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MarleneMariaGallo
Aconstruçãodamulherguerreiraem
MemorialdeMariaMoura
–dolivroàminissérie
Marília
2007
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Livros Grátis
http://www.livrosgratis.com.br
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MarleneMariaGallo
Aconstruçãodamulherguerreiraem
MemorialdeMariaMoura
dolivroàminissérie
Dissertação apresentada ao curso de Pós
graduação em Comunicação, da Universidade de
Marília, área de concentração “Mídia e Cultura”,
linhadepesquisa“ProduçãoeRecepçãodeMídia”,
comorequisitoparaobtençãodograudeMestre.
Orientadora:
ProfDr.ªSuelyFadulVilliborFlory
Marília
2007
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Gallo,MarleneMaria.
G172cAconstruçãodamulherguerreiraem
MemorialdeMariaMoura
:
dolivroàminissérie./MarleneMariaGalloMarília:UNIMAR,
2008.
199f.
Dissertação(MestradoemComunicação,MídiaeCultura)–Facul
dadedeComunicação,EducaçãoeTurismo,UniversidadedeMarília,
Marília,2008.
1.Televio–AspectosSociais2.Minissérie3.Adaptação4.Ro
mance5.NarrativaI.Gallo,MarleneMariaII.Aconstruçãodamu
lherguerreiraem
MemorialdeMariaMoura
:dolivroàminissérie.
CDD–302.2345
UniversidadedeMarília
FaculdadedeComunicação,EducaçãoeTurismo
Reitor
MárcioMesquitaServa
ProgramadePósgraduaçãoemComunicação
Coordenadora:Prof.ªDr.ªSuely FadulVilliborFlory
Áreadeconcentração
MídiaeCultura
Orientadora
Prof.ªDr.ª SuelyFadulVilliborFlory
FOLHADEAPROVAÇÃO
A construção da mulher guerreira em
Memorial de Maria Moura
 do livro à
minissérie
Mestranda:
___________________________________
MarleneMariaGallo
BancaExaminadora
Prof.Dr.AntonioManoeldosSantosSilva
Julgamento:________________________Assinatura:_________________
Prof.ªDr.ªCleideSantosCostaBiancardi
Julgamento:________________________Assinatura:__________________
Orientadora–Prof.ªDr.ªSuelyFadulVilliborFlory
Julgamento:________________________Assinatura:__________________
Marília,14dedezembrode2007
Dedicoestetrabalhoa:
Meuesposo,Mauro,companheirodetodos
osmomentos,bonsemaus,emeumaior
incentivador;
Meusfilhosamados,FernandoeRafael;
Meuspaisterrenos,peloapoioincondicional.
AGRADECIMENTOS
PrimeiramenteaDeus,pelaforçaepersistênciadadasacadadia;
À minha orientadora, Professora Doutora Suely Fadul Villibor Flory, pelo apoio,
parceria,carinhoededicaçãoduranteaelaboraçãodestetrabalho;
Ao meu esposo, que me apoiou e incentivou continuamente, sempre com muito
amor;
Aos meus filhos, por serem inspiração ao crescimento pessoal e fonte de grande
orgulho;
Aos meus pais, que me proporcionaram, além do estímulo ao aprendizado, muito
amor,carinhoeatençãoemtodasasfasesdavida;
Aos professores, que, ao compartilharem conhecimentos e experiências, me
guiaramnatrajetóriaparaaconquistadestavitória;
Aosfuncionáriosdocursodepósgraduaçãopelacordialidadeeatenção;
Atodososfamiliareseamigosquedeumaformaoudeoutrameestimularameme
ajudaramaconcretizarestaconquista,
Muitíssimoobrigada!
“Edeixoumestragofeioatrásdemim.Vouprocuraras
terras daSerra dos Padres – e lá pode ser para mim
outro começo de vida. Mas garantida com os meus
cabras. Pra ninguém mais querer botar o pé no meu
pescoço;oumeenforcarnumarmadorde rede.Quem
pensounissojámorreu
.”(MariaMoura)
RacheldeQueiroz
______________________________________________________________________
Resumo
A televisão fascina as pessoas no mundo inteiro, fenômeno que ocorre
provavelmente em decorrência da amplitude de seu alcance e das inúmeras
possibilidadesde oferecer entretenimentoecultura,pormeiodeumadiversificada
programação.Dentrodessaextensagamadeopções,encontramseasproduções
dramatúrgicas, provenientes muitas vezes de adaptações de obras literárias
renomadas, comprovando que o discursoliterário e a linguagem televisual podem
aproximarseepossibilitarleiturasmuitosignificativas.Essaaproximação,porsinal,
possuioméritodeconcretizar ouampliarformas de aquisição dos conhecimentos
literáriosapessoasquepoucolêem,porfaltadehábito,recursosouatémesmode
tempo; assim, a facilidade de ir a locais muito distantes confere à televisão a
possibilidade de amplamente disseminar cultura e conhecimento ao utilizar textos
literáriosparaamontagemdeespetáculosdramatúrgicos.Utilizandoequipamentos
sofisticados, essas produções televisuais muitas vezes geram imagens cada vez
maisgrandiosas,obtendoelevadaaudiênciaporpartedograndepúblico.Entretanto,
aadaptaçãodeumaobraliteráriaparaalinguagemtelevisualéumgrandedesafioa
serenfrentadopeloroteiristaediretor,umavezqueotempoeoespaçodisponíveis
para a encenação de uma história na televisão são insuficientes para conter o
imagináriodoautordaobraedotelespectador.Estetrabalhoanalisaa adaptação
dolivro
MemorialdeMariaMoura,
deRacheldeQueiroz,paraanarrativatelevisual.
Paratanto,estadissertaçãopropõeseafazerumaanálisedolivroedaminissérie,
uma breve explanação sobre as características do formato literário romance, os
elementos de construção da narrativa lmica e a força da televisão enquanto
divulgadora da arte literária, não sem antes falar da escritora, tamm autora de
vários outros livros, de inúmeras crônicas e peças teatrais de mérito literário
incontestável.Acompreensãodoitineráriodolivroàminissérie,transpondotodasas
barreiras que naturalmente se apresentam, fica mais facilitada a partir dessas
leituras.
Palavraschave:televisão,minissérie,adaptação,romance,narrativa.
_______________________________________________________________
Abstract
Televisioncaptivatesthousandsofpeopleworldwideprobablyduetoitslong
reach and countless possibilities for providing entertainment and culture through
diversified programming. Among this world of options one can find dramaturgical
productions,whichareveryfrequentlyadaptationsofrenownedliteraryworks.This
proves that literary speech and television language can get closer and enable
significantreading.Thisapproximationhasthemeritofrenderingorexpandingforms
ofacquiringliteraryknowledgebythosewhodonotreadmuchduetolackofhabit,
resources or even time. In this sense, television provides the possibility for
disseminatingculture and knowledge when usingliterarytexts as its dramaturgical
spectacles.Makinguseofstateoftheartequipment,televisionproductionsgenerate
moreandmoremagnificentimages,reachingavastaudience.However,adaptation
ofaliteraryworktotelevisionlanguageisagreatchallengefacedbythescriptwriter
andthedirector,sincethetimeandspaceavailableforstagingarenotsufficientfor
the author’s and the viewer’s imagination. This study analyzes an adaptation of
MemorialdeMariaMoura,
abookbyRacheldeQueiroz,tothetelevisualnarrative.
This dissertationintends to analyze the book and the mini series, provides a brief
explanationofnovelformatcharacteristics,theelementsoffilmnarrativeconstruction
and television’s strength as a broadcaster of literary art, but not before first
mentioning the writer as well as the author of the various other books, countless
chroniclesandtheaterplaysofunquestionableliterarymerit.Anunderstandingofthe
path the book takes until becoming a mini series, overcoming all barriers that
naturallyarise,becomeseasierwiththeseinsights.
Keywords:television,miniseries,adaptation,novel,narrative.
SUMÁRIO
______________________________________________
Introdução ........................................................................................................11
1 RACHELDEQUEIROZ,oitineráriodeumavidaeaconstruçãodamulher
guerreira .................................................................................................... 27
1.1Dadosbiográficosdaescritora............................................. 29
1.2Atrajetórialiteráriaeasobras.............................................. 36
1.3Avisãodemundo............................................................... 60
1.4Ainspiraçãoparacriaramulherguerreira.........................68
2MEMORIALDEMARIAMOURA,oromance............................................. 75
2.1Algumasconsideraçõessobreo
romance
,gêneroliterário
.............
75
2.2
MemorialdeMariaMoura,
olivro
...............
...........
..........................
78
2.3Linguagemevozesnarrativas–apolifonia...................................111
3TELEVISÃOELITERATURA–ABUSCADAQUALIDADEEA
DIVULGAÇÃODAARTELITERÁRIAPORMEIODAMÍDIA.......................120
3.1Abuscadaqualidadenatelevisão..................................................120
3.2Anarrativaficcionalliteráriaeanarrativafilmada............................123
3.2.1Elementosdeconstruçãodasnarrativasliterária
efílmica............................................................................131
3.2.1.1Otempo...........................................................135
3.2.1.2Oespaço .........................................................138
3.2.1.3Aspersonagens..............................................141
3.3Orecursodeadaptação–umtrajetodedifícilconcretização......145
3.4Recursosmaisutilizadosnatransposição–paráfrase,
paródia,estilizaçãoeapropriação................................................153
3.5Consideraçõessobreaudiênciaeatelevisão.............................156
4
MEMORIALDEMARIAMOURA
,aminissérie..........................................163
4.1Oprocessodetransposiçãode
MemorialdeMariaMoura..........
166
4.2Dolivroàminissérie–ospontosdecontraste ............................175
CONSIDERAÇÕESFINAIS...........................................................................187
REFERÊNCIAS.............................................................................................194
INTRODUÇÃO
Diversas particularidades diferenciam a televisão de outras mídias, especialmente
quando comparadas àquelas que se destinam a difundir informação, cultura e
entretenimento;nãoporacaso,elaexerceumverdadeirofascíniosobreaspessoas,
porsuacapacidadepeculiardeintermediaratransmissão de taismensagens, por
meioderecursosqueafetamsimultâneaeespecialmentedoissentidosaaudição
eavisão,diferenciandoa,assim,dorádioedaimprensa.
Além disso, a televisão dispõe de outras propriedades que a tornam muito
interessante, a saber, a velocidade de que dispõe ao dar informações e notícias,
transmitidas muitas vezes ao mesmo tempo em que o fato acontece; a
disponibilidade sempre presentee a praticidadeque o telespectador tem de obter
entretenimento e lazer imediato, num simples apertar de botão; uma grande
cobertura,queseestendepelomundotodo,alémdaapresentaçãodaprogramação
no formato e momento preciso em que ocorre. Todos esses recursos criam um
mundoimaginário,umaespéciedeilhadafantasia”paraaqualotelespectadoré
transportado e liberado  ainda que por alguns poucos momentos de seus
problemasdiários,suasmazelasrotineiras.
Ofato de vivermos numaculturavisual,acima detudo, éoutrofatorquecolabora
paraqueaspessoasfiquemcativasàassistênciadiáriadatelevisão.Seusrecursos
imagéticosexercemumverdadeiroapelosensorialeemocionaldealtoimpactoem
quasetodasaspessoas;aliás,énotóriootremendoesforçodeequipescompostas
de profissionais variados trabalhando muito para levar as emissoras a vencer a
disputa pela audiência, pela preferência do público, o que acaba por se tornar,
provavelmente,omaiordesafiodasredesdetelevisão.
Outro fator a ser lembrado é que atualmente as pessoas recebem uma grande
quantidadedeinformaçãoquelheschegapormeiodevariadosveículosimpressos
e,sobretudo,eletrônicos.Arecepçãonesseintensoprocessodecomunicaçãoéao
mesmo tempo necessária e praticamente compulsória; um exemplo disso é que
muitaspessoas,quandoligamseusaparelhosdetelevisão,recebeminformaçõesde
que, possivelmente, não necessitavam e nem procuravam ou até, por vontade
própria,nãodesejariam.
Oacessofácil,portanto,trazumconfortoeumacomodidadedequeaspessoasnão
abremmão;atelevisãoé,dessamaneira,umafontedediversãoeinformaçãoque
está à mão a qualquer momento, especialmente se falarmos dos canais pagos,
alguns deles voltados a um único foco – filmes, noticiários, documentários, entre
outros. Dessa maneira, quando um telespectador aciona o botão que liga a
televisão, deparase com uma seqüência de imagens e sons – um texto, o texto
televisual–sobreumatelaouseqüênciadetelas.
O conjunto de telespectadores, que compreende o aglomerado de um grande
númerodepessoaseformaumgrupocompoucaounenhumacoesão–éoquese
chama usualmente de “massa”. Em decorrência, desde que foi criada, há pouco
mais de meio século, a televio vem se firmando como o meio de comunicação
massivademaiorinfluêncianoscostumesenaopiniãopública.Porcontadisso,a
televisão pode ser incluída sem esforço entre os fenômenos culturais mais
importantesdenossotempo.
CriadanoiníciodoséculoXX,atelevisãocontinuaaseraindahoje,semdúvida,um
dosmaisimportantescomponentesmidiáticosdemassae,comoafirmaMarcondes,
“embora jovem, atende a necessidades humanas muito antigas, que em outras
épocasforam, bemou mal,atendidasporoutros meios”. Essas necessidades são
entendidasnoplanoreal,odoviverdiáriodaspessoas,enoplanomental,interno,o
dafantasiaquetodasaspessoastêm,“abrangendoossonhos,asexpectativas,os
desejos,aesperançadeumfuturomelhor”.
1
Oimpactoquecausounasociedade,desdeoseusurgimento,foiserenovandocom
várias transformações, ocorridas emlargaescala nas décadas de 80 e 90; essas
transformações incluíram modificações nos modelos de entretenimento
proporcionadosporveículosanterioresaelaespecialmenteocinema,orádioeo
jornal  e incorporaram suas principais funções – entretenimento e noticiário 
reestruturandoas e reorganizandoas. Essa inovação possibilitou à televisão
consolidar sua hegemonia por meio da utilização de um quadro tecnológico e
informacionalinédito.
Alémdisso,comoresultadoderecentesavançostecnológicos,atelevisãobrasileira
conseguealcançarpraticamenteoPaísinteiro–defato,ébempequenoonúmero
delocalidadesquenãotêmacessoaela.Dissodecorreumsimplesfato:milhõesde
pessoaspodemassistiràtelevisãoemcasa,comtodooconforto,semnecessidade
degrandeconhecimentooudenívelelevadodeinstrução.Alémdomais,apósum
dia de trabalho, ela oferece ao telespectador entretenimento em vários formatos,
compossibilidadesdeseverlugaresepessoasquenuncapoderiamservistosde
outramaneira.
Adespeitodetodasessaspropriedadesqueaconfiguramcomoumpoderosomeio
de comunicação ede entretenimento, uma vez que funde cinema, teatro, música,
literatura,reunindo culturasdiversaseproporcionando tudo emumsó espetáculo,
por meio de recursos audiovisuais, a televisão tem sido considerada nos meios
intelectuaisapenascomomaisumamanifestaçãodaculturademassa,semgrandes
atrativos;pelocontrário,muitasvozestêmselevantadoparaclassificaratelevisão
comoummeioeficientedemanipulaçãoapenas,modeladordosacontecimentose
responsávelpeladesconstruçãodacapacidadederaciocíniodotelespectador.
1
MARCONDESFILHO,Ciro.
Televisão
:avidapelovídeo.SãoPaulo:Moderna,1988.
Percebese,principalmentenomeioacadêmico,“umcertopreconceito”emrelação
aousodatelevisão,emespecialàstelenovelas,comoinformaSilviaHelenaSimões
Borelli,emseuartigo“Telenovelasbrasileiras–balançoseperspectivas”.
2
Paramelhorentenderesseposicionamentocríticoemrelaçãonãosóàstelenovelas,
mas à televisão como sistema de entretenimento, citaremos algumas opiniões
críticas,vindasdeintelectuaisdopassadoe tambémdopresente.Tammse faz
necessário entender essas posturas como resultado de vários acontecimentos
históricos, ocorridos principalmente na primeira metade do século XX; como
exemplo, para dizer o mínimo, podese citar as duas guerras mundiais, que,
eclodidas muito próximas uma da outra, não só trouxeram profundas mudanças
políticasesociaisnomundotodo,comotamminfluenciaramoposicionamentode
váriosprofissionaisligadosaosestudosdacomunicação.
Analisandodemaneiramuitoconcisa–umavezqueoéoobjetodeestudodeste
trabalhoasorigensdessapostura crítica emrelaçao à televisão, notasequeas
transformações mencionadas implicaram em grandes mudanças no campo da
cultura e na postura de eminentes pensadores, inicialmente na Europa 
principalmente a França, a Inglaterraea Alemanha –, influenciandodepois vários
pensadoresnosEstadosUnidoseposteriormentedisseminandosegradativamente
aoutrospaíses,inclusiveoBrasil.
Como explica Borelli, essa influência é devida em grande parte à presença
hegemônica”datradiçãodaEscoladeFrankfurt,fundadaem1924porumgrupode
pensadoresecientistassociaisalemães,cujasteoriascomeçaramainfluenciarno
Brasil, no final dos anos 60, não só os intelectuais marxistas, mas tamm os
críticosradicaisaomarxismo.
3
Os intelectuais frankfurtianos tiveram grande supremacia sobre o pensamento
mundial,desde oinício da décadainiciada em1920, com a criaçãode sua
teoria
crítica
; podese dizer que, possivelmente, nenhum empreendimento intelectual do
2
BORELLI,SilviaHelenaSimões.
TelenovelasBrasileiras
–balançoseperspectivas.Disponívelem:
<http://www.scielo.br> Acessoem03/08/07.
3
BORELLI,S.H.S.Op.cit.Acessoem03/08/07.
século XX tenha exercido uma influência tão polêmica e duradoura – até os dias
atuais–quantoadessainstituição.
Dentre os teóricos da Escola de Frankfurt, destacamse Theodor Adorno e Max
Horkheimer, que apresentaram em sua principal obra, o livro
Dialética do
Esclarecimento,
escritoem 1944, umestudo sobre o que viria a ser, ao longo de
décadas,geradordeinúmerosdebateseanálisesdemídia–oconceitode
indústria
cultural
,usadoparadefinirecriticarseveramenteoconjuntodeinstituiçõesquetêm
como principal atividade econômica a produção de quaisquer atividades culturais
comfinslucrativosemercantis.
Encaradascomoprodutosfabricadosemsérie,essasatividadesculturaissãomais
acessíveisàsmassaseexercemumtipodemanipulaçãoecontrolesocial,criando
uma crescente demanda por elas, já que, como afirmado pelos teóricos alemães
citados, o poder da indústria cultural provém de sua identificação com a
necessidadeproduzida”.
4
Emdetalhadaanálisedosefeitosnegativosdaindústriaculturalsobreosindivíduos,
AdornoeHorkheimerdestacamcomoopiordelesofatodeque“oespectadornão
deveternecessidadedenenhumpensamentopróprio,poisoprodutoprescrevetoda
reação”. Além disso, “a indústria cultural não cessa de lograr seus consumidores
quantoàquiloqueestácontinuamentealhesprometer”.
5
Comofazpartedessesistema,atelevisãotammfoialvodascríticasdosteóricos
frankfurtianos, pois tenta incutir nas pessoas uma falsa consciência sobre a
realidadeeimpor valores de tal maneira que se tornam o único conteúdo de sua
consciência, fazendo confundir a realidade com o que é exibido. Além disso, ela
“visa uma síntese do rádio e do cinema, [...] com possibilidades ilimitadas que
prometemaumentaroempobrecimentodosmateriaisestéticos”.
6
AcríticaamplamenteanalisadanolivrodeAdornoeHorkheimerfoiumareaçãoà
verdadeira mercantilizaçãoda cultura praticada pelas indústrias de entretenimento
4
ADORNO,TheodorW.,HORKHEIMER,Max.
Dialéticadoesclarecimento
:fragmentosfilosóficos.
TraduçãoGuidoAntoniodeAlmeida.RiodeJaneiro:JorgeZahar,1985,p.128.
5
Idem,ibidem.
na Europa e nos Estados Unidos, no final do século XIX e início do XX,
compreendendo o cinema, o rádio, a televisão, revistas e jornais, os quais, ao
padronizar e racionalizar as formas culturais, impossibilitavam que as pessoas
desenvolvessemsuacapacidadedepensar,criareagirporsuaprópriainiciativa.
NavisãodapesquisadoraEcléaBosi,aindústriacultural,porsergeradoradelucros
seuobjetivoprincipal,buscacontinuamente“atendênciaaomáximoconsumo”,
umavezquesó“olucrocompensaoinvestimento”eoháoutramaneiradeobtê
losemserpeloaltoconsumo.Dessamaneira,semdúvida,éofatoreconômicoque,
“emúltimainstância,moveascompanhiascinematográficas,asemissorasderádio,
oscanaisdetelevisão,aseditorasdejornais,derevistas,dequadrinhos,delivros
debolso”.
7
Assim, no caso da televisão, a pesquisadora complementa que as notícias são
selecionadas pelo que teriam de bizarro e romanesco; simetricamente, as
telenovelas se esforçam por dar uma imagem realista ou verossímil aos mais
descabeladosenredosromânticos”.
8
Também o sociólogo francês Pierre Bordieu faz críticas à televisão em seu livro
“Sobre a Televisão”, afirmando que a tela tornouse um lugar de exibição de
pessoas vaidosas, que se deixam levar por seus interesses, de modo que “a
televisãosetornaoárbitrodoacessoàexistênciasocialepolítica”.
9
Para o sociólogo, a questão é simples: a programação da televisão é feita e
apresentadasobapressãodocampoeconômico,apartirdeumarealidadeàquala
televisão cada vez mais se submete  o índice de audiência; por conta disso, a
televisãousaumtempoparadifundirnoticiassemimportância,sendoque“poderia
ser empregado para dizer outracoisa;ora,o tempo é algo extremamente raro na
televisão”,demodoqueseessetempotãopreciosoéusado“paradizercoisaso
6
Idem,p.116.
7
BOSI,Ecléa.
Culturademassaeculturapopular
leituradeoperárias.10.ed.Petrópolis:Vozes,2000p.54.
8
Idem,p.55.
9
BOURDIEU,Pierre.
Sobreatelevisão
.RiodeJaneiro:JorgeZahar,1997,p.29.
fúteis, é que são de fato muito importantes na medida em que ocultam coisas
preciosas”.
10
ComocomplementaBordieu,issoéagravadopelofatodequemuitaspessoasnão
adquirem informação de nenhum jornal – estão devotadas de corpo e alma à
televisãocomofonteúnicadeinformações”.
11
Outropensadorfrancês,ofilósofoesociólogoJeanBaudrillard,críticodasociedade
de consumo e dos meios de comunicação de massa, tamm fez críticas à
televisão, argumentando que o problema em que ela incorre é permitir certa
miscelânea
de profissionais de diferentes níveis, entre eles vedetes, diretores de
programas, sem contar “as intrigas e a corrupção queimaginamosnormais nessa
selva, mas, desta vez, exibidas aos telespectadores como legítimo espetáculo,” e
queentão“tornasesuspeitadeproduzilo(ofato)porinteiro,poisestávirtualmente
desconectadadomundoeinvoluinoseuprópriouniverso”.
12
Ressaltase tamm a posição do cientista político e escritor italiano Giovanni
Sartori, que, em seu livro
Homo videns
, analisa vários pontos sobre a televisão,
entre eles a preocupação com a substituição da palavra e da cultura escrita pelo
“mundofeitodeimagens, totalmentecentralizadonover”; emdecorrênciadisso,a
televisão“estácriandoumhomemquenãolê”.
13
Além disso, vem surgindo o que o pensador chama de “criança criada pela
televisão”, que forçosamente será um adulto “que continua surdo, durante a vida,
aosestímulosdeleituraedosabertransmitidospelaculturaescrita”,jáqueestará
condicionado aos estímulos “quase que exclusivamente audiovisuais”. Em
10
Idem,p.23.
11
Idem,ibidem.
12
BAUDRILLARD,Jean.
Telatotal
:mitoironiasdaeradovirtualedaimagem.TraduçãodeJuremirMachado
daSilva.2.ed.PortoAlegre:Sulina,1999.p.157158
13
SARTORI,Giovanni.
Homovidens
:televisãoepóspensamento.TraduçãoAntonioAngonese.Bauru,SP:
EDUSC,2001,p.24
conseqüência disso, a chamada “geraçãoTV não tem como crescer mais do que
isso”.
14
Encerrando essas citações de alguns críticos da televisão, temos a opinião do
sociólogo,jornalistaepesquisadorbrasileiro,oprofessorMunizSodré,sobreesse
meio de comunicação  uma “engenhoca tecnológica, capaz de hipnotizar
cotidianamentecentenasdemilhõesdepessoascomimagenscinéticas,comamais
absolutasuperfluidade”.
15
Para o pesquisador, a possibilidade de resposta é eliminada, cabendo aos
telespectadores apenas ouvirem o que lhes é passado, o que cria uma distância
entre falante e ouvinte e dá à televisão um poder absoluto, já que constrói uma
realidade própria, fazendo com que a realidade concreta perca sua força; em
conseqüência,cria umsistemaderepresentação social que, porsua vez, constrói
opiniões e comportamentos, pois, “na realidade, as pessoas são informadas para
que não busquem informação. Da mesma forma, as pessoas são condenadas a
apenasouvir,paraquenãofalem”.
16
Após ver resumidamente as opiniões variadas de alguns críticos da televisão, é
tempoderetornaràanálise;seuspreceitos,evidentemente,devemserlevadosem
consideração, bem como é preciso avaliar com deferência todos os pontos
levantados,umavezqueessesteóricosocuparameaindaocupamumlugarmuito
importantenocenáriodasteoriasdacomunicação,nomundotodo.
Emcontrapartida,éprecisotammavaliaraspossibilidadesdatelevisãocomoum
bommeiodeentretenimentoedeinformação,principalmenteselevarmosemconta
queháumgrandenúmerodepessoasquepossuempoucaounenhumacondição
deteracessoaoutromeiodelazer,semserporessafontededistraçãoeconômica
esempreàmãoatelevisão,queprovêdistraçãopormeiodeumaprogramação
variada,direcionadaemváriasmodalidades.
14
Idem,p.25.
15
SODRÉ,Muniz.O
Monopóliodafala
:funçãoelinguagemdatelevisãonoBrasil.Petrópolis:Vozes,1984,p.14.
16
SODRÉ,Muniz.Op.cit.,p.46
Alguns gêneros televisuais exercem maior atração do que outros, sendo um dos
mais apreciados aquele que utiliza a narrativa ficcional – a teledramaturgia. Esse
fascínioparecefacilmenteexplicávelpelofatodequeaspessoassempregostaram
decontarhistórias;aolongodostempos,apenasmudaramasformasdeconcebê
las e de propagálas. Esse gosto pelas narrativas ajustouse sob medida aos
formatosproduzidospelatelevisão,emespecialatelenovelae,maisrecentemente,
aminissérie.
Nessequesito,atelevisãobrasileiravemacompanhandooavançodatecnologiano
mundo todo, de modo que a sofisticação de suas produções, principalmente as
dramatúrgicas,nada fica a deveranenhumaoutra, em qualquer lugar do mundo.
Assim, a partir desse
status
, há várias décadas o formato dramatúrgico da
telenovela vemseconsolidandocomoumgênerotelevisual; de fato,esse formato
vem revelando, a cada novo lançamento, excelente qualidade de produção,
enfrentando em iguais condições os enlatados” que inflacionam o mercado
internacional.
Com efeito, alguns anos, o Brasil tornouse conhecido no mundo inteiro pela
teledramaturgia que produz, cujo sucesso tem atribuído ao país uma respeitável
imagem em vários países, tais como a China, Portugal e a Rússia; estes vêm
comprando diversas produções nacionais, especialmente telenovelas, sendo sua
extraordináriaaudiênciaaltamenterelevanteparaointercâmbioculturalentrepovos
decostumestãodiversificados.
Paraseproduzirumatelenovelaouminissérie,éprecisoumaiiaque,porsuavez,
dêorigemaumroteiro;elapodesurgiraqualquerhoraelugar,emfunçãoderazões
diversas–acontecimentos diários, textosliterários,avida deumapessoa,alguma
lembrançaouexperiênciapessoal,algumaconversaouhistóriaouvida,umaleitura
dejornal,revista,livrooufolhetoouumaobradeficção.
Essasváriasfontes–oempréstimodeartesemídiasdiferentespodemdarorigem
aumroteiroepossibilitarvariadaseinteressanteshistóriasficcionais,resultandoem
gêneros variados, que têm sido usados na realização de muitos trabalhos
inesquecíveisparaograndepúblico.
Umrecurso bastante utilizado emproduções que quase sempre tem agradado os
telespectadores,trazendobonsresultados,éaadaptaçãodeobrasliterárias.Essa
aproximaçãoentrealiteraturaeatelevisãoocorrefreqüentemente,vistoqueotexto
literário, às vezes, vai além do que a nossa imaginação pode alcançar, fazendo
parte do cotidiano das pessoas nos vários meios midiáticos. O enredo das obras
literárias chega assim à televisão, meio amplamente aceito e acessível pela sua
capacidadedelevarotelespectadoralugarespossíveisapenasnoimaginário.
A linguagem literária e a televisual podem apresentar íntima conexão em muitos
momentos, uma vez que tanto o discurso literário quanto o da teledramaturgia
alimentamseemgeraldamesmafonteaficção,quepossibilitacriarumuniverso
à partenoimaginário doleitor e do telespectador.Aconstrução desse universoé
facilitada pelas discussões do tema em diversas mídias e pelas várias leituras,
tornando as tramas mais compreensíveis, já que, muitas vezes, as produções
dramatúrgicasutilizamsedaintertextualidadeoufazemcitaçõesdefatoshistóricos.
Em decorrência disso, o leitortelespectador percebe, a cada momento, a
necessidadedeadquirircompetênciaspara realizar aleiturade novaslinguagens,
queseapresentamnessedialogismoentreliteraturaetelevisão.Evidentemente,há
uma grande dificuldade na realização dessa leitura crítica, pois isso implica em
vencer verdadeiras barreiras culturais – enquanto a cultura literária é muitíssimo
maisantigadoqueadatelevisão,estasedinamiza,seenriqueceesemodernizaa
umagrandevelocidade.
Além disso, o leitortelespectador tem diante de si um intrincado leque de formas
sociais de comunicação e seus significados, expressas por meio da linguagem
verbal e da nãoverbal, usadas na literatura e na produção televisual,
respectivamente. Essas formas apresentamse, assim, por meio de uma grande
variedadedetemáticas,ideologias,acontecimentoshistóricosemitologias,tantona
literaturaquantonasproduções televisuais, requerendohabilidade cada vez maior
parapossibilitaraleituradosdoisdiscursos.
Essa transposição de obras literárias para a televisão como fonte de roteiros foi
utilizada como o tema a ser abordado neste trabalho, delimitandoo à abordagem
analítica do
corpus
desta dissertação – o romance
Memorial de Maria Moura,
de
Rachel de Queiroz, e sua adaptação, a minissérie de mesmo nome, produzida e
transmitidapelaRedeGlobodeTelevisão.
O objetivo deste trabalho é analisar alguns aspectos concernentes ao complexo
processodetransposiçãodotextoliterárioescolhidoparaaproduçãodramatúrgica
televisual.Paratanto,sãorevisadosalgunsaspectosteóricos,especialmenteosque
se relacionam à perspectiva e à focalização narrativa, quando a serviço da
representação do real e do ficcional. Servem eles de apoio para a análise dos
materiaisconstitutivosdo
corpus
destadissertação.
Uma questão surgiu: é possível que a produção televisual, dentro de suas
limitações,leveaograndepúblicotelespectadorumtextoliterário,comoo
Memorial
de Maria Moura,
minuciosamente detalhado em um meio impresso  o livro, e o
torneconhecidosemdeturparamensagemaqueaautora,RacheldeQueiroz,se
propôsnaescrituradolivro?
Opontomaismarcantenaleituradoromanceanalisadoéagrandetransformação
porquepassaapersonagemprincipal,MariaMoura:afilhaúnica,criadapelospais
amorosos em um ambiente rural, na adolescência tornase, aos poucos, uma
valente lutadora. Essa grande metamorfose ocorre em razão de várias
contingências,fazendosurgirnolugardagarotinhaindefesaumajovemdestemida,
líder de um bando, pronta para enfrentar corajosamente vários obstáculos para
atingirseuobjetivo–aretomadadeumlotedeterrasherdadasdoavô.
Aminissériepercorreutodaatrajetóriadeconstruçãodessamulherguerreira,Maria
Moura;senãoofezcomamesmaintensidadeusadaporRacheldeQueirozemseu
romance, conseguiu mostrar com rara beleza  e a fidelidade que a linguagem
fílmica pôde permitir  as passagens mais importantes da vida da principal
personagemdolivrodaescritoracearense.
A metodologiaescolhidapara fundamentar o estudo concentrouse em análise do
livrodeRacheldeQueirozedaminissériedemesmonome
OMemorialdeMaria
Moura
,apartirderevisãobibliográficaembasadanosestudosdeváriosautoresque
trabalharamcomasobrasdaromancista.Asinformaçõessobreavidadaescritorae
suas obras, permeadas de depoimentos dados por ela mesma, foram coletadas
principalmentenolivrodojornalistaHermesRodriguesNery,admiradordasobras
da escritora, que a entrevistou durante alguns meses, publicando depois seus
depoimentos no livro
Presença de Rachel
conversas informais com a escritora
RacheldeQueiroz.
Também foi utilizado como fonte importante de informações o volume n.º 4 dos
Cadernos de Literatura Brasileira
, dedicado exclusiva e integralmente à escritora
cearense,publicadopeloInstitutoMoreiraSallesemSãoPaulo,em1997.
Foram consultados ainda outros autores que pesquisam sobre o desempenho da
televisão, dedicando seus estudos tanto para analisar sua história quanto sua
importância,comopropósitodeentendersuaatuaçãoeaconseqüentemodificação
nos vários meios de comunicação, e ainda sua influência na vida das pessoas,
enquantoformadoradeopinião.
Esteestudoestádivididoemquatrocapítulos,construídosapartirdaleituratextual
doromanceedaanálisedaminissériedemesmo nome,que foilevadaaoar em
1994eeditadaposteriormenteemtrêsDVDs.
A comparação entre os dois meios, um construído pela escrita e o outro pela
imagem e pelo som, forneceu os dados para compreender a construção da
personagemMariaMouranoromanceenaminissérie.Tammtornouperceptíveis
as soluções apresentadas pela narrativa televisual às dificuldades impostas pelo
enredoequesesupunhaintraduzíveisparaaversãofilmada.
Nocapítulo1desteestudo, são apresentados osdadosbiográficos da autorae o
seu posicionamento no contexto literário nacional; para confirmar sua importância
dentrodaliteraturabrasileira,apresentaseumbrevecomentáriosobresuasobrase
sua experiência de vida; finalmente, para facilitar a compreensão da leitura do
romance,detalhamseosfatosquetrouxeramainspiraçãoparacriarMariaMoura.
Nocapítulo2,apresentaseumaanálisedolivro,precedidadecomentáriossobreo
formato literário do romance, uma análise da linguagem utilizada e das vozes
narrativas,quecaracterizamodiscursonarrativo.
Ocapítulo3constituisedeumabreveanálisedadivulgaçãoda arteliterária pela
televisão,comumaexplanaçãosobreoselementosformadoresecaracterísticosda
narrativa. São apresentados, também neste capítulo, dados sobre os recursos
necessários à realização da adaptação de obras literárias e ainda algumas
consideraçõessobreaudiênciaeatelevisão.
Nocapítulo4,apresentaseumaleitura da minissérie, com análise doscontrastes
observados na passagem do livro para a produção televisual. Enfocamse alguns
recursos técnicos necessários à viabilização das filmagens de cenas de difícil
encenaçãovisual.
Naúltimaparte,apresentamsecomoconclusãoalgumasconsideraçõesfinaissobre
ospontosapresentados,encerrandoseadissertação.
Ajustificativaparaopresenteestudorelacionaseànecessidadedeanalisaropapel
da televisão e de sua produção dentro do cenário cultural no mundo todo e, em
especial, no Brasil, onde, inegavelmente, a televisão vem consolidando sua
produção na área dramatúrgica; em decorrência disso, afirmase cada vez mais
comoumimportantemeiodecomunicaçãoedelazerparaumgrandepúblico.Essa
expressivaaudiênciaocorreprincipalmenteentreasclassessociaisquetêmacesso
restritoaoutrasáreasdeentretenimento,porinviabilidadefinanceiraouatémesmo
geográfica.Se,porumlado,atelevisãochegaalocalidadesemquenãosequer
cinemanemtampoucoteatro,poroutro,ondeestesexistem,emgeral,têmumcusto
inviávelparamuitaspessoas,principalmenteasdebaixarenda.
A relevância dos estudos voltados à atuação da televisão no campo cultural
brasileirovemsendoconstatadapormeiodeváriaspesquisasacadêmicas.Coma
análise contida neste trabalho, esperase contribuir com essas pesquisas,
principalmente na área de estudos comparados de mídia e literatura, a qual vem
realizando instigantes abordagens, motivadas pela necessidade de realmente
perceberaimportanteligaçãoexistenteentrealiteraturacomo“palavraimpressano
suportelivro”easoutrasartesemídias,comoasartesvisuais,amídiaeletrônicae
amúsica,todaselasmanifestaçõesculturaisdiversasqueservemperfeitamente“de
suportepeloqualaliteraturacircula.”
17
Ao afirmar que “a cultura contemporânea é, sobretudo, visual”, Pellegrini mostra
comoousodeváriasmídiasparadifundiraliteraturarefleteapossibilidadeque a
imagemtemdeinteragircomoespectadorpormeiodeumcódigodiversodaquele
usadopelapalavraescrita.
18
Destamaneira,comoemnossopaísatuammuitoscanaisdetelevisãocomampla
cobertura, e a grande maioria das pessoas possui pelo menos um aparelho de
televisão,éfácilentenderporqueestemeiodecomunicaçãoéumimportantealiado
nadivulgaçãodainformação,culturaelazere,portanto,daliteratura.
Sãoquasecinqüentaanosdeproduçãodedramaturgiaemquealiteraturaficcional,
especialmente os romances, tem fornecido enredos para as telenovelas e
minisséries.Umdosbenefíciosdessadifusãoéqueadaptaçõesdeobrasliterárias
bemsucedidas para o cinema e a televisão sempre foram acompanhadas do
aumento na procura e nas vendas do livro que lhe deu origem, uma vez que
estimulanostelespectadoresaintençãodecomprálo;comefeito,pesquisasjunto
às livrarias têm demonstrado que o volume de vendas de livros quase sempre
aumenta consideravelmente depois que as pessoas assistem à transmissão de
minissériesbaseadasnotextoliterário.
Como confirma Anna Maria Balogh, em seu livro
O discurso ficcional na TV
, as
adaptaçõesdetextosliteráriosparaatelevisãotêm“umvalordidáticoeumaforça
educacional inegável. [...] As minisséries preservam nossas tradições culturais,
divulgamaobraadaptada,iniciamleiturasoureleiturasdooriginal”.
19
17
MARCONDESFILHO,Ciro.Op.citada,apresentação,p.9.
18
PELLEGRINI,Tânia.Narrativaverbalenarrativavisual:possíveisaproximações.In:PELLEGRINI,Tâniaetal.
Literatura,cinemaetelevisão
.SãoPaulo:Senac/InstitutoItaúCultural,2003,p.58
19
BALOGH,AnnaMaria.
OdiscursoficcionalnaTV
:seduçãoesonhoemdoseshomeopáticas.SãoPaulo:Ed.
daUSP,2002,p.132.
Aescolhadolivroedesuaadaptaçãoparaatelevisãocomo
corpus
destetrabalho
deveuse, primeiramente, à minha formação em Letras e à proximidade com os
estudosliterários,nosquaisocontatocominúmerasobrasfoidespertandoemmim
ogostopelasnarrativas. Dentreosautoreslidos,váriosme chamaram a atenção,
principalmenteRacheldeQueiroz,pelamaneiracomoconstróisuaspersonagense
a trajetória que elas percorrem. A trajetória de vida e a personalidade forte da
romancista e da mulher Rachel de Queiroz perpassam todos os seus romances,
traduzindose em personagens femininas decididas,lutadoras,vitoriosas na busca
deseussonhos.
Além disso, a iniciativa da Rede Globo ao produzir a minissérie em questão foi
ousada, para dizer o mínimo, diante da complexidade do enredo, da estrutura
narrativa intrincada, sem falar dos espaços físicos muito amplos em relação às
possibilidadesdateledramaturgia.
A atribuição da direção artística ao experiente Carlos Manga, que coordenou os
trabalhos de direção dos diretores Roberto Farias, Denise Saraceni e Mauro
Mendonça Filho,trouxe à equipe a segurança necessária. O resultado só poderia
ser o que foi, excelente, tanto pela atuação corajosa do elenco escalado  com
destaquepara alguns de seus componentes, como a atriz Glória Pires, no papel
títuloquantopeladireçãocriteriosaaolongodasfilmagensemcampoaberto,em
condiçõesnemsemprefavoráveisoutãoconfortáveisquantoaquelasrealizadasem
estúdio.
Alémdessesméritos,ressaltamseaindaofigurinoeaslocaçõesemplenoagreste,
com a filmagem de muitas cenas violentas ou em situações inusitadas para os
atores, como, por exemplo, as várias em que precisaram usar armas de fogo e
andar,oumesmogalopar,acavalo.ProduzidaeapresentadapelaRedeGlobode
17demaio a 17dejunhode1994,a minissérie
MemorialdeMariaMoura
obteve
umagrandeaudiência,atingindoumdos melhoresíndices apresentadosatéentão
pelasproduçõesdaemissora.
Outro fator decisivo para a escolha do
corpus
deste trabalho foi a intenção de
desvendarojácomentadofascínioqueatelevisãoexercesobreaspessoaseainda
entender esse perfeito casamento, quase sempre possível, entre a produção
televisualeaobraliteráriaquelhedeuorigem.
ComoanalisaPellegrini,sãonotáveisascomplexidadesqueseapresentamparaa
adaptaçãoe,maisainda,amultiplicidadedesoluçõesnarrativaspossibilitadaspelos
recursoseletrônicoseseusofisticadoaparatotecnológico.
Essas soluções resultam dos novos modos de ver o mundo e de representálo,
instauradosapartirdainvençãoeatuaçãodacâmera”,cujasfilmagensresultamem
umadimicadeimagensemmovimentoque`invadem´atessituraliteráriae“suas
palavrasestáticasnopapel”.
20
Foramessascomplexidadesquenortearamaanálisedos dados constantes deste
trabalho,tentandodesvendarquaissãoelasecomosãosolucionadas.
20
PELLEGRINI,Tânia.Op.Cit.p.67
1 RACHEL DE QUEIROZ, o itinerário de uma vida e a construção da
mulherguerreira
Com faces, personalidades e trajetórias variadas, a imagem da mulher guerreira
semprepermeouavidaeaobradamulher,escritoraejornalistaRacheldeQueiroz.
Foramváriasasguerreiras:RitadeQueluz,Conceição,Santa,Noemi,Guta,Maria
doEgito,Dôra,MariaMoura.
RitadeQueluz,umaguerreiradecarneeosso,surgiunavidadagrandeescritora
quandoestatinha17anos(1927)efoiaresponsávelporsuaintroduçãonomundo
dasletras:essefoiopseudônimousadopelaescritoraparaassinarumacartaque
enviouaumjornaldeFortaleza;depoisdisso,passouacolaborarcomoperiódico,
iniciandoumalongacarreiradejornalista
.
EssafigurarealsurgiunatrajetóriadeRaqueldeQueirozprovavelmenteemfunção
de tantos ensinamentos e exemplos passados por mulheres fortes, verdadeiros
modelos: as figuras familiares  sua mãe, sua avó, também chamada Rachel, e
aindaumaparentedistante,donaBárbaradeAlencar,alémdasmatriarcas,figuras
tão presentes na cena nordestina, como Maria de Oliveira, dona Federalina de
LavraseMaricaMacedo.
As outras guerreiras, mulheres determinadas pertencentes ao complexo universo
ficcionalde RacheldeQueiroz, sãopersonagensimaginárias femininase radicais,
desenhadaspela escritoratantoemseus romances,desdeo primeiro
O Quinze
(1930) – até o último
Memorial de Maria Moura
(1992), quanto em suas peças
teatrais.
ÉinteressanteobservarqueRacheldeQueiroz,emborasedeclarassecontráriaao
feminismo, tenha criado tantas mulheres fortes; como considera Buarque de
Hollanda,“seusromancesdesenharamaspersonagensfemininasmaisradicaisda
época.
OQuinze,
escritoaos19anos,játraisuaspreocupações”.
21
Essasmulheres exemplares, obcecadas pelo desejo deserem livres, são também
determinadas a escolherem seus destinos e habitam um universo literário denso,
quepercorretodososromancesdeRacheldeQueiroz.Essagaleriadelutadorasé
inauguradapelasolitária,masdecididaConceição(
OQuinze
),seguidapelasegura
Santa (
João Miguel
); a sofrida, mas desafiadora Noemi (
Caminho de pedras);
a
temerosa, masdeterminadaGuta
(AstrêsMarias),
aindependentee rebeldeDôra
(Dora,Doralina)
eaquelaquereuniuquasetodas,asurpreendente,forte,destemida
e,usandoumtermoqualificativodaprofessoraHeloísaBuarquedeHollanda
22
,“a
mais,digamos,espetacular”,MariaMoura(
MemorialdeMariaMoura
).Inesquecíveis
tamm, das peças teatrais, a ousada Maria Bonita (
Lampião
) e a perseverante
Beata(
ABeataMariadoEgito
).
Ao leitor atento, é bem perceptível o fato de que Rachel de Queiroz, com sua
literatura e sua própria vida, abriu caminhos inéditos para a mulher no Brasil do
século XX ao inserir em suas obras, com muita transparência, uma importância
significativa atribuída às mulheres e às suas conquistas. A romancista participou
tammdessasmudanças,tantocomoescritora,quantocomocidadã.
ImaginandoRacheldeQueiroznaépocaemqueviveusuajuventudeeiniciousua
principal fase produtiva – década de 30 – em uma sociedade nordestina
21
HOLLANDA,HeloísaBuarquede.O
éthos
Rachel.CadernosdeLiteraturaBrasileira.SãoPaulo:Instituto
MoreiraSalles,n.º4(RacheldeQueiroz),1997,p.113.
22
HOLLANDA,HeloísaBuarquede.O
éthos
Rachel.CadernosdeLiteraturaBrasileira.SãoPaulo:Instituto
MoreiraSalles,n.º4(RacheldeQueiroz),1997,p.113.
conservadora e patriarcal, percebese facilmente sua grande mobilidade: soube
administrar com maestria uma vivência em um mundo essencialmente masculino,
principalmenteemrelaçãoàliteraturaeaoutrasconquistassociais,enfrentandoas
dificuldades até da própria natureza, valendose sempre de uma grande força
interior, percorrendo uma trajetória de autonomia pessoal e profissional,
desprezandorotinas,preconceitoseinfluênciasexteriores.
Essa obstinação deveuse em, grande parte, à sua formação no seio de uma
estruturafamiliarlatifundiáriadetendênciasliberais.Aescritoramesmacontaque“a
despeito das ideologias, sempre fomos amigos dos nossos empregados, éramos
compadres dos nossos vaqueiros. No nosso meio nunca havia esse problema de
terra,porqueagentesempredeuaterraparaomoradorplantar”.
23
1.1 Dadosbiográficosdaescritora
Rachel de Queiroz nasceu em Fortaleza (CE), em 17 de novembro de 1910, e
faleceucomquasenoventaetrêsanosnoRiodeJaneiro(RJ),em04denovembro
de2003.FilhaprimogênitadeDanieldeQueirozedeClotildeFranklindeQueiroz,
descendia,peloladomaterno,daestirpedosAlencar(suabisavómaterna—dona
MariadeMacedo Lima,conhecida comodonaMiliquinha—eraprimadeJoséde
Alencar, autorde
O Guarani
), e, pelo ladopaterno,dos Queiroz, família de raízes
profundamentelançadasemQuixadá,onderesidiam.
Afamília eraconstituídaaindade mais quatrofilhos:Roberto, Flávio,Lucianoe a
caçula,MariaLuíza.Poucosdiasdepoisdonascimentodaescritora,seupailevoua
famíliaparamoraremQuixadá,ondeexerciaocargodeJuizdeDireito.Em1913,a
famíliavoltouparaFortaleza,porforçadesuanomeaçãoparaocargodepromotor
nessacidade.
23
ASTRÊSRacheis(Entrevista).
CadernosdeLiteraturaBrasileira
.SãoPaulo:InstitutoMoreiraSalles,n.°4–
RacheldeQueiroz,1997p.28
Apósumanonessecargo,DanieldeQueirozpediudemissãoepassoualecionar
GeografianoLiceu.ComoaescritoracontaaNery,seupai“nãoqueriacontinuara
serjuiznempromotor,[...],ficavanamaiorangústiacomessenegóciodeacusaras
pessoas, etc., [...] e acabou largando o ofício. Foi ser professor”.
24
Com maior
disponibilidadedetempo,podendodedicarsepessoalmenteàformaçãodeRachel,
quetinhaentãoaproximadamente4anos,ensinouaamontarcavalo,anadarea
ler,auxiliadoporsuaesposa.
Em1917,afamíliamudouseparaoRiodeJaneiro,procurando,nessamigração,
fugirdoshorroresedosprejuízoscomasfazendas,acarretadospelaterrível seca
de1915,quemaistardearomancistairiaaproveitarcomotemade
OQuinze,
seu
primeiroromance.Entretanto,comoelaconta,seupainãoseadaptouà“mudança
brusca.[...]nãoagüentouavidaaquinoRio.Nãoquisficar”.
25
Apósalgunsmeses,
eleatendeuaumconvitedetrabalhodeLauroSodré,governadordoPará,eentãoa
família transferiuse para Belém do Pará, voltando em 1919 ao Ceará, onde
moraraminicialmenteemGuaramiranga,fixandosedepoisemQuixadá.
Em1921–Racheltinha11anos–porinterferênciadaavópaterna,aescritorafoi
matriculadanocolégioImaculadaConceição,dirigidoporfreirasfrancesas,ondefez
o curso normal, diplomandose como professora em 1925, aos quinze anos de
idade.Essefoioúltimoestágiodesuaformaçãoescolar.
Após essa fase, volta à fazenda de sua família, em Quixadá, e à convivência de
seusfamiliares.Todoseramleitoreshabituais–amãe,opai,astiaseosavós.Essa
convivência, como ela mesma conta, influenciou intensamente sua carreira de
escritora:
Eu me lembro da minha vozinha Rachel, ela já velhinha, perto dos
oitenta anos ... Na fazenda, ficava sempre com uma ou mais netas
juntodela;tinhaumaquantidademuitograndedefilhosenetos.Uma
dascoisasqueexigiaeraquesuasnetaslessemromancesfranceses
para ela ouvir. E aidagente se não lesse direito. Fomos educadas
assim.
26
24
NERY,HermesRodrigues.
PresençadeRachel
–conversasinformaiscomaescritoraRacheldeQueiroz.
RibeirãoPreto:FUNPEC,2002.p.39.
25
NERY,HermesR.Op.cit.,p.40.
26
Idem,p.4142.
OpaideRacheldeQueiroz,alémdeoutrosconhecimentos,transmitialhetambém
ensinamentos sobre política, por meio da leitura de trechos de discursos de Rui
Barbosa, que ele adorava. Ela, ao contrário, achava tudo muito tedioso, mas foi
dessamaneiraqueaprendeuosignificadodedemocracia,eleição,candidatura.
Jáamãenãoseinteressavaporpolítica,masporliteratura;eraávidaleitora,nãosó
dos autores brasileiros – principalmente Machado de Assis  como também dos
estrangeiros, especialmente os clássicos  fascinavase com Tolstoi, Dostoiévski,
Gorki, Balzac, Anatole France, Eça de Queiroz. Quando faleceu, deixou uma
bibliotecadequasecincomilvolumes.
FoiaprimeiraaincentivarRachelàleitura;dividiacomopaidaescritoraatarefade
ensinála a ler, soletrando os cabeçalhos dos jornais, aos cinco anos de idade.
Fornecialhe,depois,livrosparalerecontaroquehavialido.
Aprópriaescritoraassimfalasobreessaherançaintelectualainfluêncialiteráriade
suamãe,inclusiveodecisivoapoioàsuacarreiradeescritora:
Nesse aspecto, a minha mãe foi mais decisiva. Tive uma influência
intelectual muito grande dela. Papai também lia muito. Gostava de
LiteraturaedeHistória.Masmamãeera maisexigente.,Elasó vivia
paraler...[...]Mamãeeraumaintelectual,recebialivrosfranceses,se
interessavamuitopeloqueacontecianomundoliteráriodaquieláde
fora. [...] Todos os livros que comecei a ler foi por indicação de
mamãe. Ela punha os livros nas minhas mãos.A influência literária,
devo à minha mãe. Quando comecei a escrever, era ela a minha
crítica mais severa. [...] nunca publiquei livro que não passasse por
severarevisãodela.”
27
Como já mencionado,em 1927, usandouma única vez o pseudônimo de Rita de
Queluz, a romancista escreveu uma carta ao jornal
O Ceará
, de Fortaleza,
ironizandoumconcursoqueestepromovia –ode“RainhadosEstudantes”,como
elacontaaNery.
28
27
NERY,H.R.Op.Cit.p.4041.
28
Idem,p.64.Comoelamesmaexplica,usouopseudônimoporqueodiretordojornaleramuitoamigodeseu
paieamoçaeleitanoconcursoerasuaamiga.
O diretordo jornal, Júlio Ibiapina, muitoamigodo pai de Rachel, impressionouse
tanto com o talento mostrado na carta que mandou publicála e, ao saber da
verdadeiraidentidadedaautora,convidouaacolaborarcomojornal.
Como ela mesma conta, ficou muito entusiasmada com o convite, pois era
exatamenteoquequeria:aceitouapropostaefoitrabalharparao jornal,fazendo
umacrônicaporsemana.Estavacom17anoseganhavaporseutrabalho100mil
réispormês.
Dessa maneira, o início da carreira de jornalista, talvez sua principal vocação,
ocorreudeformainesperada.Éinteressantenotarque,segundoelamesmoconta,
ojornaleraanticlericale
amaldiçoadopelostrêsbisposdoCeará,demodoqueeucomeceia
escrever num jornal amaldiçoado. Então, um jornal católico,
O
Nordeste,
publicouumartigo[...]comentando:umamoçaquecomeça
aescreverno
OCeará
mefaztremerpeloseufuturo.Foiumgrande
escândalo.
29
Posteriormente,tornouseredatoraefetivadojornal,estabelecendo,assim,umnorte
parasuafuturavidapessoaleprofissional.Noreferidoperiódico,escreviacrônicas
semanaisecuidavadapáginadeliteratura.Porforçadesseengajamento,publicou
no jornal,em forma de folhetim, a
História de um nome
, chamado modestamente
pela escritora de “romancinho”. Iniciava assim, com êxito, a carreira jornalística
incentivadapelamãe,ofícioquesetornouduradourodessaépocaemdiante,não
paroumaisdeescreveremjornal.
Ironicamente,trêsanosdepoisdeescreveracartaaojornalcriticandooconcursode
estudantes,jáatuandocomoprofessorasubstitutadeHistória,elaprópriafoieleita
“Rainha dos Estudantes”. Durante a cerimônia de coroação, ao saber que João
Pessoa havia sido assassinado, deixa rapidamente o local com uma única
explicação:“Sourepórter”.
Em sua longa carreira de jornalista, colaborou, ainda em sua terra natal, com os
jornais
A Jangada
e
O Povo.
Após transferir residência para o Rio de Janeiro,
29
QUEIROZ,Rachelde.In:MARTINS,Wilson.RacheldeQueirozemperspectiva.
Cadernosdeliteratura
escreveuparaosjornaiscariocas
OJornal,oDiáriodeNotícias,oCorreiodaManhã
e
o Diário da Tarde.
Foi cronista exclusiva também da extinta revista
O Cruzeiro
,
paraaqualredigiaa“ÚltimaPágina”,pormuitosanos–de1944a1975e,durante
osúltimosanosdesuavida,dojornal
OEstadodeSãoPaulo.
Asmuitaseintensasexperiênciaspessoaisprofissionaisepolíticaspelasquais
RacheldeQueirozpassounãoaimpediramdeconstituirfamília.Aescritoracasou
se por duas vezes; o primeiro casamento foi em 1932, com José Auto da Cruz
Oliveira,bancárioepoetabissexto,comquemteveem1933umafilha,Clotildinha,
quefaleceuemdecorrênciademeningite,porvoltadosdoisanosdeidadeuma
terrívelperdadaqualaescritoranuncaserecuperou.
Porcontadisso,comoelacompartilhoucomNery,aexperiênciadamaternidadefoi
“dolorosa”, pois perdeu a filha ainda pequenina: “eu a amei apaixonadamente e
nuncamerecupereidogolpequefoiperdêla,assimtãonovinha”.
30
Suavidaintelectualeseuenvolvimento partidárioeram partilhados com o marido,
com quem viveu umperíodo emItabuna, Bahia, seguindo depois para São Paulo
durante os conturbados anos da Revolução de 1932. Posteriormente, voltou a
Fortaleza,ondeselançouaumnovoprojeto,indotrabalhar comocorrespondente
emumaempresadejudeus.
Em1938,jáeragerentedeumaempresaemexpansão, mascompreendeu queo
comércionãoeraacarreiraquelhedavamaisprazerevoltouparaojornalismo.No
anoseguinte,1939,deuumagrandeguinadaemsuavida:separousedeJoséAuto
e,jádesquitada,mudouseparaoRiodeJaneiro,cidadequeescolheuparavivere
láresidiupormuitosanos,atésuamorte;aprincípio,morounoredutobucólicoda
IlhadoGovernadore,nosúltimosanos,nobairrodoLeblon.Devidoaofortevínculo
comsuaterranatal,costumavapassarumapartedoanoemsuaresidêncianoRio
deJaneiroeoutraemsuasterrasdoCeará,afazenda
NãoMeDeixes
.
brasileira,
p.77.
30
QUEIROZ,Rachelde.In:MARTINS,Wilson.Op.cit.,p.94.
O primeiro casamento o durou muito, como a escritora contou a Nery, pois o
marido“eraumhomemmuitofechado.Agentequasenãoconversavasobrenossas
coisas pessoais, [...] a relação foi se deteriorando. [...] Ficou difícil. Preferimos
seguirnossoscaminhos”.
31
Em 1940, por intermédio do médico e escritor Pedro Nava, seu primo, conheceu
Oyama de Macedo, tamm médico, com quem passou a viver, no mesmo ano,
iniciandoumauniãoduradoura–maisdequarentaanosemuitofeliz,atéamorte
dele,em1982.ComoelamesmacontouparaNery,foi“umaexperiênciaímparde
uma relação amorosa intensa e consistente. [...] Nem a morte foi capaz de fazer
morreronossoamor,porqueaindahojevivosobasuapresença.[...]Éumaparte
demimquesefoi,umapartevital”.
32
Apesar de todas essas grandesperdas sobre os ombros, Rachel teve vida longa.
Após viver quase 93 anos, faleceu enquanto dormia, serena, em paz. Como
mencionaTamaru,emsuatesededoutorado,portersobrevividoaquasetodosos
seusamigos,Racheldiziasepesarosa:“meusamigoseramtodosmaisvelhosque
eu,deformaquefuiperdendotodoseles,deumemum.(Pedro)Nava,Graciliano
(Ramos),ZéLins(doRego),amigosqueridosqueeramcomoirmãos,agentesevia
todososdias”.
33
Emumadesuascrônicas,elaquestionousobreessamaniaqueaspessoastêmde
pesar,escolher,dividirotempo.Consolavase:“otempoéquemandanagente,não
somosnósquemandamosnele.Então,porquefingircontrolálo,contálo?Quando
pensonofimdomundoenainfinidadedeprevisõescomquesábioseadivinhoso
descrevem,sófaçoaDeusumpedido:‘Seomundoseacabaraindanomeutempo,
porfavor,quenãosejapelofogo!’Parecequeofimmelhoraindaseriapelofrio.[...]
Agentevaiseencolhendo,seamontoando;comofrio cadavezmaisforte, baixa
aquela sonolência; e se adormece e se morre, sonhando. Pelo menos assim me
contouumrusso,quequasemorreucongeladoejáfoisalvodormindo”.
34
31
NERY,HermesR.Op.cit.,p.95
32
NERY,HermesR.Op.cit.,2002,p.91
33
TAMARU,AngelaHarumi.
AconstruçãoliteráriadamulhernordestinaemRacheldeQueiroz
.2004.
Tese(DoutoradoemLetras)UniversidadeEstadualdeCampinas,p.3.
34
Idem,p.4
Parece que suas preces foram ouvidas, pois, no dia 04 de novembro de 2003,
faleceuaescritoraàs6horasdamanhã,enquantodormia,vítimadeenfarte,emseu
apartamento no Leblon, zona sul do Rio de Janeiro. No dia anterior, cumpriu sua
rotinacomodecostume.Acordoutarde,pediuàsuasecretáriaquelesseparaelaas
notíciasdojornalealgumaspáginasdasuamaisrecentebiografia,queacabarade
receber.
A irmã caçula, Maria Luíza, a quem Rachel amava como filha, havia chegado de
viagemeperguntouseestavatudobemcomela.“Sónãoestoumelhorporquenão
estounoCeará”,respondeuaescritora. Esta frase, umadas últimas que proferiu,
carregaemsiaessênciadavidadeRacheldeQueiroz.Naúltimaconversacoma
irmã, de tudooque viveunessestantosanos, sóselembrou da saudade do seu
Ceará,ainspiraçãodesuasobras.
ComoregistrouajornalistaSocorroAciolinabiografiadaescritora,
nessesquase93anos,Rachelviveutudointensamente,entreguepor
inteiro.FoiconvidadaparaserministradaEducação,masnãoaceitou;
na literatura, conviveu com uma geração de grandes escritores. [...]
Acompanhou a gestação de grandes obras da literatura brasileira,
entreconversasanimadasexícarasdecafécomJoséLinsdoRêgo,
GracilianoRamos,JoãoGuimarãesRosa,MáriodeAndrade,Manoel
BandeiraeJorgeAmado.
35
Como lembra a jornalista, Rachel de Queiroz recebeu os prêmios literários mais
importantes da língua portuguesa, além de comendas oficiais e título de Doutor
Honoris Causa
em várias universidades brasileiras. Em razão de sua paixão pela
terra natal, o Ceará, foi escolhida “como portavoz de suas belezas e de seus
infortúnios e a menina, desde os vinte anos de idade, aceitou o convite e nunca
esqueceuoseucompromisso”.
De fato, a escritora cearense correspondeu às expectativas e deixou gravada em
várias obras um verdadeiro “retrato em prosa” das paisagens de sua terra natal,
35
ACIOLI,Socorro.
RacheldeQueirozeoCeará:
retratoemprosa.Fortaleza:Fund.DemócritoRocha,2003.
Disponívelem:<http://www.acmpce.org.br/revista/ano4/n9/literarias.php>.Acessoem20jun.2006.
usandoemseuslivrosmuitoselementoscaracterísticosparacomporsuashistórias
aseca,omandacaru,osertanejoforteecorajoso,amulherfrágildosertão,mãede
muitos filhos, a carcaça do boi e a criança, desde os “pequenos retirantes de
O
Quinze
àscriançasacampadasnomeiodomatoem
MemorialdeMariaMoura
”.
36
Apóssuamorte, seguindoatradição,RacheldeQueirozdeveriasersepultadano
mausoléu da Academia Brasileira de Letras (ABL), casa que a recebera em
novembro de 1977, mas, em entrevista a Nery, ela havia contado que queria ser
cremada, poisachava“desagradávelaidéia”de serenterradanaquelelocal“um
horroraquilo”.
37
Atendendoaodesejodaescritora,suairmãMariaLuízaprovidenciouparaqueseu
sepultamentofosserealizadonocemitérioSãoJoãoBaptista,emBotafogo,nazona
suldoRiodeJaneiro,aoladodomarido,omédicoOyamadeMacedo.
1.2Atrajetórialiteráriaeasobras
RacheldeQueirozéumdestaquefemininonocenárioliteráriobrasileirodoséculo
XX,portersidoaprimeiramulheraingressarnaAcademiaBrasileiradeLetras;de
fato, mostrando que, como na ficção, também na vida podia obter uma grande
conquista feminina, em 1977 tornouse a primeira mulher a integrar a Academia
BrasileiradeLetras,atéentãoverdadeiroredutomasculino.Por23votosa15,mais
umembranco,RachelvenceuojuristaFranciscoCavalcantiPontesdeMiranda.
Aeleiçãoaconteceunodia4deagostoeaposse,em4denovembrodaqueleano,
com o discurso de recepção feito pelo acadêmico Adonias Filho. Passou assim a
ocupar a cadeira de n.º 5, fundada por Raimundo Correia, tendo como patrono
Bernardo Guimarães, já ocupada pelo médico Oswaldo Cruz, o poeta Aluísio de
CastroeojornalistaejuristaCândidoMotaFilho.
36
Idem,idem.
37
NERY,HermesR.Op.cit.,2002,p.91.
Outro grande mérito de Rachel foi o de ter enfatizado em sua obra não só os
problemas da mulher, do Nordeste e da política, mas também os acontecimentos
triviaisecotidianosdepessoasespelhadasnarealidade.Tornouse,assim,umadas
romancistas mais queridas do país, com uma longa trajetória como escritora de
narrativasficcionais–umperíododeaproximadamente60anos.
Duranteessaextensafaseprodutiva, aescritoraescreveuumtotaldevinteetrês
livros individualmente e mais sete em parceria, produzindo com intensa força
gêneros literários diversificados – crônicas, romances, peças de teatro, histórias
infantojuveniseasmemórias.
Deseuslivros,destacamse seteromances:
Oquinze
(1930);
JoãoMiguel
(1932);
Caminhodepedras
(1937);
AstrêsMarias
(1939);
Dôra,Doralina
(1975);
Ogalode
ouro
(1985)eoúltimoaserescrito
MemorialdeMariaMoura
(l992),que,segundo
elamesma,encerraria“gloriosamentesuacarreiraderomancista.“
38
Rachel escreveu os seguintes livros em parceria:
Brandão entre o mar e o amor
(1942),comJoséLinsdoRego,GracilianoRamos,AníbalMachadoeJorgeAmado;
O mistériodos MMM
(1962), comViriato Corrêa,Dinah SilveiradeQueiroz, Lúcio
Cardoso, Herberto Sales, Jorge Amado, José Condé, Guimarães Rosa, Antonio
Callado e Orígenes Lessa;
Luís e Maria
(cartilha de alfabetização de adultos –
1971), com Marion Villas Boas Sá Rego;
Meu livro de Brasil
(Educação Moral e
Cívica1º.Grau,Volumes3,4e51971),comNildaBethlem.Escreveuaindacom
sua irmã, Maria Luiza de Queiroz Salek os livros
O nosso Ceará
(relato),
Tantos
anos
(1998, autobiografia) e
O Não Me Deixes – suas histórias e sua cozinha
(2000).
Os livros de crônicas são:
A donzela e a moura torta
(1948);
100 Crônicas
escolhidas
(1958), reeditado com o título
Um alpendre, uma rede, um açude
;
O
brasileiroperplexo
e
Mapinguari
(1964),reeditadocomotítulo
Ohomemeotempo
(1995) ;
O caçador de tatu
(1967);
As menininhas e outras crônicas
(1976);
O
jogadordesinucaemaishistorinhas
(1980)e
Asterrasásperas
(1993).
38
QUEIROZ,Rachelde.
MemorialdeMariaMoura
.SãoPaulo:Siciliano,1992.Orelhadecapa.
A escritora também publicou os seguintes livros de literatura infantojuvenil:
O
meninomágico
(1969);
Cafute&PenadePrata
(1986);
Andira
(1992)e
Memóriasde
menina
(2003),estaaúltima publicação emvida de Rachel deQueiroz. Escreveu
aindaasseguintespeçasteatrais:
Lampião
(1953)e
ABeataMariadoEgito
(1958).
Alguns títulos de suaobra, diversificadae competente, foram vertidos para outros
idiomas, como
Dôra, Doralina (
1980
), João Miguel (
1984
), O quinze (
1986
),
e
Memorial de Maria Moura (
1995), para o francês;
As três Marias
(1963) e
Dôra,
Doralina
(1984
),
para o inglês
; O quinze (
1978
)
e
As três Marias (
1994), para o
alemãoe
Oquinze
(1978),quefoivertidoparaoidiomajaponês.
Além de se dedicar ao jornalismo, ao romance e ao teatro, Rachel de Queiroz
mostrouse tamm excelente tradutora, tendo traduzido, algumas delas em
parceria,obrasdeautoresilustresdaliteraturamundial,comoA.J.Cronin,Agatha
Christie,AlexandreDumas,CharlesChaplin,DaphneDuMaurier,ElizabethGaskell,
EmilyBrontë,FiodorDostoievski,HonorédeBalzac,JohnGaslworthy,JulioVerne,
LeonTolstoi,PearlS.Buck,SamuelButlereSantaTerezadeJesus,entreoutros.
OprimeirolivroescritoporRacheldeQueiroz,
OQuinze
,foioprimeirodeumasérie
deseteromances,sendooúltimoo
MemorialdeMariaMoura
,publicadoem1992.
O livro foi publicado em agosto de 1930, quando a escritora cearense ainda não
haviacompletado 20anos, embora, comoa própria Rachelinforma a Nery, tenha
sidoescritoentreos18e19anos,portanto,entre1928e1929:
Escrevi
O Quinze
entre 18 e 19 anos e publiquei aos 20. Eu faço
questão dessa história da idade porque acho o livro muito imaturo.
Aliás,quandoelesaiu,emagosto,euaindanãotinhafeito20.Quando
escrevi o livro, não tinha idéia nenhuma de fazer algum tratado de
Sociologia, nem de dar o primeiro pontapé na literatura nordestina,
nadadessasambições.
39
O romance foi escrito em circunstâncias, no mínimo, especiais. Como Rachel
informa,elatevequesesubmeter,porimposiçãodesuamãe,aumrígidoelongo
tratamentoapóscontrairumaenfermidadepulmonarsuspeitadetuberculoseem
tornode seus 18anos.Comolembraaescritora,“tinhahorapara tudo” e deveria
tantodeitarsequantoacordarbemcedo.Elamoravanocampo,semluzelétricae
não tinha sono para recolherse quando deveria; então, enquanto todos dormiam,
ficavadeitadadebruçosescrevendooseuromance,alápis,numcaderno.
40
O Quinze
, embora escrito pela romancista quando era quase uma adolescente,
narra com crueza a tragédia de personagens degradadas pelo flagelo da seca e
pelassofríveiscondiçõessócioeconômicasaqueficamfragilmenteexpostas.
Otítulodaobrarefereseaoanode1915,emqueocorreuumperíododeestiagem
particularmenteintensonoestadodoCeará;assim,otemarecorrentenoromanceé
aseca,elementodefundamentalimportância,primordialmesmo,paraaconstrução
da personagem Conceição. Há até mesmo quem afirme que a verdadeira
protagonista do romance é a estiagem, fenômeno natural que continuamente
ameaçaarealidadenordestina.
Anarrativatranscorreemdoisplanossimultâneos,profundamenteligadosentresi;
umdeles,social,quemostraoscaminhospercorridosporChicoBentoesuafamília,
retirantesqueabandonamosertãonordestinoocenáriomiserávelemqueviviam.
Ooutro,individual, enfocaospercalçosdeumjovem proprietário rural– Vicente
queigualmentetemperdaspelamesmaseca.
AolongodanarrativaéevidenciadaalutadeConceição,personagemque,emsuas
atitudessingulares,mostraumperfildemulherconstantenosromancesqueRachel
escreveu posteriormente. Essa personagemguerreira, que estreou uma série de
outras,éumamulheremancipadaesolitáriaquetentadefinirsuaidentidadenuma
sociedadepatriarcal,enquantobuscasualiberdade,adignidadefemininaeoamor.
Nessabusca,elase depara com grandes dificuldades,entre elas arecusaem se
casarcomVicente,aquemama,mascomoqualnãoestádispostaaviver,umavez
que isso significaria abandonar o seu mundo urbano e os interesses culturais. A
39
NERY,HermesRodrigues.Op.cit.,p.66.
40
Históriadeumnome.
CadernosdeLiteraturaBrasileira
.SãoPaulo:InstitutoMoreiraSalles,n.º4(Rachelde
Queiroz),p.11.
trajetóriadeConceiçãoviriaaseroembriãodeumasériedemulheresquefizeram
partedoempenhodeRachelparaconfiguraramulhernordestina.
Com este romance, a então jovem autora cearense ajudou a ampliar a galeria de
escritoras brasileiras, numa época em que predominavam escritores do sexo
masculino.Dentreelas,umexemploqueconvémlembraréodamaranhenseMaria
FirminadosReis(18251917),consideradaumadaspioneirasdaficçãoescritaem
nossopaís.Mulataebastarda,MariaFirminaescreveualgunspoemaseoromance
Úrsula,
escritosobumavisãoafrodescendente,publicadoem1859econsideradoo
primeiroromanceabolicionistabrasileiroumdosprimeirosescritosporumamulher
brasileira.
Alinguagemusadanoromanceremeteaumaespéciedenovafacedomodernismo
adapaisagemsocialehumanadeumBrasilembrutecidoeatrasado;maisdoque
umavançoestéticonaseqüênciadatrama,observasealiberaçãodasubjetividade
dospersonagens,quepassamentãoafalareaagir,diversamente doqueocorria
soboenfoquenaturalista.
Também se nota a nova postura que o romance assume frente ao drama dos
retirantes da seca, vistos agora sob uma perspectiva que harmoniza o social e o
psicológico.
Nãodeixadeabordartammalguns temaspolíticosdamaiorimportânciaparaa
época, entreelesodaafirmaçãosocialdamulher –peloenfoquedaprotagonista
Conceiçãonaquelecontextodifícilesabidamenteadverso.
Épossíveldizerse,portanto,que,enquanto aheroína do
Quinze
questiona sobre
seu destino, o drama social dos flagelados parece diluirse no pano de fundo da
paisagem destruída pela longa estiagem, drama esse apresentado em linguagem
quepoucoapoucovairevelandoumacruelrealidade.
Os dois planos da narrativa revelam, às vezes, a face humanizada dos retirantes
que,inseridosnuma dura realidade, apresentamse como símbolos de coragem e
dignidadeChicoBento,Cordulina,Mocinha,osmeninosPedroeJosias.
Em outros momentos, aponta o despertar da consciência de personagens como
Conceição,que,aovisualizaropesodasdesigualdades,se tornamsolidárioscom
osmenosfavorecidosepassamadedicarlhesoseutempo;elachegaaadotaruma
criança,mas,noconjuntodotexto,nãoatingeumverdadeiroentendimentopolítico
sobreoshorroresdoNordeste,istoé,ocompreendequeamisériatinharazões
maisprofundasqueatragédiatrazidapelaestiagem.
RacheldeQueiroz,comoelamesmaexplica,criouumatramacujainspiraçãoveio
das“históriascontadaspeloscaboclosdafazenda”,jáquetinhaapenasquatroanos
quandohouveasecade1915;essestrabalhadoresdafazendaiamàsuacasa e
falavamsobreasgrandesadversidadesenfrentadasemrazãodafaltadechuvaea
conseqüenteescassezderecursos,afome,asdoenças.
Aescritora explica que “nuncatinha visto de pertouma seca, masa tradição oral
influíamuito”econtaquecresceuouvindorelatoscontínuossobreaangústiaum
dramaaterrador,odesespero,a dor dos retirantese as dificuldadespelas quais
passavamasfamíliasvítimasdaseca:
Em1915afomeeraabsoluta.Asgrandessecasestavamnamemória
de todos. A de 1877 ainda era lembrada e a de 1890 foi terrível.
Escrevi
OQuinze
sobo impactodosrelatosorais. Nuncatinhavisto
umasecadeverdade.
41
Comoelamesmarelataementrevistaaos
CadernosdeLiteraturaBrasileira,
“existe
noNordesteumamemóriadaseca;elaé,defato,apresençamaisconstante.[...]é
umassuntopermanentenoNordeste”.
42
Os primeiros leitores do romance foram seus pais, que patrocinaram a primeira
ediçãoda obra pelo Estabelecimento Graphico Urânia: uma mida tiragem de mil
exemplares,querecebeucríticasreticentesemjornaiscearenses.
41
NERY,HermesR.op.cit.,p.67.
42
AstrêsRachéis.
CadernosdeLiteraturabrasileira
.SãoPaulo:InstitutoMoreiraSalles,n.º4(Rachelde
Queiroz),1997,p.22
RachelentãoenviouolivroaSãoPauloeaoRiodeJaneiro,entãocapitaldoPaís,
onde foi recebido entusiasticamente, recebendo elogiosas críticas de Mário de
AndradeeAugustoFredericoSchmidt.
AprofessoraeensaístaVilmaArêascontaque,
alertado por Gastão Cruls, Augusto Schmidt pouco depois o saúda,
confessando que não era o primeiro livro, decerto, que tratava do
assunto (a seca); porém em nenhum outro livro, mesmo em
A
bagaceira
, encontrara tanta emoção, “tão pungente e amarga
tristeza”.
43
Foi, com efeito, uma realização impressionante para uma desconhecida escritora
nordestinadeapenas20anosdeidade,umavezqueoregionalismonordestinodos
anos30consistiadeumaliteraturapredominantementemasculina.
Comoinformadonafolhaderostodos
CadernosdeLiteraturaBrasileira
,havia um
preconceitooforteemrelaçãoàsmulheresdaliteraturaque,aoterminardelero
livro, Graciliano Ramos, desconcertado, concluiu: É homem, mas as evidências
mostravamocontrário:onomefemininonacapa,afotopublicadaem
AsNovidades
Literárias
e o comentário elogioso em artigo publicado por Augusto Frederico
Schmidtemseujornal,noRiodeJaneiro.
44
AprofessoraArêasconfirmaessedepoimentoecontaqueoautorde
VidasSecas
(1938)assimpronunciousearespeitodoromance:
O Quinze
caiu de repente ali por meados de30 e fez nos espíritos
estragos maiores que o romance de José Américo, por ser livro de
mulhere,oquenaverdadecausavaassombro,demulhernova.Seria
realmentedemulher?Nãoacreditei.Lidoovolumeevistooretratono
jornal,balanceiacabeça:nãoháninguémcomestenome.Épilhéria.
Uma garota assimfazer romance ! Deve ser pseudônimo de sujeito
barbado.
45
43
ARÊAS,Vilma.Rachel:oouroeapratadacasa
.CadernosdeLiteraturaBrasileira
.SãoPaulo:Instituto
MoreiraSalles,n.º4(RacheldeQueiroz),1997,p.88
44
Grandesertão:mulheres.
CadernosdeLiteraturabrasileira
.SãoPaulo:InstitutoMoreiraSalles,n.º4(Rachel
deQueiroz),p.5–folhaderosto.
45
ARÊAS,Vilma.Op.cit.,p.88
Acríticada época foiunânime em seus aplausos e, em 1931, já com a segunda
ediçãodolivroimpressa, todas essasopiniões favoráveis foram ratificadas com a
outorga do prêmio da “Fundação Graça Aranha”, em seu primeiro ano de
distribuiçãooficial.
AssimprojetouseRacheldeQueiroznavidaliteráriadopaís,agitandoabandeira
doromancedefundosocial,profundamenterealistanasuadramáticaexposiçãoda
lutaseculardeumpovocontraa miséria e a seca,reforçando assimofecundo e
importanteciclodoromancenordestino.
Além de fazer parte desse primeiro e precoce romance, o mesmo
leit motiv
está
presenteemoutrasobrasdacriaçãoliteráriadeRacheldeQueiroz,quetêmcomo
tema a solidão, a solidariedade irrestrita, o apego à terra, o fatalismo. De modo
geral,acriaçãoliterárianordestinadaépoca,sobretudooromance,temcomopano
de fundoo conturbado panorama históricopolítico característico não do Brasil,
masdemuitosoutrospaíses.
A escritora queria tamm concretizar um objetivo subjacente a um projeto
ideológico pessoal  criar e difundir o espaço e a cultura do Nordeste a partir do
iníciodoséculoXX.
Dessa maneira, mesmo depois de se estabelecer com residência fixa no Rio de
Janeiro, em 1939, Rachel de Queiroz gostava muito de passar temporadas na
propriedadeherdadadeseuspais,afazenda
NãoMeDeixes
,emQuixadá,Ceará;
esse local, uma espécie de porto seguro e vínculo de identidade cultural, tinha a
propriedade de delimitar o universo simbólico da maior parte da sua produção
ficcional.
Embora fosse freqüente o seuire virentreo Ceará e o Rio de Janeiro, com um
curto período de residência em São Paulo na década de 30, Rachel não rompeu
com as raízes culturais e sociais cultivadas durante a infância e a adolescência
vividasnosertãonordestino.
Ao contrário, como analisa Heloisa Buarque de Hollanda, ainda que sintonizada
com o momento atual, firma sua posição pelo avesso. Ela ‘não sai de lá mesmo
quandosai’.Migrante,mesmo
fora
,falade
dentro
deseuespaçodeorigem”.
46
Oromance
OQuinze
éconsideradoumadasobraspioneirasdaproduçãoliterária
nordestina,umavezquefoiescritopoucotempodepoisdolançamentodolivrode
José Américo de Almeida,
A Bagaceira,
este considerado pelo crítico literário e
historiadorAlfredoBosicomoo“marcodaliteraturasocialnordestina”.
47
Os dois romances constituem uma manifestação modernista da ficção brasileira,
ocorridaporvoltade1930,finaldeumadécadaemqueseiniciam asrenovações
estruturais do romance, derivadas da percepção da importância dos meios de
comunicação. Nessa época, o Modernismo no Nordeste começava a tomar “uma
coloração original”, sendo
O Quinze
mais próximo do ideal neorealista que
presidiriaànarrativasocialdoNordeste”,segundoaspalavrasdeBosi.
48
Na visãodo professor e historiador, tanto noromance
O Quinze
quanto em
João
Miguel (
1932
)
, segundo romance de Rachel, notamse algumas características 
uma delas é a “prosa enxuta e viva que seria depois tão estimável na cronista
Rachel de Queiroz”; a outra, consiste das estruturas frasais em que “os períodos
são, em geral, menos `literários´, breves, colados à transcrição dos atos e dos
acontecimentos”, considerando que a escritora elabora um diálogo corrente, com
características que lembram às vezes a estrutura novelística popular.
Posteriormente,estaestruturapoderiaservistaemduaspeçasdeteatroderaízes
regionaisefolclóricas
Lampião
e
ABeataMariadoEgito
.
49
Notase que a estética neorealista apresentada pelas obras desse movimento,
ocorridoaproximadamenteentre1930e1945,marcouosóaliteraturanoBrasil,
mastambémemoutrospaíses,comojácitado.Algumasexpressõesliteráriasdesse
período tiveram como fulcro uma postura de ataque à burguesia, inspirada nas
46
HOLLANDA,HeloísaB.op.cit.,p.115–grifosdaautora.
47
BOSI,Alfredo.
Históriaconcisadaliteraturabrasileira
.2.ed.SãoPaulo:Cultrix,MCMLXXV,p.443.
48
Idem,p.444445.
49
Idem,ibidem.
tendênciasmarxistasdeconsciênciadeclasses,e,porextensão,osconflitossociais
entrealgumasdelas,taiscomocamponeses,operários,patrõesesenhoresdaterra.
Emnossopaís,osmelhorestextosneorealistasanalisaramdemaneiraobjetivaas
diversas facetas dessas entidades, retomando as críticas e as denúncias dos
grandesproblemassociais.
O ano de 1930 foi marcante na história do Brasil, principalmente pelas
conseqüências da crise de 1929, que apresentou reflexos na estrutura social e
econômica,fenômenoquejáocorreranomundo todo. Comoresultado,a crise do
café abalou a estrutura política, levando a um impasse que depôs o Presidente
Washington Luís e levou ao poder uma geração jovem, com Getúlio Vargas no
comando. A imigração, a industrialização, a urbanização daí resultante e ainda a
agitação políticomilitar e a crise econômica demonstravam que o sistema de
produção agrária começava a ser destruído e substituído por uma era industrial
capitalista.
Para melhor compreender o surgimento do neorealismo, é importante conhecer
algunsfatosqueprecederamessavertenteestética,quemanifestouseaospoucos
emtodosossegmentosdaarte.Adécadade20mereceuonomede"anosloucos",
por causa da efervescência cultural vivida pela Europa naquele período, com a
criação ou consolidação de estéticas e concepções artísticas que se espalharam
pelomundotodo.
Nesse período, terminada a Primeira Guerra Mundial, um clima de otimismo
generalizadoassociadoaumprogressodesenfreadofoiobservadoemváriospaíses
emergentes. Essa cada chegou ao final de maneira dramática, com o chamado
crash
daBolsadeValoresdeNovaYork,causadoporespeculações monetáriase
crescimentoeconômicosemplanejamento,levandomuitosinvestidoresàfalência.
Dez anos depois, a Alemanha invadiu a Polônia e um novo conflito mundial foi
deflagrado. As concepções marxistas tornaramse, assim, uma presença política
importante.
No Brasil, a crise financeira foi respondida com um endurecimento político pelo
entãopresidenteGetúlioVargasque,em1937,instituiuoEstadoNovo,nomedado
à ditadura getulista imposta por meio de atos autoritários; estes incluíram uma
pesada censura aos meios de comunicação, além de perseguições políticas,
opressão e, conseqüentemente, a decretação de muitas prisões de milhares de
“inimigos
doregime.
Se na década iniciada em 1920 os modernistas tinham apresentado como
preocupação fundamental uma revolução estética, a geração artística surgida nos
anos 30, envolvida por essas mudanças no governo, e apesar delas, continuou
sempre atuante, voltada a uma literatura participativa, de intromissão na vida
política; entre os representantes dessa fase destacamse, entre outros, Mário de
Andrade,OswalddeAndradeeManuelBandeira.
Algumascaracterísticasdessemovimentoforammantidasnaproduçãoliteráriaa
crítica social, a concisão, a coloquialidade. O regionalismo era uma tendência já
antiga, mas os escritores nordestinos diferenciaramse pela inserção de um estilo
crítico,voltadoparaasdiscussõesdosproblemassociais.Otemacentralpassoua
seradecadênciadasociedadepatriarcalesuasubstituiçãopelasociedadeurbano
industrial.
Osautoresdessaépocaprocuravamseaproximardopovopormeio daliteratura,
adotandotemaseformasdeexpressãodeorigempopularcomoformadedenunciar
ascondiçõessociaisemqueviviam.
Descendentesdefamíliastradicionaisedecadentes,essesintelectuaisoestavam
mais comprometidos diretamente com os grupos dominantes, permitindose certa
autonomia.
O povo vivia, de certa forma, marginalizado como esses intelectuais, pois tanto
aquele quanto estes estavam desvinculados da burguesia emergente; a própria
escolhadeumgêneroliterárionarrativo,oromance,parafalardonordestenãoera
fortuita,jáqueseaproximavadatradicionalnarrativapopular.
Dentro desse raciocínio, um dos grandes méritos de Rachel de Queiroz é a sua
capacidadedeconstruiraregiãonordestinacomoespaçodesaudade,datradição.
Ogostopelaescolharecorrentedosertão como cenáriode váriasobras coloca a
escritora cearense no grupo dos autores norteados pelo desejo de manter viva a
imagem da terra natal embora também se reportasse ao litoral, o sertão era o
espaço tradicional por excelência, aquele que dava originalidade ao Nordeste e o
caracterizava.
Para tanto, escreveu suas obras tendo como material de invenção suas próprias
lembranças,experiências,imagens,enunciadoseformasdeexpressão,resultantes
de umaidentidade ameaçada de se perder. Além disso, Rachel preocupouse em
consolidar a tradição nordestina e não apenas divulgar uma já existente; desse
modo, registra e, ao mesmo tempo, recria elementos a serem incorporados pela
culturapróprialocal.
Poressemotivo,osprincipaistemasliteráriosdesuaépocaforamaseca,afome,a
miséria, o arcaísmo das relações de trabalho, a exploração do camponês, a
opressãodocoronelismo,areaçãodoscangaceirosetc.
É sob esse enfoque que Rachel de Queiroz apresenta diferenças marcantes em
relaçãoaoutrosregionalistas,poisescreviainspiradanoengajamentopolíticosocial
dosanos30–épocaáureadoromanceneorealistanordestino.Aescritoraprojetou
se na vida literária nacional, escrevendo obras com temas de fundo social,
profundamente realistas na sua dramática exposição da luta secular de um povo
contraamisériaeaseca.
Nesse contexto cultural e político, como analisa Vilma Arêas, o regionalismo da
época era “crítico”, apresentando uma força resultante de “fatores diversos e
contraditórios:oequilíbrioentrearenovaçãomodernistadoSul,quedeummodoou
de outro passou a impregnar a cultura como um todo, e a do Nordeste, que
sublinhavaseucunhotradicionalista”.
50
50
ARÊAS,Vilma.Op.cit.,p.88
Na esteira desse sentimento regionalista, foi organizado em 1926, pelo sociólogo
GilbertoFreyre,oICongressoRegionalistadoRecife,duranteoqualleuoManifesto
Regionalista, como contraponto à Semana de Arte Moderna de 1922, com a
intençãodeconfrontaromodernismodosestadosdosulbrasileiro.
Com Rachel de Queiroz na prosa de ficção, podese dizer ainda que a fala da
mulher ingressou no campo social, abandonando o clima doméstico a que as
mulheresselimitavam,paranarraraásperatragédiadasecanordestina.Apartirde
O quinze
, podese dizer que a literatura feminina no Brasil desvencilhouse das
amenidades, focalizando, de maneira aguda e humanizada, indivíduos, clima e
civilização,personagensdecaráter,situadasnummeioadequadoerealizandouma
açãoconseqüente.
Emdecorrênciadisso,éprecisorespeitarumadiferençadeenfoqueaoanalisaros
romances rurais de Rachel em relação às obras dos demais representantes do
chamado romance nordestino; com a escritora, o cenário muitas vezes cruel da
regiãoagresteedoshomensquenelahabitaméapresentadosoboviésdoolhar
feminino, pertencentea uma escritora deposição destacada noambienterural da
canaedogado,ondetevesuaformação.
Além de Rachel de Queiroz e José Américo de Almeida, há outros escritores
notórios quefazem partedogrupodageraçãode30”.Comoinformao escritore
jornalistaCarlosHeitorCony,emsuaanálisenos
CadernosdeLiteraturaBrasileira,
o romance regionalista, um dos gêneros literários mais populares do Brasil, teve
grandeimpulsocomo“pequenogranderomancedeRacheldeQueiroz,emtodos
ossentidos,umaobraprima”,que coloca a obra da escritora comoprecursorado
que chama de “santíssima trindade do nosso romance regional” – José Lins do
Rego,GracilianoRamoseJorgeAmado.
OescritorejornalistaConyelogiaoestilodeRachel,queconsidera
enxuto,sembordados.[...]OamordeConceiçãoporVicenteé
narradodeformaquetranscendeoromanceregionalequerevelaria
emRachela poderosainfluênciadeMachadodeAssis.Éumamor
quenãoserealiza,quecadaumguardaconsigo,sacrificandooao
dramamaiordaseca.
51
Complementandoasconsiderações de Cony,a ensaísta Vilma Arêas fala sobre o
estilo sóbrio e rigoroso de Rachel em oposição ao romance de José Américo,
dizendoqueem
ABagaceira
háumexcessodeinformações,oquedistraioleitordo
tema principal – o flagelo. Confrontandose as duas narrativas, percebese
instantaneamentequeem
OQuinze
ocorreuma mudançanotom,que“seproduz
pelo que não é dito, pelo que se apaga nos brancos da narrativa (esses é que
brilham),nãocomopalavrarecalcadaoucalada–simplesmentenãoestálá”.
52
Emcontrapartida,comorelataArêas,tambémhouvecríticasnegativasemrelaçãoa
As Três Marias
e a
O Quinze,
por parte de Augusto Frederico Schmidt, Adolfo
CasaisMonteiroeAgrippinoGrieco,queafirmaramqueatramadosromancesera
muito frágil, sem complexidade de ação. No mesmo estudo, Arêas cita tamm a
crítica de Ruggero Jacobbi, que afirmou que a ficção da escritora cearense é
“fragmentária,dispersivaeimpressionista”.
53
SegundoaprópriaRachel,acríticafoi“lúcidaejusta”,admitindo queseuprimeiro
romance,escritoentreos18eos19anos,foirealmenteimaturoemais,quefaltava
àssuashistórias“essacoisabásicadoromancequeéoenredo”.
54
Depoisdessaestréiasensacional,publicouem1932seusegundoromance
João
Miguel
,tammdeambientaçãocearense.Nesseromance,decunhosocial,Rachel
contaodramadeJoãoMiguel,umhomemsimplesque,sobefeitomomentâneodo
álcool,impulsivamenteassassinaumdesafetoevaiparaaprisão.Ofiocondutorda
narrativaéaanálisedoimpulsoassassino,presenteemumserdotadonormalmente
dehumanidadepassivaesubmissa–ocaboclosertanejo.
51
CONY,CarlosHeitor.Confluências.
CadernosdeLiteraturaBrasileira
.N.º4(RacheldeQueiroz).SãoPaulo:
InstitutoMoreiraSalles,1997,p.1617
52
ARÊAS,Vilma.Op.cit.,p.91
53
Idem,p.97
54
Idem,ibidem.
A vida de João Miguel no presídio, cumprindo pena pelo crime irreparável, é
mostradacomprofundadensidadepsicológica,oquedenotaumhomemcientedo
valor supremo da liberdade e da reconquista desta. Embora a ambientação da
históriasejaumpresídiodeinterior,ocenárioexternoéaregiãonordestina:aseca
não é mais o cenário principal, e sim os relacionamentos mantidos entre os
elementos que formam um agrupamento humano que transfere para o presídio o
sentidoeoshábitosdavidacotidianaemliberdade,entreelasSanta,acompanheira
deJoãoMiguel,queotraicomocaboSalu.
Apósumintervalodecincoanosnaatividadeliterária,aautoraretornaàficçãoem
1937comseuterceiroromance
CaminhodePedras
,consideradopelohistoriador
Bosicomoconscientementepolítico”,umavezquefoiescritoem1936,quandoos
ideais de esquerda estavam em plena efervescência no Brasil, no limiar do
surgimento do EstadoNovo. Bosi complementa que, apesar disso,
Caminho de
Pedras
não é o que se pode chamar de “romance de tensão crítica”, mas um
“romancepopulista”.
55
EmdecorrênciadoenvolvimentodeRacheldeQueiroznaépocacomomovimento
político comunista, é visível a abordagem nesse romance de temas que a
preocupavam  o drama do operariado e os problemas das lutas de classe, que
tomamolugardotemadaseca,amplamenteabordadoem
OQuinze
.
O romance trata, de um lado, da luta pela organização sindical, política e
revolucionária em Fortaleza; de outro lado, enfoca uma personagem feminina,
Noemi, e sualuta pelo direito ao amor, diante de sua insatisfação com o marido,
JoãoJacques,edadescobertadeumnovoamor,representadoporRoberto,quea
completaemváriossentidos.Noentanto,comoabandonaromarido,quetinhasuas
qualidades,econseqüentementetirardeleosfilhos?AssimexplicitaRachel,mais
uma vez, o sentido trágico da vida: para conseguir as verdadeiras afeições, é
necessárioarcarcomaresponsabilidadedecausardoresnosoutros.
55
BOSI,Alfredo.Op.cit.,p.445.
A escritora deixa transparecer na trama desse romance a decepção e as marcas
impressaspelabrevemilitâncianoPartidoComunista(19311933)eorompimento
ocorridoquandoseuslíderestentaramimporumacensuraaseusegundoromance,
João Miguel,
decisão que Rachel não aceitou. Desse modo, publicou o livro em
seguida,apósrompercomoPartido,oque,segundoconta,nãoaaborreceumuito;
elamesmaexplica,ementrevista,quenãoescreveuolivroapenasparacontradizer
oPartido,“masnãopodiadeixardecolocaraminhadecepçãocomoPC”.
56
Em1939,Rachellançouoromance
AstrêsMarias
,quemereceuganharoprêmio
da Sociedade Felipe d´Oliveira. Neste livro, ela não aborda mais a política, mas
dedicase a narrar experiências autobiográficas do tempo em que estudou no
ColégiodaImaculadaConceição,comocontaaHermesNery:
As Três Marias
é o meu livro mais autobiográfico. Elas realmente
existiram. A Guta sou eu, a Maria da Glória morreu há 3 anos e a
MariaJoséestavacomoPresidenteCasteloBrancoaqueledesastre
aéreofatal. A Maria da Glória, porexemplo,eraórfã. Tudo aquiloé
rigorosamentebiográfico.Hámuitodaminhavidadejovem,aminha
primeiravindaaoRio,apaixãoporaquelehomem...Tudoaquilofoi
umretratofidedignodaqueletempo.
57
ComoobservaohistoriadorBosi,nolivro
AsTrêsMarias
confirmaseatendênciade
colocarosproblemaspsicológicosnoprimeiroplano,jáobservadaem
Caminhode
Pedra
.
58
MariaAugusta,aGuta,relataemprimeirapessoa,aocontráriodasficções
anteriores, a convivência com as companheiras eleitas – Maria José e Maria da
GlóriaeatentativadeseadaptaràvidasocialeafetivaapósasaídadoColégio.
Mudandoatemáticadoslivrosanteriores,portanto,anarrativacontaatécertoponto
atrajetóriaescolardavidadastrêsamigasedepois,atéofinaldatrama,aamizade
e a vida delas em uma cidade não definida claramente. Novamente, fica clara a
preocupação em apresentar a posição da mulher, sempre à frente de seu tempo,
emancipada,noplanoamorosoesocial.
56
Entrevista.AstrêsRachéis.
CadernosdeLiteraturaBrasileira
.SãoPaulo:InstitutoMoreiraSalles,n.º4
(RacheldeQueiroz),1997,p.28
57
NERY,HermesR.Op.cit.p.108.
58
BOSI,Alfredo.Op.Cit..p.445.
Para Buarque de Hollanda,
As Três Marias
é o romance “mais declaradamente
psicológicoe`feminino´”
59
deRachele,paraMartins,dentreas“diversas`inflexões´
nasuaobraromanesca”,estaobrarepresentaaprimeiradasrupturas.
60
Desempenhandooutrograndetalento–odeescrevercrônicas,RacheldeQueiroz
tornouse cronista exclusiva da revista
O Cruzeiro
em 1945, escrevendo a
Última
Página
por trinta anos ininterruptos, até 1975. Em 1948, publicou
A donzela e a
MouraTorta
,umareuniãodecrônicasescritasparaa revista
;
em1950, escreveu,
emquarentaediçõesdessamesmarevista,ofolhetim
Ogalodeouro,
queviriaaser
publicado em livro em 1985. Mudando radicalmente de temática novamente, a
autora narra nesse romance aspectos da vida suburbana carioca a partir das
dificuldades,dosamoresedasprofissõesdopersonagemMariano.
Ogalodeouro
tematramaambientadanaIlhadoGovernador,noRiodeJaneiro,
comoresultadodoperíodoemqueaescritoralámorou:“afinal,lámoreimuitosanos
[...].DaquelesanosvividosnaIlhanasceuahistóriadeMarianoeNazareth.Foium
romance inteiramente urbano”,
61
cuja ação é construída em torno de assuntos
realistas como jogo do bicho, terreiros, mãesdesanto, rinhas de galo de briga e
corrupçãopolicial.
Aescritoradedicousetambémaoteatro,lançandoem1953apeça
Lampião,
drama
quecontaavidadofamosocangaceirodoNordeste.ApeçafoiencenadanoTeatro
MunicipaldoRiodeJaneiroenoTeatroLeopoldoFroes,emSãoPaulo,tendosido
agraciadacom o Prêmio Saci, conferido pelo jornal
O Estado de São Paulo
, pela
autoriadamelhorpeçadoano.
Em1957,recebeuoPrêmioMachadodeAssis,daAcademiaBrasileirade Letras,
peloconjuntodesuaobra.Nessemesmoano,escreveuumanovapeçateatral
A
Beata Maria do Egito
cuja personagemtítulo comanda um grupo de fanáticos
religiosos.
59
HOLLANDA,HeloísaB.Op.Cit.,1997,p.114.
60
MARTINS,Wilson.Op.cit.,1997,p.70.
61
NERY,HermesR.op.cit.,2002,p.118.
Nomesmoano,apeçafoilevadaàcenanoTeatroSerrador,doRiodeJaneiro,com
GlauceRocha,SebastiãoVasconceloseJaimeCostanosprincipaispapéis;obteve
oPrêmioRobertoGomes,daSecretariadeEducaçãodoRiodeJaneiro,eoPrêmio
deTeatrodoInstitutoNacionaldo Livro comomelhor peçadramática, vindoa ser
publicadanoanoseguinte,1958.
Em1958aindafoipublicadatammumaseleçãodecrônicas,sobotítulode
100
crônicas escolhidas,
reunindo as melhores páginas do gênero escritas até então
pelaautora.Em1964,publicaramse
Obrasileiroperplexo
,comhistóriasecrônicas,
etamm
Mapinguari,
quefoireeditadoem1995comotítulo
Ohomemeotempo
.
Em 1966, a convite do presidente Humberto de Alencar Castelo Branco, seu
conterrâneoeaparentado, vivenciou uma interessante experiência diplomática, ao
participar como delegada da 21.ª Sessão da Assembléia Geral da ONU –
OrganizaçãodasNaçõesUnidas,juntoàComissãodosDireitosdoHomem.
Noanoseguinte,1967,Rachelpublicouumnovolivrodecrônicas
Ocaçadorde
tatu;
opresidenteCasteloBranco,depoisdevisitaraescritoraemsuaFazenda
Não
MeDeixes,
morreuemdesastreaéreo.Nessemesmoano,elapassouaintegraro
ConselhoFederaldeCultura(ondepermaneceuaté1985).
Em1969,estreounogêneroinfantojuvenilcom
Omeninomágico,
agraciadocomo
prêmio Jabuti, da Câmara Brasileira do Livro e, em 20 de novembro de 1970,
recebeuotítulodecidadãcarioca,outorgadopelaAssembléiaLegislativadoEstado
daGuanabara.Nessemesmoano,oDiretorgeraldaBibliotecaNacional,oescritor
AdoniasFilho,comojustahomenagem,promoveuaexposição“RacheldeQueiroz”.
Em1975,publicouopenúltimoromance
Dôra,Doralina,
emcujahistóriaRachelde
Queirozimpõegrandeveracidade,comoamaiscompletadasrealidadesnocampo
daficção.Esselivrofoieditadocomumlongointervaloapósosdoisúltimos
As
TrêsMarias
,em1939, e
Ogalodeouro
,em1950. Noromance
Dôra,Doralina
,a
história é narrada em primeira pessoa e estruturase em três partes:
O Livro de
Senhora,OLivrodaCompanhia
e
OLivrodoComandante.
Provavelmente,não
OlivrodeDôra
porqueelaestáemcadaumdeles.
Nesseromance,RacheldeQueirozuneoNordesteaoRio,eéexatamentedessa
uniãoque surgeo romance de amor, que tem como cenário dois espaços que já
usaraemoutrashistórias:
Dôra
deixaafazendanosertãonordestino,ondemorava,
deixando suacasa,a mãe e o marido, e parte para o Rio de Janeiro, esperando
encontrarlásualiberdadecernedetodaaobra deRachele,principalmente,o
amor.Apóstodosessesacontecimentos,DôraretornaaoNordeste,tendoemsua
vidaumatrajetória,decertaforma,muitosemelhanteàdaprópriaRachel.
Os quase trinta anos passados ao longo da história são marcados por fatos
históricos que incluem a entrada do Brasil na guerra e, anos depois, os conflitos
políticosqueteriamdeterminadoosuicídiodeGetúlio.Aobraregistraumarealidade
regionalqueterminaporresgatar,decertamaneira,umapartedoquadrohistórico
daformaçãobrasileira.
Na primeira parte da tríplice estrutura do livro, chamada de
O Livro de Senhora
,
Dôra
faladosofrimentopelaperdadopaiaquemamavamuitoenarraosfatos
ocorridos durante a convivência com sua mãe, a quem chamava de Senhora; a
relação dasduasé fria,de grandedistanciamento. Como Rachel conta a Nery, a
inspiração para construir esse relacionamento surgiu da observação de várias
famíliascomquemelaconvivia“muitasdeminhasamigasviviamdramasassim”.
62
Nasegundaparte,
OLivrodaCompanhia
,elanarrasuaviagemcomaCompanhia
deComédiaseBurletasBrandiniFilho,asamortedeseumarido–Laurindo.A
exemplodoqueaconteceuemoutrashistórias,RacheldeQueiroz,decertaforma,
projetouse nesta narrativa, levada provavelmente por gostar muito de teatro; em
umadesuascrônicas,elacontaquegostariadetersidoatrize aojornalistaNery
dissequesempreteve“fascinaçãopeloteatroquandoeraadolescente,achavaque
queriaseratriz”.Seusfamiliaresiamassistiratodososespetáculosqueencenavam
emsuacidade–seupai“eraapaixonadoporteatro”.
63
Naterceiraeúltimapartedolivro,
OLivrodoComandante
,rarelataasmudanças
ocorridasemsua vida comodecorrência de seuintenso amorpeloComandante
62
NERY,HermesRodrigues,op.cit.p.111.
63
Idem,p.163
assimchamadoporquepossuíaumbarco,sendoaprincipal,porexigênciadele,o
abandonodasatividadescomoatrizdeteatro.Apósasofridaperdapelamorte do
Comandante,Dôraretornaaosertãonordestinoparaassumiradireçãodafazenda
dafamília,poissuamãetammhaviafalecido.
OhistoriadorMartinsconsideraque,comamudançados“parâmetrosdastécnicas
romanescasedasideologiasliterárias”,foipossívelaRachelreencontrarseeentão
conceber “o soberbo
Dôra, Doralina,
que, segundo parece, desnorteou a crítica e
nãofoireconhecidoemsuajustamedidacomolivroquesevinhajuntaraumanova
idadedoromancebrasileiro[...]”.
64
Noanoseguinte,1976,foipublicadoolivro
Asmenininhaseoutrascrônicas,
e,em
1980,RacheldeQueirozpublicou
Ojogadordesinucae maishistorinhas,
livrode
crônicas; com a direção de Perry Salles, estreou, em 1981, a adaptação para o
cinemade
Dôra,Doralina
.Em1986,retornouaogêneroinfantojuvenil,publicando
outrolivro
Cafute&PenadePrata
,comilustraçõesdeZiraldo.De1988a2003,
escreveu simultaneamente crônicas semanais para os jornais
O Estado de São
Paulo
e
Opovo,
deFortaleza.
Em 1991, aconteceu a última aparição da escritora no cenário político do país,
quandorecebeu,doentãopresidenteFernandoCollor,aOrdemNacionaldoMérito.
Em1992,Rachelpublicouumnovolivrodeliteraturainfantil
Andira,
etammseu
sétimo e último romance que, segundo ela mesma, encerraria gloriosamente sua
carreiraderomancista“
65
MemorialdeMariaMoura.
Olivrofoicontempladocomo
troféuJucaPato,concedidoaosganhadoresdoprêmio“Intelectualdoano”.
Oromancecontaasagadeumajovemórfã,filhaúnica,emplenosertãonordestino,
que arcacom o peso de um grande desafio: acuada por dois primos ambiciosos,
optaporabandonardemaneiraousadasuacasaesairemdireçãoaumlugarmuito
longínquoedesconhecido,embuscadeterrasdeixadasporseuavôpara,comisso,
conquistar sua dignidade e independência. Uma decisão tão ousada resultou da
64
MARTINS,Wilson.Op.cit.,p.82.
65
QUEIROZ,Rachelde.
MemorialdeMariaMoura
.SãoPaulo:Siciliano,1992.Orelhadecapa.
forte pressãodos primos, tanto por que se sentiam no direito de apropriarse por
herançadepartedacasaemqueelavivia,quantoporqueumdelesqueriacasarse
comelaàforça.
Para atingir esse objetivo, arrebanha um grupo de homens dispostos a tudo, em
troca dapromessadeuma vida nova.Por ser esteromancee sua adaptação em
formato de minissérie para a televisãoo
corpus
deste trabalho, sua estrutura e a
transposiçãoserãoanalisadasadiantecommaisprofundidade.
Em1993,Rachellançouolivrodecrônicas
Asterrasásperas
,e,nessemesmoano,
recebeu em Portugal oprêmio Camões o mais importante de nossa língua. Em
2003, voltou ao gênero infantojuvenil com
Memórias de menina
, esta sua última
publicaçãoemvida.
A escritora cearense, embora tenha conquistado notório espaço na literatura
brasileira, declarava humildemente que era “nada mais que uma contadora de
histórias de dramas humanos”.
66
Provavelmente, essa postura resultava da
convicçãoqueelatinhadenãoserumaescritora,nemterapretensãodeseruma,
já que se considerava uma jornalista, insistindo em dizer que se sentia “mais
jornalista do que ficcionista. Sempre. Na verdade, minha profissão é essa:
jornalista”.
67
A mais longa atividade exercida pela escritora foi a de cronista, que tamm é a
mais notória em sua carreira. De fato, foram 30 anos de crônicas veiculadas na
revista
O Cruzeiro
e em jornais, como
O Estado de São Paulo,
produções que
geraramapublicaçãodeoitolivrosquereúnemamaioriadascrônicasescritaspor
Rachel.
Surpreendendoqualquerleitormaisatento,aescritoradeclaraque,tantoemrelação
àscrônicas,finalizadassemprenaúltimahora”,quantoaoseutexto,nãotinha“o
menorentusiasmo”emrelaçãoaosseusescritos:“Eunãosublimoaliteraturacomo
meuidealdevida.Eupassariamuitobemsemfazerliteratura”.Paraela,aliteratura
66
NERY,HermesR.op.cit.p.46.
67
AstrêsRachéis.op.cit.p.33.
nadamais eraque uma“vocação”orientada, quase forçada desde cedo, por uma
famíliadeintelectuaisliberais,“poucodevotadaàeducaçãoformal”.
68
No entanto, desde que começou a escrever, muito jovem ainda, para o jornal
O
Ceará
comoRitadeQueluz,aescritorasemprefoibemsucedidaemsuaprodução
literária. A consagração profissional veio sempre materializada tanto nas várias
premiações quanto no sucesso de mercado editorial, expresso em reedições dos
livros em massa; isso ocorreu desde o primeiro romance,
O Quinze
, muito bem
recebido pelos rigorosos críticos literários modernistas, até o último,
Memorial de
MariaMoura
,passandopelasinúmerascrônicas,peçasdeteatro,livrosdidáticose
olivrodememórias,váriosdelesvertidosparaidiomasdeváriospaíses.
Na área jornalística, construiu uma carreira independente e prestigiada, muito
produtivaecom elevada qualidade, durante longos setenta anos. Apremiação de
suaintensaedeterminadaintençãodecolocaramulheremposiçãodedestaque,o
que já haviaconseguido emseus romances, concretizouse emsua vidapessoal,
com a vitória mais simbólica e representativa para ela  a de ter sido a primeira
mulheraintegraraAcademiaBrasileiradeLetras.
Rachel de Queiroz tornouse figura polêmica não apenas pelo conjunto de uma
carreiraliterária tãoprofícua, reconhecida pela crítica, mas tamm pela trajetória
pessoaleivadadeexperiênciasmarcantesepelasposiçõespolíticascontraditórias
tomadasaolongodesuavida.
Apesardisso,éinteressantenotarque,sejapelatrajetóriapolítica,sejapelaopção
demaiorproximidadecomojornalismodoquecomaliteratura,sejapelohiatode36
anosentreaproduçãode
AstrêsMarias
e
Dôra,Doralina
,notasequeaescritora
possui atualmente uma pequena fortuna crítica em relação a toda sua produção,
como analisaa professoraHeloísaBuarquedeHollanda, emseu ensaio “O
éthos
Rachel”.Aensaístaacrescentaque,“naverdade,a timideznarecepçãocríticada
68
Idem,p.25e35.
obra de Rachel é recente”, já que a publicação de seus romances sempre teve
estrondosarecepçãotantodepúblicoquantodecrítica.
69
Isso ocorreu desde o lançamento do livro
O Quinze,
obra saudada por críticos
renomados; verificase, portanto, que a consolidação da carreira de Rachel de
Queiroz como romancista e jornalista ocorreu durante o período de 1930 a 1960,
mas, de algum tempo para cá, pouco tem sido escrito sobre seu valor
especificamenteliterário.Comefeito,“éapartirdadécadade60quesetornamais
visívelaresistênciadacríticaemrelaçãoaosescritosdeRachel”,comoacrescenta
Hollanda.Comoaensaístaanalisa,a“competêncianaeconomiadalinguagem,[...]
umaescritasóbria,rigorosa,antibarroca,avessaaqualquerdemagogianoromance
nordestino” não são devidamente reconhecidas e nem mesmo seu “pioneirismo
enquantoescritoramulher”.
70
No entanto, é possível ler, de forma latente, nas entrelinhas da memória literária
brasileira, um espaço de reconhecimento da produção ficcional dessa escritora
cearense,que buscou nas referências culturaisda realidade regional nordestina a
verossimilhança para personagens e histórias que têm no ser humano o principal
eixo de construção. Sua ficção mergulha na região nordestina, para transformála
em força motriz de questionamentos inerentesà demanda humana e universal da
busca incondicional da felicidade; isso implica, portanto, na necessidade de uma
releitura mais atenta do que a que seria usada para uma simples “historinha do
nordeste”.
AescritaenxutaesólidadeRacheldeQueiroz,presentejánomomentodeestréia,
garantiuboarecepçãoaoconjuntodesuaobra.Ofatodeteremnajulgadohomem,
tamanhaacruezadosepisódiosquedescreveem
Oquinze
,nãoaimpediudeser
qualificadaportavozdaspersonagens femininas.Aodar voz a elas, ampliava um
projetopolíticopróprioacertezadequeasmulheresvieramparavencer;issopode
serobservadonaformacomoconstróiofoconarrativodassuasobras.
69
HOLLANDA,HeloísaB.op.cit.,p.103.
70
HOLLANDA,HeloísaB.op.cit.,p.103104
João Miguel, Lampião e O galo de ouro
foram as únicas obras da escritora que
priorizaramumatemáticaeumpontodevistamasculinos.Noprimeiro, contaseo
dramadeJoãoMiguel,feitoprisioneiroapósumabrigadebar,emque,embriagado,
esfaqueiaoutrohomem.Nosegundo,odramadeumhomememfuga, dispostoa
enfrentartodasasatribulaçõesdocangaço,atémesmoamorteviolenta,paranão
serpegopelas“volantes”.E,noterceiro,narraseahistóriadeMariano,ohomem
suburbanoquebuscasobreviveràsmazelasdeumavidaenvoltaemjogosdeazar,
apostasevício.
Dessa forma,essas histórias divergem do conjunto por adotarem o foco narrativo
masculino, ainda que apresentem personagens femininas destacadas, como
Santinha, Maria Bonita e Nazaré. Por motivos diversos, todas elas abandonam o
maridoparaseguircomoamante.
Asdemaisobrasdaautoratêmseufocoemumapersonagemfeminina,espéciede
eixo central em torno do qual gira a história. Ao romance
O quinze
, é dado o
destaque feminino a Conceição, assim como em
Caminho de pedras
é dado a
Noemi.
ABeataMariadoEgito
,peçadeteatro,écentradanaprotagonista,emcuja
figuramisteriosaéagrupadatodaaexpectativadodrama.
AstrêsMarias,Dôra,
DoralinaeMemorialdeMariaMoura
sãoobrasnarradasemprimeirapessoa–com
essemododenarrar,aautorapareceterencontradoo melhormeiodeexploraro
universofeminino.
Ainda que em
Memorial de Maria Moura
, seu último romance, apareçam tamm
vozes masculinas narradoras, todas elas existem em função de construir Maria
Moura. Considerando o projeto de Rachel de Queiroz de destacar personagens
protagonistas femininas emancipadas, temos em Guta, Dôra e Maria Moura as
melhores representantes ficcionais. Maria Moura é a configuração final das
tentativasdasprotagonistasanterioresdeserembemsucedidas.
TantoGuta quanto Dôra partemembusca de um novo lugar, um espaço próprio,
mas, após terem passadoporaventurasenão terem sido, de certamaneira, bem
sucedidas,ambasretornamaoseulugaroriginal.Gutaseausentaporsomentetrês
meses, tempo de conhecer e namorar rapidamente Isaac; retorna porque não
consegueprorrogarsualicençanotrabalho,oquedemonstrasuaforteligaçãoao
Crato. Porsuavez,Dôra vivenciaum período maior dereais conquistas noplano
amorosoenotrabalho.QuandoconheceoComandante,jáestáforadecasahátrês
anos. Permanece algum tempo em viagens com o circo até se fixar em Santa
Tereza,noRiodeJaneiro,permanecendocasadapormaisumano.
Em contrapartida, Maria Moura não retorna às suas origens porque alcança seu
lugardefinitivo,aoapossarse dasterras deixadas peloavô. A conquista feminina
alcança,portanto,em
MemorialdeMariaMoura
,seupontomaisalto,assegurandoà
personagemtítuloumaposiçãodedestaqueemrelaçãoàsoutraspersonagens.
Dessa maneira, como constata a ensaísta Heloísa Buarque de Hollanda, diante
dessa caracterização, os romances de Rachel de Queiroz “desenharam as
personagens femininas mais radicais da época”;
71
é inegável a grandeza que
Rachel de Queiroz sempre atribuiu às suas personagens femininas; como ela
declarouementrevista,suas“mulheressãodanadas,[...]talvezsejaressentimento
doquenãosouegostariadeser”.
72
Maisdoqueisso,aocriarpersonagenstãomarcantes,comoavaliaMartins,Rachel
deQueirozcolaborouparaconstruir“umavisãofeministaqueseantecipavaporuns
bons30anosaconcepçõesposteriormentedogmáticas”.
73
Ocríticoanalisaainda
que,emtodasuatrajetória,aescritorapôsemcenamulheresfortes:excetuandose
dois livros
João Miguel
(1932) e
Caminho de pedras
(1937)  "todos os seus
romanceslevamnotítuloonomedasheroínas,mesmoasexceçõesaparentes”.
74
Aofalarde“exceçõesaparentes”,Martinsrefereseadoisromances:umdeleséo
primeiro romance de Rachel,
O quinze
, (1930), marco doromanceregionalista no
Brasil, que relata os efeitos da seca noNordeste. Nesse romance, a personagem
Conceição dedicase a "leituras socialistas" e seria uma espécie de
alter ego
da
autora. A segunda exceção” é
Caminho de pedras
(1937), que relata como, na
71
HOLLANDA,HeloísaB.op.cit.,p.113.
72
Entrevista.In
CadernosdeLiteraturabrasileira
.SãoPaulo:InstitutoMoreiraSalles,n.º4(RacheldeQueiroz),
1997,p.26
73
MARTINS,Wilson.Op.cit.,p.82.
74
Idem,p.83.
época,ocensordoPartidoComunistahaviaidentificadoapersonagemNoemicomo
“adversáriadeclasse”e
personanongrata
aopartido.
1.3Avisãodemundo
OnomedeRacheldeQueirozmuitasvezesestáassociadoàsconquistasdesuas
personagens femininas; apesar desse posicionamento, a escritora cearense
rejeitava veementemente que era uma feminista  posicionamento que alguns
críticosatribuíramaela,comodeclarouementrevistaconcedidaaos
Cadernosde
LiteraturaBrasileira:
Eu sempre tive horror das feministas; elas até me chamavam de
machista.Euachoofeminismoummovimentomalorientado.Porisso
sempretomeiprovidênciasparanãoservirdeestandarteparaele.Às
vezes,umafeministadavaentrevistafalandomaldeumhomem;pois
euachavaumjeitodedizerquegostavado
(homemqueera)
atacado
sóparamarcarminhaposição.(grifonosso)
75
Indagada sobre a contraditória antipatia pelas feministas, já que criou grandes
personagens femininas astutas e determinadas , a escritora respondeu que as
mulheresdescobriramquepodemedevemavançaraoladodohomem,emvezdeir
contra ele; em seus depoimentos a Nery, reforçou esse posicionamento dizendo
que,narealidade,oquesempreanorteoufoiadefesadaliberdadehumana,inclusa
aí a feminina, mas tendo sempre acompanhado com “muito interesse todas as
transformações” da sociedade direcionadas à situação social da mulher: Quando
digo que não sou feminista, é porque sempre estive em defesa da liberdade
humana”.
76
Suasexperiênciasintensasderamlheumavisãoquepermitiucruzaremsuasobras
temas variados, como solidão, identidade, dignidade, relação feminino–masculino,
religiosidade, poder e morte, que fazem a sustentação de outros dois temas
75
AstrêsRacheis.Op.cit.,p.26
76
NERY,HermesR.Op.cit.,p.48.
recorrentes em suas histórias e se constituem na busca constante de suas
personagens:oamorealiberdade.
Racheldeclaroutammnamesmaentrevistaaos
CadernosdeLiteraturaBrasileira
que acredita “numa escrita feminina”, já que “o mundo da mulher não é o mundo
masculino. [...]talvezeu tenha uma linguagem masculina porque venho do jornal.
[...] Quandoeu comecei a escrever, a literatura brasileira ainda sedividia entre o
estiloaçucaradodasmocinhasealiteraturamasculina”.
77
Emsua crônica
A imagem feminina
78
, a escritora analisa os comentários que os
escritorescostumamfazersobremulheres,etambémcriticaaquelesqueescrevem
sobrepersonagensfemininasestereotipadas,classificadasemboasoumás,fiéisou
infiéis,eassimpordiante–ousãoesposasouprostitutas. Comoelacomenta em
suacrônica,seaheroínacometesse umatraiçãoamorosa,poderiareceberalgum
castigoimediato–comefeito,poucasvezesoautorlhedarialiberdadeparaisso.
Evidentemente, como informa Rachel, isso não ocorre só no Brasil: na literatura
universal, em geral, poucos escritores previram em suas obras personagens
femininasquetriunfassemapóscometererrosgraves;defato,semprequeocorria
isso,eram“castigadascomumaeventualcondiçãodepobrezaoucomamortedo
amante”.Emcontrapartida,comaliberalizaçãoobservadanasúltimasdécadas,no
planodasidéiasedoscostumes,amulhervementrandosutilmenteesemreceiono
campo literário, outrora quase exclusivamente masculino – praticamente não há
maisterritóriosondeamulhernãopossaentrar,ouseja,amulhernãotemmais
receios.Aescritoraassimencerraacrônica:“Éocasodesedizer:liberdadeainda
quetardia”.
79
ComrelaçãoàmilitânciapolíticadeRacheldeQueiroz,emborasejapossívelnotara
constantepreocupaçãocomoaspectosocialemquasetodososseteromancesque
escreveu,aescritoradeclarounasentrevistasaNeryqueemnenhumdelesteveo
objetivo de defender qualquer preferência políticopartidária; por isso, nunca criou
77
AstrêsRacheis.Op.cit.,p.26
78
QUEIROZ,Rachelde.Aimagemfeminina.
OEstadodeMinas,
BeloHorizonte,11jun.2000.Disponívelem:
<http://www.academia.org.br/abl/cgi/cgilua.exe/sys/start.htm>Acessoem:28/11/2006.
79
Idem, ibidem.
qualquerpersonagemquefosse“umheróirevolucionáriooureacionário,emdefesa
devaloresabsolutos,coisaassim.Tenhohorroràliteraturaengajada”.
80
As atividades políticas de Rachel, portanto, não tiveram influência direta em seus
romances; em entrevista publicada nos Cadernos de Literatura Brasileira, ela
mesma conta que, na época em que escreveu
O Quinze
, “não tinha ideologia.
Depois,houveumafasequequasetodosnós,escritoresbrasileiros,vivemosaquele
períododeliteraturamilitante”.
81
A escritora reiterou também nas entrevistas que concedeu a Nery e a Martins, e
tamm nos depoimentos do livro de memórias
Tantos anos,
que o único tema
recorrente a nortear sua obra foi o inconformismo com as desigualdades sociais.
ComoelacontaaNery,essaposturadedefesadajustiçasocialtambéminclui as
muitas vezes em que apoiou ou abandonou seus ideais de acordo com suas
convicçõesdeliberdade e dignidade humana, o que a motivou, enquanto mulher,
jornalistaeescritora,aenvolversecomideaissocialistas.
OinteresseporpolíticasocialcomeçouemFortalezajáemtornode1928,épocaem
queaescritoramanifestouapoioaoquerestavadoBlocoOperárioeCamponês”;
quandofoiparaoRiodeJaneiro,nocomeçode1931,épocadolançamentode
O
Quinze
, ocorreu a ligação oficial  lá me entrosei com o pessoal do Partido e
vivencieiomeuperíododemilitânciacomunista”,comoelamesmaconta.
Após ser aceita pelo Partido, voltou para Fortaleza, levando todo o material
necessário e ajudou a fundar o PC cearense – foi a forma que encontrou “para
resistir contra o Brasil feudal em que estávamos inseridos”. Posteriormente, ela
informa,desligousedopartido“justamentepornãoaceitarsuasarbitrariedades,[...]
nãoadmitiaqueninguémmecolocassequalquerespéciedecamisadeforça”.
82
Como reforça Martins, embora iniciasse tão cedo sua militância política, a própria
escritora conta que a filiação ao partido “àquela época, não foi uma coisa muito
importante” em sua vida. A simpatia pelo partido era uma conveniência, “um
80
NERY,HermesR.Op.cit.,p.66.
81
As trêsRacheis.Op.cit.,p.27
82
NERY,HermesR.Op.cit.,p.134.
desaguadouro para essas inquietações, esse desejo de justiça social, de justiça
particular,dejustiçaprivada,dejustiçacom
jota
grande,quetodojovemgeneroso
tem”.
Com todos os acontecimentos que fervilhavam no Brasil, em plena fase getulista
naquele momento, os jovens idealistas, decepcionados com a revolução de 30,
encontraram nos partidos socialistas um apoio para suas aspirações; como
testemunhaaescritora,“oladoheróico,ilegalqueoPartidotinhanaquelemomento
seduziaosjovens.Naverdade,euoerapropriamenteumacomunistaeaprova
disso é que o convívio com o Partido me horrorizou e a minha passagem pelo
partidofoimeteórica”.
83
OfimdesuabreveligaçãocomoPartidoComunistadoBrasilocorreunoiníciode
1933,quandoosdirigentesdopartidoentenderamque,paraautorizar”apublicação
do romance
João Miguel
, a escritora deveria adequálo aos ideais comunistas.
ComoRachelnãoconcordassecomapressão,acabousedesentendendocomos
líderesdopartido,nãopelosprincípiosdefendidos,maspelaformacomoqueriam
impor a ideologia. Nunca aceitei o sectarismo. [...] Não aceitei aquele tipo de
pressãoeacabeibrigando”.
84
O descontentamento com essa postura do partido foi expresso em seu terceiro
romance,
Caminho de Pedras.
Como conta a escritora, quando um intelectual
começava a freqüentar as reuniões de célula do partido, era considerado “um
cidadãodesegundaclasse,porqueos reis do mundo eram os operários. Então a
gente nãopodiater opinião, não podia discordar,tinha que dizer só `sim, senhor´
paratudo.Em
Caminhodepedras
eucolocoissologonocomeço”.
85
Após romper com o Partido Comunista, Rachel iniciou um período de militância
trotskista
, indo morar em São Paulo, onde havia um mero expressivo de
simpatizantes. Admirava Trotski, pois era “um intelectual de grande visão política,
umlegítimo`teóricodarevolução´”.
83
MARTINS,Wilson.Op.cit.p.77.
84
NERY,HermesR.Op.cit.p.139.
85
AstrêsRacheis.Op.cit.p.28
Quando ele foi assassinado, a escritora conta que recebeu a notícia “com muito
desgosto”,emborajánãofossemilitante;
86
apósesseacontecimento,suaideologia
políticatransformouseradicalmente:“euvirei,comodigo,umadoceanarquista”.
87
Usandoaspalavrasde Heloisa BuarquedeHollanda,“talvezomais correto fosse
dizerqueRachelsempreprimouemandarnacontramãodaHistória”.
88
Asatividadesligadasaospartidossocialistaseumaexplícitaeferrenhaoposiçãoà
políticagetulistaresultaramemduasprisõesdaescritoraaprimeiradelasocorreu
noRio,numcomíciodurante a revoluçãode 1932,resultando em sua deportação
para o Nordeste; a segunda, em 1937, em pleno Estado Novo, surpreendeu uma
Rachel já afastada da militância – trabalhava numa empresa de exportação no
Ceará–,períodoemqueficoupraticamente“incomunicável”,deoutubrode1937a
janeiro de 1938, num apartamento pertencente ao Corpo de Bombeiros, em
Fortaleza,comoelacontouaNery.
Como a escritora já não estava tãoligada a atividades políticas nessa ocasião, é
provável que essa segunda prisão tenha ocorrido em função da publicação do
romance
Caminho de pedras
, lançado em 1937, no qual, além de dirigir
questionamentos à organização comunista, a escritora faz críticas veladas ao
EstadoNovodeGetúlioVargas.
Com todo esse envolvimento com as idéias esquerdistas, causa estranhamento o
apoiodeRachelaoGolpeMilitarde1964.ComoelacontouaojornalistaNery,isso
aconteceu em virtude de ser contra a forma de governar do expresidente Jango
Goulart,pois“eraorepresentantedoquerestaradogetulismo.Osupostosocialismo
doJangofoiumacoisaqueeununcaengoli.[...]Conspireicomosgeneraisparaa
derrubadadoJango”.
Duranteaépocadesuamilitânciacomunista,porvoltade1930,osítiodafamíliade
RachelemFortalezaabrigava as reuniões paraos comunistas; jáàs vésperasda
86
NERY,HermesR.Op.cit.,p.142.
87
AstrêsRacheis.Op.cit.,p.27
88
HOLLANDA,HeloísaB.Op.Cit.,p.110.
revolução de 1964, o apartamento da escritora, no bairro da Glória, no Rio de
Janeiro, serviu de local para as reuniões dos simpatizantes do movimento que
pretendia depor o “comunismo no poder” representado por Jango, cujo apoio foi
dado por Rachel, pois o “Jango era um aventureiro, sem formação cultural, um
populistademagógicoecercadopelapiorgente.”
89
Aescritoratamm falousobre suaaversãoàpretensaatuaçãoesquerdista dojá
falecidopolíticoLeonelBrizola,dizendoqueeleera“arevivescênciadocaudilhosul
americano[...]tentaseroherdeirodoGetúlio.[...]Umdinossaurocomamáscarado
socialismo”.
90
Racheljustificouaindasuapolêmicaadesãoaomovimentomilitarde
1964,dizendoqueojulgavacomoumaexpressãoderejeiçãoaosacontecimentos
políticosdoinícioda décadade60,umregimeque, para ela,além de comunista,
carregavaamarcadaditaduragetulistaetodaumacarganãomenospolêmicade
vinculação ao nazifascismo: Eles, os militares, tentaram, mas o foram mais
violentosqueoEstadoNovo”.
91
Entretanto, como Rachel deixou claro, seu apoio à Revolução de 1964 teve um
limite; ela assim se posicionou, pois acreditava em uma tese existente de que o
general Humberto Alencar de Castelo Branco, de quem era prima distante, teria
aceitadoparticipardo movimento a fimde viabilizar um processo eleitoral em que
seria eleito um novo presidente. Como isso não chegou a acontecer e os rumos
políticosmudaram,elainformaque“depoisdasaídadoCastello,eudeixeideapoiar
ogovernomilitar”
92
,concluindoque“ogolpededireitanãoéde1964,éde1968”.
93
A controversa trajetória política de Rachel de Queiroz é expressa pelo historiador
AlfredoBosiemduaspalavrasuma“curvaideológica”,queperpassoucaminhos
que variaram do socialismo libertário de `Caminho de pedras´àscrônicas [...] de
espírito conservador”. Esse paradoxo é explicável se observada pela ótica do
tenentismo: “verbalmente revolucionário em 30, sentimentalmente liberal e
89
NERY,HermesR.Op.cit.,p.214.
90
NERY,HermesR.op.cit.,p.145.
91
AstrêsRachéis.op.cit.,p.30.
92
Idem,p.29.
93
HOLLANDA,Heloísa.op.cit.,p.109
esquerdizanteemfacedaditadura,acabou,enfim,passadaaguerra,identificando
secomadefesapassionaldasraízesdo
statusquo
”.
94
Rachelconfirmouesseposicionamento,dizendoque“ideologicamente,eusouuma
espécie de tenente, vamosdizerassim. Nasci emfamília defazendeiros”.
95
Para
justificar alguns acontecimentos, ela explica: “no fundo, a esquerda nunca me
perdoou por ter abandonado o Partido Comunista”;
96
segundo a escritora, o
principalproblemadoBrasilnoséculopassadofoienfrentartodasasconseqüências
doautoritarismo,sobtodasasformas:“Tantoaesquerdaquantoadireitatentaram
viabilizarsuasutopiascombasenoautoritarismo”.
97
A trajetória e os sentidos das práticas discursivas” de Rachel, como observa
Hollanda,revelamcomolimiteda“coerênciadesuasescolhasedefiniçõespolíticas
[...] a defesa convicta de uma lógica oligárquica de acento liberal, com
compromissos sociais e progressistas”.
98
Essa postura de questionamento,
presente em praticamente todos os romances da escritora, e plenamente
comprovadaem
MemorialdeMariadeMoura
,éoexatoposicionamentoideológico
deRachelquemarca,paraHollanda,a“trajetóriaparticular”dopensamentopolítico
de uma mulher que, desde adolescente, transitou com espantosa autoridade e
naturalidadepelasbastidoresdacenaliteráriaepolíticadoPaís”.
99
A escritora Rachel de Queiroz, após tantas experiências e paixões literárias e
políticas,optouporsetornarumapessoaavessaadogmas,sectarismos,posições
de mando, filiações a partidos, participação em entidades e associações. Como
contou a Nery, essa postura a levou a um comportamento similar a “um animal
solitário”, que agia e reagia movido pelo entendimento de que a liberdade é
fundamental” e “a luta pela justiça social deve andar junto com o respeito pela
liberdade individual”, a qual só pode ser conquistada pela autonomia social e
intelectual,“pelaliberdadedeconsciência”:“Quandovocêandaemmanadas,você
dissimulamuitomais[...].Tenhomuitosamigos[...],ogostoédefazerpartede
94
BOSI,Alfredo.Op.cit.,p.445.
95
AstrêsRachéis.Op.cit.,p.28.
96
Idem,p.30
97
NERY,HermesR.Op.cit.,p.142.
98
Hollanda,op.cit.p.110.
99
Idem,p.104.
grandesgrupos”,
100
declarouaescritora,revelando umadimensão arrediadesua
personalidade.
Éfacilmenteperceptível,nasváriasentrevistasqueaescritoraconcedeuadiversas
publicações, que essa característica pessoal de independência, autonomia e
liberdadefoiresultadodaeducaçãoedaformaçãodeposturaliberaleintelectual,
tantoporpartedesuamãequantodeseupai.
1.4Ainspirãoparacriaramulherguerreira
NavidadeRacheldeQueirozfiguramváriasmulheresfortes,verdadeirosmodelos,
quealevaramaserigualmenteumamulherforteeainspiraramacriaremsuaobra
mulheresdestemidas,lutadoras,determinadas.
Esses modelosorepresentadosporfiguras femininas familiares  sua mãe,sua
avó,tammchamadaRachel,edona rbara de Alencar,uma parente distante;
históricas,comoaRainhaElisabethIeaindaasmatriarcas,figurastãopresentesna
cena nordestina, como Maria de Oliveira, dona Federalina de Lavras e Marica
Macedonasquaisaescritorapercebeucaracterísticasfortes,queficaramimpressas
emsuavidaeemsuaspersonagens.
AmãedeRachel,Clotilde,foiquemmuitoainfluenciouemsuacarreira,tantoade
jornalista quanto a literária; primeira a colocar um livro em suas mãos  “mamãe
punhame livros nas mãos desde os meus cinco anos”
101
, ela decidiu que a
escritora teria uma formação intelectual, sim, mas sem freqüentar a escola
tradicional.
Ainiciaçãonaleiturafoifeitaprecocemente;aolongodainfânciaedaadolescência
de Rachel, sua mãe sempre a orientou a ler autores clássicos, deixandolhe, ao
morrer,cercadecincomilvolumes,alémdosensinamentosnecessáriosàcarreira
100
NERY,HermesR.Op.cit.,p.8788.
101
NERY,HermesR.Op.cit.,p.91.
deescritora;comoRachelcontouaNery,erasua“críticamaissevera.Censuravaas
banalidades,oslugarescomuns.Eraumaintelectual,recebialivrosfranceses.[...]A
influêncialiterária,devoàminhamãe”.
102
Sua avó de mesmo nome,Rachel, também foi uma figura feminina que passou à
escritora um exemplo de mulher batalhadora. Viúva aos 45 anos, com dez filhos
paracriareumgrandepatrimônioparaadministrar–afazendaCalifórnia, pediua
seu pai para ajudála na educação dos seus filhos, mas nunca permitiu que ele
interferisse na administração e na direção da fazenda. A própria escritora revelou
suaforteligaçãocomaavó,aquemdedicavaafeiçãoespecialporterlheherdadoo
nome.
Poressarazão,amortedesuaavófoiumagrandeperdanãosóparaaescritora,
mastambémparadezenasdepessoasqueocupavamacasadafazendaondeela
morava e ficavam ali, a noitetoda, sentadas nosdegrausdurante os dez dias da
agoniaporquepassouantesdefalecer.Essaposturaassistencialistadamatriarca
lembra uma das personagens de Rachel de Queiroz – Conceição, que tamm
ajudoumuitoosretirantesdaseca.
ComolembraHeloisaBuarquedeHollanda,aprópriaescritorafezumaobservação
interessante sobre essas mulheres fortes – “as matriarcas não exibiam
necessariamente sua liderança pública”, podendo se incumbir disso alguma
autoridadejudicialoureligiosa,masprecisavamdeumasólidabaseeconômica–a
propriedade rural em plena expansão –, que lhe garantisse o poder; “se fossem
mulherespobresseriamesmagadaspelopróprioambienteemqueviviam”.
103
Ageraçãoseguinte,adamãe edastiasdaescritora, era formada por matriarcas
dissimuladas, aparentemente submissas. Casadas comprofissionaisliberais,eram
mais intelectuais, liam e opinavam – perfil aparentemente seguido, tamm, por
Rachel de Queiroz. Mas ela foi além, produzindo um conjunto vasto de obras
objetivas e consistentes, mostrandose capaz, a partir da posição herdada das
102
Idem,p.41.
103
HOLLANDA,HeloísaB.op.cit.,p.106107.
velhas matriarcas sertanejas, de contestar os valores vigentes, construindo
personagensfemininasdevanguarda.
As matriarcas nordestinas (maranhenses, pernambucanas e cearenses) são
mulheres desconhecidas pela história, mas muito enraizadas na cultura das
comunidades sertanejas. Mulheres que tiveram uma vida intensa, atuante, são
figurasmarcantesqueatravessaramoslimitesdotempoelugaresedesafiarama
história,porsuasbiografiasdeestilotãopeculiar.Asmatriarcaseram,geralmente,
mulheresque,derepente,seviamsós, emrazãodamorte deseusmaridos,com
meiaouatéumadúziadefilhosparacriareeducar,e,àsvezes,comamortedeles
paravingar.
Desta forma, assumiam os encargos dosmaridos, inclusivea chefia política local;
aprendiamausarosmesmosmétodostradicionais,aprestarserviçosagrandese
pequenos,cobrandolhes, por fim, apoio em comando e obediência. Essas viúvas
comandavam com mão firme os seus municípios e elegiam fielmente qualquer
candidatosobaforçadesuapoderosainfluência,semexaminarosméritos,apenas
pelosistemadeapadrinhamento,relaçãopredominantenaépoca.
Heloísa Buarquede Hollanda, entrevistando Rachel de Queiroz, suscitou histórias
dematriarcasnordestinas,ouvindo“osfeitoseasaventurasdassenhorasdosertão
oitocentista, mulheres fortes,independentes, poderosas, crudelíssimas”.
104
Dentro
dessalinhagemdematriarcasnordestinas,figurasinéditasnoimagináriodemuitas
pessoasemais,comolembraHollanda,“conceitooperacionalinéditonoquadrode
preocupações de uma feminista como eu, típica do eixo RioSão Paulo”,
105
é
importantelembrardealgumasdelas,figurasimportantesnocenárionordestino.
UmadelasédonaBárbaraPereiradeAlencar,avódoescritorJosédeAlencar,que,
porsuavez,eraprimodabisavómaternadeRachel,donaMariadeMacedoLima,
conhecidacomoMiliquinha.Nascidaem11defevereirode1760,noatualmunicípio
deExu,EstadodePernambuco,aindaadolescentemudouseparaoCearáecasou
secomocomercianteportuguêsJoséGonçalvesdoSantos.Dos vários filhosque
104
HOLLANDA,HeloísaB.op.cit.,p.105.
105
Idem,p.106
teve,trêsforam presoscomela pelocrimedesonharemcomumBrasilliberto de
Portugal.
Líder política na região, ficou conhecida nacionalmente como dona Bárbara do
Crato,heroínadaProclamaçãodaRepública,porsuasidéiasdeliberdadenacional
contra ojugoda Corte Portuguesa.Porterliderado comos filhos,em meados de
1824,umarevoluçãolibertária,achamadaConfederaçãodoEquador,apósatode
resistência e de autoritarismo de D. Pedro I, que determinara o fechamento da
AssembléiaNacionalConstituinte,DonaBárbaradoCratomereceuotítulode“Mãe
daIndependênciaedaRepúblicanoBrasil”.
Porsuavez,FederalinaAugustoLimafoifiguracearensefamosaporseudestemor
e arrogância, sobre quem Rachel de Queiroz escreveu um artigo na revista
O
Cruzeiro,
no ano de 1946 e, mais recentemente, em 1990, um artigo escrito em
parceriacomHeloísaBuarquedeHolanda.
106
Nascidaem1832nacidadedeLavras,recebeuseunomeempiabatismal,graças
aos entusiasmos republicanos, provocados pelos movimentos revolucionários no
levante de 1817 e na Confederação do Equador em 1824. Nascida em família
poderosa,eraamaisvelhade12irmãosefamiliarizousedesdecedocomopoder,
revelandotemperamentoforteedesprezoporregrasestabelecidas,realizandosóo
que fossede seudesejo  recémcasada, com 15 ou 16 anos, já levava fama de
“mandona”.
Habilmenteelaconseguiumanteropoderpolíticoherdadodopaiedomarido.Seja
na sucessão de cargos políticos ou na orientação dos casamentos da família, foi
sempre mantido o privilégio da matriarca, com posição tirânica, despertando na
população medo e curiosidade por sua coragem, valentia, destemor e por seu
costumedefreqüentementemandarexecutarosinimigos.Descritacomocorpulenta,
contaseque orecadofatal queela mandava aosinimigoseraotirooua facada,
seguidodafrase:“Táaqui,queDonaFederalinamandou...”.
106
QUEIROZ,R.de&HOLLANDA,H.B.de.
MatriarcasdoCeará
:DonaFederalinadeLavras.PapéisAvulsos
n.º24,CentroInterdisciplinardeEstudosContemporâneos,EscoladeComunicação/UniversidadeFederal
doRiodeJaneiro,1990.
Compoderpolíticoeeconômico,possuíacertoshábitosnãorecomendáveisauma
mulher:falavaoquelhevinhaàcabeça,usavapalavrõesemqualquercircunstância
e levantava a voz para os homens. Acostumada a conversar em altos brados, a
primeiravezemquebaixouavozfoiporforçadadoençafatalquealevariaàmorte
aos 87 anos. A oligarquia de sua família, porém, permaneceu atuante ainda por
meioséculo.
Outra matriarca famosa naquela região foi Marica Macedo. Nascida em Missão
Velha, logo mudouse para Aurora, onde, anos mais tarde, casouse com José
AntônioMacedo,seuparente.MaricaeFederalinativerammuitoemcomum,oque
talvez justificasse a aliança política feita por elas. Ambas perderam o marido
prematuramente, ficando com muitos filhos para criar. Sem disputas políticas,
defendiamsemutuamente,comaajudadecapangaseacobertamentodeparentes
que tivessem cometido crimes. Poderosas, mantinhamse ligadas ao partido do
governoeexerciam,comespecialtruculência,omatriarcado.
Marica casouse novamente, apesar da oposição dos filhos. O marido, conhecido
por sua burrice incomum, tolo e ingênuo, era defendido com toda a força pela
mulher.Cominfluênciapolíticaeexcelenteadministração,elamantinhasuariqueza
apoiadanotripéengenhoagriculturapecuária.Organizouumfamosoesconderijode
cangaceiros,comosquaismantinhaótimorelacionamento,paratêlosàdisposição
e lançar mão de suas forças sempre que precisava; além disso, contava também
comoapoiodechefespolíticos.Suacapacidadedereunirverdadeirosexércitosde
“cabras”deulheorespeitodopovoedoscoronéis,vindoafalecerem1926.
Outra matriarca é Maria de Oliveira, que, segundo Rachel de Queiroz, tornouse
umadasgrandesinspiraçõesparaoromance
OMemorialdeMariaMoura.
Como
contaaescritora,quandoelaestavalevantandodados,comsuairmãMariaLuíza,
sobre asecadoNordeste,aoconsultarlivrosantigos,descobriram que a primeira
grandesecaregistradaoficialmenteaconteceuemPernambucoem1602.
Nessaépoca,umamulherchamadaMariadeOliveiratornouseconhecida,porque,
juntamente“comosfilhoseunscabras, saiu assaltando fazendas”. Rachel conta
que ficou impressionada com a valentia da mulher, uma espécie de cangaceira:
“Umamulherquesaíacomosfilhoseumbandodehomensassaltandofazendas
eraa“Lampiona”daépoca”.
107
Além disso, como conta ainda a escritora, tamm tinha em grande conceito a
rainha inglesaElisabeth I, que morreu no início do século XVII; a admiração pela
soberana,quereinounaInglaterrade1558a1603,eratantaqueleutudosobreela,
inclusive “várias biografias dela, a ponto de me sentir uma espécie de `amiga
íntim,dessasqueconhecemtodosospensamentosesofrimentos.Acertaaltura,
eupensei:`Essasmulheresseparecemdealgummodo´.Ecomeceiamisturaras
duas”.
108
A escritora impressionouse tanto com a personalidade marcante da
rainha Elisabeth I, que lhe dedicou o romance, podendose ver nas primeiras
páginasdolivroumadedicatóriaemqueelaagradecepelainspiração.
Aoaliarasqualidadesdeliderança e determinaçãodas duas mulheres, Rachel já
havia desenhado a personagem principal e o “esqueleto” de seu último romance,
MemorialdeMariaMoura
.Ajulgarpelascaracterísticas,realmenteébemprovável
queMariaMourasejaumasobreposiçãodacorajosaeaudaciosasoberanainglesa,
chefedeestadocujasatitudeserammarcadasporcaracterísticasmásculaseviris,e
MariadeOliveira,mulherguerreirapernambucanaqueimpressionouaescritoracom
seusfeitos.
São compreensíveis os motivos que levaram a escritora cearense a ficar
impressionada com a rainha inglesa; em uma de suas biografias, como informa
Tamaru,emsuatesededoutorado,
109
ElizabethI,filhadeHenriqueVIIIedeAna
Bolena,reinarasobreumaInglaterrafraca,poucopovoada,arruinada,despedaçada
internamenteporlutasreligiosaseameaçadaexternamentepelaFrançaeEspanha.
Noentanto,devidoàsuagrandecapacidadediplomáticaepersuasiva,transformou
a Inglaterra em um país próspero, temido e a caminho de tornarse uma grande
potência.
107
AstrêsRachéis.Op.cit.p.34.
108
AstrêsRachéis.Op.cit.p.34.
109
TAMARU,AngelaH.op.cit.,p.6
.
Com meios materiais extremamente reduzidos e uma frota pouco numerosa,
Elizabeth I tornouse uma verdadeira estadista, pois soube usar a diplomacia
persuasivaeumagrandetenacidadenotratocomoutros mandatáriosecomseus
própriossúditos.Quandotinhaapenasdoisanoseoitomeses,vivenciouotrágico
acontecimentodamortedesuamãe,AnaBolena,decapitadapelopróprioHenrique
VIII,emconseqüênciadeumadesuassanguinolentasmudançassentimentais.
Aos15anos,órfãtammdepai,ficousónomundo,tendoquelutarparacuidarde
simesmaeosucumbir.Entreoutrasmazelas,foivítimadeassédioporpartede
seu pai adotivo, o almirante Seymour, que se casara com sua madrasta após a
mortedeHenriqueVIII.Comamortedaesposa,poucosmesesdepois,oalmirante
ambicionava chegar ao poder supremo casandose com Elizabeth, mas esta
ordenousuadecapitaçãoapósdescobrirseusplanos.
ElizabethItinhaaversãoaocasamento,poristotornouseapenasesposadeseu
reino”.Conhecidacomo“RainhaVirgem”,olhefaltavampretendentes,noentanto
ela preferia a companhia do predileto Conde de Leicester, a quem cobria de
privilégios, embora tivesse ele sua própria esposa. Esta paixão dominoulhe a
existência até o momento em que o conde faleceu; após a sua morte, a Rainha
transferiuseusdesvelosaoenteadodoCondedeLeicester,oCondedeEssex,que
ingressaranacorteaos18anos,comogeneraldacavalaria.
Protegidopelasoberana,suacarreiranacortefoideascensãobrusca,dadoseuar
travesso, dominador, e as qualidades de exímio dançarino, caçador e poeta —
encantosquelogoagradaramaRainha.EstatinhaporEssexumamorpossessivo,
nãolhepermitindoumavidaindependente,queocorresselongedesuasvistas.Ele,
porém, de temperamento irrequieto, não lhe obedecia de todo, afrontandoa,
desacatando suasordens até que, finalmente, declarou publicamente que ela era
“umavelha”decorpoedeespírito.Elizabethnãooperdoouedecidiusuasorte:foi
encerradonatorre,julgadotraidoredecapitado.ParaaRainha,ofimdeEssexfoio
colapsodesuasoberania.
Atacada por uma crise de icterícia, foi tomada pela febre e as forças a
abandonaram.Nãoaceitavaaassistênciadenenhummédicoeteimavaemnãose
tratar, mantendose isolada e recusando qualquer tipo de alimento, até a morte.
Quandofaleceu,jáestavamudaeincomunicávelhaviamuitotempo.
Paraumleitorobservador,éperfeitamentepossívelnotarumagrandesemelhança
entreastrajetóriasdeElisabethIedeMariaMoura,apersonagemprincipaldolivro
Memorial de Maria Moura
; o próximo capítulo deste estudo será constituído de
algumasconsideraçõessobreessaobraesuarepercussãonamídia.
2MEMORIALDEMARIAMOURA,oromance
Paranarraraintensaeperigosatrajetóriadapersonagemprincipal,ajovem Maria
Moura, Raquel de Queiroz optou por utilizar o romance, modalidade de texto
pertencenteaogêneronarrativo,esobreoqualfaremosalgumas colocaçõespara
melhorcompreensãodealgunspontoscolocadosnesteestudo.
2.1 Algumasconsiderõessobreo
romance
,gêneroliterário
Asobrasliteráriassãoclassificadasdeacordocomaforma,conteúdoeestruturade
composição como se apresentam, revelando a atitude do escritor perante a
realidadeartísticaqueestácriando;quantoàforma,podemexpressarseemprosa
ouversoe,quantoaoconteúdoeestrutura,podemseragrupadasemgêneros,cuja
fundamentaçãocomplexa e controvertida tem sido motivo de muitas polêmicas ao
longodahistóriadaliteratura.ComoatestaaprofessoraeescritoraHelenaParente
daCunha,éumadiscussãoque “empenhaaindahojeointeressedosestudiosos,
queperseveramnabuscadeumaconceituação”.
110
Adificuldadedesechegaraconceitosaceitáveispelosteóricosdaliteraturadevese
àexistênciadeumintrincadoarcabouçodeformulaçõesdasmaisvariadasorigense
dediferentesníveissobreoassunto.Ademais,éprecisoconsiderarquehátamm
a “inegável liberdade criadora e a correlação entre estruturas estilísticoformais,
110
CUNHA,HelenaParenteda.
Osgênerosliterários.In:
TeoriaLiterária.RiodeJaneiro:Tempobrasileiro.Col.
BibliotecaTempoUniversitário.Vol.42.2.ed.(p.93e117120).Disponívelem
<http://www.ufrgs.br/proin/versao_1/helena/index.html>Acessoem:20/08/07
semânticas e temáticas, entre classes de textos e classes de leitores etc.”, como
informaAguiareSilva.
111
Essapreocupaçãocomateoriadosgêneroséantiga;comoinformaAguiareSilva,
ofilósofogregoPlatão(427347a.C.),expôsemseulivroIIIde
ARepública
,uma
classificaçãodosgênerosliteráriosconsideradacomoumdosmarcosfundamentais
dagenologia,istoé,dateoriadosgênerosliterários”.
112
Para o filósofo grego, todos os textos literários são “uma narrativa (
diegesis
) de
acontecimentospassados,presentesefuturos”,lançandoentão“osfundamentosde
uma
divisãotripartida
dosgênerosliterários” ogêneroimitativoou mimético,que
incluem a tragédia e a comédia, o gênero narrativo puro – com ênfase para o
ditirambo
113
eogêneromisto,quedámaisimportânciaàepopéia.
114
Diferentemente de Platão, seu discípulo e conterrâneo Aristóteles (384322 a.C.),
em sua obra
Poética
, procurou estabelecer, sem adotar umadivisão triádica,uma
tipologia dosgênerosem que priorizavao cuidado com as necessárias distinções
no campo da arte, em geral, e da poesia, em particular, diferenciando “os textos
poéticos na sua diversidade empírica e classificandoos em função dos seus
caracteresformaisesemânticos”.
115
ParaAristóteles,ofundamentoessencialdapoesiaéamímese–imitação,sobrea
qualfalalogonocapítuloIdesua
Poética
:
Aepopéia,opoematrágico,bemcomoacomédia,oditiramboe,em
suamaiorparte,aartedo flauteiroeadocitaredo,todasvêmaser,de
modogeral,imitações.Diferementresiemtrêspontos:imitamoupor
meios diferentes, ou os objetos são diferentes, ou de maneira
diferente,istoé,nãoamesma.
116
Como ensinaAguiar e Silva, parao filósofo grego, a mimese poética não é uma
literalepassivacópia darealidade”econstitui “o princípio unificadorsubjacente a
111
AGUIARESILVA,VitorA.Op.cit.p.103104
112
AGUIARESILVA,VitorM.Op.cit.p.103
113
DitiritamboHinocoralemhonraaBaco.In:Dicionáriodalínguaportuguesa.Lisboa:PriberamInformática,
1998.Disponívelem<http://www.priberam.pt/dlpo>Acessoem:28/08/07
114
AGUIARESILVA,Op.cit.,p.103
115
Idem,p.104
116
ARISTÓTELES.
Poética
.Disponívelem<http://www.ufrgs.br/proin/versao_1/poetica/index.html>Acessoem:
20/08/07
todosostextospoéticos”,sendoaomesmotempooprincípiodiferenciadordestes
mesmostextos”,poissefundamentaemmeios,objetosemodosdiversos.
117
Esquecida durante séculos, a divisão aristotélica foi retomada durante o
Renascimentoetransformadaemcódigosrígidoseregrasinvioláveis,sendodepois
revisadaaolongodotempo;aindaexistemmuitasteoriasediscussõesarespeitodo
assunto, uma vez que épraticamente impossível aplicar rigidamente os princípios
dosgênerosaalgumasobras,principalmentenaquelasemquenãoháaexpressão
puradeumgêneroapenas.
Atualmente, apesar de todas essas dificuldades em estabelecer conceitos
definitivos, segundo alguns autores, entre eles Aguiar e Silva,
118
Nicola,
119
e
BenemanneCadore,
120
demodogeralaclassificaçãoadotadaemestudosliterários
compreende três gêneros básicos – o lírico, cuja característica principal é a
subjetividade em suas várias manifestações; o dramático, que, em linhas gerais,
retrataosconflitosdasrelaçõeshumanasnastragédias,comédiasesuasvariações,
e o narrativo,que se subdivide emépico  usado para contar feitos históricos e
ficcional,ondeseinsereoromance,temadestetópicodoestudo.
O romance, como ensina Aguiar e Silva, é uma “forma literária relativamente
moderna”;apesardehaveralgumasnarrativasnasliteraturasgregaelatina,pode
seafirmarqueogêneroéumacriaçãodaliteraturamodernaeuropéia,quepassoua
tergrandeimportâncianosúltimostrêsséculosespecialmenteapartirdoXIXe
tornousea“maiscomplexaformadeexpressãoliteráriadostemposmodernos”.
121
É possível que o romance tenha conquistado esse destaque por ser uma
manifestação narrativa que alarga continuamente o domínio de sua temática,
inserindo em suas histórias enfoques da psicologia, conflitos sociais e políticos e
inovandosemprecomnovastécnicasnarrativaseestilísticas.
Osurgimentodoromanceteveumcontornomuitosemelhantenomundotodo,em
decorrênciadeváriosfatoshistóricos.ComoconfirmaBosi,ascontradiçõespróprias
daRevoluçãoIndustrialedaburguesiaascendentedefiniramváriasclassessociais:
117
AGUIARESILVA,op.cit.p.104105
118
AGUIARESILVA,VitorM.op.cit.p.126129
119
NICOLA,Joséde.Op.cit.p.4849
120
BENEMANN,J.Milton;CADORE,L.Agostinho.EstudodirigidodePortuguêsvol.1.SãoPaulo:Ática,
1984.Disponívelem <http://www.portrasdasletras.com.br/pdtl2/sub.php?op=literatura/docs/generos>
a nobreza, destituída do poder; a grande e a pequena burguesia, o velho
campesinato, o operariado crescente. O Romantismo, movimento literário que
consolidou o formato do romance, adequavase muito bem “para expressar os
sentimentosdosdescontentescomasnovasestruturasdopoder”.
122
ComoinformaAguiareSilva,umadasprincipaismanifestaçõesemprosa,“demera
narrativa de entretenimento, sem grandes ambições, o romance volveuse em
estudo da alma humana e das relações sociais, em reflexão filosófica, em
reportagem,emtestemunhopolêmico”.
123
No Brasil, a trajetória do romance histórico foi similar à da Europa. Os primeiros
romances editados, ainda na década de 1830, têm aspecto predominantemente
folhetinesco,degrandesucessojuntoaopúblico.Posteriormente,surgiramasvárias
linhasderomance,maiscomplexasesignificativas,comooromancehistórico,ode
costumes, o indianista e o regionalista, em que se destacou José de Alencar, no
séculoXIX,comoromancehistórico
Asminasdeprata
.
2.2
MemorialdeMariaMoura,
olivro
Nas últimas décadas, citando especificamente a prodão literária brasileira,
inúmeros romances procuraram apresentar uma narrativa de caráter ficcional
contando fatos do passado, a partir de temas com grande diversificação. Temos
tamm em nossa literatura romances históricos e policiais, quase todos bem
avaliadospelograndepúblicoleitor.
Essaboaaceitaçãoocorreucomoromanceobjetodesteestudo,
MemorialdeMaria
Moura
, de Rachel de Queiroz, a partir do qual foi produzida a adaptação para a
televisão. Em decorrência da qualidade dessa produção, o volume de vendas do
livro,quejáeraexpressivo,praticamentedobrouduranteaexibiçãodaminissérie,
produzidaeapresentadapelaRedeGlobodeTelevisão.
MemorialdeMariaMoura,
osétimoeúltimoromancedeRacheldeQueiroz,editado
em 1992, é resultado de uma trajetória de mais de meio século de produção de
Acessoem:25/08/07
121
AGUIARESILVA,VitorM.Op.cit.p.243
122
BOSI,Alfredo.Op.Cit.p.99100.
123
AGUIARESILVA,VítorM.Op.Cit.p.243.
narrativasficcionais, duranteaqualRacheldeQueirozexerceusuaforça criadora
naproduçãodegênerosliteráriosdiversos.
Oromancenarraasagadeumajovemquesevêforçadaaassumiracondiçãode
umaespéciededonzelaguerreiraparaconquistardignidadeeindependência.Para
a construção de uma personagem como Maria Moura, provavelmente Rachel de
Queiroz tevegrandeinfluênciadosensinamentosdeseuspais, visíveis elementos
depesonaformaçãodapersonalidadedestemidadaheroína,osquaispodemser
visualizadosaolongodoenredodoromanceaadmiraçãopelamãe,aligaçãocom
opai.
Também se notam as marcas dos outros elementos de inspiração, já citados – a
trajetória da rainha inglesa Elizabeth I e a das matriarcas, com destaque para a
pernambucana Maria de Oliveira; porém, segundo Rachel declarou em entrevista,
comoaintençãonãoeraade“escreverumromancetipicamentehistórico,transferiu
ficcionalmenteavidadacangaceiraparaoséculoXIX”.
124
É, portanto, no Brasil rural dessa época que se desenrolaram as empolgantes
aventurasetambémastragédiasdavidadeMariaMoura.Comapenas17anosde
idade,ela jáhavia vivenciadouma sériede acontecimentos altamente dramáticos:
encontrouamãeenforcadaemseuquarto,poucotempodepoisfoiviolentadapelo
padrastoeviusuasterrasseremcobiçadasporprimossemescrúpulos.
Uma mulhercomum sucumbiriaa tantas adversidades, mas Maria Moura possuía
outratêmpera:decideresistiredepoisprocurarasterrasdequetantoouviraseupai
falarnainfância,poisacreditavaqueláteriaumanovavida.Paraisso,precisariade
proteção,quebuscouobterrapidamenteparaficar,comoelaafirma,garantidacom
os meus cabras. Pra ninguém mais querer botar o no meu pescoço; ou me
enforcarnumarmadorderede".
125
Aolongodahistória,podemseacompanhar, descritoscomlinguagemnua e crua,
masaomesmotempodensaevibrante,todososliamesdesuasforçasefraquezas,
124
AstrêsRachéis.Op.cit.,p.34.
125
QUEIROZ,Rachelde.
MemorialdeMariaMoura
.8.ed.SãoPaulo:Siciliano,1992,p.40.
todasasvirtudesedefeitosquequalquerserhumanopossui,astrajetóriasdoamor
aoódio,oscaminhosqueperpassamocrimeechegamaoremorso.
AhistóriadeMariaMouramostraaoleitornãoapenasumaseqüênciadeaventuras,
mas um grande entrelaçar de relações sociais, culturais, morais e afetivas entre
personagens, mostradas de maneira cativante, uma vez que Rachel de Queiroz
estruturouatramaàmaneiradeumatelenovela.
Outraobservaçãoimportanteéqueaescritoraconseguiutransmitirnoromanceuma
visão única do sertão nordestino  ela descreveu a região minuciosamente, com
tamanhaclarezaenaturalidadequefaz comque o leitor se sinta nascaatingas e
sertõesdonordeste,convivendocomagentedaterra.
Ao longo da narrativa, notamse certos pontos muito representativos do cenário
sóciocultural do sertão configurado na narrativa de Rachel de Queiroz: o
patriarcalismo,opapeldasmulheres,osforasdalei,osjagunços,asolidãoefalta
de governo dos vilarejos. Em sua trajetória, Maria Moura e outras personagens
importantes  principalmente o Beato Romano e Marialva  convivem com todos
esseselementos.
Aidéia de ter umapersonagem central valente como Maria Moura provavelmente
surgiudeoutraspersonagensdeseusromances;umadelaséMariaBonita,dapeça
teatral
Lampião,
que,segundoaintençãodeRaquel,seriaaprincipalnahistória
como a própria autora revela, “após abandonar o marido e sua casa para
acompanharolídercangaceiroemsuavidadebanditismo,seriajustoqueelafosse
a estrela da peça”. No entanto, “o danado do cangaceiro foi crescendo”, se
apossandodascenas,diminuindoasoportunidadesdeMariaDéaMariaBonita,
“botandoamachistamentenoseulugar.Eeunãopuderesistiraele”.
126
MariaDéaéousadaaoenfrentaromaridoLauro,chamandoodemedrosoepondo
suavirilidadeemdúvida.ÀfrentedeLauro,elaéarroganteedestemida.Noentanto,
quandosevênaconvivênciacomochefedoscangaceiros,passaadesempenharo
126
NERY,HermesR.Op.cit.,p.166.
papel de mulher prestimosa e submissa, pois é assim que Lampião determina. É
obrigada,então,aenjeitarosfilhoseentregálosaestranhos,queseencarregamde
criálos. Nas discussões em que busca colocar seu ponto de vista para o
cangaceiro,vemlogoarespostaatravessada–eleamandainvariavelmentecalara
boca.
Aconquistadeumapersonagemfeminina,queimpõe,defato,suasvontades,vem
somentecomo
MemorialdeMariaMoura
,romancecomoqualRacheldeQueiroz
consegue“vingarse”deLampião,poisnestehaveráumamulherqueconquistaum
postoinvejável,comochefedecangaceiros–DonaMoura.
O interesse da escritora pela figura da guerreira é constante;em quase todos os
romances, como já visto, uma delas se destaca, em detrimento de um ou mais
homens.No caso de Maria Moura, elaé dinâmica,invadindo o mundo masculino,
cortando o cabelo e envergando trajes de homem, abdicando das fraquezas
femininaseoptandopelamorte,realousimbólica.
Tamaru,emsuatesededoutorado,informasobreumacertasemelhançaentreoato
deMariaMouradeprivarsedoscabeloseoritualdoscasamentosespartanos,em
que a noiva cortava o cabelo e era travestida com trajes e calçados masculinos.
Marcandoumritodepassagem,esseatoconfiguravaumasíntesedohomemeda
mulher,possibilitandoacadaumdossexosadquirirasenergiasdosexooposto.
127
Esse rito tem semelhança simbólica com as amazonas (mulheres sem maridos,
como eram conhecidas pelos índios) – há traços de suas lutas e de sua
independênciaemváriaspersonagensfemininasdeRacheldeQueiroz.
A lenda das amazonas é de origem européia e foi trazida pelos europeus,
coincidindocom mitosindígenasprécolombianos acercadaexistênciada tribo de
mulheresguerreirasemperíodosanterioresaosdescobrimentos;nomitogrego,as
amazonas eram filhas deAres, o deus da guerra, teriam inventado a cavalaria e,
segundo uma das versões sobre sua origem, possuíam o bito de queimar,
127
TAMARU,AH.Op.cit.p.94.
comprimir ou cortar o seio direito para o manejo do arco, daí provindo o nome
Amazonas,quesignifica“semseio”.Viviama lestedaGrécia,na Líbia ou nomar
Negro.
NoBrasil,foiFranciscodeOrellana,exploradorespanholeprotagonistadaprimeira
navegaçãoaolongodorioAmazonas,emtornode1540,quemprimeirocontoua
históriadessasmulheres,reportandoaexistênciadeguerreirasnasmargensdorio.
Segundoonavegador,umgrupodeíndiasacompanhavamoshomensemcombate,
demaneirasemelhanteàsantigasguerreirasda mitologia grega; as guerreiras do
Amazonas eram índias altas, esbeltas e formosas, de longos cabelos negros
trançadosemvoltadacabeça.
NotocanteàpersonagemMariaMoura,aindasegundoTamaru,osobrenome
Moura
atribuídoaelaexigeumolharatento,poistemfortecargasemântica;possivelmente
estárelacionadoàpalavra
mouro
,povoquehabitavaonortedaÁfrica,doMarrocos
edaMauritâniaepertenciaaumgrupomaior,odosberberes,queseconverteram
aoislamismo.Parapregarasuareligiãoetammparaaproveitarasriquezasde
novasterras,osmuçulmanosinvadirameconquistarammuitosterritórios,inclusivea
Península Ibérica, de onde expulsaram os romanos, em torno do ano de 711; lá
permaneceramcercade800anos,exercendograndeinfluênciasobreapopulação
local.
Ao longo desse período de invasão, surgiu uma contínua luta entre cristãos e
mouros,quepassarama serconsideradosperversos,ligadosaummundoinfiele
hostilaomundocristão.Apalavranãoassumiu,noBrasil,aconotaçãoquetemno
contextoeuropeu–deinvasor,conquistadorcruel,guerreiroimbatível,podendoser
mencionadasemsurtirefeitosdesagradáveisaoleitoreaquemaescreveu.
128
RaqueldeQueiroziniciaanarrativadahistóriadeMariaMoura
inmediares,
recurso
narrativo usado para começar a contar a história a partir de certa altura dos
acontecimentos, contando ao longo dela o que aconteceu antes e depois desse
momentoinicial.
128
TAMARU,AngelaH.Op.cit.,p.100.
Esserecursoserveparadarànarrativaumcertosuspensepelainversãodaordem
dos acontecimentos. Como analisa França, em sua dissertação de mestrado,
embora dados geográficos e cronológicos o sejam explicitados na narrativa, as
várias indicações de ambientação permitem supor que a seqüência espacial e
temporal da narração aconteça no “Brasil do século XIX, em particular na região
nordestina”.
129
PodemseveressesindicativosnasreferênciasàregiãodoCrato,eàslocalidades
deAracatieAreiaBranca,cidadessituadasnoCeará,alémdadescriçãoficcionalda
SerradosPadres,semelhanteàgeografiadaregiãoNordeste,ondenasceuRachel
deQueiroz.
130
Hátammpossibilidadesdeligaçãocomfatoshistóricos,comoodesconhecimento
dodinheiroempapelmoeda–quefoioficializadonoBrasilporumaleide1833;a
citação,porumjornal,denotíciasdasaúdedojovemImperador”,
131
provavelmente
emreferênciaaD.PedroII,coroadoaos16anosincompletos,em1841;afalade
umfuncionáriodaCasaImperial–“EusoufuncionáriodoGovernoImperial!”;
132
a
participaçãodeescravosaolongodoenredo–“Roquebotouoescravoalto[...]”.
133
Essesdadoslevamainferirqueatramatranscorre,possivelmente,emumaépoca
emtornode1840e1850.
A história contada no livro começa com a chegada do padre José Maria à Casa
Forte–assimerachamadaafortalezaconstruídaporMariaMouraeseus“cabras”
em busca de proteçãodesuaconhecidae poderosa proprietária. O padrefugitivo
chega então à Serra dos Padres – região onde foi construída a casa, as terras
deixadas pelo avô de Maria Moura e apropriadas por ela. O padre pretendia
conseguirabrigo,confiadoemumeloexistenteentreelesumaconfissãofeitano
passadopelaentãojovemsinhazinhaMariaMoura,naparóquiadacidadezinhade
Vargem da Cruz, na qualela viveu sua infância e adolescência eele era roco:
129
FRANÇA,IvoR.
MemorialdeMariaMoura
:doromancedeRacheldeQueirozàminissériedetelevisão.
2005.Dissertação(MestradoemTeoriaLiterária)–UniversidadeFederaldeSantaCatarina.p.53.
130
Idem,ibidem.
131
QUEIROZ,Rachelde.Op.cit.,p.204.
132
Idem,p.262
133
Idem,p.264
“Padre, eu cometi o pecado da carne com o meu padrasto. E agora vou mandar
matarele...”.
Apósserrecebidoporelaeconseguirabrigoeproteçãonafortaleza,temseunome
mudado para Beato Romano. A narração retorna então ao espaço de Vargem da
Cruz e ao tempo da adolescência de Maria Moura que, aos 17 anos, havia
encontradoamãeenforcadaemseupróprioquarto,começandoentãoaviveruma
sinatrágica.
Dessamaneira,por meio daslembranças e acontecimentos que ela vai narrando,
em primeira pessoa, o leitor passa a tomar conhecimento de como a história
acontecera.UmdosfatosmaischocantesqueMariaMourarelatalogonoinícioéa
morte inesperada e violenta de sua mãe; ao que tudo indica, ela teria sido
assassinadapeloamanteLiberato,mas,porfalta deprovas,amorte acabasendo
consideradacomodecorrentedesuicídio.
Para piorara situação, elenem padrasto era, pois suamãe não havia se casado
comeleoficialmente.SegundofortessuspeitasdeMariaMoura,Liberatonãoteve
receio de matar a mãe delae simular suicídio,dianteda decisão dela de nãolhe
cederapropriedade:
Euquedescobri.Minhaemorta,enforcadanoarmadordaparede.
Em redor do pescoço, um cordão de punho de rede, os pés a um
palmo do chão, o rosto contra a parede. [...] Olhei e fiquei, não só
impressionada,masapavorada.Apavoradapelorestodaminhavida.
Nas noites de pesadelo, que eu hoje ainda tenho, só que mais
espaçadas – sonho com aquela cara de enforcada, a face roxa, os
olhos estatelados, a ponta da língua saindo da boca. Ai meu Deus,
valeime!Todosossantos,valeime!Erasóoqueeugemia,sempre
ajoelhada, sem poder me despregar da borda do colchão, o rosto
enterradonospanosdacama.
134
ÉdessamaneiraqueMariaMouraenfrentapelaprimeiravezomedo,maiormesmo
queadordamorte.TodaessaagoniaeraagravadaporumfatoMariaMouranão
considerava Liberato seu pai. A figura de seu próprio pai ainda estava em sua
134
QUEIROZ,Rachelde.Op.cit.p.1718.
mente;elajáeraumtantocrescidaquandoelemorreu,etinhaumalembrançamuito
fortedele:“MeuPai,esseviviafechadonomeucoração,sozinho”.
Depois que sua mãe morre de forma trágica, passa a entender “a noite escura
traidora”, querendo, por vontade própria, dormir na cama do casal. Ao mesmo
tempo, de reconhecer a tentação do corpo elembrarse do que dizia sua mãe,
comopretextoparasualigaçãocondenávelcomLiberato:“nãoseiviversó,umdia
vocêvaimeentender”:
ComoéqueMãediziaparaafastaratentação?“ValhameaVirgem
Puríssima!”MasavirgemPuríssimanãomevaleu.Afinal,eleeraum
homembonito,deviasermaisnovodoqueMãe.Pelomenosparecia,
eeraoquediziatodomundo.
135
Liberato vai seduzindoa aos poucos, com a justificativa de consolar e cuidar da
jovem triste e desamparada, após a morte da mãe. Por iniciativa do padrasto, a
intimidadevaisetornando,aospoucos,umabrincadeiraperigosa,com“osafagos
setornandocadanoitemaisatrevidos,seadiantando,indolongedemais”.
136
Maria Moura só se dá conta da terrível situação em que estava se envolvendo
quando o padrasto, algum tempo depois, começa a preparála para assinar a
transferênciadapropriedadeparaele,sobopretextodequeajovem,sendomenor
deidade,deveriaassinarumdocumento,transferindooimóvelqueherdaraparao
nomedele,paraqueoadministrasseemseulugar.
Ela, porém, não obstante estar desonrada e intimidada, segue os passos de sua
mãe – recusase a assinar o documento, para evitar a fraude e a espoliação. Ao
notar uma ameaça velada do padrasto, compreende então que a morte da mãe
poderianãotersidosuicídio:
Podiamuitobem–porexemplo–oLiberatoterfingidoaquelaviagem.
Quemsabe ele sóandou uma parte do caminho, voltouna calada
danoite,entrounoquarto pela janela que tinha o fecho quebrado
(ele sabia do desmantelo do ferrolho, dormia toda noite naquele
quarto) e se enfiou pela cama dizendo mansinho que tinha tido
135
QUEIROZ,Rachelde.Op.cit.p.1718.
136
Idem,p.20.
saudade ... Eu conhecia muito bem a tentação dele. E quando
apanhounosbraçosapobrezinhadeMãe,descuidadaeamorosa,foi
só lhe dar uma pancada para desacordar, e aí bastava arrancar os
cordões do punho da rede, pendurar Mãe no laço. Com ela, tão
magrinha,leve,ficavafácil.Tudomuitofácil.
137
MariaMouradeduzentão,pelasameaçassutis,queomesmopodialheacontecer,
porqueo?Elemesmojálhecontarasobrecomodesacordarumapessoacom
umabatidanoqueixo,pendurandoadepoisnumacorda,comopescoçoestalando
comopesodocorpo”.
138
Tem então a certeza de que a morte da mãe não fora decisão dela própria, e
percebeuadifícilsituaçãoemqueseencontrava;Liberato,tãointeressadoemsuas
terras,haviatiradosuacastidadeepoderia,sim,seroassassinodesuamãe.Sem
outraopção,resolveentãoqueteriaquesevingarninguémiria“meteramão”no
quelheeradedireito,poiserachegadaasuavez.
Tambémtomaadecisãodedefenderoseupatrimôniodetodosquequisessemlhe
tomar, embora consciente de que os primos tinham direito na partilha de sua
herança:
Opioréqueeu,talcomoMãe,nãoqueriaassinarnada.Ademais,em
setratandodasEscriturasdoLimoeiro,eunãopodiamesmoassinar
coisanenhuma.EstavatudoemdemandacomosprimosdasMarias
Pretas. Eram três as partes dos herdeiros do Limoeiro; e cabendo
cada parte a cada um dos irmãos, filhos do meu avô materno [o
marinheiroBelo].Esseinventárioandavaemjuízoparamaisdevinte
anos.Agenteocupavaosítionaraça.Paidiziaqueodireitoeranosso
e,atéentão,ninguémtinhaconseguidonostirardelá.
139
Percebendo que deveria mudar radicalmente os rumos de sua vida, planeja o
primeiropassodessagrandemudança,quedeveriacomeçarpelalibertaçãodeseu
padrasto.Crendoserestaaúnicasolução,resolvetirálodeseucaminhomatando
o,comaajudadeterceiros,evidentemente,paranãoassumiraculpa.Essejáéum
137
QUEIROZ,Rachelde.Op.cit.p.23
138
Idem,ibidem.
139
Idem,p.21.
passoquedemonstraamulherastutaemquesetransformariaembreve–embora
commuitomedo,começaaagircomcuidadoparanadasairerrado.
Comaintençãodeconseguirummplice,seduzJardilino,empregadodoLimoeiro
– propriedade da família , enganandoo da mesma maneira que Liberato havia
enganadoaelaeasuamãe,mastomandoprecauçõesparanãoirlongedemaisno
relacionamento com o escolhido, já que como deve saber toda sinhazinha bem
ensinadapelamãe,[...]caboclonãoerahomem,eratrastedefazenda”.
140
Com a necessidade de criar um cenário ideal para convencer Jardilino a matar
Liberato,ela fezo rapazacreditarque oamava, provocandoeconvencendoo de
queopadrastoeraumempecilhoàsuaunião.Destamaneira,ficariacaracterizado
queaidéiadeeliminaropadrastoteriapartidodelepróprio.ConvencidoporMaria
Moura,usandoobacamartevelhodopróprioLiberato,umanoiteJardilinooespera,
escondido na estrada que levava à propriedade, e facilmente consuma o
assassinato:
Que alívio. Tudo se passou muito bem. Na noite de terçafeira,
LiberatovinhadaVargemdaCruz,encharcadodeGenebra,tombando
emcimadocavalo.Ocabocloesperouescondidonumamoita,àbeira
dolajeado,numadobradaestrada.Mecontoudepoisquesóprecisou
dar um tiro, encheu ele de chumbo, bem na arca do peito. O
desgraçado soltou a rédea e desabou no chão. Já deve ter caído
morto.Tirodebacamarteémuitoviolento.
141
Deigualmaneira,tornousenecessárioeliminarJardilino,jáqueentãoelecomeçava
a tornarseinconveniente, exigindo maiores liberdades e até casamento ela não
tinhamesmoamínimaintençãodeficarcomele.Assim,depoisdocrimecometido
contraopadrasto–pressupostopelaautoridadepolicialdavilacomoobradeseus
muitos inimigos –, Maria Moura planeja a morte de Jardilino. Novamente, era
necessárioteralguémquefizesseo“serviço”e,destavez,amorteécalculadapor
elaparaacontecerpelasmãosdeJoãoRufo.Esteeraempregadodeconfiançado
Limoeiro,umafilhadodoseupaiaquemhaviasidoconfiadaasegurançadafamília.
140
QUEIROZ,Rachel.Op.cit.,p.24
141
Idem,p.29
Destaforma,imitandoossenhoresdotempoantigo,quemandavamfazerotrabalho
porumescravoedepoismatavamonegro,MariaMouraeliminariatodasasprovas
econsumariasuavingança:
AssimqueJoãoRufosaiu,chegouJardilinocomassuasexigências.E
eu então fingi que estava de acordo, que também não podia mais
resistir.Afasteiamãodeleecombinei:
– Agora não dá. Volte no tarde da noite, empurre a janela do meu
quarto.Euvoudeixarsóencostada.
Denovotudosepassousemumerro.JoãoRufo,encostadonooitão,
divisouovultodohomemseaproximando,chegarperto,empurrarde
leve a janela; levantar o joelho para subir um pouco e pular. O tiro
pegou no caboclo pelas costas. João Rufo tinha boa pontaria, foi
ensinadoporPai.
AssimmorreuJardilino,quasedomesmojeitodequetinhamorridoo
outro,oLiberatocomumtirodoprópriobacamartedele.Eagarrucha,
meu Pai devia ter deixado para defender a filha dos ataques de
homem,queécoisaquenãofaltaamulher,nestemundo.
142
Com a morte de Jardilino, aparentemente resolvese o último problema, mas, na
verdade,issofoiapenasocomeçodeumatrajetóriaconturbada;MariaMouralogo
começou a ser ameaçada pelos primos Irineu e Tonho, que vieram visitála sem
demora,paraexigirapossepordireitodasterrasdoLimoeiroecondenálaacasar
secomumdeles,para“ficartudoemfamília”.
Sema menor intenção deatender aosapelosdos primos, que jácontavamcomo
suas tanto a propriedade do Limoeiro quanto ela própria, e odiando tudo que a
aprisionava e cerceava sua liberdade, Maria Moura segue na conquista de sua
posição.
Asidéias emtorno deum plano de fuga começavamaser trabalhadas; do modo
comotudoiaacontecendo,elanãoteriaoutraalternativa:oudeveriacasarsecomo
primo ou fugir, abandonando sua casa. Ambas as possibilidades lhe pareciam
demasiadamenteinsuportáveisserdesalojadadasterrasondemoravadesdeque
nascera,oudividiracasacomIrineu:
Minhaprimeiraaçãotinhaqueseraresistência.Eujuntavaosmeus
cabras ostrês rapazes, João Rufo (que em tempos antes já tinha
142
QUEIROZ,Rachel.Op.cit.,p.3132
dadoassuasprovas).Os dois velhospodiamservirpra municiaras
armas,nahoradaprecisão.EuqueriaassustaroTonho.Nuncaseviu
mulher resistindo à força contra soldado. Mulher, pra homem como
ele,sóservepradarfaniquito.Pois,comigoelesvãover.Eseeusinto
quepercoaparada,voumeemboracomosmeushomens,masme
retiroatirando.Edeixoumestragofeioatrásdemim.Vouprocuraras
terrasdaSerradosPadres–elápodeserparamimoutrocomeçode
vida. Mas garantida comos meus cabras.Praninguémmais querer
botar o pé no meupescoço; ou me enforcar num armador de rede.
Quempensounissojámorreu.
143
Apóscertificarsedequeavisitadosprimostinhaofrioobjetivodetratardadivisão
dasterras,expulsaaeleseaossoldados queosacompanharam, resolvendo que
deveria sair da casa por meio de enfrentamento; por isso, junta alguns homens
dispostos a viver uma aventura. Maria Moura pensa inicialmente em enfrentar o
ataquedosprimoscomaajudadeseushomens;noentanto,aoperceberqueseria
vencida,abandonao Limoeiro, a casa onde vivera com os pais desde a infância,
parafugirdocercodosprimos,quepretendiam fazercumpriràforçaa partilhada
herançaàqualtinhamdireito,negadopelopaideMariaMoura.
Esseenfrentamentoacontececertanoite,quandoosprimoschegamparainvadira
propriedadeeMariaMourarecebeosatiros;aoperceberqueseriavencida,prefere
incendiar e abandonar o sítio a cederlhes qualquer benfeitoria que Liberato não
haviaaindaconsumido.Osentimentoderaivaquetinhapela“genteruimdas
Marias
Pretas”
assim chamava os primos , era maior que o medo e lhe deu forte
resistência e ânimo para o ataque e posterior retirada; a jovem percebeu que o
caminhonovoqueseapresentavaseriaapossibilidadedeconcretizarosonhode
fazervalertodososdireitosfamiliares.
Assimresolvida,tomaocavaloTirano,asvestimentasealgunsobjetosdeseupai;
como única filha, e sendo mulher, dispõese, daquele momento em diante, a
aprenderofíciosreservadosao mundo masculino. Jásabia dartirode bacamarte,
limpar a arma e carregála  aprendera com o Liberato, mas nada entendia de
pólvora e de compras de armamentos, afinal fôra educada para ser sinhazinha.
Passa,então,acontrariarosensinamentosdopadrasto,quediziaqueelaeraigual
atodasasjovens:umamoçamedrosa,sempreparoparaenfrentardificuldades:
143
QUEIROZ,Rachelde.Op.cit.p.40.
Sabemláoqueéumalutadeverdade–pólvora,tiro,açofrio?Gente
nova pensa que tudo se resolve na valentia. E ele botava em mim
aqueleolhoenviesado:
— Não vê você? Grita e esperneia, mas quando chegar a hora do
pegapracapar, vai correr se esconder na cozinha, chorando. Se
juntarcomascunhãs,jáquenãotemmaisorabodesaiadaMãe!
144
Comoamãeaproibiradeandarnacompanhiadosmeninosdurantesuainfância,e
não tendo nenhum irmão, Maria Moura preferiu andar só, pois, segundo ela, as
meninas eram muito medrosas. A condição de órfã com que ela se apresenta
praticamente desde o início do romance é fundamental para a construção da
guerreira e heroína que, nesta condição, age por conta e risco próprios, já que
provavelmenteiriapassarporinúmerassituaçõesemqueseriaprecisoforçaruma
saída; era necessário, portanto, deixar de lado os modos de moça de família,
rompendocomasamarrasqueaprendiamaumespaçoacanhadoereduzidoera
chegadaahoradeganharomundo.
OdistritodeVargemdaCruzacabara,então,porsetornarmuitopequenoparaela:
Quando menina, ainda, saía pela mata [...] matando passarinho de
baladeira,pescandopiabanoaçudinho,usandocomopuçáopanoda
saia. Mas, depois de moça, a gente fica presa dentro das quatro
paredes de casa. O mais que saí é até o quintal para dar milho às
galinhas,umafugidinhaaoroçadoantesdosolquente.[...]Ocurralé
proibido,vivecheiodehomem. E ainda tem o touro,fazendo pouca
vergonhacomavaca.Ficaatéfeiomoçaveraquilo.
Restavaaindaobanhonoaçude,tomadomuitocedinho,aáguaainda
morna.Masbanhosónaquelahoracerta,queoshomensrespeitam.
[...]Passeionavila eraaindamuitodifícil,sómesmonasfestas da
igreja. Masnuncaentreinumadança–filhadefazendeironão vaia
samba decaboclo,nemmesmoabailedebodegueirodavila.
145
Omundoeragrande,eelatinhaloucuraparaconheceralémdasextremidadesdo
sítio.Quandoos primos começam a pressionála,aproximandose de sua casa, a
impressãoqueelatinhaeraadequetudoestavasefechandosobreela:tinhaque
escapardaqueleapertoperigoso,ganharomundoprotegidapelosseus“cabras”.
144
QUEIROZ,Rachel.op.cit.,p.43.
Vendoqueocercodos primoscontinuava,guardouorestode dinheiro queainda
tinhanopapodeema,
146
vestiuocasaco,espalhoupeloscantosdacasapólvorae
azeite, armouse com a munição e a faca, tudo do pai, e, antes de sair
sorrateiramentepelosfundos,ateoufogoàcasaondepassaratodososanosdesua
breveexistência.Aproveitandosedosustodoscabrasdocercocomaslabaredas
altas,fogecomoseubando:
Montamosdemansinho.OTirano,mevendo,aindaarregaçouobeiço
para me dar um rincho de boanoite, mas eu falei no ouvido dele,
aliseilheacrinae eleseaquietou.Voeiem cima dasela – sela de
homem–claroqueeratambémaseladePai.Alieratudodele,atéeu
–atéeu,não–principalmenteeu,sangueecarnedele.
147
EssaretiradafoiummarconavidadeMariaMoura;depoisdessedia,elapassoua
trajarvestesmasculinas–pertencentesaseupaie cortar o cabelona altura do
pescoço,paraimporrespeito.UmoutropersonagematuantenoromanceOBeato
Romano,quandofalavadela,descreviaacomoaquelaque“calçavabotasdecano
curto,trajavacalçasdehomemecamisadexadrezdemangaarregaçada”;
148
em
referênciaàsvesteseobjetosdeseupai,queelatomoucomoherança,depoisda
morte dele. Em certa ocasião, sua mãe mencionou a intenção de dar esses
pertencesaLiberato,masMariaMourareagiucontrariamente:
Elabemquetentou,maseufizumescândalo,meagarreicomaroupa
de Pai, saí correndo abraçada com a trouxa dela para esconder no
meubaú.Enessetempoeunemtinhaidéiadeusaraquelasroupas,
erasópelarelíquiaquequeriaguardare,naturalmente,pranãovero
Liberato se pavoneando com a roupa de Pai. Já bastava o que ele
tinha. Mas agora eu sentia um gosto especial em enfiar as calças
pelaspernas,apertar no cósocinturão (tambémdele), arregaçar as
mangasdacamisa,compridasdemaisparaosmeusbraços.
Ai,Pai,seosenhornãotemmorrido,avidanossaseriatãodiferente.
Talvezeujáestivessecasada,dormindonosbraçosdomeumarido.
149
145
Idem,ibidem.
146
Pequenosacofeitodetecidogrosso,paracarregarvalores;amarradonacintura,ficaprotegidocontraroubo.
147
QUEIROZ,Rachelde.Op.cit.,p.65.
148
Idem,p.10.
149
QUEIROZ,Rachelde.Op.cit.p.226227
Após ter ficado órfã, sabia que dificilmente teria um marido; estava sozinha e os
sonhosdemenina,emesperarqueumnoivochegassetodovestidodebranco,de
bigodelourocomoodeseupai,montadonumalazão,voltava,porvezes,asacudir
lheaalma,maseladeixavatudoparalá,comoseissonãopassassedeimaginação
demulheroudehistóriasdelivrosqueelanuncalera.
Lembravaseapenasdequeaprenderaaler,comopai,nanoveladecavalaria
Vida
doImperadorCarlosMagnoeosdozeparesdeFrança,
queaestimulaasetornar
donadesi,afimdesedefenderdequalquerumquetentasselhetirar algo.Tem
inícioumaperigosaeincertatrajetória,queamotivaaalertarseuscompanheiros:
–Voupreveniravocês:comigoécapazdeserpiordoquecomcaboe
sargento. Têm que me obedecer de olhos fechados. Têm que se
esquecer que eu sou mulher – pra isso mesmo estou usando estas
calçasdehomem.
Batinopeito:
– Aqui não tem mulher nenhuma, tem só o chefe de vocês. Se eu
disserqueatire, vocêsatiram; se eudisserque morraépra morrer.
Quemdesobedecerpagacaroetãodepressaquenãovaitertempo
nemparasearrepender.
150
Para não ser vista como uma simples e frágil mulher e tamm dar mais
credibilidade a seu novo papel de líder do grupo, Maria Moura corta os longos
cabelos:
– Não sei que é que tinha na minha voz, na minha cara, mas eles
concordaram,sempararparapensar.Aíeumelevanteidochão,pedi
afacadeJoãoRufo,amoladafeitoumanavalha–puxeiomeucabelo
que me descia pelas costas feito numa trança grossa; e encostei o
ladocegodaminhafacanaminhanucae,demechaemmecha,fui
cortandoocabelonaalturadopescoço.
151
Apóscumpriresseritodepassagem,eladecretaeanunciaumagrandemudança:
“AgoraseacabouaSinhazinhadoLimoeiro.QuemestáaquiéaMariaMoura,chefe
de vocês, herdeira de uma data na sesmaria da Fidalga Brites, na Serra dos
Padres”.
152
150
Idem,p.8384.
151
Idem,ibidem.
152
QUEIROZ,Rachelde.op.cit.,p.8384
Aorenunciaraoslongoscabelos,MariaMouraabandonatodasaspossibilidadesde
serumamoçacomoasoutrasestáprontaparaserumaguerreira,ganhando,com
isso,aforçadequenecessitavaparasuaempreitada.
O trecho do romance que narra a vida de Maria Moura como sinhazinha é curto;
nesseperíodo,comotal,agiacomomulherdesuaclasse,devendose“comportar”,
osescravosrendiamlheobediência,e,elamesma,porsuavez,obedeciaaochefe
dacasaprimeiroseupaiedepoisseupadrasto.
Assim como a mãe, estava “mal falada” e, segundo os primos, elas nem mesmo
eram as primeiras a passar por isso as mulheres de sua família sempre foram
escandalosas.Elamesmaconfessaadiante:
Játinhafogoporhomem;nãoporaquelesmatutosqueeuencontrava
naigrejaounarua,nasrarasvezesemqueiaàmissa.Unspacholas
dechapéuebanda,alisandoaquelesfiaposdebigode,sefazendode
importante. Nem queria os cabras da fazenda, eram brutos demais
paramim.Nãoviu,maistarde,oJardilino?Ofimqueteve?
Eu sonhava com um homem – não sei que homem eu queria, mas
sabiaquetinhaqueserumhomem.Algumdia.
153
Maria Moura aceitava a idéia de ter um companheiro; entretanto, não desejava
conciliarospapéisdemãeeguerreira,atéporquesupunhaserestéril,fatoquenão
eradesconfortávelparaela.Nosmomentosdereflexão,lembravasedequedurante
o relacionamento com Liberato nunca havia engravidado, o problema “era de ser
comigomesma”.
154
Naquelemomento,aúnicapreocupaçãoquetinhaeraadeser
líderdeseugrupo,corajosa,guerreira,vencedora,mesmosendomulher:
O meu cuidado maior era não dar liberdade demais a eles – quero
dizer, ter liberdade com eles, e eles comigo. Não consentia que
chamassem de Sinhá, que isso era coisa de cativeiro. Mas todos
tinhamquechamardeDona,oumesmoDonaMoura.[...]Nemtinha
pegado aquela história de “Chefe” que o João Rufo inventou. Muito
machoparaomeugosto.
155
153
Idem,p.122
154
Idem,p.343
155
QUEIROZ,Rachelde.Op.cit.,p.149
A jovem Maria Moura ordenou que todos a chamassem não de Sinhá, o que
lembravacertafragilidadefemininaetammumaligaçãocomescravos;comoela
nãoosconsideravanessacondição,preferiaserchamadade“Dona”–queremetea
“senhora”, uma espécie de tratamento medieval pois indicava força, poder e
coragem, já que não queria mais ser considerada uma moça comportada, e sim
uma mulherpreparadapara suas conquistas,liderandoum grupo de homens que
lhedariamaassistêncianecessária.
Essa força e a coragem haveria de tirar de sua natureza selvagem ou de outras
qualidades que seus primos freqüentemente lhe atribuíam, dizendo que ela tinha
“cabelonaventa”eumjeitodeencararquenãotinhanadadefeminino:“olhoduro,
nariz para cima, igual mesmo a um cabra macho”. Além disso, como não
conseguiam domála, atribuem a ela nomes de animais selvagens: essa
cascavelzinhatema quempuxar”;“pegara gatabrava,nemque fosseatadacom
corda”; “assim que eu tiver domado a jaguatirica”; “a cabrita é espritada mas
bonitinha”;“amulheréumapiranhadevalente”;seriamraçadesaramanta?”;“que
naturezadeferaodiabodaquelamulher!”;avíboradaMourabotandosoldadopra
correr”.
156
Paraalcançarseuobjetivodechegaràs terrasde sua família, mas semsaber ao
certosualocalização,MariaMouraeseushomenslevavamumavidaerrante.Vão,
aos poucos, apossandose do necessário para sobreviver na estrada, “vivendo
encima das `apragatas´ e embaixo do chapéu” – como ouvia dos cantores de
desafio,cujaliberdadefazialheinvejaquandocriança.
157
Emsuacaminhada,necessitavatermeiosparaseusustentoedeseugrupo.Para
isso,acercavasedegruposdeviajantesqueencontravapelafrente,ordenandoaos
cabras para apoderaremse de alimentos e de tudo que tivesse valor e que lhe
permitisse acumular riqueza. Entretanto, era piedosa e o gostava de provocar
suas vítimas, mantendo controle total sobre sua tropa. Não queria violência
desnecessária,desenvolvendo,desdeoprincípio,umaimagemdelealdade:
156
Idem
,
p.36,46,51,55,67,69e92.
157
Idem,p.87
Ébomterforça.Quandoeudescobriomedonosolhosdavelha,senti
quetinhafoa.Efoibom.Podiatermatado,ferido,maltratado–ela
não ia reagir, estava tremendo de medo. E quando eunão fiz
nada
porquenãoqueria,issotambémfoibom,sinaldequeeucomandavaa
minhaforça.Eusófaziaoquequeria.
158
Assim, Maria Moura seguia seu caminho, conduzindo o grupo a partir de regras
éticas próprias, pregando sermão aos homens quando achava necessário; o
queriaviolênciadesnecessárianemperversidade,nem que maltratassemqualquer
pessoa que cruzasse seu caminho. Com isso, começou a ficar conhecida não
somente pela pilhagem, mas tamm por sua autoridade, poupando vizinhos e
conhecidos:“eramuitoimportantequeme respeitassem,queopovotivesseféna
minhafamademulherdepalavra”.
159
Assim foi construída sua figura destemida, conhecida pela astúcia, audácia e
intolerância; sabia que o temor era necessário para ser respeitada. Tamm não
suportavatraição,demodoque,comosecomentavanaregião,sefossenecessário,
elamesma julgava edavaasentença,sembuscarajudadenenhuma autoridade.
Dizia opovoque “a Donanãocarecede cadeianem dedelegado.Lámesmo ela
julgaedáasentença”.
160
Avidadeerrante,porém,precisavaterfimlogo;MariaMoura,incomodadacomsua
vida de perambulação, desejando instalarse em um local que lhe trouxesse
tranqüilidade,resolvequeoshomensdeveriamprocurarumlugarparasefixarem.
Começamentãoaprocurarumpontodeparada,umlugarescondido, quetivesse
águaperto:um lugarnossomesmo, de ondeagentesaia eparaondevolte,por
maisquesevá,esemetanoquesemeter”.
161
Emtrêssemanas,chegaramaum
lugar, que lhes pareceu ideal para essa finalidade, localizado a dez léguas do
Limoeiro,pontodepartida:
Numvaleentreduaslombadasverdes,sedeitavaumalagoadebom
tamanho,chãodeareia,águaclara.Omatoquesubiapelaslombadas
erade capoeira: ali já tinha se plantado; na partebaixa seplantava
ainda,muitopouco;umaespéciedequintalzinhocomrestosdepalha
demilhoemoitassecasdefeijão.Maisparalá,pertodaágua,umas
158
QUEIROZ,Rachelde.op.cit.,p.177
159
Idem,p.295.
160
Idem,p.333
161
Idem,p.114
bananeiras. E, mais além, dois ranchos de barro, meio tombados,
cobertosdepalha,eumdeleserafechadocomportadevara.
162
Como o local reunia todas as condições necessárias para se fixarem, nele se
instalaram,devidamenteautorizadosporumcasalidosodeescravosfugidosedois
netospequenosquelájáestavamacomodados.Deram aolugarooportunonome
deLagodoSocorro,poispropicioulhesdescansardagrandecorreriainiciadacoma
fugadoLimoeiro.
Erguem “ranchos” provisórios e logo começam a implantar modificações para
atenderàssuasnecessidades;olugar,queestavaquase abandonado, recebeas
primeiras plantações,começam a criaranimaisdomésticos e a acumular riquezas
tomadasdosviajantesquecirculavamnaregião,eerguemranchosprovisórios.As
modificações foram tantas que o acampamento acabou sendo chamado de ”a
fazenda”.
Após algum tempo de estabelecidos, Maria Moura resolve retomar a caminhada
para alcançar a Serra dos Padres e apropriarse das terras de que tanto seu pai
falava.Feitaumaprimeiratentativa,bemsucedida,elaeseuscabrasencontramo
local,apósnovediasdeviagemacavalo.
Reconhecidoolocal,feitososacordoscomamulhereofilhodeumposseiroquejá
moravamláemhabitaçõesrudimentares,voltamparacasa,fazendoosplanospara
retornarem depoise se estabeleceremdefinitivamente naquela terra que ela tinha
certezasersuaequeficava,nãosesabiamais,aquantasléguas,sertãoadentro.
Nãohaviariscosdeengano;gravadoemsuamemóriadesdemenina,elatinhatodo
oroteironacabeça.Oavôlherelataracaracterísticasdolocal,comoquemensina
uma reza: No que se avistasse a Serra, era procurar os serrotes do Pai e do
162
QUEIROZ,Rachelde.Op.cit.p.295
Filho”.
163
Porisso,quandoavistouocenário,tevetotalcertezadequeolugarerao
quetantoprocurara:
Devagar,devagar,sedesenhandodentrodaclaridade,foiaparecendo
o serrote grande todo cinzento e manchado de listas pretas; um
cabeçotedepedradura,arredondandoovulto,noalto.Tinhaqueser
oSerrotedoPai.Equandoandamosmaisumpouco,logodeupara
ver,àdireitadoPai,oserrotemenor,comoseagasalhandonasombra
dele.LáestavaoSerrotedoFilho!
164
Essafraseerao símbolodaherançapaternadeMariaMoura;como seu avô não
havia tido um neto macho, obrigavaa, ainda menina, a aprender todos os seus
direitosparatransmitiraomaridoefilhos.Encontraressasterraseapossarsedelas
era,portanto,osonhodoseuavô,oqualpassouaofilho,que,porsuavez,deixouà
filhapordireito.
Maria Moura ficou radiante com a localização das terras, não só porque era um
desejodeseupai,quenãoconseguiurealizarantesdemorrer,mastammporque
ali construiria uma casa muito protegida – mais do que isso, seu abrigo, sua
fortaleza, onde morariam definitivamente ela e seus companheiros; isso seria
fundamental paraqueela mantivesse sua posição delíder. Enfim, representaria a
compensaçãodetodooesforço,delaedogrupo,naconquistadetaisterras.
Felizmente,nãofoinecessárianenhumacontendaparaqueelaseapoderassedas
terrastudoaconteceusembrigas,comharmoniaeacordo.Mariaacertou,comos
poucosquealiviviam,todososdetalhesarespeitodapossedasterras,oferecendo
lhes,emtroca,ajudaeproteção.
Olugarpossuíamadeira,barroeáguaemfartura,tudoesperandoparaserusado
narealizaçãodeumsonho,inicialmentedeseuavôe,depoisdesuamorte,dofilho
dele, o pai de Maria Moura. Agora, com o pai falecido, era o sonho dela que se
163
QUEIROZ,Rachelde.op.cit.,p.229.
164
Idem,p.231
realizava  a construção de uma grande fortaleza: “Ali eu senti, de verdade, que
haviaencontradoomeucantonomundo,omeucondado”.
165
AhistóriadasterrasadquiridaspeloavôdeMariaMourafoicontadaaelaporseu
pai,dizendoqueolugarforaocupadoinicialmenteporíndiose,posteriormente,por
padres da Companhia, que lá chegaram, construíram uma capela de taipa e
“amansaramumasaldeiasdebugresdaserra–daíonomede“SerradosPadres”.
Ninguém sabe como e por que,iniciaramseos conflitos entre religiosose índios,
que,porsuavez,sedesentenderamentresi.Porrazõesdesconhecidas,oMarquês
de Pombal então ordenou de Lisboa que todos os padres residentes no Brasil
voltassemparalá.
Osíndios,ficandosós,sedesentendiamtambémentreelesecomtribosvizinhas;
porcontadisso,“morreumuitobugre”.Depoisdisso,olugaracabouficandodeserto
–ospadresforamemboraeosíndiosforammorrendo.Surgiuentãoalendadeum
tesouroenterradodebaixodoaltardacapelinhapeloúltimopadreadeixarolugar,
conformenarraMariaMoura:
E quando a aldeia acabou deserta, quer de padres, quer de índios,
começouaseespalharalendadeumtesouroqueoderradeiropadre
tinha enterrado debaixo do altar na capelinha. Foi atrás disso que
chegaram os primeiros invasores, escavacaram tudo e não
encontraram nada. (...) Muita gente, até mesmo o avô, chegou a
sonharcomesse“haverencoberto”(eraassimqueeledizia).Eosque
viramotesouronossonhos,falavamqueeraexatamenteigualaoque
secontavaemouroempóedosvasossagrados.
166
Anosdepois,oavôdeMariaMouracompraraumapartedasesmariadaSerrados
PadresdoadapeloreiaumataldeFidalgaBrites.MariaMouraacreditavaqueoavô
planejaraprocurarpelasbotijasdospadres.
AsagadeMariaMouracompletaseaolongodoromance,apósocuparaSerrados
Padrescomofizera seuavô,porémsemailusãodeencontrar as botijas de ouro;
preferia juntar os bens que ia recolhendo, guardados intactos sob a terra, como
mandavaatradição.Freqüentemente,elarelembravaasfalasdopaiedoavô:
165
QUEIROZ,Rachelde.Op.cit.,p.239.
Deitada no mato, olhando as estrelas no u escuro, eu ia me
lembrandodasconversasdoAvô,oscasosqueelemecontavatantas
vezes, tantas. Começou a me contar quando eu era pequena e me
deitavacomele,em noitedelua,narededoalpendre.Depois,eujá
mocinha,ouviaosmesmoscasos,repetidosjáagorapormeuPai,às
visitas,aosparentes. E muito mais explicados do que no tempo em
queaindaeunãopodiaentender.
167
ParaMariaMoura,erasumamenteimportante seguirosditamesdeseuavô“Na
verdade, vocemecês só querem a terra ‘para possuir!’ Para dizerem que são os
donos.(...)Oorgulhodevocêstodosédizeremàsvisitas:‘atéondealcançaremos
seusolhos,tudoémeu.Daportadaminhacasanãoseavistaterraalheia!’”.Essa
determinaçãofoiconstruídapeloavô,semdúvida,demaneiraqueparaMariaMoura
ointeressenãoestava na terra só para obter suasubsistência, mas para garantir
podereriqueza:
Eusentia(esintoainda)quenãonascipracoisapequena.Queroser
gente. Quero falar com os grandes de igual para igual. Quero ter
riqueza!Aminhacasa,omeugado,asminhasterraslargas.Aminha
cabroeiramegarantindo.
168
É possível perceber nessa fala de Maria Moura palavras que explicitam sua
ganância, valorizando sempre a posse, tanto da terra, quanto dos ganhos que o
grupoobtinhadosassaltosaosviajantesdaregião,lucrosessesqueeramsempre
divididosentretodos.
Como considera Tamaru, esta personagem de Rachel de Queiroz parece ter
recebido várias das conotações apresentadas naherança moura ela abdicou da
terrasdoLimoeiro,ondeestavainstalada,parairconquistaraSerradosPadrespor
mérito de seus esforços, fazendo da migração uma forma de conquista. Chegou
mesmoasercogitado,porpartedosprimosnomomentoemque elaincendeia a
casadoLimoeiroefoge,quetivesseanaturezadeumaferaepactocomodiabo,
ou fosse bruxa capaz de realizar feitiços, tal qual pregava a tradição moura.
Entretanto,paraisso,elaarticulouelutou.
166
Idem,p.22
167
QUEIROZ,Rachelde.op.cit;.p.87
168
Idem,p.125
Seuavô,oMarinheiroBelo,dizia:“sepodeslidarcomcem,nãotelimitesaosdez...”;
MariaMoura,porsuavez,quislidarcommil,tamanhaambição.Noentanto,atrásda
postura de sangue frio que apresentava, esforçavase, o tempo todo, para que
ninguém percebesse o medo, o receio de que alguém pudesse lhe tirar tudo que
tinhaconseguidoatéentãopormeiodemuitolutaeriscos.
MariaMouraestabelecenasnovasterrasumuniversoparticularseu,umafortaleza
onde tem total domínio  a chamada Casa Forte, que não era propriamente uma
casadefazenda,masuma espécie dequartelgeneral,uma paliçadaconstruídaà
maneiradosíndiosasestacasenterradascomgrandeprofundidade,socadascom
tijolo e pedra miúda , bem construída e provida das instalações suficientes para
todasasnecessidades,comonarraoPadreJoséMaria:
Ládentroacasa–emedávontadededizer‘ascasas’,porquenãoeraum
corpodecasa,só.Nafrenteseadiantavaoalpendredoquedeviaseracasa
grande.Emredorsaíamtelhadoseparedesdetodososfeitios,quedecerto
serviamdemoradaparaacabroeira,depaiolparaolegumeseco,oquarto
dosarreios,depósitos.
Doladodeforadacercaalta,ocurraldogado,ochiqueirodacriação.Tudo
limpo e tratado, parecia mesmo uma fazenda igual às outras, não fosse
aquelejeitoquasedequartel.
169
Acasafoiconstruídademaneiraquepudessetammabrigarfugitivosdajustiça,
segundo uma planta desenhada pelo avô, prevendo inclusive a existência de um
“cubico” (variante de
cubículo
)  um quartinho secreto, sem portas ou janelas,
disfarçado entre as paredes desencontradas de outros cômodos, onde se podia
entrarporumalçapão.Ocotinhaumfundo falso, provendoum grande espaço
vazio,comasegurançaeascaracterísticasdeumcofre,ondeMariaMourapoderia,
se necessário,guardaro dinheiro juntado. Sua segurança ficaria assim garantida,
dandoproteçãoemsituaçõesdeemergênciaumainvao,porexemplo:
Mas o verdadeiro fim do
cubico
não era servir de cofre; isso foi
invençãominha.Elesedestinava,conformecontavaPai,aesconder
algumamigoperseguido,ouaguardaremsegredoumprisioneiro.Se
viessematrásdeumdeles,dandobusca,querosdajustiça,queros
169
QUEIROZ,Rachelde.op.cit.,p.910
inimigos, as paredes, corridasatéem cima, não deixavam adivinhar
nada.
170
AadministraçãodaCasaForteeraderesponsabilidadeexclusivadeMariaMoura,
que,comojácitado,possuíacaracterísticasdaslendáriasmatriarcaspelas quais
RacheldeQueirozdemonstravabastanteapreço–como,porexemplo, o estilode
administrar os bens e a maneira como agregava parentes e empregados,
oferecendolhes proteção, geralmente em troca de favores que atendessem seus
interesses.
Outracaracterísticadasmatriarcaseraoenvolvimentoamorosocomparceirosmais
novos,que,pordependerdaproteçãodelas,sobreviviamàsombradeseuprestígio;
é por meio desse tipo de envolvimento que viria o arroubo fatal de uma grande
paixãoquearrebatouMariaMoura.Emborafossemuitaremotaapossibilidadede
terummarido,elaalgumasvezesrefletiasobreanecessidadefísicadacompanhia
masculina ou simplesmente a vontade de ter um companheiro, arcando muitas
vezescomovazioinstaladoemsuavidapelafaltadeumrelacionamentoamoroso.
Emumdessesmomentosdereflexão,duranteaconvalescençadeumcorteafaca
quesofreraemumconfrontocomIrineu,elasedácontadequemuitohaviaainda
queaprender.Pensandoquesabiaarmarbemasjogadas, viuseferida, justo por
Irineu,quejulgavaoidiota.Nesseperíododerecolhimento,elapôderefletirsobre
suasolidãoeafaltadeumhomemqueaprotegesse,umcompanheiro:
Outra coisa que eu descobri nesses dias de doença: acho que não
nasciparaessavidaquearrumeiparamim.Sozinha,semumhomem,
sim,falandofranco,semumhomem.Todamulherquerterumhomem
seu–pelomenosfoiissoqueMãemedisse,quandofuireclamardela
a amizade com o Liberato. “Eu não tenho mais costume de viver
sozinha.Tenhohorrordeficarsó.DepoisqueseuPaisefoi,eutinha
queprocurarcompanhia”.
Ela falava em companhia mas agora eu entendo, era pra não me
escandalizar. O que ela sentia e agora eu compreendo, era a falta
mesmo, não de companhia – mas de um homem. Mão de homem,
braço de homem, boca de homem, corpo de homem. É isso. Mas
quem – quem? Eu vou querer, chamar pra ficar comigo? Esses
170
QUEIROZ,Rachelde.Op.cit.,p.305
meninos? Não me criei considerando caboclo como homem; sim, é
umaquestãodecriação.
171
Nessaépocaentão,Mouracomeçaasentirseinquietaentreodesejodeseralíder
detudo,decomandar,eodeterumhomemaseulado,cobrandosemprealguma
coisa,exigindoalgodela,ciumento,comoseelalhepertencesse.Reconheceentão,
envergonhada, que sentiu, por frações de segundo, um sentimento diferente,
durante a coação violenta de Irineu, quando teve seu corpo grudado ao seu,
imobilizandoacomopunhal:
Eleeralavado,cheiravabom.Encostouacaranaminha,aomesmo
tempoemquemeferiaoqueixocomopunhal;eeusentiaspontasda
barbadelemerasparemorosto.Queódio!Maséverdade.
Então,venhopensandomuitonestavidaqueescolhi–nãopodeser
comoeu queriaantes. Não sou cabra macho pra viver no meio dos
homensenãosentirnada.Talvezseeunãoconhecesseavida,não
conhecessehomem,seoLiberatonãotivessemeensinadooqueéo
prazerdocorpo.
Assim mesmo, hoje pela madrugada, quando acordei, me vi
descobrindooladodoavessodospensamentosdainsônia.Nãoétão
simples,afinal,mudarascoisas.
172
Ela sabia, porém, que apenas um desejo físico havia se manifestado naquele
momento;MariaMouranãodescobriraaindaoamoretinhaaversãoaocasamento.
Algumtempodepois,jáinstaladanaCasaForte,veioasentirafeiçãopeloDuarte,
meioirmãodeTonhoeIrineu,quealichegarapedindoabrigoetrabalho:
Era muito melhor apessoado que os irmãos. Moreno fechado –
‘morenão’–cabelocrespo,masbom,feiçãobemrecortada(...).Olhei
para ele, cada vez me agradava mais, até mesmo como homem.
Nuncatinhaandadopertode mim nenhum rapaz como aquele– na
forçadohomem,bonitodecara–,alto,forte,calmo,bomderiso.
173
ComoDuarteeradafamília(meioprimo,filhodeseutiocomumaescrava),Maria
Moura atribuiulhe afunção de feitor, para auxiliar JoãoRufo, que já vinha dando
mostras de cansaço com o avanço da idade; esse cargo atribuiu a Duarte certa
supremaciaperanteosoutrosdogrupo.
171
QUEIROZ,Rachelde.Op.cit.p.201
172
Idem,p.202.
173
Idem,p.296299
Algum tempo depois de sua chegada à Casa Forte, ambos iniciam um
relacionamento em que ele faz apenas o papel de objeto sexual, espécie de
retribuiçãocitapeloabrigorecebido.Duarteerafilhodeescravaalforriada,eisso
pareceterpesadonaavaliaçãodeMoura,queassimsejustifica:
Apesar daquela grande amizade que nos ligou [Maria Moura e
Rubina,MãedeDuarte],nuncaninguém pensouqueeuchegassea
casarcomDuarte.Achoquenemelepensaria.
Afinal,erafilhodeescravaalforriadaeagentenãosecasacomfilho
decativo,mesmoquetenhadonossosanguenasveias.
Etalvezfossemesmopeloimpossíveldaidéiadeumcasamentoentre
nós,queaospoucosfoihavendooquechegouahaver.
Alémdomais,eutinhahorroracasamento.Umhomemmandandoem
mim,imagine;logoeu,acostumadadesdeanosamandaremqualquer
homemquemechegasseperto.AtécomoLiberato,queeraquemera
–perigoso–,euacheijeitodedarlheaúltimapalavra.
174
Diante desse posicionamento, Duarte logo entende que deveria sujeitarse a ela,
encontrandose apenas quando ela o desejasse, atendendo a um sinal
convencionado que apenas os dois conheciam, pois ninguém devia saber do
relacionamento dos dois. Os encontros deveriam ser discretos, sem vontades ou
ciúmesdapartedele–tudoseparadopelaindelévelmarcadasupremaciadela.
EsserelacionamentoperduraatéMariaMouradarabrigoaum jovem morador da
vizinhança – Cirino , por quem ela se apaixonou profundamente e tornouse
mortalmentevingativa.FilhodeTibúrcio,proprietáriodeumafazendanavizinhança
da Serra dos Padres, o jovem provinha de família abastada, era encantador e
refinado,porémmuitopresunçoso.EleprocurouabrigonaCasaForte,poisestava
sendoperseguidoemconseqüênciadeumerrograve–apósseduzirumajoveme
desonrála, ela foi morta pelo próprio noivo inconformado, que agora procurava
Cirinoparadelesevingar.
Depois de realizado o acordo com o pai e mediante pagamento adiantado, Maria
Moura deu acolhida e proteção ao rapaz, que aparentava ser inofensivo; tinha a
aparênciadeumgaroto–alto,claro,obigodelouroarruivado,muitoparecidocom
174
QUEIROZ,Rachelde.Op.cit.,p.324
seu pai e com o noivo com quem sonhava –, mas que se mostrou portador de
muitasparticularidades,umadelas,adesertransgressor.
Emboranascidoemfamíliarica,orapazeramalacostumado.Pelahistóriacontada
pelopai,MariaMourajádesconfiaradoseurisotorto,queopovodizsersinalde
falsidade: “[... ] deve ser mofino, pois deixou matarem a moça e fugiu”.
175
O pai,
meioencabulado,tentamelhorarsuaimagem,massempodermentir,conta:
OCirinoémeiodoido,levianocommulher,masnãoémalouvidocom
osmaisvelhos...[...]Oquenãoéocasocomvocemecê.Nãoparece
quesejamaisvelhadoqueele.E,pensandobem,euachoatéquea
senhorapode açoitar o Cirino, que ele se conforma, contantoque a
peiaestejanasuamão”.
176
Como precisava ter o filho escondido na Casa Forte, e não tendo mais a quem
recorrer,TibúrciopedeaMariaMouraqueoacolha;elaaceita,então,mantêloem
sua propriedade, a fim de receber a oferta generosa em dinheiro que o velho
fazendeiro lhe oferecia. Mal sabia ela que o jovem lhe traria grandes dissabores,
quandomenosesperasse.Omoçoeraousadoe,logoapóschegaràCasa Forte,
começouacortejálaexplicitamente.Prevendoqueteriaproblemascomisso,elao
alerta:
Elevoltouamebeijaramão:
Éoqueeudigo.Boanoite,minhadama.
Eupuxeiamão,puslheodedodiantedonariz:
–Chamarmulherdedama,aqui,éagravotão grandequetalvezeu
tenhaquemandarlhematar.
De novo ele apanhou minha o no ar, me apertou com força os
dedosesaiucorrendo:
–Manda!”
177
Desprezandosuasadvertências,Cirinocontinuava,ousadamente,aagirdemaneira
leviana, inconseqüente. Usava de subterfúgios, na tentativa de conquistar Maria
Moura.Comonadaconseguiu,umdiafingiusededoenteacamado,afimdeatraíla
175
QUEIROZ,Rachelde.Op.cit.,p.339.
176
Idem,ibidem.
177
Idem,p.358
a seu quarto. Quando ela se aproximou, num momento de distração dela,
rapidamenteaderrubousobreacamaeseduziua:
Enumpulo,comosefosseumgato,saltouporcimademim,prendeu
minhaspernasentreosjoelhos.Comopesodocorpo,meesmagava
o peito, os seios. E apertando a boca na minha, me mordia. Afinal,
comumgestorápidodamão,melevantouacamisolaemeforçou–
comosemedesseumafacada.
Eu poderia ter gritado, ou pelo menos gemido alto, entre os dentes
dele.Masaverdadeéquenãolutei.Amoleciocorpo,pareideresistir,
deixeiqueelefizessecomigooquequeria.
Nãosabiaquehomemfosse capazdaquelaviolência.E logodepois
sentiqueeuestavagemendo,baixinho,nocompassodele.Enãoera
gemidodedor,muitomenosderaiva.
Nemseidizeroqueera.
178
OmodoinusitadocomoocorreuessainvestidadeCirinoeoconsentimentodeMaria
Mourajádenotavaaintensidadedapaixãoque ela nuncapensouvira acontecer.
Depois desse primeiro encontro, muitos outros se sucederam, com aquiescência
delaenoquartodela;aceitava,assim,ainvasãodeCirinoemsuavida.
Chegando à Casa Forte pedindo e recebendo proteção, Cirino seria, depois,
inesperadaeironicamente,seudestruidor.Comintrigas,fomentavaadiscórdiaentre
os habitantes; com promessas gentis e mentiras, conquistou o coração de Maria
Moura,levandoaaumapaixãotãointensaqueafaziaperderocontroledasituação
erenderseaseupodersedutor:
Se eu largar os meus modos, se eu perder a minha fama e o meu
comando,elelogoseabusademimesaiatrásdeoutra.É,nãome
engano.Queriameenganar,masaessepontoeunãomeengano.
Falo e penso isso tão claro, mas no meu peito só existe confusão.
Porqueeuficotremendosócomaidéiadeloirembora.Jápensei,
merindosozinhaemtrancaraquelediabonocubicoesótirareledelá
quando me desse na veneta. Deve ter homem que faz isso com
mulher.PorqueeunãopossofazeromesmocomCirino?
Ai,loucura,loucuradequemtempaixão.Quemquerbemenãotem
segurança,temmedo.Eoqueeusabia,decertezaverdadeira,é
queaquiloquemeaconteciaeramaisfortedoqueeu.Nasmãosde
Cirinoeunãomegovernava.
179
178
QUEIROZ,Rachelde.Op.cit.,p.359
179
Idem,p.394
Narrando em primeira pessoa, Maria Moura explicita sua paixão, o desejo, as
fraquezas,arendiçãototal.Emborasabendoqueesserelacionamento poderiaser
um grande mal para ela, e até representar sua derrota, mesmo assim cede aos
sentimentos.Eladecidenãooficializararelação–issopoderiacriarproblemascom
o grupo;resolve apenas viverarelação. Esse receioprovavelmente era resultado
dasmásexperiênciasqueelahaviatidoedoprópriotemordeterperdasmateriais
ouemocionais;elatinhaconsciênciadequeapaixãopodesubtrairobomsensoe
nãoqueriacorreresserisco.
NocasodeCirino,principalmente,MariaMourasabiaqueesseriscoeramuitoalto,
pelo que já conhecia dele; sabia que tentaria dominála rapidamente e ela não
desejavaisso,poisnãoseesqueceudecomofoidifícilconquistaropoder.Percebe
se uma ligeira semelhança entre o caso de Maria Moura e Cirino e os romances
vividospelasjá citadasmatriarcas,que costumavam ter um romance secreto com
homens de posição inferior, que lhes ofereciam paixão em troca de proteção e
abrigo.
ÉinteressantelembrarquearomancistaRacheldeQueirozescreveuumacrônica
chamada
Cirino
,eaensaístaVilmaArêas,em
Rachel:oouroeaprata
,traçaum
paraleloentreCirino,dolivro
MemorialdeMariaMoura
,eacrônica,considerandoa
possibilidade de a personagem ter sido inspirada na crônica – ambos estão
relacionados a um caso de amor e vingança; o Cirino da crônica tamm é
malcriadoesemmedoelevaumtirodadoporumseuinimigo,pelascostas.
DemaneirasemelhantefoiofimdoCirino,do
Memorial;
apóstraira confiançade
MariaMoura,elasentiusetraídademaneirainaceitável,nãonoamor,oquejulgava
poderperdoar,masnalealdade,oqueameaçavaoseupoder.Comoresultado,sua
palavradehonrafoipostaabaixo,poiselematoualgunshomens,comosefossea
mandodela,traindoaedeixandoadesacreditadaparaváriaspessoas:
Eagora–eutinhadeenfrentaraquelatraição.Nãodeamor,quese
podeperdoar,masde.Traiçãoà Maria Moura,àmulherdequem
Cirinosegabava,nacasadasraparigas,quecomianapalmadao
dele. Qual, eu me imaginando tão forte, tão braba. Agora não se
tratava mais de ligeireza de moço mimado, era afronta. Afronta e
perigo, também.Porqueelemedesmoralizando,eleentregando aos
inimigos um homem que foi posto debaixo da minha guarda, dando
provasobejadequeeuestavametidanaquelacombinaçãotãosuja–
eraparaacabarcomigo.QuemmaisiaacreditarnapalavradeMaria
Moura? Até o dia de hoje, a Moura jamais tinha feito um falso a
ninguém. Inimigoé inimigo, masparceiro e amigo é outra definição,
muitodiferente.
180
Quando Maria Moura descobre os atos traiçoeiros de Cirino, pede a Duarte que
investigueeapuretudooquehaviaocorrido;ficasabendoqueelehaviasidopreso,
pordenúnciadeoutraspessoasenvolvidasemsuasfalcatruas.Planeja,então,dara
ele“umcastigocompleto,pratodomundoficarsabendo,nosertão,queninguémtrai
MariaMourasempagardepois.Epagarcaro”.
181
Para concretizar seu plano, organiza e participapessoalmente de seu resgate da
prisão,para emseguidaaprisionálono
cubico
, cuja passagem de saída dava em
seuquarto.Anarraçãodessesfatos,umapassagemmuitodensadahistória,ea
descrição do espaço físico diminuto e sufocante realça o drama vivido pelas
personagens.
DuranteosdiasemqueCirinoestevepresono
cubico
,MariaMouranemconsegue
dormir,tantoporouvirarespiraçãosofridadele,quantoporsaberqueteriaquedar
fimaohomemqueamava,masqueatraíracovardemente.Divididaentreoamorea
honra,sofriaao pensar no sacrifícioque teria querealizar. A aflição aumenta seu
desatino, pois, consumida, ouve os gemidos e súplicas do amado, que pede
compaixão, parecendo que pressentia o que estava para acontecer – ele sabia o
destinodostraidoresdeMariaMoura.
Evidentemente, quando ela mandou construir a Casa Forte e pediu para fazer o
esconderijo de maneira sigilosa, não imaginara a utilização que ele teria um dia.
Percebese então que, embora Moura desempenhasse um papel de guerreira
valente e destemida como líder de um grupo só de homens, ela sucumbira pela
paixão,mostrando quetinhaumladofrágilde mulher, disfarçadoporlongo tempo
180
QUEIROZ,R.Op.cit.,p.418
181
Idem,p.421
com atos de coragem ebravura,duranteasinúmerasinvestidas que fezcom seu
bando.
Seus anseios  a paixão, a vontade de ser desejada e o medo da solidão 
acompanharamnaemsuasviagenseconquistas,transparecendoinúmerasvezes,
oraempensamentos,oraemconfidências.OanalistaWilsonMartinsanalisaessas
duasfacesdamesmamulher:
Superandotodasasdificuldades,escapandodosperigosesituações
desesperadas,vencendoehumilhandoos inimigos,sempre com um
entremezsentimentalemqueoutrospersonagenseelamesmavivem
oamorinocenteetriunfante.
182
Maria Mouratevemanifestaçõesdiversificadasdeseulado mulher, mostradas em
algumaspassagensquandofaladaatraçãopeloprimoIrineu,quandoestetentou
dominála; a indesejada iniciação sexual com o padrasto; o seu envolvimento
imprevisto com Duarte e a intensa paixão por Cirino, que foi o sentimento mais
marcante,comoelamesmaconta:
Nempossodizerdireitocomoéqueeumesentia.Tudoeranovidade
paramim,masumanovidade esperada. Meu corpo chegava a doer
quandoagentesetocava–econtinuavadoendoquandoseseparava.
Assimmesmo,euprocuravadisfarçardetodomundoasfraquezasda
Mouranova,fingindoaantigadureza,adaMouradeantes.
183
Noentanto,elasabiaperfeitamenteque,nãotendoatrativoscomuns,levandouma
vida muito diferente de outras mulheres, o que atraía Cirino era apenas a sua
poderosa posição de líder e a possibilidade de usurpála. Caso perdesse essa
posição,eleprovavelmentenãoiriamaisseinteressarporela:
Aquilotemastúcia.E,armadaabrigacomo Pai, tratou deme levar
pelobeiço,fazercomqueeuperdesseacabeçaporele.Aíficavafácil
acabarcomigoeseapossardoqueémeu.
Porquemeliquidando–mulhersemmarido,semninguémdemeuno
mundo,sóeucomosmeuscabras,eletomavaomeulugar,sefaziao
meuherdeiro...
184
182
MARTINS,Wilson. Op.cit.,p.83
183
QUEIROZ,Rachelde.Op.cit.,p.393
184
Idem,p.419420
TendoquelidarcomadifícilopçãoentremanterCirinopresoedeixarsedominar
por ele, ou castigálo de acordo com o que merecia, Maria Moura, após longa
reflexão,resolveafinaladotarasoluçãoquelhepareceamaisapropriada–umduro
epesadocastigopelatraição–amorte.
ElaentãochamaomaridodeMarialva,Valentim,exímioatiradordefacascircense,
e o incumbe da difícil missão de matar Cirino, tanto para Moura, por partir dela
ordemtãoimpiedosa,quantoparaele,pois,conformeargumentou,tentandoliberar
sedetãodifícilmissão,nãoerajagunço,nuncahaviamatadoninguém,homemde
bomcoraçãoqueera.
Antesdeteropeitoatravessadoporuma faca de Valentim, Cirinoe Maria Moura
têmumanoiteardentedeamor,massóelasabequeseriaaúltima.Nodiaseguinte,
pelamanhã,concretizaseocumprimentodaordemdeMariaMoura:
Nem sei quantos minutos depois, Valentim apareceu, com a cara
brancacomoumpapel,tremendooscantosdaboca.Pediadesculpas,
gaguejando.
–Tivedegritaronomedele,praelesevirardefrente.Ohomemvinha
muitodelado,tivemedodeerrar.
Euaindanãoconseguiadizernada.Valentimcontinuou:
–Masestámorto.Acertoubemnocoração.(...)
Tantoesforçoqueeutinhafeitoparaelenãosaberqueiasermorto
naquelahora.Abemdizer,pelaminhamão.Paraissoinventeideusar
oValentim;mandarafacapelascostaseelecair,semtempodesaber
de nada. Aquele idiota do Valentim, que estragou tudo. Cadê a
pontariadele?
185
Maria Moura fica, assim, livre de Cirino e o castiga, à semelhança do que fizera
muito tempo antes com Liberato. Igualmente, a morte foi trazida não por suas
próprias mãos, mas por um protegido seu, aproveitandose de um momento
apropriado.
De modo diferente, no entanto, a morte do padrasto foi executada como
encomendado,contudoadeCirinopassouporumimprevisto.EmboraMariaMoura
desejassequeelemorresseferidopelascostas,oatiradordefacasnãoconseguiu
185
QUEIROZ,Rachel.op.cit;.p.45960
ocultardavítimaamandantedocrimeValentimtevequechamáloeelesevirou
defrente,oqueadeixouextremamenteabalada.
Em decorrência de todos esses acontecimentos, Maria Moura cai em profunda
depressão,comumafebreduradoura,umestadodeletargia,umaquasemorte,na
tentativa de se esquecer do mundo. Durante esse período, ela faz inúmeras
reflexões:
Afinal, como é que eu ia acabar com Cirino sem acabar também
comigo? Como é que eu posso abrir a arca do peito e arrancar o
coraçãoprafora?Ninguémpodefazerissoecontinuarvivo.(...)Ese
eunãoagüentar,paciência;seosanguepisadoaquidentromematar
envenenada – pois bem, eu morro! Vou morrer umdia, afinal. Todo
mundomorre.
Masqueromorrernaminhagrandeza.
186
Apósvários dias remoendo essasconsiderações, Maria Moura vairetomando sua
vidanormal,ocoraçãoaindamuitomagoado.Nodesfechodoromance, ela temo
cuidadodeprovidenciar aescrituradeumtestamento,no qual declara o afilhado
Xandó,filhodeValentimeMarialva,comoseuherdeiro.Emseguidaplaneja,comos
homens do grupo, um ataque de alto risco; havia muito tempo que ela não os
acompanhava,mais precisamentedesdequechegaramàCasaForte.Oshomens
atéestranharametentaramevitarqueelaquisesseacompanhálos,peloperigoque,
pressentiam,haverianoataque.
Notérmino dahistória,narramseospreparativoseasaídaparaoataque,mas o
final,possivelmentetrágico,édeixadoemsuspensoenãomuitoclaro.Percebese,
entretanto,que,aparentemente,adecisãodeMouradeacompanharoshomensera
um ato desesperadodeaplacaraimensador daperda amorosaou debuscarna
mortealiberdadequenãoteriamaisemvida:
Saímosaindacomescuro,comoeuqueria.Valentim,RubinaeJoão
Rufo assistiram à partida, ajudaram nos arranjos de última hora.
Ninguém tinha falado nada à Marialva. Mas Valentim, quando se
despediu,medisseemvozbaixa:
–Recebiopapel.Agradeçoemnomedomenino.
186
QUEIROZ,Rachelde.Op.cit.,p.420421.
DuartetomouasrédeasdocavalodasmãosdePagão,esperouque
eume aproximasseparamontar.Eantesqueeubotasseopéno
estribo,rogoumaisumavez:
–Aindaestánahorademudardeidéia,Sinhá.Vaiserumalutamuito
dura, com esses homens traquejados pra matar. Não é briga pra
mulher.Eselhematam?
Salteinasela.Mas,antesdedarpartida,medobreisobreopescoço
docavaloedisse,olhandonosolhosdeDuarte:
– Se tiver que morrer lá, eu morro e pronto. Mas ficando eu morro
muitomais.Saínafrente,numtrotelargo.Sómaisadiante,segureias
rédeas, diminuí o passo do cavalo, para os homens poderem me
acompanhar.
187
Podemseinferiralgumaspossibilidadessobreessefinal,emqueMariaMouraparte
corajosamenteparaaluta,expondoseaograndeperigo,massemconcluílo.Uma
delaséadequearomancistaRacheldeQueiroztivesseaintençãodedeixarum
grandevazionotexto,ficandoacargodoleitorofechamentodahistória;aoutraéa
de que esse final poderia pressupor uma continuação; quando questionada sobre
isso,aescritorarespondeucomum“talvez”.
Diantedadolorosaperdaporquepassou–amortedeseuamado,morrer,ounão,
pouco importava naquele momento; a ida de encontro ao perigo seria uma
experiência semgrandessignificados– eraomesmo que dizerque, semorresse,
seriaumalívioparaasuadore,senãomorresse,teriaaexperiênciadaaventura,
paradizeromínimo.
Como guerreira que era, precisava mostrarse forte, esconder seu sofrimento de
todos,principalmentedeseuscompanheirosdelutaoshomensdeseubando.
2.3Linguagemevozesnarrativas–apolifonia
Omodernismotrouxeinovaçõesnaordemestrutural,naartedecontaredescrever,
noestilo,nosartifíciosretóricos eestilísticos.Nãosónonordeste,masemtodo o
187
QUEIROZ,Rachelde.Op.cit;.p.482.
Brasil,osromancistasde30trouxeraminovaçõesnorteadasporprincípiosestéticos
efilosóficos.
A posição politicamente radical de vários dos autores desse período levouos a
adotar modos populares de linguagem, deixandoa “fluente, por meio de diálogos
fáceis,oqueresultaemumanarrativadinâmica”,comoexplicaoprofessorNicola.
188
Aquebradetabuseadesarticulaçãoestruturaldasintaxe–conquistasdoprimeiro
movimento modernista – foram assimiladas pelos posteriores. Como analisa a
ensaísta Vilma Arêas, um dos pontos mais positivos da prosa queiroziana é a
simplicidadequesetornaesperteza,pois“deixaqueosbrancosdanarrativafalem
porsi”;
189
noentanto,quandoháumafala,aintençãoé“conseguirumalinguagem
literáriaqueseaproximeomaispossíveldalinguagemoral,naturalmentenoqueela
temdeoriginal,ricoeexpressivo”,comoexplicaRacheldeQueiroz.
190
AescritoraexplicaaindaaArêas,sobreessaquestãodalinguagem:
Eessalinguagemoralpodeserfaladenordestinoougíriadecarioca,
pode ser qualquer fala de brasileiro que meus ouvidos escutem e
apreciem. [...] Já a linguagem regional não corre esse risco de
obsolescênciarápida,comodizemosfabricantesdeautomóveis.Por
issotento,commaiorinsistência,emboracomtãoprecárioresultado
(comosetornouevidente),incorporaralinguagemquefaloeescuto
no meu ambiente nativo à ngua com que ganho a vida nas folhas
impressas. Não que o faça por novidade, apenas por necessidade.
MeuparenteJosédeAlencarquaseumséculoatrásviviabrigandopor
issoefezescola.
191
As características do Modernismo preferidas da escritora são, portanto, a
preocupação com a simplicidade e o despojamento, priorizando a oralidade,
aproximando,destaforma,alinguagemliteráriadafalada,comoexplicaArêas:
Um ponto pacífico na avaliação crítica dessa prosa concentrase na
qualidade da linguagem, sua despretensão e impressão de
transparência. Tratase na verdade daquela suposta naturalidade”,
188
NICOLA,Joséde.Op.cit.p.214.
189
ARÊAS,Vilma.Op.cit.p.94
190
Idem,p.95.
191
Idem,p.9596.
segundoela,escondendoopróprioavessopelodomíniotécnico.Mas
o segredo fundamental do acerto é que Rachel orientaa escritaem
direção àstendências maisprofundasdafalado povo, contornando,
entretanto,oarremedofalsodapronúnciaedasintaxeregionais,em
favordeumasíntesefelizdocultoedopopular.
192
AriquezadosdiálogosdeRacheldeQueirozestápresenteemtodososseuslivros;
muitassituaçõesdarealidadesertanejasãotranspostas,comprecisãoecoerência,
ao plano literário, com um interessante aproveitamento das formas de oralidade.
Suas narrações são simples, sem a preocupação com a fala culta e limpa. Sua
prosaétecidacomelementosdaoralidade,do
causo
,umatradiçãooralmuitousada
noBrasil,cujaliteraturatemumgostoespecialpelomitoepelocontopopular.
Essa escrita enxuta e lida de Rachel de Queiroz, presente em todos os seus
romances, pode ser observada na forma como constrói o foco narrativo de suas
obras; como já mencionado, a escritora, ao longo de suas obras foi sendo
caracterizadacomoportavozdaspersonagensfemininas;sãopoucasasobrasdela
quepriorizaramaexpressãodatemáticaedopontodevistamasculinos,e,mesmo
nesses casos, a escritora procurou dar um certo destaque às personagens
femininas.
Nogeral,ashistóriassãocentradasempersonagensfemininas,opontocentralem
tornodo qual ahistóriaacontece.Aindaqueem
Memorial deMariaMoura
vemos
tamm vozes masculinas cruzadas com as femininas, todas elas servem para
configurar a existência de Maria Moura; ela necessitava desses elementos, pois
tratasedeumaobrafocadaquaseinteiramentenela.
É preciso tamm considerar que a escolha da narração em primeira pessoa foi
extremamenteadequada,levandoemconsideraçãooprojetodeRacheldeQueiroz
de construir personagens protagonistas femininas emancipadas. Nesse modo de
contar, a autora parece ter encontrado o melhor meio de explorar o universo
feminino,quetemamelhorrepresentaçãonaspersonagensGuta(
AstrêsMarias
),
192
QUEIROZ,Rachelde.Op.cit.p.1718.
Dôra (
Dôra, Doralina
) e Maria Moura, que, finalmente, completa o que as
protagonistasanteriores,decertaforma,ensaiaramfazer.
Há,noentanto,umdiferencialentreastrêspersonagenstantoGutaquantoDôra
partem em busca de um novo lugar, um espaço próprio, mas, depois de viverem
suasaventuras,retornamaopontoinicial.Diferentemente,MariaMouratravalutas
variadas, atingindo uma maturidade que a leva a abandonar a condição de
Sinhazinha e partir para a conquista do papel de chefe e grande líder de uma
verdadeira fortaleza;após conseguir essa nova condição, apossase de seu lugar
definitivamente.
Com relação ao narrador da história,
Memorial de Maria Moura
tem uma
configuraçãobastantediferenciadaemrelaçãoàmaioriadosromances:paranarrar
ahistóriaorganizadacombaseemumaintrigasedutora,imprimindoumritmoeuma
seqüência veloz e imprevisível dos acontecimentos, Rachel confere ao romance
umaestruturanarrativapolifônica,concedendoaosprincipaispersonagensaposse
dapalavraedasituaçãonoscapítulosemquesãonarradores.
Conforme considera França, a opção deusar esse recurso narrativo da polifonia,
transformandoemnarradorescincopersonagens,criaplanosnarrativosalternados,
decertamaneiraindependentes,poisemcadacapítuloháonomedopersonagem
narradorcomotítulo.
193
A alternância de narradores se dá através da seqüência dos capítulos, que vão
mostrando ao leitor, como num depoimento e sob seu ponto de vista, os
acontecimentosnarradoseainquietaçãopsicológicadospersonagens.Cadanova
etapa narrativa caracteriza a marca de mudança dos capítulos que a compõem,
sendoosacontecimentosenfocadospela subjetividadedoolhardecadanarrador.
Dessamaneira,aalternânciadevoznarrativaprovocamudançadecapítuloeserve
deindicadordaidentidadedonarradorpersonagem.
193
FRANÇA,IvoR.op.cit.p.5455.
Ahistóriacontadaporváriasvozesnarrativasem
MemorialdeMariaMoura
baseia
seemumtripédeacontecimentosqueseentrecruzamnodecorrerdanarrativaese
unememumaaçãodeidênticoplano,temporaleespacial,naCasaForte,destino
finaldaheroínaedequasetodosasoutraspersonagens.
EssetripééformadopelastrajetóriasdeMariaMoura,adoPadrenoinícioJosé
Maria, renomeado de Beato Romano  e a de Marialva, prima de Maria Moura.
EmboraosprimosdeMariaMoura,TonhoeIrineu,tammnarremumapequena
parte da história, os narradores que realmente compartilham com freqüência e
intensidadeofoconarrativodoromancesãoMariaMoura,oBeatoeMarialva.
O romance, dividido em quarenta e dois capítulos, tem como protagonista Maria
Moura,que,aonarrarvinte eumcapítulos,éacondutoradamaiorparte,na qual
contaseupercurso,avaliandosobseupontodevistaasperdaseconquistas;issoé
bem marcante, ainda que narradores do sexo masculino também assumam a
condução da história, como é caso da personagem do Beato Romano. Este é o
narradormaisimportante,depoisdeMariaMoura,seconsideradaaquantidadede
capítulosnosquaisassumeocomandodanarraçãodezcapítuloscomo“OBeato
Romano”eumcomo“OPadre”,emquecontasuastristesexperiências.
TambémosprimosdeMariaMouraMarialvaeseusirmãosTonhoeIrineutêm
pequenaparticipaçãocontandopartedahistória,narrandoseis,trêseumcapítulo,
respectivamente. Tonho e Irineu têm papel importante no início da narrativa, em
relação à prima, quando são responsáveis por forçar a decisão crucial de Maria
Moura depôr fogo em sua casa e abandonála; para Marialva, configuramse em
elemento pressionador, marcando sua trajetória, desde a condição de mulher
subjugadaatéafugadas
MariasPretas
,propriedadedostrêsirmãos.
Adisposiçãodoscapítulosdoromancedeterminaumaseqüêncianarrativaapartir
de espaços e tempos diferentes, considerandose a ordem cronológica, a
perspectivaeoaprofundamentodecadanarrador.Ariquezanarrativaapresentada
poressavariedadedenarradorespossibilitaaoleitorconduziraleituradasrelações
estabelecidasentreospersonagensapartirdavisãoquecadaumdelestemdesi
mesmoedoqueaconteceàsuavolta.
Assim,asprincipaispersonagenssãoconhecidaspelavozidentificadaepelavisão
quecadaumaexpressaarespeitodasoutrasenquantonarradora.Paraisso,Rachel
utilizasedaestratégiadeconstruçãonarrativaemque algunsacontecimentossão
contadospormaisdeumnarrador,deacordocomavisãodecadaum,gerandoa
repetição de alguns fatos da história, ainda que com dimensões e importância
narrativadiferenciadas.
Essaidentidadedenarradorepersonagem,presenteempartedaficçãodeRachel,
diferenciaascnicasdaescritora,nivelandoaàstécnicasnarrativasutilizadaspor
vários romancistas da vanguarda do modernismo e da atualidade. Esse recurso
narrativoofereceaoleitorváriasfocalizaçõesdefatosepersonagens,permitindolhe
formarsuaprópriaopiniãosobreosfatosnarrados.
Éimportanteconsiderar,ainda,queessaparticularidadedeaspersonagensserem
chamadas a construir a narrativa harmonizase com a leitura do romance, sob a
perspectivadeumtestemunho,comose otempotodoaspersonagensnarradoras
fossemchamadasacontaracontecimentosjáocorridos.Issoécaracterísticoematé
mais de metade da narrativa, sobremaneira nas narrações de Maria Moura e do
BeatoRomano.
Oleitoracompanhaaseqüênciadahistóriapelotítulodecadacapítulo,identificado
pelo nome da personagem que o narra e relata, de maneira parcial e alternada,
comoseaautorasedesincumbissedequalquerresponsabilidadesobreosatose
pensamentosdesuascriaturas”,cabendoaonarradoropapelexplícitodeemissor
doromance.Usandoaprimeirapessoa,éapartirdesimesmoquecadanarradorvê
asoutraspersonagensedáseqüênciaàhistória.
Percebesequeessaestrutura,alémdeenriquecerosconteúdosdanarrativacom
novassituaçõesepossibilidades,dámaisdinamismoaoromance,aomesmotempo
em que impede que o curso da história seja conduzido exclusivamente pela
onisciênciadanarradoraprincipal,comoacontececomoutrosromances.
Ascincopersonagensqueconduzemanarraçãodesempenhamimportantespapéis
noromance.OBeatoRomanoéumagregadoelíderespiritualdobandodeMaria
Moura,enquantoosoutrossãoparentes,entreelesosdoisprimosquedisputama
herançafamiliar–asterrasdoavô,osantagonistasTonhoeIrineu,quequerem
tomartambémasterrasdoLimoeiro,ocupadaspelopaideMariaMoura,masque
pertenceriam,pordireito,atodososprimos.
Quando o pai de Maria Moura falece, eles decidem tomar posse das terras, pois
julgamestaremseudireito.Planejamentãoapropriarsedelaseaindacasaraprima
comIrineu,mastêmumasurpresaaoencontrarnãomaisagarotadesprotegidaque
haviamconhecidoemoutrostempos,masumamulherbatalhadora,ousadaepronta
alutarpeloqueéseu.Comoresultadodeumareaçãoinesperada,surgeassima
personagem atrevida e ousada, que de maneira grandiosa abandona sua casa,
partindoparaumanovaecorajosaconquista–asterrasdeixadasporseuavô.
Aquintapersonagemanarrarpartedahistória,mascomparticipaçãosecundária,é
Marialva, que não se envolve diretamente na disputa pelas terras. Ela é Irmã de
IrineueTonho;muitomaltratadapelacunhadaFirma, mulherdeTonho,consegue
apoio apenas do meioirmão Duarte – o único que a compreende e que não
concorda com o plano de tomar as terras do Limoeiro. Marialva chega a ser
trancafiadaemcasa,poisseusirmãosreceiamqueelapossasecasareexigirsua
partenosbensdafamília,podendoaindaterdescendentesherdeiros:
Comoouro sesonha,éo queelesdizem. Mas a terra é viva, está
fervilhandodebaixo dosnossospés. Quanto sangue corrido, quanta
moçaemparedadapranão casar,ficar solteirona, moçavelhaenão
dividir as heranças! Visse o que acontecia comigo: bastou me ouvir
falar no Valentim, a Firma tomou fogo na patrona. Ralhou que
espumava,sóporqueeutinhadadotrelaaessesujeitoadiantado,a
um tocador de rabeca, veja só! E com essa pabulagem de ser
saltimbanco,aindaporcima!
194
AatribuiçãodenarradoraaMarialva,emborasejapersonagemsecundária,devese
possivelmente ao fato de ter uma personalidade exatamente oposta à de Maria
Moura.AexemplodeMoura,Marialvatambémlargatudo–famíliaeseudireitode
herança,mas por amor, para fugir com Valentim, seu amado. Diferentemente das
outras personagens femininas de Rachel de Queiroz, Marialva opta por uma vida
errante – seu marido e a família são artistas de circo e vivem de espetáculos
mambembes;poramoraValentim,elasedispõe,inclusive,afazerpartedogrupo.
AtrajetóriadeMarialvaéplana–desdeque elavêValentima primeiravez,jáse
sabe que ela ficará com ele – casamse e ela passa a ser sua assistente nos
númerosdocirco,mesmoqueapavoradacomanovafunçãodeValentim–atirador
defacas.
Emboraelaeomarido,acertaalturadahistória,passemaviverna CasaFortee
compartilhem a história com Maria Moura, a personagem de Marialva tem uma
trajetóriadevidaeobjetivosdiferentes–enquantoestaétotalmentedependentee
submissaaomaridoenãodesejaapossedeterrasnempoder,aquelanemquerter
marido.MariaMouraadmirasedessadedicação:
Eunãomecansavadeveroatiradordefacatrabalhando.Epensava
comigoquenuncanomundoseriacapazdecolocaraminhavidana
mãodeoutrapessoaemepostarcomoalvo,encostadaàquelatábua,
comoMarialvamedissequeeraapartedelanafunção.
195
Beato Romano, inicialmente Padre José Maria, personagem de grande peso no
romance,éonarradorescolhidoparacomeçaracontarahistória.Umdospoucos
personagens masculinos, participa bastante da trama sem representar perigos ou
entravesaosplanosdeMariaMoura.Possuiumahistóriaprópria,massecundáriae
paralela àdaheroína,jáque receberaaconfissãodeumcrime que ela pretendia
cometer,antesde acontecer,tornandose umaespéciede cúmplice embora sob
segredodeconfissão,oqueprovavelmentealevaadarlhe,emtroca,proteçãona
CasaForte,um longotempo depois. Édessaépoca o apelido deBeato Romano,
dadoporMoura.
194
QUEIROZ,Rachelde.Op.cit.,p.91.
195
QUEIROZ,Rachelde.Op.cit.,p.391.
O Beato tem uma trajetória marcada por uma seqüência de transgressões, em
decorrênciadetertido,naépocaemqueeraoPadreJoséMaria,párocodeVargem
da Cruz, um relacionamento amoroso com dona Bela, uma mulher casada que
freqüentava sua paróquia; tendo engravidado, ela refugiase em uma fazenda
próxima da pequena vila. Quando Anacleto, o marido dela, descobre o caso
amoroso,vaiatrásdelaeaassassina.Aotentarsalvála,opadretambémassassina
omaridoefoge,passandoalevarumavidaerrante,seescondendodurantegrande
partedahistória,atéqueMariaMouraoacolheemsuafortaleza.
ApósinstalarsenaCasa Forte, passaporum período tranqüilo, pois selibera da
opressãodeviveremfuga,sobsuspeitaconstante,tornandoseumafigurapopular.
Tanto o Beato Romano como Marialva são personagens que se encarregam, de
certaforma,detammnarraraoleitorfatosrelacionadosàtrama.
Aestruturapolifônicadoromancefazcomqueoscinconarradoresemummomento
ououtrocontemosmesmosfatos;comoosnarradoresestãointimamenteligadosa
MariaMoura,deumaformaoudeoutra,àsvezesalgumfatotornaserepetitivo.É
interessante,poisoleitorconsegueperceberquecadaumdoscinconarradorestem
oseuestilocaracterístico,seumodoprópriodecontarahistória.
Outro pontoimportanteasalientaré queoleitorpodeacompanhar o processo de
amadurecimento de Maria Moura, desde a saída com o bando de sua casa no
LimoeiroatéadistanteSerradosPadres,comasdificuldadesprópriasdessetipode
viagem,acavalo,pilhandoospassantesedescansandoondepodiam,emconstante
fuga,devidoàperseguiçãodosprimos.Suatrajetóriaatéachegadanasterrasque
tantoalmejaedasquaisajovemseapropria,pordireitodeherança,vaimostrando
poucoapoucoaconstruçãodaguerreiraMariaMoura;duranteessacaminhada,ela
sedeparacomtodotipodebarreirasevaiaprendendoasuperartodasdemaneira
ousada,destemida.
Nos capítulos seguintes desta dissertação, serão desenvolvidas reflexões sobre a
narrativa ficcional televisual, especialmente a minissérie, para contextualizar sua
importânciaecontribuiçãoparaaqualidadedatelevisãobrasileira;ateledramaturgia
tem sido um meio eficiente de levar ao grande blico adaptações de excelentes
exemplaresdaliteraturabrasileira,como,nestecasoespecífico,olivrodeRachelde
Queiroz,provavelmenteomaisimportante,o
MemorialdeMariaMoura.
3 TELEVISÃOELITERATURA–ABUSCADAQUALIDADENA
DIVULGAÇÃODAARTELITERÁRIAPORMEIODAMÍDIA
Ao longo de sua história, o homem, por razões até de sobrevivência, sentiu a
necessidadedesecomunicar–trocariiaseexperiências,partilhandoascomos
seus semelhantes. A partir de um período relativamente recente, apareceram os
meiosdecomunicaçãodemassa,tambémdesignadosde
massmedia
oumídia,
termomaisusadorecentementequeenglobam,entreoutros,ocinema,atelevisão,
orádio,aimprensae,maisrecentemente,aInternet.
Esses meios, além de serem um produto da história, atualmente têm seu papel
muitopróprionaformaçãodela,jáquese tornaramparteintegrantedavidadiária
das pessoas, tanto sob a perspectiva individual quanto a coletiva, por seu
extraordinárioerápidopoderdepenetraçãoemtodososestratossociais.
3.1 Abuscadaqualidadenatelevisão
NopósguerradoséculoXX,atelevisãoiniciouumagranderevoluçãonaáreada
comunicação, transformando simultaneamente os conceitos de diversão, lazer,
aventura.“Assistirà televisão é umhábitoligado a fatosmuito antigos na história
das sociedades humanas”, afirma Marcondes Filho. Um deles é o prazer que o
homem sente em olhar objetos, cenas, a natureza e buscar satisfação, distração,
conhecimento.
196
Desde seu advento, a televisão vem se aprimorando continuamente, tanto em
termosderecursosparaproduçãoquantodeequipamentostécnicosdemontageme
de transmissão. Fadul informa, sobre esse fenômeno, que a aceleração do
desenvolvimento tecnológico, a cada dia que passa, “introduz novas formas de
196
MARCONDESFILHO,Ciro.
Televisão
.SãoPaulo:Scipione,1994,p.9.
comunicação,taiscomo:atelevisãoacabo,ousodossatélites,ovideocassete,a
televisãodealtadefiniçãoeadigital,oCD
,
oDVD”.
197
Esse verdadeiro fascínio que a televisão exerce sobre as pessoas tem várias
explicações;segundooanalistaBiriukov,éumsistemaqueafetasimultaneamente
doissentidosaaudiçãoeavisão,diferentementedorádioedaimprensaescrita;
possuiumatremendavelocidadedepropagaçãodanotícia,quesóorádioconsegue
acompanhar; a cobertura de transmissão é gigantesca, geralmente bem maior do
queadorádioeadaimprensa;dispensaintermediáriosaocontráriodaimprensa,
que depende da distribuição, do filme, que precisa do cinema e da peça, que
necessitadoteatro;finalmente,oimpactosobreopúblicoédiretoeimediato,jáque
ofatoéapresentadonascores,nomodoenomomentoprecisoemqueocorre.
198
Como consideram Miranda e Pereira, ao acionar o botão que liga o aparelho de
televisão,otelespectadordeparasecomimagensesonsemseqüênciasobreuma
tela, configurando um texto “cujo sentido vai aos poucos sendo construído numa
relaçãoemqueaspersonagensestãomaisdiretaeexplicitamenteenvolvidas”.
199
Sua grande audiência se deve provavelmente ao simples fato de que o
telespectador pode assistir à televisão em sua casa, com todo o conforto, sem
necessidadedegrandeconhecimentodemundoouinstruçãoelevada.Alémdisso,
após um dia de trabalho,é possível ver, na pequenatela,lugares e pessoas que
nuncapoderiamservistosdeoutramaneira.
Além do mais, no caso do Brasil, a televisão vem acompanhando o avanço da
tecnologia no mundo todo; a sofisticação de suas produções nada fica a dever a
nenhumaoutra,emqualquerlugardo mundo. Háalgunsanos,oBrasiltornouse
conhecidono mundo inteiro pelateledramaturgia ficcional queproduz.O país tem
197
FADUL,Anamaria.SobrearecepçãocríticadosMCMnoBrasil.SãoPaulo:INTERCOM,1982.
Apud
MACHADOFILHO,Francisco.
Alinguagemficcionaldocinemanainternet
::ainteraçãoentreousuárioeo
computadornaperspectivadasteoriasdaEstéticadaRecepção.In:XXVIIICongressoBrasileirodeCiências
daComunicaçãoIntercom,2005,RiodeJaneiro.Disponívelem:
<www.intercom.org.br/papers/nacionais/2005/resumos/R05561>Acessoem15/08/07
198
BIRIUKOV,N.S.
AtelevisãonoOcidenteeassuasdoutrinas
.Trad.CostaSantos.Lisboa:Avante,1987,p.16.
199
MIRANDA,Ricardo;PEREIRA,CarlosAlbertoM.
Televisão–asimagenseossons
:noar,oBrasil.São
Paulo:Brasiliense,1983,p.17.
uma imagem respeitada em vários países, os quais vêm comprando diversas
produçõesnacionais,comdestaqueparaastelenovelas.
Comefeito,aficçãotelevisualpassaporumafasemuitocriativa,nestanovaépoca
de prazere otimismo ligado aosvalorese comportamentos por ela disseminados;
apesar das grandes dificuldades, as pessoas dedicamse a muitos divertimentos,
incluindo a possibilidade de assistir às narrativas transmitidas pela televisão,
filmadasapartirdehistóriasreaisouficcionais.
Paraesseentretenimento,podemcontarcomosmodernosrecursosdeproduçãodo
cinema e, mais recentemente, tamm das emissoras de televisão, que possuem
equipamentosconcebidossegundomodernastecnologias;osequipamentos, muito
similares aos recursos usados nas melhores produções cinematográficas,
possibilitamumaqualidadedefilmagemimpecável,demaneira que,guardadasas
devidasproporções,otelespectadoratualmentepodeusufruiremsuaprópriacasa
dos efeitos especiais e outros formatos usados pelo cinema, recursos esses que
eramantesdeusoexclusivodasgrandesprodutorascinematográficas.
Esses recursos vêm sendo usados pela televisão não apenas na produção de
minisséries,mastammemalgumasnovelas;éocasodarecentemontagemda
novela
SinháMoça
(2006),transmitidapelaRedeGlobo,produzidacomessanova
tecnologia,portanto,apresentadaemformatodefilmeenãodevideoteipe.
Notase que, embora a televisãotenhasurgido bemdepoisdo cinema, em pouco
tempoasemissorasprocuraramapropriarsedosmelhoresrecursosdisponibilizados
para a realização de suas montagens, a fim de assemelhar sua qualidade à das
filmagenscinematográficas.
Essa busca de um alto padrão de qualidade devese tanto à necessidade de
equipararse ao nível de especialização das produtoras cinematográficas, quanto
paraganhara“guerra”pelabuscadeaudiência.Comesseobjetivo,asemissorasde
televisão adquirem e apresentam constantemente filmes cinematográficos
destacados junto ao grande público, já que há um grande número de
telespectadoresqueapreciamassistir afilmes, mesmo que em uma tela menor, o
quevemconfirmaressaafinidadedatelevisãocomocinema;entreoscanaispagos,
por exemplo, há alguns deles cuja programação é inteiramente voltada a filmes,
havendo até um canal específico para cada gênero de filme – ação, drama,
comédia,aventuraeoutros.
Notase,portanto,comoconsideraoexperientedramaturgoeroteiristadecinemae
televisão no Brasil e no exterior Doc Comparato, que as noções de cinema e
televisão confundemse; [...] a tela de televisão converteuse na maior sala de
projeçãodecinema;[...]passamnatelevisão,emcadaano,milharesdefilmesque
foramfeitosparaocinema”.
200
Dessa maneira, é importante lembrar que os recursos usados para fazer as
minisséries televisuais passaram a ter recentemente uma íntima ligação com a
produçãodosfilmescinematográficos,jáqueambosossegmentosmtendocada
vez mais semelhanças, principalmente no uso dos equipamentos e tecnologias;
assim sendo, é importante recuperar algumas considerações sobre a narrativa
filmada,paramelhorentenderatelevisual.
3.2Anarrativaficcionalliteráriaeanarrativafilmada
No gêneronarrativoliterário, o romance é a modalidade mais empregada; nela a
visão de mundo do autor se manifesta por meio dos fortes conflitos entre as
personagens.Asnarrativasemprosa,queconheceramumnotáveldesenvolvimento
desdeofinaldoséculoXVIII,sãotambémcomumentechamadasdenarrativasde
ficção  o romance narra fatos imaginários, mas verossímeis, e representam
aspectosvariadosdavidafamiliaresocialdohomem.
Essegostopelaartedenarrar,bastanteantigo,deveseaseupodersedutor,como
mostraumexemplobastanteconhecido,ocasodapersonagem
Sherazade
,das
Mil
e uma noites
, um clássico da literatura árabe escrito no final do século XIII (há
notíciasatédequeseusprimeirosmanuscritossejamdoséculoIX),cujatradução
maisconhecidafoifeitaepublicadaem1704,pelofrancêsJeanAntoineGalland.
Demodosemelhante,anarrativafilmada,sejadecinemaoudetelevisão,émuito
apreciadaporváriostiposdepúblico;defato,éatualmenteumdosmarcosdanossa
moderna e constantemente mutável civilização. Arte extremamente hábil, pois se
200
COMPARATO,Doc.op.cit.p.38.
baseiamaisnadescriçãodeacontecimentosemdetrimentodasdescriçõesverbais,
anarrativafílmicaapresentasecomoumrecursomidiáticoqueconquistou,aolongo
dasúltimasdécadas,pessoasdetodasasclassessociais,jáquetrazaosindivíduos
a possibilidade de satisfazer o fascínio pelas novas invenções tecnológicas, pelo
fantásticoepelamaneiracomosãoabordadososproblemasatuais.
Como informam Leone e Mourão, Lasswell considera que "os valores próprios de
uma sociedade são, de fato, reformulados e transmitidos pelos
media
de forma a
constituíremsecomoumaverdadeiraideologia".
201
Essegostogeneralizadojustificase,segundoBalogh,àmedidaque“todaatradição
das artes aponta para uma característica constante do ser humano: o gosto de
contarhistórias”.
202
Assim,afunçãonarrativadocinemaedatelevisãoseinsereem
umatradiçãomuitoantiga–adecontarhistórias.
Emrazãodesuacapacidadedeoferecerentretenimentoparapúblicosdegrandes
dimensões, tantoo cinema quanto a televisão vêm se projetando como meios de
comunicaçãodemassa;comoconsideraComparato,oquecaracterizaaculturade
massaéoseualcance,apossibilidadedechegara“umgrandenúmerodepessoas
ao mesmo tempo. [...] convertese num fenômeno cultural sem precedentes na
História. [...] A indústria audiovisual funciona, pois, como uma arte nova, com
implicaçõeséticaseideológicas,estéticasedialéticas”.
203
Tratandose de um fenômeno, devese considerar também outra interessante
característica da cultura de massa: os acontecimentos, tão logo se tornem
conhecidos por um grande número de indivíduos, desatualizamse no momento
seguinte. Essaduraçãotãoefêmeraconfigurasedemaneira diferenteem relação
às ficções narrativas televisuais: embora tenham a propriedade de atingir muitas
pessoas simultaneamente em pouco espaço de tempo, a “história” fictícia –
representaçãodoimaginário– o se desatualizaimediatamente; será substituída
por outra, após um período curto, mas suficiente para deixar “marcas” nos
espectadores.
201
LEONE,Eduardo;MOURÃO,MariaDora.
Cinemaemontagem
.2.ed.SãoPaulo:Ática,p.14.
202
BALOGH,AnnaMaria.Op.cit.,p.5253.
203
COMPARATO,Doc.Op.cit.p.40.
Isso sem contar que minisséries e filmes de boa qualidade continuam a ser
apreciados,mesmoapós muitotempodelançados:amaioria daspessoasguarda
na lembrança as suas produções preferidas, e continuam a assistilas em DVD,
mesmodepoisdetranscorridopoucooumuitotempodeseulançamento,podendo
fazêlosemprequedesejarem,graçasarecursostecnológicosdereproduçãocada
vezmaisavançadosepopularizados,portanto,aoalcancedetodos.
O sucesso das produções teledramatúrgicas provavelmente está ligado à sua
principalcaracterísticaanarrativafílmica.ComoconsideraBalogh,“apercepçãode
que a narrativa é fundamental para o sucesso nos meios massivos já vem do
cinema,oantecedentemaispróximodaTV”.
Diferentemente do cinema, a narrativa na ficção televisual é estruturada de modo
descontínuo,devidoàsinterrupçõespeloscomerciais;isso,entretanto,não resulta
emprejuízo,jáqueasestruturasdeformatomaisantigoadaptamseperfeitamente
aessafragmentação,“marcaprópriadomundocontemporâneo”.
204
A evolução tecnológica adotada pelo cinema e pela televisão vem ocorrendo há
poucasdécadas,maséimportantelembrarqueasmuitastentativasdesechegarao
que hoje conhecemos como filme tiveram seu início muito tempo atrás, mas há
somente cem anos surgiram os primeiros resultados consistentes dessa ânsia de
registrarosmovimentos.
Várias evidências mostram que, desde o início dos tempos, o homem sempre
desejou reproduziro movimento. Uma das possíveis demonstrações disso são os
desenhos encontrados nas cavernas de Altamira, na Espanha, onde um bisão
desenhado há provavelmente 12 mil anos apresenta oito patas como se o autor
tentassedecomporomovimento.
Entretanto,foipoucomaisdecemanos–1895queosirmãosLouiseAuguste
Lumière, franceses, inventaram o cinematógrafo, equipamento que possuía um
mecanismo de arrasto para a película, com o qual conseguiram projetar imagens
ampliadasnumatela.
204
BALOGH,AnnaMaria.,op.cit.p.52
Esse grande feito foi divulgado publicamente em uma apresentação de 28 de
dezembrode1895,noGrandCafédoBoulevarddesCapucines,emParis,emqueo
públicoviu,pelaprimeiravez,filmescomo
LaSortiedesouvriersdel'usineLumière
(AsaídadosoperáriosdafábricaLumière)e
L'Arrivéed'untrainengare
(Chegada
deumtremàestação),brevestestemunhosdavidacotidiana.
EmboraissotenhaocorridonaFrança,nãosepodedizerqueessainvençãotenha
acontecidoisoladamente:emoutrospaíses,anteriormenteaessagrandeinovação,
diversastentativasdereproduziromovimentovinhamsendofeitas.
Desdeentão,achamadasétimaartemudoumuito;muitaspessoasapaixonaramse
poressanovaexpressãoartísticaeaelasededicaram,trabalhandoparaquenovas
conquistas fossem logo implantadas em busca de melhor qualidade. A partir da
criaçãodocinema,inicialmenteasinovaçõesforamsurgindodevagar,mas,apartir
dasegundametadedoséculoXX,recursostecnológicosavançadosforamsurgindo
aumavelocidadeespantosa.
Durante essa trajetória de pouco mais de cem anos, inúmeras inovações
tecnológicas, aliadas a estudos específicos na área de linguagens deram às
atividades cinematográficas o formato que existe atualmente e certamente
continuaráapassarporgrandestransformações.Assim,abuscapelamelhorforma
de contar uma história, usando imagens, contribuiu para definir a linguagem
cinematográfica existente hoje uma caminhada gradativa, em que cada passo
seguintedependeudoqueforafeitoanteriormente.
Aoplanejarumprocessodecriaçãoaudiovisual,devesecomeçarpelaconcepção
danarrativa,dequalquertipoqueforaobra.Nessaetapadoprocesso,começama
atuarosprimeirosprofissionaisenvolvidosoautordaidéiaeoroteirista.Acriação
dahistóriae asuaadaptaçãoparaomeioaudiovisualconstituem alinhadeação
seguida até a obra final pelos profissionais que tomam uma idéia e a levam ao
públicoapósumaverdadeiramaratona.Tudoissoresultaemumahistóriainiciada
comumaidéiaque,pelotrabalhodoroteirista,foitransformadaemalgoconcretoa
serfilmado.
O espetáculo fílmico, incluindo a minissérie, portanto, possui essa característica
fundamental:suaconstruçãoocorrebemantesdoresultadofinal.Aovêlonatela,
sabesequetudoaquiloéasomadeumapreparaçãoderoteiro,asfilmagensea
ediçãofinal,queoespectadorjamaispoderámodificar.
Todoesseresultadoprovémdeumprocessochamadomontagem,queseconstitui
de três etapas distintas – a escritura do roteiro, a realização e a seleção e
organização dos planos. Como citam Leone e Mourão, todas essas etapas são
importantes,pois
éaharmoniaentreelasquepermitiráafluênciageraldofilmee,
conseqüentemente,anoçãodoritmodoespetáculo”.
205
Aidéiaqueorigemaumroteiropodesurgiraqualquerhoraelugar,emfunção
derazõesdiversas–acontecimentosdiários,textosliterários,avidadeumapessoa.
ComodizoroteiristaLewisHerman,apudComparato,asidéiaspodemoriginarse
de várias fontes: alguma lembrança ou experiência pessoal; alguma conversa ou
história ouvida;uma leitura de jornal, revista,livroou folheto; uma obra de ficção;
uma proposta encomendada e um tema específico. Por isso, é importante estar
atentoatudooqueaconteceàsuavolta.Comparatoacrescentaque“terumaidéia
éoprincípiodequalquerroteiro;nãochegaaserumaetapapropriamentedita,mas
éoiníciodoprocesso”.
206
ParaHowardeMabley,“umadastarefasmaisimportantesdeumroteiristaémanter
opúbliconaexpectativa,preocupadocomofuturo,naesperançadequeaconteça
isto,temerosodequeocorraaquilooutro”.
207
Essasváriasfontes–oempréstimodeartesemídiasdiferentespodemdarorigem
aumroteiro,possibilitandoinúmerasevariadashistóriasficcionais,resultandodisso
umagrandevariedadedegêneros,quetêmsidousadosnarealizaçãodeinúmeros
trabalhosinesquecíveisparaograndepúblico.
Entre os muitos recursos utilizados pelos roteiristas noinício do século XX, havia
vários deles ligados ao modelo baseado na produção em massa, obedecendo a
certa lógica do capitalismo industrial que atrairia pessoas que pagassem para
assistir a seus filmes. Sendo uma nova tecnologia, o cinema precisava emprestar
temas e convenções de artes mais tradicionais, como o teatro e a literatura, dos
205
LEONE,Eduardo;MOURÃO,MariaDora.Op.cit.,p.21.
206
COMPARATO,Doc
.
Op.cit
.,
p.26
207
HOWARD,David,MABLEY,Edward.Teoriaepráticadoroteiro.Trad.BethVieira.SãoPaulo:Globo,1996,p.
121.
quaisosestúdiosextraíamfórmulasvisandoosucessocomercialnasbilheteriasea
conquistadeumespaçonomercadocinematográfico.
Nãoobstanteserumexpedienteóbvioeinevitável,orecursoàliteratura,aodrama,
à ópera e mesmo à imprensa diária (como no caso do gênero de ngster), era
tammumatentativadeencontrarpreferênciasespecíficasdopúblicoconsumidor.
Tentavase,assim,oferecerumanarrativaquefossesimultaneamenterentável,que
entretivesse e fosse capaz de lidar com as ansiedades e conflitos sociais
enfrentadospelopúbliconoseudiaadia. Essastentativas ocasionaram a criação
deumagrandediversidadedegêneros,dequeosprodutores eroteiristasvêmse
utilizandocomtranqüilidadeparafazerdanarrativafílmicaaverdadeira“fábricade
ummundomitológico”.
Dessadiversidadedegêneros,algunsdosmaisutilizadosequemaisagradamao
público são: o documentário, um reflexo mais ou menos fiel da vida real; o filme
épicoedeaventuras, queaborda um mundo heróico deconflitos e combates, de
grandes cenários, nos quais predomina a ação; o filme de guerra que, em tom
patriótico oucrítico,geralmente apelaàviolência comoespetáculo e normalmente
temcomopanodefundoumaguerranotóriae,ainda,ofilmedeterror,queapelaa
sentimentos inspirados na fantasia e no medo, despertos por personagens
monstruososousobrenaturais,comofantasmas,bruxas,demôniosevampiros.
Há tamm o filme de ficção científica, inspirado em várias vertentes viagens
interplanetárias, experiências nucleares e especulões sobre mundos futuros,
usando efeitos especiais que superam a dramaturgia; o musical, em que
predominamasseqüênciascantadasoudançadas;acomédia,quepriorizaoenredo
com situações bemhumoradas e visa sobretudo despertar o riso; o filme político,
cujatemática,apolíticaexplícita, temsido usada comfreqüência; odramasocial,
queutilizaenredosdeconotaçãosocial;opolicialeode
gangsterismo
,quemostrao
submundomiserável,ondeseenvolvemcriminosos,gângsteres,ladrões,policiaise
detetivesparticulares.
Háaindaoutrosgêneros,comoomelodramaque,centradonaspaixõeshumanas,
realça o trágico e o dramático, desenvolvendo conflitos individuais; o filme de
propaganda, que divulga idéias sociais e políticas em defesa de determinada
ideologia;ofilmedeépoca,baseadoemumreferentesem base histórica,emseu
sentido amplo; o filme de animação, iniciado com os desenhos animados e, mais
recentemente,utilizandosofisticadosrecursosgráficosdecomputação.
Ogênerobiográfico,quecontaahistóriadepessoasquesedestacaramemalgum
segmento da história universal, também tem atraído um grande público quando
utilizado em montagens. Como exemplo de minisséries do gênero biográfico,
podemsecitarasseguintes,produzidaspelaRedeGlobo:
LampiãoeMariaBonita
(1982),
PadreCícero
(1984),
ChiquinhaGonzaga
(1999)e
JK
(2006).
Finalmente,um gênero fílmico que quase sempre agrada tanto ao grande público
espectador de cinema quanto o de televisão é o filme histórico, aquele que
apresentaumanarrativainspiradaemfatosreais,ocorridosemépocaspassadas.O
mesmo acontece com as ficções narrativas televisuais, telenovelas e minisséries,
queagradammuitoaograndepúblicoquandosebaseiamemregistroshistóricosou
roteirosdeépoca.
Desde um passado muito remoto, a história vem servindo de inspiração temática
para muitas formas de representação; o teatro grego, que atingiu seu esplendor
entreosséculosVeIVa.C.,jáseinspiravanessafonteparacriarsuasobras,seja
em forma de lendas, como as epopéias narradas por Homero, ou em forma de
produçõesteatrais,como,porexemplo,astragédiasdeÉsquiloouascomédiasde
Aristófanes.
Com o advento do cinema e da televisão, e sua imediata popularização junto ao
público, ambos se tornaram um eficiente meio de comunicação de massa e, por
contadessacaracterística, as temáticas históricas adquiriram contornosbem mais
abrangentes.Nãoéporacasoqueumnúmeroelevadodefilmes,séries,telenovelas
eminissériesproduzidosmundialmentepossuiumreferentehistóricoesserecurso
quasesempreagradabastanteaopúblicoemgeral.
Provavelmente,issosedeveaumfatomuitosimplesoespectadordecinemaou
detelevisão,quejátememseuimaginárioosfatoshistóricosreaisque conheceu
desde cedo, aprendendo nos livros e na escola, pode ver e identificar na
representação fílmica um personagem que participou ativamente daqueles
acontecimentos memoráveis. É a consolidação da trama imaginária que criamos
quando lemos a respeito de um acontecimento da vida real; as personagens
históricas passam a ter vida própria edesempenham, com corpo e alma, o papel
queestava,atéentão,registradoapenasnoslivros.
Alémdisso, a narrativa fílmica, seja para o cinema ou para a televisão, utiliza um
discurso sobre o passado baseado geralmente em fatos reais da História, de
maneira que o diretor, ao realizar a produção, assume a posição de historiador,
mesmoquesemorigormetodológicoquenormalmenteesseprofissionalutilizaria.
A grande função didática assumida por esse tipo de filme  para o cinema ou a
televisão , é o processo de difusão do saber histórico, possibilitando ao grande
público, muitas vezes, maior acesso aos fatos históricos por meio desse tipo de
narrativafílmica,doquepelaleituraeensinoescolar.
No entanto, esses filmes encontram uma grande reação negativa por parte do
públicodito"culto".Incluisenessepúblicoumaboaparceladoshistoriadores,que
enxergam nessas produções apenas um meio de vulgarização da história, sem
concordarqueelascontribuem,dealgumamaneira,paraodesenvolvimentodeuma
eficiente leitura dos fatos históricos, possibilitando a formação de conhecimento
científicoeconsciênciahistórica.
Aindaqueabordefatosreais,anarrativafílmicanuncaabandonaráasuacondição
derepresentaçãoe,portanto,dealgoque,nomáximo,apenasrepresentaoreale
que o coincide com este. Dessa forma, o que deve ser buscado em um "filme
histórico" não é a "verdade histórica" contida nele, mas a verossimilhança com o
fenômenohistóricoqueretrata.
Emvirtude da necessidade deaudiência, a tendência das preferências do grande
públicoespectadorcostumaserfielmenteobservadapelosroteiristasediretoresdo
cinema para a escolha do tema de seus filmes, mas, uma vez lançados, muitos
delessãoinfluenciadospelastramasapresentadasnasnarrativasfílmicas.
Éimportantesalientar,comojáafirmado,quenanarrativafílmicabaseadaemfatos
históricosnãodeveserbuscadaa"verdadehistóricaobjetiva":oprocessoinventivo,
muitasvezes,nãoseopõeaumsentidohistóricocoerenteeconstrutivo.Ademais,
do ponto de vista do espectador, no cinema, ou do telespectador, no caso da
televisão, seu sentido não deve ser procurado apenas nos fatos, mas e
principalmentenoargumentoglobal.
Porisso,cadanarrativafilmadapode,perfeitamente,conteremsisentidosdiversos
e mesmo conflitantes, coincidindo com a História em mais um aspecto: a sua
capacidadedeproduzirsentido.
Nocasodasnarrativasfílmicastelevisuais,especialmenteasminisséries,hámuitos
exemplos de produções baseadas em fatos históricos que tiveram seu roteiro
montado segundo um olhar sobre a história sim, mas direcionado para o
entretenimento do telespectador, embora traga subjacente a informação sobre os
fatos. Algumas dessas prodões que podem ser lembradas são as seguintes,
produzidas pela Rede Globo:
Lampião e Maria Bonita
(1982),
Anos Dourados
(
1986),
Agosto(
1993),
AMuralha(
2000),
Oquintodosinfernos
(2002
),Acasadas
setemuralhas(
2003
),Umsócoração
(2004),
JK
(2006
).
3.2.1 Elementosdeconstruçãodasnarrativasliteráriaefílmica
Oromanceéconfiguradogeralmenteapartirdeelementosque,reunidos,compõem
uma história, usando o recurso narrativo por excelência. Como considera Moisés,
todos esses recursos “podem não aparecer estanques, mas confundidos,
entrelaçados”,
208
comoobjetivoessencialdaficçãonarrativacontarumahistória,
representar algo imaginário. Esses elementos básicos utilizados para compor o
romance–otempo,oespaçoeaspersonagens–sãoanalisadosadiante.
Porsuavez,todaarteé,antesdetudo,umamaneiradepercepção,que, quando
expressada por meio da visão e da audição, traduz conceitos artificiais que
geralmente resultam em espetáculo, entretenimento. A narrativa fílmica, seja no
cinema ou na televisão, entre os vários setores da arte contemporânea, é o que
maisestáligadoaoespetáculo;nasuamaispuraacepção,filmeé espetáculo,no
sentidodechamaraatenção,atraireprenderoolhar.
208
MOISÉS,Massaud.Op.cit.,p.115.
Otextofílmicoéaindaculturaeentretenimento,podendoproporcionarespetáculos
de rara emoção e beleza; é uma narrativa que se distingue da ficção criada por
outras linguagens artísticas. Pela sua espantosa capacidade de reproduzir o
movimento,otempoeosom,anarrativafílmicaproduzumaimpressãoderealidade
em grausuperior aodasdemaisartesdarepresentação. Apesar daextraordinária
riquezaperceptivaqueodistingue,otextofílmicoétamm,comoelas,umaarteda
ilusão.
O objetivo essencial da ficção narrativa é contar uma história, representar algo
imaginário. No caso da filmagem, é facilmente perceptível até uma dupla
representação: em primeiro lugar, por aquilo que representa (a história fictícia) e,
depois, pela
forma
como representa essa ficção (através da projeção do filme
propriamentedito).
ComoconsideraCosta,anarrativaéumamaneiraderealizaredeexpressarnossa
temporalidade, tornandoa tão objetiva quanto a certeza de nossa finitude e
transitoriedade. [...] São essenciais para “a construção da identidade, tanto a
individualcomoacoletiva,pois,apartirdasconsideraçõesfeitas,serparaohomem
éterumahistória,éintegrarduraçõesetemporalidades”.
209
Assim,oprincipalobjetivodanarrativaéadisposiçãoseqüencialdosfatosdentrode
uma ordemqueéprópriadela– a darealidadepertencea outra dimensão e não
interessaànarrativaficcional.ComoexplicaAguiareSilva,algunsautoresGérard
Genette,EtienneSouriau,TerenceParsons,entreoutroschamamessadisposição
seqüencialdediegese,assimentendidacomoasucessãodeeventostransmitidos
porumtextonarrativo.
210
Apartefinaldaseqüênciatemporaledecomotudoeventualmenteserevelaouse
resolve – é que determina qual o evento que a iniciou; o final de uma seqüência
narrativaindicaquandoasaçõesiniciaram.Otelespectador,nocasodaminissérie
televisual,voltanotempodanarrativaparaacharascausas de umfato, umavez
quejáconheceoseuefeito.
Para configurar a diegese  a seqüência básica da narrativa , são necessários
“eventos que, na sua sucessão temporal e causal e nas suas correlações,
209
COSTA,MariaCristinaCastilho.Op.cit.p.41.
configuram uma história com `uma finalidade e um fim´”, como informa Aguiar e
Silva;constituemadiegeseaindaoutroselementosquefazempartedatramaesão
indicadosnoroteiro.
Esseselementosdevemserusadosconjuntamentenafilmagemparaocinemaou
paraaminissérietelevisual,comtalnitidezedeumaformatalquenenhumaoutra
linguagemécapazdecriar.Entreeles,deacordocomAguiareSilva,podesecitar,
inicialmente, “as personagens, os objetos, um universo espacial e um universo
temporal”,
211
quesãoanalisadosadiantecommaisprofundidade.
Apartirdesseselementosbásicos–otempo,oespaçoeaspersonagens,advêm
outros,deles derivados, comooenredo, quepodebasearseem várias fontes; os
recursosnarrativos,comoodiálogo,adescrição,anarraçãoeadissertação;atrilha
sonora,que usanão sóa música, mas sonsem geral, a falae,até, o silêncio; a
iluminação,valendosedojogocriadoentrealuzeasombraeamontagem,pela
qualarealidadeéeditada.
Todosesseselementosfornecemaçõesqueseconfundememummesmoprocesso
– o de fazer emergir pressentimentos e atribuir sentidos ao que se desenrola nas
telas,nessalinguagemdarealidadeusadapelocinema,feitadeimagensesons.A
linguagemaudiovisual,alémdemovimentoecor,écompostademuitoselementose
muitasnuanças,geralmentesintetizadosemumanarrativa.
Os elementos que compõem a narrativa fílmica, seja no cinema ou na televisão,
retratam um pouco da vida de todos os admiradores dessa grande arte que é o
cinema. Assim, ver um texto fílmico, mesmo que seja banal, pode ser uma
experiênciaprofundamentehumana.
Como o cinema e a televisão são a expressão da arte em movimento, dirigida a
grandespúblicos,semprérequisitos,sualinguagememgeralpermitequequalquer
pessoapossa,rápidaeminimamente,compreenderumfilme,aindaquealínguado
cinema exija estudos talvez muito mais profundos e complexos do que a língua
escrita. Contar histórias emimagens e sons é parte do modo de viver do homem
contemporâneo.
210
AGUIARESILVA,VítorM.de.Op.cit.p.266267.
211
Idem,p.281
Omundoatualpriorizaasimagens,matériaprimadocinemaedatelevisão;todas
ashistórias,mesmoasmaisantigas,contadasemfilme,trazemnelasaquelecerto
gostodeatualidadequelhesconfereofatodeemergirdastelas,sempredenovoe
pelaprimeiravez.
Isso cria uma estreita relação de comunicação entre o filme e o espectador  ou
telespectador,nocasodatelevisãoeéaestequeofilmesedirige,nãosóatravés
da linguagem verbal, mas também pelalinguagem visual e sonora. A obra fílmica
deve essencialmente cativar seu receptor, pois depende dele  alguém que se
dispõe a sentarse numa poltrona por horas para interpretar e depreender sua
significação.
Anarrativafílmicacriousuapróprialinguagemesefirmoucomoaartedoséc.XX–
aartedohomemmoderno;demodosemelhante,atelevisãoincorporouocinemae
ampliou suaspossibilidadesdeinteraçãocom o receptor. É possível afirmar, sem
medodeerrar, quenenhummeioartístico,atualmente,refletetãoclaramenteeste
homem e sua compreensão estética de ver o mundo. Em função disso, várias
tecnologiasestãotransformandoamaneiradecomporvisualmenteumtextofílmico.
Comonãopoderiadeixardeser,tammotipodelinguagemusadanaconstrução
do texto fílmico é decisivo para a construção da realidade que o autor quer
transmitir.ComocitaLeone,anarrativateráocontornoqueamontagemdefinir:
“Ofilme,enquantodiscurso,temcomocaracterísticafundamentalsua
natureza heterogênea. Ele se constrói pela incidência de várias
texturas, cujas unidades, previamente selecionadas, ose
concatenando através da montagem e abrindo espaço para a
manifestaçãodanarrativa.”
212
Paraamontagemdatrama,anarrativafílmicaprecisavalersederecursoscomoa
poesia, a alegoria e tambémdados da realidade. Além disso, utilizase ainda dos
elementosbásicos–otempo,oespaçoeaspersonagens.
3.2.1.1 Otempo
212
LEONE,Eduardo;MOURÃO,MariaD.op.cit.,p.13.
O tempo é um elemento estrutural no universo da narrativa por sua natureza,
necessita deuma marcação para delinear a sucessãodos fatos. Como considera
AguiareSilva,otempoéoelementonorteadordatrama,[...]adiegese,tempodo
significado narrativo, como sucessão de eventos, comportando um `antes´, um
`agora´eum`depois´,eéinconcebívelforadofluxodotempo”.
213
Asnarrativasfílmicastêmbem menosrecursostemporaisdoquealiteratura,que,
ao utilizarse da língua, consegue nuanças temporais bem mais precisas, só
possibilitadas pelo uso dos tempos verbais. Em contrapartida, a narrativa fílmica,
como considera Balogh, “só dispõe das três temporalidades básicas: presente,
passadoefuturo”.
Paramelhoradministraressastemporalidadesesupriradificuldadeemexpressara
variação do tempo, notase no discurso audiovisual tamm o uso freqüente da
elipse  o ato de saltar períodos de tempo , pela necessidade de “se cortar
acontecimentos da seqüência temporal e deixálos pressupostos ou
subentendidos”.
214
Otemponanarrativalmicatelevisualdevesercompreendidono seu transcorrer,
nasuaduraçãoeemsuasvariáveisquecausam,inúmerasvezes,estranhamento
aos espectadores, já que cada filme cria um tempo que transcorre de maneira
própriaeparticular.ComoexplicaMoisés,aindicaçãotemporalédadapelo“próprio
fluirdanarrativa”:
Naverdade,éparaelequeconfluemtodososintegrantesdamassa
ficcional,desdeoenredoatéalinguagem:dirseiaqueofimúltimo,
conscienteou não, de qualquer narrador consiste em criar o tempo.
[...] criando o tempo, o homem nutre a sensação de superar a
brevidadedaexistência,ede identificarse,demiurgicamente, com o
tempocósmico,quepermaneceparasempre,indiferenteàfinitudeda
vida humana; gerando o tempo, o ficcionista alimenta a ilusão de
imobilizálooutranscendêlo.
215
A narrativa fílmica é construída a partir de “três tipos de tempo: o tempo real, o
tempofílmicoeamolduratemporal”,comoexplicamHowardeMabley.Otemporeal
refereseaotempoqueumaaçãolevaparasecompletar;otempofílmicoéoprazo
213
AGUIARESILVA,VitorM.op.cit.p.283.
214
BALOGH,AnnaMaria.,op.cit.p.75.
215
MOISÉS,Massaud.
Dicionáriodetermosliterários
.2.ed.(rev.)SãoPaulo:Cultrix,1978,p.101.
queselevaparamostrar,emtomadas,aaçãoaopúblicoeamolduratemporaléo
prazodeconclusãodeumaaçãoqueoexpectadorécapazdeantecipar.
216
Muitas cenas transcorrem em tempo real, ou seja, duram o mesmo que levariam
parasercompletadasforadafilmagem;váriasvezes,entretanto,utilizaseorecurso
da elipse, saltando para o final da cena, até para não impacientar o blico
mostrando acontecimentosdesnecessários; detalhesinsignificantes dasações das
personagens,quandomostradosemexcesso,tornamseenfadonhos.
No tocante à produção televisual, Comparato explica que é importante tamm
considerar o que chama de tempo dramático, isto é, o tempo que uma ação
dramáticalevaparasedesenvolver,podendoser“lento,rápido,ágil,etc.”
217
Leone
e Mourão justificam esse procedimento, concordando que “o tempo narrativo,
conhecidocomotempodiegético,estáligadoàarticulaçãoseqüencialdoespetáculo
fílmico”,
218
acrescentandoqueaelipseeocortedascenasdevemservirderecurso
paraatribuirumamelhorinteligibilidadeàrepresentação.
No caso específico da novela, éimportante tentar tornar verossímil uma situação,
principalmenteemrelaçãoaotempo,afimdeseaproximaraomáximodarealidade
dotelespectador.Paraisso,utilizaalgunsartifíciosexpressivos,comoinformaAguiar
eSilva,porexemplo,mudançasdeluminosidade(aluzseacendeparaindicarque
odiadesponta,apagaseparaindicarocairdocrepúsculo,etc.)”.
219
Esseprocedimentoserveparamostrarquetudoaquiloqueécolocadonatelapode
ser reconhecido como um relato da história individual ou coletiva dos
telespectadores,pois o basta que os eventos estejam registrados na ordem de
suaocorrênciaoriginal.Comisso,ofatodequeelespodemserregistradosdeuma
formadiferente,numaordemdenarrativa,équeosfaz,porumlado,questionáveis
quantoàsuaautenticidadee,poroutro,susceptíveisdeseremconsideradoscomo
índicederealidade.
Assim, a produção televisual preocupase com a cronologia mimética da
temporalidade cotidiana do telespectador: as mesmas datas festivas,
comemorações, férias, [...] a representação do dia, da noite, do crepúsculo, das
216
HOWARD,David,MABLEY,Edward.Op.cit.,p.66.
217
COMPARATO,Doc.op.cit.,p.26.
218
LEONE,Eduardo;MOURÃO,Maria.op.cit.,p.15
219
AGUIARESILVA,VitorM.op.cit.p.283.
estações do ano como demarcadores temporais”, como analisa Balogh. A autora
enfatiza que no discurso audiovisual não dispõe dos mesmos recursos que a
literaturaparaindicaratemporalidade, umavezque“só dispõedo
flashback
e do
flashforward
paraindicarasdiferençastemporaisemseqüênciasanacrônicas”.
220
Portanto,nasproduçõestelevisuais,aspassagensdetempoocorremnointeriordo
capítulo; como explica Pallottini, “se forem apenas de minutos ou de horas nem
sequersãoindicadas.Emergemdaação,dofluxodosacontecimentoseassimsão
recebidas”.
221
Umprocedimentomuitousadosãooscortesalternadosdeumacenaparaoutra,de
modoqueotelespectadorconstruadeacordocomseuimagináriooquepossater
acontecido entre o corte e a volta à mesma cena. O roteirista Comparato chama
esse procedimentode
discurso entrecortado;
como a montagem já é previamente
estudada e planejada, as minisséries televisuais são divididas em capítulos, de
maneira que a ação e o ritmo são em função dessas pausas”. Para prender a
atenção do telespectador, é necessário tomar esse cuidado com os
breaks
; o
discursodeve“serconstruídodeformaamanter,antesedepoisdainterrupçãopara
apublicidade,omesmograudeatençãodopúblicotelespectador”.
222
ComoinformaPallottini,geralmenteosautoresprovidenciamumaaçãoimaginária
para cobrir o tempo que intermedeia uma cena e outra, mas casos em que o
autornãoquerteressetrabalho”.
223
Dessa forma, compreender uma narrativa fílmica no cinema ou na televisão é
tamm compreender o tempo no seu transcorrer, na sua duração que, muitas
vezes,sedesvinculadotempofísicodaprojeção.Otempo,notextofílmico,vaialém
das palavras ditas pelas personagens, não se restringe ao descrito pela ação da
câmera.
Na verdade, a narrativa ficcional televisual fundamentase mais em verdades
universais do que na História, ou seja, preocupase muito mais com o que
usualmenteacontecedoquecomaquiloquedefatoaconteceuequenãopodeser
explicadopelareferênciaaleisgerais.
220
BALOGH,AnnaM.,op.cit..p.77.
221
PALLOTTINI,Renata.
Dramaturgiadetelevisão
.SãoPaulo:Moderna,1998,p.136.
222
COMPARATO,Doc.Op.cit.,p.53.
3.2.1.2 Oespo
Outroelementobásiconaconstruçãodanarrativafílmicaéoespaço,queindicao
lugar físico, geográfico, onde a história acontece e é um importante elemento do
discursoficcional.Anarrativanãose reduzaumconjuntodeaçõesorganizadas,
mas dependem de “um determinado cenário, de uma geografia na qual as
personagensasdesenvolvem,comoinformamosprofessoresLeoneeMourão.
224
Dessaforma,seanarrativaéumahistóriaurbana,oprincipalcenárioseráformado
por elementos construídos pelo homem, podendo ser externo – ruas, avenidas,
praças,viadutos–ouinternoointeriordeumacasa,ummodooupartedele;se
ahistóriaéregionalousertaneja,ocenárioseráapróprianatureza,entendidacomo
elementos não transformados pela mão do homem. O espaço na trama narrativa
deverá ser sempreconstruído a partir de dicotomias, como, por exemplo, interior
exterior,urbanorural,grandepequeno,definidoindefinido.
Alémdisso,deveseconsiderarqueocenárioidealdependerádoformatodatrama.
ComoinformaoprofessorMoisés,“umanarrativapodepassarsenacidadeouno
campo,masdependedeseucaráterlinearouverticalamaioroumenorimportância
assumidapelocenário”.
225
ComoconsideraaProfa.Dra.SuelyF.V.Flory,emartigoqueanalisaaminissérie
Grande Sertão: Veredas
, no texto literário o espaço vai sendo construído pelo
narradorpersonagemaolongodatrama; diferentemente, na produçãotelevisualo
espaço“émontadoatravésdeseqüênciasdeimagens”apartirdascaracterísticas
que o autor do texto literário, no caso, Guimarães Rosa, imprime aos diferentes
espaços–míticosounão–quesublinhamasaçõesdatramaficcional.
A articulista explica ainda que as modernas técnicas usadas pelas produções
televisuais, muito semelhantes às do cinema, produzem essas imagens usando o
plano aberto, típico do cinema”, ou em plano fechado, detalhando objetos e
personagens,materializandooolhardosespectadorespormeio da movimentação
da câmera. Cortes, montagens, efeitos sonoros e visuais permitem a narrativa
223
PALLOTTINI,Renata.Op.Cit.p.138.
224
LEONE,Eduardo;MOURÂO,MariaD.Op.cit.p.28.
televisual construir “um mosaico de tramas paralelas e signos diversos, que o
receptordevedecodificarparacompreenderamensagemúltimaquemanmalinha
mestradaobraoriginal”.
226
Oespaçonodiscursoaudiovisualrelacionasemuitoproximamenteàtrajetóriadas
personagensdentrodofluxonarrativo–nofaroeste,porexemplo,aspersonagens
circulampordesfiladeirosepradarias;noneropolicial,ocenáriooosespaços
interiores,escuros,asvielas,osdepósitosabandonadoseassimpordiante.
Naminissérietelevisual,oespaçotambéméumelementoimportanteàmedidaque
caracteriza os vários cleos que geralmente compõem a trama; como afirma
Balogh,“arepresentaçãoespacialtendeasertotalmentefragmentária,eéfreqüente
queummero muitoreduzidodetomadasdêcontadohábitatdecadagrupode
personagens”.
Assim, temos a constituição dos vários núcleos de personagens – os ricos, os
pobres,acidade,afavela,indicadospor“algumastomadasdamansãodosricos,a
fachadadoprédiodaclassemédia,avistadoconjuntodavilinhadospobres”.
227
Antesde cenas inéditas,acâmera geralmente mostra umícone do núcleo –uma
fachada, uma paisagem, uma rua, uma visão da favela, um ambiente interno ou
externoqualquerjáconhecido,demodoqueotelespectadorpossasaberondevai
ocorreracenaseguinte.
Deigualmodo,fazsearepresentaçãodascidadespormeiodaindicaçãodeseus
mbolosmaisnotórios:SãoPaulogeralmenteérepresentadaporimagensdelocais
como o Parque do Ibirapuera, a Avenida Paulista,o centro financeiro, os edifícios
altoseconcentradosdealgumasregiões;oRiodeJaneiro,peloCristoRedentor,o
Corcovado,aorladapraia;Paris,pelaTorreEiffel,oMuseudoLouvre;NewYork,
pelapontedeManhattan,aEstátuadaLiberdade,etc.
Vários exemplos do uso variado desses espaços nas minisséries podem ser
lembrados,comoasqueusaramcenáriourbano:
JK,Umsócoração,Agosto,Anos
Rebeldes,PresençadeAnita,OsMaias,ChiquinhaGonzaga,HildaFuracão, Anos
225
MOISÉS,Massaud.Op.cit.,p.108.
226
FLORY,SuelyFadulVillibor.
Doregionalaoexistencial
:oespaçocomopersonagemem
GrandeSertão:
Veredas
namídiatelevisiva.Comunicação:Veredas:RevistadoProgramadePósgraduaçãoem
Comunicação,oPaulo:Ed.Unimar,2002.p.397.
Dourados,Quemamanãomata,AvenidaPaulista
e,tendocomocenárioafavela,
CidadedosHomens
.
Dentreasquesebasearamemtemasregionais,ruraisouépicos,portantoutilizando
cenáriosexternos,masnãourbanos,temos
LampiãoeMariaBonita,GrandeSertão:
veredas,Otempoeovento,AMuralha,Acasadassetemulheres,RiachoDoce,O
sorrisodolagarto,Oautodacompadecida,MadMaria
e
MemorialdeMariaMoura.
3.2.1.3 Aspersonagens
Na narrativa ficcional, as personagens centrais – os heróis – deixam de ser o
aristocrataguerreiroouograndecavaleiro,comgrandeexperiênciaemaventurase
conquistas,comosseusrígidoscódigosdehonraeseusvalorespicosdanobreza.
Ao contrário, destacamse homens comuns, normalmente de origem burguesa ou
plebéiaequevivemdramascorriqueiros.
Suasaçõesjánãolhes proporcionamfamaepoder,mas giramem tornodefatos
relativamente insignificantes  complicações sentimentais, sociais e financeiras,
comuns à maioriadas pessoas.Osromances representam – já no século XVIII e
XIX,masparticularmentenoséculoXX–umverdadeiromergulhonocotidiano.
Aspersonagensdoromancejánãosãopersonalidadesinteiriçaseperfeitas;nele,a
interioridade se dissocia da aventura e a alma fica fragmentada entre os desejos
íntimos e a realidade quase sempre hostil. Por viverem tal dualidade, os
protagonistasapresentamumacomplexidademaior;portanto,nascecomoromance
asondageminterior,maistardeconhecidacomoanálisepsicológica.
Os conflitos que embasam a epopéia clássica colocam em oposição apenas as
personagens e a realidade exterior; em contrapartida, no romance eles ocorrem
tammdentrodosprópriosprotagonistas,configurandoochamadoconflitointerior.
227
BALOGH,AnnaMaria.,op.cit.,p.76.
Isso o impede o choque dos indivíduos com o mundo, o qual se manifesta,
sobretudo,nalutadosmesmoscontraasnormaseospreconceitossociais.
Este último confronto tornase clássico no romance: um indivíduo com valores
autênticos tenta impôlos à realidade, de modo que a sede de amor, justiça e
dignidade humana o impele ao desejo de mudança de seu universo, geralmente
insensíveleinjusto.Noentanto,oresultadodesseesforçoéofracasso,emgrande
parte das vezes; desamparado, o personagem deve escolher entre submeterse a
umasituaçãodeopressãoousucumbiràdesilusão,àloucuraeatéàmorte.
Por isso, inúmeros romances se apresentam como um verdadeiro inventário de
ilusões perdidas. Contudo, em muitas obras do gênero, há um triunfo do herói
comum,sejapelarealizaçãodeseusafetosoudeseusideais,sejapelasatisfação
desuasexigênciasdeescaladasocial,àsvezesalcançadagraçasàsuaesperteza
eàsuaflexibilidadeética.
De maneira geral, o romance apresenta, em maior ou menor escala, uma forte
índole realista, pois os escritores buscam elaborar uma síntese entre os dois
elementosfundamentaisdogênero:personagensfictíciosquevivemacontecimentos
imaginárioseocontextohistóricoeascircunstânciasreais(costumes,espaçofísico
geográfico, vida cotidiana, etc.) em que esses personagens se movimentam. O
principalobjetivodaexpressivamaioriadosromancistasédaraoleitoraimpressão
dequeoenredoéumreflexodarealidade,fornecendolheumasólidaeconsistente
descriçãodemúltiplosaspectosdaexistênciahumana.
Dessa maneira, é fácil perceberque as personagens são componentes altamente
relevantesparaa produçãode qualquer narrativa. Natrama fílmica, igualmente, é
imprescindívelapresençadepersonagens:nãoépossívelhaverumanarrativasem
personagem,jáquetudooqueacontecena narrativa–asaçõeseosdiálogos,a
trama,enfim,sãosempreatribuídosàspersonagenseocorrememfunçãodelas.
Como considera Aguiar e Silva, “a personagem constitui um elemento estrutural
indispensáveldanarrativaromanesca”.
228
Elecitaaindaque,paraRolandBarthes,
“sem personagem, ou pelo menos sem agente, não existe verdadeiramente
228
AGUIARESILVA,V.M.op.cit.,p.251.
narrativa, [...] a função e o significado das ações dependem primordialmente da
atribuiçãodessasaçõesaumapersonagemouagente”.
229
Dentre as personagens que integram uma narrativa, uma delas tem particular
importância por seu
status
e funções dentro da trama – o narrador, que nos
romancesconduzalinhacentraldiegética. Nasminissériestelevisuais,observase
queonarradortemopapeldeesclarecerfatosquesejamdedifícilpercepçãoparao
telespectador (ou pouco relevantes para serem gravados como cena, mas
necessitemseresclarecidos,paraacompreensãodatrama).
Embora na narrativa dos romances seja necessária a existência do narrador, por
questões técnicas, poucas vezes a produção audiovisual utiliza esse recurso
chamado,por Aguiar e Silva, de “instância doadorado discurso” o narrador.
230
Essa“resistência”àpresençadonarradorésupridatantopelautilizaçãodacâmera
em planos variados e adequados a cada situação quanto pelos diálogos das
personagens.
Nocasodasminisséries,podemsecitarpoucosexemplosque tenham utilizado a
figuradonarrador.UmdeleséaatuaçãodapersonagemdocompadreQuelemén,
transformadoemnarradorem
off
na minissérie
Grandesertão:veredas
(1985)
,
de
GuimarãesRosa,comadaptaçãodeWalterGeorgeDursteWalterAvancini.
Outro exemplo é a produção
A casa das sete mulheres (
2003
)
, de Letícia
Wierzchowski, comadaptação de MariaAdelaide Amaral,Walter Negrão e Jayme
Monjardim, minissérie em que ocorre a superposição de funções  a personagem
Manuela exerce, além de seu papel, a função de narrar a seqüência dos
acontecimentosdatrama.
Essasduasminissériessãoproduçõestelevisuaisemqueafiguradonarradoratuou
comsucessoeeficiência,masessatécnicanarrativanãoserepetiumaisapartirde
então,umavezqueessetipoderecursoépoucocompatívelcomasperformances
televisuais.
229
Idem,ibidem.
230
AGUIARESILVA,V.M.Op.cit.,p.255.
As personagens, dependendo de sua atuação na trama, podem ser classificadas
como principal – herói ou protagonista – e secundária, de importância variável.
Assim, temos, como considera Aguiar e Silva, o deuteragonista, a personagem
secundária mais relevante; o antagonista, a que se contrapõe à personagem
principal e que pode coincidir com o deuteragonista, e “os comparsas, as
personagensacessóriasouepisódicas”.
231
Notocanteàconfiguração,aspersonagenspodemserclassificadasemdoisgrupos
–desenhadaouplanaemodeladaouredonda,deacordocomaclassificaçãodada
por E. M. Forster,
232
tamm seguida por Aguiar e Silva, que conceitua a
desenhada ou plana como aquela que, definida linearmente apenas por um
elementocaracterísticobásicoemtodootexto,éconstruídaaoredordeumaúnica
idéiaouqualidade;elanãoprovocasurpresas,nãoalteraoseucomportamentono
decursodoromancenemesboçaqualquerreaçãoquesurpreendaoleitor.
Dependendo da dimensão arquitetada pelo escritor, pode tender “freqüentemente
paraacaricaturaeapresentamuitasvezesumanaturezacósmicaouhumorística”;
essetipodepersonagemédefácil construçãoparao autor da trama, pois“basta
caracterizálaapenasumavez,quandodasuaintroduçãonoromance.”
233
Poroutrolado,apersonagemmodeladaouredondatemcomplexidadeacentuadae
seucriadordevepermanecermuitoatentoparaatribuirlhediversascaracterísticas,
sob diversos aspectos, apresentando várias qualidades ou tendências. Essa
personagemsurpreendeconvincentemente oleitor,poisédinâmica, multifacetada,
constituindoimagenstotaise,aomesmotempo,muitoparticularesdoserhumano.
ComoinformaAguiareSilva,aotraçoúnicodaspersonagensplanas,“corresponde
amultiplicidadedetraçospeculiardaspersonagensredondas”.
234
O professor Massaud Moisés, estudioso de literatura, tamm compartilha dessa
classificaçãodeForster,dizendoqueaspersonagensplanassãobidimensionais–
231
Idem,p.258.
232
Idem,p.263
233
AGUIARESILVA,V.M.Op.cit.,p.263.
234
Idem,p.264.
dotadas de altura e largura, mas o de profundidade , enquanto as redondas
explicitammuitasqualidadese/oudefeitos:
as personagens planas geram os tipos e caricaturas, enquanto as
outras envolvem os caracteres. [...] as primeiras comparecem mais
noscontos,novelaseromanceslineares,aopassoqueasredondas
predominamnosromancespsicológicoseintrospectivos.
235
Seobservadasaspersonagensqueintegramoromance
MemorialdeMariaMoura,
objetodo presente estudo, épossível classificálas dentrodesses grupos,embora
algumasdelassoframmodificaçõesquandopassamapertenceràminissérie.
Dessaforma,atuamcomopersonagensdesenhadasouplanas:Marialva,Valentim,
Tonho, Irineu, João Rufo, Rubina, Eufrásia, Duarte e ainda a personagem Firma,
que na minissérie toma o formato de modelada ou redonda; como personagens
modeladasouredondas,situamseaprotagonistaMariaMoura,oPadreJoséMaria
eCirino.
3.3Orecursodeadaptão–umtrajetodedifícilconcretização
Na arte, há muitos segmentos que se completam; a literatura e a televisão estão
entre essesgênerosharmônicos entresi–como afirmaPalma,
236
nas produções
resultantes de leituras dialógicas entre narrativas ficcionais e produções lmicas,
percebese que ambas se aproximam na medida em que possibilitam ao leitor
espectador ampliar sua capacidade de interpretação e isso inegavelmente ocorre
quandoháatransposiçãodeumtextoliterárioparaatelevisão.
Há muito tempo vários séculos – o livro faz parte da cultura da humanidade; é
natural que ele, principalmente a partir do século XX, passasse a ter uma
aproximação com outros meios de comunicação de massa, especialmente o de
maior alcance, a televisão. Muitas produções têm sido feitas a partir de obras
literáriaseváriosautorescontinuama“beber”dessafontedeenredos;comoensina
235
MOISÉS,Massaud.Op.cit.p.111
236
PALMA,GlóriaMaria(org.).
Literaturaecinema
:ademandadoSantoGraal&Matrix.Bauru:Edusc,2004.
Reimão,éprecisoanalisarecompreenderbem“asinterfacesdouniversodoslivros
comouniversotelevisivo”.
237
Emrazão dasinúmeraspossibilidades de que a linguagem televisual dispõe para
encenar os enredos literários, muitos estudos voltados a analisar como ocorre
essa transformação da linguagem escrita em imagem e som, pelo uso de cores,
movimentosediálogosparaconcretizaroqueantesestavaapenasnoimagináriodo
leitor.
Essa harmonia é confirmada por Johnson, ao ensinar que “as relações entre
literaturaenarrativafilmadasãomúltiplasecomplexas,caracterizadasporumaforte
intertextualidade”,eaindaque“asreferênciasoualusõesfílmicasàliteraturapodem
serorais,visuaisouatéescritas”.
238
Muitasvezes,ocorreumagrandepreocupaçãocomafidelidadeàobraemquese
baseia, mas é preciso lembrar que os textos literários possibilitam múltiplas
interpretações.Isso pode, evidentemente, permitir umaleiturado texto errônea ou
quenãoseja defácilcompreensão pelos telespectadores,o quepoderesultarem
insucessoinesperado.
Convémterem menteaindaque,aoser transpostaparaomeiotelevisual, aobra
literáriatornaseumnovoprodutocultural,dandoporsuavezmargemaumanova
pluralidade de interpretações, devido à heterogeneidade da recepção entre os
telespectadores,quepoderásertãocrítica,belaecriativaquantoaobraquelhedeu
origem.
Como afirma Palma,
239
a utilização de fontes literárias para produções de
teledramaturgia tem a função principal de ampliar e redimensionar essas
competências de leitura e de confrontação do leitortelespectador, assim
contribuindo, no mínimo, para a construção de conhecimentos e atualização dos
conhecimentosliterários.
Aadaptaçãodotextodeficçãoàproduçãodeteledramaturgiajácausoudiscussões
detodosostiposecertamentecontinuarácausando.Háváriosmotivosquegeram
237
REIMÃO,Sandra.
Livrosetelevisão
:correlações.Cotia:AteliêEditorial,2004,p.13.
238
JOHNSON,Randal.
Literaturaecinema,diálogoerecriação
:ocasodeVidassecas.In:PELLEGRINI,Tânia
etal.
Literatura,cinemaetelevisão
.SãoPaulo:Senac/InstitutoItaúCultural,2003,p.3738
239
PALMA,GlóriaM.Op.cit.,p.35.
essasdiscussões;umdeleséquenemsemprelivrosbonsgeramproduçõesdeboa
qualidade,emrazãodaespecificidadedecadaárea.
Umpontomuitorelevantenageraçãodedebateséaqueixadoleitortelespectador
que, após ver um filme baseado em um livro que já leu, reclama a respeito do
desaparecimento de personagens e situações que eram vitais para o
desenvolvimentodahistóriaoudainclusãodeelementosefatosqueaparentemente
desvirtuematramaoriginal.
Não importa, nesta situação, a qualidade do livro ou do filme; importa que, na
passagemdapalavraparaaimagem,houveumaalteração,sejapelocorteoupela
adiçãodepersonagenseacontecimentos.
Oleitortelespectadoremgeralseressentequandoháumamudançamuitogrande
em relação à essência dahistória.O responsável pela alteração tanto pode sero
produtorcomoodiretorouoroteirista,emrazãodasváriasreleiturasporqueotexto
literáriovaipassando,atéchegaràversãofinal,queserávistapelograndepúblico.
Ocorreque,aoempregaralinguagemverbal–essênciadolivro–oescritorpode
facilmenterealizaraconstruçãodeumpersonagemouambientecomolheaprouver,
descobrindo os sentimentos mais íntimos e colocandoos no texto ao acesso
irrestritoecúmplicedoleitor.Podecriarumacasa,umarua,iraotrabalho,andarpor
lojas,assassinaruma pessoa, tudo descritoem detalhes quefacilmente a palavra
escritaeaimaginaçãolhepermitem.
Em contrapartida, ao realizar uma produção filmada, o diretor precisa lidar com
várioselementosbásicosediversificados,taiscomoroteiro,atoreseoutraspessoas
quetrabalhamnaprodução,fotografia,trilhasonora,cenários,entreoutros.
Entretanto,estanãoéamaiordificuldadecomquesedefronta.Agrandebarreira
está na construção das personagens, em como mostrar seu caráter, sua
personalidade, seus sentimentos e relacionamentos, com base em meios com
significadosnemsempreeficazes–cenários,figurinos,a cidadeeolugaremque
moram,trabalham,estudam.Paraseremexpressosdemodoaqueoespectadoros
identifique, os pensamentos e sentimentos dependerão da correta e precisa
utilizaçãodaslinguagensverbalenãoverbalpelosatores.
Decorredaíaquaseimpossibilidadedetransporotextoliterárioparaafilmagemde
forma absolutamente fiel; geralmente, o diretor da minissérie necessita alterar
seqüênciasdeacontecimentos,adicionarousubtrairambientesepersonagenspara
viabilizar a produção o mais próximo possível do enredo do texto literário;
dependendodecomointerpretao
leitmotiv
dessetexto,atramanaadaptaçãoterá
umdesviomaioroumenor.
Empoucaspalavras,comrelaçãoàsdiferençasentreaminissérieeolivroquelhe
deuorigem,podesedizerqueasestruturasodiferenteseosautorestambém–
assim,pormaissemelhantesquesejamosdoistrabalhos,serãosempreduasobras
distintas.
Dessaforma,mesmoqueumautordetextoliterário tivesseapossibilidadedeele
mesmo fazer a adaptação de sua obra para a televisão, provavelmente surgiriam
barreiras parauma transposição fiel. Emsuma, é praticamente impossível fazer a
transposiçãodeumtextoliterário
ipsislitteris
,ouseja,damesmamaneiraqueestá
nolivro
.
Asversõesdeobrasliterárias,evidentemente,acabamporsetornaroresultadoda
visãoeleituradoautor,dodiretor,dosatoreseatédascâmeras,jáquecomelasé
possível utilizar os vários recursos de posicionamento e enquadramento,
possibilitando enfoques de interpretação diversificados; com efeito, as câmeras
podemsubstituiratéonarradordahistóriaescrita.
É importante citar tamm que, a cada nova produção dessa envergadura, são
utilizadas modernas tecnologias – como o recurso dos efeitos especiais –, quase
sempre para conseguir aliar tradição e modernidade, ou seja, recriar mitos já
conhecidos,masadaptadosanovaslinguagens.
Diferentementedascadasde1950e60,emquepredominavamosmelodramas
na teledramaturgia, atualmente as produções televisuais conseguem propor um
repertóriomaisconsistenteàsdiversascamadasdograndepúblico.Astecnologias
audiovisuaisdesenvolveramse,buscandoumprodutodeboaqualidadeemvezde,
simplesmente,reproduzirosmodelosdeHollywoodeotãoalardeado
americanway
oflife.
Atelevisãobrasileiratemprocuradoseroriginalaocaptarastensõesecontradições
da vida social, transformandoas em matéria poética  várias telenovelas e
minissériessãoproduzidascomformasestéticasquerevelamaspectosimportantes
davidabrasileira.
Essaqualidadedasminissériesbrasileirase,tamm,deseugênerooriginário,as
novelas, conta ainda com um fator decisivo  a participação de dramaturgos que,
enquanto difundem para todo o País suas próprias diferenças, em forma de
produçãotelevisual,procurammostrarnovosmodosdecompreendersuarealidade,
suacultura,suastragédiaseconquistasemtodasasáreas.
Figueiredoconfirmaessatendência,observandoque
[...] essa qualidade não é apenas fruto de recursos técnicos. [...] o
nível artístico é atingido pelo seu conteúdo, pela construção das
personagensepeloseucomprometimentocomo telespectadorque,
em interação com a técnica, com a produção e com a difusão de
imagens,podechegaràconstruçãodeumaestética.
240
Evidentemente, há ainda uma série de falhas que devem ser levadas em
consideração; entretanto, como analisa Flory, a televio é um meio de
comunicaçãomassiva, atingindoum nível de dimensão tal “que nãose pode falar
em elitismo. Como produzir um trabalho de qualidade, que consiga a penetração
indispensávelemumaaudiêncianecessariamentetãoheterogênea?”
241
Asminissériesbrasileirastêmprocuradoutilizarfontesadvindasdoricomaterialque
a literatura, a história e o jornalismo brasileiros oferecem, possibilitando, dessa
maneira, que se divulguem várias produções de escritores brasileiros, as quais
tomamformaeseconcretizampormeiodaficçãotelevisualseriada.Essainteração
possibilita à televisão levar diariamente ao grande público uma programação
variada,incluindolazereinformação,cumprindoseupapeldemeiodecomunicação
demassa,suaprincipalcaracterísticanãosónoBrasil,masnomundotodo.
A grande virtude da adaptação de obras literárias na produção de minisséries
decorre mais da reprodução do sentido testemunhal da literatura do que da
240
FIGUEIREDO,AnaMariaC.Op.cit.,p.52.
qualidade artística; quando se trabalha com temas de época, por exemplo, o
telespectador pode acompanhar a encenação da passagem de momentos
significativosdahistóriadopaís.
Como confirma Figueiredo, os recursos técnicos de fotografia e cenográficos, a
movimentaçãodascâmerase,geralmente,umbomfigurinoconferemàsproduções
ovalorde“testemunhadaobraoriginal,comobônusdeumarecriaçãoquevaialém
damerareprodãodoconteúdo”.
242
Assim sendo, a teledramaturgia é importante porque as melhores produções do
gênero puderam suprir uma carência de informação junto ao público médio
brasileiro; com efeito, o livro, o cinema, o vídeo, os computadores e as antenas
parabólicas ainda são produtos caros e pouco acessíveis à população. Por isso,
convém consideraro valor que a ficção televisual tem ao participar da difusão de
obrasliteráriasecinematográficasessenciaisnahistóriadaculturadecadapaíse
decadapovo.
Defato,comoconsideraReimão,ousodetramasepersonagensderomancesde
escritores brasileiros nas minisséries parece ter duas funções básicas: uma é
fornecerpersonagenseenredosmaissólidosqueos da média dastelenovelas, a
outra é atuar como forma de legitimação do veículo televisão no conjunto das
produçõesculturaisnacionais,nosistemaculturalbrasileirocomoumtodo”.
243
Asficçõescurtas,iniciadascomos
casosespeciais
erefinadascomas
minisséries
,
consistem no esforço de uma produção mais elaborada, destinada a um público
maisexigente.Comograndemérito,aadaptaçãodeobrasliterárias,processadasa
partir de inovações nos diálogos, são, no cenário e na forma de apresentação,
trabalhos que atualizam a memória literária brasileira. Entre outras,
Morte e Vida
Severina
,
Grande Sertão: Veredas
e
Hilda Furacão
, por exemplo, são peças
importantes em meio ao filão dasobrasliterárias adaptadasparaa televisão, que
despertamjuntoàsjovensgeraçõesointeressepelaliteratura.
É extremamente complexo o processo de adaptação de obras literárias para os
meiostelevisuais,umavezquenemsempreasimplestransposiçãodotextoproduz
241
FLORY,SuelyF.V.Op.cit.p.396
242
FIGUEIREDO,AnaMariaC.Op.cit.,p.53.
umbomresultado,necessitando,àsvezes,deampararseemumacadeiainfindável
dereferênciasaoutrasfontes.
Essacomplexidadedeinteraçãoentrealiteraturaeasartesnãoérecente,existindo
mesmoantesdoadventodatelevisão.SegundoinformaGuimarães,jáporvoltade
1870,JosédeAlencareMachadodeAssispronunciavamsesobreoassunto.
Em1875,JosédeAlencarcriticavaasdiversasversõesdeadaptaçãoparaoteatro
de
O Guarani
, comentando que “muita gente fina que viu a ópera e drama
O
Guarani
ignora absolutamente a existência do romance”; em 1878, Machado,
igualmente, criticou a versão teatral de
O Primo Basílio
, de Eça de Queirós,
encenadano RiodeJaneiro,dizendoqueo romance “transportado aoteatro, não
correspondeuaoquelegitimamenteseesperavadosucessodolivroedotalentodo
sr.Dr.CardosodeMeneses”.
244
Mais de um século depois, essas questões apontadas por Alencar e Machado
continuamatuais–discutesemuitoaindasobreavalidadedatransposiçãoparaa
televisão,tantoemrelaçãoàsobrasdessesescritoresquantoàsdeoutrosquese
destacamnocenárioliterárionacionaleinternacional.
Apesardecríticas, inclusivede telespectadores, éinegávelqueinúmeras vezes a
adaptaçãodelivrosparaatelevisãoébemsucedida.Porcontadisso,muitasobras
diferenciadas já foram usadas em roteiros de minisséries, filmados com suas
próprias configurações ou adaptados para épocas mais atuais, com uma nova
roupagemesituaçõesmaisadaptadasàrealidade,masprocurandosempremanter
oenredoeaintençãodoautor.
Essas obras têm sempre um blico fiel, pois o resultado das adaptações quase
sempre traz para o leitortelespectador tudo o que a obra oferece, fazendoo
caminhar pelos espaços nela descritos e observar as situações mais íntimas dos
personagens,estabelecendoumlaçofundamentalentrealiteraturaeatelevisão.
Umexemplodessaestreitarelaçãoéoaumentodasvendasdeinúmeroslivrosde
ficçãoqueserviramdebasearoteirosdeminisséries.Apósassistiraumadessas
243
REIMÃO,Sandra.Op.cit.p.2930.
244
GUIMARÃES,Helio.OromancedoséculoXIXnatelevisão:observaçõessobreaadaptaçãode
OsMaias
.In:
PELLEGRINI,Tâniaetal.
Literatura,cinemaetelevisão
.SãoPaulo:EditoraSenac/InstitutoItaúCultural,
2003.p.92
produções,otelespectador,seaindanãotiverlido olivro que lheserviude fonte,
provavelmenteprocuraráadquiriloparalereconhecermelhorahistória.
Mesmoalgunscasosdeincompreensíveisníveisdeaudiênciaaquémdoesperado
comoocorreucomaminissérie
OsMaias
nãoimpediramagrandevendagemde
algunslivrosadaptados;éinegávelqueateledramaturgiainspiradanaliteraturatem
oméritodeestimularaspessoasacompraroslivrosemquesebasearam.Estudos
estatísticosmostramqueessefatoocorreuemrelaçãoaquasetodasasproduções
baseadas em obras literárias, o que não deixa de ser um grande mérito para a
televisão,noexercíciodesuafunçãodeinstrumentodemídia.
Comoexemplo,éimportantecitarque,nomêsemqueaminissérie
Agosto
(1993)
foiexibida,olivrohomônimodeRubemFonsecatevemaisdetrintamilexemplares
vendidos. Igualmente, o sucesso da minissérie
A Muralha
(2000) impulsionou a
vendadoslivros,demodoquemaisde18milexemplaresdoromancedemesmo
nome, escrito por Dinah Silveira, que há muito estava fora de catálogo, foram
compradosnomêsdejaneirode2000.
OutroexemplodaforteinfluênciaqueasproduçõesdaRedeGloboexercemsobreo
mercadoeditorialéevidenciadopelosucessorepentinoemtornodolivro
Acasadas
sete mulheres
(2003), da autoraLetíciaWierzchowski. Lançadoem abril de 2002,
tinhamsidovendidos,atéaestréiadaminissérie,trezemilexemplaresdolivro;após
aproduçãochegaràtelevisão,osvolumesvendidosultrapassaramostrintamilem
trêssemanas.
Também merece destaque o romance objeto deste estudo,
Memorial de Maria
Moura,
deRacheldeQueiroz,lançadoem1992,doqualhaviamsidovendidoscinco
milexemplaresatéaestréiadaminissérie–maiode94;duranteatransmissãoda
produção,avendagemdobrou,provavelmentepeloimpactocausadopelagrandeza
daprodução.
Assim,podeseinferirqueaadaptaçãoparaateledramaturgiaéumafórmulamuito
apreciada pelo público em geral. Como a literatura brasileira é fonte quase
inesgotáveldematerialmuitoricoe,emgeral,perfeitamenteadaptável,certamente
muitos trabalhos ainda surgirão. Sem dúvida, todos são muito esperados pelos
inúmerosapreciadoresdaliteratura,quetêmdessamaneiraamplaspossibilidades,
nãosódeentretenimento,mastammdeenriquecimentocultural.
Com base nessas ponderações, convém lembrar a tendência clara de buscar
tamm na História, além da literatura, os ingredientes para a produção das
minisséries brasileiras. Notase uma preferência acentuada por temas ligados ao
sertãobrasileiro,tendoumadelassedestacadopelaousadianaadaptação–trata
sede
GrandeSertão:Veredas
(1985),baseadanolivrodeJoãoGuimarãesRosa,
que,segundoOliveira,GonçalveseGodinho,apudLobo,apresentoufidelidadeda
adaptação à obra original, enriquecida, na transposição, pela linguagem sonora e
visual”.
245
DeacordocomanálisefeitaporPereira,
apud
Lobo,confirmaseque
[...]areleiturapropostapelaminissériepotencializaavisualizaçãode
um país mais complexo, mais rico e mais contraditório, no qual os
conflitoseaviolênciadesempenhamnãoapenasumimportantepapel
nojogodadinâmicadasrelaçõessociais,mas,também,ocupamum
lugar legítimo no imaginário tanto das elites quanto dos vastos
segmentossociais.
246
3.4 Recursosmaisutilizadosnatransposição–paráfrase,paródia,
estilizaçãoeaproprião
Em muitos casos de adaptação do texto literário para a televisão, é necessário
utilizar algumas estratégias básicas, como, por exemplo, a elaboração de roteiros
com seqüências diferenciadas em relação à da trama apresentada no livro, ou
mesmoamodernizaçãodahistória,transpondoaparaumaoutraépoca,geralmente
acontemporânea.
Além disso, é necessária ainda a aplicação de técnicas para a conversão da
linguagemliteráriaàlinguagemtelevisualquepossibilitemareleituradomateriala
serempregadoepermitamamanifestaçãodasaçõesqueviabilizamanarrativada
minissérie.
245
LOBO,NarcisoJulioFreire.
Ficçãoepolítica
–oBrasilnasminisséries.Manaus:Valer,2000,p.78.
246
Idem,ibidem.
Dessamaneira,éessencialnasproduçõescinematográficaseteledramatúrgicaso
emprego das cnicas de linguagens baseadas na paráfrase, na paródia, na
estilização e na apropriação, recursosesseslargamente empregados na filmagem
dehistóriasdeautoresconsagrados.
Aparáfrasefoi umrecurso muito usado atéhápouco tempo, mas modernamente
temhavidoumatendênciaàpreferênciapelaparódiaepelaestilização;paramelhor
compreenderessascolocações,éimportanteconceituarbrevementeessestermos.
Apartirdeumatécnicaquepossibilitacriarumaobraapartirdeoutra,aparáfrase
consiste em fazer da nova leitura o mais semelhante possível àquela em que se
baseia. Como analisa Sant´Anna, a paráfrase “é a reafirmação, em palavras
diferentes,domesmosentidodeumaobraescrita..[...]Emgeralelaseaproximado
originalemextensão”.
247
Emsuma,aparáfraseéimitação,écópiadaobraemque
sebaseia.
De acordo com o autor mencionado, a estilização é a técnica que possibilita a
releituradeumaobracom“omáximodeinovaçãoqueumtextopoderiaadmitirsem
subverter,perverterouinverterosentidoqueumtextopodetolerar,mantendosefiel
ao paradigma inicial”. Neste caso, uma possível releitura não desvirtuará a
organizaçãoideológicadosistema.
Em contrapartida, a paródia é uma releitura da obra que apresenta pervero,
subversãoouinversãoaseusentidooriginal.Sant´Annaconsideraqueastécnicas
estabelecidasnasrelaçõesintraeextratextuaisdeduasobrasodesviosmaiores
oumenoresemrelaçãoaumoriginal;sehouverumdesviomínimo,teráocorridoa
paráfrase; havendoumdesvio tolerável,teremos aestilizaçãoe no casode haver
umdesviototal,teremosaparódia.
Em suma, a paráfrase
conforma
, a paródia
deforma
e a estilização
reforma
;
enquantoaparáfraseécontinuidade,temcaráterociosoedesviomínimo,aparódia
édescontinuidade,temcarátercontestador,éumanovaediferentemaneiradelero
convencional.Numaháoreforço;naoutra,adeformação.
247
SANT´ANNA,AffonsoRomano.
Paródia,paráfrase&Cia.
7.ed.SãoPaulo:Ática,2003.p.28,38,43,52.
A técnica da apropriação é a que permite fazer uma espécie de colagem”, um
recortede outrosmateriaisparacompor umaobra; no caso de textos, extraemse
frasesdeoutrosautores,paracomporumtextonovo.
ComoindicadoporSant´Anna,paramelhorcompreensãodasligaçõesentreessas
váriastécnicas,podesedividilasemdoisconjuntos:
Como falado anteriormente, nos dois conjuntos podese notar uma gradação que
caracteriza a paráfrase como o grau mínimo de alteração do texto, a estilização
como o desviotoleráveleaparódiacomo ainversãodosignificado,cujoexemplo
máximo é a apropriação. A paráfrasenãodeixade ser umaapropriação, mas em
nívelmuitosutil,fraco.
248
Nas adaptações literárias para a televisão, há exemplos de uso de todas essas
técnicas.Amaisusadaéadaparáfrase,empregadanasminisséries
GrandeSertão:
Veredas,OsMaias,OPrimoBasílioeMemorialdeMariaMoura.
Temosestilização,
porexemplo,natransposiçãode
AutodaCompadecida,JK,eCidadedosHomens
.
Na transposição de
O Quinto dos Infernos
, foi feita uma paródia, ocorrendo uma
mudançadaideologiaoriginal.
Comosepodever,toda transposição detextoliterário utiliza, deuma maneira ou
outra, os recursos rapidamente descritos acima. Sem dúvida, a utilização dessas
técnicas é em geral motivada pelas dificuldades que o roteirista encontra para
concretizarapassagemdalinguagemdapalavraparaalinguagemdaimagem.
A adequação da linguagem verbal à imagética é tarefa geralmente muito árdua,
dadasasprópriasdificuldadesimpostaspelascaracterísticasdecadanarrativaede
cada autor, e ainda pela estreita ligação existente entre o texto literário e seus
significados.
248
SANT´ANNA,AffonsoR.Op.cit.,p.47
Paráfrase
Estilização
Paródia
Apropriação
Conjuntodassimilaridades Conjuntodasdiferenças
É importante lembrar ainda que os recursos cinematográficos usados  ponto de
vista, posição da câmera,
flashback
, iluminação, trilha sonora, efeitos especiais
devem preocuparse com o emprego de uma linguagem universal para que
espectadores de qualquer cultura e em qualquer lugar tenham meios de
compreender a produção. Essa linguagem universal vai sofrendo evoluções e
empregando formas de expressão ousadas, a princípio, mas tornandose comuns
logoemseguida.
3.5 Considerõessobreaudiênciaeatelevisão
Atelevisão,aoexercersuafunçãodemeiodecomunicaçãodemassa,égeradora
demuitassituaçõescaracterísticas darotinada vida moderna. O atode assistirà
televisão,portanto,éinalienáveleocasionainúmerasdiscussõesemtorno desua
participação no diaadia das pessoas. Considerandose a relação entre o mundo
televisualeotelespectador,umdos enfoques pelo qualsepodeanalisaracrítica
orientadaparaoleitor,éoqueauxiliaaentenderasnarrativastelevisuais:seum
contadorparacadahistória,presumesequeháumreceptor.
Nofinaldadécadade60,surgiramosprimeirosestudosvoltadosaoentendimento
da contribuição do leitor na realização do texto, “acima de tudo, enfocando a
prioridade analítica do aspecto da recepção sobre os da produção e da
representação”,comoinforma aprofessoraespecialistaem Estética da Recepção,
SuelyF.V.Flory.
249
Acríticacentrada naresposta do leitor, a teoria darecepção e a crítica orientada
para o leitor são todos nomes dados à variedade de obras recentes de estudos
literáriosqueexaminamopapeldoleitornoatodecompreenderesentirprazercom
aleituradetextosliterários.Acríticaorientada ao leitortrabalhacom a crença de
que a significação de um texto literário o se realiza enquanto não for lido por
alguém, colocando o ato da leitura, assim, no centro dos estudos. Quando se
aplicam essesestudosàanálisedo atode assistir à televisão, é necessário fazer
249
FLORY,SuelyF.V.
Oleitoreolabirinto
.SãoPaulo:ArteeCiência,2004.
algumasadaptações,jáqueassistiràtelevisãonãoéamesmacoisadoquelerum
livroouassistiraumfilmeouaumapeçadeteatro.
Comomídiaderepresentação,atelevisãopressupõeumarelaçãodecomunicação
maisconcretadoquearelaçãodistanteentreoescritoreoleitornacomunicação
literária. No universo fictício da literatura e do cinema, o leitor raramente é
requisitado,enquantoocomercialtelevisualinduzconstantementeotelespectadora
ummundorealepalpável.
O ato de assistir à televisão pode acontecer de várias maneiras  dedicando um
tempo a isso, com muita atenção, ou apenas “vendo” enquanto se realiza outra
atividade.Dequalquerumadasmaneiras,éumaatividadediferentedelerumlivro
ouassistiraumfilmeoupeçadeteatro.Paraaprendersobreosmodosdeassistirà
televisão,énecessáriaumaobservaçãosistematizadadessecomportamento.
Vários estudos têm sido feitos para examinar o papel do leitor em relação à
compreensão e prazer oriundos da leitura de textos literários, constituindo a
chamada crítica orientada para o leitor, que se baseia na convicção de que a
significaçãodotextonãoestáemnenhumsensoabsolutodele;acríticacentradana
resposta do leitor coloca no centro da especulação crítica esse processo de
significaçãoeproduçãodoprazerqueéoatodaleitura.
Osignificadosomenteocorreapartirdoatodaleitura,podendose, porextensão,
entender que esse fato ocorre não só em relação à literatura, mas tamm ao
cinema eàtelevisão.Muitosquestionamentos sobreleituraeleitorestêmocorrido
em várias áreas,inclusive naáreada filosofia, ensejando algunsposicionamentos
deestudiososdessarelaçãoleituraleitoresecinematelevisãoespectador.
Como informa Allen, alguns desses posicionamentos são conhecidos como
fenomenologia,como nomeado pelo filósofo Edmund Husserl na década de 30, a
qual trabalhacom a relação entre a percepção individual e o mundo das coisas,
pessoaseõesquepodemserpercebidas.”ApartirdafenomenologiadeHusserl
edesuasposiçõesfilosóficas,surgiramasteoriasliteráriasdeHansRobertJauss,
Roman Ingarden, e Wolfgang Iser.
250
Husserl considera que, como nosso
pensamentosempreenvolveassuntoseobjetos,nãopodemospensaranãoserem
algumacoisa.Esseatodepensartransformaarealidadeemumfenômenovividode
maneiraexclusivamenteindividual.
251
Paraafenomenologia,oatodaleituranãoémeramenteumprocessomecânicode
fazer sentido, mas um processo em que as marcas sem graça de uma página
adquiremsentidonaimaginaçãodoleitor.Esteprocessoocorredesdealeiturada
maissimplesnarrativaficcionalatéomaiscomplicadoeextensoexercícioliterário.
Quandooleitorencontraotexto,ocorremváriasinstânciasdeinteração:umtipode
colaboraçãosustentadamutuamente;umaentregadoleitoraospensamentosdeum
outro ausente e, até mesmo, uma luta pelo poder entre o texto e o leitor. Todas
essasocorrênciasparecemindicarqueoresultadodaleiturasejaconstruídoapenas
namentedoleitor,até porque aspalavras sãoselecionadasporele, de maneira
autônoma–oautornãoprecisaestarpresenteduranteoprocessodaleitura.
Confirmandoessaspossibilidadesdeinterpretaçãoqueoleitortemnoatodaleitura,
aromancistaRacheldeQueirozdepõeaojornalistaHermesRodriguesNery:
“A leitura de uma obra é sempre uma viagem muito pessoal. Cada
leitor identifica os dados a partir de suas próprias referências. Há
leitores, por exemplo, que podem descobrir coisas numa obra de
ficçãoquenemopróprioautorpercebera.O
insight
émuito maisdo
leitor do que do autor. A obra é um campo aberto, admite muitas
interpretações.Seriaarbitrárioeempobrecedordizerassim:‘Olha,eu
quis dizer isto ou aquilo com a obra, viu? Anotem aí, direitinho’. A
gente pode fazer alguns apontamentos, mas nunca ter a questão
como definitiva: ‘É isto e ponto final’. As análises podem ser muito
interessantes, mas são sempre apontamentos insuficientes. Seria
como explicar a nossa própria vida. Como esgotar este tema?
Impossível. Todas as interpretações são pontos de partida neste
campoinfinitodepossibilidades.”
252
Como informa Flory, para Robert Jauss, “a recepção é um processo gerador de
significados”,surgidosapartirdeumtextonumdadomomento.Eleconsideraquea
250
ALLEN,Robert.
ToBeContinued...SoapOperasaroundtheworld
.London/NewYork:(Ed.by)1994,p.103.
251
Idem,ibidem.
252
NERY,HermesR.Op.cit.,p.107
percepção de uma obra de arte potencializase por meio da experiência estética,
que pode direcionarse a “três atividades simultaneamente complementares: a
`Poiesís´, a `Aisthesis´ e a `Katharsis´”. A primeira referese ao prazer estético
sentidocomacoautoriadotexto;asegundaéaconsciênciareceptoraeaterceira
é“oprazerefetivoquelibertaoleitordeseucotidiano”.
253
Para Ingarden, discípulo de Husserl, a obra literária é tal qual uma composição
musical, que existe concretamente, mas tem sentido apenas quando executada.
Assiméotextoliterário,queesperaarealizaçãopormeiodoleitor.Noatodaleitura
detextos,omundoficcionaléconstruídonamentedoleitorassimqueelepreenche
oslugaresqueotextodeixavazios,combaseemsuasprópriasexperiênciaseem
leiturasliteráriasprévias.
AdescriçãodeIngardensobreoatodaleituraéopontodepartidaparaWolfgang
Iser,emseutexto
TheActofReading,
254
noqualmostraquenossapercepçãode
obras de arte narrativas é fundamentalmente diferente daquela da pintura ou da
fotografia. Uma pintura pode ser percebida rapidamente por um todo, mas um
romancenão;éprecisolêloprimeiramente.
Apesar de Iser parecer excluir as narrativas visuais (filmes e, por extensão, a
televisão)destasuaconcepção,ficaclaroquequalquerformanarrativaseenquadra
nesse conceito; o entendimento depende da percepção de cada nível de sua
organização  cada etapa de uma narrativa literária ou televisual tanto responde
comofaznovasperguntas.
Allen aplica a teoria de leitura de Iser à telenovela, pois ajuda a compreender os
mundoscuriosamenteestruturadosecomplexosdanovela;anarrativafolhetinesca
empregadananovelaéaformamaispopulardatelevisão,dominandoohorárioem
quasetodosospaíseslatinoamericanos.Alémdisso,aRedeGlobo,maiorempresa
doBrasil,exportaparaváriospaíses–Austrália,GrãBretanhaeatéaChina,locais
ondeanovelaéextremamentepopular.
253
FLORY,SuelyF.V.Op.cit.
254
ISER,Wolfgang.
OAtodaleitura
–umateoriadoefeitoestético.Trad.JohannesKrestschmer.SãoPaulo:
Ed.34,1966,2vol.
Apud
:ALLEN,R.Op.cit.,p.105.
Amaiorcaracterísticadanovela,adeserumaobraaberta,permitequeperguntas,
problemas e mistérios permaneçam indissolúveis para provocar outros
questionamentos, vidas e complicações, que virão a ser resolvidos apenas no
finaldesuatrama.Otelespectadorprecisaterumesquemadepercepçãoparacada
umdessestipos,poisosvaziostextuaisexistemosomenteentreoscapítulosda
novela,comotambémdentrodecadaepisódio,planejadodentrodeumespaçopara
os comerciais publicitários; assim, a cena que imediatamente precede esses
comerciaisfindaemumquestionamentonarrativo.
Osvaziosqueestruturamoatodeassistiranovelas–entrecapítulosouentreuma
cena à próxima, como tamm aqueles criados pela interrupção comercial –
transformamse em maior importância quando se considera a rede complexa de
relaçõesdepersonagensformadapelacomunidadedanovela.
Outroenfoquequepodeserpercebidoéoqueocorrenosprogramasdeauditório;
todosospapéis–oapresentador,convidadosepúblicotêmdireitoàfala,mastodos
devemocuparumlugardemarcado:opúblicofica“emseulugar”forade cena;os
apresentadoresficamisoladosemcenadefronteaopúblico;oapresentadorinterfere
eregulaarelãoentreeleseotelespectadoremcasa.
Com relaçãoaos
game shows,
há um envolvimento do espectador de modo que,
quandooapresentadorfazumaperguntaàpessoaqueestásendoquestionada,o
espectador, quase que automaticamente, entra no papel do participante,
respondendocomele.Searespostaestivercorreta,oespectadortambémpartilha
dosucesso.
Estudosetnográficostammsevoltaramparaexaminarasdiferençasculturaisna
prática deassistir àtelevisão, como o que observaaidade do telespectador eas
maneiras como a televisão faz parte de sua vida diária. As condições físicas e
econômicas de que as pessoas dispõem para assistir a essas telenovelas,
enormementepopulares,interferemnainteraçãodoespectadorcomaprogramação
televisual.
Quandoafamíliaé numerosa,tempoucos recursoseconômicoseo espaçofísico
dacasaélimitado,oatodeassistiràtelevisãotornaseumproblema,poisnãohá
um espaço definido para essa atividade; assim, a sala de televisão pode ser o
quarto,acozinha,acopa,asaletaouqualqueroutroespaçodacasa.Noentanto,
quando a família tem condições de adquirir dois aparelhos, seus membros
dispersamse,mesmoseestiveremassistindoaomesmoprograma.
Outroenfoquedasobservaçõesetnográficasmostraquetambémparaascriançasa
televisão tem papel ativo, mesmo considerando sua tenra idade. Foi possível
observar que, mesmo antes de completarem um ano e meio, bebês ligavam o
aparelhode televisão, como propósitoreal de, realmente, assistiremna. Enfim, é
preciso considerar ainda que as pessoas nunca assistem à televisão de maneira
ingênua, pois aplicam na percepção sua experiência e conhecimento de outros
textospreviamentevistos.
Uma produção televisual nunca é vista isoladamente, mas sempre na direção de
outros textos. A teoria da crítica norteamericana orientada para oleitor considera
quetodahistórianecessitateralguémparasercontada,pressupondoassimvários
tipos de leitores. Dessa maneira, em relação à intenção de antecipar o papel do
leitor exercida pela crítica orientada para o leitor, a relação emissor / receptor na
televisãoédiferentedaquelaencontradanaliteratura,nocinemaenoteatro.
Cada um desses formatos é constituído de elementos diferenciados, bem como
diferenteéarelação com a audiênciade cadamodalidade – leitor, telespectador,
assistente do programa ao vivo e espectador de cinema, cada um com um
comportamentodiferenciado.
Convém lembrar que, como seres sociais que somos, temos a necessidade da
experiência de assistir à televisão, experiência essa enriquecida pela maneira
democratizadacomqueasproduçõestelevisuaischegamàspessoas,semlevarem
contasuaraça,gênero,classe,etnia,regionalismoeoutros.
Dessaforma,umaquestãoaserconsiderada,dadaasuaimportância,éoproblema
crítico da onipresença e da intimidade da televisão. É importante observar a
naturezasocialdeassistiràtelevisão;milhõesdepessoaseaparelhosrecebema
mesmaprogramaçãoaomesmotempo,oquefaz desse ato um fenômeno social,
emboraestejamos“sozinhos”quandoaassistimos.
Sua rica programação, entrando no espaço privado de nossas vidas, cria um elo
com milhares de outras pessoas, se pensarmos no compartilhamento dessas
atividades,ouseja,estamos sempredepossedeumadivisãodenossosespaços
privadoscomváriasoutraspessoas.
Essasociabilidadeépercebidaquandoaspessoascomentamnosgruposem que
convivem sobre determinados programas e percebem uma identificação entre si,
quando trocam experiências e opiniões com relação à programação discutida. Os
modismos, em relação ao vestuário, ao linguajar e ao comportamento induzidos
pelasprogramações,especialmenteasnovelas,tammmostramcomoatelevisão
estápresentenavidadaspessoas.
4 MEMORIALDEMARIAMOURA,aminissérie
Apesardasmúltiplasherançasculturaise artísticas européias,norteamericanas e
latinoamericanas, o Brasil acabou por desenvolver uma notável capacidade de
produzirumateledramaturgiacomidentidadeecaracterísticaspróprias.Jáháalgum
tempo, temosumaverdadeira indústria organizada voltada para a teledramaturgia
de excelente qualidade, nada ficando a dever aos países mais desenvolvidos na
área.
Comefeito,buscandoselecionar elementos do repertório das camadaspopulares,
mesclandoo com textos variados dentro da multiforme cultura brasileira, as
emissorasdetelevisãovêmutilizandoosmelhoresrecursoshumanoseastécnicas
eletrônicasmaisavançadasparaaobtençãodeproduçõesquesatisfazemaogosto
do blico, tanto nacional quanto estrangeiro, uma vez que vários países têm
compradonossasproduçõesemgrandeescala.
Umdosmodospreferidosderealizargrandesproduçõeséaminissérie,umformato
“comprometidocomaprópriaobraecomseublico,osópelousodosrecursos
técnicosnaprodução,maspelasuadimensãosocial”,comoavaliaaprofessoraAna
Maria Figueiredo. Como já mencionado, para a produção das minisséries, muitas
vezesaliteratura,nacionalouestrangeira,temsidousadacomofontederecursos;o
resultadoé,quasesempre,umsucessogarantido.
ComoconsideraFigueiredo, as minissériesproduzidas apartir de textosliterários,
principalmente temas de época, “se aproximam mais daquilo que reconhecemos
como qualidade artística,ao reproduzirem o sentido testemunhal da literatura”.
255
Háquesereconhecerograndevalordessasadaptações,poispossibilitamqueum
grandepúblicoconheçaoureconheçapeçasdaliteraturanacionaleestrangeirapor
meiodatelevisão.
No entanto, mesmo considerando esses benefícios trazidos por essas
programações,nemsempre,oumelhordizendo,quasenuncaéfácilaadaptaçãode
umaobraliteráriaparaaproduçãotelevisual.Ascondiçõesdequeserevestemos
cenários eequipamentos disponíveis paraasua montagem, por mais sofisticados
quesejam,sãoextremamentelimitadosparaconteroimagináriodoautordaobrae
tammdoseuleitor.
255
FIGUEIREDO,AnaMariaC.Op.cit.p.5253.
A minissérie objeto deste estudo,
Memorial de Maria Moura
, foi produzida e
apresentadapelaRedeGlobo,noperíodode17demaioa17dejunhode1994,e
reapresentada em 1998, tendo conquistado a opinião pública e alcançado uma
audiência que foi considerada detentora de um dos melhores índices registrados
entreasteleficçõesseriadasproduzidasatéentãopelaemissora.
Oroteirooriginaldeadaptação,assinadopeloscineastaseroteiristasJorgeFurtado
eCarlosGerbase,comacolaboraçãodeRenatoCamoeGlênioPovoas,resultou
emumaproduçãode24capítulos;porquestõestécnicas,provavelmente,teveseu
totalreduzidopara19capítulosnaminissérielevadaaoar.
Para dirigir a arquitetura e o desempenho das personagens e a execução e
finalizaçãodasfilmagens,aRedeGloboescalouosdiretoresRobertoFarias,Denise
SaracenieMauroMendonçaFilho.Nocasode
MemorialdeMariaMoura,
comoé
usual em minisséries e também em várias telenovelas, a emissora utilizouse de
uma direção múltipla, executada pelos três diretores com experiência em
teledramas,queporsuavezatuaramsobadireçãogeralclassificadanoscréditos
como direção artística”  de Carlos Manga, um experiente profissional de
reconhecidatrajetória comodiretordecinema,programas humorísticos e musicais
de televisão e outras minisséries e telenovelas da Globo, todas de impecável
qualidade.
Como resultado do trabalho dessa equipe na direção e do elenco criteriosamente
escolhido, a minissérie levou ao ar uma narrativa com força dramática, reforçada
pelo desempenho brilhante de Glória Pires  um de seus melhores trabalhos na
televisão – considerada perfeita no papeltítulo, a personagem Maria Moura, de
composiçãodificílima.
AlémdeGlóriaPirescomoaprotagonista,oelencoescaladopelaRedeGlobopara
a minissérie constituiuse de um grupo de atores com larga experiência, que
interpretaramoutraspersonagensdahistória:
MarcosPalmeira,comoCirino
ChicoDiaz,comoDuarte
KaduMoliterno,comoPadreJoséMaria
ZezéPolessa,comoFirma
ErnaniMoraes,comoTonho
OtávioMüller,comoIrineu
CristianaOliveira,comoMarialva
JacksonAntunes,comoValentim
BiaSeidl,comoBela
SebastiãoVasconcellos,comoJoãoRufo
JoelBarcellos,comoRoque
ZezéMotta,comoRubina
RubensdeFalco,comoTibúrcio
AntônioGrassi,comoAnacleto
RosamariaMurtinho,comoEufrásia
LuizCarlosArutim,comoTonico
RenataFronzi,comoAldenora
HélioSouto,comotioHércules
BeteMendes,comomãedeMariaMoura
CelsoFrateschi,comoLiberato
NelsonXavier,comoPadreMarcelino
RuthdeSouza,comoSiáMena
CamiloBevilacqua,comoAlípio
MiriamPires,comoGerusa
AriclêPerez,comoGertrudes
CléoPires,comoMariaMouramenina
LuiMendes,comoJardilino
IvoneHoffmann,comoDonaMocinha
CarlosGregório,comoDr.Silvino
SérgioBritto,comoEliseu
TherezaAmayo,comoJoaninha
VandaLacerda,comoDonaFrancisca
4.1Oprocessodetransposiçãode
MemorialdeMariaMoura
Para que umtexto literário se transforme em uma filmagem para a televisão, são
necessáriasváriasetapasparaconfiguraratransposiçãodemaneirasatisfatória e
compreensívelparaoblicoeomaisfielpossívelàsuafonte.Umadessasetapas
é a elaboração do roteiro, e ao seu responsável cabe grande parte dos cuidados
para que a adaptação seja bem sucedida. O roteirista é quem tem essa
responsabilidade,semdúvida,umaárduatarefa,umavezqueterádefazeraversão
danarrativadoromanceparaanarrativafílmicaoroteiro,quenarraahistóriada
maneiracomodeveserseguidaporatores,diretoredemaiscomponentesdaequipe
deprodução.
Essa equipe constituise de profissionais diversificados, que prestam a sua
colaboraçãoparaqueaproduçãocumpraharmoniosamentetodasassuasetapas.
Semdúvida,umdospapéismaisimportanteséododiretor,responsávelpeloplano
de filmagem a minissérie é construída principalmente pela leitura do diretor.
Embora a produção seja um trabalho de equipe, envolvendo atores, cenógrafos,
figurinistas, músicos, designers, iluminadores, operadores de câmera, editores e
outros profissionais, é da alçada do diretor a responsabilidade maior com as
questõesqueenvolvemafinalizaçãodatransposiçãodoroteiroàobratelevisual.
Para a produção do
Memorial
, ficou a cargo do diretor Carlos Manga a leitura do
romancedeRacheldeQueirozeacoordenaçãodaslinhasgeraisdeconstruçãoda
escritura do roteiro e da transposição de linguagem no processo de adaptação,
centralizandoedeterminandoaconstruçãotelevisualde
MemorialdeMariaMoura
.
Algunscríticosnaépocadatransmissãodaminissérie criticaramaleiturafeitapor
Manga, que preferiu dar à minissérie uma configuração com ares conotativos de
faroeste
, um pouco diversificada da preconizada pelo romance de Rachel de
Queiroz.Ajustificativaparaautilizaçãodessaestratégiafoiadequeseocenáriode
ambientaçãodoromance–acaatingafosseutilizadofielmente,aproduçãocairia
numlugarcomum,jádeusomuitorepetidonaépoca.
Os atores designados para compor o elenco da minissérie tiveram um excelente
desempenho, construindo personagens fortes, embora sem o
glamour
que é
esperadoemumaproduçãodessaenvergadura,masque,muitasvezes,empobrece
a qualidadeartísticade uma produção. Com isso, atores e atrizes, especialmente
algunsdeles,presentearamostelespectadorescomumainterpretaçãoà altura do
enredopropostoporRacheldeQueiroz.
A minissérieiniciasede modoidêntico aodo romance,
in media res,
em idêntico
momentodahistórianolivroachegada do padre fugitivoà Serra dos Padres, a
caminho da CasaFortedeMariaMoura,ondepretende encontrála, após longae
complicadafuga.Comojácitadoanteriormente,hánoromanceumaalternânciade
narradores a cada capítulo, que seria impraticável na narrativa fílmica. Assim,
enquantonaqueleanarrativaé fragmentada a cadanovo narrador,nesta atrama
temumacontinuidadeque,àprimeiraimpressão,poderiadescaracterizaroenredo,
masissoevidentementenãoaconteceu.
Nanarrativadolivro,oprópriopadrefugitivonarrasuachegadaemprimeirapessoa
à Serra dos Padres numa ação de tempo presente, cujo fluxo narrativo é
interrompidoporMariaMoura,queprovocaumretornoaopassadoapartirdoquarto
capítulo. De forma semelhante, o padre, depois de narrar o terceiro capítulo já
transmudado em beato, só retoma a condição de narrador no capítulo 13, num
movimentotammderetornoaopassado,voltandoàépocaemqueerapárocode
VargemdaCruz,enarrando,apartirdaí,suatrajetóriaatéachegadanaSerrados
Padres. Ambas as narrações utilizamse de interrupções temporais de retorno ao
passado dentro de outros movimentos de retrocesso temporal, nem sempre em
seqüênciacronológica.
Noroteiro,anarraçãoprovocaumúnico significativo movimentotemporal,nofinal
da seqüência das três cenas iniciais, quando Maria Moura, depois de acolher o
padre,noalpendredaCasaForte,tiradobolsoeobservapensativaosaquinhode
umadas“cincomarias”,brinquedoguardadodesdeodiaemqueoganhou,ainda
criança,utilizadonaminissériecomoelementosimlicoemdiversasoportunidades,
comoreferênciadeidentificaçãodapersonagemcomoseupassado.
Acenaseguinte,passadaemVargemdaCruz,maisdoquepromoverumretornoao
passado,parecesituaroiníciodahistórianainfânciadeMariaMoura.Apartirdaí,
ostrêscleosdramáticos,deformasemelhanteàusadanoromance,conduzema
narrativa, desenrolamse e entrecruzamse, entretanto, em ações de tempo no
presente,semoutrasrupturasdefluxotemporalsignificativas.
Atendênciaeatéumanecessidade–queoroteirotemdesimplificareintegraros
núcleosdramáticosdahistórianummesmoplanotemporaljustificaousodacâmera
paraindicarofoconarrativodaadaptação;esteéumrecursobásicodoinstrumental
da televisão, em substituição à presença do narrador, figura esta que raramente
aparecenasproduçõestelevisuais.
No caso da obra de Rachel de Queiroz, em que a narração é feita por várias
personagens e de maneira alternada, seria extremamente complexo manter um
esquemaquetivesseumnarradorprevistodentrodoroteiro,poiseste geralmente
temumalinearidadenarrativaaserseguida.Portanto,namontagemdaminissérie,
sob o olhar da câmera, que exerce o papel de narrador, as personagens relatam
suashistóriaspormeiodosdiálogos,orientadasapartirdomesmofoconarrativo.
Essa função da câmera decorre do fato de que, enquanto no texto literário o
narradorrelataaoleitortudooqueenvolvesuasaçõesouasdeoutrapersonagem,
nasnarrativasfilmadasénecessáriomostraraspersonagensemsituação,emcena,
em certa seqüência prevista no roteiro; essa trama é concretizada pela ação da
câmera,comoexplicaoexperienteroteiristaecineastaDocComparato,dizendoque
“acâmeraoéumobjetoestático;comoprolongamentodoolhohumano, realiza
todos os movimentos que o homem deseja, já que foi inventada para ampliar o
alcancedasimagensegraválas”.
Oroteiristacomplementa,dizendoqueacâmeraémuitoversátilepodepenetrarem
locaisdedifícilacesso:“voa,corre,olhaporbaixo,porcima,delado,[...]aproxima
sedosobjetos,tornaseíntimadapersonagem”.
256
256
COMPARATO,Doc.Op.Cit.p.312.
ComoconfirmaPallottini,a câmeradescreve,mostra o localerevelaa seqüência
cronológica;marcaumaépoca,umclimaeumambiente;fazoespectadorvercertos
acontecimentos,àsvezesmaisemelhor doquese fossemnarradospelo diálogo,
mas é “apenas a máquina a serviço de um organizador. [...] A narração total, o
conjuntoformadoporáudioevídeo(criadosapartirdopontodevistadonarrador
onisciente)éoqueproduz,afinal,todaahistória”.
A autora também observa que a câmera tem ainda a função de caracterizar a
personagem,aoutilizarenquadramentoseposiçõesdetomada–porexemplo,uma
vista de baixo para cima ou de cima para baixo , e compor o arranjo cênico
narrativo previsto na história. Assim, com o auxílio do áudio, atribuemse à
personagem características básicas – de herói ou vilão, vencedor ou perdedor,
ingênuoounão;osrecursosdeáudioevídeo,comomúsicatema,aberturadasérie
efocalizaçãoemcenapossibilitamcaracterizarperfeitamenteapersonagemdentro
datrama.
257
Dessa maneira, ocultando ou explicitando algum fato, utilizando determinadas
posições, cortes ou ângulos de filmagens, a câmera também possibilita a
manipulaçãodecenas,comoaquemostraamortedamãedeMariaMoura,emque
o enquadramento indica com sutil clareza a presença de alguém no quarto, ao
mostrarocamporestritodoolhardeumassassinonãorevelado.
Como ensina Comparato, a câmera penetra em locais inacessíveis com todos os
seusrecursoseenquadramentos,oschamadosplanos,classificadosdefixoseem
movimento. Os principais planos fixos são:
close up
ou primeiro plano, quando o
objetoestápróximoeémostradoemdetalhe;planomédioouamericano,emqueo
objeto está a meia distância, e plano geral ou
long shot
, usado para mostrar um
grandeambienteouumlocalamploesituaroespectador.
Osprincipaisplanosusadosemmovimento,ou
movingshots,
quepodemcombinar
secomosfixos,são:
dollyshot,
quandoacâmerasemovimentaemsentidovertical
257
PALLOTTINI,Renata.Op.cit.,p.171172.
ou horizontal, aproximase ou afastase, ou ainda retrocede, deixa a cena e
desaparece. Quando a câmera acompanha um objeto, animal ou alguém que se
movimenta,temoso
travellingshot
;paraprojetarumacenaatrásdaspersonagens,
usaseo
processshot
.
Acâmerapossuiaindaorecursodosefeitosóticos,quepontuam,abremoufecham
umacena,comoocorte,quefazapassagemdiretadeumacenaparaoutra;o
fade
in
,emqueaimagemvaiaparecendosobreumfundoescuro;o
fadeout
,emquea
tela vai escurecendo gradualmente, até a imagem desaparecer; o encadeamento,
quefazafusãodeduasimagens;acâmeralentaou
slowmotion
,quepermiteque
os movimentos se tornem lentos, perdendo a velocidade, e o congelamento ou
freezing,
queimobilizaaimagem.
Háaindaváriosrecursosquepodemserusadosparatornaratramaemocionanteou
mais compreensível, como um movimento usado em uma cena da minissérie
Memorialde Maria Moura
paramostrar uma grande passagem de tempo. Em um
dadomomentodapassagemdainfânciaàjuventudedaprotagonista,elaseabaixa
–éaindamenina;quandoselevanta,jáéumamoça.
258
Evidentemente, a câmera é apenas um instrumento a serviço de um organizador,
comoalertaPallottini.
259
Pordetrásdecadaumadascâmerasquesemovimentam
na narração da história, está a sensibilidade e o resultado do trabalho de uma
equipeprofissionaldiversificada,emqueotextodoroteiroésomenteopassoinicial
deumasériedeetapasdaprodução.
Deformaresumida,provavelmentefoiassimqueFurtadoeGerbase,assessorados
pelos dois colaboradores, procederam à construção do roteiro; a partir de suas
leituras danarrativa deRachel, fragmentaramem cenas o ficcional apreendido do
romance, estruturandoas em seqüências que o cruzando as ações que dão
andamentoàshistóriasqueseentrecruzamnoromance.Essaarticulaçãodo fluxo
dramáticodaadaptaçãoéfacilitadapeloprópriotextooriginal,noqualaescritorajá
desenvolve umanarração pontuadaao alternar a exposiçãodosnarradores Maria
258
COMPARATO,D.Op;cit.,p.312.
259
PALLOTTINI,R.Op.cit.,p.171172.
Moura,MarialvaeBeatoRomano–cadaumcontandosuahistória,queemmuitos
momentoscruzacomadosoutros.
Essafoipossivelmenteaestratégiaescolhidaparapassarparaanarrativafílmicaa
alternânciadosnarradoresnoromance;assim,quandoháumapassagemdeuma
históriaparaaoutra,acâmerafechasobreacenadahistóriaeabreemumacena
daoutrahistória,indoevoltandodeumaseqüênciaparaoutra.
Alémdisso,acaracterísticadedensidadeeriquezadeaçãodramáticadanarrativa
de Rachel como uma marca de presença constante e diversificada nos
acontecimentos que narram o romance, revela uma história de muita ação e
carregadadefortesemoções,oqueseconstituinumaespéciedenarrativaquese
adaptacomfacilidadeàficçãotelevisual,naqualaaçãotemfunçãopredominante.
Essa estrutura, assim simplificada, é de fato mais adequada como referência e
modelo paraoestudodeconstruçãodoroteirodeumfilme,tendoemvistaa sua
característica de obra unitária e completa. Toda imagem tem seu tempo de
exposição,clímaxerecepção.Nemmais,nemmenos.
Quantomaisaligaçãoentreduascenassubseqüentescaracterizeverossimilhança
enaturalidade,maiscasualpareceacontinuidadedaaçãoemaisverossímilparece
tornarse o ficcional. Para que isso aconteça, é necessária uma sofisticação do
instrumental para a construção da trama e, em especial, da curva dramática, à
medidaque se aplica a sobreposiçãodelinguagens e a manipulação de diversos
elementosnarrativos,algunsdediferenteorganizaçãoestrutural.
ComoinformaFrança
260
,adeliberaçãodaGlobo de contratarFurtado eGerbase
para a escritura do roteiro da minissérie reforça a proximidade pretendida com a
linguagem cinematográfica, já identificada em relação à participação de Carlos
Manga na dirão da obra. Em 1994, tanto Furtado como Gerbase já traziam na
bagagemprofissionalumaexperiênciarelevanteemproduçõesfílmicas,decurtase,
especialmenteocineastaGerbase,longasmetragens.
260
FRANÇA,IvoR.A.,Op.cit.,p.111.
Furtadosomava,naépoca,tambémaassinaturaderoteirosdeváriasteleficçõesda
Globo construídas como adaptações de clássicos da literatura brasileira para
programasunitários,dentrodeprogramasespeciais,como
Oalienista
,deMachado
de Assis,
O coronel e o lobisomem
, de José Cândido de Carvalho, e também da
minissérieemquefoiadaptadooromance
Agosto
,deRubemFonseca.
Por ocuparem o espaço de um produto considerado pela emissora como
programação de padrão nobre, com potencial de qualidade de produção,
aproximado ao modo de produzir fílmico, as minisséries são privilegiadas com
equipes especiais de produção, suporte tecnológico e tempo de produção
delimitado,masplanejadoedimensionadoparagarantiropadrãopretendido.
Ainda segundo França, odiferencial em
Memorial de Maria Moura
é que há uma
composição de conhecimentos fundamentais de filmografia e televisão de Manga,
Furtado e Gerbase que possibilitaram o resultado visto na obra finalizada, que
mostrou ainda,na versão final, a contribuição final da experiênciae o domínio de
produçãodeficçãotelevisualdosdiretoresDeniseSaraceni,MauroMendonçaFilho
eRobertoFarias.Ostrêstêmproduçõesrealizadastammemcinema, mas,por
intermédio de Denise, a equipe conta com uma larga atuação nas teleficções da
Globo.Isso,semconsideraracontribuiçãodosatores,experientestambémemfazer
cinemaetelevisão.
No tocanteao espaço usadona minissérie,a direção da produção optou por o
ambientaranarrativanosertãonordestino,afimdefugirdousodeumcontextojá
desgastado – uma paisagem longínqua, árida, marcada por seca, caatinga e
desolação, que redunda numa questionável acepção única de Nordeste como
sinônimodesertão.
AaçãotranscorrenumBrasilcolonial,rural,distanciado,sim,mas,deacordocomos
agradecimentos constantes dos créditos no final do filme, subentendese como
principallocaçãodasfilmagensacidademineiradeTiradentes,comlocaçõesainda
nas cidades de Nova Friburgo e Teresópolis, no Rio de Janeiro, e tamm a
ChapadadoOuroPretoePrados,ambosemMinasGerais.
Como escolha dos cineastas, pelo roteiro da minissérie seria possível essa
mudança;noromance,ocaminhotrilhadoporMaria MouranorumodaSerrados
Padres deixa presumir possíveis deslocamentos por espaços que podem ser
identificadoscomoregiõespertencentesaosestadosdoCeará,Pernambuco,Piauí,
ouaindaAlagoas,BahiaouMinasGerais.
Emboraahistóriaaconteçaexplicitamentenosertão,RacheldeQueiroznãorelata
em
Memorial deMariaMoura
asdificuldades de uma região castigada pela seca,
uma vez que não é tema desse romance, como em
O quinze
. Na minissérie, a
seqüência dosacontecimentossedáemambiente rural,indicandoquea saga de
MariaMouraacontecenoNordeste,maspoderiateracontecidoemoutrolugar.Isso
atestaqueépraxedeRacheltratardedramasinerentesaoserhumano,aindaque
situados em uma região típica, o que confere à sua ficção uma dimensão
humanísticadecunhouniversal.
Asúnicasmarcasdeespaçoeambientepresentesnoroteirosãoasmesmasque
definemageografiaficcionaldoromance,preservadaeincorporadapelaminissérie
sem alteraçõessignificativas.Alémdetodos os ambientes que servemde cenário
para ahistória  cidades, vilas e veredas , na minissérie também se pode ver a
Serra dos Padres com os serrotes que caracterizam o lugar, cenário que se
materializacomoumíconedaterraprometida,perseguidaporMariaMouradesde
um tempo quando, ainda criança, ganha do pai uma simulação em miniatura da
Serraentalhadaemmadeira.
Sealocalizaçãogeográficanãoéexplicitada,porsuavezomomentohistóricoem
queocorreaaçãoésituadodeformaobjetivapordiversasvezesnodesenrolarda
história, embora o haja um detalhamento de como a contextualização histórica
devesercaracterizada nos seus mais diversos aspectos; aarquitetura colonialde
Tiradentesofereceuasoluçãodeespaçoparalocaras vilasecidadesemque se
deslocam as personagens, mas é importante ressaltar as importantes ões que
envolvemocontextohistórico,comooassaltodobandoaofuncionáriodoGoverno
Imperial,ojornalcomnotíciasdacortequeopadreJoséMarialêparaa donada
pensão, a explícita prática escravocrata ou a utilização das forças da Guarda
ImperialnoembatefinalcomMariaMoura.
Comonoromance,ahistóriatamm está situadanomomento históricodoBrasil
Império,contextoqueanarrativadeRacheldeixaentrever,deumaformaumpouco
mais precisa, embora indique vagamente alguns fatos que levam a crer que o
períodosituaseaproximadamenteentre1840e1850.
Com relação à linguagem, como informa França, a fim de valorizar “as fronteiras
físicasdoficcionalparaalémdosertãonordestino,indicandoumruralsertanejo,as
personagensnaminissériesãoconstruídasutilizandodiálogossemaacentuaçãode
sotaquesoumarcasfonéticasesemânticasdeumaregiãoespecífica”;
261
notase
que, nessas falas, usase uma linguagem que lembra “um padrão do rural não
nordestino, que resvala, por vezes, em um sotaque caipira, utilizando expressões
como
bão, vredade, anssim
ou
vorta, inhora
. Há personagens, como o caboclo
Jardilino, em que a fala com erros de português provavelmente faz parte da
performance,oquenãorepresentaocasodamaioriadaspersonagens”.
262
Com relação ao roteiro, podese considerar o texto de Furtado e Gerbase bem
resolvido, ao trazer para a adaptação soluções ficcionais de deslocamento das
personagensededesdobramentodaaçãojáconcebidasporRachel,contemplando
conteúdoseclímaxdramáticosvalorizadosnoromance;poroutrolado,aadaptação
deumaparaoutralinguagemimplicoutambémemalgumasmudançasdeenfoque
dramático e de orientação de determinados conteúdos e personagens com o
objetivo de atender à especificidade da televisão e da recepção característica da
culturademassa.
Dessa maneira, a trama na minissérie reproduziu a ação dramática do romance,
acrescentandolheumtommelodramático,massemexageros,demodoasuscitara
emoção do telespectador, que assim, esperase, reage com menor resistência ao
conteúdodarecepção.
261
FRANÇA,IvoR.A.,Op.cit.,p.117.
262
FRANÇA,IvoR.A.,Op.cit.,p.118.
4.2Dolivroàminissérie–ospontosdecontraste
Anarrativausadanoromancefacilitaavalorizaçãodasaçõesmaisemotivas,poisa
história do livro
Memorial de Maria Moura
expõe suas personagens a dramas
densos.Comisso,napassagemdoromanceaoroteirodaminissérie,osbonsficam
visivelmente melhores e, principalmente, os maus ficam visivelmente piores. O
confrontoentreobemeomalébastanteexplícitonoromance,masaspersonagens
deRachelnãogiram exclusivamenteemtornodesseembate. Relatadapor várias
vozes narradoras, a ação noromance temdiluída a possibilidade demanipulação
maniqueísta,emboranãofiqueisentadissoporcompleto.
Adualidademaniqueístaentrebememaléreforçadanaversãotelevisual,quese
sustenta, já desde o roteiro, na extensão de alguns conteúdos dramáticos, na
inserçãodenovasaçõesdramáticasenarevalorizaçãodedramasepersonagens
que, no romance, têm significações de menor importância; percebese isso no
desenrolardasaçõesquereforçamoantagonismodebonsedemauselevamaum
dramáticoconfrontofinal.
A trajetória da personagem Firma, mulher de Tonho, primo de Maria Moura, por
exemplo, passa por mudanças e intensificação na ação dramática, resultando em
revalorizaçãodapersonagem. Noromance, emboraseperceba nitidamente o seu
domínio sobre o marido e sobre as ações que vai desencadear, Firma tem uma
participaçãocoadjuvantenanarrativa,depoucasignificação.Jánaminissérie,sua
participaçãotemumaevoluçãotaldentrodahistóriadaadaptaçãoquechegaase
transformarnaprincipalantagonistadeMariaMoura.
Exemplo disso é a seqüência mostrada quando os jagunços deixam a cidade de
Bom Jesus das Almas, rumo ao ataque à Casa Forte, tendo Firma à frente do
comando de uma ferrenha e psicótica perseguiçãoaMaria Moura, o que tamm
nãoocorrenoromance,nemporFirmanemporninguém.Nanarrativadoromance,
ocorreumaperseguiçãoaMoura,promovidapelosprimosTonhoeIrineuealguns
jagunços,envolvendoasaçõesdeataqueaosítiodoLimoeiroeumaoutrainvestida
deIrineu,aindanaprimeirapartedanarrativa;depoisdaconstruçãodaCasaForte,
Tonho,IrineueFirmanãoretornamàhistória.
HátammumconflitocomopaideCirino,oamantedeMariaMouraaquemela
haviamandadomatar,masnadacomparávelàseênciadaminissérie,naquala
açãodramáticaefimànarrativa,inserindoumaperseguiçãoeocercodeMaria
Mouraemaçãoúnica,comseusváriosantagonistasatacandoconjuntamente.Estes
formam um grande grupo, composto pelos primos ambiciosos, capitaneados por
Firma, com a ajuda do pai de Cirino e da Guarda Imperial, que compareceu ao
ataque a mando de um funcionário público do alto escalão; este, que havia sido
assaltado pelo grupo de Maria Moura, era primo de Eufrásia, tia de Anacleto, o
maridodeBela,aamantedopadreJoséMaria.
Eufrásiaéoutrapersonagemque,malaparecendonoromance,tornasevalorizada
naadaptação,ganhandodestaquecomoprincipalpatrocinadoradaperseguiçãoao
padreeaMoura,emaçãodecumplicidadecomFirma.
Outro ponto a ser considerado é que o romance possui personagens que se
movimentamemtornodetrêsprincipaisnúcleosdeaçãodramática:astrajetóriasde
Maria Moura, Beato Romano e Marialva. Os dois capítulos narrados por Tonho e
um, por Irineu, permitem que essas personagens configurem um núcleo de ação
dramáticadeantagonismoaMariaMouraapenasnoiníciodahistóriadoromance.
Na minissérie, reforçada pela já citada valorização de Firma, a trajetória de
perseguição dos primos estendese até o final da narrativa; ocorre até um grave
acidentecomaantagonista:emconfrontocomDuarte,elarecebeumtironaperna
que vai resultar em sua amputação, ali mesmo no acampamento. O espectador
podeacompanharessaoperaçãoexplicitadaemumacenadealtoimpactoque
nãoécitadanoromance.
Poroutrolado,nolivro,atrajetóriadeperseguiçãoaopadreperdeimportânciana
históriadepois dachegadaà SerradosPadresoéele o objetoda traição de
Cirino, e sim um conhecido a quem Maria Moura oferece proteção. Outro ponto
diferenciadonaadaptaçãorefereseaoespaçodadoàpersonagem Eufrásia,atia
domaridotraídosuatrajetóriaéampliadatammatéaperseguiçãofinal,emuma
açãodealiançacomosprimosdeMariaMoura.
Na minissérie, essa perseguição tem a adesão do pai de Cirino, dando origem à
criaçãodeumquartonúcleodramáticoenquantonoromance,háaconfiguração
detrêsnúcleosapenas–noqualsemovimentamaspersonagensquelevamMaria
Mouraaenfrentaraapoteóticalutamortaldofinaldahistóriaadaptada.
A valorização das personagens Firma e Eufrásia são os principais exemplos de
extensão de ação dramática e de valorização de algumas personagens na
minissérie. Semelhantemente, há ainda as trajetórias das beatas Gertrudes e
Gerusa, que tamm ganham maior visibilidade na história do roteiro e
desempenhamumpapeldemaiorexposiçãoeimportânciadoquenanarrativade
Rachel.
Emcontrapartida,nopercursodopadredeVargemdaCruzàSerradosPadres,há
uma supressãodeaçõesdoromance que não são aproveitadas pelo roteiro,mas
que o comprometem a reconstrução da personagem, nem tampouco são
imprescindíveis para o desenrolar da narrativa. É, entretanto, nas ações que
envolvem os deslocamentos de Maria Moura e do padre que estão centrados os
principaisfocosdemudançadahistóriadoroteiro.
Como já citado em outro capítulo, Rachel de Queiroz construiu em seu romance
umaMariaMouraqueteveumainfâncianormalatécertomomento;amenina,órfã
emtenraidade,aotornarsejovem,foiprecocementeobrigadaalutarporsuavida,
sua honra e sua propriedade. Vivendo numa sociedade patriarcal, assumiu uma
posturamasculinizadapara conseguir seusintentos. Essa dimensão masculina na
composiçãodapersonageméutilizadanolivroporRacheljánacaracterizaçãoda
infânciadeMariaMoura;desdepequena,elanãogostavadebrincarcomasoutras
meninas,poiseram“bestalhonasemedrosas”:
Éque,prafalaraverdade,amarchabatida,fugindo,seescondendo,
estava me moendo o corpo. De menina eu já andava a cavalo e
sempreescanchada.Paidiziaqueeupareciaumcabramachoelogo
queficassemoçatinhaqueaprenderaandardelado,comoasoutras,
numsilhãoouemandilhas,dasantigas...
263
Nafilmagemdaminissérie,apassagemdainfânciaàadolescênciadasinhazinhaé
indicadaporumrápidodeslocar da câmera, paramostrar um avanço temporal da
narrativa:numacena,ameninaaparecedefrente,aoladodacunhãZita,tamm
menina,enquantolidam com quiabos sobre uma tábua de cortar.Apoiadaem um
movimento da câmera, abaixase ate o chão para pegar algo; quando se ergue,
quem surge é uma jovem já crescida, tendo ao seu lado uma Zita também mais
velha.
Atéamortedamãe,aminissérieapresentaumaMariaMouraqueandadescalçae
não demonstra preocupação com o vestir, caracterizando um comportamento
adequadoaumaadolescentesertaneja.Parecehavermuitomaisaintencionalidade
de representar uma mulher rústica e ingênua do que um objetivo de caracterizar
umaposturaidentificadaaumjeitomasculinodeser.
A menina ingênua, após o avanço temporal mencionado, transformase em uma
adolescentearredia,desconfiadaeinsatisfeitacomapresençaeocomportamento
dominador do padrasto. A minissérie, por uma questão de continuidade, valoriza
essetrecho,aocontrário doromance,noqualessasinformações são diluídasem
diversosmomentosdanarraçãodeMariaMoura.
Noromance,apósamortedamãe,osentimentodecontrariedadedeMariaMoura
transformase em dor, num primeiro momento, depois, num misto de suspeita,
desolaçãoecarênciae,maistarde,emlascívia,diantedoassédiodeLiberato,que,
afinal,eraumhomembonito.Anarraçãodaminissérietambémvalorizamaisesse
relacionamentodoqueoromance,porumaquestãodecontinuidadeetammde
fixaçãodahistória,dentrodeumatendênciadevalorizaçãodasaçõesqueenvolvem
umrelacionamentoíntimoousexual,indicandoumatendênciadeusodosmeiosde
comunicaçãodemassanasúltimasdécadas.
263
QUEIROZ,Rachel.Op.cit.,p.87
Entretanto,depoisdaprimeirarelaçãosexualentreosdois,aceitaporelaapósser
seduzida, asoutras duas cenas desexo mostradas na minissérie caracterizamse
comoestupro;comisso,aadaptaçãoindicasuaculpa,gerandoumdistanciamento
entreocomportamentodaMariaMouratelevisualeodaMariaMouradoromance.
AminissériemostraaindaumLiberatonãotãobonitoemaisdependentedoálcool
quantooromance faz crer,indicandotamm que, no relacionamento sexual que
manmcomela,agesempredeformaviolenta,agressiva,carnal,enfim,destituída
de afeto. O romance não mostra esses detalhes, nem tampouco sugere que a
emboscada a Liberato tenha algum vínculo com a rejeição afetiva ou sexual de
Mouraaofalsopadrasto–naverdade,asinhazinhaéiniciadanomundodocrime
pelosentimentodemedoqueainduzaumasituação,paraela,semalternativas–
“eraouele,oueu”.
264
Pressionadapelopadrastoaassinarumaprocuraçãoquepõeemriscoapossede
suapropriedade–osítioondemora,MouraseduzocabocloJardilinoeoinduza
matar Liberato, prometendo casarse com ele como recompensa. Seu intento é
realizado,masoutroproblemaseimpõe:mortoLiberato,éavezdeJardilinoacuar
Maria Moura.Denovo,a personagem sevêdiantedeumasituaçãoemqueou é
ele,ouela.
Moura novamente planeja comcuidado umatrama, fazendo facilmente João Rufo
acreditarquealguémvemtentando,porváriasnoites,invadiroquartodela.Jardilino
assimémortoememboscadapelocaseirofieleprotetor,quesupunhaseroinvasor
algumforasteiroperigoso.
Em todo esse trecho que vai da morte de Liberato à de Jardilino, a história da
minissérie é construída em estreita proximidade à do romance. Como em outros
momentos que serão destacados adiante, a Maria Moura do romance é
caracterizada a partir de um perfil comportamental de maior sutileza que o da
minissérie.
264
QUEIROZ,Rachel.Op.cit.,p.24
Quando Jardilino é assassinado, não se constata arrependimento, mas comoção,
emambasasnarrativas,comomergulhardapersonagememprofundopranto.As
cenas de choro intenso marcam, na minissérie, momentos de desesperança da
personagem na sua busca pela felicidade: a morte da mãe, o assassinato de
Jardilino, o esfaqueamento da mucama alforriada Rubina, que só acontece na
adaptação,eatraiçãoemortedoamanteCirino.
Permanece fielmente, na passagem do romance à versão televisual, a obstinada
determinação de chegar à Serra dos Padres e lá construir a Casa Forte. Fica
evidente tamm o desejo de encontrar o ouro escondido, desejo esse
compartilhado pela personagem Firma, o que a torna uma forte antagonista
inexistentenoromance.
Oritodepassagemdesinhazinhaalíderdeumbandoconstituídosóporhomensé
focadosimbolicamente,naproduçãotelevisual,pelacolocaçãoporMariaMourade
umafaixadetecidoenroladana cabeça,enquantono romancearepresentaçãoé
feita pelo corte de seus cabelos. Em contrapartida, na minissérie é mantida a
trajetóriadeescaladaaopodercomqueéconstruídaapersonagemnoromance.
Nas ações internas à Casa Forte, a narrativa televisual é construída em estreita
proximidadeànarrativadoromance,jáquetammmostraumaespéciedepoder
feudal da parte de Maria Moura para com seus cabras. Nas ações externas, a
minissérietambémmostraomodelodobandidosocialparaelaeparaoshomensde
seu bando, mas as relações de poder revelamse no desempenho marcados por
certotomdemaniqueísmo,decorrentedalinhadeaçãoquepercorreaadaptação.
PararepresentaressadimensãodepoderdeMariaMoura,aminissérieutilizasede
alguns recursos particulares  os enquadramentos fechados na personagem, o
posicionamentodaatrizemlocaismaisaltos,comacâmerafilmandodebaixopara
cima.Anarrativatelevisualmostratambémalgumascenasemqueo desempenho
deMariaMouraéassociadoàviolência,mas,deumaformageral,elapreconizaque
obandonãoferenemmataninguémgratuitamente.
Aexemplodoromance,aMariaMouradaadaptaçãonãocostumasujardesangue
humano as próprias mãos;há uma única situação em que utiliza umaescopeta e
atira em defesa própria, numa seqüência da história que atende a um conflito
inexistente no romance. A escritora Rachel de Queiroz questiona esse desvio: “A
Moura,nolivro,éumamulhersutil.Nuncamatacomasprópriasmãos.Natelevisão,
elavirouassassina,atirandodeescopeta”.
265
Com relação ao romance com Cirino, no livro, como todos os outros
relacionamentos, a escritora Rachel de Queirozrelata discretamente os encontros
dosdois.Aminissérie,aocontrário,supervalorizaosencontros.Umexemplodissoé
a atitude de Moura ao amanhecer, depois da primeira noite de amor com Cirino:
antesdedeixaroquartodoamante,elatira,emfrenteaoespelho,afaixadepano
queocultaseuscabelos,olhandosuaprópriaimagemdemulherapaixonada,coma
músicatemaaofundo.
Possuidor de mau caráter, Cirino tamm planta, na minissérie, a semente da
discórdia, da ruína e da derrocada da fortaleza, como no romance, traindo por
dinheiroamulheramada.Atraiçãofazsofreramulherapaixonada,mas,aomesmo
tempo,fazreagiradonzelaguerreira;essatraiçãoécontadademaneirabastante
diferenciadanoromanceenaminissérie.
Noromance,emtrocadeumagrandequantiadedinheiro,eleentregaaosinimigos
um homem importante que estava escondido na Casa Forte, sob a proteção de
MariaMoura;paraconseguirlevarohomem,elematapessoasaquemelaestimava
muito.Naminissérie,CirinomataojovemNovatoeMestreLucae,posteriormente,
Rubina,mãe de Duarte; ataca também o Beato Romano,que se retirara para um
retiroespiritualnacasadeMestreLuca,afastadadaCasaForte.
QuandoMariaMouraeseushomensdescobremamortedeMestreLuca,Cirinodiz
quefoiDuartequehaviasaídoemviagem,quemomatoueMariaMouraacredita.
Quando Duarte volta, semsaber do ocorrido, Maria Moura manda enforcálo pela
traiçãoeporpoucoissonãoacontece.
265
AstrêsRachéis.Op.cit.,p.34.
Quandoeladescobriuaverdade,denovodiantedeumasituaçãoemqueouéele,
ouela,Maria Mouradecideaplicaraleida CasaForte: eletem que pagar coma
vida. Em entrevista a Hermes Rodrigues Nery, Rachel fala sobre a inspiração na
vida da rainha Elisabeth I: Foi exatamente o que a rainha fez quando mandou
decapitar seu favorito, Robert Dudley, conde de Leicester, que a traiu
vergonhosamente”.
266
ComrelaçãoaoromanceentreMariaMouraeDuarteedelaeCirino,nãohánovas
construçõesna minissérie, mashá outras mudanças, no sentido deredirecionar a
história.EmrelaçãoaDuarte,todasasaçõessãocontextualizadasdeformamuito
semelhanteem ambasas narrativas; o que muda são as diferentes percepções e
reaçõescomquea“SinháDona”encaraatraiçãodeCirino.
No romance, após a decepção com o homem amado, Maria Moura reage sem
esboçar qualquer comportamento melodramático. Decide, então, pela morte do
traidorcomoformadesalvardadesonraamísticabandoleiradaSerradosPadres,
demonstrando seu poder e sua força, na vingança ao desrespeito à lei da Casa
Forte.
Mantendo a característica das personagens de Rachel de Queiroz, antes de
Valentimatirarumadesuasfacasemdireçãoaopeitodotraidor,MariaMouratem
comCirinoumaúltimanoitedesexoeamor.Tantonoromancecomonaminissérie,
a última noite de sexo e amor entre Moura e Cirino é marcada pela dor da
despedida,massóelasabeserdefinitiva.Éimportanteconsiderarqueasaçõesde
sexoentreMariaMouraeCirino,aindaquemaisdetalhadasecontundentesdoque
noromance,nãochegamaconfigurarexageronaversãotelevisual,emborasejam
bastanterealistas.
As duas vezes em que acontece um momento de intimidade sexual entre ela e
Duarte são apenas insinuadas, numa atitude adequada aos limites da relação
traçadosporela.NarelaçãocomCirino,elatammtraçaolimitedamortediante
da traição, construção narrativa valorizada pela versão televisual, embora a
266
NERY,HermesR.Op.cit.,p.120
adaptaçãonãotragaàtonadenovoabandoleirapoderosa,comonoromance;pelo
contrário,imprimeumtompesarosoàsaçõesqueseseguemàmortedeCirino.
OutronarradorimportanteéoBeatoRomanoque,nosúltimoscapítulosdoromance
apresenta uma crise reflexiva, mergulhandoo nos conflitos das contradições
geradaspela duplaeambíguarealidadeinteriordepadre e beato. Oromanceé
concluídocomobeatoassumindoaposiçãodelíder espiritualdobandodeMaria
Moura e apenas seguindo na condição de capelão na empreitada do perigoso
assaltoqueconcluianarrativa,semconcluirahistória.
Naminissérie,depoisderesgatadodadelegaciadeBomJesusdasAlmas,ondevai
pararporcausadatraiçãodeCirino,padreebeatodãolugaraocidadãoJoséMaria,
quedeixaaCasaForteepartenamissãodelibertardojugodeEufrásiaogaroto
Zequinha,filhodaamantemorta,comoumaformadeexpiaçãodosseuspecadose
departidaparaumnovorumodevida.Comocrimeesclarecidoetidocomomorto,
José Maria, antes alcunhado `anticristo´, é aclamado pelas beatas, que se dizem
diantedeummilagreaoencontrálonaigrejadeVargemdaCruz.
Num final típicode umahistória deaventuras, a adaptaçãoconclui a trajetória de
JoséMariananarrativacomeleeZequinhamontadosnumcavalo,desaparecendo
cena afora, rumo à nova vida. Alterações como essas acabam por implicar
mudanças também no discursodas personagens que, mesmo que não sejam tão
significativas na personagem do padre, parecem ter significações maiores no
trânsitodapersonagemMariaMouradoromanceàdatelevisão.
Outrofatoradestacaréque,naminissérie,osacontecimentosqueenvolvemsexoe
violência ganharam maior amplitude, revalorização ou inserção de novas ações,
umavezqueessaéumapráticanormalnasproduçõestelevisuaisparadarmaior
visibilidadeoureforçoànarrativa.
No romance, ao contrário, esses fatos são, na sua grande maioria, apenas
sugeridos;essaéumacaracterísticadotextodeRachel,quenãoédetalhistanem
nanarraçãonemnadescriçãodasaçõesqueenvolvemsexoeviolência,aoser,
nocasodessaúltima,quandoaagressãoassume a dimensãodequestionamento
social.Éassimem
Memorial
de
MariaMoura
enosseusdemaisromances.
No tocante às ações que enfocam lutas, notamse mais momentos dramáticos
envolvendo mortes violentas na minissérie do que no romance. Como exemplo,
podesecitaraaçãoemqueosprimosdeMariaMouravoltamaoLimoeiro,depois
deelaterabandonadoosítioemchamase,exageradamente,torturamChicoAnum
emcenadesadismocomsuagenitália;namesma cena, molestamapersonagem
Zita numa ação de duplo estupro, seguido de morte. Notase uma grande
valorizaçãodaviolênciaedosexoviolentoporpartedaadaptação,queseutilizade
umatécnicadeextensão/inserção,poistaisaçõesnãoocorremnoromance.
TambémasaçõesquemostramoassédioeoenvolvimentosexualdeMariaMoura
comseupadrasto,emboranãosejamexageradascomonascenasacima citadas,
têmmaiorvisibilidadeeexposiçãonaminissérie.Depoisdaprimeirarelaçãosexual
entreosdois,ascenassubseqüentessempreindicamumclimaexplícitodeestupro
e violência sexual por parte de Liberato. No romance, o envolvimento de Maria
MouracomopadrastoeoassassinatodeLiberatotomamsutilmenteoespaçode
poucaspáginas,semdetalhamentodosdeslocamentosdaspersonagens.
Mesmoasaçõesqueenvolvemsexonãovinculadoàviolência,comoadeamore
sexo entre Valentim e Marialva no ude, à qual a minissérie dedica uma bela e
lírica cena do ato sexual, com efeitos especiais, no romance são narradas com
brevidade.AreferidaaçãodeValentimeMarialvaécontadaemumcurtoparágrafo
de oito linhas, usando certa economia” de palavras, característica do texto de
Rachel, que se torna ainda mais conciso, direto e sugestivo quando a história
envolveaçõesdesexo.
Outro enfoquediferente, comrelaçãoà Marialva ainda, é que ela fica grávida em
ambas as narrativas; no romance, ela dá à luz um menino que foi chamado de
Xandó e, na minissérie, ela tem uma menina que foi chamada de Rachel, justa
homenagemàescritora.
A cena final da minissérie é produzida de maneira diferente da que é vista no
encerramentodanarrativadoromance;neste,anarrativaterminacomorelatoda
saídadoscabras,lideradosporMaria Moura,traídae descrentedoamor, indoao
encontrodeumagrandecomitivade
marchantes
degado,comapossívelfinalidade
de assaltálos, em perigosa e arriscada empreitada. O leitor, entretanto, o fica
sabendooqueaconteceu,poisanarrativainterrompesenessemomento,deixando
o leitor concluir o que ocorreu depois disso – seu sucesso, fracasso ou até sua
morte,aoexporseaumriscovoluntárioqueestavaclaramentecorrendo.
Na minissérie, entretanto, a trajetória de Maria Moura tem um final apoteótico,
constituído por cenas dramáticas. Ao saber que há um grupo de pessoas nas
proximidades prestes a atacar a Casa Forte, para vingarse dela, tendo à sua
disposiçãoumgrupoarmadodenomáximo 20 homens, Maria Moura resolve sair
em direção a eles, para supostamente enfrentálos e defender os moradores e a
fortaleza;noentanto,elasabequeosagressoresqueremapenasoseufim.Ogrupo
atacante é formado, entre outros, pelo Cel. Tibúrcio, pai de Cirino, sedento de
vingançapelamortedofilhoe,ainda,porsoldadosqueEufrásiaarregimentara,com
oauxíliodofuncionáriodoImperador.
Quando Maria Moura está saindo com seus cabras a cavalo, ela proíbe todos os
homensdeacompanhálaeordenaqueelesvoltemparadentroelaquerirsozinha
ao encontro deseusinimigos. Os homens voltam para a Casa Forte,mas Duarte
insisteeaacompanha.Aoseaproximaremacavalodogrupoarmado,ossoldados
começamaatirareDuartecai,jámortoprovavelmente.
Moura continuaa cavalgar emdireçãoao grupo; joga a arma aochão eretirado
bolsoolençodeCirinoaindasujodosanguedelee,enquantoossoldadosseguem
atirando,levaolençoatéabocaeonariz.Respiraentãoprofundamenteeestende
amãoparacima,mantendoolençoerguidoecontinuandoagalopar,enquantodá
seugritodeguerra,morte,amoreliberdade.
Essa imagem da guerreira, que a identifica com uma espécie de heroína épica e
resgata uma imagem que permeia o romance como um todo, é congelada então
nessemomento,usandoseorecursodo
freezing
.Surgem então,sobreaimagem
congelada,oscréditosaosomdamúsicatemadapersonagemaofundo.
Após passarem todos os créditos, é colocada na tela uma frase de Rachel de
Queiroz:“
Naforçadaterra,nomistériodoamor,apaixãoeodestino
.”
CONSIDERAÇÕESFINAIS
Em todo estudo sobre comunicação de massa, dois aspectos sempre são
lembrados, especialmente em relação à televisão  o formato instantâneo e a
superficialidade da informação. Do ponto de vista da linguagem, tamm são
discutidososcaracteresprópriosdecadasegmento,umavezqueelasemanifesta
de maneira diversificada em cada um dos meios de comunicação; nesse sentido,
podese dizer que o discurso televisual transcorre sempre de modo compacto,
simplesedireto,pretendendocomissoalcançarumpúblicomaisabrangente.
Emdecorrênciadessaspropriedades,muitosetemcriticadoatelevisão,atribuindo
lhe o título de produto de subcultura. É preciso considerar, no entanto, que a
recepção da mensagem televisual se dá de uma forma plena, haja vista a
multiplicidade de áreas sensoriais que consegue atingir, embora quase sempre
imprimanoespectadorumaimpressãoderealidadecalcadanosacontecimentosdo
cotidiano.
É importante observar que, no cinema, o espectador o se afasta em momento
algumdanoçãodeimaginário,ficandoligadoàexistênciadeumaverossimilhança
restritaaotempodeduraçãodofilme. Natelevisão, aocontrário,a recepção pelo
telespectador ocorre de forma a aceitar
a priori
o compromisso da rede emissora
comofatorealesuapropostadeinformaraverdadeemrelaçãoàsnotícias.
No tocante às produções de narrativas ficcionais, importante manifestação da
teledramaturgia, elas sempre suscitam muitas controvérsias em relação às
adaptaçõesdeobrasliteráriasparaalinguagemtelevisual,geralmenteemformade
telenovelas ou minisséries. Muitos – telespectadores e críticos – apreciam muito
essa forma de entretenimento, por seu mérito em divulgar obras literárias; outros,
entretanto,sãoradicalmentecontrários,afirmandoqueaadaptaçãonuncaéfiel,que
sedeturpaahistóriaoriginaletc.
Essarelaçãoconflituosaentreomundodasletraseodoespetáculonãoérecente,
datademuitoantesdoaparecimentodatelevisão.Jánadécadade1870,Joséde
AlencareMachadodeAssis, dois grandesescritores brasileiros,pronunciavamse
sobreoassunto,criticandoaversãoparaoteatrode
Oguarani;
naépoca
,
Joséde
Alencar,emdesabafo,escreveuqueaóperaencenadanãotinhaamenor relação
comoromance,ficando“nacrençadequeissoéalgumahistóriaafricanaplagiada
paraonossoteatro”.
O renomado escritor, já naquela época, colocava questões ainda hoje evocadas
quandose trata de adaptações: arepercussão relativamente pequenadolivro em
relação a outros veículos de ficção, a aproprião mais ou menos indevida do
trabalhoalheio ea “ameaça” que a passagem da obra de um meio a outro pode
representarparaasnoçõestradicionaisdeautoria.
Evidentemente, é compreensível a revolta de José de Alencar, mas é preciso
considerar queaedição de
O guarani
publicada em folhetim naquela época tinha
muitos exemplares truncados, daí haverem falhas na adaptação para o teatro.
Machado de Assis criticou ainda, na mesma época, a encenação de histórias
escritasporEçadeQueiroznoBrasil,paíspioneironasadaptaçõesqueirozianas.
Nosdiasdehoje,maisdeumséculodepoisdessesacontecimentoseapósmuitas
mudanças,asmesmasquestõessãocolocadas,masascríticasagorasãoparaas
adaptações de obras literárias feitas, principalmente, para a televisão. Os
argumentos utilizados são os mesmos; quem critica vai além, baseandose na
afirmação de que, como a programação da televisão está associada ao
entretenimentomassivoevulgar,porextensão,asadaptaçõesbanalizariamaobra
literária.Aliteraturaficariareservada,então,apenasaumpúblicoseletoerestrito.
Apesardetodasascríticaseobservaçõescondenatórias,éinegávelopapelquea
televisãoexerce,divulgandoaliteraturapormeiodaadaptaçãodeobrasliterárias.
Como já constatado, sempre que há uma produção desse tipo, a venda delivros
aumentaconsideravelmente,oquemostraqueaspessoassesentemestimuladasa
comprarolivroqueestáservindodemoteparaaproduçãotelevisual.
Comaconstante melhorianaqualidadedeprodução,váriasadaptaçõesmerecem
destaquenateledramaturgiabrasileiraumadelaséaadaptaçãodo
Memorialde
Maria Moura
, objeto de estudo deste trabalho. A qualidade dos cenários e da
produçãoéimpecável;ospoucospontosemquenãohouvefidelidadeemrelaçãoà
obranãotrouxeramnenhumprejuízoàleituradoromance.
Assim,assistiràminissérieétãoemocionantequantolerolivro,ouatémais,jáque
aspersonagensganhamcorpo,vozemovimentoselevamotelespectadoravivera
históriajunto comelas, principalmente a protagonista –assim, acabalutando com
MariaMoura,chorandocomela,sofrendocomela,morrendocomela.Naverdade,
cadaleituratemumsaborparticular,dentrodesuasespecificidades–asdolivroe
asdafilmagemdaminissérie.
Para alcançar continuamente uma boa qualidade nas produções, cada vez mais
diretores, atores e autores procuram configurar a minissérie em direção a um
caminhomaiscomprometidocomaprópriaobraecomseupúblico,nãosópelouso
dosrecursoscnicosnaprodução,maspelareafirmaçãodesuaimportânciacomo
meio de divulgação da literatura. Essa boa qualidade artística da minissérie é
necessária,poistrazparaaaudiência,pormeiodaficção,umaoutrarealidadeque
pode gerar conhecimento, por exemplo, sobre um tempo histórico, de forma a
conduzirotelespectadorarepensaraprópriarealidade.
Dessamaneira,observasequeobomnívelartísticoéatingidopeloseuconteúdo,
pelaconstrução daspersonagens e peloseu comprometimento como espectador
que,eminteraçãocomatécnica,comaproduçãoecomadifusãodeimagens,pode
chegaràconstruçãodeumaestéticasignificativa.Muitosselembramdecomoforam
marcantes as minisséries que retrataram momentos conflituosos da História,
relembrando marcos históricos bem definidos e fazendo uma analogia com o
presente, o tempo atual. Devese considerar, evidentemente, que algumas obras
literárias são extremamente difíceis de serem adaptadas, dadas as suas
características e a limitação oferecida por cenários, tempo de produção, figurinos
etc.
Umpontomuitorelevantenageraçãodedebateséaqueixadotelespectadorque,
após ver um filme baseado em um livro que já leu, reclama a respeito do
desaparecimento de personagens e situações que eram vitais para o
desenvolvimentodahistóriaoudainclusãodeelementosefatosqueaparentemente
tenhamdesvirtuadoatramaoriginal.
Nãoimportaparaele,nessasituação,aqualidadedolivrooudofilme;importaque,
napassagemdapalavraparaaimagem,houveuma alteração,sejapelocorteou
pela adição de personagens e acontecimentos. O telespectador em geral se
ressentequandoháumamudançamuitograndeemrelaçãoàessênciadahistória.
O responsável por essa mudança tanto pode ser o produtor, como o diretor ou o
roteirista,emrazãodasváriasreleiturasporqueotextoliteráriovaipassando,até
chegaràversãofinal,queserávistapelograndepúblico.
Ocorreque,aoempregaralinguagemverbal–essênciadolivro–oescritorpode
facilmenterealizaraconstruçãodeumpersonagemouambientecomolheaprouver,
descobrindo os sentimentos mais íntimos e colocandoos no texto ao acesso
privativo doleitor. Pode assim criar uma casa, uma rua, ir ao trabalho, andar por
lojas,assassinaruma pessoa, tudo descritoem detalhes quefacilmente a palavra
escritaeaimaginaçãolhepermitem.
Em contrapartida, ao realizar uma produção filmada, o diretor precisa lidar com
vários elementos diversificados, tais como roteiro, atores e outras pessoas que
trabalhamnaprodão,fotografia,trilhasonora,cenários,entreoutros.Entretanto,
estanãoéamaiordificuldadecomquesedefronta;naverdade,agrandebarreira
está na construção das personagens, em como mostrar seu caráter, sua
personalidade, seus sentimentos e relacionamentos, com base em meios com
significadosnemsempreeficazes–cenários,figurinos,a cidadeeolugaremque
moram,trabalham,estudam.Paraseremexpressosdemodoaqueoespectadoros
identifique, os pensamentos e sentimentos dependerão da correta e precisa
utilizaçãodaslinguagensverbalenãoverbalpelosatores.
Decorredaíaquaseimpossibilidadedetransporotextoliterárioparaafilmagem,de
forma absolutamente fiel. Geralmente, o diretor da minissérie necessita alterar
seqüências deacontecimentos, adição ousubtraçãode ambientes e personagens
paratransmitiroenredoomaispróximopossíveldotextoliterário;dependendode
como interpretar o
leitmotiv
desse texto, a adaptação terá um desvio maior ou
menor.
Paraentenderbemcomoseprocessamessasinterferências,convémanalisaressa
questão soboutroenfoqueodaautonomia estética. Dessa maneira, deveseter
um olhar sobreum filmeouumaproduçãoparaa televisão,pensandoqueé uma
outra obradearte,comestrutura, montagem ecriaçãodiferenciadas.Assim, cada
um deles  o livro e o filme ou o livro e a produção televisual  tem o seu valor
autônomocomoobradearte,eassimdeveserapreciadoeadmirado.
Paraentenderessaautonomia,bastapensaremalgumasdiferençasintrínsecas a
umaeoutraobra:
Alinguagem
Nolivro,otextoéexpressonalinguagemverbal,ouseja,usaaformaescrita,linear;
ao ler um livro, ficaacargo doleitoraconstrução das imagens porcontade sua
imaginação.Jánocinema,alémdautilizaçãodalinguagemverbalobservadanafala
daspersonagens,épossívelperceberapresençadelinguagemnãoverbal,signos
que são apresentados em forma de imagens  cores, formatos, cenários,
movimentos e expressões dos atores  e sons  músicas, ruídos, tonalidades das
vozes,perceptíveisclaramenteaossentidosdossereshumanos.
Osdiálogos,asdescriçõessãoexpressasdiferentemente,emrazãodadiferençade
recursos que ambos dispõem. Dessa maneira, sendo as linguagens literária e
cinematográfica diferentes, uma única história poderá proporcionar diferentes
interpretações, em função do meio em que será veiculada. Esta variedade de
significadosserápossíveldevidoaossignosapresentados,àsvezesanálogos,por
outrasvezesdistintos,aoconfrontoentreolivroeofilme.Aímoraograndeprazer
daleiturateraliberdadedeinterpretar,imaginarerefletirsobreosacontecimentos
ficcionaisnarrados.
Otempo
O tempo no filme tem maiores possibilidades de ser trabalhado; o texto literário,
presoaosliameslingüísticos,nãotemtantamobilidade.
Anarrativa
A construção da narrativa pode ser feita por meio de diversas linguagens – a da
palavra,adaimagem,adarepresentaçãoeadosgestos,entreoutras.Nolivro,só
épossívelusarapalavra–alinguagemverbalescrita.Nocinema,essaconstrução
dispõe de vários recursos, tanto os imagéticos  o figurino, a maquiagem, as
expressões faciais e corporais, os gestos  quanto os sonoros – as vozes, as
músicaseoutrossons,queseencarregamdedarseqüênciaàhistória,cabendoao
espectadorassistireinterpretála,àluzdesuasemoçõeseexperiências.
Adiegese
O escritorescolhe a seqüência com mais facilidade, pois o suporte que tem para
organizarsuadiegeselhepermiteumamaiorliberdadeeminiciaratrama,usando,
porexemplo,osrecursos
inmediares
e
inultimares
.Odiretordofilmepodeoptar
por seguir a mesma seqüência da trama literária, ou não isso nem sempre é
possível ou interessante. Ele utilizará a que ficar melhor, sob seu ponto de vista,
paraomeioqueiráutilizar:rádio,televisãooucinema.
Arealidade
Emrelaçãoaolivro,partindodesuasexperiênciaspessoais,oescritortranscreveou
recriaarealidade,dandoorigema uma outra,ficcional.Nessatranscrição,autore
leitorsãolivrespararecriararealidadecomoquiserem,aqueleaoescrevereeste,
aolerotexto.Nocinema,arealidadejávempronta–oespectadorsópodelêlaa
partirdeoutrasleituras:adoroteiristaeadodiretor,adofilmee adosatoresda
trama.
Autilizaçãodaobra
Umaoutracaracterísticaquediferenciaaconfiguraçãodolivroésuaportabilidade,
jáqueemgeralpodeserfacilmentetransportado–podeseleváloaqualquerlugar
e lêlo a qualquer hora. Quanto ao filme, só se pode dispor de dois meios para
assistilo–deslocarseatéocinema,emhorárioprédeterminado,oualugálopara
veremcasa.Otempodespendidoparaconcretizaraleituradolivroévariávelea
critériodoleitor,mas,semdúvida,ébemmaiordoqueoqueselevaparaassistirao
filme.
Emsuma,todosesseselementosdescritosacima, comuns aolivro e aomeio em
quesedáasuaadaptação,setornamaindamaissignificantesquandoselevaem
conta que uma adaptação em qualquer tipo de mídia revestese de grande
importânciaquandootextooriginalédereconhecidaqualidade.
No caso da televisão, diferentemente do cinema e de outras mídias, a adaptação
tem a possibilidade de disseminar a literatura a uma grande quantidade de
telespectadores, devido ao extraordinário alcance que ela tem, em relação às
facilidadesdequedispõecomoummeiodedifusãoparagrandesmassas.
Ao utilizar textos clássicos ou modernos de boa qualidade, principalmente, a
transposição para a televisão pode contribuir ainda mais para o alto nível da
produção, que será levada a um incontável mero de pessoas, as quais,
possivelmente,nuncaterãonasmãosumexemplardeumaobradeboaqualidade;
emoutraspalavras,nuncaterãodiantedesiumlivrodeMachadodeAssis,deJosé
deAlencar,deEçadeQueiroz,deGuimarãesRosa,deArianoSuassuna,deJorge
Amado, de Érico Veríssimo, de Nelson Rodrigues, de Dinah Silveira de Queiroz,
enfim,umde......RacheldeQueiroz.
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OscapítulosdaminissérieforamcompiladosemtrêsDVDsproduzidospelaGlobo
Marcas,2004.
Fichatécnica:
AdaptaçãolivredeJorgeFurtadoeCarlosGerbase,coma colaboraçãodeGlenio
PovoaseRenatoCampão,inspiradoemromancehomônimodeRacheldeQueiroz.
Direção:RobertoFarias;DeniseSaraceni;eMauroMendonçaFilho.
Direçãoartística:CarlosManga;
Produção:RedeGlobodeTelevisão.
Elenco principal: Glória Pires; Marcos Palmeira; Kadu Moliterno; Ernani Moraes;
OtavioMuller;CristianaOliveira; Jackson Antunes; Zezé Polessa; Bia Seidl; Chico
Diaz; Sebastião Vasconcelos; Joel Barcellos; Bete Mendes; Rubens de Falco;
RosamariaMurtinho;CleoPires.
Temamusical:OrlandoMorais.
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