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com os Iny atuais, seus descendentes, nas aldeias durante vários meses ao ano, quando
ficam na casa dos aruanãs
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“Chamados de iasò pelos Xambioá, ijasò pelos Karajá e irasò pelos Javaé, os aruanãs
fazem parte da categoria geral aõni, traduzida por Toral (1992, p. 169) como “os que
parecem ser (diversas coisas)”, referente a todos os seres mágicos e não sociais e que
engloba desde os heróis criadores aos monstros antropomorfos canibais temidos, os aõni
propriamente ditos. Tanto aõni quanto irasò são palavras traduzidas pelos Javaé como
“bicho”, em Português, o que gera alguma confusão, pois não se trata de animais nem de
demônios, esta última uma possível acepção da palavra no Português da tradição popular.
É apenas de uma forma de diferenciar os seres humanos dotados de poderes mágicos, que
se reproduzem magicamente, dos seres humanos terrestres sociais, cuja reprodução é
física. A palavra “aruanã” é a tradução portuguesa (de origem tupi-guarani) para irasò, o
nome do peixe amazônico osteoglossum bicirrhosum... É importante deixar claro que os
aruanãs não são peixes, mas apenas os humanos mascarados mágicos e não sociais que,
na maior parte, vivem no nível inferior, abaixo das águas, e que comparecem aos rituais
realizados pelos humanos terrestres. Esses humanos que ficaram debaixo das águas ou
para lá retornaram, transformando-se em aruanãs, são “parentes” dos que saíram e aqui se
tornaram humanos sociais. “ (Rodrigues, p. 274)
, saindo regularmente para dançar com as moças ijadokomã, ou
andar pela aldeia, pedindo comida ou fumo, certificando-se de que tudo está em ordem, ou
exercendo suas agências mágicas ou sociais específicas. Rodrigues esclarece:
Assim como o rio sintetiza na sua imagem a indistinção entre os planos secular e
sagrado, a vida cultural - social e ritual - do povo Iny se pauta na sua direta referência à
cosmovisão Karajá. Os ciclos rituais - como o rito iniciatório do Hetohokã, a festa da "casa
grande" - seguem os ciclos das estações de chuva e seca, de cheia e vazante do Berohokã.
A relação do povo Iny com o Rio Araguaia é uma relação que conjuga a ambiguidade dos
sentimentos de amor e gratidão com medo e respeito. É o rio fonte de vida, prazer, sustento
e ordem – banhos refrescantes no calor do verão, pescado em profusão, e lavagem de
roupas e utensílios domésticos. É de lá no fundo do Berohokã que saem os aruanãs, que
devem ser reverenciados e bem tratados para que sigam zelando pela ordem cósmica e
social. É também no rio onde muitos entes queridos são perdidos, somem para não
aparecerem mais, ou são posteriormente encontrados mortos, por afogamento, ataques de
jacarés, ou outros aõni, bichos monstruosos. As causas são diversas, inclusive atribuídas a
possíveis agravos aos ijasò. A “água grande” é, a um tempo, o dia-a-dia, o corriqueiro, e
também o mistério, o temor e o fascínio sobre o que não se pode conhecer e compreender
completamente.
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Heto Krè, a casa de aruanã ou casa das máscaras, é também denominada a casa dos homens, pois, além de
se localizar no pátio dos homens, tendo sua porta virada para fora da aldeia, apenas estes podem nela
ingressar.