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A matéria do mundo, nos arranjos de suas inúmeras possibilidades, fornece as substâncias que
o pensamento abarca: as formas do visível são formalizações das matérias do mundo, não os
próprios objetos, mas estados de visibilidade:
“As visibilidades não se confundem com os elementos visuais ou mais
geralmente sensíveis, qualidades, coisas, objetos, compostos de objetos [...]
As visibilidades não são formas de objetos, nem mesmo formas que se
revelariam ao contato com a luz e com a coisa, mas formas de luminosidade.
(DELEUZE: 1998, p. 61)
“Chamava-se conteúdo as matérias formadas que deviam, por conseguinte,
ser consideradas sob dois pontos de vista: do ponto de vista da substância,
enquanto suas matérias eram ‘escolhidas’, e do ponto de vista da forma,
enquanto eram escolhidas numa certa ordem (substância e forma do
conteúdo)” (DELEUZE e GUATTARI: 2004, p.58)
“Cada uma dessas línguas estabelece suas fronteiras na “massa amorfa do
pensamento” ao enfatizar valores diferentes numa ordem diferente, coloca o
centro de gravidade diferentemente e dá aos centros de gravidade, um
destaque diferente. É como os grãos de areia que provém de uma mesma
mão e que formam desenhos diferentes, ou ainda como a nuvem no céu que,
aos olhos de Hamlet, muda de forma de minuto a minuto, Assim como os
mesmos grãos de areia podem formar desenhos dessemelhantes e a mesma
nuvem pode assumir constantemente formas novas, do mesmo modo é o
sentido que se forma ou se estrutura diferentemente em diferentes línguas,
São apenas as funções da língua, a função semiótica e aquelas que dela
decorrem, que determinam sua forma. O sentido se torna, a cada vez,
substância de uma nova forma e não tem outra existência possível além da
de ser substância de uma forma qualquer. (HJELMSLEV: 1978, p. 200)
A arquitetura reúne matérias físicas como o concreto, o vidro ou o aço, e matérias não físicas
como o vazio e o tempo, que se tornam corpos ao admitirem uma forma de serem exprimidos.
Um desejo, o do arquiteto, se pronuncia no arranjo destas possibilidades, na técnica de
agrupamento das multiplicidades materiais: o desejo da geometria de um espaço, da simetria
entre as partes, da educação do olhar e do espírito na arquitetura moderna ou da existência das
gentes na arquitetura e na cidade como em Aldo Rossi para quem as construções ou áreas da
cidade, que tenham relevância, fatos urbanos, possuem uma singularidade que “depende mais
da forma que da matéria, ainda que esta tenha um papel importante; depende também de a
forma ser a sua forma complicada e organizada no espaço e no tempo”. (ROSSI: 1998, p. 16)