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para expressar-me artisticamente do modo que julgo mais conveniente,
habilidoso, agradável e convincente.
O discurso reflexivo, por exemplo, requer que o aparato teórico-metodológico
adquirido ampare a paciente análise textual a ser feita. O problema é saber se
me julgo competente para enfrentar aparato e análise, e movimentá-los com
palavras na folha de papel em branco. A experiência didática deu-me a
segurança indispensável para tal tarefa. Ela veio de sucessivos experimentos
com estudantes em sala de aula. Por outro lado, o exercício do discurso
ficcional/poético proporcionou-me um saber que é o de padeiro, ou seja, de
quem “já pôs a mão na massa”. Sinto-me, pois, apto a produzir um ensaio. Se
dedicar a ele o tempo indispensável à boa realização, publico-o como tal. Não
terei vergonha, mais tarde, em juntá-lo a outros e reuni-los em livro, é o caso
recente de O cosmopolitismo do pobre.
Ponhamos que tenha elegido o discurso ficcional. Minhas leituras da ficção e da
teoria poética no período de formação e as demais feitas no período de exercício
da profissão como professor universitário me dão a garantia de ter certo
domínio da matéria. Logo depois dos anos 1976, abandonei a análise de
romances, contos e poemas, e comecei a trabalhar nos cursos da PUC
autobiografias, memórias e correspondência literária – o que se chamou a
literatura do eu, recentemente recoberta pelo neologismo autoficção (autobiografia
ficcionalizada, ficção autobiográfica). Se quisesse escrever algo nesses gêneros,
não me sentiria um escritor espontâneo a pôr em ordem na folha de papel os
fatos da vida vivida. Estaria menos próximo de Meus verdes anos, de José Lins
do Rego, e mais próximo de Memórias do cárcere, de Graciliano Ramos. Este se
transforma, por assim dizer, em modelo, com tudo o que a palavra contém de
positivo (emulação) e de negativo (filiação), que se traduz afinal pela expressão
vitoriosa de “a ansiedade da influência” (Harold Bloom). Por outro lado, não
posso deixar de viver o momento que vivo. Naquela mesma época, informava-
me e me enriquecia com o knowledge, que me chegava através da leitura sobre a
realidade sócio-política e econômica do Brasil e da América Latina. Bem lá no
fundo da formação, havia a tese sobre André Gide e um paradoxo. Não era ele
que dizia que somos mais sinceros quando fazemos ficção do que ao escrever
autobiografia? Pois é, misturemos tudo isso numa coqueteleira e teremos o
drinque que idealizei, pesquisei e produzi, intitulado Em liberdade, uma ficção.
Ainda nessa linha, mas já no novo milênio, senti-me à vontade para aceitar a
encomenda da Bem-te-vi e organizar a correspondência de Carlos Drummond
& Mário de Andrade. Os laços se atam e se desatam e se reatam.
Veja você, por uma questão estratégica posso dedicar-me um ano ou mais a tal
ou a tal outro discurso, mas isso não significa preferência. Significa, antes, as
contingências da soma de tempo e dinheiro. Um se perde e o outro se ganha.
Isso se chama sobrevivência.
2. Com uma vasta publicação ficcional e crítica, já poderíamos pensar em
ousar a pergunta: qual é a sua grande obra? Por quê?