Amazônia, foi incluído apenas um parágrafo nas resoluções do congresso realizado
em Belo Horizonte em 1986, tratando das Reservas Extrativistas.
Perderam-se lideranças importantíssimas como Wilson Pinheiro, Higino, Antônio
Calado, Elias Sena, Chico Mendes, Arnaldo e tantos outros assassinados pelas mãos
armadas dos destruidores da Amazônia. Foi em clima de tensão que o II Encontro
Nacional dos Seringueiros realizou-se em março de 1989. Contou com a
participação de trabalhadores dos Estados do Acre, Amapá, Amazonas, Mato
Grosso, Rondônia e Pará. Foi considerado também como o I Encontro dos Povos da
Floresta, visto que participaram várias nações indígenas. Chico Mendes, antes de ser
assassinado, já havia iniciado o processo de mobilização do Encontro, destacando a
necessidade de maior participação de trabalhadores extrativistas de outros Estados.
[...]
De 1989 a 1992 foi um período muito difícil, a direção do CNS era demais solicitada
a participar de conferências, seminários etc. Houve muita dificuldade na condução
da política interna, como membro da direção que intitulava-se substituto de Chico
Mendes, muita gente querendo ser assessor do CNS. Júlio Barbosa, presidente na
época, enfrentou uma barra pesada, no entanto, no primeiro trimestre de 1990, foram
criadas as principais Reservas Extrativistas, assim como o processo de criação e
organização das coordenações regionais do CNS.
[...]
O CNS resistiu à turbulência ecológica e ambiental da primeira metade da década de
90, manteve-se firme em seus objetivos dando continuidade à luta pela criação e
implantação das Reservas Extrativistas, por garantia de mercado para os produtos da
floresta, pelo direito a saúde, educação e uma vida digna para os trabalhadores
extrativistas, sem destruição e sem violência.
Os seringueiros foram duramente prejudicados pela política econômica iniciada pelo
governo Collor. Com a lógica do "deixa fazer, deixa passar", da chamada
competitividade de mercado, liberou-se a importação de borracha – advinda do
Sudeste Asiático, sem a mínima responsabilidade com o consumo da produção
interna, aprofundando ainda mais a já difícil crise da política da borracha. Os
prejuízos econômicos e sociais para os seringueiros da Amazônia foram desastrosos.
No entanto, o CNS tem procurado de todas as formas mostrar para o governo e para
a opinião pública o quanto é importante garantir que a produção de borracha dos
seringais nativos da Amazônia seja consumida pela indústria, visto que a borracha
brasileira tem o padrão de qualidade internacional. O consumo da produção de
borracha de seringais nativos da Amazônia tem importância fundamental na
diminuição dos problemas econômicos, sociais e ambientais da região.
Chegar até aqui não foi uma tarefa fácil, havia pessoas influentes que achavam
que o CNS devia ser uma organização de caráter puramente ambiental, e
outras que o CNS devia ser de agitação, de enfrentamento, de oposição radical.
Nem uma coisa, nem outra; procurou-se trilhar pelo caminho de valorizar as
lideranças, ampliar seus conhecimentos, descentralizar a administração
proporcionando a criação de coordenações regionais do CNS, estimulando
alianças com o movimento sindical de trabalhadores rurais. Organizando ações
específicas de reivindicação dos trabalhadores extrativistas, articulou a criação e
estruturação do Grupo de Trabalho Amazônico –GTA, que atualmente tem mais de
350 organizações.
Nesse processo, conseguiu-se avanços, como por exemplo: criar uma linha de
crédito para os trabalhadores extrativistas, subsídio para a produção de borracha,
rancho entre safra para os extrativistas, criação de novas Reservas Extrativistas,
expansão do PROCERA [Programa de Crédito Especial para Reforma Agrária] para
os projetos de assentamentos extrativistas, apoio do PPG-7 para quatro Reservas
Extrativistas, criação do Programa Amazônia Solidária, construção de usinas de
beneficiamento de borracha, etc.