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que Burke caracteriza como sublime é a cena ou o evento que “antecipa a razão e nos alarma com
uma força irresistível”
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. Dentre as paixões que o sublime pode suscitar, Burke diz que o terror é a
mais forte, visto que é “o princípio fundamental do sublime”.
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Márcio Seligman-Silva
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retoma a
ideia de Burke e a aprofunda, conectando o sublime à ideia de falta. “O sublime”, diz o autor, “é
uma manifestação do real como princípio de morte que nos abala de tal modo que perdemos a
capacidade de criar conceitos”.
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Em outras palavras, ao contrário do belo, que é ativado por
representações, o sublime é ativado pelo medo da morte. Sendo assim, o sublime torna-se uma
manifestação, ou uma prova, de que a morte existe de fato no nosso quotidiano, no mundo real. O
sublime, portanto, reside no espaço da falta, do vazio, nessa promessa de morte.
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É interessante notarmos que o sublime geralmente vem acompanhado pelo que Seligman-
Silva chamou de uma perda da “capacidade de criar conceitos”. A manifestação mais clara disso é a
impossibilidade da fala apresentada por alguns personagens durante a experiência do sublime. No
artigo “O insólito e as palavras na literatura gótica” (2008), mostramos o caminho de degradação de
Ambrosio, protagonista de The Monk, através da perda da eloquência:
Assim que Ambrosio perde as rédeas da virtude, ele também perde a força de seu discurso. Quando Rosario, seu
fiel aprendiz, revela ser Matilda, ele fica “estupefato, acanhado, e irresoluto, incapaz de pronunciar sequer uma
sílaba” (LEWIS, 1998, p. 55). Quando a mãe de Antonia o flagra no quarto de sua filha, prestes a estuprá-la, “ele
não consegue produzir mais que frases quebradas e desculpas contraditórias” (LEWIS, 1998, p. 261). Quando é
capturado após assassinar a mesma Antonia, “o abade não faz esforço para se defender, preservando silêncio
total” (LEWIS, 1998, p. 336). E ao encontrar o demônio, já nas páginas finais do livro, ele perde por completo o
que no início da trama é o símbolo de seu poder: “seu terror era tal que aniquilou suas faculdades mentais. […]
Aterrorizado com a aparição tão distinta do que havia imaginado, Ambrosio manteve-se olhando para a besta,
desprovido do poder de fala” (LEWIS, 1998, p. 364; 369).
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A falta e o desejo pelo que falta também permeiam os dois próximos conceitos que nos
interessam: o estranho e o abjeto. No conhecido ensaio “O estranho”, de 1919, Sigmund Freud —
inspirado em “Sobre a psicologia do estranho” (1906), de Ernst Jentsch — explica que reprimimos
certas manifestações e certos desejos quando estamos nos primeiros estágios da vida como uma
forma de nos adequarmos ao mundo. Todavia, se mais tarde nos deparamos com aquilo que foi
suprimido no passado, a nossa estabilidade é abalada, pois o objeto que nos perturba é fonte de
desestabilização não apenas por ser estranho, mas também por ter sido familiar. O retorno do que
reprimimos é um processo que causa terror e horror ao mesmo tempo: ele nos repele porque é
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The World as Will and Representation, 1818.
72
BURKE, 1995, p. 329.
73
BURKE, 1995, p. 329.
74
O local da diferença, 2005.
75
SELIGMAN-SILVA, 2005, p. 34.
76
SELIGMAN-SILVA, 2005, p. 34.
77
MELLO, 2008, p. 34.