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MINISTÉRIO DA EDUCAÇÃO
UNIVERSIDADE FEDERAL DO PIAUÍ
PRÓ-REITORIA DE PESQUISA E PÓS-GRADUAÇÃO
CENTRO DE CIÊNCIAS DA SAÚDE/DEPARTAMENTO DE ENFERMAGEM
PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO MESTRADO EM ENFERMAGEM
ODINÉA MARIA AMORIM BATISTA
REPRESENTAÇÕES SOCIAIS DA INFECÇÃO HOSPITALAR ELABORADAS POR
ENFERMEIRAS
Teresina (PI), 2008
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2
ODINÉA MARIA AMORIM BATISTA
REPRESENTAÇÕES SOCIAIS DA INFECÇÃO HOSPITALAR ELABORADAS POR
ENFERMEIRAS
Dissertação apresentada ao Programa de Pós-graduação
Mestrado em Enfermagem da Universidade Federal do
Piauí, como parte dos requisitos necessários à obtenção
do título de Mestre em Enfermagem.
Área de Concentração: A enfermagem no contexto social brasileiro
Processo de cuidar em saúde e enfermagem
Orientadora: Profª. Drª. Maria Eliete Batista Moura
Teresina (PI), 2008
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FICHA CATALOGRÁFICA
Serviço de Processamento Técnico da Universidade Federal do Piauí
Biblioteca Comunitária Jornalista Carlos Castello Branco
Bibliotecária: Francisca das Chagas Dias Leite – CRB-3/1004
B333r Batista, Odinéa Maria Amorim.
Representações sociais da infecção hospitalar elaboradas
por enfermeiras / Odinéa Maria Amorim Batista. – 2008.
120 f.
Cópia de computador (printout).
Dissertação (Mestrado) – Programa de Pós-Graduação
Mestrado em Enfermagem da Universidade Federal do Piauí,
2008.
Orientação: Profª. Drª. Maria Eliete Batista Moura.
1. Infecções Hospitalares – Prevenção. 2. Enfermagem –
Cuidados. 3. Enfermagem – Infecção – Aspectos Sociais.
I. Título.
CDD: 610.733
4
ODINÉA MARIA AMORIM BATISTA
REPRESENTAÇÕES SOCIAIS DA INFECÇÃO HOSPITALAR ELABORADAS POR
ENFERMEIRAS
Dissertação submetida à banca examinadora do Programa
de Pós-Graduação em Enfermagem da Universidade
Federal do Piauí-UFPI, como parte dos requisitos
necessários à obtenção do grau de Mestre em
Enfermagem.
Aprovada em ____de __________de 2008.
__________________________________________
Profa. Dra. Maria Eliete Batista Moura-Presidente
Universidade Federal do Piauí-UFPI
Orientadora
_________________________________________
Prof. Drª Antônia Oliveira Silva
Universidade Federal da Paraíba-UFPB
1ª examinadora
_________________________________________
Profa. Dra. Inez Sampaio Nery
Universidade Federal do Piauí-UFPI
2ª examinadora
Suplente:
_________________________________________
Profa. Dra. Benevina Maria Vilar Teixeira Nunes
Universidade Federal do Piauí-UFPI
5
DEDICATÓRIA
Ao meu pai, Olintho Leite, e a minha mãe Margarida Amorim, meu tesouro de amor
eterno (in memoriam), sua alegria e sabedoria e seu jeito especial de ser me ensinaram
valores imprescindíveis para minha formação, para que eu pudesse acreditar que meus
esforços valeriam a pena (...naquela mesa está faltando ele (s), e a saudade dele (s)
está doendo em mim...).
Ao meu marido Milton Filho, por seu amor e companheirismo e por toda a felicidade
que me proporciona e me honra como parceiro nesta jornada da vida.
Aos meus filhos, Thiago, Camila e Matheus, pelo seu amor e por estarem sempre
comigo me apoiando, me incentivando a continuar diante das adversidades e por
suportarem minhas ausências nos momentos de elaboração desta dissertação.
Aos meus irmãos Olimar, Osmar, Osanan, Odilmar, Olivan, Osmary, Orlando, e
minha irmã Orquidéa, que soube, em cada momento, me amar, compreender e
incentivar para que eu pudesse realizar os meus sonhos (desde cedo vocês me fizeram
ver que o ser humano não é mero raciocínio).
A todas as pessoas que necessitam de serem cuidadas, nas diversas fases da vida, com
amor, dedicação e carinho, incentivo diário do meu agir.
6
AGRADECIMENTOS
No decorrer deste estudo foi importante a participação de muitas pessoas que contribuíram
de alguma forma para a sua realização.
Agradeço a todos, em especial a Deus, pela força que me concedeu, tudo pode na sua
presença.
As enfermeiras, que contribuíram para a realização deste estudo com a riqueza dos seus
depoimentos, sem os quais não seria possível a sua construção.
A minha orientadora, Lia Moura, desbravadora do controle de infecção hospitalar no
Piauí, meu reconhecimento pela competência profissional com que conduziu minha
orientação, pela sua compreensão, estimulo e incentivo.
Aos docentes do Programa de Pós-Graduação – Mestrado em Enfermagem da
Universidade Federal do Piauí, pelo ensino específico nas diferentes áreas do
conhecimento, que contribuíram para meu novo olhar profissional.
A amiga Zélia, pela sua dedicação e carinho sempre presentes e das valiosas
contribuições, por ter me apoiado com seus ensinamentos nas tortuosidades do caminho
pelo qual passei durante o tempo em que cursei o mestrado, pela amizade e apoio,
traduzidos na generosidade do compartilhar e do aprender sem esperar nada em troca (...
amigo é coisa pra se guardar debaixo de sete chaves, dentro do coração...).
As amigas e batalhadoras Ana Maria, Benevina, Cecília, Sheilla, pela melhoria da
enfermagem, pela amizade, incentivo e valiosas contribuições.
A dona Rosário Araújo que, com sua tranqüilidade e experiência de vida, me fizeram
acreditar que tudo é possível, basta ter fé e querer.
A amiga Enóia, por ter contribuído compartilhando comigo o seu conhecimento na área
de Representação Social.
Ao amigo Eugênio, por me incentivar a seguir sempre e não desistir diante de obstáculos.
As alunas Lívia e Kalliny, que não hesitaram em ajudar-me na fase de coleta dos dados e
transcrição das entrevistas.
7
Ao Hospital Getúlio Vargas e à NOVAFAPI, que possibilita a minha dedicação àquilo
que mais me impulsiona para a busca do conhecimento técnico, com o propósito de
contribuir para a redução e gravidade da freqüência das Infecções Hospitalares,
sofrimento evitável às pessoas que necessitam de assistência à saúde.
8
BATISTA, O. M. A. As representações sociais da infecção hospitalar elaboradas
por enfermeiras. Teresina. 2008 - 120 p. Dissertação (Mestrado em Enfermagem) –
Departamento de Enfermagem – Universidade Federal do Piauí.
RESUMO
As infecções hospitalares (IH) apresentam-se como desafios para as
autoridades governamentais, instituições e profissionais de saúde, por constituírem
atualmente grave problema de saúde pública, e estarem entre as principais causas
de morbidade e letalidade, pois influenciam o aumento do tempo de hospitalização e,
conseqüentemente, elevados custos adicionais para o tratamento do paciente. As
ações práticas das enfermeiras para o controle das IH, cotidianamente
concretizadas no ambiente de trabalho, são construídas e reconstruídas nas
relações estabelecidas entre seu grupo de pertença e outros indivíduos. O estudo
teve como objetivos: apreender as Representações Sociais das IH e analisar como
essas representações influenciam nas práticas de enfermagem das enfermeiras de
um hospital público de ensino em Teresina-PI. Utilizou-se como instrumentos de
coleta dos dados: a entrevista semi-estruturada e a observação participante. Por ter
um caráter multidisciplinar, a Teoria das Representações Sociais contribuiu para
investigação do fenômeno da IH, por favorecer o desvelar de cognições e
representações das enfermeiras que não envolva somente questões de cunho
técnico-científico, mas também aspectos referentes à organização e criação do
saber permeado por crenças e valores. Os dados produzidos pelo software Alceste
4.8 revelaram uma Classificação Hierárquica Descendente em três classes
semânticas. Classe 1: Conhecimento frente à IH, evidenciado através da
manifestação/descrição e explicação das dificuldades enfrentadas pelas
enfermeiras; Classe 2: A prática de prevenção para o controle da IH, demonstrada
pelas descrições das enfermeiras sobre os elementos sócio-cognitivos que estão
ancorados nos aspectos socioculturais e psicológicos relacionados às técnicas
assépticas para prevenção e controle das IH, e na Classe 3: A relação da IH com a
qualidade da assistência, manifestada por descrições e explicações através dos
posicionamentos positivos e negativos das enfermeiras sobre a relação direta da
infecção hospitalar com a qualidade da assistência, demonstrando que essas
infecções aumentam se não houver uma preocupação – preparo e envolvimento dos
profissionais na realização das atividades cotidianas inerentes ao cuidar. Estas
classes revelaram que as enfermeiras objetivaram a IH pelos vocábulos “trabalh+”,
“ações”, “lid+”, “lav+”, “materi+”, “mão+”, “técnica+”, “qualidade” e “assistênci+”.
Manifestaram sentimentos de impotência diante da prevenção e controle das IH, e
da necessidade de implantação de programas de educação permanente, por parte
dos gestores, que contemplem as ações práticas de prevenção e controle das IH e
com isso proporcionar uma assistência de qualidade. Espera-se que este estudo
possa encorajar os profissionais de saúde, principalmente as enfermeiras,
estudantes, técnicos e auxiliares de enfermagem, servindo como subsídio para o
conhecimento das teorias científicas e saber do senso comum sobre a temática de
IH, seus meandros e os atores envolvidos. E ainda poder auxiliar na compreensão a
respeito das subjetividades desse grupo de enfermeiras, em seus universos
consensuais, na qual circulam ideologias, crenças, opiniões e atitudes sobre a IH.
Palavras-Chave: Enfermagem. Infecção Hospitalar. Psicologia Social. Prevenção.
9
BATISTA, O. M. A. Social Representations of Hospital Infections Elaborated by
Nurses. Teresina. 2008 – 120 p. Dissertation (Masters in Nursing) – Nurse Course
Department – Federal University of Piauí.
ABSTRACT
Hospital infections (HI) are challenges for the governmental authorities,
institutions and health professionals. Nowadays, they are a huge problem to public
health, and are among the main causes of death, since they increase the time that
the patient stays in the hospital and consequently elevate the additional costs of the
patient’s treatment. The practical actions of the nurses for the control of the HI, done
daily in the work environment, are constructed and reconstructed on the relations
established among their group and other individuals. This study had as objectives:
apprehend the Social Representations of the HI and analyze how these
representations influence in the practices of the nurses of a public school hospital in
Teresina-PI. The instruments of data collection were: a semi-structured interview and
a participant observation. Due to its multidisciplinary character, the Theory of the
Social Representations contributed for the inquiry of the HI phenomenon, because it
approaches the nurses’ cognition and its representation, involving not only the
scientific questions, but also aspects regarding the organization and creation of the
knowledge penetrated by beliefs and values. The data processed by the software
Alceste 4,8 revealed a Descending Hierarchical Classification in three semantic
classes: Class 1: Knowledge of the HI, exposed through the
manifestation/description and explanation of the difficulties faced by the nurses;
Class 2: The prevention practice for the control of the HI, demonstrated by the
nurses’ descriptions about the social-cognitive elements present in the social, cultural
and psychological aspects related with the aseptic techniques for the prevention and
control of the HI; and in Class 3: The relation of the HI with the assistance quality,
manifested through the descriptions and explanations using positive and negative
conceptions from the nurses about the direct relationship of the hospital infection with
the assistance quality. This demonstrates that these infections increase if there is not
a proper concern, preparation and involvement of the professionals that carry out
these daily activities inherent to care. These classes revealed that the nurses defined
the HI through words related to “work”, “action”, “deal”, “wash”, “material”, “hand”,
“technique”, “quality” and “assistance”. They showed feelings of incapacity when
facing the prevention and control of the HI, as well as the need to implement
permanent education programs by the supervisors, that embrace practical prevention
actions and control of the HI, so that good quality assistance may be offered. We
expect that this study can encourage health professionals, especially the nurses,
students, nursing technicians and assistants, being used as a basis for the
knowledge of the scientific theories and to know about the common sense of the
thematic studied (HI), its causers and all the aspects involved. Moreover, it may be
able to help in the comprehension as to the subjectivities of that group of nurses, in
their consensual universes, where these ideologies, beliefs, opinions and attitudes
about the HI are present.
Keywords: Nursing. Hospital Infection. Social Psychology. Prevention.
10
LISTA DE SIGLAS
AHA American Hospital Association
ALCESTE Analyse dês Lexèmes Cooccurrents dans lês Enoncés d’ un Texte
ANVISA Agência Nacional de Vigilância Sanitária
CCIH Comissão de Controle de Infecção Hospitalar
CDC Centers for Disease Control
CDC Centro de Controle e Prevenção de Doenças
CECIH Comissão Estadual de Controle das Infecções Hospitalares
CHA Classificação Hierárquica Ascendente
CHD Classificação Hierárquica Descendente
CIPLAN Comissão Interministerial de Planejamento e Coordenação
COFEN Conselho Federal de Enfermagem
EPI’s Equipamentos de Proteção Individual
HGV Hospital Getúlio Vargas
IH Infecção Hospitalar
MP Mãos Preciosas
MS Ministério da Saúde
MTE Ministério do Trabalho e Emprego
NNIS National Nosocomial Infection Study System
NR Norma Regulamentadora
PCIH Programa de Controle de Infecção Hospitalar
RS Representações Sociais
SCIH Serviço de Controle de Infecção Hospitalar
SENIC Study of the Efficacy of Nosocomial Infection Control
SHEA Society of Hospital Epidemiology of America
SINAIS Sistema Nacional de Informação para o Controle de Infecções em
Serviços de Saúde
SUS Sistema Único de Saúde
TRS Teoria das Representações Sociais
UCE’s Unidades de Contexto Elementares
UCI’s Unidades de Contexto Inicial
UESPI Universidade Estadual do Piauí
UFPI Universidades Federal do Piauí
11
SUMÁRIO
APRESENTAÇÃO
11
CAPÍTULO I
14
INTRODUÇÃO
14
1.1 Delimitação do problema e construção do objeto de estudo
15
1.2 Justificativa e relevância do estudo
18
1.3 Questões norteadoras e objetivos do estudo
22
CAPÍTULO II
23
CONTEXTUALIZAÇÃO DA INFECÇÃO HOSPITALAR E A TEORIA
DAS REPRESENTAÇÕES SOCIAIS
23
2.1 Aspectos históricos e trajetória evolutiva da infecção
hospitalar e sua prevenção
24
2.2 A infecção hospitalar como objeto das representações sociais
38
CAPÍTULO III
48
CAMINHOS DA PESQUISA
48
3.1 Tipo de estudo
49
3.2 Cenário de investigação
49
3.3 Sujeitos do estudo
50
3.4 Instrumentos e produção dos dados
52
3.5 Procedimentos de análise dos dados
53
CAPÍTULO IV
58
REPRESENTAÇÕES SOCIAIS DA INFECÇÃO HOSPITALAR POR
ENFERMEIRAS
58
4.1 Organização do campo representacional
59
4.2 Descrição do conteúdo das classes
62
CONSIDERAÇÕES FINAIS
91
REFERÊNCIAS
97
APÊNDICES
ANEXOS
12
13
APRESENTAÇÃO
A dissertação ora apresentada originou-se de situações vivenciadas como
enfermeira assistencial e membro da Comissão de Controle de Infecção Hospitalar
(CCIH) em um hospital público de ensino no município de Teresina – Hospital
Getúlio Vargas (HGV). No decorrer desta experiência, freqüentemente se observou
um número significativo de pacientes internados com algum tipo de infecção
adquirida em outros hospitais ou em seu domicílio, como também no próprio
hospital, denominada Infecção Hospitalar (IH).
O enfrentamento dessa problemática tem sido um desafio para as equipes de
saúde, pela exposição constante e convivência com os pacientes infectados,
correndo o risco de adquirirem infecções. Para os infectados, também não tem sido
tarefa muito fácil. Apesar da imagem negativa que norteia o imaginário social da
desvalorização do que é público e de todas as dificuldades apresentadas, é possível
alterar essa situação e prevenir e controlar a IH, se os dirigentes das instituições de
saúde e os profissionais adotarem normas técnicas integradas, que envolvam
também paciente e familiar no processo de cuidado.
Presenciam-se, nos hospitais públicos brasileiros, momentos de
enfrentamento da dor, sofrimento e morte de pacientes com diagnóstico de IH, e os
que contraem essas infecções estão sujeitos a permanecerem mais tempo
hospitalizados, por necessitarem de antibioticoterapia endovenosa e de cuidados.
Essas condições parecem não influenciar parte dos administradores e
profissionais de saúde, no sentido de realizar intervenções para prevenir essas
infecções, conforme a responsabilidade e a atribuição de cada um. Observa-se que
esses profissionais desempenham suas atividades de acordo com as condições
oferecidas, muitas vezes, sem questionar os seus direitos e os dos pacientes
hospitalizados.
Mesmo diante dessa situação apresentada, verifica-se que a maioria dos
pacientes que utilizam os serviços públicos hospitalares, não reclama das más
condições do ambiente, da administração do hospital e da assistência prestada
pelos profissionais de saúde, preferindo esperar passivamente pelo cuidado que
resulte na cura e assim poderem retornar às suas atividades e à convivência
familiar. Acredita-se que essa passividade deva-se ao fato de eles confiarem na
14
competência da equipe de saúde envolvida, nas condições oferecidas pelas
instituições de saúde pública para uma assistência com qualidade, além de
desconhecerem os riscos de aquisição das IH.
Essa situação incomoda bastante, pois, para alguns profissionais, o
compromisso com o cuidar humanizado é visível, enquanto para outros, o cuidado
parece mecanizado, ou seja, é mera obrigação, com ausência de qualquer
envolvimento de interação e afetividade humana. Vê-se nitidamente que o ato de
cuidar para prevenir a IH necessita estar presente na realidade dos profissionais de
saúde, porquanto a priorização dessa conduta é fundamental para a recuperação
dos pacientes.
Dessa forma, considera-se que, na área da enfermagem, especificamente o
profissional enfermeiro, tem papel relevante na prevenção e controle das IH, pois
eles são responsáveis por coordenarem uma equipe de técnicos e auxiliares que se
alternam nos turnos da manhã, tarde e noite, o que corresponde uma assistência
vinte e quatro horas.
Isso proporciona uma reflexão sobre a temática das IH como fenômeno
psicossocial complexo elaborado pelas enfermeiras, cujo envolvimento vai além do
seu controle meramente biológico e baseado na aplicação de técnicas, para
englobar questões mais abrangentes envolvendo a subjetividade e o conhecimento
socialmente compartilhado, que está fundamentado na experiência do dia-a-dia
dessas enfermeiras, nas suas linguagens e práticas cotidianas.
Esta dissertação se insere na linha de pesquisa do Programa de Pós-
Graduação Mestrado em Enfermagem da Universidade Federal do Piauí – O
processo cuidar em saúde e enfermagem, e está delineada inicialmente no Capítulo
Ι com uma ”Introdução”, que descreve os elementos essenciais da pesquisa e
configura a delimitação do problema e construção do objeto de estudo, sua
justificativa e relevância, as questões norteadoras e os objetivos.
Após essa primeira aproximação com o objeto do estudo, o Capítulo ΙΙ
apresenta a “Contextualização da Infecção Hospitalar e a Teoria das
Representações Sociais”, descrevendo as variadas linhas de pensamento de
diversos autores, sobre os aspectos da problemática das Infecções Hospitalares
através de um resgate histórico das principais contribuições de pesquisadores na
15
evolução da prevenção dessas infecções no mundo contemporâneo e as políticas e
medidas de prevenção desenvolvidas por órgãos regulamentadores e controle
adotadas no Brasil. Também se apresenta como suporte teórico para o estudo a
Teoria das Representações Sociais, teoria que possibilitou o desenvolvimento
instrumental para a compreensão do fenômeno das IH, expresso através do senso
comum das enfermeiras, na sua realidade cotidiana, no sentido prático e simbólico,
por meio da assimilação ao que lhe é estranho, e assim, ao percebê-lo, procurou
associar figura e signo no intuito de interpretar, comunicar e impulsionar um agir
sobre essa realidade.
No Capítulo ΙΙΙ, “Os caminhos da pesquisa”, são apresentados os processos
metodológicos aplicados durante a investigação sobre a abordagem eleita para
compreender o problema, a caracterização do cenário e dos sujeitos pesquisados, a
definição do método, os procedimentos adotados para obtenção dos dados, os
resultados obtidos e a análise da investigação.
No Capítulo ΙV, as “Representações Sociais da Infecção Hospitalar para as
Enfermeiras”, são descritos os resultados do estudo para em seguida serem
analisados os saberes práticos em confronto com o saber científico das enfermeiras,
sobre a Infecção Hospitalar articulados com os processos teóricos e metodológicos
do estudo.
Nas Considerações finais são apresentados os resultados obtidos, bem como,
as possibilidades para o desenvolvimento de novas pesquisas.
Por fim, constam as referências, apêndices e anexos utilizados neste estudo.
16
CAPÍTULO I INTRODUÇÃO
17
1.1 Delimitação do problema e construção do objeto de estudo
A humanidade sempre foi acometida por complicações infecciosas. A falta de
recursos materiais e humanos especializados, aliada ao desconhecimento por parte
da comunidade científica das formas de contágio, às más condições de higiene e à
inexistência de saneamento básico permitia que as doenças transmitidas por
microorganismos se disseminassem rapidamente entre os enfermos. A cólera e a
febre tifóide, por exemplo, eram muito freqüentes.
Com as transformações ocorridas na área da saúde, em decorrência do
avanço tecnológico e da globalização das relações humanas nos últimos anos,
observou-se uma melhoria na assistência hospitalar, proporcionada pelas
descobertas de equipamentos e técnicas que possibilitam cada vez mais
diagnósticos e terapias especializadas.
Esse progresso atrai gradativamente as pessoas em busca de uma
assistência à saúde de qualidade. Entretanto, a maioria da população desconhece
os riscos existentes no ambiente hospitalar, dentre eles, as infecções hospitalares
(IH), que podem ser resultado das tecnologias aplicadas nos serviços de saúde,
como: procedimentos invasivos, antibioticoterapia de última geração, dentre outros.
Os riscos para aquisição das IH são determinados pela susceptibilidade do
paciente. Eles podem ser inerentes a determinadas condições clínicas, responsáveis
pela hospitalização, ou induzidos por procedimentos técnicos assistenciais. Assim,
distinguem-se duas classes de fatores que predispõem as IH: os intrínsecos, que
dependem da própria condição clínica do paciente, e os extrínsecos, que são
relacionados a todos os procedimentos hospitalares utilizados e que diminuem a
resistência à infecção (AGUIAR; LEITE; SILVA, 2005).
Dentre os fatores que contribuem para o surgimento das IH estão: a idade e
as doenças crônicas degenerativas, como a diabetes e as neoplasias,
procedimentos técnicos incorretos, falhas na anti-sepsia da pele e na esterilização
de artigos odonto-médicos hospitalares, grande fluxo de pessoas circulando no
ambiente hospitalar, além do uso indiscriminado de antimicrobianos e da não
adesão à lavagem básica das mãos pelos profissionais de saúde.
18
É importante ressaltar que a associação de doenças e fatores iatrogênicos faz
com que os pacientes sejam mais susceptíveis à aquisição de infecções, pois seus
mecanismos de defesa estão comprometidos, tanto pela doença motivadora da
hospitalização, quanto pelas intervenções necessárias para o diagnóstico e
tratamento (PEREIRA, 2000).
Ressalta-se que os profissionais de saúde, os visitantes e acompanhantes
também estão expostos a riscos. De acordo com a Norma Regulamentadora (NR)
nº. 9 do Ministério do Trabalho e Emprego (MTE), os riscos à saúde no ambiente
hospitalar são uma variável com potencial suficiente para causar danos e podem ser
classificados em: físicos (calor, iluminação, artigos cortantes); químicos (soluções
químicas, aerossóis); ergonômicos (desconforto), e biológicos (fluidos corporais –
vírus, bactérias, fungos) (BRASIL, 1995).
As IH, institucionais ou nosocomiais, são consideradas qualquer infecção
adquirida pelo paciente durante a sua permanência no hospital, ou, se constatado
que não estava presente, ou em período de incubação por ocasião da admissão, ou
mesmo após a alta, quando puder ser relacionada com a hospitalização (BRASIL,
1997, 1998).
Dessa forma, no Brasil, a incorporação das ações de prevenção e controle
das IH ainda não é conhecida por significativa parte dos serviços de assistência à
saúde. Há carência de divulgação pelo poder público dessa problemática nos
hospitais brasileiros, sejam estes públicos, privados ou filantrópicos,
independentemente do nível de complexidade da assistência, pois os profissionais
de saúde e a população necessitam de informações atualizadas para que estejam
conscientes desses riscos.
A realidade da saúde brasileira, especialmente nos serviços públicos, é
adversa. É freqüente a divulgação na mídia da espera prolongada de pessoas em
filas de ambulatórios e a superlotação em hospitais, principalmente nas emergências
e nos serviços credenciados pelo Sistema Único de Saúde (SUS), cuja procura
excede a oferta de leitos, e onde a maior parte da população possui poder sócio-
econômico baixo e depende de atendimento gratuito. Isso influencia sobremaneira
na qualidade da assistência, pois essas instituições, em sua maioria, não oferecem
condições estruturais e muito menos recursos humanos suficientes para garantir um
atendimento especializado e eficiente.
19
Estima-se que dentre os pacientes hospitalizados, de 5 a 10 % desenvolvem
IH. Essas taxas variam de um país para outro, assim como de hospital para hospital.
Nos países desenvolvidos, as IH não ultrapassam os 4% (FERNANDES;
FERNANDES; RIBEIRO, 2000). No Brasil, o único estudo publicado sobre a
prevalência das infecções hospitalares em instituições de saúde conveniadas ao
Sistema Único de Saúde (SUS), localizadas em capitais brasileiras, revela uma taxa
de IH de 15,5% (PRADE et al., 1995). No Piauí, a taxa de prevalência de IH no
Hospital Getúlio Vargas, referência na capital Teresina, foi de 31%, o que é
preocupante, pois demonstra um alto índice dessas infecções, quando comparado
ao resultado nacional (MOURA, 2001).
Assim, a IH produz reflexos negativos para as instituições hospitalares no
Brasil e é considerada como problema de saúde pública, devido à sua importante
incidência e influência nas taxas de letalidade, além do aumento dos custos diretos e
indiretos para a instituição de saúde e para o paciente com infecção, pois o
impossibilita de retornar ao mercado de trabalho e às suas atividades cotidianas,
tendo que suportar as conseqüências como: dor, mal-estar e isolamento e algumas
formas de discriminação (por ex: distanciamento de alguns profissionais de saúde
dos pacientes portadores de IH, por receio de contaminar-se com as secreções
desses pacientes).
Dessa maneira, a IH passa a ser vista como importante indicador da
qualidade da assistência hospitalar. Considerando o problema, o Ministério da
Saúde definiu estratégias para prevenir e controlar essas infecções desde a década
de oitenta e, atualmente, por força de Lei e Resolução da Diretoria Colegiada da
Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA), através do Programa de
Controle de Infecção Hospitalar (PCIH), esse controle deve ser prioritário nos
serviços de saúde do país, e suas medidas devem envolver os gestores e
profissionais de saúde, com o intuito de minimizar riscos, reduzir o máximo possível
a incidência e gravidade dessas infecções.
Nesse programa está contemplada a necessidade de ações efetivas de
prevenção e controle das IH, e os hospitais são obrigados a nomear uma Comissão
de Controle de Infecção Hospitalar (CCIH) e um Serviço de Controle de Infecção
Hospitalar (SCIH), que deverão ser constituídos por profissionais graduados na área
de saúde, encarregados de executar as ações de prevenção e controle dessas
20
infecções e de elaborar e implantar o PCIH, no qual se recomenda a participação do
profissional enfermeiro (BRASIL, 1998).
Nesse contexto as enfermeiras
1
têm papel essencial no controle das IH, pois
desempenham funções de contato direto com os pacientes, além de manipular
equipamentos, instrumentais e medicações. Essas profissionais também podem
participar de Comissões de Controle de Infecção Hospitalar (CCIH),
desempenhando ações para diagnosticar e prevenir o aparecimento dessas
infecções, pois a prática eficiente da enfermeira e sua equipe (auxiliares e técnicos
de enfermagem) podem reduzir o tempo de internação dos pacientes.
Destaca-se, assim, o reconhecimento da atuação da enfermeira e de seu
compromisso, que se concretiza na prática social, assistencial, no uso da técnica
científico-administrativa e de pesquisa junto à população, seja no domicílio a
pacientes internados ou em instituições hospitalares.
1.2 Justificativa e relevância do estudo
A escolha do tema da dissertação partiu de situações experienciadas como
enfermeira-membro da CCIH, na qual se desenvolvem ações relacionadas à
prevenção e controle de infecções de um hospital público geral, de referência e de
ensino, na cidade de Teresina-PI, cuja realidade é preocupante: estrutura predial
antiga, demanda de pessoas internadas ultrapassa o número de leitos existentes e
quantitativos de profissionais deficitários. Também devido a situações vivenciadas
em quatro anos de docência no Curso de Bacharelado em Enfermagem em uma
faculdade privada, que tem na sua matriz curricular a disciplina Prevenção e
Controle das Infecções Hospitalares.
Dentre as atividades como enfermeira e membro da CCIH, estão: a realização
de programas de orientação (cartazes informativos) e educação permanente, no
intuito de sensibilizar os profissionais de saúde para a prevenção e controle das IH,
além das visitas de auditorias internas e buscas de casos dessas infecções nas
enfermarias e serviços especializados nesse hospital.
1
Neste estudo utilizar-se-á o termo enfermeira devido à predominância do sexo feminino na
profissão, no entanto, quando for referência de autores, permanece a nomenclatura do texto.
21
Nessa realidade observa-se um número considerável de pacientes
provenientes da comunidade ou de outros hospitais com infecção e também aqueles
que contraíram IH nesse hospital de referência, nas diversas topografias:
respiratória, urinária, sítio cirúrgico, corrente sanguínea dentre outras.
Percebe-se ainda nesse ambiente a existência de diversos riscos que
predispõem pacientes, profissionais de saúde, acompanhantes e visitantes a
contraírem IH, como por exemplo: acondicionamento de alimentos na mesma
geladeira de medicamentos, esvaziamento de urina da bolsa coletora por
acompanhantes, adesão apenas parcial da equipe de enfermagem na higienização
das mãos, falhas na técnica de realização de curativos, deficiência na segregação
correta dos resíduos, dentre outros. O cuidado a esses pacientes por parte da
equipe de enfermagem em alguns momentos é baseado na improvisação, como por
exemplo: limpeza e irrigação de ferimento infectado com soro fisiológico, dispensado
diretamente no coletor para resíduos, por escassez de bacias ou de cuba rim de
inox.
Também nesse cotidiano é comum deparar-se com situações adversas que
dificultam ou impossibilitam a implementação de medidas eficientes no controle das
IH como, por exemplo: atitudes, comportamentos e opiniões da equipe de saúde na
realização de procedimentos invasivos; esterilização de materiais; adoção de
precauções e isolamento
2
diante do cuidado, em situações de risco que envolva
material biológico (sangue, fezes, secreções etc.). Observa-se que esses
profissionais exercem suas atividades de forma fragmentada, sem a sistematização
do cuidar na perspectiva de prevenção e controle dessas infecções.
Essas situações adversas possibilitam uma reflexão sobre alguns aspectos
importantes, tais como: a participação das enfermeiras no controle das IH; as suas
contribuições na vigilância dessas infecções; a administração da assistência de
enfermagem no período diurno e noturno e suas percepções e habilidades em
priorizar problemas e programar ações.
2
As precauções são medidas de proteção que devem ser tomadas por todos os profissionais de
saúde quando prestam cuidados aos pacientes ou manuseiam artigos contaminados,
independentes da presença de doença transmissível comprovada, com o intuito de prevenir e
controlar a proliferação ou a disseminação de agentes infecciosos. O isolamento deve criar uma
barreira, para evitar que o agente infeccioso prolifere (SANTOS, 2005).
22
Essa complexidade de ações desenvolvidas pelas enfermeiras nas áreas
relativas ao ensino, pesquisa, administração e assistência em enfermagem é um
desafio para elas quanto a diagnosticar e propor intervenções eficazes para o
controle da IH, além de requerer atitudes concretas frente a esta problemática. No
entanto, parece existir uma lacuna no reconhecimento dessas profissionais, como
fator preponderante para a melhoria na qualidade da assistência ao paciente,
realizada através de seu papel de controladora dessas infecções.
A maioria das enfermeiras realiza supervisão de enfermagem, e, de acordo
com Cunha (2005, p.118), “é uma função administrativa que envolve processo de
orientação contínua de pessoal com a finalidade de desenvolvê-lo e capacitá-lo para
o serviço”. Desse modo, o planejamento da assistência aos pacientes torna-se
incipiente, e o papel dessas enfermeiras no controle da infecção não fica tão
evidente, uma vez que essa atribuição é referida aos membros da CCIH.
Essas profissionais algumas vezes demonstram insatisfação e apontam
problemas em relação à estrutura física, ao ambiente insalubre, à falta de recursos
humanos, materiais e condição clínica do paciente, que acabam por tornarem-se
fatores agravantes na disseminação da IH. Também atribuem a responsabilidade
dessa situação à atual conjectura de organização e funcionamento de diretores e
gestores, sem, contudo explorar os verdadeiros motivos que constituem barreiras à
efetivação dessas práticas.
No entanto, a questão vai além. Os profissionais de saúde, inclusive as
enfermeiras, não se manifestam no sentido de reconhecer a IH como fator prioritário
que pode interferir direta ou indiretamente no processo de recuperação do paciente.
Isso é visível na falta de envolvimento dessas profissionais no estabelecimento de
uma comunicação com a CCIH, como meio de impedir que ocorra a contaminação e
a manifestação de infecções nos pacientes, e assim, poder preveni-las e controlá-
las.
Assim, Nesse sentido, considera-se que as medidas recomendadas pela
CCIH não estão conseguindo aprimorar os comportamentos e condutas específicas
das enfermeiras e, conseqüentemente, não repercutem de maneira positiva na
assistência prestada aos pacientes.
23
O que se retrata sobre IH com freqüência são estudos, publicações e
discussões em eventos científicos, cuja maioria aponta pesquisas quantitativas,
voltadas para indicadores, ou seja, índices e taxas relacionadas às bacteremias, aos
antimicrobianos, incidência e prevalência das infecções nas instituições de saúde,
dentre outros. Outrossim, apresenta escassos estudos com abordagem qualitativa,
isto é, dirigidos para investigação das questões que precisam ser compreendidas
envolvendo a subjetividade das enfermeiras da assistência hospitalar.
A opção em realizar este estudo para elucidar algumas questões subjetivas
presentes no cotidiano das enfermeiras em relação à IH deve-se a uma curiosidade
da autora que às vezes se depara com discursos individuais que orientam para uma
prática dissociada da teoria, e com comportamentos produtores de alguns conflitos
no ambiente de trabalho.
Esses fatos culminaram com a determinação que me conduziram para o
desenvolvimento da proposta original, derivada da inquietação e da vontade de
aprofundamento deste tema, que sempre esteve presente na minha realidade de
enfermeira da CCIH. Por isso, buscou-se a compreensão da problemática, que
envolve questões não só de cunho técnico-científico, mas também dos aspectos
referentes à articulação dos elementos afetivos, mentais e sociais, bem como a
tomada de consciência das enfermeiras e de suas próprias representações sobre as
IH.
Considerando esses aspectos, a presente dissertação discorre
especificamente sobre seu objeto, qual seja, as Representações Sociais das
infecções hospitalares elaboradas por enfermeiras. Deter-se exclusivamente no
objeto e investigá-lo em sua unidade foi extremamente difícil, visto que, pela
complexidade dos sujeitos, associadamente a um tema, outros aspectos
interessantes e envolventes vão emergindo e se impondo. Fixar a temática da IH é
justamente o compromisso deste estudo, sem afastar dele outras questões
relacionadas.
Espera-se que os resultados dessa investigação propiciem reflexões para a
compreensão das estruturas e dos comportamentos das enfermeiras, que se
manifestam em opiniões, condutas, gestos e imagens atribuídos às IH – com vistas
a contribuir para melhoria da assistência hospitalar e, conseqüentemente, no
controle dessas infecções.
24
1.3 Questões norteadoras e objetivos do estudo
Essa problemática, ora retratada, induziu aos seguintes questionamentos:
quais as Representações Sociais (RS) da Infecção Hospitalar elaboradas por
enfermeiras e como essas representações influenciam nas práticas de enfermagem
para o controle das infecções?
Nesse sentido, na perspectiva de desenvolvimento dessa proposta de
investigação, foram definidos os seguintes objetivos: apreender as Representações
Sociais das infecções hospitalares elaboradas por enfermeiras e analisar como
essas Representações influenciam nas práticas de enfermagem, prevenção e
controle como forma de inferência para a melhoria na assistência prestada no
referido hospital de ensino.
Portanto, na análise das RS das enfermeiras sobre as IH, não é interessante
apenas a abordagem das práticas de prevenção e controle, e sim a compreensão de
sua estrutura, a sincronia, o inconsciente dessas práticas, que se formam de
maneira mais complexa nessa realidade, de modo a contextualizar que há relações
humanas estreitas dessas enfermeiras com o meio ambiente e o outro, ou seja, esse
outro também tem um contexto social político e econômico nas suas diversidades,
nas essências e nos seus problemas.
25
CAPÍTULO II
CONTEXTUALIZAÇÃO DA INFECÇÃO HOSPITALAR E A TEORIA DAS
REPRESENTAÇÕES SOCIAIS
26
Na perspectiva de subsidiar o presente estudo serão apresentados os
aspectos relacionados à história, conceito e epidemiologia das Infecções
Hospitalares (IH) e suas estratégias de prevenção, para, no item seguinte, articular a
IH como objeto da pesquisa à Teoria das Representações Sociais (TRS).
2.1 Aspectos históricos e trajetória evolutiva da infecção hospitalar e sua
prevenção
A ocorrência das infecções hospitalares (IH) constitui um importante problema
de saúde pública mundial. Sua origem remonta desde a Idade Média, compreendida
entre o século V (476 d.C) e XV (1453 d.C), no qual foram criados os primeiros
hospitais. Apesar de não haver dados registrados, acredita-se que era alta a
incidência de infecções adquiridas nos hospitais, principalmente devido à
prevalência de doenças epidêmicas na comunidade (peste, varíola e febre tifóide) e
às precárias condições de higiene (OLIVEIRA, 1998).
Na Idade Média, com o advento do Cristianismo, surge uma nova visão
humanística, e a atuação da Igreja, como em outros aspectos da sociedade, foi
determinante na organização da atenção à saúde. Assim, desenvolve-se nesse
período o conceito de assistência aos enfermos, viúvas, viajantes, órfãos e
peregrinos. Pelo Decreto de Milão de 313 (d.C.), o imperador Constantino libera a
igreja para exercer atividades de cunho assistencial (RIBEIRO, 1993). Os bispos
reunidos no Concílio de Nicéia no ano de 325 (d.C.) foram orientados a construir
abrigos ao lado das catedrais para realizarem assistência à população mais carente.
Esses fatos impulsionaram o aperfeiçoamento dos hospitais (FINLAND; CRAVEN,
1986).
Ainda de acordo com os autores citados, juntamente com a intenção de
promover o cuidado e a cura, veio também a chance de disseminação das doenças
infecciosas, muitas vezes ocasionadas pela precariedade das condições de
acomodação, de higiene dos pacientes e do ambiente, da superlotação dos hospitais
e do desconhecimento dos mecanismos de transmissão dessas doenças. Assim, era
freqüente a internação de um paciente portador de uma enfermidade degenerativa,
ou trauma externo, que evoluía para o óbito, em decorrência de outra doença
infecciosa, como febre tifóide e supurações (FINLAND; CRAVEN 1986).
27
Mesmo com as condições que favoreciam a percepção da associação entre a
hospitalização e a aquisição de novas moléstias, tendo como conseqüências a morte
dos pacientes, crenças e superstições eram os motivos apontados pela sociedade
da época, que consideravam as doenças como castigo divino. Pode-se dizer que a
correlação entre a hospitalização e o risco de aquisição de IH não é recente. A
história do controle de infecção hospitalar começou a ser delineada na década de
1830, com James Simpson. Segundo Couto, Pedrosa e Nogueira (2003), estudos
demonstraram que as taxas de mortalidade após amputação de membros, realizada
em hospitais, eram cinco vezes maiores que as realizadas nos campos de batalha e
nos domicílios.
Entretanto, foi Oliver W. Holmes, nos Estados Unidos da América, e Ignaz
Philip Semmelweis, na Europa, que estabeleceram as bases para compreensão da
gênese da febre puerperal nas enfermarias obstétricas e dos riscos das parturientes
hospitalizadas contraírem as IH. Holmes (1840), através de observações clínicas,
responsabilizou os médicos obstetras pela disseminação das infecções entre as
parturientes (FERNANDES, 2000).
Semmelweis, médico de origem Húngara, enquanto gerenciava um serviço de
obstetrícia de um famoso hospital em Viena, encontrou um sério problema em duas
enfermarias que internavam as pacientes em dias alternados. As taxas de
mortalidade entre elas eram muito diferentes: na 1ª enfermaria, reservada para
realização dos partos de alto risco, por estudantes de medicina e por obstetras,
eram de 8 a 10% ou até maiores; e na 2ª enfermaria, na qual as parturientes eram
assistidas por parteiras, raramente atingiam mais de 2%. O primeiro grupo de
parturientes apresentou até três vezes mais óbitos e dez vezes mais infecções que o
segundo (PEDROSA, 2004).
O motivo da elevação de tais taxas era a infecção puerperal que evoluía para
doença séptica fatal. Outro fato importante que chamou a atenção de Semmelweis
foi a morte de um amigo patologista que desenvolveu um quadro de infecção com
clínica semelhante à sepse puerperal, após o corte de um dedo, durante a necropsia
de uma parturiente (LAFORCE, 1997).
Mais que isto, Semmelweis, em 1847, concluiu seu brilhante estudo ao
constatar que as mãos dos profissionais médicos e estudantes eram as fontes de
contaminação na aquisição de uma doença séptica fatal para as parturientes, pois
28
eles, após as necropsias, realizavam os partos sem lavar as mãos. Com base em
suas observações clínicas e epidemiológicas, desenvolveu a hipótese da
transmissão da febre pelas mãos dos médicos e estudantes, que carreavam
partículas cadavéricas das salas de autópsia para as pacientes (LAFORCE, 1997;
COUTO, PEDROSA, NOGUEIRA, 2003). Essa hipótese foi fundamentada pela
constatação da redução na ocorrência dessas infecções, de 18,3% em abril, para
1,2 em dezembro do mesmo ano, quando obstetras e estudantes foram obrigados a
lavarem as mãos com solução clorada, antes de examinarem as gestantes (CELINE,
1998).
Apesar dos protestos de colegas de profissão, Semmelweis instituiu a
lavagem das mãos a partir de 15 de maio de 1847 antes e depois dos exames
ginecológicos e das necropsias das pacientes. Assim ele conseguiu reduzir
significativamente essas taxas para 2% (SALOMÃO; PIGNATARI, 2004). Por ironia
do destino, Semmelweis veio a falecer como paciente em um hospital psiquiátrico,
na prematura idade de 47 anos, com os mesmos sintomas sépticos apresentados
pelas parturientes, decorrentes de ferimentos (CÉLINE, 1998).
Dessa forma, um ato simples, como a prática de lavagem das mãos, pelos
profissionais da saúde, continua válida e eficaz para o controle das IH. Infelizmente,
poucos profissionais aderem a esse procedimento. Assim, as mãos permanecem
como principal veículo de transmissão de microorganismos de profissionais para
pacientes, e vice-versa, nos serviços de saúde.
É importante ressaltar que vários estudiosos contribuíram para o controle
eficaz das IH por meio de ações relacionadas à prevenção das infecções. Destaca-
se na enfermagem, a partir de 1858, Florence Nightingale, que, mesmo com todas
as dificuldades enfrentadas no período da guerra da Criméia, preocupou-se em
evitar a propagação dessas infecções e notificou casos de óbitos (FERNANDES,
2000).
Outra relevante contribuição de Florence foi no sentido da organização dos
hospitais, com a criação da Escola de Enfermeiras Saint Thomas (1860), em
Londres, Inglaterra. Isto demarcou o início da enfermagem moderna, com a
introdução da disciplina Organização, método científico e lógica racional no trabalho,
mantendo, contudo, a postura de abnegação e sacrifício das irmãs de caridade
(PEREIRA NETO, 2001).
29
Florence Nightingale, juntamente com o estatístico Willian Farr utilizaram a
epidemiologia para notificação das doenças infecciosas em uma era pré-
bacteriológica, quando essas infecções eram percebidas como aquelas transmitidas
pelo meio ambiente (ar, água e solo). A epidemiologia é uma especialidade da
saúde coletiva que estuda a distribuição das doenças e agravos à saúde nas
populações e seus determinantes, e o seu conhecimento objetiva coletar dados para
o desencadeamento de ações de prevenção e controle (GAZE; PEREZ, 2003).
Dessa forma, dentre as medidas implantadas por Florence para a
manutenção de um ambiente saudável, estão: limpeza, isolamento, individualização
dos cuidados (p. ex.: compressas individuais para a limpeza das feridas), dieta
controlada e supervisionada, abertura das janelas para circulação do ar e entrada de
luminosidade e redução do número de leitos e de pessoas circulando nas
enfermarias foram capazes de cumprir os seus objetivos. Nightingale não mediu
esforços no sentido de promover um ambiente limpo e organizado, instituiu uma
série de cuidados aos enfermos e com isso percebeu uma melhoria na recuperação
deles. Nessa mesma época, em Londres (1864), foi descrita a disseminação de
infecções do tipo hospitalar (FINALND; CRAVE,1986; FERNANDES, 2000;
LACERDA, 2002; COUTO, PEDROSA, NOGUEIRA, 2003).
Por volta de 1867 e 1875, com o surgimento de técnicas assépticas e a
esterilização nos procedimentos cirúrgicos com Joseff Lister, acompanhado pelo
desenvolvimento da bacteriologia com Pasteur e Robert Koch, a qual se atribuiu o
estabelecimento das bactérias como agentes etiológicos das infecções; Billroch e
Rosenbach (1883) identificaram os estreptococos em supurações de feridas; Von
Bergman e Shimmelbuch (1885) introduziram o processo de autoclavação dos
materiais cirúrgicos. Esses pesquisadores desempenharam papel importante para o
conhecimento sobre o controle das Infecções Hospitalares (FERRAZ, 1982;
VERONESI; FOCACCIA, 2004).
Assim, a trajetória que os hospitais percorreram, desde suas origens até a
contemporaneidade, aponta mudanças de depositários de doentes e excluídos para
espaço de concentração de tecnologia e saber (FERNANDES, 2000).
No início do século XX, disseminaram-se os princípios de que tudo o que
tocasse o campo cirúrgico deveria ser esterilizado, e rapidamente se espalhou a
30
conduta do uso de capote, luvas, gorros, máscaras e material cirúrgico estéril
(COUTO, PEDROSA, NOGUEIRA, 2003).
Portanto, o surgimento de técnicas assépticas e os cuidados do isolamento
dos casos, propiciados pelo melhor conhecimento epidemiológico das infecções,
foram importantes aliados no controle das infecções hospitalares (OLIVEIRA, 1998).
No ano de 1940, a utilização de medicamentos antimicrobianos (Penicilina)
em larga escala possibilitou o tratamento das doenças infecciosas e houve redução
das infecções, parecia que, definitivamente, o problema das IH e comunitárias
estava relegado ao passado. Entretanto, nessa mesma época, foi constatado o
surgimento de resistência a esses medicamentos (LEVY, 2002; COUTO, PEDROSA,
NOGUEIRA, 2003). Isso foi e continua sendo motivo de preocupação para os
estudiosos em controle de infecção. Desse modo, a resistência bacteriana está
diretamente associada ao uso indiscriminado dos antibióticos, deprimindo a
resistência do hospedeiro e aumentando o risco à infecção (LOPES, 1994).
A Inglaterra foi pioneira na organização de ações de controle de infecções.
Em 1941, o Conselho de Pesquisa Médica do Reino Unido
3
(UK Medical Research
Council – MRC) recomendou que os hospitais nomeassem um profissional em
tempo integral, para supervisionar essas ações de controle de infecções transmitidas
nos ambientes hospitalares (MEERS, 1980).
A década de 1950 foi marcada pela resistência do Sthaphylococcus aureus à
penicilina. Ocorreu uma pandemia nos hospitais americanos e foram isoladas
bactérias responsáveis por IH em todo o mundo. Nessa época, por determinação do
Centro de Doenças Comunicáveis dos Estados Unidos da América (EUA),
atualmente Centers for Disease Control (CDC), implantou-se uma divisão para
assessorar os hospitais do País na investigação de epidemias e as entidades de
saúde passaram a desenvolver um programa formal de controle de infecção
hospitalar com estratégias centradas na lavagem das mãos (COUTO, PEDROSA,
NOGUEIRA, 2003; VERONESI; FOCACCIA, 2004).
Entretanto, o ponto de mudança entre iniciativas tomadas por profissionais,
como também por instituições de saúde, foi a ocorrência de ações judiciais contra
3
Organização de caráter nacional, cuja finalidade é incentivar as pesquisas em todas as áreas
médicas e afins, no intuito de promover a saúde e a qualidade de vida no Reino Unido (MEERS,
1980).
31
hospitais, tendo como motivo infecções relacionadas à assistência. O caso Darling,
um estudante vítima de fratura na perna que foi atendido na emergência do
Charleston Community Memorial Hospital, onde recebeu imobilização com gesso
aplicada pelo clínico de plantão, o paciente retornou ao hospital, relatando dores e
apresentando sinais isquêmicos no membro engessado, sem que o médico
plantonista interviesse. Finalmente, ao procurar atendimento em outro hospital, a
perna do estudante estava com infecção grave, necessitando de amputação. O
médico foi condenado por negligência, e o hospital por não ter provido a atenção
especializada necessária (FERNANDES, 2000).
Em resposta à situação da pandemia por Sthaphylococcus aureus e
impulsionada pela nova situação legal, a Associação Americana de Hospitais
(American Hospital Association- AHA), ainda no início dos anos 1960, recomendou
que os hospitais realizassem ações e vigilância e controle das infecções
hospitalares. Nessa década, realizaram-se duas conferências nos EUA sobre o tema
do controle das infecções, e o desenvolvimento de estudos pilotos de vigilância para
determinar a magnitude do problema no país. De acordo com Gardner (1962) apud
Martone (1991), a iniciativa do Hospital Tobay, em Denvon, na Inglaterra, sobre o
sucesso da incorporação de uma profissional enfermeira de controle de infecções
nas ações de prevenção, influenciou o modelo de organização que começava a ser
delineado nos hospitais americanos. Assim, em 1968, o CDC concluiu o treinamento
da primeira turma de enfermeiros americanos em controle de infecções (COUTO,
PEDROSA, NOGUEIRA, 2003).
Ainda na década de 1960, a recomendação de instituir-se Comissão de
Controle de Infecção Hospitalar (CCIH) e estabelecerem Programas de Controle de
Infecção Hospitalar (PCIH) nos hospitais transformou-se em item essencial para a
credibilidade nos hospitais. Essa iniciativa foi de grande impacto na implantação das
comissões, pois o credenciamento para assistência médico-hospitalar a pacientes
carentes dependia do financiamento do governo federal e pelos estados por meio do
Medicaid, em vigor desde 1965 (PEDROSA, 2004).
Os custos do sistema de prevenção criado tornaram-se significativos, e a
validade do aparato passou a ser questionada. Ainda no começo de 1970, o CDC
iniciou, com a colaboração de 70 hospitais convidados, um Estudo Nacional de
Infecções Nosocomiais (National Nosocomial Infection Study – NNIS),
32
posteriormente denominado Sistema Nacional de Vigilância de Infecções
Nosocomiais (National Nosocomial Infection Survellance System – NNIS System).
Entre os objetivos do NNIS, estavam: estimar a incidência de IH nos EUA; verificar
tendências das taxas, topografias mais afetadas e fatores de risco; estudar a
resistência microbiana, como também desenvolver uma metodologia que permitisse
comparação interinstitucional e desenvolvimento de pesquisas (FERNANDES,
2000).
Dessa forma, o método de vigilância das IH, preconizado pelo NNIS, era a
coleta de dados de infecção em todas as topografias corporais, conforme os critérios
padronizados, através da monitorização de todos os pacientes hospitalizados. Essa
metodologia constituiu a vigilância global, que em 1986 foi substituída por um
sistema de componentes, mais precisos e flexíveis, que proporcionou melhorar a
acurácia das informações sobre fatores de risco, além de melhorar esforços
despendidos na vigilância e verificar seu impacto na redução dos índices de IH
(COUTO, PEDROSA, NOGUEIRA, 2003).
Nesse sentido, as IH são definidas pelo CDC como aquelas infecções
sistêmicas ou locais manifestadas após 48 horas da admissão hospitalar, ou até 48
horas após a alta e 30 dias após cirurgia sem colocação de prótese ou um ano após
colocação de prótese. Esse conceito vai além, pois não são doenças infecto-
contagiosas, mas complicações infecciosas de doenças preexistentes e ou de
procedimentos médicos cirúrgicos invasivos ou imunossupressores aos quais o
paciente foi submetido. A designação é incorreta, uma vez que ela não depende do
ambiente hospitalar em si, pois as complicações infecciosas resultam de um
desequilíbrio entre os mecanismos antiinfecciosos do hospedeiro e os patógenos
oportunistas que habitam o corpo desde o nascimento até a morte (COUTO;
PEDROSA; NOGUEIRA, 2003; PERZ; SANTOS, 2005).
No entanto, o projeto mais abrangente do CDC para o controle das IH foi um
estudo nacional para avaliar o resultado do Programa de Controle de Infecção (PCI),
adotado na maioria das cidades norte-americanas, que ficou definido como Study of
the Efficacy of Nosocomial Infection Control – SENIC. O projeto tinha como objetivo
avaliar a efetividade da vigilância epidemiológica e dos programas de controle em
atividade no país: determinar se os programas adotados foram capazes de reduzir
as taxas de infecção e em que extensão. Assim, esse programa envolveu 338
33
hospitais selecionados de uma amostra representativa e que efetuavam diferentes
formas de controles de infecções de 339.000 pacientes entre 1974 e 1983 (COUTO;
PEDROSA; NOGUEIRA, 2003).
Durante esses nove anos de condução do Projeto SENIC, houve avanços
para o controle de infecção nos EUA, como a criação, em 1980, da Society of
Hospital Epidemiology of America (SHEA, hoje Society for Health and Epidemiology
of America). A análise dos resultados publicados em 1985 mostrou a possibilidade
de prevenir cerca de 30% das infecções se os seguintes componentes fossem
observados: existência de um programa bem organizado que combatesse a
infecção, abrangendo todo o hospital; vigilância epidemiológica intensiva há pelo
menos um ano; retorno dos resultados das taxas aos cirurgiões; um médico efetivo
com interesse especial e conhecimento em controle de infecção; um enfermeiro
especializado em controle de infecção para cada 250 leitos (PEDROSA;
CARVALHO; COUTO, 2003).
Esse estudo serviu como parâmetro para outros países, no estabelecimento
de metas na redução de indicadores de IH, e foi determinante para o
desenvolvimento de políticas de controle de IH em todo o mundo ocidental, pois
seus números eram contundentes. A estimativa, na época, era da predominância de
cerca de 2 milhões de IH anualmente nos EUA. Com a efetividade do controle de IH
medido pelo estudo SENIC, apenas 6% delas estavam sendo prevenidas (HARLEY
et al., 1985.; INWEREGBU; DAVE; PITTARD, 2005). Este foi um dos primeiros
estudos multicêntricos na história do controle de infecção hospitalar e se
caracterizou pelo rigor no método epidemiológico (COUTO; PEDROSA; NOGUEIRA,
2003). O CDC mantém, até hoje, a publicação de uma série de manuais com
recomendações para prevenção de infecções, que constituem referência mundial
para o assunto (FERNANDES, 2000; JARVIS, 2001).
No Brasil, embora o termo infecção hospitalar só tenha sido utilizado na
literatura a partir da década de 1970, desde 1950, textos científicos já apontavam
que a transmissão de doenças infecciosas nos hospitais preocupava os profissionais
da área de saúde. Diversos temas como: infecções no pós-operatório, técnicas
assépticas, desinfetantes, esterilizantes, ar-condicionado no ambiente cirúrgico, a
problemática dos resíduos hospitalares e até mesmo a resistência microbiana já
34
permeavam as publicações nas especialidades médicas e de enfermagem na
metade do século passado (LACERDA; EGRY, 1997; LACERDA, 2002).
Somando-se a esses esforços, destaca-se, assim, uma iniciativa pioneira em
um hospital brasileiro, o Ernesto Dorneles, no Rio Grande do Sul, em 1963, que
nomeou a primeira Comissão de Controle de Infecção Hospitalar (CCIH) do país
(OLIVEIRA, 1998; FERNANDES; FERNANDES; RIBEIRO, 2000; COUTO,
PEDROSA, NOGUEIRA, 2003). A partir de então, surgiram alguns questionamentos
sobre a eficácia dos Programas de Controle de Infecção (PCI), nos quais o debate
era centrado em: custos de uma vigilância rotineira e eficaz; necessidade de
existência de CCIH, melhor relação entre a quantidade de profissionais dessa
Comissão e números de leitos nos hospitais; presença de médico interessado e
treinado em controle de infecção; e eficácia do retorno ao médico cirurgião das suas
taxas de infecções cirúrgicas (PEDROSA; CARVALHO; COUTO, 2003).
No entanto, o merecido reconhecimento da problemática no Brasil somente
ocorreu a partir de meados da década de 80 do século passado, quando
subitamente a infecção hospitalar passou a ser assunto de grande importância,
polêmico e de domínio público. Com a finalidade de delinear diretrizes para o
controle das infecções, no ano de 1982, foi criada a Comissão Interministerial de
Planejamento e Coordenação (CIPLAN), que envolveu os Ministérios da Saúde, da
Previdência e Assistência Social e da Educação.
Dessa forma, o modelo brasileiro para prevenção e controle das infecções
relacionadas à saúde foi oficializado com a publicação, pelo poder público, através
do Ministério da Saúde (MS), da Portaria nº 196 de 24 de junho de 1983,
determinando que todo hospital, independentemente da entidade mantenedora,
porte ou especialidade, deve constituir uma Comissão de Controle de Infecção
Hospitalar (CCIH). Esta Comissão seria composta por representantes do serviço
médico, do serviço de enfermagem, do laboratório de análises clínicas, dos médicos
residentes, da farmácia hospitalar e da administração (BRASIL, 1983; OLIVEIRA,
1998; FERNANDES; FERNANDES; RIBEIRO, 2000). Embora os conceitos dessa
Portaria tivessem causado polêmica, ela foi decisiva na constituição das CCIHs por
todo o país.
Especificamente no Brasil, as IH são consideradas qualquer infecção
adquirida durante a internação de um paciente em um hospital ou até mesmo
35
quando se manifesta após a alta, quando puder ser relacionada com a
hospitalização (BRASIL, 1997; 1998). Essas infecções se refletem como vilãs nesse
espaço onde o sofrimento, a dor e as incertezas estão sempre presentes. Muitas
vezes, o cidadão é internado para realizar um simples procedimento de saúde e
adquire uma infecção hospitalar, por isso são necessárias ações de promoção e
prevenção dessas infecções.
As infecções hospitalares podem ser de origem endógena ou exógena, onde
70% são endógenas e 30% exógenas. Portanto, a maioria dessas infecções
manifesta-se como complicações naturais de pacientes, e são decorrentes de um
desequilíbrio de sua flora microbiana normal e de seus mecanismos de defesa. Esse
desequilíbrio é provocado por determinadas patologias de base, como: neoplasias,
diabetes, obesidade, dentre outros, além dos riscos inerentes a procedimentos
invasivos ou imunossupressivos a que o doente, correta ou incorretamente, tenha
sido submetido. Conseqüentemente, algumas infecções são evitáveis, outras, não
(FERNANDES; FERNANDES; RIBEIRO, 2000).
Ressalta-se que os microorganismos têm papel passivo na aquisição das IH.
Cabem, assim, aos profissionais de saúde, ações efetivas para controlar as
patologias de base, proteger e manter a vida dos doentes. Para isso, os profissionais
assumem riscos e realizam cada vez mais procedimentos invasivos e
antimicrobianos mais potentes, os quais a maioria das IH têm relação.
É interessante observar que fatos envolvendo pessoas públicas, como a
morte do presidente Tancredo Neves, em 1985, por infecção hospitalar, e o
surgimento da AIDS/SIDA e sua constatação como infecção transmitida pelo
sangue, repercutiram nacionalmente através da mídia. Assim, a população foi
sensibilizada para a situação das infecções hospitalares nos hospitais brasileiros
(RODRIGUES, 1997).
É importante considerar os avanços das políticas de assistência à saúde
brasileira. Através da VIII Conferência Nacional de Saúde, em 1986, ocorreu uma
grande mudança, como a criação e implantação gradativa do Sistema Único de
Saúde (SUS), que pode ser considerada como uma das reformas sociais mais
importantes realizadas pelo país na última década do século 20. Em 1988, a nova
Constituição brasileira universalizou o direito ao acesso gratuito às ações e serviços
financiados pelo poder público. Estes passaram a integrar um sistema único,
36
regionalizado, hierarquizado e organizado segundo algumas diretrizes básicas:
atendimento universal e integral com prioridade para as atividades preventivas, sem
prejuízo dos serviços assistenciais; descentralização, com direção única em cada
esfera de governo e participação e controle da sociedade (SILVA, 2003).
Essa reforma propõe a implantação e consolidação do SUS, surgindo, então,
uma forma de organização dos serviços de saúde no país, na qual tanto os serviços
públicos quanto os privados (por meio de convênios) fazem parte de uma mesma
rede, com o objetivo único de atender às necessidades de promoção, proteção e
recuperação da saúde da população (MELO; CUNHA; TONINI, 2005). Assim, em 19
de setembro de 1990, foi aprovada a Lei nº 8.080, ou seja, a Lei Orgânica de Saúde
(LOS), que regulamenta a organização e o funcionamento dos serviços e dispõe
sobre as condições para promoção, proteção e recuperação da saúde.
Na área hospitalar, 80% dos estabelecimentos que prestam serviços ao SUS
são privados, e 75% da atenção ambulatorial é prestada pelos hospitais públicos.
Essa enorme rede, espalhada por todo o território nacional, apresenta nas suas
estruturas gerenciais, tecnológicas, perfis e práticas assistenciais heterogêneas
quanto à sua clientela (SOUZA; PENTEADO; SEEGMULLER, 2005).
De acordo com Medeiros (2004), no início dos anos 1990, já com profissionais
capacitados, principalmente em instituições de ensino brasileiras, os programas de
controle de IH tornaram-se mais aperfeiçoados. Algumas instituições iniciaram a
aplicação da metodologia de sistemas de vigilância preconizada pelo Centro de
Controle e Prevenção de Doenças (CDC), de Atlanta (EUA), e pelo National
Nosocomial Infecctions Suverllance (NNIS).
Então, o empenho dos especialistas em controle de IH para desenvolver essa
metodologia possibilitou que o MS revogasse a Portaria nº 196 e publicasse a
Portaria nº 930 de 27 de agosto de 1992, que mantém a CCIH e prevê a criação dos
Serviços de Controle de Infecção Hospitalar (SCIH), com profissionalização de
enfermeiros e de médicos, e faz recomendação para utilização de métodos ativos na
coleta de dados.
Assim, as Comissões atuariam como órgãos normativos, e os Serviços como
órgãos executivos das ações programadas de controle de infecção. Dessa forma, os
hospitais deveriam manter um Programa de Controle de Infecção Hospitalar (PCIH)
37
independente da entidade mantenedora. Além disso, a Portaria estabeleceu critérios
para diagnóstico dessas infecções e abordou métodos de vigilância epidemiológica e
normas para limpeza, desinfecção, esterilização e anti-sepsia (BRASIL, 1992;
RODRIGUES, 1997; FERNANDES; FERNANDES; RIBEIRO, 2000; OLIVEIRA,
1997).
Nesse sentido, a implantação de uma CCIH em serviços de saúde é
justificada pela comprovação da possibilidade de redução da freqüência e gravidade
das IH, através da divulgação de medidas de controle. Além disso, os profissionais
das CCIH necessitam dar maior ênfase às ações de capacitação, visto que a
qualificação dos profissionais de saúde é um elemento chave para a redução das
infecções em serviços de saúde.
Não obstante o estabelecimento das ações de controle de IH, previstas por
todos os instrumentos legais que tratam da questão, o MS amplia e define
estratégias para a capacitação de profissionais que estejam direta ou indiretamente
envolvidos com a assistência à população hospitalizada. Realizaram-se
treinamentos patrocinados pelo MS para os coordenadores das CCIH dos estados,
que seriam os responsáveis pela capacitação dos demais profissionais de saúde. Os
conteúdos e as práticas envolviam, desde o ensino da lavagem das mãos, como
medida principal de prevenção e controle das IH, a conceitos, critérios e
diagnósticos dessas infecções (MEDEIROS, 2004).
Em 1992, o MS realizou um inquérito nacional cujos resultados apontaram
uma taxa de infecção hospitalar de 15,5%, e que menos de 30% das instituições
pesquisadas realizavam a busca ativa dos casos (BRASIL, 1995).
Contraditoriamente, quanto mais bem pontuadas as ações executadas, maior era a
taxa de infecção na instituição (FERNANDES; FERNANDES; RIBEIRO, 2000).
Como houve uma perda amostral de 50% devido à greve no Sistema Único de
Saúde (SUS) na época, a magnitude do problema brasileiro ainda se encontra por
ser estabelecida (COUTO, PEDROSA; NOGUEIRA, 2003).
No final da década de 90, foi aprovada a Lei nº 9.431 de 06 de janeiro de
1997, regulamentando a obrigatoriedade do Programa de Controle de Infecção
Hospitalar (PCIH), definido como um conjunto de ações desenvolvidas, deliberadas
sistematicamente, com vistas à redução máxima possível da incidência e da
gravidade das infecções hospitalares (BRASIL, 1997).
38
Esta Lei vetou os principais artigos, inclusive o que instituía o SCIH e a busca
ativa dos casos, e manteve a obrigatoriedade da CCIH e PCIH. A sua publicação
gerou descontentamento por parte dos controladores (profissionais) de infecção. As
razões do veto foram basicamente que a Lei, ao constituir normas para todos os
hospitais públicos, contrariava dispositivos constitucionais que afirmam que a
iniciativa de leis que disponham sobre a organização e o funcionamento da
administração federal é de competência do Presidente da República (FERNANDES;
FERNANDES; RIBEIRO, 2000).
O Ministério da Saúde (MS) compreendeu que somente a determinação
contida em Lei não oferecia subsídios suficientes de fiscalização das ações de
prevenção e controle das IH, e um ano após, publicou a Portaria nº 2.616 de 12 de
maio de 1998 (BRASIL, 1998). Essa Portaria voltou a considerar a existência de
uma equipe específica, ampliando sua constituição e abrangência, porém, tratou-se
de uma simples recomendação, sem o mesmo peso de uma Lei Federal, portanto,
mais vulnerável ao jogo das forças políticas.
De acordo com essa Portaria, os profissionais que trabalham nas Comissões
de Controle de Infecção Hospitalar deverão ter formação em nível superior, sendo
formalmente designados como membros consultores e executores. Os primeiros são
os representantes dos serviços: médico, de enfermagem, de farmácia, de laboratório
de microbiologia e administração. Os segundos representam o Serviço de Controle
de Infecção Hospitalar (SCIH) e são responsáveis pelas ações programadas de
controle de infecção hospitalar e, dentre os profissionais, preferencialmente deve ser
um(a) enfermeiro (a).
Atualmente, o profissional enfermeiro (a) é reconhecido como um membro de
destaque no SCIH por sua aproximação com as demais categorias e habilidade
educativa, com respaldo legal do Conselho Federal de Enfermagem (COFEN),
através da Lei do exercício profissional de nº 7.498 de 25 de junho de 1986, a qual,
no seu artigo 8º, o coloca como integrante da equipe de saúde na prevenção e
controle das IH, tanto como membro das respectivas comissões, quanto participante
nos programas de treinamento e aprimoramento de pessoal de saúde,
especialmente os de educação permanente (BRASIL, 1986). Isso demonstra que as
enfermeiras devem estar comprometidas com as práticas relacionadas ao controle
das IH.
39
Devido à magnitude e complexidade da IH, seu controle deve estabelecer-se
de forma contínua e ativa. Para isso, os profissionais que assumirem esse desafio
devem dedicar-se exclusivamente ao controle de infecções ou, dependendo da
complexidade, dedicar pelo menos uma parte de sua jornada de trabalho.
“Entendemos o controle de infecção hospitalar como um complexo problema de
saúde pública, que foge da órbita restrita de uma única profissão ou especialidade”
(FERNANDES, 2000, p. 1461).
O Ministério da Saúde, através da Agência Nacional de Vigilância Sanitária
(ANVISA), que tem como finalidade programar ações que venham a contribuir para a
melhoria da qualidade da assistência à saúde, instituiu o Roteiro de Inspeção nº 48
de 2 de junho de 2000, a ser aplicado pelas vigilâncias sanitárias estaduais,
municipais e do distrito federal, considerando esta uma forma de fiscalizar o PCIH
desenvolvido pela CCIH. Esse roteiro estabelece a sistemática para avaliação do
cumprimento das ações do PCIH (BRASIL, 2000).
Destarte, as infecções hospitalares constituem risco significativo à saúde dos
usuários dos hospitais, e sua prevenção depende da adoção de medidas de
qualificação da assistência hospitalar, da vigilância sanitária e outras, tomadas no
âmbito do Estado, Município e de cada hospital, atinentes a seu funcionamento.
Dessa forma, a ANVISA, com o intuito de oferecer às instituições de saúde e
seus gestores uma ferramenta para aprimoramento das ações de prevenção e
controle, lançou, em 2004, o Sistema Nacional de Informação para o Controle de
Infecções em Serviços de Saúde (SINAIS). O uso do programa é gratuito, sua
utilização é uma ação importante para o monitoramento das IH, pois permite a
entrada de dados, emissão de relatórios e análise dos indicadores de forma rápida e
eficiente, facilitando, assim, a compreensão abrangente e detalhada do
comportamento dessas infecções e do impacto das medidas de controle nos
serviços de saúde do Brasil (SOUZA; PENTEADO FILHO; SEEGMULLER, 2005).
O controle de IH surge no Piauí mesmo antes de existir uma Comissão
Estadual de Controle das IH (CECIH), no Hospital Getúlio Vargas (HGV), instituição
pública, de ensino e referência no Estado, que estruturou e nomeou no ano de 1989
a primeira CECIH, através de Portaria, conforme regimento interno institucional.
Seus membros foram constituídos por médicos, enfermeiras e outros profissionais
de saúde. Assim, o HGV foi o precursor na prevenção e controle das infecções
40
hospitalares no Piauí (MOURA; TYRRELL, 1999). No momento, a CECIH do HGV é
composta por enfermeiras, médicos e representantes dos serviços de administração
e da farmácia.
De acordo com Moura; Tyrrell (1999) e Moura, (2001), a primeira CECIH do
Estado do Piauí foi constituída somente em 1994. Junto a essa comissão criou-se o
Núcleo Executivo do Estado, formado por técnicos (enfermeiras e médicos) com
experiência em controle de infecção hospitalar. Essa comissão teve como meta a
criação de CCIH em todos os hospitais da capital e das regionais de saúde.
Atualmente, funciona uma Coordenação Estadual de Controle de Infecção Hospitalar
sob a responsabilidade de uma enfermeira.
Considerando todos esses aspectos, a ocorrência da IH amplia o prejuízo,
saindo da esfera institucional para o próprio paciente e também para a sociedade.
Diante disso, essas infecções passaram a ser vistas como um epifenômeno, que
serve como importante índice da qualidade da assistência odonto médico-hospitalar,
e o Serviço de Prevenção passou a ser considerado programa prioritário para
garantir uma assistência à saúde com qualidade. Assim, o controle das IH se
apresenta como um grande desafio do sistema de saúde, dentro da premissa básica
de não causar danos aos usuários.
2.2 A infecção hospitalar como objeto das representações sociais
Combater as IH não é tarefa que dependa somente da cooperação de algum
grupo de voluntários ou de pessoas especialmente indicadas. Trata-se de considerar
o controle dessa infecção como prioritário e seguir programas elaborados pela CCIH
que, no entanto, necessita da participação das enfermeiras e de todos os
profissionais, nos diversos níveis da escala hierárquica, bem como dos
acompanhantes, visitantes e do próprio paciente. As ações práticas das enfermeiras
para prevenção e controle das infecções hospitalares, cotidianamente concretizadas
no ambiente de trabalho, são construídas e reconstruídas nas relações
estabelecidas entre essas profissionais.
Dessa forma, por ter um caráter multidisciplinar, a Teoria das Representações
Sociais (TRS), inaugurada por Moscovici (1978), cada vez mais tem contribuído para
a investigação dos fenômenos compatíveis com essa perspectiva teórica, em vários
41
segmentos do conhecimento. Com isso tem se mostrado de grande utilidade no
planejamento de investigações sociais e, particularmente, no campo da saúde, na
área da enfermagem, não só por razões históricas, mas em decorrência de sua
relevância no contexto social.
Essa Teoria tem sido um referencial importante na utilização de seus
pressupostos, por favorecer o desvelar de cognições e representações de objetos
sociais no processo saúde-doença que se manifesta no pensamento popular (SÁ,
1998).
As representações da saúde e da doença constituem possibilidades de
aprofundamento das questões relacionadas: às percepções que o ser humano
elabora sobre o biológico e o social; sobre como os grupos constroem a realidade e
como a integram em seu sistema de valores. Esta orientação conduz ao estudo das
normas, das atitudes, dos pressupostos do grupo de enfermeiras a respeito do
objeto particular e das suas implicações para mudanças de comportamento, das
práticas profissionais e dos programas de ação, no caso, o de IH.
Nessa perspectiva, a enfermagem, através de diversos autores, tem
enfatizado a importância de se observar o ser humano de maneira holística; nos
processos intelectuais, emocionais, afetivos e culturais, no sentido de possibilitar a
interação entre as partes. O processo de cuidar exige o envolvimento da enfermeira
que cuida, com o paciente que é cuidado, o que pode resultar na obtenção de uma
maior efetividade nas práticas de intervenções para o controle das IH.
É possível, assim, a compreensão dos processos de elaboração e
funcionamento das Representações Sociais (RS) que estão organizadas de
maneiras diversas, segundo diferentes grupos sociais. Isso traz à tona a
necessidade do conhecimento das RS das IH por enfermeiras, e de todos os
aspectos que permeiam sua história num contexto maior, que não envolva somente
questões de cunho técnico e científico, mas também aspectos referentes à
organização e criação do saber permeado por crenças e valores, pois a prevenção e
o controle dessas infecções são uma das atribuições mais difíceis e importantes
para a profissional enfermeira e toda a equipe de saúde.
Nesse sentido, o estudo e a aplicação das Representações Sociais (RS) têm
aparecido com freqüência em trabalhos de diversas áreas, despertando o interesse
42
dos profissionais de saúde, incluindo as enfermeiras. Conforme Sá (1998),
pesquisadoras como: Antonia Silva, em João Pessoa, estudando as RS da epilepsia;
Rosalina Rodrigues, em Ribeirão Preto, analisando a velhice, e Denise Oliveira, em
São Paulo, ocupando-se das representações das práticas de saúde pública, têm
aplicado a TRS (MOSCOVICI, 1978) nas suas respectivas áreas de atuação. No
Piauí, destacam-se as pesquisadoras: Maria Eliete Moura e Cristina Miranda, que
estudam as RS das IH; Maria Bruno, que descreve as RS do desmame precoce, e
Maria Enóia Dantas, que pesquisa as representações da hipertensão arterial,
demonstrando assim os avanços nas pesquisas sobre as RS no Estado.
O conceito de RS surgiu a partir da noção de representação coletiva de
Durkheim na escola positivista de tradição sociológica. Essa linha de pensamento
tinha como pressuposto teórico básico considerar a sociedade como um conjunto de
fatos sociais, ou seja, as representações não poderiam ser reduzidas a
representações individuais (ARRUDA, 2002). O advento da TRS teve um aspecto
inovador por estabelecer uma ruptura com a visão dicotômica do positivismo e dos
modelos funcionalistas ainda em vigor nessa época (NÓBREGA, 2003).
A perspectiva de inovação de um social móvel e a emergência de um novo
saber conduziram Serge Moscovici a substituir a noção de Representações
Coletivas pelo conceito de Representações Sociais, cuja teoria foi originada na
Europa em 1961 e introduzida na Psicologia Social
4
através de seu estudo intitulado:
A Representação Social da Psicanálise
5
(MOSCOVICI, 1978).
É a caracterização das RS como um processo criativo (de elaboração
cognitiva e simbólica) que serve de orientação aos comportamentos das pessoas.
4
É dentro do materialismo histórico e da lógica da dialética que vamos encontrar os pressupostos
epistemológicos para a reconstrução de um conhecimento da realidade social e o cotidiano de cada
indivíduo e permita uma intervenção efetiva na rede de relações sociais que define cada indivíduo
[...], a psicologia social continua tendo por objetivo conhecer o indivíduo no conjunto de suas
relações sociais, tanto naquilo que lhe é específico como naquilo em que ele é manifestação grupal
e social (LANE, 2006, p 10-19).
5
A noção de representação social utilizada nesta dissertação refere-se à teoria elaborada por Serge
Moscovici através do estudo intitulado La psychanalyse, son image et son public (1961, 1978) sobre
a representação social que a população parisiense tinha da psicanálise no final da década de 1950.
Ele estava interessado em compreender como os indivíduos, em interação social, constroem
representações sobre os objetos sociais. Conclui que a representação social apresenta-se como
veículo de construção mental do objeto compartilhado cotidianamente por um conjunto social, na
medida em que esta teorização é partilhada sobre o real que permite a comunicação e a
organização consensual dos comportamentos sociais.
43
Aspecto este inexistente para Durkheim, que enfatiza o fenômeno de reprodução do
pensamento (representação coletiva) (NÓBREGA, 2003).
Na concepção de Durkheim (1978), é a sociedade que rege o pensamento na
vida social e estabelece a condição de organização desse pensamento, portanto, as
representações coletivas têm como substrato uma sociedade homogênea na sua
totalidade e é vivenciada por todos os membros de um grupo. Essas
representações, assim como os fatos sociais, coexistem por si mesmas, com
propriedade de manter as sociedades coesas, preservando o todo social, irredutível
à fragmentação. Dessa forma, Durkheim mostrou-se inflexível ao defender que o
coletivo não podia ser explicado em termos de individual. Afirma que:
representações coletivas traduzem a maneira como o grupo se
pensa nas suas relações com os objetos que o afetam. Para
compreender como a sociedade se representa a si própria e ao
mundo que a rodeia, precisamos considerar a natureza da sociedade
e não a dos indivíduos (
DURKHEIM, 1978, p. 79).
Ao esclarecer a sua preferência pelo adjetivo social em relação ao coletivo,
Moscovici, ao contrário de Durkheim, interessou-se por um social móvel do mundo
moderno, transformado com a divisão social do trabalho e a emergência de um novo
saber: a ciência. Ele defendeu a “bilateridade na relação entre o individual e o social,
ao mesmo tempo em que o social transforma o indivíduo” (CASTRO, 2004, p. 60).
Por meio de seu estudo, Moscovici (1978, p. 70) elabora um dos conceitos
clássicos de representação social como:
um sistema de valores, de noções e de práticas tendo uma dupla
tendência: antes de tudo, instaurar uma ordem que permite aos
indivíduos a possibilidade de se orientar no meio ambiente social,
material e de dominá-lo. Em seguida, de assegurar a comunicação
entre os membros de uma comunidade, propondo-lhes um código
para suas trocas e um código para nomear e classificar de maneira
unívoca as partes de seu mundo, de sua história individual ou
coletiva.
Ainda segundo Moscovici (1978, p. 41), as RS “são entidades quase
tangíveis. Elas circulam, cruzam-se e se cristalizam incessantemente através de
uma fala, um gesto, um encontro, em nosso universo cotidiano”. Por isso, uma
representação constitui uma das vias de apreensão do mundo concreto, produz e
determina os comportamentos e a comunicação entre indivíduos.
44
Nesse sentido, Tura (2004, p.18) explica que o conceito rompe a dicotomia
entre o individual e o coletivo e se encontra na inserção entre os dois pólos, ou seja,
é o que Moscovici (1978) considera como pólo passivo e constitui-se numa figura, e
o pólo ativo lhe dá significação. Apresentam-se, assim, como as duas faces de uma
moeda: a face figurativa e a face simbólica. Dessa maneira, à figura corresponde um
sentido e a todo o sentido uma figura.
O teorista não aceita a separação entre a consciência individual e a realidade
social, da mesma maneira não compreende o indivíduo como indiferente diante da
representação, mas sim como um ser dinâmico que constrói e reconstrói as suas
representações, que por sua vez determinam a sua localização no universo da
comunicação social.
Sob essa ótica, os fenômenos de RS estão presentes na cultura, nos
processos de comunicação e nas práticas sociais e, portanto, são difusos,
multifacetados e em constante movimento e interação social (SÁ, 1998). As opiniões
verbalizadas, as atitudes e os julgamentos individuais e coletivos são os materiais
fundamentais de estudo das representações sociais, portanto, fazem parte de um
olhar consensual sobre a realidade (OLIVEIRA, 1996).
Assim, as RS têm como fundamento o indivíduo e os grupos sociais, e só
podem ser construídas a partir deles, quando esses grupos vivenciam, de forma
contextualizada e num determinado meio histórico e social, a tensão entre sua
objetividade e a subjetividade. Sá (1998, p. 24) destaca que “uma representação
social é sempre de alguém (o sujeito) e de alguma coisa (o objeto)”.
Para a compreensão dos pressupostos das RS, acredita-se numa estratégia
que permite ver a sociedade como indivíduos que pensam e se comunicam e assim
produzem as suas representações e soluções próprias para as questões que se
colocam a si mesmos, e não apenas como processadores de informações. Essa
maneira de representar influencia de forma decisiva na maneira como se desenvolve
sua convivência social. Toda representação é construída na relação do sujeito com o
objeto representado, não existindo, portanto, representação sem objeto
(MOSCOVICI, 1978).
É importante destacar que uma representação não é apenas o fato de o grupo
se posicionar quanto a algum objeto. As representações são construídas a partir das
45
articulações e combinações de diferentes questões, objetos e idéias que são
formuladas segundo uma lógica e seqüência própria, dentro de uma estrutura global
de implicações, para a qual são fundamentais informações e julgamentos do grupo,
seu modelo de comportamento e as experiências individuais e grupais. Moscovici
(1978, p. 50) afirma que as representações sociais são consideradas “ciências
coletivas sui generis, destinadas à interpretação e elaboração do real”.
Partindo-se desses pressupostos, a TRS define os parâmetros de uma
análise científica, na qual é atribuída uma lógica ao conhecimento do senso comum,
não mais correspondendo ao que se interpretava como fragmentário, insignificante e
caótico. Assim, RS são elaboradas nos fenômenos comunicacionais que repercutem
sobre as interações e mudanças sociais (NÓBREGA, 2003).
Dessa forma, a TRS, além de apresentar uma intenção mais integrativa, tem
pressupostos que implicam em considerar o comportamento social enquanto um
comportamento simbólico, ou seja, enquanto atividade produzida pelos processos de
comunicação que influencia no contexto das relações interpessoais e grupais, tendo
uma função também social e relacional. O mesmo autor enfatiza que “as
representações sociais devem ser vistas como uma maneira específica de
compreender e comunicar o que nós já sabemos” (MOSCOVICI, 2003, p. 46).
De acordo com Moscovici (2003), a RS também é atribuída a um conjunto de
conceitos, explicações e afirmações que tem sua origem no cotidiano de
comunicações sociais, e pode ser compreendida como a teoria do senso comum, ou
seja, uma forma de pensamento social numa perspectiva mais ampliada, conforme
descreve:
Assim representar significa, a uma vez e ao mesmo tempo, trazer
presentes as coisas ausentes e apresentar coisas de tal modo que
satisfaçam as condições de uma coerência argumentativa, de uma
racionalidade e da integralidade do grupo (MOSCOVICI, 2003
, p.
216).
Na mesma perspectiva, Jodelet (1989, p. 36) define as RS: “são uma forma
de conhecimento, socialmente elaborado e partilhado, tendo uma visão prática e
concorrendo para a construção de uma realidade comum a um conjunto social”, ou
seja, permitem conhecer as construções elaboradas e partilhadas a partir da
realidade comum a um grupo social sobre determinado objeto focalizado. Assim, o
46
que existe são formas de conhecimento que se manifestam como elementos
cognitivos, imagens, conceitos, categorias, teorias, mas, que não se reduzem jamais
aos componentes cognitivos. Sendo socialmente elaboradas e compartilhadas,
contribuem para a construção de uma realidade comum, que possibilita a
comunicação (JODELET, 2001).
Portanto, a comunicação social é responsável pelo modo como se forjam as
RS, assim como determina o processo de representação estruturado em três níveis,
como esquematiza Nóbrega (2003, p. 59):
Cognitivo (símbolos e imagens): refere-se ao acesso desigual das
informações, interesses ou implicação dos sujeitos, necessidade
de agir em relação aos outros e tem como função formação de
condutas.
Formação da RS (objetivação e ancoragem), e tem como função a
orientação na comunicação.
Edificação das condutas (opiniões, atitudes, estereótipos), esta
tem a função justificadora.
Para realizar a análise desse conceito, Moscovici distinguiu duas etapas, e
estas podem se caracterizar por um nível mais superficial e outro mais denso. No
primeiro nível pode-se percebê-las em três dimensões: a atitude, que corresponde à
orientação geral em relação ao objeto representado, ou seja, afetos e sentimentos
positivos, negativos ou neutros – capacidade para agir e tomar posição; a
informação, relacionada ao conhecimento sobre o objeto social; e o campo
representacional ou imagem, caracterizando-se por tendências de respostas com
base na imagem constituída – ligado aos conteúdos concretos. No segundo nível
inclui-se a qualificação da representação como social, isto é, significa que é
necessária a análise das razões de sua produção, ou de sua contribuição para os
processos de formação de condutas e de orientações das comunicações sociais
(TURA, 2004).
Como citado anteriormente enquanto fenômeno psicossocial, a elaboração e
funcionamento de uma representação podem ser entendidos através dos processos
de objetivação e ancoragem. A objetivação consiste em materializar a palavra,
reproduzir um conceito em uma imagem, descobrir a qualidade de uma idéia ou ser
impreciso. Objetivar é, portanto, explicar aqueles conteúdos vagos e não
objetivados. A ancoragem consiste em uma operação cognitiva que busca dar
47
sentido ao figurado. Esse processo é responsável pelo arraigamento das idéias
(NÓBREGA, 2003; TURA, 2004).
Com relação ao mecanismo de objetivação distinguem-se três fases, que são:
a construção seletiva e descontextualização da teoria, na qual se estabelece uma
triagem de elementos em função dos critérios culturais e critérios normativos,
determinados pela desigualdade de acesso às informações; a esquematização
estruturante ou núcleo figurativo, em que se determina a significação e a
organização da representação, ou seja, ela é uma estrutura imaginante, apreendida
individualmente em suas relações organizacionais; e a naturalização, onde se dá o
ordenamento real dos elementos, em que se confere uma realidade plena ao que
era abstração, materialização e espacialização conceituais (TURA, 2004).
O processo de ancoragem necessita estar articulado à objetivação para
assegurar as três funções da representação: a cognitiva, incorporação do estranho
ou do novo, que acontece através da compreensão da maneira pela qual as
informações novas são integradas e transformadas ao conjunto de informações
disponíveis; a interpretativa, atribuição do sentido, que consiste na ordenação de
modos novos e modos antigos já conhecidos; e orientadora das ações e
comunicações, ou seja, dar funcionalidade a uma imagem para que sua realidade
seja compreendida e arraigada no sistema de pensamento. Nesse processo ocorre a
incorporação da novidade através da familiarização do estranho, isto é, os
elementos inovadores são atrelados ao sistema de idéias pré-existentes
(NÓBREGA, 2003).
Nesse sentido, conforme Moscovici (1978), a objetivação é um processo que
consiste em uma operação imaginante pela qual se dá uma forma ao conhecimento
acerca do objeto, tornando concreto um conceito abstrato, reproduzindo-o numa
imagem. Ou seja, é traduzir um esquema apenas conceitual em realidade existente
e presente no cotidiano.
Portanto, para o autor, ancorar consiste na integração cognitiva do objeto
representado no sistema de pensamento pré-existente e das transformações
advindas daí. Logo, ancoragem é o processo que constitui o enraizamento social da
representação e de seu objetivo, permitindo a incorporação do que é desconhecido
ao novo em uma rede de categorias usuais.
48
Esses dois processos, objetivação e ancoragem, contidos na TRS, norteiam
os sujeitos do estudo e permitem materializar a palavra e denominar as idéias de um
determinado grupo social que se pretenda investigar. Dessa maneira, nos estudos
dos processos de cognição, social ou não, deve ser considerado o conjunto
epistêmico de conhecimentos com um conteúdo temático, que segue certas regras,
como por exemplo, os saberes populares de determinado grupo, ou seja, um
conjunto de conhecimentos comuns e científicos. “A idéia central da teoria das
representações sociais é de que os processos cognitivos devam ser estudados no
contexto de uma estrutura social reconhecida” (MOSCOVICI, 2007, p. 38).
As RS são práticas e simbólicas, refletindo a realidade da vida cotidiana,
funcionando no sentido de interpretar, comunicar e impulsionar um agir sobre a
realidade. Essas representações, expressas como senso comum, assimilam o
estranho e, ao percebê-lo, procura igualar figura e signo, ou seja, associando
significação e significado.
Para Moscovici (1978), as RS acontecem sob um conjunto de mensagens que
é organizado cognitivamente conforme diferentes modalidades de comunicação. O
autor classifica três sistemas indutores de representações, que viabiliza sua
conformação social. Existem a difusão, que estimula a estabelecer opiniões
(edificação de condutas); a propagação, que pode resultar em atitudes, e a
propaganda, podendo gerar estereótipos (traços atribuídos aos grupos sociais).
Assim, para a compreensão dos conteúdos e das dinâmicas das
representações sociais é necessário fazer referência ao contexto discursivo e ao
contexto social na qual elas são produzidas e utilizadas. Moscovici (2007) avança
em seus estudos e relata, ainda, que se deve evitar o dogmatismo. Nas suas últimas
observações, justifica o significado da hipótese da polifasia cognitiva na TRS, por
esta indicar a possibilidade de transformação das noções de senso comum em
noções científicas, e vice-versa; e também, com maior profundidade, os limites e os
problemas dessas transformações. Portanto, para o autor:
Toda representação viva toma forma nesta tensão, neste conflito
inerente ao nosso pensamento e a nossa cultura. É lamentável que
aqueles que estudam cognição, e especificamente, aqueles que
nomeiam cognição social, não consideram os aspectos
epistemológicos de nosso conhecimento e suas raízes. Já que elas
não funcionam num vazio, e sim nas nossas práticas e disciplinas.
Nossa teoria se propõe a estudar, não pelos átomos de percepções,
49
de informações, de memória, etc.; mas considerando os grupos
humanos que procuram conhecer seu mundo, cada um de sua
maneira particular, a diversidade de representações que eles
constroem para si, objetificando-as nos dilemas da vida ordinária
(MOSCOVICI, 2007
, p. 41).
Nessa condição, o ser humano traz consigo uma dimensão que não pode ser
descartada, que é a condição social e histórica. Conforme Farr (2002, p. 51), “o
indivíduo tanto é um agente de mudança na sociedade como é produto dessa
sociedade”. Como pontuado, essa externalidade deve ser entendida como
resultantes da ação do indivíduo sobre si mesmo e sobre o mundo exterior
(MOSCOVICI, 1978). Isso se apóia na diversidade e na rapidez com que as
mudanças ocorrem nas sociedades modernas.
Salienta-se, por oportuno, a relevância sociológica do estudo das
representações sociais, pelo fato se referirem a objetos e questões socialmente
importantes ao desenho desta pesquisa, que se relaciona, especialmente, na
elaboração das representações sociais por enfermeiras sobre as infecções
hospitalares, haja vista que estas são construídas e compartilhadas por esse grupo
social e concretizam-se nas suas atitudes cotidianas.
50
CAPÍTULO III CAMINHOS DA PESQUISA
51
3.1 Tipo de estudo
Trata-se de um estudo exploratório, em que se buscou apreender os
fenômenos de representações sociais relacionados às IH, tendo como estratégia de
pesquisa o conhecimento informal das enfermeiras no ambiente hospitalar.
Dessa forma, para compreensão da problemática, o estudo privilegiou retratar
a realidade ao considerar as diferentes concepções das enfermeiras, que, ao
colocarem suas vivências, conhecimentos, opiniões, crenças e valores, direcionam o
seu olhar e elaboram representações sobre as Infecções Hospitalares,
proporcionando informações para a discussão do tema.
A linha teórica que conduziu a base do estudo foi a Teoria das
Representações Sociais, que, na sua orientação psicossocial, apresenta-se como
instrumento de escolha para a análise do tema. Essa teoria possibilita o
reconhecimento das limitações conceituais presentes no conhecimento científico, a
partir do seu confronto com o saber do senso comum (MOSCOVICI, 1978; SÁ, 1998;
JODELET, 2001).
Assim, a escolha pela Teoria das Representações Sociais (TRS), como
suporte teórico, se deve ao fato de ela ser capaz de possibilitar a identificação de
vários aspectos psicossociológicos envolvidos no universo cotidiano, enquanto
fenômenos de produção e organização de conhecimentos de sujeitos sociais
particulares. Essa Teoria, proposta por Serge Moscovici (1978), norteou a orientação
para investigação do fenômeno, a fim de apreender e analisar as representações
sociais das IH elaboradas por enfermeiras de um hospital público de ensino.
Diante dessas interações, é fundamental o entendimento de como as
representações presentes em suas falas ou apreendidas em cenários naturais
influenciam no controle das IH, na qual a veiculação das comunicações encontra-se
carregada de atitudes, imagens, crenças e valores, e as representações sociais
elaboradas por enfermeiras são difundidas coletivamente no cotidiano.
3.2 Cenário de investigação
A opção pelo Hospital Getúlio Vargas (HGV) da capital Teresina, como
cenário da pesquisa, foi por ser o campo de atuação da autora e também pelo fato
52
de ser um hospital geral de grande porte, de ensino, sobretudo para as
universidades Federal do Piauí (UFPI), Estadual do Piauí (UESPI) e Faculdades
Particulares, de referência para o Estado e Meio-Norte do País. É utilizado também
como campo de prática para formação de profissionais técnicos e auxiliares de
enfermagem. O HGV se destaca como a maior obra construída para atendimento
médico-hospitalar, desde 1941 (CARVALHO, 1994). A relevância dessa construção
está explicitada no relatório apresentado pelo interventor ao Presidente da República
Getúlio Vargas:
[...] o ano de 1941, marca na história administrativa do Estado, uma
época memorável. A arrecadação de avultadas rendas permitiu
realizar serviços de utilidade pública de mais alta relevância
econômica e social que desde muito aguardavam solução. Então
nesse caso [...], e a construção do Hospital Getúlio Vargas, solução
definitiva ao problema de assistência hospitalar do Piauí
(CARVALHO, 1994, p. 8).
Considerando os 67 anos de existência para a prestação de assistência
médica à população, na atualidade o HGV constitui-se como operacionalizador do
Sistema Único de Saúde (SUS), cujas ações desenvolvidas são embasadas na
política que norteia os princípios desse Sistema. O referido hospital oferece serviços
de atendimento em diversas especialidades: ambulatorial, hospitalar (clínico e
cirúrgico), de urgência e emergência e conta com 427 leitos.
De acordo com o seu boletim informativo, no ano de 2006 houveram 14.677
internações. Dessas, 26,80% eram de clientela dos Estados do Maranhão, Ceará,
Pará e Tocantins. Foram realizados no mesmo período cerca de 14.475 cirurgias e
158.032 atendimentos ambulatoriais nas diversas especialidades que o hospital
dispõe: clínica médica, ginecologia, ortopedia e traumatologia, neurologia,
dermatologia, pneumologia, oftalmologia, nefrologia, dentre outros (TERESINA, 2006).
3.3 Sujeitos do estudo
Solicitou-se, primeiramente, consentimento do Hospital Getúlio Vargas,
instituição cenário deste estudo (APÊNDICE A), bem como apreciação do Comitê de
Ética e Pesquisa (CEP) da Universidade Federal do Piauí – UFPI (ANEXO A) e foram
53
assinadas pelas pesquisadoras Declarações de Compromisso (ANEXO B), e pelos
sujeitos o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (ANEXO C).
Procedeu-se ao estudo após aprovação pelo CEP da UFPI – CAAE nº
0020.045.000-08 (ANEXO D) e da Comissão de Ética e Pesquisa do HGV processo
nº 0532/08 (ANEXO E). Para isso, obedeceram-se às orientações contidas na
Resolução 196/96, do Conselho Nacional de Saúde (BRASIL, 2003), que versa
sobre o respeito e autonomia dos participantes da pesquisa, ficando garantido o
sigilo e a liberdade da recusa ou exclusão em qualquer etapa da pesquisa.
Para atender aos objetivos desta pesquisa, os sujeitos foram as
enfermeiras do quadro efetivo do hospital com tempo mínimo de 02 (dois) anos de
serviço e atuação na assistência aos pacientes, pois considera-se que, após esse
período, elas já devem estar familiarizadas com as normas e rotinas da instituição
hospitalar em estudo.
Trabalham atualmente nesse hospital aproximadamente 130 (cento e trinta)
enfermeiras, lotadas e escaladas em serviços e clínicas e em turnos diurno e
noturno. Algumas são plantonistas, ou seja, cumprem uma carga horária de 12
(doze horas) por plantão e folgam 72 (setenta e duas horas). Outras são diaristas
com carga horária de 24 e\ou 30 horas semanais.
A determinação do número de participantes foi baseada na saturação das
falas que, conforme Polit e Hungler (2003, p. 73), “refere-se à sensação de
fechamento, vivenciada pelo pesquisador, quando a coleta de dados pára de
produzir novas informações”.
Assim, a amostra foi definida partindo dessa concepção da saturação de
idéias e da disponibilidade das enfermeiras em participar desta pesquisa, que, após
assinarem o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido, receberam umdigo
numérico, com a identificação de Mãos Preciosas (MP¹, MP²,... MP²²), por suas
mãos serem tanto um instrumento de prevenção como de transmissão das IH e
também valiosas ferramentas do cuidado.
No Termo de Consentimento Livre e Esclarecido constou a autorização de
gravações das falas em fitas magnéticas, as quais foram transcritas na íntegra como
forma de manter manifestações e evocações verbais cotidianas das enfermeiras,
relevantes para o estudo.
54
As variáveis fixas como gênero, idade e tempo de serviço foram
responsáveis pelo perfil dos sujeitos (Quadro 1), os quais compreenderam 20
enfermeiras e 2 enfermeiros, dentre eles, 5 se encontravam na faixa etária de 25 a 35
anos; 11 na faixa etária de 36 a 45; e 6 na faixa etária compreendida entre 46 e 55
anos de idade. Quanto ao tempo de serviço, 6 estavam entre 2 e 5 anos; 1, de 6 a 10
anos; 6, de 11 a 15 anos; 6, de 16 a 20 anos; e 3 com mais de 20 anos de serviço. Em
resumo, o estudo constou de 22 sujeitos com faixa etária compreendida entre 25 e 55
anos e tempo de serviço variando entre 2 a mais de 20 anos.
3.4 Instrumentos e produção dos dados
A pesquisa de campo ocorreu no período de março a junho de 2008, totalizando
quatro meses de trabalho empírico. Uma das técnicas escolhidas para a produção
dos dados da pesquisa foi a entrevista semi-estruturada (APÊNDICE B), orientada
por um roteiro de questões referentes a posicionamentos, conhecimentos, opiniões,
dificuldades e intervenções relacionadas às Infecções Hospitalares, contribuindo,
dessa forma, para uma maior flexibilidade na obtenção das informações, sendo
assim uma técnica preciosa de conhecimento interpessoal, facilitada no encontro
face a face.
Esse recurso é muito utilizado na investigação social, para coletar dados ou
para auxiliar no diagnóstico ou no tratamento de um problema social (MARCONI e
LAKATOS, 2007). Houve previamente uma entrevista piloto, como forma de garantia
de sua eficiência quando da realização das entrevistas com as enfermeiras, na qual
não foi preciso alterar o instrumento.
As entrevistas foram realizadas de forma individual no próprio Hospital e
gravadas com o uso de um gravador digital e, posteriormente, transcritas na íntegra,
com o intuito de preservar a veracidade e os sentimentos das enfermeiras em suas
respostas, evitando-se assim interpretações equivocadas. O tempo de aplicação de
cada entrevista foi em média de 30 minutos. Do total de 25 enfermeiras convidadas
a colaborarem com o estudo, três alegaram motivos diversos para não participar.
Outra técnica utilizada neste estudo foi a observação participante, a qual,
segundo Chizzoti (2003), visa a descrição de uma situação, ou seja, os sujeitos em
seus aspectos pessoais e particulares, o local e suas circunstâncias, o tempo e suas
55
variações, as ações e suas significações, os conflitos e a sintonia de relações
interpessoais e sociais, e as atitudes e os comportamentos diante da realidade.
Assim, a observação participante sobre as práticas de prevenção e controle
das IH ocorreu no cenário de realização dos procedimentos das enfermeiras, seja na
execução direta ou na orientação desses procedimentos. Essa observação se deu a
partir de um roteiro (APÊNDICE C) contendo aspectos relevantes para o controle das
IH, acompanhada de anotações em diário de campo, e o número de observações, a
partir das oportunidades de procedimentos a serem realizados pelos sujeitos da
pesquisa.
3.5 Procedimentos de análise dos dados
No intuito de obter a compreensão do objeto em estudo com seus
procedimentos teóricos e metodológicos, utilizou-se para o processamento das
informações o software ALCESTE (Analyse dês Lexèmes Cooccurrents dans lês
Enoncés d’ un Texte) na versão 4.8. Este programa permite a análise lexical, dentro
de uma Classificação Hierárquica Descendente (CHD), que recorre a co-ocorrências
das palavras nos enunciados que constituem o material discursivo. O software
organiza as informações consideradas mais relevantes, e possui como referência
em sua base metodológica a abordagem conceitual lógica e dos mundos lexicais
(CAMARGO, 2005; OLIVEIRA, GOMES, MARQUES, 2005).
O software ALCESTE foi criado na França em 1979 por Max Reiner, para ser
utilizado no sistema operacional windows, e foi introduzido no Brasil em 1998, sendo
cada vez mais utilizado nos estudos das representações sociais. Apesar de esse
software trabalhar com a língua francesa, possui dicionários em outros idiomas,
inclusive o português (CAMARGO, 2005).
Cabe destacar, ainda, que este programa permite efetuar, de maneira
automática, o processamento analítico das entrevistas, de perguntas abertas de
investigações socioeconômicas, coleção de textos diversos: obra literária,
documentos, atas, artigos de revistas, dentre outros, com o objetivo de quantificar
um texto para extrair o mais forte significado de uma estrutura. Na primeira vez, a
intervenção é limitada às “formalidades” meramente utilitárias, para uso das funções
de base. Na segunda vez, a utilização do software poderá refinar a análise
56
informatizada ou ensaiar novas hipóteses interpretativas enquanto modifica os
parâmetros (CAMARGO, 2005).
Neste estudo, a análise dos discursos foi aplicada a um corpus constituído de
22 entrevistas que correspondeu às Unidades de Contextos Iniciais (UCI’s).
Segundo Camargo (2005), as UCI’s são formadas por um conjunto de entrevistas ou
de respostas indeterminadas dos sujeitos participantes de um estudo às questões
abertas, cujo documento seja suficientemente volumoso, cerca de 1.000 linhas, e
aproximadamente 20 páginas de texto, em fonte Courier 10, de forma que possa
contar o elemento estatístico.
A partir da definição das UCI’s, procedeu-se à divisão do corpus em
segmentos de texto em 407 Unidades de Contexto Elementar (UCE’s). Estas UCE’s
correspondem ao material discursivo ou escrito relevante à formação das classes em
função da análise lexical, com base nas formas reduzidas das palavras, sua
freqüência e tamanho das UCE’s, as quais são dimensionadas de acordo com o
tamanho desse corpus. Para obtenção das classes, é aplicado o método de
classificação hierárquica descendente, e o teste qui-quadrado (χ²) deve ser igual ou
maior que 3,84 de associação das formas reduzidas e das UCE’s às classes, para
que essas unidades sejam semelhantes no interior de cada classe e excludentes
entre elas (CAMARGO, 2005).
Dessa forma, de posse de todo o material, foi possível explicitar o conteúdo
fornecido pelo software, denominando e interpretando cada classe à luz das
Representações Sociais, obedecendo ao Plano de Análise e Tratamento a seguir: a
partir dos sentidos atribuídos aos discursos dos sujeitos, inicia-se a preparação do
corpus; em seguida, o corpus foi submetido ao tratamento analítico por intermédio
do software ALCESTE, seguindo as quatro etapas de operação (A, B, C, e D),
conforme as etapas propostas por Reinert (1998) resumidas no esquema de análise
e tratamento de dados:
57
Figura 1 - Esquema de Análise e Tratamento de Dados
Fonte: Reinert (1998)
Para obtenção do material fornecido pelo software ALCESTE, produzido a
partir dos discursos dos sujeitos, organizou-se um banco de dados com codificação
das variáveis fixas (Quadro 1) segundo as orientações de Reiner (1998).
SUJEITOS GÊNERO IDADE
TEMPO DE
SERVIÇO
* mp_1 a mp_22
(sujeitos entrevistados: 1 a
22)
* gen_1 (gênero
masculino)
* gen_2 (gênero
feminino)
* ida_1 (idade de 25
a 35)
* ida_2 (idade de 36
a 45 anos)
* ida_3 (idade de 46
a 55 anos)
* ida_4 (idade + de
55 anos)
* tempserv_1(2 a 5
anos)
* tempserv_2(6 a 10
anos)
* tempserv_3(11 a
15 anos)
* tempserv_4(16 a
20 anos)
* tempserv_5(+ de
20 anos)
Quadro 1- Banco de dados para codificação das variáveis fixas
Fonte: Relatório Alceste, 2008
Em seguida, o corpus foi processado pelo programa seguindo as quatro
etapas (A, B, C, D). Desse modo, realizou-se, numa seqüência lógica, a análise dos
dados, que permitiram inferir sobre a organização das idéias elaboradas pelos
A- Leitura dos textos
e cálculo dos
dicionários, com três
B – Cálculo das
matrizes de dados e
classificação das UCEs,
com três o
p
era
ç
ões:
C – Descrição das
classes de UCEs
escolhidas com igual
número de operações:
D – Cálculos
complementares, com
cinco operações:
A1 - Reformatação e divisão do texto em segmentos de tamanho similar (Unidades de
Contexto Elementar- UCEs).
A2 – Pesquisa do vocabulário e redução das palavras com base em suas raízes
+
B1 – Seleção das UCEs a serem consideradas e cálculo da matriz de formas
reduzidas x UCE.
B2 – Cálculo das matrizes de dados para Classificação Hierárquica Descendente
(
CHD
)
.
C1 - Definição das classes escolhidas.
C2 – Descrição das classes.
C3 – Análise fatorial de Correspondência
(AFC) – representação das relações entre as classes em um plano fatorial.
D1 – Seleção das UCE’s mais características de cada classe.
D2 – Pesquisa de segmentos repetidos (duplas e segmentos) por classe.
D3 – Construção de uma matriz de “formas associadas a uma mesma classe
versus UCEs da classe associada” e de representações arborescentes destas
relações.
D4 – Seleção de palavras mais características das classes para apresentação em
um “Index de contexto de ocorrência”.
D5
Ex
p
ortação
p
ara outros
p
ro
g
ramas de “sub cor
p
us de UCE”
p
or classe.
58
sujeitos, originando, assim, três classes ou categorias discursivas que
corresponderam às representações sociais das IH elaboradas por enfermeiras, quais
foram: Classe 1: Conhecimento frente à Infecção Hospitalar; Classe 2: A prática
de prevenção para o controle da Infecção Hospitalar; Classe 3: Relação da
Infecção Hospitalar com a qualidade da assistência.
Dessa forma, os resultados foram organizados para apresentação e
interpretados à luz do referencial conceitual deste estudo. Procurou-se a
identificação e análise dos campos contextuais, interpretando os significados das
classes e denominando os seus respectivos sentidos.
Apresenta-se em seguida, de maneira simplificada, esse processo, resultante
da análise lexical pelo software ALCESTE (Figura 2):
59
Figura 2: Plano de Análise e Tratamento de Dados
Fonte: Relatório Alceste 2008
Assim, conforme o referencial teórico adotado enfoca-se a representação
social enquanto produto, procurando identificar seu conteúdo como campo
estruturado (JODELET, 1989), com bases em indicadores fornecidos pelo sofware
ALCESTE. Esse procedimento se deu a partir da análise de seus elementos
constitutivos: opiniões, imagens, informações presentes na linguagem das
enfermeiras sobre IH diante das questões formuladas pelo estudo.
Saberes práticos dos
sujeitos
Classe 1: conhecimento frente à
Infecção Hospitalar
Classe3: relação da Infecção Hospitalar
com a Qualidade da Assistência
Funções das Representações Sociais:
produção de conhecimentos
orientação nas comunicações
formação de condutas
justificadora
Plano de Análise e Tratamento de Dados
Corpus
Preparação: correção-
codificação-organização em
ar
q
uivos
Tratamento analítico
Software ALCESTE
Etapas
(A, B, C, D)
Classe 2: a prática de prevenção
para o controle da infecção
Hil
Eixo de análise de dados
Realidade Social
60
CAPÍTULO IV REPRESENTAÇÕES SOCIAIS DA INFECÇÃO HOSPITALAR POR
ENFERMEIRAS
61
O presente estudo emergiu da construção do conhecimento das enfermeiras
sobre as IH e da análise do conjunto de imagens, crenças e valores construídos por
elas sobre as IH. Os resultados foram organizados e interpretados à luz da base
conceitual do estudo e na Teoria da Representação Social de Serge Moscovici
(1978), na qual se buscou a apreensão e análise dos significados das classes
semânticas, organizadas a partir dos discursos das enfermeiras, denominando os
seus respectivos sentidos.
4.1 Organização do campo representacional
As Representações Sociais das enfermeiras sobre a Infecção Hospitalar
revelaram uma pré-classificação do conteúdo em 3 classes semânticas, identificadas
através dos indicadores de quantificação das 22 entrevistas assinaladas pelo
instrumento informático Alceste 4.8 (software que organizou as informações mais
relevantes obtidas através da análise lexical das entrevistas das enfermeiras deste
estudo).
As três classes resultantes da análise mecanizada, realizada pelo programa,
foram obtidas a partir do material discursivo das entrevistas e fornecidas pelo relatório
completo (raport complét), o qual passou por uma leitura em profundidade para
nomeação e interpretação das classes emergidas com apoio da TRS apresentada a
seguir: a etapa A correspondeu à leitura e identificação das palavras, de suas formas
reduzidas e constituição de um dicionário. No caso do estudo, o programa
reconheceu a separação do corpus em 22 Unidades de Contexto Inicial (UCI’s) ou
entrevistas (operação A1). O número de formas distintas ou palavras diferentes foi
2.274, com número de ocorrências de 17.439 e freqüência mínima por forma distinta
igual a 8.
Na etapa B, procedeu-se ao cálculo das matrizes de dados e classificação
das Unidades de Contexto Elementar (UCE’s) ou fragmentos das falas com
vocabulários semelhantes. Através da redução das palavras às suas raízes,
obtiveram-se 400 palavras analisáveis com freqüência mínima de uma palavra
analisada igual ou superior a 4.294 palavras instrumento e 36 palavras variáveis. As
400 palavras analisáveis ocorreram 7.441 vezes.
62
Com relação à etapa C, que procedeu à descrição das classes, ocorreu a
divisão do corpus em 283 UCE’s manipuláveis, correspondendo a 69,53% do total
de 407 UCE’s deste corpus, e a 100% do total de UCE’s do estudo, as quais foram
designadas numa mesma classe em duas Classificações Hierárquicas
Descendentes (CHD), que utilizaram UCE’s com tamanhos diferentes.
O dendograma (Gráfico 1) representa o produto dessas CHD e suas relações
interclasses resultantes do conjunto de textos das entrevistas. Dessa forma, o
corpus foi dividido em três partições (subcorpus) resultando nas classes 1, 2 e 3.
Essas três classes são compostas de UCE’s com vocabulários semelhantes.
100 90 80 70 60 50 40 30 20 10 0
|- - - -| - - - -| - - - -|- - - -| - - - -| - - - -|- - - -|- - - -|- - - -|- - - -|
Cl. 1 (47uce) |- - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - +
16 |- - - - - - - - - - - - - - - - - - - +
Cl. 2 (91uce) |- - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - + |
17 +
Cl. 3 (145uce) |- - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - -+
Gráfico 1- Dendograma de classes estáveis do corpus.
Fonte: Relatório Alceste (2008).
Com relação à seleção das palavras que possibilitou a análise dos resultados
do estudo, o programa forneceu um relatório que apontou um valor do
χ
² igual ou
maior que 3,84. Referindo-se à freqüência das palavras nas classes, este estudo
considerou aquelas com resultado maior ou igual a 7, valor esse estabelecido pelo
software Alceste. Assim, todas as palavras que apresentaram estes valores foram
selecionadas e distribuídas nas três classes: a Classe 1, com 47 UCE’s,
correspondendo a 16,61% do total de UCE’s do corpus; a Classe 2, apresentando
91 UCE’s, com 32,16% de contribuição, e a Classe 3, com 145 UCE’s,
correspondendo a 51,24%.
A distribuição lexical e organização das classes podem ser melhor
observadas no dendograma (figura 3), possibilitando a apreensão das RS da
Infecção Hospitalar por enfermeiras e apontando para os seguintes temas: Classe 1:
Conhecimento frente à Infecção Hospitalar; Classe 2: A prática de Prevenção para o
controle da Infecção Hospitalar; Classe 3: Relação da Infecção Hospitalar com a
qualidade da assistência.
63
DENDOGRAMA DAS CLASSES DE REPRESENTAÇÕES SOCIAIS DA INFECÇÃO HOSPITALAR
ELABORADAS POR ENFERMEIRAS
Classe 1: Conhecimento
frente à Infecção Hospitalar
47 uce/16,61%
Palavras de maior associação
Classe 2: Práticas de
prevenção da Infecção
Hospitalar
91 uce/32,16%
Palavras de maior associação
Classe 3: Relação da
Infecção Hospitalar com a
qualidade da assistência.
145 uce/51,24%
Palavras de maior associação
Palavra
Freq
χ²
Palavra
Freq
χ²
Palavra
Freq
χ²
trabalh+
vej+
form+
enfermagem
eu
ações
pesso+
perceb+
técn+
clínica+
auxiliar+
errad+
junto
você
nosso
centr+
lid+
most+
aquilo
fundament+
41
12
19
10
109
9
46
7
7
3
3
5
5
56
11
6
6
6
6
6
36
31
25
21
18
17
16
16
16
15
15
15
15
15
12
11
11
11
11
11
lav+
materi+
mão+
vez+
técnica+
luva+
limp+
cheg+
curativo+
enfermaria+
sab+
quest+
falt+
gente+
mesmo
avent+
faz+
máscar+
cont+
usando
44
33
41
41
27
9
20
8
8
13
34
48
1
103
24
5
58
7
7
7
44
37
33
21
20
20
18
17
17
16
15
15
12
12
11
11
11
9
9
9
infecç+
hospitalar+
qualidade
assistenci+
saúde
indice+
diz+
aument+
tive
prest+
diret+
serv+
menor+
intern+
individu+
exist+
seja+
adquirir+
13
2
74
48
29
35
14
16
11
13
9
12
15
8
8
23
17
7
84
50
42
31
16
14
12
11
9
9
8
8
8
8
7
7
7
7
Variáveis Freq
χ²
Variáveis Freg
χ²
Variáveis Freq
χ²
*mp_1
*tempserv_3
*gen_2
*ida_2
28
70
232
142
67
18
12
2
*mp_10
*tempserv_1
*ida_1
30
40
74
12
14
9
*mp_16
*gen_1
*mp_21
*tempserv_2
*idad_3
31
41
10
10
43
15
11
10
10
7
Figura 3 - A estrutura temática das Representações da Infecção Hospitalar por enfermeiras.
Fonte: Relatório Alceste (2008).
Legenda:
mp_(1...22): refere-se aos sujeitos denominados no estudo como mãos preciosas.
tempserv_1 (2 a 5 anos); tempserv_2 (6 a 10 anos); tempserv_3 (11 a 15 anos): tempo de serviço
dos sujeitos.
gen_1 (gênero masculino); gen_2 (gênero feminino).
ida_1 (idade de 25 a 35 anos); ida_2 (idade de 36 a 45 anos); ida_3 (idade de 46 a 55 anos).
64
Ressalta-se que embora o programa Alceste tenha processado todas as
etapas no tratamento dos dados, as operações onde se reproduzem os resultados
mais importantes para interpretação do corpus são a C1, correspondente à
intersecção de classes (CHD); a C2, referente à descrição das classes; a D1,
relacionada à seleção das UCE’s mais características de cada classe, e a D3, que
compreende a Classificação Hierárquica Ascendente (CHA), realizada a partir da
construção de uma matriz de “formas associadas” a uma mesma classe vezes as
UCE’s da classe associada que permite se chegar às representações arborescentes
dessas relações (CAMARGO, 2005).
4.2 Descrição do conteúdo das classes
A análise do corpus possibilitou a identificação de uma estrutura discursiva a
partir de três classes lexicais ou contextos temáticos principais (Figura 2). O
conteúdo dos discursos evidenciou as representações sociais que circulam entre as
enfermeiras sobre a infecção hospitalar, as quais emergem do conjunto de
conhecimentos, posicionamentos e imagens compartilhados, que orientam a
elaboração da prática associativa desse grupo.
Desse modo, as classes resultantes da análise da CHD e CHA serão
descritas, considerando o vocabulário característico, variáveis e sujeitos que
contribuíram para a produção das UCE’s de cada classe e que foram selecionados
de acordo com o valor de seus quiquadrados (χ²) (Figura 3). As representações
estão presentes nos discursos dos sujeitos em que as palavras dançam numa
coreografia de idéias e de imagens, que se materializam nas condutas (NÓBREGA,
2003).
Dessa forma, as linguagens fornecidas pelas UCE’s apontam para o
conhecimento elaborado pelas enfermeiras no seu cotidiano, em seu grupo de
pertença, na qual esses saberes e conceitos socialmente construídos e estruturados
caracterizam-se como espaço de trocas e organizam-se como um saber acerca do real.
É nessa perspectiva que se vislumbra o estabelecimento de um diálogo entre
o que pensam as enfermeiras sobre as infecções hospitalares e a teoria das
representações sociais, “elas circulam nos discursos, são trazidas pelas palavras e
veiculadas em mensagens e imagens midiáticas, cristalizadas em condutas e em
organizações materiais e espaciais” (JODELET, 2001, p. 17).
65
Assim, para compreender o conteúdo e a dinâmica de uma representação,
discutir-se-á, a seguir, o contexto discursivo das três classes apreendido por meio
das falas das enfermeiras que constroem, reconstroem e organizam suas
representações sobre as Infecções Hospitalares e dão sentido às suas práticas em
meio à heterogeneidade social.
4.2.1 Classe 1- Conhecimento frente à Infecção Hospitalar
A classe 1, texto temático menos contributivo, constituída pelas 47 UCE’s,
correspondendo a 16,61% das UCE’s (Figura 3) classificadas, extraídas,
predominantemente, da fala da enfermeira mp_1 (Quadro 1). Apresenta-se
diretamente relacionada à classe 2 e indiretamente à 3. Essa classe evidencia o
conhecimento das enfermeiras sobre a infecção hospitalar através da
manifestação/descrição e explicação das dificuldades enfrentadas pelas enfermeiras
diante dessa problemática no ambiente de trabalho.
*OPC *FCT % VOCABULÁRIO FORMAS ASSOCIADAS
20 41 48.78 35.83 trabalh+ trabalho, trabalham
9 12 75 30.85 vej+ veja. vejo
11 19 57.89 25.07 form+ forma, formação, formei
7 10 70.00 21.34 enfermagem enfermagem
31 109 28,84 17,92 eu eu
6 9 66.67 16.82 ações ações
17 46 36.96 16.42 pesso+ pessoa, pessoal,
5 7 71.43 15.58 perceb+ percebo, percebe, percebia
5 7 71.43 15.58 tecn+ técnica, técnicos
3 3 100.00 15.23 clinica+ clínica
3 3 100.00 15.23 auxiliar+ auxiliar, auxiliares
4 5 80.00 14.77 errad+ erradas, errados
4 5 80.00 14.77 junto junto
18 56 32.14 12.17 você você
6 6 54,55 11.89 nosso nosso
4 6 66.67 11.09 centr+
centro
4 6 66.67 11.09 lid+ lida, lidar, lido
4 6 66.67 11.09 most+ mostrando, mostre
4 6 66.67 11.09 aquilo aquilo
4 6 66.67 11.09 fundament+ fundamental, fundamentação
Quadro 2 - Distribuição do vocabulário específico do conhecimento das enfermeiras frente à
IH, apreendido mediante os seus discursos.
Fonte: Relatório Alceste (2008).
Legenda:
OPC: número de ocorrência de palavras na classe.
FCT: freqüência das palavras no corpus total.
%: percentual de palavras da classe.
χ²: resultado do quiquadrado das palavras na classe.
66
Observa-se no Quadro 2 a organização das palavras características da
classe, Conhecimento frente à Infecção Hospitalar. A primeira coluna refere-se ao
número de ocorrências de palavras na classe (OPC); na segunda, verifica-se a
freqüência em que essas palavras aparecem no corpus total (FCT); na terceira,
encontram-se os percentuais dessas palavras na classe (%); a quarta coluna traz o
resultado do χ² (quiquadrado) das palavras; finalmente, a quinta e sexta colunas
apresentam, respectivamente, a palavra de ocorrência ou sua raiz e as formas
associadas a ela.
Do vocabulário das formas reduzidas apresentado pelos discursos das
enfermeiras sobre a IH agrupam-se as palavras “trabalh+”, “form+”, “enfermagem”,
“ações” como as que apresentaram os maiores valores de χ², correspondentes,
respectivamente: 35.83, 25.07, 21.84 e 16.82. Assim, por exemplo, a palavra
“trabalh+”, ocorre 20 vezes na classe e 41 vezes no corpus total, ou seja, 48,78% de
ocorrência no interior dessa classe. Outras palavras também importantes que
obtiveram valores menores, mas que contribuíram para análise e discussão da
classe foram: “lid+” e “fundament+”.
Nessa perspectiva, os vocábulos dessa classe permitiram a inferência de que
os conteúdos sócio-cognitivos presentes nos discursos das enfermeiras enquanto
informação, manifestações e explicações mostra a busca dessas profissionais em se
incluírem no sistema de organização no seu ambiente de trabalho, onde elas
procuram o que lhes é pertinente e compartilham o conhecimento socialmente
construído através de suas histórias, suas ideologias e cultura presentes no grupo
de pertença, e elaborado de maneira particular nas suas relações com o mundo.
Para Moscovici (1978), o conhecimento elaborado e compartilhado
socialmente vincula-se às construções sociais expressas em opiniões, atitudes,
estereótipos e da própria história dos grupos sociais, tendo as RS como importante
contribuição para formação das condutas, orientação das comunicações, podendo,
assim, ser entendidas como uma teoria do senso comum, definindo uma forma de
pensamento social.
Segundo informações extraídas dessa classe, considerando os conteúdos
circulantes sobre o tema IH, foram apontadas Representações Sociais consensuais
entre as enfermeiras, organizadas a partir das manifestações psicossociais em torno
67
das percepções e posicionamentos concernentes ao emaranhado de significados
que esse grupo de entrevistadas tem a respeito das IH.
As representações que as enfermeiras têm das IH vinculam-se ao dinamismo
de um grupo com sua cultura, presente através da história individual, e nesse
movimento apropriam-se desse objeto representado, num processo contínuo de
construção e reconstrução, que passa a orientar as suas condutas no ambiente de
trabalho e lhes permitem comunicar-se e agir em comum, haja vista que o indivíduo
não vive em um isolamento social.
As enfermeiras do estudo expressam preocupação com a transmissão das IH
e manifestam conhecimentos de que os microorganismos existem apesar de só
serem vistos com a ajuda de microscópio. No entanto, essa preocupação se torna
alarmante quando o paciente infectado apresenta secreção abundante com risco de
morte. Assim, mostram as UCE’s:
[...] porque se você disser que isso tem fundamentação científica pra
existência de microorganismo resistente [...] uma verdade porque a
gente não vê, porque eles são microscópicos, mas se você tem
paciente infectado
, secreção saindo por todos os lados, aos poucos
a vida vai minguando a cada dia
, a gente sabe que eles existem, que
eles realmente matam, [...].
As enfermeiras ancoram-se na fundamentação científica e na crença da
existência de microorganismos causadores de IH, e têm um posicionamento
negativo quanto à presença desses seres microscópicos, evidenciando-os como
vilões que matam gradativamente os pacientes infectados.
Com relação à contaminação por microorganismos, Couto, Pedrosa, Nogueira
(2003) afirmam que é um fenômeno multicausal decorrente da interação simultânea
dos seguintes fatores: existência de um agente infeccioso em número suficiente;
uma via de acesso ao hospedeiro; uma porta de entrada; e um hospedeiro em
estado de suscetibilidade. Conseqüentemente, qualquer microrganismo pode causar
doença, desde que haja uma porta de entrada adequada e que a resistência
antiinfecciosa seja anulada ou suficientemente inibida.
Para tratamento das IH, utiliza-se a antibioticoterapia e torna-se necessário o
controle rigoroso na prescrição com o intuito de evitar o surgimento de bactérias
resistentes aos antimicrobianos consumidos em hospitais. De acordo com Couto;
68
Pedrosa; Nogueira (2003), estudos epidemiológicos sugerem que para alguns
pacientes portadores de IH por microorganismos resistentes, há um aumento da
morbidade e mortalidade quando comparado com infecções similares causadas por
cepas de microorganismos sensíveis. Esse aparecimento da resistência
antimicrobiana é conseqüência natural da pressão seletiva resultante do uso
indiscriminado de antibióticos. O uso excessivo desses fármacos não está associado
apenas à emergência e seleção de cepas de bactérias resistentes, mas também à
elevação dos custos, tanto para a instituição de saúde, quanto para o paciente com
IH (BRASIL, 2008).
Na maioria das vezes, a origem de bactérias resistentes no ambiente
hospitalar está associada a pacientes colonizados ou infectados por esses
microorganismos, que funcionam como reservatórios a partir dos quais pode ocorrer
transmissão cruzada a outros pacientes, especialmente quando os profissionais de
saúde negligenciam a higienização das mãos.
As dificuldades das enfermeiras em efetivar as ações de prevenção das
infecções hospitalares derivam do fato de essas profissionais não se sentirem
suficientemente seguras para atender a real necessidade de cuidado aos pacientes
da instituição hospitalar na qual trabalham, atribuindo manifestações explicativas
dessa falha de conduta à inexistência de uma organização que estabeleça normas a
serem cumpridas.
Quanto à compreensão das enfermeiras sobre a problemática das IH, elas se
justificam atribuindo a si mesmas e à equipe de saúde a responsabilidade pela
disseminação das infecções no ambiente hospitalar, influenciando diretamente nos
índices de IH, como se pode observar nos fragmentos de UCE’s seguintes:
[...] nós, profissionais de saúde, médicos, enfermeiros, técnicos de
enfermagem, são as pessoas que estão diretamente trabalhando
com os pacientes, nossas mãos veiculam muitos microorganismos, a
gente lida com diversos pacientes em diversas situações, então nós
temos que estar preocupados com isso e a todo o momento, lavar as
mãos é o básico, [...] médico, enfermeiro, fisioterapeuta, pessoal do
nível médio e técnico de enfermagem, porque são os maiores
transmissores, até mesmo pra dentro do próprio hospital, levam
infecção de um paciente para outro.
Dos microorganismos responsáveis pelas infecções hospitalares, 70% são
provenientes da microbiota residente que coloniza os pacientes (infecção endógena)
69
, e 30% são originadas de microorganismos que não habitam o corpo humano
(infecções exógenas) (COUTO; PEDROSA; NOGUEIRA, 2003). Ou seja, as
infecções exógenas podem ser evitadas, pois sua transmissão ocorre principalmente
pelo contato direto ou indireto dos profissionais de saúde que são colonizados por
bactérias patogênicas para pacientes susceptíveis.
Nesse sentido, as mãos desses profissionais se tornam o principal modo de
transporte de agentes causadores de IH, ação que pode ser minimizada se a prática
individual de higienização das mãos dos profissionais de saúde for habitual. Essa é
a medida mais simples e menos dispendiosa para a prevenção da disseminação das
IH. Assim, conforme o Manual de higienização das mãos em serviços de saúde,
publicado pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA), o termo
higienização das mãos engloba a higienização simples (remove os microorganismos
que colonizam as camadas superficiais da pele com o uso de água e sabão); a
higienização anti-séptica (promove a redução de sujidades e reduz a carga
microbiana das mãos, com auxílio de anti-séptico degermante); a fricção anti-séptica
(reduz a carga microbiana sem remoção de sujidade com utilização de preparações
alcoólicas) e a anti-sepsia cirúrgica das mãos, que elimina a microbiota transitória da
pele e reduz a microbiota residente, além de proporcionar efeito residual na pele do
profissional (BRASIL, 2007).
Por isso é tão necessário que os profissionais de saúde (enfermeiras,
técnicos e auxiliares de enfermagem, médicos, fisioterapeutas, e outros) e todos os
que realizam cuidados diretos ou indiretos, compreendam que um ato simples como
a higienização das mãos faz a grande diferença na prevenção da transmissão das
IH.
As enfermeiras deste estudo, no seu cotidiano, se reconhecem como sujeitos
facilitadores das infecções hospitalares e, novamente, apontam soluções, como por
exemplo, instituir uma educação permanente que atenda a realidade do serviço, e
que seja uma prática institucionalizada de responsabilidade dos gestores da
instituição.
Nesse universo consensual, as enfermeiras revelam momentos de conflitos e
manifestam dificuldade de reflexão, uma vez que no seu cotidiano permeiam a
heterogeneidade, a superficialidade e a imediatividade, pois no seu ambiente de
trabalho a exigência do domínio das técnicas é premente.
70
Nos relatos e na observação participante foi possível perceber o
conhecimento epistemológico das enfermeiras em relação às IH e sua cadeia de
transmissibilidade, contudo, elas se manifestam inseguras em trazer esse
conhecimento sistematizado para a prática cotidiana do cuidar, visto que existe a
necessidade do paciente apresentar os sinais e sintomas característicos de IH.
Nesse sentido, ocorre uma dicotomia presente na práxis das enfermeiras, pois
essas profissionais, apesar de demonstrarem conhecimento, não se incluem de
maneira efetiva no processo de promoção da prevenção de IH, esperam que a
instituição realize essas ações de intervenção, como bem elucidado nos relatos:
[...] a ação de intervenção ela tem que ser bem condicionada e bem
preparada até pra poder ter bons resultados. Olha, eu vejo que essas
intervenções, essas ações, práticas, elas estão ligadas muito à parte
educativa e aí a gente teve algumas, e como é que se diz
, a
facilidade de desenvolver essas ações [...] mostrando coisa nova
assim e, como um todo, tanto faz ser o médico, a enfermeira, como o
técnico, uma orientação constante, um aprendizado constante
passando pra gente também, o que a gente está fazendo de errado,
o que a gente pode melhorar, o que é que está dentro dos padrões
das normas, terem um acompanhamento mais de perto, e
reciclagem, conhecimento do que está tendo de novo.
As práticas de prevenção para o controle das IH são consideradas pelas
enfermeiras como não efetivas, pois não há uma unanimidade da equipe de saúde
na implantação dessas intervenções. Evidencia-se, também, que
, apesar da
manifestação da importância de promover estratégias de ações para prevenção e
controle das IH, as enfermeiras demonstram sentimentos de impotência devido às
dificuldades apresentadas na rotina de trabalho, também são conscientes da sua
parcela de contribuição, mas muitas vezes elas parecem não ver que a ineficiência
na realização de tais ações compromete a recuperação do paciente e pode trazer
conseqüências graves à vida desse paciente. Situação que pode ser ilustrada nas
seguintes UCE’s:
[...] às vezes, eu não sei como fazer estratégia de prevenção pra que
todas as pessoas que vão trabalhar com a gente tenham esse
pensamento, e aí eu não tenho essa concordância dos meus
colegas, então eu acho também que a falha também está em mim
,
não está somente nos outros, porque se você disser eu estou
fazendo, mas o outro não [...].
71
Ao mesmo tempo, as enfermeiras reconhecem que as ações de intervenção
para prevenção das IH precisam ser em conjunto com os parceiros do grupo, no
caso, as próprias enfermeiras e sua equipe, além de outros profissionais, como, por
exemplo, médicos, fisioterapeutas e devem se posicionam com neutralidade diante
das estratégias que possibilitem ações de prevenção de IH, conforme se pode
observar nas UCE’s abaixo:
[...] a intervenção, ela precisa ser trabalhada em conjunto, os
profissionais que estão ali dentro, como é que a gente vai lidar com
as nossas dificuldades, as nossas diferenças, o nosso aprendizado,
que ele não é igual para todos. Você tem que procurar também
estratégias de prevenção pra você trabalhar junto, então a gente
começa um projeto lá da onde você está trabalhando,
implementando medidas, aí daqui a pouco aquilo acaba, quando a
gente precisa de outras pessoas, aí eu vejo que eu tenho esse
compromisso, e que os colegas também têm [...], da própria rotina do
trabalho, não é que você esqueça, você bota alguma venda nos seus
olhos pra você não ver, mas que a gente poderia fazer muito mais.
[...] a prevenção, ela está ali atrelada no nosso dia-a-dia às ações
que você está fazendo ali, recebendo aquele paciente, trabalhando
aquele paciente com todos os profissionais [...].
Os conteúdos apreendidos denotam mais uma vez que as enfermeiras têm
dificuldade em conduzir as questões relacionadas à problemática das IH, elas
mantêm o posicionamento de que é necessária uma política institucional que
proporcione os meios para uma efetiva prevenção. Tal evidência pode ser
observada no conjunto de UCE’s seguintes:
[...] estabelecido uma rotina e a gente não tem, então, muitas vezes,
a questão de você não ter alguém que fique cobrando influencia
muito nosso trabalho, isso poderia vir por parte da direção da
enfermagem, implementando dentro de seu próprio setor. Vejo muito
essa questão [...] ligada também à própria gestão e à gerência, são
essas pessoas que estão trabalhando com você e essas pessoas
elas vão buscar aquilo de você [...].
As enfermeiras pesquisadas procuram utilizar o outro como referencial, no
caso, os gestores (diretores, gerentes e coordenadores) da instituição hospitalar,
para transferir responsabilidade e justificar suas dificuldades de enfrentamento frente
às medidas de prevenção, ancorando esse pensamento na identidade social. Esse
modo de conhecimento particular presente no senso comum das enfermeiras sobre
72
a IH viabiliza a identificação de dois processos na formação da RS desse grupo:
ancoragem e objetivação.
A ancoragem fornece um contexto inteligível ao objeto representado,
domesticando-o, classificando-o, e dando nome a ele mediante pressão do grupo, e
na objetivação como uma conexão entre a percepção ancorada a um conceito já
estabelecido que duplique um sentido por uma figura, materializando o abstrato
numa imagem, ou seja, reconhece o objeto e familiariza-se com ele, significando
uma nova organização cognitiva (MOSCOVICI, 1978).
Dessa forma, explica o autor, para classificar o sujeito através do sentido de
hierarquização, estabelece-se um valor positivo ou negativo a esse objeto conforme
os protótipos armazenados na memória desses sujeitos, no caso deste estudo, a
compreensão e análise dos processos sócio-cognitivos de formação das
representações sociais das enfermeiras sobre as IH.
Nesse sentido, o desempenho das enfermeiras para prevenção e controle das
IH está associado a um gerente, coordenador que exija que as normas técnicas da
instituição sejam cumpridas. Essa visão da organização do trabalho tradicional,
pautada em práticas cotidianas de assistência, hierarquizada, fragmentada, impede
as enfermeiras de avançarem para intervir nos processos que possibilitem a
transmissão das IH.
As interferências que surgem como dificultadoras na adoção de medidas de
prevenção demonstradas pelas enfermeiras se pautam na permanência ainda do
modelo hegemônico, na prática profissional que, verticalmente, preconiza soluções
provenientes do meio exterior, no caso deste estudo, pontuado como de
responsabilidade dos gerentes da instituição de saúde na qual elas trabalham, e
está associado à adoção de medidas de prevenção das IH, como normas e rotinas
escritas, e estratégias de educação permanente. Assim, as enfermeiras que
demonstram conhecimento sobre os riscos de aquisição das IH não se sentem
também responsáveis, e passam inconscientemente a defender os interesses
dominantes que permeiam o senso comum compartilhado no seu grupo de pertença.
É neste contexto que se evidenciaram as representações sociais das IH
elaboradas pelas enfermeiras e constataram-se sentimentos de impotência no
enfrentamento das IH, devido às dificuldades vivenciadas no cotidiano dessas
profissionais. Por outro lado, elas apontam soluções para efetivação do controle
dessas infecções, através de medidas de reestruturação, com interferência dos
73
gestores da instituição, fazendo, assim, transparecer uma imagem de dependência
do outro.
Os resultados obtidos em relação a essa classe mostram o conhecimento
extraído dos discursos das enfermeiras sobre os conteúdos das representações
desse grupo, que vivenciam ou vivenciaram em relação às IH, e daí emergem
situações dilemáticas, tais como: dificuldades, problemas, conflitos e, em várias
ocasiões elas parecem sentir-se sozinhas, impotentes, limitadas. Assim, quanto às
representações, as enfermeiras vislumbram uma mudança com expectativas de
construção de estratégias para a prevenção e controle das IH, que poderão ser
efetivadas por elas e pela gerência da instituição.
Dessa forma, observa-se na classe 1 a constituição da RS do conhecimento
socialmente elaborado pelas enfermeiras deste estudo sobre a IH, na qual os
elementos ancorados em aspectos socioculturais orientam a relação das
enfermeiras com o mundo e seu grupo de pertença, constituindo atributos
responsáveis pelos seus comportamentos frente à problemática dessas infecções.
4.2.2 Classe 2 - Práticas de prevenção da Infecção Hospitalar
Prosseguindo à análise, a classe 2, com 91 UCE’s, contribui com 32,16% das
palavras emergidas da fala de mp_10 (ver Quadro 1 de identificação dos sujeitos) e
está diretamente relacionada com a classe 1, o que demonstra que as descrições
das enfermeiras sobre os elementos sócio-cognitivos estão ancoradas nos aspectos
socioculturais e psicológicos relacionados às técnicas assépticas para prevenção e
controle das IH, com ênfase na falta de equipamento e materiais. Elas reconhecem,
contudo, que muitas vezes suas ações cotidianas não são realizadas com
segurança a fim de prevenir essas infecções.
74
*OPC *FCT % VOCABULÁRIO FORMAS ASSOCIADAS
33 44 75.00 43.84 lav+ lava, lavada, lavagem, lavei,
lavou
26 33 78.79 37.24 materi+ materiais, material
29 41 70.73 32.71 mão+ mão, mãos
26 41 63.41 21.48 vez+ vez, vezes
19 27 70.37 19.98 técnica+ técnica, técnicas, tecnicamente
9 9 100.00 19.61 luva+ luva, luvas
15 20 75.00 18.11 limp+ limpa, limpar, limpeza, limpo
8 8 100.00 17.37 cheg+ chega, chegar
8 8 100.00 17.37 curativo+ curativo, curativos
11 13 84.62 17.19 enfermaria+ enfermaria, enfermarias
21 34 61.76 15.38 sab+ sabão, sabem, sabe, saberem
27 48 56.25 15.38 quest+ questão, questões
9 11 81.82 12.94 falt+ falta
6 7 85.71 9.44 gente+ gente
15 24 62.50 11.07 mesmo mesmo
5 5 100.00 10.74 avent+ avental, aventais
29 58 50.00 10.65 faz+ faz, fazem, fazer, fazia
6 7 85.71 9.44 masc+ máscara, máscaras
6 7 85.71 9.44 cont+ contado, contato, contento
6 7 85.71 9.44 usando usando
Quadro 3 - Distribuição do vocabulário específico sobre práticas de prevenção da Infecção
Hospitalar e posicionamento, apreendido mediante os discursos das enfermeiras.
Fonte: Relatório Alceste (2008).
Observa-se no Quadro 3 a organização das palavras características da classe
2, Práticas de prevenção da Infecção Hospitalar. A primeira coluna refere-se ao
número de ocorrências de palavras na classe (OPC), na segunda, verifica-se a
freqüência em que essas palavras aparecem no corpus total (FCT), enquanto na
terceira, encontram-se os percentuais (%) dessas palavras na classe; a quarta
coluna traz o resultado do χ² das palavras; finalmente, a quinta e sexta colunas
apresentam, respectivamente, a palavra de ocorrência ou sua raiz e as formas
associadas a ela.
Na distribuição do vocabulário das formas reduzidas apresentada pelas falas
das enfermeiras sobre a IH, destacam-se, por exemplo, as palavras “lav+”, “materi+”,
“mão+” e “técnica+” com os maiores valores de χ² correspondendo, respectivamente:
43.84, 37.24, 32.71, e outros de menor valor como “máscara” e “usando”, que foram
relevantes para a compreensão dos discursos dessas profissionais. Na distribuição
do vocabulário apresentado pelas falas das enfermeiras, por exemplo, a palavra lav+
75
ocorre 36 vezes na classe e 44 vezes no corpus total, ou seja, 75% de ocorrência no
interior dessa classe.
Essa classe explicita a busca das enfermeiras em se incluírem no sistema de
organização do seu ambiente de trabalho, ocasião em que elas procuram o que lhes
é pertinente e compartilham o conhecimento socialmente construído através de suas
histórias, suas ideologias e cultura presentes no grupo de pertença, e elaborado de
maneira particular nas suas relações com o mundo.
Segundo informações extraídas dessa classe sobre a infecção hospitalar (IH),
considerando os conteúdos circulantes sobre o tema, foram apontadas
Representações Sociais consensuais entre as enfermeiras, organizadas a partir das
percepções e posicionamentos concernentes ao emaranhado de significados que
esse grupo de entrevistadas tem a respeito das IH, focalizando as dificuldades
encontradas para se prevenir essas infecções em decorrência de suas
características multicausais.
Para as enfermeiras, o significado das medidas de prevenção revelado nos
discursos refere-se, mais uma vez, às manifestações explicativas sobre as
dificuldades na adesão dos profissionais às condutas de prevenção das IH. Apesar
do reconhecimento destas profissionais em relação à importância na aplicação de
técnicas corretas, elas referem que alguns profissionais nem sempre o fazem de
maneira adequada e que eles não improvisam com criatividade a utilização de
estratégias para evitar a transmissão das IH em situações cotidianas adversas,
como, por exemplo, quando ocorre a falta de materiais necessários para a
realização do trabalho diário. Conforme manifestações apresentadas nas UCE’s
seguintes:
[...] no cabelo e em tudo, caneta, então, se eu não prevenir, posso
comprometer todo o ciclo. A maior dificuldade é a adesão de todo o
conjunto em fazer as medidas básicas, as mais elementares, que é a
lavagem das mãos, o uso das máscaras, o avental, o uso correto, é
porque a gente lava as mãos, mas nem sempre corretamente, usa o
avental nem sempre de forma adequada [...] o profissional dá
desculpas, a estar improvisando algumas técnicas, sem criatividade,
e aí compromete também a qualidade da prevenção.
Se por um lado as enfermeiras reconhecem que os profissionais do grupo de
pertença cometem erros, elas também se sentem responsáveis pela orientação dos
profissionais hierarquicamente subordinados (técnicos e auxiliares de enfermagem),
76
como também da equipe de limpeza. As enfermeiras expressam claramente o
descontentamento com relação aos procedimentos de higienização do ambiente e
apontam uma série de problemas com relação à conduta dos profissionais da
limpeza, que não condiz com as normas de prevenção das infecções cruzadas.
Observou-se, no cotidiano das enfermeiras pesquisadas, a carência no
envolvimento destas profissionais em orientar os profissionais da limpeza sobre os
métodos de higiene e desinfecção do ambiente e do mobiliário para a prevenção e o
controle das IH. Esses profissionais da limpeza não são subordinados na escala
hierárquica às ordens das enfermeiras, talvez por isso existam barreiras que
impossibilitam uma relação harmoniosa entre as duas categorias. Conforme
elucidado nas UCE’s:
[...] eles, os profissionais, fazem errado, manusear luvas, abrir portas,
fechar porta, pegar nosso material, usar o material inadequado, [...]
os outros profissionais, principalmente o pessoal da limpeza, eles
sabem, mas eles fazem errado [...] ele tem que ter cuidado com as
mesas de cabeceiras das enfermarias para fazer a desinfecção com
álcool [...] orientar o pessoal da limpeza a fazer a lavagem dos
colchões, também com hipoclorito, que ele passa o paninho ali como
se tivesse passando [...]. Quando vai aplicar alguma técnica, quando
falta algum material, não procura fazer bem-feito, então, pra suprir
essa falta de estrutura, inadequação, falta de material, a gente tem
que botar pelo menos pra fazer o mais correto possível, para não
deixar a desejar, mesmo na falta de alguma coisa [...] no hospital a
gente tem que lavar as mãos obedecendo à técnica de lavagem das
mãos entre os dedos e fazer toda vez que for fazer um procedimento
diferente e em pacientes diferentes, a gente tem que ter essa
consciência [...]
Têm-se indicativos de que o ambiente hospitalar pode representar uma
importante fonte de contaminação por patógenos nosocomiais para os pacientes de
alto risco, como, por exemplo: ar, água, superfícies (pisos, paredes, leitos, cadeiras,
etc) (COUTO; PEDROSA; NOGUEIRA, 2003). A aquisição destes patógenos
nosocomiais depende da interação entre hospedeiro, patógenos e ambiente. Na
avaliação do papel do ambiente nas infecções hospitalares, deve haver distinção
entre o reservatório e a fonte do agente infeccioso. O reservatório pode ser humano,
animal e inanimado. A fonte é a forma através da qual o agente infeccioso pode ser
levado ao hospedeiro, estas incluem o ambiente, o paciente e a equipe
multidisciplinar
.
77
O ambiente seguro e higiênico é necessário para o desenvolvimento das
ações de prestação de assistência à saúde. Deve, no entanto, haver uma
colaboração de todos os profissionais, gestão compartilhada e co-responsabilidades.
A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA) conceitua limpeza
hospitalar como o processo de remoção de sujidades mediante a aplicação de
energia química, mecânica ou térmica, num determinado período de tempo
(BRASIL, 2002). Nessa discussão, vale dizer que as atividades de limpeza hospitalar
são desempenhadas por alguns profissionais que não concluíram o ensino
fundamental, ao contrário do perfil esperado para exercer essa atividade, qual seja:
no mínimo, o ensino fundamental concluído. Quanto maior o nível de escolaridade,
melhor o potencial de aprendizado, capacidade de manter um relacionamento
interpessoal, trabalho em equipe, postura pessoal e profissional.
Através de suas narrativas, as enfermeiras denunciam condições de ordem
estrutural, como a falta de material, que acaba comprometendo o manuseio correto
das técnicas de prevenção das IH. Esses dados não se distanciam da realidade de
redução dos recursos/insumos para a área devido ao funcionamento das políticas de
saúde, o que acaba fomentando a estratégia do improviso nem sempre positiva, mas
comprometedora de resultados salutares para a garantia da saúde dos pacientes,
como revelam fragmentos das UCE’s:
[...] e mais importante também é a questão das técnicas, quando a
gente está desenvolvendo as técnicas cirúrgicas, está dispondo de
material adequado para isso, está fazendo, por exemplo, curativo,
sondagem, todas as técnicas que a gente faz está dentro das
técnicas assépticas, está usando essas técnicas, que a gente
aprende, discute, está sempre tendo, sempre esse cuidado de está
usando a técnica mais asséptica possível.
[...] deixam a desejar, às vezes a gente não tem material básico
esterilizado, não tem, aí fora no Pronto Socorro falta tudo, e você não
tem nem onde trabalhar. Como trabalhar é triste.
As formas das enfermeiras perceberem as dificuldades, preocupações e
limitações existentes proporcionada pela carência de equipamentos e materiais
exigem um esforço por parte dessas profissionais em distribuir proporcionalmente
esses materiais disponíveis na realização do cuidado aos pacientes que estão sob a
sua responsabilidade, o que pode contribuir para a contaminação dos mesmos pela
78
falha nos procedimentos técnicos assépticos e resultar no surgimento das IH.
Evidencia-se essa insatisfação das enfermeiras explicitadas nas seguintes UCE’s:
A gente tem a vontade de fazer correto, mas isso às vezes é
prejudicado pela falta de equipamento, material, a gente tem sempre
que vivenciar o improviso e isso deixa a desejar, é ruim fazer.
[...] então, às vezes, aqui nesse hospital falta de material, você
quebra a técnica, muitas vezes você faz um procedimento, você está
com o material ali, com o material contado, se você utilizar um
pouquinho a mais não vai ter outro, muitas vezes tem aqui gente que
usa sabão de coco, traz de casa pra ficar lavando, que até é proibido
utilizar o sabão de barra, mas assim essa falta de material se torna
uma das dificuldades.
[...] mas se a gente observar no dia-a-dia, muita gente deixa isso.
Aqui nós temos um grande número de curativos e, se a gente for
observar, essa técnica de curativos muitas vezes ela é deixada nos
mínimos detalhes, em como abrir um pacote de curativos, como
manusear uma pinça [...]
Após criticar pontos deficientes, as enfermeiras traçam as alternativas de
como prevenir as IH, com o critério da lógica: da orientação – ensinando; da
supervisão – verificando se a técnica foi devidamente desempenhada, e da
multiplicação-socialização das informações, da transmissão do conhecimento para
outros sujeitos que estão envolvidos no processo de combate à IH, como pacientes
e acompanhantes. Vejam-se as UCE’s da classe:
[...] oriento a toda minha equipe a fazer [...] como chegar ao plantão,
a fazer a limpeza com álcool de toda a bancada, a limpar com álcool
as cabeceiras das enfermarias, pra elas limparem com álcool,
juntamente comigo [...] elas fazem também supervisionando como foi
feita a limpeza na unidade, a lavagem das mãos de maneira correta,
lavando entre as unhas [...].
[...] acompanhantes manuseando paciente, também que passar
orientação para esse acompanhante, a questão da disposição das
roupas do paciente, do acompanhante, o próprio material que ele traz
para o hospital de seu uso pessoal,
As representações sociais compartilhadas pelo grupo das enfermeiras do
estudo sobre a problemática das IH apontam os efeitos psicossociais negativos e
positivos dessas profissionais sobre as medidas de controle dessas infecções e são
interpretadas, muitas vezes, como sem solução. Porém, ao mesmo tempo vem a
responsabilidade para com o outro, pois essas enfermeiras trazem conhecimentos
adquiridos por saberes experienciais, aliados ao conhecimento científico no qual,
79
para o sucesso dessas medidas, segundo suas manifestações/explicações,
encontra-se na dependência direta da adesão de todos os profissionais que estão
envolvidos com a assistência à saúde.
Interessante ressaltar que os serviços de enfermagem, pela natureza técnica
e repetitiva do dia-a-dia, têm levado muitos profissionais de saúde a esquecer e
descuidarem-se na efetivação de práticas de prevenção das IH. O que torna
necessário insistir no controle e prevenção das IH durante a realização do cuidado
aos pacientes, como algo vital, fundamental, de modo a ser incorporado na rotina do
profissional. Essa competência técnico-operativa deve ser fortalecida na capacitação
em serviço, de modo que a compreensão teórica do por que essas técnicas de
lavagem corretas das mãos, do uso adequado de luvas, da esterilização de
materiais e limpeza do ambiente devem ser praticadas intensivamente. Como
evidenciaram os relatos das enfermeiras:
[...] então às vezes a gente até falha um pouquinho nessa questão de
estar se protegendo, usar máscara pra estar fazendo acesso,
fazendo contato com os pacientes, com ambiente, algumas vezes na
lavagem das mãos.
[...] materiais que a gente tem de proteção no hospital, não levar pra
residência, até quando chegar de casa, deixar o material daqui no
hospital e nem trazer o da gente pra cá.
[...] a gente no dia-a-dia esquece-se de calçar uma luva, esquece de
pôr uma máscara, e então ou a gente desconecta um soro aqui,
então eu vou tentar fazer até sem luva, a gente não se importa muito
com essas coisas.
Suas narrativas compreendem, também, explicitação ou interpretação de sua
trajetória profissional, pois expressam suas vivências e experiências, suas
cotidianidades e suas singularidades, referenciando acerca de como entendem e de
como realizam suas práticas na prevenção às IH.
As enfermeiras refletem sobre o mundo do trabalho e elaboram
representações que se situam na ação do profissional, cujas medidas de prevenção
das IH deveriam estar voltadas para a realização de procedimentos assistenciais
com técnica, prioridade no atendimento e racionalização de materiais. De acordo
com Tura (2004), na formação de uma representação sobre um determinado objeto,
este não se deriva de uma concepção particular, mas da interação e reflexão de
80
uma coletividade, que unifica todas as características daquele objeto, combinado a
processos mentais e sociais.
Outro elemento explicativo é o reconhecimento das enfermeiras em relação à
própria negligência e de outros profissionais quanto ao uso de Equipamentos de
Proteção Individual (EPI’s). Essas medidas visam minimizar os riscos dos
profissionais de saúde de adquirirem doenças no ambiente de trabalho.
A existência do potencial de gerar risco se modifica de acordo com o tipo de
trabalho desenvolvido. Desse modo, risco pode ser conceituado como uma condição
biológica, química ou física que apresenta potencial para causar dano ao
trabalhador, produto ou ambiente. Para os trabalhadores da saúde, os agentes
biológicos constituem-se no mais antigo risco ocupacional de que se tem notícia.
Antes mesmo dos riscos químicos e físicos, o trabalhador já experimentava
exposição à grande número de agentes biológicos, que se constituem em agentes
etiológicos ou infecciosos, tais como bactérias, fungos, vírus, parasitas e outros
(MASTROENI, 2006).
Atualmente, a Norma Regulamentadora nº 32 do Ministério do Trabalho e
Emprego (MTE), dispõe sobre segurança e saúde no trabalho em serviços de saúde.
Essa norma tem como objetivo estabelecer as diretrizes básicas para a
implementação de medidas de proteção à segurança e à saúde dos trabalhadores
dos serviços de saúde, bem como daqueles que exercem atividades de promoção e
assistência à saúde em geral (BRASIL, 2005).
A execução das ações voltadas para a saúde do trabalhador é também
atribuição do Sistema Único de Saúde – SUS, prescrita na Constituição Federal de
1988 e regulamentada pela Lei Orgânica da Saúde – LOS (Nº 8.080) do trabalhador,
que visa à recuperação e à reabilitação dos trabalhadores submetidos aos agravos
advindos das condições de trabalho.
Com o desenvolvimento de estratégias de prevenção das IH, tais como a
lavagem das mãos e o uso de EPI’s pelos trabalhadores da saúde, muito se
avançou no controle e exclusão dos principais microorganismos responsáveis pela
infecção, constituindo uma menor exposição aos riscos (SARQUIS; FELLI, 2000).
A adesão ao uso dos EPI’s está intrinsecamente ligada à percepção que os
profissionais têm acerca dos riscos a que estão expostos e da susceptibilidade a
esses riscos. Nesta pesquisa, evidencia-se que as profissionais conhecem e
81
identificam os riscos ocupacionais, as conseqüências decorrentes da inobservância
do uso de medidas de precaução adotadas para a prevenção de acidentes
ocupacionais, no entanto, na prática negligenciam o uso desses equipamentos.
O emprego de práticas de cuidado seguras e o uso de EPI’s pelos
profissionais de saúde e funcionários refletem significativamente na redução dos
riscos de acidente ocupacional, por isso a aplicação de medidas educativas no
sentido de sensibilizar esses profissionais faz-se estritamente necessária.
Na prática cotidiana, as enfermeiras participantes deste estudo relatam ainda
insatisfação, principalmente quanto ao uso de luvas de procedimento para
realização, por exemplo, de punções venosas, alegam que o material não é de boa
qualidade e também o tamanho das luvas não é apropriado para as mãos que as
utilizam. Nenhuma ação poderá ser desempenhada com êxito se não existirem
condições materiais adequadas nem definições que demonstrem uma decisão da
instituição, cenário desta pesquisa, em relação à aquisição de materiais que
atendam às especificidades de uso.
Nesse sentido, a disponibilidade de EPI’s apropriados é perfeitamente
tolerável, depois de adquirido o hábito de seu uso. A segurança do trabalho precisa
ser devidamente valorizada na mente do trabalhador. Trata-se, sobretudo, de fazer
com que os profissionais sejam preparados para aceitar o uso desses equipamentos
como forma de prevenir acidentes ocupacionais.
O fator decisivo para a profilaxia e controle das infecções hospitalares é a
existência e adoção de rotinas de prevenção coerentes e de pessoal em número
suficiente, qualificado e preparado para cumpri-las. O hospital, além da sua função
em proporcionar à população assistência médico-sanitária completa, tanto curativa
como preventiva, sob quaisquer regimes de atendimento, e cujos serviços externos
irradiam até mesmo o âmbito familiar, deve atuar também na capacitação de
recursos humanos e de pesquisas em saúde, bem como no encaminhamento de
pacientes, cabendo a essa instituição supervisionar e orientar os estabelecimentos
de saúde a ela vinculados tecnicamente. Assim, o hospital é também um centro de
investigação biopsicossocial (HAUSER, 2004).
No ambiente hospitalar a satisfação pessoal é um diferencial competitivo por
se tratar de algo que invariavelmente traz lucro. Pessoas satisfeitas são mais
competentes, trabalham mais motivadas e alcançam mais resultados positivos
82
(SHINYASHIKI, 2000). Portanto, faz-se necessário o incentivo à educação, à
atualização e à qualificação, com programas de educação permanente, organização
racional e valorização do trabalho, além de interação multiprofissional, recursos
materiais e tecnológicos. Uma das diretrizes para o centro de formação, para os que
trabalham no campo da saúde, está a missão de auxiliar os profissionais no
emprego correto dos EPI’s, segundo os riscos potenciais de cada situação, em cada
unidade de uso.
Segundo Moscovici (2003), as RS existem como fios condutores obtidos
através da comunicação (e ideologia), do ponto de vista da sua estrutura, da sua
gênese e da sua função. A formação dessa classe dá margem aos discursos das
enfermeiras, que mostram as dificuldades em conduzir as práticas de prevenção,
servindo como um alerta para os perigos enfrentados no cotidiano desse grupo e
pela não adoção de estratégias estruturais administrativas por parte dos dirigentes
da instituição pesquisada.
A partir da apreensão dos conteúdos dos discursos formadores dessa classe,
torna-se relevante que os gestores e a Comissão de Controle de Infecção Hospitalar
da instituição pesquisada proporcionem, para as enfermeiras e para os profissionais
de saúde, equipamentos e materiais suficientes, assim como a priorização na
implantação de programas de educação permanente com reforços educativos
regulares sobre a importância na adoção de práticas de prevenção das IH.
Iniciativas educacionais são necessárias para informar aos trabalhadores as suas
respectivas responsabilidades na prevenção dessas infecções.
Dessa forma, as enfermeiras expressaram no seu cotidiano, por intermédio
das suas condutas, valores apreendidos através de informações familiarizadas e que
circulam e são compartilhadas por todos e reforçados pela tradição no grupo social
de convivência, sobre as práticas de prevenção e controle das IH. Para essas
profissionais, o sucesso para a redução das taxas dessas infecções está também na
dependência da adesão dos profissionais de saúde da instituição pesquisada às
medidas de prevenção.
83
4.2.3 Classe 3 - Relação da Infecção Hospitalar com a Qualidade da Assistência
Com relação à classe 3, esta apresenta uma maior contribuição, com 145
UCE’s, que corresponde a um percentual de 51,24%. Ela é a que caracteriza, em
maior proporção, o conteúdo do corpus. Estas UCE’s emergiram de discursos das
enfermeiras mp_16 e mp_21.
Junto ao material analisado, evidenciam-se as manifestações/descrições e
explicações dos posicionamentos positivos e negativos das enfermeiras sobre a
relação direta da infecção hospitalar com a qualidade da assistência prestada aos
usuários da instituição de saúde pesquisada, demonstrando que essas infecções
aumentam se não houver uma preocupação – preparo e envolvimento dos
profissionais na realização das atividades cotidianas inerentes ao cuidar.
*OPC
*FCT
%
VOCABULÁRIO
FORMAS ASSOCIADAS
106 132 80.30 83.65 infecç+ infecção, infecções
64 74 86.49 49.83 hospitalar+ hospitalar, hospitalares
45 48 93.75 41.82 qualidade qualidade
29 29 100.00 30.75 assistenci+ assistência, assistencial
29 35 82.86 15.98 saúde saúde
14 14 100.00 14.02 indice+ índice, índices
15 16 93.75 12.27 diz+ diz, dizem, dizer
11 11 100.00 10.89 aument+ aumenta, aumentado, aumentar,
aumento
12 13 92.31 9.20 tive tive
9 9 100.00 8.85 prest+ prestação, prestada, presto,
prestando
11 12 91.67 8.20 direta+ direta, diretamente
13 15 86.67 7.96 serv+ serviço, serviços
8 8 100.00 7.84 menor+ menor, menores
8 8 100.00 7.84 intern+ internação
8 8 100.00 7.84 individu+ individual, indivíduo
14 17 82.35 7.01 sej+ seja
7 7 100.00 7.00 adquir+ adquire, adquirir
18 23 78.26 7.32 exist+ exista, existe, existem,
existência, existentes, existir
Quadro 4 - Distribuição do vocabulário específico da relação da Infecção Hospitalar com a
Qualidade da Assistência, apreendido mediante os discursos das enfermeiras.
Fonte: Relatório Alceste (2008)
84
A distribuição do vocabulário no Quadro 4, extraídas nos discursos das
enfermeiras, evidencia as palavras típicas e as formas associadas desta classe que
representam os valores com os maiores χ², destacando-se as palavras “infecç+”,
“hospitalar+”, “qualidade” e “assistênci+”, correspondendo, respectivamente: 83.65,
49.83, 41.82, 30.75, entre outras de menor valor que foram relevantes para a análise
das falas dessas profissionais. Na distribuição do vocabulário apresentado pelas
evocações das enfermeiras, por exemplo, a palavra infecç+ ocorre 106 vezes na
classe e 132 vezes no corpus total, ou seja, 80.30% de ocorrência no interior dessa
classe.
De acordo com os dados mostrados na presente classe, demonstrativa da
descrição e explicação das enfermeiras sobre a importância em promover a
educação permanente no ambiente de trabalho, através de estratégias que
possibilitem a abordagem de conteúdos relacionados à prevenção e controle das IH
e a qualidade da assistência à saúde. Como se pode verificar nas UCE’s seguintes:
[...] educação permanente em saúde, basicamente, dentro do local
de trabalho [...]. Essa relação ela é importante quanto menor for o
índice de infecção hospitalar, esse índice está diretamente
relacionado, ou seja, a qualidade da assistência está diretamente
relacionada aos menores índices de infecção hospitalar.
[...] eu tenho que pensar na qualidade do processamento da
esterilização, da qualidade dos produtos utilizados para fazer isso, no
treinamento do pessoal. Esse pessoal treinado periodicamente, se
ele é cobrado para executar, [...] digamos assim
, não no aspecto da
cobrança, mas se ele tem algum bônus, alguma compensação para
estar trabalhando para diminuir a ocorrência de infecção.
[...] O pessoal não é treinado de forma apropriada, a gente acha que
num lugar que tem infecção hospitalar, a qualidade do serviço seja
menor, é o que a gente espera que seja.
Dessa forma, a garantia da qualidade dos serviços de saúde necessita ser
assegurada constantemente, pela atualização permanente e capacitação da equipe
multidisciplinar, além de uma interação entre todas as áreas do hospital: médica,
tecnológica, administrativa, econômica, assistencial e setores de pesquisa. A
qualidade do serviço hospitalar está diretamente relacionada à assistência, ao
cuidar, influenciando nos índices de IH. Portanto, toda a equipe de saúde precisa ser
treinada acerca da política e procedimentos de controle de infecção hospitalar.
85
Nesse sentido, no Programa de Controle de Infecção Hospitalar, elaborado e
executado pela CCIH, devem constar atividades que contemplem, no mínimo, ações
relativas à prevenção e controle das IH, como, por exemplo: capacitação no quadro
de funcionários e profissionais da instituição. Assim, caberá à autoridade máxima da
instituição propiciar a infra-estrutura necessária à correta operacionalização da CCIH
e fomentar a educação e o treinamento de todo o pessoal hospitalar (BRASIL,1998).
É freqüente, na maioria das instituições, a preocupação com a formação
adequada para o corpo dos trabalhadores, a educação permanente em serviço tem
sido apontada como garantidora de mais eficiência, eficácia e efetividade nos
serviços. No âmbito da saúde, na atualidade, torna-se crucial fortalecer um novo
paradigma de desenvolvimento de competências: teórico-metodológica, técnico-
operativa e ético-política entre os profissionais, de modo a ampliar os
conhecimentos, delegar responsabilidades, montar equipes que desenvolvam o
trabalho com qualidade, evitando problemas de desperdício de recursos e de
materiais, apreensão adequada do manejo das técnicas e ampliação do nível de
eficiência em saúde.
Entende-se a educação como processo vital de troca entre os homens, e
também como agente facilitador no processo integralizador profissional, com
possibilidade experiencial de ações educativas, como forma de contribuir na
produção de conhecimentos das enfermeiras sobre a prevenção e controle de IH a
serem desenvolvidas na prática diária junto aos pacientes que necessitam de
assistência de enfermagem especializada. Enquanto inserido no processo de
educação em saúde, a enfermeira deve estar em constante busca de mecanismos
que possam nortear suas ações com objetivos definidos para melhoria do
atendimento da clientela que assiste/cuida. Sendo assim, compreende-se a
importância em distinguir que a sua atuação deve estar fundamentada nos princípios
da “educação” como proposta inovadora para transformações no cenário da saúde.
Segundo Ribeiro e Motta (2005), a Educação Permanente em Saúde tem
como objeto de transformação o processo de trabalho, orientado tanto para o acesso
aos serviços de saúde e melhoria da qualidade dos serviços, quanto para a
equidade do cuidado. O conceito é sintetizado por Rovere (2005) como educação no
trabalho e para o trabalho, nos diferentes serviços, cuja finalidade é melhorar a
saúde da população.
86
Ainda, de acordo com os mesmos autores, tanto a educação Permanente
quanto a educação Continuada conferem uma dimensão temporal de continuidade
ao processo de educação, que deve corresponder às necessidades das pessoas
durante suas vidas, com princípios metodológicos diferentes. Os mesmos autores
descrevem, ainda, educação continuada, como um processo organizado
permanente, sistemático, direcionado a clientes institucionais, com uma política de
saúde definida tendo em vista a real necessidade dos usuários.
A Educação Permanente em Saúde não procura transformar todos os
problemas em educacionais, mas buscar as lacunas do conhecimento e as atitudes,
que são parte da estrutura explicativa dos problemas identificados na vida cotidiana
dos serviços. Dessa forma, é imprescindível abordar a educação sob a ótica da
prevenção da infecção hospitalar em instituição para tratamento de saúde, tendo
como pressuposto, o conhecimento socialmente construído pelas enfermeiras
interlocutoras do estudo, como forma de contribuir para a melhoria na qualidade da
assistência.
A garantia do sucesso de qualquer intervenção de enfermagem pode ser
atribuída à maneira pela qual são atendidas as demandas físicas, emocionais,
sociais e espirituais do paciente. Para atender às suas reais necessidades, é
imprescindível observar a maneira como ele é recebido, assistido, acolhido e como
se estabelece a relação com a enfermeira e a equipe de enfermagem, pois estes
fatores influenciam significativamente, contribuindo de maneira positiva, impedindo a
contaminação do paciente por germes hospitalares, facilitando assim a sua rápida
recuperação.
A relação enfermeira-paciente é a essência do propósito da enfermagem, com
o objetivo de ajudar o indivíduo e a família a enfrentarem e compreenderem a
experiência da dor, do sofrimento pela qual passam. Durante o desenvolvimento do
relacionamento com o paciente, ambos, enfermeiro e paciente se conhecem e se
desenvolvem. A relação também pode ser considerada uma relação de tempo, com
projeção para o futuro, baseada no passado, o que resulta em relacionamento
harmonioso entre a realidade passada e a ação presente (WALDOW, 2004).
Existem maneiras de cuidar e estas representam a forma como pensamos o
cuidar. Na maioria das vezes, percebe-se que certos profissionais procuram atender
às normas, regras e pressões institucionais, muitas vezes, contrariando a forma
desejada e concebida por ele do cuidar, não podendo atuar do modo que gostariam
87
(WALDOW, 2004). Em toda forma de cuidar existe relacionamento e, devido a sua
importância, tanto para o paciente como para o profissional, devemos nos preocupar
com esse cuidar, para que ele não se torne inadequado e ineficiente, sendo
comparado a situações que caracterizam apenas o desempenho de uma tarefa.
Cuidar em enfermagem é ajudar o paciente a crescer, a enfrentar momentos
difíceis como um procedimento cirúrgico, mantendo-se disponível, presente e
solidário. Essa presença deve ser percebida tanto pelo ato de estar ali, pronta e
abertamente, como pela interação estabelecida através da conversa, do tom da voz,
da postura, dos gestos, do toque, ou da própria expressão facial, transmitindo o
calor humano. Atitudes de demonstração de sensibilidade da enfermeira permitem
que o paciente expresse seus sentimentos, suas angústias, assegurando o conforto
da presença humana (LEONI, 1996; WALDOW, 2004).
Portanto, evidencia-se que a enfermeira e sua equipe de enfermagem devem,
decididamente, dar cada vez mais ênfase ao cuidado humanizado, não esquecendo
o papel preponderante da relação de ajuda junto aos pacientes, uma vez que o ser
humano é um ser social , principalmente na situação em que se encontra, em um
ambiente estranho, muitas vezes debilitado, com risco de adquirir uma IH.
As falas elencadas pelas enfermeiras sobre infecção hospitalar revelaram
também sentimentos de satisfação e crença de que uma assistência de qualidade se
reflete em taxas menores de IH. Assim, observou-se mais uma vez a preocupação
das enfermeiras com o processo de evitar a IH, ao mesmo tempo em que essas
profissionais sentem a necessidade de trabalhar num ambiente limpo e de se
orgulharem da instituição na qual elas prestam assistência de enfermagem, pelo fato
de refletir uma imagem positiva, como elucidado nas seguintes UCE’s:
[...] com relação à assistência você pensa em algo limpo
, em algo
que seja assim
, meu Deus do céu, que você tenha orgulho de dizer
que tenha qualidade, então aquele hospital que você está
trabalhando tem casos de infecção
, então, qualidade, ela não existe
[...] Bom, a relação é direta, a qualidade
, se existe cuidado na
prevenção e no controle da infecção hospitalar, aumenta o nível de
qualidade desse paciente que é assistido, dessa assistência
prestada, pra mim é isso. [...] na medida em que você tem um
controle mais eficiente de infecção hospitalar, você tem um serviço
mais resolutivo, um serviço mais eficiente e de uma qualidade
melhor. Bom
, a infecção hospitalar, para o profissional de saúde, ele
é em primeiro lugar o índice de qualidade, porque quando você tem
infecção hospitalar controlada ou de número mais reduzido
, você tem
88
uma qualidade de serviço melhor, [...] elas estão muito relacionadas,
quanto melhor a assistência, [...] mais eu previno as infecções
,
então
, quanto maior a qualidade da assistência prestada ao meu
doente, eu vou evitar que ele pegue doença de outro doente,
A busca pela qualidade assistencial com valorização na prevenção e controle
das IH vem sendo discutida e compartilhada entre os profissionais de saúde, uma
vez que os usuários dos estabelecimentos de saúde tornaram-se, nas últimas
décadas, mais conscientes de seus direitos, exigindo assim um maior
comprometimento dessas instituições.
Dessa forma, com a publicação da Lei nº 9.431, de 06 de janeiro de 1997, as
instituições hospitalares são obrigadas a elaborarem um PCIH e constituírem uma
CCIH, sob pena de responderem por atos danosos que possam causar IH em
usuários dos serviços de saúde.
Nessa perspectiva, o alcance da qualidade pelos serviços de saúde passa a
ser uma atitude coletiva, tornando-se um diferencial técnico e social necessário para
atender a demanda de uma sociedade cada vez mais exigente, que envolve não só
o usuário do sistema, como também os gestores. Isso requer a implementação de
uma política de qualidade nas organizações, tanto da rede pública quanto da privada
(KLUCK et al. 2002).
A melhoria contínua da qualidade da assistência em enfermagem, no sentido
de atingir a excelência, é um processo dinâmico e exaustivo de identificação
constante dos fatores intervenientes no processo de trabalho, e requer do
profissional enfermeiro implementações de ações e a elaboração de instrumentos
que possibilitem avaliar de maneira sistemática os níveis de qualidade dos cuidados
prestados (FONSECA et al., 2005).
Nessa classe emerge também a construção de uma imagem negativa da IH
manifestada pelas enfermeiras. Pode-se perceber esse sentimento na seguinte
passagem do texto: “eu acho ruim, uma coisa que você não quer ficar perto, aquilo
que você tem medo, medo assim do profissional da área da saúde”. Essa imagem
de repulsa traduz a reação de pavor das enfermeiras sobre o fenômeno das IH e,
em decorrência desse posicionamento, subjetividades nesse sentido são
construídas.
89
Face à imagem negativa construída pelas enfermeiras, seus medos e anseios
estão relacionados às conseqüências da IH, ancorando-a como fonte de
desequilíbrio no processo saúde-doença. Percebe-se, assim, que estas profissionais
demonstram estar cientes dos riscos dos pacientes e profissionais de saúde e delas
mesmas adquirirem essas infecções, geradoras de prejuízos a toda a comunidade
hospitalar.
No que se refere à atitude, mais uma vez as enfermeiras deste estudo
insistem em manifestar conhecimento sobre o conceito das IH e também as
preocupações sobre a importância na adoção de medidas educativas voltadas para
prevenção, como meio de redução nas taxas dessas infecções. As referidas
manifestações/descrições podem ser observadas nas UCE’s em seguida:
[...] muitíssimo importante. A infecção hospitalar é a infecção que o
paciente adquire durante o período de internação no hospital. A
infecção hospitalar ela está diretamente relacionado com os
profissionais de saúde, [...] conhecer o paciente, então compromete o
tempo de permanência dele no hospital, compromete o gasto
hospitalar com esse paciente
, e o índice de mortalidade que é
aumentado por conta das infecções hospitalares, então a gente sabe
que desencadeia uma série de complicações, uma série de gastos,
uma série de desconforto para o paciente e
, também, influi na
qualidade do serviço. [...] qualquer que seja a medida preventiva para
redução das taxas de infecção hospitalar, é importante, pois
, através
da avaliação e/ou controle ocorre a diminuição da infecção, estamos
propondo medidas educativas que levam a uma melhor qualidade
dos serviços prestados. Como conseqüência
, melhor bem-estar
físico, mental e social para todos. [...] uma assistência de qualidade
ela vai evitar as infecções hospitalares, então uma assistência de
qualidade consiste em se prevenir, utilizar equipamentos de proteção
individual e na lavagem das mãos [...]
No hospital, especificamente os pacientes, encontram-se hospedeiros mais
suscetíveis a diferentes microrganismos patogênicos, provocando uma associação
complexa e, conseqüentemente, complicações infecciosas. Cada pessoa que
penetra nesse ambiente possui diferentes espécies de bactérias comensais, o
mesmo acontecendo com materiais e alimentos que podem ser contaminados por
uma variedade de espécies de seres microscópicos. A infecção ocorrerá ou não,
dependendo da eficácia dos procedimentos antiinfecciosos utilizados no hospital
diante do cuidado a cada paciente.
90
Considerando as IH como causa de morbimortalidade, o Ministério da Saúde
publicou a Portaria nº 2.616/1998, a qual preconiza que, para uma adequada
execução do Programa de Controle de Infecção Hospitalar (PCIH), todos os
hospitais do país deverão constituir uma Comissão de Controle de Infecção
Hospitalar (CCIH), e estabelece, como competência técnica dessa comissão, avaliar
todos os cuidados prestados ao paciente, apontar soluções e medir o risco de
adquirir infecção hospitalar, otimizando os recursos técnicos e financeiros da
instituição (FERNANDES, 2000).
De acordo com a Portaria acima citada, a IH é definida como aquela adquirida
após a admissão do paciente. Esta infecção pode se manifestar-se durante a
hospitalização ou até mesmo após a alta, se comprovada a relação com a realização
de procedimentos hospitalares. Incluem-se também as infecções manifestadas a
partir das 72 horas de internação, quando associadas a procedimentos diagnósticos
e ou terapêuticos, realizados durante este período (BRASIL, 1998).
As IH destacam-se, portanto, como causa relevante, ocasionando sérios
danos de ordem social e econômica, tanto para os pacientes, como para as
instituições de saúde. Entretanto, no Brasil, apesar das diversas iniciativas do
Ministério da Saúde, essas infecções se configuram ainda como um sério problema
de saúde pública.
Deve-se ressaltar que as taxas de IH variam entre as instituições e são
dependentes da qualidade da vigilância epidemiológica, bem como das
características específicas da instituição, como perfil de clientela e outros fatores de
risco relacionados às IH. Logo, a comparação de taxas entre diferentes hospitais
deve ser vista com cautela.
No exercício da atividade de cuidar, a interdisciplinaridade deve nortear ações
de prevenção e controle das infecções hospitalares, favorecendo assim o trabalho
conjunto entre a CCIH e demais profissionais dos diversos serviços de assistência
do hospital.
Segundo Fernandes (2000), a área de saúde foi talvez a última a se
conscientizar sobre a importância da qualidade dos serviços prestados. Por lidar
diretamente com a saúde do indivíduo e, conseqüentemente, com sua vida, esta
área tem sentido uma pressão maior, por parte de seus clientes, quanto à qualidade
dos serviços prestados. Diante dessa situação, é indispensável que sejam tomadas
medidas eficazes no sentido de solucionar o problema. Esse setor, portanto,
91
necessita de implementação de políticas públicas fiscalizadoras direcionadas à IH,
no intuito de contribuir na melhoraria da qualidade de assistência à saúde, reduzir
custos e resolver os problemas daí decorrentes, dentre outros fatores.
A concepção de interpretações estatísticas das informações de vários
hospitais ingleses, relatadas por Florence Nightingale, demonstra claramente a
relação entre más condições higiênicas e as elevadas taxas de complicações pós-
operatórias, como: gangrenas, erisipelas, dentre outras, as quais se associavam
também a altas taxas de mortalidade. Em geral, Florence sugeriu a manutenção de
registros confiáveis de óbitos hospitalares (FERNANDES, 2000).
Na literatura, o papel do enfermeiro é preconizado em quatro áreas, a saber:
administrativa, assistencial, ensino e pesquisa. No papel administrativo, o enfermeiro
realiza o planejamento, a organização, a direção e o controle das atividades
desenvolvidas nesta unidade. No papel assistencial, elabora um plano de cuidados,
utilizando metodologia científica para prestar assistência individualizada; o papel de
ensino é relevante porque estimula o enfermeiro a buscar conhecimento para
propiciar o aperfeiçoamento da equipe de enfermagem.
O exercício das práticas em saúde da enfermeira dar-se a partir da adoção de
medidas preventivas, conduzindo ao entendimento da necessidade de desmistificar
o controle de infecção, tornando-o acessível a todos, juntamente com os princípios e
pressupostos da segurança de trabalho relacionados ao risco biológico.
A formação profissional não pode sofrer indissociabilidade do controle da infecção e
as práticas em saúde, pois realizar um procedimento de enfermagem significa adotar
as medidas preventivas pertinentes.
Observa-se que as enfermeiras do estudo, juntamente com a equipe de
enfermagem e outros profissionais de saúde, enfrentam situações laborais
inapropriadas, nem sempre as considerando como perigosas, mesmo que as
evidências científicas mostrem a presença de vários agentes de riscos nos
ambientes de trabalho. Os profissionais de saúde devem conhecer todos os
aspectos que contribuem para o surgimento das infecções e adotar medidas que
estabeleça um ambiente biologicamente seguro para os pacientes e para toda a
equipe. Aprofundar sobre as causas da adesão ou não dessa classe de profissionais
é de grande relevância para a diminuição dos riscos de IH.
A adoção de rotinas de prevenção e controle das IH juntamente com o
trabalho em equipe, além das informações sobre os fatores extrínsecos (condições
92
ambientais e cuidados com assepsia e anti-sepsia) e os fatores intrínsecos (estado e
condições inerentes ao paciente), contribuirão na diminuição de ocorrência das
infecções adquiridas em instituições de saúde.
Assim, a explicação das enfermeiras sobre a aplicação de medidas
preventivas com ênfase na educação permanente promoverá a redução dos índices
dessas infecções, refletindo numa assistência de melhor qualidade.
93
CONSIDERAÇÕES FINAIS
94
O enfrentamento da problemática das infecções hospitalares (IH), sua
prevenção, tratamento e controle representam desafios para as autoridades
governamentais, instituições e profissionais de saúde, por constituir hoje grave
problema de saúde pública, e estarem entre as principais causas de morbidade e
letalidade, pois influenciam o aumento do tempo de hospitalização e,
conseqüentemente, elevados custos adicionais para o tratamento do paciente.
Deve-se considerar o controle dessas infecções como prioritário e seguir o programa
elaborado pela Comissão de Controle de IH, que, no entanto, necessita da
participação das enfermeiras e de toda a equipe de saúde, independente da
situação hierárquica nesses serviços, bem como visitantes, acompanhantes e do
próprio paciente.
Apesar da evolução nos estudos sobre o fenômeno das IH e da exigência
legal da manutenção de programas de controle de IH no Brasil que contemple ações
destinadas à prevenção e ao controle dessas infecções, ainda se observa que a
maioria dos hospitais não possui Comissão de Controle de Infecção Hospitalar.
Considerando a relevância da temática das IH, optou-se em realizar um
estudo que refletisse sobre a realidade cotidiana das enfermeiras de um hospital
público de ensino e, para isso, utilizou-se a Teoria das Representações Sociais, por
compreender que essa teoria proporcionaria a apreensão da realidade estudada em
seus aspectos mais subjetivos.
As RS manifestam-se como cópia da realidade cotidiana, na qual as
interlocutoras do estudo criam um universo imaginário, na verdade, reflexo do
mundo que vivenciam. Dessa forma, as representações são um conhecimento
produzido na perspectiva da pessoa, um conhecimento como forma de processo e
não como conteúdo, apropriado ao mundo contemporâneo na qual ocorrem
mudanças constantes no interior dos modelos, culturais e ideológicos, e dos modos
de pensar dominantes desse grupo pesquisado.
No que concerne à apreensão das representações sociais elaboradas por
enfermeiras sobre as IH, o estudo possibilitou a compreensão das dinâmicas
estruturais desse grupo, que constrói e reconstrói permanentemente suas
representações nesse universo consensual, permitindo a construção mental dos
fatos relacionados às infecções refletidas na sua prática social cotidiana. Moscovici
(1978) enfatiza que é possível a construção de um conhecimento válido pelo senso
comum e que se pode apreendê-lo em uma dimensão psico-sociológica, que se
95
modifica à medida que penetra na sociedade e é assimilada pelos diferentes grupos
sociais escolhidos de acordo com a sua posição na sociedade, suas concepções
religiosas e políticas e sua condição sociocultural. Isto é, o saber científico é
transformado numa dimensão de senso comum pelas enfermeiras interlocutoras do
estudo.
Jodelet (1989), na mesma ótica, afirma que o conhecimento de sentido
comum é uma forma de interpretar, de definir a realidade cotidiana. Esse
pensamento não é construído no vazio, na verdade ele se enraíza nas formas e nas
normas culturais e se constrói ao longo da história individual e nas trocas cotidianas.
O estudo buscou a apreensão e análise dos significados das classes
semânticas, organizadas a partir dos discursos das enfermeiras, denominando os
seus respectivos sentidos. Assim, os sentidos atribuídos revelaram uma
classificação do conteúdo em três classes lexicais fornecidas pelo instrumento
informático Alceste 4.8, quais foram: conhecimento frente à IH; práticas de
prevenção das IH; e relação da IH com a qualidade da assistência.
Na classe 1, conhecimento frente à IH, as formas reduzidas encontradas nos
discursos foram “trabalh+”, “form+”, “enfermagem”, “ações”, “lid+” e “fundament+”.
Nessa classe, as enfermeiras manifestaram sentimentos de impotência diante da
prevenção e controle das IH no ambiente de trabalho, porque se sentiam inseguras
para intervir diante de situações que não dependiam da sua vontade.
Tendo em vista que a transmissão das IH deve-se a fatores multicausais,
torna-se difícil prevenir e controlar essas infecções, que muitas vezes comprometem
a recuperação dos pacientes e também a saúde dos profissionais envolvidos no
cuidar. As profissionais enfermeiras deste estudo necessitam firmar seu
conhecimento e adotar iniciativas que favoreçam o cuidar voltado para a prevenção
e o controle dessas infecções, no sentido de proporcionar o restabelecimento dos
pacientes e minimizar os conflitos vivenciados.
Na classe 2, práticas de prevenção e controle das IH, as formas associadas
foram: “lav+”, “materia+”, “mão+” e “técnicas”, evidenciou-se nos discursos das
enfermeiras, a necessidade de implantação de programas de educação permanente,
por parte dos gestores, que contemplem as ações práticas de prevenção e controle
das IH, que possam ser efetivadas pelos profissionais de saúde da instituição
pesquisada.
96
As enfermeiras compreendem que a adesão dos profissionais de saúde na
efetivação de práticas seguras está atrelada ao desenvolvimento de ações e
estratégias educativas promovidas pela instituição que possibilite o conhecimento
científico sobre as condutas de prevenção e controle das IH. Entendem também que
não é só o conhecimento científico que contribuirá para uma prática segura, mas
também a disponibilidade de insumos de qualidade e em quantidade suficiente no
intuito de minimizar riscos durante a realização da assistência de enfermagem.
As enfermeiras elaboram representações sobre o seu mundo do trabalho e
justifica a sua ação profissional, para a realização de procedimentos assistenciais
com técnica, prioridade no atendimento e racionalização de materiais.
Outro elemento explicativo é o reconhecimento das enfermeiras quanto à
própria negligência e de outros profissionais em relação à ao uso de Equipamento
de Proteção Individual.
No que diz respeito à classe 3, relação da IH com a qualidade da assistência,
esta apresentou uma maior contribuição no conteúdo do corpus estudado, e as
formas associadas foram as palavras: “infecç+”, “hospitalar+”, “qualidade” e
“assistênci+”. Cabe aqui ressaltar a preocupação e crença das enfermeiras quanto à
importância da educação permanente como meio de redução dos índices de IH e
com isso proporcionar uma assistência de qualidade.
Os dados da observação participante revelam que as enfermeiras têm
limitações em sua capacidade de ação na implementação de práticas para a
prevenção e controle das IH. Isso se confirma nos seus discursos, no qual elas
representam suas dificuldades ao desenvolverem essas ações práticas no
cotidiano, ancoradas no conhecimento do senso comum que orienta as
manifestações/descrições através de uma postura crítico-reprodutivista e/ou crítico-
reflexiva, objetivadas através de imagens positivas e negativas sobre as IH.
Assim, o ato de pensar e expressar a realidade exterior relacionada ao
fenômeno das IH, concretizada através das atitudes, opiniões e condutas, numa
ligação diária de trocas das enfermeiras deste estudo, traduz a visão do conjunto a
respeito do objeto pesquisado. Nesse sentido, Moscovici (1978) traz um dos
conceitos de representações sociais como uma modalidade de conhecimento
particular, cujas funções são a elaboração de comportamentos e a comunicação
entre os indivíduos.
97
Os sentimentos das enfermeiras são traduzidos através de medo e repulsa
relacionados às conseqüências da IH, ancorados como fonte de desequilíbrio no
processo saúde-doença. As enfermeiras insistem em manifestar suas preocupações
sobre a importância na adoção de medidas educativas voltadas para prevenção das
IH, como meio de redução nas taxas dessas infecções, geradoras de prejuízos a
toda a comunidade hospitalar.
A descoberta dessas três classes levou a uma reflexão sobre o desafio desta
pesquisa, qual seja, é possível a apreensão e análise das representações sociais
das enfermeiras sobre as IH, objetivadas e ancoradas em: práticas de prevenção,
dificuldades, relação de dependência do outro, qualidade da assistência, educação
permanente entre outros elementos constituintes, que fazem parte dos critérios
pessoais e técnicos relacionados ao cuidar nesse contexto. Isso proporcionou a
análise dos processos constitutivos presentes na realidade do grupo estudado como:
opiniões, imagens, conhecimentos, informações presentes no senso comum das
enfermeiras e ainda a apreensão das realidades sociais, psicológicas e
psicosociológicas das representações desse grupo estudado, no que concerne às
IH.
Neste sentido, pode-se considerar que as enfermeiras ao mesmo tempo em
que relatam modalidades de conteúdo favorável ao reconhecerem a importância da
prevenção e controle das IH, em contrapartida, devido às dificuldades enfrentadas
na realidade cotidiana, demonstram neutralidade e absorvem parcialmente as
normas preconizadas pelo Programa Nacional de Controle e Prevenção de IH.
As representações sociais das enfermeiras permeiam um conjunto de gestos,
articulações, enquanto comportamentos simbólicos, além das teorias científicas,
facilitando com autenticidade, uma dialética da experiência concreta nas suas
práticas cotidianas, através das relações estabelecidas entre o seu grupo de
pertença.
Portanto, nas Representações Sociais das enfermeiras sobre o controle das
IH, elas precisam olhar essas infecções na sua singularidade aparente, não
esquecendo também a influência da ciência, para que possam transformar, de
maneira positiva, as condutas de prevenção e controle na sua assistência prestada.
É mister a inserção da discussão sobre a participação da enfermagem na
prevenção e no controle das IH ainda no curso de graduação, por considerar que as
enfermeiras com seu conhecimento prático, atravessado pelas imagens mentais e
98
por fragmentos de teorias científicas transformadas no seu cotidiano, influenciarão
nos seus comportamentos e nas suas relações entre os indivíduos, contribuindo,
assim, para a redução nos índices dessas infecções e, conseqüentemente, na
melhoria da qualidade da assistência.
Espera-se que este estudo possa encorajar os profissionais de saúde,
principalmente as enfermeiras, estudantes, técnicos e auxiliares de enfermagem a
adotar uma postura educativa crítico-reflexiva face à prevenção e o controle da IH,
servindo como subsídio para o aprofundamento do conhecimento das teorias
científicas e saber do senso comum nessa temática, seus meandros e os atores
envolvidos. Pode também auxiliar na compreensão a respeito das subjetividades
desse grupo, em seus universos consensuais, na qual circulam ideologias, crenças,
opiniões e atitudes sobre as IH.
99
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107
APÊNDICES
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MINISTÉRIO DA EDUCAÇÃO
UNIVERSIDADE FEDERAL DO PIAUÍ
PRÓ-REITORIA DE PESQUISA E PÓS-GRADUAÇÃO
CENTRO DE CIÊNCIAS DA SAÚDE/DEPARTAMENTO DE ENFERMAGEM
PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO MESTRADO EM ENFERMAGEM
APÊNDICE A
TERMO DE CONSENTIMENTO PARA A INSTITUIÇÃO
Título da pesquisa: REPRESENTAÇÕES SOCIAIS DA INFECÇÃO HOSPITALAR
ELABORADAS POR ENFERMEIRAS
Dr. Noé Cerqueira Fortes
MD. Diretor Geral do Hospital Getúlio Vargas.
Ao tempo em que envio cumprimento, venho através deste solicitar sua
autorização para que Odinéa Maria Amorim Batista, aluna do Programa de Pós-
Graduação Mestrado em Enfermagem da Universidade Federal do Piauí, realize
uma pesquisa intitulada “Representações Sociais da Infecção Hospitalar Elaboradas
por Enfermeiras”. A referida pesquisa será desenvolvida junto às enfermeiras do
Hospital Getúlio Vargas, e tem uma previsão de 90 (noventa) dias para a etapa de
produção de dados. O resultado da pesquisa será fornecido por escrito e entregue
diretamente a V. Sª, ou alguém autorizado a recebê-lo.
Teresina,____ de___________ de 2008.
____________________________________________________
Orientadora: Profª. Dra Maria Eliete Batista Moura
109
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APÊNDICE B
Título do estudo: Representações Sociais da Infecção Hospitalar Elaboradas por
Enfermeiras
ROTEIRO PARA ENTREVISTA
Estamos desenvolvendo uma investigação sobre as Representações Sociais
da Infecção Hospitalar elaboradas por enfermeiros, e gostaríamos de contar com a
sua participação respondendo a este roteiro de Entrevista. Dessa forma, suas
respostas de forma espontânea e individual são muito importantes. Asseguramos
que todas as respostas serão anônimas e confidenciais, destinando-se para fins de
investigação científica.
Os estudos na área da saúde, pela perspectiva da Teoria das
Representações Sociais (TRS), possibilitam a aquisição de um conhecimento
construído e compartilhado socialmente, vinculado às construções sociais de um
saber do senso comum e influenciado por comportamentos, crenças e atitudes dos
grupos sociais.
1-
Identificação
Código_______
Data:____/_____/____
Horário: Inicio_____ Término_____
Sexo:
Idade:
Tempo de serviço na Instituição:
110
Setor de trabalho:
2 - Informe o seu posicionamento sobre a Prevenção e Controle das Infecções
Hospitalares. Assinale com um círculo a sua opção, por grau de importância:
Nada Pouco Relativamente Muito Muitíssimo
importante importante importante importante importante
……1……. ……2……. ……3…….. …….4……. …….5……
3- Como você representa a Infecção Hospitalar?
4- Qual a sua opinião sobre Infecção Hospitalar para profissionais da saúde?
5- Você já recebeu alguma informação sobre Infecção Hospitalar? Se responder sim,
fale como você adquiriu essas informações.
6 – Qual a importância da Prevenção e Controle das Infecções Hospitalares para sua
vida profissional? Descreva-a.
7- Fale sobre suas dificuldades com relação à Prevenção e Controle das Infecções
Hospitalares.
8- Para você como seria uma intervenção relacionada à Prevenção e Controle das
Infecções Hospitalares?
9- Quais as suas intervenções e ações práticas do cotidiano profissional relacionadas à
Prevenção e Controle das Infecções Hospitalares?
10- Você já teve algum problema de saúde relacionado à Infecção Hospitalar? Se
responder sim, fale sobre sua experiência.
11- Qual a relação da Infecção Hospitalar com a qualidade da assistência prestada aos
pacientes?
111
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APÊNDICE C
ROTEIRO PARA OBSERVAÇÃO PARTICIPANTE
1 Identificação
Código _______
Data: ____/_____/____
Horário: Início_____ Término_____
2 Observar as reações objetivas e subjetivas das enfermeiras na realização de
medidas de prevenção e controle das infecções hospitalares
2.1 A enfermeira quando supervisiona a equipe de enfermagem ou realiza os
procedimentos que lhes são privativos segue as orientações sobre as medidas de
prevenção das IH:
___________________________________________________________________
___________________________________________________________________
2.2 Considera as recomendações para a prevenção das IH quando orienta outros
prestadores de serviço:
Quais servidores____________________________________________________
Quais orientações___________________________________________________
___________________________________________________________________
112
ANEXOS
113
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ANEXO A
Teresina, ___/___/2008
Ilma Sra.
Profa. Dra. Regina Ferraz Mendes
Coordenadora do Comitê de Ética em Pesquisa da UFPI
Cara Profa.
Estou enviando o projeto de pesquisa intitulado “REPRESENTAÇÕES
SOCIAIS DA INFECÇÃO HOSPITALAR ELABORADAS POR ENFERMEIRAS”,
para a apreciação por este Comitê.
Confirmo que todos os pesquisadores envolvidos nesta pesquisa realizaram a
leitura e estão cientes do conteúdo da resolução 196/96 do CNS e das resoluções
complementares à mesma (240/97, 251/97, 292/99, 303/2000, 304/2000 e
340/2004).
Confirmo também:
1. que esta pesquisa ainda não foi iniciada,
2. que não há participação estrangeira nesta pesquisa,
3. que comunicarei ao CEP-UFPI os eventuais eventos adversos
ocorridos com as voluntárias,
4. que apresentarei relatório anual e final desta pesquisa ao CEP-UFPI,
5. que retirarei por minha própria conta os pareceres e o certificado junto
à secretaria do CEP-UFPI.
Atenciosamente,
Pesquisador responsável
114
Assinatura:
Nome: Maria Eliete Batista Moura
CPF: 139.054.143-68
Instituição: Universidade Federal do Piauí
Área: Centro de Ciências da Saúde
Departamento de Enfermagem: Programa de Pós-Graduação Mestrado em
Enfermagem.
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ANEXO B
Declarações das Pesquisadoras
Ao Comitê de Ética em Pesquisa - CEP
Universidade Federal do Piauí
Nós, Maria Eliete Batista Moura, Odinéa Maria Amorim Batista, pesquisadoras
responsáveis pela pesquisa intitulada, “Representações Sociais da Infecção
Hospitalar Elaboradas por Enfermeiras”, declaramos que:
Assumimos o compromisso de cumprir os Termos da Resolução nº 196/96,
de 10 de Outubro de 1996, do Conselho Nacional de Saúde, do Ministério da
Saúde e demais resoluções complementares à mesma (240/97, 251/97,
292/99, 303/2000, 304/2000 e 340/2004);
Assumimos o compromisso de zelar pela privacidade e pelo sigilo das
informações, que serão obtidas e utilizadas para o desenvolvimento da
pesquisa;
Os materiais e as informações obtidos no desenvolvimento deste trabalho
serão utilizados apenas para se atingir os objetivos previstos nesta pesquisa
e não serão utilizados para outras pesquisas sem o devido consentimento das
voluntárias;
Os materiais e os dados obtidos ao final da pesquisa serão arquivados sob a
responsabilidade de Maria Eliete Batista Moura, da área de Saúde da UFPI,
que também será responsável pelo descarte dos materiais e dados, caso os
mesmos não sejam estocados ao final da pesquisa;
Não há qualquer acordo restritivo à divulgação pública dos resultados;
Os resultados da pesquisa serão tornados públicos através de publicações
em periódicos científicos e/ou em encontros científicos, quer sejam favoráveis
ou não, respeitando-se sempre a privacidade e os direitos individuais dos
sujeitos da pesquisa;
116
O CEP-UFPI será comunicado da suspensão ou do encerramento da
pesquisa por meio de relatório apresentado anualmente ou na ocasião da
suspensão ou do encerramento da pesquisa com a devida justificativa;
O CEP-UFPI será imediatamente comunicado se ocorrerem efeitos adversos
resultantes desta pesquisa com as voluntárias;
Esta pesquisa ainda não foi total ou parcialmente realizada.
Teresina, ___ ____ _____.
Maria Eliete Batista Moura – 139.054.143-68
Pesquisador responsável
Odinéa Maria Amorim Batista – 429.003.363- 68
Pesquisador
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ANEXO C
Título do estudo: Representações Sociais da Infecção Hospitalar Elaboradas por
Enfermeiras
TERMO DE CONSENTIMENTO LIVRE E ESCLARECIDO
Você, na qualidade de sujeito de pesquisa, está sendo convidado para
participar de uma pesquisa. Você precisa decidir se quer autorizar ou não sua
inclusão como sujeito de pesquisa.
O respeito devido à dignidade humana exige que toda pesquisa se processe
após consentimento livre e esclarecido dos sujeitos, indivíduos ou grupos que por si
e/ou por seus representantes legais manifestem a sua anuência à participação na
pesquisa (IV, da Resolução 196/96, do CNS).
Para melhor esclarecer, sujeito de pesquisa, de acordo com a Resolução
196/96, do CNS, é o (a) participante pesquisado (a), individual ou coletivamente, de
caráter voluntário, vedada qualquer forma de remuneração.
Leia cuidadosamente o que se segue e pergunte ao responsável pela
pesquisa sobre qualquer dúvida que tiver.
Após ser esclarecido (a) sobre as informações a seguir, no caso de autorizar
sua participação como sujeito de pesquisa, assine este documento, que está em
duas vias. Uma delas é sua e a outra é do pesquisador responsável.
Você poderá recusar sua participação de imediato e a qualquer
tempo, sem que com isto haja qualquer penalidade.
118
ESCLARECIMENTO SOBRE A PESQUISA:
Projeto de Pesquisa intitulado: Representações Sociais da Infecção Hospitalar
Elaboradas por Enfermeiras
Pesquisador Responsável: Maria Eliete Batista Moura
Telefone(s) para contato: (086) 9982 1611
Pesquisadora participante: Odinéa Maria Amorim Batista
Telefone(s) para contato: (086) 9982 6009, 3229 9086
1. A presente pesquisa tem como objeto: As Representações Sociais da
infecção hospitalar elaboradas por enfermeiras.
2. Os procedimentos adotados nesta pesquisa serão: entrevistas semi-
estruturadas, gravadas em gravador digital e transcritas na íntegra, com o
intuito de preservar a veracidade e os sentimentos dos enfermeiros em suas
respostas, evitando-se assim interpretações equivocadas e observação
participante. Caso julgue necessário, depois de realizada a transcrição o
conteúdo poderá ser revisado pelo entrevistado.
3. Há desconfortos e riscos ( ) Não há desconfortos e riscos ( X).
4. Há benefícios para o sujeito de pesquisa (X) Não há benefícios para o sujeito
de pesquisa ( ). Se houver benefícios, justificar:
- Possibilidade de conhecer as representações sociais da infecção hospitalar
elaboradas por enfermeiras e como essas representações influenciam na
prática de controle das infecções hospitalares.
5. Objetiva-se nesta pesquisa: Apreender as Representações Sociais das
infecções hospitalares elaboradas por enfermeiras e analisar como essas
Representações influenciam nas práticas das enfermeiras para o controle das
IH.
6. Compromisso de Garantia de acesso: em qualquer etapa da pesquisa, você
terá acesso aos pesquisadores responsáveis e participantes pela presente
pesquisa para esclarecimento de eventuais dúvidas. O principal pesquisador
é Maria Eliete Batista Moura.
7. O período de sua participação será de ____/___/ 2008 a ___/ / 2008,
lembrando-lhe que você terá o direito de recusar-se a continuar como sujeito
de pesquisa a qualquer tempo.
Nome e Assinatura do pesquisador responsável:
Maria Eliete Batista Moura
Nome e Assinatura da pesquisadora participante:
Odinéa Maria Amorim Batista
119
CONSENTIMENTO
Eu, ________________________________________________________________
___________________________________________________________________
___________________________________________________________________
(qualificação completa com nome, número de identidade, CPF, endereço, telefone(s)
e, se houver, e-mail), abaixo assinado, concordo em autorizar minha participação
como sujeito de pesquisa no projeto de pesquisa intitulado: Representações Sociais
da Infecção Hospitalar Elaboradas por Enfermeiras, que tem como pesquisador
principal Maria Eliete Batista Moura e pesquisadora participante Odinéa Maria
Amorim Batista.
Declaro que tive pleno conhecimento das informações que li ou que foram
lidas para mim, descrevendo o projeto de pesquisa As Representações Sociais da
Infecção Hospitalar Elaboradas por Enfermeiras, tudo em conformidade com o
estabelecido na Resolução 196/96, do Conselho Nacional de Saúde.
Declaro, ainda, que discuti com o pesquisador responsável sobre a minha
decisão em participar nesse estudo como sujeito de pesquisa e sobre a
possibilidade de a qualquer momento (antes ou durante a mesma) recusar-me a
continuar participando da pesquisa em referência, sem penalidades e/ou prejuízos,
retirando o meu consentimento.
Ficaram claros para mim quais são os propósitos do projeto de pesquisa, os
procedimentos a serem realizados, a ausência (e ou presença) de riscos, as
garantias de confidencialidade e de esclarecimentos permanentes. Ficou claro
também que minha participação é isenta de despesas e que tenho garantia do
acesso à pesquisa em qualquer tempo. Concordo, voluntariamente, em participar
deste projeto de pesquisa.
Teresina, ____/_______ de 2008.
_______________________________________
Nome e Assinatura do sujeito ou responsável
Testemunhas (não ligadas à equipe de pesquisadoras):
Nome: _____________________________________________________
Assinatura: ________________________________________________
Nome: _____________________________________________________
Assinatura: ________________________________________________
Observações Complementares:
Nome: _____________________________________________________
Assinatura: ________________________________________________
Nome: _____________________________________________________
Assinatura: ________________________________________________
120
ANEXO D
121
ANEXO E
122
Livros Grátis
( http://www.livrosgratis.com.br )
Milhares de Livros para Download:
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