nãoéàtoaqueessaidentificaçãorendeuàprimeiraediçãode
Pa
87
ranóia,
e suarepublicão em2000, um conjuntodeaproximadamentesetenta
fotosdeWesleyDukeLee,todasemdiálogoconstantecomospoemassemque
nempoema,ne mfotografiaperdessemsuaidentidadeesuaindividualidadeco
municantes;suasleiturasconjuntas,aocontrário,ampliamaindamaisoalcance
davisãoparanóicasobreacidadedeSãoPaulo.
OutroexemplododlogoentrefotoepoemaéoVisãodeSãoPauloà
noite:PoemaAntropófagosobNarcótico,cujotrechoinicialforacolocadonain
troduçãodestecapítulo.Pivaoferecenessepoemaumaimagemfluida,liquefeita
dacidade,desfilandopessoaseestruturaseidéiasdiluídaseemumavelocidade
vertiginosparanoicamente,avidanoturnadacidadesetornaalgumtipodecria
turaviva,rastejanteeviscosa,eDukeLeeatraduznafotodapágina35(apêndi
ce B, figura 02),o tumultovivo de uma avenidapaulistana formando umrio de
luzes,eque,soboefeitodopretoebranco,tornaqualquercontornodifuso,mis
turado,liquefeito,intensificandoasensãoviscosadessacorrentezamecânica
e,aomesmotempo,estagnada.Nopoema“JorgedeLima,panfletáriodocaos:
Foinodia31dedezembrode1961quetecompreendiJorgede
Lima
Enquanto eu caminhavapelas pras agitadas pela melancolia
Presente
Naminhamemóriadevoradapeloazul
Eusoubedecifrarosteusjogosnoturnos
Indisfarçávelentreasflores
Uníssonosemtuacabadeprataeplantasampliadas
(PIVA,2000,85)
Umdospoemasmaisdelicadosdolivro,dedicado aomestrexamãmaisvelhode
RobertoPiva,Wesleyutilizaraduasfotosemdiálogo:napágina82(apêndiceB,
figura03),antesdopoemaemsieladeandootítulo,umaindefinívelauréolade
luzdifusa,quaseumabocadefogão,outalvez umluminosodepostodegasolina
(impossíveldefinir),marcaaposiçãosantificadadeJorgedeLima,comoummi
lhão de vagalumes trazendo estranhas tatuagens no ventre” a corálo bem ao
centrodolivro;nafotoseguinte(apêndiceB,figura04),umbarrildecombustível
daEsso,envoltoporummatagalesbatidopodetantosignificarumavitóriadana
88
tureza contra o símbolo por excelência do progresso destrutivo humano, como
tambémpoderepresentarofogovital,aigniçãodademiurgiapoéticaquerepre
sentaparaPivaoa utorde
InvençãodeOrfeu
,coroadopelanaturezaviva,rarana
cidadeequeconstantementeaparecedomadanospoemasenasfotos,ridiculari
zadapelafigurademulheresmacacoecãesfantasiados,ounaestáticapetrifica
çãodosanimaistornadosestátua,naturezamortaedomada(apêndiceB,figura
05).
JáquefoimencionadoJorgedeLima,omestrexamãquemostrariaaRo
bertoPivaasuavocãocurandeiradepanfletáriodocaose criadordemun
dos,éprecisoapontarparaoutromestre,aquemopoetaofereceumaposãode
intensorespeito:omodernista Mário deAndrade,autorde
Paulicéiadesvairada
,a
pedra fundamentaldo movimentodo grupo de1922, como
Paranóia
servira ao
mesmo propósito quarenta anos mais tarde, modernizando nosso modernismo,
comoserefereClaudioWilleràessarelãoentreambosospoetas(2005,153).
AprimeiramençãoaMáriodeAndradeaconteceemVisão1961”,transmutado
deumamaneiraginsberguiananumaentidademística,deslocandoaatençãodas
alucinõesdePivaparauminfinitoprofundoqueestámuitoalémdascaixas
dematériaplástica:
minhasalucinõespendiamforadaalmaprotegidasporcaixas
dematériaplásticaeriçandoopêloatravésdasruasilumina
dasenosarabaldesdelábiosapodrecidos
nasolidãodeumcomboiodemaconhaMáriodeAndradesurge
comoumLótusoclandosuabocanomeuouvidofitandoas
estrelaseocéuquerenascemnascaminhadas
(PIVA,2000,08)
OutraapariçãoimportantedeMárioem
Paranóia
,semprecumprindoopa
peldeespíritoguia,sedánopoemaNoParqueIbirapuera”,quedescreveuma
caminhada no referido parque, que por sinal é uma das maiores presenças de
naturezavivaemSãoPaulo,aindaquetenhaseusgramadosregulares.Mário
surge,manifestadotalvezporessapresençaverdejante,comoumanjodaSoli
dão.Essepoematemumaconstruçãointertextualquegeraumjogodeespelhos
que o desdobra umas quatro vezes; um
mise en abîme
de proporções crítico
89
paranóicasdignadoSonhocausadopelovôodeumaabelha...”deSalvadorDa
lí.
NosgramadoregularesdoParqueIbirapuera
UmanjodaSolidãopousaindecisosobremeusombros
Anoitetrazaluacheiaeteuspoemas,MáriodeAndrade,regam
Minhaimaginão.
(...) 
Éimpossívelquenãohajanenhumpoemateu
Escondidoeadormecidonofundodesteparque
Olhoparaosadolescentesqueenchemogramado
Debicicletaserisos
Euteimaginoperguntandoaeles:
OndeficaopavilhãodaBahia?
Qualé oprodoa mendoim?
Évocêmeugirassol?
(PIVA,2000,122)
NoParqueIbirapuera”éumpoemaintimamenteaproximadoaopoemade
AllenGinsbergUmsupermercadonaCalifórnia”,noqualopoetabeatrendeho
menagemaWaltWhitman:
Como estive pensando em você esta noite, Walt Whitman,
enquantocaminhavapelasruassobasárvores,comdordeca
ba,autoconsciente,olhandoaluacheia.
(...) 
Euovi,WaltWhitman,semfilhos,velhovagabundosolitário,
remexendonas carnes do refrigerador e lançando olhares para
osgarotosdamercearia.
Ouviofazerperguntasacadaumdeles:Quemmatouascoste
letasdeporco?Qualoprodasbananas?SerávocêmeuAn
jo?
(GINSBERG,2005,49)
90
Umjogointrincadodeanalogias:opapelqueWaltWhitmanexercerasobre
apoesiadelínguafoitãopoderosoqueinfluenciaranãosomenteosEstadosUni
dos,mastambémsobrepoetasdasmaisvariadaspartesdomundo,comoFede
ricoGarciaLorcanaEspanha,eFernandoPessoaemPortugal,ambosintegran
tesdaformãoartísticadeRobertoPivMáriodeAndrade,aindaqueemme
norescala,tambémfoiumrevolucionador,enquantofiguradeliderança domo
dernismo brasileiro. Allen Ginsberg, assim como o resto de sua gerão, devia
muitodeseuestiloaWhitman,ePiva,porsuavez,eradevedordobeat,princi
palmenteem
Paranóia
,ondeseusreflexossemostramaindamuitocontundentes.
OpoemaNoParqueIbirapuera”aproximatodososquatroaumsótempo,dese
nhando uma genealogiadapoesiacontemporâneaem quatrogerõesdiferen
tes.
SesepensarnaexperimentãodacidadedeSãoPaulo,talqualédese
nhadaem
Paranóia
,comoumajornadadorecéminiciadonoxamanismopoético
aosinfernos,cadapoemasendoumdoscírculosdeste,MáriodeAndrade,mes
mo de longe, atua como um Virgílio, apontando suas saídas, o caminho para
longedosperigos,aomesmotempoemqueindicaostormentospelosquaisRo
bertoPivadevesuportar,seucorpoementesendoestralhado,atéqueades
cobertadeseuspoderescurativosseapresentem,comaaberturadosbolsosda
mente”,àsportasdesda.Aalusãoà
Comédia
deDanteAlighierinãoégratuita,
umavezqueestetambéméumdosmestresxamãsdeclaradosdePiva,comoé
reveladono“ParaísodeCiclones:
Dantefoibruxodafamília
Visconti
Seusdedosvioletacriaramfórmulas,
venenos&purgatóriossemcorão
Nomês9nodia9nahora9
ficou9diascomfebre
Todasasnovidadesestão
NoInferno
(PIVA,2008,97)
91
4.2.
Ciclones:
umvôoxamâniconuma
jamsession
Apessoadestinadaatornarsexamãcoma
asertomadaporacessosdefúriae
depoisperdearazãorepentinamente,
retira separaasflorestas,alimentasedecascas
deárvore, jogasenaáguaenofogo,ferese
comfacas.”
Mircea Eliade,
Oxamanismoeasformasarcaicasdoêxtase
,p.29
Houveumintervalodemaisdedezanosentre
Quizumba
,de1983,eapu
blicão de
Ciclones
, publicado em 1997, composto totalmente por poemas de
inspirão profundamente xamânica, escritas não apenas entre esse intervalo,
massimdesdesempre.NaentrevistaconcedidaporRobertoPivaà
FolhadeSão
Paulo
, por ocasião da republicão de
Paranóia
, o poeta esclarece sua noção
acercadacriãopoética,eoestatutoreligiosoqueaelaemprega:
Poesiaéinicião,umalinguagemhermética.Osprimeirospoe
tas eramxamãse curandeiros,assimcomooteatrona Grécia
antigaeraumteatrodecura.Pensoquetodososbrontossauros
estéticosserãoafastadoseaspessoasterãodelevarminhapo
esiacorpoacima.Ocarátercentáuricodaminhapoesiaconsiste
emqueelaselançadofundodomundomágicoatéasesferas
maisaltasemaislivres.(2000 )
Paradesenvolversuapoesia, Pivautilizoudochamado“métodoparanóico
crítico,desenvolvidoporSalvadorDalíequesetornouumadaspilastrasdaes
téticasurrealista,oquejustificaopróprionomedolivro.Assim,lançandoumolhar
paranóicosobreacidadequeorodeia,opoetasentiutodaadesconfiança, todoo
pavorclaustrofóbicodoconcretoedoasfalto,eprincipalmente,extrapoloureali
dadesalémdarealidadesensorial,multiplicandoametáforaemcimadametáfo
ra,logo,alcançandoarealessênciasurrealista.Oconcretodacidadedosmor
tos,comoPivachamaacidade,mortaaoschamadosdoxamãeseusancestrais
92
e espíritos selvagens, não é percebida como matéria estática, atada num
rigor
mortis
, mas é tomada simem toda a suadescontinuidade essencial,matériae
sentidoscruzandoosgrandesesposvaziosdoplanosubatômicoqueapenaso
paranóicoconsegueenxergarcomseusolhosdedesconfiança.Décadasapósa
publicão de
Paranóia
, Roberto Piva publica em
Estranhos sinais de Saturno
,
coletâneadeinéditoslançadaem2008noúltimovolumedesuaobracompleta,
umpequenopoemaqueparecejustificar,logonoinício,seurealposicionamento
dentrodacriãodesuatal“poesiaurbana”:
III
Souopoetanacidade
Nãod acidade
gostodasextensõesazuladasdas
últimasmontanhas
contemplarnasestradasdetopázio
oanzoldasconstelões
(2008,122)
Agora,trinta equatroanosseparam
Paranóia
de
Ciclones
.Opoeta final
mentesevêlibertadodomalestarurbanocomestapublicãoem1997,umvo
lumequeabarcasuaproduçãoapartirde1980,finalmenteestabelecendoseco
moo“poetaxamânicoquesesempresedeclarou.
Releases
escritosàépocade
suapublicãovendemerroneamenteolivrocomoumaespéciedeconclusãode
estudosrealizadosporPivaacercadoxamanismo.Obviamente,essesresenhis
tasouviramoAvôUrubucantarenãosabemonde.
Nãoháumaconclusãodeestudosemtornodoxa manismoemRoberto
PivaporqueNÃOPODEHAVERuma“conclusãoparaumavivênciaquepermeia
todaasuavidadesdeainfância,equenãodeixadeestarpresente,sobosmais
diversosaspectos,aolongodetodaacarreirapoéticadePiva,de
Paranóia
a
Es
tranhos sinais de Saturno
. Um amadurecimento enquanto legítimo xamãpoeta,
talvez,aconsagrãodesuaprofissãodefé.
Em um ensaio introdutório publicado em
Estranhos sinais de Saturno
(o
qualcontémareproduçãode
Ciclones
),AlcirPécoraapontaumapossibilidadede
93
leituradessexamanismoprofessadoporPivaqueultrapasseumaexegesesim
bólica”,para usarpalavrasdeles.“Maisprecisamente:esepensarmosqueofun
damentalnessespoemaséaconstrução sistemática de umlocuspoético,alta
mentereflexivoeartificial,noqualonomexamãémetáforaenãoinstâncialiteral
oudeverdade?(PÉCORA,2008,09)
Arespeitodeumxamanismodatécnicapoética,comocogitaPécora,o
próprioPivafazsualeituradoatodepoetizarmístico/metafórico,emumaentre
vistaàrevistaCoyote”:
Poesiaxamânicaépoesiadoinconscientecoletivo.Nadefinição
de Octavio Paz,poesia é a perversão do corpo– que, aliás, é
uma das mais belas definições de poesia. A outra é de André
Breton:poesiaéamaisfascinanteorgiaaoalcancedohomem.
Paramim,apoesiaésemprexamânica,eopoetaésempreum
xamã.Artaudaproximaapoesiadafeitiçaria.Kerouacdiziaque
osmúsculoscontêmaessência,então,praqueescrever?(...)O
próprio Kerouac responde:continuar escrevendopra nada. (PI
VA,2007)
ConsiderandosenessaslinhasentrevistadasRobertoPivaofereceescan
caradaasua“artepoética”,oumelhordizendo,oseu“credopoético,entãopode
seacenaremconcordânciaparaasugestãodeAlcirPécoraecompreenderque
RobertoPivafazseuxamanismopoéticodesdesempre,desdeotempoemque
seusversossesituavamnotopos daesterilidade cinzenta,comovistoanterior
mente.Mas,éclaro,nãosepodedeixardeladoacompreensãosimbólicadoxa
manismoemPiva,efazseimportanteobservaradimensãomísticaqueengloba
tanto
Ciclones
quantoopróprio
Paranóia.
Primeiroaquestãomaisóbvia:oqueafinalRobertoPivaentendeporxa
manismo?Seriaapenas umazonatemática”,se seguirmosapropostadeAlcir
Pécora,ouexisteumavivênciamísticadefato?Talresposta étambémdadapelo
poeta ementrevista,acentuandoaindamaisoscontornosvislumbradosem
Ciclo
nes
.DizPivaparaaFolhadeSãoPaulo:
94
Eufuiiniciadonapiromanciaaos12anosdeidadeporummes
tiçodeíndio com negro.Em1961, comprei
o Xamanismo e as
técnicasarcaicasdoêxtase
,do(mitólogoromeno)MirceaEliade.
FizleiturasdesselivrocomCláudioWiller,AntonioFernandode
Franceschi, Rodrigo de Haro. Ficamos impressionados com as
palavrasdoEliade.Pesquiseicandomblé,umbanda,xamanismo,
fuiiniciadonocatimbó,tomeivinhodejuremaetudo.Éumaex
periênciaespiritual ampla. Aplicoentãoastécnicasarcaicasdo
êxtase–queéadefiniçãodexamanismodeMirceaEliade–na
poesia.Istoé,seguiroseuêxtase,asuaintuição,oseumaravi
lharse.ÉomaravilhosocotidianodequefalavaoBreton.(2000)
Oxamanismosefazpresenteemsuatrajetóriapoéticadesdeaformão
dogrupodosNovíssimosesuasrodasdediscussãoacercadosurrealismoea
beatgeneration
,quandoogrupofoiapresentadoàportentosaobradomitoanalis
taromenoMirceaEliade,
Oxamanismoea sformasarcaicasdoêxtase
,obraque,
juntoao
Tratadodahistóriadasreligiões
,formaocorpusdefinitivodoestudodo
imaginário,juntoàspsicanálisesdosquatroelementosdeGastonBachelard,
As
estruturasantropológicasdoimaginário
de GilbertDurandeos estudossobreo
imaginalmuçulmanodeHenriCorbin.Assim,sabendodoconhecimentolivresco
aquePivateveumaaproximão,umachaveparaainterpretãodeseuspoe
masestágarantida.
AocontráriodoportuguêsHerbertoHelder,queéocriadorremodeladordo
xamanismo,RobertoPivaé umcriadorsincretizador,fundindoerecombinandoos
maisdiversossistemasmísticos,achandopontosemcontatocomavisãopara
nóicocrítica, misturando tudo num caldeirão primordial panteísta. Em
Ciclones
nãoháapenasumanomenclaturaestritamentexamânicapolar,comoestabele
ce Eliade em seulivro: o termoxamã sedistribuiaolongodolivro comtermos
como“exu,ebóeaxé”;Zeus,“Dionysos,“Hermes;hámençãoaShivajunto
aoÂngelusSilesius(p.99);háoSatori alcançadoatravésdeum“solodesax(p.
47);hámesmoumacomparãoentreoxamã,mencionandoinclusiveotambor
gavião(osguiasdoxamã)  eodervixe,ascetamendicantedoislamismosufi(o
popular faquir) (p.65), o que é uma aproximão simbólica bastante curiosa:
emboraoxamãeodervixecumprampapéisbemdistintosdentrodesuassocie
95
dades,oqueosunepoeticamenteaosolhosdeRobertoPiva–equeunetam
bémtodososelementosdísparesdasmaisdiversasreligiões–éoêxtase,motor
principaltantodomísticoquantodopoético.Éatravésdessabuscadoêxtase,a
curaxamânica,emesmosua posturamarginalperantea sociedadequea ele
recorre – mas não o tem como líder espiritual da religião oficial – que o xamã
tambémseaproximadopoeta.
Ao longo dolivro,Roberto Piva arma um panoramadaprática xamânica
bastanteafimàpesquisa empreendidaporMirceaEliadeacerca do xamanismo
siberianoecentroasiático(tártaro,buriate,iacuto),regiãodomundodeondepro
vém
strictosensu
essapráticareligiosa–Eliadeexplicaqueapalavraxamã”en
trou no vocabulário ocidental através da ssia, pela palavra tungue
saman
, a
qual, especulase,poderiaterderivadode
samana
,dalínguapáli,queacenaria
paraumainfluênciaindiana da prática religiosa(ELIADE, 2002, 16). Apesar da
origemnosconfinsremotosegeladosdaÁsia,muitaspráticasmágicoreligiosas
possuem similaridades extáticas com o xamanismo, levando à crença geral de
quetodocurandeirooufeiticeiroéumxamã.Magiaemagoshápraticamenteem
todoomundo,aopassoqueoxamanismoapontaparaumaespecialidademá
gicaespecífica,naqualinsistiremosmuito:o“domíniodofogo,ovôomágicoetc.
Porisso,emboraoxamãtenha,entreoutrasqualidades,ademago,nãoéqual
quermagoquepodeserqualificadodexamã.”(ELIADE,2000,17)Enquantopoe
ta,RobertoPivademonstratodaasuaespecialização.
Diversos elementos básicos do xamanismo constituem o cerne dos poe
masde
Ciclone
s.Oprimeiroeomaisimportantedeleséojámencionadovôo
mágico,quecapacitaoxamãarealizaraviagemastral,elementoquelheatribui
a condição fundamental de psicopompo, ou seja, o condutor dos espíritos dos
mortose interlocutor entre os dois mundos.Paraastradiçõesxamânicas, essa
viagemémuitasvezesempreendidasatravésdeumduto,comosefosse,
gros
somodo
,umelevador:geralmenteérepresentado comatributosascensionais,de
formaaligarverticalmentecéueterra–e,claro,atravessandoomundoinfernal.
Pode seruma escadariacompostapormetaiseelementosdiversos,oumesmo
umapilastrainvisívelentreaterraeumadeterminadaestrela,maséfreqüente
menterepresentada,emmuitasculturas,comoumagrandeárvore,depreferência
umpinheiro.Énessepinheiroquepodeocorreraincubãodosespíritosdefutu
rosxamãs,comojáfoirelatadoacercadomitoiacuto,oudelepodeviramadeira
96
queserá ofertada ao iniciado para que este fabrique seupróprio tambor, igual
mente dotado de poderes de vôo mágico. Em Piva, esse caminho para outros
planosjáestádefinidonoprópriotítulodolivro:umciclonepoderiamuitobemser
interpretadocomoumcanalparaovôomágico,umavezquerepresentaumaes
truturavertical,ascensional,formadaporventosqueseoferecemparaqueopoe
taxamãoscavalguerumoaoscéus.Estandootítulodolivronoplural,podese
interpretarquecadapoemaéumapassagemparaotrânsitoentreplanosdeexis
tênciaerealidade.
Égrandea ocorrência de imagens ascensionais,aérease astraisem
Ci
clones
,indicandoarelãoqueRobertoPivatemagoracomapoesia:enquanto
Paranóia
oprendiaopressivamenteaochão,repletodeimagensduras,obscure
cidas eextremamenteterrestres,esselivroapresentaumPiva transcendendoa
paranóiadarealidadehumana,galgandoentreplanos.Osversossãomaisleves
ecurtoseasimagens,maisenxutas.Outrosímbolorelacionadoaovôoxamânico
éodaavederapina,queaquiaparecediversasvezescomoogavião.Aavede
rapina ocupa uma posão privilegiada no bestiário xamânico, pois, ao mesmo
tempoqueédotadadopoderdevôo,suarelãocomamortelhetornatambém
umpsicopompo;alémdisso,seushábitoscarniceirosacumulamparaopássaro
aindaodomdoensinodacura–umavezqueofuturofeiticeiroélevado,emseu
sonhoiniciático,paraumlugarondeseráretalhadovivoeterásuacarne,ossose
órgãos devorados por demônios que representam as doenças, para que assim
aprendaarealizaracura.Oanimaltambémsurge comoumaentidadedivinaque
assumepapéisiniciáticos,comoaAvedeRapinaMãeeoAvôUrubu,estesendo
oespíritodoantigoxamãfalecidodaregião.EmRobertoPiva,aimagemdaave
derapinaassociadaaovôomágicoapareceempoemascomoLamentodopagé
UrubuKaapor(p.70),GaviãoCaburé”(p.67)e,emespecial,Ritualdos4ven
tos&dos4gaviões:
AliondeogaviãodoNorteresplandece
suasombra
Aliondeaaventuraconservaoscascos
dovodudaaurora
Aliondeoarcoírisdalinguagemestá
carregadodevinhosubterrâneo
97
Aliondeosorixásdançamnavelocidade
depurosvegetais
Revoadadaspedrasdorio
OlhosnocircuitodaUrsaMaior
nainvestidalouca
Olhosdemetabolismofloral
Almofadasdefloresta
Focinhosilenciosodasuçuaranacom
passosdesabotagem
CarnericadeExunascourasdanoite
Gaviãopretodooestenatempestadesagrada
Incendiandoseucrânionofrenesidasaçucenas
Bateotambor
noritmodossonhosespantosos
noritmodosnaufrágios
noritmodosadolescentes
àportadoshospícios
noritmodorebanhodeatabaques
Bateotambor
noritmodasoferendassepulcrais
noritmodalevitãoalquímica
noritmodaparanóiadeJúpiter
Caciquesorgiásticosdotambor
Commeu
Skate
gavião
TambornaviradadoséculoGanimedes
Iemanjácomseuscabelosdeespuma
(PIVA,2008,7273)
Ossímbolosdevôoaquinãosecircunscrevemapenasaos4ventoseos
4gaviões.Ummomentodedelicadafusãoentrepoesiaexamanismosurgena
imagemdoarcoírisdalinguagem,umavezqueoarcoíriscumpreafunçãode
ponteentrea TerraeoCéunasmaisdiversasculturas(daCobraArcoÍrisaustra
lianaàponteBifrostdosescandinavos),aludindoaumtempoemqueacomuni
cãoentreoCéueaterraerapossível;emdecorrênciadedeterminadoaconte
98
cimentooudeumatransgressãoritual,acomunicãofoiinterrompida,masos
heróise os
medicinemen
aindasão capazes de restabelecêla(ELIADE, 2002 ,
155156).Comumarcoírisdalinguagem,opoetaganhaapermissãodatrans
cendência,recuperaoelocomodivino.Amdisso,apalavranessepoemaga
nhaumritmoassociadoàpresençadotambor,estetambémuminstrumentopara
ovôo mágico,comojáfoidito,equeaparecefundidoàpalavra“gaviãonoúltimo
poemadasérie“BR116”(p.64).
Porfim,aconsagrãoxamânicapelosrituaisdecuraespiritual,presentes
emPoemasvioletasdacuraxamânica”eVIIcantosxamânicos,quedeveser
alcançadaatravésdosalimentosdosdeuses,asdrogasalucinógenas.Ovioletaa
queospoemasserefereméesclarecidoemumaepígrafedeT erenceMcKenna,
quediz:“foiesseincidentequedespertoumeuinteressepelosfluidosvioletasque
dizemsergeradosnasuperfíciedapelepelosxamãsdaAyahuasca,equeeles
usamparaadivinharecurar(apudPIVA,2008,76).Ayahuasca,tambémconhe
cidacomooyage”queWilliamBurroughsprocuraranosanoscinqüenta,éuma
substânciaincrivelmentepoderosapreparadanaAmazônia,famosaporterpro
priedadestelepáticas.
OsíndiosdizemqueoyageéumpresenteespecialdeDeuspa
raosíndiosesó paraosíndios.Yageénossaescola,yageé
nossoestudo,elesafirmam,eoyageétidocomoalgosimilarà
origemdoconhecimentoesuasociedade.Foioyagequeensi
nouaosíndiosobomeomal,aspropriedadesdosanimais,re
médioseplantascomestíveis.(DEKORNE,1994,168)
JimDeKornetambémafirmaqueadrogaétãopotenteparaseuusooral
queénecessárioqueumadietaespecíficasejapraticadapelofeiticeiro(ovege 
talista”),incluindoabstinênciasexual.Ocorpodeveserpurificadoparacomungar
comoreinodoespírito(1994,170).
EmRobertoPivaacolorãodaayahuascatornaseumsinônimodecura,
entoandonumencantamentoritual“olhosvioletadosretratosdeModigliani/olhos
violetadoLSD/olhosvioletadomaraberto,masaabstinênciasexualéoposta
aoritualdecuraapresentadodurantetodoolivro;nestepoema,osexomasculino
seapresentacomoocaminhoparaasdedoespírito:
99
caralhopopShiva
curador
puraparcialidade
consangüínea
procurandooTao
emmim
sorrindoumavez
mais
aoalcancedavisão
(PIVA,2008,80)
A farmácia curandeira de Piva prossegue ao longo dos Cantos xamâni
cos,naformadepeiote,cogumelos,morangossilvestres,etambémoalimento
espiritualquesecombinacomestes:apoesia.Juntoaestassubstâncias,Rober
toPivatambémlistapoetascomoRenéCrevel,GérarddeNerval,Homero,Willi
amBlake,FernandoPessoa,VirgílioeHomero.QuandoAlcirPécoraafirmaque
aliteraturadePivalevaasério,mais do quequalqueroutra coisa,opoderda
próprialiteratura” (2005, 14), entendase que o poetaxamã não apenas vive e
respira a literatura, mas respeitaa com o mesmo fervor sagrado que os índios
respeitamoyage.RobertoPiva,opoetaxamã,conheceosriscoseasdádivasda
poesiaalimentodosdeuses,sabeusálaparaadestruiçãoetambémparaacura.
RobertoPivanãoéapenasumpanfletáriodocaos.Étambémumcuran
deirodocosmos.
100
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106
ApêndiceA
Umbazarico nográficodasb elezassurrealistasdealéme
aquémmar
107
Aurendezvousdesamis,
MaxErnst(1922)
Àfrente:RenéCrevel,MaxErnst,FyodorDostoievski,JeanPaulhan,Benjamin
Péret,TheodorBaargeld,RobertDesnos.
Aofundo:PhilippeSoupault,HansArp,MaxMorise,RafaelSanzio,PaulÉluard,
ThéodoreFraenkel(atrásdePaulhan),LouisAragon,AndréBreton,Giorgiodi
Chirico,GalaÉluard.Aparentemente,ovultodeLêninapareceentreosrostosde
ArpeMorise.
108
OdepartamentoparaaPesquisaSurrealista,naRuedeGrenelle.Fo
todeManRay(1924)
Depé:CharlesBaron,RaymondQueneau,PierreNaville,AndréBre
ton,JacquesAndréBoiffard,GiorgiodeChirico,PaulVitrac,PaulÉ
luard,PhilippeSoupault,RobertDesnos,LouisAragon.
Sentados:SimoneBreton,MaxMorise,MarieLouiseSoupault
109
Reproduçãodocartazdorecital
6poetsat6gallery
(1955)
110
GregoryCorso,AllenGinsbergeWilliamBurroughs–Fotode
FredMcDa rrah
(1967)
111
SonhocausadopelovôodeumaabelhaemtornodeumaRomãum
segundoantesdeacordar–
SalvadorDalí
(1944)
112
ApêndiceB
A
Paranóia
contadaporWesleyDukeLee
113
Figura01
aspalavrascobremcomcaríciasnegrasosfiostelefônicos
114
Figura02
NaesquinadaruaSãoLuísumaprocissãodemilpessoas
acendevelasnomeucrânio
115
Figura03
eummilhãodevagalumestrazendoestranhastatuagensnovente
sedespedamcontraosninhosdaeternidade”
116
Figura04
eusoubedecifrarosteusjogosnoturnos
indisfarçávelentreasflores
uníssonosem tuacabadeprata eplantasampliadas
117
Figura05
Ninguémamparaocavaleirodomundodelira nte”
MuriloMendes
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