
Como mestre do Ensino Mútuo, havia Nicolau Diniz José Raimundo. Na cadeira de economia
política lecionava José da Silva Lisboa. Havia ainda aulas de mineralogia, zoologia e
botânica, assim como os cursos oferecidos na Academia Militar.
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Nessa oportunidade
também foi informado que o Tesouro Nacional arcava com os honorários de um responsável
pela inspeção da diretoria dos estudos. Havia, portanto, 22 funcionários envolvidos com a
instrução pública no Rio de Janeiro do início do Oitocentos
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.
O currículo básico do estudante fluminense desse período era composto por cinco ou
seis disciplinas: gramática latina, retórica, filosofia, geometria, teologia especulativa e
teologia prática, como no Seminário de Olinda; ou gramática latina, retórica, filosofia,
teologia e direito natural, ministradas no Convento São Francisco de Assis. Nesse colégio, os
estudos de retórica eram supervisionados pelo frei Alexandre de São José, e sua cadeira
ocupada pelo frei Sampaio
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, que havia estudado a disciplina com o famoso frei São Carlos
67
.
A retórica era ensinada ao longo de todos os três ou quatro anos de formação, tanto em Olinda
quanto em São Paulo e no Rio de Janeiro.
Nos programas de ensino destas instituições predominava o estudo das obras de
Cícero
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, segundo as sínteses publicadas em manuais e compêndios. A maior parte das muitas
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Nesta última, havia um total de 298 estudantes matriculados no curso de Matemática oferecido pela Academia Militar
entre 1825 e 1830. Destes, 140 eram naturais do Rio de Janeiro e 21, algo em torno de 7%, eram naturais de Portugal, o que
representa uma porcentagem maior de estudantes portugueses na Academia Militar do Rio de Janeiro que de brasileiros na
Universidade de Coimbra entre 1819 e 1820. Além disso, deve-se notar que 81 estudantes eram paisanos e 154 eram do
exército. Quanto à idade, doze anos tinha o mais novo e 35, o mais velho. (ARQUIVO NACIONAL, IE 3, CURSO
MATEMÁTICO DA ACADEMIA IMPERIAL MILITAR). Havia estudantes em Coimbra também, entre 1819 e 1820, a
Universidade de Coimbra possuía 1.460 discípulos, sendo que 5,5% eram brasileiros, num total de 86 estudantes. Destes,
quarenta eram baianos, catorze, pernambucanos, onze, mineiros, dez, maranhenses, nove, do Grão-Pará, sete, do Rio de
Janeiro – sendo um deles de Goitacazes –, um paulista, um matogrossense, um goiano e um natural de Porto Alegre.
(RELAÇÃO E ÍNDICE ALFABÉTICO DOS ESTUDANTES, MATRICULADOS NA UNIVERSIDADE DE COIMBRA
NO ANO LETIVO DE 1819 PARA 1820). Note-se que estes são os dados relativos à instrução pública.
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Somente em 1831 se pode efetivar um diagnóstico mais completo da educação pública no Brasil, ainda que lacunar: em
Santa Catarina, 419 estudantes. No Piauí, três cadeiras régias. No Maranhão, as aulas de retórica tinham cinco alunos; as de
lógica, sete; latim, dezenove. Havia também uma aula particular de latim com seis alunos e outra de filosofia e retórica, com
cinco alunos cada, e uma de gramática portuguesa com dezessete. Nas primeiras letras havia 192 meninos e cem meninas,
mais 230 estudantes de aulas particulares. Na Bahia, aulas de botânica e agricultura. Em São Paulo, 33 escolas de primeiras
letras, com 1.459 alunos. Em Minas Gerais, 146 cadeiras régias, cerca de 3.256 alunos. No Pará, havia 27 cadeiras de ensino
mútuo. (BRASIL, 9 RELATÓRIOS SOBRE INSTRUÇÃO PÚBLICA. BIBLIOTECA NACIONAL: DIVISÃO DE
MANUSCRITOS, II – 30, 28,7).
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Francisco José de Sampaio era natural e batizado na Freguesia de Nossa Senhora da Candelária, no Rio de Janeiro. Em
1793 foi aceito na ordem. Eleito pregador em 1799, seus outros cargos foram: em 1808, secretário da visita geral, pregador da
capela real e examinador da mesa de consciência e ordens; em 1813, capelão-mor de sua Alteza Real e censor episcopal; em
1814, secretário da província; em 1818, guardião do convento Senhor Bom Jesus da Ilha – para o qual foi eleito; em 1821,
definidor de mesa – também eleito.
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Francisco de São Carlos nasceu em 13 de agosto de 1763. Aos treze anos ingressou na Ordem Seráfica da Imaculada
Conceição, onde foi nomeado professor de eloqüência em 1801 e, em 1809, pregador real, quando se mudou para o Rio de
Janeiro. O poema A assunção da Santíssima Virgem é sua obra de maior valor literário e impacto junto ao público.
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Ramo das Humanidades estudadas nos colégios jesuítas, que nos domínios lusitanos tinha como modelo o Colégio das
Artes de Coimbra, o ensino da retórica no Oitocentos, segundo Roberto de Oliveira Brandão (1972), era associado aos cursos
de Letras e Gramática. Como roteiro de estudos, estabelecia-se no curso de Humanidades as seguintes leituras: De bello
galico, de César, o 10º Livro da Eneida, e Gramática Grega. Para a primeira classe de gramática: o 5º Livro da Eneida, a
Retórica, do padre Cipriano Soares, e o Discurs Post Reditun, de Cícero. Para a segunda classe de gramática: Cícero, De