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se esvai o sangue da carne rasgada. Ora, o que se faz durante o behe (açoitamento) é
justamente rasgar a carne do bahinja para lhe extrair o excesso de veneno, como no
processo de extração do tucupi da massa da mandioca
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Assim como os Yekuana e os Waimiri-Atroari ‘cantam’ seus cestos, no mito da
mandioca, ela se revela aos kinja cantando
.
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. O sapo wi’ky é quem, neste mito ensina
os índios a processarem a mandioca e fabricarem seus derivados. A identificação da
planta é feita pelo sapo constatando que ela canta
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Entre os Akawai, a explicação para a flagelação dos homens jovens com pauladas (clubbing) associa
este ato com a abundância da colheita da mandioca, proporcionada pelo “Espírito da Tapioca” (Spirit
of the Cassava). Isto nos dá a ligação entre a flagelação e a mandioca, o que vai ao encontro da minha
hipótese sobre o processo de extração do veneno da mandioca e o ritual como extração do ‘veneno’ do
menino: “On the Orinoco Gumilla was informed that the whipping which the young men received at
the time of the clearing of the field was to make them work properly and to cure them of their
laziness, apparently whether they were guilty of the charge or not. Thus among the Saliva, when the
time arrives for clearing the open plains with a view to planting corn, yucca, plantains, etc., they
place the young men in line, some separate from the others, while a certain number of old men
provide themselves with whips and rough thongs made of twisted karaua. As soon as intimation is
given that it is time for work to commence, the whipping of these young men takes place, and,
notwithstanding the cuts and marks which their bodies receive, neither groan nor complaint escapes
them (G, I, 188). Instead of a whipping, a clubbing took place with the Akawai young men (sec. 752).
On the other hand, this flagellation may have had quite another interpretation with a view to insuring a
bountiful harvest from the Spirit of the Cassava (WER, VI, secs. 165, 166)” (Roth, 1925:565-6).
. Apesar de ter sido Mawa seu
descobridor. “Mawa que descobriu mandioca, só Mawa”, diz o informante de Espinola
(1995: 217). A cestaria, o que provavelmente inclui o tipiti, foi dada pelo Xiriminja aos
kinja. Ou seja, o Xiriminja foi quem deu o meio técnico de retirar o veneno da mandioca
brava, assim como foi o primeiro a promover uma maryba de iniciação entre os kinja,
mesmo que malograda. O tipiti e a maryba, ou melhor, o behe, são, portanto, formas de
retirar o excesso de veneno, respectivamente, da mandioca e o instilado no menino
durante a iniciação. Uma passagem do mito de Emymy mostra a intima relação da cobra
grande com o veneno. Quando o Xiriminja estava voltando para as profundezas do rio,
ao se aproximar da água ela começou a borbulhar, como o tucupi fervendo (M4):
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“Essa daí que ta cantado, aí Kinja tirou mandioca, olha aí tirou mandioca. Aí levaram, mostrou, aí
conseguiu, ta bom só esse daí. Aí depois outro dia Kinja ficou alegre. O pau que gritava era de
samaúma, árvore grande. Mandioca cantava, festa. Mandioca cantava festa, cantava. Aí Kinja escutava
música de mandioca, por isso que Kinja descobriu o nome, minja (mandioca). Só minja mesmo botou
nome, por que Kinja escutou música dele. Ah! Vamo bota nome só minja, descobriu nome dele, minja.
Tá falando nome assim, minja, né. Eu sou minja, aí botou nome” (Espinola, 1995: 218)).
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“Aí como é, aquele ... é ... wi’ky (sapo), batata, mandioca de batata. Aí tirava, aí conseguiu fazer beiju.
Ele trouxe beiju. (o que é wi’ky?) Wi’ky é sapo, era Kinja, era Kinja, Aí wi’ky falava: (...) Olha aí
mandioca, vamos tente esse daí. Acho que esse daí tá cantando. Aí mostrou né, tiraram casca, aí
ralaram aí, aí fazer né beiju. Aí deu goma, deu goma. Aí Kinja tentou assar, aí assaram, provou,
comeu. Aí comeram. Aí Kinja gostou: ah! tá bom. Acho melhor esse daí, bom pra gente né (...) Como
é que ele fez tucupi também; cozinharam tucupi. Aí Kinja gostou, ah, ta bom, né, ta bom ....”
(Espinola, 1995: 216).