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MINISTÉRIO DA EDUCAÇÃO
UNIVERSIDADE FEDERAL DO PIAUÍ
PRÓ-REITORIA DE PESQUISA E PÓS-GRADUAÇÃO
CENTRO DE CIÊNCIAS DA SAÚDE/DEPARTAMENTO DE ENFERMAGEM
PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO MESTRADO EM ENFERMAGEM
ROSILANE DE LIMA BRITO MAGALHÃES
RESILIÊNCIA E CONTEXTO FAMILIAR DE MULHERES VÍTIMAS DE
VIOLÊNCIA SEXUAL
Teresina (PI), 2008
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1
ROSILANE DE LIMA BRITO MAGALHÃES
RESILIÊNCIA E CONTEXTO FAMILIAR DE MULHERES VÍTIMAS DE
VIOLÊNCIA SEXUAL
Dissertação apresentada ao Programa de
Pós-Graduação Mestrado em Enfermagem
da Universidade Federal do Piauí, como
parte dos requisitos necessários à obtenção
do título de Mestre em Enfermagem.
Área de concentração: A Enfermagem no contexto social brasileiro.
Linha de Pesquisa: o processo de cuidar em saúde e enfermagem.
Orientadora: Profa. Dra. Claudete Ferreira de Souza Monteiro
Teresina (PI), 2008
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2
Rosilane de Lima Brito Magalhães
RESILIÊNCIA E CONTEXTO FAMILIAR DE MULHERES VÍTIMAS DE VIOLÊNCIA
SEXUAL
Dissertação de Mestrado submetida à Banca
Examinadora do Programa de Pós-
Graduação Mestrado em Enfermagem, da
Universidade Federal do Piaui, como parte
dos requisitos necessários à obtenção do
título de Mestre em Enfermagem.
Aprovada em ___/___/2008
_______________________________________________________
Profa. Dra. Claudete Ferreira de Souza Monteiro
Universidade Federal do Piauí/UFPI
_______________________________________________________
Profa. Dra. Liliana Maria Labronici
Universidade Federal do Paraná/UFPR
_______________________________________________________
Profa. Dra. Maria Eliete Batista Moura
Universidade Federal do Piauí/UFPI
Suplente:
_______________________________________________
Profa. Dra. Maria Castelo Branco Rocha de Deus
Universidade Federal do Piauí/UFPI
3
À minha mãe, Maria da Paz, exemplo de
mulher, mãe, esposa, amiga, admirável pela garra
na realização dos nossos sonhos, eu sou muito
grata por tudo o que me ensina.
À Profa. Dra. Claudete Ferreira de Souza
Monteiro, por me incentivar na pesquisa, pelo
privilégio de tê-la como orientadora, pelos desafios
propostos durante o Mestrado e a oportunidade de
crescimento profissional.
4
AGRADECIMENTOS
Chegar até aqui é maravilhoso, tenho a sensação de ser uma vencedora; contudo,
este processo de formação se inicia muito cedo, e, para que o Mestrado aconteça de
maneira mais proveitosa, exige o envolvimento de muitas pessoas; por isso quero agradecer
a todos os que colaboraram comigo na busca da realização de meus objetivos.
A Deus, por me guiar, me fortalecer diante de tantas situações adversas, por me
iluminar, e colocar as pessoas certas no meu caminho.
À Universidade Federal do Piauí, onde tive a oportunidade de realizar minha
graduação, cursos de aperfeiçoamento, e, nos dias atuais, o Mestrado em Enfermagem.
Agradeço de maneira especial ao Magnífico Reitor Prof. Dr. Luís de Sousa Santos Júnior,
pelo incentivo à pesquisa através da Pós-Graduação.
À minha orientadora, Dra. Claudete Ferreira de Souza Monteiro, pela maneira ética e
responsável com que conduz a Coordenação do Mestrado, que durante esse período me
oportunizou maior crescimento pessoal e profissional à busca da perfeição do trabalho
científico, através do seu modelo de orientação, pois, muitas vezes, foi extremamente rígida,
exigente, crítica; entretanto, disponível e segura, para que pudéssemos também cumprir os
prazos; mas também se mostrou amiga, e oportunizou-me momentos de descontração
neste trabalho, construído com muita dedicação. Ser-lhe-ei eternamente grata.
A todas as minhas professoras, em especial as do Departamento de Enfermagem da
Universidade Federal do Piauí, pela responsabilidade no processo de minha formação. Um
abraço a todas, obrigada.
Às professoras do Mestrado, que, com muita garra e responsabilidade, buscaram a
qualificação e conseguiram implantar o Mestrado em Enfermagem, parabéns, e muito
obrigada, por esta oportunidade.
À Profa. Dra. Benevina Vilar Teixeira Nunes e Profa. Dra. Telma Evangelista pela
maneira simples dedicada e prazerosa com que conduzem suas aulas, e por sua
capacidade de relacionamento com as alunas.
A Profa. Dra. Maria Eliete Batista Moura, por sua contribuição durante o Mestrado na
disciplina Seminário de Pesquisa, através de orientações gradativas e competentes, e pela
orientação sobre o programa ALCESTE na qualificação.
À Profa. Dra. Liliana Maria Labronici, pela contribuição valiosa e cuidadosa durante a
qualificação, para melhor construção do trabalho. Aprendi muito.
5
À Dra. Maria Castelo Branco, pelo acolhimento e colaboração na viabilização deste
estudo, e também pelo esforço contínuo para combater a violência contra a mulher.
Às mulheres que participaram deste estudo, e em mim depositaram confiança,
contando parte de sua vida pessoal e tão dolorosa. Muito obrigada.
Ao meu esposo Francisco Vilemar Magalhães e Fontenele, por sempre se colocar à
disposição para me ajudar, por sua companhia maravilhosa, por suportar durante este
período a minha ausência e cuidar tão bem da nossa filha. Essa conquista é nossa, você me
faz muito feliz.
À minha querida filha, Maria Laura, que, mesmo com sua pouca idade, me deu muita
força, para que este sonho fosse realizado. Desculpe-me as horas roubadas, do
acompanhamento do seu desenvolvimento. Você é quem mais me fortalece, e tudo o que
faço é pensando em você.
Aos meus alunos, por torcerem, desde o momento da seleção, e compartilharem
cada etapa do Mestrado.
Aos meus pais, Antonio Germano e Maria da Paz, pela maneira com que ensinam
seus filhos a lutar pelos sonhos; por sua proteção e apoio desde a infância até hoje. Vocês
são excelentes.
Aos meus irmãos, Ronaldo, Reijânia, Rosalba, pela amizade de cada dia, pela
família que temos e por compreenderem minha ausência neste período do Mestrado; eu
também senti muitas saudades. Vocês são muito especiais.
Ao Prof. Francisco Sinibu, pelo apoio durante a realização do Mestrado.
Às minhas colegas de trabalho, pela convivência agradável, e oportunidade de
cursarmos o Mestrado.
À Fundação Municipal de Saúde, pela oportunidade de crescimento pessoal e
profissional, no período em que fui enfermeira da Estratégia da Saúde da Família, e pela
rede de amizade que construí nesta instituição;
À minha amiga de antes e durante o Mestrado: Ayla Calixto de Carvalho, por esta
convivência saudável e pela oportunidade de compartilhar também sucesso.
As minhas amigas Eronice Morais, Gorete Carneiro, Laurimary Caminha, pela
amizade de cada dia.
6
A todas as mestrandas, pois, apesar de a oportunidade de diálogo ter sido restrita,
mesmo assim foi muito bom conviver com vocês.
Assim foi o Mestrado, algumas vezes temperado com muitos desafios e dificuldades,
outras fortalecido por uma sucessão de apoio, proteção e afeto, imprescindíveis para que
esta etapa da vida se concluísse. E ainda outras pessoas que, embora não citadas,
fazem parte do meu cotidiano e também são especiais. Muito obrigada.
7
RESUMO
MAGALHÃES, Rosilane de Lima Brito. Resiliência e contexto familiar de
mulheres vítimas de violência sexual. Teresina 2008. Dissertação (Mestrado em
Enfermagem)-Departamento de Enfermagem- Universidade Federal do Piauí, 2008.
O estudo trata da resiliência e contexto familiar de mulheres vítimas de violência
sexual, por ser a violência um tema de preocupação em todo o mundo, pelo número
de suas vítimas e pelas seqüelas que pode deixar na mulher e seus familiares.
Utilizou-se a teoria da resiliência para melhor interpretação dos resultados
articulados com referencial teórico fundamentado no conceito de resiliência
adaptado a partir da física entendido como superação, enfrentamento do individuo
diante de situações adversas. Teve como objetivos: descrever como ocorre o
processo de resiliência em mulheres vítimas de violência sexual na perspectiva de
superação do fenômeno vivido e analisar como o contexto familiar influencia na
superação da violência sexual vivida por mulheres. Foram entrevistadas 11 mulheres
que procuraram o serviço de assistência a mulher vítima de violência sexual
(SAMVVIS) no período de janeiro 2006 a dezembro 2007. Os dados foram
submetidos a análise auxiliados pelo programa ALCESTE 4.5 que possibilitou a
formação de 4 classes. A classe 1 evidencia os primeiros passos em busca da
punição do agressor na delegacia, e busca o serviço de saúde, os resultados
revelam que estes serviços não correspondem as necessidades que gostariam de
ser ouvidas. A classe 3 evidencia como mulheres vitimadas enfrentam o sofrimento
emocional e relacional para buscar sua força interior, e que existe dificuldade de
falar no assunto na família. A classe 4 revela que a resiliência de mulheres vitimadas
acontece desde o primeiro momento pela fé, na força interior. A classe 2 elas trazem
as marcas de um passado recente, buscam resposta para o que aconteceu, entre as
marcas destacam a sujeira da alma. A violência acontece em diferentes níveis
sociais e escolaridade, a família nem sempre apóia a vítima. Buscam justiça através
da procura pela delegacia. A realização dos exames pelo SAMVVIS deixa as
mulheres mais confortáveis ao saberem que não adquiriram outros agravos como
DST. Entretanto passam a conviver com problemas de saúde e buscam se fortalecer
na e em atividades prazerosas. Neste sentido a assistência pelo profissional é
essencial para que possa ser envolvido por uma rede de atenção, (re) descobrir sua
força interior e a teoria da resiliência pode contribuir no processo de superação e
enfrentamento da violência sexual.
PALAVRAS-CHAVE: Mulher. Violência sexual. Teoria. Enfermagem. Assistência.
8
ABSTRACT
MAGALHÃES, Rosilane de Lima Brito. Resilience and family context of women
who are victim of sexual violence. Teresina 2008. Dissertação (Mestrado em
Enfermagem)-Departamento de Enfermagem- Universidade Federal do Piauí, 2008.
This study is on resilience and family context of women who are victim of sexual
violence once violence is a theme that worries everybody worldwide because the
number of its victims and the sequels brought to the woman and her family. One
made use of the resilience theory in order to better interpret the results connected to
the literature based on the concept of resilience adapted from the physics and
understood as overcoming, people’s facing difficult situations. It aimed at describing
the resilience process in women who suffer from sexual violence taking into account
the overcoming of the phenomenon and analyzing how the family context influences
on the problem surmounting. 11 women who looked for the service of the assistance
of women who suffer from sexual violence (SAMVVIS) from January, 2006 to
December, 2007 were interviewed. The data were analyzed through the ALCESTE
4.5 program that made it possible the formation of 4 groups. Group 1 highlights the
first steps in order to punish the assailant at the police station and make use of the
health service. Such service does not correspond to the needs that one would like to
listen to. Group 3 highlights how the victims face the emotional and relational
suffering to use their inner power, but there is difficulty talking on the problem. Group
4 reveals that the victims’ resilience is, at first time, due to their faith in their inner
power. In group 2, they show wounds of a near past, search for answers for the
situation and highlight the soul’s dirty. Violence happens to all walks of life and the
family does not always supports the victim searching for justice in the police station.
The exams made at SAMVVIS make people more comfortable when they know they
have not gotten any diseases such as sexually transmitted ones. However, they
show health problems and they try to overcome them through faith and pleasure
activities. In such a context, the professional’s care is essential so that the victim can
feel attention, (re)discover her inner power. The resilience theory can contribute to
the overcoming process of sexual violence.
Keywords: Women. Sexual violence. Theory. Nursing. Assistance.
9
RESUMEN
MAGALHÃES, Rosilane de Lima Brito. Resiliencia y contexto familiar de mujeres
víctimas de violencia sexual. Teresina 2008. Disertación (Mestrado en
Enfermería). Departamento de Enfermería- Universidad Federal de Piauí, 2008.
El estudio trata de resiliencia y contexto familiar de mujeres víctimas de violencia
sexual, por ser la violencia un tema de preocupación en todo el mundo, por los
números de sus víctimas y por las secuelas que pueden dejar em la mujer y sus
familiares. Se utilizó la teoria de la resiliencia para la mejor interpretación de los
resultados articulados con referencial teórico fundamentado en el concepto de
resiliencia adaptado a partir de la física entendido como superación, enfrentamiento
del individuo delante de situaciones adversas. Tuvo como objetivos: describir como
ocurre el proceso de resiliencia en mujeres víctimas de violencia sexual em la
perspectiva de superación del fenómeno vivido y analizar como el contexto familiar
influencia em la superación de la violencia sexual vivida por mujeres. Fueron
entrevistadas 11 mujeres que buscaron el servicio de asistencia a la mujer víctima
de violencia sexual (SAMVVIS) en el periodo de enero 2006 a diciembre 2007. Los
datos fueron sometidos a análisis auxiliados por el programa ALCESTE 4.5 que
posibilitó la formación de 4 clases. La clase 1 evidencia los primeros pasos en la
búsqueda de la punición del agresor en la comisaría, y busca el servicio de salud, los
resultados revelan que estos servicios no corresponden a las necesidades
deseadas. La clase 3 evidencia como mujeres victimadas enfrentan el sufrimiento
emocional y relacional para buscar su fuerza interior, y que existe dificultad de hablar
del asunto en la familia. La clase 4 revela que la resiliencia de mujeres victimadas
acontece desde el primer momento por la fe, en la fuerza interior. En la clase 2 ellas
traen las marcas de un pasado reciente, buscan respuesta para lo que pasó, entre
las marcas se destaca la suciedad del alma. La violencia acontece en diferentes
niveles sociales y escolaridad, la familia no siempre apoya la víctima. Buscan justicia
buscando la comisaría. La realización de los exámenes por SAMVVIS deja las
mujeres más confortables cuando son informadas de que no adquiriron otros
agravios como DST. Pero pasan a convivir con problemas de salud y buscan
fortalecerse en la fe y en atividades placenteras. En este sentido la asistencia por el
profesional es esencial para que pueda ser envuelta por una red de atención,
redescubrir su fuerza interior y la teoria de la resiliencia puede contribuir en el
proceso de superación y enfrentamiento de la violencia sexual.
PALABRAS CLAVE: Mujer. Violencia sexual. Teoría.Enfermería.Asistencia.
10
SUMÁRIO
1 CONSIDERAÇÕES INICIAIS
1.1 Apresentação do Tema
1.2 Situações Problema e Aproximação com o Objeto de Estudo
2 FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA
2.1 A Teoria da Resiliência e sua aplicação na área da saúde
2.2 Considerações sobre o fenômeno violência contra a mulher
3 METODOLOGIA
3.1 Tipo de pesquisa
3.2 Cenário do Estudo
3.3 Sujeito e Critérios de inclusão
3.4 Instrumento de coleta de dados
3.5 Procedimentos de coleta de dados
3.6 Tratamento e análise dos dados
3.7 Aspectos éticos
4 RESULTADOS E DISCUSSÃO
4.1 Classe 1 – Os primeiros passos: busca da punição para o agressor e
a procura pelo Serviço de Saúde
4.2 Classe 2 - Enfrentando o Sofrimento Emocional e Relacional
Decorrente da Violência
4.3 Classe 4 –Buscando ser resiliente dia após dia
4.4 Casse 2 – As marcas deixadas pela violência sexual
5 CONSIDERAÇÕES FINAIS
REFERÊNCIAS
ANDICES
ANEXOS
11
11
15
21
21
27
40
40
40
40
41
42
42
45
46
48
55
63
68
72
75
81
88
11
1 CONSIDERAÇÕES INICIAIS
1.1 Apresentação do tema
A violência é um tema preocupante, e vem sendo discutido em todo o mundo,
pelo número de suas vítimas e seqüelas que pode deixar nos indivíduos. Vem sendo
estudado com mais freqüencia nas Ciências Sociais, Humanas, e, mais
recentemente, na área da Saúde. Atinge todas as faixas etárias, está presente em
todos os níveis sociais, educacionais e culturais.
Considera-se violência a ruptura de qualquer forma de integridade da pessoa
atingida e se processa por meio da violência física, praticada por atos que afetem o
corpo da tima; da violência psicológica, que ocorre quando a vítima encontra-se
submetida a insultos, pressões e/ou constrangimentos; e através da violência sexual,
quando a vítima é obrigada a praticar atos sexuais ou outras situações relacionados
à sexualidade sem consentimento próprio (SAFFIOTI, 2004).
Em relação aos tipos de violência, a sexual tem a mulher como vítima
preferencial, pois esta se encontra em uma relação inferiorizada de poder, cuja força
física, coerção ou intimidação psicológica obrigam-na à prática do ato sexual contra
a sua vontade (BRASIL, 2001). Nessa relação de subordinação e inferioridade
feminina, a violência sexual praticada contra a mulher se processa dentro do
paradigma de gênero, é uma das maiores violações e de maior agravo em sua
integridade sexual, física e psicológica, afetando seu direito de escolha na relação
com o outro.
Tomando por base a questão de gênero, a violência submetida à mulher parte
de princípios construídos culturalmente no meio social, quando se define o que é do
sexo masculino e do sexo feminino, elaborando valores para homem e mulher,
favorecendo, desse modo, uma posição de poder ao sexo masculino.
Acrescente-se que o termo gênero foi incorporado aos estudos acadêmicos
para a compreensão dos aspectos culturais que determinavam essa relação de
poder existente entre homens e mulheres (SAFFIOTI, 2004).
Dados estatísticos mostram que a violência sexual representa um dos graves
problemas que atinge com maior proporção o sexo feminino, ocorre principalmente
na faixa etária compreendida de 15 a 44 anos; esta é uma prática comum no
12
ambiente familiar e por pessoas conhecidas. A magnitude do problema pode ser
demonstrada através de registros de informações em delegacias especializadas e
casas de abrigo (BRASIL, 2007a).
Pesquisa realizada pela Fundação Perseu Abramo, em 2004, em 187
municípios brasileiros, com perguntas direcionadas, constataram que 43% das
mulheres admitiram ter sofrido alguma forma de violência, contrastando com a
resposta espontânea, quando apenas 19% admitiram ter sido submetidas a alguma
forma de violência (BRASIL, 2005a).
Estudos sobre o perfil da violência sofrida pelas mulheres, na faixa etária de
15 a 49 anos, realizados pela Organização Mundial de Saúde em 2002 em oito
países, revelam que, no Brasil, nos municípios de São Paulo e na zona da Mata em
Pernambuco, 29% destas mulheres já sofreram violência física e/ou sexual praticada
pelo companheiro. Em Pernambuco, 34% relataram violência também praticada pelo
ex-parceiro. Os estudos revelam ainda a freqüência de dores ou desconfortos neste
grupo de mulheres, tentativa de suicídio e maior uso de álcool (BRASIL, 2004). O
Ministério da Saúde informa que a cada 18 segundos uma mulher é espancada no
mundo (BRASIL, 2006a).
A violência sexual praticada contra a mulher, além de provocar sérios
problemas à saúde, representa elevados custos humanos e econômicos. É o que
revela um estudo realizado em Naypan (Índia), no qual 13% das mulheres
pesquisadas deixam o trabalho remunerado por causa do abuso sexual, e faltam,
em média, sete dias úteis ao serviço durante o ano. Mostra ainda que 11% das
mulheres agredidas não conseguem realizar as tarefas domésticas pelo desconforto
físico e mental deixado pela violência (BRASIL, 2004).
Em Teresina, os dados também acompanham o panorama nacional. Este fato
é verificado no Serviço de Assistência à Mulher Vítima de Violência Sexual
(SAMVVIS), que funciona desde 2004, em uma maternidade pública. Neste serviço,
foram registrados 223 casos em 2006, sendo que 34,5% das mulheres vitimadas
conheciam os agressores; 32,7% destes abusos aconteceram na residência da
vítima; 75% dos casos notificados ocorreram na adolescência (SESAPI, 2006). No
período de 2004 a 2008, foram registrados 871 casos, sendo que 54 (6,19%) casos
ocorreram em menores de 4 anos; 118 (13,54%) em crianças de 5 a 9 anos; 503
(57,74%) na adolescência e 196 (22,5%) em mulheres acima de 20anos (SESAPI,
2008). O serviço tem contribuído para a discussão da temática com profissionais de
13
Saúde, e incentivado a realização de um seguimento ambulatorial e apoio às
mulheres vitimadas.
Embora a notificação da ocorrência da violência sexual à mulher seja uma
exigência do Ministério da Saúde, de acordo com a Lei n. 10.778/2003 (BRASIL,
2005a), para que possa dar maior visibilidade ao problema, a subnotificação ainda é
preocupante, não atendendo a contento às demandas. Muitos casos atendidos na
atenção básica não são notificados pela Estratégia Saúde da Família (ESF), nem
nos serviços de urgência, conforme pesquisa realizada em Teresina, em 9 unidades
de urgência, em que foi possível verificar que os serviços não notificam os casos de
violência praticados à mulher, bem como não se encontram preparados para este
tipo de atendimento (MONTEIRO, et al., 2006).
Muitas mulheres respondem à violência com situações de isolamento,
diminuição da auto-estima, e, muitas vezes, desistindo de seus objetivos. Neste
sentido, sem a notificação e o acompanhamento sistemático, torna-se difícil levantar
estatísticas reais e direcionar o cuidar a estas mulheres, para que possam
transformar esse sofrimento calado, que afeta de forma marcante sua saúde física e
mental, e contribui para diminuir sua capacidade de enfrentar esse momento
doloroso.
O abuso sexual deixa, além das marcas no corpo, feridas na alma, que
sangram no início sem cessar, e, posteriormente, sempre que uma situação ou um
fato lembre o abuso sofrido. Ainda que as marcas do corpo possam ser tratadas com
êxito, as feridas da alma também podem ser minimizadas, desde que tenham maior
cuidado, atenção e acompanhamento (SAFFIOTI, 2004). Para Cyrunilk (2004), a
sensação de ter sido massacrada tornar-se-á mais leve quando ocorrer uma
mudança no discurso cultural, o qual ainda considera a mulher como cúmplice do
agressor.
Para que se obtenha êxito nesse percurso do cuidar, necessário se faz que
tanto a mulher vitimada quanto o Serviço de Saúde compartilhem aspectos de
enfrentamento e superação do trauma, através de uma rede social integrada, que
vai desde a família a outros setores do conhecimento da mulher. Para Cyrulnik
(2006), após o trauma psicológico ou físico, a mulher passa por momentos de
perdas. Este autor associa o fato a uma perda de tecido, com necrose e escara.
Afirma ainda ser preciso que ocorra uma mudança, para não carregar a morte dentro
de si.
14
Silva (2005) diz que a capacidade de enfrentamento às adversidades é
resiliência, no entanto este termo deverá ser empregado para pessoas que têm
resposta positiva em situações de risco significativas e é diferente de
invulnerabilidade. Yunes (2003) informa que a resiliência foi originada na Física e
Engenharia, e está relacionada com a resistência de um corpo ao choque.
A resiliência vem sendo utilizada nas sessões de Terapia Comunitária, uma
atividade voltada à atenção primária na área da Saúde Mental, que faz uso da
competência das pessoas e promove a construção de redes sociais. A resiliência é
um processo e um caminho a seguir, em que o indivíduo pode vencer graças aos
seus esforços resilientes, valorizados pelos nculos de apoio, e permite alimentar
sua autoconfiança e auto-estima. Diz ainda que a pessoa que partilha seu
sofrimento transforma-o e possibilita uma (re)significação dos fatos traumáticos
(BARRETO, 2005).
Destaque-se que o conceito de resiliencia tem evoluído nos últimos 30 anos.
Inicialmente foi referido como uma invulnerabilidade, considerando, assim, que
algumas pessoas eram inabaláveis. Atualmente, vem sendo estudado como um
processo de crescimento que depende de fatores sociais e intrapsíquicos, e está
ancorado nos pólos da adversidade, representado por situações desfavoráveis e
pela proteção fundamentada no apoio de familiares e sociais em todo o ciclo vital
(ASSIS, et al., 2006).
No presente estudo, violência sexual está também ancorada à resiliência,
que, segundo Pesce (2004), tem despertado o interesse de pesquisadores, quando
em seus estudos o foco é a forma como o indivíduo se desenvolve diante da
exposição a situações de risco pessoal e social. Entende-se que a violência sexual à
mulher é uma situação de real agravo à sua vida pessoal e social.
Para Assis, et al. (2006, p. 10), a Teoria da Resiliência é considerada como
“superação, como resolução do problema ou encaminhamento positivo”. Por sua
vez, Cyrulnik (2004, p. 207) afirma “tratar-se de um processo, de um conjunto de
fenômenos harmonizados, em que o sujeito se esgueira para dentro de um contexto
afetivo, social e cultural”. O autor sintetiza que é “a arte de navegar nas torrentes”.
Neste sentido, a Teoria da Resiliência está incorporada ao estudo, tomando por
base o conceito adaptado a partir da física, para sua aplicabilidade em indivíduos
diante de situações adversas.
15
Cyrulnik (2004) ressalta que, diante de situações adversas, é preciso
reaprender a viver, buscando a cura do ferimento em que o corpo e a memória
possam fazer um trabalho lento de cicatrização. Acrescenta que o estudo sobre a
resiliência deve ser abordado nos planos da aquisição de recursos internos,
impregnados no temperamento, desde os primeiros anos de vida; a estrutura da
agressão explica os estágios do primeiro golpe, o ferimento ou a falha; e a
possibilidade de encontrar lugares de afeto, de afetividade e de palavras que a
sociedade dispõe.
No âmbito deste trabalho, compreende-se a família conforme conceito do
Ministério da Saúde, que a define como “grupo de pessoas com vínculos afetivos, de
conseguinidade ou de convivência”. Nela o repassados valores, costumes que
contribuem para a formação da personalidade (BRASIL, 2001, p.13). Entretanto,
percebe-se que dificuldade em algumas famílias para repassar estes valores,
preferindo deixar esta responsabilidade para terceiros, como a escola e os
profissionais de Saúde, por exemplo.
Para Jussani, Serafim e Marcon (2007), desde o nascimento, o indivíduo é
integrado a uma rede social que o molda até a morte, que se caracteriza pelas
relações significativas as quais ele recorre, em primeiro lugar, diante de situações
adversas. As autoras acrescentam que a família é um grupo social semi-aberto, que
possui uma rede de suporte diante de situações adversas. Entretanto, a família
muda de acordo com o contexto cultural; e, dependendo da situação que esteja
vivenciando, pode não ser considerado como suporte adequado.
1.2 Situação-problema e aproximação com o objeto de estudo
Durante a minha trajetória profissional, por um período de quatro anos, como
enfermeira da Estratégia Saúde da Família (ESF), na cidade de Teresina-PI, foi
possível realizar atividades, buscando aproximar o cliente do profissional de Saúde.
Dessas atividades, considero a consulta de Enfermagem um momento especial,
quando é possível interagir mais de perto com o cliente. No entanto, é importante
ressaltar que o Sistema de Informação e Atenção Básica (SIAB) não contempla
informações referentes a qualquer tipo de violência, o que favorece a existência de
trabalho pouco sistemático e isolado acerca desta temática, quando comparado com
16
outros programas, como, por exemplo, hipertensão e diabetes, posto que alguns
casos são conseqüências da violência.
Nessas consultas, dentre outras questões levantadas, chamaram a atenção
os relatos de mulheres sobre atos violentos de natureza diversa, geralmente
imputada ao cônjuge. Considera-se que esses relatos se devem, em parte, à
possibilidade de comunicação que a ESF traz para melhor interação e de assistência
às pessoas e comunidade. Tal fato, aliado às informações obtidas em fontes
convencionais como a mídia, carregadas de questões alusivas ao tema, fortaleceu o
interesse em conhecer de forma sistemática essa problemática.
Nesse mesmo período, ainda como enfermeira da ESF, na realização de
outras atividades, como oficinas de grupos, que constituem estratégia de educação
em Saúde, foi possível observar que algumas mulheres, visivelmente, tinham pouco
esclarecimento e informações organizadas acerca das diversas formas de violência,
incluindo os seus direitos garantidos pela Lei n. 11.340/06, ou seja, Lei Maria da
Penha. Essa Lei, nos termos do § do artigo 226 da Constituição Federal enfatiza
medidas de proteção à mulher em situação de violência doméstica e familiar. Nela
pode-se citar o artigo 2º:
Toda mulher, independente de classe, raça, etnia, orientação sexual, renda,
cultura, nível educacional, idade e religião, goza dos direitos fundamentais
inerente à pessoa humana, sendo-lhe asseguradas as oportunidades e
facilidades para viver sem violência, preservar sua saúde física e mental e
seu aperfeiçoamento moral, intelectual e social (BRASIL, 2007d. p.1).
Durante as oficinas, a imagem da lágrima brotando nos olhos daquelas
mulheres, durante seus relatos, era um sinal contundente das dificuldades que
enfrentavam em relação à violência sofrida. E, isso se torna mais rio, quando é
evidenciado que muitas não têm a oportunidade de discutir a violência entre si, em
grupos ou em espaços de interlocução voltados para esse fim, como fóruns, sessões
terapêuticas e outros.
Outra atividade importante realizada na ESF é a visita domiciliar, pois permite
assistir a família no seu verdadeiro contexto. Elas devem ser agendadas pela
equipe. Em outras palavras, o agente comunitário de Saúde (ACS) identifica, na
comunidade, os casos necessários e faz um elo entre família e profissional de
Saúde. Por diversas vezes, nessas visitas, foi possível encontrar situações de
violência como maus tratos à criança e ao idoso, alcoolismo, brigas conjugais e
17
abuso sexual em adolescente, realizado pelo pai, fato que levou a jovem a isolar-se
completamente em um quarto e ainda permanecer no convívio com o agressor.
Entretanto, esses problemas graves, presentes na comunidade, não constituíam o
foco principal da visita domiciliar; por muitas vezes a equipe não soube como intervir,
pelo medo, pela falta de sistematização da assistência. Provavelmente se houvesse
uma maneira de abordagem, como existe para outros programas como a
hipertensão e a diabetes, teria havido menos indiferença.
O Ministério da Saúde (BRASIL, 2007b) recomenda uma assistência em rede
para famílias vítimas de violência; diz ainda que este problema não pode ser visto de
maneira simplista, e que não basta culpar o agressor, ou as situações de pobreza. O
profissional deve acolher a família e buscar estratégias para interromper o ciclo.
Como docente, nas atividades práticas, tem sido possível também observar
situações de violência praticada contra a mulher, quando esta procura o serviço de
urgência, em sua maioria, para tratar de uma ferida exposta, uma crise nervosa, ou
uma intoxicação exógena. Nesse contexto, a rotina do serviço, em grande parte,
impede que os profissionais se envolvam, questionem sobre atos violentos ou os
registrem. Pode-se atribuir tal atitude à complexidade desta situação ou a pouca
experiência destes profissionais, pois se detêm na realização do procedimento,
deixando de tornar este momento uma oportunidade para introduzir a assistência a
esta questão da violência, quase rotineira entre as mulheres, e, assim, direcionar um
novo olhar para a causa daquele motivo que as levaram ao serviço de urgência.
Pôde-se observar que mulheres violentadas, ao procurar o Serviço de Saúde,
transmitiam medo, insegurança, choro fácil, dificuldade para externar seu
sentimento, além de relatarem abandono de suas atividades diárias. Com algumas
delas foi possível perceber o quão vulneráveis se encontravam em relação a
situações de risco, tais como drogas e prostituição, tornando-se um desafio para a
superação da violência, pois é uma situação complexa que necessita de
acompanhamento e acolhimento por profissionais, em especial, das enfermeiras e
familiares. Questões como estas têm aumentado minha preocupação em ajudá-las,
e o interesse de compreender como a Enfermagem poderia contribuir, de maneira
mais prática, para que possam dividir e superar esse evento traumático em suas
vidas, de forma a não seguir rumos tão tortuosos.
Em alguns casos de violência sexual, a procura ao Serviço de Saúde ocorre
dias após o evento; talvez pela angústia, dificuldade de acesso ao serviço ou falta de
18
apoio familiar, pois algumas mulheres chegam sozinhas. Para Bedone e Faúndes
(2007), faz-se necessária campanha para informar as medidas que devem ser
tomadas e também sobre a necessidade do atendimento imediato.
Nesse sentido, entende-se que o obstáculo para o combate à violência sexual
contra a mulher envolve aspectos profissionais, como a falta de competência técnica
para um diagnóstico precoce, bem como restrições das rotinas da instituição e a
aplicabilidade das políticas públicas já instituídas pelos governantes.
Em geral, médicos e enfermeiras são os primeiros a ter contato com essas
mulheres; não obstante, reconhecem que ainda falta muito para que possam
dimensionar e dar conta da amplitude e complexidade dos casos relacionados à
violência sexual. Certamente, isso faz com que estes profissionais não demonstrem
um envolvimento efetivo no sentido de enfrentá-la, fato que termina reduzindo
radicalmente as possibilidades e continuidades relativas às práticas assistenciais.
Preocupado com o atendimento às mulheres violentadas, o Ministério da
Saúde (BRASIL, 2007a) tem dedicado atenção, nos últimos anos, ao combate à
violência sexual, através de metas e objetivos a serem alcançados, como a proposta
de ampliação de rede de atendimento, capacitação de profissionais, melhoria do
acesso, objetivando sempre assegurar uma assistência integral à mulher violentada.
No entanto, a violência sexual continua sendo um problema real que afeta
diariamente às mulheres, deixando danos à sua saúde física e mental, trazendo
conseqüências a seus familiares mais próximos.
Em relação à notificação e ao registro dos casos, estes ainda se fazem em
uma perspectiva bastante objetiva e numérica da situação; no entanto, o
acompanhamento das questões mais subjetivas não acontece na mesma proporção.
Além disso, dificuldade de envolvimento e de disponibilidade por parte dos
profissionais em assistir a mulher vitimada pela violência sexual em sua totalidade, o
que desfavorece o acompanhamento preventivo no desencadeamento de outros
problemas. Para Gomes (2003), o campo da Saúde deve avançar nesta questão,
não se restringindo à ótica biomédica e epidemiologista, para que possa alcançar
maior compreensão do problema.
Nesta aproximação com o tema em questão, vê-se que a mulher tima de
violência sexual necessita de acompanhamento sistemático e acolhedor, que lhe
oportunize expressar seus sentimentos, fortalecer sua auto-estima, buscar
(re)descobrir sua força interior, para que seja capaz de mostrar suas capacidades
19
resilientes. Portanto, essa assistência transcende a notificação de casos, tendo em
vista a complexidade da questão.
Nesse sentido, a mulher que sofreu violência sexual necessita de uma rede
de serviço integrada, de acordo com a recomendação do Ministério da Saúde, na
Norma Técnica n. 06/2005 (BRASIL, 2005b). No entanto, apesar de o manual
recomendar acolhimento, pode-se observar que o serviço ofertado à mulher vítima
de violência sexual ainda não corresponde ao preconizado pelo Ministério da Saúde.
Okada (2007) relata que a mulher vítima de violência necessita muito mais do que
normas e protocolos, e chama a atenção para um acolhimento humanizado. A
superação do evento violência sexual é outra situação desafiadora, e precisa ser
enfrentada pela mulher, para que possa continuar com suas atividades diárias,
manter as relações com a sociedade e a família. Mas, para tanto, é preciso a
realização de intervenções sistemáticas, que devem acontecer, preferencialmente,
durante acompanhamento através de serviços intersetoriais.
Essa situação-problema apresentada, lamentavelmente, revela que
enfermeiras ainda precisam compreender mais, para atuar de maneira efetiva,
quando a situação envolve a mulher e a violência sexual. Assim, ao aproximar-me
do tema, trago a pretensão de contribuir para a obtenção de novas e diferentes
abordagens no campo da violência sexual, que favoreçam a reflexão, indagação e
discussões sobre possíveis caminhos de intervenção no campo da Saúde, tendo
como base a resiliência.
Diante da problemática apresentada, este estudo espera contribuir no sentido
de melhor compreender como se o processo de superação da violência sexual
em mulheres, e quais mecanismos os profissionais de Saúde podem estar
buscando, a partir das próprias mulheres, para que sejam fortalecedoras do
enfrentamento e superação do dano.
Pretende contribuir ainda para criar possibilidades que permitam superação
da violência sexual, melhorando a comunicação entre os setores de Saúde, Judicial
e Educacional, como também envolvendo profissionais de nível médio, da
graduação e pós-graduação. Estas possibilidades podem ser criadas através de
maior inserção do tema nas disciplinas e grupos de discussões, como também
projetos de extensão, otimizando uma prática multiprofissional e intersetorial, em que
mulheres vítimas de violência sexual atendidas possam ser vistas nos aspectos mais
subjetivos.
20
A partir desta compreensão, e na abordagem qualitativa, tem-se como
pressuposto que a participação da família e de uma rede integrada pode contribuir
para que a mulher possa buscar a superação do fato de ter sofrido violência sexual.
Tomando como base tal pressuposto, este estudo traz como objeto a ser
pesquisado: Resiliência e contexto familiar de mulheres vítimas de violência sexual.
Em sua ação prática, o estudo objetiva: a) descrever como ocorre o processo
de resiliência em mulheres vítimas de violência sexual, na perspectiva de superação
do fenômeno vivido; b) analisar como o contexto familiar influencia na superação da
violência sexual vivenciada por mulheres.
21
2 FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA
2.1 A Teoria da Resiliência e sua aplicação na área da Saúde
A Teoria da Resiliência teve sua origem na Física e na Engenharia, em 1807,
pelo cientista inglês Thomas Young, quando, ao buscar a relação que uma força
exercia sobre um corpo diante de um impacto, descobriu uma propriedade capaz de
devolver a energia que fora armazenada no corpo deformado, ao findar a tensão que
causava a deformação, e assim possibilitar ao corpo o retorno ao seu estado inicial.
Desta forma, nasce a noção de módulo de elasticidade (YUNES, 2003).
A resiliência constitui, portanto, conceito extraído da Física e já bastante
usado pela Engenharia, como a capacidade de um sistema superar o distúrbio
imposto por um fenômeno externo e manter-se inalterado (SÓRIA et al., 2006). Ao
se tratar de resiliência de um material, fala-se da energia de deformação máxima
que ele é capaz de armazenar sem sofrer deformações permanentes; e a avaliação
dessa energia pode ser feita através de medidas sucessivas em laboratórios ou por
meio de fórmulas matemáticas que relacionam tensão e deformação (YUNES,
2003). Essa relação de tensão/pressão com deformação do material foi adaptada
pela Psicologia, que faz correlação à situação adversa de
risco/estresse/experiências, com resposta positiva à adaptação/ajustamento do
indivíduo (YUNES; SZYMANSKI, 2001).
Com base nessa teoria, o conceito da resiliência foi trazido para as Ciências
Sociais e Humanas, e vem sendo mais utilizado em estudos com crianças e
adolescentes, e entendido dentro de um conjunto amplo de fatores intrínsecos e
extrínsecos do indivíduo. Entretanto, o conceito é compreendido como a capacidade
de as pessoas resistirem às adversidades, podendo ser utilizado para trabalhar com
qualquer grupo social e instituições que estejam sujeitos a situações adversas
(ASSIS et al., 2005). Durante determinado período, a adversidade esteve ligada à
pobreza; atualmente vem sendo mais estudada, sobre abusos e saúde mental,
experiências de sofrimento diante de acontecimentos naturais e sociais
(RAVAZZOLA, 2005).
A resiliência vem sendo utilizada com mais freqüência nos circuitos
internacionais como na Europa, Estados Unidos e Canadá, não por profissionais
22
das Ciências Sociais e Humanas, mas também em referências feitas pela mídia a
pessoas, ações e coisas em geral. O mesmo não acontece no Brasil, pois se
restringe a um grupo muito limitado de estudiosos, e grande parte dos profissionais
desconhece a palavra (YUNES; SZYMANSKI, 2001; YUNES, 2003).
Vale destacar que o conceito no dicionário da língua portuguesa se restringe
à questão da pressão e deformação de um corpo; entretanto, o dicionário da língua
inglesa faz referência, além de tensão, também à superação (FERREIRA, 1999;
MARQUES; DRAPER, 1996).
A Teoria da Resiliência é recente, e pouco explorada no Brasil. Segundo
Assis et al. (2006a), em estudo realizado com 35 profissionais de diversas áreas,
mostrou o que pensam sobre a capacidade de superação dos problemas. Do total
de participantes, apenas um profissional conhecia a temática.
Tavares (2001), em seus estudos, destaca o conceito em três diferentes
sentidos: na Física, como sendo a qualidade de resistência de um material ao
choque. Acrescenta que, na Física, busca-se maior flexibilidade no avanço da
tecnologia, com o objetivo de produzir ligas cada vez mais flexíveis, para que sejam
utilizadas em maior número de artefatos. Na Medicina, referindo-se à capacidade de
um indivíduo resistir a uma doença ou infecção; e, na Psicologia e Sociologia, como
sendo a capacidade de as pessoas resistirem a situações adversas sem perder o
equilíbrio. Para ele, o conceito de resiliência evolui do concreto ao abstrato.
Inicialmente, na Psicologia, a resiliência foi utilizada com o termo
invencibilidade ou invulnerabilidade, em que os estudiosos descreviam a relação das
crianças com algum problema, e a capacidade de ter boa saúde emocional; eles
acreditavam que algumas pessoas eram imunes a determinadas situações adversas.
As pesquisas sobre esta temática têm sido realizadas mais constantemente
por estrangeiros, e têm como foco discutir padrões de adaptação diante de situações
adversas em crianças e adolescentes; algumas são iniciadas desde o nascimento e
podem durar até quarenta anos.
Atualmente, o conceito vem ganhando mais orientação, sendo mais utilizado
em pesquisas quantitativas, realizadas em escolas, determinando quem são os mais
ou menos resilientes (YUNES; SZYMANSKI, 2001).
Entre os precursores para a estruturação do conceito de resiliência destaca-
se Werner, que, ao realizar um estudo de epistemologia social na Ilha de Kauai
(Havaí), acompanhou, durante trinta e dois anos, a vida de quase quinhentas
23
pessoas que viviam em situações de pobreza, e cerca de um terço havia sofrido
situações de risco, como dissolução do vínculo familiar, alcoolismo e abuso. O autor
observou que o fato de receber afeto de uma pessoa significativa contribuía na
capacidade de superação das dificuldades. Neste sentido, afirma que o
comportamento das pessoas o está associado a características genéticas ou
temperamento especial (MELILLO, 2005).
Outro estudo internacional realizado por Grotberg (2005), em 1999, em 27
lugares de 22 países, que se constituiu em determinar como crianças em situações
de pobreza haviam se tornado resilientes, revela que não relação entre nível
socioeconômico para a superação de situações adversas e marcou a mudança na
medição desta teoria, e possibilitou o desenvolvimento de um guia de resiliência em
crianças, organizados em quatro categorias: eu tenho (apoio), eu sou e eu estou
(desenvolvimento psíquico), eu posso (aquisição de habilidades interpessoais e
resolução de conflitos)” (GROTBERG, 2005, p. 16-17).
Para Junqueira e Deslandes (2003), o conceito es em processo de
construção e debate, e diferença na aplicabilidade, quando direcionado ao ser
humano, pois não significa um retorno ao estado anterior, como o que acontece com
sua aplicabilidade na Física, mas sim a construção de novos caminhos diante de
situações traumáticas. No entanto, para que isso ocorra, busca-se também a
compreensão das respostas aos impactos que aconteceram de maneira diferente
em cada indivíduo. Pesce et al. (2005) informam que a necessidade de
instrumentos capazes de tal avaliação, e relatam que a primeira escala para medir
níveis de adaptação psicossocial foi criada por Wagnild e Youg; possui 25 itens com
resposta tipo discordo totalmente e concordo totalmente; entretanto, no Brasil, ainda
não esse tipo de estudo, mas diante do crescimento e do interesse pelo conceito
é importante desenvolver instrumentos de avaliação.
Nas consultas ao banco de dados de LILACS e SCIELO, percebe-se que a
Teoria da Resiliência vem ganhando espaço em diversas áreas, mas é mais utilizado
na Psicologia. Atualmente, profissionais da área de saúde têm aplicado a resiliência
como a capacidade que o indivíduo tem de responder positivamente, diante de uma
doença através de medicamentos ou ajuda própria. Também tem sido usada na
educação para a avaliação de desempenho de alunos; na Engenharia para
avaliação de solo; e, mais recentemente, em estudos sobre relações interpessoais
de trabalho.
24
Grotberg (2005) afirma que a resiliência tem sido considerada como um
processo e não uma simples resposta diante de situações adversas, mas sim uma
seqüência de acontecimentos em busca da resiliência como: promoção de fatores
resilientes; compromisso com o comportamento resiliente e avaliação dos resultados
de resiliência. O autor explica ainda que o primeiro passo neste processo é
promover os fatores de resiliência; depois, uma interação entre este fatores, para
que possa enfrentar o problema, através da sua identificação, e selecionar respostas
adequadas; e, depois ajudar os indivíduos a se beneficiar diante das experiências.
Na área da Psicologia, a resiliência é entendida como um processo contínuo,
que se inicia antes mesmo da concepção, e se manifesta pela história familiar de
cada ser humano, representada, desde cedo, pelo desejo e fantasia da gravidez.
Assim, a infância e a adolescência são marcantes na construção e estruturação de
uma base sólida que depende do cuidado recebido desde os primeiros dias de vida.
Dessa forma, o desenvolvimento da resiliência está presente em todo o curso da
vida, e depende da influência do meio, interações e estimulação disponível, e
mecanismos de proteção, compostos por recursos familiares, sociais disponíveis,
bem como forças e características internas para lidar com situações de adversidades
(ASSIS, 2006a). A autora acrescenta que a resiliência tem um caráter construtivo,
em que modifica a forma de olhar e valoriza os pontos fortes.
Grotberg (2005) explica que, para que ocorra a promoção da resiliência,
necessário se faz ter um guia de procedimento em cada etapa do desenvolvimento
de acordo com a idade e gênero; como, por exemplo, quanto menor a criança, maior
será a necessidade de apoio externo; e, na resolução dos conflitos, as meninas
apresentam habilidades interpessoais e força interna, enquanto os meninos são
mais pragmáticos.
Laranjeira (2007) destaca a complexidade dos ângulos de abordagem da
resiliência, em que cada vez mais os estudos se debruçam sobre critérios
particulares, ligados ao tema ou que se referem em função de diferentes contextos
internos e externos aos sujeitos. para Poletti e Dobbs (2007), o profissional de
Saúde deve se aproximar dessa teoria em razão do número crescente de pessoas
que vivem em situações pós-traumáticas, causadas por acidentes, estupro, torturas
e outros. Nesse mesmo sentido, Barlach (2005) comenta que a sociedade da pós-
modernidade introduziu dimensões e turbulências em todos os domínios da vida
humana, que geram novos desafios para a adaptação. Cita como exemplos as
25
pressões sobre a identidade pessoal, gerada pelo desemprego, ou por doenças
como câncer, AIDS ou seqüestros urbanos. Acrescenta ainda que o trabalho
humano, a cada dia, passa por mudanças que representam riscos à saúde mental.
Assim, a aplicação da Teoria da Resiliência viria apontar a capacidade de
enfrentar e superar as adversidades imposta pelos fatos e acontecimentos do
cotidiano. Tavares (2001) também relata que as pessoas precisam aprender a lidar e
a conviver com situações adversas, e que não há necessidade de tornarem-se
insensíveis ou conformadas; entretanto, devem desenvolver defesas psicológicas no
sentido de tornarem-se mais fortes, como, por exemplo, pelo fortalecimento de laços,
relações intra e interpessoais autênticas para poder intervir. Ou seja, ser resiliente
diante desta sociedade emergente. Para o autor, o sistema educacional significa
uma oportunidade de desenvolvimento do processo de resiliência.
O mesmo autor afirma que o desenvolvimento da resiliência se processa
através da “mobilização e ativação de suas capacidades de ser, de estar, de ter, de
poder e de querer, ou seja, pela capacidade de auto-regulação e auto-estima, como
rasgo essencial da personalidade”. Acrescenta que até mesmo pessoas carentes e
especiais têm enormes recursos de querer e poder (TAVARES, 2001, p.52). De
acordo com este pensamento, Grotberg (2005) explica que as condutas de
resiliência exigem ações através da interação dinâmica de fatores, pois as situações
adversas não são estáticas, exigindo mudanças nas condutas resilientes.
Para Cyrulnik (2004), isso é possível, pois, diante de situações adversas, o
resiliente utiliza recursos internos, representados pelo afeto e pela família,
impregnados em sua memória, devendo lutar para não ser arrastado pelos traumas,
e ir à busca de utilizar os recursos externos, através de uma boa relação afetiva,
social e cultural, que lhe permita a superação.
Entre outros estudiosos da Teoria, como Murphy (2003, p.69), por exemplo,
indica a como um dos recursos favorecedores de enfrentamento de adversidades,
e que, diante dos problemas, a pessoa deve mudar a forma de pensar para modificar
a vida. Acrescenta ainda: “a pessoa que se encontra em um vale de desespero, de
desânimo e de melancolia deve voltar-se para a figura de Deus em seu interior e
compreender que as coisas e condições externas não são em si, causadoras”.
Junqueira e Deslandes (2003) explicam que a resiliência o é um processo
estanque nem característica especifica de uma pessoa, e que a capacidade
resiliente depende do indivíduo e do contexto em que está inserido, pois uma
26
pessoa pode ser resiliente somente em determinadas situações. Para Laranjeira
(2007), o conceito implica adaptação diante do perigo e capacidade de ser vencedor
em situações traumáticas.
Mesmo diante da etimologia da palavra resílio de re + salio “ser elástico”, e
estar mais ligado com a capacidade de elasticidade e flexibilidade dos materiais e
adaptado pela Psicologia, Tavares (2001) chama a atenção para a importância de a
Teoria também ser aplicada nas organizações. Para ele, as organizações serão mais
resilientes quando desenvolverem características semelhantes às pessoas, sendo
mais flexíveis, autênticas, colaboradoras, criativas, livres, emocionalmente
equilibradas. Acrescenta que uma organização resiliente compartilha os mesmos
objetivos, através de uma relação de confiança, de empatia e solidariedade entre as
pessoas.
Percebe-se que a Teoria vem crescendo nas áreas da Saúde e Ciências
Sociais, e ainda com diferentes percepções para alguns autores. Observa-se que é
habitual, nas citações de todos os estudiosos, que a resiliência se manifesta diante
de um trauma ou situação de risco. Os riscos podem ser visualizados nas
características individuais, como, por exemplo, gênero, problemas genéticos,
carências de habilidades sociais; e também são observados nos fatores ambientais,
caracterizados pela ausência de apoio social e afetivo, e ainda o baixo nível
socioeconômico (PALUDO; KOLLER, 2005).
Para Slap (2001), a resiliência não se constitui em oposto de risco, embora
seja crescente a lista de situações adversas em que os jovens estão expostos.
Grotberg (2005) explica que os fatores de resiliência que enfrentam o risco são
chamados de fatores de proteção. Acrescenta que, para ocorrer o desenvolvimento
da resiliência, não é necessário neutralizar o risco, como, por exemplo, impedir que
um estranho entre na escola.
Yunes e Szymanski (2001) afirmam que os fatores de riscos devem ser
considerados de acordo com o desenvolvimento, pois, dependendo da situação,
passa a ser visto como proteção; citam como exemplo uma atividade própria da
idade pré-escolar, que pode ser realizada com mais facilidade na idade escolar.
Neste sentido, o termo risco tem uma conotação negativa e possibilidades de
variações; a resiliência tem um resultado positivo. Eles chamam a atenção para a
importância da compreensão do conceito para o rotular sucesso ou fracasso e
contribuir para o desequilíbrio social.
27
Assis, Pesce e Avanci (2006) trazem contribuições relevantes sobre
resiliência, em avaliação realizada com adolescentes. Observaram que 80% dos
entrevistados enfrentaram situações adversas, relacionadas à escola e aos
colegas; e que 63% tiveram dificuldade de enfrentamento do problema com
namorados e em relação ao futuro pessoal. Aqueles mais resilientes buscaram apoio
externo, conversando sobre o assunto com pessoas em situações similares. No
entanto, há uma dificuldade de diálogo com a família, talvez pelo autoritarismo,
tradicionalismo, ou pela dificuldade de falar sobre o tema.
Assis et al. (2005), em pesquisas realizadas para abordar a violência sexual
com adolescentes, verificaram que 7,8% passaram por experiências sexuais
traumáticas; 3.3% testemunharam maus tratos sexuais sofridos por algum membro
da família; 5,3% vivenciaram experiências traumáticas quando eram crianças; 4,3%
tiveram medo de sofrer violência quando os pais estavam sob efeito do álcool ou
droga; e chama a atenção para o dado de que 2,6% dos adolescentes mais
resilientes afirmam que a relação com os pais já envolveu uma experiência sexual; e
nos menos resilientes o potencial foi de 7,5%.
Por sua vez, Grotberg (2005) afirma que prevenção e promoção são
diferentes conceitos em relação à Teoria da Resiliência, e já foram motivos de
discordância por pesquisadores. Ele coloca que a prevenção esmais relacionada
com o modelo epidemiológico da Saúde pública, e a promoção focaliza a construção
de fatores de resiliência do indivíduo em risco que busca obtenção de resultados
positivos
Deste modo, diante dos riscos do viver humano, as mulheres ficam mais
vulneráveis às situações adversas, como a violência sexual. Sob este aspecto, a
aplicação da Teoria da Resiliência e os conceitos adaptados para a área da Saúde
possibilitam levantar a capacidade de enfrentamento dessas mulheres e dos
recursos disponíveis, desde família até instituições de Saúde, no sentido de
desenvolver promoção da saúde, proteção e cuidado.
2.2 Considerações sobre o fenômeno violência contra a mulher
As políticas de assistência à mulher têm uma evolução histórica e vêm se
organizando de forma lenta e gradativa. Mesmo assim, se observa que a maioria dos
serviços de Saúde encontra-se organizado de forma inadequada, para atender uma
28
elevada clientela tima de violência, provavelmente pela falta de sensibilização dos
profissionais apesar de as repercussões na mídia ou por não se terem dado
conta da dimensão do problema.
No Brasil, entre o século XV e meados do século XIX, mulheres indígenas,
negras e escravas foram vítimas da exploração sexual pelos europeus e
portugueses (FREYRE, 2006). O autor afirma que o europeu, ao chegar ao Brasil e
deparar-se com índias nuas, sentiu despertar o desejo sexual; de modo que o
contato foi voltado para uma tendência sexual, no qual as índias mantinham
relações sexuais em troca de objetos de pequeno valor, tais como: colares, pentes,
espelhos. Nesse mesmo período, com o tráfico de negros, transformados em
escravos, elas eram público-alvo dos portugueses para a prática do ato sexual. Eles
buscavam o aumento do número de escravos em defesa do poder econômico, o que
culminou com a proliferação de doenças sexualmente transmissíveis.
Vasquez e Milhomens (2005) chamam a atenção para um acontecimento
ocorrido em 8 de março de 1848, quando 130 mulheres em Nova Iorque foram
queimadas no interior de uma fábrica, com o objetivo de conter o movimento grevista
realizado por elas, que lutavam por igualdade salarial em relação ao sexo masculino.
Somente após meio século, quando da Conferência Internacional da Dinamarca,
o destaque a este fato; por isso, em homenagem a essas trabalhadoras, instituiu-se
o dia 8 de março como o dia Internacional da Mulher.
A violência à mulher é uma realidade de muitos países e acontece de forma
crescente, mas Okada (2007) faz uma reflexão sobre esta questão, em que o abuso
em alguns países não é considerado violência, mas sim fenômeno cultural, e uma
forma de disciplinar as esposas e que pode ser observado em relato de uma
paquistanesa que, em junho 2002, foi violentada coletivamente por quatro homens,
em uma aldeia no Paquistão, devido a um suposto envolvimento de seu irmão mais
novo com uma jovem de casta superior, tornando-se o motivo de sua sentença. A
notícia teve uma repercussão mundial, e acabou por revelar a condição de
submissão de famílias paquistanesas de casta inferior (MAI, 2007).
Nesse caminhar histórico, a assistência à saúde da mulher era voltada
principalmente para os aspectos reprodutivos, tais como a gravidez e o parto. No
entanto, as lutas do movimento feminista têm contribuído para o avanço da
organização destas políticas. Fato marcante foi a conquista dos Direitos Humanos
em 1948, quando a Organização das Nações Unidas (ONU) elabora o pacto
29
denominado Declaração Universal dos Direitos Humanos, que destaca, em seu
artigo 2lº, igualdade entre todos os seres humanos, sem distinção de qualquer tipo,
seja raça, cor, sexo. Em 1996, esta declaração foi complementada pelos pactos
específicos dos direitos civis e políticos, socioeconômicos e culturais (CAVALCANTI,
2007).
O mesmo autor esclarece que, apesar de o avanço e conquista em relação
aos Direitos Humanos no mundo, ainda se observam situações de desigualdade
entre os sexos, em que o homem é beneficiado, pois tem maior acesso à educação
e empregos bem remunerados. Acrescenta que a violência faz parte do cotidiano de
muitas mulheres. Assim, quase 50 anos depois da conquista pelos Direitos
Humanos, acontece a Conferencia Mundial de População e Desenvolvimento no
Cairo, em 1994, na qual foi destacada a igualdade entre os sexos, empoderamento
da mulher, proteção dos direitos sexuais e reprodutivos, eliminação de toda forma de
violência contra o sexo feminino (CAVALCANTI, 2007).
Esse discurso passa a ser mais articulado na década de 1990; deste modo,
para expressar sua preocupação com essa questão, a Organização Mundial de
Saúde elege a prevenção de traumas e acidentes como motivo de celebração do Dia
Mundial de Saúde. Por sua vez, em 1993, buscando orientações em diferentes
segmentos sociais, sobre essa temática, a Organização Pan-Americana de Saúde
(OPAS) realiza uma conferência em Washington, e reconhece a violência como
problema endêmico em muitos países, e é apontada como um dos principais fatores
de óbitos femininos.
Diante desse fato, os países latino-americanos foram estimulados a realizar
ações intersetoriais e específicas para o combate à violência. Neste sentido, o
Ministério da Saúde aprovou a Portaria n. 737/2001, que instituiu a política nacional
de redução de mortalidade por acidente e violência, inserindo a temática no marco
da promoção da saúde. Investiu também na compreensão do fenômeno para
diagnosticar e diminuir a subnotificação, e reconheceu a necessidade de investir na
formação para a atuação institucional, posto que, algumas vezes, tanto o serviço
quanto os profissionais são atores de violência, principalmente, em relação à classe
menos favorecida (BRASIL, 2007a).
Para Minayo (2006), mesmo tendo aumentado as discussões sobre o tema
por pediatras, epidemiologistas e psiquiatras, essa visibilidade sobre o problema
ainda se faz de forma lenta e fragmentada.
30
Vale destacar que a Organização Mundial de Saúde (OMS), em 2002, define
violência como:
O uso intencional da força física ou do poder real ou em ameaça, contra si
próprio, contra outra pessoa, ou contra um grupo ou uma comunidade que
resulte ou tenha qualquer possibilidade de resultar em lesão, morte, dano
psicológico, deficiência de desenvolvimento ou privação (BRASIL, 2005b, p.
7).
Com a missão de formular e articular políticas que contribuíssem para
diminuir as desigualdades de gênero, em 2003, foi criada a Secretaria Especial de
Políticas para Mulheres (SPM), que passou a fazer parcerias com os governos
estaduais e municipais, incentivando a criação de secretarias e coordenadorias de
mulheres (BRASIL, 2006a).
No Brasil, mesmo diante da precariedade de informações referentes à
notificação de casos, o Ministério da Saúde, em 2003, elaborou um manual sobre a
Política Nacional de Atenção Integral à Saúde da Mulher, aprovada em 2004,
objetivando organizar redes integradas de atenção às mulheres e adolescentes em
situação de violência doméstica e sexual (BRASIL, 2006b).
Em 2005, o Brasil constrói seu Relatório, com diagnóstico situacional e
proposta de ação, recomendado pela Organização Mundial de Saúde a todos os
países. O Plano Nacional de Políticas para as Mulheres contou com a participação
da sociedade civil, parcerias estaduais e municipais, garantindo a execução de 199
ações. O Relatório é estruturado em quatro eixos estratégicos de atenção:
autonomia; igualdade e cidadania; educação; saúde das mulheres; direitos sexuais e
reprodutivos; enfrentamento à violência contra a mulher. Através desta pactuação,
foi estabelecida a assinatura de um compromisso entre gestores, permitindo uma
reflexão sobre a realidade local. A partir de então, têm-se obtido avanços no que se
refere à ampliação do serviço de atendimento às mulheres em situação de violência.
Dentre estes, destacam-se os centros de referência, delegacias especializadas,
defensorias públicas, casas de abrigo, Serviço de Saúde e ouvidoria (BRASIL,
2005a).
Os movimentos feministas e de mulheres sempre discutiram a necessidade
de contemplar a questão gênero nas políticas governamentais. Desde 2003, os
movimentos sociais estão mais fortalecidos e mais integrados, e a Secretaria
Especial de Políticas para Mulheres (SPM) participa ativamente de todas as
atividades internacionais que tratam dos direitos das mulheres. Em 2007, na sede da
31
ONU, em Nova Iorque, o Brasil apresentou Relatório sobre o cumprimento das
obrigações relativas à convenção sobre a eliminação de todas as formas de
discriminação contra a mulher (BRASIL, 2006a).
Com essa política de assistência através da SPM, o governo federal mudou a
perspectiva no combate à violência contra a mulher, e reconheceu que o Estado
deve assumir a responsabilidade pelo enfrentamento desta forma de agressão
contra a mulher.
No Piauí, desde 2002, por iniciativa do Ministério Público e atendendo à
proposta do Ministério da Saúde, foi criado o projeto Maria-Maria, localizado em uma
maternidade pública, para atender casos de violência sexual, pois, até então, a
ocorrência deste tipo de agressão era registrada em serviços de pronto-socorro e
distritos policiais, e encaminhados os casos para a Perícia Médica no Instituto
Medico Legal – IML (LOPES, et al., 2004 ).
A partir de 2004, o Piauí, de acordo com a orientação do Ministério da Saúde,
através da Secretaria de Saúde do Piauí (SESAPI), elabora proposta de organização
do Serviço de Assistência às Mulheres Vítimas de Violência Sexual - SAMVVIS,
objetivando viabilizar o acesso imediato das mulheres vítimas de violência sexual, e
adotar medidas de prevenção das DST/AIDS, gravidez e outros agravos físicos e
psicológicos. Seu atendimento seguiu as normas preconizadas pelo Ministério da
Saúde (SESAPI, 2006); e, até setembro 2007, de acordo com o livro de registro,
atendeu cerca de 650 mulheres vítimas de violência sexual. Atualmente, este serviço
funciona em uma maternidade pública e substitui o projeto Maria-Maria.
Atendendo recomendação do Ministério da Saúde, em 2007, o município de
Teresina realizou curso de capacitação para profissionais da rede estadual e
municipal, e estudantes universitários, com o objetivo de realizar a ampliação do
inquérito sobre violência que irá contribuir para a implementação das políticas de
Assistência sobre violência. Para o Ministério da Saúde (BRASIL, 2008), de acordo
com dados preliminares deste inquérito, as mulheres procuram o serviço de urgência
pelos diversos tipos de agressão: física, psicológica e sexual. Tem como seus
agressores o cônjuge ou um amigo. Os dados informam ainda registro de lesões de
menor gravidade, destacando-se uma predominância de acidentes de transporte.
Em termos cronológicos, observa-se que as políticas de assistência à mulher
têm uma evolução histórica, e vêm se organizando de forma lenta e gradativa. Na
busca de despertar o interesse de profissionais, a organização do serviço, em muitos
32
municípios, ainda não conseguiu implantar e organizar serviços de assistência à
mulher vítima de violência sexual. Embora a violência seja reconhecida como
violação dos Direitos Humanos, muito ainda precisa ser feito para que estas
informações consigam chegar até a população.
A violência contra a mulher vem sendo abordada de diversas maneiras, desde
a década de 1950. Nos anos 1970, foi considerada violência intrafamiliar e se
caracterizava pela ação ou omissão que prejudicasse o bem-estar de outro membro
da família. em 1980, foi denominada violência doméstica, e passa a fazer parte
do debate das políticas sociais, buscando melhor compreensão. Em 1990, foi
chamada violência de gênero, e significa formas de opressão e crueldade nas
relações entre homem e mulher (BRASIL, 2007a).
Existem ainda outras formas de manifestações de violência, que podem trazer
sérias conseqüências em nível social e na vida das pessoas; podem ser observadas
no ambiente domiciliar ou fora deste, como também nos espaços institucionais ou
públicos. Minayo e Souza (2003) relatam que tem sido difícil discutir a causa dos
diversos tipos de violência, mas que muitos estudiosos acreditam que sejam
provenientes de razões biológicas.
Para Oliveira e Fonseca (2007), as raízes da violência encontram-se nas
relações de gênero, e têm características próprias que acontecem com a mulher,
através de uma relação marcada pela dominação masculina.
Monteiro (2005) destaca que ser homem ou ser mulher são valores culturais
que foram historicamente construídos, e se perpetuaram, inclusive, na distribuição
das atividades. Estas, quando destinadas às meninas, são realizadas no interior da
casa, como bordados, por exemplo. No entanto, as atividades para meninos são
tarefas geralmente fora do domicílio, como ir à mercearia. Tal fato leva as mulheres
ao confinamento do privado, e, conseqüentemente, à submissão. também a
questão do poder que permeia a relação homem-mulher, construída culturalmente e
favorável ao sexo masculino, e que pode diminuir as possibilidades de discussão e
diálogo, determinando a forma de conviver com os conflitos, desencadeando
situações de violência no próprio ambiente familiar.
Brigas, espancamentos, xingamentos são agressões conhecidas por violência
conjugal; fazem parte do cotidiano de muitas mulheres, e perpassam o espaço
doméstico; caracterizam-se por violência física, psicológica, sexual, e levam a
conseqüências severas, como: a hipertensão, alterações da tireóide, aborto, parto
33
prematuro. Já em outras mulheres, além destes sintomas, têm o corpo sinalizado por
estas violências. Contudo, existem outras marcas em mulheres vítimas que não são
facilmente visualizadas e repercutem de maneira intensa e duradoura, alterando até
o brilho do olhar, e são conhecidas como violência psicológica (MONTEIRO, 2005).
Um estudo comparativo, conduzido por Faúndes, et al. (2000), realizado com
mulheres casadas, revela que 54,8% alguma vez tiveram relações sexuais contra
sua vontade; 31,8% não ficaram constrangidas, porém, 23% ficaram; 7,1% relataram
ter sido forçadas a ter relações sexuais. Os autores revelaram ainda a ocorrência de
maior prevalência de irregularidades menstruais, falta de libido e dispareunia neste
grupo. Destacaram também que houve elevado número de mulheres que tiveram
relações sexuais contra sua vontade, fato que passa a ser visto como normal nesta
relação homem e mulher, não sendo caracterizado como violência.
Este tipo de violência está presente em muitos relacionamentos conjugais,
varia de acordo com a intensidade e tempo, demonstra dominação masculina,
caracterizando-se por um ciclo evolutivo desde a lua-de-mel a agressões (BRASIL,
2007b).
As conseqüências à saúde em decorrência da violência sexual podem
acontecer em curto prazo, como as infecções por doenças sexualmente
transmissíveis, HIV e gravidez indesejada, bem como em longo prazo, pois a mulher
pode manifestar cefaléia crônica, dor pélvica, sintomas psicológicos, disfunção
sexual, depressão e ansiedade (VILELA; LAGO, 2007).
Neste sentido, a violência sexual representa perdas significativas na vida da
mulher, no que se refere à sua saúde física e mental, exigindo habilidades pessoais
e mecanismos de proteção para o enfrentamento desta situação, a fim de que possa
dar continuidade as suas atividades ou transformar este sofrimento em crescimento.
Sudário, Almeida e Jorge (2005), sobre o dilema imensurável vivenciado
pelas mulheres vítimas de violência sexual, destacam que o maior medo é de
morrer; provavelmente seja por isso que algumas delas, no momento da violência,
planejem estratégias, na tentativa de buscar possibilidades de enfrentamento e
sobrevivência, desde uma negociação com o agressor sobre os seus pertences,
fazendo o que são solicitadas ou rezando silenciosamente.
Teixeira e Lefèvre (2008) relatam que a é instrumento de fortalecimento,
esperança e luta pela vida. Cyrunilk (2004) explica que o trabalho de resiliência
34
necessário se faz à construção de um projeto para distanciar o passado,
metamorfosear a dor que a pessoa sente em uma lembrança gloriosa.
Higa, et al. (2008) relatam que, de acordo com a Associação Norte-Americana
de Diagnóstico de Enfermagem (NANDA), a mulher vitimada pode apresentar
síndrome do trauma de estupro, dor aguda, integridade da pele prejudicada, risco
para a angústia espiritual, isolamento social, padrões de sexualidade ineficazes e
outros. Acrescentam que, a partir destes diagnósticos, podem ser elaboradas as
intervenções de Enfermagem.
Vilela e Lago (2007) ressaltam que, diante de episódios de violência sexual, a
ação pública deve incidir nas seguintes dimensões: em nível de mentalidade,
reconhecendo a violência sexual à mulher como crime e romper a banalização; na
organização dos serviços e na estrutura de uma rede integrada. Por outro lado,
Matar, et al. ( 2007) acrescentam que, quando acontece a violência em mulheres
mais jovens, devem ser considerados também os problemas escolares como
conseqüência da violência sexual.
Matar, et al. (2007) chamam a atenção para a importância do apoio
multiprofissional, pois muitas mulheres, em razão dos constrangimentos, não iniciam
os procedimentos legais referentes ao registro em delegacias, o que iria contribuir
para a punição do agressor. As autoras relatam ainda a experiência da Casa de
Saúde da Mulher, em São Paulo, sobre a importância do atendimento personalizado,
em que as consultas subseqüentes são realizadas pelos mesmos profissionais, com
o objetivo de passar segurança à mulher vitimada.
Bedone e Faúndes (2007) relatam que se faz necessário estabelecer uma
integração entre setores, o acesso ao serviço deve ser universal, e a capacitação
dos profissionais deve incluir, além de conhecimentos técnicos, reflexões sobre suas
atitudes. Por sua vez, Oliveira (2007) afirma que a assistência deve ser realizada
não somente na utilização de cnicas para a prevenção de agravos como
doenças sexuais e gravidez mas valorizando-se o relato da vítima; deste modo,
realiza-se encaminhamento adequado, quando necessário, e ações de promoção da
saúde. Com relação à assistência, para a autora, o profissional deve ter empenho
pessoal, pois acredita que nem todo profissional tem habilidade para lidar com a
violência sexual, pelas conseqüências e seqüelas deixadas na vítima.
Campos (2006) também pôde observar, em seu estudo, as conseqüências da
violência sexual, e destacou a freqüência de transtornos psiquiátricos que levavam,
35
por exemplo, à tentativa de suicídio após o evento. No entanto, chama a atenção
que em 29,2% dos atendimentos não houve indicação de retorno; e que 39,6%,
quando agendado atendimento subseqüente, o retornaram ao seguimento
ambulatorial. A autora considera que questões como estas estão relacionadas à falta
de profissional adequado no serviço para dar continuidade à assistência, e às baixas
condições socioeconômicas das mulheres. Relata ainda a importância de a
instituição conhecer os fatores que interferem na falta de adesão.
Vale destacar que apesar dos avanços da reforma psiquiátrica para uma
assistência menos hospitalocêntrica e mais humanizada, é habitual o uso de
medicamentos psicotrópicos, como alternativa na resolução dos problemas. Na
verdade, muitas mulheres com faixa etária entre 30 e 50 anos são consumidoras
deste tipo de medicamento para resolver conflitos psicológicos (ALVES; COURO
FILHO, 2001).
Por conseguinte, Mai (2007) relata que no Paquistão muitas mulheres ao
serem violentadas cometeram suicídio, deixando impunes seus agressores. Destaca
ainda a importância da educação para que elas possam defender seus direitos.
Bedone e Faúndes (2007) informam sobre o risco da gravidez indesejada,
diante do elevado número de casos de violência sexual registrados em quase uma
década no Centro de Assistência Integral à Saúde da Mulher (CAISM), localizado em
Campinas, São Paulo. Entre 1.171 casos de mulheres vitimadas, 109 engravidaram
e apenas 23 decidiram ter o filho, demonstrando outro motivo de preocupação, pois
ainda não são observados no Brasil serviços de assistência ao aborto legal.
Destacam que todos os profissionais devem estar preparados para a assistência à
mulher vítima de violência sexual, inclusive pessoas da recepção, serviços gerais e
motoristas.
Em 2002, existiam no Brasil 245 serviços de saúde em nível ambulatorial para
atender mulheres vítimas de violência sexual, e 39 hospitais estavam habilitados
para realizar este procedimento (VILELA; LAGO, 2007). Em 2005, a rede de atenção
integral para mulheres e adolescentes em situação de violência sexual contava com
121 hospitais de referência, e 53 prestavam os serviços de interrupção da gravidez
previstos por lei (BRASIL, 2006a).
Embora tenha ocorrido um crescimento da organização do serviço, muitas
mulheres ainda não têm acesso a esta assistência em seu município. Dessa forma,
encontram-se em uma situação desfavorável, caso desejem realizar aborto, sendo
36
praticamente obrigadas a aceitar um filho fruto de uma violência, ou, quem sabe,
sendo motivadas a praticarem aborto clandestino, colocando sua vida em outros
riscos.
Diniz, et al. (2007) consideram maior risco da violência sexual, quando
acontece em mulheres virgens, pois estas não fazem ainda uso de algum método
contraceptivo, ficando mais expostas a uma gravidez; e que, muitas vezes, o uso da
pílula de emergência é feito após 72 horas, diminuindo a sua eficácia. Afirmam ainda
que, neste grupo, a possibilidade de dilacerações da pele é ainda maior,
contribuindo para o risco de contrair HIV. Apontam também que estudos realizados
sobre a taxa de adesão à quimioprofilaxia ao HIV demonstram elevada
descontinuidade ao tratamento, e que tal fato está relacionado com transtornos
psiquiátricos e/ou emocionais, falta de entendimento ao uso correto das medicações,
efeitos colaterais e falta de recursos para retornar ao serviço.
Isso vem confirmar que a mulher vítima de violência sexual precisa estar
envolvida por uma rede de serviços que possa atendê-la, em cada etapa de sua
vida. Neste processo de reconstrução e enfrentamento dos problemas, observa-se
que esta capacidade de enfrentamento acontece de maneira diferente em cada ser
humano, demonstrando talvez que algumas pessoas são mais resilientes que outras.
Monteiro (2005, p. 100) afirma que algumas mulheres vítimas de violência
“transformam o medo em coragem, o lamento vira revolta, conseguem olhar para
dentro de si mesmas e partem em busca da liberdade ou da colocação de limites”.
Diz ainda que esta atitude não tem relação cronológica, mas sim com a
existencialidade de cada mulher.
A violência sexual, além de seqüelas à mulher vitimada, causa também
impacto a todos os membros da família, de maneira aparentemente simples, como,
por exemplo, ganho de peso, alterações do sono; e, de forma mais complexa, o
isolamento social. Passam a conviver com o medo na comunidade, mudam sua
rotina em busca de proteção, podendo refletir na falta de diálogo, insegurança e
alterações de saúde, e a dimensão da resposta ao impacto depende do contexto
cultural de cada família. O impacto à família pode ser observado em diversas
situações, tais como: o nascimento de um filho, que muda a dinâmica familiar, ao se
buscar formas de adaptação. Sobre este assunto, Barreto (2005) afirma que a
estrutura familiar não possui flexibilidade para aceitar e integrar o novo, e toda
modificação é uma ameaça ao desequilíbrio. No caso da violência sexual contra a
37
mulher, é uma situação desfavorável de adaptação, que poderá atingir a família e
provocar desagregações, conflitos, contribuindo para uma porta de entrada às
vulnerabilidades que o meio irá lhe proporcionar, como, por exemplo, a prostituição,
drogas e outros.
Becker (2004) destaca a relevância da família para o desenvolvimento de
crianças e adolescentes, em que, desde os primeiros dias de vida, uma
necessidade de proteção para a sobrevida, e a importância das relações afetivas, na
promoção à saúde mental. Acrescenta ainda que a presença de adultos confiáveis é
indispensável para assegurar o convívio democrático à sociedade.
Conforme o Ministério da Saúde (BRASIL, 2007a), é na família que se define
a distribuição de afetos e papéis sociais. A diferença de poder entre os sexos é
presente, e se manifesta por sentimentos como amor, ódio, proteção, domínio.
Acrescenta ainda que famílias despreparadas para administrar seus conflitos
geralmente são mais violentas.
Yunes, Garcia e Albuquerque (2007), em seus estudos sobre
“Monoparentalidade, pobreza e resiliência: entre as crenças de profissionais e as
possibilidades de convivência familiar”, chamam a atenção para a necessidade de
transformar as percepções sobre estas famílias, pois elas trazem vários aspectos
positivos que configuram a resiliência.
Para Barreto (2005), a família é o primeiro grupo social em que, além de
valores, o indivíduo deverá ser incluso em um projeto mais amplo, envolvido com
alegria e satisfação por aqueles que o geraram, ou com quem vai conviver.
Neste sentido, o contexto cultural em que a pessoa está inserida poderá
trazer contribuições para a percepção dos fatos. No caso da violência sexual contra
a mulher, muitas famílias têm dificuldade de perceber o fato, preferindo não falar
sobre o assunto por vergonha, estigma e, principalmente, por parte de outros
familiares e vizinhos próximos, terminando às vezes por mudar o local de sua
residência para dar continuidade à vida, sem, no entanto, buscar meios para a
superação da situação.
Em função da dificuldade de percepção da violência sexual pela família,
muitas vezes a mulher vitimada tende a isolar-se sem que a família entenda bem
isso, principalmente, no que tange àquelas de classe baixa, que associam tal
comportamento como algo normal e próprio da idade da vítima, sobretudo, quando
se tratam de mulheres jovens. Para o profissional de Saúde, a percepção do
38
problema pode ser mais fácil, principalmente, quando ele tem a oportunidade de
conhecer mais de perto a dinâmica familiar, e tem conhecimentos prévios sobre o
assunto.
Estudos de Oliveira e Fonseca (2007) revelam que essa dificuldade de
visualizar a violência sexual à mulher também é observada nos profissionais de
Saúde, pois algumas procuraram o serviço por várias vezes, geralmente, com as
mesmas queixas, através de um discurso indireto, e não são compreendidas pelo
profissional. Além disso, os profissionais de Saúde, quando se deparam com a
situação de violência sexual, têm um sentimento de impotência, e questionam o
porquê de se envolver com este problema.
O Ministério da Saúde (BRASIL, 2007b) recomenda que o profissional deve
promover uma escuta empática e menos mecânica ou burocrática, fortalecendo a
comunicação e os vínculos com a família, através de uma entrevista individual, com
a vítima e com familiares; realizar visita domiciliar, discussões em grupo que
envolvam toda a família. Ressalte-se a importância do sigilo, respeitando o tempo e
o ritmo das pessoas. Acrescenta que a falta de envolvimento de um dos membros da
família revela uma lacuna na rede de atenção. Neste sentido, a assistência à tima
de violência sexual deve acontecer de maneira contínua e sistemática, objetivando
desenvolver na família a capacidade de administrar conflitos e melhorar a
convivência.
Ravazzola (2005, p.80), em seus estudos sobre famílias resilientes, afirma
que algumas pessoas, mesmo diante de certas situações, se desenvolvem
normalmente. Para ele, o estudo sobre resiliência transcende a Medicina, a
Psiquiatria e as Ciências Sociais. Neste sentido, o autor diz que deve ser valorizada
a maneira de abordar os problemas e o sofrimento humano. Ele explica que o olhar
tradicional valoriza o trauma, e o profissional elabora diagnóstico cada vez mais
complexo; a proposta da resiliência “consiste em enfocar e enfatizar os recursos das
pessoas e grupos sociais para ir em frente”. Acrescenta que tem sido desafiador
desestabilizar as teorias tradicionais e ensinar nas academias esta maneira de
reforçar a capacidade humana.
Mota, Vasconcelos e Assis (2007), em estudo sobre a situação demográfica
da vítima e do agressor, envolvidos com a questão da violência sexual contra a
mulher, encontraram associações da violência com o baixo nível econômico e
escolar. Explicam que os registros de lesões mais graves foram feitos por mulheres
39
de escolarização de nível médio incompleto, e que os registros de violência
psicológica foram feitos com mais freqüência por aquelas que possuem ensino
superior e com pós-graduação.
Dessa forma, o contexto familiar e o maior nível sociocultural da mulher
constituem elementos importantes para o discernimento da violência sexual, visto
que aumentam a percepção sobre o problema, especialmente porque muitas
mulheres não consideram determinadas situações como violentas, interpretando-as
como fatalidade em suas vidas.
O apoio às situações de violência sexual contra a mulher, por parte do
profissional de Saúde, torna-se ainda mais desafiador, quando a violência aparece
aliada a outros problemas de ordem social, manifestos em condições de vida
precária, abandono escolar, desemprego, casamento precoce, dentre outras
dificuldades.
Assis et al. (2006a) destacam os mecanismos da proteção para a superação
de situações adversas e consideram a presença destes mecanismos como
determinantes para proteção e enfrentamento de problemas. Acrescentam que a
vulnerabilidade é mais presente quanto menor os fatores de proteção. Para o
Ministério da Saúde (BRASIL, 2007a), estes devem acontecer com maior freqüência
e não isolados, e podem ser identificados pela proteção individual, observada no
gênero, idade e características pessoais; proteção familiar, visualizada na saúde
mental dos pais; e proteção social, que se caracteriza pelo bom relacionamento na
escola, nas instituições de trabalho, na família.
Dessa forma, o acolhimento pelo profissional de Saúde à família que vivencia
situações adversas, como a violência sexual à mulher, deve ser realizado de
maneira que todos os membros possam participar, através de um sistema de
referência e uma rede de serviço. Para tanto, o profissional deve abrir mão de
julgamentos prévios, tendo em vista a cultura diferente de cada família.
Araújo (2002) afirma que esta assistência deve ser de acordo como a família
se apresenta e compreende os fatos, bem como dos recursos que dispõe para
transformar esta realidade. Diz ainda que a desconstrução de suas crenças exige
criatividade do profissional que atende, além de ser outra situação desafiadora.
40
3 METODOLOGIA
3.1 Tipo de estudo
Trata-se de um estudo descritivo de abordagem qualitativa, tendo como foco
a resiliência e o contexto familiar de mulheres vítimas de violência sexual.
Para Minayo (2007), a pesquisa qualitativa permite responder às questões
particulares a partir da realidade vivenciada, através de atitudes subjetivas, na qual o
sujeito tem oportunidade de explicar a intencionalidade de seus atos, por meio de
expressões e significados, contribuindo, assim, para uma riqueza de informações
que podem ser aprofundadas e interpretadas. A pesquisa qualitativa permite ainda
uma relação de interesse entre objeto de estudo, sujeito e local de investigação.
3.2 Cenário do estudo
O cenário foi o Serviço de Assistência à Mulher Vítima de Violência Sexual
(SAMVVIS), localizado em uma maternidade pública de Teresina, que presta
assistência a casos desta natureza em todas as idades. Possui área física definida,
recursos humanos, equipamentos, instrumental, fichas e livros de registros.
O primeiro atendimento inclui entrevista, registro da história, exame clínico e
ginecológico, e a solicitação de exames e acompanhamento psicológico. Diante da
complexidade da violência sexual, o Ministério da Saúde recomenda que este
serviço seja organizado, através de uma rede integrada de atendimento, capacitação
de recursos humanos e divulgação para o público (BRASIL, 2005b).
3.3 Sujeitos e critérios de inclusão
Participaram do estudo 11 (onze) mulheres que buscaram o atendimento no
SAMVVIS, que tiveram a confirmação de violência sexual após o exame, e que
estavam com pelo menos mais três meses do fenômeno vivenciado. Neste período,
a mulher retorna para a realização do exame HIV, e também é orientada a procurar
o seguimento ambulatorial de acordo com a recomendação da norma técnica do
Ministério da Saúde.
O seguimento ambulatorial é uma continuidade do atendimento, preconizado
pelo Ministério da Saúde, que deve ser realizado pelos profissionais responsáveis
41
em cada etapa de atenção à mulher tima de violência sexual, no qual deve ser
feito o exame clínico e ginecológico, exames complementares e acompanhamento
psicológico (BRASIL, 2005b).
Além destes indicadores como critério de inclusão, foi considerada uma faixa
etária acima de 18 anos, pois, de acordo com Assis, Pesce e Avanci (2006), nesta
fase um maior fortalecimento dos vínculos afetivos, e a mulher é capaz de
enfrentar situações mais graves.
Nas primeiras semanas de coleta de dados, foi possível perceber a pouca
assiduidade das mulheres vítimas de violência sexual no seguimento ambulatorial.
Essa situação foi compartilhada com minha orientadora; e, mediante solicitação à
coordenadora do SAMVVIS, fomos prontamente atendidas para que tivéssemos
acesso aos registros dos casos de violência sexual no período de 2006 a 2007. Com
o acesso ao livro de registro dos casos atendidos, foi possível considerar também
como critério de inclusão as mulheres que tinham residência na zona urbana, pois
algumas tinham como endereço principal o nome do município na zona rural. Ficou
acordado que seria feito um contato prévio, por telefone, para agendar as
entrevistas.
No livro de registros, no período de janeiro de 2006 a dezembro de 2007
foram encontrados 56 (cinqüenta e seis) nomes de mulheres que preenchiam os
critérios de inclusão. Deste total, foi possível identificar 22 (vinte e dois) números
telefônicos. Feito o contato com essas mulheres, 11(onze) concordaram em
participar do estudo. As participantes apresentaram um perfil bem diversificado:
tinham idade entre 18 a 52 anos, com escolaridade desde Ensino Fundamental
incompleto até Pós-Graduação; 72,7% são solteiras; 18,1% são casadas; e 9,09%
são viúvas; 63,6% trabalham como domésticas; 18,18% atuam na Educação; e
18,18%, que se encontram em circunstancias da violência, ainda estão
desempregadas. Essas mulheres foram violentadas em diversos locais, como, por
exemplo, no trabalho, em seu domicílio e no colégio. Os agressores vão desde
desconhecidos, vizinhos, cunhados, até pais entre outros.
3.4 Instrumento de coleta de dados
Foi utilizado um roteiro de entrevista do tipo aberta ou em profundidade. Este
tipo de entrevista permite à participante falar livremente sobre o fenômeno
42
vivenciado, buscando dar mais oportunidade às reflexões (MINAYO, 2007). As
informações foram completadas por meio de observação, durante as entrevistas,
que contribuíram para a interpretação dos significados (Apêndice C).
A entrevista se constitui em uma técnica de coleta de dados mais comum;
busca colher informações que possam desvelar o objeto de estudo; entretanto exige
do pesquisador tempo, conhecimento prévio sobre o assunto, planejamento,
condições favoráveis, contatos prévios e outros requisitos (DYNIEWICZ, 2007).
3.5 Procedimentos de coleta de dados
As mulheres que concordaram em participar do estudo, após explicações
sobre os objetivos e justificativa, assinarem o Termo de Consentimento Livre e
Esclarecido (Apêndice A), que atende as questões éticas do Comitê de Ética em
Pesquisa da Universidade Federal do Piauí (UFPI), de acordo com a Resolução
196/96 do Conselho Nacional de Saúde (CNS) que trata de pesquisas envolvendo
seres humanos (BRASIL, 2007c).
As entrevistas foram realizadas no período de janeiro a abril de 2008, em um
local apropriado, de acordo com o dia e horário agendado pela participante. Tiveram
uma duração de quarenta minutos a uma hora cada; foram gravadas em um
equipamento eletrônico tipo MP4 e transcritas na íntegra para facilitar o processo de
análise. Elas foram marcadas por muita emoção, desde o primeiro contato, por
telefone, porque algumas mulheres, ao serem convidadas para participar do estudo,
ficaram em silêncio, outras choraram, pediram para ligar em outro horário, e tiveram
dificuldade e medo de confiar em uma pessoa que falava ao telefone, ao tempo em
que sabia de uma parte de sua vida.
Os locais e horários para a realização da entrevista foram os mais variados
possíveis. Sempre foram escolhidos pelas participantes, geralmente, um lugar
agradável, e, principalmente, que preservasse o anonimato do seu domicílio, como
praça, colégio, shopping e local de trabalho. Após falar do assunto, as mulheres
relataram sensação de alívio e conforto.
3.6 Tratamento e análise dos dados
Para a análise, utilizou-se o Software ALCESTE (Análise Lexical Contextual
de um Conjunto de Segmentos de Texto), versão 4.5, criado na França no final da
43
década de 1970, por Max Reinert, e introduzido no Brasil em 1998. Esse Software
permite analisar quantitativamente dados textuais, empregando uma classificação
hierárquica descendente através de análise lexicográfica do material. Para Camargo
(2005), o ALCESTE não deixa de considerar a qualidade do fenômeno estudado e
fornece critério proveniente do material para sua consideração como indicador de
um fenômeno de interesse científico. O autor acrescenta que este tipo de análise
tem como base as leis de distribuição de seus vocabulários.
O ALCESTE é considerado por Soares (2005) como uma metodologia de
análise de dados qualitativos, que pode ser aplicada em qualquer tipo de
investigação na qual se objetiva analisar material proveniente de texto de linguagem
verbal. Essa técnica deve adequar-se à análise de dados de comunicação oral,
como, por exemplo, entrevistas, questões abertas e outros, bem como do tratamento
de textos de imprensa, literários, relatórios. O autor afirma que este software
apresenta uma possibilidade de análise eficaz.
O processamento dos dados acontece em uma seqüência lógica de
operações realizada pelo ALCESTE em quatro etapas (A, B, C, D); entretanto para
que isso ocorra, faz-se necessário seguir as normas para a organização de um único
arquivo ou corpus que se denomina Unidade de Contexto Inicial (UCI).
Dessa forma, os dados deste estudo foram digitados no Word, com
espaçamento simples, e organizados em um único arquivo em formato de texto de
acordo com as regras para a preparação do texto inicial. Cada entrevista passa a ser
chamada de UCI, e o conjunto de UCI forma o corpus; são separadas por uma linha
de comando ou “linhas com asteriscos”, com definição de digos escritos em suas
raízes. Camargo (2005) explica que estes códigos podem ser definidos pela
pesquisadora de acordo com a natureza da pesquisa; entretanto, nem sempre
controla a divisão do corpus, ou seja, da Unidade de Contexto Elementar (UCE) que
são seguimentos de texto, organizados pelo ALCESTE, geralmente de três linhas.
O corpus deste estudo teve 11 (onze) UCIs; foram utilizados como digo:
sujeito, idade, estado civil, profissão e escolaridade. Acrescente-se que eles
contribuíram para a caracterização das classes no momento de análise.
Camargo (2005) explica que após a preparação do corpus inicia-se o
processamento pelo ALCESTE, que segue as etapas (A, B, C, D), que se processam
em três operações, com exceção da etapa D, que ocorre em 5: A etapa A se
caracteriza pela leitura do texto e cálculo dos dicionários, realizada em três
44
operações: A1 que é a reformatação e divisão do texto em segmentos de tamanho
similar (UCEs); A2 pesquisa do vocabulário e redução das palavras, com base em
suas raízes, como, por exemplo, a palavra justiça, que tem como forma reduzida
justiç+; A operação A3 que é a criação do dicionário de formas reduzidas. Na etapa
B, as UCEs são organizadas a partir da freqüência em que o vocábulo aparece em
suas formas reduzidas, variando o tamanho da UCE que possibilita a análise pela
classificação hierárquica descendente (CHD), que delimita a ocorrência do vocábulo
pelo qui-quadrado, e possibilita a formação de classes, ou seja, o conjunto de várias
UCEs. Na etapa C, em que o autor considera a mais importante, o programa
apresenta o dendograma da classificação hierárquica descendente, que ilustra a
relação entre as classes; Na etapa D, programa calcula e fornece as UCEs mais
características de cada classe.
Mesmo que o programa tenha realizado todas as etapas, neste estudo, foram
utilizadas somente as etapas C1, C2 e D1, que permitiram a organização e
interpretação dos dados.
Com base na análise, o ALCESTE forneceu os dados estatísticos mais
importantes para a organização e fundamentação da pesquisa. O corpus permitiu a
seleção de 173 Unidades de Contexto Elementar (UCEs), representando 80,09% do
material processado. Apresenta-se distribuído em 4 classes hierárquicas
descendentes. A classe 1, formada por 51 UCEs (23,61%), que se associa
diretamente com a classe 3; a classe 2 possui 52 UCEs (24,08%) maior contribuição
ao estudo, e se associa indiretamente com as demais classes; a classe 3 possui 39
UCEs (18,05%); e a classe 4 com 31UCEs (14,35%) que foram organizadas a partir
das entrevistas.
É importante informar que foi significativa a consideração do qui-quadrado,
fornecido pelo ALCESTE para a denominação e interpretação das UCEs,
constituídas pela essência das falas, não permitindo assim a identificação do sujeito.
Vale destacar que todas as palavras que se apresentaram em sua forma reduzida no
dendograma trouxeram contribuição, entretanto aquelas com elevado qui-quadrado
foram as que mais contribuíram. Neste estudo, os valores do qui-quadrado mais
elevado variaram entre 34, 28, 23,21.
45
3.7 Aspectos éticos
O projeto foi encaminhado ao Comitê de Ética em Pesquisa-CEP da Pró-
Reitoria de Pesquisa e Pós-Graduação da Universidade Federal do Piauí-UFPI, bem
como ao CEP da Maternidade Dona Evangelina Rosa (MDER) e aprovado por
ambas (Anexos A e B).
46
4 RESULTADOS E DISCUSSÃO
A formação das classes de análises não traz a pretensão de focalizar pontos
deficientes de mulheres vítimas de violência sexual. Ao contrário, busca-se enfocar a
capacidade de enfrentamento diante desse processo doloroso, que remete ao
sofrimento físico, emocional e relacional. Assim, levantam-se pontos fortes e as
estratégias usadas por elas para, na busca da superação, seguirem vivendo,
questionando, esquecendo, modificando comportamentos.
No foco da discussão, valoriza-se o modo como essas mulheres devem ser
cuidadas, para resgatar a capacidade “sadia”, entendida como uma força
impulsionadora, que pode emanar delas mesmas, do contexto familiar e do próprio
sistema de saúde.
A proposta desta discussão, ancorada na Teoria da Resiliência, não nos
permitiu determinar quem ou quais dessas mulheres são mais ou menos resilientes.
Descrevem-se e discutem-se atitudes que as levaram a reencontrar o equilíbrio
roubado de forma tão drástica e marcante.
Estudo realizado por Sudário, Almeida e Jorge (2005) revela que, em
contradição ao senso comum, que geralmente atribui a violência a uma exposição da
mulher, horário e locais que oportunizem o fato, as mulheres são violentadas na
companhia de amigo, no trabalho e no domicílio. Neste sentido, ressalta-se que não
existe um lugar seguro para evitar a ocorrência deste fenômeno.
Para responder às inquietações levantadas no início deste estudo, sobre se a
participação da família e de uma rede integrada podem contribuir para que a mulher
possa buscar a superação, pelo fato de ter sofrido violência sexual, foram possíveis
de resposta a partir das leituras das Unidades de Contexto Elementar, nas quais se
destacavam pontos importantes que constituíram o corpus.
O ALCESTE permitiu a formação de quatro classes analíticas formadas por
11 (onze) Unidades de Contexto Inicial-UCIs (entrevistas), que foram classificadas
em 173 Unidades de Contexto Elementar (UCEs), representando 80,09% dos dados.
O material processado permitiu a análise hierárquica descendente, levando em
consideração o qui-quadrado das raízes dos vocábulos, como mostra o dendograma
apresentado na Figura 1.
47
Figura 1 - Dendograma das classes lexicais do discurso de mulheres vítimas
de violência sexual, associadas através de etapas sucessivas do corpus.
Fonte:
Figura 1- Dendograma das classes lexicais do discurso de mulheres vítimas de
violência sexual, associadas através de etapas sucessivas do corpus.
48
4.1 Classe 1 - Os primeiros passos: busca da punição para o agressor e a
procura pelo Serviço de Saúde
A Classe 1, associada diretamente à Classe 3, possui 51 UCEs que
representam 23,61% do total do corpus. O primeiro aspecto a considerar no
conteúdo das UCEs referente a esta classe de análise é a elevada significância
reportada às palavras como “pessoa+”, “pass+”, “delegacia+”, “mulher+”, “caso+”,
“justiça+” que apresentaram valores de x2 respectivamente a 23,15, 15, 13, 12, 12 e
outras como “deu+”, “agente+”, “choro+”, “número+”, “apoio+” que tiveram χ
2
menores, mas também contribuíram para a interpretação e a nomeação da classe.
Estes vocábulos se associam em um segundo plano às palavras como “vida+”,
“filhos+”, “trabalho+”, “lugar+”, “estudo+”, “acontecimento+” e estão apresentadas em
sua forma reduzida no dendograma (Figura 1).
Estas palavras reduzidas foram extraídos principalmente das entrevistas dos
sujeitos 1, 2, 3, 4, 6 e 9, que são mulheres jovens, com idade entre 18 a 39 anos,
sendo quatro solteiras, uma casada, e uma viúva, com escolaridade entre Ensino
Fundamental completo e Pós-Graduação. Destas, três trabalham como domésticas,
e as outras trabalham: uma como coordenadora de Ensino Fundamental; outra como
professora de curso de Graduação; e a outra está desempregada.
Os sujeitos 1, 3 e 6 relatam ter sido violentadas por uma pessoa
desconhecida, que entrou em sua residência na madrugada; o sujeito 2 pelo
cunhado; o sujeito 4 foi violentada pelo pai e o sujeito 9 por um colega de sala de
aula.
Os relatos analisados mostram uma reunião de forças para buscar ajuda nos
primeiros dias nas delegacias e serviços de saúde, geralmente, levadas por alguém
da família ou pessoas significativas.
Entende-se que o processo de enfrentamento se inicia pela busca de uma
resposta na Delegacia, para onde a mulher se dirige e formaliza a denúncia. Nesse
primeiro momento, ela pensa mais no agressor do que nela própria, e expressa,
principalmente, o sentimento de raiva, que se verifica pelo desejo imenso de que a
pessoa que praticou a violência seja punida por seus erros. Trata-se do desejo de
acreditar em um mundo justo.
Minha tia faz Direito e me incentivou, aí minha prima me levou na Delegacia
[...] quando cheguei lá não tinha plantonista [...] esperei muito [...] e fui
encaminhada para a Maternidade.
49
Meu patrão soube, e a gente foi na Delegacia [...] eu prestei queixa.
Como é ruim [...] e desde esse dia minha vida nunca mais prestou.
Fui à Delegacia três dias depois porque eu não tinha voz [...] e eu o
queria ir, porque fiquei com medo, ele disse que não era para eu dizer para
o meu marido.
Minha mãe deu entrada na Delegacia da Mulher, ele me levou lá para eu
dizer que era mentira [...]. Eu disse tudo ao contrario [...] que era verdade,
ele ameaçou a gente de morte dentro da Delegacia da Mulher [...]. Mas a
gente foi protegida.
Na hora que aconteceu, meu irmão me levou, primeiro aqui no Distrito [...].
Cyrulnik (2005) destaca que o desejo de acreditar em um mundo justo pode
revelar-se em situações opostas, sendo a primeira a noção de que o mundo que nos
acolhe é um mundo justo. Contrariamente também vem a noção de que, para um
mundo justo, basta destruir a sociedade e substituí-la por aquela que acredita existir.
Entende-se assim que há, na natureza humana, uma visão de justiça que ajuda a
restituir a esperança.
É, pois, ante esta concepção que as mulheres revelam estratégias pelo
enfrentamento, observado em suas falas, quando relatam a busca por punição ao
agressor. A insistência da família ou de alguém significativo, para procurar o sistema
Judiciário, também é um fator positivo, relacionado com sentimentos vivenciados
pela maioria das pessoas mais próximas da vítima, que também se encontram
abaladas psicologicamente, e, em geral, não sabem o que fazer; precisam
compartilhar, dividir responsabilidades, e a Delegacia é a representação primeira
para esse tipo de ocorrência.
Paradoxalmente, para Sudário, Almeida e Jorge (2005, p. 84), o
enfrentamento dessa situação é outra questão a ser vivenciada por mulheres vítimas
de violência sexual, pois acreditam que é um momento tão difícil quanto a própria
violência, denominado de “enfrentamento da realidade após a violência sofrida”,
tendo em vista que, a partir deste momento, vêm os questionamentos sobre com
quem compartilhar, ou como será acolhida pelas pessoas e setores públicos ou
privados. Para Cyrulnik (2004), os feridos precisam descobrir recursos internos e
externos, dispostos em torno deles, e que os ajudarão a retomar ao seu
desenvolvimento.
Ainda de acordo com Sudário, Almeida e Jorge (2005), as mulheres
percorrem vários setores à busca tanto de punição, como de ajuda pessoal, e
denominaram este trajeto de via-crúcis, por percorrer até cinco instituições de acordo
50
com os agravos. Entretanto, o Ministério da Saúde, ao buscar a organização da
política de enfrentamento da violência por meio de redes integradas, tem como
objetivo assegurar um atendimento integral à usuária, e chama a atenção para a
importância de que a mulher seja informada sobre cada tipo de encaminhamento e
atendimento. Um dos aspectos considerados é o acolhimento, cujo conceito
encontra-se expresso em um documento do Ministério da Saúde, como sendo
“conjunto de medidas, posturas e atitudes dos profissionais de saúde que garantam
credibilidade e consideração à mulher em situação de violência sexual” (BRASIL,
2005b, p.13).
Monteiro (2005), ao estudar o infortúnio da violência conjugal vivenciada por
mulheres espancadas, humilhadas e violentadas sexualmente por seus
companheiros, relata que, nesse momento em que buscam ajuda na Delegacia, elas
fazem uma reflexão, ou seja, olham para dentro de si próprias, e transformam o
sentimento de medo em coragem, buscando a liberdade ou a colocação de limites
nessa situação. Ao fazer a denúncia, a mulher já se mostra fortalecida, e esse passo
já indica um desejo de sair da situação em que se encontra.
No presente estudo, percebe-se que a Delegacia não atendeu ao desejo de
justiça expressado pelas mulheres, porque buscam ali a punição do agressor, o
respeito e o bom atendimento; mas, ao contrário, deparam-se com situações
consideradas humilhantes, muito tempo para serem atendidas, e sentem-se
marcadas como um caso, um número, uma rotina.
[...] esperei quarenta minutos para ser atendida, e fui atendida super
friamente, a moça que me atendeu nem olhou para mim, acho que ela
pensou “ah é mais um caso”, e eu fiquei super chateada, super
constrangida e com raiva, por não ter o apoio que precisava. ela falou
que eu tinha que voltar na Delegacia para falar com a delegada [...]. Você
precisa de apoio de um profissional para segurar na sua mão e dizer que
tudo vai dar certo que ele vai ser preso [...] você chega lá encontra a pessoa
fria e perguntando como foi e você em uma situação tão abalada e ainda ter
que relatar tudo [...] para uma pessoa fria. Isso é muito doloroso [...]. A
pessoa entra e pensa é mais um caso [...] mas não é mais um caso [...] é
mais uma vida [...] é mais uma mulher, é mais um ser humano [...] as
pessoas não olham desse lado, não imaginam como fica a cabeça e o
coração de uma mulher que foi violentada, passa mil e uma coisa, você
pensa até em morrer.
[...] eu vou para a Delegacia e ele ficou rindo da minha cara, o acreditou
[...]. A gente foi à Delegacia e não adiantou nada, ele ficou solto. Passei a
noite todinha na Delegacia, voltei à Delegacia esperando o resultado para
saber se ele ia preso ou não, mas não foi preso. Fiquei triste, porque uma
coisa dessas acontece com a gente e não tem resultado nenhum. Eu passei
vergonha na Delegacia, fui passar vergonha, não aconteceu nada, ele
foi impune e ficou impune, ele não pagou pelo que fez.
51
Em geral as falas expressam que, na Delegacia, buscam ser ouvidas para
que o agressor possa ser punido; entretanto, paradoxalmente a esse desejo, essas
mulheres encontram um atendimento muito tecnicista, que pouco lhes oportuniza
expressar suas emoções. Acreditam que essa situação é vista pelo profissional que
as atende como mais uma caso, e sofrem outras pressões psicológicas,
principalmente quando a violência acontece no meio intrafamiliar, pois o agressor,
além de não ser punido, ainda sorri diante do resultado negativo.
Na fala das participantes, é possível observar que expressam a vergonha que
sentiram na Delegacia; entendem que essa questão de punição é algo lento, que
acaba caindo no esquecimento. Este pensamento também é verificado em estudo
de Bedone e Faúndes (2007), quando colocam queuma falta de credibilidade por
parte de mulheres vitimadas em relação ao setor Judiciário, pois se percebe que os
casos de violência não m a importância que merecem, culminando na falta de
punição. Gomes (2003) informa que, mesmo sem acreditarem, a visibilidade deste
problema, através da denúncia, foi iniciada pelo movimento feminista na cada de
1960, permitindo estudos e o avanço das políticas públicas.
Essa busca pela punição do agressor nem sempre acontece com todas as
mulheres vitimadas, quer seja pela falta de conhecimento do serviço quer seja em
razão das ameaças sofridas pelo agressor. Em algumas sociedades, como a
paquistanesa, mulheres violentadas sexualmente, em geral, não suportam o
acontecido, e cometem suicídio; fato este revelado por Mai (2007) ao falar sobre sua
experiência com a violência sexual e sua dúvida entre a vingança e o suicídio. Ao
optar por justiça, a mulher contraria o que é esperado pela sociedade.
Ainda citando o caso das mulheres paquistanesas, nesse sentido, uma delas
obteve a colaboração de um jornalista, que transformou sua historia em fato de
repercussão internacional, transformando-a em símbolo de força e exemplo para um
novo modo de responder a este e a outros tipos de violência que acometem as
mulheres do Paquistão.
Percebe-se que tem sido freqüente a procura, primeiramente, pelo Serviço
Judiciário; no entanto, as mulheres vítimas de violência sexual devem procurar
inicialmente o Serviço de Saúde, para que sejam atendidas por uma equipe
multiprofissional, integrada a uma rede de serviço para realizar os encaminhamentos
necessários. Destacam a importância da capacitação de todos os profissionais
envolvidos nesta assistência, desde a recepção, para que se evitem atitudes
52
negativas e diminuam as possibilidades de comprometer a assistência (BEDONE;
FAÚNDES, 2007).
Vasquez e Milhomens (2005) mostram em seus estudos a incoerência
estabelecida entre fato traumático vivenciado e a atuação dos profissionais na
Delegacia, um espaço que lhe poderia favorecer, onde poderia ser ouvida e
compreendida em seu sofrimento.
Neste estudo, algumas mulheres preferem acreditar que um dia o agressor
será punido, através da justiça de Deus.
A mulher tem que acreditar na justiça de Deus, porque se a justiça do
homem não faz nada com certeza a de Deus não falha [...] a mulher que
passou por isso deve ter força e fé que um dia aquelas pessoas que fizeram
isso vão pagar, porque o homem que se presta a fazer isso é um animal, é
um verme e o que é dele está guardado
Mas você não vai ficar esperando a justiça de Deus não, você vai agir [...]
você não vai ficar esperando as coisas caírem do Céu não, você tem que
correr atrás daquilo que você quer [...] mas a minha mãe fica metendo coisa
na minha cabeça.
Diante da demora e quase nenhuma solução na Delegacia, as mulheres
vitimadas compartilham essa responsabilidade com Deus, para que possam punir o
agressor, não importando o tempo que poderão levar para que tal aconteça, pois
sabem que a punição será justa. Outras pensam de modo diferente; decidem
continuar lutando por justiça, embora orientadas pela família para não realizar a
denúncia; isso acontece principalmente quando a violência ocorre no ambiente
intrafamiliar.
Na Delegacia, as mulheres passam a ser informadas e encaminhadas para o
Serviço de Saúde. Assim se deixam levar, na perspectiva que será o local ideal
para resolver seus problemas, e vão à procura do atendimento mais adequado para
casos desta natureza. De acordo com a norma de atendimento do Ministério da
Saúde, a mulher vitimada precisa passar por estes dois serviços no início da
assistência.
Assim, outra questão apontada nos depoimentos é a busca pelo Serviço de
Saúde. Em princípio, as mulheres vão impulsionadas pelo desejo do acolhimento;
desejo de poderem expressar seu discurso, de serem ouvidas por profissionais
distantes de seu contexto de vida, do mundo físico e relacional. É como se eles, de
repente, pudessem apertar o botão “mágico da solução” que necessitam para
suportar tanta vergonha e dor. Assim o conteúdo é significante nessa questão.
53
Eu não conhecia o serviço SAMVVIS, quando eu cheguei fui bem
atendida foi tudo muito bom, me deram medicação [...] mas não retornei
mais [...] fiz tomar a medicação não fiz os exames [...] como ele tinha
usado camisinha [...]. Eu senti uma certa preocupação do serviço [...] as
mulheres são bem atendida, deixam agente a vontade, falar só o que quer.
Na maternidade tomei medicação, para evitar doença, passei uma semana
deitada, não conseguia me levantar [...] na maternidade foi legal tentaram
conversar comigo.
Na maternidade mesmo, eu fui no dia que era para fazer o exame [...] a
demora [...] o atendimento foi tranqüilo [...] e também a questão da
medicação que ele prescreveu [...] uma parte foi dada a outra parte eu
peguei em outro hospital [...] ai como eu tinha plano de saúde, meu
acompanhamento foi pelo plano de saúde, fui ao psicólogo, ao
ginecologista. Um mês depois a moça ainda ligou para mim dizendo que o
atendimento era para o dia 20 de agosto e ai assim eu não fui esperar para
a consulta deles fiz tudo particular.
A informação de que existe um setor de Saúde para casos desta natureza
enche a mulher de esperança; ela acredita que pode encontrar, além da
oportunidade de expressar seus sentimentos, algo que suavize suas inquietações
subjetivas, como o medo, a dor, o desespero, para que possa sair mais fortalecida
da situação em que se encontra. Entretanto, este serviço oferece, no primeiro
momento, um tratamento curativo e preventivo, mas o corresponde às
necessidades de seu lado emocional.
De acordo com a percepção e o relato das mulheres estudadas, o serviço
está organizado por protocolos de assistência, tais como o exame físico, exames
laboratoriais e uso de medicamentos. Percebe-se também o desconforto em relação
à sua exposição e pré-julgamento por alguns profissionais. O conteúdo aponta
algumas contradições em relação ao atendimento realizado pelo Serviço de Saúde.
Para Cyrulnik (2004, p.171) “quando o ouvinte manifesta mímicas de desagrado, ou
de incredulidade, ele transforma o ferimento em traumatismo”.
Eu não retornei ao serviço porque achei que não ia adiantar. Queria receber
apoio, diálogo; a gente chega abalada e as pessoas olham assim de
canto de olho para você.
Para Okada (2007), a mulher vitimada precisa muito mais de acolhimento do
que protocolos, desde o momento da procura pelo serviço. Oliveira (2007) também
chama a atenção para essa assistência que prioriza a prevenção de doenças, o que
para ele fragmenta o contexto de subordinação que marca a vida das mulheres.
Acrescenta ainda que a assistência é primordial; a realização de procedimentos
técnicos deve ser associada à cumplicidade do profissional.
54
A mulher vitimada tem brevidade em relação ao seu atendimento, pela
necessidade de ser ouvida e compreendida por uma pessoa. Neste sentido, o não
retorno culmina com a falta de adesão ao acompanhamento ambulatorial,
preconizado pelo Ministério da Saúde, o que poderia suprir suas necessidades
individuais. Para Cyrulnik (2005, p.184), “quando, apesar do sofrimento, um desejo é
murmurado, basta que outro o ouça para que a brasa da resiliência torne a se
acender”. Entende-se, portanto, que essas mulheres não querem se deixar abater
pelo acontecido; buscam os serviços, bem mais, para serem ouvidas, e, assim,
reforçarem suas capacidades resilientes para a possibilidade de superação do
trauma a que foram submetidas.
Contraditoriamente, o Serviço de Saúde também não corresponde às
expectativas da mulher, pois se encontra organizado com a priorização da
assistência técnica fundamentada na prevenção de agravos, como doenças
sexualmente transmissíveis, AIDS e gravidez indesejada, suprimindo as marcas da
alma.
Diante do elevado número de casos de violência sexual praticada contra a
mulher e as seqüelas de ordem física e mental, os profissionais inseridos neste
atendimento devem associar uma assistência de acordo com o protocolo e as
necessidades individuais de cada mulher. O seguimento ambulatorial seria uma
forma de acompanhá-la também em seu estado emocional, entretanto, verifica-se
que as mulheres nem sempre atendem o chamado do serviço, impossibilitando que
este cumpra esse seu papel.
Matar et al. (2007) falam sobre a experiência da assistência a mulheres
vítimas de violência sexual em uma Casa de Saúde em parceria com a
Universidade Federal de o Paulo. Realiza-se lá, pela Equipe de Enfermagem,
desde o acolhimento, à solicitação de exames laboratoriais, coleta de dados
pessoais, e também sobre a agressão e agendamento da consulta para outros
profissionais, geralmente para o mesmo dia. As autoras ressaltam ainda o aumento
da adesão pelo serviço, e que o estágio na casa se constitui uma atividade curricular
da Graduação em Enfermagem e Medicina preventiva.
Vale destacar também a experiência positiva de Higa, et al. (2008), que
realizam assistência às mulheres vítimas de violência sexual através da Associação
dos Protocolos de Atendimento de Enfermagem, com a orientação da Associação
Norte-Americana de Diagnóstico de Enfermagem (NANDA).
55
Oliveira (2007), durante discussão em fórum sobre violência, discorre sobre a
falta de profissionais preparados para prestar assistência de qualidade, e recomenda
que a violência sexual seja discutida nos espaços universitários. Em Teresina-PI,
têm sido comuns as discussões sobre esta temática para residentes na Maternidade
Dona Evangelina Rosa (MDER). Entretanto, o que se observa são esforços isolados
de poucos profissionais, e o grande incentivo da coordenadora do SAMVVIS, que
compreende esse lado, e busca realizar palestra, encontros, motivando os
profissionais para o engajamento do serviço.
4.2 Classe 3: Enfrentando o sofrimento emocional e relacional decorrente da
violência sexual sofrida
A Classe 3, associada diretamente com a primeira, possui 39 UCEs,
representando 18,05% do total do corpus. Extraída predominantemente dos
discursos dos sujeitos 1, 2, 3, 4, 5, 6, 7, 8, 9, que são mulheres com idade entre 18 a
52 anos; então, 5 são solteiras, 2 casadas e 2 viúvas, com níveis de escolaridade
desde Ensino Fundamental incompleto à Pós-Graduação. O sujeito 1 foi violentada
por um desconhecido que invadiu sua casa enquanto seus pais dormiam na
varanda; O sujeito 5 foi violentada por um desconhecido; o sujeito 7 trabalhava em
um bar e foi violentada por 2 homens que bebiam neste local, o sujeito 8 foi
violentada ao voltar de uma festa na casa da vizinha, por um adolescente.
Os vocábulos mais significativos nas UCEs desta classe são “pec+”, “vida+”,
“filho+”, “viv+” “consigo+”, “irmã+”, “trabalho+”, “fac+”, “obedecer+” que possuem χ
2
maiores como respectivamente 21, 17, 17, 17, 14, 12, 11, 11, e outros de χ
2
menor
que também se apresentam em sua forma reduzida como “obedecer+” “lugar+”,
“encontar+”, “estudo+” estão demonstrados em suas formas reduzidas (Figura 1).
As UCEs revelam que, diante das limitações dos serviços, as mulheres
vitimadas buscam estratégias e alternativas para enfrentamento do problema a fim
de resgatar sua força interior e continuar com as suas responsabilidades no trabalho,
no meio social, de formas as mais variadas possíveis.
Estava me sentindo mal, passei uns 15 dias sem conseguir trabalhar, fiquei
em casa mesmo para ver se melhorava para voltar a trabalhar.
Tenho muito pesadelo [...] ao ouvir qualquer barulho acordo assustada
[...] e isso ai vai perdurar por um bom tempo [...]. Eu procurei também no
início uma psicóloga; tirei licença do trabalho, mas [...] não achei que fosse
acrescentar muito [...] que fosse ajudar muito.
56
Minha auto-estima ficou horrível, seis meses depois foi que comecei meu
Curso de Especialização, e eu pensava muito mais no episódio do que na
aula, eu nunca tive dificuldade de falar em público. Fiquei com problemas
[...] tive dificuldade de apresentar os seminários, uma coisa que era muito
simples.
Eu não consegui trabalhar porque eu trabalhava no meio de homens, eu
fiquei constrangida, eu tinha medo que pudesse acontecer de novo, eu
ainda não estou estudando.
Através dos depoimentos, percebe-se a dificuldade de as mulheres
continuarem com suas atividades. Elas faltam até 15 dias de trabalho consecutivos,
outras ainda fazem uma tentativa de continuar realizando suas atividades, mas
passam a conviver com a presença de pesadelos à noite; se assustam com qualquer
barulho, têm diminuição da auto-estima e dificuldade para realizar tarefas simples;
protelam seus objetivos, têm dificuldade de convivência com as pessoas de seu
trabalho e com o sexo masculino; e algumas preferem tirar licenças.
Essa questão de não dar continuidade às suas atividades muito lhes
incomoda, além da necessidade de sustentação financeira, e também por
reconhecerem que o trabalho e a busca por melhores condições de vida dignificam a
mulher e contribuem para o desenvolvimento de relações interpessoais. Mas o
importante é que continuam tentando superar a traumática experiência da violência
sexual.
Como uma nova forma de buscar o equilíbrio interno, pessoal, falam do
consolo da família, do apoio da mãe, dos filhos. Assim, a família é considerada fator
de proteção e de recuperação em casos de agressões a qualquer um de seus
membros. São os pais, os irmãos, os filhos, os avós, que, juntos, criam o círculo
afetivo capaz de lançar fatores de resiliência.
Para Cyrulnik (2004), os apoios afetivos e verbais oriundos de famílias bem
estruturadas e conscientes do seu papel permitem a resiliência. Entretanto, quando
essas famílias são rígidas ou não tão estruturadas, o apoio sempre é buscado fora
do ambiente familiar. São os amigos que ajudam a reconstituir a auto-estima e a dar
o apoio que tanto necessitam. Desta forma, as mulheres desse estudo falam da
busca pelo enfrentamento relacional e reestruturação de suas atividades,
começando pela família, mas nem sempre da maneira como esperavam encontrar.
A minha família é minha mãe [...] eu e ela, mas eu tenho outros parentes
que no momento do acontecido foram solidários [...] mas depois criticaram
pelo fato de a gente trabalhar no bar. Era só nós duas, e começaram a
criticar [...] então minha tia ficou falando [...].
57
A minha família [...] a minha mãe e o meu pai [...] não me ajudaram em
nada, a única coisa que fizeram foi me tirar de lá, a gente faz tudo para não
lembrar, ninguém me ajudou [...] é a primeira vez que eu falo do assunto
[...].
Minha família é minha mãe; meu namorado [...] a minha avó esdo lado
dele, esapoiando ele. Ela diz que é mentira, eu passei uma semana sem
querer comer, tive até depressão por causa disso [...] a família da minha
mãe está do meu lado [...] a mãe dele jura que é mentira.
A minha irmã [...] ela viu e ela não teve coragem de me ajudar [...] acho que
não é amor [...] é doença [...] como é que ela consegue conviver com ele
[...]. No outro dia, ela veio falar comigo com ele, perguntar o que aconteceu
[...]. Eu o vou mais à casa da minha mãe porque estou muito magoada
com ela; não ando mais na casa de minhas irmãs porque toda vez que eu
quero ir para a minha irmã essempre com ele , eu me afastei , estou
vivendo praticamente só [...].
Estes discursos demonstram em seus conteúdos a dificuldade que tem a
família para falar no assunto, e normalmente tentam resolver o problema mudando
de endereço. É perceptível também como as mulheres sofrem pelo estigma do
preconceito da violência sofrida. Ainda se percebem comportamentos “doentios” de
algumas pessoas da família que presenciaram o fato e nada fizeram para socorrer a
vítima. Algumas mulheres falaram pela primeira vez sobre o problema.
Para Araújo (2002), a revelação da violência intrafamiliar torna explícita a
situação de violência na família. Além disso, este momento de revelação provoca
crise em toda a família, e os profissionais por não saberem o que fazer. A autora diz
ainda que a assistência deve envolver uma ação punitiva, protetora e terapêutica.
Neste estudo a participação da família acontece de maneira muito restrita,
apenas as pessoas mais próximas ficam sabendo da situação, e a assistência
depende do grau de discernimento sobre esta questão, do fator cultural, empatia
com a vítima e da idade do ouvinte. Foi possível perceber que algumas famílias o
se o conta da dimensão do problema, e a vítima vai cada vez mais vai guardando
sentimentos, se retraindo e não sendo compreendida pelo meio social em que está
inserida.
Ainda de acordo com Araújo (2002), o silêncio da violência intrafamiliar pode
percorrer várias gerações, em que todos sabem o que aconteceu. Contudo, não se
fala do assunto em nome de uma pseudo-harmonia familiar.
Percebe-se a dificuldade na maioria das famílias de tocar no assunto, pois
acreditam que essa é a melhor forma de resolver o problema. Assim, as mulheres
vitimadas preferem conversar com pessoas externas sem vínculo familiar, como
alguma amiga do colégio; e quando contam para alguém da família, ainda é de
58
modo superficial. A questão da intensidade do apoio tem uma relação com o grau de
compreensão que o ouvinte tem sobre o problema, do grau de afetividade com a
vítima, e isso vai ser determinante na ajuda para a busca de condutas adequadas.
Eu sou viúva, e tive que contar para meus filhos [...] Na verdade, eu tenho
muitos irmãos, a maioria nem sabe o que aconteceu, só conversei com dois,
porque eles dois têm mais capacidade de entender.
Com a minha menina, eu não toco no assunto; ela sabe que entrou um
ladrão que roubou meu celular e que roubou o dinheiro da vovó.
tenho duas amigas, não sou assim de andar conversando [...] são todas
duas irmãs [...] A minha tia ficou desesperada, a minha avó foi saber
depois porque ela é velhinha e tem problema do coração.
Existe uma preocupação da tima em, primeiramente, determinar quem ela
pode eleger para compartilhar o problema, e esta escolha está muito mais
relacionada em minimizar o sofrimento do ouvinte do que dela própria. No decorrer
das entrevistas, foi comum referirem se, caso determinada pessoa da família
soubesse, iria sofrer muito, então, preferiu não contar, como, por exemplo, para a
avó que era idosa e não merecia saber, ou para os filhos, por medo de interferir
nas atividades, preferindo contar outras situações como somente a presença de
pessoa estranha na casa ou mesmo de arrombamento por ladrões. Para Cyrulnik
(2005), essa conduta pode ser entendida por um comportamento adultista, quando
se tenta, mesmo sendo negligenciado, preservar um vínculo cuidando das pessoas
significantes.
Dados de estudos realizados em 1997, pelo Banco Interamericano de
Desenvolvimento, informam que filhos de mulheres vítimas de violência intrafamiliar
têm mais chance de adoecer e maior probabilidade de repetições ou abandono das
atividades escolares (BRASIL, 2001). Talvez ela não tenha relatado, visando
protegê-los de futuros traumas. Essa também é considerada uma atitude positiva
dessas mulheres, pois, ao poupar o sofrimento do outro, demonstram ser capazes
de seguir em frente e que, ao avaliar os danos que causariam, conseguem olhar
para dentro de si e fazer uma auto-avaliação deste momento em sua vida.
Quando a mulher vitimada tem ao seu lado uma pessoa significativa para lhe
oferecer proteção, percebe-se que a orientação é realizada dentro de seu padrão
cultural; geralmente ela orienta, alertando para os riscos e possibilidades de
acontecer novamente, e passa a sair em companhia da vítima para vários lugares.
59
A minha mãe sempre diz: bota a vergonha de lado e eu botei a vergonha de
lado, e assim mesmo eu faço.
Meu ponto de apoio é minha mãe [...] ela não me deixa ficar só [...] conversa
comigo [...] a gente sai para casa de amigos.
A minha tia diz para eu ter cuidado, andar sempre com alguém, não chegar
tarde em casa, porque eu não saio para lugar nenhum, eu tenho medo de
sair e encontrar com ele por aí, porque ele anda em todo lugar, ela diz para
eu não sair, diz que o mundo é perigoso.
Contrário a estes conteúdos, encontram-se outros, apontando esse apoio de
modo delicado, tanto por parte da mãe, como de outros membros da família, quando
a violência acontece no meio intrafamiliar.
Eu acho estranho, toda mãe fica do lado da filha, porque minha irmã é
uma pessoa que não trabalha, é analfabeta, tem 2 filhos para criar, isso não
justifica. Ninguém precisa depender de ninguém não; eu trabalho desde os
dez anos de idade; eu me sustento, pago minha escola, eu não peço um
centavo a ela. Sabe o que eu não consigo entender.
Desde os nove anos de idade meu pai tentou me violentar, que ele o
conseguiu; mandou eu calar a boca e disse que se eu não calasse a boca ia
me matar [...] agora ele conseguiu [...] eu passei uma semana sem querer
comer, tive até depressão por causa disso [...] só a família da minha mãe
está do meu lado [..] a mãe dele jura que é mentira.
Eu não ando mais na casa da minha mãe [...] como é que você é tão amiga
da sua mãe, você ama sua mãe de verdade e ela é a primeira a pedir para
você não fazer isso [...] e ela pede para eu não denunciar [...] e diz que eu
vou estragar a vida da minha irmã [...].
Na análise desses depoimentos, observa-se que nem sempre os familiares se
manifestam favoráveis à vítima. Embora considere a família muito importante, passa
a conviver com a solidão, e não consegue freqüentar os mesmos locais do agressor,
visto que foram os próprios familiares seus agressores.
Cyrulnik (2005, p. 160) afirma que “no deserto afetivo pequenas chamas de
resiliência permitem manter a esperança”. Entende-se que as mulheres desse
estudo, mesmo apontando solidão familiar, a falta do círculo afetivo e tendo que
conviver, mesmo em momentos eventuais com seus violentadores, ainda assim
conseguem no universo da solidão apontar flechas de resiliências, mostrando que
no caminhar de sua existência souberam superar muitos momentos difíceis.
A violência intrafamiliar para Minayo (2006) é freqüente, no entanto, de difícil
quantificação, pois geralmente a denúncia ocorre por terceiros, e tem como
conseqüência a gravidez, abortos clandestinos e o abandono do lar, bem como
seqüelas físicas e mentais caracterizadas por uma variedade de sintomas, tais como
depressão e dificuldade de se relacionar.
60
Essa manifestação da família desfavorável à vítima, geralmente, está
relacionada com as questões de submissão de alguém pelo agressor. Porém, para
minimizar o sofrimento familiar, a mulher vitimada, na maioria das vezes, carrega
sozinha a dor de ter sido violentada, e passa a realizar suas atividades de forma
mecânica e pouco prazerosa. Dessa maneira, ocorre o aumento de seu sofrimento,
e resulta em grandes perdas dos laços afetivos que iriam envolvê-la e ajudar a
amenizar este sofrimento. Assim a vítima passa a lamentar o espaço perdido em
função do agressor.
Outras mulheres tiveram muita dificuldade em compartilhar o problema com
os filhos, e consideraram este momento muito difícil, pois acreditam que foram
frágeis, não sendo capazes de se defender. Além disso, carregam a
responsabilidade de proteção dos filhos, presente em todos os momentos de sua
vida.
Minha filha ficou muito impressionada, meu filho disse que isso era muito
grave, mas entenderam. Eles ficaram preocupados, minha cunhada deu
todo apoio. Eu não pude me defender. Eu estou diante de um monstro,
então eu tenho que usar a minha inteligência, eu não posso ir contra a
vontade dele, é minha vida que está em jogo, a vida da minha filha que
estava do lado. Então, pensei, eu vou obedecer.
As entrevistas proporcionaram para algumas mulheres uma oportunidade de
reflexão sobre sua vida. Uma delas relatou que havia ficado órfã alguns anos, e
que foi nesse momento que mais sentiu a falta de sua mãe, pois ficou sem proteção;
e, após a ocorrência da violência sexual, teve uma lembrança de sua mãe, e disse
que gostaria muito que ela estivesse do seu lado.
Na minha compreensão, foi neste momento que ela se deu conta da falta de
sua mãe. Até então, tinha superado obstáculos, como o óbito do esposo e a
dificuldade de criar os dois filhos sozinha.
Neste estudo, algumas famílias ficaram abaladas e tiveram dificuldade de
aceitar o fato; desenvolveram sentimentos de culpa, diante da violência sexual, pela
suposta falta de proteção; desencadearam, no decorrer do tempo, algumas
alterações de saúde, como, por exemplo, medo, hipertensão, obesidade e outros
agravos. Ou seja, acharam difícil a violência sexual ser uma realidade em sua família
e no ambiente domiciliar.
[...] eu acordei minha mãe e meu pai [...] e meu pai achava que eu tinha
sonhado que era mentira [...] minha mãe foi no meu quarto e achou a
camisinha [...].
61
Percebe-se no depoimento que, diante da situação de violência no ambiente
domiciliar e da maneira mais audaciosa possível, a família preferiu associar a outro
episódio, como loucura da filha, sonhos, mentiras; e tiveram primeiramente a idéia
de levar em hospital psiquiátrico.
Isso acontece porque muitas pessoas acreditam que a violência sexual é uma
situação distante de seu contexto sociocultural. Entretanto, neste estudo, a violência
está presente em todos os níveis de escolaridade, em diversos tipos de famílias,
condição social e estado civil.
Apesar de nem todas as mulheres terem compartilhado o problema, a família
se constitui em uma excelente rede de apoio e acolhimento à vítima, tornando-se
fundamental nessa luta pelo enfrentamento da violência sexual, pois a confiabilidade
é algo perdido nesse percurso de violência, e é nela que se fortalecem os laços
afetivos que devem ser utilizados como um fator de proteção.
Algumas pessoas da família assistem a mulher apenas nos primeiros dias
após a ocorrência, fato que está mais relacionado à questão da segurança
domiciliar. O que se refere a ouvir e saber como a pessoa se encontra é pouco
valorizado. Acredita-se que isto se deve ao fato de não haver clareza para a família
sobre os impactos e dimensões da violência. Neste sentido, preferem priorizar suas
atividades como o trabalho e o estudo; e, em alguns casos, acabam sugerindo um
relacionamento conjugal para a tima, como se fosse resolver sua segurança e
proteção.
Muitas mulheres vitimadas passam a conviver com traumas, e têm aversão a
fatos que relembrem episódios da violência, quer seja representado por um gesto,
cheiro, quer seja por cores, vozes. Para Cyrunilk (2004, p.125), “só podemos ser
tocados pelos objetos aos quais nosso desenvolvimento e nossa história nos
tornaram sensíveis, pois lhes atribuímos um significado particular”. Diante destas
circunstâncias, algumas mulheres vitimadas desenvolvem sentimentos de raiva e
medo, e acabam deixando aquele lugar ou convivência. Para o autor, a “suspensão
do trauma não é o fim do problema”, pois os ferimentos irão constituir sua história; e
a busca da cura consiste em um lento trabalho de cicatrização do corpo e da
memória. No entanto, boa parte das mulheres vitimadas desenvolve mecanismos de
proteção, procurando o lembrar; e vivem em uma busca contínua para esquecer
esta situação dolorosa.
62
Sentindo o cheiro, a presença dele, mas depois eu comecei a me
acostumar e não deixar que isso atrapalhasse minha vida. Vi que não valia
a pena aquela pessoa destruir minha vida, e fui tentando viver da melhor
maneira possível.
Neste sentido, a mulher vitimada precisa ser envolvida por uma rede de
proteção, que possa dar suporte no que se refere ao apoio emocional, dando-lhe
segurança, oportunizando-lhe compartilhar seus traumas, através de fórum de
discussão e fortalecendo suas capacidades.
Para superar mais ou menos isso, assim [...] à noite é meio complicado.
Mas a questão da companhia do meu esposo me muita segurança. Aqui
a gente tenta não falar muito, a gente tenta esquecer, e, assim, às vezes
meu esposo faz assim na brincadeira alguma coisa que me relembre a
cena, e eu peço para ele parar, ele pede desculpas, ele tem que parar.
Como uma maneira de resolver o problema, outras mulheres se fortalecem
em um relacionamento estável, que garanta a segurança domiciliar durante a noite,
por medo do retorno do agressor. Geralmente, o relacionamento é sugerido por
familiares ou alguém conhecido, como uma forma de resolver o problema, pois a
presença masculina no domicílio intimida o agressor.
Contraditoriamente, é importante salientar que algumas mulheres pensam de
outro modo, e preferem não mais acreditar no sexo masculino; logo, a questão de
novos relacionamentos é algo delicado e difícil de acontecer. Preferem investir em
outras atividades, como se dedicar mais aos estudos, passear, ir à igreja e algumas
vezes se isolar.
Pode ser o cara mais trabalhador da face da terra, mas eu tenho isso ai na
hora! E eu não gosto que chegue perto de mim, sabe. Assim me
vontade, se eu pudesse, eu chegava assim e arrancava, esganava o
pescoço.
Eu também não consegui mais ficar com meu namorado [...] Toda vez que a
gente ficava eu não conseguia [...] Toda vez que eu ia ficar aquela
lembrança vinha e eu o empurrava, e ele disse que eu tinha outro; ficou
desconfiado [...] eu não contei para ele e a gente terminou [...].
Nos relacionamentos é difícil aceitar um contato mais íntimo, pois as mulheres
vitimadas têm dificuldade de compartilhar o fato com o parceiro, pela dúvida, e o
medo de como será a reação dele; e acabam não sendo compreendidas; fato que
leva o parceiro a fazer julgamento quanto à existência de uma terceira pessoa.
Diante desta situação em que a mulher está permeada de sensibilidade, decide
romper com o relacionamento e passa a conviver com a decepção e dificuldade de
confiar no sexo oposto.
63
Cyrulnik (2004) afirma que, diante dos ferimentos, os resilientes desenvolvem
sentimentos de gratidão e um cuidado excessivo com o outro. Entretanto,
desenvolvem também o medo de receber o amor que eles podem proporcionar.
4.3 Classe 4: Buscando ser resiliente dia após dia
A Classe 4, associada diretamente a 1 e a 3, encontra-se formada por 31
UCEs que representam 14,35% do total do corpus. Nesta classe, os vocábulos se
apresentam em sua forma reduzida como: “camisinha+”, “busco+”, “exame+”,
“médico+”, “fiz+”, “força+”, “SAMVVIS+” que possuem x2 mais elevados, sendo
respectivamente 28, 28, 23, 18, 18, 14, 14 (figura 1). Estes vocábulos estão
associados a outros de χ
2
menores como: “comentário+”, “dado+”, “lutar+”, “muita+”,
“procur+”, “ajuda+” “religião+”; foram extraídos principalmente das entrevistas dos
sujeitos 1, 3, 4, 6, 11.
O sujeito 11 tem idade entre 29 a 30 anos, trabalha como doméstica, é
solteira e tem o Ensino Fundamental completo. Deste modo, através da classificação
hierárquica descendente, foi possível identificar maneiras de enfrentamento da
violência sexual no seu cotidiano.
As UCEs apontam que o enfrentamento da violência é evidenciado em
algumas mulheres desde o momento da ocorrência; e, ainda assim, o cotidiano
delas é marcado pela busca para amenizar seus problemas. Saber que o agressor
usou camisinha e que não bateu nela, e que o SAMVVIS ofereceu a medicação e
teve oportunidade de fazer exames, isso lhes proporciona muito conforto.
Ele não me bateu [...] ele sabia da minha rotina.
Como eu fiquei quietinha, fui obediente, de certa forma não foi provado um
estupro, pois até camisinha comigo ele usou. Tiveram outras que o, ele
bateu [...].
Fiquei em casa mesmo, para ver se melhorava, para voltar a trabalhar; fiz
todos os exames, deu tudo normal, agora o medo acabou mais, mas tenho
medo de ele voltar [...].
Embora, tenham relatado na Classe 1 que buscaram o Serviço de Saúde para
serem ouvidas, o fato de o agressor ter usado preservativo proporciona-lhe mais
segurança. A realização dos exames, através do SAMVVIS, juntamente com o fato
de saberem que não adquiriram doenças ou uma gravidez deixa as mulheres
vitimadas mais tranqüilas, embora ainda continuem a conviver com a situação de
64
medo do agressor. Outra questão levantada pelas depoentes é o fato de não ter
acontecido o pior, como, por exemplo, ter batido nelas, ou até mesmo a morte.
Para Curynilk (2006, p. 179), em um “processo resiliente, trata-se de descobrir
como se pode tornar a vida sem repetir a agressão ou fazer carreira de vítima”. O
autor ainda traz para a reflexão que a resiliência tenta responder a duas perguntas:
– “Como é possível ter esperança quando se está desesperado? E como fiz para dar
a volta por cima”?
Assim, com base no conceito de resiliência do autor “de a arte de navegar nas
torrentes” e nesta investigação sobre relatos íntimos do experienciado da violência
sexual, busca-se descrever como as mulheres desse estudo encontram forças para,
no dia a dia, enfrentarem superando o fenômeno expressado.
O enfrentamento da violência é evidenciado em algumas mulheres desde o
momento da ocorrência, e, ainda assim, o cotidiano das mulheres vitimadas é
marcado pela busca para amenizar seus problemas, através da fé, na força interior,
na fuga de relacionamentos, uso de medicação e outras atividades.
E quando eu lembrava, procurava fazer alguma coisa para esquecer, mas
assim [...] a minha família não me perguntava nada, não comentava, e
nunca perguntou como eu estava me sentindo [...] e isso me atrapalhava
mais ainda [...] a única pessoa que me deu força foi Deus; eu busco força
nas minhas orações, sempre que eu leio, eu clamo a Deus, eu não tinha
uma religião definida.
Então eu sou muito devota, eu tenho muita fé, tenho um altar. Ele está na
frente, de certa forma, Nossa Senhora Aparecida me protegeu muito, ele
não me machucou [...] ele usou preservativo.
Vai passar, é só uma fase, um dia vou ser feliz, um dia Deus vai me
recompensar por isso que eu estou fazendo e por isso que estou passando,
porque ninguém é infeliz o resto da vida, sempre Deus nos compensa pela
nossa superação.
Mesmo diante da falta de apoio da família, as mulheres buscam decisões
sobre qual caminho percorrer, se continuam ou desistem, e este caminhar é
percorrido por muitas dúvidas e cheio de contradições. É muito freqüente as
flutuações de humor nas decisões, pois têm dias em que acordam e não conseguem
trabalhar direito, ou ir para a escola, assistir a todas as aulas; no entanto retornam
para a realidade e sabem que devem continuar buscando seus objetivos que um dia
serão felizes.
Esse enfrentamento também é percebido na esperança de que dias melhores
virão, e buscam compreender os fatores e motivos relacionados a esta situação.
Esta esperança acontece como um despertar em sua vida, para que possam buscar
65
um sentido para continuar vivendo e preenchendo o seu dia de maneira mais
satisfatória. Ao mesmo tempo, oscilam em suas decisões e pensam em desistir. Em
outro momento, acreditam que é mais uma fase da vida e buscam a
compreensão de um ser supremo. Acreditam que, a partir da traumática experiência,
podem compreender outras mulheres na mesma situação.
Eu acredito que Deus tem plano na vida de cada pessoa; eu creio de alma e
de coração que isso aconteceu comigo para que Deus me desse força, para
que eu possa ajudar outras pessoas. Senhor aconteceu isso comigo, então
preciso de ajuda.
Peço que venha me ajudar, peço que me coragem para eu viver
consciente do que aconteceu; mas não aconteceu mais nada grave, vivo
normal agora minha vida.
Eu resolvi deixar na mão de Deus, que a justiça do homem não vai fazer
nada e, inclusive, ele está na porta da minha igreja, toda vez que vou à
igreja, e eu o faço nada só olho para ele e peço para Deus ter
misericórdia dele.
Nos depoimentos, é presente a crença em um ser superior, capaz de
compreender tamanha dor; e geralmente é buscada em uma aproximação com
alguma religião. A maioria das mulheres passa a buscar essa fé após o fato
violência; relatam que conversam com Deus e freqüentam alguma igreja, talvez pela
valorização e busca de um vínculo que proporcione um acolhimento. Além disso,
buscam novas amizades e parece que algumas fazem um pacto com Deus, como
uma espécie de compromisso para sair viva daquela situação de violência sexual,
pois consideram que o pior teria sido a morte. Estudos de Cyrunilk (2004) apontam
que a parte sadia da personalidade da mulher poder-se-á manifestar através da
religião e reduzir o sofrimento, entretanto, o não esquecimento do fato.
Murphy (2003) afirma que todo ser humano tem capacidade de buscar uma
força infinita, para que possa iluminar suas decisões durante situações adversas. A
é a consciência viva do poder smico, e, quando se manifesta, os fracassos são
degraus de sucesso. Acrescenta que para se ter cura espiritual deve-se estar em
sintonia com o consciente e o subconsciente.
Constata-se a existência de vários estudos que abordam a questão da
religiosidade com o processo saúde doença, relacionados ao câncer, AIDS,
enfrentamento da velhice; entre os autores estão Treitini, et al. (2005); Paiva (2007);
Faria e Seidl (2006); contudo, não foram encontrados estudos específicos dessa
associação com a violência sexual. Teixeira e Lefèvre (2008) relatam que os
profissionais precisam se debruçar mais sobre esta temática. Percebe-se que há
66
uma semelhança de comportamento das mulheres vitimadas, com os idosos com
câncer; no estudo, os autores observaram que 20 idosos se sentem mais
fortalecidos na religião diante da doença, e buscaram maior aprofundamento
religioso.
Diante das revelações sobre a conversa com Deus, acredita-se que no
imaginário das mulheres poucas pessoas têm habilidades e discernimento para
entender este sofrimento, dedicando-o a um ser capaz de desvelar com sabedoria e
força para continuar vivendo.
O que mais me ajuda é o fato de eu ter uma religião, acreditar muito em
Deus, buscar muita força em Deus. Ele tem me dado força para superar [...]
Conversar, sair [...] uma religião, comunhão com Deus, conversar, acho que
é um dos maiores apoio que tenho, porque [...] sair, se divertir buscar uma
coisa que ocupe a mente se dedicar o trabalho [...] estudar fazer exercício
colocar outras coisa na mente porque se deixar a mente vaga [...].
Eu busco a força em Deus sou uma pessoa de muita oração, eu tenho muita
fé [...]; tive depressão, tomei remédio controlado [...] ansiolítico [...] fiz
tratamento. [...] pode acontecer com qualquer pessoa [...] buscar o estudo a
leitura não ficar impressionada ocupar a mente, fazer o que goste de fazer
como trabalho estudo.
Estes conteúdos demonstram que, além da que a mulher tem em Deus,
existe a crença de que Ele é capaz de compreender seu sofrimento; muitas
preenchem o seu dia na busca de amizades, para conversar e tentar diminuir as
lembranças sobre o fato que tanto machuca. Algumas mulheres buscam a leitura e o
estudo, recomendam que a pessoa deve passar a fazer aquilo que gosta como uma
maneira de preencher o seu tempo. O uso de medicamentos também faz parte de
sua rotina para dormir e diminuir sua ansiedade.
Depois de percorrer diversos segmentos, no setor Judiciário, na Saúde, na
família, no trabalho, nos amigos, em busca de algo que possa aliviar sua dor, as
mulheres vitimadas buscam se fortalecer por sua força interior e na fé. Assis, et al
(2006a) comentam, além de outros atributos, que a fé e as estratégias de
enfrentamento das dificuldades são características protetivas individuais.
Nos depoimentos anteriores, pode ser visualizado que a violência sexual traz
grandes impactos de natureza física, mental e social para a tima e familiares, e
provoca mudanças no seu cotidiano. Entretanto, as mulheres vitimadas têm
percorrido grande parte de suas vidas, após terem passado por diversos setores em
busca de ajuda; e nesses relatos é possível entender capacidades individuais de
superação. Para Cyrulnik (2004, p. 16), “a atitude que ajudará os feridos a retornar
67
um desenvolvimento deverá aplicar-se em descobrir os recursos internos
impregnados no indivíduo, assim como os recursos externos dispostos em torno
dele”. Os conteúdos mostram como essas mulheres possuem força interior,
demonstrada pelas diversas situações enfrentadas ao longo de suas existências.
Ah [...] isso vou conseguir [...], todos os obstáculos que eu encontrei na
minha vida eu consegui vencer; então pensei comigo, eu não vou deixar
isso me derrotar porque eu sei que foi uma fatalidade, do jeito que
aconteceu comigo poderia ter acontecido com qualquer pessoa: a rica, a
pobre, a feia [...] qualquer mulher, foi uma fatalidade.
Estou superando porque eu nunca tive vida fácil, minha vida sempre foi
muito difícil [...] filhos. Comecei a trabalhar com 11 anos, então tudo na
minha vida eu consegui com muita dificuldade.
tive grandes baques na vida [...] o assassinato do meu esposo [...] e
agora, com a morte do vovô, tive depressão, tomei remédio controlado [...]
ansiolítico [...] fiz tratamento.
Neste sentido, fica explícito que as mulheres que passaram por situações
adversas, como, por exemplo, ter de trabalhar ainda muito jovem, perdido um ente
querido, no decorrer de sua existência, vêm desenvolvendo essa capacidade de
lutar diante das adversidades, o que talvez faça com que reflitam que a violência
sexual é mais um desafio em sua vida, e que precisam reunir novamente sua força
interior. Quando dizem precisar continuar trabalhando, estudando, continuar com as
amizades, organizam mecanismos próprios de proteção que as fortalecem na busca
pela educação e proteção dos filhos, e o desejo que tudo vai passar. Para Cyrulnik
(2004), os resilientes têm necessidade de reaprender a viver outra vida mais
suportável ou até mais bonita, após saírem de um ferimento.
No decorrer dos anos, tem se justificado essa capacidade de se desenvolver
normalmente diante de situações adversas pela Teoria da Biologia, pelas
diferenças genéticas, ou pela Psicologia, através das relações sociais, na Sociologia,
pela cultura e tradição, e na Teologia, pela capacidade de evolução humana.
Atualmente, pesquisadores têm buscado compreender pela capacidade de
resiliência que se manifesta no cotidiano das pessoas em diferentes circunstâncias
(POLETTI; DOBBS, 2007). As autoras acreditam que todas as pessoas têm a
capacidade de transformar sua realidade e encontrar os elementos da resiliência,
pois possuem recursos próprios inacreditáveis. Cyrunilk (2004), ao analisar
situações de adversidades, através de diversos relatos e fazer associação com a
resiliência, afirma que, diante de situações adversas, as pessoas desenvolveram um
68
estilo comportamental, e, em outras circunstâncias, utilizaram seus recursos
internos.
4.4 Classe 2: As marcas deixadas pela violência sexual
A Classe 2, formada por 52 UCEs, com uma contribuição significativa de
24,08%, do total do corpus, encontra-se indiretamente relacionada a todas as outras
classes; descreve-se a realidade vivenciada pelas mulheres, na qual trazem as
marcas de um passado recente que as colocam em constante indagação, buscando
respostas para o que aconteceu, expressando dor e intenso sofrimento emocional.
Os vocábulos desta classe se apresentam em sua forma reduzida como:
“porta+”, entr+”, tava+”, roupa+”, diss+”, cham+” “casa+” que possuem χ
2
elevados
apresentados respectivamente 34, 26, 22, 20, 19, 17, 13, e outros com χ
2
de menor
valor, mas que contribuíram para a construção e nomeação desta classe como
menin+”, “hora+”, “abr+”, “barulho+” (Figura 1).
Os sujeitos que mais contribuíram nesta classe formam 1, 3, 4, 5, 6, 8, 9,
que...
De noite qualquer barulho que tiver, eu acordo, o coração acelera, tenho
muito pesadelo. Uma das coisas que me deixa mais traumatizada nos meus
sonhos é isso: é não saber de onde ele veio, porque ele não arrombou
nada, nada foi arrombado quando ele saiu foi que ele abriu a porta do
quintal e saiu pela porta dos fundos. Assim [...] eu acho que ele estava
drogado, sei lá, bêbado, fedia muito, fedia a cigarro, maconha.
A gente se sente a pior das piores, a gente se sente mutilada, como se um
pedaço da gente tivesse sido arrancado fora, a gente fica com nojo de nós
mesmo, a gente se sente suja, marcada, é uma mancha que nunca vai sair
de você [...] não é mancha corporal, não é sujeira de corpo, é sujeira de
alma você fica com nojo de você mesmo.
Comecei a lutar com ele, dei um chute nele, e ele deu um murro no meu
olho que cortou logo que inchou, foi que aconteceu e ele disse que se
não aceitasse, ele me matava. Depois ele vestiu a roupa, e ficou andando
por dentro de casa, foi no guarda-roupa, pegou minha bolsa e dois reais,
ele disse: eu fui solto está com duas semanas.
Os conteúdos expressam indagações das mulheres sobre como o agressor
conseguiu aproximar-se delas; e muitas ainda buscam explicações sobre como eles
conseguiram adentrar em sua residência, a maneira como eles se encontravam e
como reagiram a essa situação, debatendo-se, chutando o agressor; mas os
homens detêm a força física além da imposição do medo, o que termina por dominá-
las. Chama a atenção o fato de que essas mulheres convivem com a dificuldade de
69
dormir à noite ou acordam com facilidade. São enfáticas quando mostram nojo do
próprio corpo; relatam a sujeira da alma e trazem o cheiro do agressor impregnado
em seu corpo.
Mesmo assim as mulheres buscam força para sair desta situação, desde o
momento da agressão, o que corrobora com estudos de Sudário, Almeida e Jorge
(2005) ao relatarem que a luta pela sobrevivência e o medo de morrer são uma das
preocupações da vítima; mesmo havendo uma suposta negociação com o agressor,
não se deve esperar compreensão por parte dele, pois são imprevisíveis; alguns
estão sob o efeito de drogas. Contudo, no momento, as mulheres buscam enfrentar
a situação, quando gritam ou calam, obedecem aos comandos ou negociam seus
pertences e fazem orações silenciosas.
Em outro estudo, Vianna, Bomfim e Chicone (2006) verificaram que, durante a
realização de oficinas com grupo de mulheres vítimas de repressão ou violência
sexual, também identificaram que, após o trauma, as mulheres apresentavam baixa
auto-estima quando expressaram sobre o que mais as incomodava, ou seja, o nojo
do agressor, lembranças das cenas, o medo da morte e da gravidez. As autoras
acrescentam a importância da confiabilidade para buscar a satisfação da
necessidade de auto-estima; entretanto, quando a mulher não alcança esta
capacidade, gera fraqueza e sentimentos de inferioridade. Acrescente-se que é
difícil a diminuição destes sentimentos sem ajuda técnica.
Ao falar de suas marcas, as mulheres, sujeitos deste estudo, comentam a
tranqüilidade em que o agressor se desloca dentro de casa; percebem a presença
de drogas, bebida e cigarro, demonstrando serem usuários dessas substâncias e
com prática de estupro já habitual em sua vida.
Entre as marcas expressadas pelas depoentes está a “sujeira da alma”, como
assim chamaram, transparecendo que, a partir daquele momento, a mulher
violentada sexualmente incorpora uma forma de impureza tão marcante que esta se
torna presente em seu pensamento, o que poderá favorecer o aparecimento de um
trauma psicológico.
Para Peres, Mercante e Nasello (2005), o trauma é uma lesão causada por
um agente externo, que ocorre quando as defesas psicológicas são transgredidas.
Entretanto, eles defendem que a configuração do trauma não depende somente do
agente estressor, mas também da maneira como este é processado em sua
memória. Acrescentam que o desenvolvimento da resiliência depende da percepção
70
do indivíduo em lidar com eventos traumáticos e controlar seus resultados; e que a
pessoa deve aprender e crescer a partir de suas experiências positivas e negativas.
Os discursos revelam que as mulheres conseguem lembrar muitos detalhes
deste momento doloroso em sua vida, mesmo procurando esquecer, e relatam como
se fossem os mais demorados e difíceis em sua vida.
Ele entrou pela porta da frente, meu pai e minha mãe estavam no terraço
assistindo à televisão e dormiram, e ele entrou [...] aí meu irmão acordou [...]
eu disse: pode me matar, mas não faça nada com a minha família.
[...] eu ouvi o barulho, eu estava deitada na cama, levantei e sentei na
cama, quando eu sentei o sentido veio: o gato está dentro de casa, porque
o barulho era como se fosse de um gato, e se o gato entrou é porque algum
ladrão arrombou a porta.
Eu entro no meu serviço 7 horas, minha patroa sai 7 horas, assim que ela
saiu, tudo foi fechado, fui para o quintal fazer o meu serviço normal [...] e
entrei para limpar a casa, eu abri a porta. A porta é daquelas que faz
barulho, e o muro é baixo, e eu não sabia que ele já estava no terraço.
As UCEs revelam as situações de riscos em que se encontravam algumas
mulheres. Para Grotberg (2005), os fatores de proteção não podem neutralizar os
riscos, motivo pelo qual a necessidade de desenvolver habilidades para o
enfrentamento de situações adversas.
A violência sexual neste estudo aconteceu na maioria dos casos no domicílio
da vítima.
Ele estava mexendo no guarda-roupa, eu me mexi e ele apontou a
arma na minha cabeça e disse que queria jóia, e eu que a única jóia
era a minha família.
Enquanto eu abria o portão [...] quando eu voltei esse elemento
estava dentro da minha casa [...] depois ele me acordou e iniciou
e assalto, ele já tinha pego meus vales transportes [...].
Os conteúdos revelam que o agressor na sua maioria, não tem a mulher como
objetivo principal quando entra no domicílio, preferem primeiramente assaltar, e a partir da
situação do poder em relação á força física, utiliza-se do momento para violentar a mulher.
Percebe-se que ela, mesmo diante de uma situação desfavorável pensa na proteção de sua
família.
Outra situação marcante, além da violência sexual, são as lembranças das
ameaças antes, durante e depois da violência sexual.
Eu já olhei tua filha, que tamanho tua filha tem [...] na época minha filha
tinha 14 anos, e eu fiquei calada [...].
71
Eu uso minhas bolinhas e depois eu lhe mato. Ele tinha mais ou menos 17
anos. Ele não tinha nada a perder, se eu falasse para a vizinha ele me
matava [...] eu tomei banho e não dormi mais [...].
Estes depoimentos revelam a fortaleza de uma mulher para proteger um filho,
submete-se a muitas humilhações, perante o agressor, e essas lembranças podem
perdurar por muito tempo.
Neste sentido a violência sexual deixa muitas marcas nas mulheres vitimadas,
pois percebe-se que ao relatarem a vivência deste fato, conseguem lembrar muitos
detalhes, como se estivessem relatando um filme de terror, em que sua voz tem uma
entonação que revelam sentimentos de medo, angústia, raiva de acordo com cada
momento vivenciado.
72
5 CONSIDERAÇÕES FINAIS
O estudo teve como objeto principal descrever como ocorre o processo de
resiliência, e, de que modo o contexto familiar pode influenciar, tendo como base a
Teoria da Resiliência.
Foram entrevistadas 11 (onze) mulheres, a maioria com mais de seis meses
da ocorrência da violência sexual. Para umas, o caminho de superação ainda é
longo; provavelmente este tenha sido um dos motivos pelo qual foi possível contatar
algumas mulheres, posto que algumas sequer conseguiam falar ao telefone. A
maioria não contou com o apoio da família; para outras, este apoio, mesmo
aparente, foi importante neste processo. Assim, família, Serviço de Saúde,
Delegacia, amigos, escola tornaram-se fatores externos essenciais para o
enfrentamento da violência sexual e a viabilização do serviço de rede.
As mulheres deste estudo caracterizam-se por diferentes níveis sociais e de
escolaridade que vão desde o Ensino Fundamental à Pós-Graduação. A violência
sexual aconteceu em diversos locais, tais como colégio, bar, domicílio, festas, tendo
como agressores alguns conhecidos que tiveram preferência pelo horário noturno.
Neste estudo, não houve registros de agravos como DST ou AIDS e gravidez,
tendo em vista que todas realizaram a profilaxia para o HIV. Entretanto, a procura
pelo seguimento ambulatorial não aconteceu na mesma proporção; as mulheres
mesmo encaminhadas não retornaram ao serviço. O fato de o agressor ter usado o
preservativo e o SAMVVIS ter cuidado da prevenção dos agravos trouxe-lhes um
pouco de conforto; entretanto, carregam no corpo e na alma as marcas da violência
sofrida que modificam sua trajetória, seus objetivos.
Embora considerem que um maior agravo teria sido a morte ou terem
adquirido alguma doença, elas desenvolveram sérios problemas de saúde, como,
por exemplo, o medo de ficar sozinha, do retorno do agressor, insônia, dores no
corpo e doença crônicas. Outro fato grave é que passam a conviver com estes
problemas no seu cotidiano com as cenas ocorridas em sua memória.
Algumas não buscam o Serviço de Saúde por acreditarem que nada vai
adiantar. Neste sentido, a Teoria da Resiliência tem excelente aplicabilidade à
questão da violência, pois possibilitará a valorização dos pontos fortes de cada
mulher.
73
A partir desta situação de violência sexual, surge uma nova mulher, que
precisa aprender a conviver com o estigma da família e vizinhos. Marcada pela
violência, não sabe por onde deve começar a se erguer; o processo é lento e
assustador, varia de pessoa a pessoa, envolve toda a família, e eles precisam de
apoio do profissional de Saúde para buscar suas capacidades resilientes.
O estudo revela que as mulheres vitimadas têm, conforme jargão popular,
muita “sede de justiça”, e buscam o serviço de delegacias; entretanto, não são
correspondidas em sua expectativa. Dessa forma, o estudo revela também que,
neste enfrentamento, as mulheres precisam ser melhor acolhidas pelo serviço de
rede, que, até então, se encontra pouco articulado, tendo em vista que ainda
necessidade de melhor abordagem, principalmente no momento da denúncia. O
atendimento no SAMVVIS – mesmo não correspondendo às necessidades de serem
ouvidas, através da realização dos exames e uso de medicamento fortalece estas
mulheres que têm a certeza de que não adquiriram outros agravos.
Assim, a mulher vitimada busca sua força interior, e se fortalece na fé, para
que possa superar a violência sofrida; freqüenta a Igreja, torna-se retraída, com
poucas amizades, e fala com restrições sobre o problema. Geralmente vai à procura
de algo que lhe satisfação, como o estudo, por exemplo, mas tem muita
dificuldade com relacionamentos amorosos.
O estudo também permite levantar questões referentes ao apoio da família.
Diante de tal situação, esta se torna pouco atuante, principalmente quando a
violência acontece no espaço intrafamiliar. No presente estudo, percebeu-se que,
quando o agressor é um conhecido – como pai ou cunhado – isto é muito mais sério,
pois nem sempre a família fica favorável à vítima, o que contribui para situações de
isolamento, entre outros conflitos familiares.
Compreendemos que o apoio à mulher vitimada é desafiador, tanto para a
família como para o profissional que a atende; entretanto, faz-se necessário que
aconteça de maneira muito acolhedora. Sob este aspecto, a Teoria da Resiliência
poderá possibilitar melhor desenvolvimento de fatores internos nos profissionais,
para que possam melhor compreender essa problemática, desvinculando-se de pré-
julgamento durante o atendimento.
Com base no estudo realizado, sugere-se maior reflexão sobre a importância
de ampliar a discussão acerca do tema violência e resiliência, em todos os níveis de
escolaridade, para que as pessoas, desde cedo, possam refletir sobre a gravidade
74
da questão e aprender a conhecer seus fatores de proteção e contribuir na
promoção da saúde. Acrescente-se que a inserção da temática nas escolas pode ser
realizada em grupos de discussão, bem como pela ESF. na Graduação e Pós-
Graduação, essa temática deve ser discutida nas disciplinas Saúde da Mulher e
Saúde Pública.
Outra forma de expandir a discussão pode ser com a inserção de alunos em
projetos de extensão voltados para esse tema. Acredita-se que, dessa maneira, seja
uma excelente oportunidade para realizar o seguimento ambulatorial e tornar o
espaço propício à discussão em grupo e contribuir para o ingresso de profissionais
mais sensibilizados para cuidar de mulheres vitimadas.
Por fim, nesta discussão, enfatize-se a necessidade de estimular a
participação de profissionais qualificados sobre a temática violência sexual, de cada
instituição, em que a mulher possa buscar algum tipo de ajuda como por exemplo na
Estratégia Saúde da Família, hospitais delegacias e outros para que possam
minimizar o estigma e tornar o local mais acolhedor.
75
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81
ANDICES
82
MINISTÉRIO DA EDUCAÇÃO
UNIVERSIDADE FEDERAL DO PIAUÍ
PRÓ-REITORIA DE PESQUISA E PÓS-GRADUAÇÃO
PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO – MESTRADO EM ENFERMAGEM
APÊNDICE A: Termo de Consentimento Livre e Esclarecido
Você está sendo convidado(a) para participar, como voluntário(a), de uma
pesquisa sobre Resiliência e contexto familiar de mulheres vítimas de violência
sexual. Você precisa decidir se quer participar ou não. Por favor, não se apresse em
tomar a decisão. Leia cuidadosamente o que se segue e pergunte ao responsável
pelo estudo qualquer dúvida que você tiver. Este estudo está sendo conduzido pela
Profa. Dra Claudete Ferreira de Souza Monteiro. Após ser esclarecido(a) sobre
as informações a seguir, no caso de aceitar fazer parte do estudo, assine ao final
deste documento, que está em duas vias. Uma delas é sua e a outra é do
pesquisador responsável. Em caso de recusa, você não será penalizado(a) de forma
alguma. Em caso de dúvida, você pode procurar o Comitê de Ética em Pesquisa da
Universidade Federal do Piauí pelo telefone (086) 3215-5437.
ESCLARECIMENTOS SOBRE A PESQUISA:
Título do Projeto: Resiliência e contexto familiar de mulheres vítimas de
violência sexual
Pesquisador Responsável: Profa. Dra. Claudete Ferreira de Souza Monteiro
Pesquisadores participantes: Rosilane de Lima Brito Magalhães
Telefones para contato: (86) 3237 1709 ou 8827 7152
Descrição da pesquisa com seus objetivos:
Trata-se de uma pesquisa sobre a Resiliência e contexto familiar de
mulheres vítimas de violência sexual, realizada através do Programa de Pós-
Graduação em Mestrado em Enfermagem da UFPI. O estudo é de grande
importância e se faz necessário, pois pretende contribuir no sentido de melhor
compreender como ocorre o processo de superação da violência sexual em
83
mulheres, e quais mecanismos os profissionais de saúde podem estar buscando, a
partir das próprias mulheres que sejam fortalecedoras do enfrentamento e
superação do dano.
Os objetivos da pesquisa são:
- Descrever como ocorre o processo de resiliência em mulheres vítimas de violência
sexual na perspectiva de superação do fenômeno vivido.
- Discutir qual a participação da família na contribuição da superação do fenômeno
da violência sexual vivenciado por mulheres do seu contexto familiar.
INFORMAÇÕES IMPORTANTES
GARANTIA DE ACESSO: Gostaria de informar que você tem a garantia de acesso
em qualquer etapa do estudo através do contato com os profissionais responsáveis
pela pesquisa para esclarecimento de eventuais dúvidas. Para maiores informações
você poderá entrar em contato como a pesquisadora Rosilane de Lima Brito
Magalhães; a mesma poderá ser encontrada no seguinte endereço: Rua Dr. Natan
Portela Nunes, número 4177, Bairro Ininga. Caso você tenha alguma consideração
ou dúvida sobre a ética da pesquisa, entre em contato com o Comitê de Ética em
Pesquisa (CEP) da Universidade Federal do Piauí no seguinte endereço: Campus
Universitário Ministro Petrônio Portella - Bairro Ininga, Bloco 6, telefone: (86) 3215
5437.
GARANTIA DE SIGILO: Se você concordar em participar do estudo, seu nome e
identidade serão mantidos em sigilo. A menos que requerido por lei ou por sua
solicitação, somente o pesquisador, a equipe do estudo e o Comitê de Ética terão
acesso a suas informações para verificar as informações do estudo.
PERÍODO DE PARTICIPAÇÃO: Ao sujeito fica assegurado o direito de retirar o
consentimento a qualquer tempo sem qualquer prejuízo da continuidade do
acompanhamento.
Assinatura do pesquisador principal
84
CONSENTIMENTO DA PARTICIPAÇÃO DA PESSOA COMO SUJEITO
Eu, ___________________________________, RG: ________________
CPF: ________________, abaixo assinado, concordo em participar do estudo
RESILIÊNCIA E CONTEXTO FAMILIAR DE MULHERES VÍTIMAS DE VIOLÊNCIA
SEXUAL, como sujeito. Fui suficientemente informado(a) a respeito das informações
referentes ao estudo. Discuti com a Dra. Claudete Ferreira de Souza Monteiro sobre
minha decisão em participar nesse estudo. Ficaram claros para mim quais são os
propósitos do estudo, os procedimentos a serem realizados, as garantias de
confidencialidade e de esclarecimentos permanentes. Ficou claro também que
minha participação é isenta de despesas. Concordo voluntariamente em participar
deste estudo e poderei retirar o meu consentimento a qualquer momento, antes ou
durante o mesmo, sem penalidades ou prejuízo.
Teresina, _____ de ________________ de ________
______________________________________________
Assinatura
85
MINISTÉRIO DA EDUCAÇÃO
UNIVERSIDADE FEDERAL DO PIAUÍ
PRÓ-REITORIA DE PESQUISA E PÓS-GRADUAÇÃO
PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO – MESTRADO EM ENFERMAGEM
APÊNDICE B
CARTA DE APRESENTAÇÃO
Ilma. Sra.
MD. Diretora da Maternidade Dona Evangelina Rosa
Senhora diretora, apresentamos a V. Sa. a aluna Rosiliane de Lima Brito
Magalhães, do Curso de Mestrado em Enfermagem da Universidade Federal do
Piauí, regularmente matriculada nesta Instituição de Ensino, Pesquisa e Pós-
Graduação , que realizará uma pesquisa intitulada “Resiliência e Contexto Familiar
de Mulheres Vítimas de Violência Sexual ”, sob a orientação da Profa. Dra. Claudete
Ferreira de Souza Monteiro e cujos sujeitos a serem entrevistados deverão ser
mulheres que procuraram o SAMVVIS localizado na Maternidade Dona Evangelina
Rosa.
A escolha desta instituição se fez por ser um centro de referência aos
registros de casos desta natureza. Após serem informadas sobre o estudo,
assinarão um Termo de Consentimento Livre e Esclarecido, conforme a
Resolução196/96; serão entrevistadas no ambulatório desta maternidade onde
acontece o seguimento.
A pesquisa a ser desenvolvida tem como objeto de estudo Resiliência e
Contexto Familiar de Mulheres Vítimas de Violência Sexual.
86
O trabalho a ser realizado é um Trabalho de Dissertação de Mestrado em
Enfermagem. A coleta de dados deverá ser iniciada no período de janeiro a
março/2008. Para tanto, solicito a V. Sa. autorização para que a referida aluna possa
ter acesso às dependências da mencionada Instituição e conversar livremente com
as mulheres vítimas de violência sexual que aceitarem participar do estudo.
Na certeza de que seremos prontamente atendidas em nosso pleito, desde
agradecemos.
Teresina (PI), ___ de _________ de ______.
___________________________________________________
Profa. Dra. Claudete Ferreira de Souza Monteiro
Orientadora do estudo
87
MINISTÉRIO DA EDUCAÇÃO
UNIVERSIDADE FEDERAL DO PIAUÍ
PRÓ-REITORIA DE PESQUISA E PÓS-GRADUAÇÃO
PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO – MESTRADO EM ENFERMAGEM
APÊNDICE C
ENTREVISTA Nº. DATA:
DADOS DE CARACTERIZAÇÃO DOS SUJEITOS
Idade:
Estado civil:
Profissão:
Data de ocorrência da violência sexual:
Local da ocorrência:
Agressor:
Tempo de participação do seguimento:
DADOS SOBRE O OBJETO INVESTIGADO
Faça um relato como a senhora tem vivenciado este período, e comente, livremente,
como vem buscando superar o fato de ter sido vítima de violência sexual.
Fale, conforme sua consciência, de que modo sua família tem lhe ajudado a superar
o fenômeno vivido.
Fale, conforme sua consciência, de que modo o serviço de Saúde tem contribuído
para a superação do fato violência sexual.
Por ter passado por esta experiência, que contribuições a senhora pode transmitir
para que outras mulheres, em igual situação, possam superar o fato de ter sido
vítima de violência sexual?
88
ANEXOS
89
ANEXO A: DECLARAÇÃO DO COMITÊ DE ÉTICA EM PESQUISA DA
UNIVERSIDADE FEDERAL DO PIA
ANEXO B: DECLARÃÇÃO DO COMITÊ DE ETICA EM PESQUISA DA
MATERNIDADE DONA EVANGELINA ROSA
90
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