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MARIA PAOLA DI SESSA DE LUCA OMETTO
RESPONSABILIDADE SOCIAL E CONTEÚDO ESTRATÉGICO: UM
ESTUDO SOBRE A CERTIFICAÇÃO FSC
Dissertação apresentada ao Programa
de Pós-Graduação em Administração,
área de Concentração Estratégia e
Organizações, do Setor de Ciências
Sociais Aplicadas da Universidade
Federal do Paraná, como parte das
exigências para obtenção de título de
Mestre em Administração.
Orientador: Prof. Dr. Sergio Bulgacov.
CURITIBA
2010
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AGRADECIMENTOS
Acredito que existem dois tipos de agradecimento, um relacionado à
pessoa que sou e outro relacionado a este trabalho. Começo pelo primeiro e
termino no segundo.
Primeiramente, gostaria de agradecer aos meus pais por terem me
ensinado que todas as pessoas são iguais, são seres humanos e que sempre
nós devemos nos colocar em seus lugares. Por me passarem valores de
justiça, diversidade, amizade, solidariedade, coletivismo, atuação cidadã,
valorização da natureza, agradecimento pela vida. Também pelas decisões
deles que possibilitaram reafirmar esses valores, seja pelos locais que vivi ou
conheci, seja pelas escolas que freqüentei, seja pelas pessoas com quem
convivi, seja pelas experiências que tive.
Agradeço também a minha avó e tia, por terem participado tão
ativamente da minha vida e fortalecido cada um dos ensinamentos passados
por meus pais.
A todos meus outros familiares que de algum modo contribuíram para a
minha formação e personalidade.
Aos meus amigos, pela convivência, pela abertura de pensamento, pelas
conversas e diálogos, pelo carinho, pela persistência, pela ajuda. Por serem tão
importantes para minha vida. Ana Sílvia, Mona, Nina, João, Camila, Helô,
Nielle, Henrique, Fefo, Fê, Mayra, Thaís, Tainara, Mariana.
Agradeço em especial a Nathi, que foi com quem eu estudei para o teste
da Anpad, quem me motivou para estar aqui e quem sempre me apoiou nas
minhas decisões.
Agradeço a um amigo especial, que é meu marido. Por ter estado ao
meu lado em todo o tempo do mestrado, me ajudando. Por ter lido, discutido,
criticado, apoiado, me fortalecido. Por sempre fazer alguma coisa que vai me
fazer rir e ficar feliz, mesmo nas horas estressantes.
Também aos amigos que tornaram minha vida em Curitiba, durante o
mestrado, saudável e divertida: Rodrigo, Juliana e André, obrigada pelos
almoços, jantares, histórias, risos e apoio.
Por toda minha turma do mestrado e principalmente pela linha de
estratégia e análise organizacional. A contribuição de cada um nas aulas,
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discussões, apresentações foi importante para meu desenvolvimento
acadêmico e para esta dissertação.
Agradeço as amigas que fiz nessa caminhada; que além das discussões,
trabalho, ajuda; estavam presentes na minha vida, ouviram, agüentaram
desabafos, participaram dos momentos de diversão. A Ana Carol, Camila, Carla
e Carol, Evelin, Laila e Larissa. Adoro vocês! Obrigada por grande parte dos
momentos mais legais e importantes que tive nessa caminhada e pela amizade,
acima de tudo.
Pelos amigos do mestrado que me ajudaram a entender a estratégia
como prática e a prática social; Ludmila, Diego, Samir e os outros colegas
veteranos. Aqui, faço um agradecimento especial à Natália, que me ajudou em
todo o processo da dissertação, no aprendizado, nas dúvidas.
Agradeço as pessoas que me ajudaram na realização desta dissertação:
Bianca, Helena, Renan e Lucilla.
Na minha vida acadêmica, tenho que agradecer a todos professores que
tive. Desde a infância até a faculdade, todos eles formaram quem eu sou,
incentivaram minha curiosidade, mostraram os problemas do mundo, me
ensinaram a aprender e me formaram enquanto ser humano e enquanto
estudante e pesquisadora. Especificamente, agradeço aos professores do
mestrado: Adriana, Faria, Clóvis, Pedro e Cleverson.
Agradeço especialmente à Yara Bulgacov por ter demonstrado e
fortalecido minha convicção que o aprendizado pode ser algo lúdico, divertido e
descontraído mesmo em discussões dos assuntos e conceitos mais profundos.
Agradeço as pessoas e empresas que ajudaram neste trabalho.
Primeiramente as pessoas envolvidas do estudo de caso da Suzano Papel e
Celulose S.A.: Murilo Passos pela atenção e confiança, Jorge Cajazeira pela
prontidão em ajudar, Cecília por mediar todo o processo e pela ajuda, e ainda
ao Márcio Saad, Luciana Pereira e João Augusti. Além disso, agradeço a todas
as pessoas e empresas que responderam ao estudo quantitativo: Arauco do
Brasil, Atina Indústria e comércio de ativos naturais S.A., Modo Battistella
Reflorestamento S.A., Cenibra, Caxuana Reflorestamento, Vale do Corisco,
Klabin S.A., Lwarcel Celulose e Papel LTDA, Laminados Triunfo LTDA, Mil
Madeiras Itacoatiara, Sguario Floresta S.A., Fazenda Ouro Verde, Plantar S.A.,
Renova Floresta LTDA, Satipel Florestal LTDA, Tanagro S.A., Timbó
Empreendimentos Florestais S.A., Fibria Celulose S.A., Ervateria Putinguense
LTDA, Flosul Indústria e Comércio de Madeiras, Seiva S.A., Souza Cruz e as
empresas que não quiseram ser identificadas.
Por fim, agradeço ao meu orientador. Por inúmeros motivos: pela
paciência, conhecimento passado, ajuda constante, por agüentar minha
“confusão” mental, pela oportunidade de aprender o que é uma excelente aula,
pelo cuidado, pelos conselhos, pelo exemplo.
“Quanto mais formos capazes de criar mundos que sejam moralmente
convincentes e politicamente viáveis, mais seremos capazes, como
trabalhadores e cidadãos, de administrar ou resistir”
(BROWN, 1978)
Dedico este trabalho e agradeço às pessoas que agem em favor da
inclusão social, diversidade, igualdade e preservação do meio ambiente.
RESUMO
Este trabalho teve como objetivo identificar as práticas estratégicas na
certificação e manutenção do selo FSC (Forest Stewardship Council). Para
entendimento das teorias, este estudo possui um referencial teórico que aborda
a teoria da prática social, a estratégia como prática e seus elementos
praticantes, práticas e atividades, a responsabilidade social em conjunto com a
estratégia, os atores da responsabilidade social e as práticas de
responsabilidade social. Por fim, propõe-se uma junção da teoria da estratégia
como prática e a da responsabilidade social. A pesquisa foi realizada em duas
fases. Na primeira etapa, qualitativa, foi realizada um estudo de caso na
empresa Suzano Papel e Celulose S.A.. Os dados foram coletados por meio de
entrevistas semi-estruturadas e documentos e foram analisados por meio da
análise de conteúdo. Esta etapa forneceu informações para a realização do
questionário da segunda fase da pesquisa que foi um estudo quantitativo com
organizações brasileiras certificadas pelo FSC por seu manejo florestal e cadeia
de custódia. Os dados foram coletados por meio de levantamento e analisado
por estatística descritiva. Os resultados apresentados mostram que para a
certificação e manutenção do selo FSC diversas práticas foram incorporadas do
ambiente e outras criadas dentro da organização. Em relação aos praticantes, é
necessário que todos da organização estejam conscientes das suas atividades
e da importância do selo FSC. Além disso, algumas características eram
similares a maioria dos respondentes: motivação para trabalhar em uma área
que gera impactos positivos socioambientais ou diminui os negativos, praticante
tem como valor que a empresa tem que agir de forma socioambientalmente
responsável, valorização do meio ambiente, valorização e compreensão da
diversidade. O processo de certificação e manutenção do FSC evidencia como
o ambiente e os praticantes constroem, recursivamente, as práticas
organizacionais.
Palavras-chave: estratégia como prática, responsabilidade social,
sustentabilidade, FSC
ABSTRACT
This study aimed to identify the strategic practices of the certification and
maintenance of the Forest Stewardship Council (FSC) label. For the theories’
understanding, one of its section explains the social practice theory, the strategy
as practice and its elements- practitioners, practices and activities, social
responsibility linked with strategy, the social responsibility’s actors and the
sustainable practices. Finally, a connection between the theories of strategy as
practice and social responsibility is proposed. This research had two phases.
The first stage was a case study at Suzano Paper and Pulp S.A. The data was
obtained based on semi-structure interviews and documents and it was
analyzed using content analysis. This phase provided information for the second
stage, a quantitative study with Brazilian organizations certified by FSC for its
forest management and custody chain. The data was collected with a
questionnaire and analyzed by descriptive statistics. The results show that for
the certification and maintenance of FSC label many practices were
incorporated from the environment as well as others were created by
practitioners in the organization. About the practitioners, it is essential that
everyone in the organization is aware of its activities and of the importance of
FSC. Furthermore, some characteristics were shared with the majority of the
practitioners: motivation to work in a department that produce positive social and
environmental impacts or diminish the negatives; practitioners believe that the
companies need to act in a social responsible way; they value the environment
and diversity. The certification and maintenance of FSC label’s process displays
how the environment and the practitioners build, recursively, the organization’s
practices.
Keywords: strategy as practice, social responsibility, sustainability, FSC.
LISTA DE FIGURAS
Figura 1. Strategizing..............................................................................12
Figura 2. Modelo teórico da estratégia como prática.............................14
Figura 3. Modelo teórico multinível........................................................ 16
Figura 4. Relação da estratégia como prática e da responsabilidade
social ......................................................................................................35
Figura 5. Modelo proposto....................................................................114
Sumário
1 INTRODUÇÃO ........................................................................................................ 1
1.1 Problema de Pesquisa ................................................................................................ 4
1.2 Objetivos de Pesquisa ................................................................................................ 4
1.2.1 Objetivo Geral .................................................................................................................... 4
1.2.2 Objetivos Específicos .......................................................................................................... 4
1.3 Justificativa Teórico-Prática ..................................................................................... 5
1.3.1 Justificativa Prática ............................................................................................................ 5
1.3.2 Justificativa Teórica ........................................................................................................... 6
2 REFERENCIAL TEÓRICO ................................................................................... 9
2.1 Teorias da Prática ...................................................................................................... 9
2.2 Estratégia como prática ........................................................................................... 11
2.2.1 Praticantes ......................................................................................................................... 16
2.2.2 Práticas e atividades estratégicas .................................................................................... 18
2.3 Responsabilidade Social e Estratégia ..................................................................... 20
2.3.1 Conteúdo estratégico de responsabilidade social ........................................................... 23
2.3.2 Responsabilidade Social e Atores .................................................................................... 24
2.3.3 Responsabilidade Social e Práticas ................................................................................. 27
2.3.4 Processo de Responsabilidade Social e Estratégia ......................................................... 28
2.3.5 As certificações de responsabilidade social e a certificação FSC (Forest Stewardship
Council) ............................................................................................................................................ 30
2.4 A relação teórica da estratégia como prática e das teorias de responsabilidade
social 34
3 METODOLOGIA .................................................................................................. 39
3.1 Concepções Epistemológicas ................................................................................... 39
3.2 Especificação do Problema ..................................................................................... 40
3.2.1 Perguntas de Pesquisa ...................................................................................................... 40
3.2.2 Apresentação das categorias de análise .......................................................................... 40
3.2.3 Definições das categorias de análise ................................................................................ 40
3.2.4 Outros termos relevantes ................................................................................................. 42
3.3 Delimitação e Design da Pesquisa ........................................................................... 43
3.4 Análise de Dados ...................................................................................................... 50
3.5 Limitações Metodológicas ....................................................................................... 51
4 RESULTADOS DA PESQUISA ........................................................................... 53
4.1 A Suzano Papel e Celulose S.A. .............................................................................. 53
4.2 Perguntas .................................................................................................................. 54
4.1 O estudo quantitativo .............................................................................................. 92
5 Conclusão ............................................................................................................. 103
6 Referências ........................................................................................................... 108
1
1 INTRODUÇÃO
A sociedade atual está cada vez mais se desenvolvendo
tecnologicamente, mas, ao mesmo tempo, inúmeros problemas sociais,
ambientais e econômicos a assola.
Nesta situação de contradições e conflitos, a resposta dos indivíduos,
pode ser, em alguns casos, a revisão de atitudes e valores. O foco na eficiência
como valor predominante nos últimos anos, em detrimento de valores como
preservação ambiental e igualdade social e tantos outros, es sendo
reavaliado. Assim, muitas práticas sociais atuais são mais equilibradas em
termos de seus motivos e consequências, sendo eficientes e gerando impactos
socioambientais positivos. Nota-se, desse modo, uma introdução de outros
valores (não apenas o da eficiência) na racionalidade das atividades sociais. A
inserção desses princípios culminou de forma organizada ou mesmo dispersas
em: pressões de movimentos sociais e/ou ambientais para postura sustentável
de governos e empresas, proliferação do terceiro setor, conscientização da
população, procura por qualidade de vida, busca por investimentos e produtos
que sejam socialmente responsáveis, entre outros.
No contexto corporativo, as empresas por interagir e tentar responder a
esses fenômenos, ou ainda, pelos indivíduos engajados que as compõe,
buscou solucionar parte desses problemas sociais e ambientais. Emerge,
então, a sustentabilidade ou responsabilidade social, ou desenvolvimento
sustentável. Diversas são as expressões para este conceito que significa a
atuação empresarial economicamente viável com desempenhos ambientais e
sociais positivos ou minimizando os negativos.
Por outro lado, alguns teóricos desse campo argumentam que a
responsabilidade social não busca melhorar a sociedade, mas apenas utiliza-se
do conceito de sustentabilidade para aumentar seus ganhos e fortalecer o
sistema capitalista, o qual, para esses autores, é o causador de todos os
malefícios socioambientais da atualidade (BORGES, MIRANDA, VALADÃO
JÚNIOR, 2007; SOARES, 2004).
2
Entretanto, o presente estudo não entrará nessa discussão propriamente
dita. Dará destaque à premissa que as atividades e ações da responsabilidade
social efetivamente trazem mudanças concretas e materiais para a sociedade e
para o meio ambiente. Independente dos motivos empresariais (instrumentais
ou substantivos, que na realidade se mesclam) e do julgamento do sistema
capitalista, a sustentabilidade se mostra como opção plausível para a melhora
das questões socioambientais, o que ELKINGTON (1999) definiu como
“canibais com garfos”, uma analogia para demonstrar que não é a solução
ideal, mas a possível.
Além disso, em uma sociedade de organizações, principalmente
empresariais, nota-se que “movimentos de maior duração voltados à mudança
precisam concretizar-se por meio do método organizacional” (HALL, 2004, p.
19). Ademais, o as empresas as únicas organizações com recursos,
tecnologia e alcance global para trazer modificações (HART, 2007). Assim, a
sustentabilidade corporativa é importante para a transformação da sociedade
de forma realista e constante, possibilitando o nascimento de um novo modelo
de negócio e de uma nova forma de competir no mercado que pretende e busca
ser responsável ambiental e socialmente.
Embora este trabalho afirme que a empresa pode e deve ser sustentável,
compartilha do entendimento sociológico da Teoria da Delimitação dos
Sistemas de Guerreiro Ramos. Para este, as organizações empresariais não
devem assumir o papel do Estado ou do terceiro setor. Neste sentido,
argumenta-se que a empresa tenha que fazer única e exclusivamente a sua
função dentro da sociedade, ou seja, a produção de bens e serviços e de
geração de riqueza. Isto porque, se assumisse outros papéis, as empresas
concentrariam demasiado poder (SCHROEDER; SCHROEDER, 2004).
Portanto, estudam-se as empresas nas quais a sustentabilidade é parte do
conteúdo estratégico das mesmas, ou seja, mercados, produtos e/ou serviços e
resultados (STUBBS, COCKLIN, 2008).
Delimitando ainda mais a pesquisa, este trabalho estuda o processo de
certificação do Forest Stewardship Council (FSC), uma organização não
governamental, independente criada para promover o manejo responsável das
florestas no mundo. Este certificado garante que produtos florestais tenham
suas florestas manejadas de forma economicamente viável, ambientalmente
3
apropriada e benéfica socialmente. Embora o FSC não utilize a palavra
sustentável, por acreditar que é impossível predizer se ações de hoje irão
garantir a sustentabilidade, é evidente que o manejo florestal, de acordo com
seus princípios e critérios, garante menos impactos socioambientais negativos e
mais positivos.
Para o entendimento do conteúdo estratégico, o estudo adota a
perspectiva da estratégia como prática a qual surge para mostrar que “a
estratégia é algo que os indivíduos fazem” (JOHNSON et al, 2007, p.3, tradução
livre), mostrando a importância da influência do indivíduo, assim como
desfazendo dicotomias como conteúdo/processo, macro/micro ambiente, entre
outros. Essa abordagem mostra-se apropriada para o estudo desse modelo de
negócio sustentável, pois o conceito de responsabilidade social também quebra
a dicotomia econômico/social, econômico/ambiental, racionalidade
substantiva/instrumental. Além disso, pautada na tradição pragmatista, a
estratégia como prática objetiva que os estudos possibilitem a ação das
pessoas no mundo, que é primordial para a realização da sustentabilidade.
Alinhado a esses construtos teóricos, a pesquisa foi realizada em duas
fases. A primeira fase da pesquisa é um estudo de caso na Suzano Papel e
Celulose S.A. e, a segunda, uma pesquisa quantitativa realizada com as
empresas com produtos certificados pelo FSC. Deste modo, este trabalho
buscou entender as práticas criadas ou transformadas, os praticantes, a
influência do ambiente e dos indivíduos e como ocorreu o processo de
certificação e manutenção do selo.
A primeira parte desse trabalho, da qual esta introdução faz parte,
delimita as questões do estudo e sua justificativa. Em seguida, uma compilação
do estado da arte dos dois construtos essenciais para esse estudo é realizada:
a responsabilidade social corporativa e a estratégia como prática, bem como a
apresentação de um modelo teórico aqui proposto para unir as duas teorias. A
terceira parte demonstra a metodologia utilizada para efetivação do projeto. A
última evidencia a análise dos dados adquiridos, suas limitações e conclusões
de modo a agregar na transformação prática da sociedade.
4
1.1 Problema de Pesquisa
Com base na orientação anteriormente apresentada esta pesquisa se
propõe a responder o seguinte problema de pesquisa:
Como ocorreu a construção e transformação das práticas estratégicas na
certificação e manutenção do selo Forest Stewardship Council (FSC)?
1.2 Objetivos de Pesquisa
1.2.1 Objetivo Geral
Caracterizar a construção e transformação das práticas estratégicas na
certificação e manutenção do selo FSC, por meio da teoria da estratégia como
prática.
1.2.2 Objetivos Específicos
1. Descrever os conceitos e as propostas de responsabilidade social que
influenciam as empresas pesquisadas.
2. Descrever os processos norteadores do conteúdo estratégico.
3. Descrever os praticantes na certificação e manutenção do selo FSC.
4. Descrever as práticas organizacionais na certificação e manutenção
do selo FSC.
5. Descrever as práticas da certificação FSC e do mercado.
6. Caracterizar o processo da certificação e manutenção do selo dentro
da teoria da estratégia como prática.
5
1.3 Justificativa Teórico-Prática
1.3.1 Justificativa Prática
Os principais motivos práticos desse estudo são: (i) a importância da
responsabilidade social na atualidade tanto para empresas como para
consumidores; (ii) a importância das certificações para potencializar o consumo
consciente e a responsabilidade social; (iii) o papel da empresa para que as
ações de desenvolvimento sustentável tragam mudanças à sociedade e (iv) o
impacto da estratégia empresarial na sociedade.
A importância da responsabilidade social no meio empresarial pode ser
notada pela associação de diversas empresas a organizações que lidam com o
assunto. Atualmente, o Instituo Ethos, associação sem fins lucrativos para
promoção da responsabilidade social empresarial no Brasil, conta com 1.353
empresas associadas, somando 35% do PIB brasileiro. no Conselho
Empresarial Brasileiro para o Desenvolvimento Sustentável (CEBDS), filial do
World Business Council for Sustainable Development (WBCSD), são 50
empresas em 2007 que somavam 40% do produto interno nacional (ETHOS,
2008; CEBDS, 2008).
As empresas se importam com o assunto, pois seus stakeholders,
principalmente seus consumidores, esperam essa atitude das mesmas.
Exemplo dessa demanda por produtos que impactam positivamente a
sociedade e o meio ambiente ou ainda que diminuem seus impactos negativos;
nos Estados Unidos, a indústria de investimento socialmente responsável gere
três trilhões de dólares que representa, aproximadamente, 12% dos ativos
geridos profissionalmente (BREUER, 2006). Os consumidores verdes são mais
ativos na América do Norte e Europa, sendo que o primeiro Guia de Produtos
Verdes surgiu em 1987 nos Estados Unidos (WADDOCK, 2008). Embora no
Brasil esse mercado ainda seja incipiente, segundo o relatório de Consumo
Consciente do Instituto Akatu, são 12% os consumidores que premiam
empresas socialmente responsáveis e 12% que pensaram em premiar; assim
como, 14% puniram organizações com atitudes incompatíveis de
responsabilidade social e 13% pensaram em punir (AKATU, 2007).
6
Além disso, o foco do estudo da certificação do FSC deve-se a
importância das certificações para a prática do consumo consciente uma vez
que o consumidor tem a garantia, de uma terceira organização, independente
da empresa, de que aquele produto segue certos critérios. Não tendo que
verificar o processo, histórico e produtos de cada empresa em sua compra.
Esses dados demonstram como a população/mercado está incorporando
o valor da responsabilidade social, reflexo de uma sociedade em
transformação. Este fato permite que as organizações possam fazer parte
dessa mudança uma vez que têm o
poder e apoio na sociedade que está tentando mudar (...)
o conjunto essencial de idéias na base do esforço de
mudança precisa, portanto, ser compatível ou tornar-se
compatível- com os valores da população como um todo.
(HALL, 2004, p. 19).
Além disso, a estratégia impacta positiva ou negativamente a sociedade.
As pesquisas a respeito podem ajudar a legitimar, no meio corporativo, certas
estratégias e, muitas vezes, são esses estudos que dão sentido a elas para
seus consumidores (estudantes, gerentes, mídia). Na história, notamos como
uma estratégia legitimada em diversos setores da sociedade levou a
consequências ruins, como no caso da Enron. Esse episódio nos mostra a
necessidade de balanceamento das racionalidades da estratégia buscando que
esta seja pautada, também, por limites valorativos (WHITTINGTON et al, 2003).
1.3.2 Justificativa Teórica
Quanto às justificativas teóricas, esta pesquisa busca a ampliação do
conhecimento da estratégia em conjunto com a responsabilidade social e das
certificações socioambientais, bem como fornecer conhecimento sobre as
práticas e os praticantes estratégicos na certificação e manutenção do selo
FSC. Para isso, adota-se a teoria da estratégia como prática que se alinha
corretamente ao construto de responsabilidade social e pela perspectiva buscar
a redução do gap entre a academia e as empresas.
Nessa relação, percebe-se o mérito da responsabilidade social
principalmente sobre: (i) as práticas estratégicas de responsabilidade social e
7
(ii) as características e competências do ator que promove essa característica
organizacional.
Segundo Suhr e Schumman (2006, p. 332, tradução livre) ,
a relevância de aspectos de sustentabilidade na
estratégia é reconhecida atualmente. Entretanto, a
habilidade de implementar políticas corporativas
visionárias de modo eficiente e efetivo e, ao mesmo
tempo, pragmaticamente em diferentes épocas e locais,
continua a ser uma vantagem competitiva que apenas um
pequeno número de empresas utiliza.
Este trabalho pretende contribuir para a criação de uma parcela
específica de conhecimento que auxilie a formação de gerentes e atores mais
aptos a realizar a certificação e manutenção do selo FSC.
Os estudos existentes sobre responsabilidade social ligados à estratégia
no Brasil focam no como certos programas ou práticas socioambientais
beneficiam os resultados estratégicos das empresas (GARAY, 2001; VOLPON,
MACEDO-SOARES, 2007; TOMBI, SALM, MENEGASSO, 2006). Entretanto,
poucos estudos demonstram a sustentabilidade como conteúdo estratégico da
empresa; normalmente, focam em um projeto socioambiental da companhia.
Além disso, poucos são os estudos das práticas gerenciais relacionados a
certificações socioambientais de produtos.
A escolha da perspectiva da estratégia como prática está vinculada ao
argumento de Reckwitz (2002) que mostra como a teoria da prática, que
superou a dicotomia estrutura e agência, é importante no que se refere a
questões sociais e ambientais, uma vez que, para este autor:
Ética não se refere apenas pela relação entre sujeitos,
mas também pela relação com coisas (incluindo
natureza) e com o próprio ator/sujeito (incluindo o corpo,
as motivações e as emoções) (RECKWITZ, 2002, p. 259,
tradução livre)
Sustentado nessa afirmação, este trabalho adota uma perspectiva de
estratégia alinhada às teorias da prática, ou seja, a estratégia como prática.
Essa teoria confere papel central ao indivíduo contextualizado,
mostrando a agência do ator, sua capacidade de realizar mudanças na
8
organização e na sociedade, e a incorporação de “emoções e motivações
envolvidas no strategizing que são inatos a quem o estrategista é e o que ele
faz” (JARZABKOWSKI et al., 2007, p. 21, tradução livre). Também, os
construtos de responsabilidade social demonstram que são apenas os
indivíduos que sentem e são sensibilizados por valores e crenças (ROBERTS,
2003). O ambiente também é levado em conta nesses construtos, ou seja, ele
também influencia a organização, principalmente por conta de seus
stakeholders. Entretanto, a percepção e a análise do ambiente sempre são
realizadas por indivíduos e, sempre serão os indivíduos que tomarão a decisão
de acatar a certas pressões ambientais ou não (WHITTINGTON, JOHNSON,
MELIN, 2004).
Desse modo, o estudo entende a idéia de que recursivamente os
praticantes e o ambiente são influenciados pelas questões da responsabilidade
social, e como isso, eminentemente, acarretará em conseqüências para o
strategizing.
Esta pesquisa pretende esclarecer quem é o praticante e seus valores
referentes à responsabilidade social, quais as práticas para certificação e
manutenção do FSC; como as práticas organizacionais são influenciadas por
práticas externas. Também, busca-se estudar as relações do ambiente com a
organização e o indivíduo e como o indivíduo afeta a organização e o ambiente,
fugindo da armadilha das pesquisas recentes da teoria da estratégia como
prática de focar apenas as micro atividades (WHITTINGTON, JOHNSON,
MELIN, 2004).
Acredita-se que o estudo possa elucidar diversas questões em favor de
um maior conhecimento dentro do campo da estratégia como prática e da
responsabilidade social. Além disso, que permita aos praticantes utilizar-se das
práticas e pensar no como aperfeiçoá-las para tornar o mundo, mesmo que aos
poucos e com dúvidas, mais justo e sustentável.
9
2 REFERENCIAL TEÓRICO
Este referencial teórico iniciará explicando a teoria utilizada, ao invés do
tema de estratégia e responsabilidade social. Dentro da teoria da estratégia
como prática, este estudo terá que entender os estrategistas e as práticas
estratégicas de forma substantiva, uma vez que na teoria ainda não existem
estudos sobre o tema.
Optou-se, então, por mostrar primeiro o construto teórico geral, o da
teoria das práticas, depois o da estratégia como prática e por último seus
elementos. Em seguida, mostra-se o conteúdo de responsabilidade social e
estratégia; os praticantes e as práticas de responsabilidade social. Também, a
relação entre a estratégia como prática e a responsabilidade social é proposta.
Por fim, é explicada a certificação do FSC.
2.1 Teorias da Prática
A sociologia sempre se deparou com a dicotomia estrutura/agência,
homo economicus/homo sociologicus, corpo/mente, materialismo/idealismo,
realismo/nominalismo. Entretanto, no começo da década de 70, os estudiosos
começaram a criar modelos alternativos para entender os fenômenos sociais de
modo que essas dicotomias fossem superadas. Esta nova teoria é a das
práticas sociais, também chamada, dependendo do autor, de práxis, ação,
interação, atividade, experiência, entre outros. De modo geral focam em quem
faz essas ações, ou seja, o indivíduo, o agente, a pessoa, o sujeito; afinal, são
eles que carregam e transmitem as práticas sociais. Os autores mais
proeminentes foram Pierre Bourdieu, Anthony Giddens, Michel Foucalt, entre
outros (ORTNER, 1984; RECKWITZ, 2002).
Embora existam diferenças entre a teoria dos vários estudiosos da
prática, de modo geral eles
procuram explicar a relação que existe entre a ação
humana, de um lado, e uma entidade global chamada “o
sistema”, de outro lado. As questões sobre esse
relacionamento podem ir a qualquer direção o impacto
do sistema na prática ou o impacto da prática no sistema
(...) [Entretanto], a perspectiva da prática não tem
10
necessidade de quebrar o sistema em pedaços artificiais
como base e superestrutura uma vez que o esforço
analítico não é explicar um pedaço do sistema
referenciando ao outro, mas sim explicar o sistema como
um todo integral por meio da referência sobre a prática.
(ORTNER, 1984, p. 148, tradução livre)
Assim, a teoria da prática, um tipo de teoria da cultura, pois “recorre a
estruturas simbólicas de significado” (RECKWITZ, 2002, p. 244), explica como a
cultura (instituições, estruturas), sendo parte do indivíduo, modela o
comportamento. A cultura “opera moldando as disposições dos atores que, em
casos extremos, suas aspirações têm os mesmos limites que as condições
objetivas de que eles são produtos” (ORTNER, 1984, p. 153, tradução livre);
todavia, esse extremo, real apenas na teoria/abstração, não ocorre. Também
não acontece a ação do agente pautada somente em suas
aspirações/intenções.
O agente também tem capacidade de mudar/conservar a cultura/sistema
por meio de práticas. A questão da mudança em um ambiente institucionalizado
que não seja gerado por questões externas (ou seja, transtornos sociais,
interrupções tecnológicas, descontinuidades competitivas e mudanças
regulatórias) gera o paradoxo da agência imersa que questiona: como os atores
“podem mudar as instituições se suas ações, intenções e racionalidade são
condicionadas por muitas instituições que eles desejariam mudar?”
(GREENWOOD e SUDDABY, 2006, p.28, tradução livre). Em outras palavras,
“como, se os atores são seres totalmente culturais, eles poderiam fazer alguma
coisa que não carrega as assumpções culturais?” (ORTNER, 1984, p. 155,
tradução livre). Esse paradoxo é superado pelas características do ator que
condicionam a imersão- consciência ou abertura a novas alternativas- dos
atores nas instituições e, também, a própria motivação para a mudança
(GREENWOOD e SUDDABY, 2006).
Quebrando as dicotomias vistas acima, a prática é concomitantemente
uma forma de pensar, uma forma de mover o corpo, uma forma de
conhecimento e, algumas vezes, relaciona-se a um ou mais objetos
(RECKWITZ, 2002).
11
Assim, essa teoria foca os três entendimentos da sociedade de Berger e
Luckmann (2003) de que o ser humano é produto da sociedade, a sociedade é
produto do ser humano e a sociedade é objetivada.
2.2 Estratégia como prática
A história da teoria da estratégia passou por diversos momentos que
focaram em diversas perspectivas: a escola do planejamento, do
posicionamento, do processo, do poder, da cognição entre outras (MINTZBERG
et al, 2000). Atualmente, seguindo a virada sociológica da prática social, a
estratégia também foca as práticas do estrategista. No campo teórico, isso
implica que os estudos permitirão entender quais as habilidades do estrategista,
as práticas que geram resultados, preocupando-se, assim, com a “efetividade
dos estrategistas e não apenas das organizações” (WHITTINGTON, 1996, p.
734).
Essa perspectiva entende “estratégia como fluxo de atividades realizadas
e situadas socialmente que tem efeitos consequentes para a direção e/ou
sobrevivência de grupos, organização ou indústria” e também para sua
vantagem competitiva (JOHNSON et al, 2003, apud JARZABKOWSKI et al.,
2007, p. 8, tradução livre).
Diferentemente de outras perspectivas de estratégia que entendem a
mesma como algo que as organizações têm, que é uma propriedade das
empresas, a estratégia como prática argumenta que a “(...) estratégia é algo
que as pessoas fazem (...) estando preocupada com a estratégia como
atividade nas organizações, tipicamente a interação de pessoas (...)”
(JOHNSON et al, 2007, p. 3, tradução livre). A estratégia também é uma prática
institucionalizada assim como o casamento (WHITTINGTON, 2007,
WHITTINGTON, 2006).
Os teóricos da estratégia como prática estudam o fazer da estratégia, o
strategizing, ou seja, “a construção desse fluxo de atividades por meio de ações
e interações de múltiplos atores e as práticas que eles recorrem”
(JARZABKOWSKI et al., 2007, p. 8)
Desse modo, estes teóricos procuram entender “o que as pessoas
engajadas no strategizing realmente fazem e como eles influenciam os
12
resultados estratégicos” (JOHNSON et al, 2007, p. 3, tradução livre). Assim, o
indivíduo, que havia sido esquecido na maioria das perspectivas estratégicas, é
retomado e parte central para esse ponto de vista teórico.
O strategizing é a confluência de atividades, práticas e praticantes
estratégicos, como podemos ver na figura que se segue:
(Fonte: JARZABKOWSKI, BALOGUN, SEIDL, 2007, p.11 apud RESE, 2009)
Figura 1. Strategizing
A diferença entre prática e atividade é entre “tradições, normas, regras e
rotinas do evento efetivo que faz a atividade(WHITTINGTON, 2002(b), p. 2,
tradução livre). Desse modo, nesse referencial, as atividades são o que o
praticante faz em um tempo e espaço, as práticas são socialmente definidas
e institucionalizas que os indivíduos “utilizam-se nas atividades”
(JARZABKOWSKI et al, p. 7, 2007, tradução livre). As atividades são
realizações das práticas, ou seja, por exemplo, uma empresa pode ter como
prática o planejamento estratégico, é uma ação institucionalizada e socialmente
definida nesta organização; a atividade é o planejamento estratégico que
ocorreu no ano de 2009 com tais reuniões, tais praticantes e de tal maneira, é a
sequência de ações naquele tempo e espaço que ocorrem para a realização de
13
uma prática: o planejamento estratégico. Vale lembrar, que a prática é tanto um
modo de fazer, como de pensar, falar, sentir, entre outros. Assim, a prática do
planejamento estratégico, voltando ao exemplo anterior, tem um modo de fazer
na empresa, com etapas e certas ações englobadas no entendimento social de
planejamento estratégico como também como pensar enquanto se realiza essa
prática (talvez projetando o futuro), como e o que se fala nela, e assim por
diante.
O strategizing pode ser de processo ou interativo. O strategizing de
processo
lida com o uso de práticas administrativas formais, como
planos, orçamentos, projeções e os comitês e
procedimentos associados a essas práticas por meio dos
quais a estratégia é coordenada, documentada e
formalmente incorporada na organização. Strategizing
interativo envolve as interações diretas, face-a-face,
intencional, entre gestores do topo e outros atores
(JARZABKOWSKI, 2005, p. 51, tradução livre).
Entretanto, normalmente, as interações sociais ocorrem em volta de
atividades formalizadas que configuram o strategizing de processo.
A perspectiva da estratégia como prática, assim como a teoria da prática,
pretende eliminar a dicotomia ambiente (sociedade) e indivíduo (atividade). Ou
seja, a estratégia é uma atividade situada, em que a “atividade modela e é
modelada pela sociedade em que ocorre. Desde que toda atividade é situada,
os atores não podem ser considerados separadamente do contexto e da
situação em que agem” (JARZABKOWSKI, p. 21, 2005, tradução livre). A
organização; assim como os indivíduos (que participam ou não dela) é afetada
por questões ambientais que moldam a mesma. Recursivamente, os indivíduos
e as organizações promovem mudanças ou persistências dessas práticas
sociais a partir do momento em que mudam determinada prática ou que a
realizam igualmente (WHITTINGTON, 2006).
Esse construto está pautado nos conceitos de voluntarismo e
determinismo. No voluntarismo, os dirigentes o responsáveis pela eficácia da
organização, pela definição de objetivos e execução dos mesmos; enquanto no
determinismo, as ações e características das organizações são determinadas
também pelo ambiente. Esses construtos deram base para a escolha
14
estratégica que, por sua vez, é precursora das relações entre ambiente e
indivíduo encontrados na estratégia como prática. A escolha estratégica advoga
que as ações do ator influenciam o ambiente e estrutura bem como a estrutura
e o ambiente influenciam suas ações organizacionais (VERDU, BULGACOV;
2000).
Desse modo, a estratégia está sempre em construção por essas forças,
voluntaristas ou deterministas como é demonstrado no modelo teórico da
estratégia como prática.
(Fonte: WHITTINGTON, 2006, p. 621)
Figura 2. Modelo teórico da estratégia como prática
As letras configuram os praticantes que podem tanto ser organizacionais
(A, B, C; dentro dos losangos que representam a organização) quanto externos
(D). As atividades são representadas pelos pontos em algarismo romano.
Nelas, os praticantes recorrem às práticas existentes (retratadas pelos
números, sejam as práticas organizacionais (1, 2, e 3) ou extra-organizacionais
(4), e as efetivam nas atividades. No decorrer da atividade, caso ela seja
realizada igual à prática configurada a priori, existe uma persistência dessa
prática (quando a linha da prática não sofre mudanças, atividade i); caso haja
diferença em como a prática foi efetivada na atividade e se torne a nova
configuração, a mudança dessa prática (quando a linha muda, como ocorre
15
na atividade ii) (WHITTINGTON, 2006). Esse modelo reflete de forma didática e
clara como para a teoria da prática tanto o ambiente, a estrutura, como o
indivíduo e a agência o importantes e constroem continuamente a realidade
social.
O modelo representa as inter-relações que, para Whittington (2006),
deveriam ser estudadas mais cuidadosamente, uma vez que, até então, a
maioria dos estudos foca as micro atividades e esquece-se das relações entre
esses três elementos: práticas, praticantes e atividades. Para esse autor, dever-
se-ia ampliar o conhecimento da estratégia como prática, destacando como a
atividade forma o praticante, como as práticas de sucesso são transmitidas por
praticantes influentes, como as atividades intra-organizacionais são marcadas
por práticas extra-organizacionais e tantas outras.
Essas relações também evidenciam o multinível da teoria, uma vez que:
os processos e práticas detalhados que constituem as
atividades do dia-a-dia da vida organizacional e que se
relacionam com resultados estratégicos (...) o que as
pessoas fazem em relação à estratégia e como isso é
influenciado e influencia o contexto organizacional e
institucional (JOHNSON et al, 2007, p. 7., tradução livre).
Assim, as micro-atividades (definidas aqui como atividades) são
entendidas em seu contexto mais amplo que é o da macro-atividade (práticas),
de propriedades institucionalizadas (JARKABKOWSKI et al, 2007).
Abaixo, notam-se os níveis do modelo teórico: ambiente, indivíduo e
organização e também as relações entre eles. É importante notar que as
práticas institucionalizadas extra-organizacionais sempre passam pelo indivíduo
antes de influenciar a organização (WHITTINGTON, JOHNSON, MELIN, 2004).
Normalmente, os teóricos da estratégia a dividem em conteúdo e
processo. O conteúdo refere-se ao que as estratégias são, ou seja,
diversificação de produtos, estratégias competitivas, inovação, entre outros; já o
processo refere-se a como a estratégia é alcançada, mudanças estratégicas,
decisão estratégica, implementação estratégica e outras (JOHNSON et al,
2007).
Entretanto, na teoria da estratégia como prática, a dicotomia conteúdo e
processo é superada e, por conta disso, o presente estudo foca uma mudança
16
que ocorreu no conteúdo, ou seja, a criação de um novo produto; entretanto
para entender este conteúdo utiliza-se do processo estratégico para alcançá-lo
analisando as relações V1, V2 e V3 (JOHNSON et al, 2007).
(Fonte: WHITTINGTON, JOHNSON, MELIN; 2004)
Figura 3. Modelo teórico multinível
2.2.1 Praticantes
Os praticantes são aqueles que fazem as atividades e transmitem as
práticas. São os conectores entre as práticas de diversos níveis e a atividade.
São não apenas os gerentes do topo, mas também gerentes dios e outros
atores da empresa. Os praticantes podem ser também atores externos da
organização como consultores, formadores de opinião, entre outros
(WHITTINGTON, 2006).
Não são apenas atores organizacionais, mas pessoas com origens,
desejos, conhecimentos distintos, que lutam por seus objetivos e interesses
(WHITTINGTON, 2007). A atividade depende das habilidades e iniciativa dos
atores de realizá-las e também “da capacidade dos praticantes de acessar e
disseminar práticas estratégicas predominantes” (WHITTINGTON, 2006, p. 626,
tradução livre).
17
Normalmente, a atividade estratégica é coletiva, uma vez que “nenhum
ator sozinho consegue construir a atividade [da estratégia] por inteiro”
(JARKABKOWSKI, 2005, p. 27, tradução livre). Embora o gestor seja o
responsável e é cobrado pelos resultados, para atingir seus objetivos ele
precisa dos outros atores (comunidade). Desse modo, é necessário que todos
no processo estejam convencidos das ões a serem tomadas. Assim, “para
obter esse comprometimento, a atividade precisa ser legitimada na
comunidade; eles precisam percebê-la como importante para organização e
para eles mesmos” (IBIDEM, p. 46, tradução livre).
Esses atores podem tanto seguir as práticas como mudá-las, isto porque
eles podem reproduzir, transferir ou mudar as práticas. A mudança ocorre
porque a confiança na prática não é passiva, ou seja, os atores a mudam,
tornando-as, às vezes, um fazer improvisado e engenhoso. Os praticantes
recorrem às práticas para agir e utilizam sua agência na escolha do uso que
farão dessas práticas (WHITTINGTON, 2006, JARZABKOWSKI et al, 2007).
A agência é conceito importante para o entendimento da teoria da
estratégia como prática. Para Emirbayer e Mische (1998), o termo agência tem
diversos conceitos e, muitas vezes, é simplificado como motivação, vontade,
intencionalidade, escolha, iniciativa, liberdade e criatividade. Todos estes
conceitos focam em algum dos seguintes temas: rotina, propósito e julgamento
que, embora explique a agência, não inclui toda a complexidade do termo pois
não traz a questão da temporalidade.
Os autores citados acima conceituam agência como um processo de
engajamento social imerso temporalmente no qual o agente, por meio da rotina,
imaginação e julgamento, tanto reproduz quanto transforma as práticas e
rotinas. Nesta visão, o ator é informado pelo passado (em seu aspecto habitual,
repetição), mas também orientado para o futuro (pela capacidade de imaginar
possibilidades alternativas, projeção) e para o presente (pela capacidade de
contextualizar hábitos passados e projetos futuros nas contingências do
momento, avaliação prática). São três os elementos da agência: repetição,
projetiva e prática evaluativa; cada qual tem seu grau de relevância para a
estratégia como prática.
O elemento da repetição, pouco abordado na literatura da estratégia
como prática, fornece subsídios para a esquematização das experiências
18
sociais, de modo que os atores recorrem, selecionam e aplicam esquemas
anteriores. Desse modo, esse elemento enfatiza a questão da agência como
continuidade das instituições e não de sua mudança, mas ao mesmo tempo
remete a questão de como a mudança é a reorganização de esquemas
anteriores.
Como alega Jarzabkowski (2005, p. 25, tradução livre) a agência
projetiva é importante, pois a “estratégia é tipicamente uma atividade
teleológica, ou seja, orientada para o futuro”. No caso da mudança estratégica,
sempre há um momento em que é orientada ao futuro, como a estratégia será.
No elemento da agência projetiva, os atores são capazes de
imaginar/criar/construir novas possibilidades/ações e, desse modo, agir de
forma diferente no futuro. Ao se deparar com problemas e desafios, o ator, por
meio da reflexividade, busca imaginar novas atividades, novos meios para agir
de modo a superar os problemas; para isso, se distancia dos esquemas e
hábitos passados e presentes e busca imaginar um futuro de outra forma. Esse
é o elemento projetivo da agência humana.
Entretanto, na perspectiva da estratégica enquanto prática, a que está
em maior evidência é a agência prática evaluativa. A mesma autora afirma que
o strategizing “pode ser definido como a agência prática evaluativa” (IBIDEM, p.
34, tradução livre).
A agência prática evaluativa é “a capacidade dos atores de fazer
julgamentos práticos e normativos dentre as alternativas possíveis trajetórias de
ação em resposta às demandas e dilemas emergentes, e às ambiguidades das
situações que o ator está envolvido” (EMIRBAYER, MISCHE, 1998, p. 980,
tradução livre).
2.2.2 Práticas e atividades estratégicas
As práticas referem-se a rotinas institucionalizadas no contexto
organizacional ou ambiental e a normas do trabalho/atividade estratégica
(WHITTINGTON, 2007). São multinível, podem ser organizacionais, societais,
ambientais, etc. (WHITTINGTON, 2006).
19
A prática difere da atividade porque ela foi institucionalizada, é
intersubjetivamente entendida e contém significado. “Assim, uma prática (ou
uma atividade) torna-se uma prática quando é socialmente reconhecida como
um fazer institucionalizado” (GHERARDI, 2009, p.117, tradução livre). Desse
modo, a prática é o conhecimento (a consciência da existência), uma vez que
entender uma prática é anterior à atividade, a realizar esta prática.
Esta ideia relaciona-se a
...um tipo de comportamento rotinizado o qual consiste
em diversos elementos, interconectados uns aos outros:
formas de atividades corporais, formas de atividades
mentais, 'coisas' e seus usos, um background de
conhecimentos na forma de entendimentos, know-how,
estados de emoções e conhecimentos motivacionais [...]
uma prática é, portanto, uma maneira rotinizada na qual
corpos se movem, objetos são manuseados, assuntos
são tratados, coisas são descritas e o mundo é entendido
(RECKWITZ, 2002, p. 249, tradução livre)
Segundo Jarzabkowski (2005, p.9): são três tipos de práticas
estratégicas: racional administrativa, discursiva e episódica.
As práticas administrativas são aquelas que servem para organizar e
coordenar a estratégia, tais como, “mecanismos de planejamento, orçamentos,
previsões, sistemas de controle, indicadores de desempenho, objetivos”
(tradução livre). Embora nem sempre essas práticas sejam racionais, elas são
relevantes e constituem o trabalho diário dos estrategistas.
As práticas discursivas o as que “fornecem recursos linguísticos,
cognitivos e simbólicos para a interação sobre estratégia” (IBIDEM, p. 9,
tradução livre). Essas práticas têm dois tipos principais: o discurso da estratégia
e as situações em que este discurso é utilizado.
Por fim, as práticas episódicas referem-se às práticas que os praticantes
podem interagir como reuniões, workshops e outros.
As atividades são o que realmente é feito. Engloba “a interconexão entre
as ações de indivíduos e grupos diferentes e dispersos e as instituições
consolidadas social, política e economicamente em que os indivíduos agem e
para qual contribuem” (JARZABKOWSKI et al, 2007, p. 8).
São nas atividades que os praticantes recorrem às práticas e ou as
replicam ou as modificam. As atividades são situadas no tempo e no espaço. É
20
tudo o que ocorre intraorganizacionalmente, formal ou informal, rotinizado ou
não, as atividades dependem da capacidade dos praticantes de realizá-las
(WHITTINGTON, 2006).
2.3 Responsabilidade Social e Estratégia
A história da responsabilidade social das empresas começa no final do
século XIX com o governo americano buscando regular abusos da indústria de
embalagem de carne. Entretanto, o primeiro acadêmico a escrever sobre o
tema foi Henry Gantt que explicou porque as empresas deveriam servir à
sociedade, seguido do empresário Oliver Sheldon em 1923 e a primeira ação
para incluir o tema na educação da administração foi por Donald David o diretor
da escola de pós graduação de administração de empresas de Harvard. em
1953, Howard Bowen mostra como as empresas afetam diretamente a vida da
sociedade e perguntando quais seriam as responsabilidades das organizações.
Desde então, diversos conceitos foram definidos de acordo com um elemento
central, de modo geral relacionavam-se à teoria dos stakeholders e à correlação
entre essa responsabilidade e resultados financeiros. Nos anos 70, George
Steiner definiu a responsabilidade social como atitude relativa à como o
administrador toma decisões, remetendo ao que atualmente é chamado de
decisão baseada no tripple botton line, ou seja, decidir/agir/analisar pensando
nas questões econômicas, sociais e ambientais (CARROLL, 1999; WHETTEN
et al, 2002) .
Historicamente, diversos conceitos do termo responsabilidade social,
muitas vezes dividido em outros elementos, foram criados (WHETTEN et al,
2002). Atualmente, o conceito de responsabilidade social está associado com o
de desenvolvimento sustentável, responsabilidade socioambiental,
sustentabilidade, entre outros. Montiel (2008) explana como os conceitos
convergem e argumenta a favor da intercambialidade dos mesmos, uma vez
que na prática empresarial é isto que ocorre. Este estudo concorda com
Montiel e utilizará ora uma expressão ora outra, remetendo ao mesmo
construto.
21
Um conceito abrangente e simples é o de a sustentabilidade ser “a
interface entre sociedade e meio ambiente que é administrada para assegurar
que as necessidades humanas serão supridas sem destruir a vida que suporta
os ecossistemas dos quais dependemos” (Visser et al, 2007, p. 446, tradução
livre). Esse conceito, tanto quanto outros, está relacionado ao Relatório
Brundtland, resultado da Assembléia Geral das Nações Unidas ONU em
1987- que define sustentabilidade como "suprir as necessidades da geração
presente sem afetar a habilidade das gerações futuras de suprir as suas".
Bansal (apud MONTIEL, 2008), recorrendo a Elkington, estreita esse construto
para sustentabilidade como integridade econômica, equidade social e
integridade ambiental.
John Elkington (1999) defende que a criação de valor das empresas não
é pautada em questões financeiras, e se o for, muitas vezes pode gerar
“uma expressão inadequada da equação do valor total” (apud VISSER et al,
2007, p. 466, tradução livre). O valor das empresas está pautado também em
aspectos ambientais e sociais, assim, não apenas um bottom line, mas o tripple
bottom line referido acima, o garfo citado na introdução. Elkington (1999)
retoma a ideia de um capitalismo verde que pode parecer um oximoro, mas que
para ele é o momento histórico em que vivemos. Assim, a comunidade está
passando de uma sociedade pautada em valores comerciais, pouca
transparência, parcerias subvertidas, foco no curto prazo, tecnologia do ciclo de
vida para produto, entre outros, para um mundo de valores socioambientais que
exige alta transparência, parcerias simbióticas, visão de longo prazo, vender
funções e não produtos. Uma “revolução” que ocorrerá pelo mercado e as
empresas que não acompanharem essa mudança não sobreviverão. Assim,
Elkington aborda a responsabilidade social estritamente ligada à estratégia,
como parte essencial da vantagem competitiva e sobrevivência de mercado.
Outros artigos argumentam também como a sustentabilidade gera vantagem
competitiva para as empresas (WHETTEN et al, 2002).
Porter e Linde (1999) escreveram um desses textos, em que
demonstram como a busca por produção e produtos sustentáveis pode ser um
fator para vantagem competitiva, ao invés de custosa, para as empresas. Esses
autores argumentam que qualquer poluição é “uma forma de desperdício
econômico” além de as empresas serem “obrigadas a executarem outras
22
atividades que adicionam custos, mas não criam valor para os clientes: por
exemplo, o manuseio, o armazenamento e o descarte de efluentes” (PORTER,
LINDE, p. 374, tradução livre). Para eles, a empresa pode se posicionar de
modo diferenciado impondo adicionais pelo “produto verde”, desbravando o
mercado dos que agem para melhoria do meio ambiente. Finaliza,
argumentando que as empresas precursoras no desempenho ambiental serão
as que colherão mais benefícios.
Nota-se que diversos autores, de distintas perspectivas da estratégia,
argumentam a favor da responsabilidade social como vantagem competitiva da
empresa.
Para que a sustentabilidade seja vista como forma de vantagem
competitiva, segundo Perrini e Minoja (2008) são necessários que três fatores
ocorram: (i) crenças, valores e história dos empreendedores; (ii) a importância e
relação entre desempenho social e financeira e (iii) conhecimento dos planos,
políticas e procedimentos de responsabilidade social da empresa.
Além disso, as empresas contam com os seguintes elementos: proteção
ambiental, políticas de boas práticas de trabalho, consciência dos stakeholders
e formalização da responsabilidade social na missão e visão. E ainda, os
mesmos recursos e competências que sustentam a vantagem competitiva da
empresa fazem com que a empresa aja de forma socialmente responsável.
Stubbs e Cocklin (2008) desenvolvem outros elementos para uma
empresa com conteúdo estratégico sustentável: redefinição de negócios; relato
conjunto de resultados financeiros, sociais e ambientais; visão alinhada à teoria
dos stakeholders; liderança; natureza como um stakeholder. Embora este
modelo seja diferente de Perrini e Minoja ele abrange os elementos citados por
estes autores.
A redefinição de negócios refere-se à expressão do propósito da
organização, em sua missão e visão, em termos de resultados financeiros, mas
também ambientais e sociais. Assim, os lucros são meios de atingir resultados
de sustentabilidade. Por conta desta redefinição de propósito, o desempenho é
medido não apenas pelos resultados financeiros, mas também pelos ambientais
e sociais. Esse desempenho é tornado público por meio de relatórios de
sustentabilidade que são também relatórios financeiros. Ou seja, não há divisão
entre o relato financeiro e o de sustentabilidade.
23
Essas empresas entendem que precisam atender as demandas dos
diversos stakeholders não apenas do acionista. Acreditam que o sucesso da
empresa está ligado fortemente com o sucesso de seus stakeholders.
Neste modelo de negócio, como a natureza é um stakeholder, os
impactos negativos da organização no ambiente são reparados e as empresas
buscam meios de vendas sem aumentar o consumo de produtos.
2.3.1 Conteúdo estratégico de responsabilidade social
Como parte do conteúdo estratégico, produtos, serviços e mercados de
uma organização podem se configurar como sustentável de diversas maneiras.
Podem ser ecologicamente corretos, ou seja, na sua utilização consomem
menos recursos que os convencionais, liberam menos poluentes/descartes, têm
o carbono emitido neutralizado pela empresa, não utilizam material tóxico em
sua composição, é feito com material pós-consumo, entre outros. Entretanto,
normalmente esses produtos excedem o que é exigido por lei.
Eles podem ter algum impacto social, como ter sido produzido por
populações carentes, ser parte do FairTrade (rede internacional que apóia
produtores com práticas de trabalho justas e sustentáveis de acordo com a
localidade e o tipo de produto (FAIRTRADE, 2009)), incentivar algum projeto
social, disseminar valores humanitários em suas campanhas. Eles podem
melhorar a vida de populações carentes como o microcrédito. Podem focar um
mercado de minorias ou o mercado de população da base da pirâmide que não
é atendido pela maioria das companhias.
O conteúdo estratégico gera impactos socioambientais, mas também
gera resultados financeiros. A indústria do micro crédito, por exemplo, tem
crescimento de 30% ao ano, com retorno de aproximadamente 14,6%
(BREUER, 2006). O conteúdo estratégico de responsabilidade social permite a
diferenciação no mercado, como ocorreu com a BT (grupo de telecomunicação
britânico) que por conta da sua atitude socialmente responsável fechou
contratos no valor de $2.2 bilhões de libras no ano fiscal 2004-2005
(VERWAAYEN, 2006).
24
O conteúdo estratégico de responsabilidade social tem posicionamento
no mercado “alternativo” de negócio como “plataforma para disseminar valores”,
comunicando fortemente seus objetivos e valores. Entretanto, está inserido em
um mercado como qualquer outro produto. Por isso, precisa estar em constante
aprimoramento, pois os competidores podem também desenvolver conteúdo
estratégico “mais” sustentável, o que é benefício para a sociedade como um
todo. Além disso, as empresas que adotam conteúdo estratégico de
responsabilidade social precisam sempre ser transparentes caso contrário
perderá legitimidade e seu posicionamento que é sua vantagem competitiva
(OOSTERWIJK, 2006, p. 184).
2.3.2 Responsabilidade Social e Atores
O referencial na área de responsabilidade social claramente comprova a
importância do indivíduo, de seus valores, comprometimento, crença na
mudança e da sua aceitação da responsabilidade social. Isto porque são eles
que permitem/realizam a mudança das empresas para uma forma de negócio
sustentável. Como delimita Stubbs e Cocklin (2008, p.122, tradução livre):
até a sustentabilidade estar institucionalizada nas
organizações e nos stakeholders, CEOs visionários irão
investir na agenda da sustentabilidade pelas
organizações e redes de stakeholders. Com a
sustentabilidade tornando-se mais incorporada na
estrutura e cultura organizacional, o papel do CEO em
“converter” a organização para a sustentabilidade diminui.
Mesmo que essa mudança não seja iniciativa dos gestores, mas
motivadas por pressões ambientais, os atores precisam entender e aceitar que
a responsabilidade social é importante e deve ser seguida pela empresa. De
outro modo, ela não seria adotada pela empresa. Os atores organizacionais
precisam acreditar que de alguma forma a responsabilidade social faz parte do
objetivo da empresa e não é apenas uma moda. Não poderiam, por exemplo,
ter a crença disseminada por Milton Friedman (1970) de que a “o negócio dos
negócios é o lucro” a qualquer custo.
25
Roberts (2003, p. 263) afirma que a efetiva responsabilidade social, ou
seja, responsabilizar-se pelas atividades e suas consequências na sociedade,
só é possível com a sensibilização do indivíduo, uma vez que
a corporação é desprovida de sensibilidade e, nesse
sentido, é incapaz de responsabilidade; ética nos
negócios será sempre um assunto pessoal e a
corporação sensível sempre precisará ser construída e
fundamentada na conduta individual
Esse autor ainda lembra que “ser foi sempre ser-no-mundo-com-outros”
(IBIDEM, p. 252) e, assim, a responsabilidade e ética nunca foram uma
escolha, mas uma necessidade da existência que foi negligenciada e
esquecida, uma vez que a teoria da agência, preponderante na economia e na
sociedade, enxerga o indivíduo apenas como uma “entidade oportunística e
preocupada com si mesmo.” (IBIDEM, p. 252). Explica, ainda, que a
sensibilidade nos negócios é esquecida por conta do distanciamento das
pessoas com os outros indivíduos que são afetados pelas ações daquela
organização.
Argumenta, então, a favor da sensibilização individual por meio da
interação face-a-face, uma vez que é quando as pessoas se transformam e
efetivamente se preocupam. Se elas não veem ou sentem a situação (pobreza,
miséria, fome, falta de educação, de saúde, entre outros) as pessoas
conseguem se "fechar" ou ficar indiferentes ao problema. Quando o indivíduo é
sensibilizado (participa, fala com quem está com problemas, tem uma
interação), provavelmente fará algo para mudar o problema.
Desse modo, é no diálogo e na relação direta com os problemas que as
organizações poderão realizar atividades que sejam real e socialmente justas e
ambientalmente sustentáveis. Assim, são as características dos praticantes e
as atividades efetivas com os diversos stakeholders que possibilitam a
transformação da estratégia empresarial de forma a estar mais voltada para
questões sociais e ambientais, não apenas econômicas.
A questão ética, de certo e errado, dos dirigentes e participantes de uma
organização são motivadores para a implementação da responsabilidade social
(MATTEN, 2006).
26
O exemplo da Body Shop mostra como os valores dos fundadores e
seus objetivos são essenciais para um modelo de negócio sustentável com seu
conteúdo estratégico também sustentável. Essa empresa, de produtos de
beleza, nascida na Inglaterra em 1976, foi pioneira na disponibilização de
produtos sustentáveis e é orientada por valores.
Foram encontradas similaridades na história dos atores de
responsabilidade social, seus valores e visões de mundo. Essas características
dos atores chaves para o movimento de responsabilidade social foram
consolidadas por meio de uma compilação feita a partir de dois estudos. O livro
de Waddock (2008), The Difference Makers, sobre os empreendedores
institucionais de organizações não governamentais ou empresas de
investimento socioambiental, e a entrevista de Oosterwijk (2006) com um
administrador da Body Shop, sobre a vida do mesmo e o papel dos fundadores
da empresa.
No que diz respeito a sua história: em algum momento da vida tiveram
que tomar uma decisão que foi pautada em valores em detrimento a ganhos
econômicos e/ou profissionais; conhecimento de diversas culturas; experiência
na infância ou adolescência com algum tipo de ativismo (WADDOCK, 2008).
Os valores dos gestores o importantes porque, além de motivarem
ações, eles influenciam diretamente a interpretação do indivíduo sobre o
ambiente e a organização (SHARMA, 2000). Sobre seus valores e visão de
mundo: (i) pessoas com convicção de seus valores que são de diversidade,
transparência, diálogo, evolução, inovação, preservação ambiental, visão de
longo prazo, confiança, segurança, esperança, que as coisas boas que fazemos
voltam para nós; (ii) pode/deve criar a empresa para gerar renda/riqueza; visão
aberta; (iii) visão de possibilidade de mudança, que uma organização sozinha
não promove mudanças na sociedade e, consequentemente, necessidade de
alianças; (iv) necessidade de inovações para mudanças; embora ativistas na
juventude, jogam a regra do jogo capitalista e tem visão de mudanças gradual e
por gerações; (v) visão de não apenas um, mas múltiplos bottom line; (vi)
motivação para criar um mundo melhor; (vii) “têm objetivo ou metas pessoais
que frequentemente ultrapassam seus próprios benefícios, vontade de agir para
mudança, não inflar as expectativas de responsabilidade social (ser “pé no
chão”) (WADDOCK, 2008; OOSTERWIJK, 2006). Normalmente, este propósito
27
ou objetivo tem pouco a ver com ganho econômico e aparece ao “fazedor de
mudança a chance para melhorar o mundo de algum modo” (WADDOCK, 2008,
p. 62).
Quanto às competências: (i) sabiam usar os recursos que tinham e
agiam de acordo com a realidade ao invés de idealismo; (ii) habilidade de ver as
mudanças necessárias e agir, desse modo, utiliza a agência projetiva para
poder ver essa mudança e a agência prática para poder agir e realizá-la; (iii)
capacidade de sensibilizar outros executivos; (iv) visão de problemas em uma
perspectiva global (WADDOCK, 2008).
2.3.3 Responsabilidade Social e Práticas
A seguir são elencadas algumas práticas, ou seja, modos de fazer,
pensar, falar, sentir, decidir, etc que ocorrem nas empresas que seguem
fortemente os preceitos da responsabilidade social, mencionadas na literatura
de responsabilidade social:
1. Mensuração de risco de Responsabilidade social
2. Relatório de sustentabilidade. O relatório é completo e transparente,
independente de ações controversas. Normalmente, quando a estratégia da
empresa é também de responsabilidade social, o relatório é em conjunto com o
relatório financeiro. Fornece dados socioambientais para todos os stakeholders
e utiliza-se de indicadores chaves de impacto social e ambiental para
demonstrar seu desempenho (VERWAAYEN, 2006, PERRINI, MINOJA, 2008;
STUBBS, COCKLIN, 2008).
3. Controle de impactos socioambientais. A empresa possui sistemas de
controle internos que promovem a identificação, mensuração, entendimento e
diminuição dos impactos negativos ambientais e sociais diretos e indiretos.
Levanta também dados sobre recursos e embalagens não utilizados que são
liberados como emissões ou descartes (VERWAAYEN, 2006, PERRINI,
MINOJA, 2008).
4. Diálogo com stakeholders. A empresa dialoga constantemente com
seus stakeholders para definir melhorias coletivamente. Além disso, apoia
organizações não governamentais que promovem a responsabilidade social.
28
Atuam com visão de longo prazo com seus públicos atingidos (VERWAAYEN,
2006, PERRINI, MINOJA, 2008, PORTER, LINDE, 1999).
5. Publicidade para aumentar consciência da Responsabilidade Social.
Essa atitude permite a influência da organização no ambiente e fortalece a
institucionalização de práticas de responsabilidade social no mercado. Além
disso, gera vantagem competitiva e possibilita que a empresa cobre um preço
premium por ser socialmente responsável (VERWAAYEN, 2006).
6. Tomada de decisão pautada nos valores corporativos, ou seja, no
triple bottom line (VERWAAYEN, 2006).
7. Assuntos socioambientais parte da agenda da alta gerência. Para que
seja efetiva a responsabilidade social precisa ser assunto dos altos gerentes.
8. Custos de oportunidade. Os gerentes devem aprender a reconhecer
os custos de oportunidade dos recursos não utilizados, principalmente de
embalagens de matéria prima e do produto acabado.
9. Sistema de recompensa. Promover a recompensa e reconhecimento
não apenas por aumento da produção, mas por produtividade, ou seja,
produção com menos custos ambientais e desperdícios de recursos (PORTER,
LINDE, 1999).
2.3.4 Processo de Responsabilidade Social e Estratégia
Os motivos para as empresas incorporarem a sustentabilidade a sua
estratégica são: a influência do mercado ou a agência de um ou mais indivíduos
da organização.
Relacionado às questões ambientais, nota-se, dentro da teoria da
estratégia como prática, que grupos de pressão podem influenciar as idéias e
conteúdo de estratégia, como o “esverdeamento” (greening) das organizações
(WHITTINGTON et al, 2003).
Machado Filho e Zylberstajn (2004) também mostram como a
responsabilidade social é consequência das pressões ambientais, de modo que
este fenômeno ocorre para que a empresa possa atingir seu objetivo clássico, o
lucro.
29
Além disso, algumas pressões ambientais específicas são identificadas
para aumentar a adoção da responsabilidade social empresarial: recompensa
com clientes satisfeitos ou pagando um valor premium pelo produto
(VERWAAYEN, 2006; MATTEN, 2006), atratividade para bons empregados,
assegurar maior independência do governo, aumentar o valor das ações para
os investidores preocupados com essas questões (MATTEN, 2006) .
Não o ambiente é motivo para as empresas agirem de forma
socialmente responsável. O indivíduo tem agência e capacidade de realizar
mudanças na organização e na sociedade. A responsabilidade social se
concretiza nesse movimento, uma vez que se a teoria social não possibilitasse
que o indivíduo mudasse a sociedade, então a questão da responsabilidade
social seria inconcebível.
Em um dos poucos artigos que investigam um processo de strategizing
da responsabilidade social (não pautado na teoria da estratégia como prática),
nota-se o papel do indivíduo para a implementação.
Em seu artigo, Perrini e Minoja (2008) desenvolvem um modelo simples,
de três estágios: na primeira etapa consta a experiência e valores do
empreendedor (no caso daquele estudo, foi também o fundador da empresa)
como motivador da ação. Na segunda, a responsabilidade social enquanto
valor e mesmo ações existe, mas é informal, não estruturada. Após este
estágio, é feita a formalização da responsabilidade social pela: disseminação de
valores, emissão de relatórios, comunicação, controle e certificações.
Também, a cultura organizacional é vista como essencial para o
processo da responsabilidade social. A cultura organizacional é o conjunto
distinto de valores, modos de agir, viver, interagir, crenças, tradições; é o que
define o que é certo ou errado dentro de uma organização (POHL, 2006). Isto
porque o entendimento dos valores da empresa pelos atores organizacionais é
importante para o mesmo discernir problemas relevantes. Assim, se uma
empresa tem valores e quer ser reconhecida como socioambientalmente
responsável gerará uma associação positiva emocional para os gestores. Esses
gestores, então, buscarão oportunidades e ações de responsabilidade social
(SHARMA, 2000).
Além disso, embora o ator seja importante para inspirar, direcionar a
empresa para determinados propósitos, a organização não pode ser
30
dependente de um ator para que sobreviva, precisa que esteja inserido na
cultura empresarial (OOSTERWIJK, 2006; POHL, 2006).
2.3.5 As certificações de responsabilidade social e a certificação
FSC (Forest Stewardship Council)
Para as empresas mostraram sua atuação socioambiental ou seus
produtos que impactam menos negativamente ou mais positivamente o
ambiente e a sociedade elas possuem dois modos: auto divulgarem ou se
certificarem. Embora em alguns países se auto declarar pode ser suficiente,
como nos Estados Unidos, normalmente não o é para convencer consumidores
conscientes em outros países. Além disso, facilita a escolha do consumidor que
não precisa buscar informações detalhadas sobre a empresa.
Os selos socioambientais identificam produtos e/ou serviços que atuam
de acordo com certos padrões ambientais e sociais e ajudam os consumidores
a fazer uma escolha baseada em informações. Normalmente os selos são
voluntários e emitidos por uma terceira organização a qual audita a empresa
para certificar que a manufatura do produto está dentro dos critérios
estabelecidos (WELLS, 2006; SCHARF, 2004).
Os selos podem certificar processos e formas de gestão, como as
normas da ISO que podem ser aplicadas em empresas de qualquer setor e
tamanho, sendo normas de processo e não de conteúdo (BARBIERI,
CAJAZEIRA, 2009). E também certificar desempenho, como o FSC (Forest
Stewardship Council); o certificado estudado nesta pesquisa que será detalhado
a seguir (SCHARF, 2004).
Os benefícios da certificação para as empresas e sociedade são:
Aumenta as informações para escolha do consumidor;
Motiva os produtores a adotar práticas socialmente justas e
ambientalmente corretas premiando as empresas com uma marca lucrativa;
Aumenta a produtividade, na redução do desperdício de matéria-prima,
energia e homens-horas;
Incentiva a construção de relações mais sólidas com fornecedores,
clientes, comunidade, governos, trabalhadores e outros públicos de interesse;
Ajuda na visibilidade e consequente obtenção de crédito;
31
Garante a fidelidade de consumidores engajados;
Fortalece a relação com clientes empresariais que cada dia mais exigem
estes tipos de produtos e
Permite às empresas se diferenciarem em um mercado cada dia mais
competitivo (SCHARF, 2004; CARLSON, 2009; WELLS, 2006).
Entretanto, “sendo um instrumento de mercado, os certificados
dependem da persuasão moral dos consumidores e mudanças estratégicas no
mercado pelos produtores e compradores organizacionais ao longo da cadeia
produtiva” (VISSER et al, p. 299, 2007, tradução livre).
Entre as possíveis conseqüências negativas da certificação estão: alto
custo, possibilidade de enganar o consumidor se este não entender direito
sobre os selos ou ainda confundi-los com diversos selos para o mesmo objetivo
e a sua utilização como barreira comercial entre países (CARLSON, 2009;
WELLS, 2006).
Lançado em 1978, o Blau Engle foi a primeira iniciativa de certificação
ambiental realizada pelo governo alemão que em 2004 possuía mais de 3.700
produtos certificados (SCHARF, 2004; WELLS, 2006). A história dos selos
continuou com o governo canadense lançando o Environmental Choice/Choix
Environmental em 1988 e os países nórdicos com o Nordic Swan em 1989. No
Brasil, os selos mais fortes são os de orgânicos, de madeira (FSC e Cerflor) e
de consumo de energia (Procel).
A história do FSC iniciou-se em 1990, em que um grupo de
consumidores e comerciantes de madeira, bem como representantes da
sociedade civil, reuniu-se por um objetivo comum: a necessidade de um
mecanismo que identificasse produtos que viessem de florestas bem
manejadas. Após diversos encontros, o Forest Stewardship Council é criado
com o propósito de “melhorar a gestão florestal mundialmente” (FSC, 2010,
tradução livre).
Para isso, a organização pretende promover a gestão florestal de forma
que seja ambientalmente apropriada, benéfica socialmente e viável
economicamente. Ou seja:
a gestão de floresta ambientalmente apropriada assegura que a
safra de produtos de madeira e não-madeira mantenha a
32
biodiversidade, produtividade e processos ecológicos da floresta
intactos. A gestão socialmente benéfica ajuda tanto comunidade local
quanto a sociedade a desfrutar benefícios de longo prazo e também
fornece fortes incentivos para comunidade local preservar o recurso
florestal e aderir a planos de gestão de longo prazo. A gestão
economicamente viável significa que a operação florestal é
estruturada e gerida de forma que seja suficientemente lucrativa,
sem gerar lucros financeiros em detrimento do recurso florestal, do
ecossistema ou das comunidades afetadas. A tensão entre a
necessidade de gerar retornos financeiros adequados e os princípios
da operação florestal responsável pode ser reduzida por meio de
esforços para comercializar um amplo leque de produtos e serviços
florestais pelo seu melhor valor (FSC, 2010, tradução livre).
Essa gestão referida acima é conquistada a partir de 10 princípios e
critérios:
Princípio 1: Obediência às Leis e aos Princípios do FSC - O
manejo florestal deve respeitar todas as leis aplicáveis ao país aonde
opera, os tratados internacionais e acordos assinados por este país,
e obedecer a todos os Princípios e Critérios do FSC.
Princípio 2: Responsabilidades e direitos de posse e uso da
terra - Os direitos de posse e uso de longo prazo relativos à terra e
aos recursos florestais devem ser claramente definidos,
documentados e legalmente estabelecidos.
Princípio 3: Direitos dos Povos Indígenas - Os direitos legais e
costumários dos povos indígenas de possuir, usar e manejar suas
terras, territórios e recursos devem ser reconhecidos e respeitados.
Princípio 4: Relações Comunitárias e Direitas dos Trabalhadores
- As atividades de manejo florestal devem manter ou ampliar o bem
estar econômico e social de longo prazo dos trabalhadores florestais
e das comunidades locais.
Princípio 5: Benefícios da Floresta - As operações de manejo
florestal devem incentivar o uso eficiente dos múltiplos produtos e
serviços da floresta para assegurar a viabilidade econômica e uma
grande gama de benefícios ambientais e sociais.
Princípio 6: Impacto Ambiental - O manejo florestal deve conservar
a diversidade ecológica e seus valores associados, os recursos
hídricos, os solos, e os ecossistemas e paisagens frágeis e
singulares, e ao assim atuar, manter as funções ecológicas e a
integridade da floresta.
Princípio 7: Plano de Manejo - Um plano de manejo - apropriado à
escala e intensidade das operações propostas - deve ser escrito,
implementado e atualizado. Os objetivos de longo prazo do manejo
florestal e os meios para atingi-los devem ser claramente definidos.
33
Princípio 8: Monitoramento e Avaliação - O monitoramento deve
ser conduzido - apropriados à escala e à intensidade do manejo
florestal - para que sejam avaliados a condição da floresta, o
rendimento dos produtos florestais, a cadeia de custódia, as
atividades de manejo e seus impactos ambientais e sociais.
Princípio 9: Manutenção de florestas de alto valor de
conservação - As atividades em manejo de florestas de alto valor de
conservação devem manter ou ampliar os atributos que definem
estas florestas. Decisões relacionadas às florestas de alto valor de
conservação devem sempre ser consideradas no contexto de uma
abordagem precautória.
Princípio 10: Plantações - As plantações devem ser planejadas e
manejadas de acordo com os Princípios e Critérios de 1 a 9 e o
Princípio 10 e seus Critérios. Considerando que as plantações
podem proporcionar um leque de benefícios sociais e econômicos, e
contribuir para satisfazer as necessidades globais por produtos
florestais, recomenda-se que elas complementem o manejo,
reduzam as pressões, e promovam a restauração e conservação das
florestas naturais (FSC, 2010, tradução livre).
Quando a empresa segue estes princípios pode buscar o selo do FSC,
atestando estas práticas. São dois tipos de certificação: manejo florestal e
cadeia de custódia. O primeiro é auto-explicativo, certifica a floresta; o segundo
é para garantir a rastreabilidade da madeira certificada, ou seja, garante que a
madeira certificada é a mesma de um produto final. No caso da Suzano, a
certificação garante que o papel e a celulose foram feitas efetivamente com a
madeira certificada e a porcentagem da mesma.
Embora o FSC tenha sido criado focando as florestas nativas, a
organização atesta que:
reconhece a pressão colocada nas florestas do mundo pela sempre
crescente demanda de recursos da madeira. [A floresta plantada]
auxilia o uso responsável de florestas naturais como uma estratégia
complementar para ajudar a conservação das florestas do mundo
(FSC, 2010).
De modo geral, a organização afirma que uma floresta plantada, ou seja,
de produção intensiva, tem um esforço de conservação ainda maior. Embora a
organização receba diversas críticas por certificar plantações ela acredita que é
um modo de promover que as florestas naturais sejam manejadas
corretamente. Todavia, condena a transformação de florestas nativas em
plantações ou para outros usos. Mais de sete milhões de hectares de
34
plantações e 30 milhões de hectares de florestas mistas foram certificadas pelo
FSC. A certificação para florestas plantadas está em processo de revisão em
conjunto com diversos membros do FSC e outros stakeholders (FSC, 2010).
O selo FSC é visto como importante pela Suzano, porque:
A certificação pelo Forest Stewardship Council (FSC) nas florestas
localizadas no Estado de São Paulo traz benefícios não apenas para
as empresas que a obtêm, mas também para os colaboradores e as
comunidades. São eles:
Melhoria da imagem institucional: A certificação confere
credibilidade internacional e agrega valor à imagem da empresa,
conferindo-lhe um diferencial e ampliando sua reputação frente ao
público em geral.
Comunidades e populações locais: Estas conhecem uma
alternativa mais eficiente de comunicação com a empresa, participam
e têm a oportunidade de parcerias em projetos e ações sociais, além
de ter os seus direitos preservados e obter novas perspectivas de
renda.
Trabalhadores: Têm suas relações trabalhistas e seus direitos
preservados, melhores condições de trabalho, alimentação,
condições sanitárias, etc.
Poder público: Utiliza a certificação como base para traçar políticas
florestais locais e regionais, em função do número de
empreendimentos certificados. Além disso, pode contar com apoio no
controle do manejo florestal e da aplicação da legislação florestal.
Sociedade em geral: Na medida em que a certificação promove o
combate à extração e à comercialização de madeira ilegal, garante o
recolhimento dos impostos e o cumprimento das leis vigentes, além
de promover o consumo responsável.
Meio Ambiente: A certificação garante a redução do impacto
ambiental da atividade florestal, a conservação e restauração do
hábitat da vida silvestre e a proteção dos recursos hídricos
(SUZANO, 2005).
Conclui-se que a certificação do FSC promove uma gestão
socioambiental de produtos florestais.
2.4 A relação teórica da estratégia como prática e das teorias de
responsabilidade social
Não existem estudos que se baseiam na teoria da estratégia como
prática para entender a responsabilidade social. Entretanto, existem diversos
pontos de convergência entre esses temas, podendo se tornar um campo fértil
para pesquisas na área de estratégia e sustentabilidade. Para isso é preciso
35
entendê-los e analisá-los mais profundamente. Neste trabalho, alguns desses
pontos são identificados a seguir.
Relação do
tema
Estragia como Ptica Responsabilidade Social
Superação de
dicotomias
Ganhos econômicos/ganhos
sociais ou ambientais.
Coletivismo e
convencimento
da comunidade
envolvida
A identidade organizacional, a
cultura organizacional, também
tem papel crucial na adoção da
responsabilidade social. A cultura
organizacional é o conjunto distinto
de valores, modos de agir, viver,
interagir, crenças, tradições; é o
que define o que é certo ou errado
dentro de uma organização (POHL,
2006). Isto porque o entendimento
dos valores da empresa pelos
atores organizacionais é importante
para o mesmo discernir problemas
relevantes. Assim, se uma empresa
tem valores e quer ser reconhecida
como socioambientalmente
responsavél, gerará uma
associação positiva emocional para
os gestores. Esses gestores,
então, buscarão oportunidadade e
ações de responsabilidade social
(SHARMA, 2000).
Ancia prática
evaluativa
As competências dos atores de
responsabilidade social: (i) sabiam
usar os recursos que tinham e
agiam de acordo com a realidade
ao invés de idealismo; (ii) habilidade
de ver as mudanças necessárias e
agir, desse modo, utiliza a agência
projetiva para poder ver essa
mudança e a agência prática para
poder agir e realizá-la. E valores de
necessidade de inovações para
mudanças; embora ativistas na
juventude, jogam a regra do jogo
capitalista e têm visão de
mudanças gradual e por gerações.
(WADDOCK, 2008)
36
Relação do
tema
Estragia como Prática Responsabilidade Social
Os valores dos gestores são
importantes porque, além de
motivarem ações, eles influenciam
diretamente a interpretação do
indivíduo sobre o ambiente e a
organização (SHARMA, 2000).
No que diz respeito a sua história:
em algum momento da vida tiveram
que tomar uma decisão que para a
escolha pelo valor sobrepusesse
ganhos econômicos e/ou
profissionais; conhecimento de
diversas culturas; experiência na
infância ou adolescência com
algum tipo de ativismo.
(WADDOCK, 2008)
Possuem certas competências:
(iii) capacidade de sensibilizar
outros executivos e (iv) visão de
problemas em uma perspectiva
global (WADDOCK, 2008).
Roberts (2003) argumenta, então, a
favor da sensibilizão individual por
meio da interação face-a-face uma
vez que é quando as pessoas se
transformam e efetivamente se
preocupam. Se elas não vm ou
sentem a situação (pobreza,
miséria, fome, falta de educação,
de saúde, etc) as pessoas
conseguem se "fechar" ou ficar
indiferente ao problema.
“as identidades que os
estrategistas trazem para seu
trabalho podem constituir
fundamentalmente
experiências diferenças no
modo que os atores modelam
a estratégia”
(JARZABKOWSKI, 2007)
o são apenas atores
organizacionais, mas
pessoas com origens,
desejos, conhecimentos
distintos, que lutam por seus
objetivos e interesses
(WHITTINGTON, 2007)
Importância da
identidade do
indíviduo e as
identidades da
responsabilidad
e social
Os indivíduos possuem certos
valores: (i) diversidade,
transpancia, diálogo, evolução,
inovação, preservação ambiental,
visão de longo prazo, confiança,
segurança, esperança, que as
coisas boas que fazemos voltam
para nós; (ii) pode/deve criar a
empresa para gerar renda/riqueza;
visão aberta; (iii) visão de
possibilidade de mudança, que uma
organização sozinha não promove
mudanças na sociedade e,
consequentemente, necessidade
de alianças; (v) visão de não
apenas um, mas múltiplos bottom
line; (vi) motivão para criar um
mundo melhor; (vii) têm objetivo ou
metas pessoais que
freqüentemente ultrapassam seus
próprios benefícios, vontade de agir
para mudança, o inflar as
expectativas de responsabilidade
social (ser no chão”)
(WADDOCK, 2008; OOSTERWIJK,
2006). Normalmente, este prosito
ou objetivo tem pouco a ver com
ganho econômico e aparece ao
“fazedor de mudança a chance para
melhorar o mundo de algum modo”
(WADDOCK, 2008, p. 62).
37
Relação do
tema
Estragia como Ptica Responsabilidade Social
Determinismo
A perspectiva da estratégia
como prática, assim como a
teoria da prática, pretende
eliminar a dicotomia ambiente
(sociedade) e indivíduo
(atividade). Ou seja, a
estratégia é uma atividade
situada, em que a “atividade
modela e é modelada pela
sociedade em que ocorre.
Desde que toda atividade é
situada, os atores não podem
ser considerados
separadamente do contexto e
da situação em que agem”
(JARZABKOWSKI, p. 21,
2005, tradução livre). A
organizão, assim como os
indivíduos (que participam ou
o dela), é afetada por
questões ambientais que
moldam a mesma. Nota-se,
dentro da teoria da estratégia
como prática, que grupos de
pressão podem influenciar as
ideias e conteúdo de
estratégia, como o
“esverdeamento” (greening)
das organizões
(WHITTINGTON et al, 2003).
No determinismo, asões e
características das
organizões são
Machado Filho e Zylberstajn (2004)
mostram como a responsabilidade
social é conseqncia das
pressões ambientais, de modo que
este fenômeno ocorre para que a
empresa possa atingir seu objetivo
clássico, o lucro. algumas
pressões ambientais específicas
são identificadas para aumentar a
adoção da responsabilidade social
empresarial: recompensa com
clientes satisfeitos ou pagando um
valor premium pelo produto
(VERWAAYEN, 2006; MATTEN,
2006), atratividade para bons
empregados, assegurar maior
independência do governo,
aumentar o valor dasões para os
investidores preocupados com
essas questões (MATTEN, 2006) .
Voluntarismo
Recursivamente, os indivíduos
e as organizões promovem
mudanças ou persistências
dessas práticas sociais a
partir do momento em que
mudam determinada prática
ou que a realizam igualmente
(WHITTINGTON, 2006). No
voluntarismo, os dirigentes
são responsáveis pela
eficácia da organizão, pela
definição de objetivos e
execão dos mesmos
(VERDU, BULGACOV, 2000).
"até a sustentabilidade estar
institucionalizada nas organizações
e nos stakeholders, CEOs
visionários irão investir na agenda
da sustentabilidade pelas
organizões e redes de
stakeholders. Com a
sustentabilidade tornando-se mais
incorporada na estrutura e cultura
organizacional, o papel do CEO em
“converter a organização para a
sustentabilidade diminuiu"
(STUBBS, COCKLIN, 2008, p. 122,
tradução livre)
38
Relação do tema Estragia como Prática Responsabilidade Social
Institucionalização
das atividades -
formação das
práticas
Esses atores podem tanto
seguir as práticas como mudá-
las, isto porque eles podem
reproduzir, transferir ou mudar
as práticas. A mudança
ocorre pois a confiança na
prática não é passiva, ou
seja, os atores a mudam,
tornando-as, às vezes, um
fazer improvisado e
engenhoso. Os praticantes
recorrem às prática para agir
e utilizam sua agência na
escolha do uso que farão
dessas práticas.
(WHITTINGTON, 2006,
JARZABKOWSKI et al, 2007).
Além disso, embora o ator seja
importante para inspirar, direcionar
a empresa para determinados
propósitos, a organização não pode
ser dependente de um ator para
que sobreviva, precisa que esteja
inserido na cultura empresarial
(OOSTERWIJK, 2006; POHL,
2006).
Ancia projetiva
Como alega Jarzabkowski
(2005, p. 25, tradução livre) a
agência projetiva é
importante, pois a estratégia
é tipicamente uma atividade
teleológica, ou seja, orientada
para o futuro. No caso da
mudança estratégica, sempre
um momento em que é
orientada ao futuro, como a
estratégia será.
No elemento da agência
projetiva, os atores são
capazes de
imaginar/criar/construir novas
possibilidades/ões e, desse
modo, agir de forma diferente
no futuro.
Na primeira etapa do modelo de
strategizing de responsabilidade
social de Perrini e Minoja (2008) a
experiência e valores do
empreendedor (no caso daquele
estudo, foi também o fundador da
empresa) como idealizador e
motivador da ação.
"até a sustentabilidade estar
institucionalizada nas organizações
e nos stakeholders, CEOs
visiorios irão investir na agenda
da sustentabilidade pelas
organizões e redes de
stakeholders. Com a
sustentabilidade tornando-se mais
incorporada na estrutura e cultura
organizacional, o papel do CEO em
converter” a organização para a
sustentabilidade diminuiu"
(STUBBS, COCKLIN, 2008, p. 122,
tradução livre)
(Fonte: JARZABKOWSKI, 2005, SHARMA, 2000, VERDU, BULGACOV, 2000, WADDOCK, 2008,
JARZABKOWSKI et al, 2007, WHITTINGTON, 2007, ROBERTS, 2003, PERRINI, MINOJA, 2008,
STUBBS, COCKLIN, 2008, OOSTERWIJK, 2006, POHL, 2006, MATTEN, 2006, VERWAAYEN,
2006, WHITTINGTON, 2006, adaptado pela autora)
Figura 4: Relação estratégia como prática e responsabilidade social
39
3 METODOLOGIA
3.1 Concepções Epistemológicas
Como visto no referencial teórico, essa pesquisa parte da teoria da
estratégia como prática que, embora possa ser coerente com diversas bases
epistemológicas, a perspectiva interpretativa é a adotada. Essa perspectiva
aponta que a realidade é entendida por meio da percepção e cognição dos
indivíduos envolvidos no fenômeno estudado, assim:
rejeita qualquer visão que atribui para o mundo social
uma realidade independente da mente dos homens.
Enfatiza que o mundo social não é nada mais que a
construção subjetiva de seres humanos individuais que,
pelo desenvolvimento e uso de uma linguagem comum e
pelas interações da vida diária, criam e sustentam um
mundo social de significado compartilhado
intersubjetivamente. O mundo social é, assim, de uma
natureza essencialmente intangível e é um contínuo
processo de reafirmação e mudança (BURRELL,
MORGAN, 1994, p. 260, tradução livre).
A principal preocupação dessa perspectiva é entender a experiência
subjetiva dos seres humanos, os quais constroem intersubjetiva e
continuamente a realidade social (BURRELL, MORGAN, 1994). Sua ontologia é
nominalista, ou seja, a realidade é entendida por meio de ideias, de nomes. A
natureza humana é voluntarista e possui agência. Além disso, o
interpretativismo assinala a natureza da sociedade como de ordem, ou seja,
concentra no estudo de formas em que a realidade social
é construída por meio de significados e ordenada pelo
ponto de vista dos atores diretamente envolvidos. Eles
apresentam uma perspectiva em que os atores
individuais negociam, regulam e vivem suas vidas dentro
do contexto do status quo (BURRELL, MORGAN, 1994,
p. 254, tradução livre)
É válido lembrar que a teoria da prática pretende superar a dicotomia
objetivo/subjetivo. Assim, pode-se argumentar que o paradigma da estratégia
como prática é interpretativista, mas se encontra mais perto do limite da
perspectiva funcionalista.
40
3.2 Especificação do Problema
Como ocorreu a construção e transformação das práticas estratégicas na
certificação e manutenção do selo Forest Stewardship Council (FSC)?
3.2.1 Perguntas de Pesquisa
1. Quais os conceitos e as propostas de responsabilidade social que
influenciam as empresas pesquisadas?
2. Quais os processos norteadores do conteúdo estratégico?
3. Quem são os praticantes na certificação e manutenção do selo FSC?
4. Quais as práticas estratégicas organizacionais na certificação e
manutenção do selo FSC?
5. Quais as práticas estratégicas da certificação FSC e do mercado?
6. Como ocorreu a certificação e manutenção do selo FSC?
3.2.2 Apresentação das categorias de análise
As categorias deste presente estudo são: práticas estratégicas,
estrategistas e conteúdo estratégico de responsabilidade social. O estudo
pretende entender a relação entre práticas estratégicas de responsabilidade
social de mercado, práticas estratégicas de responsabilidade social da
organização, estrategistas e conteúdo estratégico de responsabilidade social.
3.2.3 Definições das categorias de análise
Estrategistas
Definição Conceitual: são os indivíduos que se utilizam de práticas para
a realização das atividades estratégicas.
Definição Operacional: sedeterminado quem são os atores internos
e externos importantes para a realização das práticas e atividades estratégicas
por meio de entrevistas semi-estruturadas com gerentes de alto escalão e, a
41
partir de então, será determinado quais as características, visão/valores e
história desses atores por meio de entrevistas semi-estruturadas e dados
secundários de site e questionário para a fase quantitativa.
Práticas estratégicas de mercado e organizacional
D.C.: são “modos de fazer” rotineiros e institucionalizados que o
recorridos na hora da realização da atividade. As práticas se materializam na
atividade realizada. São multinível, ambiental, organizacional, de grupo, etc.
Podem ser administrativas, que têm o propósito de organizar e coordenar a
estratégia, tais como mecanismos de planejamento, orçamentos, previsões,
sistemas de controle, indicadores de desempenho. Discursivas, que geram
recursos linguísticos, cognitivos e simbólicos para a interação sobre estratégia.
E episódicas, que criam oportunidades para e organizam as interações entre os
praticantes no fazer estratégia, tais como reuniões, workshops etc
(JARZABKOWSKI, 2005).
D.O.: as práticas de mercado serão observadas por meio de dados
secundários tais como artigos, relatórios de responsabilidade social, site de
concorrentes (as maiores empresas e as mais sustentáveis), associações do
setor. As práticas estratégicas de responsabilidade social da empresa serão
verificadas por meio de documentos, entrevistas semi-estruturadas e dados
secundários como site e relatórios de sustentabilidade. Para a segunda fase
quantitativa da pesquisa será realizado um questionário.
Conteúdo estratégico de responsabilidade social
D.C.: conteúdo estratégico é o posicionamento da empresa no mercado
que está pautado por seu produto/serviços para determinado mercado que
culminarão em resultados. Serão de responsabilidade social quando o mercado
a ser atingido seja fonte de preocupação por seus questionamentos
socioambientais (tais como consumidores verdes, minorias, mercado de baixa
renda) e/ou quando os produtos e serviços tiverem características de
“conservação” ambiental e “justiça” social. O resultado será, além de
econômico, também ambiental e social.
42
D.O.: serão descritos os produtos e serviços das empresas bem como o
mercado a ser atingido por eles por meio de dados secundários (site, folders,
pesquisas) e primários (entrevista semi-estruturada).
3.2.4 Outros termos relevantes
Estratégia
D.C.: A estratégia é um fluxo de atividades situadas e realizadas por
pessoas que tem consequência para a direção e/ou sobrevivência de uma
organização.
Estratégia Enquanto Prática
D.C.: A estratégia enquanto prática argumenta que a “(...) estratégia é
algo que as pessoas fazem (...) estando preocupadas com a estratégia como
atividades nas organizações, tipicamente a interação de pessoas (...)
(JOHNSON et al, 2007, p. 3, tradução livre).
Strategizing
D.C.: é o fazer da estratégia, a construção de um fluxo de atividades pela
ação e interação de múltiplos atores e as práticas que eles se utilizam que
afetam a direção, sobrevivência e vantagem competitiva da empresa. É a
confluência de atividades, práticas e praticantes estratégicos
(JARZABKOWSKI, 2005).
Sustentabilidade | Responsabilidade Social
D.C.: são todas as atividades, práticas, discurso, tomada de decisão,
processo, ações que objetivam resultados econômicos (de eficiência), mas
pautados/restringidos em/por resultados ambientais e sociais.
43
3.3 Delimitação e Design da Pesquisa
A partir do referencial teórico, embasamento epistemológico, problema e
perguntas de pesquisa é fundamental elucidar como este estudo será realizado,
ou seja, a metodologia adotada.
São poucas as pesquisas na área de estratégia e responsabilidade social
e por não haver nenhuma de responsabilidade social na perspectiva de
estratégia como prática, esta investigação terá caráter exploratório-descritiva.
Assim, de acordo com seu caráter exploratório, o estudo proporcionou um
começo de conhecimento sobre o assunto, desenvolveu ideias e refinou
questões para futuras pesquisas. Além disso, no que tange à questão
descritiva, a pesquisa descreveu a categoria de análise das práticas
estratégicas. Também levantou as relações entre as seguintes categorias:
práticas estratégicas de mercado e da organização, estrategistas e práticas,
práticas e conteúdo estratégico (GIL, 1999; MATIAS-PEREIRA, 2007;
NEUMAN, 1997).
O delineamento temporal é corte transversal com aproximação
longitudinal. A observação será em um momento no tempo (NEUMAN, 1997),
por isso será um corte transversal. Contudo, serão estudadas as práticas e
praticantes desde a transformação do produto em certificado pelo FSC até a
sua constante manutenção para que não perca o selo, por isso, a aproximação
longitudinal. Entretanto, este processo não será acompanhado, apenas será
feito seu estudo histórico por meio de documentos e entrevistas, por conta disso
não se configura uma pesquisa longitudinal.
A unidade de análise são as práticas estratégicas organizacionais.
O nível de análise será individual, organizacional e ambiental; isto porque
será analisado como as pressões ambientais e individuais influenciam a
inserção da responsabilidade social nas práticas estratégicas.
O embasamento epistemológico interpretativista é mais comumente
estudado a partir de métodos ideográficos, ou seja, aqueles que buscam os
dados diretamente dos envolvidos. Esses métodos são, normalmente,
qualitativos uma vez que nesse tipo de análise “um vínculo indissociável
entre o mundo objetivo e a subjetividade do sujeito que não pode ser traduzido
em números. A interpretação dos fenômenos e a atribuição de significados são
44
básicas nesse processo” (MATIAS-PERREIRA, 2007, p. 71). Assim, essa
pesquisa teve uma primeira fase qualitativa.(GODOY, 1995; YIN, 2005). Nela,
todos os objetivos específicos de pesquisa foram pesquisados.
Essa fase foi realizada por meio de estudo de caso na companhia
Suzano Papel e Celulose S.A. por ser uma empresa que possui certificação
FSC e pela disposição da mesma de participar da pesquisa.
Este tipo de estudo não exige controle dos eventos e focaliza
acontecimentos contemporâneos. Os acontecimentos contemporâneos são
aqueles que embora possam ter ocorrido no passado ainda existam pessoas
que participaram do seu processo e, desse modo, existe a possibilidade da
realização de entrevistas (YIN, 2005).
O estudo de caso é
Uma investigação empírica que investiga um fenômeno
contemporâneo dentro de seu contexto real,
especialmente quando os limites entre fenômeno e
contexto não estão claramente definidos. (...) A
investigação do estudo de caso enfrenta uma situação
tecnicamente única em que haverá muito mais variáveis
de interesse do que pontos de dados. E, como resultado,
baseia-se em várias fontes de evidências, com os dados
precisando convergir em um formato de triângulo. E,
como outro resultado, beneficia-se do desenvolvimento
prévio de proposições teóricas para conduzir a coleta e a
análise de dados (YIN, 2005, p. 33)
Os estudos de casos têm as seguintes características fundamentais:
busca por significados atribuídos pelos sujeitos às suas vivências e
experiências pessoais; considera a unidade social como um todo; o interesse
está no individual, no espefico; foco no entendimento dos processos sociais
do que em relações entre variáveis; investigação detalhada; o fenômeno
estudado deve estar inserido em seu contexto; é fortemente indutivo e promove
uma descrição completa e literal do objeto da pesquisa (GODOY, 2006). O
estudo único foi holístico uma vez que a teoria da prática pretende analisar o
todo sem quebrá-lo em subsistemas (YIN, 2005).
Nos estudos holísticos, bem como nos de enfoque exploratório, à medida
que a pesquisa vai sendo realizada podem surgir elementos novos e variáveis
não encontrados na literatura. Desse modo, é importante que o pesquisador
45
esteja aberto para essas mudanças (YIN, 2005; GODOY, 1995). No estudo de
caso algumas práticas e características dos praticantes foram encontradas que
não estavam descritas na literatura.
Segundo Yin (2005), a qualidade do estudo de caso exploratório-
descritivo está relacionada a três condições: validade do constructo, validade
externa e confiabilidade. para Pozzebon (2004), a coerência e a validade de
uma pesquisa interpretativa estão pautadas na autenticidade, plausibilidade e
reflexividade. Relacionam-se as condições a seguir para, então, serem
delimitados os critérios almejados, o porquê e também como serão alcançados.
A validade do constructo refere-se a “estabelecer medidas
operacionais corretas para os conceitos” (YIN, 2005, p. 55); para isso, o
pesquisador deve: utilizar fontes múltiplas de evidências, estabelecer
encadeamento das evidências e o rascunho da análise deve ser revisado por
parte dos envolvidos no processo. Esta última tática permite a plausibilidade,
ou seja, que a explicação faça sentido para quem faz parte do fenômeno e para
os pares envolvidos (POZZEBON, 2004). A plausibilidade está ligada a dois
elementos: sentido para quem a e oferecer uma contribuição de pesquisa
distinta das que foram realizadas. A plausibilidade é alcançada de algumas
formas: (i) no escrito ter seções convencionais aos artigos acadêmicos, (ii)
mostrar o escopo dos achados, (iii) interagir com o leitor, (iv) mostrar as lacunas
teóricas que o estudo cobre. Neste estudo, notam-se as seções convencionais,
o escopo esta delimitado por todo o trabalho, a interação com o leitor se dá,
principalmente na conclusão, discutindo os achados. Por fim, as lacunas
teóricas cobertas pelo estudo são mostradas na justificativa teórica.
A validade externa permite a generalização analítica, ou seja, que o
estudo forneça teoria para outras situações. Para que isso ocorra, é preciso que
o estudo esteja pautado em uma teoria, neste caso a teoria da estratégia como
prática, e que haja replicação em outros contextos, ou seja, que a teoria seja
testada em outro caso, o que ocorreu em diversos outros estudos da
estratégia como prática (JARZABKOWSKI, 2005).
Na existência da confiabilidade, quando uma pesquisa é replicada por
outro pesquisador com o mesmo acesso a dados e os mesmos procedimentos,
o novo pesquisador conclui a mesma coisa que o estudo anterior (YIN, 2005).
Por se tratar de um estudo interpretativo, esta condição não é vista como
46
importante para a qualidade da pesquisa. Na perspectiva interpretativista o
pesquisador sempre terá um viés na sua coleta e análise de dados e, por isso,
é impossível que outro pesquisador, com uma história e características
diferentes, chegue à mesma conclusão (POZZEBON, 2004). Por conta disso,
nesta pesquisa este critério não será alcançado.
A autenticidade significa que o pesquisador realmente interagiu com o
fenômeno pesquisado, desse modo, é preciso que o investigador prove que
teve interação apropriada com os participantes e acesso a documentos
suficientes relacionados ao fenômeno do estudo. Para atingir a autenticidade o
pesquisador precisa: (i) mostrar que está familiarizado com as expressões do
campo, (ii) descrever quão próxima a pesquisa foi realizada, (iii) na análise dos
dados, apresentar o material bruto como trechos de documentos, entrevistas
transcritas, (iv) conduzir uma validação com os respondentes (IBIDEM). Quanto
às ações para esse critério, foram realizadas: (i) nota-se as expressões da
engenharia florestal e responsabilidade social, (ii) é descrito onde e como as
entrevistas foram realizadas, (iii) vários trechos brutos da entrevista são
apresentados, (iv) a validação dos respondentes foi realizada ao longo das
entrevistas, procurando entender se um assunto descrito por um entrevistado
como importante para esse processo também o era entendido por outro
entrevistado.
A reflexividade admite a influência do pesquisador na pesquisa. Desse
modo, requer que o pesquisador demonstre seus vieses e não tentar eliminá-los
e delimita que qualquer pesquisa é uma representação entre outras possíveis
(IBIDEM). Para isso, na introdução a autora delimita sua visão sobre o assunto.
Neste estudo, serão buscados cinco critérios de qualidade:
Validade do Construto;
Plausibilidade;
Validade Externa;
Autenticidade;
Reflexividade.
É preciso que em um estudo de caso sejam coletadas diversas fontes de
evidência para a realização da triangulação dos dados, de modo que fatos e
47
eventos sejam suportados por diversas fontes, fortalecendo a validade do
construto.
A coleta de dados foi realizada por meio de documentos e entrevistas
semi-estruturadas com os praticantes do caso.
As entrevistas foram semi-estruturadas e profundas, nelas foi possível
obter elementos para a compreensão detalhada do problema. Esse tipo de
coleta permite a observação de expressões corporais e mesmo sonoras,
permite direcionar o foco no tema do estudo de caso (GIL, 1999). Os pontos
fracos da entrevista são: respostas viesadas, imprecisões devido à memória
fraca do pesquisador, o entrevistado pode responder o que o entrevistador quer
ouvir (YIN, 2005). A entrevista foi semi-aberta e com uma pauta para que todos
os elementos da pesquisa fossem abordados, entretanto foi dada liberdade ao
entrevistado para relatar o que achava pertinente quando o mesmo comentava
algo não relacionado diretamente com a questão perguntada (GIL, 1999;
DUARTE, BARROS, 2005). A pauta da entrevista abordou os seguintes tópicos:
1. Processo para a certificação do FSC;
2. Motivo da certificação;
3. Práticas criadas e modificadas para a certificação e manutenção do
selo FSC;
4. Participantes da certificação e manutenção;
5. Características e competências que o entrevistado acredita ser
importante para as pessoas que participam da certificação e
manutenção do FSC;
6. Papel do entrevistado na certificação e manutenção;
7. Características e competências necessárias ao entrevistado para
seu papel na certificação e manutenção do FSC;
8. Opinião do entrevistado sobre a responsabilidade social e opinião
sobre ação da empresa pautada em stockholders ou stakeholders;
9. Relação entre opiniões do tema sete com a história de vida do
entrevistado (seja familiar, escolar, profissional) e seus valores.
As entrevistas foram realizadas com profissionais ligados à certificação e
manutenção do produto certificado pelo FSC, sendo um total de cinco
entrevistas com funcionários atuais da Suzano S.A. e uma entrevista por email
com um antigo funcionário que, atualmente, trabalha em uma concorrente da
48
empresa. O processo para definição das entrevistas consistiu em perguntar ao
primeiro contato, um dos gerentes da época da implementação da certificação
FSC e atual gerente de qualidade, quem eram os principais atores da
implementação bem como das práticas atuais do FSC. Além disso, em cada
entrevista perguntou-se se existia mais alguém que o entrevistado achasse
importante nesse processo. Todos os nomes mencionados foram entrevistados.
As entrevistas foram realizadas nos meses de julho, agosto e outubro de
2009. Os entrevistados, localidade e duração são os que seguem:
Entrevistado Cargo Local Duração
Entrevistada 1 Profissional da cadeia de custódia Matriz - São Paulo - SP 1h21'
Entrevistado 2 Gerente florestal SP Fábrica - Suzano - SP 1h00'
Entrevistada 3
Profissional relacionamento
stakeholders
Restaurante - São Paulo -SP 1h02'
Entrevistado 4 Gerente de qualidade Matriz - São Paulo - SP 48'
Entrevistado 5 Ex- gerente florestal Email -
Entrevistado 6
Presidente da época da implementação -
atual conselheiro de administração
Matriz - São Paulo - SP 59'
Além disso, foram colhidos dados por meio de análise de documentos.
Os documentos, dados primários ou secundários, constituem rica fonte de
dados, não são reativos (as informações contidas permanecem as mesmas por
longo tempo), são discretos (não foram criados como resultado do estudo) e
são exatos. Dentre algumas dificuldades, tem-se: o documento não foi feito
para responder àquela investigação, não promove informações sobre
comportamentos não verbais, a seleção normalmente é tendenciosa, relato com
vieses desconhecidos do pesquisador (GODOY, 1995, YIN, 2005). É importante
que o pesquisador tenha em mente que “todos os documentos foram escritos
com algum objetivo específico e para algum público específico, diferentes
daquele do estudo de caso que está sendo realizado” (YIN, 2005, p. 115). Os
documentos coletados e analisados foram: apresentações utilizadas pela
Suzano, site da empresa e dos concorrentes, jornal interno da companhia,
relatórios estatísticos do setor, relatórios de sustentabilidade da empresa e de
outras empresas do setor. Esses dados foram utilizados principalmente na
análise das práticas do mercado e do FSC e para corroborar achados das
entrevistas.
49
Foi realizado um estudo único de caso, o que permitiu entender em
profundidade o problema e forneceu informações para a realização da segunda
fase da pesquisa.
A segunda fase foi quantitativa e analisaram-se os quatro objetivos
específicos: conceitos e propostas de responsabilidade social que influenciam a
empresa, os processos norteadores do conteúdo estratégico, os praticantes e
as práticas da certificação e manutenção do selo FSC. Isto porque as práticas
estratégicas do FSC foram analisadas no estudo de caso e é uma fase de
entender este selo. Já as práticas de mercado do mercado discutidas no estudo
do caso são aquelas das empresas pesquisadas no estudo quantitativo, deste
modo, foi possível corroborar o achado do estudo de caso. Quanto ao processo
da certificação e manutenção não é possível entender ele de forma integral por
meio de um estudo quantitativo e, por isso, não foi realizado pesquisado nesta
fase.
Neste enfoque “o fenômeno pode ser mensurado numericamente de
modo a traduzir os fenômenos em números, opiniões e informações para
classificá-las e analisá-las” (MATIAS-PERREIRA, 2007, p. 71). A estratégia
utilizada foi a de levantamento, ou seja, a interrogação direta das pessoas,
neste caso, os estrategistas, envolvidos no fenômeno.
O objetivo desta fase foi o de identificar as práticas estratégicas e os
praticantes na certificação e manutenção do selo FSC. O questionário foi
desenvolvido a partir da análise dos dados coletados na fase qualitativa e
somou 14 questões (veja o questionário no anexo) com perguntas abertas e
perguntas nominais. Na maioria das questões foi incluída uma pergunta sobre
outras afirmações que o entrevistado julgava importante e não estava na
pesquisa.
As questões foram disponibilizadas online, o link foi enviado por email
para os responsáveis de cada empresa certificada por manejo florestal e cadeia
de custódia. Os contatos de todas as empresas foram encontrados no próprio
site da organização (http://info.fsc.org/). Foram enviados emails solicitando o
preenchimento da pesquisa para todas as 56 empresas que contam com o
mesmo tipo de certificado da Suzano Papel e Celulose. Destas empresas, 3
associações possuíam o mesmo contato. Houve 10 emails que retornaram. O
50
preenchimento da pesquisa foi solicitado no dia 01 de fevereiro de 2010. Uma
cobrança foi realizada no dia 08 de fevereiro e outra no dia 22.
Obteve-se um total de respostas 23, representando 41% da população.
Uma empresa solicitou o envio da pesquisa via email, pois não podia acessar o
link. Quatro empresas pediram os resultados da pesquisa, sendo que uma
delas identificou as questões como pertinentes e importantes e outra requisitou
convite para a apresentação da dissertação. Uma empresa parabenizou o
formato da pesquisa.
2
3
1
1
0
0
0
2
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19
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21
22
23
24
25
26
Dias do mês de Fevereiro
Frequência de respostas
Na tabela acima, a linha azul representa quando o email solicitando a
resposta ao questionário foi enviado às empresas. o espaço em laranja claro
do gráfico representa sexta-feira, sábado e domingo.
Notou-se que 72% das respostas foram obtidas no máximo dois dias
após o envio de um dos três emails solicitando o preenchimento; sendo que
69% no primeiro e segundo envio. Apenas uma pessoa retornou o questionário
durante o período do fim de semana (incluso sexta-feira). O horário do
preenchimento dos questionários foi equilibrado entre manhã e tarde.
3.4 Análise de Dados
A análise dos dados qualitativos foi feita pela análise de conteúdo a qual
parte do pressuposto de que, por trás do discurso
aparente, simbólico e polissêmico, esconde-se um
sentido que convém desvendar. (...) Nesta análise, o
pesquisador busca compreender as características,
estruturas e/ou modelos que estão por trás dos
fragmentos de mensagens tomados em consideração
(GODOY, 1995, p. 23).
51
Nesta análise há três estágios: a pré análise, que conta com definição de
quais documentos analisar, uma primeira leitura; a segunda fase é a de
exploração do material em que o conteúdo será codificado, classificado e
categorizado; e a última, a de tratamento dos resultados e sua interpretação.
Nela, foram comparadas as respostas de cada entrevistado às
perguntas, buscando similaridades, complementos e divergências; analisando-
se principalmente a história, as características e habilidades de cada
entrevistado, as características e habilidades que os entrevistados achavam
importantes para um profissional envolvido no processo de certificação, a razão
para certificação do FSC a partir de seu entendimento e as práticas que foram
criadas ou modificadas por conta da certificação.
Para a análise dos dados quantitativos utilizou-se a estatística não
paramétrica. As respostas colhidas foram por adesão. A frequência das
respostas bem como a variação da frequência de acordo com categorias foram
realizadas para as inferências deste estudo. Analisou-se as práticas,
características dos profissionais das áreas, práticas do mercado, razões para
certificação.
3.5 Limitações Metodológicas
Em uma investigação diversas limitações podem ocorrer. Na presente
pesquisa alguns dos limitadores foram: tempo restrito, inexperiência da
pesquisadora, a complexidade da teoria da estratégia como prática com
diversas variáveis, a unidade de análise ser de difícil análise, o número de
empresas que responderam ao levantamento e a utilização de estatística ser
descritiva.
O fator limitador do tempo foi amenizado por um planejamento dos
próximos passos da pesquisa de modo que ela ocorra dentro do previsto sem
perder a qualidade e a profundidade.
Quanto à inexperiência da pesquisadora, além da revisão teórica e
orientação, outras atividades foram realizadas para diminuir esse problema:
leitura de sites e revistas especializadas em responsabilidade social para
52
gerentes e empresários, conversas com pessoas da área, participação de
eventos sobre o tema.
Quanto à complexidade da teoria da estratégia como prática com
diversas variáveis, buscou-se não perder o foco e analisar fortemente as
práticas e praticantes.
As “práticas o difíceis de acessar, observar, medir e representar
porque estão escondidas, são tácitas e frequentemente inexpressíveis
linguisticamente(GHERARDI, 2009, p. 116, tradução livre). Para superar este
obstáculo, a investigação utilizou diversas fontes de dados de modo que se não
foi percebida em um tipo, foi identificada em outro.
O número de empresas da fase quantitativa foi baixo em relação a dados
consistentes para uma boa estatística, entretanto, justifica-se pela
representatividade da amostra frente à população.
Pelo tipo de questões do levantamento, foi necessário realizar análise a
partir da estatística descritiva, o que limita os achados da fase quantitativa
deste estudo.
Previamente, acreditava-se que o acesso ao campo seria difícil. Para o
estudo de caso, contatos pessoais ajudaram a pesquisa a ser realizada. no
levantamento, a disponibilização pelo FSC dos contatos de todas as empresas
certificadas facilitou o acesso aos entrevistados.
53
4 RESULTADOS DA PESQUISA
Este capítulo do trabalho está estruturado da seguinte maneira. Na
primeira parte, os resultados do estudo de caso são demonstrados. Nela,
começamos com uma breve explicação da empresa estudada. Em seguida, as
perguntas de pesquisa são respondidas. Na segunda parte, a análise dos
dados quantitativos é explanada. Por fim, uma breve conclusão sobre os
resultados obtidos.
4.1 A Suzano Papel e Celulose S.A.
A Suzano Papel e Celulose S. A., pertencente ao Grupo Suzano, é uma
empresa de base florestal que está 85 no mercado de papel e celulose,
sendo uma das maiores produtoras verticalmente integradas do setor na
América Latina. A companhia tem capital aberto e possui mais de quatro mil
acionistas. A empresa conta com quatro unidades industriais sendo uma em
Mucuri no Sul da Bahia e três no Estado de São Paulo (SUZANO, 2008). Além
disso, detém 50% do Consórcio Paulista de Celulose e Papel (Conpacel),
principal unidade industrial integrada de papel e celulose adquirida da Ripasa,
localizada em Americana- SP” (SUZANO, 2008, p. 10). As áreas florestais
próprias e dos fornecedores fomentados - o Programa de Fomento da Suzano é
um “sistema em que produtores independentes, por meio de contrato, plantam
eucalipto em suas próprias terras” (SUZANO, 2009) - estão situados em,
aproximadamente, 40 municípios nos Estados de São Paulo, Bahia, Espírito
Santo, Minas Gerais e Maranhão (IBIDEM). A Suzano detém um total de
570 mil hectares de florestas, dos quais 271 mil hectares são
ocupados por plantio de eucalipto, 214 mil hectares, cerca de 40%,
são áreas de preservação ambiental, que recebem programas de
monitoramento baseados em práticas de manejo sustentado, o
restante são áreas de infraestrutura. Contamos, também, com 93 mil
hectares no nosso Programa de Desenvolvimento Florestal, sistema
que incentiva o cultivo em terras de produtores locais independentes
e é responsável por parte do abastecimento industrial, além de
contribuir para a geração de renda e de empregos diretos e indiretos
(SUZANO, 2009).
54
A estrutura da empresa é dividida em três unidades de negócios
Florestal Celulose e Papel e cinco áreas Prestadoras de Serviços: Operações;
Estratégia, Novos Negócios e Relações com Investidores; Finanças; Relações
Institucionais; e Recursos Humanos. A Suzano detém também a SPP-Nemo,
distribuidora de papel. A empresa conta com 3.540 colaboradores.
4.2 Perguntas
4.2.1 Quais os conceitos e as propostas de responsabilidade social que
influenciam as empresas pesquisadas? Quais os processos norteadores do
conteúdo estratégico?
A questão da responsabilidade social na Suzano é estratégica, ou seja,
gera resultados operacionais para empresa; parte de seu mercado consumidor
exige isto dela e alguns de seus produtos geram menos impactos negativos
socioambientais ou mais positivos. Em relação aos resultados que a
sustentabilidade causa à companhia é notada em seu relatório de
sustentabilidade.
Atuamos sob os princípios da sustentabilidade, que para nós significa
a capacidade de permitir que os ciclos de crescimento se renovem.
Isso implica construir bases para um crescimento que integre
operações competitivas, responsabilidade socioambiental e
relacionamentos de qualidade com todas as partes interessadas.
Essa ótica de gestão dos negócios nos tem levado a alcançar
consistentes melhorias em nossos resultados operacionais nos
últimos quatro anos (SUZANO, 2008, p.11, grifo da autora).
Também, a gestão pautada na sustentabilidade, permite outros
reconhecimentos que geram resultados. A empresa faz parte do ISE (Índice de
Sustentabilidade Empresarial) da Bolsa de Valores de São Paulo (Bovespa), o
qual busca mostrar as empresas mais sustentáveis da Bovespa, desde 2006
(BOVESPA, 2009; EM FOCO, 2009). Também foi eleita nos anos de 2005,
2006, 2007 e 2008 uma das vinte empresas modelo em sustentabilidade do
Guia Exame de Sustentabilidade (SUZANO, 2008).
Outras práticas e comunicações da empresa demonstram a estratégia
deste tema. Ela emite relatórios de sustentabilidade, conjunto ao relatório anual
55
financeiro, desde 2004. Segundo o relatório de sustentabilidade de 2008, o
Planejamento Estratégico da Suzano
(...) está alinhado aos nossos cinco objetivos estratégicos: estar entre
as duas maiores e mais rentáveis empresas brasileiras do setor até
2015; desenvolver o tripé controle familiar, gestão profissional e
orientação para o mercado de capitais; garantir a sustentabilidade
dos negócios, para assegurar o desenvolvimento das comunidades
de nossas áreas de atuação, e a obtenção de certificações de
reconhecimento internacional; manter a gestão de Classe Mundial,
de acordo com critérios da FNQ [Fundação Nacional de Qualidade],
buscando solidez; e estar entre as dez melhores empresas para
trabalhar (SUZANO, 2008, p. 30).
A questão da sustentabilidade surge como um dos objetivos estratégicos
bem como certificações internacionais que engloba a FSC. A visão, missão e
valores da companhia também remetem ao tema da responsabilidade social:
Visão - Ser Forte, gentil e construir continuamente uma companhia
de excelência que harmonize criação de valor com a dignificação da
vida humana e a preservação dos recursos naturais. Missão -
Desenvolver e oferecer produtos de base florestal, serviços,
conceitos e idéias, antecipando-se às necessidades dos clientes e
promovendo a satisfação dos acionistas, colaboradores,
fornecedores e comunidades locais. Valores - Flexibilidade e
Agilidade - Agir com presteza, destreza e criatividade, considerando
as circunstâncias de um mundo em contínua transformação,
garantindo que o processo de gestão antecipe tendências e ameaças
e evite surpresas. Relações de qualidade - Baseiam-se em
confiança, transparência, integridade e ética. “Relações de qualidade
são aquelas que não se rompem apesar dos acidentes de percurso e
dos erros das partes envolvidas.” (Max Feffer). Humanismo e
Diversidade - Capacidade que todo ser humano tem de se
interessar pelo outro e de trabalhar em conjunto, respeitando as
diferenças. Responsabilidade Socioambiental - Somos
responsáveis pelo destino do planeta e do seu equilíbrio ambiental e
social. Liderança - Fundamenta-se em respeito, competência,
delegação de poder e coragem de assumir riscos. Segurança,
Saúde e Qualidade de Vida - Preservar a vida e a qualidade de vida
em todas as suas manifestações. Comprometimento - Equipe de
alta performance, constituída por pessoas talentosas, competitivas e
apaixonadas. Inovação e Pioneirismo - Resultado das atitudes de
vanguarda e de ir além do esperado (SUZANO, 2008).
Percebe-se como a empresa objetiva a responsabilidade social, seja em
seus objetivos estratégicos, por meio da excelência em gestão, das
certificações, do comprometimento com diversos públicos, ou em sua missão,
pela inclusão da satisfação de diversos stakeholders. Entretanto, é na visão que
a sustentabilidade fica ainda mais clara quando afirma querer “construir
56
continuamente uma companhia de excelência e que harmonize criação de valor
com a dignificação da vida humana e a preservação dos recursos naturais
(SUZANO, 2009, site, grifo da autora). Nota-se o triple bottom line grifados no
texto.
Em relação aos produtos da empresa, alguns geram menos impactos
ambientais ou apoiam alguma causa social.
Report® Senninha: produto atrelado a uma causa, em “que tem parte da
venda revertida ao Instituto Ayrton Senna, responsável pelo atendimento de 650
mil crianças” (SUZANO, 2008, p. 55).
Report no Alvo da Moda: produto atrelado à causa do combate do
câncer de mama, no qual toda a renda obtida com o licenciamento do produto é
revertida para o Instituto Brasileiro de Controle do Câncer (IBCC) e a
embalagem traz dicas para as mulheres de como fazer o auto-exame. Para a
empresa, a parceria com a campanha do Câncer de Mama “é uma iniciativa
inédita no setor de papel e celulose e está alinhada à estratégia de
sustentabilidade da Suzano, baseada nos pilares educação, geração de valores
para todas as partes interessadas, desenvolvimento das comunidades e
conservação ambiental” (EM FOCO, 2009).
Reciclato: o papel fornecido por cooperativas de catadores de materiais
recicláveis é reciclado (IBIDEM). A empresa acredita que este produto promove
a inclusão social e a diminuição de resíduos urbanos. E que, dessa forma,
contribuem “para reduzir o impacto sobre os aterros sanitários e para incentivar
a profissionalização das 80 cooperativas de catadores com as quais
trabalhamos” (SUZANO, 2008, p. 55).
Report Carbono Zero: em que as emissões de gases do efeito estufa de
sua produção são neutralizadas com a plantação de espécies nativas (EM
FOCO, 2009). Este é o “primeiro papel fabricado no Brasil em escala industrial
que compensa a emissão de gases de efeito estufa durante o processo
produtivo, por meio da recuperação de florestas nativas” (SUZANO, 2008, p.
55).
Report Carbon Neutral: o mesmo conceito do Report Carbono Zero, mas
vendido no exterior. Assim, a “produção e transporte para toda a Europa
também tem seus efeitos neutralizados” (IBIDEM).
57
Produtos FSC: produtos que são certificados pelo Forest Stewardship
Council (FSC) e promovem a gestão de florestas de modo ambiental, social e
economicamente correto.
O mercado da empresa é interno e externo, no relatório de
sustentabilidade de 2008, a Suzano define que sua “estratégia de atuação”
está concentrada em duas linhas de produtos: celulose de mercado,
vendida principalmente para produtores de diferentes tipos de papel
em 47 países, sendo nosso foco as exportações; e papel, vendido
principalmente nos mercados latino-americanos, em especial no
Brasil. (SUZANO, 2008, p.10)
As vendas para o mercado externo podem ser vistas nas tabelas abaixo.
(Fonte: SUZANO, 2008 e 2005, adaptado pela autora)
(Fonte: SUZANO, 2008 ; SUZANO, 2005, adaptado pela autora)
58
(Fonte: SUZANO, 2008, p.51)
(Fonte: SUZANO, 2008, p. 54)
É claro a predominância da exportação de celulose que, entre 2002 e
2008, uma média de 82% da venda de celulose é para este fim. Os dados de
2007 e 2008 demonstram como grande parte, entre 46-47%, desta celulose é
vendida para a Europa. O papel por outro lado, como visto na atuação
estratégica, foca o mercado interno. Entretanto, ainda vendas significativas
para o mercado externo. Ou seja, de modo geral, grande parte do mercado da
Suzano está no exterior e, mais especificamente, em parte significativa, na
Europa. Em 2008, por exemplo, as vendas para a Europa seriam de
aproximadamente 497 mil toneladas de celulose.
59
Embora no Brasil não seja o comum práticas como boicote a produtos
ou exigências socioambientais para compra de produtos, no exterior,
principalmente Europa, é uma prática comum. Em estudo realizado pelo
Instituto Akatu para o Consumo Consciente, percebe-se que a atitude de
premiar ou punir empresas por causa de sua atuação socioambientalmente
responsável é bem maior do que no Brasil. 55% dos norte-americanos e 40%
dos europeus puniram empresas irresponsáveis, no Brasil foram apenas 13%.
O Brasil premiou 12% das empresas responsáveis, enquanto na Europa este
índice sobe para 32% e na América do Norte para 46% (AKATU, 2007).
Ouchi (2006), em sua dissertação de mestrado acerca de como a
responsabilidade social ocorre no setor de papel e celulose, afirma:
As companhias entrevistadas exportam parcela significativa de sua
produção, desde a Klabin que exporta quase um terço de sua
produção, até a Aracruz e a Cenibra que exportam quase a
totalidade de seus produtos. Parte significativa das exportações é
direcionada a mercados europeus onde existem exigências muito
fortes sobre quesitos ambientais, tais como certificações florestais
(ex: FSC© Forest Stewardship Council) e ainda sobre questões de
direitos humanos (ex: certificação SA 8000) (OUCHI, 2006, p. 50).
Corroborando o dado da pesquisa do Akatu e da dissertação de Ouchi, o
antigo presidente da Suzano menciona como os consumidores externos,
principalmente europeus, exigem a certificação FSC e como esse fato,
conjuntamente com uma cultura da certificação, foi primordial para a decisão da
certificação.
O que acontece, o Brasil, por causa da questão do desmatamento,
uso inadequado das florestas, ele vem sofrendo nos últimos anos
uma pressão dos consumidores externos tentando identificar a
origem das suas florestas, se ela é ambientalmente correta, não é
conseqüência de desmatamento, trabalho escravo, invasão indígena,
não é consequência de grilagem, coisas desse tipo. Como se vem
fazendo ao longo dos últimos anos, certificações, não na questão
ambiental, mas na questão de qualidade, esse processo começou
trás com a ISO9000, você procurar ter uma constância na qualidade
do produto. Começou com a ISO9000 que certificava empresa que
tinha um processo de produção correto e continuado que garantiria
um produto de boa qualidade continuamente, depois vieram as ISO
14000, na época parece que foi a primeira empresa no mundo de
papel e celulose a ter a ISO14000, o que era a ISO14000? Era a de
certificação ambiental, nós começamos antes com a norma ABS, que
é uma norma precursora da ISO, uma norma inglesa que nos
certificou, a ISO nem tinha saído ainda. Quando saiu, nós fomos a
60
primeira empresa a ser certificada. A ISO 14000 foi muito importante
para nós, de certa forma nos deu um diferencial em relação ao nosso
concorrente em relação a nossa qualidade e questão ambiental,
nosso processo ambiental foi certificado a nível internacional, quando
você é uma empresa exportadora, você precisa além de uma boa
qualidade do seu produto você precisa ter uma imagem muito boa no
mercado internacional para que os clientes dos seus clientes queiram
comprar de você. Então a ISO ambiental trouxe pra gente essa
diferenciação, de que era uma empresa ambientalmente correta,
certificada por organismos internacionais, com práticas ambientais
adequadas. Mas depois ficou ainda a questão da floresta, começou a
se questionar muito a origem das madeiras de exportação do Brasil
nós achamos o seguinte, como nós éramos grandes exportadores,
principalmente para a Europa, EUA e Ásia, principalmente Europa,
que consumidores eram muito exigentes, cada vez mais nós
percebíamos o movimento de qual era a origem da floresta?, tem
índio?, teve problema com índio?, é desocupação?, foi
desocupação?, essas florestas preservam mata nativa?, está
cortando mata nativa? Então nós corremos atrás de uma certificação
florestal, começou um trabalho grande desse processo de
certificação, que é um processo importante, mas demorado, por isso
tem que se adaptar, tem sempre questionamento se você está
fazendo correto em todos os procedimentos, tem que ajustar
processos, e isso tudo foi feito ao longo do tempo e até
conseguirmos a certificação do FSC. O que ela trouxe para gente?
Um diferencial, não em termos de preço, que nossos concorrentes
não tinham FSC, mas em termos de imagem, clientes começaram a
procurar nosso produto por ter a certificação (Entrevistado 6, 2009).
Outra entrevistada menciona ainda clientes internos que exigem
produtos mais “sustentáveis”.
m clientes que exigem, tipo uma Natura, se for FSC, ou Reciclato,
mas também Unilever, etc.. Parte da linha... Têm alguns que
compram por ser FSC, se não for FSC provavelmente a gente perde
mercado, mundialmente falando... (Entrevistada 1, 2009).
Conclui-se que o mercado da Suzano é exigente em relação a questões
socioambientais.
Por causa disso, a empresa passou a ter diversas certificações e
aumentar o escopo do FSC internamente. Os dados abaixo ilustram essa
evidência:
(...) o maior escopo de múltiplas certificações florestais do mundo,
com base nos dados da International Accreditation Fórum (IAF),
entre elas o selo FSC, as ISO 14001 e 9001 e a OHSAS 18001. O
FSC, que atesta o manejo responsável das florestas, certifica todas
as nossas florestas próprias plantadas para fins comerciais e todas
as unidades industriais e escritórios de vendas, resultado de um
trabalho contínuo que teve início em 2004 com a certificação da
Unidade Mucuri (SUZANO, 2008, p. 44).
61
A SPPNemo, nossa divisão especializada na distribuição de
produtos gráficos no Brasil, possui 13 unidades comerciais e grande
abrangência no mercado nacional. Ela também atua com produtos de
outros fabricantes e foi a primeira distribuidora nacional a obter a
certificação FSC. Graças a essa conquista, tornou-se pioneira em
garantir o selo para toda a cadeia produtiva, dos fabricantes de
celulose e papel à indústria gráfica. A SPPNemo possui ainda
certificações nas normas ISO 9001 e 14001. A Unidade Anchieta é
ainda certificada pela norma SA 8000, relacionada ao cumprimento
de requisitos rígidos em relação à responsabilidade social e ao
engajamento de seus parceiros (SUZANO, 2008, p. 45).
4.2.2 Quem são os praticantes na certificação e manutenção do selo
FSC?
Todos os funcionários envolvidos no manejo florestal e na cadeia de
custódia foram e são essenciais para que a Suzano conseguisse o FSC e
também para que ela o mantenha. Todos entrevistados ressaltam a
importância da participação de todos os funcionários para a implementação e
continuidade da certificação FSC. Também, atores externos participaram da
implementação e manutenção do selo.
A primeira fase (do diálogo com stakeholders) é chamar os principais
interlocutores, daí ter uma consultoria, a AMCE que está ajudando
(Entrevistado 2, 2009).
Foi usada uma consultoria para começar o diálogo sustentável (...)
quem conduziu isso foi essa consultoria - eu saia de cena e eles
conversavam com a consultoria para deixar mais neutro
(Entrevistado 3, 2009).
Teve um treinamento mais pesado com os auditores internos que daí
nós contratamos uma empresa que é a Simetria, é um treinamento
de auditor de FSC (Entrevistado 2, 2009).
O cara no armazém logístico ele está pensando no negócio dele (...)
o nosso trabalho na área de certificação é mergulhar no mundo dele,
facilitar para ele, que ele entenda a necessidade disto, que ele veja
que isso é para o cliente, que vai melhorar venda, que vai melhorar o
processo dele de utilização do FSC, esse é o trabalho que eu vejo
como mais importante (Entrevistada 1, 2009).
Tem que incorporar dentro, como a poeira, tem que incorporar, até a
empresa que presta serviço para Suzano tem que se adaptar, teve
caso de transportador que tinha pátio dentro da cidade que de tanto
62
fazer manobra acabou com asfalto, e tivemos que fazer parceria
(Entrevistado 2, 2009).
Uma grande dificuldade que eu encontro, uma das grandes
dificuldades, é envolver os colaboradores da empresa da empresa de
outras áreas numa demanda social, então é todo mundo muito
focado, “ah eu faço silvicultura, eu faço mercado, eu faço
comunicação, eu faço meio ambiente”, mas assim aquela demanda, é
uma demanda que... por exemplo, transporte, como que é a logística
do transporte? Eu tive que envolver os funcionários diretamente
relacionados ao abastecimento. Então isso pra gente foi muito
bacana, porque eu consegui colocar, sei lá, 5, 6, até mais, 15
pessoas de diferentes áreas discutindo com a comunidade. Então
isso foi muito bacana, porque também é uma dificuldade que a gente
tem de trazer essa preocupação, esse cuidado, essa atenção pra
dentro da empresa, entendeu? Englobar no dia a dia. A florestal, na
verdade eu sou sortuda, porque a florestal, como as pessoas estão
diretamente no campo, eles acabam tendo contato muito mais
próximo com a comunidade do que uma pessoa da industrial por
exemplo (Entrevistada 3, 2009).
Então muda [a responsabilidade social], de certo patamar para o nível
estratégico, né? Porém, é um erro em minha opinião, e o FSC, os
selos ajudam a isso, você ficar no estratégico e esquecer a
operação, e no final de contas, quem vai fazer acontecer a questão
ambiental ou social é quem está apertando aquela válvula, né? Então
um operador apertou uma válvula errada contaminou o rio ali, toda a
questão daquele desastre ambiental todo porque o cara apertou uma
válvula errada. Então não adianta a empresa ter toda uma visão...
(Entrevistado 4, 2009)
Mas esse processo não se resume a esse comitê [para certificação],
na verdade todas áreas da companhia tem que se ajustar, então esse
comitê coordena junto com a certificadora o trabalho, quais são as
diferenças, depois cai passar pra toda área operacional para que
então o pessoal trabalhe definindo quais são os investimentos a
serem feitos, idêntica quais as mudanças, mas isso envolve
empregados da empresa, diretoria, presidência. Na hora de definir os
investimentos, temos que mudar tais práticas, temos que ajustar
comportamento de pessoas, você envolve todo um processo de
trabalho, então isso é levado à diretoria que toma as decisões, inclui
no orçamento os trabalhos, planos, cobra, acompanha, nós temos o
comitê pra acompanhar o processo, normalmente é assim que
funciona (...) Quando a gente pensou em estabelecer a visão do
futuro, tem que ser participativo, todo mundo tem que comungar de
toda a visão, a visão qual foi, nós queremos ser a maior empresa,
estarmos entre as duas maiores empresas, não as maiores, mas
também queremos ser vistas como a empresa que as melhores
práticas são adotadas, ser a melhor, nessas condições... e ai
começou, como é que vamos fazer? com o envolvimento de todos,
você para liderar, você tem que convencer, você tem que ser uma
pessoa convincente, praticar e convencer, não adianta falar, você
tem que praticar o que você diz, quando você envolveu todos num
trabalho de visão, convocou todos a atingir essa visão, uma gestão
participativa, então não era o sonho do Murilo, era de todos, gerou
63
uma união muito grande na companhia, e todo mundo se sentia muito
feliz com cada conquista da companhia, era uma festa, uma alegria,
as pessoas adoravam trabalhar na companhia, sentiam-se parte das
decisões, das conquistas, o sonho da companhia era o sonho de
cada um... (Entrevistado 6, 2009).
A última passagem remete ao que destacamos no referencial sobre a
atividade estratégica ser coletiva, uma vez que “nenhum ator sozinho consegue
construir a atividade [da estratégia] por inteiro” (JARKABKOWSKI, 2005, p. 27,
tradução livre). Embora o gestor seja o responsável e é cobrado pelos
resultados, para atingir seus objetivos ele precisa dos outros atores
(comunidade). Desse modo, é necessário que todos no processo estejam
convencidos das ações a serem tomadas. Assim, “para obter esse
comprometimento, a atividade precisa ser legitimada na comunidade; eles
precisam percebê-la como importante para organização e para eles mesmos
(IBIDEM, p. 46, tradução livre).
Comprova-se que a construção da estratégia da certificação é coletiva e
envolve todos os níveis hierárquicos da companhia.
As histórias dos entrevistados são importantes para entender quem é o
praticante da responsabilidade social, como ele pensa e suas características.
Entrevistada 1: Profissional da área de cadeia de custódia do FSC
A profissional, de 20-30 anos, formada em engenharia química e mestre
na mesma disciplina, entende que os valores da responsabilidade social estão
presentes em sua vida desde sua infância. Elaborou pesquisa para criação de
uma técnica que reduz a emissão de poluente no uso de plástico como
combustível. Quando a autora perguntou se desde criança ela tinha os valores
ligados à responsabilidade ou se tem alguma história na sua vida ou da
formação que a ajudou a pensar desse jeito, a entrevistada respondeu
Nossa... na minha vida inteira... bom eu falo que minha irmã é
“ecoxiita” ela acabou de defender o mestrado dela, também na área
ambiental... então é da família... (...) Meus pais, não que eles tenham
absolutamente nada com meio ambiente ou com a parte social, eles
não tem disso, mas aquela historia... é besta isso que eu vou falar eu
não cresci assistindo SBT ou Chaves, meu pai me proibiu de assistir
Chaves, a uma certa altura da vida eu tinha que assistir reporte Eco
de domingo, entendeu? Então de uma maneira ou de outra a paixão
por meio ambiente começou nesse momento, de Jacques Cousteau
que tinha na Cultura... o fato dali começou a mudar a minha visão,
no técnico - eu sou técnica em Química já no técnico que lembro de
64
começar a pensar no cromo que era gerado na fabricação do couro, e
foi a primeira tentativa de pesquisa, depois eu fui pro laboratório
fazer reciclagem de celular, depois eu fui pra área de reciclagem de
pilha, depois veio reciclagem de plásticos... então tem um histórico
sim, sempre muito acadêmico, mas... agora o que eu vejo é estando
aqui na Suzano ou em qualquer outra empresa, o que eu vou tentar
fazer é o seguinte, inserir no modelo clássico de gestão baseado nos
resultados dos negócios, métodos pra gente ser um pouquinho
melhor, seguindo aquela linha da FSC de ser sustentável ou o, de
gerações futuras, que eu não sei se a gente vai chegar nisso, bom eu
acho que a gente nunca vai chegar nosso porque é muito utópico,
mas que eu acho que através do trabalho a gente tenta melhorar um
pouquinho, entendeu? Eu adoro falar disso...
.
Entrevistado 2: Gerente florestal das florestas de São Paulo
O engenheiro florestal, de 40-50 anos, acredita que ter vindo do interior o
ajudou na implementação e manutenção do FSC; entretanto, não teve o
ensinamento sobre responsabilidade social na sua infância e juventude.
Eu sou do interior, sou meio caipira, eu fui criado em fazenda e tio
até 6 anos (...) eu acho que faz diferença essa convivência, até os 6
anos era direto, tirava leite de vaca, ia pescar, andava descalço no
barro, mesmo depois ainda, contato com a natureza não tem como
ficar sem. Acho que isso ajuda, é diferença de uma pessoas que
nasce numa cidade, por exemplo São Paulo, que nunca viu uma
galinha, acho que a visão e valores dessas pessoas são outros (...)
ainda conseguir, tem aquele negócio do social, acho que ninguém é
egoísta ao extremo e poder conciliar trabalho profissional ganhando
dinheiro e ainda podendo fazer algo que está dentro dos seus
valores, tráz realizações, (...) tráz benefícios, (...) ajuda a sociedade
essa minha história também facilita para lidar com o pessoal, o jeito
de falar, como falar.
Entrevistada 3: Profissional de relacionamento com comunidade
A advogada, de 20 e poucos anos, acredita que seus valores e crença na
responsabilidade social vem desde a infância, trabalhou com projetos sociais na
infância e juventude.
Ah, eu acho que, meus pais são extremamente idealistas, sempre
foram pessoas engajadas, eu no colégio, desde meus 8 anos de
idade comecei trabalhar em projetos sociais (...) sempre fui uma
pessoa questionadora, faculdade de direito foi o maior choque e ouvi
umas questões extremamente (desumana) e me incomodava (...) foi
desde pequena, fui criada também em fazenda, (...) meus melhores
amigos eram os filhos dos funcionários que trabalhavam com meu
avô na lida de gado (...)
65
Entrevistado 4: Gerente de Qualidade
O engenheiro, mestre e doutor em administração com foco na ISO, atual
presidente do grupo de trabalho da ISO 26000, define sua trajetória como
segue:
Agora a minha trajetória pessoal, eu posso até dizer que eu vim para
essa área, quase que por acaso, vim para cuidar da parte de
qualidade e fui para ambiental em função da minha atuação lá fora na
ISO, tem duas coisas que me influenciaram muito nessa questão de
visão de mundo mais integrada, pragmática sim mais idealista, tem a
ver com a minha infância, um monte de questões familiares eu fiquei
amigo do Glauber Rocha (...) o Glauber era um gênio e uma pessoa
distante do tempo dele (...) isso me influenciou bastante, foi muito
importante na minha visão de mundo e a outra coisa que também é
curiosa eu estudei em colégio religioso, colégio de padre, como meu
pai não tinha tanto dinheiro, era relativamente pobre, para
complementação da bolsa, eu precisava ajudar na igreja, e tinha um
padre que era da parte comunista, da ala do Leonardo Boff, então
isso influenciou minha formação (...) depois da engenharia, da
faculdade mestrado e doutorado na GV, se distanciou desse
idealismo.
Entrevistado 5: Engenheiro florestal da época da implementação
atualmente trabalhando na concorrência
O engenheiro definiu sua visão de mundo, no que se relaciona ao
trabalho:
Trabalhar no equilíbrio de vários aspectos sempre foi motivação, vejo
oportunidades no pensamento sistêmico - interdependência, "mas as
empresas não podem perder o foco e desenvolver e resolver as
questões e relações com a sociedade, caso contrário, estará
discriminando a própria espécie no desenvolvimento sustentável.
Entrevistado 6: Presidente da época da implementação atual
conselheiro do conselho de gestão da Suzano Papel e Celulose
Diz que teve muitos bons professores na vida que o ensinou a ser
humilde e aprender.
Então eu acho assim a minha maior qualidade foi ter a humildade de
aprender, errar e fazer de novo, esse é um problema complicado,
quando você atinge uma determinada posição você começa a se
achar o dono da verdade, e não foi assim, teve mil erros, mas a gente
ia errando e aprendendo, né? A pior coisa é a burrice de persistir no
erro então a gente ia ajustando, no momento que eu ia vendo que a
gente ia tendo crises, e falei para tudo e chama alguém de fora e vem
me ajudar. Discute aqui com a diretoria o que pode melhorar, o que
não pode. Então eu acho assim a maior qualidade que pode ter sido é
ter a humildade de ouvir, de aprender, de me questionar, de admitir
66
ser questionado, de ouvir os outros, porque se você não faz isso você
não enxerga as coisas, o todo.
Os entrevistados demonstram possuir algumas características referentes
a sua história de vida: valores de responsabilidade social, atuação em projetos
ou atividades de cunho socioambiental na infância ou juventude, moradia em
local próximo à natureza, busca para trabalhar em áreas socioambientais,
relacionamento com grupo sociocultural diferente do seu, motivação em
perceber que seu trabalho traz benefícios socioambientais e pessoas em suas
vidas que transmitiram esses valores (pais, educadores, outros). E, para os
profissionais mais novos, a questão da responsabilidade social e
sustentabilidade foi mais presente na sua educação formal. Para o presidente a
humildade de aprender é entendida como essencial para todo o seu papel
dentro do processo que culminou na certificação do FSC.
O antigo presidente, praticante de alto escalão, utilizou-se da agência
projetiva; enquanto os outros atores falam mais da agência prática-evaluativa.
Essa agência relaciona-se com o pragmatismo, uma vez que as ações e
decisões são realizadas a partir das características do momento, da interação e
das possibilidades.
Eu estou com você todo esse histórico por causa de uma pergunta
sua, se precisava ter essa visão, e a primeira coisa é que você tem
que ter a visão e acreditar nela... tem um ditado que diz “se você não
sabe para onde quer ir, nenhum vento é a seu favor” e é uma
verdade, como é que você vai chegar se não sabe onde é ?, e o
PNQ (prêmio nacional de qualidade).. a primeira coisa que definia era
a visão de onde eu quero ir, e qual a missão, como eu quero ir, e
quais são os valores que eu não abro mão para ir e quando você
define uma missão, visão, valores inspiradores, todos os empregados
começam a acreditar (Entrevistado 6, 2009).
Tem pedidos do FSC que são cabulosos de realizar, que impactam
em grandes custos e são difíceis de realizar. Na cadeia de custodia,
por exemplo, tem uma etiqueta que vai no fardo do papel, o código é
o RG da empresa para o FSC, o nosso [tipo de selo e Brasil] FSC
cresceu muito, aumentou os dígitos do código, chegou ao ponto de
querer trocar todos os códigos, 50 mil toneladas de rótulos no
estoque, é impossível, impraticável, você negocia o bom senso,
mas foi produzido e não vendeu ainda, mudou de uma hora para
outra, pedidos que nós negociamos, mas que não vai inviabilizar a
venda do produto ser certificado, negociamos para que sejam feitos,
o produto não perdeu nenhuma das características de rastreabilidade
de floresta certificada, essa é a minha visão. Outras coisas eles têm
razão e a gente precisa passar as informações para eles. E o custo
67
disso? E a hora extra das pessoas porque as pessoas não vivem
para certificação FSC... (Entrevistada 1, 2009).
FSC não usa sustentabilidade. O termo sustentabilidade remete a
gerações futuras e afins e a gente não tem ainda base de dados
suficientes para saber o que vai ser da geração futura, por mais que a
gente esteja fazendo o manejo das florestas a gente não sabe o que
vai ser da geração futura, a gente ta fazendo o melhor manejo agora
e faz sentido (...) Mesmo se uma empresa seja certificada de
qualquer coisa, nunca ela está no ponto máximo utópico que a norma
existe .... sempre vai ter melhorias e a norma muda então você nunca
chega a completar tudo (Entrevistada 1, 2009).
Nota-se como a teoria/proposta da norma e a busca por sustentabilidade
é algo pragmático, a entrevistada chega a falar que o ótimo/utópico “nunca vai
acontecer”, ela tem plena consciência de que existem limitações para certos
ideiais e concorda com o FSC de não usar o termo sustentabilidade (afinal não
se sabe se será alcançada) quando diz “e faz sentido”. Continuando, a
entrevistada afirma:
Somos empresa, temos que gerar valor, lucro, valor sustentável, não
adianta gerar valor hoje e não gerar amanhã, este é nosso papel, a
gente é uma empresa, não é uma ONG (Entrevistada 1, 2009).
A entrevistada 3 também demonstra plena consciência da configuração
da sociedade e das pessoas, de que não é o mundo ideal que tem “muita
coisa para melhorar”, mas mesmo assim ainda tem o “ponto positivo”.
Finalmente, mostra a necessidade de ser objetivo, senão “não adianta”.
As certificações estão começando a mostrar para a empresa, ou se
preocupa com a comunidade ou você está fora do mercado - para
você falar com o setor privado, tem que falar assim (...) um ponto
positivo, mas tem muita coisa para melhorar (...) é uma área que está
ganhando espaço agora, se você o for objetivo (...) não adianta
(Entrevistada 3, 2009)
Embora ambas as entrevistadas sempre estiveram envolvidas com
projetos ambientais e sociais desde o colegial ou antes e, deste modo,
possuem uma característica de querer mudar o mundo, certo idealismo, elas
demonstram nos trechos seu pragmatismo e objetividade. Quando perguntado
ao entrevistado 5 quais são as habilidades, características e competências
necessárias aos atores que trabalham com a certificação ou na área de
68
responsabilidade social ele respondeu pragmatismo e objetividade,
características dos entrevistados, como demonstrado nos trechos acima.
Outras características observadas foram: visão de mundo complexo,
interdependente e sistêmico, diversidade, legitimidade da responsabilidade
social seja por motivos de valor ou de mercado ou ambos e a humildade de
aprender.
O idealismo é citado pelo entrevistado 4
Mas em geral nessa área elas [as pessoas] têm algum idealismo nas
suas características, em geral. Então fogem ao pragmatismo do
resultado somente, acham que o resultado não pode ser somente
financeiro, que tem que se olhar os impactos de uma maneira mais
ampla, praticar ação, por exemplo, na questão socioambiental, então
toda essa visão é muito própria de algumas pessoas que tem essa
visão de mundo mais integrada, mais justa, toleram diversidade,
acham que homossexuais têm o mesmo direito que pessoas que...
que essa questão nada tem a ver com competência. Eu acho que
isso são coisas específicas das pessoas desta área, né? Mas cada
dia mais as empresas têm essas estratégias, então é esperado que
vire mesmo a ferramenta de negócio (Entrevistado 4, 2009).
Conceitos, muitas vezes, entendidos como excludentes, pragmatismo e
idealismo, ganho financeiro e preocupação socioambiental, existem
concomitantemente para esses praticantes. Esta visão de mundo complexo
leva a uma visão de mundo interdependente e sistêmico, a qual remete à teoria
dos stakeholders, como explicado pelo entrevistado 5: Trabalhar no equilíbrio
de vários aspectos sempre foi motivação, vejo oportunidades no pensamento
SISTÊMICO, na interdependência” (Entrevistado 5, 2009).
Em um mundo interdependente é necessário entender todos os atores.
Por isso, a diversidade, mencionada no trecho acima, de pessoas, de
opiniões, modos de fazer, e outros, é essencial para garantir resultados que
sejam os mais adequados para uma quantidade grande de públicos
interessados, como pode ser visto no entrevistado 6 (2009)
A diversidade de opiniões é que enriquece as decisões, se eu estou
aqui, você é uma menina nova, mas você fez várias perguntas
inteligentes, para perceber que tem sensibilidade, etc, talvez uma
outra pessoa da companhia, um diretor, ele o teria as mesmas
perguntas, quando você mistura, são competências diferentes,
experiências diferentes, idades, formações, culturas, você enriquece
muito as decisões.
69
Esta diversidade também é encontrada na fala do entrevistado 6 quando
conta que quando trabalhava em outra companhia convenceu os outros
diretores de que era necessário a consulta de todos os trabalhadores (por volta
de 20 mil) na discussão da missão e visão da empresa.
Outro valor dos praticantes é achar legítimo e necessário a
responsabilidade social na empresa
não tenho dúvida que é importante os três pontos da sustentabilidade
(...) do jeito que está hoje, a cultura hoje, pode ser que com o tempo
mude, aquele negócio de que se você for investir na bolsa, a primeira
coisa que eles vão ver é se a empresa é sustentável, por que?
muito ligado à perenidade dessa empresa, pelo menos pelos
próximos 10 anos, 15 anos (...) uma GM da vida, que tem maior
capital do mundo para falir, a Nike por causa da crise do trabalho
escravo quase faliu, a Quatagases que vazou líquido preto, quase
faliu.. não adianta a empresa olhar o ambiental, o econômico,
só o social... (Entrevistado 2, 2009).
Neste trecho, nota-se como a questão da responsabilidade social é vista
como importante para a continuidade da empresa, essencialmente, por conta
da pressão externa. O entrevistado cita exemplos de como empresas que não
seguiram esta “cultura [de] hoje” faliram; em nenhum momento ele demonstra
achar a responsabilidade social importante caso o mercado não exigisse. Mas,
ao mesmo tempo, esse entrevistado se diz motivado a trabalhar com a
responsabilidade social.
Na passagem abaixo, a questão externa, das mudanças na sociedade,
também aparece como principal fator do por que a sustentabilidade é
importante, entretanto, é esse mesmo entrevistado que anteriormente afirmou
que era necessário idealismo nesta área. Ou, neste trecho tenta justificar aos
não idealistas o motivo para utilizarem a responsabilidade social. Afinal,
contando sua história, afirma que nos últimos anos, realizando seu mestrado e
doutorado na área da responsabilidade social, esteve em um ambiente pouco
idealista.
O que eu acho da responsabilidade social (...) a internet, os celulares,
esse mundo tão integrado, fica difícil você ocultar, ah mas no Piauí é
distante, quem vai na Bahia, a não ser o turista que vai para o Porto
Seguro, televisão você televisão, todas as empresas todas elas
são boazinhas, sustentáveis, (...) a 50 anos o pai do Obama não
podia andar no mesmo ônibus que um branco, hoje seu filho é
presidente da república (...) o papel das empresas não pode ser
70
limitado ao lucro sob pena, quem pensa assim pode ganhar dinheiro
a pouco prazo, mas não a longo prazo, diversas empresas faliram por
conta da questão social (Mesbla, Varig, Vasp ...) mas cada dia mais
vai [a responsabilidade social] para o nível estratégico, é esperado,
que vire uma ferramenta de negócio (Entrevistado 4, 2009).
O entrevistado 6 também demonstra as duas visões da responsabilidade
social como necessária às companhias. De um lado, por motivo de valor
racionalidade substantiva, quando afirma “não para sonhar diferente (...) o
ser humano quer uma coisa boa, eu não quero ser a maior empresa, destruindo
o meio ambiente”. O “eu” no trecho, remete a seus valores, já que uma empresa
não tem valor e sim as pessoas que fazem parte da organização. De outro lado,
também enxerga a responsabilidade social como necessária por pressão
externa, quando afirma que hoje se você não tiver uma comunidade envolvida
ela destrói a empresa.
Não para sonhar diferente, não para sonhar, o ser humano
quer uma coisa boa, eu não quero ser a maior empresa, destruindo o
meio ambiente, eu quero ter a melhor prática ambiental, e não digo só
do meio ambiente, mas um geral, acionistas, comunidade, etc.. hoje
se você não tiver uma comunidade envolvida ela destrói a empresa,
ela tem a capacidade de expulsar a empresa do local, tem que estar
em sintonia, em união com a empresa (Entrevistado 6, 2009).
O entrevistado 5 também acha legítimo e necessário a responsabilidade
social nas empresas.
Mas as empresas não podem perder o foco de desenvolver e resolver
as questões e relações com a sociedade, caso contrário, estará
discriminando a própria espécie no desenvolvimento sustentável
(Entrevistado 5, 2009).
Outra característica mencionada pelo entrevistado 6, perguntado quais
as habilidades que ele achava necessárias para todo o processo que realizou
na Suzano, disse:
Qualidade de ouvir, de aprender, de me questionar, de admitir ser
questionado, de ouvir os outros, porque se você não faz isso, você
não enxerga o todo (...) também, ter tempo para dedicar às pessoas,
as pessoas sentirem que eu tinha sensibilidade, foi muito menos a
competência técnica e muito mais a competência emocional
(Entrevistado 6, 2009).
71
Quanto às características e história do alto escalão da empresa
comparado com gerentes médios e profissionais da área, notam-se diferenças.
Algumas características foram mencionadas apenas pelo presidente, elas são:
a utilização da agência projetiva, a importância da diversidade para tomada de
decisão e, incluso nesse tema, a humildade de ouvir e aprender mesmo quando
se atinge um cargo elevado e, também, a questão da competência emocional.
Os outros atores focam mais a questão da agência prática-evaluativa, o
pragmatismo e idealismo, a visão sistêmica.
Conclui-se que todos os praticantes das diversas hierarquias da
organização foram importantes para o processo de certificação e manutenção
do FSC. Para isso, foi necessário que os objetivos estratégicos da empresa
fizessem parte também dos objetivos dos colaboradores. No que tange ao
objetivo ligado a melhorar o meio ambiente e sociedade, parte dos
entrevistados acham ser óbvio que uma meta assim estaria alinhada aos
anseios da maioria dos colaboradores, uma vez que “fazer o bem” é algo que a
maioria quer. Além disso, o processo ocorreu de forma coletiva com a ajuda de
atores externos, por sua expertise e visão de fora. Eles são pragmáticos,
embora alguns acreditem ser importante o idealismo.
De modo geral, os praticantes entrevistados contam com as seguintes
características:
1) Valores de responsabilidade social: preservação da natureza,
inclusão social, diversidade, etc;
2) Responsabilidade social legitimada seja por motivos de mercado,
seja por motivos de valor;
3) Visão que entende o mundo como sistêmico, interdependente,
interligado;
4) Acreditam que os resultados de uma organização dependem de
todos os stakeholders;
5) Diversidade e inclusão de pessoas;
6) São pragmáticos, mas também idealistas;
7) Realizaram atividades na área socioambiental;
8) Tem/tiveram pessoas que os inspiraram acerca dos valores do
desenvolvimento sustentável;
9) Motivação para trabalhar nesta área;
72
10) Buscaram trabalhar nesta área;
11) Moraram em local com contato com a natureza;
12) Relacionaram-se com grupo sociocultural diferente do seu.
4.2.3 Quais as práticas estratégicas organizacionais na certificação e
manutenção do selo FSC?
Das diversas práticas de responsabilidade social de empresas
encontradas na literatura, apenas algumas delas foram mencionadas como
práticas da certificação e manutenção do selo FSC, que são: controle de
impactos socioambientais, diálogo com stakeholders, assuntos socioambientais
agenda da alta gerência e tomada de decisão pautada no triple bottom line.
Além disso, outras práticas foram identificadas no estudo de caso que não
haviam sido mencionadas na teoria da responsabilidade social.
A Suzano realiza todas as práticas mencionadas na literatura. Abaixo, as
práticas, mencionadas na literatura que não fazem parte do processo de
certificação e manutenção do selo FSC, serão descritas.
A realização da mensuração de risco de responsabilidade social é
realizada dentro da empresa e consta no relatório de sustentabilidade. Embora
a perda da certificação seja identificada como um risco pelos gestores da
empresa, essa prática não ocorre diretamente por causa do processo de
implementação e manutenção do FSC.
A Suzano emite relatórios de sustentabilidade em conjunto ao relatório
financeiro desde 2004. Na busca no site por relatórios anuais dentro de
relacionamento com investidores, os relatórios de sustentabilidade são
apresentados; ou seja, a sustentabilidade está vinculada ao todo da empresa e
não é apenas uma parte dela dissociada de sua estratégia e resultados
financeiros (SUZANO, 2009). Embora o FSC seja um dos assuntos do relatório,
a prática da emissão dos mesmos não foi realizada por conta desse processo
de mudança do produto.
O setor de papel e celulose não realiza grandes campanhas de
publicidade. Entretanto, no produto Report no Alvo da Moda a embalagem
promove informações sobre o auto-exame para combate do câncer de mama.
Embora não esteja relacionada ao FSC, está relacionada à mudança de um
73
produto para mais sustentável. Justamente, a inclusão dessas informações é o
que torna o produto sustentável.
Com a fabricação do papel Reciclato a empresa reconheceu os custos
de oportunidade dos recursos não utilizados, no caso, de aparas perdidas na
fabricação do papel convencional. Estas aparas são utilizadas na produção do
Reciclato.
Embora a Suzano conte com essas práticas elas não se relacionam
diretamente com o processo aqui estudado. Abaixo, serão explicadas as
práticas vistas ou o na teoria que ocorreram no processo de certificação e
manutenção do FSC.
Os assuntos socioambientais fazem parte da agenda da alta gerência.
Nota-se isso uma vez que o conselho de administração da empresa é
assessorado por três comitês, entre eles o Comitê de Sustentabilidade e
Estratégia.
(Fonte: SUZANO, 2008, p. 37)
Além disso, o diretor de estratégia abre os diálogos com stakeholders, os
diálogos sociais são discutidos pela gerência e diretoria no comitê
socioambiental da Bahia em que participam gerentes e diretores. O diálogo
74
social e o comitê socioambiental serão elucidados adiante. É importante
destacar que essas práticas fazem parte do processo da certificação e
manutenção do FSC e nelas existe a participação da alta gerência.
Na implementação e, principalmente, na manutenção do FSC alguns
controles de impactos socioambientais foram fortalecidos e outros criados.
Abaixo os controles criados e/ou fortalecidos:
(i) Criaram-se relatórios a partir dos diálogos sociais em que “pegamos
todas as informações e montamos uma apresentação e sentamos
com eles [comunidade], junto com os colaboradores da Suzano”
(Entrevistada 3),
(ii) Criou-se um diagnóstico da comunidade antes de entrar em operação
diagnóstico das comunidades antes de entrar em operação para
nortear futura atuação da empresa - permitir que pense em ações
antes de começar o plantio (Entrevistada 3, 2009)
(iii) E fortaleceu o relatório de levantamento de fauna e flora.
o levantamento de fauna e flora, já existia, mas não havia
preocupação da periodicidade, de apresentar ao operacional, de
incorporar os resultados no manejo - a realidade é que o
levantamento não alterava o manejo, passa a ser cobrado, começa
a ver com outros olhos (Entrevistado 2, 2009).
O diálogo com stakeholders, principalmente o diálogo com a
comunidade, de forma estruturada foi uma das mudanças mais relatadas e
importantes, como visto nas entrevistas abaixo.
O que mudou? Eu acredito que muitas coisas que antes eram feitas
talvez não tivessem o foco tão direcionado quanto tendo a
certificação [por exemplo? - fala da entrevistadora], por exemplo, o
relacionamento com a comunidade... Hoje é muito mais estruturado [a
parte social] porque, por exemplo, o FSC exige as consultas públicas
que é o que está acontecendo hoje na Bahia. (Entrevistada 1, 2009)
Mudou o conteúdo das práticas? Não, eu concordo em partes, além
disso, acho que foi ficando mais aprofundada, os debates mais
aprofundados, mas algumas práticas foram criadas, diálogo com a
sociedade (...) os diálogos de sociedade, era uma coisa que se tocou
muito pouco, hoje em dia temos programa para conversar com a
comunidade (...) que são segmentos que precisam da gente, então
isso também é outra modificação muito grande, a gestão ficou
baseada não no que a gente acha que é bom mais no que a
75
sociedade demanda, mudou a forma de gerência (Entrevistado 4,
2009).
Este diálogo foi chamado de Diálogos Sociais:
Seu objetivo é estreitar a comunicação com as comunidades
próximas de nossas unidades industriais e florestais. Ao todo, foram
promovidos encontros em oito municípios de São Paulo, cinco da
Bahia e três do Espírito Santo. Participaram 322 pessoas,
representando 212 entidades, organizações sociais e órgãos
públicos. O último encontro do ano foi realizado na Unidade Rio
Verde, nos dias 11 e 12 de dezembro. O diagnóstico resultado dos
Diálogos Sociais traça um amplo perfil das comunidades em nossa
área de influência, com suas demandas e visões sobre a Empresa,
servindo de parâmetro para nossa estratégia de atuação e para
ações localizadas. Em 2009, o processo terá continuidade e
voltaremos às comunidades para dar um retorno sobre os temas
debatidos (EM FOCO, 2009).
A continuidade do processo, mencionada no trecho acima, foi
realizada e será posteriormente explicada pela entrevistada 3.
No relatório de sustentabilidade 2008 da empresa, também aparecem os
diálogos
Em seu primeiro ano, os Diálogos Sociais concentraram-se na
elaboração de um amplo diagnóstico dos principais aspectos de
nossa relação com as comunidades. O trabalho envolveu entrevistas
com funcionários, análises de documentos internos e diálogos com
representantes das principais localidades onde atuamos, como
mostram os números a seguir:
• 60 colaboradores entrevistados;
16 municípios envolvidos (Mogi das Cruzes, Suzano,
Itaquaquecetuba, Poá, Biritiba-Mirim, Salesópolis, Pilar do Sul, São
Miguel Arcanjo, Mucuri, Nova Viçosa, Caravelas, Alcobaça, Teixeira
de Freitas, São Mateus, Pedro Canário e Conceição da Barra);
• 40 grupos de diálogo realizados;
• 212 entidades presentes;
• 329 participantes ouvidos.
No diagnóstico, entre outras questões, foram apontadas pela
comunidade a necessidade de uma maior aproximação conosco, por
meio de canais diretos e do contato pessoal; o desconhecimento
sobre os nossos processos para gerir possíveis impactos
socioambientais; o interesse em participar e saber mais sobre os
nossos investimentos sociais; o aumento do tráfego de caminhões
nas vias próximas às fábricas e às florestas; e a preocupação com a
criação de empregos diretos e indiretos nas localidades onde
estamos presentes.
Os pontos fortes levantados foram a geração de renda nas cidades, a
diminuição do odor nas fábricas e as nossas certificações como o
selo FSC , além de outros benefícios que contribuem para a
prevenção do trabalho forçado e infantil. A partir desses diagnósticos,
foi traçada uma Estratégia de Ação, que está sendo validada em
nossas diversas instâncias internas. Ao longo de 2009, daremos
76
continuidade ao processo com a promoção de encontros nos
municípios envolvidos pelos Diálogos Sociais, com a reunião de todos
os participantes do programa e o encaminhamento de respostas para
as questões levantadas. Além disso, serão discutidas formas de
engajar os diversos setores das cidades em movimentos que visam
ao desenvolvimento local (SUZANO, 2008).
Como foi mencionado anteriormente, o Diálogo Social passou por duas
fases. Consultas públicas realizadas em 2005 a 2008, e a parte do debate e
encaminhamento das sugestões/comentários/solicitações em 2009 -
observadas na fala dos entrevistados
A primeira fase é chamar os principais interlocutores, uma
consultoria, a AMCE, está ajudando, a primeira reunião eles chamam
o pessoal da comunidade para escutar, o participa ninguém da
Suzano, depois eles pegam essas informações, compilam, traduzem
em demandas - dai a segunda fase, que chamamos de devolutiva é
coma participação da Suzano (...) faz breve explicação da empresa,
maioria das vezes é dúvida, e no final é feito uma dinâmica para ver o
que poder ser feito em termos de projetos mas que seja para
comunidade como um todo (...) Imaflora conversa com as
organizações, melhorou bem até o relacionamento com o sindicato,
antes era "a Suzano nem vem aqui, não conheço ninguém da
Suzano (Entrevistado 2, 2009).
Parte socioambiental sempre está associada aos stakeholders (...)
minha vaga foi uma demanda do próprio FSC, como vocês estão
inseridos quase em quase 30 municípios e vocês não tem uma
pessoa responsável pela comunidade? (...) programa pra conhecer a
comunidade, que é o diálogo social, feito após a consulta pública, é
um projeto que a gente senta com a empresa para conversar (...)
roteiro que questionava tudo, primeiro um perfil (...), depois
relacionamento com a Suzano (se existia) (...), questões voltadas
sobre a percepção deles sobre a Suzano (...) e dúvidas (...) a
comunidade trouxe demandas, discutir internamente o que é valoroso
ou não (Entrevistada 3, 2009).
A seguir, as práticas encontradas no campo que não eram mencionadas
na literatura serão elencadas. .
A criação de uma área/comitê/grupo, para criar e manter o produto
sustentável e cuidar das questões socioambientais relacionadas ao produto, foi
identificada.
Em todos os casos, em todas as certificações, não na FSC como
as certificações ambientais e de qualidade, ISO 9001, depois a
14001, depois a ISO Social, todos esses processos você precisa criar
77
um grupo, ter um líder, ter um grupo de pessoas das diversas áreas
da companhia, formam um comitê que vai trabalhar nesse processo.
Mas esse processo não se resume a esse comitê, que na verdade
todas áreas da companhia tem que se ajustar então esse comitê
coordena junto com a certificadora o trabalho, quais são as
diferenças, depois vai passar pra toda área operacional para que
então o pessoal trabalhe definindo quais são os investimentos a
serem feitos, quais as mudanças, mas isso envolve empregados da
empresa, diretoria, presidência (Entrevistado 6, 2009).
Não o comitê para a implementação, mas também para o
monitoramento das questões socioambientais. Como o comitê da Bahia,
explicado pelo entrevistado 4 (2009) quando perguntado de práticas novas
decorrentes do FSC:
Foi criado o comitê socioambiental da Bahia para discutir sobre as
pautas, participando seis diretores e seis gerentes seniores, com
reuniões toda semana para monitorar - na Bahia, em SP as
questões sociais são muito diferentes daquele lado, as plantações
estão em regiões relativamente ricas - 2/3 da renda da cidade é
eucalipto, permeia a cidade (...) você tem diretores, 4 diretores: área
florestal, operações, recursos humanos e regional - Bahia, depois tem
gerente, institucional, tem o gerente de toda a operação florestal da
Bahia e eu sou o secretário do comitê. Uma vez por semana, pontos
discutidos: diálogo com sociedade, priorização de projetos sociais,
relacionamento com sindicados, e a partir dai está decidido as
atividades, em geral direto, decisões com investimento que vão
para o presidente da empresa.
A entrevistada 03 fala da criação do “comitê de riscos socioambientais
para área do Maranhão”, semelhante ao da Bahia.
Na explicação acima do entrevistado 6 quanto a necessidade de comitês
para certificação, ele demonstra que é necessário que todos os funcionários
atuem para as adequações. Em parte por essa razão, uma das práticas criadas
por conta do produto sustentável é o treinamento ou conscientização sobre
aquele produto e seus temas socioambientais. No caso da Suzano, sobre a
certificação FSC ou sobre temas relacionados:
Temos treinamento anual com todos os colaboradores envolvidos
diretamente no processo, cada um, um foco. Se entra [funcionário]
novo, ou na reunião mensal eles falam, etc. É uma prática nova para
FSC, específica pra cadeia de custódia, para parte florestal não sei se
tem. O treinamento para todos os funcionários passou a ser feito de 3
anos para e o legal é que eles entendem todo o processo, mas
78
isso realmente só aconteceu por causa da FSC (Entrevistada 1,
2009).
Na verdade na época eu treinei o pessoal todo, aqui e na Bahia foi
também, mas aqui dentro das empresas prestadores de serviços a
gente já tem a figura que é o monitor de treinamento, faz um
treinamento específico no SENAI, fiz um treinamento de 4 a 6 hs para
eles replicarem em uma hora, meia hora com o pessoal de campo,
mas está até no principio do FSC que todo mundo tem que estar
dentro (...) teve um treinamento mais pesado com os auditores
internos que daí nós contratamos uma empresa que é a SIMETRIA, é
um treinamento de auditor de FSC (Entrevistado 2, 2009).
Outras práticas, como reuniões, foram mudadas. Uma das mudanças foi
a inclusão de assuntos socioambientais em sua pauta.
Eles levam outros temas, a gente cobra, muda um pouco, não as
ferramentas mas o conteúdo e o foco (...) se não fizer isso você não
consegue manter, tem que pensar nos três pilares (...) na hora que a
gente está fazendo o planejamento, onde vai plantar, para 7 anos, no
imediato do ano, eu vou colher aqui, está do lado de uma área frágil
ambientalmente, está do lado de uma comunidade, então vou colher,
acaba fazendo parte do dia-a-dia (...)basicamente o que mudou, a
grande mudança, foi o conteúdo (...) estou tentando buscar uma
prática de gestão que surgiu a partir disso mas não teve não,
antigamente a gente tinha uma reunião de facilitadores, hoje chama
de GT que é uma reunião que a gente discute, é tipo uma análise
critica - que a gente faz 6 meses que dai vai à alta direção - mas
mensalmente a gente vai uma que chama manutenção do sistema
que a gente discute a rotina das certificações, tinha a reunião
antes, a gente inseriu os assuntos do FSC, sociais e ambientais
(Entrevistado 2, 2009).
Todavia, a questão de não se ter mudado ou criado outras práticas é
controversa, visto que vimos que foram criados comitês, treinamentos
(embora estes existissem, o que se mudou foi o assunto) e outras práticas
serão vistas a seguir; todavia, fica claro que houve mudança no conteúdo das
reuniões. Essa mudança é corroborada por outra entrevistada.
Mas eu acho que assim, no fundo é isso, é um instrumento muito
bacana para discutir um assunto que até pouco tempo atrás não era
percebido, não era pauta de reunião, por exemplo, a reunião dos
gestores florestal a questão social é pauta (...) eles param para
discutir a questão social, hoje é pauta da reunião e vou ser sincera
com você, muito bem recebida - na área florestal (Entrevistada 3,
2009).
79
Outra mudança nas reuniões, é que foram incluídos outros participantes
de diversas áreas nas mesmas.
Diálogo não era preocupação da área, agora é, na reunião
operacional, antes era os núcleos, que participavam mais o
pessoal do viveiro, agora não, o pessoal da comunicação, do projetos
sociais, do meio ambiente (Entrevistado 2, 2009).
Algumas outras práticas foram criadas ou transformadas, tais como:
- adaptação da operação,
(i) definição de quais fábricas produzirá FSC e porcentagem do FSC de
cada uma,
(ii) uso múltiplo das florestas
Uso múltiplo da floresta, não usar floresta para floresta, usar para
apicultura, por exemplo, para produzir mel; outra utilização de uso
múltiplo, até para desafogar nativas, é que destinamos parte da
madeira para serralheria para diminuir a pressão da nativa
(Entrevistado 2, 2009).
(iii) manejo de mosaico, o entrevistado 2 comenta “tipo de manejo, de
mosaico, já tínhamos mas o FSC exige - único documento que FSC pede, plano
de manejo florestal - reunir procedimentos do ISO em um único documento”.
- adequações para comunidade
(i) reforma de igreja
(ii) cursos técnicos e profissionalizantes
- ações de prevenção e não de remediação O entrevistado 2 (2009) afirma que
“Antes pensava se ia gerar derramamento, mas não no social, se
reclamasse, agora é uma visão mais preventiva. Outro fato foi que na nova
área da empresa no Maranhão, foi realizado diagnóstico da comunidade a priori
da instalação da fábrica, um dos objetivos era a contratação local, deste modo,
buscaram desenvolver cursos profissionalizantes para região em parceria com
Universidades.
No Maranhão e no Piauí, prática de diagnóstico, nova prática,
aprendemos na Bahia, sobretudo, que a discussão antes do
empreendimento é tão importante quanto no empreendimento e
tomar cuidado com as promessas (Entrevistado 4, 2009).
- inclusão de procedimentos
Tinha 7 páginas, agora tem 40 páginas (...) é procedimentos do FSC
na indústria (...) por exemplo, o agente comercial tem que garantir
80
que na hora que ele está vendendo o produto, a Paola liga e pede um
papel FSC, quando você recebe você tem que garantir que é, pedi
70% por que mandaram 50%? (...) procedimento para garantir que a
gente chegue no cliente vendendo o que ele pediu (Entrevistada
1,2009)
Segundo a entrevistada 3 (2009), “a questão social foi a que mais
mudou”. De modo geral, os entrevistados também notaram um foco na área
social. Por conta da ISO 14001, as melhores práticas ambientais e o tema
eram trabalhados na Suzano, já as questões sociais não tinham tanto peso.
Antes pensava se ia gerar derramamento, mas não no social, se
reclamasse, agora é uma visão mais preventiva (...) maior mudança,
parte de comunidade e trabalhadores, por ser várias comunidades
atingidas (...) passamos a fornecer comida na floresta, quente
(Entrevistado 2, 2009).
A questão ambiental - a adequação disso foi mais fácil porque a
Suzano sempre teve práticas ambientais muito boas, porém as
questões sociais você sempre tem uma desculpa de que a empresa
não tem a obrigação social além do seu papel da empresa, porém o
agravamento da pobreza, o impacto social, numa região pobre como
era a Bahia (...) nisso houve uma modificação grande, encarar os
problemas sociais de frente, os programas sociais eram muito
dispersos, investia muito dinheiro em pequenos projetos menores,
decidiu fazer um projeto grande, educação (Entrevistado 4, 2009).
Conclui-se que as práticas para certificação e manutenção do selo FSC
foram e/ou são:
1. Controle de impactos socioambientais;
2. Diálogo com stakeholders;
3. Assuntos socioambientais agenda da alta gerência;
4. Tomada de decisão pautada no triple bottom line;
5. Comitê/área/grupo destinado à implementação do FSC;
6. Comitê/área/grupo destinado à manutenção das práticas socioambientais
relacionadas ao selo;
7. Treinamento e conscientização acerca do FSC e de práticas
socioambientais;
8. Mudança na pauta de reuniões incluindo assuntos socioambientais;
9. Realização de reuniões mais interdisciplinares;
10. Mudanças na operação;
11. Ações para comunidade;
81
12. Inclusão de novos procedimentos;
13. Ações pautadas na prevenção e não remediação.
As práticas elencadas serão divididas em práticas do alto escalão e
práticas realizadas pela gerência e subordinados. Na maioria das práticas
realizadas pela gerência existe participação de pessoal subordinado. E o comitê
socioambiental também conta com gerentes.
Nível
Hierárquico
Práticas
Alto escalão
1) Sustentabilidade assunto da alta gerência
2) Comitê Socioambiental
3) Tomada de decisão pautada no triple bottom line
Gerência até
Operacional
1) Comitê para implementação do FSC
2) Inclusão de temas socioambientais na pauta de reuniões
3) Treinamentos
4) Inclusão de temas socioambientais na pauta de reuniões
5) Adaptação da operação
6) Inclusão de procedimentos
7) Adaptação da comunidade
8) Controle de impactos socioambientais
9) Tomada de decisão pautada no triple bottom line
10) Ações pautadas na prevenção e não remediação
11) Diálogo com stakeholders
4.2.4 Quais as práticas estratégicas da certificação FSC e do mercado?
O primeiro tópico a ser entendido é como as organizações certificadoras
do FSC atuam para certificar uma empresa.
Existem diversas práticas normalmente utilizadas pela certificadora que
as organizações seguem, entretanto, para alcançar as metas para a
certificação, a empresa também cria suas próprias práticas.
82
Segundo o FSC (2010), as cinco macro etapas deste processo de
certificação são:
Contato inicial - a operação florestal entra em contato com a
certificadora.
Avaliação - Consiste em uma análise geral do manejo, da
documentação e da avaliação de campo. O seu objetivo é preparar a
operação para receber a certificação. Nessa fase são realizadas as
consultas públicas, quando os grupos de interesse podem se
manifestar.
Adequação - Após a avaliação, a operação florestal deve adequar as
não conformidades (quando houver).
Certificação da operação - a operação florestal recebe a
certificação. Nessa etapa, a certificadora elabora e disponibiliza um
resumo público.
Monitoramento anual - Após a certificação é realizado pelo menos
um monitoramento da operação ao ano.
Na etapa de avaliação a certificadora realiza uma consulta pública para
colher opiniões de populações locais. Segundo o FSC (2010):
A consulta pública de um processo de certificação é realizada com os
objetivos de permitir a participação da sociedade, colhendo
informações sobre as práticas socioambientais do empreendimento
que almeja a certificação e permitindo tanto ao empreendimento
quanto às certificadoras conhecer os impactos do manejo.
Para a consulta pública devem ser enviados os seguintes
documentos: comunicação sobre o processo de certificação, resumo
do manejo, datas das reuniões públicas e da avaliação de campo e
questionários participativos. As reuniões citadas são conduzidas pela
certificadora relativa ao empreendimento em processo de certificação.
Esta prática originou a prática dos Diálogos Sociais da Suzano. Percebe-
se aqui, a incorporação de uma prática externa na organização.
Dentro das avaliações, as certificadoras buscam que os
empreendimentos realizam algumas ações. Nos aspectos ambientais, elas são:
1) Seguir a legislação;
2) Conservar as áreas de preservação permanente (APPs);
3) Realizar inventários florestais;
4) Garantir que espécies ameaçadas não se extingam;
5) Controlar a caça e a pesca predatórias;
6) Plantações com diversidade de espécies e composições;
7) Garantir que as APPs não sejam invadidas;
83
8) Proteger as terras de extração ilegal, assentamento e outras atividades
não autorizadas;
9) Controlar incêndios florestais;
10) Monitoramento de manejo avaliação de desperdícios e crescimento,
avaliação regular quanto aos potenciais impactos sociais e ecológicos
dentro ou fora da área de plantação;
11) Avaliação dos impactos ambientais deve ser realizada e
adequadamente integrada aos sistemas de manejo.
As avaliações devem incluir considerações ao nível da paisagem,
como também os impactos das unidades de processamento no local.
Os impactos ambientais devem ser avaliados antes do início das
atividades que possam causar distúrbios. (FSC 3, 2010, p. 6)
12) Configuração e disposição física das plantações florestais de modo que
promovam a proteção, a restauração e a conservação de florestas
naturais, e não aumentem pressões sobre as mesmas. Corredores
para a vida silvestre, matas ciliares e um mosaico de talhões de
diferentes idades e períodos de rotação devem ser utilizados no
delineamento da plantação, consistentes com a escala da operação
(FSC 3, 2010, p. 10).
Destas práticas, algumas foram citadas anteriormente como práticas
identificadas nas entrevistas. O fortalecimento do levantamento de flora e fauna
é consequência da prática de realização de inventários florestais. O plano de
manejo diversificado, uma prática entendida como mudança nas operações é
consequência da exigência de plantações com diversidade de espécies e
composições além do monitoramente de manejo.
Quanto os aspectos socioculturais, são exigidas as seguintes atitudes
relacionados aos trabalhadores próprios e terceiros
I. Registro com carteira assinada;
II. Cumprimento de normas de saúde e segurança;
III. Seguir Convenções da Organização Internacional do trabalho;
IV. Condições de alojamento, transporte, alimentação e saúde;
V. Fortaleça e diversifique a economia local, evitando a dependência a um
único produto florestal;
VI. Os trabalhadores florestais devem receber treinamento e supervisão
adequados (FSC 3, 2010).
84
A realização de treinamento com os funcionários decorre em parte da
necessidade do treinamento e supervisão adequados dos trabalhadores
florestais. Entretanto, o treinamento realizado pelo FSC continha treinamento
para outros colaboradores além dos mencionados pelo FSC.
No que tange à comunidade, é exigido:
A. Amplo debate do projeto de manejo e impactos;
B. Preservação de aspectos culturais;
C. Adoção de mecanismos apropriados para a resolução de disputas sobre
reivindicações de posse e direitos de uso da terra;
D. Gerar oportunidades de emprego, treinamento e outros serviços (FSC 3,
2010).
A questão do debate foi a que influenciou a prática do Diálogo Social,
visto anteriormente. Além disso, a preservação de aspectos culturais fez com
que a Suzano cumprisse certas demandas da comunidade como reforma da
igreja, entre outras.
O segundo tema a ser tratado é entender como o setor de papel e
celulose se comporta em relação à sustentabilidade e à certificação para ser
possível o entendimento de como algumas práticas, não do FSC, mas do
setor de papel e celulose, foram incorporadas pela Suzano.
As empresas que representam 80% da produção de celulose são:
Aracruz Celulose SA, Suzano Papel e Celulose, Klabin S.A., Votorantim
Celulose e Papel S.A., Celulose Nipo-Brasileira SA Cenibra e International
Paper do Brasil Ltda. as de papel são: Klabin, Suzano, International Paper,
Votorantim, Rigesa, e outras (BRACELPA, 2010). Atualmente a Votorantim
comprou a Aracruz, criando a Fibria.
Segundo Ouchi (2006, p.72) em sua dissertação de mestrado sobre
sustentabilidade e o setor de papel e celulose em que entrevistou diversas
empresas do setor (incluindo as maiores, VCP, Suzano, Aracruz, Klabin) ,
Todas as companhias pesquisadas demonstraram ter a
sustentabilidade inserida em suas estratégias de negócios. Elas
também apresentam destaques expressivos para a sustentabilidade
em seus relatórios anuais, mostrando balanços sociais, resultados
ambientais e práticas de governança.
85
Os motivos são diversos tais como por algumas serem de capital aberto
de modo que o mercado exija maiores informações sociais e ambientais para
analisarem o risco da empresa ou para tentarem incluir-se em índices de
sustentabilidade. Ou ainda pelos acionistas cobrarem da gestão ou pela
pressão da comunidade que fez com que diversas empresas parassem de
operar (OUCHI, 2006).
Desse modo, a questão da inclusão da sustentabilidade como parte da
estratégia da empresa é utilizado por todo o setor. Sendo uma prática do setor.
Em relação ao FSC, grande parte das maiores empresas é certificada
pelo FSC, são elas: Klabin, Suzano, Votorantim, Celulose Nipo Brasileira, Jari
Celulose e Lwarcel Papel e Celulose.
A primeira empresa a obter a certificação foi a Klabin em 1998. O site da
empresa afirma que “a certificação do FSC de praticamente 100% de suas
florestas torna a Klabin mais competitiva no mercado internacional este
demandando cada vez mais a origem da madeira que utilizam” (KLABIN, 2009).
Este dado corrobora com a exigência do mercado externo discutida
anteriormente.
A história da Klabin com o FSC segue ao longo dos anos
Em 2001 foram certificadas as florestas e a unidade industrial de
Guaíba (RS), deste modo, a Klabin foi a primeira empresa de celulose
de eucalipto no mundo a obter o selo do Forest Stewardship Council
(FSC) para 100% da cadeia de custódia. (KLABIN, 2001)
Na área florestal, o destaque foi a renovação por mais 5 anos da
certificação das florestas do Paraná pelo Forest Stewardship Council
(FSC) e o início do processo de certificação das florestas de Santa
Catarina, que deverá ocorrer em meados de 2004. Este é um
diferencial importante também do ponto de vista comercial, pois
facilita, para os clientes da Klabin, o acesso a alguns mercados, como
a Comunidade Econômica Européia. Mas é sobretudo um atestado
ao bom desempenho da Klabin no manejo de suas florestas.
Foi também re-certificado pelo FSC em 2003 o manejo de produtos
florestais não madeireiros da Klabin no Paraná - manejo para plantas
medicinais e confirmada a manutenção da cadeia de custódia para
fitoterápicos e fitocosméticos (KLABIN, 2003).
Na área florestal, destacamos a certificação das florestas de Santa
Catarina pelo Forest Stewardship Council (FSC) (KLABIN, 2004).
Em agosto de 2005, a Klabin passou a ser a única empresa do
mundo a obter a certificação FSC para papelcartão e kraftliner de
toda cadeia de custódia no Paraná, o que garante a rastreabilidade
86
da matéria-prima usada no processo de fabricação. Hoje, a Klabin
tem quase 100% de suas florestas certificadas (KLABIN, 2005).
No que tange à certificação é clara a influência externa. No momento da
decisão de certificação da Suzano, a Klabin possui o selo, a Aracruz tentou
se certificar, mas não conseguiu. Esta configuração do setor naquele momento
gerou uma oportunidade estratégica para a Suzano pois, além de se equilibrar
com o produto da Klabin, a empresa competiria de modo favorável quando
comparado à Aracruz.
A parte da questão da inclusão de temas socioambientais nas empresas
do setor e da decisão da certificação, não foi possível identificar quais práticas
para certificação ocorreram nas empresas.
Por fim, podemos caracterizar quais práticas foram incorporadas pela
Suzano por regra da própria certificação ou pela normatização do mercado. É
importante lembrar que as regras para certificação são externas e, por
conseguinte, qualquer prática mudada ou criada é consequência ou sofreu
influência da certificação. Descrevem-se aqui as práticas que foram exigências
da certificação ou da pressão do mercado como externas. Todavia, algumas
delas foram criadas para atingir alguma outra exigência da certificação; essas
práticas o as definidas como com criação interna, ou seja, foi a forma que a
empresa encontrou para suprir um requisito da certificação.
Como não foi realizado um estudo das atividades para entender as
especificidades de cada prática e como cada elemento dela foi influência
interna ou externa, pautou-se apenas no elemento da prática geral.
1. Controle de impactos socioambientais - EXTERNA;
2. Diálogo com stakeholders EXTERNA;
3. Assuntos socioambientais agenda da alta gerência - EXTERNA;
4. Tomada de decisão pautada no triple bottom line;
5. Comitê/área/grupo destinado à implementação do FSC;
6. Comitê/área/grupo destinado à manutenção das práticas socioambientais
relacionadas ao selo;
7. Treinamento e conscientização acerca do FSC e de práticas
socioambientais parte EXTERNA;
8. Mudança na pauta de reuniões incluindo assuntos socioambientais;
87
9. Realização de reuniões com profissionais de diversas áreas;
10. Mudanças na operação - EXTERNA;
11. Ações para comunidade;
12. Inclusão de novos procedimentos;
13. Ações pautadas na prevenção e não remediação.
Conclui-se que tanto a certificação FSC quanto algumas práticas
identificadas para a certificação e manutenção do selo foram incorporadas de
práticas externas, mostrando a influência do ambiente na organização.
Abaixo, relacionam-se as práticas organizacionais com o mercado e com
praticantes externos.
Prática Organizacional
Prática exigida
diretamente pelo FSC
ou normal no mercado
Praticante externo
Controle de impactos
socioambientais
Sim
Não
Diálogo com stakeholders
Sim
Sim
Assuntos socioambientais agenda
da alta gerência
Sim
Não
Tomada de decisão pautada no
triple bottom line
-
Não
Comitê/área/grupo destinado à
implementação do FSC
-
Não
Comitê/área/grupo destinado
manutenção das práticas
socioambientais relacionadas ao
selo
-
Não
Treinamento e conscientização
acerca do FSC e de
práticas;socioambientais
Sim para trabalhadores
do manejo
Sim
Mudança na pauta de reuniões
incluindo assuntos socioambientais
-
Não
Realização de reuniões com
profissionais de diversas áreas
-
Não
Mudanças na operação
Sim
Não
Ações para comunidade
-
Não
Inclusão de novos procedimentos
-
Não
Ações pautadas na prevenção e
não remediação
-
Não
4.2.5 Como ocorreu a certificação e manutenção do selo FSC?
A Klabin foi a primeira empresa do setor a se certificar com o selo FSC
em 1998, como visto, principalmente pelo fato de o mercado externo exigir esta
certificação. Embora a Suzano realizasse estudos para a certificação do FSC e
88
mesmo realizando boa parte das práticas exigidas pelo selo, financeiramente
não era viável para a empresa se certificar. Entretanto, em 2004, existiu uma
forte exigência comercial, principalmente externa, para que o manejo florestal
da empresa estivesse de acordo com os princípios e critérios do FSC, como diz
o entrevistado 5 “A área florestal já tinha estudado e até realizado verificação de
adequação ao FSC, mas foi a demanda da comercial decisiva para a
implantação. Além disso, nesse momento a Aracruz, concorrente direta da
Suzano, tentou a certificação, e não conseguiu. Surgiu o momento ideal para
que a certificação ocorresse.
Definida que a certificação do FSC seria implantada, um comitê é criado
para cuidar do FSC, prática realizada comumente na empresa para outras
certificações. Os dirigentes entendem que a certificação exige que todos os
funcionários estejam convencidos da sua necessidade e façam a sua parte para
que a empresa conquiste o selo FSC. Por isso, cada responsável de área que
participa do comitê deve conscientizar seus funcionários.
No processo da certificação, de adequação aos gaps da empresa,
algumas práticas são realizadas de acordo com as exigências do FSC,
treinamento de pessoal com ajuda de pessoal externo, levantamento de fauna e
flora, diálogo estruturado com comunidade com ajuda de praticante externo,
manejo florestal em forma de mosaico. Essas práticas foram incorporadas pela
empresa.
Algumas outras práticas foram criadas ou modificadas internamente, elas
foram consequência do FSC sem ser exigência do mesmo, como a tomada de
decisão pensando no tripé da sustentabilidade, criação de comitê para
certificação FSC, criação de comitê socioambiental para manutenção do selo,
inserção de assuntos socioambientais nas pautas de reuniões dos envolvidos
no processo, realização de reuniões com profissionais de outras áreas (como
área de projetos sociais, ambiental, etc), inclusão de novos procedimentos,
práticas de prevenção ao invés de remediação e realização de ações
demandadas pela comunidade.
Em todo o processo de transformação e inclusão das práticas todos os
entrevistados falaram da importância de torná-las cultura da empresa, parte da
rotina dos entrevistados. Ou seja, de que os praticantes estivessem
convencidos da necessidade e importância das práticas para a empresa e as
89
realizassem. As características dos praticantes, principalmente aqueles em
nível hierárquico maior, que foram os entrevistados da pesquisa, ajudaram para
que essa certificação fosse conquistada e que houvesse um constante
aprimoramento. Isto porque, esses praticantes têm valores fortes de
responsabilidade social preservação ambiental, diversidade, visão de mundo
interdependente e sistêmico; realizaram atividades na área; acham legítimo e
necessário a atuação socioambientalmente responsável; são motivados por
realizar atividades que geram impactos socioambientais positivos ou minimizem
os negativos. Além disso, possuem competências para realizar essas práticas,
em primeiro lugar, tem plena ciência de que o ideal não ocorre, embora
busquem um mundo melhor, o fazem de forma objetiva e pragmática.
Vale lembrar que os entrevistados demonstram que no FSC
necessidade de atividades contínuas para melhorias (adequações contínuas?)
além de terem algumas regras criadas ou mudadas ao longo do tempo. Por
isso, acredita-se que outras atividades venham a ser criadas ou transformadas
por conta da manutenção do selo.
A Suzano foi afetada pelas práticas do ambiente, mas também, por
causa dessa influência, está influenciando o ambiente. Isto porque uma prática
inovadora foi introduzida ao ambiente pela Suzano, que foi o auxílio na
certificação de clientes e fornecedores. Mostrando o voluntarismo da
organização e a influência da mesma no ambiente.
De fato você tem, que eu lembre, já tem algum tempo né, nos últimos
anos tinham duas razões básicas. Uma delas é que de um certo
modo a gente sempre teve um sistema gerencial ambiental , foi
pioneira na 14001 e em 1998 se eu não me engano nós fizemos uma
avaliação de terceiros. Naquela época se decidiu que seria
implantado o FSC. Isso foi em 1998, por aí. Então, praticamente seria
a primeira empresa do Brasil a ter o FSC. Na época, quem puxou isso
era o diretor comercial, que tinha aqui que era o Rogério e tinha mais
um diretor, na época, florestal, que era o Alexandre, e ele disse que
só iria implantar, que tinha alguns custos na área de adequação legal,
se tivesse uma vantagem comercial clara que pagasse o
investimento, que era basicamente de adequação legal, adequação,
perto de rio né, tinha um monte de coisas que nós tínhamos que
fazer, recuperação de áreas degradadas, a parte social também
precisava ter um desenvolvimento. Naquela época então os cálculos
que a área comercial fez, não davam ainda rentabilidade suficiente.
Então a idéia, nós continuamos a monitorar o FSC, monitorando os
processos, acompanhando. Mas não implantamos né? Fizemos tudo
pra poder estar pronto assim, mas não implantamos. Quando foi
2002, está certo, sim, teve uma demanda comercial forte,
90
sobretudo de clientes comerciais, de clientes europeus. teve uma
coisa...a Aracruz tinha tentado o FSC e não tinha conseguido, por
causa da questão dos indígenas. Então isso levou a ter um diferencial
em relação ao concorrente, né? Mas a implantação foi muito rápida
por causa disso, que tinha preparado desde 1998 o processo. Mas
o motivo da implantação, vamos dizer assim, não foi comercial, foi
realmente de questão gerencial. Agora a certificação sim, foi
comercial. Diferenciando um pouquinho certificação do processo de
implantação, né? (Entrevistado 4, 2009).
E ai começou, como é que vamos fazer? Com o envolvimento de
todos, você para liderar, você tem que convencer, você tem que ser
uma pessoa convincente, praticar e convencer, não adianta falar,
você tem que praticar o que você diz, quando você envolveu todos
num trabalho de visão, convocou todos a atingir essa visão, uma
gestão participativa, então não era o sonho do Murilo, era de todos,
gerou uma união muito grande na companhia, e todo mundo se sentia
muito feliz com cada conquista da companhia, era uma festa, uma
alegria, as pessoas adoravam trabalhar na companhia, sentiam-se
parte das decisões, das conquistas, o sonho da companhia era o
sonho de cada um (...) Quando se trata de uma certificação é um
trabalho muito envolvente, você faz uma pré análise, o certificador
vem, faz uma analise preliminar, identifica seus gaps em relação às
exigências, você tem todo um trabalho de melhorar, de aprimorar, de
corrigir, às vezes exige investimento, mudanças de práticas,
treinamento de equipes, o certificador volta e se você está em
conformidade ou não, (...) você irá ter revisões periódicas para ver se
você não desviou das melhores práticas, você vai na busca de um
aprimoramento constante, não o certificador, mas você se impõe,
você está melhorando, você quer melhorar ainda mais (...)
Você precisa mudar a cultura da empresa, não adianta certificar na
FSC, ai me certifiquei, ai que bom, uma mudança dessa exige de
uma mudança de cultura, de práticas da empresa, e mudanças de
práticas precisa de mudança de cultura senão ela não é perene, se
você muda a prática, vamos fazer desse jeito, mas não muda a
essência a cultura, vai fazer desse jeito agora quando parar de
controlar, não faz mais, tem todo um processo de treinamento, de
conscientização, de envolvimento, então você tem que começar, para
você ter uma empresa que não siga as praticas, implemente as
praticas, mas acredite nelas e a partir daí, siga essas praticas não por
obrigação mas por crença, tem todo um trabalho de convencimento,
de envolvimento, de conscientização, para que entre no DNA da
companhia, porque entrando no DNA, a própria organização expele
qualquer tentativa de práticas inadequadas, (de danos ao meio
ambiente, é preciso de muito tempo para destruir (uma cultura), esse
trabalho não é um trabalho que o presidente na época resolveu
montar um grupinho e vamos fazer isso, esse é um processo que veio
desde a primeira certificação passando por todas elas, tudo
envolvendo, qual é nossa missão, nossa visão, nossos valores, o que
queremos ser lá na frente, qual nosso trajeto para isso - e isso com a
empresa em altas dificuldades financeiras (Entrevistado 6, 2009).
Participação no dia-a-dia, antes a preocupação era só arrumar o
caminhão para sair, agora não, vai passar do lado de uma casa,
91
temos que falar com morador, ai o morador fala que faz poeira, então
coloca um pipa (...) na hora que a gente está fazendo o planejamento,
onde vai plantar, para 7 anos, no imediato do ano, eu vou colher aqui,
está do lado de uma área frágil ambientalmente, está do lado de uma
comunidade, então vou colher, acaba fazendo parte do dia-a-dia (...)
no passado não tinha muita essa preocupação (Entrevistado 2, 2009).
É exatamente assim, a gente vai começar a cortar aqui, tem alguma
missa de domingo? E ai? Para florestal é muito mais fácil (...) um
senhor, engenheiro, no começo eu sambava, como eu vou fazer essa
pessoa sentar comigo na comunidade, hoje ele é meu melhor
parceiro (..) indo comigo falar com o prefeito sobre o aterro sanitário,
coisa que antes para ele nunca pensaria (Entrevistada 3, 2009).
E o custo disso? E a hora extra das pessoas porque as pessoas não
vivem para certificação FSC, o cara que está no armazém logístico
ele está pensando no processo dele, o nosso trabalho da área de
certificação é tentar entrar, mergulhar no mundo dele pra que isso
não se torne um peso a mais pra ele, isso tem que ser parte do dia-a-
dia dele, e que ele entenda a necessidade disso, que veja que isso é
pro cliente que isso vai melhorar vendas e o processo dele de
utilização da FSC, esse é o trabalho que eu vejo como mais
importante... não sei se eu respondi sua pergunta... acho que
respondi boa parte... (Entrevistada 1, 2009).
Em janeiro de 2008, por meio de um projeto pioneiro no setor de
papel e celulose, iniciamos estudos para ampliar a certificação FSC
para as áreas do Programa de Fomento de Madeira. Nosso objetivo
é o de tornar os parceiros cada vez mais alinhados aos nossos
objetivos de criação de oportunidades de emprego e renda,
modernização das relações de trabalho e ampliação do
conhecimento decorrente da troca de experiências. Foram
recomendados três produtores participantes do Programa de
Fomento para certificação FSC, com área total de 5 mil hectares,
sendo 3,5 mil hectares com plantio de eucalipto, o que representa
6% do volume de fomento da Unidade Mucuri (SUZANO, 2008, p.
50).
Com o objetivo de agregar valor aos negócios de nossos clientes,
trabalhamos ainda para estender a certificação FSC às cadeias de
custódia das gráficas que utilizam nossos papéis. Essa certificação
permitirá que os produtos finais livros, cadernos, agendas e
revistas, entre outros sejam comercializados com o selo do Forest
Stewardship Council, que atesta que a fabricação seguiu todas as
leis vigentes e foi realizada de forma ambientalmente correta,
socialmente justa e economicamente viável. Sob nossa orientação,
somada a treinamentos e incentivo financeiro, 22 gráficas
conquistaram o selo em 2008 e 16 iniciaram o processo de
certificação no período (SUZANO, 2008, p. 54).
92
4.1 O estudo quantitativo
O estudo contou com as respostas de 23 organizações categorizadas
por setor e tamanho da empresa. Em relação ao tamanho, obteve-se resposta
de uma micro empresa, uma fazenda, nove empresas médias e doze grandes
empresas. Em relação ao setor de atividade uma empresa produzia ervas, outra
de fumo, outra ativos para cosméticos, entretanto, a maioria concentra-se no
setor de florestal/madeireiro e papel e celulose. No setor florestal/madeireiro
foram 15 empresas e 5 no setor de papel e celulose. Neste último, apenas uma
das maiores empresas mencionadas acima que são certificadas não respondeu
ao questionário, bem como a Suzano. Foram 4 grandes empresas e 1 média.
Os respondentes foram os contatos disponibilizados no bando de dados
do FSC como sendo os responsáveis pelo selo, dentre eles, foram: 3
proprietários, 3 diretores, 3 gerentes, 6 coordenadores, 3 supervisores, 4
profissionais da área florestal ou de qualidade e um respondente não
especificou sua função.
A primeira parte da análise demonstra os resultados gerais da pesquisa.
Num segundo momento, foca-se as 21 médias e grandes empresas. Na
terceira etapa, os dados serão apresentados de acordo com os setores de
atividade. Por fim, analisa-se separadamente a micro empresa e a fazenda por
conter características peculiares e específicas. A primeira encontra-se em um
setor de atuação que o FSC não é comum e a segunda representa um dos
fornecedores assessorados pela Suzano para a certificação.
Dos praticantes ou respondentes da pesquisa, um não especificou sua
função; 3 eram proprietários; 3 diretores, 9 gerentes ou coordenadores, 3
supervisores e 4 profissionais especializados. Abaixo, evidencia-se a
frequência das respostas acerca das características dos praticantes.
93
95,7%
26,1%
69,6%
82,6%
73,9%
69,6%
56,5%
60,9%
56,5%
69,6%
13,0%
13,0%
39,1%
65,2%
69,6%
91,3%
39,1%
0% 20% 40% 60% 80% 100%
É motivada por trabalhar (...)
Realizou atividades socioambientais
Pessoas influenciaram
Valorização do meio ambiente
Valorização e compreensão da diversidade
Valores de inclusão social
Morou em local com natureza
Relacionamento grupo social diferente
Relacionamento abaixo do seu nível social
Vida profissional que pudesse ajudar o meio
ambiente e a sociedade
Se acha pragmático
Se acha idealista
Se acha pragmático e idealista
Visão de mundo integrado
Oportunidades neste mundo integrado
Valor - responsabilidade social das empresas
Mercado - Responsabilidade Social
Nota-se que as características mais frequentes foram na seguinte ordem:
motivação para trabalhar em uma área que gera impactos socioambientais,
praticante tem como valor que a empresa tem que agir de forma
socioambientalmente responsável,; valorização do meio ambiente; valorização
e compreensão da diversidade.
Além do preenchimento das características, houve algumas inclusões de
características pelos entrevistados. A questão da motivação pode ser vista na
inclusão de uma resposta nesta categoria:
Digo, plantar árvores, reciclar, reutilizar, criar um negócio que gere
empregos, que valorize a cultura, que resgate dignidade, construir
sistema de saneamento, e por aí vai, mas algo concreto, isto
resultado, dá exemplo, trás motivação para você e outros.
94
A valorização do meio ambiente, mas com um foco especifico também foi
mencionada: Acredito que agregar valor à floresta é a estratégia mais eficiente
de evitar sua substituição por outras formas de uso do solo.
Duas inclusões relacionadas com a vida profissional dos entrevistados
foram respondidas, focando não apenas a afirmação da pesquisa se o
entrevistado buscou trabalhar nessa área, mas como a experiência e formação
foram importantes para a atuação do profissional. “Experiência profissional
anterior, no mesmo setor e nas mesmas atividades desenvolvidas atualmente, e
que serviram como referência” e
A minha formação profissional e o desenvolvimento dentro de uma
empresa com valores de sustentabilidade influenciaram sobremaneira
no meu atual posicionamento. Todos nós precisamos, de fato, fazer
algo de concreto, muito além da discussão ou da comunicação para
outros.
É interessante que a palavra concreto é utilizada nesta afirmação e na
anterior sobre a motivação. É claro que esses participantes acreditam que é
necessário não só um discurso sobre responsabilidade social, mas práticas que
gerem resultados concretos acerca deste tema, demonstrando um pragmatismo
que foi característica mencionada com pouca frequência.
Houve algumas respostas, nesta pergunta sobre praticante, mas que se
referiam a práticas gerais ou definições sobre o FSC e serão discutidas
posteriormente.
De maneira geral, verificou-se que a maioria das características aplicava-
se aos entrevistados, com exceção das características de pragmatismo e
idealismo, a realização de atividades socioambientais na infância e juventude e
a adoção da responsabilidade social pela empresa por conta de pressão do
mercado. Esta última mostra que os praticantes acreditam que as empresas
têm que agir de modo socioambientalmente responsável, independente do
mercado, facilitando o convencimento dos mesmos na realização das práticas
necessárias para a certificação. Além disso, as características mais observadas
neste estudo quantitativo também são essenciais para o convencimento e
envolvimento do funcionário nas práticas da certificação. Ter valores de
preservação ambiental e diversidade faz com que os praticantes sejam
motivados e assim atuem felizes por estarem gerando benefícios
socioambientais.
95
Quanto às práticas destacadas no levantamento, temos:
78,3%
82,6%
60,9%
60,9%
30,4%
34,8%
30,4%
17,4%
4,3%
73,9%
87,0%
56,5%
65,2%
56,5%
39,1%
17,4%
43,5%
82,6%
47,8%
73,9%
95,7%
0% 10% 20% 30% 40% 50% 60% 70% 80% 90% 100%
assuntos socioambientais - agenda da alta gerência
realização de novas avaliações de impactos socioambientais
criação de programa estruturado para diálogo com a comunidade
fortalecimento do diálogo com a comunidade já existente
criação de área/grupo/comitê para certificação
criação de área/grupo/comitê para manutenção da certificação
na área participam diretores, gerentes e funcionários operacionais
na área participam gerentes e funcionários operacionais
na área participam diretores e gerentes
criação de treinamento acerca do FSC e responsabilidade social
conscientização sobre as novas práticas
inclusão de temas sociais nas reuniões pré existentes
inclusão de temas ambientais nas reuniões pré existentes
criação de reuniões específicas para tratar assuntos socioambientais
inclusão de outras áreas da companhia em reuniões pré existentes
mudança de embalagem
mudança de nota fiscal
adaptação das operações
realização de atividades demandadas pela comunidade
foco em ações de prevenção e não remediação
inclusão de novos procedimentos operacionais
A inclusão de novos procedimentos, a conscientização sobre as novas
práticas, a realização de novas avaliações de impactos socioambientais
prática externa, a adaptação das operações prática externa, os assuntos
socioambientais serem parte da agenda da alta gerência e criação de
treinamento acerca do FSC foram as práticas mais mencionadas. Das práticas
identificadas como de influência externa da Suzano, principalmente pela
exigência do FSC, apenas a questão do diálogo com a comunidade não teve
uma freqüência alta. Contudo, quando é analisado se o respondente assinalou
uma ou outra prática, 18 (78,3%) dos respondentes assinalaram que criaram
um programa ou fortaleceram o diálogo com a comunidade. Ainda sobre o
diálogo com a comunidade, um dos respondentes (de uma das maiores
empresas de papel e celulose e que assinalou a prática de criação de programa
e fortalecimento do diálogo com a comunidade) inclui uma afirmação sobre o
assunto:
Como parte das adequações necessárias para a obtenção dos
certificados, a empresa teve que fortalecer a área responsável pela
96
interface com as comunidades (ASCOM-R - Assessoria de
Comunicação/Relações com a Comunidade) na forma da contratação
de RP específico para o processo florestal, bem como de Assistentes
Sociais.
Essa análise das práticas mais citadas corrobora as práticas
classificadas como externas no estudo de caso.
A questão da conscientização é a única prática que não é exigência
direta do FSC e que foi bastante citada pelos respondentes. Essa questão foi
fortemente discutida pelos entrevistados da Suzano, nota-se a importância dos
praticantes, ou seja, de conscientizá-los para que a certificação ocorra. Este
tema também foi mencionado por um respondente dentro da questão aberta
sobre práticas, o mesmo afirmou: “Os trabalhos de conscientização são
fundamentais para que haja a manutenção do tripé da sustentabilidade.
Outro respondente, também do setor de papel e celulose afirmou que
uma prática necessária era ter liberdade para opinar e defender interesses da
comunidade ou do pensamento em conservação ambiental, dentro de
procedimentos e padrões anteriormente estabelecidos”.
Quanto à conscientização, embora em relação às práticas os
entrevistados deixaram claro como ela é importante, em um segundo momento,
ao perguntar sobre o processo do FSC, 65,2% assinalaram que era necessário
que todos os funcionários da empresa entendam sobre o assunto. Embora seja
uma das respostas com maior frequência, está abaixo das frequências obtidas
nas questões dos praticantes e práticas. A outra resposta mais frequente
(também 65,2%) foi sobre a importância da visão do alto escalão (utilizando-se
da agência projetiva).
97
GRANDES E MÉDIAS EMPRESAS
Pelas organizações que não se declararam grandes ou médias serem
analisadas separadamente, a análise buscou verificar a diferença dos
praticantes, práticas e processo entre empresas médias e grandes. Nesta
análise, os dados das outras organizações foram excluídos.
TAMANHO EMPRESA
PRÁTICAS % 21 % 9 % 12
assuntos socioambientais - agenda da alta gerência
76,2% 16 66,7% 6 83% 10
realização de novas avaliações de impactos socioambientais
81,0% 17 66,7% 6 92% 11
criação de programa estruturado para diálogo com a comunidade
66,7% 14 55,6% 5 75% 9
fortalecimento do diálogo com a comunidade já existente
61,9% 13 66,7% 6 58% 7
criação de área/grupo/comitê para certificação
28,6% 6 44,4% 4 17% 2
criação de área/grupo/comitê para manutenção da certificação
33,3% 7 33,3% 3 33% 4
na área participam diretores, gerentes e funcionários operacionais
33,3% 7 44,4% 4 25% 3
na área participam gerentes e funcionários operacionais
14,3% 3 11,1% 1 17% 2
na área participam diretores e gerentes
4,8% 1 0,0% 0 8% 1
criação de treinamento acerca do FSC e responsabilidade social
71,4% 15 55,6% 5 83% 10
conscientização sobre as novas práticas
85,7% 18 66,7% 6 100% 12
inclusão de temas sociais nas reuniões pré existentes
52,4% 11 22,2% 2 75% 9
inclusão de temas ambientais nas reuniões pré existentes
66,7% 14 44,4% 4 83% 10
criação de reuniões específicas para tratar assuntos socioambientais
57,1% 12 44,4% 4 67% 8
inclusão de outras áreas da companhia em reuniões pré existentes
42,9% 9 44,4% 4 42% 5
adaptação das operações
81,0% 17 77,8% 7 83% 10
realização de atividades demandadas pela comunidade
52,4% 11 22,2% 2 75% 9
foco em ações de prevenção e não remediação
76,2% 16 66,7% 6 83% 10
inclusão de novos procedimentos operacionais
95,2% 20 88,9% 8 100% 12
DIA E GRANDE
DIA
GRANDE
Em relação às práticas, nota-se diferença da frequência de algumas
práticas de acordo com o tamanho da empresa. Nesta análise, quando a
frequência de cada uma das duas categorias (média ou grande) fosse maior ou
menor em 10% do que a média, era assinalada como uma prática que
diferenciava de acordo com o tamanho da empresa. As grandes empresas
assinalaram mais vezes as práticas: realização de novas avaliações de
impactos socioambientais, criação de treinamento acerca do FSC,
conscientização sobre as novas práticas, inclusão de temas sociais e
ambientais nas reuniões pré-existentes e realização de atividades demandadas
pela comunidade. as dias empresas, a criação de comitê para a
certificação foi mais frequente que nas grandes empresas.
Com base nos dados obtidos não é possível entender o porquê dessas
diferenças acontecerem. Entretanto, seria interessante que novos estudos
fossem feitos para analisar a real existência dessas diferenças.
98
TAMANHO EMPRESA
PRATICANTES % 21 % 9 % 12
É motivada por trabalhar (...)
95,2% 20 88,9% 8 100,0% 12
Realizou atividades socioambientais
28,6% 6 11,1% 1 41,7% 5
Pessoas influenciaram
71,4% 15 66,7% 6 75,0% 9
Valorização do meio ambiente
81,0% 17 66,7% 6 91,7% 11
Valorização e compreensão da diversidade
71,4% 15 55,6% 5 83,3% 10
Valores de inclusão social
66,7% 14 55,6% 5 75,0% 9
Morou em local com natureza
52,4% 11 33,3% 3 66,7% 8
Relacionamento grupo social diferente
57,1% 12 55,6% 5 58,3% 7
Relacionamento abaixo do seu nível social
52,4% 11 33,3% 3 66,7% 8
Vida profissional que pudesse ajudar o meio ambiente e a
sociedade
66,7% 14 55,6% 5 75,0% 9
Se acha pragmático
14,3% 3 11,1% 1 16,7% 2
Se acha idealista
14,3% 3 11,1% 1 16,7% 2
Se acha pragmático e idealista
33,3% 7 33,3% 3 33,3% 4
Visão de mundo integrado
61,9% 13 33,3% 3 83,3% 10
Oportunidades neste mundo integrado
66,7% 14 55,6% 5 75,0% 9
Valor - responsabilidade social das empresas
90,5% 19 77,8% 7 100,0% 12
Mercado - Responsabilidade Social
38,1% 8 33,3% 3 41,7% 5
DIA E GRANDE
DIA
GRANDE
Quanto aos praticantes, nas grandes empresas, são mais frequentes os
praticantes que realizaram atividades socioambientais na infância e juventude,
que valorizam e compreendem a diversidade, moraram em local com natureza,
tem relacionamento com grupo abaixo do seu nível social e possuem uma visão
de mundo integrado. Dessas características, provavelmente as duas últimas
podem ser parcialmente explicadas pelo tamanho da empresa. Em uma grande
empresa com diversos níveis hierárquicos é mais provável o relacionamento de
diversos grupos de classe social. Além disso, nas empresas maiores, por
muitas vezes estarem mais conectadas com as novas tendências de gestão, a
questão de mundo integrado é algo bem disseminado pelas escolas e meios de
comunicação nesta área. Essas diferenças também precisam ser estudadas
mais a fundo.
SETORIAL
Diferentemente da categorização de tamanho de empresa, a
categorização do setor também incluiu a pergunta acerca do setor e da
empresa.
99
Setor de atividade
SETOR % 20 %
5 % 15
A maioria das empresas possui projetos sociais ou ambientais 60% 12 80% 4 53% 8
A maioria das empresas divulgam suas ações de responsabilidade social em seus sites e outros meios
25% 5 80% 4 7% 1
Na maioria das empresas, a responsabilidade social é parte da estratégia 35% 7 80% 4 20% 3
A maioria das empresas oferece produtos ou serviços sustentáveis 65% 13 100% 5 53% 8
EMPRESA % 20 %
5 % 15
A missão da empresa inclui o tema da responsabilidade social 45% 9 60% 3 40% 6
A visão da empresa inclui o tema da responsabilidade social 45% 9 60% 3 40% 6
A responsabilidade social é parte da estratégia da empresa 65% 13 100% 5 53% 8
A empresa possui uma visão de que todos os stakeholders são importantes 65% 13 100% 5 53% 8
A empresa acredita que os stockholders (acionistas) são importantes 10% 2 0% 0 13% 2
O mercado consumidor da empresa exige produtos sustentáveis 60% 12 80% 4 53% 8
A empresa possui grande parte de vendas no mercado externo 35% 7 60% 3 27% 4
Floresta e
Madeira
Papel, Celulose,
Floresta e
Madeira
Papel e Celulose
Em relação ao ambiente das empresas no setor de papel e celulose,
nota-se que a maioria (4) das empresas assinalou as 4 frases, uma delas
assinalou apenas que a maioria das empresas oferece produtos e serviços
sustentáveis; entretanto sugeriu outra frase “A maioria das empresas buscam
soluções sustentáveis em seus processos florestais”. Outra empresa do setor
indicou “Nas frases acima se aplica as grandes empresas do setor”. Conclui-se
que neste setor uma normatização pela responsabilidade socioambiental e
pela certificação de produtos, principalmente em relação às maiores empresas,
fato corroborado pelas empresas que possuem o certificado e pelos dados
demonstrados na análise do estudo de caso acerca deste setor.
É nítida a diferença entre o setor de papel e celulose e o de madeira e
floresta. Neste último, as práticas de responsabilidade social parecem não
estarem tão institucionalizadas, deste modo, havendo pouca pressão para que
as empresas se certifiquem. Em relação às próprias práticas das empresas
certificadas, poucas utilizam das práticas de responsabilidade social. Na
questão sobre os motivos da implementação do FSC, muitas empresas do setor
afirmaram que os consumidores exigiam, ser uma nova forma de competir no
mercado e pela sociedade exigir mais produtos sustentáveis. A pressão de
ONGs, governo, etc não foi motivo muito citado ou principal. Talvez, essas
sejam parte das empresas pioneiras do setor ou forneçam para empresas que
exigem a certificação (como uma delas que é fornecedora da Suzano).
100
SETOR
PRÁTICAS
% 20 % 5 % 15
assuntos socioambientais - agenda da alta gerência
80% 16 80% 4 80% 12
realização de novas avaliações de impactos socioambientais
85% 17 80% 4 87% 13
criação de programa estruturado para diálogo com a comunidade
65% 13 80% 4 60% 9
fortalecimento do diálogo com a comunidade já existente
65% 13 100% 5 53% 8
criação de área/grupo/comitê para certificação
30% 6 40% 2 27% 4
criação de área/grupo/comitê para manutenção da certificação
35% 7 60% 3 27% 4
na área participam diretores, gerentes e funcionários operacionais
35% 7 60% 3 27% 4
na área participam gerentes e funcionários operacionais
10% 2 0% 0 13% 2
na área participam diretores e gerentes
5% 1 0% 0 7% 1
criação de treinamento acerca do FSC e responsabilidade social
80% 16 100% 5 73% 11
conscientização sobre as novas práticas
90% 18 100% 5 87% 13
inclusão de temas sociais nas reuniões pré existentes
60% 12 80% 4 53% 8
inclusão de temas ambientais nas reuniões pré existentes
65% 13 100% 5 53% 8
criação de reuniões específicas para tratar assuntos socioambientais
60% 12 80% 4 53% 8
inclusão de outras áreas da companhia em reuniões pré existentes
45% 9 60% 3 40% 6
adaptação das operações
85% 17 80% 4 87% 13
realização de atividades demandadas pela comunidade
55% 11 80% 4 47% 7
foco em ações de prevenção e não remediação
80% 16 100% 5 73% 11
inclusão de novos procedimentos operacionais
100% 20 100% 5 100% 15
Papel e
Celulose
Floresta e
Madeira
Papel, Celulose,
Floresta e
Madeira
Em relação às práticas e o setor, a diferença ocorreu apenas no
fortalecimento do diálogo com a comunidade e inclusão de outras áreas da
companhia em reuniões pré-existentes. De modo geral, o setor não diferencia
as práticas realizadas.
SETOR
PRATICANTES
% 20 % 5 % 15
É motivada por trabalhar (...)
100% 20 100% 5 100% 15
Realizou atividades socioambientais
30% 6 20% 1 33% 5
Pessoas influenciaram
70% 14 100% 5 60% 9
Valorização do meio ambiente
80% 16 100% 5 73% 11
Valorização e compreensão da diversidade
75% 15 100% 5 67% 10
Valores de inclusão social
70% 14 80% 4 67% 10
Morou em local com natureza
55% 11 80% 4 47% 7
Relacionamento grupo social diferente
65% 13 60% 3 67% 10
Relacionamento abaixo do seu nível social
60% 12 80% 4 53% 8
Vida profissional que pudesse ajudar o meio ambiente e a sociedade
65% 13 100% 5 53% 8
Se acha pragmático
15% 3 20% 1 13% 2
Se acha idealista
15% 3 0% 0 20% 3
Se acha pragmático e idealista
35% 7 40% 2 33% 5
Visão de mundo integrado
60% 12 100% 5 47% 7
Oportunidades neste mundo integrado
70% 14 100% 5 60% 9
Valor - responsabilidade social das empresas
90% 18 100% 5 87% 13
Mercado - Responsabilidade Social
40% 8 40% 2 40% 6
Papel e Celulose
Floresta e Madeira
Papel, Celulose,
Floresta e Madeira
Também em relação aos praticantes, poucas são as diferenças de
acordo com o setor. No setor de papel e celulose, são mais frequentes os
respondentes que tem ou tiveram pessoas que os influenciaram a atuar de
101
forma socioambientalmente responsável, que buscou ter uma vida profissional
que pudesse ajudar o meio ambiente e a sociedade, que possui visão de
mundo integrado e veem oportunidades nesse mundo.
As duas últimas características podem estar relacionadas ao tamanho,
uma vez que a diferença por tamanho foi identificada para a característica de
visão de mundo integrado e o setor de papel e celulose ter sua totalidade de
grandes empresas, enquanto no setor de floresta e madeira apenas 46,7% são
grandes empresas.
ERVATERIA
Essa é uma microempresa fundada em 1994 que realiza a colheita e
industrialização da erva-mate (torrefação e moagem), em um setor que “são
poucas empresas que possuem projetos sociais e ambientais, e oferecem
produtos e serviços sustentáveis”. O selo FSC foi conquistado em 2003 e o
motivo da certificação foi “Oferecer aos nossos consumidores um produto
natural de qualidade e principalmente saudável”. A respondente é filha do
proprietário e trabalho em toda a certificação e manutenção do selo.
Praticamente quase todas as práticas foram identificadas. Além disso, a
praticante se identificou com 14 das 17 características.
Pelas respostas da empresa, nota-se que é uma das pequenas
empresas no país que o empreendedor acreditou em oferecer um produto que
gere menos impactos negativos socioambientais e mais positivos; sem ser
comum no seu mercado, sendo pioneiro na obtenção do selo certificação.
A FAZENDA ASSESSORADA PELA SUZANO
A fazenda, constituída em 1985, possui 100 h.a de eucalipto fomentado
pela Suzano Papel e Celulose e recebeu o certificado FSC no ano de 2009. A
fazenda foi convidada a participar da certificação e aceitaram por “concordamos
com manejo sustentável”. Segundo o entrevistado, também proprietário da
fazenda, “a mudança na fazenda foi pouca porque seguimos muito tempo as
normas sociais, econômicas, de meio ambiente e legais. A manutenção do
certificado depende de continuarmos seguindo os mesmos preceitos
existentes muito tempo na fazenda.
102
Segundo o entrevistado, as práticas do processo o: assuntos
socioambientais como parte da agenda da alta gerência da empresa; realização
de novas avaliações de impactos socioambientais; criação de treinamento
acerca das práticas para que o produto/serviço seja sustentável,
conscientização sobre as novas práticas para que o produto/serviço seja
sustentável, inclusão de temas sociais nas reuniões pré-existentes; adaptação
das operações e inclusão de novos procedimentos operacionais.
Pela fazenda ter se certificado por iniciativa do programa da Suzano, não
são tantas as práticas semelhantes ao estudo de caso. Entretanto, é importante
lembrar que estamos falando de uma fazenda em que provavelmente não
existe necessidade de criação de comitês, a relação com a comunidade já deve
ser algo realizado diariamente. Um estudo mais aprofundado sobre as práticas
da fazenda seria interessante para entender a relação entre as práticas e os
praticantes da Suzano e da fazenda.
103
5 CONCLUSÃO
Este trabalho buscou entender a construção da certificação e
manutenção do selo FSC por meio da teoria da estratégia como prática. Um
estudo de caso foi realizado na Suzano Papel e Celulose S/A o qual embasou o
questionário da fase quantitativa. A fase quantitativa contou com a resposta de
23 empresas certificadas pelo FSC.
Na primeira parte do referencial teórico delimitou-se a questão das
teorias da prática e como elas buscam quebrar as dicotomias existentes entre
determinismo/voluntarismo, estrutura/agência, homo economicus / homo
sociologicus, materialismo/idealismo, realismo/nominalismo. A realidade social
não possui estas dicotomias, mas sim fenômenos complexos em que
concomitantemente existe o determinismo e o voluntarismo, a influência da
estrutura e da agência, o homo economicus e o sociologicus.
Ficou claro neste trabalho que as teorias da prática representam a
realidade social. As forças ambientais influenciaram fortemente a Suzano e
outras empresas a se certificar, mas a agência para se certificar também foi
identificada na ervateria do estudo quantitativo em que a empresa buscou o
selo FSC mesmo que em seu setor não houvessem pressões para esse tipo de
certificação. A dicotomia de homo economicus / homo sociologicus, ou mesmo
de idealismo/realismo; também é superada quando conhecemos os praticantes
aqui pesquisados.
A história da certificação e manutenção do FSC na Suzano mostra
influências do ambiente, como o setor, o mercado consumidor e a normatização
do próprio FSC bem como a agência da organização no ambiente, lançando
uma inovação no mercado, um programa de ajuda aos fomentados e clientes
para se certificarem com o FSC. Esse programa, provavelmente, ireforçar a
importância da certificação no setor de papel e celulose e setores correlatos;
como por exemplo, o florestal que atualmente não possui tanta
institucionalização da responsabilidade social e da exigência de certificação,
pressionando mais empresas a se certificar e a assessorar seus fomentados e
clientes a fazerem. A partir desta explicação, propõe-se o esquema abaixo.
Nele, nota-se o determinismo de mercado que exigia a certificação. A
Suzano normatizando-se ao mercado mudou seu produto tornando o FSC, para
104
isso teve que adequar suas práticas organizacionais, incorporando práticas do
mercado, criando novas ou adequando as existentes. A partir de então se
realinhou ao mercado, ao fazê-lo, fortaleceu o determinismo do mesmo pela
exigência da certificação. Além disso, a certificação gerou resultados para a
empresa, mostrando a validade da prática e, mais uma vez, fortalecendo o
determinismo, fazendo com que mais empresas se certifiquem, gerando mais
impactos socioambientais positivos e minimizando os negativos. E mais, o
voluntarismo da Suzano, em seu Programa de ajuda para fornecedores e
clientes serem certificados, pode gerar uma nova normatização do mercado,
fortalecendo ainda mais a prática de certificação do FSC.
Figura 6: modelo proposto
Conclui-se também que a estratégia como prática é uma teoria coerente
com a realidade social empresarial. Sua teoria é percebida nas falas dos
entrevistados sem os mesmos nunca terem lido sobre o assunto. Fica claro a
questão da coletividade da estratégia e do convencimento da comunidade
(JARKABKOWSKI, 2005) para a realização da estratégia pela fala do
presidente da época e de outros entrevistados.
Pode-se identificar que os estrategistas são atores não apenas do alto
escalão da empresa e também atores externos. No caso estudado, conclui-se
105
que na certificação e manutenção do FSC todos os envolvidos são importantes,
uma vez que as práticas o exercidas por pessoas nos diversos níveis
hierárquicos. Os estrategistas são presidentes, diretores, gerentes,
supervisores, operadores.
Além disso, as histórias dos praticantes possibilitaram que os mesmos
tivessem diversas características que os próprios praticantes identificaram
como essenciais e importantes para suas práticas acerca de certificação e
manutenção. Esses praticantes possuem valores de preservação da natureza,
inclusão social, diversidade; acreditam que é papel da empresa agir de forma
socioambientalmente responsável, seja por motivos de mercado, seja por
motivos de valor; possuem visão de mundo sistêmico, interdependente e
interligado; acreditam que os resultados de uma organização dependem de
todos os stakeholders; são pragmáticos, mas também idealistas; realizaram
atividades na área socioambiental na infância e juventude; têm ou tiveram
pessoas que os inspiraram acerca dos valores do desenvolvimento sustentável;
são motivados por trabalhar nesta área; trilharam sua vida profissional para
isso; moraram em local com contato com a natureza; relacionaram-se com
grupo sociocultural diferente do seu e, quando em faixa etária abaixo dos 30
anos, aprenderam sobre o tema da sustentabilidade na escola ou faculdade.
Algumas dessas características são apontadas mais frequentemente,
são elas: motivação para trabalhar em uma área que gera impactos
socioambientais; praticante tem como valor que a empresa tem que agir de
forma socioambientalmente responsável; valorização do meio ambiente,
valorização e compreensão da diversidade. diferença de frequência das
características dos praticantes em relação ao tamanho da empresa, mas não
em relação ao setor (papel e celulose ou florestal e madeira) de atuação.
Os praticantes de alto escalão utilizam-se mais da agência projetiva,
enquanto os outros níveis hierárquicos usam mais a agência prática-evaluativa.
Quanto à teoria da responsabilidade social e os praticantes, ficou
evidente que a história, as características e os valores dos praticantes são
variáveis importantes e similares no entendimento deste ator bem como
fortalecem as práticas dos mesmos.
Diversas práticas foram identificadas na certificação e manutenção do
selo do FSC. Das práticas de responsabilidade social encontradas na literatura,
106
todas foram identificadas na Suzano embora algumas não faziam parte do
processo de certificação.
Das práticas encontradas, algumas eram exigidas pelo próprio FSC ou
comum ao mercado: a inclusão de novos procedimentos, a realização de novas
avaliações de impactos socioambientais, a adaptação das operações, os
assuntos socioambientais serem parte da agenda da alta gerência e a criação
de treinamento sobre o FSC.
Outras práticas foram identificadas que não necessariamente foram
incorporadas pela Suzano do mercado, são elas: tomada de decisão pautada
no triple bottom line; criação de comitê/área/grupo destinado à implementação
do FSC; criação de comitê/área/grupo destinado manutenção das práticas
socioambientais relacionadas ao selo; mudança na pauta de reuniões incluindo
assuntos socioambientais; realização de reuniões com profissionais de diversas
áreas; realização de ações demandadas pela comunidade; inclusão de novos
procedimentos; conscientização acerca do FSC e de práticas socioambientais e
ações pautadas na prevenção e o remediação. Destas práticas identificadas
na Suzano, apenas a conscientização também foi fortemente citada pelas
outras empresas pesquisadas no levantamento. Na pesquisa quantitativa,
notou-se diferença da frequência das práticas dependendo do tamanho da
empresa.
Em relação à responsabilidade social gerar resultados para as empresas,
ao menos para as empresas do setor de papel e celulose; nota-se que a
mudança de produtos e serviços pautados na responsabilidade social é
exigência do mercado.
Quanto ao modelo de Perrini e Minoja (2008) de três fases, em que a
primeira consiste que os valores do empreendedor/fundador são motivadores
para a ação de responsabilidade social, na segunda ocorrem ações e discursos
de sustentabilidade, mas não de forma estruturada e na terceira a
formalização da responsabilidade social pela emissão de relatórios, controle e
certificados. No estudo de caso não foi necessário a primeira fase para que a
Suzano percorresse os outros dois estágios. Além disso, a segunda e terceira
fases que ocorrem nesta sequência, no caso da Suzano não ocorreram no
estudo quantitativo. Com base dos dados quantitativos, não podemos afirmar
que apenas após a empresa ter a responsabilidade social consolidada em sua
107
missão e visão, emitir relatórios de sustentabilidade que ela buscará o selo.
Muitas das empresas que responderam a pesquisa possuem certificação e não
deixam explícitos em sua missão e visão a busca pelo desenvolvimento
sustentável.
Por fim, conclui-se que a incorporação das práticas e valores de
responsabilidade social na cultura da empresa, ou a transformação da mesma
em cultura organizacional, é essencial para que a certificação do FSC ocorra.
Pensar, analisar, decidir e agir pensando no tripé da sustentabilidade precisa
estar incorporado em todos os atores para que o desenvolvimento sustentável
se perpetue na empresa.
Nesta pesquisa, em parte pelo seu caráter exploratório, muitos dados e
informações foram levantadas e com isso muitas outras perguntas. Espera-se
que mais pesquisas sejam realizadas para entender melhor como os
praticantes que trabalham nessa área foram e são formados e a relação disto
com as diversas práticas que recorrem no dia-a-dia. Também, um entendimento
detalhado de cada uma das práticas aqui mencionadas. Entender as diferenças
encontradas nas práticas e praticantes dependendo do setor, se elas
efetivamente ocorrem e por que acontecem. Entender qual a relação do
praticante em aceitar ou o uma cultura organizacional de responsabilidade
social. Por fim, testar o modelo aqui proposto para verificar a sua ocorrência em
outros contextos bem como para refiná-lo.
108
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115
ANEXO
Pesquisa quantitativa
Esta pesquisa tem como objetivo entender quais foram as práticas criadas ou
mudadas, antes e após a criação de um produto ou serviço sustentável ou
antes e após a transformação de um produto ou serviço em sustentável.
Também pretende entender quem foram e são os praticantes neste processo.
Por produto ou serviço sustentável entende-se todo aquele que de alguma
forma diminua seus impactos negativos ou aumente os impactos positivos no
meio ambiente e/ou na sociedade.
É importante que este questionário seja respondido por uma pessoa que
participou deste processo de criação ou transformação ou que tenha
trabalhado na manutenção do produto sustentável.
A Pesquisa possui 14 questões e demora em torno de 10 a 15 minutos para ser
respondida.
Nas perguntas, onde for citado "produto" queremos dizer "produto e/ou
serviço".
Muito obrigada por sua contribuição.
1. Informações iniciais
1. Nome da Empresa
2. Fale qual seu cargo na organização e como participou ou participa do
processo de criação/mudança/manutenção do produto sustentável.
3. Tamanho da empresa
4. Ano de fundação da empresa
5. Setor de atuação
6. Quais produtos ou serviços sustentáveis a empresa oferece? (Por
produto/serviço sustentável entende-se todo aquele que de alguma forma
diminua seus impactos negativos ou aumente os impactos positivos no
meio ambiente e/ou na sociedade)
7. Data da criação do produto sustentável ou transformação do produto
em sustentável
8. Possui certificação do produto ou serviço?
4. Questionário - Setor e Empresa
9. Escolha quais frases melhor representam o setor que a empresa atua
A maioria das empresas possui projetos sociais ou ambientais
116
A maioria das empresas divulgam suas ações de responsabilidade social em
seus sites e outros meios
Na maioria das empresas, a responsabilidade social é parte da estratégia
A maioria das empresas oferece produtos ou serviços sustentáveis
Outra. Qual?
10. Assinale as frases que melhor representam a relação da sua empresa
com a responsabilidade social (Você pode assinalar mais do que uma
frase)
A missão da empresa inclui o tema da responsabilidade social
A visão da empresa inclui o tema da responsabilidade social
A responsabilidade social é parte da estratégia da empresa
A empresa possui uma visão de que todos os stakeholders (públicos
interessados) são importantes para o seu
sucesso e faz a sua gestão tentando atender ao interesse de todos eles
A empresa acredita que os stockholders (acionistas) são os principais e mais
importantes stakeholder da
organização e realiza sua gestão atendendo apenas ou em sua maioria a seus
interesses
O mercado consumidor da empresa exige produtos sustentáveis
A empresa possui grande parte de vendas no mercado externo, principalmente
para Europa e EUA
Outra qual?
11. Priorize os motivos que levaram a empresa a criar ou transformar os
produtos em sustentáveis
Nova forma de competir no mercado
Consumidores exigiam este tipo de produto
Outras empresas do setor lançaram produtos sustentáveis semelhantes, então
nos adequamos ao setor
Pressão de ONGs, comunidade do entorno ou governo
Adequação a nova realidade da sociedade que cada vez mais exige atuação
das empresas e produtos sustentáveis
117
Imagem de marca n
Outro. Qual? Praticantes e Práticas
12. Você, caso seja uma das pessoas envolvidas no processo de
transformação/criação do produto sustentável e também pela
manutenção deste produto/serviço em sustentável, pode afirmar que
(Você pode assinalar mais do que uma frase)
É motivada por trabalhar, realizar atividades que melhoram a sociedade e o
meio ambiente
Realizou atividades (tais como, em projetos sociais, pesquisas, etc)
relacionadas a melhoria da sociedade e
meio ambiente na infância e juventude
Em sua trajetória de vida teve pessoas (pais, professores, outros) que a
influenciaram em tentar melhorar a
sociedade e o meio ambiente
Possui valores de valorização do meio ambiente
Possui valores de valorização e compreensão da diversidade
Possui valores de inclusão social
Morou em local com contato com a natureza (sítio, fazendas, etc)
Teve algum relacionamento direto com pessoal de um grupo social diferente do
seu, aprendendo a entender o
próximo
Teve relacionamento direto com pessoas abaixo do seu nível social o que o fez
buscar uma maios igualdade
entre as pessoas
Buscou em sua vida profissional posições em que pudesse ajudar o meio
ambiente e a sociedade
Se acha pragmático
Se acha idealista
Se acha pragmático e idealista
Tem uma visão de mundo integrado, interdependente, sistêmica
Enxerga oportunidades neste mundo integrado
118
Tem como valor que as empresas precisam agir de maneira
socioambientalmente responsável
Acredita que as empresas devem agir socioambientalmente responsável por
conta das exigências do mercado
Existe alguma outra característica ou fato que você acredita que fez com que
você trabalhasse com essa
mudança/criação/manutenção não citada acima? Explique.
13. No processo da transformação/criação do produto ustentável e da
sua manutenção, você pode afirmar que (Você pode assinalar mais do
que uma frase)
é necessário que todos os funcionários da empresa entendam sobre o assunto
é necessário, principalmente, que o pessoal operacional entenda sobre o
assunto e aja de acordo com os
procedimentos para que o produto se mantenha sustentável
quando o funcionário lida diretamente com a comunidade ele tende a
incorporar melhor a necessidades das
práticas e as próprias práticas relacionadas a comunidade que torna o produto
sustentável
existe uma dificuldade de envolver funcionários que não estejam no processo
de
transformação/criação/manutenção na demanda socioambiental
necessidade de uma visão de futuro, principalmente de presidente e diretores,
para
transformação/criação/manutenção do produto sustentável
o participante do processo precisa ser pragmático, saber que o que realiza
talvez não seja o ideal em termos
de sustentabilidade mas é o possível dado a sociedade/ambiente em que
vive/trabalha
14. Quais foram as práticas criadas por conta da
criação/transformação/manutenção do produto sustentável
assuntos socioambientais como parte da agenda da alta gerência da empresa
realização de novas avaliações de impactos socioambientais
criação de programa estruturado para diálogo com a comunidade
fortalecimento do diálogo com a comunidade já existente
119
certificação de produto/serviço
criação de área/grupo/comitê para criação e transformação do produto/serviço
em sustentável
criação de área/grupo/comitê para manutenção do produto/serviço em
sustentável
na área (grupo/comitê) criada participam diretores, gerentes e funcionários
operacionais
na área (grupo/comitê) criada participam gerentes e funcionários operacionais
na área (grupo/comitê) criada participam diretores e gerentes
criação de treinamento acerca das práticas para que o produto/serviço seja
sustentável
conscientização sobre as novas práticas para que o produto/serviço seja
sustentável
inclusão de temas sociais nas reuniões pré existentes
inclusão de temas ambientais nas reuniões pré existentes
criação de reuniões específicas para tratar assuntos socioambientais
inclusão de outras áreas da companhia em reuniões pré existentes (por ex. as
áreas de responsabilidade
social, comunidade, institucional participam de reunião da área de produção)
mudança de embalagem
mudança de nota fiscal
adaptação das operações
realização de atividades demandadas pela comunidade no diálogo com as
mesmas
foco em ações de prevenção e não remediação no que diz respeito as
comunidades do entorno e o meio
ambiente
inclusão de novos procedimentos operacionais
Caso você ache que outra prática foi criada por conta da
criação/transformação/manutenção do produto/serviço em
sustentável, explique abaixo
120
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