É sintomático que sobre o conto “Os laços de família” Clarice
(1999), em depoimento, tenha dito: “De “Os laços de família” não gravei
nada”. Justamente sobre o conto que, pelo menos, aparentemente, dá título à
coletânea, pois, como sabemos, o volume é composto de outros contos,
escritos alguns no Brasil, outros quando a escritora estava fora do país, seis
deles já publicados em outra coletânea e em outros espaços, como jornais e
revistas, vindo a juntar-se aos demais que comporiam o aclamado livro Laços
de Família, título que, como disse Elódia Xavier (1998, p. 28) “tem uma
abrangência muito maior, remetendo aos demais textos, que de uma forma ou
de outra, tematizam o contexto familiar”.
Neste conto, as relações mãe/filha, marido/mulher e mãe/filho são
representadas de forma a evidenciar o vazio de uma comunicação, que não se
efetiva, fazendo emergir, na estrutura do conto, uma espécie de técnica
bastante utilizada pela escritora, que é a de dizer pelo não-dito, pelo que é
silenciado, exigindo do leitor a capacidade de construir sentidos, através do
que é, muitas vezes, apenas sugerido.
O conto tem início com a mãe, Severina, e a filha, Catarina, dentro
do táxi que as levaria à rodoviária, de onde Severina deveria partir para sua
cidade, depois de ter passado duas semanas com a filha, o genro e o neto. No
percurso, a filha rememora, com ironia, os conflitos vividos pela mãe e o
genro, divertindo-se com o patético da situação na hora de sua partida: “Mas
eis que na hora da despedida, antes de entrarem no táxi, a mãe se transformara
em sogra exemplar e o marido se tornara o bom genro” (p. 94).
A narradora informa que “O táxi avançava monótono” (p. 95),
talvez, para aludir à tentativa de diálogo entre mãe e filha, que se dava, com
dificuldade, de forma monossilábica e vazia, com a velha a repetir várias