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MARIA LÚCIA FRUTUOSO DE OLIVEIRA
REPRESENTAÇÕES DA VELHICE NO SITE MAISDE50
Dissertação apresentada ao Programa de Pós-
Graduação em Linguística da Universidade de
Franca como exigência parcial para a obtenção
do título de Mestre em Linguística.
Orientadora: Profª Drª Maria Regina Momesso
FRANCA
2010
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A velhice está muito além do cabelo branco, das rugas, do
sentimento de que é tarde demais e o jogo acabou, de que a
época pertence às gerações emergentes.
O verdadeiro mal não é o enfraquecimento do corpo, mas a
indiferença da alma.
André Maurois
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MARIA LÚCIA FRUTUOSO DE OLIVEIRA
COMISSÃO JULGADORA DO PROGRAMA DE MESTRADO EM LINGUÍSTICA
Presidente:
__________________________________________________________________
Prof.ª Dra. Maria Regina Momesso.
Universidade de Franca
Titular 1:
___________________________________________________________________
Prof.ª Dra. Mariza Bianconcini Teixeira Mendes
UNESP - Bauru
Titular 2:
___________________________________________________________________
Prof. Dr. Juscelino Pernambuco.
Universidade de Franca
Franca, 13/10/2010
4
DEDICO esta dissertação a minha mãe, Maria Teixeira
Frutuoso, pelas suas orações e presença constante em minha
vida. Aos meus filhos que compreenderam a minha ausência
nos finais de semana e em dias de festa. Ao meu querido
marido pelas palavras de estímulo, pela paciência nas minhas
ausências, nas muitas de nossas noites. Além, de ter podido
contar com sua agradável companhia em vários simpósios.
Não citei meus agradecimentos a Deus, pois, Ele faz parte de
toda minha jornada, dos grandes feitos até do mais
insignificante.
5
AGRADECIMENTOS
Agradeço de forma especial:
à professora Dra. Maria Regina Momesso, minha orientadora, por
acreditar em meu potencial, dividir comigo meus sonhos e participar das suas
realizações;
aos professores que participaram de minha banca, em especial ao
professor Juscelino pela sua ajuda na correção de minha pesquisa e constante
paciência e simpatia;
a todos os meus colegas de mestrado, principalmente a minha querida
amiga Alcione, que dividiu comigo os momentos de angústias e incertezas no
decorrer de nosso curso, assim como os bons momentos de nossas viagens em
congressos;
aos meus familiares, que sempre acreditaram em mim, em especial a
minha mãe, que participou de cada fase de minha vida e por último em meu curso de
mestrado;
ao meu filho Wesley, pela contagiante energia positiva, e a minha filha
Isis, pelo auxílio no manuseio do computador, as dicas de informática e a constante
presença nos meus sábados, sempre esperando por mim após as minhas aulas,
sem reclamações, sendo mais uma amiga do que filha;
ao meu marido e constante conselheiro, Lírio Fábio, pelo seu
discernimento nas situações de dificuldades e angústias, para as quais ele sempre
apresentava uma adequada solução;
também, apresento, aqui, meus agradecimentos de forma pouco
comum direcionados às funcionárias da biblioteca da UNIFRAN, pela educação,
paciência e dedicação, sempre fazendo por mim muito mais do que a função que
exercem e com extremo bom humor;
a Deus, que mais uma vez permitiu que eu realizasse outro de tantos
sonhos que tenho;
finalmente, a todos aqueles que direta ou indiretamente me auxiliaram
na construção e conclusão desta pesquisa científica.
6
Nós não crescemos de forma absoluta, cronológica. Ás vezes,
crescemos em uma dimensão, e não em outra; desigualmente.
Crescemos em parte. Somos relativos. Somos maduros em
uma esfera, infantis em outra. Passado, presente e futuro
misturam-se conosco e nos puxam para trás, para frente ou
nos fixam no presente. Somos feitos de camadas, células,
constelações.
Anais Nin
7
RESUMO
OLIVEIRA, Maria Lúcia Frutuoso de. Representações da velhice no site
Maisde50. 2009. 84 f. Dissertação (Mestrado em Linguística) Universidade de
Franca, Franca.
É comum relacionar o uso das novas tecnologias, em especial a web, a pessoas
jovens, executivos ou pesquisadores ligados ao mundo virtual. No entanto o número
de pessoas com mais de 50 anos usuárias da Internet tem crescido no ciberespaço
e torna-se cada vez mais comum encontrar sites específicos para pessoas maduras.
Objetiva-se nesta dissertação analisar as representações construídas nos discursos
sobre a velhice no site Maisde50 (http://www.maisde50.com.br/), com o intuito de
compreender melhor as imagens e o imaginário do ser que envelhece na
contemporaneidade. Partindo do pressuposto de que o sujeito emerge no/pelo
discurso, pode-se dizer que este é de ordem simbólica, ou seja, um efeito de sentido
entre interlocutores. Nos discursos que circulam na internet, modelos de práticas
sociais identitárias para aqueles que estão envelhecendo em tempos de
relacionamentos virtuais. Adota-se uma abordagem transdisciplinar, à luz dos
teóricos da análise de discurso e dos estudos culturais pós-estruturalistas. As
reflexões pautam-se em autores como Pêcheux (1997), acerca das formações
imaginárias e condições de produção e recepção discursiva; Foucault (1992, 1998,
2000, 2004), para as questões das práticas discursivas de subjetivação; em Hall
(2002), para reflexões sobre a identidade; Bauman (2007, 2005, 2003, 2001), para a
discussão da contemporaneidade, da identidade e das novas tecnologias; em
Birman (1995), Bosi (1994), Santos (2008), Peixoto e Clavairolle (2005), em relação
aos conceitos de envelhecimento. Os resultados mostram práticas discursivas que
pretendem construir para o indivíduo com mais de 50 anos uma representação
positiva: a velhice como sinônimo de melhor fase da vida. Os discursos parecem
apagar” os problemas e as limitações características do envelhecimento. A internet
oferece nesse espaço virtual um simulacro de vida feliz, saudável e plena, em que a
geração pós-50 experimenta a plena realização de si.
Palavras-Chave: velhice; discurso; representação; internet.
8
ABSTRACT
It is common to relate the use of new Technologies, specially the web, to young
people, executives or researchers connected to the virtual world. However, the
number of people over 50 years old that use the internet has grown on the
cyberspace and is becoming more common each day to find specifics sites for
mature people. In this light, the aim of this dissertation is to analyze the
representation constructed on the discourse about the old age on the site Mais de
50” http://www.maisde50.com.br/ - intending to understand more widely which
images are made of aging individuals on the contemporary society. It started from the
assumption that the subject emerges in/from the discourse. The discourse is of
symbolic order, an effect of meaning between interlocutors, in which the
representations, values and social, discursive and virtual practices circulating on the
internet about aging build the identity models for those who are aging in virtual times.
A transdisciplinary approach in the light of theoretical discourse analysis and post-
structuralist cultural studies was adopted. The reflections are guided by authors such
as Pêcheux (1997) about the imaginary formation and conditions of possibility of
discursive production and reception, Foucault (1992, 1998, 2000, 2004) to issues of
discursive practices and subjectivity, Hall (2002) for the identity reflection and
Bauman (2007, 2005, 2003, 2001) to discuss contemporaneity, identity and new
technologies, Birman (1995), Bosi (1994), Santos (2008), Peixoto and Clavairolle
(2005) in relation to aging. The results show discursive practices intended to build, for
an over 50 individual, a positive representation - the aging as a synonym of the best
time of life. The discourses seem to erase the problems and limitations that are
characteristics of aging. The internet seems to offer in this virtual space a simulacrum
of a happy, health and full life, in which the “post-50” generation experiences the full
realization of itself.
Key Words: Aging, Discourse, Representation, internet.
9
LISTA DE FIGURAS
FIG. 01
“O Inverno”, Giuseppe Arcimboldo.
p.43
FIG. 02
Foto de um rosto de um homem maduro no site Maisde50.
p.43
FIG. 03
Foto de rosto de um casal maduro no site Maisde50.
p.49
FIG. 04
Foto de rosto de um casal maduro no site Maisde50.
p.49
FIG. 05
Enquete site Maisde50.
p.70
10
SUMÁRIO
INTRODUÇÃO.................................................................................................. 11
1. ANÁLISE DE DISCURSO, IDENTIDADE E REPRESENTAÇÃO.............. 16
1.1 Panorama da Análise de Discurso francesa: AD1, AD2 e AD3...... 17
1.2 Discurso, Sujeito e Práticas: noções básicas................................... 25
1.3 Identidade e Representação........................................................... 30
2. CONDIÇÕES DE POSSIBILIDADE DE PRODUÇÃO DISCURSIVA:
A VELHICE NA MODERNIDADE LÍQUIDA................................................. 33
2.1 Velhice: um breve cenário................................................................ 34
2.2 Envelhecer em tempos de fluidez e liquidez.................................... 36
2.3 Web 2.0 para pessoas com mais de 50........................................... 44
3. REPRESENTAÇÕES DA VELHICE NO SITE MAISDE50.......................... 54
3.1 Maisde50: o portal da maturidade.................................................... 55
3.2 Discursos e representações: editorias............................................. .61
3.3 Discursos e representações: comunidade maisde50...................... 67
4. CONSIDERAÇÕES FINAIS......................................................................... 74
REFERÊNCIAS............................................................................................... 76
ANEXOS ......................................................................................................... 79
11
INTRODUÇÃO
Talvez, todo começo de um pensar tenha suas raízes
nessa realidade do outro que, distanciando-a, se torna
imagem para mim.
(LARA; 1998, p.181)
12
A contemporaneidade, segundo Bauman (2001), encontra-se em
estado de fluidez, ou seja, nada permanece o mesmo ou tem o mesmo sentido
durante muito tempo: os fluidos não fixam o espaço nem prendem o tempo, já
os sólidos têm dimensões espaciais claras.
A metáfora da fluidez e da liquidez para designar os dias atuais é
pertinente, uma vez que hoje nada é permanente: o emprego, as relações
sociais, as identidades, etc. Num passado não muito remoto, as instituições, os
valores sociais, morais e ideológicos eram sólidos, as identidades eram
estáveis e os papéis sociais também eram bem delineados e estabelecidos.
Mas isso não significa que fosse um mundo melhor que o da atualidade.
Com o surgimento de novas tecnologias, os dispositivos da web 2.0
fizeram com que a humanidade fosse atraída para um mundo totalmente
cibermidiático, cheio de simulacros e de simulações das situações da vida
cotidiana, em que o sujeito tem a sensação de ser o que quiser.
Dessa forma, a identidade do indivíduo, da empresa ou de seu produto
não consegue permanecer estável por muito tempo: dependendo das
condições em que se vive, pode-se por meio da tecnologia criar uma nova
imagem para si e para os outros, ou seja, vestir-se de outro quando desejar.
O mundo digital passou a fazer parte das práticas cotidianas e sociais
da atualidade e não fazer parte dele torna-se um problema para qualquer
indivíduo. Para as gerações mais jovens, a internet e seus dispositivos, tais
como blogs, twitter, sites interativos, orkut e outros, são elementos da vida e
não oferecem nenhum obstáculo, pelo contrário, constituem uma ferramenta de
comunicação, informação e troca simbólica cotidiana: crianças, adolescentes e
jovens não conseguem viver sem sua utilização.
As ferramentas da web 2.0 são os novos símbolos da
contemporaneidade. Elas são responsáveis por instaurar um universo de
imagens, sons e textos, ou seja, uma infinidade de signos que se entrelaçam,
provocando novas formas de comunicação e socialização.
Porém as pessoas com mais de 50 anos, em sua maioria, encontram
dificuldades para lidar com as novas tecnologias, pois nasceram no século
passado, quando a tecnologia o era tão avançada. Por essa razão, muitas
delas ainda se sentem apartadas desse processo, mas desejam inserir-se no
mundo virtual, participando ativamente dele.
13
Atualmente, tem crescido o número de sites voltados para o público
maduro, com o interesse não só de inserir pessoas de meia idade no mundo
virtual, mas de fazê-los participantes e de certa forma consumidores das novas
tecnologias, formando um mercado promissor.
É sabido que até poucas décadas, o perfil de pessoas da faixa etária
acima dos 50 anos constituía-se de um sujeito que iniciava sua caminhada
para a aposentadoria e para a inatividade e a expectativa de vida era de mais
10 ou 15 anos. Havia, portanto, a imagem de alguém que se recolheria aos
seus aposentos e dedicaria o resto de sua vida aos netos e à contemplação da
passagem do tempo, ou à rememoração do passado ao recontar suas
histórias. O ser que envelhecia era aquele aposentado que deixava a atividade
profissional e social e tornava-se passivo e inativo. A consequência era relegar
o idoso a um espaço restrito e sem perspectivas de inclusão social.
Essa representação da pessoa madura e em processo de
envelhecimento mudou, atualmente, com os avanços da medicina e das novas
tecnologias: a expectativa de vida aumentou e com isso veio o crescimento
dessa população. Hoje, a maioria das pessoas com mais de 50 anos aposenta-
se e continua trabalhando, o que permite formar um mercado promissor para
vendas de produtos especiais para tal faixa etária. Dentro desse nicho de
mercado, a internet tem oferecido a essa população ferramentas para a
inserção de pessoas maduras no mundo virtual.
Diante do exposto, esta dissertação tem como objetivo principal
analisar as representações construídas nos discursos sobre a velhice
presentes no site Maisde50 (http://www.maisde50.com.br/), para compreender
de forma mais ampla as imagens do ser humano que envelhece na
contemporaneidade.
Os objetivos específicos são: a) verificar as condições de produção
discursiva e quais implicações estão envolvidas tanto para o autor quanto para
o usuário do site (condições de recepção); b) caracterizar as representações
da velhice no site em questão; c) refletir sobre como essas representações
criam efeitos de sentido na sociedade líquido-moderna.
O corpus é formado por alguns e-textos, imagens, vídeos, podcasts
selecionados e recortados do site http://www.maisde50.com.br/. Esse site tem
14
como proposta ser uma rede de relacionamento exclusivo para pessoas com
mais de 50 anos, configurando-se como instrumento de interação, informação e
auxílio para as questões relativas ao envelhecimento e para ajudar as pessoas
a fazer novas amizades.
Parte-se do pressuposto de que o sujeito emerge no e pelo discurso e
sua representação é um efeito de sentido entre interlocutores, que se produz a
partir das práticas discursivas, que hoje podem ser desenvolvidas num espaço
virtual. Essas práticas, no site Maisde50, constroem uma imagem positiva do
ser que envelhece: um ser saudável, sem os problemas característicos da
idade, posto que o avanço tecnológico, as informações e as orientações do site
seriam suficientes para solucionar todos os problemas que prejudicariam sua
qualidade de vida. A abordagem dos problemas característicos da fase madura
é tratada no site de forma superficial e a linguagem utilizada para atingir esse
público ora é informal, intimista ora é infantilizada como, por exemplo, na
pergunta retórica Quer ser a vovó mais “fofuxa” do mundo? Referente a
propaganda de divulgação de um site de brinquedos colocada no site em forma
de banner.
Em relação à análise da materialidade linguística, adota-se uma
abordagem transdisciplinar, à luz da teoria da análise de discurso e de estudos
culturais pós-estruturalistas. As reflexões pautam-se em autores como Pêcheux
(1997), acerca das formações imaginárias e condições de possibilidade de
produção e recepção discursivas; Foucault (1992, 1998, 2000, 2004) para as
questões das práticas discursivas e da subjetivação; Hall (2002), para a
reflexão sobre a identidade; Bauman (2007, 2005, 2003, 2001), para a
discussão da contemporaneidade, da identidade e das novas tecnologias e
Birman (1995), Bosi (1994), Santos (2008), Peixoto e Clavairolle (2005), para o
estudo do processo de envelhecimento.
Além da introdução e das considerações finais, dividimos a dissertação
em três partes: a primeira é constituída de um capítulo teórico, em que se
apresentam os fundamentos básicos desta dissertação: a linha teórica da
Análise de Discurso e os conceitos de identidade e representação, à luz de
uma perspectiva pós-estruturalista dos Estudos Culturais. A segunda trata das
questões em torno do envelhecimento na modernidade líquida e a terceira está
15
organizada em torno dos resultados da observação e da análise discursiva do
site propriamente dito.
16
1. ANÁLISE DE DISCURSO, SUJEITO E PRÁTICAS
É no discurso, precisamente, que se concentram, se
intrincam e se confundem, como um verdadeiro nó, as
questões relativas à língua, à história e ao sujeito. E é
também onde se cruzam as reflexões de Pêcheux sobre
a história das ciências, sobre a história dos homens, sua
paixão pelas máquinas, entre outras tantas. O discurso
constitui-se, assim, no verdadeiro ponto de partida de
uma “aventura teórica”.
(FERREIRA, 2005, p.39)
17
A primeira parte deste trabalho configura-se como um breve panorama
dos pressupostos teóricos, ou seja, uma ntese dos principais conceitos que
norteiam a reflexão e a análise da pesquisa. Parte-se de uma breve
apresentação histórica da formação da análise de discurso francesa: AD1, AD2
e AD3 e depois, de uma reflexão sobre os conceitos de discurso, sujeito e
práticas, embasados em autores como Pêcheux e Foucault.
1.1 Panorama da análise de discurso francesa: AD1, AD2 e AD3
A expressão “análise de discurso” é comum nos meios acadêmicos no
Brasil e no exterior desde as últimas décadas. A perspectiva teórica da AD
1
tem ocupado papel de destaque no que se refere às pesquisas das ciências da
linguagem.
Os estudos discursivos têm oferecido para os pesquisadores, de
maneira geral, material teórico importante para iniciar uma reflexão sobre os
discursos e suas práticas, pois parte da idéia de cheux de que o discurso é
um novo objeto de análise, diferente do enunciado e do texto, e que não pode
ser pensado separado da História, ou seja, das suas condições de produção e
recepção.
Segundo cheux (1997, p.51), “a fundamentação da AD é nomear a
linguagem como intermediária, mediadora e necessária entre o homem e seu
contexto social”. Para ele, essa interação é o discurso, que proporciona
possibilidades para o deslocamento e a transformação entre a realidade e o
homem em seu contexto social.
Assim, elegeu-se como aporte teórico desta pesquisa a AD, para
subsidiar as análises dos e-textos do site Maisde50. O surgimento desse
campo de investigação teórica deu-se num período de efervescência política e
social no final dos anos 1960 na França. Nesse momento o estruturalismo
linguístico, centrado nas ideias de Saussure, especificamente o corte
saussuriano (distinção entre langue e parole) e no imanentismo, encontrava-se
em seu auge. Maldidier (1994, p.17) afirma que os anos 1960 foram os do
1
De ora em diante Análise de Discurso será denominada AD.
18
estruturalismo triunfante e a linguística era vista como a ciência-piloto,
encontrando-se no centro do dispositivo das ciências humanas.
Os intelectuais estruturalistas desse período histórico, em sua maioria,
não costumavam refletir sobre a linguagem e sua articulação com o discurso, o
sujeito e a história. Mas havia nesse quadro intelectual francês, um grupo de
analistas do discurso composto por linguistas, filósofos, historiadores e alguns
psicólogos, que tentavam articular em seus estudos a linguística, o marxismo e
a psicanálise (MALDIDIER, 1994). Entre eles, o precursor da AD francesa, o
filósofo Michel Pêcheux, tinha como inquietação analisar o discurso político,
entretanto, encontrava dificuldades: primeiro por não ser um linguista, segundo
por sentir a necessidade de trazer conhecimentos de outros campos
epistemológicos para seu intento.
Em 1969, Michel Pêcheux lança sua primeira obra com uma proposta
de abordagem transdiciplinar da linguagem, pois o foco não seria na
perspectiva linguística, mas também numa dimensão sócio-histórica. Pêcheux
irá, portanto, definir o quadro epistemológico da AD num campo de entremeio
em três regiões do saber: a) o materialismo histórico (uma teoria da sociedade,
das formações sociais e de suas transformações, ou seja, a teoria das
ideologias); b) a linguística (teoria dos mecanismos sintáticos e dos processos
de enunciação ao mesmo tempo); c) a teoria do discurso (uma determinação
histórica dos processos semânticos). É necessário esclarecer que essas três
regiões são, em certa medida, atravessadas e articuladas por uma teoria da
subjetividade (de natureza psicanalítica).
Pêcheux pensou o campo do saber da AD como um dispositivo
analítico que permitisse uma intervenção, não apenas teórica, mas
principalmente política, no espaço real da língua e da história. Dessa maneira,
rompendo com uma tradição de estudos linguísticos pautados no
estruturalismo, o filósofo tinha como intento abrir espaço teórico no campo das
ciências sociais, tendo como base a problematização do sujeito e da produção
de sentidos, associada à reflexão crítica sobre os contextos epistemológicos e
às filosofias espontâneas subjacentes à linguística.
Pode-se afirmar que a AD tem três pilares básicos na formação de
suas propostas teóricas: Louis Althusser, Michel Foucault e Mikhail Bakhtin
(GREGOLIN, 2004). Além deles, pode-se também ressaltar a influência de
19
Jacques Lacan no que tange à visão psicanalítica, advinda de sua releitura das
teses de Freud.
A presença desses estudiosos será destaque em fases distintas na AD.
Louis Althusser teve sua forte presença na fase dos estudos que Pêcheux
denominou AD1, até meados da AD2, fase em que a abordagem trabalhava as
relações entre língua, sujeito e ideologia. Foucault influenciou a AD, com suas
idéias sobre o discurso, nas formulações centrais de conceitos para a definição
do seu objeto, o discurso, entendido como processo enunciativo, cuja
materialidade mostra a articulação da língua com a História, e ainda o conceito
de formação discursiva, bem como as condições de possibilidade de produção
do discurso. Em seus estudos Bakhtin trouxe à tona discussões em torno do
dialogismo na linguagem, discussões que serviram para que Authier-Revuz
lançasse as bases de sua teoria sobre a heterogeneidade do discurso. Por fim
Lacan trouxe as questões sobre o inconsciente e a linguagem, que permeiam a
problematização do sujeito, questões que influenciaram os estudos sobre o
sujeito e a subjetividade na AD.
Gregolin (2004) atribui a esses estudiosos o status de “fundadores de
discursividades”. Segundo a autora, Pêcheux reinterpretou incessantemente as
idéias desses fundadores, o que resultou em convergências e divergências
teórico-metodológicas. Sobre isso Gregolin (2004, p.30) afirma:
Em suas convergências e divergências, as propostas desses
três fundadores de discursividades dialogaram com outros
textos teóricos e, desde os anos 60, desestabilizaram certezas
sobre a língua, sobre o discurso, sobre o sujeito, sobre o
sentido. Eles construíram as bases para que possamos
pensar, hoje, nas relações entre a língua e o discurso, na não-
evidência dos sentidos, nas articulações da subjetividade com
a alteridade, nas determinações ideológicas, no diálogo, na
intertextualidade, na interdiscursividade. Construíram a
possibilidade de novos olhares para o texto, para os processos
discursivos que os sustentam.
No texto Análise de Discurso: Três Épocas (1997), Pêcheux destacou
seu percurso de elaboração teórico-metodológico e a mudança de paradigmas
para a AD, tomando três épocas como base de uma didatização cronológica.
Cada época apresentou deslocamentos relevantes sobre a noção de língua, de
sujeito e de história no processo de teorização sobre o discurso e o sentido.
20
Segundo Gregolin (2004), o que foi chamado por Pêcheux de três épocas da
análise do discurso revela os embates, as reconstruções, as retificações
operadas no campo teórico da AD francesa. Esses embates são resultados de
debates teóricos e políticos que fizeram emergir crises que atingiram a reflexão
sobre como se articulam o discurso, a língua, o sujeito e a História.
Maldidier (1994) define a AD1
2
como o tempo das construções teóricas,
no período de 1969 a 1975. O marco inicial dessa primeira época se deu em
1969 com as publicações Análise Automática do Discurso (AAD-69) por
Pêcheux e Discourse Analysis na revista Langages, número 13, em março de
1969, por Jean Dubois. Para Maldidier
3
(1994), o início dessa aventura teórica
teve uma dupla fundação, pois apesar da diferença de formação e exercício
profissional, Dubois (linguista e lexicólogo, renomado na época) e cheux
(filósofo do campo da história das ciências, influenciado mais tarde pelas ideias
de Foucault), ambos tinham em comum a atuação num mesmo espaço, o do
marxismo e da política. E tinham como objetivo político usar “a arma científica
da linguística como um novo meio para abordar a política” (MALDIDIER, 1994,
p.175). Tal objetivo se devia à conjuntura teórica e social da França nos anos
1968-1970, que viu emergir um sentimento dos limites e do relativo
esgotamento do estruturalismo e dos acontecimentos políticos ocorridos em
maio de 1968, fazendo surgir indagações e perplexidades diante dos fatos e
dos discursos então produzidos. Assim, a Análise do Discurso nasce como um
modo de leitura para a interpretação desses eventos.
Ainda segundo Maldidier, a diferença fundamental entre Dubois e
Pêcheux é que, para Dubois, “a AD é pensada num continuum: a passagem do
estudo das palavras (lexicologia) ao estudo do enunciado (análise de discurso)
é „natural‟, é uma extensão, um progresso permitido pela linguística” (1994,
p.176). Além disso, Dubois concebe um modelo sociológico de caráter
imanentista para o estudo do enunciado, em que a noção de sujeito é abordada
numa perspectiva psicologizante, e ainda elege o discurso político como objeto
específico da nova disciplina, daí a atribuição da nomenclatura análise do
discurso.
2
De ora em diante a referência às três épocas será feita da seguinte forma: AD1 para a primeira época;
AD2 para a segunda e AD3 para a terceira.
3
Maldidier (1994) considera esse processo uma aventura teórica que tem seu início na AD1.
21
Para Pêcheux, ao contrário, a análise de discurso é pensada com
uma ruptura epistemológica em relação ao que se fazia nas ciências humanas,
articulando a questão do discurso com as do sujeito, da ideologia e da História.
O filósofo faz um questionamento crítico sobre a epistemologia das ciências da
linguagem: contesta a distinção entre langue e parole realizada por Saussure,
que ao eleger a langue como objeto da linguística, exclui o sujeito e a História.
A partir desse questionamento ao corte saussuriano, Pêcheux opera
dois deslocamentos importantes para a AD. O primeiro é redefinir a noção de
língua, entendendo-a não como objeto essencial, mas como pressuposto para
analisar a materialidade do discurso, e propõe uma reformulação da fala,
articulando-a ao sujeito e a sua historicidade. Afirma ainda que não se pode
considerar como “ciência” disciplinas que, sob a cobertura do sujeito
psicológico, ignoram ou não levam em conta sua relação com a política, e
arrogam o estatuto da cientificidade, emprestando seus todos da estatística
e da linguística. O outro deslocamento é a compreensão de sua teoria como
um instrumento de intervenção social, que busca associar as questões do
discurso àquelas ligadas ao sujeito e à ideologia, por meio da construção de
um método de análise que pudesse descrever as condições de produção dos
processos discursivos.
A AD1 configurou-se como o início da gestação da teoria do discurso,
por isso as bases teóricas o estruturalistas, apoiadas no conceito
saussuriano de língua como sistema e como instituição social. No entanto,
Pêcheux irá utilizar na AAD 69 o método harrisiano (o distribucionalismo de
Harris possibilitou, pela primeira vez na linguística, trabalhar com uma unidade
de análise transfrásica: o enunciado) para analisar o discurso político, com a
finalidade de mostrar a articulação entre o campo da língua (por meio de uma
teoria sintática da linguística) e o campo da sociedade (por meio do
materialismo histórico).
A AD1 tem, portanto, seu início com o livro Analyse Automatique du
Discours (1969), que contém uma proposta teórico-metodológica impregnada
de releituras feitas por Pêcheux: releitura de Saussure, deslocando o objeto,
pensando a língua como base dos processos discursivos, nos quais estão
envolvidos o sujeito e a História; Marx (relido por Althusser) e Freud (relido por
Lacan). As releituras em torno de Saussure, Marx e Freud permitiram a
22
Pêcheux propor que a AD trate de um novo objeto (discurso), que funde a
língua, o sujeito e a história.
Segundo Gregolin (2004) as teses althusserianas sobre os aparelhos
ideológicos e o assujeitamento fizeram Pêcheux pensar um sujeito atravessado
pela ideologia e pelo inconsciente. Esse sujeito não é fonte nem origem de seu
dizer, reproduz um -dito, um -, o que o autor denomina pré-construído.
O termo pré-construído, segundo Pêcheux (1997a, p.99), foi proposto
por Paul Henry para designar o que remete a uma construção anterior, exterior,
mas sempre independente, em oposição ao que é construído pelo enunciado, e
assim, o pré-construído é efeito discursivo ligado ao encaixe sintático. cheux
(1997a, p.102) afirma ainda que a característica essencial do pré-construído é
a separação entre o pensamento e o objeto do pensamento, com a p-
existência deste último o real existe independente do pensamento. O pré-
construído é apresentado como o “sempre -aí” da interpelação ideológica,
que impõe a realidade e seu sentido sob a forma de universalidade (mundo das
coisas).
Maingueneau (1998, p.114-115) afirma que o pré-construído foi
reformulado posteriormente como traço do interdiscurso no intradiscurso, além
de ser associado a uma das teses essenciais da escola francesa, a de uma
“dissimulação” do interdiscurso pelo discurso.
Pêcheux argumenta que o sujeito não é dado a priori, mas é
constituído no discurso. Sentido e sujeito se constituem num processo
simultâneo através da figura da interpelação ideológica. O filósofo (1997a,
p.161)) ressalta que:
... o sentido de uma palavra, de uma expressão, de
uma proposição, etc., não existe “em si mesmo” (isto é, em
sua relação transparente com a literalidade do significante),
mas, ao contrário, é determinado pelas posições ideológicas
que estão em jogo no processo sócio-histórico no qual as
palavras, expressões e proposições são produzidas (isto é
reproduzidas).
Na AD1 Pêcheux (1997), para mostrar esse processo de interpelação e
da existência de um -, de um -dito, ou seja, da interpelação e da
determinação do sujeito e do seu discurso por uma ideologia e pelo jogo no
23
processo sócio-histórico, fala de uma máquina discursivo-estrutural”, protótipo
posteriormente remodelado com duas finalidades:
Reunir um conjunto de traços discursivos empíricos (corpus
de sequências discursivas) fazendo a hipótese de que a produção
desses traços foi, efetivamente, dominada por uma e apenas uma,
máquina discursiva (por exemplo, um mito, uma ideologia, uma
episteme) e construir, a partir desse conjunto de traços e através de
procedimentos linguisticamente regulados o espaço de distribuição
combinatória das variações empíricas desses traços. (p.312)
Para a AD1, portanto, cada processo discursivo é gerado por uma
máquina discursiva. Assim diferentes processos discursivos (o processo de
construção do manifesto comunista e do manifesto liberal, por exemplo)
referem-se a diferentes máquinas discursivas, cada uma delas idêntica a si
mesma e fechada sobre si mesma.
Os procedimentos metodológicos adotados nessa fase são, num
primeiro momento, selecionar um corpus fechado de sequências discursivas
(um manifesto político, por exemplo). Esse campo discursivo é entendido como
um espaço dominado por condições estáveis e homogêneas. Em seguida faz-
se a análise linguística de cada sequência, considerando as construções
sintáticas (de que maneira são estabelecidas as relações entre os enunciados)
e o léxico (levantamento do vocabulário), supondo-se a neutralidade da
sintaxe.
Passa-se depois à análise discursiva, que consiste basicamente em
construir sítios de identidades a partir da percepção da relação de sinonímia
(substituição de uma palavra por outra no contexto) e de paráfrase (sequências
relacionadas entre si no contexto semântico). Por fim, procura-se mostrar que
tais relações de sinonímia e paráfrase são decorrentes de uma mesma
estrutura geradora do processo discursivo.
A posição teórica da AD1 consiste em explorar metodologicamente a
noção de maquinária discursiva, o que determina uma posição estruturalista
pós-saussuriana. O processo de produção discursiva está intimamente ligado à
máquina autodeterminada e fechada sobre si mesma. O sujeito é assujeitado,
mas tem a ilusão de ser a fonte do discurso, posição teórica assentada nas
leituras e reflexões althusserianas.
24
Segundo Pêcheux (1997, p.312-313), a conclusão é de que a AD1 é um
procedimento de análise por etapa, com ordem fixa, restrita e teórica e
relacionado metodologicamente a um começo e um fim predeterminados. Essa
análise automática teve como efeito o “primado do Mesmo sobre o Outro”,
culminando com a busca das invariâncias, das paráfrases de enunciados
sempre repetidos.
Essas críticas levam à AD2, quando se inicia o movimento em direção à
heterogeneidade, ao Outro, à problematização metodológica e reinterpretação
do conceito de formação discursiva emprestado de Foucault. A AD2 inicia-se
em 1975, com o lançamento de Les Vérités de la Palice
4
. Nessa fase, Pêcheux
rompe com a noção de maquinaria estrutural fechada da fase anterior e elabora
a teoria dos dois esquecimentos
5
. Continua vinculado às teorias althusserianas
e afirmando que os aparelhos ideológicos não produzem, como também
alteram as condições de produção e o sujeito permanece como assujeitado.
Entretanto, o que torna esta fase mais aberta em relação à outra é o fato
de Pêcheux tomar emprestada a noção de “formação discursiva” de Foucault.
Dessa forma, inicia-se a explosão da noção de maquinaria estrutural fechada,
na medida em que o dispositivo está em relação paradoxal com o seu exterior.
Assim se refere Pêcheux (1997, p. 314) à noção de formação discursiva,
advinda das leituras de Foucault:
[...] a noção de formação discursiva tomada de empréstimo a Michel
Foucault, começa a fazer explodir a noção de máquina estrutural
fechada na medida em que o dispositivo da FD está em relação
paradoxal com seu „exterior‟: uma FD o é um espaço estrutural
fechado, pois é constitutivamente „invadidapor elementos que vêm
de outro lugar (isto é, de outras FD) que se repetem nela,
fornecendo-lhe suas evidências discursivas fundamentais (por
exemplo, sob a forma de „preconstruídos e de „discursos
transversos‟).
O fechamento da maquinaria é conservado, mas concebido como
resultado paradoxal da irrupção de um além exterior e anterior, que coloca o
4
Em português, publicado como Pêcheux, Michel. Semântica e Discurso: uma crítica à
afirmação do óbvio. 3 ª edição. Campinas, SP: Editora da Unicamp, 1997 a.
5
Para Pêcheux, dois tipos de esquecimentos: no esquecimento número 1, o sujeito cria
uma realidade discursiva ilusória, colocando-se na origem da autoria do que diz. Como fonte
exclusiva do sentido de seu discurso, o sujeito tem a ilusão de que é ele o criador absoluto de
seu discurso. No esquecimento número 2, ao retomar seu discurso para explicar a si o que diz,
o sujeito tem a ilusão de que o discurso reflete o conhecimento objetivo que tem da realidade
(PÊCHEUX, 1997).
25
problema das zonas de confronto entre as formações discursivas, zonas
atravessadas por toda uma rie de efeitos discursivos (ambiguidade
ideológica, divisão, resposta pronta e réplica estratégica).
Os procedimentos de análise são idênticos à AD1, apenas mudando o
objeto de análise, dos mais estabilizados para os menos estabilizados, por
serem produzidos a partir de condições de produção menos homogêneas. Por
exemplo: um debate político.
A AD2 representou um período de amadurecimento da AD, resultando
nos embasamentos teóricos que levaram ao surgimento da AD3. Essa época é
marcada pela abertura dos horizontes teóricos na AD. As fronteiras serão
ampliadas e os diálogos aprofundados. Esse momento pode ser caracterizado
pela confluência das ideias de Michel Pêcheux com outros estudiosos. É o
período em que relê Bakhtin, por meio de Revuz, como também se aproxima
de Michel Foucault, através de Jean-Jacques Courtine, além de sofrer forte
influência dos teóricos da Nova História, tais como Pierre Nora, Jacques Le
Goff e Michel de Certeau.
O conceito de discurso agora é trabalhado sob o signo da
heterogeneidade. O que antes era tomado a partir das categorias marxistas de
contradição e assujeitamento cede lugar à noção de heterogeneidade. Assim, a
noção de formação discursiva novamente será repensada, retificada e
ampliada. Desaparecem, nessa nova conceituação, os termos “aparelho
ideológico” e “luta de classes”.
Esse novo olhar sob os conceitos essenciais, na AD3, são muito
significativos para o campo teórico da AD, pois mostra o amadurecimento e o
afastamento gradativo de Pêcheux do marxismo ortodoxo, ao propor que é
hora de o marxismo “casar-se ou contrair relações extraconjugais” (PÊCHEUX,
2002, p.16), além de anunciar uma abertura através do primado do inter sobre
o intradiscursivo.
1.2 Discurso, sujeito e práticas: noções básicas
O discurso, na perspectiva da AD, o se confunde com a fala de um
ser empírico (parole saussuriana) nem com a mensagem (tal como se encontra
na teoria da comunicação de Jakobson), nem é sinônimo de texto ou de
26
enunciado, mas define-se como um processo de produção de sentido em que
se articula o lingüístico ao tecido sócio-histórico que o constitui.
Segundo Orlandi (2001, p.15), o discurso é entendido como a palavra
em movimento, prática de linguagem. Com o estudo do discurso, observa-se o
homem falando. o se trata de simples transmissão de informação, mas de
um complexo processo de constituição de sujeito e produção de sentido.
Pêcheux (1997, p.82) conclui que o discurso é de modo geral “efeito de
sentido” entre interlocutores, ou seja, o discurso é uma construção sempre
mediada por imagens. Quem fala ou escreve relaciona-se com alguém que
imagina um interlocutor virtual. Quando enuncia constrói em sua mente uma
figura hipotética para quem direciona seu texto, é o que Pêcheux chama de
formações imaginárias.
Para a AD, o sujeito é lugar de significação historicamente constituído,
portanto, um sujeito histórico, que ocupa uma posição”. Quem fala, fala
sempre de um lugar, de uma posição que se produz entre diferentes discursos,
em uma relação regulada pela memória e trabalhada pelo esquecimento.
Orlandi (1998) alerta que essas posições não correspondem nem equivalem à
simples presença física dos organismos humanos (empiricismo) ou aos lugares
objetivos da estrutura social (sociologismo). o lugares “representados” no
discurso, lugares que o transformados nos processos discursivos. Ainda
segundo a autora, na sociedade regras de projeção que estabelecem as
situações (objetivamente definíveis) e as posições (representações dessas
situações) nos discursos.
Para este trabalho interessa saber quais representações são construídas
no site Maisde50, cujo público alvo são as pessoas que envelhecem num
mundo considerado o da informação e do conhecimento, em que imperam as
novas tecnologias. A prática discursiva advinda da mídia parece colocar para a
geração dos mais de 50 anos um desafio: o de estar em consonância com as
novas tecnologias, saber dominá-las e utilizá-las para não envelhecer
rapidamente. Diante disso, busca-se identificar quais formações imaginárias se
fazem presentes num site dirigido a pessoas com mais de 50 anos hoje,
atraindo os internautas que estão na fase madura e envelhecendo em tempos
de contatos virtuais.
27
O conceito de formações imaginárias foi criado por Pêcheux (1997),
para definir um deslocamento da posição do sujeito empírico para a posição do
sujeito discursivo. um jogo de antecipação do discurso do outro, posto em
funcionamento nas relações de contato, que regulam a argumentação,
antecipando o efeito de sentido produzido nos interlocutores e interferindo,
dessa maneira, no trajeto do discurso.
Para Pêcheux (1997), no discurso estão presentes tanto um sujeito A
como um destinatário B, que se encontram em lugares determinados na
estrutura de uma formação social. Esses lugares não estão apenas
representados nos processos discursivos, mas também transformados. Por
isso, um discurso não implica necessariamente uma mera troca de informações
entre A e B, mas um jogo de “efeitos de sentido” entre os participantes. Os
sentidos seriam produzidos por um certo imaginário”, que é social e é
resultado das relações entre poder
6
e sentidos. E a ideologia
7
seria
responsável por produzir um processo de ambiguidade, que apaga, ou disfarça,
os sentidos mais profundos do discurso, observáveis na sua materialidade
linguística.
Toda a prática discursiva trabalha, então, para que se produza a ilusão
de um sentido único, de que os sujeitos são a fonte do sentido (ilusão de
esquecimento 1) e de que têm domínio do que dizem (ilusão de
esquecimento nº 2).
Nos processos discursivos, pode-se observar uma série de formações
imaginárias que designam os lugares “que A e B se atribuem cada um a si e ao
outro, a imagem que eles se fazem de seu próprio lugar e do lugar do outro.”
(PÊCHEUX, 1997, p.82). Todo o processo discursivo supõe, assim, a
existência das seguintes formações imaginárias:
IA(A): Imagem do lugar de A para o sujeito colocado em A - Quem sou eu para
lhe falar assim?
6
Nesse caso, pode-se fazer um entrelaçamento entre o conceito de formação imaginária e as ideias (?) de
Foucault quanto à ordem do discurso. Embora Foucault não esteja de acordo quanto à luta de classes e os
aparelhos ideológicos defendidos por Pêcheux, quando se refere à ordem do discurso, ele fala em relações
de poder e não em ideologia. Neste trabalho, o objetivo é utilizar o que oferece subsídio à análise e não
discutir os pontos em desacordo entre os dois filósofos. Entende-se que nas formações imaginárias, tanto
temos as representações ideológicas quanto a evidência das lutas do homem pelo poder e pelo saber.
7
Idem ao comentário anterior.
28
IA(B): Imagem do lugar de B para o sujeito colocado em A - Quem é ele para
que eu lhe fale assim?
IB(B): Imagem do lugar de B para o sujeito colocado em B - Quem sou eu para
que ele me fale assim?
IB(A): Imagem do lugar de A para o sujeito colocado em B - Quem é ele para
que me fale assim?
Existiriam, portanto, nos mecanismos de toda formação social regras de
projeção responsáveis por estabelecer as relações entre as situações
discursivas e as posições dos diferentes participantes. As relações imaginárias
podem ser consideradas como a maneira pela qual a posição dos participantes
intervém nas condições de produção do discurso.
Pode-se concluir assim que um processo discursivo supõe, por parte do
emissor, uma antecipação das representações do receptor, sobre a qual se
funda a estratégia do discurso. Como se trata de antecipações, o que é dito
precede as eventuais respostas de B, que vão sancionar ou não as decisões
antecipadas de A. Essas antecipações são, entretanto, sempre atravessadas
pelo já ouvido e pelo já dito, que constituem a substância das formações
imaginárias.
É importante ressaltar que a noção de sujeito proposta por Foucault será
também utilizada neste trabalho. Para o filósofo, o sujeito não é algo sempre
dado, mas constituído através de práticas discursivas sociais. O autor ainda
afirma que a noção de sujeito é histórica, tem usos diferentes em diferentes
epistemes. Foucault pensa o sujeito de modo a identificar quem ele é e o que o
torna um objeto de análise, a partir de três vertentes: fenomenologia,
positivismo e marxismo. Seus estudos concluem que o sujeito é sempre
constituído por longos, árduos e conflituosos acontecimentos discursivos,
epistêmicos e práticos.
Meu objetivo, depois de vinte e cinco anos, é esboçar uma
história das diferentes maneiras nas quais os homens, em
nossa cultura, elaboram um saber sobre eles mesmos: a
economia, a biologia, a psiquiatria, a medicina e a
criminologia. O essencial não é tomar esse saber e nele
acreditar piamente, mas analisar essas pretensas ciências
como outros tantos “jogos de verdade”, que são colocadas
29
como técnicas específicas das quais os homens se utilizam
para compreenderem aquilo que são. (FOUCAULT, 1994,
p.15)
Segundo Foucault (1994), portanto, o homem desde sempre
desenvolveu técnicas para se autoconhecer e conhecer o outro. Ele divide
essas técnicas em quatro grupos:
1) as técnicas graças às quais podemos produzir, transformar e
manipular objetos;
2) as técnicas de sistemas de signos, que permitem a utilização de
signos, de sentidos, de símbolos e processos de significação;
3) as técnicas de poder, que determinam a conduta dos indivíduos,
submetendo-os a certos fins ou à dominação de outro sujeito;
4) as cnicas de si, que permitem aos indivíduos, sozinhos ou com a
ajuda de outros, efetuar um certo número de operações em seus corpos, suas
almas, seus pensamentos, suas condutas, seus modos de ser ou transformar-
se, a fim de atender a um determinado estado de felicidade, pureza, sabedoria,
perfeição e imortalidade.
Cada um desses tipos de técnica implica certos modos de educação e
de transformação dos indivíduos, na medida em que se trata não apenas,
evidentemente, de adquirir certas aptidões, mas também de adquirir certas
atitudes. Para Foucault (2000, p. 10-49) o discurso:
(...) não é simplesmente aquilo que manifesta (ou oculta) o
desejo, é, também, aquilo que é o objeto de desejo, e visto
que (...) o discurso não é simplesmente aquilo que traduz as
tetas ou os sistemas de dominação, mas aquilo por que, pelo
que se luta, o poder do qual nos queremos apoderar.
(...)
O discurso nada mais é que a reverberação de uma verdade
nascendo diante de seus próprios olhos; e, quando tudo pode,
enfim, tomar a forma do discurso, quando tudo pode ser dito e
o discurso pode ser dito a propósito de tudo, isso se dá porque
todas as coisas, tendo manifestado e intercambiado seu
sentido, podem voltar à interioridade atenciosa da consciência
de si.
Esse conceito de discurso parte do princípio de que a prática discursiva
é “uma possibilidade aberta de falar sobre o homem e sua relação com a
realidade” (FOUCAULT, 2000, p.25), e essa possibilidade é criada por
30
condições práticas de formulação do discurso
8
. Tais condições são impostas
aos indivíduos por meio de regras e procedimentos sociais. Foucault define
pratica discursiva como os sistemas que instauram o enunciado como
acontecimento, ou dizendo de outro modo:
(...) o domínio constituído pelos diferentes objetos que irão
adquirir ou não um status científico. (...) toda prática discursiva
pode definir-se pelo saber que ela forma. (FOUCAULT, 1995,
p.206-207).
Portanto a prática discursiva remete a regras sociais, e essas regras são
construídas e aperfeiçoadas por instituições que ocupam o espaço do poder,
como a psiquiatria, o direito, a escola, a mídia.
Este trabalho admite que, pela observação das práticas discursivas,
pode-se perceber que saberestá sendo configurando acerca da velhice, do
fato de alguém tornar-se um idoso em tempos de contatos virtuais.
1.3 Identidade e representação
Entende-se que a identidade é uma construção sociocultural, marcada pela
fragmentação e pela transitoriedade e é formada na relação com o outro. Esse
entendimento advém de uma perspectiva da teoria discursiva que dialoga com
os estudos culturais pós-estruturalistas, principalmente em autores como Hall
(2002) e Bauman (2005).
Segundo Hall (2002), a concepção da identidade muda de acordo com a
forma como o sujeito é interpelado ou representado, ou seja, a identificação
não é automática, pode ser conquistada ou perdida. O autor argumenta ainda
que o conceito de identidade mudou, na passagem de um conceito que era
ligado ao sujeito do Iluminismo (indivíduo centrado, unificado, dotado das
capacidades de razão, de consciência e de ação, em que a identidade era fixa,
contínua) para um conceito sociológico (o sujeito ainda tem um núcleo ou
essência interior, que é o “eu real”, mas este é formado e modificado num
8
Entende-se que, para Pêcheux, são As Formações Imaginárias (FIs), na concepção de Foucault de
condições práticas de formulação do discurso, que fariam parte dessas práticas, uma vez que todo
indivíduo, ao elaborar um discurso, sempre antecipa as representações sociais de si e do outro, ou seja,
das condições em que falam.
31
diálogo contínuo com os mundos culturais “exteriores” e as identidades que
esses mundos oferecem) e depois para a concepção do sujeito pós-moderno
(o processo de identificação tornou-se mais provisório, variável e problemático;
produzindo um sujeito sem identidade fixa, essencial ou permanente). Portanto,
atualmente, vive-se a chamada “crise de identidade”.
As velhas identidades, que por tanto tempo estabilizaram o
mundo social, estão em declínio, fazendo surgir novas
identidades e fragmentando o indivíduo moderno. A assim
chamada “crise de identidade” é vista como parte de um
processo mais amplo de mudança, que está deslocando as
estruturas e processos centrais das sociedades modernas e
abalando os quadros de referência que davam aos indivíduos
uma ancoragem estável no mundo social (HALL, 2002, p.7).
É possível dizer também que se vive hoje sob a égide da sociedade da
informação e do conhecimento, em que o aparecimento de novas tecnologias é
vertiginoso e é incontestável a penetração dessas tecnologias na vida cotidiana
e no funcionamento e transformação da sociedade como um todo. Todo esse
processo tem diversas consequências, tanto positivas quanto negativas:
diminuição de fronteiras, abertura de mercados, exclusão daqueles que não
aderiram ao mundo digital.
A globalização tem-se configurado como um fenômeno social que
favorece a troca acelerada da informação por meio dos novos tipos de mídia,
que estão abolindo a distância e o tempo. Porém tal processo não tem
provocado a homogeneização completa das culturas e das identidades. Pelo
contrário, antigas querelas identitárias se mantêm vivas, e também se
multiplicam diferentes bolsões de identidades locais, de inspiração religiosa,
étnica ou comportamental, reanimadas e fomentadas como maneira de resistir
à introdução de novos modelos identitários uniformizantes. Entretanto, sabe-se
que a mudança realmente ocorreu no processo, pois os conteúdos, os
preconceitos, as exclusões ainda permanecem as mesmas, que em outra
roupagem que aparenta ser diferente, mas na essência e nos discursos
continuam as mesmas.
Diante desse quadro, uma preocupação das pessoas em adequar-se
ao momento vivido e a suas exigências, principalmente aquelas com mais de
50 anos, para as quais as tecnologias não apareciam, em sua juventude, de
32
forma tão acelerada. Elas viam a questão do espaço e do tempo, bem como a
realidade e a concretude da vida cotidiana como questões fixas, com respostas
precisas, assim como acontecia com suas próprias identidades.
33
2. CONDIÇÕES DE PRODUÇÃO DISCURSIVA: A VELHICE NA
MODERNIDADE LÍQUIDA.
Os fluidos se movem facilmente. Eles „fluem‟, „escorrem‟,
„esvaem-se‟, „respingam‟, „transbordam‟, „vazam‟, „inundam‟,
„borrifam‟, „pingam‟, são „filtrados‟, „destilados‟; diferentemente
dos sólidos, não são facilmente contidos contornam certos
obstáculos, dissolvem outros e invadem ou inundam seu
caminho... Associamos „leveza‟ ou „ausência de peso‟ à
mobilidade e à inconstância: sabemos pela prática que quanto
mais leves viajamos, com maior facilidade e rapidez nos
movemos (BAUMAN, 2001, p. 8).
34
Esta segunda parte do trabalho trata das questões que giram em torno
do envelhecimento na modernidade líquida. Primeiramente, faz-se um breve
cenário da concepção de velhice na sociedade atual. Em seguida trata-se do
envelhecimento na chamada modernidade líquida (Bauman (2007) e, para
finalizar, das questões que envolvem as pessoas maduras e a Web 2.0.
2.1 Velhice: um breve cenário
Na sociedade atual, a beleza e a juventude são cultuadas como objetos
de desejo prioritários. Com o avanço da cosmetologia, a cada ano surgem
novas maneiras de esconder, reparar ou amenizar tudo que incomoda no rosto
e no corpo. Rugas, flacidez, linhas de expressão e cabelos grisalhos tornaram-
se características altamente negativas, que para essa sociedade a juventude
tem representações simbólicas positivas, como o vigor, a beleza e a saúde.
A população de idosos representa 8,6% dos brasileiros (IBGE, 2002).
Nos próximos 20 anos, esse índice deverá subir para 13%. Com o avanço da
tecnologia e da medicina, os índices de mortalidade diminuíram e a melhoria na
qualidade de vida das pessoas contribuiu para o aumento da longevidade. A
expectativa de vida do brasileiro passou de 61,7 anos em 1980 para 68,5 anos
nos dias atuais (IBGE, 2003). Goldstein (2002) acredita que em meados do
século XXI, a população brasileira com mais de 60 anos será maior que a de
crianças e adolescentes com menos de 14 anos.
Para muitos, especialistas ou não, envelhecer é sinônimo de vergonha
na contemporaneidade, é como assumir uma fraqueza ou desistir de algo. A
mídia coopera para que o discurso da juventude confronte o da velhice, pois
envelhecer deixa de ser a evolução natural do ser humano, para tornar-se um
processo temido, associado à incerteza, à fragilidade, à dependência e à
doença. Para Santos (2002), a associação entre velhice e doença torna a fase
marcada por sentimentos de inferioridade e desgosto. É sabido que a vergonha
de envelhecer também existia antigamente, no entanto, a mídia não focalizava
o assunto como acontece na contemporaneidade.
35
Santos (2002 apud HAYFLICK, 1996) propõe que envelhecimento não é
sinônimo de doença, apesar de estarem associados devido à diminuição da
capacidade do sistema imunológico na defesa do organismo. O autor cita
também Rosenberg (1992), que define a velhice como a época em que os
compromissos básicos com a carreira profissional e a família foram
cumpridos em grande parte e o indivíduo pode sentir-se mais livre para realizar
seus desejos.
Se levarmos em consideração esse conceito de Rosenberg, é na velhice
que os indivíduos podem desfrutar de atividades e prazeres antes não tão
aproveitados devido aos compromissos familiares e profissionais. Na velhice
encontra-se tempo, maturidade e estabilidade financeira
9
para explorar
recursos antes ignorados, ou então, utilizados apenas com restrições, devido à
falta de tempo, por exemplo.
O idoso que conseguiu atingir estabilidade financeira, assim como outras
minorias, vem ganhando espaço na sociedade atual. Se antes era visto como
sujeito improdutivo, hoje, devido a sua estabilidade, seu poder de consumo e
com o discurso de beleza e longevidade disseminado pela mídia, ele adquiriu
direitos e passou a ser visto por quem antes o negligenciava. Seu grande
potencial de compra despertou o interesse da mídia, da publicidade e do
mercado, que passaram a investir em produtos e serviços específicos para
suas necessidades.
Apesar de a sociedade atual ainda temer a velhice, envelhecer hoje é
um processo menos doloroso, devido ao conforto e aos avanços da medicina e
da cosmetologia. As pesquisas buscam recursos de longevidade e bem estar
que permitem frear as marcas naturais do tempo vivido. O mercado se abriu
para esse público e, com o tempo, novas mudanças de comportamento foram
acontecendo. butiques especializadas em roupas para senhoras elegantes,
além dos mais variados tipos de creme para tratar de rugas e problemas na
pele, tinturas para cabelo, cruzeiros, viagens, exercícios físicos, dietas,
9
A estabilidade financeira na velhice não acontece para todos, apenas para uma classe privilegiada
socialmente. Segundo o site (http://tilz.tearfund.org/Portugues/Passo+a+Passo+31-
40/Passo+a+Passo+39/Velhice+e+desenvolvimento.htm) da organização HelpAge Internacional muitos
idosos, em países como o Brasil, não recebem aposentadoria suficiente e muitos continuam a trabalhar
informalmente, frequentemente realizando uma grande variedade de atividades para seu próprio sustento.
Esse tipo de trabalho passa despercebido, pois é informal, sem registro.
36
cirurgias de correção e estética. É sabido que isso tudo ocorre para os
idosos pertencentes a uma elite, a uma classe privilegiada.
O idoso da atualidade tem um perfil bastante diferenciado do idoso de
outros tempos. A sociedade atual tem um ritmo acelerado e as pessoas que
acompanharam essa evolução se tornaram automaticamente mais ativas.
Percebe-se também que as pessoas aposentam mais tarde e, mesmo quando
aposentam, muitas continuam trabalhando. Dificilmente vemos uma pessoa da
terceira idade em um completo estado de monotonia, pois uma rie de
recursos específicos oferecidos a esse público, que houve demanda por
conta dos moldes dessa sociedade ativa, acelerada e tecnológica.
Hoje, o idoso no site em análise - é visto como sujeito produtivo e
ativo, com poder aquisitivo e capacidade para continuar participando de
diferentes atividades sociais. Ele deixa de ser mero figurante para fazer parte
do elenco principal no cenário dos acontecimentos. Uma das principais áreas
que vem trabalhando esse potencial da terceira idade é a internet. Cada vez
surgem mais mecanismos que podem ser utilizados pelos idosos como
websites, correios eletrônicos, portais, sites de busca, de relacionamento,
chats, notícias e outros alguns voltados especificamente para esse público
que cooperam com uma melhor qualidade de vida. Assim como a invenção da
imprensa, a internet mudou o modo de se estabelecer a informação e a
comunicação, mas não o modo de pensar das pessoas envolvidas.
2.2 Envelhecer em tempos de fluidez e liquidez
Os critérios da avaliação da idade, da juventude ou da
velhice, não podem ser os do calendário. Ninguém é
velho só porque nasceu muito tempo ou jovem porque
nasceu pouco. Somos velhos ou moços muito mais
em função de como pensamos o mundo, da
disponibilidade com que nos damos curiosos ao saber,
cuja procura jamais nos cansa e cujo achado jamais nos
deixa imovelmente satisfeitos. Somos moços ou velhos
muito mais em função da vivacidade, da esperança com
que estamos sempre prontos a começar tudo de novo e
se o que fizemos continua a encarnar no nosso sonho
eticamente válido e politicamente necessário.
(FREIRE, 1995, p.56)
37
Percebe-se no texto de Freire (1995) que a idade tem várias faces, tornar-
se velho, mais velho ou menos velho é uma questão ligada ao modo de pensar
e a disposição de sempre estar pronto a recomeçar. vários caminhos, que
se delimitarão no decorrer das trajetórias, para aqueles que estão iniciando o
processo do envelhecimento na era da modernidade líquida
10
.
Sabe-se perfeitamente que uma das maiores preocupações do ser
humano é desvendar os segredos da longevidade. Como prolongar a própria
vida? Como lidar com o caráter multidimensional da existência e suas
consequências biológicas e sociais?
Pode-se inferir que, na sequência da vida, primeiro vem o
descompromisso da infância, depois o sonho da adolescência, os objetivos e
conquistas da vida adulta e, finalmente, o medo e as incertezas da velhice.
está tudo predeterminado para que, ao longo dos anos, se possa passar por
todos esses ciclos, com poucas mudanças de indivíduo para indivíduo. É
exatamente no final dessa longa caminhada que o ser humano sente-se mais
solitário, precisando de assistência social e familiar. Porém a sociedade ainda
não está preparada para orientar as pessoas em estado de velhice.
O Brasil é conhecido por ser um país jovem e de jovens, porém os
últimos dados do IBGE desmentem essa propaganda. A preocupação com a
qualidade de vida e a possibilidade de proporcionar um curso superior aos
filhos leva os casais a terem apenas um ou dois filhos. Com isso, reduz-se o
número de crianças, aumentando proporcionalmente o de adultos.
A contrapartida é a busca da receita da longevidade, prolongando a
idade madura (normalmente entre 35 e 45 anos), pois é nessa faixa etária que
as pessoas começam a correr atrás do tempo. Informam-se sobre calorias,
refeições balanceadas, pesquisas de especialistas, dicas, fórmulas e tudo mais
que garanta ao indivíduo as chances de manter o que resta da juventude. Para
retardar a terceira idade, fazem caminhadas exaustivas, exercitam a saúde
mental, procuram dormir bem, tomam uma taça de vinho diariamente, enfim,
10
Termo cunhado por Bauman (2001) que designa o momento em que as inúmeras esferas da sociedade
contemporânea (vida pública, vida privada, relacionamentos humanos) passam por uma série de
transformações cujas consequências esgarçam o tecido social. Faz com que as instituições percam a
solidez e se liquefaçam, tornando-se amorfas, paradoxalmente, como líquidos. É um tempo do desapego,
da provisoriedade e do processo da individualização; tempo de liberdade e ao mesmo tempo de
insegurança.
38
seguem todos os mandamentos para assegurar qualidade de vida a qualquer
preço, em busca de uma vida longa e saudável.
Mudanças nas leis da aposentadoria elegem um grupo bem mais
novo como sendo o dos aposentados. Contudo a preparação física e mental
dessa clientela garante um bem estar diferente do de séculos anteriores.
uma queda no índice de mortalidade da geração mais velha e, com isso,
aumenta a sobrevida da população idosa.
Num país onde o culto da juventude é primordial, conviver com o
oposto não é fácil: o idoso é discriminado e visto como economicamente
inativo. Mas a sociedade contemporânea criou uma dialética, porque esses
inativos estão na ativa, presentes no cotidiano, no mercado de trabalho, nas
faculdades, no trânsito, na internet e várias outras situações, cada vez mais
atuantes e até mesmo constituindo outras famílias.
Estudos recentes mostram que os termos e os conceitos para definir a
velhice não são muito específicos, pois alguns definem o envelhecer a partir de
35 anos, visto que é o início, segundo a ciência, do declínio da juventude.
Hoje, na modernidade líquida, surgiram novas nomenclaturas: senilidade,
terceira idade, melhor idade, boa idade, estado de velhice, o novo idoso,
longevidade, entre outros. Pode-se afirmar que não é apenas uma questão de
nomes ou sinonímias, mas ações comportamentais, mudanças que alteram
toda uma história de vida, costumes e crenças.
Segundo a revista Vida e Saúde (ano 71, nº 07, p.30):
O envelhecimento populacional é um fenômeno mundial. Segundo
a OMS (Organização Mundial de Saúde), em 2025, existirá 1, 2
bilhão de pessoas com mais de 60 anos, sendo que os muito
idosos (com 80 ou mais anos) constituem o grupo etário de maior
crescimento. No Brasil, os idosos representam contingente de
quase 15 milhões de pessoas com 60 anos ou mais (8,6% da
população brasileira). Nos próximos 20 anos, a população idosa
no Brasil poderá ultrapassar 30 milhões de pessoas.
Com isto, são necessárias mudanças de atitude por parte da
sociedade, a fim de que o idoso tenha saúde e possa viver cada
dia melhor.
Percebe-se, após leituras como essa, que lacunas na informação e
surgem interrogações sobre a vivência dos idosos e as transformações por eles
enfrentadas. Por essa razão, tenta-se compreender a complexidade de tal
39
assunto, ou seja, como é o discurso sobre o envelhecer após tantas mudanças
na atual sociedade. Seria pertinente aceitar o artigo acima como um dado
estatístico e assustador em relação à nova população brasileira que forma o
contingente dos idosos na contemporaneidade?
Diante dessa questão, pode-se supor que não existe uma equalização,
visto que a proporção da população acima de 80 anos também tem aumentado
muito. E isso significa que, dentro desse grupo de idosos, com 60 anos ou
mais, assegurado pelo Estatuto do Idoso, surge outra clientela, formada pelas
pessoas com mais de 80 anos.
Diante desses dados de que a população brasileira de 60 anos ou mais
sofreu um acréscimo determinante, paralelamente temos uma diminuição da
fecundidade, o que leva a algumas transformações radicais do comportamento
em âmbitos sociais, culturais, econômicos, políticos e comportamentais. Urge
reivindicar procedimentos imediatos por parte dos governantes, que não sabem
como agir, pois alegam que não estão preparados para essa situação, e
realmente não estão.
Percebe-se, nos noticiários e na mídia em geral, que indícios de
uma relação entre a política e uma ação social, como a criação do Estatuto do
Idoso. Dentro dessa perspectiva, pode se perceber em sites como o aqui
analisado que se pretende mostrar um modelo para o envelhecimento
saudável, o qual também aparece nas propostas feitas pelos governos, como a
ampliação da rede de cobertura dos serviços e programas de atenção à
população idosa. cobranças, sim, de órgãos governamentais para que a
sociedade mude a maneira de pensar e agir em relação ao tratamento da
questão do envelhecimento.
Pode-se observar que a pretensão é de que o cidadão da terceira
idade, melhor idade ou boa idade exerça aquilo que é seu direito constitucional,
que tenha garantida a busca da qualidade de vida, a construção de significados
próprios na criação e reorganização de seu espaço, que tenha assegurado o
direito de viver bem, consigo e com o outro. No caminho da reconstrução,
buscam-se outros conceitos, na imbricação entre pessoas, instituições,
sistemas sociais e juízos de valores.
40
Costuma-se usar o termo senilidade como sinônimo de velhice,
no entanto senilidade significa um processo patológico que pode
surgir como resultado do envelhecimento, mas não é um
componente do envelhecimento. Costuma-se até qualificar todo
velho de senil uma comprovação da falta de informações sobre
essa etapa da vida do indivíduo. senescência indica o
processo de envelhecer. Assim, a senilidade é um processo
patológico; a senescência, um processo normal.
GERONTOLOGIA estudo do envelhecimento é um termo
criado por Metcknicoff, em 1903, para designar a especialidade
que estuda o processo fisiológico do envelhecimento. A palavra
gerontologia origina-se do grego: gero (velho) e logia (estudo,
conhecimento). Em 1909, Nascher introduziu na literatura
médica o termo geriatria, estudo clínico da velhice. Definindo, a
geriatria é a parte da gerontologia que estuda os aspectos
patológicos da velhice. (BACELAR, 2002, p. 32 e 33)
Ao observar os termos técnicos em relação à velhice, velho, senilidade,
descobre-se que algumas definições e terminologias são antigas, porém
estudar o velho e seu comportamento social, cultural, religioso e familiar é um
fenômeno recente. Esta pesquisa evidencia que somente no final do século
passado alguns estudiosos começaram o olhar para o idoso de forma diferente.
Graças a mudanças na maneira de ver esse cidadão, de se propor a ele uma
nova maneira de se comportar perante a sociedade, no desenvolvimento
científico e tecnológico da medicina na área do envelhecimento, parece surgir
uma nova realidade para o idoso, alguém não mais incapaz, mas alguém que
pode viver a fase do envelhecimento com maior qualidade.
No site em análise um novo conceito do processo de
envelhecimento, uma novidade a ser absorvida e administrada a curto prazo. E
também proposição de novos comportamentos em relação ao grupo da
terceira idade (estipulada em 65 anos nos países mais desenvolvidos e 60
anos, nos países em desenvolvimento, como o Brasil), ou seja, tais
comportamentos seriam tanto do sujeito que envelhece quanto daqueles que
estão ao seu redor. O envelhecer não seria mais um tempo de passividade,
doenças e depressão, pois àquele que envelhece cabe mudar a forma de
pensar e agir, perceber que mesmo com todos os problemas inerentes a idade,
o sujeito pode por meio da Ciência e da tecnologia encontrar meios para tornar
sua vida melhor e mais saudável.
41
Em vista disso, é possível observar outro fenômeno: a maior sobrevida
de pessoas acima dessa faixa etária. Consequentemente elas buscam novos
significados para sua existência e a garantia de uma qualidade mínima de vida.
Quem sabe a busca desses seres humanos enquanto parceiros da terceira
idade, idosos, ou qualquer outro nome que lhes deem, seja um pouco mais
positiva do que foi sua existência. Talvez eles possam amenizar o ciclo que se
encerra, da mesma maneira como o iniciaram, com sonhos e com dignidade.
O site em análise se mostra entusiasta dessa postura, pois afirma que
depende de cada sujeito uma vivência mais digna e feliz, para tanto bastaria
uma nova postura diante da vida.
No entanto, sabe-se que os problemas existem e sempre existirão na
terceira idade ou para aquele que envelhece. É sabido que a vida do idoso é
marcada por dificuldades físicas, biológicas, sociais, psicológicas, financeiras e
outras, que ainda existe culturalmente preconceito em relação ao velho:
ninguém quer envelhecer, ninguém quer ser chamado de idoso ou velho. E que
a vida, nessa fase, para ser digna e mais feliz geralmente ocorre apenas para
as pessoas de classes mais favorecidas que tem acesso a planos de saúde
melhores, a uma aposentaria mais abastada, a tecnologia e a todas as coisas
que todos deveriam ter acesso.
Desde o começo da vida, podem surgir noções e parâmetros no sonho
de encerrá-la dignamente, com a mesma escala de valores apreendida na
infância, não importando se foi no século XIX, ou na modernidade líquida.
O sucesso da busca da felicidade, propósito declarado e
motivo supremo da vida individual, contínua a ser desafiado
pela própria forma de persegui-la. (A única forma pela qual esta
pode ser perseguida no ambiente líquido moderno). A
infelicidade resultante justifica e vigora a política de vida
autocentrada. Seu produto final é a perpetuação da liquidez da
existência. A sociedade líquido-moderna e a vida líquida estão
trancadas num verdadeiro moto contínuo. (BAUMAN, 2005, p.
20).
Se temos valores preestabelecidos em relação ao envelhecimento,
fazem-se necessárias, neste momento, para interagir com o discurso
apresentado, algumas fundamentações sobre a modernidade líquida.
42
O termo modernidade líquida tem, para algumas pessoas que o
conhecem, uma ideia negativa, no entanto não é bem assim. O termo tem seu
lado interessante, visto que apresenta uma situação paradoxal, indicando uma
sucessão de movimentos e reinícios, sem uma forma fixa e já conhecida.
O homem da terceira idade tem seus conceitos e valores dentro de um
patamar, para ele encerrado, finito. Porém a sociedade não aceita nem
acolhe esse ser envelhecido, porque obrigatoriamente existe um discurso
implícito de pertencimento, o qual exige que o idoso pertença a um grupo, mas
também que não perca sua independência. Isso mostra a relação paradoxal
que vive o indivíduo na atualidade, isto é, ao mesmo tempo em que precisa ser
indivíduo deve pertencer ao grupo e não como ser indivíduo e social ao
mesmo tempo. Tudo isso angustia o ser da contemporaneidade, no caso
específico do ser que envelhece ao mesmo tempo em que precisa assumir sua
condição de ser envelhecido, tem que se assumir também em condições de
vida que são características do ser jovem, portanto, o sujeito vive num
constante paradoxo: ser ou não ser idoso.
Desse modo pode-se pensar em uma espécie de (re)significação dos
ciclos da vida humana, uma necessidade de tomar posse de seu lugar,
considerando que tudo é muito momentâneo e efêmero, que a modernidade
líquida nos impõe uma rapidez que nos transforma em algo diluído pela
velocidade. É possível, então, partir do pressuposto de que, em função dessa
fluidez, o homem que está caminhando para a terceira idade tem marcas na
pele, no corpo e também na alma e por outro lado é apresentado pela mídia
como alguém que não aparenta nenhum processo de envelhecimento.
Como exemplo, podemos identificar na pintura de Arcimboldo (Milão -
1527-1593) pertencentes ao Maneirismo dos séculos XVI e XVII a
representação do velho na imagem de um rosto construído a partir de
elementos da natureza como raízes, troncos, folhas, frutos e etc. Percebe-se
que a representação da velhice é disfórica como um tempo em que as coisas
perdem o viço das cores vibrantes e são substituídas pelo tom sóbrio, escuro,
sugerindo o desgaste, a estaticidade, sem flexibilidade e a falta de dinamismo.
Na tela de Arcimboldo, o rosto representa o inverno que corresponderia à
velhice tem-se a imagem de um ser sério, com um olhar que parece olhar para
um ponto distante, tudo isso construído sob um fundo escuro somado aos
43
galhos e raízes secas em destaque e simula a pele envelhecida, desgastada e
sem viço do ser idoso, tudo é simulado numa aura de sobriedade, como se
pode notar na figura 1.
Fig. 01 “O Inverno”, Giuseppe Arcimboldo.
Fonte: <http://www.mdig.com.br/index.php?itemid=1683>
Diferentemente, no site em análise o rosto do ser que envelhece é
mostrado com cores vibrantes, numa aura de dinamismo e alegria.
Fig. 02 Foto de um rosto de um homem maduro no site Maisde50.
Fonte: <http://www.maisde50.com.br>
44
Na foto do site em análise, embora não seja uma tela, retrata um ser na
velhice e o jogo das cores ocorre de maneira bem diferente, o fundo claro com
o branco e a pele num tom avermelhado sugere dinamismo, vibração e um
posicionamento bem diferente do visto nos séculos XVI e XVII, ou seja, uma
fase muito mais ativa e dinâmica do que a anterior.
Percebe-se assim que, com esse novo discurso, o sujeito tem que ser
abrangente, ter uma visão ampla para estar inserido num ambiente
tecnologizado, caso contrário será excluído. Parte-se do pressuposto de que
em uma sociedade líquida, o cidadão da terceira idade precisa ser ao mesmo
tempo velho e novo, dinâmico, ver além e estar além de seu tempo, caso
contrário, será como um objeto que pode ser descartado ou substituído a
qualquer momento.
Com essa fragmentação, se assim se pode dizer, resta ao homem da
terceira idade adaptar-se ou perecer. Parafraseando Bauman (2005), antes a
sociedade tinha valores fixos, relacionamentos estáveis e isso passava
confiabilidade para as pessoas. O pai era o responsável único pelo orçamento
doméstico, a mulher cuidava da casa e organizava tudo em função do bem
estar da família, as crianças estudavam apenas, o avô tinha a voz da
experiência, de decisão e poder. Mas ninguém pode ignorar que isso
acontecia nos meios sociais privilegiados, na classe pobre, pai, mãe e filhos,
todos trabalhavam duro e muitas crianças não podiam estudar. Ser velho
significava entrar numa fase de maturidade, como ocorria na natureza,
momento em que os frutos que não são colhidos, caem e servem de adubo
para que um novo processo se inicie momento de estaticidade, falta de
flexibilidade e quietude, tudo isso sob a aura da sobriedade e do recolhimento.
Tal visão parece ser substituída por uma imagem do ser que envelhece
mais dinâmica, muito mais próxima da atividade, da flexibilidade, do movimento
diferente daquilo que de certa forma já estava estabelecido na memória.
2.3 Web 2.0 para pessoas com mais de 50
Vislumbrando perspectivas ainda pouco exploradas, toma-se como
ponto de partida o conceito de envelhecer e as ideias acerca da modernidade
45
líquida, às quais se associado o fio condutor de nossa análise: o site
www.maisde50.com.br.
“Às „novas tecnologias‟ sempre estiveram associadas à modernidade e
prioritariamente à pós-modernidade,...” (CLAVAIROLLE; PEIXOTO, 2005,
p.57). Uma hipótese, neste ponto da análise, leva a acreditar que a mudança
de comportamento social da modernidade líquida reflete diretamente no ser da
terceira idade. Em relação a essas mudanças, vários estudos sobre essa
fase da vida, também chamada melhor idade”, e sua interação com o
desenvolvimento das novas técnicas midiáticas.
As reais necessidades de adaptação da terceira idade agora migram
para as mídias eletrônicas em busca de informações e de aceitação. Os
internautas que fazem parte dessa nova clientela estão em processo de
pertencimento a um mundo imposto pela modernidade líquida, em um meio
que não é propriamente o do seu grupo, que não estão preparados para a
inserção num mundo em contínua mudança e determinado por formas
tecnológicas desconhecidas.
É justamente nessa angústia existencial que se encontra o sujeito da
melhor idade e, considerando o tema em estudo, pode-se dizer que existe um
desconforto por parte desse grupo de idosos. Sendo assim, visto que existe
uma busca frenética por um conceito que responda qual é realmente o lugar
simbólico que ocupa essa faixa etária, pretende-se entender e explicitar esse
discurso moderno líquido e midiático.
No imaginário social, uma incompatibilidade entre o idoso e a
novidade, mas existe também uma tentativa de interação entre as pessoas
idosas e as tendências tecnológicas. Por essa razão, o novo membro desse
grupo digital fica mais egocêntrico e caminha para um individualismo peculiar,
respaldado pela possibilidade de se ver incluído no mundo tecnológico, esse
espaço irreverente, até então misterioso, desconhecido e fascinante para ele,
pois vivia em outra realidade.
Mas a modernidade líquida, com a ajuda da internet, acaba tirando o
homem da terceira idade de uma estrutura familiar conhecida, tradicional, em
que vivia a então, para levá-lo a um mundo pós-moderno, tecnológico e
virtual, construído numa lacuna entre dois mundos, dois tempos, o antes e o
agora. Procura-se, portanto, um elo entre essas realidades, a ligação entre
46
essas etapas e a presença da internet, com seus espaços midiáticos e nosso
site Maisde50.
Mas é necessário, neste ponto da pesquisa, apresentar alguns termos
fundamentais para a categorização das novas tecnologias aqui estudadas.
Trata-se, porém, de uma apropriação temporária dessa vasta área, com seus
termos específicos, abrangendo os espaços cibermidiáticos e seus simulacros,
construídos em tempos hipermodernos.
Para isso, convém apresentar primeiramente uma clara definição de
cibermídia: ela é assim denominada por ser a que agrega os novos recursos da
internet, afetando diretamente a estrutura dos meios de comunicação de
massa. Ela representa todos os tipos de comunicação da mídia interativa, no
mundo da modernidade líquida.
É possível, então, usar as palavras de MCADAMS (2009) para definir a
cibermídia como “um conjunto de mídias digitais existentes em ambientes
cíbridos fixos ou móveis. Esse conjunto pode ser considerado uma metáfora
da pluralidade, pois agrega toda a diversidade e heterogeneidade de
comunicação de outras mídias”.
Pretende-se acompanhar e analisar apenas o site mencionado, pois a
pesquisa não é sobre o uso do computador, mas um recorte dentro da
cibermídia, focalizando um site. Enquanto estrutura digital, o site tem suas
interfaces, que são os acessos à informação e a navegação pelos websites.
Esses websites seguem critérios específicos, com abrangência
exploratória, descritiva e analítica, para atender e facilitar as buscas de seus
temas, que são direcionadas. É nesse ambiente digital que o homem da
terceira idade parece procurar as repostas para aquietar sua inquietação
insaciável, adquirindo habilidades para entrar, acompanhar e pertencer ao
mundo midiático.
Com a intensificação da visualidade na cultura e na sociedade, graças
ao desenvolvimento das mídias visuais, o mundo se transforma em imagens e
teclas, despertando no idoso as necessidades propostas pelos websites, ou
seja, uma nova conscientização coletiva, em que se evidenciam a importância
e a necessidade da inclusão digital.
A arquitetura da informação e dos elementos de acessibilidade
tecnológica, os diferentes tipos de comunicão, em textos verbais, imagens,
47
ou multimídias, acabam por confundir a nova sociedade e, principalmente, o
grupo da terceira idade, que não conhece muito bem as novas tecnologias.
Sendo assim, o cidadão da terceira idade constata, em suas práticas,
que o processo de comunicação, até então essencial para ele, mudou seu
modo de ser e de fazer, agregando novos valores. A modernidade tecnológica
está presente em todos os meios de comunicação: televisão, jornais, revistas,
rádio, telefone. O domínio dos instrumentos que lhe davam estabilidade
desapareceu, tudo se tornou obsoleto de repente, com a diversidade das
mídias e seus websites, blogs, sites e outras novidades.
Neste momento da pesquisa, é utilizado um recorte do site
www.maisde50.com.br para investigar como é constituído o discurso da
terceira idade que valoriza “aquele que acompanha o seu tempo”. O site mostra
um visual colorido em tons claros, porém marcantes, tons diferentes entre o
azul e rosa, mas a cor predominante é o verde. Visualiza-se uma mistura de
tons de verde, do mais escuro até o mais claro. A estratégia de distribuição das
cores já atrai os olhares de todos.
Se atentar para o fato de que a utilização de uma determinada cor ao
invés de outra cria efeitos simbólicos, os quais reativam a memória daquele
que entra em contato com a cor, pode-se perceber que o verde predominante
no site pode sugerir o efeito de sentido da esperança ou se atribuir ao verde o
sentido ligado à natureza tem-se então o momento da primavera, do
crescimento, da vida, da saúde. Assim, a cor predominantemente verde que
serve de cenário para o site parece sugerir aos seus usuários o espaço, o lugar
em que irá se encontrar aquilo que é necessário a um novo perfil do idoso ou
do ser que amadurece, não mais de um lugar da doença, da morte ou da perda
de energia, ao contrário, o encontro da vivacidade e da energia.
no site um dispositivo para ajudar as pessoas a conviver com a
ideia do envelhecimento. O que parece mais atrair as pessoas para o site, no
primeiro momento, é a imagem de felicidade apresentada por todos que nele
aparecem. A imagem do envelhecimento é totalmente diferente de qualquer
outro tipo de trabalho semelhante, pois a velhice está sendo apresentada como
símbolo de completude e bem estar, ou seja, o envelhecer é a melhor etapa da
existência do ser humano.
48
Convém afirmar ainda que, ao acompanhar o site, os internautas
chegam à conclusão de que todos os problemas da vida acabam a partir do
instante em que a pessoa da terceira idade acessa o Maisde50. Não se
encontra ali o discurso conservador dizendo que o idoso já cumpriu o seu papel
com a família, a sociedade e o trabalho, como se isso fosse uma espécie de
ritual para mostrar que o cidadão cumpriu seu tempo.
Agora esse homem está livre, mas também desiludido, e convive com
um discurso dizendo que ele tem experiência. É assim que a sociedade o
rotula. Contudo onde aplicar uma experiência num universo que não lhe
oportunidades? O que faz um aposentado, em um mundo de jovens, criado
tecnologicamente para esses jovens? Com uma sensação de vazio, incapaz de
transformar uma realidade tão conservadora, o velho sexagenário entrega-se
sem forças, como um peso, um estorvo social. Termos antigos como ele. Como
exemplo, pode-se citar o comentário da usuária
11
do site, que antes de visitar o
site sentia-se desiludida e, agora, depois da leitura das editorias resolveu
adotar outra postura diante da vida:
ano passado, vegetei...de repente foi como no filme do gosth,
vesti a máscara de idosa ao fazer 60 anos e essa scara
colou em mim. comecei a me vigiar dia todo: falha na
memória, dificuldade nas pernas, pele flácida. gente, que
isso? começou o ano, sai dessa, desencanei. vou fazer aula
de dança!!
O site resgata essa imagem de forma (re)significada, como se fizesse
uma reciclagem, através de um dito, de um discurso existente, mas
(re)apresentado com falas e situações diferentes, sem perder porém o dito,
que resgatamos dos estudos de Foucault.
É através da legitimação do lugar do idoso que o site apresenta o novo
cidadão, o da terceira idade ou da melhor idade, no papel de sujeito ativo,
saudável, competente, pronto para aceitar o convite para uma nova vida.
Desse modo o Maisde50 seduz o internauta, levando-o à convicção plena de
que o homem e a mulher da terceira idade são capazes de interagir com o seu
contexto social, cultural, sexual, religioso, intelectual, etc.
11
Ver site http://www.maisde50.com.br/editoria_conteudo2.asp?conteudo_id=
49
Nesse caso, a imagem do idoso apresentada no site tem algo
semelhante a um testemunho de vida, de alguém que encerra uma missão,
mas está pronto para iniciar outra. Porém, apesar do apelo visual deixado pelo
site, que retrata apenas sorrisos, as marcas próprias do envelhecer,
reconhecidas no espelho ou nos semelhante, como cabelos brancos, excesso
de peso, rugas que marcam um rosto vivido, roupas discretas, sorrisos
simbólicos, olhos que expressam solidão. Como se pode verificar nas figuras
abaixo:
Fig. 03 Foto de rosto de um casal maduro no site Maisde50.
Fonte: <http://www.maisde50.com.br>
Fig. 04 Foto de rosto de um casal maduro no site Maisde50.
Fonte: <http://www.maisde50.com.br>
Mas ficam claras no site as técnicas de si, as práticas que estão
sempre acontecendo e mudando, intercalando-se, embora uma delas esteja
sempre em destaque. Essa ação do sujeito em relação aos outros, na página
de entrada do site, é sempre retomada, de outra forma, em outros dizeres, e o
internauta faz parte desse processo: o ser da terceira idade está preso a si e
aos outros, embora possa acreditar que é livre. A construção do ser idoso na
contemporaneidade acontece no site por meio das práticas discursivas sobre a
50
sexualidade, saúde, relacionamentos para citar alguns temas. Nessas práticas
discursivas observa-se que o tom do site é de aconselhador, pauta-se em
reportagens que trazem informações, aparentemente científicas, de condutas
com títulos das matérias: Errei, sim Pedir desculpas sinceridade faz bem à
saúde, diz estudo; Idade traz felicidade Idosos saudáveis são mais
espontâneos e mais felizes que os jovens, diz estudo; Prazer além dos 50 As
vantagens do sexo na maturidade; Sexualidade em transição O erotismo
permanece: entenda e aproveite as mudanças no corpo depois dos 50.
Em todos os títulos e subtítulos das matérias citadas acima se pode
observar uma construção positiva do ser idoso na contemporaneidade, mais
potente sexualmente, ativo e feliz. não o é quem não tem a coragem de
mudar, tudo parece depender de uma postura que siga as regras e
informações preconizadas no site.
Seguindo a teoria da análise de discurso, pode-se partir de uma das
várias temáticas das editorias do site, para exemplificar o que busca o sujeito
da terceira idade. Uma das marcas é o discurso da sexualidade, sempre
presente e muito questionado pelos participantes, em questionamentos
apresentados pelos internautas, com dúvidas, perguntas, entrevistas com
sexólogos, campo de questionamento, bate papo. Por exemplo, na matéria
Sexualidade em transição, que trata da questão do sexo na maturidade de
forma feliz, saudável, prazerosa e sem problemas ou pelo menos os que
tiverem pode-se encontrar soluções. Verifica-se que os usuários do site
participam, opinam, questionam construindo e (re)construindo a noção de
sexualidade de acordo com aquela colocada na matéria, conforme nos
depoimentos abaixo:
maria
23/12/2009 16:43:00
bem que não deveria, mas vou opinar sim. hoje na idade em
que estou não perdi o gosto e o prazer pelo sexo, se não o
pratico é porque vivo sem parceiro. possivelmente a
praticaria com muito mais qualidadedo que quantidade.
(www.maisde50.com.br, Acesso jan/2010)
aquiles
31/1/2010 22:34:00
boa noite gostei muito do tema aqui abordado pela dra ana.me
senti incerido no contexto.gostaria de ter mais informações a
respeito da masturbação apos 60 anos, disfução eretil e
51
ejaculação precoce. tenho diabete e problema do coração
posso manter relações sexsuais normalmente.
(www.maisde50.com.br, Acesso fev/2010)
Em primeiro depoimento pode-se perceber a contradição no dizer da
usuária Maria, que afirma que não deveria, mas iria opinar. Assim, percebe-se
que por um lado a ideia de sexualidade para a usuária é aquela que trata a
sexualidade do idoso como algo não existente ou se existir problemática e sem
a falta de vontade. Além disso, para a sociedade ou fora do âmbito particular
não se deveria falar sobre isso. De outro lado, da mulher madura que sente
vontade e a matéria vem ao encontro de seus desejos acendendo a
possibilidade de viver novamente uma vida sexual ativa, porém como vivê-la
sem um parceiro?
No outro depoimento acontece quase o mesmo, ao idoso parece não
ser de bom tom falar sobre a sexualidade, dessa forma as dúvidas estão entre
ter uma vida ativa com todos os problemas característicos da idade ou não -
la. A prática discursiva de uma vida sexual ativa na maturidade, sem problemas
acende no leitor do site uma esperança de viver como antes ou de resgatar a
auto- estima e poder viver mais feliz.
Conclui-se assim que as novas tecnologias e a virtualidade dos
contatos são elos, pontes de ligação entre o sujeito idoso no seu lugar social,
do qual estava excluído, e o discurso defendido pelo site, que tenta passar
outras formas de (re)significação da imagem da terceira idade.
Existe uma certa hierarquia na escolha de ser idoso feliz na
contemporaneidade, o basta estar na terceira idade, tem que ter boa
escolaridade, estar no mercado de trabalho ou ter uma boa aposentadoria, ser
formador(a) de opinião, estar aberto(a) para a sexualidade. O mais importante
é o desejo de buscar novas amizades e relacionamentos, enfim, procurar
manter-se jovem ou achar que ainda o é, ser positivo, acreditar que tudo tem
um final feliz, ou seja, o idoso tem que ser muito idealista e sonhador.
Numa análise acima dos depoimentos, é possível considerar que o
discurso utilizado pelo site é aconselhador, informador e sedutor. Portanto
trata-se não apenas de um espaço de informação, mas de um lugar de
orientadoção que, com um discurso opaco, propositalmente ambíguo, usa
52
como estratégia a ideia de um lugar ideal para pessoas idosas, porém
realizadas, felizes, com a garantia da juventude assegurada. Desde que façam
parte desse grupo, as pessoas com mais de 50 anos poderão aderir às
propostas e desafios do site.
Outra questão fácil de perceber é que o site tem um propósito
financeiro e capitalista: usa um discurso utilitário, pragmático, persuasivo e
impositivo. O internauta está pressionado, preso pelo sistema que ele mesmo,
enquanto usuário da internet acessou: é um sócio, paga por isso, compra
produtos e ainda tem a falsa ilusão de liberdade de escolha.
Os novos valores, assim como os conceitos e os comportamentos
reconsiderados acompanharam essa mudança na maneira de ser da família e
da sociedade no mundo todo. Cresce a expectativa de vida do idoso, vem o
aumento da longevidade, surgem mudanças na aposentadoria e novas
preocupações com o corpo e a saúde. Agora o aposentado não é mais um
velho, mas sim um homem ou uma mulher de meia idade, ou terceira idade.
Com filhos formados e independentes financeiramente, o grupo da terceira
idade está em estado de aposentadoria.
Assim, o cidadão da terceira idade - no site - constata outra face da
realidade, que o cotidiano vertiginoso e a rotina exaustiva para criar os filhos e
melhorar no trabalho não deixaram que ele percebesse ou simplesmente nem
viu o tempo passar. Com a fragmentação da realidade social, a terceira idade
começa a construir um caminho para a prática da modernidade líquida e deixa
as histórias para serem contadas por outros. O sujeito avô é outro, urge que
conheça outros hábitos, seja polivalente, híbrido e construa novas histórias,
que se multiplicarão, tudo para ser aceito num mundo totalmente diferente e
inusitado, na sua visão de mundo.
É com esse conhecimento compartilhado que todos buscam seguir um
caminho marcado, para o qual o paradigma é a informação global. Para isso
é preciso estar conectado, receber e enviar informações em tempo real, enfim,
fazer parte do grupo é o objetivo de grande parte dos que se encontram em
tempos de envelhecimento.
Com tantas informações cnicas e uma enxurrada consumista,
proposta pelas redes de comunicação, é difícil conservar as antigas
identidades culturais intactas, ou mesmo mantê-las viva: a discrepância acaba
53
solapando a identidade inicial e gerando outro ser, totalmente articulado com o
mundo midiático, o ser da terceira idade.
54
3. REPRESENTAÇÕES DA VELHICE NO SITE MAISDE50
“A maturidade me fez melhor e continuo tentando
aproveitar cada momento o máximo possível, meu futuro
será como é o presente, tranquilo, sem grandes sustos“
(M. A. Site Maisde50, 2009)
55
Apresentam-se a seguir a análise discursiva e a discussão dos
resultados da observação e do acompanhamento das interações e
manifestações pessoais no site Maisde50.
3.1 Maisde50: o portal da maturidade
O corpus
12
selecionado para análise constitui-se de uma rede social -
site específico para internautas com faixa etária acima de 50 anos com
conteúdo voltado para o blico maduro. O site possui vários módulos
intitulados de: Editorias (Saúde, Sexualidade, Cuidar de idosos,
Relacionamentos, Comportamento, Casa & família, Beleza, Corpo, Nutrição,
Atitude positiva, Tempo livre, Finanças, Dicas úteis, Mulheres de 50);
Comunidade (Rede de amigos, Bate Papo, Gente que entende, Opinião do
leitor, Vorepórter, Testes, Receitas, Encontros, Histórias de vida, Nós na
mídia); Consultores (Ana Fraiman psicóloga -, Cybele Soares Médica e
sexóloga -, Márcia Atik Psicóloga e Terapeuta sexual , e rgio Savian
Terapeuta e escritor); Matéria principal; Gente que entende ( matérias de
especialistas em medicina, saúde mental, educação física, etc.); Blogs em
destaque
13
; Enquete; Atitude positiva; Estética beleza; Relacionamentos; As
matérias mais lidas; Estaçãomaisde50 (vídeos dos internautas da
comunidade); Em foco; Destaque na rede de amigos.
O site possui dez anos de existência e foi criado em 1999 apresenta-se
com os objetivos de promover discussão de temas sobre a maturidade, o
tempo e suas implicações biológicas, psíquicas, sociais e culturais; promover
intercâmbio e troca de experiências para pessoas de meia-idade; contribuir
para a ampliação de círculos sociais e oferecer espaço para mediação
profissional e informação confiável. Com isso pretende-se contribuir para novos
caminhos, alternativas e perspectivas para o idoso.
Parte-se do pressuposto de que as práticas discursivas do site procuram
materializar os traços constitutivos da velhice e da representação de uma “nova
12
Ver Anexo 1.
13
Neste módulo encontramos links que mudam de tempos em tempos, pertencem a internautas
cadastrados no site e é possível acessá-los quem possui cadastro no site e faz parte da rede social
maisde50.
56
identidade
14
de pessoas maduras em tempos tecnológicos. Pode-se perceber
nos discursos dos testemunhos dos internautas que (re)significações do ser
idoso na atualidade. Um indivíduo que sabe utilizar as novas tecnologias e, ao
utilizar o site como mediador para informar-se, socializar-se, tem sua auto -
estima elevada e sua vida transformada positivamente, além disso, passa a
pertencer a um grupo engajado no mundo virtual.
Pode-se verificar isso nos depoimentos colocados no campo Opinião do
Leitor, debaixo de cada matéria escrita pelos consultores. Para exemplificar,
cita-se a matéria Envelhecer é um saco Como enfrentar a dificuldade em
aceitar as limitações do tempo
15
de 24/07/2009.
A matéria, escrita por Ana Fraiman, responde a um questionamento feito
por uma usuária do site de nome Sonia, a qual confessa que tem dificuldades
em envelhecer, encontra-se deprimida, não se sente atraída por homens
maduros pensa que deveria ser o normal -, detesta ambientes de flash back,e
acha os sintomas dessa fase horríveis como os da menopausa, enfim confessa
que para ela envelhecer é um saco.
A psicóloga, articulista do site e diretora da APFraiman Consultoria (é
designada como empresa pioneira em Programas de Preparação para a
Aposentadoria e Pós-Carreira), responde a usuária ao mesmo tempo como
especialista e autoridade para falar sobre o assunto e, também, em linguagem
informal, como se conversasse com uma amiga íntima de Sonia.
Inicia sua resposta do lugar de amiga e ouvinte da angustiada Sonia.
Responde que Sonia tem razão em muita coisa, mas não em outras. E, assim,
sugere começar a discutir a questão por partes. A primeira delas é mostrar que
Sonia encontra-se na fase da vida que possui momentos difíceis. Observe-se o
trecho:
(...) Em primeiro lugar, você está passando mesmo por
momentos difíceis, que na sua linguagem, são “sacais”. Mas
tem que se cuidar e dar graças a Deus ter recursos para isso.
Isso não significa, porém, deixar de reclamar. Não se sinta
culpada por fazê-lo. (FRAIMAN, p.1, 2009)
14
A nova identidade e representação do sujeito com mais de 50 anos seria a de alguém ativo em todas as
faces da vida desde sexualmente mais potente até a representação física mais jovial e mais bela, sem os
traços de rugas, cansaço e do desgaste que, na maioria das vezes, eram retratados os idosos, seja na mídia
ou na pintura como de Arcimboldo tratada na 2ª parte deste trabalho.
15
Ver matéria Anexo 2.
57
A estratégia discursiva assumida pela consultora é sutil, pois trabalha
com o próprio discursivo de quem a questionada, num primeiro momento
confirmando e concordando com ela que a fase é difícil e “sacal”. Para em
seguida, se valer de uma conjunção adversativa “mas” que estabelece uma
relação de contraste e oposição ao que foi dito anteriormente, ou seja, na
primeira oração “você está passando mesmo por momentos difíceis” tem-se no
enunciado a afirmação e constatação de uma realidade concreta e imutável,
que é reiterada pelo advérbio mesmo.
No entanto, ao utilizar a conjunção “mas” a consultora estabelece uma
outra possibilidade de realidade, não concreta, porém a realidade encontra-se
no âmbito da possibilidade, da imaterialidade, da mudança de olhar. Tem-se
assim uma equação a da realidade concreta e a da realidade almejada. Para
se lidar com o concreto é necessário “dar graças a Deus”, estabelece-se aqui
uma realidade mítica, em que a resignação e aceitação da condição da
realidade deve ser perpassada pelo discurso religioso, pela fé. Dessa forma, a
situação não é para ser gostada, mas para ser tratada: por um lado pela
medicina e por outro pela fé. Os dois campos semânticos se repetem até o final
da matéria em que se conclui que a realidade concreta é difícil de ser
enfrentada, pois um ciclo de vida termina e o luto se instala.
“Um luto profundo se instala. Esse luto necessita ser elaborado.” A
conclusão leva a perceber que o termo luto aqui pode ser substituído por “luta”,
“combate”. Claramente, o idoso, segundo Fraiman, encontra-se como em todas
as fases da vida numa situação de luta, em que se perde e ganha alguma
coisa. Assim, a realidade concreta não é para ser gostada, mas para ser aceita
e combatida com as armas da medicina e da . O resultado dessa batalha
pode ser aconhecido, no entanto ele é colocado como um enfrentamento
que depende do ser que vive a situação e não daquilo que esta ao seu redor.
Ao final da matéria encontram-se os depoimentos, opiniões,
identificações de outros internautas que se encontram na mesma situação ou
que já passaram por ela. Como os relacionados abaixo:
Fada
2/8/2009 10:23:00
58
*nossa !!! como este texto me ajudou !!! *obrigada, *sônia !!!
*obrigada, *ana !!! *um abraço.
(www.maisde50.com.br, Acesso set/2009)
elianagiarola
30/7/2009 20:48:00
essa matéria é muito esclarecedora. estou vivendo essa fase
tbém. que estou aposentada, e tenho sentido opeso da
solidão... tenho tentado encontrar novos estímulos ,inclusive é
por isso que me casdatrei no site mais voce.
(www.maisde50.com.br, Acesso set/2009)
Vera
27/7/2009 10:05:00
ana, muito boa sua matéria. nós que estamos nessa fase
necessitamos de muito apoio para enfrentar ..... não só os
sintomas físicos mas tb os outros..., como disse a nossa amiga
neusa.
(www.maisde50.com.br, Acesso set/2009)
Jose
27/7/2009 13:00:00
permanecer jovem, é cuidar do espírito, e da convivencia.
convive com jovens e permaneça assim, dedique-se a
esporte de aventura. - neles vc depende de suas
habilidades, vista-se como jovem. jeans, camiseta, bone,
jaqueta, botinas, ande, pedale, caminhe, seja radical, chique.
(www.maisde50.com.br, Acesso set/2009)
NEUSA
26/7/2009 20:59:00
eu passei bem pelo meu climatério. estou com 60 e, como a
maioria, acho muito difícil lidar com esta nova aparencia. não
sofro pelas rugas o cabelo grisalho. mas o q é complicado é ver
q na sociedade em q se vive, as rugas, a flacidez, os cabelos
grisalhos, são olhados com desprezo.
(www.maisde50.com.br, Acesso set/2009)
Maria
26/7/2009 13:50:00
ana, muito bom ler matéria tao esclarecedora, vou mandar pra
todas as minhas amigas que resistem a fazer parte do
maisde50.
(www.maisde50.com.br, Acesso set/2009)
Ana
26/7/2009 11:02:00
muito boa esta matéria, esclarecedora, para muitas mulheres
que estão nessa faixa e idade.
(www.maisde50.com.br, Acesso set/2009)
Maria
26/7/2009 20:11:00
59
Ana eu acabei de completar 60 anos, ainda nao caiu a ficha,
porem estou vivendo a melhor fase da minha vida.estou muito
feliz comigo e com os que me cercam. ja passei por uma fase
muito dificil, fiquei viuva ha 11 anos e com duas filhas, pre e
adolescente. a vida e bela! curta-a! adorei a matéria.
(www.maisde50.com.br, Acesso set/2009)
Percebe-se em todos os fragmentos a mesma prática discursiva
sugerida por Fraiman, a de que a fase existe e deve ser aceita. Não é colocada
nenhuma solução para o envelhecer, mas tudo funciona como um
confessionário, em que todos podem compartilhar e se identificar com a
realidade do outro. Nesse sentido, todos são iguais em certa medida e ao
mesmo tempo diferentes, pois cada um procura colocar o seu momento como
único.
O único depoimento de um homem é o que destoa de todo o resto: em
tom aconselhador o mesmo sugere às mulheres que façam as coisas
características de jovens para enfrentar a situação, tais como o esporte de
aventura. Em sua prática discursiva o contato com os jovens e a imitação dos
mesmos seria o suficiente para resolver o problema. Assim, como a fase
descrita o sentimento que move os internautas é a pura contradição e dúvida
de ser e assumir sê-lo ou de não ser e não assumir ser velho.
Para os teóricos da AD (Análise do Discurso), o discurso o está em
função do texto, isto é, o sentido escapa ao dito e deve ser buscado no não-
dito. Nesse caso, a língua não é somente um sistema de trocas binárias
baseado numa lógica interna, mas um processo histórico-social que está
interligado a um sistema de signos. Em outras palavras, o discurso é tomado
pela AD enquanto um entrelaçamento entre língua e história, junção
determinante para a formação de uma impressão da realidade, inscrita no
imaginário de um sujeito pretensamente ativo.
A presente dissertação, como foi dito, pretende aplicar tal perspectiva
teórica em um corpus que é um site (http://maisde50.uol.com.br/) dedicado a
um determinado público: indivíduos que passaram ou se aproximam dos
cinquenta anos de idade e procuram respostas para suas dúvidas existenciais,
pelo acesso ao sítio virtual Maisde50.
60
Por mais inocente que pareça, esse sítio apresenta formações
discursivas que remetem a lugares situados historicamente, ou ainda, a
discursos marcados por uma historicidade, que engendram efeitos de sentido
na enunciação e produzem um sujeito que é fruto da interação social.
Partindo de tais concepções, é possível observar de antemão no site um
lugar discursivo próprio da modernidade líquida, que é o de tomar a velhice
como extensão da juventude, um alongamento dela. Esse lugar discursivo
pode ser observado, por exemplo, no e-texto assinado pela psicóloga Ana
Fraiman:
Através, então da filosofia, pode-se encarar a morte como a
celebração da vida, afirmando que ser velho é ter muita vida
vivida e, não, alguém que já está no fim.
16
(FRAIMAN, 2009)
Para esse discurso de uma juventude tardia, ser velho não significa estar
no fim, mas acumular potencialidades e vivacidades, o que é possível em
razão das condições de possibilidades discursivas. No caso do corpus desta
pesquisa, trata-se do discurso próprio de uma sociedade pós-moderna,
inflamada pela tecnologia e uma infinidade de informações, que se apresentam
e desaparecem com grande rapidez, em uma continua desconstrução de
conceitos outrora rijos. A prática discursiva da velhice como juventude
acumulada silencia o discurso da representação da velhice como época do
inatismo, da doença, do feio e do problemático.
Esse lugar social e esse efeito de sentido ficam evidentes nas dicas e
nas regras apresentadas pelo site para que uma pessoa seja feliz. Num tom de
aconselhamento o site propõe:
Viva o presente
Viva o momento com alegria. Lembre que o amanhã pode não
chegar. Sorria, cante e dance. Envolva as pessoas em um
clima de alegria.
Sinta-se útil
Tenha sua vida social ativa, procurando o convívio em grupo.
É preciso dedicar-se a tarefas que proporcionem prazer. Se
gosta de dançar, dançar. Se prefere caminhar, caminhe.
Tenha iniciativa e vá em frente. Sempre tempo para ser
feliz.
(www.maisde50.com.br, Acesso set/2009)
16
Ver www.maisde50.com.br. Acesso em 30, Agosto, 2009
61
Viver a velhice de maneira plena e feliz significa viver o aqui e o agora. A
prática discursiva do Carpe Dien, quase sempre utilizada pelos mais jovens, é
aqui invocada. Esse procedimento é característico do que Bauman (2001)
denomina modernidade líquida, ou seja, para viver na contemporaneidade é
preciso ter uma postura de dinamicidade, tudo deve estar em movimento, nada
pode ficar parado. Assim, cria-se a sensação de uma velhice sem velhos, sem
os problemas característicos da idade, apenas se teria um decréscimo da foa
física, mas esse não seria suficiente para comprometer a energia de uma
juventude que não parou no tempo, apenas se alongou.
Em suma, o site Maisde50 tem um grupo de jornalistas, psicólogos e
programadores que constroem um espaço virtual em um momento histórico
dominado pela tecnologia, caracterizado principalmente por uma constante
fluidez dos conceitos. Não que isso não tivesse ocorrido em outros momentos
da história, ocorreu, no entanto era disfarçado e ocultado pela classe
dominante.
Mas a tecnologia digital oportuniza um trabalho mais interativo que
proporciona a sensação de realidade concreta. Na realidade essa aparente
realidade é um simulacro de um ambiente ativo, em permanente processo de
evolução, onde a enunciação assume o discurso de uma modernidade líquida,
que faz autor e leitor partilharem a ideia de uma mobilidade terna e viçosa,
assim como a cibermídia pode ser tenra e fugaz.
3.2 Discursos e representações: editorias
(...) o discurso produzido por um sujeito pressupõe um
destinatário que se encontra num lugar determinado na estrutura
de uma formação social. Tal lugar aparece representado no
discurso por formações imaginárias que designam o lugar que
o sujeito e o destinatário se atribuem mutuamente, ou seja, a
imagem que fazem de seu próprio lugar e do lugar do outro.
(PÊCHEUX, 1997, p. 30)
O site procura mostrar as identidades que se constroem nas relações do
sujeito com a sociedade, agora, tecnologizada, globalizada e com os vários
62
avanços na medicina que podem ajudar o ser que envelhece. O sujeito de que
falam é construído socialmente e discursivamente, sua identidade se encontra
em constante transformação. Salienta-se assim que todo discurso se constrói a
partir de sua historicidade, política, social e ideológica. Então, podem-se fazer
alguns questionamentos:
a) Quais as posições a partir das quais uma pessoa de mais de 50
anos é significada no site, que estaria representando as posições a serem
assumidas na sociedade contemporânea?
b) Qual o imaginário dos indivíduos em condições de envelhecimento
em relação à representação de si e dos outros?
c) Como o processo de construção discursiva de sua identidade é
afetado por estas representações que frequentemente os excluem?
Somente assim, podem-se perceber as formações imaginárias presentes
no site.
Como dito anteriormente o discurso do site é predominantemente o da
„juventude eterna‟, definida em várias editorias, como Saúde, Sexualidade,
Comportamento, Nutrição, Finanças, Dicas e outras. Os e.textos dessas
editorias procuram trabalhar o discurso para a elevação da autoestima das
pessoas de meia idade.
Editorias é o título dado a coluna do lado esquerdo do site, em que são
apresentados links das temáticas dessa parte, os quais estão dispostos na
seguinte sequência: Saúde Sexualidade Cuidar de idosos
Relacionamentos Maturidade Casa & família Estética e Beleza Corpo e
Bem-Estar Nutrição Atitude positiva - Vida Ativa Seguros e Finanças
Dicas Utéis e Blog da Redação.
Pode-se observar na disposição dos títulos a ordem de importância dada
aos assuntos que permeariam a vida dos Maisde50, em primeiro lugar a saúde,
neste link encontram-se as orientações para uma vida saudável, feliz e com a
conservação da juventude.
Das editorias, analisadas neste item, elas colocam como primeiro tema a
saúde, certamente um tema de grande interesse para o público a caminho do
envelhecimento. A ideia dos produtores do site parece ser a de que o idoso é
uma pessoa carente: de informação, de orientação e de atenção. Assim a
63
representação formação imaginária - que se tem do destinatário parece ser a
todo ser que procura o site para informar-se, orientar-se e também encontra
nesse espaço o lugar em que terá atenção especial, sentido-se importante,
valorizado e consequentemente mais feliz consigo e com os outros.
A representação do site e dos consultores para os usuários e
frequentadores do site parece confirmar o que foi argumentado acima, uma vez
que a cada matéria escrita o número de comentários e depoimentos dos usuários
e frequentadores é considerável (média de 10 a 20 comentários) para agradecer
os esclarecimentos, bem como elogiar a forma como as matérias são tratadas e
escritas. Como pode-se observar nos exemplos:
Claudete
24/2/2010 04:47:00
ótima,como todas as matérias publicadas sobre o assunto,aqui
no mais de 50.
(www.maisde50.com.br, Acesso fev/2010)
Maria
19/2/2010 13:43:00
gostei pelo fato de saber nós mais velhos, temos acesso ao
pilates que antes não sabíamos se podíamos fazer. pensei que
seria mostrado os seis, ficou incompleta a matéria a meu ver.
maria Dulce.
(www.maisde50.com.br, Acesso fev/2010)
Amanda
1/2/2010 20:57:00
muito boa a matéria.quem não quer adiar o envelhecimento e
ficar saudável?com certeza,eu quero. após ler,me interessei
em procurar um médico ortomolecular. valeu!!!
(www.maisde50.com.br, Acesso fev/2010)
A estratégia do discurso é ser uma ponte para dizer que a pessoa de
meia idade não pode ser considerada “velha”, pelo contrário, é uma pessoa que
pode de fato ter uma vida saudável usufruindo da melhor maneira o que lhe é
oferecido, como por exemplo, ao dizer: “homem de 50 vive a sexualidade melhor
do que o homem de 30”.
64
O site assume o discurso da vida e da sexualidade ativa, motivando
sempre a necessidade da busca da juventude. Criam-se as páginas de
relacionamentos para desfazer a imagem de que as pessoas com mais de 50
anos são sempre solitárias e carentes. Percebe-se, através desse discurso que
há na sociedade uma desvalorização dos maisde50.
Esses indivíduos são tratados no site como um objeto passível de
comercialização. É um discurso informativo, utilitarista, de prestação de serviços,
enfim, carregado das formas de ideologia da sociedade atual.
As formações imaginárias sobre o envelhecimento sugerem que os
chamados “maisde50”, assim como as pessoas que falam sobre eles, têm um
discurso pré-construído. Essas formações mostram, pelo seu discurso, os
lugares que “os mais50” se atribuem, cada um a si e ao outro, ou seja, a imagem
que eles fazem de seu próprio lugar e do lugar do outro. Exemplificando, pode-se
observar que a imagem construída para si e para outro - que se encontram na
velhice - é positiva e pro-ativa, fase em que se pode aproveitar mais e melhor as
coisas que o mundo e a própria vida oferece, percebe-se que há a construção de
um simulacro de vida feliz, saudável, ativa e de aparência jovem, ou seja,
retoma-se a idéia de que a velhice é juventude acumulada. Isso tudo é reiterado
e observado nos vários depoimentos e comentários do site, como exemplo, cita-
se:
Lucy
17/2/2010 10:12:00
este assunto é muito importante. tenho 74 anos bem vividos,
aparento menos idade e tenho muita disposição. quero
continuar lúcida e ativa em todos os sentidos, inclusive sexual.
os especialistas que corram com os resultados, pois temos
pressa.
(www.maisde50.com.br, Acesso fev/2010)
Maria
10/2/2010 01:21:00
assunto excelente, muito próprio para o momento, pois hoje as
pessoas vivem mais tempo e precisam ser orientadas para os
tratamentos de que rejuvenecem e melhoram a saúde do
idoso. parabéns!
(www.maisde50.com.br, Acesso fev/2010)
É interessante observar que os advérbios de intensidade bem vividos,
menos idade, muita disposição, muito próprio, vivem mais - aparecem de forma a
65
reiterar e deixar marcado o discurso, como se o interlocutor os utilizasse como
forma de comprovação e de efeito de verdade para o que sente e como se
sentem em relação à fase em que vivem. Os adjetivos também são constantes
para a reiteração e construção do simulacro da juventude acumulada vivida na
velhice, tais como: lúcida, ativa.
Foi analisada também a página cujo tema é de interesse do público
feminino a caminho do envelhecimento: a questão da gravidez na pré-
menopausa.
A página apresenta o título “Contracepção depois dos 40 As opções
para mulheres na pré-menopausa
17
e escrita por Maria Fernanda Schardong, a
qual não tem nenhuma identificação profissional no site, apenas assina a
matéria.
O texto trata da questão da necessidade da contracepção, mesmo na
pré-menopausa, pois o índice de queda da taxa de fertilidade, entre 40 e 50
anos, é cerca de 3% ao ano, dessa forma, a matéria sugere que mesmo quem
não pensa em ter filhos precisa optar por algum tipo de método contraceptivo,
uma vez que em pleno climatério, as mulheres estão sujeitas a muitas mudanças
e as alterações podem ter impacto no tipo de contraceptivo adotado.
A matéria em questão mostra que a vida sexual da mulher que
envelhece é ativa e, como ocorre com a adolescente mal informada, a mulher
madura também pode ter uma gravidez indesejada. O efeito de sentido da
matéria é de alerta e de orientação de uma verdade, assim nos comentários
sobre a mesma, pode-se perceber a construção de um novo imaginário para a
mulher madura, é comum na sociedade associar a maturidade com a falta de
libido, de fertilidade, ou seja, de início de inatividade sexual. A matéria sugere o
contrário, a mulher madura, embora esteja sob transformações e mudanças
hormonais continua a ter desejo, a libido, como qualquer outra mulher e se não
tiver é porque precisa verificar o que esta ocorrendo. A reportagem reitera a
imagem e a representação construída para o site um lugar de informação,
orientação e preparo para aqueles que envelhecem. Isso se confirma no
comentário acerca da referida matéria.
17
Ver matéria anexo 3.
66
Márcia
1/8/2009 00:07:00
maravilhosa esplanação sobre o assunto... muitas mulheres
dessa faixa etária não sabem que podem utilizar métodos
anticonceptivos. é bom lembrar que anticoncepcionais de baixa
dosagem ajudam na prevenção de menopausa precoce,
previnindo também a futura osteoporose.
(www.maisde50.com.br, Acesso set/2009)
As editorias parecem confirmar a identidade construída para o site em
seu logo, como se pode verificar abaixo:
As temáticas que circulam em torno das editorias trazem questões
comumente tratadas entre os jovens, como por exemplo, a gravidez indesejada
abordada na matéria acima. Assim, o site é o lugar do aqui e agora, do futuro,
daqueles que querem estar em sintonia com o seu tempo e não mais viver no e
do passado. Dessa forma, constrói-se para o site e para as pessoas que o
frequentam a ideia de se estar inserido no mundo contemporâneo de não ter
ficado para trás, de ser e permanecer sempre atualizado.
Outras editorias confirmam essa formação imaginária, como por
exemplo, “Monogamia em série”. E a seguir vem uma imagem de três alianças
de casamento, deixando pressuposto que, na contemporaneidade, existe a
monogamia, porém em rie. Ou seja, pode haver mais de um relacionamento
amoroso, desde que se seja “fiel” ao relacionamento do momento, àquele com
quem se “fica”.
Mas tais expressões e símbolos também podem estar dizendo que, nos
tempos modernos, uma pessoa de mais de 50 anos não precisa ficar sozinha. A
formação imaginária que provoca esse discurso mostra que o idoso não deve ser
considerado “velho”, pois está apenas iniciando o processo de envelhecimento e
amadurecimento, porém deve procurar viver bem e ser feliz. Tudo isso está
67
concretizando e reforçando temas como “atitude positiva”, “histórias de vida”,
“relacionamentos”, “comunidades de bate-papo”, etc.
Para mostrar o discurso de que as pessoas de mais de 50 estão
inseridas na modernidade e devem usufruir tudo que a vida pode oferecer, o
melhor exemplo é a propaganda da camiseta ADIDAS, veiculada no site: ela
custa exatamente R$ 49,00. O preço é praticamente igual à idade do público a
quem o site é oferecido e vem seguido da frase: “Quer aproveitar todas as
vantagens do maisde50?”
Essa propaganda parece uma clara alusão ao fato de que os “maisde50”
devem aproveitar o que a vida tem de melhor, ou seja, que esse blico
conserva a juventude, deve vestir-se como jovem, ser moderno e feliz, mas
pagando o “preço da sua idade”.
Portanto, a construção discursiva das representações das editorias é a
da velhice como juventude acumulada, como uma fase ativa, feliz, em que os
problemas existem, mas para aqueles que querem que eles existam. Afinal,
para os querem viver a fase da juventude acumulada cabe apenas seguir as
orientações e estar de posse das informações oferecidas pelo site.
3.3 Discursos e representações: comunidade Maisde50
As pessoas que frequentam o Maisde50 formam uma comunidade, ao
circular por seus espaços, procurando amigos, novidades e expondo-se, como
faziam nos espaços urbanos quando eram jovens. Para entender melhor essa
comunidade de idosos em busca de uma vida melhor, convém procurar um
recorte que diga respeito ao Relacionamento, como a manchete: Monogamia
em série.
Nessa matéria, a psicanalista Eliane Cotrim faz um estudo relacionado
ao casamento e à busca de satisfação de cada um dos parceiros. Outros
estudiosos também se manifestam na tentativa de explicar essa questão dos
relacionamentos em série.
Comentários dos internautas na página sobre a Monogamia em série:
68
(1) Maria 6/8/2009 15:27:00
Creio que todas as questões que foram pontuadas
são essenciais à relação. Contudo, há ingredientes
que não podem faltar: diálogo-sinceridade-
honestidade. As palavras devem ser ditas, mesmo
que doam precisam ser ouvidas e trocadas entre
os parceiros. E se não isso, não respeito,
valor ou amor!
(www.maisde50.com.br, Acesso set/2009)
O sujeito do discurso toma como verdade o que leu e manifesta uma
paráfrase da matéria como sendo a sua própria opinião a respeito da temática.
O discurso nunca se origina no próprio sujeito, é fruto de formações discursivas
e imaginárias, provocando efeitos de sentidos entre interlocutores.
(2) Maria 4/8/2009 15:31:00
O texto favorece a reflexão. Nos chama atenção para as
mudanças que ocorrem na sociedade e nos possibilita
entender melhor as situações que nos rodeiam e que as vezes
custamos muito a entender.
(www.maisde50.com.br, Acesso set/2009)
Nesse comentário, Maria foi mais imparcial na sua colocação, porém
continua certa de que esse dizer é somente seu, pois „favorece a reflexão‟, que
ela imagina ser um ato único e individual.
(3) Vera 3/8/2009 20:33:00
se agiu dessa forma e foi feliz, que bom, eu já estou casada 34
anos, com o mesmo homem, amo ele e não me vejo em outro
relacionamento. bjs.
(www.maisde50.com.br, Acesso set/2009)
Aqui, Vera diz „com o mesmo homem‟, sugerindo uma ideologia de que o
casamento verdadeiro e feliz é o tradicional: sempre com o mesmo parceiro.
Pêcheux (1997) afirma que não discurso sem sujeito e não sujeito sem
ideologia: o indivíduo é interpelado em sujeito pela ideologia e é assim que a
língua faz sentido.
(4) Sonia 3/8/2009 14:32:00
Casamento é um grande aprendizado, sem dúvida. A matéria
e ótima e esclarecedora. Não acho que o casamento seja uma
instituição falida, as pessoas continuam casando, e até, como
a matéria enfatiza, mais de uma vez. Hoje se busca a
69
felicidade, em vez de se manter relações hipócritas, mas
duradouras.
(www.maisde50.com.br, Acesso set/2009)
Pode-se perceber no comentário de Sonia a aceitação do discurso sobre
o casamento como um contrato/ negócio que ao ter suas regras ou condições
não atendidas o melhor a ser feito é a separação. Nesse sentido, o discurso de
Sônia traz um dito, um , presentes na mídia e na literatura “que seja
eterno enquanto dure”. O relacionamento é sempre uma escola, um eterno
aprender, mesmo que os atores o sejam os mesmos, pois tudo é válido para
encontrar a felicidade. Agindo dessa maneira haveria menos hipocrisia, ou
seja, cairia a imposição social do casamento único e duradouro. Aqui se
manifesta a formação discursiva da modernidade líquida: o divórcio libera os
indivíduos de uma obrigação social antiga e ultrapassada. Talvez seja isso
mesmo que o site queira sugerir, embora o faça de modo mais sutil.
(5) Edna 1/8/2009 23:03:00
INFELISMENTE TUDO AGORA É NOVO É NOVIDADE.
MUITOS ACHAM QUE CASAMENTO É ALGO
UTRAPASSADO, INSTITUIÇÃO FALIDA. EU SIPLEMNTE
NÃOACHO.CASAMENRO É COISA BOA, SE SENTIR
AMADA, AMPARADA.COM O PASSAR DOE TEMPOS A
COISA FOI SE DESENJAGERANDO AO POTO QUE
COMEÇOUA FALTA DE RESPETO,AS FACILIDADES SÃO
MUITAS LÁ.
(www.maisde50.com.br, Acesso set/2009)
18
Nota-se aqui Edna considerando que „casamento é coisa boa‟ e fazendo
uma colocação que leva o leitor à conclusão de que ela é feliz no casamento e
que tudo o que dizem, no sentido contrário, é balela. „As facilidades são muitas‟
é uma frase mostrando que vários caminhos para os deslizes matrimoniais
e, por isso, as pessoas infelizes procuram o adultério ou a separação.
Esses e outros comentários dos internautas servem para uma melhor
observação de que o dizer nunca é original, sempre envolve um já-dito. -se
mais um exemplo de retomada do antigo discurso moralista sobre o
casamento. Assim, as formações discursivas vão sendo constituídas e
transmitidas pela realidade social dos sujeitos que se posicionam, mas sempre
marcados ideologicamente pelo contexto social e histórico.
18
Manteve-se os comentários de acordo com original no site, sem alterações ou correções da língua.
70
Os fragmentos dos editoriais analisados fazem emergir uma leitura do
sujeito de meia idade, considerando seus anseios, valores e necessidades. Os
enunciados não são lineares, o que sugere muitas interpretações. Reais ou
imaginários, os sentidos é que permitem entender o mundo, na busca do auto-
conhecimento, das livres escolhas e das intervenções da alteridade.
A comunidade Maisde50 é construída também por enquetes. É por meio
delas que o site percebe como essa comunidade pensa. A partir dos resultados
das enquetes pode-se ter uma representação de como pensa a comunidade
em termos quantitativos a respeito de vários temas.
Como exemplo de como isso ocorre cita-se a enquente sobre Qual a
sua maior preocupação quando você pensa na velhice? ( ) Ter saúde e não
depender do cuidado dos outros ( ) Manter minha independência financeira ( )
Estar perto da família ( ) Não penso no assunto. Depois que o usuário faz a
votação, ele tem acesso ao resultado em percentuais e número de votos,
conforme abaixo:
Fig. 05 Enquete site Maisde50.
Fonte: <http://www.maisde50.com.br>
71
O resultado da enquete mostra que, apesar do site propor uma nova
postura e representação da velhice, a maioria dos internautas, estão
preocupados com essa fase e eles m uma representação da velhice disfórica
se não tiverem aquilo que é primordial a qualquer ser humano para estar bem
em qualquer fase: a de ter saúde e não depender de ninguém. Foram 50 votos
que perfizeram um total de 68,49% de maior preocupação, isso pressupões
que a velhice preocupa porque é a fase em que as pessoas são acometidas
por doenças, pois o corpo nesta fase perde a vitalidade e o bom funcionamento
a cada dia.
Em segundo lugar é a manutenção financeira, pode-se inferir que a
comunidade Maisde50 entende que o principal é ter saúde e que a
independência financeira não é o mais importante e vital para passar pela
velhice. Outro dado importante é o fato de poucas pessoas pensarem sobre
esse assunto, apenas 6,85%.
O resultado da enquete parece comprovar o discurso do senso comum
de que a maior preocupação do envelhecer é a questão da saúde e todos m
medo de não conseguirem chegar bem na velhice, pois o corpo humano seria
como uma máquina que após anos de uso, começa a dar problemas e suas
peças precisam ser trocadas. No caso das máquinas quando começam a ficar
velhas são trocadas por outras. O ser humano tem medo de estar doente na
velhice, pois não é máquina, não pode ser trocado por outro mais jovem, mas o
discurso é sempre o mesmo àqueles que envelhecem e não gozam de boa
saúde quase sempre são deixados a margem, são esquecidos.
Logo, o site com a enquete indiretamente reforça as ideias de que o
homem que envelhece precisa acompanhar seu tempo informar-se para saber
o que se tem de mais novo na medicina, o pode fazer para prevenir as
doenças, o que pode tomar para manter-se bem e saudável e feliz. O site
configura-se como utilitarista e necessário para o usuário, não para
informar-se, mas para sentir-se valorizado, olhado, cuidado por pessoas
especializadas no assunto.
Para tanto o site cria simulacros do homem velho como aquele que pode
tornar-se um ser maduro com a juventude acumulada. Basta seguir:
1 - As Dicas úteis existentes no site, tais como Aprenda a fazer busca e a
usar a internet para falar com amigos. Essa dica mostra o pressuposto
72
que o ser que envelhece precisa dialogar, ter amigos, a conversa o
afastará da solidão e da marginalização, que ainda ele não sabe
fazer isso, para tanto precisa aprender a fazer busca e usar a internet.
Portanto, o site é o lugar para prepará-lo e inseri-lo no mundo
tecnologizado.
2 - As Matérias mais lidas como a Pesquisa diz que cinquentões tem
vida sexual mais feliz que rapazes de 30 anos, pressupõe que site por
meio delas pode mostrar aos Maisde50 que o discurso tradicional
sobre o idoso não ter vida sexual é uma mentira e procura criar um
outro efeito de sentido, uma outra verdade a da potência sexual na
maturidade ser maior e mais agradável.
3 Em Gente que entende, o site oferece especialista para responder a
questionamentos, a dúvidas e a angústias que são característicos do
ser que amadurece, como por exemplo, Anna Freiman responde: Amo
um homem casado e não quero deixá-lo. O que faço? Interessante
esse tópico do site, pois coloca o internauta na condição de aprendiz,
como se fosse um adolescente na fase da descoberta do primeiro
amor, da primeira transa, do primeiro beijo. No caso do adolescente
àquele que o orienta sempre é uma pessoa mais velha que passou
pela experiência. No caso do ser que envelhece quem orienta é sempre
alguém jovem, que não passou pela velhice, a conhece por meio
dos livros e da experiência de outros, mas mesmo assim assume o
papel de autoridade e o tido como tal pelos internautas.
4 Ou em Quer aproveitar todas as vantagens do Maisde50? Cadastre-
se. Aqui se percebe o ser que envelhece como um produto, um dado a
ser cadastrado, um mero consumidor e alguém que ainda pode gerar
lucro, embora o dizer seja outro.
5 Em Tempo livre. Tem-se aqui o interdiscurso do idoso inativo, aquele
que não trabalha, que o faz nada, por isso precisa ocupar-se. Mas,
tal ocupação ser feita por aqueles que têm condições financeiras e
são mais favorecidos economicamente. Nessa parte do site pode-se
observar mais claramente que existe ainda um grande número de
pessoas que o tem acesso a internet e, que aqueles que usufruem
de uma velhice saudável feliz ainda são uma grande minoria.
73
Assim as representações e discursos do site Maisde50 constroem para a
fase da velhice um simulacro de uma realidade mais bonita e encantadora, a
da juventude acumulada, do ser que apesar de ter mais de 50 anos não tem os
problemas característicos da velhice. Isso tudo comprova-se nos depoimentos
a seguir retirados do site:
Helena
18/8/2009 11:17:00
...50, velhice da juventude, "juventude da velhice".
Leticia
28/6/2009 17:07:00
... mais de 50! quase adolecentes... são tantas descobertas,
a vida ferve nas veias.
Edna
26/6/2009 21:04:00
uma amiga me passou este site.eu adoro ver o depoimento
de tantos amigos, que também nos leva a refletir sobre a
nossa vida, o que devemos mudar claro que para
melhor.aqui vc encontra tudo de bom.o que sinto é que
deveria ter um grupo em cada capital, para uma
aproximação melhor
74
CONSIDERAÇÕES FINAIS
A estrutura de uma formação social denota as condições de produção do
discurso, no caso desta análise, o discurso que circunscreve o idoso moderno
ou, na metonímia do site, o pessoal com mais de 50, na atualidade da
interação eletrônica que se dá em um ambiente urbano.
Em geral, são pessoas de nível médio ou superior de escolaridade,
aposentadas e de renda média, mas fixa e confiável de certa forma excluídas
de acessos e benefícios da vida ativa de trabalho. São pessoas normalmente
viúvas ou descasadas, que veem diminuídas suas perspectivas de vida, com
reduzida mobilidade em uma sociedade capitalista, que procura no mercado
crescente e promissor de consumidores idosos uma oportunidade de negócios
de produtos e serviços de lazer e bem estar. Isso confere a visão de
oportunismo ao site Maisde50 e nele parece não haver filantropia ou
gratuidade.
Nesses dizeres, mais uma vez o sujeito pensa ter o controle sobre o
que diz, mas isso lhe escapa. um efeito de sentido que sugere
transparência, mas não, o que realmente existe é chamado de opacidade. A
forma material do discurso está enraizada na História para produzir sentido.
Logo, o sentido não é um só, único e individual, mas um já-lá, um dito antes em
outro lugar.
Considerando que na sociedade o “velho” é descartado, mas não se
pode descartar o homem que permanece nele, o site chama a atenção, num
discurso utilitarista, para a complicada questão do sujeito de meia idade
sempre desvalorizado, propondo, porém a esperança de uma vida ativamente
feliz e cheia de perspectivas.
O Maisde50 procura colocar-se como um espaço de aconselhamento,
oferecendo caminhos, instruções para aprender a viver a dita melhor idade, ao
produzir um discurso claro e explícito de que é possível continuar a ser jovem
eternamente. Pode-se perceber também que a construção do lugar social
que as pessoas maduras devem ocupar. O sujeito idoso deve ocupar um lugar
social de positividade, mesmo que ainda não tenha sido incluído no mundo
digital, ou desconheça as novas tecnologias, ou diga que não pertence a esse
mundo virtual.
75
Como se viu, pode haver um sujeito heterogêneo, pois que o discurso
admite a contradição e desigualdade, ou seja, dentro de um mesmo discurso
pode haver várias formações discursivas. Essa heterogeneidade associa-se à
idéia de alteridade (presença do discurso do outro como discurso de um outro
e/ou discurso do Outro)” (GREGOLIN, 2007).
Pela memória coletiva, a formação discursiva traz à tona a instabilidade
e a dispersão dos sentidos, mas também a sua permanência. “O sentido está
em permanente jogo. Ele pode sempre vir a ser outro”. (PÊCHEUX, 1997).
Certos discursos produzem enunciados polêmicos, que fazem jorrar sentidos
anteriormente considerados, provocando confrontos nas diversas formações
discursivas e constituindo um novo objeto.
Essas considerações teóricas podem resumir o que foi trabalhado nesta
dissertação, pois o que se observou e se analisou no site Maisde50 corrobora a
teoria e mostra que a modernidade líquida realmente é uma situação ambígua,
ao mesmo tempo de controle e de falta de controle do discurso. Todo discurso
tem “o seu avesso e o seu direito”, como diz Foucault (2000).
A análise comprovou que os produtores do site e os internautas que dele
participam o „sujeitos heterogêneos‟, vivendo num mundo em constante
mutação, um mundo em que as pessoas, especialmente as que têm mais de
50 anos, estão sempre em dúvida, como se a liquidez e a fluidez dos discursos
contribuíssem para que os comportamentos humanos se diluíssem e se
recompusessem numa velocidade incontrolável.
Assim o Maisde50 não é velho, mas para ele construiu-se uma outra
realidade, presente em todos os lugares do site, um realidade simulacral em
que o ser que envelhece ainda permanece jovem, ativo e feliz. E todos os
problemas típicos da idade são apenas pequenos obstáculos que podem ser
superados com uma postura mais positiva diante da vida, pois as tecnologias, o
avanço da medicina e a própria internet estão ai para serem utilizadas para
isso.
76
REFERÊNCIAS
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Recife: FASA, 2002
BAUMAN, Z. Vida líquida. Tradução de Carlos Alberto Medeiros. Rio de
Janeiro: Jorge Zahar, 2007.
______. Identidade: entrevista a Benedetto Vecchi. Tradução de Carlos
Alberto Medeiros. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2005
______. Comunidade: a busca por segurança no mundo atual. Tradução de
Plínio Dentzien. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2003.
______. Modernidade líquida. Tradução de Plínio Dentzien. Rio de Janeiro:
Jorge Zahar, 2001.
BOSI, E. Memória e sociedade - lembranças de velhos. 3ed. São Paulo: Cia
das Letras, 1994
DREYFUS, H.; RABINOW, P. Michel Foucault, uma trajetória filosófica:
para além do estruturalismo e da hermenêutica. Tradução de Vera Porto
Carrero. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 1995.
FOUCAULT, M. A escrita de si. In: MOTTA, Manoel Barros da (Org.). Michel
Foucault: Ética, sexualidade, política. Tradução Elisa Monteiro, Inês Autran
Dourado Barbosa. Rio de Janeiro, RJ: Forense Universitária, 2004
______. A arqueologia do saber. Tradução de Luiz Felipe Baeta Neves.
edição. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2000.
______. A ordem do discurso. Tradução de Tradução de Laura de Almeida
Sampaio. 6ª edição. São Paulo: Loyola, 1998.
______. O que é um autor? Tradução de Antonio F. Cascais e Edmundo
Cordeiro. Vega: Passagens. 1992.
FRAIMAN, A. Envelhecer é um saco Como enfrentar a dificuldade em aceitar
as limitações do tempo. In: Maisde50: o site que acompanha o seu tempo.
Matéria do link Consultores. Disponível em:
http://www.maisde50.com.br/editoria_conteudo2.asp?conteudo_id=7329.
Acesso em 24/09/2010.
FREIRE, P. À sombra desta mangueira. São Paulo: Olho d‟Água, 1995.
77
GREGOLIN, M. do R.. Foucault e Pêcheux na construção da análise do
discurso: diálogos e duelos. São Carlos, SP: ClaraLuz, 2004.
GOLDSTEIN, L. L. No comando da própria vida: a importância de crenças e
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Freire (Orgs.), E por falar em boa velhice (pp.55-66). Campinas: Papirus,
2002.
HALL, S. A identidade cultural na pós-modernidade. 7. ed. Tradução de
Tomaz Tadeu da Silva e Guacira Lopes Louro. Rio de Janeiro: DP&A, 2002.
LARA, N. P. de. Imagens do outro: imagens, talvez de uma outra função
pedagógica. In: LARROSA, J.; LARA, N. P. de (Orgs.). Imagens do outro.
Tradução de Celso Márcio Texeira. Petrópolis, RJ: Vozes, 1998. (p.181)
MAINGUENEAU, D. Termos-chave da Análise do Discurso. Tradução
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Campinas, SP: Editora da UNICAMP, 1994.
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de Michel Pêcheux. Tradutores Bethania S. Mariani… (et.al.). edição.
Campinas, SP: Editora da UNICAMP, 1997(p. 61 -162).
______. Semântica e Discurso: Uma crítica à afirmação do óbvio. Tradução
Eni P. Orlandi (Et. al.). 3ª edição. Campinas, SP: Editora da UNICAMP, 1997a.
______. O discurso: estrutura ou acontecimento? Trad. de Eni P. Orlandi. 3.
ed. Campinas, SP: Pontes, 2002.
PEIXOTO, C. E. ; CLAVAIROLLE, F. Envelhecimento, políticas sociais e
novas tecnologias. Rio de janeiro: FGV, 2005.
ROSENBERG, R. Envelhecimento e morte. In: KÓVACS, M. J. (Org.), Morte e
desenvolvimento humano. São Paulo: Editora Casa do Psicólogo, 1992. (p.
69-89)
SANTOS, G. A. Os conceitos de saúde e doença na representação social
da velhice. Revista Virtual Textos &Contextos, nº1, Nov. 2002
78
WORTMANN, M. L. C. O uso do termo representação na Educação em
Ciências e nos Estudos Culturais. In: Pro-Posições. Vol. 12, n. 1(34),
março/2001. (p.151-161)
79
ANEXO 1
Imagem do site Maisde50.
80
ANEXO 2
Envelhecer é um saco
Como enfrentar a dificuldade em aceitar as limitações do tempo
Data de Publicação: 24/7/2009 19:29:00
"Tenho 51 anos, sou coordenadora de logística, na ativa, separada, um casal de filhos, 21 e
15 anos, e gostaria do seu parecer na seguinte questão: tenho dificuldade de aceitar que
estou envelhecendo. Sei que isso é um fato, mas não tenho afinidade com pessoas de minha
idade, detesto ambientes "flash back", onde se fala do passado e enaltecem a
maturidade. Não sinto atração por homens maduros também, acho que já deveria me
interessar por relações estáveis, mas prefiro as aventuras. Estou achando que envelhecer é
um "saco". problemas, pacotes de exames, médicos quase que mensalmente. Sintomas
horríveis da menopausa. Isso tudo me deprime e tenho medo que - com o passar do tempo -
isso venha a se agravar. Estou com a famosa Síndrome de Peter Pan? A terapia é
aconselhável? Muito obrigada, Sonia".
Resposta de Ana Fraiman*
Você tem razão em muita coisa, mas não em outras. Vamos por partes. Em primeiro lugar,
você está passando mesmo por momentos difíceis, que na sua linguagem, são “sacais”. Mas
tem que se cuidar e dar graças a Deus ter recursos para isso. Isso não significa, porém,
deixar de reclamar. Não se sinta culpada por fazê-lo.
Para algumas mulheres, a fase do climatério é mais chatinha e às vezes chega a ser
complicada. Requer um acompanhamento médico mais amiúde, mudança de atitude, de
hábitos arraigados, talvez de alimentação, sem falar no ajuste medicamentoso. É delicado,
sim, mesmo porque emocionalmente a mulher nem todas pode se sentir mais irritadiça,
sensível, impaciente e ameaçada. Não é para gostar. É para se tratar, fazer o que é
necessário, conquistar seu re-equilíbrio psicofísico e prosseguir.
Psicoterapia? Se você sente: vontade de conversar sobre aquilo que você tem vivido, sobre
suas ansiedades atuais e sobre o seu futuro, se deseja passar um pente fino nas suas
vivências, liberar-se de medos, pesos e mágoas desnecessárias, se atualizar nos seus
projetos de vida, abrir-se para maiores desafios, se deseja surpreender-se consigo própria,
você terá, sim, muito a ganhar com um profissional bem indicado.
Tem, porém, um senão na sua interpretação dos fatos: seus desconfortos atuais têm a ver
com a fase do climatério em meio a qual acontece a menopausa, última menstruação e
não com o envelhecimento, propriamente dito. Suas dificuldades atuais não vieram para ficar.
Você está assustada. Ninguém gosta disso. A menos que não tenha nada de melhor com
que se ocupar!
O mais comum é que, superadas as dificuldades do climatério a mulher se sinta ótima e até
81
mais bem disposta, mais feliz consigo própria. As primeiras mudanças causam, sim,
estranheza. Se alguma mulher disser que curte as próprias rugas, cabelos ressecados, quilos
a mais e manchas da pele, está de „bobeira‟!
Ora, as indústrias, cosmética, química e da moda, exploram bastante esse medo feminino de
perder a leveza e a atratividade. O que dizer das academias? E as cirurgias plásticas,
então?! Todas nos convidam a esconder as „abominações‟ que o tempo faz com o nosso
corpo maduro! Estrias, carnes moles e sobrantes, cintura grossa e gorduras nos quadris,
varizes e vasinhos, pelos no rosto e todos os etecéteras que nos atormentam a vida e nos
tornam infelizes com as mudanças.
Tem uma coisa, porém, assim como é inadequado enaltecer a maturidade ou a velhice, o
mesmo vale para a juventude. Em nome do que enaltecer qualquer coisa? Então, que se
enalteça a vida e que se evite gente chata que fala de problemas e de doenças, seja
qual for a sua idade.
É conflitiva, sim, a fase do climatério. Não pela idade, mas pela complexidade que o
climatério representa na vida, seja de um homem, seja de uma mulher. Surpresa? Sim,
homem também tem o seu próprio climatério. E isso não é, de modo algum, „síndrome de
Peter Pan‟. É síndrome climatérica, mesmo. Seria uma transposição indevida e, por demais
simplificada, chamá-la assim.
Peter Pan resiste à despedida de sua infância. Peter Pan não tinha filhos, ele mesmo era
uma criança, ainda. Você tem filhos em idade de ter suas próprias crianças. Você está na
idade de se tornar sogra e, avó. Ou talvez se veja frustrada, nesse campo. Dentro de poucos
anos você estará enfrentando questões referentes à sua aposentadoria. Pais de mais idade?
Eles têm ficado ao encargo das filhas.
Esse conjunto de experiências não é fácil de ser enfrentado, não. Você, como a maioria das
mulheres que amam a vida, resiste à idéia de que tudo tem um fim. Sua vida procriativa é
que está finalizando. Um luto profundo se instala. Esse luto necessita ser elaborado. É uma
psicoterapia é bem indicada.
*Ana Fraiman é psicóloga formada em Psicologia Social, especialista nas áreas clínica e
social, com mestrado pela USP e, atualmente, cursa doutorado na PUC de São Paulo na
área de Antropologia. Possui vários livros publicados, é articulista e Diretora da APFraiman
Consultoria, empresa pioneira em Programas de Preparação para a Aposentadoria e Pós-
carreira.
Ana Fraiman escreve semanalmente no Maisde50. Para enviar sua dúvida, envie um email
para editora@maisde50.com.br
82
ANEXO 3
Contracepção depois dos 40
As opções para as mulheres na pré-menopausa
Por Maria Fernanda Schardong
Data de Publicação: 24/7/2009 17:28:00
De acordo com a Pesquisa Nacional de Demografia e Saúde da Criança e da Mulher, do
Ministério da Saúde, 68% das mulheres entre 15 e 49 anos usam algum tipo de método
contraceptivo. Os anticoncepcionais por via oral são os mais utilizados, segundo o mesmo
levantamento. O que vale para as adolescentes, no entanto, nem sempre é a melhor
alternativa para mulheres em faixas etárias mais avançadas. A escolha deve levar em
conta as alterações que ocorrem a partir dessa idade.
O índice de queda da taxa de fertilidade, entre os 40 e os 50 anos, é de cerca de 3% ao ano.
Mesmo quem não pensa em ter filhos, precisa optar por algum tipo de método contraceptivo.
"Em pleno climatério, as mulheres estão sujeitas a muitas mudanças. E as alterações
hormonais podem ter impacto no tipo de método contraceptivo adotado", explica a
ginecologista Elizabeth Eiclher.
As mulheres podem optar pelos anticoncepcionais via oral, os injetáveis, os transdérmicos,
os subcutâneos, e pelos inibidores da menstruação. “Grande parte das mulheres
preferência ao anticoncepcional de baixa dosagem. E, para esta faixa etária, é a melhor
opção, pois ele retarda a menopausa espontânea", afirma a ginecologista, que diz
recomendar O DIU de progesterona, que ajuda a proteger o útero.
Outra saída para prevenir uma gravidez indesejada, porém menos utilizada e menos indicada
-, é a contracepção de emergência. “Na fase madura, o anticoncepcional de emergência é
menos usado do que entre as adolescentes, por exemplo. E deve ser de fato, uma espécie
de último recurso, pois ele desequilibra as taxas hormonais", explica a médica.
Radical e definitiva, a ligadura das trompas é vista com reservas, mesmo para as mulheres
que já decidiram não tentar mais ter filhos. “Atualmente, a laqueadura das trompas tem
sido aconselhada para pacientes que, por diversos fatores, tenham a gestação totalmente
contraindicada. Por exemplo, mulheres que se submeteram há mais de dois partos por
cesariana, ou mulheres portadoras de doenças graves como lúpus, hipertensão arterial
severa, diabetes, entre outras", pondera.
A boa e velha camisinha aparece como melhor todo. “Quando corretamente usado, o
preservativo é um método seguro contra a gravidez indesejada e, principalmente, contra as
DST'S. O problema é que essa faixa etária tem muita rejeição a este método, e as razões são
basicamente culturais, pois elas pouco usaram esse método quando eram jovens”, diz
83
Eiclher.
Veja os prós e os contras dos métodos mais comuns
Anticoncepcionais injetáveis
Vantagem: de fácil administração e boa eficácia.
Desvantagem: os de administração mensal não causam muitos efeitos colaterais. Os que
interrompem a menstruação e são aplicados a cada três meses, podem causar amenorréia
(parada da menstruação) ou irregularidade menstrual, o que pode ser ainda pior nesta fase
(após os 40). Geralmente provocam aumento importante de peso. Em alguns casos
provocam hemorragia ou sangramento irregular.
Dispositivo intrauterino DIU de cobre
Vantagem: não exige disciplina e pode durar mais de 10 anos. Por não conter hormônio é o
método ideal para quem não pode ou não deve tomar hormônio. Fumantes e mulheres acima
de 40 anos são as mais indicadas para este tipo de método anticoncepcional.
Desvantagem: pode aumentar as cólicas e sangramento menstrual e causar anemia.
Precisa ser inserido pelo médico no consultório. No caso de infecções por doenças
sexualmente transmissíveis pode agravar os sintomas.
Dispositivo intrauterino DIU com hormônios
Vantagem: não exige disciplina, dura até cinco anos e não costuma apresentar os efeitos
colaterais do DIU de cobre.
Desvantagem: é caro e pode interromper a menstruação.
Anticoncepcionais transdérmicos
Vantagem: são práticos e fáceis de usar. Como não são ingeridos por via oral, não provocam
náuseas ou dores estomacais. Não precisam de grande disciplina.
Desvantagem: em casos raros podem causar alergia.
Implante subcutâneo
Vantagem: tem eficácia superior à ligadura de trompas e dura até três anos.
Desvantagem: é caro (custa em média R$ 500). Cerca de 70% das usuárias param de
menstruar, fator nem sempre bem aceito pelas mulheres.
Preservativo
Vantagem: impede a transmissão das doenças sexualmente transmissíveis, pode ser
comprado em qualquer farmácia e ser usado somente durante o ato sexual.
Desvantagem: é preciso que o parceiro queira usar o preservativo.
Laqueadura ou ligadura de trompas
Vantagem: a mulher o precisará mais usar nenhum medicamento que possa provocar
efeitos colaterais. Além disto, é o único método feminino que é considerado como definitivo,
embora exista uma pequena falha de uma em cada 2000 laqueaduras.
Desvantagem: é considerado como um método definitivo e precisa de anestesia e
internação para ser realizado.
84
www.maisde50.com.br
ANEXO 4
Livros Grátis
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