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Reordenamento Territorial no Surbio da VP
WILSON RODRIGUES DE SOUZA
REORDENAMENTO TERRITORIAL NO SURBIO DA VILA
DA PENHA
Dissertação a ser apresentada
ao Curso de Pós-Graduação
em Geograa da Universidade
Federal Fluminense, como
requisito parcial para obtenção
do Grau de Mestre. Área de
concentração em Ordenamento
Territorial Urbano.
Aprovada em 17 dezembro de 2004
BANCA EXAMINADORA
_______________________________________________________
Prof. Dra. Aureanice Melo Correa
_______________________________________________________
Prof. Dr. Jorge Luiz Barbosa
_______________________________________________________
Prof. Dr. Nelson Nóbrega Fernandes
_______________________________________________________
Prof. Dr. Glauco Bienenstein
Niterói
2004
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Reordenamento Territorial no Surbio da VP
Com imensa alegria gostaria de dedicar este trabalho à minha mãe,
mulher corajosa e lutadora, que, mesmo com pouca instrução escolar, foi
sábia na condução e encaminhamento de vida a seus filhos. Foi minha régua
e compasso.
À minha companheira Sandra, pelos dezenove anos de convívio de
amor de índio”. Uma pessoa fundamental que muito me ensinou da vida.
Com ela constr uma vida, tivemos filhos, construímos casa, plantamos
árvores, vivemos intensamente a vida.
Aos meus filhos, Filipe, Flora e Gabriel, com esperança de que eles
levem avante a saga da nossa família, da luta pela justiça, pela igualdade,
por um mundo melhor pra se viver. Levem para plantar, no futuro, a semente
das lutas que travei ao longo de toda a minha vida.
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Reordenamento Territorial no Surbio da VP
AGRADECIMENTOS
Tenho pautado minha vida na tentativa de viver coletivamente, por isso
tenho muitas pessoas a agradecer e não caberia nesta página. No entanto,
alguns são fundamentais:
Aos meus companheiros do Cogio Pedro II e da EDEM pela força
e pelas preocupações. Meu amigo Bid sabe a rao pelo qual ele tem um
papel especial neste trabalho.
A meninada da turma de 2002 pelas trocas intelectuais que foram de
grande importância no meu retorno à sala de aula na condição de aluno.
Aos meus Professores, sobretudo aos companheiros de longa data e
muitas lutas. Minha admiração e respeito pela Velha Guarda Bolchevic;
Márcio, Barba, Bahiense, Augusto, Bid, Ruy, Carlos.
Um agradecimento especial ao Jorge Barbosa, que foi muito mais
que orientador.
Ao meu fiel companheiro Márcio Claudino, que, de um outro lado,
também foi importante neste trabalho.
4
Reordenamento Territorial no Surbio da VP
SUMÁRIO:
RESUMO:...................................................................................................................5
RESUMO EM LINGUA ESTRANGEIRA:................................................................6
INTRODUÇÃO:.........................................................................................................7
CAPÍTULO 1:.............................................................................................................12
1.1. A BUSCA PARA ENTENDER O REORDENAMENTO
TERRITORIAL NO SUBÚRBIO DA VILA DA PENHA:..........................................12
1.2. A HISTÓRIA DO SUBÚRBIO NA GEOGRAFIA DA CIDADE :........................18
1.3 ESTRUTURA URBANA E CONSTRUÇÃO DOS SUBÚRBIOS
O RIO DE JANEIRO...................................................................................................32
CAPÍTULO 2:.............................................................................................................40
2.1. TRANSFORMAÇÕES ESPACIAIS NA VILA DA PENHA:...............................40
2.2 OS LIMITES DA ÁREA ESTUDADA:..............................................................43
2.3 - BREVIÁRIO DA FORMAÇÃO DA VILA DA PENHA:.....................................53
2.4 A NOVA VILA DA PENHA:................................................................................64
CAPITULO 3: .............................................................................................................88
3.1 - O ESPAÇO SUBURBANO: O LOCAL E O MUNDIAL.....................................88
3.2. AS REDES DAS RELAÇÕES SOCIAIS E O REORDENAMEN
TO TERRITORIAL DO SUBÚRBIO:.........................................................................95
3.3 MERCADO, CONSUMO E PAISAGEM EM MUTAÇÃO:
A NOVA CIDADANIA...............................................................................................97
3.4 - MERCADO E RENDA LOCAL: O OUTRO LADO
DAS MUDANÇAS.....................................................................................................108
3.5 A ECONOMIA EM REDES E OS NOVOS ESPAÇOS DAS
CIDADES: A ESPACIALIDADE POLARIZADA AO ESPAÇO
RETICULAR..............................................................................................................112
CONSIDERAÇÕES FINAIS:.....................................................................................117
BIBLIOGRAFIA:.......................................................................................................120
5
Reordenamento Territorial no Surbio da VP
RESUMO
Neste trabalho, busco investigar as novas espacialidades decorrentes
do processo de reordenamento territorial e do uso do terririo no subúrbio
da metrópole da cidade do Rio de Janeiro, em particular o caso da Vila da
Penha, além de seus impactos nas relações sociais.
Esse processo se materializa concretamente nas esferas do investimento
do capital pós-industrial que insere a economia no movimento da rede mundial
de produção e de consumo e na oferta e circulação de novos e modernos
bens, serviços e entretenimentos típicos da sociedade informacional. Esse
mecanismo não é único nem exclusivo da Vila da Penha, mas apresenta-se
com maior visibilidade pelo fato de estar ocorrendo num clássico bairro
suburbano.
Cada época hisrica constrói suas próprias configurações territoriais
resultantes das praticas sociais. Essas configurações são indutoras ou produto
das relões sociais. Nesse caso, o (re)ordenamento espacial consiste em
mudanças que pretendem se arraigar no interior da sociedade, criando
condições propícias para potencializar ao máximo a nova fase da acumulação.
Esse processo não deve ser entendido como mera racionalização do uso
do espaço ou apenas como finalidade estética, mas como uma profunda
intervenção da ordem capitalista, orientando parcela da sociedade para essa
nova modalidade de inserção na cidadania pela via do consumo e do mercado.
Palavras-chave: espaço, reordenamento territorial, paisagem,
cidade, subúrbio, consumo, cidadania, local, global, rede e capitalismo
pós-industrial.
6
Reordenamento Territorial no Surbio da VP
ABSTRACT
This work presents an investigation of new spatialities that result
from the territorial reordering process on the outskirts of the city of Rio de
Janeiro, particularly the case of Vila da Penha, as well as their impact on
social relations.
This process takes concrete shape within the investment scope of
many companies that are included in a worldwide network of production,
consuming and circulation of new and modern goods and services. It is
neither a unique development, nor is it exclusive of Vila da Penha, but there
it becomes more visible due to the fact of being set in a typical suburban
neighborhood.
Each historical period generates its own territorial configurations as
a result of its social practices. Such configurations are either inductive of
or derived from the social relations. Therefore, the territorial (re)ordering
consists of changes that become established as social space-time.
The territorial reordering focused in this study has set favorable
conditions to intensify a new phase of capital accumulation. This phase should
not be understood as a mere instrument for space usage rationalization, and
neither does it not have a esthetic objectives only. It must be regarded as
a profound capitalist order intervention, which guides the creation of new
shapes and meanings in the suburb of Rio de Janeiro, in what amounts to a
new way of exercising citizenship by means of the market.
KEYWORDS: SPACE, REORDERING, TERRITORIAL,
LANDSCAPE, CITY, SUBURB, CONSUMING, CITIZENSHIP, LOCAL,
GLOBAL, NETWORK AND POST-INDUSTRIAL CAPITALISM.
7
Reordenamento Territorial no Surbio da VP
INTRODÃO:
De modo geral, as áreas suburbanas são caracterizadas como locais
periféricos, com uma paisagem de lentas mudanças na arquitetura, nos serviços
públicos do Estado e nos investimentos de capitais dos diversos setores da
economia privada, em rao de ser o local de moradia dos segmentos sociais
mais pobres, principalmente os trabalhadores das fábricas, dos servos de
menor qualificação, dos funciorios públicos de baixo escalão e os que
ainda o ingressaram (e nem o ingressar) na economia formal urbana.
Na Cidade do Rio de Janeiro, em particular, os subúrbios foram ainda
mais desvalorizados em virtude de, tradicionalmente, constituírem lugar
de moradia do núcleo operário, recebendo essa categoria uma conotação
depreciativa e pejorativa, conforme demonstrou NOBREGA(1995)
1
, quando
aponta um verdadeiro rapto ideológico, que conferiu uma condão de classe
à categoria subúrbio.
O surbio recebeu, tradicionalmente, poucas melhorias na oferta de
serviços públicos, a própria arquitetura e fisionomia urbana eram representadas
com um certo ar bucólico que traduzia uma paisagem de pouco dinamismo.
Subúrbio sempre esteve imaginariamente relacionado como o lugar da
vida que ficou parada no tempo, sobretudo no que se refere à absorção
dos valores da cidade moderna e dinâmica. Esse imaginário do surbio
que, em certa medida, traduz uma qualidade de vivência na cidade mais
1
FERNANDES. N. da N. – O rapto Ideológico da Categoria Subúrbio: Rio de Janeiro
(1858 – 1945) – Tese de Mestrado defendida no PPGG – IGEO – UFRJ. 1996. Rio de
Janeiro
8
Reordenamento Territorial no Surbio da VP
próxima do modo de vida pacato do campo, em oposão à vida agitada da
cidade, no fundo não passa de uma vio discriminaria, com objetivo de
construir um sentido de lugar que combina, ao mesmo tempo, o romântico
com o atrasado e, conseentemente, dando margem às leituras superficiais
e preconceituosas.
Para os próprios moradores, conviver com o rótulo suburbanonas
várias esferas das relações sociais tem o significado de discriminação, de
estigma. Subúrbio geralmente traduz pobreza de seus habitantes e distância
da civilização (da cidade!), a expreso corpórea da falta de civilidade e de
recursos materiais.
Entretanto, neste trabalho, busco entender o movimento acentuado de
renovação da paisagem e do reordenamento territorial de uma área do subúrbio
carioca, o bairro da Vila da Penha. Essa mudaa apresenta um conteúdo
bastante diferente daqueles já experimentados em períodos anteriores e se
materializa numa onda de investimentos do capital privado, tendo como
principal objetivo adequar e inserir esta área e seus estratos sociais nas
novas condições do mercado de consumo, vinculando o local aos interesses
da economia globalizada. Para isso observa-se a chegada dos Shoppings
Centers, das redes de serviços ligadas à informão e ao entretenimento, do
comércio varejista mais modernizado, de novos e sofisticados investimentos
do capital imobiliário, além da retomada e melhoramento dos serviços
públicos do Estado. Pode-se mesmo afirmar que o surbio não é mais o
mesmo.
A atual valorização dessa área suburbana ocorre em função dos níveis
de renda e de padrão de consumo dos estratos sociais aí residentes. Isso
pode ser verificado através das estatísticas de melhorias da infra-estrutura
urbana, dos lançamentos imobiliários, da oferta de bens e serviços, recebendo
a Vila da Penha a denominação gerica de “Princesinha do Subúrbioou
mesmo de ilha de prosperidade no subúrbio.
Os modelos clássicos de estudo destas mudanças em cidades, de
modo geral, preconizavam uma certa expansão espacial a partir de um
centro inovador em direção à periferia. No entanto, quando aplicado à
interpretação do processo de reprodução do urbano na atualidade, os modelos
9
Reordenamento Territorial no Surbio da VP
não respondem com precisão ao que estamos efetivamente verificando nas
estruturas espaciais, no uso do território, na sua forma e no seu conteúdo
implícito. Isso por que essa renovação está se processando de forma
descontínua, com certas características próprias, não sendo um movimento
que abrange espacialmente todos os bairros do subúrbio.
Esse processo ocorre reproduzindo um modelo de ordenamento
territorial das modernas redes de relações, impulsionadas a partir de
mecanismos exteriores e vinculadas a processos de transformações
econômicas mais amplos e globalizadores. A espacialidade reticular liga
pontos a uma rede mais ampla, estabelecendo o global no local e a inserção
do local no global.
O objeto deste estudo é investigar os processos que alimentam
estas mudanças espaciais. Na atualidade, as intervenções processadas na
paisagem são resultantes de novas estratégias da acumulação por parte de
empresas privadas que, a partir das mudanças espaciais, abrem caminho
às modernidades urbanísticas e asseguram a reprodução da ideologia do
consumo e do novas formas de exercio da cidadaniaatravés do consumo
e do mercado.
Para dar conta desta tarefa a pesquisa vai se concentrar um três
capítulos.
No primeiro capítulo, busco recuperar historica e criticamente o
conceito de subúrbio no processo de formação das cidades. Através do
confronto das concepções formuladas pelos mais importantes autores, pode-se
compreender as particularidades dos subúrbio em cada momento histórico
e as diferenças que eles apresentam nas cidades dos países centrais, como
Europa e os EUA e suas particularidades na América Latina, notadamente
no Rio de Janeiro.
Também busco recuperar o processo de formação dos subúrbios no
Rio de Janeiro através dos modelos de estrutura urbana, pois seu estudo
revela o embate pelo processo de apropriação desigual do espaço urbano
pelos diferentes grupos sociais, que produzem o tempo histórico, mas que
também são por ele produzidos.
10
Reordenamento Territorial no Surbio da VP
No segundo capítulo vou trabalhar o que denominamos reordenamento
territorial
2
, suas características, sua gênese, os dados empíricos que a
justificam e a maneira como ele se reflete nas diversas relações sociais que
se estabelecem. Como esse processo não é continuo espacial e socialmente,
será fundamental estabelecer uma demarcação espacial da área abrangida
pelo reordenamento, bem como considerar uma demarcação temporal, que,
no período da década de noventa, esse movimento foi bastante acentuado
pelas condições gerais de afirmação do capitalismo s-industrial.
O que significa o aparecimento da cidadania do consumo em que os
direitos aos bens públicos deixam de ser tratados como bens sociais e são
oferecidos como bens de acesso individual oferecidos pelo mercado?. Em que
medida ela traz novas modalidades de inserção dos indiduos na vida social
do seu lugar, da sua cidade?. Quais as seduções postas pelas possibilidades
de inserção no mundo da globalização e das inovões tecnológicas?.
No terceiro capítulo, procuro concluir este trabalho com uma reflexão
sobre as máscaras e as amarras que estão sendo interpostas aos segmentos
sociais proletários dos subúrbios. Eles não modificaram o papel que lhes
cabe na sociedade capitalista, como classe social espoliada pelo lucro e pela
mais-valia. No entanto, essa nova formatação espacial dilui o papel de classe,
as contradições sociais históricas e cria a ilusão de um novo papel e uma
nova condão de classe para os proletários do subúrbio. A realidade que se
pretende, ou que se pensa estar inserido, deve ser contemplada em múltiplos
olhares de modo se constituir uma alternativa para a superação da exploração
e da alienação. É necessário recuperar a práxis como fundamento e objetivo
da pesquisa e da reflexão acamica, tal como colocado por MOREIRA:
A questão central de uma ciência é a do caráter de sua
práxis. Se a prodão cienfica não visar uma pxis”
2
Nosso objetivo é diferenciar essas mudanças de outras modalidades consagradas em estudos urbanos,
entendendo a qualidade desta como uma ruptura em dois sentidos. Quanto aos agentes que alimentam este
processo de reordenamento, vinculados a processos mais amplos da economia capitalista pós-industrial,
onde outros setores assumem papel preponderante na acumulão, com foco na sociedade de consumo de
novos bens e serviços. Na outra ponta, vai se (re)apropriando do espo e enunciando um outro momento
hisrico, onde a geometria espacial é portadora e, simultaneamente, indutora de outras relões sociais.
Ela materializa as relações postas neste momento histórico mas, ao mesmo tempo, alimenta e impõe o
modo de vida da alienão e do consumo, uma nova fase da acumulação capitalista.
11
Reordenamento Territorial no Surbio da VP
social transformadora, visará o fim oposto. Em uma
sociedade de classes não há oportunidade para eqvocos:
ou a cncia serve às classes dominantes, para acumular
ainda mais em suas mãos capital e poder, ou serve às
classes dominadas, para avançarem em suas lutas por
uma sociedade nova, (...), sem opressão (MOREIRA
3
.
1980. p. 268
3
).
Nosso objetivo primordial é entender as mudanças espaciais e,
simultaneamente, sua ligão inexorável com as relações sociais.
3
MOREIRA, R. – Geografia e a “Pxis”: Algumas Questões. Revista Vozes. Geografia e Sociedade – Os
novos rumos do pensamento geogfico, 1980, RJ, pág. 268)
12
Reordenamento Territorial no Surbio da VP
CAPÍTULO 1: SUBÚRBIO, SUBURBIA, SUBÚRBIOS
1.1. A BUSCA PARA ENTENDER O REORDENAMENTO
TERRITORIAL NO SUBÚRBIO DA VILA DA PENHA:
Não se trata apenas de Hollywood representar um
semblante da vida real esvaziado do peso e da inércia da
materialidade na sociedade consumista do capitalismo
recente, a vida social real adquire de certa forma as
características de uma farsa representada, em que nossos
vizinhos se comportam na vida real como atores no
palco...
O grande sucesso dos irmãos Wachowski, Matrix (1999),
levou essa lógica ao seu clímax: a realidade material que
todos sentimos e vemos à nossa volta é virtual, gerada e
coordenada por um gigantesco megacomputador a que
estamos todos ligados; quando acorda na realidade
real”, o herói, interpretado por Keanu Reeves, se vê numa
paisagem desolada cheia de ruínas carbonizadas o que
sobrou de Chicago depois de uma guerra global. O der da
resistência, Morpheus, lança-lhe uma estranha saudação:
BEM VINDO AO DESERTO DO REAL.”
( Zizek, Eslavoj. Bem Vindo ao Deserto do Real ! -g.
29).
Ao me construir como indivíduo e como cidadão, estou permanentemente
vivendo minha realidade em todas as suas dimensões. Como cientista social,
tenho certamente um olhar bastante privilegiado à medida que através do
arsenal trico da Geografia, posso analisar cada momento dessa constrão
sendo impresso na paisagem e no espaço.
13
Reordenamento Territorial no Surbio da VP
No caso da Vila da Penha (VP)
1
, minha perceão da realidade vem
sendo constrda a partir de uma realidade real que vivencio, pois moro
neste subúrbio há mais de trinta anos, tornando-me um ator e espectador
privilegiado do processo histórico de construção deste subúrbio da Cidade do
Rio de Janeiro. Neste sentido, esta dissertão tem, em primeiro lugar, raes
afetivas e, em segundo lugar, o despertar do interesse pelo tema à medida
que venho constatando que é bastante reduzido o número de trabalhos que
tenham a preocupação de reconstruir a história da formão dos subúrbios
do Rio de Janeiro, uma vez que a maioria dos trabalhos sobre a hisria da
cidade concentraram suas atenções nos aspectos relacionados ao centro da
cidade ou aos bairros da zona sul da cidade.
Contudo, minha reflexão parte de uma realidade que cada vez mais
es de acordo com a citão introdutória de ESLAVOJ, que tenho como
objetivo entender a atual onda de transformações espaciais que estão se
processando no tempo atual na VP, as quais julgo criarem uma nova realidade
que tamm tem fortes aspectos de imaterialidade, da perda de substância
dos diversos componentes do espaço, ou do novo espaço que es surgindo
desta reordenação.
A contrário da paisagem desolada que sobrou de Chicago em Matrix,
na VP a imaterialidade vem revestida de uma áurea de modernidade, de
revitalização dos objetos espaciais, das suas funções e do ordenamento
territorial, que concebem agora a essa porção do surbio uma aparência
cenográfica, remetendo o indivíduo a um outro lugar, mesmo que esse lugar
nunca tenha existido, além de demolir os elementos que o pprios da
identificação do indivíduo com sua meria social e com sua identidade
como cidadão. O donio da imagem e da cópia de estilos resulta na perda
do significado do espaço onde a virtualidade começa a se impor sobre o lugar
real e onde incoencias espaciais, sociais e esticas tornaram-se comuns.
Tudo isso é apenas a realidade apresentada pelos agentes construtores
desse novo espaço, reordenado para garantir a reprodução do capitalismo
financeiro e especulativo, do tempo do consumo e do mercado como
1
( VP) Passaremos a usar esta denominão para se referir a área do recorte espacial adotado como objeto
de estudo do reordenamento territorial.
14
Reordenamento Territorial no Surbio da VP
senhores absolutos das relações socais. É a Matrix do meu subúrbio. Claro
que não tenho aptidões e nem instrumentos para me tornar o herói Neil,
interpretado por Keanu Reeves, mas vejo como fundamental a necessidade
de se estabelecer mecanismos que possam levar a construir a resisncia.
É necessário acordar dessa realidade imaterial numa outra paisagem
em que se possa perceber o seu lado desolador e sombrio, fruto da guerra
imposta pelo capitalismo global.
Os poetas e os compositores, na sua linguagem, retratam de maneira
muito particular a realidade e as manifestações sentidas ou percebidas de
uma vincia muito conectada ao real.
A objetividade das canções que destaco são testemunhas dessa
realidade:
Deixe-me ir, preciso andar
Vou por ai a procurar
Rir pra não chorar
Quero assistir ao Sol nascer
Ver as águas dos rios correr
Ouvir os pássaros cantar...
Nessa canção, CANDEIA (1973)
2
exalta os valores da relação harmônica
entre o homem e a natureza ao seu redor, manifestando mecanismos de
percepção da paisagem.
Mais ácida no seu conteúdo, a canção de RUSSO (1986)
3
tamm é
uma reflexão da típica paisagem urbana, do cotidiano das cidades. Alerta
para a música urbana que ele apreende:
Em cima dos telhados as antenas de TV tocam música
urbana...
...Motocicletas querendo atenção às três da manhã
é música urbana
Os PM’s armados e as tropas de choque vomitam música
2
Candeia Canção Preciso Me Encontrar. Disco Eterna Chama. 1998 Da Colão Perfil
3
Russo, R. Canção Música Urbana 2. Disco Lego Urbana Dois. Ano de 1986
15
Reordenamento Territorial no Surbio da VP
urbana.
O vento forte seco e sujo em cantos de concreto
Parece musica urbana...
Para LEFBREVE, o caminho do cientista não difere do caminho
do poeta, embora no meu caso, sem a mesma maestria, sensibilidade e
genialidade dos poetas, também estou procurando entender a realidade real
nossa de cada dia, principalmente captando as mudanças que interferem nos
mecanismos sensíveis que mobilizamos para decodificar e dar sentido ao
cotidiano, ao percebido, ao vivido, ao visível, na paisagem que materializa
nossa existência.
Essa busca remonta à última década do século passado, anos noventa,
quando venho registrando, acompanhando e reetindo sobre mudanças
signicativas que vem ocorrendo na minha realidade, no meu espaço próximo
e cotidiano, no meu lugar e na minha paisagem.
Paisagem é um conceito extremamente valioso, se entendido como
uma forma concreta da realidade empírica do cotidiano. CARLOS (1992:
36)
4
aponta para a importância da categoria paisagem nos estudos urbanos
ao colocar:
Enquanto forma de manifestação do urbano, a paisagem
urbana tende a revelar uma dimensão necessária da
prodão espacial, o que implica ir além da apancia;
essa perspectiva da análise já introduziria os elementos da
discuso do urbano entendido enquanto processo e não
apenas enquanto forma. A paisagem de hoje guarda momentos
diversos do processo de produção espacial, os quais fornecem
elementos para uma discuso de sua evolão espacial, e
do modo pelo qual foi produzida.(CARLOS. 1992. p. 36)
Entretanto, simultaneamente, as transformações que se verificam na
paisagem num determinado tempo são reveladoras de outras formações
espaciais que ainda estão em construção. É assim que entendo as alterações
4
CARLOS. A. Fani A. – A Cidade: o homem e a cidade; a cidade e o cidao; de quem é o solo urbano?.
Repensando a Geografia. São Paulo. 1992. Editora Contexto
16
Reordenamento Territorial no Surbio da VP
espaciais que estão se processando no meu cotidiano. SANTOS
5
(1996)
sinaliza sobre a intencionalidade como sendo algo posto entre os objetos e
as ações e, conseqüentemente, sobre os mecanismos de reconhecimento das
mudanças que estão se processando no meu entorno. Essas mudanças estão
ocorrendo tanto na introdução de novos objetos no espo como também
pela atribuão de novas funções a antigas formas e objetos.
Minha questão teórica parte exatamente da profunda ligação com a
realidade e com a paisagem do meu espaço cotidiano, do que tenho captado
pela experiência sensível. Moro há mais de trinta anos na Vila da Penha e
pude acompanhar as mudaas ocorridas no interior do espo que sinalizam
para a revelação do novo, para a chegada das modernidades técnicas para
atender à atual dimica da acumulação capitalista pós-industrial, mantendo,
contudo, características inexoráveis, como o processo da lógica desigual
e combinada.
Sempre busquei, tanto no meu fazer geográfico como no ensino da
ciência geográfica, romper com a tradição de ficar apenas na abordagem
empírica e procuro avançar na construção teórica, sem a qual a análise
e o reconhecimento do espaço que resulta da construção social fica sem
profundidade e conteúdo necessários ao seu pleno entendimento.
Sem o rigor dessa preocupação, torna-se muito fácil cair nas
armadilhas das superficialidades na interpretação dessas mudaas e desse
reordenamento territorial. Por isso, estou na busca das reflees acumuladas
pelo saber geográfico, analises teóricas que me permitam apropriar do
vivido e legitimar minha experiência sensível com a realidade e a paisagem,
com base no princípio de que existem efetivamente, profundas mudanças
nos mecanismos de acumulação da sociedade contemporânea da era do
5
SANTOS Milton, A Natureza do Espo – Técnica e Tempo – Rao e Emoção. São Paulo. 1996. Editora
Hucitec.
17
Reordenamento Territorial no Surbio da VP
capitalismo pós-industrial
6
, do neoliberalismo e da globalização.
Com esta dissertão, também estou na busca da construção da história
social do subúrbio através daqueles que a construímos cotidianamente.
Acredito que essa identificação com a hisria leva a uma compreensão do
seus reais agentes contrutores e me permite influir na sua re-construção,
numa outra perspectiva, que não seja a da gica do interesse da acumulão
do capital.
Não desejo, num futuro, ser apresentado ao meu “Deserto do Real.
6
Capitalismo Pós-industrial: A opção do uso dessa categoria é pelo entendimento que está se processando
uma transição no sistema capitalista, na esfera da produção e na realização do capital, da hegemonia do setor
industrial para o domínio do setor financeiro especulativo. Uma nova economia baseada na reestruturão
ecomica e na revolão tecnogica. A industria ainda é essencial à prodão capitalista, no entanto, na
esfera da circulação e do consumo, cada vez com maior foa, o capital financeiro especulativo penetra
nas atividades econômicas e no mercado, colocando a indústria num plano secunrio.
Também uma exteno dos setores imateriais, como a prodão de tecnologia, os serviços, o segmento
informacional, o lazer e o entretenimento, enquanto segmentos de um novo mercado consumidor, que
cada vez mais se tornam lugares da realizão do capital.
18
Reordenamento Territorial no Surbio da VP
1.2. A HISTÓRIA DO SUBÚRBIO NA GEOGRAFIA DA CIDADE :
Em seu trabalho sobre a história das ruas do Rio de Janeiro, um marco
para o entendimento das origens do espaço contemporâneo da cidade do
Rio de Janeiro, GERSON
7
(2000) já fazia o seguinte questionamento sobre
significado dos subúrbios.
Mas que significa, em verdade, subúrbio ou suburbano?
Por estranho que pareça a pergunta se justifica no Rio
de Janeiro, e por ser esta, sem vida, a única cidade do
mundo na qual uma parte, apenas, do que pertence ao seu
perímetro ou centro urbano ficou sendo suburbano, e a outra
o, porque a outra ganhou o nome de bairro ou arrabalde,
quando lógico seria que entre elas essa discriminação não
existisse, e nela bairros e arrabaldes fossem tanto o Méier e
Jacarepaguá ao norte como a vea e Ipanema ao sul(...)
Essa indagação já anuncia uma profunda diferencião no tratamento
do conceito de subúrbio no Rio de Janeiro, permitindo a SOARES
8
(1987) construir o que denominou de conceito carioca de surbio, assim
definido:
Concluindo, podemos dizer que o conceito carioca de
subúrbio contém uma paisagem, um modo de vida e uma
noção administrativa que começa a ser ultrapassada, à
medida que a cidade cresce e que os habitantes desse todo
começam a tomar consciência da unidade que ele possui.
A autora busca compreender e definir categorias apropriadas na
utilização da terminologia que possa exprimir de forma precisa o fenômeno
urbano em todo o mundo e, particularmente no Rio de Janeiro, em função
8
SOARES, M. T. DE S. Divies Principais e Limites Externos do Grande Rio de Janeiro. In Rio de
Janeiro Cidade e Região. BERNARDES L. M. C. E SOARES, M. T. DE S. 1987. Rio de Janeiro.
Biblioteca Carioca da prefeitura da Cidade do Rio de Janeiro.
7
GERSON, BRASIL. História das Ruas do Rio.. Rio de Janeiro. 2000. Lacerda Editores. ( Edão,
remodelada e definitiva).
19
Reordenamento Territorial no Surbio da VP
da sua especificidade, quando comparado com os subúrbios americanos e
europeus.
Este trabalho não busca uma reflexão aprofundada sobre a categoria
surbio, pois vários estudos trataram da cidade e do subúrbio no Rio de
Janeiro como os trabalhos de Bernardes (1961,1962 e 1968), Morris (1973),
Geiger (1962), Santos (1977), Leeds & Leeds (1978) e Abreu (1987), que
apontaram e compreenderam suas particularidade e demarcaram algumas
de suas principais características, como o fato de se entender por surbio
apenas bairros ao longo de ferrovias e desprestigiados na sua forma-conteúdo,
tanto do ponto de vista social quanto dos investimentos do poder blico.
Porém, é fundamental reconhecer, nessa categoria e nesses trabalhos, algumas
pistas que possam clarear as transformões atuais que estão se processando
nesta parte da cidade.
De forma bastante breve, vale voltar aos clássicos que trataram de
maneira geral do conceito de subúrbio, tendo importância seminal os trabalhos
de MUNFORD
9
(1965), LE GOFF
10
(1997), LEFEBRE
11
(2001 ) e HALL
12
(1995), entre outros, que orientam os estudos sobre o tema.
Ao abordar o fenômeno sócio-espacial identificado como subúrbio,
MUNFORD (1965) é enfático ao inscrevê-lo no bojo do processo de formação
da cidade:
(...) o subúrbio se torna visível quase o cedo quanto
a própria cidade, e talvez explique a capacidade da
sobrevivência da cidade antiga, frente às condições de
insalubridade que predominava dentro de seus muros. (...)
Se temos dúvidas quanto ao traçado e ao núcleo central
da cidade egípcia, há tantas pinturas quanto modelos
funerios que nos mostram a vila suburbana com seus
espaçosos jardins. Nos tempos bíblicos encontramos
referências a pequenas tendas que eram constrdas no
meio dos campos e vinhais abertos, talvez para guardar
as safras noite e dia, quando estavam prestes a serem
9
MUNFORD, LEWIS. A Cidade na Hisria Suas origens, suas transformações, suas perspectivas.
Editora Itatiaia Limitada. Belo Horizonte. 1965. 1 Edição.
10
LE GOFF, J. Por Amor às Cidades. o Paulo: UNESP,1998
11
LEFEBVRE. H. O Direito a Cidade. 2
a
Edão. Abril 2001. São Paulo. Centauro Editora.
12
HALL. P. Cidades do Aman. São Paulo. Perspectiva. 2002
20
Reordenamento Territorial no Surbio da VP
colhidas, mas sem vida também para refrescar a alma,
cansada dos tijolos cozidos e dos maus odores da própria
cidade. Aqueles frágeis abrigos ainda são comemorados
nas festas da colheita dos judeus (p.615).
Pode-se aferir com a interpretação do autor, que os subúrbios pertencem
à história da cidade desde os tempos antigos até a cidade moderna, embora
o sejam, na maioria das vezes, excluídos do reconhecimento e interpretão
do movimento de construção e reconstrução do espaço urbano.
A expansão espacial física e social - da cidade significou, sem
dúvida, a criação de extensos, cujas características demonstraram formas e
contdos diferenciados de realização que, longe de se constituir a partir de
fronteiras gidas e intranspoveis, correspondiam às condições de conflito,
contradição e desigualdade da formação das cidades.
LE GOFF (1998) considera o surgimento do subúrbio simultâneo à
instalação de uma nova classe dominante, originada da fuo de populações
romanas e germânicas estabelecidas em territórios do Antigo Império Romano.
Essa classe social consolidou seu poder através de uma forma particular de
direito, denominada banalidade. Esse direito de banalidade representava
uma relação de comando e domínio justapostos como direito de justa e
de direitos ecomicos.
Esse direito se estende pelo campo, sobretudo a partir do século XI,
formando uma estrutura social dominada pelo regime de senhorias (ou se-
nhoriagem banal) que vai exigir cumprimento de obrigações e o pagamento
de tributos (em trabalho, em produto e em espécie) por parte dos camponeses,
agora, tratados como servos.
O direito de banalidade não era exclusivamente de uma feudalidade
rural, pois também diz respeito, como assevera Le Goff (1998:16), ao
território urbano e, sobretudo, ao suburbano.
Desde o século XII, a expansão das cidades medievais consistiu na
reuno, lenta e numa única instituão, do núcleo primordial de um ou mais
burgos importantes. Esses núcleos eram dominados por senhores eclesiásticos
as cidades episcopais, ou por um senhor leigo, as cidades muradas, como
instrumentos de exercio de seus poderes de banalidade:
21
Reordenamento Territorial no Surbio da VP
A cidade lança seu poder sobre certa extensão em volta,
na qual exercerá direitos mediante a cobrança de taxas:
é isso que se chamará subúrbio. É certo que já existiam
em Roma os arrabaldes, por exemplo, os arrabaldes dos
marinheiros, da plebe, como a mal-afamada Suburre, mas
a unidade contemponea entre a cidade e o seu subúrbio,
tão interdependentes, datam da Idade Média.” (LE GOFF,
p.17)
O subúrbio representa um marco de ruptura no sentido da cidade entre
a Idade Média e a Antigüidade. Portanto, pode-se afirmar que uma nova
estrutura urbana se desenha, assertiva que contraria a teses de continuidade
histórica do surbio.
Uma nova ruptura se consolidará entre os séculos XVI e XIX na
Europa, indicando mudanças no caráter medieval do subúrbio, uma vez
que é na maioria desses que as classes dominantes passam a estabelecer no
seu interior sua localização territorial. A centralização do poder na forma
de monarquias responderá por essa mudança substancial das relações
entre a cidade e o surbio. Considerando tais mudanças, é que Munford
denomina de capitais suburbanas os locais nos subúrbios onde as falias
reais estabelecem seus lugares privilegiados para edificar seus palácios e,
sobretudo, buscando maior segurança e uma menor exposão aos protestos
e tumultos da cidade; como fez Ls XIV, foado a abandonar Paris por
causa de um levante popular em sua juventude, resolveu refugiar-se em
Versalhes: uma capital suburbana (MUNFORD, op. cit.: 410).
Não é sem razão que o subúrbio esteve vinculado ao prazer, às
necessidades nobres e, simultaneamente, à agricultura praticada pelos
trabalhadores que habitavam a cidade. Os novos grupos das classes superiores
e instituições que demandavam novos espos - que a cidade adensada e
tensionada não podia mais oferecer - tiveram que se instalar fora de seus
muros. Neles era possível conviver com o ar bucólico, com as dádivas da
natureza, com as agradáveis paisagens, embora estivessem perto da cidade.
Outro aspecto bastante significativo na origem dos subúrbios está
na busca da vivência longe das convenções e compulsões impostas à vida
22
Reordenamento Territorial no Surbio da VP
social da cidade. Ao contrário, no campo, se poderia desfrutar de muito mais
liberdade. Ser aquilo mesmo que se é, construir sua própria casa. Criar (ou
recriar) modos no campo, longe das imposões da vida citadina, é o que
nos informa MUNFORD :
“Essa foi a finalidade dos criadores originais dos subúrbios.
Propunham eles, com efeito, criar um asilo, no qual
pudessem, como indivíduos, vencer os defeitos crônicos
da civilização, embora comandando ainda à vontade os
privilégios e benefícios da sociedade urbana
Diversos exemplos são oferecidos por MUNFORD (1965) para demons-
trar a riqueza e exuberância dos subúrbios na história das cidades. Pode-se
mesmo fixar a origem e o significado hisrico da designação subúrbio do
latim suburbiu, cercanias da cidade. Essa designação, entretanto, não parece
ter acrescentado novas atribuões ao surbio, permanecendo como abrigo
para a produção agrícola e como os espaços de refúgio dos que podiam se
ausentar da cidade adensada e esfumaçada.
As instalações de palácios e, posteriormente de manufaturas, nos
surbios, formaram contrapontos para minar o anterior poder exclusivo
da cidade no seu sentido simbólico e material. Nessa perspectiva, pode-se
perceber o quanto o subúrbio tornou-se mais complexo e o quanto suas
relações com a cidade sempre foram densas, superando as idéias mais
correntes de um conjunto isolado, embora sob domínio da cidade, como
se o seu conteúdo estivesse apartado do processo de construção da vida
econômica, política e social das cidades.
Aqui mesmo no Rio de Janeiro, uma cidade com características
peculiares na sua expansão territorial e populacional, pode-se exemplificar
situações que comprovam esse duplo caráter do subúrbio: em 1810, a rainha
Carlota Joaquina adquiriu e manteve uma imensa propriedade, no que vem
a ser hoje o bairro do Engenho da Rainha - isso explica a origem do nome
do bairro - para que ela pudesse se refugiar da vida agitada da cidade.
Segundo GERSON (2000 ), longe dos olhares da corte, a Rainha mantinha
um estilo de vida mais simples, com mais liberdade e onde mantinha um
23
Reordenamento Territorial no Surbio da VP
estilo pessoal sem as imposições das regras palacianas e das fuões sociais
que o cargo lhe impunha. Essa era uma condição que existiu em outras
cidades e, mesmo em São Paulo, os fazendeiros e demais extratos superiores
cultivavam a dupla moradia no campo e na cidade.
Essa presea da aristocracia política e econômica em seus domínios é
uma expressão relevante de que os subúrbios não possuíam uma desqualificação
social, sendo mesmo considerado como integrante da cidade.
Por último, o subúrbio na cidade industrial moderna pode ser entendido
através da comparação entre MUNFORD e LEFEBVRE (1992)
13
, dada a
importância desses dois pensadores. Embora esses autores analisem aspectos
comuns que envolvem a ocupão social do subúrbio, suas teses podem ser
consideradas anpodas.
Enquanto para L. Munford, o subúrbio, em todo urbanismo moderno,
existe apenas como um espaço destinado às elites e classes médias,
constituindo-se em regio da cidade insalubre e socialmente perigosa; para
H. Lefebvre, o subúrbio tinha uma outra conotação e composição, pois foi
esse o terririo destinado ao proletariado expulso da capital francesa na
segunda metade do século XIX.
Essas distintas leituras conduzem à compreensão da multiplicidade
encontrada no sentido subúrbio como diverso e complexo, tanto no que
se refere à sua composição socioecomica como na sua configuração de
poder territorial. É nesse sentido que MUNFORD (1965: 628) conclui que:
(...) pela própria natureza do retiro, o subúrbio poderia
ser identificado através de numerosas características
sociais correlatas. E em primeiro lugar, constituía uma
comunidade segregada, apartada da cidade não só pelo
espaço, mas pela estratificação de classes uma espécie de
gueto verde dedicado à elite. Aquela enfatuada expressão
vitoriana, Nós nos matemos dentro de nós mesmos,
exprime o espírito do subúrbio, em contraste com a cidade,
pois esta, pela sua natureza, é um ambiente multiforme e
não segregado.
13
LEFBVRE. H. O Direito a Cidade. 2
a
Edão. Abril 2001. São Paulo. Centauro Editora
24
Reordenamento Territorial no Surbio da VP
Pode-se constatar que até mesmo a cidade industrial abriga determinadas
áreas suburbanas destinadas às classes abastadas, constituindo um espaço
integrado, porém diferenciado, da cidade. Para Munford, o subúrbio proletário
por excelência não existia. Há, portanto, uma cortina que sombreia o subúrbio
como expressão de múltiplas territorialidades (distintas significações sociais
e culturais) abrigando elites, classes médias e operios das manufaturas.
Pode-se concluir que a construção do subúrbio, nas cidades mo-
dernas industriais, estaria ligada à necessidade de lugar fora do alcance da
depressão e da desordem da metrópole imunda (MUNFORD). Assim, o
surbio é o lugar dos bem-aventurados da cidade industrial: os que possuem
o poder de disciplinar e aqueles que o disciplinados. A ordem territorial
do capital emerge com toda a sua força hegenica de reprodução social
e econômica.
Para LEFEBVRE (1992) o crescimento do subúrbio na cidade industrial
esteve vinculado a uma estratégia de esvaziar a cidade das disputas entre
classes, da competição pelo Direito à Cidade, o que foi conseguido de
forma satisfatória com a transferência das classes operárias para as áreas
suburbanas da cidade, ou com a suburbanização da cidade.
Nesse caso, diferentemente do olhar hegemônico sobre o subúrbio,
não existiu apenas um surbio para as elites abastadas fora da considerada
cidade ctica, mas também um lugar onde se aplicou a ideologia do habitat,
sobretudo em função da localização da indústria fabril, constituindo nesses
espaços de degradação social, de agressão ambiental típicas do industrialismo
e o descaso das ações do poder público, a morada da classe operária.
É fato histórico que a burguesia promoveu, de forma generalizada e
em variados graus, a expulo dos trabalhadores das áreas centrais para as
periferias, que têm em Paris seu paradigma, como acentuava LEFEBVRE
(1992). Por se sentir ameaçada pela presença das classes operárias e
proletárias, como se uma desordem social a espreitasse, o que pode ser
confirmado pelas jornadas de junho de 1848, a burguesia industrial e
financeira elabora estratégias que visam ao reordenamento da cidade,
25
Reordenamento Territorial no Surbio da VP
expulsando, do centro urbano e da própria cidade, o proletariado, mas o
exclusivamente através da violência bruta, mas através da ideologia do habitat,
ao construir e comercializar imóveis na periferia para as classes operias
como ingresso ao mundo civilizado. A casa no surbio significava alcaar
condições domésticas nas quais a saúde física, moral e social do povo fosse
melhorada (HALL, 1995:64). Com isso pode-se afirmar que esse processo
estava buscando, ao mesmo tempo, melhorar a condição de salubridade e
disciplinar a vida cotidiana dos trabalhadores, sobretudo através da conquista
da propriedade da moradia. É bastante claro o quanto LEFEBVRE (2002)
considera a formação dos subúrbios associada às estratégias territoriais de
classe, ao afirmar que:
“Os subúrbios, sem dúvida, foram criados sob a pressão das
circunstâncias a fim de responder ao impulso cego (ainda
que motivado e orientado) da industrialização, responder
à chegada maca dos camponeses levados para os centros
urbanos pelo êxodo rural”.
É importante salientar que, a essa estratégia, LEFEBVRE (1992)
associava a passagem do período de domínio, até então da função de valor
de uso do espo da cidade, para a transformação do espaço urbano em
valor de troca (em mercadoria), como uma das condões da acumulão
do capitalismo. Embora existindo na cidade pré-industrial o confronto
entre valor de uso e valor de troca - entre a mobilizão da riqueza (em
dinheiro em papel) e o investimento improdutivo na cidade em obras,
edifícios, monumentos, palácios, embelezamento e festas - o valor de uso
se impôs sobre o valor de troca. No entanto, a ordem urbana p-capitalista
era completamente incompatível com um mundo em que o valor de troca
se tornava imperativo.
Nessa busca de caracterizar historicamente o significado da categoria
subúrbio e, sem pretender estabelecer uma transposição mecânica do
modelo de LEFEBVRE, é possível reconhecer, no Rio de Janeiro, uma certa
coincincia entre o crescimento do surbio e o estabelecimento de uma
ideologia do habitat. A necessidade política e ideológica de promover o
26
Reordenamento Territorial no Surbio da VP
surbio, enquanto lugar do proletariado na cidade moderna e reformada,
como em Paris, se instala após grandes motins urbanos, os quais, no caso
do Rio de Janeiro, tiveram seu ápice justamente na chamada Revolta da
Vacina, em 1904. De maneira intica, nos bairros mais pobres e degradados
do centro ocorreram os focos mais ameaçadores de contestação à ordem
imposta pelos planejadores da nova cidade.
A estrutura urbana típica das cidades norte-americanas é um outro
exemplo de ordem locacional de manufaturas e instrias nos subúrbios,
com todo o seu cortejo de conflitos e contradições. Entretanto, para a
Escola de Ecologia Humana de Chicago, em especial para o modelo dos
anéis concêntricos de BURGES, a existência da indústria no subúrbio era
apenas uma complicação entre outras, justificando porque nem em Chicago
nem qualquer outra cidade se adaptasse perfeitamente a este esquema
(BURGESS, 1925: 358). As indústrias eram vistas como objetos espaciais
indeseveis em um subúrbio desenhado pelas e para as elites dominantes:
a subúrbia do american way of life.
Esse postulado encontrou ressonância nas primeiras propostas de leis de
zoneamento e controle do solo urbano nos EUA, cujo princípio fundamental
era evitar a desvalorização prematura de localidades com presença de
determinados usos e, principalmente, de grupos sociais indesejáveis:
O objetivo básico do zoneamento era mantê-Los em seus
lugares fora. Se Eles tivessem entrado, eno o objetivo
seria confina-Los em áreas limitadas. A exata identidade
desses Eles variava pouco, de acordo com a região do
ps. Negros, latinos e pobres cabiam nessa classificação.
Católicos, judeus e orientais eram discriminados em muitos
lugares. Tamm os idosos eram assim qualificados, caso
se candidatassem a ingressar num esquema de habitações
populares (POPPER, apud HALL, op..cit. p.78).
Tendo como referência a dinâmica da urbanização nos Estados Unidos,
HALL (2002) assinala que, entre 1920 e 1930, os subúrbios haviam crescido
duas vezes mais rápido dos que as cidades-base, fazendo com que o urbanita
27
Reordenamento Territorial no Surbio da VP
transforma-se rapidamente no suburbanita, uma vez que boa parte das
falias satisfaziam o desejo de escapar das condões consideradas nefastas
da vida urbana, mas sem perder as oportunidades e vantagens ecomicas
e culturais da cidade. Emergiam, nos EUA, no início do século XX, células
suburbanas, de baixa densidade e diversidade (HALL, 2002:183) que,
impulsionadas pela difuo territorial dos transportes de massa (bondes e
metrôs), correspondiam a um determinado recorte de renda familiar.
“(...) embora as maiores facilidades de transporte venham,
indubitavelmente, a possibilitar que alguns moradores
dos pdios de habitão coletiva, mais ambiciosos e com
melhores salários, providenciem para si casas unifamiliares
nos distritos de arrabalde, é vidente que o grosso das classes
laboriosas continuará vivendo em habitações coletivas,
visto que não dise de recursos para mudar(Comiso
de Habitações Coletivas, apud. HALL, 2002, p.68).
Uma clivagem social é impressa na urbanizão do território dos EUA.
Aos chamados indesejáveis, os bairros degradados e insalubres da cidade
grande e, às classes laboriosas e dias dignas do sonho americano, um novo
modelo citadino de viver com a migração para um outro lugar. JACOBY
(1990, p.53) nos informa a respeito desse movimento, cuja amplitude é mais
vivel após a Segunda Guerra Mundial:
(...) os automóveis, as novas rodovias e as políticas
federais encorajaram, talvez ditaram, a migração suburbana
e, neste processo, acabaram com os centros urbanos. A
construção de casas para uma única família saltou de
100 mil em 1944 a quase 1,7milo em 1950, um recorde
hisrico. Os surbios estavam crescendo quase dez vezes
mais rapidamente que os centros urbanos (JACOBY,
1990, P.54).
Desse modo, pode-se concluir que há determinados modelos de
ordenamento territorial que promoveram a criação de um subúrbio uniforme
e homogêneo, obedecendo a critérios objetivos e subjetivos de segregação
sócio-espacial. O urbanismo dirigido pelo Estado, os interesses privados e,
28
Reordenamento Territorial no Surbio da VP
evidentemente, a ideologia do subúrbio, construíram, nos EUA, a experiência
radical de distinção / desigualdade social urbana, tendo como sua síntese o
processo de suburbanização.
Desse lado do Atlântico, alguns autores demonstraram que, em
cidades como no Rio de Janeiro, o surbio era efetivamente um universo
multifacetado. LIMA BARRETO
14
, em Policarpo Quaresma, assim descrevia
em sua crônica A GRAÇA DO SURBIO:
Os subúrbios de Rio de janeiro são a mais curiosa coisa
em matéria de edificão de cidade. A topografia do local,
caprichosamente montuosa, influi de certo para tal aspecto,
mais influíram, porém, os azares das construções.
Nada mais irregular, mais caprichoso, mais sem plano
qualquer, pode ser imaginado. As casas surgiram como se
fossem semeadas ao vento e, conforme as casas, as ruas
se fizeram. algumas delas que começam largas como
bulevares e acabam estritas que nem vielas(...)
As vezes se sucedem na mesma direção com uma freqüência
irritante, outras de afastam, e deixam de permeio um longo
intervalo coeso e fechado de casas.(...) casas de todos
os gostos e construídas de todas as formas.
Vai-se por uma rua a ver um correr de chalés, de porta e
janela, parede de frontal, humildes e acanhados, de repente
se nos depara uma casa burguesa, dessas de compoteiras
na cimalha rendilhada, a se erguer sobre um porão alto
com mezaninos gradeados.(...)
Não há nos nossos subúrbios coisa alguma que nos lembre
os famosos das grandes cidades euroias, com suas vilas
de ar repousado e satisfeito(...)
E acrescenta:
Os cuidados municipais também são variáveis e caprichosos.
Às vezes, nas ruas, passeio, em certas partes e outras
não; Algumas vias de comunicação são calçadas e outras da
mesma imporncia estão ainda em estado de natureza.(...)
Há pelas ruas damas elegantes, com sedas e brocados,
14
BARRETO. L. O Triste Fim de policarpo Quaresma. 1915. Cnica citada por REBÊLO. M. em Brasil,
Terra e Alma Guanabara. Editado pelo Autor e pela Academia Brasileira de Letras em 1967. Rio de
Janeiro. Págs. 98 e 99.
29
Reordenamento Territorial no Surbio da VP
evitando a custo que a lama ou o pó lhes empanem o brilho
do vestido; operários de tamancos; há mulheres de chita;
e assim pela parte da tarde, quando essa gente volta do
trabalho ou a passeio, a mescla se faz numa mesma rua,
num quarteirão, e quase sempre o mais bem-pôsto o é
que entra na melhor casa.
Visto dessa forma por LIMA BARRETO, pode-se identificar claramente
que os olhares hegenicos sobre os subúrbios estavam incompletos, pelo
menos em realidades diferentes daquelas européias e norte-americanas,
em particular aqui no Rio de Janeiro, onde essa dimensão da cidade teve
fuões e composição social bastante heterogênea. No fundo, o subúrbio
significava uma ntese dos diferentes modos de viver que estão presentes
na produção do espaço urbano. Contudo, a polissemia do subúrbio jamais
significou o reconhecimento do direito à cidade por parte dos diferentes.
Para NOBREGA (1986) na experiência concreta da cidade do Rio de Janeiro:
(...) o surbio não significou uma iniciativa de incluo
das massas numa sociedade moderna e burguesa, mas,
antes de tudo, tornou-se uma expreso do sentimento e da
ação política excludente caractestica da República. E a
expressão xima parece ter sido alcançado exatamente no
rapto ideológico da categoria subúrbio e sua transformação
no conceito carioca de subúrbio, pois ele anuncia e reafirma
literalmente aquela intenção de colocar para fora da cena
urbana suas classes populares.
A ideologia do habitat, presente na expansão urbana e na própria
reforma urbana de Pereira Passos, tamm promoveu a expulsão das classes
trabalhadoras do centro da cidade e produziu o crescimento dos subúrbios
proletários. Entretanto, na capital francesa, essa remoção representou uma
melhoria no padrão de vida da classe trabalhadora, mesmo que combinada
à disciplina edificada como hierarquia social presente na cidade. Já, no Rio
de Janeiro, essa expulsão da área central da cidade tende a desmoralizar e
segregar a classe operária e os demais proletários, sem qualquer oferecimento
30
Reordenamento Territorial no Surbio da VP
de contrapartida por parte dos poderosos, aqueles que viam nos trabalhadores
pobres os indesejáveis ao compartilhamento da cidade.
Procurando caracterizar as contradições sociais no espaço urbano
surgidas da própria reforma da cidade do Rio de Janeiro, ABREU (1987:
66)
15
demonstra que a maior parte da população pobre deslocada para fora
da cidade, ou impossibilitada de residir nela em virtude das proibições
legais impostas, passou a ter, nas áreas suburbanas, seus locais possíveis
de moradia;
(...) nem todos os que eram expulsos dos cortiços ou
que chegavam a cidade localizaram-se, entretanto nas
favelas. A grande maioria, ao que parece, instalou-se
nos subúrbio, contribuindo assim para a sua ocupação
efetiva. Dados apresentados referentes ao período 1890-
1906, parecem confirmar isso, indicando o apreciável
aumento populacional ocorrido nas freguesias suburbanas
mais próximas do Centro: Engenho Novo e Inhaúma.
Desse modo é possível identificar particularidades no crescimento das
áreas suburbanas cariocas. Um lugar multifacetado, com uma composição
social heterogênea e, ao mesmo tempo, um local diferente daquele apontado
como a subúrbia para as elites.
É fato que, no subúrbio carioca, também houve, ao longo da sua
formação e expansão, a ação de diferentes agentes cujas ações buscam
alguma legitimidade na ideologia do habitat, sobretudo através da construção
e venda de moradias populares, evidentemente com o sentido de produzir
lucros apoiados na perspectiva da aquisição da casa ppria por parte dos
operários das fábricas e para a grande leva de migrantes que chegava à
cidade no período de desenvolvimento do processo de industrialização.
Esse movimento, em conjunto com a reforma do centro da cidade, tamm
representa um importante fator no processo de formação dos subúrbios no
15
ABREU, M. de A. A Evolução Urbana do Rio de Janeiro. Rio de Janeiro. IPLANRIO. 1987. Zahar.
31
Reordenamento Territorial no Surbio da VP
Rio de Janeiro e de suas características sócio-espaciais peculiares.
Esses aspectos relacionados permitem identificar uma semelhança
com o modelo Lefebreviano nos seguintes aspectos; quanto ao processo de
formação de áreas suburbanas, quanto à sua histórica composição social
heterogênea, ou seja, ora servindo de lugar de moradia da elite fora dos
locais degradados da cidade, principalmente no período industrial, ora
recebendo a parcela expulsa da cidade ou que a ela chegou pelos diferentes
mecanismos da migração.
32
Reordenamento Territorial no Surbio da VP
1.3 ESTRUTURA URBANA E CONSTRUÇÃO DOS SUBÚRBIOS:
O RIO DE JANEIRO
Em sua bela radiografia, exaltando e recuperando os subúrbios cariocas,
assim como enaltecendo os variados tipos de moradores que construíram
sua história e a rica cultura popular produzida pela vida social, o poeta e
compositor popular NEI LOPES
16
se refere à Vila da Penha:
O leitor vai ver que a Vila da Penha é hoje um dos
mais valorizados bairros do Rio. Também pudera! Aqui
já moraram o jornalista Joaquim Ferreira dos Santos, o
maestro Gilson Peranzzeta, o capitão (do Tricampeonato)
Carlos Alberto Torres, o grande futebolista Romário de
Souza Faria, a cantora Zilda do Zé, o parodista Renato
Barbosa...Só gente fina. E ainda mora o grande poeta e
sambista Luiz Carlos da Vila, que tem este nome artístico
não por causa da Vila Isabel, como muita gente pensa, mas
por causa da Vila da Penha.
A elogiosa apresentão não deixa dúvida do prestigio que o bairro
ocupa hoje na geografia carioca e, de certo modo, refoa a necessidade de
compreensão de uma nova realidade do subúrbio.
No entanto, o próprio LOPES (200: 193) deixa claro, certamente
baseado em sua apurada sensibilidade, que essa realidade é bastante diferente
quando comparada ao passado da Vila da Penha, com a seguinte conclusão:
O bairro, que já foi devagar quase parando, com aquela
16
LOPES, N. Guimbaustrilho e Outros Mistérios Suburbanos. Editado pela Dantes Editora e Livraria em
parceria com a Prefeitura da Cidade do Rio de Janeiro. Rio de Janeiro. 2001. g. 193.
17
Grifo nosso, para destacar a visão do poeta, que certamente deve resultar de sua vasta pesquisa e
experncia emrica dos subúrbios do Rio de Janeiro, reproduzindo uma posão que o bairro já possui
no imagirio popular, resultante das variadas reportagens recentes da imprensa carioca, dos folhetos e
cadernos especializados da oferta imobiliária, bem como da visão popular de repercussão das particularidades
de cada bairro.
33
Reordenamento Territorial no Surbio da VP
quitanda mixuruca no Largo do Bicão, vendendo banana
machucada e um cavalo amarrado na porta; com aquela
areia branca na estrada do Quitungo; com aqueles campos
de futebol gramadinhos mas cheios de ladeiras e calombos;
o bairro hoje é bacana e pspero. Prosperidade essa que
chega hoje abrigando o Olimpo, uma tremenda casa de
shows...
Infelizmente, o como poeta, dom e qualidade que muito me orgulharia
de possuir, mas como ggrafo - posão que também me traz bastante prazer
e paixão -, venho refletindo ansiosamente na tentativa de compreender essa
realidade urbana, como produto do reordenamento territorial em curso.
Nos estudos urbanos sobre o Rio de Janeiro, pouco se considerou da
riqueza e heterogeneidade dos subúrbios, em suas variadas possibilidades:
sua formação e expansão territorial, seu papel na dinâmica da economia
carioca, seu significado como local de moradia de parte considerável da
população que foi expulsa, excluída e segregada das zonas centrais da cidade.
Esse descaso representa a profunda segregação da qual os moradores dos
subúrbios foram objetos, não apenas daqueles que tiveram o poder político e
econômico, mas até mesmo por parte dos intelectuais e acadêmicos. Minha
preocupação decorre desse fato e por isso procuro recuperar a hisria social
dos surbios no sentido de embasar o desvendamento das novas condições
que ele assume na atualidade.
Esse “novo”, essa “desconhecida” situação geram grandes interrogações,
principalmente pelo fato de que o espaço aponta para o futuro, para as
tendências, provocando, assim, a permanente necessidade de reflexão.
Considero que, antes de avançar na leitura das mudanças presentes
no subúrbio carioca e da Vila da Penha em particular, é de fundamental
importância que se demonstre, mesmo que de maneira bastante sintetizada, o
entendimento sobre o referencial trico que embase o modelo de estrutura
urbana que poderá validar a tentativa de explicação da origem e a evolão
dos surbios cariocas.
Torna-se necessário, portanto, estabelecer uma breve consideração
sobre a estrutura urbana, já que historicamente, o estudo da produção do
34
Reordenamento Territorial no Surbio da VP
espaço da cidade, sempre esteve fundamentado na desigual apropriação e
uso do território entre e os diversos grupos e classes sociais.
Mais uma vez, podemos recorrer ao trabalho de NÓBREGA (1996:
78), que fez um aprofundado estudo sobre a evolução dos conceitos de
estrutura urbana, especialmente no caso da evolução do Rio de Janeiro,
onde é observado que:
Na compreensão da estrutura urbana, os estudos sobre
a segregação residencial têm uma proeminência evidente,
de tal modo que a origem dos três modelos clássicos de
estrutura urbana está em trabalhos dedicados a este tema.
Assim Correa (1989 Pág. 66) localiza em Khol (1841),
Burgess (1925) e Hoyt (1939), os criadores dos três modelos
de segregação residencial mais conhecidos e utilizados na
interpretação do espo da cidade.”
No modelo do alemão J.. G. Khol, a espacialidade de sociedades pré-
industriais é marcada pela dicotomia espacial em que as classes ricas estariam
concentradas no centro e os pobres em sua periferia. Essa espacialidade seria
fruto da necessidade dos ricos estarem na proximidade do poder político e
dos objetos localizados nas cidades, como praças, teatros, igrejas, palácio
de Governos, entre outras. Destacaria-se, também, a própria limitação à
circulão imposta pela precariedade dos meios de transportes.
Para os membros da Escola de Ecologia Humana, sendo Burgess (1925)
um de seus maiores expoentes, uma correlação entre as estruturas urbanas e
estruturas sociais e, por isso, reconhecem um padrão de distribuição de classes
oposto ao de Khol, onde, na cidade industrial, houve uma suburbanização
das classes ricas e uma centralização dos pobres, que passaram a ocupar
as áreas degradas e desvalorizadas do centro da cidade, locais que estavam
geograficamente próximo aos locais de oferta de emprego.
Nos variados estudos sobre a temática urbana foi predominante a
interpretação do modelo dualista de área central e de área de periferia ou
surbio, tornando-se um padrão clássico nos estudos sobre o crescimento
urbano das cidades dos pses pobres, em particular, na América Latina.
Como é natural, ou melhor, naturalizado, os modelos dualistas foram
35
Reordenamento Territorial no Surbio da VP
postos em contestação quanto à sua integral aplicabilidade e validade nas
diversas situações dos pses pobres.
A continuidade das contestações às imperfeições dos modelos dualistas
conduz ao surgimento de um terceiro modelo de estrutura urbana, proposto
pelo economista americano Homer Hoyt (1939), que procurava superar os
modelos anteriores ao conceber um padrão espacial em círculos e setores
sucessivos, a partir do centro, captando a diversidade existente na estrutura
urbana.
Em sua extensa pesquisa, FERNANDES (Op. Cit. Pág. 92) explora
a possibilidade de utilização de outro modelo nos estudos do caso do Rio
de Janeiro, fazendo, eno, uma tida oão pelo modelo de Hyot (1939),
que se demonstra muito mais completo para explicar a evolução das cidades
dos países pobres, e ainda possibilita a abrangência de sua aplicabilidade
também aos países da Europa bem como nos Estados Unidos. Assim ele
justifica sua oão:
Dentro do modelo de Hyot, cabe o só este movimento
geral da urbanização capitalista, a suburbanização dos
grupos de alta renda, como também a suburbanização
do proletariado que, por sua vez, tem como uma de suas
causas as reformas urbanas nas áreas populares situadas
nas zonas centrais ou núcleos das cidades.
Argumentando que o modelo de Burgess não é o mais adequado nem
mesmo para os países ricos pois contém um dualismo que desconsidera a
suburbanização das classes operárias até mesmo na própria aplicação do
método de HAUSSMANN am de não considerar a intervenção do Estado
na estruturão urbana, estou procurando justificar também minha opção
pelo modelo de Hyot para entender a evolão da estrutura urbana no Rio
de Janeiro.
Procurando ainda justificar a opção, podem-se citar dois autores que,
por caminhos diferentes, de alguma forma comprovam a existência de uma
imensa pluralidade de situações no processo de construção da estrutura
urbana carioca e seus reflexos nos padrões espaciais de localização das
36
Reordenamento Territorial no Surbio da VP
classes sociais. SANTOS
18
(1986: 226) considera que
“A maior parte da população pobre deslocada para fora da
cidade, ou impossibilitada de residir nela em virtude das
proibições legais que se impunham nesse sentido, entre 1890
e 1906, passou a ter, nas freguesias suburbanas, seus locais
de moradia. Desse modo, como afirma Jayme Benchimol(
Jayme Benchimol. Pereira Passos Um Haussmen Tropical.
Dissertação de Mestrado. Rio de Janeiro. UFRJ. 1983.
g. 503), as comunicações da zona norte e dos surbios
com o centro envolviam, especificamente, o deslocamento
cotidiano de uma população cada vez mais numerosa,
engajada no setor secundário e terciário, entre seus locais
de trabalho, que permaneciam no centro e aqueles que
passavam a ser suas novas áreas residenciais.
Também podemos recorrer ainda a ABREU (1987: 97), que apontava
o seguinte sobre a formação dos subúrbios:
A evolução do espaço urbano carioca no período
l930-1964 é tão contraditória quanto o próprio
período. Em 1930 a cidade já se encontrava bastante
estratificada, isto é, classes altas predominantemente
na nova Zona Sul; classes médias na antiga Zona
Sul e na Zona Norte; e classes pobres nos subúrbios.
Alguns autores já haviam proposto aplicabilidade do modelo de Hyot
ao caso do Rio de Janeiro embora, nesse caso, admitindo certa convivência
com os modelos anteriores. Contudo essas interpretações, de alguma forma,
já questionavam a exclusividade dos modelos universais anteriores.
É importante também destacar um importante trabalho de Yujanovsky
(1971) que constata que a estrutura urbana das cidades latino-americanas
evoluiu de maneira análoga às cidades européias e americanas, sucedendo-
se os três modelos Khol, Burgess e Hyot – conforme a seguinte evolão
histórica:
18
SANTOS. Joaquim Justino Moura dos. Contribuição ao Estudo da História do Subúrbio do Rio
de Janeiro A Freguesia de Inhaúma de 1743 a 1920. Dissertação de Mestrado em História na
UFRJ, Instituto de Filosofia e Ciências Sócias, Departamento de História, no Rio de Janeiro. 1986.
37
Reordenamento Territorial no Surbio da VP
Assim, até 1850, tivemos uma estrutura urbana pré-
industrial clássica com as classes altas na parte central
da cidade e os pobres em sua periferia; entre 1850 e
1930, as cidades que sofreram os impactos mais fortes da
modernizão e da industrializão, como as capitais e os
centros econômicos nacionais, reproduziram o modelo de
Burgess com a deterioração das áreas centrais, a evasão
dos ricos para os subúrbios amenos e reformas urbanas
nos centros históricos através do “método Haussmann”;
finalmente, entre 1930 e 1970, com a enorme expano das
periferias populares pela expulsão dos trabalhadores das
áreas centrais e a torrente imigratória que só consegue
encontrar alojamento em subúrbios desvalorizados e favelas,
somada ao prosseguimento da expansão suburbana da
elite e a manutenção de áreas degradadas junto ao centro,
configura-se uma estrutura urbana inspirada em Hyot.”
Com alguma segurança, pode-se procurar entender, na sua origem mais
remota, o surbio carioca como uma particularidade do espaço produzido
pelo movimento da hegemonia de classe. Apontando as primeiras pistas
para o entendimento de um subúrbio formado por operários, por migrantes
e com uma determinada configuração do padrão espacial, além é claro, da
ideologia de desvalorização e estagnação desta parte do espaço da cidade.
No entanto, a partir da reconstrão do processo de formação dos
subúrbios como parte componente do espaço metropolitano, pode-se procurar
dialogar com o passado histórico que es escrito na paisagem na vida social,
para compreender a ruptura que se processa no tempo atual e a partir da
inserção do subúrbio da cidade numa nova geografia.
38
Reordenamento Territorial no Surbio da VP
BIBLIOGRAFIA:
- ABREU, M. de A. A Evolução Urbana do Rio de Janeiro. Rio de Janeiro.
IPLANRIO. 1987. Zahar.
- BARRETO. L. O Triste Fim de policarpo Quaresma. 1915. Crônica citada
por REBÊLO. M. em Brasil, Terra e Alma – Guanabara. Editado pelo Autor e
pela Academia Brasileira de Letras em 1967. Rio de Janeiro. Págs. 98 e 99
- CANDEIA Canção Preciso Me Encontrar. Disco Eterna Chama. 1998 Da
Coleção Perl
- FERNANDES. N. da N. O Rapto Ideológico da Categoria Subúrbio: Rio
de Janeiro (1858 1945) Tese de Mestrado defendida no PPGG IGEO
– UFRJ. 1996. Rio de Janeiro.
- GERSON, BRASIL. História das Ruas do Rio.. Rio de Janeiro. 2000. Lacerda
Editores. (5ª Edição, remodelada e denitiva).
- HALL. P. Cidades do Amanhã. São Paulo. Perspectiva. 2002.
- JACOBY. RUSSEL. Os Últimos Intelectuais. São Paulo: Trajetória Cultural/
EDUSP,1990.
39
Reordenamento Territorial no Surbio da VP
- LE GOFF, J. Por Amor às Cidades. São Paulo: UNESP,1998
- LEFEBVRE. H. O Direito a Cidade. 2
a
Edição. São Paulo. Centauro Editora,
Abril 2001
- LOPES, N. Guimbaustrilho e Outros Mistérios Suburbanos. Editado pela
Dantes Editora e Livraria em parceria com a Prefeitura da Cidade do Rio de
Janeiro. Rio de Janeiro. 2001. Pág. 193.
- MUNFORD, LEWIS. A Cidade na História Suas origens, suas
transformações, suas perspectivas. Belo Horizonte: Editora Itatiaia Limitada.
1965. 12ª Edição.
- RUSSO, R. – Canção Música Urbana 2. Disco Legião Urbana Dois. Ano de
1986
- SANTOS Milton, A Natureza do Espaço Técnica e Tempo Razão e Emoção.
São Paulo. Editora Hucitec. 1996.
- SANTOS. Joaquim Justino Moura dos. Contribuição ao Estudo da História
do Subúrbio do Rio de Janeiro A Freguesia de Inhaúma de 1743 a 1920.
Dissertação de Mestrado em História na UFRJ, Instituto de Filosoa e Ciências
Sociais, Departamento de História, no Rio de Janeiro. 1986
- SOARES, M. T. DE S. Divisões Principais e Limites Externos do Grande Rio
de Janiero. In Rio de Janeiro – Cidade e Região. BERNARDES L. M. C. E
- SOARES, M. T. DE S. 1987. Rio de Janeiro. Biblioteca Carioca da prefeitura
da Cidade do Rio de Janeiro.
40
Reordenamento Territorial no Surbio da VP
CATULO 2:
2.1. TRANSFORMAÇÕES ESPACIAIS NA VILA DA PENHA:
O desafio agora é demonstrar e identificar as complexas e variadas
transformações espaciais que estão se processando no espaço da Vila da
Penha(VP)
1
.
Na busca do entendimento da cidade, através de variados instrumentos
mais conectados ao tempo presente, como a música popular de grandes
compositores, poetas, autores clássicos e outros, CARLOS
2
(1992)assinala
a importância da forma e da aparência como deposirios dos processos
sociais que constroem a reconstroem permanentemente o espo da cidade
e, por isso, não podem escapar ao olhar do pesquisador.
“Em síntese, pode-se afirmar que as coisas não se constituem
sem que apareçam de certa forma e sejam capazes de serem
apreendidas, analisadas, logo entendidas. É a partir daquilo
que aparece aos olhos do pesquisador que as queses se
colocam e o processo de conhecimento se desencadeia
(g. 24)
1
VP(Vila da Penha): Passaremos a adotar esta denominação para facilitar e tornar mais ágil as leituras
e alises desta dissertação.
2
CARLOS. A. Fani A.A Cidade: o homem e a cidade; a cidade e o cidadão; de quem é o solo urbano?.
Repensando a Geografia. São Paulo. 1992. Editora Contexto.
41
Reordenamento Territorial no Surbio da VP
Nessa perspectiva, para apontar as transformações em curso, é
necessário, em primeiro lugar, considerar três dimensões do espaço, onde
se materializam, de forma bastante concreta, as mudanças que, ao longo
desta dissertação, apresento como sendo impulsionadoras do processo de
construção da nova face do surbio, considerando a atual fase da economia
pós-industrial, foco principal da nossa análise.
A primeira refere-se à dimensão do espaço nos aspectos objetivos e
materiais do arranjo espacial existente( os fixos), tais como: a organização
dos variados sistemas de objetos técnicos integrantes da estrutura espacial,
as formas das paisagens urbanas e os variados instrumentos que permitem a
fluidez e a mobilidade para a circulação das mercadorias e da população. Por
outro lado, os objetos técnicos interagem com o sistema de ões, realizadas
pelas relações sociais que o vida ao espaço, já que os arranjos espaciais
são causa e simultaneamente conseência da ação humana.
Em segundo lugar, a dimensão do espaço referente aos aspectos dos
fluxos, tais como; as novas redes de circulação de informões da sociedade
informacional, as redes de cabos e circuitos eletrônicos de fluxos de dados
digitais e de telemetria, a denominada infovia, as redes para viabilizar as
operações financeiras e bancárias e os circuitos das ofertas dos modernos
e novos bens de consumo, servos e lazer.
Por último, buscamos considerar a dimensão simbólica ou subjetiva
como importante componente do espaço, pois sua presença deve ser entendida
na apropriação e difusão de um conjunto de valores relacionados ao modo
como a sociedade vivencia a prática cotidiana das relações sociais, a presença
das ideologias que promovem uma crescente valorização econômica do
espaço urbano, especialmente nesta parte da cidade, com a multiplicidade
cultural produzida tanto no que ela traz de traços característicos da reprodução
dos padrões dominantes, bem como o que ela representa de resistência, e,
por último, as contradições sociais que alimentam uma permanente luta e
42
Reordenamento Territorial no Surbio da VP
disputa pelo poder, em que cada segmento social busca imprimir sua marca
na tessitura deste novo espaço (re)construído.
A partir destas considerações, é que pretendo explicitar as recentes
transformões que estão se processando no subúrbio da VP, fenômeno que,
no seu conjunto, no meu entendimento, promovem as profundas mudaas
espaciais e, conseqüentemente, uma nova fase da vida social do subúrbio
do Rio de Janeiro e, em particular, da VP.
43
Reordenamento Territorial no Surbio da VP
2.2 OS LIMITES ESPACIAIS DA ÁREA ESTUDADA:
Em seu esforço de reflexão do modo de pensar a cidade, CARLOS
3
(2004.
pág. 18) assim define a questão espacial:
Em primeiro lugar a compreensão da cidade, pensada
na perspectiva da Geografia, nos coloca diante de sua
dimensão espacial a cidade analisada enquanto realidade
material esta por sua vez, se revela pelo conteúdo das
relações sociais que lhe dão forma.
Sob esse ponto de vista, a primeira dificuldade encontrada foi a da
definição de uma área precisa de exteno da ocorrência das transformões
espaciais e que pudesse adotar como recorte espacial. Essa decisão não poderia
estar apenas relacionada ao aspecto sico do espaço, mas estar conectado
com a realidade concreta com a qual nos defrontamos no cotidiano da vida
social, das construções resultantes do passado hisrico e, ao mesmo tempo,
sinalizadoras das tramas do presente.
Obviamente que o trabalho se restringe a uma escala localizada e num
recorte espacial bastante limitado, tanto em função da área de extensão das
transformações mais gerais do subúrbio, bem como pelos desafios de uma
pesquisa de maior envergadura.
No entanto, essa foi uma questão que se colocou e continua sem uma
resposta adequada. Afinal, pode-se adotar maneiras variadas de pensar a
cidade, e conseqüentemente suas variadas mutações, não devendo haver uma
única forma de pensar a riqueza da vida social nas cidades. Isso implica
afirmar que qualquer divisão adotada como referência para assinalar o
recorte espacial de abranncia do fenômeno tratado seria sempre provisória
3
CARLOS. A. FANI A.. O espo Urbano Novos Escritos Sobre a Cidade. o Paulo. 2004. Editora
Contexto.
44
Reordenamento Territorial no Surbio da VP
e relativa.
Como em princípio parecia natural, minha primeira opção recaiu
sobre a divisão potica oficial da Prefeitura da Cidade do Rio de Janeiro
que divide o Munipio em bairros, no caso considerando apenas o bairro
da Vila da Penha, integrante da XIV Região Administrativa Municipal, a
Região da Grande Ira.
A partir de várias reflexões com as informações e seus mapeamentos
específicos, logo de imediato concluí que essa opção seria extremamente
limitada, já que uma primeira análise apontava a extensão do femeno
estudado am dos limites oficiais de um único bairro. Esse processo es
ocorrendo numa área maior do que a escala do bairro da VP. Meu conhecimento
sobre a área estudada, já que inicialmente parti do conhecimento empírico
e todas as suas complexidades, apontava para uma extensão espacial que
não estava circunscrita apenas a um único bairro.
Diante dessa questão, cheguei a considerar a necessidade de ampliar
o foco espacial da análise, e, nesse caso, nossa segunda opção recaiu sobre
a XIV Região Administrativa da Grande Ira. Entretanto, a cada amplião
espacial do foco de análise, o referencial continuou sendo a Divisão
Administrativa Oficial da cidade.
Os mapas a seguir permitem situar, em primeiro lugar, a área do
subúrbio, objeto da análise, partindo da escala do bairro da VP para a escala
da XIV Rego Administrativa da grande Irajá e, por último, aquela área
que denominamos Vila da Penha e adjacências.
45
Reordenamento Territorial no Surbio da VP
46
Reordenamento Territorial no Surbio da VP
47
Reordenamento Territorial no Surbio da VP
- Imagem da XIV RM, extraída do sítio da Prefeitura da Cidade do Rio de Janeiro.
- Imagem da XIV RM, no conjunto do Cidade. Extraída do sítio
4
da Prefeitura da Cidade do Rio de Janeiro.Janeiro.
4
Esses mapas ilustrativos foram extrdos do Sitio abaixo, da Prefeitura da Cidade do Rio de Janeiro e
visam ilustrar o espo territorial que estamos analisando. Eles são apresentados no portal como mapa
ilustrativo, não sendo feita nenhuma refencia à escala ou a outro detalhamento cnico qualquer sobre
o processo de construção dos referidos mapas. Contudo, julgamos importante o uso das ilustrões, pois
permitem entender e visualizar com mais propriedade a nossa área de análise.
http://www.armazemdedados.rio.rj.gov.br
48
Reordenamento Territorial no Surbio da VP
Entretanto, a opção do recorte espacial de estudo da Região
Administrativa não seria suficientemente adequada para refletir com relativa
fidelidade a escala geográfica das transformões em curso. Isso deve-se ao
fato de que alguns bairros da RA o são alcançados por essas transformações
apontadas, permanecendo, no geral, com as suas características históricas
preservadas, como é o caso de Colégio e Vaz Lobo.
Encontramos, em alguns bairros localizados em outras RAs, a ocorrência
de investimentos e ões que o próprias das transformações mencionadas,
a exemplos da Penha e Penha Circular(XI RA) e Del Castilho(XII RA).
A dificuldade de estabelecer limites que sejam coincidentes entre
a esfera da realidade concreta das transformações do surbio da cidade
e os limites jurídicos definidos pelos Órgãos Administrativos do poder
potico não são recentes. Nos seus estudos sobre bairros, datados dos anos
cinqüenta, que retratam o movimento da paisagens urbanas e rurais do Rio
de Janeiro, SOARES
5
(1987. pág. 106) já se defrontava com essa questão
quando relacionava os elementos de caracterização dos bairros:
É preciso, ainda, chamar especial atenção para o
dinamismo desses aspectos de Geografia Urbana, pois como
diz SORRE
6
, Não se está bem seguro no momento em que
se os escreve, se eles já não pertencem ao passado”. Assim,
cada bairro é uma resultante de forças do passado e de
fatores do presente, mas, em todos eles, se esboçam alguns
traços do futuro, que cabe ao geógrafo distinguir.
Apesar dessas questões iniciais e dos problemas que elas colocam,
5
SOARES, M. T. DE S. O Conceito Geográfico de Bairro e Sua Exemplificação na Cidade do Rio de
Janeiro. In Rio de Janeiro Cidade e Rego. BERNARDES L. M. C. E SOARES, M. T. DE S. 1987.
Rio de Janeiro. Biblioteca Carioca da prefeitura da Cidade do Rio de Janeiro.
NOTA IMPORTANTE: A noção geogfica de bairro exposta neste artigo constitui a base conceitual para
a divisão oficial da cidade do Rio de Janeiro em bairros, em 1981. Vide Bairros do Munipio do Rio de
Janeiro, Prefeitura da Cidade do Rio de Janeiro, 1981, p. 122 e mapa.
6
SORRE, Max. L’Habitat Les Fondements de la Géoghaphie Humaine. Tomme III. Paris, Libriarie
armand Colin. 1952. pág. 166. Citada no texto da autora.
49
Reordenamento Territorial no Surbio da VP
utilizo as divisões administrativas estabelecida pela Prefeitura da Cidade do
Rio de Janeiro, no sentido da coleta e utilização dos dados oficiais disponíveis
e com uma representação espacial cartografada, mesmo trabalhando com
recortes espaciais diferentes de abordagem.
Penso que o recorte espacial que seja mais representativo das
transformações apresentadas deve considerar duas escalas de abordagem,
que obedecem aos seguintes critérios.
O mapa anexo, página 52, passa a ser a referência cartografada
fundamental para a compreeno do espaço e das paisagens objeto deste
trabalho e para o entendimento das opções de recorte espacial que vamos
adotar.
Primeiramente, embora possa parecer paradoxal, adoto o Bairro da VP
como sendo o núcleo principal de análise, já que no seu interior encontra-se
um retrato bastante representativo de quase todas as modalidades dos novos
investimentos do denominado capitalismo s-industrial que caracterizam
a tese do reordenamento territorial do subúrbio.
O bairro da VP está demarcado no mapa básico da pesquisa(pág. 52),
indicado na legenda com a cor verde, e apresentando os seguintes limites
geográficos: a norte o bairro de Vista Alegre, ao sul o bairro de Engenho
da Rainha, a leste o bairro da Penha Circular e a oeste o traçado da linha
dois do Met.
Também, para efeito de melhor caracterizar espacialmente o objeto
de estudo no âmbito da cidade do Rio de Janeiro, apresento os mapas das
regiões Administrativas da Prefeitura da Cidade do Rio de Janeiro (mapa
gina 45), destacando a localização da área da XIV RA e o mapa dos bairros
da cidade do Rio de Janeiro ( mapa página 46), onde também destacamos
a localização da VP no conjunto da cidade.
Essa opção significa utilizar o espaço do bairro da VP para procurar
50
Reordenamento Territorial no Surbio da VP
debater as mudanças espaciais que estão ocorrendo no seu interior e que
podem comprovar a ocorrência de um reordenamento territorial e suas
implicões nas relações sociais do surbio.
Essa delimitão o esgota o estoque de queses que estão colocadas
e que representam as contradições existentes num momento de reordenamento
espacial e construção de novas relações sociais. Assim, (re)surgem as
velhas contradições existentes e, simultaneamente, novas contradõeso
produzidas.
Desse modo, julgo que há necessidade imperiosa de que, em
determinadas situações, sejam empregadas uma escala de abordagem mais
ampla, representada pela utilização do recorte espacial que passarei a
denominar Vila da Penha e adjacências (VPA).
Talvez fosse a Vila da Penha e adjancias (demarcada no mapa básico
da pesquisa, com a legenda em amarelo, na pág. 52), o recorte espacial
ideal para ser utilizado como foco das analises. Entretanto, pelas razões já
apontadas, considero não ser possível no momento.
Para efeito de visualização dessa área indicada, a Vila da Penha e
adjancias (VPA) pode ser demarcada pelos seguintes bairros e limites
espaciais (essa área está indicada no mapa básico da pesquisa com a cor
amarela):
1) A nordeste, a linha férrea da Leopoldina, na ligação entre a Av. Brasil
e Av. Lobo Junior, a principal via de circulação em direção a VPA., e pelo
Viaduto João XXIII. A partir desse trecho, a Estrada Vicente de Carvalho
e a Av. Bs de Pina são os dois eixos de circulão sicos de toda a área
de estudo. Tanto no momento atual, bem como no passado recente, foram
os dois eixos sobre os quais os bairros se constituíram e desenvolveram;
2) A Sudeste, seguindo o traçado da Linha Dois do Metrô, tendo como
limite o bairro de Del Castilho. Ao longo do traçado da Linha Dois do Met,
51
Reordenamento Territorial no Surbio da VP
dentro da área da pesquisa, temos as estações de Vicente de Carvalho e a
de Irajá, na direção norte e Engenho da Rainha, Inhaúma e Del Castilho na,
direção sudeste;
3) A Oeste, o limite seria o Largo de Vaz Lobo, ponto de encontro
da Av. Vicente de Carvalho com a Av. Ministro Edgar Romero. Essa é uma
área pouco afetada pelas transformações apontadas.
4) A Norte, o limite seria o Bairro Araújo, localizado no bairro de Vista
Alegre, um típico condomínio de casas de luxo, onde reside uma classe média
alta, que bem caracteriza a nova feição social desta região pesquisada.
Portanto, a análise não ficará restrita apenas à escala do bairro e/
ou RA, buscando utilizar exemplos que estão relacionados a escala mais
ampla de acontecimentos. Sem esse recurso, considero que se poderia perder
alguns elementos fundamentais, que, por sua natureza e particularidade, têm
repercussões em espaços mais amplos do que apenas os limites administrativos
formais.
A alise espacial é indissociável da sociedade que o produz e, nesse
caso, um processo bastante efervescente de reconstrução da espacialidade
para atender às novas demandas das transformações econômicas, culturais
e sociais, com seus reflexos na redefinição do papel dos subúrbios. As
complexidades para captar esse novo movimento da realidade, que processam-
se de forma bastante veloz, reflete-se na dificuldade de se estabelecer, de
forma única e definitiva, um dado recorte espacial. Contudo pela ppria
exigência natural da pesquisa, vou definir o objeto de estudo tendo como
eixo espacial central a VP.
52
Reordenamento Territorial no Surbio da VP
Esta folha é o mapa elaborado da região objeto desta dissertão: Vila
da Penha e adjancias.
MAPA A3
53
Reordenamento Territorial no Surbio da VP
2.3 - BREVRIO DA FORMAÇÃO DA VILA DA PENHA:
As áreas suburbanas vêm, historicamente, passando por processos
connuos de mudanças e transformões nas suas formas espaciais, nos
seus limites, nas suas funções urbanas, na quantidade da população. O
atual reordenamento espacial é mais um desses momentos de revitalização,
reflexo das variadas transformações que ocorrem nas estruturas econômicas e
sociais das cidades, produto de sua vitalidade. Essas mudanças estão sempre
associadas a outras transformações mais amplas que estão se processando
no conjunto do espaço urbano e nas relões sociais.
Especialmente na área enfocada, podem-se identificar, de maneira
bastante resumida, três grandes momentos históricos que marcaram a
formação dessa fração espacial suburbana. O primeiro período compreendido
entre o desmembramento das Freguesias rurais até a década de sessenta. A
segunda, marcada pela significativa expansão imobilria dos anos setenta
e oitenta, que promove uma mudança espacial e na estrutura social. E uma
terceira, que tem inicio a partir dos anos noventa, objeto desta dissertação.
Com a formação dos subúrbios, a partir das antigas Freguesias Rurais
7
,
este primeiro período é marcado pela efetiva ocupação dessa área por núcleos
operários, criando definitivamente o padrão espacial suburbano, quer seja
nas formas, nas funções, na composição social ou na efetiva delimitão
dos futuros bairros e regiões da cidade.
7
A cidade do Rio de janeiro, nos seus primórdios, era dividida sob um aspecto, eclesiástico em diversas
Freguesias ou Paquias, as quais limitava os terririos de jurisdão religiosa, em princípio. Depois
essas mesmas Freguesias passaram a abranger os terririos de jurisdão administrativa.
A divio territorial do então Município Neutro, nos tempos da Monarquia, compreendia um aspecto
Municipal, policial e religioso, que se entrosavam e se confundiam. D, portanto, o uso constante do
termo Freguesia para limitação de todos os atos administrativos ou religiosos. Citado por Noronha
Santos. As freguesias do Rio Antigo. Rio de janeiro. 1965. Pág. 7.
54
Reordenamento Territorial no Surbio da VP
Na sua origem mais remota, pode-se demarcar historicamente entre
1870 a 1930
8
, os bairros do surbio resultaram do desmembramento das
antigas Freguesias rurais. O bairro da Vila da Penha
9
pertencia originariamente
à Freguesia de Irajá. O mesmo pode-se atribuir aos demais bairros que
compõem a denominada área da Vila da Penha e adjacências.
Na freguesia de Irajá, em ritmo bastante acelerado, entre as últimas
décadas do Séc. XIX e a primeira década do Séc. XX, iniciaram-se importantes
transformações na vida econômica e social e nas fuões desempenhadas
até então. Essas marcam a passagem do processo de transição de sua antiga
economia rural para a nova economia urbana além de, gradativamente,
incorporar a função de importante área residencial proletária da cidade do
Rio de Janeiro.
Identificando, de maneira bastante aprofundada, as transformões
nas Freguesias de Inhaúma e Irajá, SANTOS
10
(1986. Pág. 239), apontava:
Apesar de manter-se como importante freguesia rural,
elevando de 1209 para 2347 o número de seus lavradores, ou
de 9,68% para 11,02% sua participação em trabalhadores
8
Empregamos esse período a partir de outros autores que, com trabalhos semelhantes para outros momentos
dessa expansão dos subúrbios, de alguma forma também usaram, de modo geral, essa periodização. Embora
o fa citão explicita, o trabalho de ABREU(1987) tamm é permeado por essa periodização.
Outro autor que também utilizou esta demarcação temporal foi PINON(1987), em trabalho sobre os agentes
da urbanizão no subúrbios da Leopoldina, nos anos setenta e oitenta.
9
A palavra Penha significa pedra e foram exatamente as pedras do Rio Irajá as responsáveis pela formação
da VILA DA PENHA. É que elas formavam verdadeiras barreiras e se transformaram em obstáculos aos
colonizadores, que navegavam com destino a IRAJÁ. Eles eram obrigados a interromper a viagem, onde
é hoje a VILA DA PENHA, e prosseguir por terra. Com o tempo a VILA DA PENHA transformou-se em
PORTO para as embarcações e parada obrigatória para a penetração rumo ao interior. Foi aí que começaram
a surgir as pequenas casas, pomares e hortas que caracterizam a VILA DA PENHA a partir de 1600.
A expansão do bairro começou por volta de 1920, quando já existiam algumas fazendas com ENGENHOS
DE AÇÚCAR e aguardente na região. Vários proprietários iniciaram, por conta da fancia do sistema
de produção de açúcar, o desmembramento e loteamento de seus terrenos. O LARGO DO BIO era
um ponto tradicional, uma enorme BICA era utilizada para abastecer os lavradores e tamm cavalos e
burros que serviam às explorões do interior.
O crescimento do bairro sofreu maior impulso com a constrão do VIADUTO JOÃO XXIII, que liga
a Penha Circular a Vicente de Carvalho e a implantação do projeto de saneamento, tudo na cada de
sessenta.
10
SANTOS. Joaquim J. M. dos. Contribuão ao Estudo da Hisria do Surbio do Rio de Janeiro A
Freguesia de Inhaúma de 1743 a 1920. Dissertação de Mestrado em História na UFRJ, Instituto de
Filosofia e Ciências cias, Departamento de Hisria, Rio de Janeiro. 1986
55
Reordenamento Territorial no Surbio da VP
dessa categoria no município, Irajá aumentou de 506
para 2.646 o número de trabalhadores secundários nela
residente, os quais superaram em quantidade e, mais ainda,
em ritmo de crescimento, o número de lavradores locais
no período. Por outro lado, Ira, que, depois de Inhaúma,
era a segunda freguesia mais próxima do centro da cidade,
bem como a segunda rural mais bem servida pelos meios
de transportes que a ele se destinava, entre 1890 e 1906,
tornou-se também a segunda freguesia da zona rural em
número de domicílios, elevando este de 1.614 para 4.125,
ou em 155,6%, colocando-se como sexta freguesia do
município em número de moradias em 1906.
Assim, pode-se afirmar que, no processo geral de mudaas por que
passava a cidade, inclusive com os reflexos das intervenções estatais no
centro da cidade, com as reformas urbanas e sociais - reforma Pereira Passos
, a antiga Freguesia de Irajá assumiu grande importância, tornando-se a
segunda freguesia residencial proletária da zona rural ou suburbana, e uma
das mais importantes em todo o município, transformando, embora de maneira
desigual, a maior parte de seu território em áreas caracteristicamente urbanas.
Neste momento histórico, pode-se identificar a relão existente entre
a ocupação desta área específica do subúrbio com as reformas no centro
da cidade, que teve como uma de suas principais políticas a expulsão das
classes operárias, para fora da cidade. Neste caso, ocupando essa área em
particular, que mais tarde se transformou nos bairros da Vila da Penha e nos
demais bairros componentes da XIV. RA..
Outro fator bastante significativo dessas mudanças pode ser conectado ao
estabelecimento das linhas férreas, que io desempenhar papel significativo
na formação espacial e no crescimento dos subúrbios da cidade, que essa
expansão acompanhou em tentáculos os eixos ferroviários. Os vários
autores que estudaram a cidade são unânimes em apontar esse fato como
característico na expansão da cidade.
Segundo Santos
11
(1965), a cidade cresceu acompanhando o traçado
11
SANTOS Noronha, em As Freguesias do Rio Antigo – Rio de Janeiro. 1965.
56
Reordenamento Territorial no Surbio da VP
das estradas de ferro, que iniciaram sua operação entre os anos de 1858,
quando, em 29 de março, foi inaugurado o trecho inicial da primeira estrada
de ferro D. Pedro II , depois estrada de Ferro Central do Brasil, a a primeira
cada do c. XX, quando foram implantadas as últimas ferrovias. Ao longo
das estações, foram sendo constituídos os subúrbios, na medida em que
ia ocorrendo o deslocamento dos habitantes da área urbana do Município
onde se situava a Corte para a vasta zona suburbana e rural da cidade. As
linhas férreas passaram a orientar o padrão de ocupação urbana em torno
das estações.
Demonstrando esse processo e a imporncia dos trens na constituição
dos surbios, ABREU(1987 Op. Cit.) faz a seguinte afirmativa:
“O processo de ocupação dos subúrbios tomou, a princípio,
uma forma tipicamente linear, localizando-se as casas ao
longo da ferrovia e, com maior concentração, em torno
das estações. Aos poucos, entretanto, ruas secundárias,
perpendiculares à via férrea, foram sendo abertas pelos
proprietários de terras ou por pequenas companhias
loteadoras, dando início assim a um processo de crescimento
radial, que se intensificaria cada vez mais com o passar
dos anos.(g. 50).
Nesta área em especial, tanto no peodo em que ela constituía a antiga
Freguesia rural de Irajá, bem como, posteriormente, na sua transformação em
bairros suburbanos, três linhas rreas foram bastante significativas na sua
constituição. A Estrada de Ferro da Leopoldina, a Estrada de Ferro da Linha
Auxiliar, e a Estrada de Ferro Rio do Ouro. Esta última, cortando os atuais
bairros de Inhaúma, Engenho da Rainha, Vicente de Carvalho - onde havia
uma estação de passageiros -, Irajá e outros bairros próximos. Nesse antigo
trado, atualmente, foi construída a Linha Dois do Metrô, localizando-se
as atuais estações de passageiros, que conservam esses mesmos nomes.
Ela ainda possa um trecho em ramificação, de cerca de 6 Km., ligando a
estação de Vicente de Carvalho ao Largo da Penha.
Outro agente que teve papel significativo nessa etapa foram os
empreendimentos de pequenas empresas que criaram loteamentos de vendas
57
Reordenamento Territorial no Surbio da VP
de terrenos para as classes operárias, que, a partir da aquisão dos lotes,
gradativamente, foram construindo suas residências. Esses investimentos,
tanto das empresas loteadoras como dos novos compradores, eram de
pequeno porte e a longo prazo, aproveitando o baixo valor do solo nas áreas
suburbanas.
A infra-estrutura bastante limitada e com poucos investimentos do
Estado, uma vez que as prioridades de investimentos destinavam-se às áreas
centrais e nobres da cidade, caracterizou a ocupação suburbana nesse período.
Um caso exemplar desse processo da ação de empresas construtoras e
loteadoras, que praticamente foram responsáveis pela formação da área da
VP, é o loteamentos da Empresa Industrial de Melhoramentos do Brasil, por
volta dos anos quarenta, que se responsável pelo projeto de loteamento do
embrião do bairro da VP, com uma curiosidade na definição dos nomes da
ruas do loteamento, que reproduziam um certoestado de esrito, como;
Travessa da Amizade; Rua da Inspiração; Travessa da Brandura; Rua da
Justiça; Rua da Coragem; Rua do Trabalho. Muitos desses nomes ainda hoje
são conservados e mantidos como nomes oficiais.
Num interessante trabalho que procura reconstruir e recuperar a
meria social e a identidade local do bairro, uma de suas figuras mais
significativas da VP, o Pedreiro Evandro dos Santos
12
, há décadas, vem
colecionando livros e mantendo uma biblioteca comunitária em sua casa.
Organizou um trabalho, que aguarda publicação, que reconstrói a história
do bairro, através das histórias contadas por seus moradores, com relatos e
depoimentos nos quais pode-se confirmar a ão dessas empresas loteadoras
nas nossas pesquisas desse primeiro momento da formação deste subúrbio.
Vejamos alguns desses depoimentos, transcritos do livro,
a ser editado:
depoimento: ...“Em 1949, adquirimos da Iguá Imobiliária
12
PEDREIRO CONSTRÓI COM LIVROS SUA MAIOR OBRA: O sergipano Evandro dos Santos concretizou
em livros o seu sonho de fundar e manter uma biblioteca comunitária. Hoje, com aproximadamente 14 mil
volumes, ainda vê sua idéia criar raízes e outras pessoas fundando bibliotecas baseadas em sua experiência.
Matéria publicada na gazeta Leitores e livros, Rio de Janeiro, ano2, número 15, agosto 2000. Essa e outras
várias matérias na imprensa retratam o espetacular trabalho do Sr. Evandro, que tem minha admiração, além
do meu agradecimento pelas contribuições prestadas neste trabalho.
58
Reordenamento Territorial no Surbio da VP
um lote de terreno no qual construímos, em 1941, a casa
da Maestro Henrique Wogeler, nº 45, existente até hoje.
Moramos nela, eu a Silvinha, durante mais de quarenta
anos e onde criamos nossos cinco filhos”.(...) (22 de agosto
de 200. Família Mota)
2º depoimento: Certa ocasião, estávamos morando em
São Crisvão, era casada de pouco tempo e morava numa
casa pequena e a família aumentando.
Estava esperando meu segundo filho quando soubemos
que outro amigo da falia mudou-se e convidou-nos para
irmos visitá-lo. Descemos no Largo do Bicão. Chegando
lá, ficamos encantados com o lugar.
Ainda tinha alguns terrenos para vender e com o pouco que
tínhamos demos a entrada no terreno. Esses terrenos, pelo
qual diziam, era uma fazenda que os herdeiros lotearam,
a aí começamos a realizar nosso grande sonho. Dois anos
depois, comamos a construir a casa, que ficou pronta em
1958...” (depoimento da falia de Lysia Leite Peruzzi.
Agosto de 2000).
Por último, ainda nesse primeiro momento de construção espacial, tanto
na sua geometria como na sua composição de classes, é necessário destacar,
no período dacada de trinta até aproximadamente a década de cinqüenta
do século passado, a importância que teve o processo de deslocamento
das indústrias, incentivadas pelas medidas governamentais, para as áreas
suburbanas, assim caracterizado por ABREU(Op. Cit.:99),
“(...) o processo de crescimento demográfico e industrial dos
surbios apresentou, a partir de 1930, uma intensificão
notável.(...) O apoio do Estado à atividade manufatureira
modifica bastante o pado de localização industrial e,
como conseqüência disso, o crescimento suburbano também
se redireciona, privilegiando agora as áreas servidas pelas
ferrovias: Leopoldina; Rio D’Ouro e Linha Auxiliar.
Nessa etapa, a indústria se transformou no principal agente de construção
espacial das áreas suburbanas, atraindo investimentos e melhorias do poder
público e ampliando o processo migratório para a região das classes operárias.
59
Reordenamento Territorial no Surbio da VP
Caracterizada pela presença das pequenas empresas loteadoras
particulares, as transformações nos subúrbios foram marcadas pelos
incentivos e investimentos do poder público dados às instrias, nos seus
vários níveis de atuação, com a finalidade de permitir a implantação das
atividades industriais. Data de 1937 o plano de descentralização e zoneamento
industrial, que apontava os surbios ao longo das antigas linhas férreas
da Linha Auxiliar e da Linha Rio do Ouro, que cortam esta área espefica,
como zona pioneira para localização de grandes indústrias.
A área da atual VP e de outros bairros pximos não foram objeto
direto da localização das indústrias, que preferencialmente ocuparam dois
eixos próximos. O eixo dos bairros do Jacarezinho e Del Castilho, onde
foram implantadas importantes indústrias, como a Companhia Nacional
de Tecidos Nova América, em Del Castilho, a General Electric, em Maria
da Graça e a Cisper, no Jacarezinho. Esta região figurava como o segundo
mais importante aglomerado industrial da cidade, a partir dos anos trinta.
Outro eixo de implantão das novas zonas industriais foi ao longo na
Avenida Brasil. Inaugurada em 1946, teve reflexos diretos, principalmente
nos bairros da zona da Leopoldina. ões do Estado, citadas anteriormente,
como aterramento e obras de infra-estrutura, garantiram a incorporação de
novos terrenos ao tecido urbano da cidade, com a finalidade de facilitar a
expansão da localização industrial.
Assim, como aponta ABREU(1987 Op. Cit.),
“Estavam assim oficializadas as áreas industriais da cidade,
que apresentariam na década seguinte um crescimento
espantoso, o só de estabelecimentos fabris como também
de população.
Como a VP e seus bairros próximos não estavam localizados diretamente
nestes novos espaços industriais, os reflexos foram então indiretos. Tornaram-
se espos destinados à moradia da classe operária e das vilas operárias que
passaram a ser os agentes transformadores desses espaços. Pode-se, eno,
considerar que houve um novo surto de crescimento dessa região como
zona residencial, com as feições picas dos bairros operios suburbanos.
60
Reordenamento Territorial no Surbio da VP
Portanto, essas três etapas completam um breve histórico do chamado
primeiro momento de efetiva constituão do bairro da VP, que não teve
um crescimento único enquanto bairro, mas interligado ao processo geral
de formação e expansão das áreas da metrópole do Rio de Janeiro. Além
de reflexos na expano do tecido urbano e, em particular, no processo de
constituição e expansão das áreas do subúrbio da ppria cidade.
O segundo momento ocorreu fundamentalmente nas décadas de
setenta até o final da década de oitenta, e pode ser caracterizado por onda
de mudanças importantes que teve como principal agente indutor o setor do
capital imobiliário. A partir de investimentos na construção de unidades de
apartamentos para moradia familiar, produziu-se um expressivo crescimento
verticalizado do bairro.
Esses empreendimentos residenciais tiveram como público alvo
preferencial a classe média em expansão e ascensão social, resultante do
peodo de crescimento ecomico dessa época, o milagre ecomico dos
anos setenta, que incorporou grande contingente de trabalhadores médios
aos novos segmentos da economia em expansão, notadamente no setor de
serviços e no setor de funciorios públicos das estatais.
O capital imobiliário promoveu, então, uma segunda onda de expansão
espacial nessa área da cidade. Contudo, essas mudanças não promoveram
uma alteração significativa no conteúdo social do espaço. Embora com
alterações nas formas, os processos gerais de crescimento e ocupação espacial
não sofreram redefinições nos usos, no conteúdo e nas funções clássicas da
composão social do subúrbio.
Foi um marco a atuação dos grupos Francisco Xavier Imóveis e
Olímpica Imóveis que, nessa época, atuaram de maneira efetiva na Vila da
Penha, construindo edifícios de apartamentos destinados à classe média.
Recorrendo a uma reportagem da revista Veja, de 17/06/1981,
ALMEIDA(1982. Op. Cit.) destaca o sucesso de venda dessas incorporadoras
que atuavam no subúrbio, num momento de certa crise do setor imobiliário,
principalmente para as grandes incorporadoras que atuavam em bairros
nobres da zona sul e empreendimentos de alto valor de investimento e de
comercializão no mercado.
61
Reordenamento Territorial no Surbio da VP
(...)a Francisco Xavier Imóveis, que comercializou em
1980, 2680 unidades habitacionais, mais do dobro do ano
anterior, atuando preferencialmente nas áreas dos subúrbios
das linhas da Leopoldina, Auxiliar e na Ilha do Governador.
A grandes incorporadores já estão deixando a zona sul
pelos subúrbios, o que deve ser uma tendência.
Esses empreendimento tinham como estratégia mais geral, para
valorizar o solo urbano e maximizar os lucros desses investimentos, produzir
através de campanhas em vários veículos da mídia um enobrecimento
fabricado(ALMEIDA, 1982)
13
dos bairros do subúrbio e das unidades
postas a venda.
Esse sucesso era garantido pela grande disponibilidade de estoque de
terrenos disponíveis ou de construções de fácil demolição, adquiridas a baixo
custo. A margem de lucros também estava garantida a partir do diferencial
entre o preço do terreno (comprado a baixo custo), custo da construção e o
uso de pouca mão-de-obra na construção.
Para se ter uma idéia da força que representava o setor imobiliário como
agente de mudaas espaciais, no ano de 1981, segundo dados da ADEMI,
a VP ocupava a quinta posição dentre os bairros da cidade em número de
lançamentos imobiliários, junto com o bairro de Ipanema, conforme é citado
por ALMEIDA(1982 P.64).
Os prédios construídos edifícios de 12 a 15 pavimentos incorporavam
modernidades, até então só disponíveis em imóveis da zona sul da cidade e
dos bairros nobres, como fachadas em pastilhas ou dermore, esquadria
de alumínio, azulejos decorados no interior dos apartamentos, dependências
de empregadas, espaço interno de disposição funcional, porteiro eletnico,
sao de jogos, espos para festas, elevadores, piscina e outros elementos
que tornavam esses lançamentos atraentes para a nova classe dia emergente
dos subúrbios, e eram utilizados como um importante componente das
13
Termo bastante usado por ALMEIDA, R. S. de em sua dissertação de mestrado Atuação Recente da
Incorporação Imobiliária no Município do Rio de Janeiro: Tendências Espaciais Vigentes e Alternativas
Futuras. Programa de Pós-Graduação da UFRJ. 1982.
62
Reordenamento Territorial no Surbio da VP
estratégias de comercialização.
O Estado foi também outro ator nesta segunda onda de expansão
espacial, atras de investimentos de recursos em obras de infra-estrutura,
no ordenamento planejado da ocupação do espaço, nos planos de zoneamento
dos bairros, na legislão das construções de prédios de apartamentos e
no pprio financiamento da moradia para as classes médias, através de
Instituições fiscais como a Caixa Econômica Federal.
Os agentes imobiliários atuam em estreita relação com o poder público,
que aloca investimentos em infra-estrutura urbana, criando, assim, taxas
de crescimento do valor do solo urbano. ALMEIDA aponta algumas pistas
para entender estas relações entre os investimentos imobiliários e a ação
governamental quando afirma que,
Através desses estudos pode-se perceber o quanto é
importante o entendimento correto das relações entre o
capital imobiliário e o aparelho estatal, causadores de
grandes transformações no espo urbano.( Pág. 33)
Foram vários os investimentos realizados pelo poder público, para
complementar e ampliar a infra-estrutura urnbana, tais como a melhoria da
acessibilidade a essa área, ampliando as vias de circulação através de obras
de asfaltamento das antigas ruas com pavimentão antiga (paralelepedo),
bem como mesmo o asfaltamento de antigas ruas não urbanizadas, além
de outras necessidades , como a extensão de redes de esgoto e de água
encanada, que precisaram ser ampliadas para suportar as novas constrões
que cresceram significativamente, além da oferta de serviços públicos
essenciais, como coleta de lixo, ampliação da capacidade de fornecimento
da rede elétrica e outros.
É importante considerar tamm o crescimento de outros segmentos
associados à expansão imobiliária como o pequeno comércio varejista,
um
circuito, às vezes invivel, mas que, antes da chegada das grandes redes de
supermercado, foi um segmento do comércio que tinha forte presença no momento
de expansão, am da oferta de serviços, de lazer e outros.
Essa foi, sem dúvida, um etapa de um forte surto de mudanças espaciais
63
Reordenamento Territorial no Surbio da VP
verificados nessa região e que teve o capital imobiliário como o mais
importante e principal agente modelador e indutor da expansão espacial,
do ordenamento e apropriação do espaço urbano dessa área.
É inclusive mais apropriado, nesse período, empregar o termo “expansão
da ocupação espacial”, em lugar do termo renovação espacial”, como é o
caso mais recente, objeto do presente estudo.
64
Reordenamento Territorial no Surbio da VP
2.4 A NOVA VILA DA PENHA:
No terceiro momento histórico, para caracterizar o reordenamento
territorial, tomei como ponto de partida, o produto espo-social herdado dos
tempos hisricos anteriores. A partir da geometria espacial já consolidada,
até o inicio da década de noventa, é que vou procurar projetar, no tempo
futuro, as transformações espaciais e sociais que caracterizam minha proposta
de trabalho.
Na atualidade, as mudanças espaciais que estão em curso têm uma
natureza e um conteúdo significativamente diferenciado e objetivam adequar
as antigas formas às novas necessidades da acumulação capitalista. É
necesrio destacar que novos agentes construtores representam as forças de
renovação e têm como objetivo construir novas formas sociais de realizão
do capital. Esses novos agentes estão conectados à modernização mais
gerais da própria lógica da acumulação pós-industrial interligada a uma
rede mundial de prodão e consumo.
Refletindo sobre a revitalização urbana, FANI(2004 Op. Cit. Pág.
109) assim entende esse processo de intervenção de novos agentes sobre
o espaço:
Numa grande cidade, as formas urbanas se recriam
constantemente, ganhando sempre um novos sentidos. As
novas tecnologias, que mudaram o sentido do tempo, com
o desenvolvimento dos meios de comunicação, mudam
profundamente, o processo produtivo, e imprimem uma
nova racionalidade ao espaço.
Os variados agentes que interferem nessa destruição, desvalorização,
recriação e revalorização constantes do espaço irão imprimir, nas formas e
na paisagem, sua marca, segundo sua lógica e suas necessidades.
Inicialmente farei algumas descrições das intervenções mais
significativas na construção dessa nova espacialidade e que estão impregnadas
de sentido econômico, de manifestações das modernidades materiais e de
conteúdo simbólico desse novo processo de reordenamento do subúrbio.
65
Reordenamento Territorial no Surbio da VP
Como marco inicial desse processo, utilizo o ano de 1992 mesmo
considerando que, em análises desta natureza, não se possa delimitar um
tempo cronológico preciso com a construção do hipermercado Carrefour,
que promoveu grande impacto no espaço suburbano em tela.
No inicio da década de noventa, a rede francesa de supermercados
estava em processo de expansão no mercado mundial, abrindo novas filiais
em diversos países, principalmente da Ásia e da Arica latina. O Rio de
Janeiro foi escolhido para seu foco inicial. A loja de Vicente de Carvalho,
inaugurada no dia 5 de maio de 1992, localizada na Av. Vicente de Carvalho,
ao lado da futura estação da linha dois do Metrô, era a terceira grande filial
do grupo, am das filiais da Barra da Tijuca e do Norte Shopping, tamm
recentemente inauguradas.
Esse empreendimento, conta com uma galeria de 25 lojas auxiliares,
em estilo Shopping Center, com prestadoras de serviços, comércio de roupas
finas, perfumaria e outras, além de pra de alimentação para entretenimento
e lazer.
Segundo dados obtidos no sítio da construtora da obra a Craft
Engenharia, pode-se medir o tamanho do empreendimento: terraplanagem
numa área de 102.000m3; pavimentação numa área de 46.000m2; urbanização
numa área de 67.000m2.
Era uma construção que ocupava uma imensa área de terreno, onde
havia sido demolido um conjunto de galpões que anteriormente abrigavam
todos os desitos gerais das redes Mesbla e Ultralar, importantes lojas de
corcio varejista em tempos atrás.
Por estratégia empresarial, não se teve acesso aos dados específicos
do empreendimento, como movimento de pessoas, faturamento, área física
do empreendimento e outras informações. Segundo estimativas da época,
esperava-se uma circulação de aproximadamente 100 mil pessoas por
mês, representando uma filial bastante importante dentro da estratégia de
crescimento da atuação do grupo empresarial no Brasil.
66
Reordenamento Territorial no Surbio da VP
No mapa da área da pesquisa, indicamos o local onde está instalado
o Carrefour.(PAG 49)
As fotos a seguir procuram demonstrar os efeitos multiplicadores que
esse empreendimento teve na área do bairro e nos demais bairros adjacentes:
Foto da filial Vicente de Carvalho(sitio www.carrefour.com.br)
67
Reordenamento Territorial no Surbio da VP
A loja abaixo está localizada ao lado do supermercado, pertencente
ao mesmo grupo, sendo especializada na venda de materiais de construção
em geral.
14
Com a expansão da área de atuação dos negócios do grupo empresarial,
em maio de 2001 foi inaugurada, anexo ao supermercado, a loja Casa e
Construção, que é especializada no comércio de todo tipo de materiais
de construção, como: pisos e azulejos; banheiro e cozinha, decoração
e utilidades domésticas, material básico, tintas e acessórios, elétrica e
iluminão, hidráulica, esquadrias e segurança, chuveiros e aquecedores,
lazer e jardinagem e ferramentas.
Segue um perfil do grupo empresarial,que permite o entendimento da
dimensão econômica do necio instalado no bairro:
14
Obtivemos, junto a Gerência da loja, algumas informações que serviram de suporte para nossas conclusões
sobre o empreendimento. Entretanto, por motivos empresarias, o foram cedidos maiores informões
sobre faturamento, movimento de clientes e outras informações tidas como confidenciais.
68
Reordenamento Territorial no Surbio da VP
A C&C Casa e Construção é o maior grupo de
varejo de materiais para construção, reforma e
decoração do cone Sul. No total, a rede conta com
35 home-centers padronizados em termos de visual,
atendimento, serviços aos clientes e administração, espalhadas
pelo Estado de São Paulo (Grande São Paulo, Sorocaba, São José
dos Campos, Campinas, Ribeirão Preto São José do Rio Preto e
Jundiaí) e Rio de Janeiro (Vicente de Carvalho, Sulacap, Barra da
Tijuca, Boulevard, Norte Shopping e Niterói-Manilha), mais uma
central de Televendas, um departamento de vendas exclusivo para
pessoa judica e construtoras am da loja virtual (www.cec.com.
br). No total, a C&C dispõe de um mix superior a 40 mil produtos,
incluindo produtos de marca própria, a linha C&C Casanova.
A C&C possui o maior estoque de pisos, azulejos, esquadrias, louças,
metais sanitários, tintas e demais artigos para a casa e construção
do Brasil. o mais de duas mil entregas drias para todo o Ps,
que na Grande São Paulo podem ser realizadas em a 48 horas.
OBS: Informativo extraído do sítio da empresa em www.cec.com.br
Localização do empreendimento, anexo ao Carrefour e ao lado da estão do Met de
Vicente de Carvalho.
69
Reordenamento Territorial no Surbio da VP
Por essas informações destacadas, tanto do perfil da empresa, do ramo
de atuão do necio e da dimensão sica e financeira do empreendimento,
pode-se deduzir que sua instalação na VP está amparada numa rígida pesquisa
de mercado e de avalião cnico-financeira
14
para definição locacional
do loja.
Nesse caso, a imporncia e o papel da VP na cidade, seu potencial
de mercado consumidor, sua expansão e crescimento das demais atividades
econômicas, o perfil de renda de uma parte da classe social componente do
bairro e da região de abranncia, foram importantes elementos de definão
da viabilidade locacional desse empreendimento.
Um outro empreendimento dessa mesma natureza comercial também
foi instalado no complexo do Power Center Wall Mart, a loja Leroy Merlin,
localizado na área que denominamos VP e Adjacências, no bairro de Del
Castilho.
Seguindo um programa internacional de expansão, que teve início
no Brasil na década de noventa, a partir de São Paulo, no ano de 2000, foi
inaugurada o 12º Supercenter deste grupo americano na cidade do Rio de
Janeiro. Composto por três lojas: o supermercado Wall Mart, a loja do
Sam’s Club, que é um clube de compras para sócios exclusivos e a Leroy
Merlin voltada para comércio de material de construção.
A rede C&C, que é concorrente da rede Leroy Merlin na disputa
por posão no mercado varejista, certamente levou a instalão das duas
lojas semelhantes na mesma rego. Localizadas num raio de distância de
aproximadamente 5 Km; A C&C, em Vicente de Carvalho e a Leroy Merlin,
na Linha Amarela, em Del Castilho. A primeira ancorada no supermercado
70
Reordenamento Territorial no Surbio da VP
Carrefour e a segunda, no supermercado Wall Mart.
Ainda para comprovar os efeitos multiplicadores do Carrefour, é
bastante emblemático a instalação da rede de fast-food MacDonalds no
terreno do próprio supermercado e posteriormente, em outro ponto da VP.
Atualmente há três lojas da cadeia de fast-food localizadas na VP, num raio
geogfico de aproximadamente 3 km. As duas citadas anteriormente e uma
terceira localizada dentro do Carioca Shopping .
A McDonald’s Corporation é um gigante transnacional que possui cerca
de 30.000 restaurantes em 120 países, com um faturamento anual de cerca
de US$ 40,6 bilhões de dólares americanos. No Brasil, essa multinacional
conta com 1.250 pontos de venda entre restaurantes e quiosques, segundo
dados coletados no sítio da ppria empresa.
Estudos técnicos feitos por especialistas apontam a viabilidade do
ponto comercial pretendido pelo empresário. No caso da rede MacDonald’s,
na venda de franquias, inúmeras exigências são impostas aos franqueadores
seguida de rigorosa seleção para concessão de lojas. O investimento é
muito elevado para cumprir os gastos de implementação e depois, custeio
e operacionalização do restaurante. As cifras eso na casa de milhões de
lares. Outro aspecto bastante pesquisado pela franqueadora e por empresas
especialistas contratadas pelo grupo é a viabilidade do necio quanto ao
potencial de mercado da área a ser implantada, principalmente quando a
loja está localizada fora de Shopping Center.
Segundo a empresa, a força da marca McDonald’s, o suporte tecnológico,
o treinamento e a avaliação de qualidade de produtos e serviços constantes,
sustentados por uma relação estreita entre franqueador, franqueado e
fornecedores, possibilitam um negócio certo, com clientela garantida e
excelente retorno de capital em qualquer lugar do mundo.
Na VP, duas lojas dessa rede, estão localizadas em área fora de
Shopping, que eles denominam “lojas de ruas aberta”. Uma está agregada
ao terreno do Carrefour e a outra localizada no Largo do Bicão, coração
geográfico da VP. São empreendimentos que necessitam de estudos mais
cuidadosos, pois não eso ancorados em locais de freqüência e quantidade
de público garantidos, como ocorre num Shopping Center.
71
Reordenamento Territorial no Surbio da VP
Foto do MacDonald’s anexo ao supermercado Carrefour.
Por último, essa cadeia de lojas da rede de fast-food tem uma forte
representação na dimensão simbólica presente no espo e no imagirio
da população, pois o consumo de seus produtos é ancorado numa constante
propaganda dos meios de comunicação de massa, sobretudo na televio,
relacionando consumo dos seus produtos, ao acesso aos valores de um modo
de vida moderno e vinculado a uma rede mundial de consumidores. Esses
valores são reflexos da chegada de novos investimentos econômicos, são
mediadores da introdão de novos hábitos de consumo, de uso do terririo
e de novos práticas sociais no cotidiano das classes sociais do subúrbio.
Baseado no discurso midiático de que tudo o que o McDonalds faz
visa à satisfação total do cliente, a presea desta rede de lojas no novo
espaço que está sendo reconstruído na nova paisagem da VP é a afirmação
da valorização simbólica deste espaço.
Já que foi arbitrado o ano de noventa e dois como marco de início
desse processo de reestruturação com a chagada do Carrefour, pode-se
72
Reordenamento Territorial no Surbio da VP
também demarcar o ano de 2001 como sendo o apogeu dessas mudanças
espaciais com a inauguração, em maio daquele ano, do Carioca Shopping,
com 73,5 mil m
2
de área construída, com 226 lojas, um Hipermercado
Extra Supermercado, oito salas de cinema da rede mundial Cinemark, as
primeiras da Zona Norte do Rio no conceitostadium”, além das filiais da
Casa & Vídeo, C&A, Leader Magazine e Lojas Americanas.
Conforme aponta Bienenstein
15
(2002), em seu importante trabalho
tratando da natureza e das características dos Shopping Centers, a presença
dessa nova modalidade de objeto no espaço urbano objetiva reorganizar, num
patamar superior, as atividades do setor tercrio das cidades, racionalizar
os espaços destinados a realização do capital e inserir a população na lógica
do consumo. Com eles,
a estrutura e a dimensão de uma importante parcela do
comércio das cidades reconfiguram-se radicalmente a
partir da inserção dos Shopping Centers. Sua natureza
agregadora de atividades, aliado ao seu porte e sua
escala de aglutinão de diversos ramos do corcio e de
serviços, tem transformado sobremaneira distintas parcelas
do tecido e da vida urbana. Sob os auscios da lógica do
super-consumo, seus espaços blicos ruas e praças são
agora reinventados, privatizados.(Pág. 85)
Com essa lógica, é que busco compreender o surgimento desta
modalidade de empreendimento na paisagem e no reordenamento territorial
do subúrbio da VP.
Representante pico do capitalismo s-industrial, o Carioca Shopping
foi construído no terreno que abrigava a antiga Fábrica Standard Eletric,
empresa que produzia equipamentos de central telefônica para as estatais
de telefonia. A brica foi inaugurada em 1949, com a produção de dios
e televisores para a demanda do mercado interno. Mais tarde, com o
crescimento e expano da telefonia, passou a produzir equipamentos para
as estatais de serviços telenicos, produtos mais sofisticados, de grande
15
BIENENSTEIN Glauco, Shopping Center: O fenômeno e sua Essência Capitalista. In Geographia.
Volume 6. Ano III. Universidade Federal Fluminense. Rio de Janeiro. 2002
73
Reordenamento Territorial no Surbio da VP
porte e tecnologicamente mais lucrativos.
A Standard Eletric, por exemplo, chegou a empregar cerca de sete
mil operários, funcionando em três turnos, para atender ao crescimento do
mercado de telefonia.
Ao final da década de oitenta, a empresa gradativamente entrou
em um processo de crise, acarretado pela o modernização tecnológica
dos equipamentos produzidos e da linha de produção, culminando com
o seu fechamento em 1986, deixando os galpões da VP desativados e
abandonados.
Os gales foram demolidos e, no seu lugar, construído o novo imóvel
em que foi instalado o moderno Carioca Shopping, fato que, definitivamente,
colocou a VP no centro da expansão ecomica da região, valorizou todos
os investimentos ali localizados e abriu um novo período de expano
dos vários setores econômicos ligados ao mundo e a ideologia do consumo
de mercadoria, de servos e de lazer, típicos desta fase da economia pós-
industrial.
Segundo dados oferecidos pela administração (agosto de 2004),
O Shopping nasceu depois de muita pesquisa e uma
certeza: faltava um centro completo de compras e lazer em
Vicente de Carvalho, uma das áreas de maior qualidade
de vida e desenvolvimento da Zona Norte do Rio. Estudos
encomendados ao Instituto de Pesquisa e Desenvolvimento
de Mercado (IPDM) concluíram que o bairro, localizado
em uma área estratégica próxima ao Metrô, é ponto de
encontro para 1,2 milhão de pessoas de 32 áreas vizinhas,
com destaque para a Vila da Penha. Dados da ONU
apontaram recentemente a Vila da Penha com alto Índice
de Desenvolvimento Humano (IDH indicador que leva em
conta esperança de vida, taxa de analfabetismo, escolaridade
e renda familiar), superando bairros tradicionais como
Santa Teresa, Catete e Rio Comprido.
74
Reordenamento Territorial no Surbio da VP
www.cariocashopping.com.br
Pela expressão monumental que representa, pelo grau de demanda
de mercado que cria e pelas inúmeras possibilidades de agregar novos
investimentos em variados setores, a instalão do Carioca Shopping passa a
produzir uma significativa mudança qualitativa no espaço da VP, constituindo
assim um marco bastante representativo do fenômeno da reestruturação e
reordenamento territorial no subúrbio. Ainda segundo Bienenstein (2002):
...os investimentos dessa nova dinâmica de acumulação
passaram a determinar uma nova dimica do mercado
consumidor, acarretando o desenvolvimento não só de
novos produtos e tecnologias, como também de novas
formas espaciais no espaço/cenário de nossas cidades.”
(g. 75)
Cabe aqui uma observação importante a cerca das particularidades
do espaço urbano das cidades latino-americanas, quando comparadas com
as cidades dos países centrais. Foi nas cidades dos EUA que os Shopping
Centers originalmente surgiram e se desenvolveram para atender à expano
da demanda de bens e serviços localizadas nas zonas residenciais dos
subúrbios, sendo fundamentais na sua expansão física e no crescimento
populacional, associados à crescente importância do automóvel no cotidiano
75
Reordenamento Territorial no Surbio da VP
urbano. Situão contrária a que estamos verificando nesta realidade atual do
subúrbio do Rio de Janeiro, onde a presença de shopping centers - apesar de
chegar tardiamente - tem a finalidade de reordenar e revalorizar os espos
suburbanos.
Templos do consumo, luminosos e confortáveis, seu grande produto é
a seguraa e a comodidade do consumidor. Nele dificilmente alguém te
seu carro roubado, muito menos assaltado. De quebra, os mais exigentes
serão poupados do constrangimento de ter que deparar-se com pobres,
negros e pedintes, que nas ruas, abusivamente, tentam garantir o seu direito
de sobreviver. Os Shopping-centers são higiênicas ilhas de tranqüilidade
em meio à inseguraa geral, jogadas as culpas, sempre ao poder potico
ou à violência urbana. Os shoppings, segundo o senso comum, o lugares
seguros, práticos e agradáveis para as compras e até o lazer. Legítimos
representantes dos novos espaços produzidos para o consumo embolo da
ideologia do acesso às modernidades decantadas pelo globalizado.
Ao longo da década de noventa, esse foi o setor que mais se expandiu
na cidade do Rio de Janeiro, representando um importante segmento na
recuperação da economia da cidade, depois de um longo período de estagnação
e de esvaziamento econômico.
Todos esses atributos representados por um empreendimento desse
porte terá ainda maior repercuso considerando sua localização no coração
do subúrbio de uma grande metrópole, como é o caso do Carioca Shopping
na VP.
Outro elemento de extrema importância a ser considerado nesse
processo de reordenamento territorial do surbio é a instalão, expano e
gerenciamento das Tecnologias de Informão e Telecomunicação (TIC),que
permitem o funcionamento das redes de tráfego dos serviços de telefonia
fixa e móvel, das redes de fluxos de dados de telemática para atender ao
corcio, à rede bancária e aos demais empreendimentos econômicos que
necessitem deste tipo de meio moderno e instantâneo, bem como para a
oferta em geral dos servos de comunicões, entretenimento, informão e
de lazer, como a televisão a cabo, internet e demais prestadores de serviços
associados e dependentes desses meios de troca e fluxo informacional e de
76
Reordenamento Territorial no Surbio da VP
dados.
A existência dessa rede telemática imaterial coexistindo simultaneamente
com o terririo presente é, na atualidade, um componente fundamental
da própria constituição e estruturação dos espaços físicos e materiais,
notadamente nas metrópoles modernas e conectadas à dinâmica da economia
mundializada, como é o caso da cidade do Rio de Janeiro. Não se pode
entender os espos físicos e materiais, suas formas, suas funções e suas
paisagens, sem considerar a importância dessa rede sobreposta ao próprio
terririo. Virtual não é o contrário de real, mas, sim, a sua complementão.
Os novos investimentos ecomicos que estamos buscando identificar
como sendo aqueles agentes que estão operando essa transformação do
espaço econômico e social do subúrbio da VP, considerados numa escala
local, o todos dependentes da existência da TIC, pois expressam, na sua
vertente mais sofisticada e mais rentável quanto à realização do lucro,
uma rede mundial de interesses do capital financeiro transnacional e das
grandes corporações empresariais. Portanto, na definição locacional desses
investimentos, um componente precioso é exatamente a existência dessa
infra-estrutura da rede telemática.
O período de expano das redes de telecomunicões e telemática na
VP, na década de noventa, é concomitante ao o movimento de reestruturação
gerencial do sistema de telefonia no mundo, na América Latina. Em particular
no Brasil, com o processo de privatização das telecomunicões, que abriu
caminho à chegada de grandes investimentos privados multinacionais
para expansão do setor, fator primordial para a abertura de mercado aos
demais variados investimentos privados nos setores de consumo, de lazer
e de entretenimento, conectando o mercado interno ao mercado mundial
globalizado. A partir do modelo privatizado de telecomunicações, é que
haveuma acentuada ampliação da telefonia fixa, forte expansão do setor de
telefonia móvel além de possibilitar a conectividade dos demais segmentos
de transmiso de dados digitalizados, como os servos informatizados do
corcio, dos bancos e dos setores prestadores de serviços informacionais,
sendo a internet um dos mais significativos exemplos de expreso do uso
cotidiano por parte dos segmentos da sociedade.
77
Reordenamento Territorial no Surbio da VP
Ao longo da década de noventa, cada vez mais esses serviços e a
extensão desta rede foi sendo ampliada na VP. O setor de telefonia fixa foi
significativamente ampliado, com a instalação de uma central telefônica
digitalizada, construída inicialmente para atender à implantação do Carrefour,
em 2002, e que foi responsável pela oferta de novas trinta mil linhas
telefônicas
16
na rego. A amplião da telefonia fixa foi fundamental, por
exemplo, para a extensão dos servos de Internet.
Esta central era vital para a implantão do Carrefour, pois, atras
dela, central digitalizada, é que trafega todos os dados do sistema integrado
de transmiso de dados da rede interna e centro gerencial do Carrefour, bem
como todas as demais operações das demais lojas comércio de varejista, do
sistema financeiro, e outras atividades fundamentais para os novos negócios e
novas formas de uso do dinheiro, como cartões de crédito, cartões banrios
de pagamentos e demais operações comerciais.
Atualmente a Telemar, empresa operadora do servo de telefonia fixa,
também oferece o acesso à Internet de Alta Velocidade, compartilhando sua
rede implantada e diversificando cada vez mais o oferta de serviços. É, sem
vida, um dos serviços atuais mais modernos para o grande público usuário
desses serviços. Mais uma vez, a VP foi um dos bairros suburbanos priorizados
na oferta deste servo, após Centro/Zona Sul/Barra da Tijuca.
A justificativa de tal prioridade certamente liga-se à capacidade de
consumo e ao potencial de mercado representado pela VP, objeto de análise
no próximo capítulo.
Logo no início da expansão do setor de telefonia móvel/celular, durante
meados da década de noventa, a VP foi inundada pelas antenas das operadoras
desse servo, enfatizada principalmente na empresa espanhola Telefônica
Celular. A VP esteve nos planos iniciais prioritários de expano da rede,
16
Esse dado foi fornecido, extra-oficialmente, pela Gerencia da central telefônica da Telemar, através
de uma entrevista. Na época, a empresa telefônica que operava o sistema de telefonia era a antiga Cetel.
Nessa época, ainda havia o corcio paralelo de linhas telenicas, em que os maiores pros alcaados
por uma linha de telefone, residencial ou a mesmo comercial, era na Barra da Tijuca e na Vila da Penha,
o que formava uma grande rede de operadores de venda de telefones na rego. Era um corcio informal
altamente lucrativo.
A implantação dessa central telefônica e a oferta do mero de linhas marcam o fim deste comércio, o
que viria a ocorrer definitivamente mais tarde, auxiliado pela oferta da telefonia celular.
78
Reordenamento Territorial no Surbio da VP
segundo informões disponíveis na época, pois apresentava um mercado
consumidor de grande potencial. Depois das áreas Centro/Zona Sul/Barra
da Tijuca, a expansão da rede na dirão do subúrbio, a VP constava como
área prioritária para expansão, razão pela qual os bairros dessa área foram os
primeiros bairros a serem servidos pelos serviços da telefonia móvel/celular.
Tanto no passado como na atualidade, a VP é considerada uma rego
prioriria para as empresas de telefonia movel/celular, com a implantação
de serviços aos usrios além da instalação de pontos de venda de aparelhos
e novas linhas telefônicas. Atualmente as operadoras, Vivo, Tim, Oi e Claro,
eso instaladas em pontos de venda na rego.
Segundo dados obtidos em conversas com gerentes de pontos de venda,
a VP é uma importante área de tráfego de sinais, o que significa importante
mercado potencial de consumo desses serviços, ao lado das áreas mais
importantes da cidade, o que torna a rego como área prioritária dentro das
estratégias de crescimento das empresas do setor.
Outro segmento que também está presente na VP é o serviço de Televisão
a Cabo ou por Assinatura. As duas operadoras desse servo, a NET TV,
do Grupo Globo, e a TVA, do Grupo Abril, estão operando na VP. A NET,
atras de rede a cabo de fibra ótica, e a TVA, através de sinal de freqüência
de rádio. Embora sem demonstrar os dados do mero de assinantes, as duas
empresas declaram como prioriria a atuação nesta área da cidade quanto
ao volume de assinantes bem como as estratégias de ampliação da base de
consumidores desse serviço.
Além dos serviços de entretenimento ligados à programão de TV,
as empresas tamm oferecem o serviço de assinatura de internet de alta
velocidade, compartilhando e potencializando o uso da rede, ampliando o
mercado consumidor e maximizando os lucros empresariais.
Novamente, por volta de meados da cada de noventa, a VP foi um
dos primeiros bairros do subúrbio da cidade a contar com a oferta deste
serviço.
Além desses serviços que podem ser mensurados e avaliados
concretamente, enquanto oferta de servos ao grande blico ou ao mercado
de consumo das novas tecnologias de informação, há também aqueles
79
Reordenamento Territorial no Surbio da VP
prestados a uma rede corporativa, através de uma rede de fibra ótica ou de
transmissão de dados por salites, que são operados pelas empresas e pelo
corcio varejista.
Grande parte das transações comerciais e venda de serviços do
mercado varejista dependem de conees instantâneas entre lojas, bancos e
financeiras. A utilização de cartões de crédito, cheques eletrônicos, caixas
eletrônicos para operações bancárias em geral, saques de dinheiro em escie
e outros serviços, dependem de uma complexa rede de telemática, sem a
qual não haveria o atual crescimento da sociedade e do padrão de consumo
em grande escala.
Há uma rede de transmissão de dados digitalizados, de troca de voz e
de dados de texto, que serve de suporte indispensável à operação do circuito
da economia de consumo, criando as condições necesrias à circulão de
bens e serviços para o mercado consumidor da nova economia s-industrial.
Embora meu olhar esteja centrado na escala local da VP, entendo
que não se pode deixar de considerar que este é apenas um ponto de uma
rede conectada a uma economia globalizada, que necessita da ampliação
desse meio técnico informacional. Forma-se, assim, uma nova geografia
dos lugares com a sobreposição desses novos sistemas de objetos técnicos,
que se somam aos objetos pré-existentes (sistema vrio urbano, sistema
elétrico, bancos, comércio, supermercados etc.), formando um complexo
(re)arranjo espacial, que se busca entender na VP.
Tamm é necesrio considerar que, nesse período, a VP, novamente,
apresenta um intenso processo de revalorização do solo urbano enquanto
mercadoria, através da ação de novos investimentos do capital imobiliário.
Não mais apenas do pequeno empreendedor, como havia sido nos anos oitenta,
mais de um novo empreendedor, de maior porte nos investimentos e ofertando
um produto imobilrio com as novas tendências do mercado, ou seja, o
espaço de viver como um lugar de moradia, aliado ao entretenimento e ao
lazer. O que o mercado denomina “o prazer de morar bem”. Os laamentos
imobiliários representam outro importante agente do reordenamento territorial
que estamos investigando na VP.
Quando se analisa, comparativamente, outras áreas específicas da cidade,
80
Reordenamento Territorial no Surbio da VP
como a chamada Zona Sule a Barra da Tijuca atual área de expano
e crescimento da cidade, composta pelos segmentos sociais de mais alta
renda e poder aquisitivo, pode-se concluir que as mesmas transformões,
os mesmos tipos de investimentos e a oferta dos modernos empreendimentos
imobiliários estão surgindo, simultaneamente, tanto nessas áreas como na VP.
Até mesmo na grande imprensa, esse fenômeno tem chamado a atenção
e está sendo objeto de pesquisas por parte municipalidade.
Como testemunho, matérias de propaganda e cartazes midiáticos
publicados nos jornais de grande circulação.
HISTÓRIA DO BAIRRO:
A Zona Sul da Leopoldina
Tranqüilidade, comércio em expansão e boa infra-estrutura
fazem da região, que inclui a Vila Kosmos, um dos pólos
emergentes do Rio
Nem só de craques do futebol vive a Vila da Penha. Apesar
de sempre ser badalada em época de Copa do Mundo por
ser a terra’ de personagens como Romário e Carlos Alberto
Torres, o bairro tem outros atrativos: a tranqüilidade, o
amplo comércio do Largo do Bicão (foto) e o fato de ter sido
considerado um bairro emergente em pesquisa realizada
pela Organização das Nações Unidas (ONU), pelo Instituto
de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) e pela prefeitura.
“Isso aqui é a Zona Sul da Leopoldina. Estamos na Ipanema
da Zona Norte”, define o comerciante Celso Gomes, 62
anos, morador da região desde que nasceu.
SHOPPING E ESTÃO DE METRÔ MODERNIZARAM A ÁREA
Em 2001, a inaugurão do Shopping Carioca movimentou
a Vila da Penha e a Vila Kosmos. Ele tem 226 lojas, uma
delas um hipermercado, e oito salas de cinema. Outro fator
que contribuiu para o crescimento da rego foi a chegada
do met a Vicente de Carvalho.
Jornal O Dia, 30 de mao de 2003
17
Para exemplificar essa expansão do setor imobiliário, utilizo um dos
últimos lançamentos imobiliários, um conjunto de quatro torres de edifícios
17
rios jornais drios têm publicado seguidamente matérias sobre a Vila da Penha e adjacências, em
geral com enfoque elogioso e demonstrando as virtudes dos bairros da rego.
81
Reordenamento Territorial no Surbio da VP
de 10 andares cada, com oito apartamentos por andar, totalizando 320
unidades de apartamentos. Empreendimento localizado no coração da VP,
e a empresa construtora e a Construtora e Incorporadora Rossi Residencial,
empresa de São Paulo, que está buscando atuar no mercado do Rio de
Janeiro e que já fez dois lançamentos na VP. (Anexo folheto de propaganda
do empreendimento, com os atrativos destacados).
Comprovando a tendência de crescimento, a construtora paulista
Rossi Residencial escolheu a Vila da Penha para chegar ao mercado carioca.
Depois do primeiro lançamento, O Residencial Vila Florea, quando 90%
das unidades foram vendidos em apenas uma semana, a empresa aposta
agora no segundo empreendimento, um condomínio fechado, nos moldes dos
existentes na Barra da Tijuca. Os valores dos apartamentos de dois quartos
variam de R$ 85 mil a R$ 100 mil. Segundo um diretor da regional do Rio
dessa empresa, 70% haviam sido vendidos no lançamento.
A campanha de lançamento do projeto, que envolveu grande destaque
em diversas dias, estava baseada nas modernidades do morar beme
fortemente ancorada na oferta de áreas de lazer e recreação infantil, além de
servos de cuidados pessoais, am de segurança e privacidade. A campanha
adota os critérios típicos dos laamentos para as classes de maior poder
aquisitivo da Barra da Tijuca, bairro nobre e emergente. Segundo informações
que obtivemos com os gerentes do empreendimento, o que mais chamou
atenção dos gerentes e administradores da empresa foi a rapidez com que
as unidades foram vendidas. Segundo ele, 80% dos apartamentos foram
vendidos em pouco mais de um s do lançamento”. Para ele, embora não
fosse um dado rigorosamente apurado, a maioria dos compradores eram
falias que já moravam na rego ou que tinham alguma ligação afetiva
com a está área da cidade.
O texto abaixo, relativo ao setor imobiliário da VP é emblemático:
82
Reordenamento Territorial no Surbio da VP
Procura por segurança aquece setor imobiliário
A busca por qualidade de vida e seguraa transformou
Vila da Penha, o Cristóvão, ier e Cachambi em quatro
ilhas de prosperidade na Zona Norte. O crescimento se
revela no aquecimento do mercado imobilrio longe de
favelas, na ampliação da área de construção licenciada e
no predomínio cada vez maior de consumidores das classes
A e B nos corredores dos maiores shoppings da região.
Dados da prefeitura mostram que nos arredores da Vila da
Penha foram licenciados, no ano passado, 93.639 metros
quadrados em áreas para novas construções, representando
um aumento de 53,5% em relação a 2000. No mesmo período,
o número de lançamentos de iveis no Méier e na Vila da
Penha subiu 30%, segundo a Associação dos Dirigentes
de Empresas do Mercado Imobiliário (Ademi).
O Globo, Domingo, 18 de maio de 2003 – Caderno Zona Norte - Erika de Castro
e Natanael Damasceno
Nos lançamentos atuais, os itens segurança, lazer e qualidade de vida
são pontos bastante valorizados, tanto para a estratégia de venda bem como
um item levado em consideração pelos potenciais compradores.
Os segmentos alvo das empresas imobiliárias estão classificados como
de alto poder aquisitivo, que potencialmente também podem investir em
outras áreas consideradas nobre da Cidade mas que, por certos atrativos,
eso investindo na Vila da Penha.
Mais um exemplo:
O secretário municipal de Urbanismo, Alfredo Sirkis,
Nessas matérias estão sendo cunhados alguns adjetivos, tais como: “Princesinha do Subúrbio”; a zona sul do
subúrbio; Pólo Emergente; e outras denominações, todas ressaltando pontos positivos desta área.
Outro ponto que também tem chamado atenção, de algum tempo, é sobre os níveis de renda, o padrão
de consumo e os resultados positivos apresentados pelas lojas varejistas, o que segundo as matérias, tem
incentivado a abertura de lojas, Shopping e outros tipos de investimentos e melhorias.
83
Reordenamento Territorial no Surbio da VP
responsável pelo Relario Licenciamento de Constrões,
aposta no crescimento da Vila da Penha e destaca a segurança
como uma das vantagens da rego:
- O bairro tem um grande potencial para investimentos e
é hoje a área nobre da Zona Norte.
O Globo, Domingo, 18 de maio de 2003 – Caderno Zona Norte - Erika de Castro
e Natanael Damasceno
Investigando esse potencial do mercado imobiliário na VP, penso,
mais uma vez, poder estabelecer pametros de identificação do processo
vigoroso de reordenamento territorial e social do antigo bairro suburbano,
que anteriormente abrigava apenas uma classe social operária e de baixo
extrato social.
Para completar esse quadro de investimentos e ofertas de serviços
modernos que caracterizam o reordenamento territorial, ainda podemos
identificar a instalação de outros empreendimentos de menor volume de
investimento de capital e mais vinculado à expansão de negócios de grupos
locais. A casa de Shows Olimpo, por exemplo, pode ser vinculada a um grupo
local de eventos e do shows business. Casa de espetáculos para eventos
de grandes astros da música popular brasileira, com público potencial de
2.800.000 consumidores; capacidade de 8.500 pessoas em pé, 3.000 pessoas
sentadas, 600 mesas, estacionamento de 400 vagas e 150 funciorios; área
de palco de 200 m²; área construída de 3.696 ; segurança, 6 sdas de
emergência, sistema de detector de metais, equipe de segurança entre 30 a
50 homens e brigada de incêndio.
Vários artistas de grande expressão da música popular brasileira, nos
últimos anos, se apresentaram no Olimpo com suas turnês nacionais. O
show de inauguração da casa, para marcar sua grandiosidade e seu papel na
noite carioca, foi com o cantor Roberto Carlos, artista de grande expreso
e que, como é de domínioblico, por suas manias e supertições, até então
só apresentava seus espetáculos de turnês no Rio de Janeiro na casa de
shows Caneo, localizada na Zona Sul da Cidade, no bairro de Botafogo.
Com essa inaugurão os promotores da nova casa suburbana procuraram
demarcar um espaço na noite e no mundo dos espetáculos no cerio carioca.
84
Reordenamento Territorial no Surbio da VP
Na cidade do Rio de Janeiro, com esta dimeno para shows e eventos, só
existem outras duas casas, o Canecão, localizado no bairro de Botafogo, o
Claro Hall, localizado na Barra da Tijuca.
Ao longo da última cada, uma rie de bares e restaurantes, de grifes
tradicionalmente com filiais localizadas na Zona Sul da Cidade, voltados
para um público de maior poder aquisitivo e renda, tamm instalaram suas
filiais na VP. São exemplos, a Pizzaria Parmê, a rede de fast food Habibs, a
rede delivery de comida chinesa China In Box, da rede de pizzaria Mister
Pizza, além de outras de menor impacto, constituindo uma rede de servos
de lanchonetes, bares, restaurantes e entretenimento.
Por último, também procuro identificar as interveões operadas pelo
poder público, principalmente na esfera do governo municipal, no sentido
da oferta de condições propicias à atuão do capital privado.
Entretanto, nas condões atuais de liberdade e mobilidade de atuão
destes investimentos possibilitados pelos meios técnicos disponíveis, pelas
novos referenciais utilizados para medir e definir as vantagens comparativas
das localidades de interesse do aporte desses capitais e, sobretudo, pela
ligação primordial desses investimentos dentro de uma rede globalizada,
há uma maior indepenncia das empresas em relação à política oficial,
seja na esfera mais localizada do município, ou a mesmo a esfera mais
geral , relativa ao poder central. Fato que identificamos como sendo a perda
relativa do poder regulador do território por parte dos Estados Nacionais.
Com essa liberdade de selecionar os locais mais apropriados para
instalar seus empreendimentos, estes capitais estão muito menos atrelados
as ações dos Governos, como ocorreu em etapas históricas anteriores.
Contudo, ainda há uma ligão de interesse e de complementaridade
entre os investimentos privados e as ações e investimentos do poder blico.
Se a ão dos governos pode ser substituídas em alguns segmentos, como,
por exemplo, as telecomunicações, em outros, ainda há necessidade do
investimento do poder blico, mesmo quando ele es muito mais vinculado
às necessidades do capital privado do que aos interesses da sociedade.
Uma referência do exposto pode ser computada às melhorias e
ampliação das vias de circulação, como a duplicação das pistas e melhoria
85
Reordenamento Territorial no Surbio da VP
da iluminão pública na Avenida Vicente de Carvalho e na Avenida Meriti,
dois dos principais eixos de circulão na VP. Uma obra vital para melhorar
qualitativa e quantitativamente à acessibilidade a VP foi a Linha 2 do
Metrô, ligando a VP ao centro da cidade. Todos os grandes investimentos
instalados na VP e adjacências foram projetados contando com as facilidade
e a acessibilidade oferecida pela Linha do Metrô.
Acrescenta-se a todos esses investimento viários outros tipos de infra-
estrutura, não tão perceptíveis na paisagem, mas igualmente fundamentais
enquanto elementos do investimento público, com destaque principalmente
para a ampliação da rede de fornecimento de água, chegada da rede de
fornecimento de gás canalizado, ampliação da rede de fornecimento de
energia etrica, rede de esgoto e outros, indispenveis como suporte desse
crescimento.
Por fim, cabe-me ressaltar que, embora esteja considerando, em
primeiro plano, a escala local de análise, o se pode considerar que esse
é apenas a ponta de um movimento maior, produzido pela nova economia
pós-industrial e globalizada, que, na nova configurão reticular, apresenta
uma geometria espacial completamente nova e que coloca desafios de
interpretação desse fenômeno.
86
Reordenamento Territorial no Surbio da VP
BIBLIOGRAFIA:
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Janeiro. IPLANRIO. Zahar. 1987.
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Município do Rio de Janeiro: Tendências Espaciais Vigentes e Alternativas
Futuras. Programa de Pós-Graduação da Universidade Federal do Rio de
Janeiro UFRJ. 1982.
- BIENENSTEIN Glauco, Shopping Center: O fenômeno e sua
Essência Capitalista. In Geographia. Volume 6. Ano III. Universidade
Federal Fluminense. Rio de Janeiro. 2002
- CARLOS. A. Fani A.A Cidade: o homem e a cidade; a cidade e o
cidadão; de quem é o solo urbano?. Repensando a Geografia. São Paulo:
Editora Contexto. 1992.
87
Reordenamento Territorial no Surbio da VP
- CARLOS. A. Fani A. O espaço Urbano Novos escritos Sobre a
Cidade. São Paulo: Editora Contexto. 2004.
- Eneo J. L. Coelho, e Pinon, M. O. A Formação dos Subúrbios
da Leopoldina. Trabalho apresentado na IV Jornada Interna de Inicião
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- GERSON Brasil, Ruas do Rio. Rio de Janeiro: Prefeitura do Distrito
Federal da Secretaria Geral de Educacao e Cultura. Editora Brasiliana. 1965
- SANTOS Noronha, em As Freguesias do Rio Antigo Rio de Janeiro:
O Cruzeiro. 1965.
- SANTOS. Joaquim J. M. dos. Contribuição ao Estudo da Hisria
do Surbio do Rio de Janeiro A Freguesia de Inhaúma de 1743 a 1920.
Dissertação de Mestrado em História na UFRJ, Instituto de Filosofia e
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- SOARES, M. T. DE S. O Conceito Geográfico de Bairro e Sua
Exemplificação na Cidade do Rio de Janeiro. In Rio de Janeiro Cidade
e Região. BERNARDES L. M. C. E SOARES, M. T. DE S. 1987. Rio de
Janeiro. Biblioteca Carioca da prefeitura da Cidade do Rio de Janeiro.
88
Reordenamento Territorial no Surbio da VP
CAPÍTULO 3: UM NOVO SUBÚRBIO PARA UMA NOVA CIDADE
3.1 - O ESPAÇO SUBURBANO: O LOCAL E O MUNDIAL
Somos a primeira gerão de pessoas que existe numa
escala global. Homens ou mulheres, políticos, drogados,
modelos, executivos, prostituídos, terroristas, vítimas de
catástrofes transmitidas pela TV, cozinheiros, consumidores,
telespectadores, internautas, imigrantes, turistas: somos a
primeira geração global.(LÉVY.
1
P. 2001)
E para que essa juventude planeria possa crescer com toda seguraa
é necessário re(inventar) um conjunto de pticas que a sociedade até então
utilizou para produzir seu tempo histórico. Uma delas, com certeza, é o
papel da cidade na nova economia globalizada e na sociedade informacional.
Dois aspectos que pavimentam o caminho rumo a esse novo tempo são o
reordenamento territorial e a imposição de novas relões sociais ou de uma
nova sociabilidade.
Novamente está colocado este desafio de demonstrar as ligações
existentes entre o processo de transformações espaciais na escala local do
surbio da Vila da Penha, caracterizados anteriormente e as articulações
com o estabelecimento dessa ordem global imposta pelo capital.
Para refletir sobre o tempo histórico atual é preciso, inevitavelmente,
também olhar para o futuro, para o que está sendo constrdo, pois como
afirma LEVY, num certo sentido, as grandes cidades do planeta o como
bairros diferentes de uma única megalópole virtual.
1
LÉVY. Pierre. A Conexão planetária O mercado, o Ciberespo, a Conscncia.. São Paulo. 2001.
Editora 34.
89
Reordenamento Territorial no Surbio da VP
Três caminhos serão percorridos nesta análise. O sentido e as
necessidades contingentes desse (re)ordenamento do espaço, a renda e o
consumo como, simultaneamente, agente e produto das mudaas e as novas
sociabilidades, introduzindo novos hábitos e uma nova cultura no surbio.
O espaço a partir do qual projeto as transformões em curso, objeto
deste estudo, é produto das relações sociais de uma dada ordem estrutural já
anteriormente estabelecida, mais ou menos inerte ou congelado no tempo,
denominado espaço produto”, ou seja, aquele conjunto de fixos e fluxos
existentes concretamente, antes das transformações que estão sendo operadas.
Há uma interligação entre o tempo histórico, suas condições de produção e
das relações sociais que estão inscritos no espo e na paisagem.
Entretanto, dialeticamente, esse espo também assume a condição
de espaço indutor”, (re)construindo as práticas sociais, que num sentido
mais amplo, enunciam o estabelecimento de novas formas, novas funções e
novos usos do território. Isso significa mudanças qualitativas no conteúdo,
nas relações sociais e na impressão da vida como tempo e espaço. As
ações dos indivíduos, em suas diferentes insncias - ecomica, social e
simlica - serão fortemente marcadas por esta espacialidade que es sendo
(re)construída.
As mudaas espaciais, sobretudo na paisagem, podem ser entendidas
no sentido posto por (COSGROVE
2
1996), assumindo características de
paisagens emergentes. É uma luta que está sendo travada entre a paisagem
constrda anteriormente e essa nova que gradativamente está emergindo a
cada nova intervenção promovida pelos recentes investimentos. As mudanças
são percebíveis principalmente nas formas e, conseqüentemente, na paisagem.
Mas essas alterões não ocorrem por mero processo estico. Elas indicam
novas paisagens que assumem o lugar daquelas existentes anteriormente.
Há casos em que as antigas formas o preservadas no seu conteúdo
estético, no entanto com novas atribuições no conteúdo e nos usos. Pode-se
exemplificar essa citação com dois casos bastante significativos; o primeiro é
a construção física do Shopping Carioca, na Vila da Penha, erguido no antigo
2
COSGROVE, D. Paisagem, Imaginário e Espaço. Org. Rosendahl Z.e Corrêa R. L. Rio de Janeiro.
2001. Eduerj.
90
Reordenamento Territorial no Surbio da VP
terreno da Fábrica Standard Etrica. A fábrica desativada foi totalmente
demolida e, no seu lugar, erguida a “nova construção”. Com forma, conteúdo,
uso e simbologia representando exatamente os novos tempos do moderno
estilo de vida.
O outro exemplo é o Nova Arica Shopping, que foi instalado na
antiga fábrica de tecido Nova América. A arquitetura da antiga fábrica, em
estilo inglês, foi preservada, inclusive com as imponentes chaminés mantidas
no mesmo local. Todo o prédio foi arquitetonicamente reformado, contudo
sem perder o ar da fábrica”. O espaço interno foi todo readaptado para
receber imensos corretores circulares com as lojas, praça de alimentão
e até mesmo uma Rua do Rio”, lembrando o Rio de Janeiro do icio do
século, onde funciona um grande centro de entretenimento com bares,
restaurantes e shows. Nesse caso, manter o padrão arquitetônico original
da fábrica, manter a paisagem externa do shopping-fábrica, torna-se um
diferencial de estilo e uma marca própria do Shopping.
Nesses dois exemplos podem-se aplicar os referenciais tricos de
GOSGROVE(1966), no shopping-fábrica, a paisagem resistente, não no sentido
da imobilidade e do atraso, mas a mixagem dos símbolos de força social
do tempo passado sendo adicionado as novas paisagens do tempo presente.
No segundo caso, a típica paisagem emergente que está surgindo no espaço
em mutão. Nos dois casos, a nova paisagem que es sendo construída
é portadora de representação das modernidades próprias da sociedade do
consumo. Essa nova paisagem é resultante das mudaas na configuração
territorial, tanto na sua forma, no seu uso e na sua força simlica.
A paisagem assume grande importância como o lugar do sensível, do
vivido, do experimentado, onde os segmentos sociais encontram tamm
estímulos ao consumo dos novos tipos de bens e serviços, tornando ela
mesma um objeto da acumulação capitalista do tempo presente.
As mudanças espaciais que estão em curso têm uma natureza e um
conteúdo significativamente diferenciado e objetivam adequar as antigas
formas às novas necessidades. Agora, os novos agentes indutores dessa
renovação e que têm como objetivo construir novas formas sociais para a
classe dia e operária desta rego, estão interligados à modernização
91
Reordenamento Territorial no Surbio da VP
mais gerais da ppria gica da acumulão capitalista, além de colocar o
surbio como uma região dentro de uma rede mundial de produção e de
consumo.
No passado, houve uma nítida ligação do capital fabril e do Estado
como os principais agentes das transformações espaciais, das paisagens e
do crescimento do contingente populacional. No momento de construção
do arranjo e da configuração territorial encontrada anteriormente, o agente
mais influente foi a indústria. Os subúrbios foram fortemente marcados pela
ampliação das fábricas. Essa lógica estava vinculada à ppria expansão
da economia da cidade como um todo e inserida nos rumos do processo
de industrialização mais amplo por que passou a economia brasileira. É o
momento mais acentuado de passagem da antiga economia agrária para o
capitalismo urbano industrial. Em cada escala de análise do espo, essa
transformação estava presente. Na cidade do Rio de Janeiro, esta marca é
significativa e comandou o processo de ocupação das novas áreas da cidade,
principalmente pela expansão do crescimento rumo às áreas dos subúrbios.
Outro elemento importante a ser considerado é o suporte indispensável
a esse processo prestado pelo planejamento do Estado, como instrumento
de formulação de políticas públicas que impulsionaram e atraíram os
investimentos industriais, para os surbios da cidade do Rio de Janeiro.
Esse momento é marcado pelo crescimento da economia urbano-industrial.
Embora tenham ocorrido múltiplos agentes associados, é significativo o
papel hegemônico desempenhado pelo capital fabril e pelo capital estatal.
Ao contrário, no atual estágio verifica-se a forte presença dos
investimentos privados, promovendo a inserção do subúrbio na economia
globalizada, rao da velocidade das mutações e da incorporação das novas
tecnologias e das novas dimenes das categorias de espaço e tempo.
No passado, a intervenção do Estado estava na dianteira dos processos de
expansão da espacialidade no subúrbio, quer seja na oferta de infra-estrutura,
nos serviços blicos, no planejamento das novas instalações fabris, nos
equipamentos da circulação e da fluidez, necessários para a expansão do
capital. Atualmente, verifica-se a posição hegemônica do capital privado,
com certa independência dos agentes estatais.
92
Reordenamento Territorial no Surbio da VP
Pode-se afirmar que uma mudaa importante no perfil e no contdo
dessa reconversão espacial está exatamente no papel de agente condutor
desse processo que, na atualidade, está nas mãos do capital privado e, em
muitos aspectos, do capital internacional.
O espaço que está sendo produzido es impregnado de modernidades
vinculadas ao movimento geral de internacionalizão da produção. Por
isso mesmo é que estamos caracterizando esse espaço em construção como
“espaço indutor”, no sentido de ser a representação de novas relações sociais.
Há um confronto entre paisagem que vai sendo vencida do tempo
lento e a paisagem emergente do tempo da quase simultaneidade. Na VP
encontramos os conflitos expostos na paisagem.
Trata-se de uma mudança nos processos gerais de ordenamento do
espaço das cidades. A organização espacial em rede é bastante recente e impõe
novas formas à apropriação e ao uso do território que pretende reordenar.
Por isso é que denomino o espaço tanto como produto bem como
simultaneamente produtor. O que efetivamente estou em busca é de
compreender essas rápidas e significativas mudanças que, de maneira
empírica, venho verificando no espaço da VP. Entender essas mudanças
permite sinalizar um momento histórico diferente e um outro papel para as
camadas sociais aí residentes.
Outra reflexão bastante instigante é quando verificamos que as
mudanças espaciais estão ocorrendo em pontos específicos, que remetem
ao conceito das relações em rede ou de uma ordem espacial reticular. Não
são mudanças que se dão de forma continua no espo do surbio, mas em
determinados pontos. Por certas condições particulares, a VP é um lugar
dessas transformações. Quais são as condições que provocam estas mudanças?
A quais novos interesses elas servem? Quais os agentes dessas mudanças?.
Sobre essa questão, SANTOS
3
(1996:252) já sinalizava com o
seguinte:
Cada lugar é, à sua maneira, o mundo. Ou, como
93
Reordenamento Territorial no Surbio da VP
afirma M. A. de Souza(1995, p.65), todos os lugares
são virtualmente mundiais. Mas, também , cada lugar,
irrecusavelmente imerso numa comuno com o mundo,
tornando-se exponencialmente diferente dos demais. A uma
maior globalidade, corresponde uma maior individualidade.
É a esse fenômeno que G. Benko (1990, p. 65) denomina
“glocalidade”, chamando a atenção para as dificuldades do
seu tratamento teórico. Para apreender essa nova realidade
do lugar, não basta adotar um tratamento localista, já
que o mundo se encontra em toda parte. Também devemos
evitar o risco de nos perder em uma simplificação cega”,
a partir de uma não de particularidades que apenas leve
em conta os fenômenos gerais dominados pelas forças
sociais globais”.
Essa organização em rede é, sem dúvida, a manifestão concreta da
economia globalizada que se apropria e se liga a determinados pontos/nós
espaciais.
Há uma nova fase da acumulação capitalista, que agora está
fundamentada na expansão do consumo de bens e serviços associadas
à realização do capital financeiro. Esse entrelaçamento do interesse no
consumo e do setor financeiro ime novas dimicas das relações sociais e
conseqüentemente, de uma ordem territorial espacial. As mudanças provocam
o aparecimento de pontos dessa rede que percorre diferentes escalas, da
global até o local. É nessa perspectiva que, em princípio, pode-se definir
de forma mais geral, os processos que comandam as mudaas espaciais
que se verificam na cidade e, no caso, na própria VP. É a manifestação da
poão mundial no espaço concreto do cotidiano, do lugar. Uma fração da
classe trabalhadora é inserida no mercado de consumo global e passa a ter
acesso aos modernos bens e serviços, é seduzida para uma aparente nova
forma de vida e por isso, assiste ora com perplexidade, ora com aparente
satisfão - às mudanças que se processam na sua ordem espacial, necessária
para realizar esse outro patamar da acumulão capitalista.
Minha experiência empírica de atento observador da paisagem me
3
SANTOS, M. A Natureza do Espo. o Paulo. 1996. Editora Hucitec.
94
Reordenamento Territorial no Surbio da VP
colocou exatamente no centro destas mudanças, sem contudo me dar clareza
desta passagem e, o mais significativo, sem que meus instrumentos tricos
cssicos pudessem me fazer desvendar a natureza dessas mudanças sociais
e espaciais.
Verifica-se a chegada de investimentos de capitais, até então típicos de
outras áreas da cidade ou daquelas áreas mais dinâmicas. Um novo perfil do
capital imobiliário que agora vende lazer e segurança. Mudanças na natureza
dos investimentos do Estado, não mais apenas para prover infra-estrutura
de serviços públicos, mas agora também para garantir maior mobilidade e
velocidade aos investimentos do capital privado. Investimentos em ofertas de
novos e modernos serviços, além de templos do consumo, como as grandes
redes de supermercados e os Shopping Centers.
Dessa forma verifica-se um entrelaçamento entre as transformações
nas paisagens, no processo de reordenamento territorial do surbio da VP
e os novos investimentos do capital pós-industrial globalizado, que, cada
vez mais, promovem inserção na produção e no consumo dos modernos
bens e servos da sociedade da informão e da tecnologia.
95
Reordenamento Territorial no Surbio da VP
3.2. AS REDES DAS RELAÇÕES SOCIAIS E O REORDENAMENTO
TERRITORIAL DO SUBÚRBIO:
Um dos autores que tem estimulado minha refleo trica e que abre
um caminho muito importante no nosso entendimento das questões postas
no presente trabalho é H. LEFEBVRE. Vislumbro um novo horizonte
na compreensão da cidade, numa dimensão bastante inovadora e muito
apropriada para esse novo tempo do urbano.
Primeiramente na abordagem crítica aos modelos que, segundo
LEFEBVRE
4
( 2002: p.68):
O modelo só vale se é utilizado, e utilizá-lo consiste,
primeiro, em mensurar a distância entre os modelos, entre
cada um deles e o real. Para isso, a reflexão crítica tende
a substituir a construção de modelos pela orientação, que
abre vias e descortina um horizonte.
Essa forma de tratamento rompe com as formas tradicionais de entender
a cidade e o urbano, principalmente a partir da dimensão do vivido e do lugar.
A forma clássica de entender uma determinada dinâmica espacial estava
presa a um certo modelo de interpretação. Modelo era quase sempre uma
prisão para a refleo, um limitador aos métodos de interpretação e, quase
sempre, levava, no mínimo, a uma compreensão limitada dos fenômenos
sócio-espaciais.
A reflexão crítica coloca um imenso conjunto de problemas, uma
complexidade de queses e as contradições existentes.
Outra reflexão de extrema importância está colocada no que LEFEBVRE
(2002: p.109) denomina dos conceitos de forma, estrutura e fuão que
não podem mais ser entendidos e analisados separadamente, isolados ou
individualizados, mas sobretudo com suas múltiplas inter-relações, resgatando,
dessa forma, a dimensão da totalidade de uma dada formão sócio-espacial.
Outro aspecto bastante relevante é a questão da dimensão da produção do
espaço da maneira apresentada por LEFEBVRE (2002, p. 142). “A produção
4
LEFEBVRE, H. A Revolução Urbana. Belo Horizonte. Editora da UFMG. 2002 - 1ª reimpressão. 178 p.
96
Reordenamento Territorial no Surbio da VP
do espaço, em si, não é nova. Os grupos dominantes sempre produziram
este ou aquele espo particular. (...). O novo é a produção global e total
do espo social”.
Essa aparente racionalidade do espaço urbano, que se apresenta com
a chegada dos “novos investimentos do capital, se mostra como portadora
de uma revitalização do uso do espo para e por seus habitantes, contudo
não revelando sua face opressora de uma cidade que induz ao consumo
como mecanismo de acumulão de capital. A nova sociedade do “homem-
consumo” como modo de vida e de convincia no espaço da cidade. Se
o espaço da cidade é o lugar de reprodução das relações sociais, ela agora
se modelada e estruturada, para cumprir essa função, ou seja, sua forma
deverá expressar esse conteúdo.
Para que isso seja potencializado, há maior ênfase na re-estruturação
das dimensões do consumo prioritariamente, da circulação. Os novos
empreendimentos indutores das transformões espaciais da VP devem ser
pensados exatamente nessa vertente. Nessa perspectiva, LEFEBVRE (2002)
abre um horizonte de novas possibilidades para refletir esse momento de
mudança que se apresenta ao olhar dos geógrafos sobre o espaço como
dimensão da sociedade e sociedade modelada nas suas relações sociais por
este espaço.
97
Reordenamento Territorial no Surbio da VP
3.3 MERCADO, CONSUMO E PAISAGEM EM MUTAÇÃO: A
NOVA CIDADANIA
A cidade e sua configuração espacial representam um determinado
momento histórico, como foi cada fase da própria evolução transformadora
da cidade, da cidade política aa emergência do urbano. No caso em análise,
esta parte da cidade experimenta um certo momento histórico característico da
sua “revolão”, rumo à sua inseão no mundo da sociedade do consumo”.
Duas abordagens parecem cruciais nesta reflexão. A primeira é construir
conteúdo para o significado e as intencionalidades que essa renovação espacial
enunciam. Ela é portadora de representação da inserção de uma parcela da
sociedade numa nova dimeno da política, fundamentalmente no papel do
cidadão-cliente que acessa os novos mecanismos de apropriação dos bens
materiais e dos serviços públicos, dispoveis na sociedade capitalista, pela
via do mercado e do consumo. No donio do neoliberalismo globalizado,
esse mecanismo se intensificou e foi ainda mais facilitado pela lógica da
desconstrução das Instituições do Estado, no processo de privatizão e da
acelerão da inserção da economia brasileira na globalização.
A segunda refere-se à maneira pela qual será possível conectar
dialeticamente o empírico vivido e percebido, com as possibilidades
de reflexão teórica, na construção da compreensão do objeto, no caso a
configuração territorial suburbana.
Quanto ao primeiro aspecto, a dimensão política estava assentada no
passado recente na busca da ascensão social, da melhoria do pado de vida e
de acesso aos serviços e direitos do Estado. Por isso, as Instituições Estatais
possuíam um peso considerável na relação com os indiduos políticos.
Embora com a forte presença da iniciativa privada na vida da comunidade
urbana, no nosso caso e pelas origens históricas do pprio processo recente
de crescimento do modelo econômico ancorada nas iniciativas estatais,
davam, ao donio do público, uma significativa importância na constituão
e no exercício pleno da cidadania e dos direitos sociais.
As iniciativas e o os planos de intervenção do Estado na vida dos
cidadãos, bem como na dimeno espacial, tinham uma forte participação
98
Reordenamento Territorial no Surbio da VP
e, de certa forma, precediam a presença do privado. A sociedade cobrava e
reclamava as iniciativas e os deveres do Estado. Todas os enfrentamentos com
as políticas públicas, em suas diversas esferas, empreendidas pela ação direta
da cidadania, pelas organizões e associações de representação de bairros,
pelas lutas sindicais e outros instrumentos de ação política, colocavam, como
bandeira de mobilização, o atendimento aos serviços essenciais: transportes
públicos, escolas, equipamentos de energia, serviços de abastecimento de
água e coleta de esgoto e áreas de lazer, que significavam a cobraa da
presença do Estado.
O consumo dos bens materiais e dos serviços disponibilizados pelo
Estado e ou pela iniciativa privada ainda tinham, como prioridade, as
demandas típicas do atendimento às necessidades de melhoria do pado de
vida, de acesso a bens modernos da vida cotidiana e dos serviços essenciais.
Entretanto, estamos diante de um novo momento histórico, da
globalização e da ação global das corporações transnacionais e do capital
financeiro. Esse tempo opera uma metamorfose nas práticas sociais,
principalmente no que tange ao consumo e acesso aos bens, impregnados
de modernidades. Cada vez mais, a realização e o acesso aos diversos
bens materiais, a satisfão das necessidades cotidianas, os direitos sociais
fundamentais, são transferidos para a esfera do privado e do mercado. As
variadas faces da vida econômica e, conseqüentemente, da própria concepção
de exercício da cidadania e dos direitos sociais deixam de ser mediados
pelos instrumentos regulatórios do Estado e passam à esfera do privado e
do mercado. O ato em si do consumo passa a ter cada vez mais importância
na construção da vida social e das relões sociais.
Esta nova face está bem focada em OLIVEIRA
5
(1999: p. 34):
“A glorificação do consumo se acompanhada da diminuição
gradativa de outras sensibilidades, como a noção de
individualidade que, aliás, constitui um dos alicerces da
cidadania. Enquanto constrói e alimenta um individualismo
5
OLIVEIRA, M. P. Rio de Janeiro: Cidade e Cidadania em Questão. Tese de Doutorado. USP. Departamento
de Geografia. 1999. São Paulo.
99
Reordenamento Territorial no Surbio da VP
feroz e sem fronteiras, o consumo contribui ao aniquilamento
da personalidade, sem a qual o homem não se reconhece
como distinto, a partir da desigualdade entre todos.
(...) o consumo exercerá sobre o indivíduo um papel alienador
funcionando como um verdadeiro ópio, cujos templos
modernos são os Shopping-centers e os supermercados
(...), construídos à feição das catedrais’. Assim, em lugar
do cidadão tem-se ‘um consumidor, que aceita ser chamado
de usuário.
Retornando ao mesmo tema, o autor acima citado assinala:
(...) consumo é uma aceitação de alternativas impostas.
O efeito disto é uma vida na qual não há contexto cívico.
E também uma vida em que os cidadãos são tratados
como objetos de utilidade, não estando engajados na
autorealização. Se os homens não estão engajados na
autorealizão, se eles são um meio para um fim, mais do
que finalidades em si mesmos, então eles são escravos,
não verdadeiros cidadãos (...)
Essas novas funções destinadas à supressão do blico e do cidadão pela
esfera do privado e do consumidor, acompanham o processo de renovação
das formas, das funções e conteúdos do espo das cidades. Ainda sobre a
cidadania do consumo, ANDRADE
6
(2001: p.143)nos oferece a seguinte
reflexão:
“Uma problemática seriíssima e atual apontada por diversos
autores..., além do próprio Milton Santos, apontam que
uma das maiores perversões do nosso tempo está no papel
que o consumo veio representar tanto na vida coletiva da
sociedade quanto na formação do caráter dos próprios
indivíduos. Quando se tem a glorificação do consumo se
verifica gradativa diminuição de outras sensibilidades,
tais como a noção de individualidade, que, - diga-se de
passagem é, como vimos, uma das bases da construção
6
Andrade. J. O Espaço sem Cidadão e um Cidadão Sem Espaço. In Ensaios de Geografia Contemporânea.
Santos. M. Obra Revisitada. Carlos. A. Fani. A. Edusp. São Paulo. 2001.
100
Reordenamento Territorial no Surbio da VP
da cidadania. O capitalismo nos impele a uma incansável
necessidade de novas aquisões. A constante insatisfação
se tornou o principal motor que alavanca e dinamiza o
pprio sistema. Os objetivos existenciais se dilaceram e
se reduzem ao mínimo, enquanto que se infla enormemente
o desejo de aquisições de coisas. Nasce neste momento o
consumidor mais-do-que-perfeito efeito direto do chamado
cidadão imperfeito. O cidadão imperfeito abdica de sua
potencialidade e se satisfaz por completo no seu papel
sempre crescente de consumidor. É necessário que o
indivíduo seja também cidadão capaz de desafiar os
mandamentos do mercado, tornando-se assim consumidor
imperfeito, porque insubmisso a certas regras impostas de
fora dele mesmo. “Onde não o cidadão, há o consumidor
mais-do-que-perfeito. É o caso do Brasil( Apud. SANTOS,
1988:41)
Para que esses mecanismos sejam efetivados, um dos aspectos
necessários é a reestruturação espacial. Embora não focando especificamente
o consumo, BARBOSA
7
(1998) aponta algumas p-condições na esfera do
Estado e de sua atuação vinculada aos interesses do capitalismo financeiro
mundial, que provocam repercussões na esfera espaço-temporal:
“Para bens e serviços mundiais é necessário um consumidor
mundial. Gostos e prefencias são criados pelas ancias
de publicidade e funcionam como a argila encantada
que dá origem ao personagem fictício dos ancios da TV.
Entretanto, encarnar o personagem-consumidor o é uma
tarefa para qualquer mortal. É preciso ter o status conferido
pelo dinheiro, ou então, ter em mãos as formas substitutas
que permitem o acesso ao mundo das mercadorias, a
exemplo dos cartões de crédito, financiamentos, crediários e
demais formas de antecipão das condições de realização
do valor de troca. Revela-se um outro elemento nada
oculto da virtuosidade do consumo: a expansão do capital
financeiro. Duas grandes ficções a publicidade e o
7
Barbosa. J. L. A Geografia e as Mudanças na Sociedade, no Estado e no Mercado; Contribuições para
repensar o trabalho e a cidadania no limiar do século XXI. In Revista Geografia e Ensino Volume 7
Número 1.Belo Horizonte. Ano 7. n.1, p.40.
101
Reordenamento Territorial no Surbio da VP
dinheiro se reúnem para forjar o “sujeito universalda
pós-modernidade: o consumidor.” (BARBOSA, 1998, p. 40).
Esse processo de reestruturação econômico-espacial tem como
propósito implementar as estratégias de expansão da maximizão do lucro
capitalista, travestido de um discurso de liberdade de escolha dos indivíduos e
universalização das benesses do mundo tecnológico e modernizado. Entretanto,
tornam os indivíduos cada vez mais reféns do consumo desenfreado e de
uma modalidade de cidadania e de relação com a cidade e com o espaço
que cristaliza a “incorporação excludente ou incorporação submissa aos
interesses do capital financeiro e das novas corporões empresariais.
O segundo aspecto que se coloca é a maneira pela qual pode-se
entender os mecanismos mais gerais da acumulação capitalista, agindo
como propulsores deste processo de reestruturão espacial. É nesse sentido
que identificamos, em nosso estudo, a filiação da cidade, e de frações do
espaço suburbano, aos processos mais amplos da dinâmica do capitalismo
pós-industral globalizado.
O presente momento hisrico é de construção de uma nova ordem
econômica, da Terceira Revolução Industrial, que rebatiza as concepções
de tempo e, no nosso caso, do espaço, promovendo amplo domínio das
novas tecnologias da microeletrônica e da informação, da realização da
acumulão centrada na esfera da distribuição e da especulão financeira,
além de provocar forte impacto sobre a lógica da localizão espacial do
aparato produtivo das corporações industriais, agora com tendências cada
vez mais acentuadas à dispersão locacional e com uma estratégia de atuação
no mercado global.
Por outro lado, a constituição da economia de mercado de âmbito
global, ime uma nova divio territorial do trabalho, redefinindo o papel
desempenhado pela rede de cidades a ela conectada, impondo uma batalha
pela maximização da fluidez do espaço, dotando, então, cada fração destes
espaços de objetos e meios para ampliar significativamente a transfencia
de capital para os centros hegemônicos. Não há uma simples uniformização
da inseão das economias das cidades nesta rede global, mas cada uma delas
102
Reordenamento Territorial no Surbio da VP
vai imprimindo à sua configuração interna um conjunto de certas adaptões
para expressar a lógica do desenvolvimento desigual e combinado. Aliás,
já estava posto nos escritos de Trotsky - Programa de Transição - que dois
fundamentos essenciais do capitalismo imperialista eram, de um lado, a
sua face internacionalizante, moldando uma dada divio internacional da
produção e, de outro, a integração diferenciada dos diversos espaços nacionais,
segundo a lógica desigual e combinada. Essa lógica é fundamental para que
o capital penetre com mais racionalidade nas economias dependentes dos
países pobres.
A cidade é exatamente o depositário desse processo na escala do local
/regional. O Rio de Janeiro, cidade historicamente inserida na dimica da
economia mundial, desde os primórdios da sua formação espacial e estrutural,
essa materialidade é ainda mais evidente. Podemos recorrer a ABREU (1997)
para situar um dos primeiros momentos significativos de tais mudanças:
A primeira década doc. XX representa, para a cidade
do Rio de Janeiro, uma época de grandes mudanças,
motivadas, sobretudo, pela necessidade de adequar a forma
urbana às necessidades reais de criação, concentração
e acumulação do capital. (...)O rápido crescimento da
economia brasileira, a intensificação das atividades
exportadoras e, conseqüentemente, a integração cada
vez maior do país no contexto capitalista internacional,
exigiam uma nova organizão do espo (ai incluído o
espaço urbano de sua capital), condizente com esse novo
momento de organização social”( ABREU, op. cit. p.59).
Confirma-se, assim, que as mudanças espaciais de forma, da paisagem
e do ordenamento territorial foram ainda mais significativas quando
induzidos pela inserção na dinâmica capitalista mundializada. Em cada
momento histórico foram produzidas alterações na configuração espacial
e, nos diversos meios e objetos, de modo a efetivar alterações nas formas,
nos processos econômicos e nas diversas relações sociais. No entanto, cada
peodo foi materializado com um processo próprio e pico das necessidades
colocadas naquele momento. As mudanças o foram sempre as mesmas,
103
Reordenamento Territorial no Surbio da VP
a inserção não se deu sempre com o mesmo formato, a arquitetura imposta
à cidade não foi sempre igual, o ordenamento e a gestão territorial não foi
homogeneizada sempre pelos mesmo agentes. Ainda é importante recorrer
a ABREU(1997. op. cit.) para exemplificar essas diferenças hisricas na
seguinte citação:
“A Reforma Passos foi importante em três outros aspectos.
Ela representa um exemplo típico de como novos momentos
de organização social determina novas funções à cidade,
muitas das quais só podem vir a ser exercidas mediante
a eliminação de formas antigas e contraditórias ao novo
momento. (...) Representa tamm o primeiro exemplo de
intervenção estatal maciça sobre o urbano, reorganizado
agora sob novas bases econômicas e ideológica.(...)
Tamm se constitui em exemplo de como as contradições
do espaço, ao serem resolvidas, muitas vezes geram novas
contradições para o momento de organizão social que
surge.”(P.63 e 66).
Desse período histórico, até o atual processo de reordenamento
do território, as mudanças foram induzidas por processos vinculados ao
crescimento do setor industrial. Toda essa longa fase esteve polarizada pelo
processo de industrializão por que passou a economia brasileira, no seu
conjunto, e, a cidade do Rio de Janeiro, como um dos espaços polarizados
por esse movimento.
O capital fabril foi o agente indutor desse movimento longo de
transformação espacial, da configuração territorial e das relações sociais.
Conforme indicamos anteriormente, o surbio da cidade se modificou
com base na expansão da atividade industrial, que se espalhou por vastos
espos ao longo da expansão física da cidade rumo aos surbios. Também
já reafirmamos que, simultaneamente, o capital e as ões do Estado sempre
foram essenciais como suporte, como financiador e como agente incentivador
desta expansão do capital fabril, tanto na sua etapa de maior vinculação
com o capital nacionalista resultante da realização interna, bem como na
sua fase de maior vinculação com os investimentos estrangeiros do período
104
Reordenamento Territorial no Surbio da VP
desenvolvimentista.
Estado e capital privado empreenderam uma longa trajetória de
mudanças nas formas, nas estruturas da cidade como um todo e dos subúrbios,
em particular, para conectar a economia do Estado e da cidade à expansão
capitalista reticular.
É nesse ponto que reside um ponto fundamental do nosso estudo
do surbio da VP, na atual dinâmica econômica e na reordenamento (re)
territorial em questão, já que claramente novos agentes e novos processos
surgem como os indutores desta nova espacialidade.
Em oposição aos processos verificados anteriormente, a crise por que
vem passando, caracterizada como esvaziamento econômico do Estado e,
conseqüentemente da cidade, a economia vem redesenhando sua participação
na divisão internacional, que a cidade é uma metrópole cosmopolita, assim
como seu papel na própria divisão nacional da produção, deslocando o seu
eixo econômico da atividade industrial cssica para as atividades vinculadas
aos setores da oferta de amplos e modernos serviços e do corcio de bens
de consumo, do entretenimento e do lazer, estimulando, assim, a crião e
ampliação de novos equipamentos urbanos, objetos e ões.
Como resposta a essa mobilidade do processo econômico e para
permitir a efetivação dessa operação estrutural, é inexorável que haja,
simultaneamente, um processo de mudanças na geometria espacial da
cidade. É natural que haja alterações nas formas urbanas enquanto arranjo
ordenado dos objetos, não apenas construindo novos objetos, como também
se apropriando, quando possível e necessário, adaptando com novos usos
as formas anteriormente existentes.
De maneira inseparável, também o processadas profundas mudanças
nas fuões dos objetos e dos equipamentos urbanos. As novas funções
destinadas às formas se complementam no sentido de atender à dinâmica
de mobilidade da estrutura econômica, ou seja, à mudança no eixo da
acumulão capitalista global.
Das primeiras mudanças espaciais até o presente, a cidade percorre
um longo caminho, mas, na atualidade, essa ligão umbilical com o global
comanda efetivamente a imposição de novas modalidades e qualidade da
105
Reordenamento Territorial no Surbio da VP
reconversão espacial, situação já atestada por CARLOS (1996. Op. cit.):
A metrópole aparece hoje como manifestação espacial
concreta de um fenômeno que es posto de forma clara no
mundo moderno, qual seja, o espaço se reproduz a partir
do processo de constituão da sociedade urbana apoiado
no aprofundamento da divisão espacial do trabalho, na
ampliação do mercado mundial, na eliminação das fronteiras
entre os Estados, e na generalização do mundo mercadoria.
Este processo produz profundas mudanças espaciais, criando
uma nova identidade que escapa ao nacional, apontando
para o mundial como tendência. Isto é, o processo não
diz mais respeito a um lugar ou a uma nação somente,
estes explodem em realidades supranacionais, apoiados
nos grandes desenvolvimentos científicos, basicamente o
desenvolvimento e a transmissão da informação.
Nesta perspectiva, o reordenamento é o mediador da vinculação do
local com o global. Assim é que deve ser pensada as mudanças em curso
nas formas e nas funções do espaço da VP.
A forma e função estão combinadas com estrutura social que, por sua
vez, tamm está em transformão. As mudanças têm como objetivo alterar
as relações sociais, formando ideologicamente o novo “cidadão consumidor”.
Essas categorias não podem ser analisadas em separado, mas, dialeticamente,
na sua totalidade, introduzindo, assim, nova geometria espacial.
É a partir deste entendimento que procuramos, inicialmente, situar as
transformações em curso na VP. Ela está inserida num processo amplo de
mudanças e ajustes na estrutura econômica global, na redefinição de papéis
na divisão da produção, e na perspectiva de resolução da crise econômica
da cidade e, comandando todo esse movimento, adaptando-se para oferecer
maior parcela de lucratividade à atual fase do capitalismo global das grandes
corporões e do capital especulativo.
Outro componente desse processo é a capacidade e o papel desempenhado
a aqui pelos organismos do Estado, que sempre tiveram lugar de destaque
em suas múltiplas capacidades e áreas de atuação, notadamente nas condições
de aglutinar investimentos, produzir vantagens locacionais e legislar sobre
106
Reordenamento Territorial no Surbio da VP
o ordenamento territorial.
O fluxo de capitais e a busca do lucro, agora já não têm domicilio
fixo pois são de natureza global, e agora necessitam de um novo tempo
e de velocidade, para sua reprodução. Por isso não podem mais atuar na
morosidade da burocracia estatal e se movimentam à frente dos mecanismos
de controle das alavancas da política econômica do Estado. O capital
tem uma agilidade, uma mobilidade e uma necessidade do imediatismo
dos resultados, que produzem uma significativa erosão no papel antes
desempenhado pelas ações desenvolvimentistas, principalmente no caso
dos países pobres e dependentes, nos quais foi indispensável essa atuação
estatal para criar e estabelecer as pré-condições à acumulação. o podendo
mais caminhar na mesma marcha, o capital privado passa a se deslocar na
dianteira, estabelecendo suas prioridades, tanto na definição dos setores de
maior interesse e de maiores perspectivas de maximização da acumulação,
como na definição locacional.
Algumas áreas apresentam vantagens comparativas e, por isso,
podem atrair com mais força os investimentos em fixos e objetos. um
enfraquecimento do papel em determinadas áreas de atuação. Não que o
capital possa prescindir dele, mas, em determinados mecanismos, não se
pode esperar pelas iniciativas lentas e morosas da burocracia estatal. Ela
torna-se entrave a necessidade de liberdades e agilidade de movimento para
alguns setores. Como exemplo, a telefonia móvel não depende dos mesmos
mecanismos de infra-estrutura e regulatórios do Estado, como no passado.
A tecnologia empregada promoveu uma liberdade dessas condições. Agora
ela não precisa de intermediários, as empresas operam diretamente com
seus clientes. Para isso, devem deixar de lado a atuação do Estado. É nessa
perspectiva que se fortalece o discurso privatista e antiestatal. Alguns autores
inclusive radicalizam o debate e pregam abertamente que o Estado está
obsoleto e desnecessário ao mundo da economia globalizada.
Diferentemente dos momentos anteriores, agora o capital privado,
vinculado aos novos segmentos e eixos da economia tercerizada, globalizada e
da glorificação do consumo, que polariza e transforma-se no agente modelador
das mudanças na configuração espacial. Isso é uma alteração significativa
107
Reordenamento Territorial no Surbio da VP
no gerenciamento das definições e na qualidade desta nova espacialidade.
Há novos interesses e novas estratégias sendo postas em prática, tanto
nos investimentos dos fixos, na definão formal e ideológica das formas
espaciais, nos processos e nas relações sociais. Agora esses componentes,
no seu conjunto, exigem mecanismos agilizadores do fluxo financeiro, da
oferta de bens e serviços, das trocas de informões, das conees com a
dinâmica global, do exercio da cidadania, da estética da paisagem, do
modo e da condição de classe, do papel do Estado, dos direitos sociais e de
tantos outros aspectos da vida social. Agora a hegemonia está nas os do
capital privado, e, principalmente, do capital global e especulativo.
Quando listamos a parte mais dinâmica e significativa dos novos
investimentos que chegaram a VP, nesse período da reestruturação/
reconversão espacial, destacam-se aqueles ligados à esfera do privado
e do global como os grupos varejistas multinacionais e os Shopping
Centers, que são independentes de uma planejamento anterior e do controle
desenvolvimentista do Estado. Obedecem exclusivamente à velocidade e à
mobilidade das novas necessidades de deslocamento do eixo da acumulação
do capital s-industrial.
As mudaas espaciais nas formas e funções, os novos eixos sobre
os quais se movimentam a dinâmica ecomica vinculada ao processo de
globalização e do capital financeiro-especulativo, o papel desempenhado
pelos novos atores da reconversão cio-espacial e as mudanças que estão
sendo operadas no papel da cidade na divisão nacional e internacional do
trabalho manifestam-se em múltiplas escalas e uma delas, na escala do local,
pode-se verificar nas rápidas e significativas mudaas no surbio carioca,
em especial na Vila da Penha e adjacências.
108
Reordenamento Territorial no Surbio da VP
3.4 - MERCADO E RENDA LOCAL: O OUTRO LADO DAS
MUDANÇAS.
Para demonstrar a existência da mudança espacial, a intensidade, a
velocidade com que se processa e o grau qualitativo, os dados e as situões
apresentadas comprovam este trabalho. No entanto, para formar um quadro
mais abrangente é fundamental refletir sobre os demais elementos que compõe
essa complexa rede de relações, desde a paisagem à disposição espacial dos
objetos e, na outra extremidade, a potencialidade do mercado consumidor
e as classes sociais envolvidas nessa trama.
Uma questão que se coloca permanentemente é a busca das razões
que formaram as condições locais pré-existentes que, articuladas com os
interesses externos, atraíram os investimentos dos modernos setores da
economia pós-industrial para essa área da cidade. Anteriormente o subúrbio
era entendido como uma área da cidade e um segmento social de menor
poder aquisitivo e de renda.
Quando analisamos comparada a outras áreas da cidade, como
a chamada zona sul e a Barra da Tijuca, atuais áreas de expansão e
crescimento da cidade, composta dos segmentos sociais de mais alta renda
e poder aquisitivo, podemos concluir que algumas das transformações,
determinados tipos de investimentos e a oferta de modernos bens e servos
eso chegando simultaneamente, tanto nestas áreas como na VP. Uma das
raes que motivou o ponto de partida desta reflexão.
Na grande imprensa, esse fenômeno tem chamado atenção e já está
sendo objeto de pesquisas por parte dos Órgãos Municipais.
O nível de renda, medido principalmente pelo volume de venda
registrado no comércio tem sido um destaque. As lojas e demais componentes
do comércio e dos serviços têm apresentado resultados além dos esperados,
segundo os comerciantes, o que tem servido como indicador do potencial de
consumo dos moradores. Ainda o temos meros levantados com maior
exatidão, no entanto, os dados preliminares apontam para a exisncia de
um segmento das classes médias com um padrão de renda e de consumo
109
Reordenamento Territorial no Surbio da VP
que foge às tradicionais características das áreas suburbanas.
Outro indicador bastante utilizado e apresentado pela mídia são os
valores dos lançamentos imobiliários, pela qualidade dos lançamentos e pela
própria quantidade de laamentos recentes. Num momento de certa retrão
do mercado, chama atenção que, numa determinada área, os números da
economia estejam em certa oposição à situação conjuntural.
Indicadores disponibilizados por Órgãos do Município do Rio de Janeiro
apontam para uma situação bastante peculiar. Um dos dados disponíveis com
grande signifincia são os Índices de Desenvolvimento Humano IDH.
Dados demonstram o que os analistas denominaram “ilha de prosperidade
no subúrbio, já que os níveis e padrões de vida são mais próximas aos bairros
de classe média alta e de maior poder aquisitivo da cidade, como Ipanema,
Leblon, Barra da Tijuca. Quando comparados ao padrão dos bairros do
surbio, estes apresentam difereas significativas.
Trabalhando com dados da Prefeitura da Cidade do Rio de Janeiro, os
números referentes ao IDH Índice de Desenvolvimento Humano, torna-se
um importante indicador que abre caminho para se entender o potencial
do mercado consumidor e indicar as pistas endógenas das transformações
gerais em curso na VP.
110
Reordenamento Territorial no Surbio da VP
IDH NA CIDADE DO RIO DE JANEIRO
Índice de Desenvolvimento Humano (IDH), índices das três dimensões
formadoras do IDH, por Bairro ou partes de Bairros, ordenados pelo IDH
1991.
ORDENAÇÃO BAIRROS ACESSO AO
CONHECIMENTO
RECURSOS
MONETÁRIOS
SAÚDE E
SOBRIVÊNCIA
IDH
1 Lagoa 0,917 1,043 0,746 0,902
2 Gávea 0,920 1,010 0,758 0,896
3 Jardim Botânico 0,903 0,992 0,793 0,896
4 Leblon 0,901 0,988 0,793 0,894
5 Barra da Tijuca 0,915 1,005 0,738 0,886
6 Urca 0,927 0,937 0,790 0,855
7 Ipanema 0,888 0,987 0,772 0,882
8 Copacabana 0,895 0,957 0,766 0,873
9 Bairro Peixoto 0,888 0,938 0,793 0,873
10 Flamengo 0,903 0,949 0,762 0,871
31 Vila da Penha 0,859 0,794 0,753 0,802
24 Méier 0,875 0,839 0,790
0,835
38 Vista Alegre 0,834 0,780 0,774 0,796
71 Irajá 0,813 0,727 0,668 0,736
88 Brás de Pina 0,794 0,705 0,634 0,711
96 Penha 0,777 0,706 0,634 0,706
109 Vaz Lobo 0,798 0,678 0,603 0,693
111 Pavuna 0,764 0,659 0,653 0,692
114 Inhaúma 0,766 0,677 0,628 0,690
Fonte: Programa das Nões Unidas para o Desenvolvimento - (PNUD),
Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada - (IPEA) - Relatório de
Desenvolvimento Humano do Rio de Janeiro. Dados eso dispoveis no
site da Prefeitura: www.armazemdedados.rio.rj.gov.br
Nessa apresentação estão listados os bairros na seguinte ordenação:
Os dez primeiros bairros na medão dos índices, conforme pode-se
constatar, são os localizados na chamada parte da zona sul da cidade, área
tradicional dos segmentos de maior poder aquisitivo e de maior nível de
renda. Por esta lógica, esses bairros apresentam, conseqüentemente, uma
concentração da oferta de bens e serviços além de atrair naturalmente
grande parte dos novos investimentos privados. Entre os dez primeiros até
111
Reordenamento Territorial no Surbio da VP
a 3 posição, destacam-se bairros de outros áreas tradicionais da cidade,
localizados entre a zona sul e o centro da cidade, um padrão esperado e
amplamente reconhecido.
Na 31ª posição, numa situão que foge à provável posição esperada
e do padrão dos bairros do subúrbio, aparece a Vila da Penha, fato que,
considerado com outras informações, o configura uma situação que se possa
classificar como uma situação normal”. Essa situação, em conjunto com
outros vários estudos, vêm apontando como uma das razões que explicam
o aparecimento do que vem se denominando ilha de prosperidade no
subúrbio”, sendo a Vila da Penha um dos principais locais dessa constatação.
Listando, logo abaixo da Vila da Penha, alguns importantes bairros
adjacentes que, ao contrário, apresentam dados do IDH bastantes diferentes
e mais de acordo com o perfil médio dos bairros suburbanos.
Ao comparar os dois segmentos apresentados, os bairros de mais alto
valor de IDH de um lado e os bairros adjacentes do outro lado, pode-se
entender, com mais clareza, a situação da Vila da Penha como ilha de
prosperidade no subúrbio.
A análise desses dados do IDH, pela qualidade que esses traduzem
sobre um determinado grupo social, os economistas e os investidores
apostam no potencial de mercado e de consumo desta área suburbana, fato
que certamente pode-se apontar como uma razão endógena relevante para
explicar o poder de atração dos investimentos de capital, promovendo, eno,
o turbilhão de mudanças espaciais e sociais na VP.
Minha reflexão tem procurado desvendar os diversos e complexos
mecanismos que permitem entender o que denominamos reordenamento
territorial e as novas relações sociais que estão sendo modeladas nesta área
do subúrbio.
Essa parcela do espo não pode mais ser caracterizada com o velho
e clássico entendimento das áreas da periferia da cidade e da velha classe
operária moradora destes subúrbios. novos elementos a serem considerados
e, nessa direção, é que procuro avançar.
112
Reordenamento Territorial no Surbio da VP
3.5 A ECONOMIA EM REDES E OS NOVOS ESPAÇOS DAS
CIDADES: DA ESPACIALIDADE POLARIZADA AO ESPAÇO
RETICULAR.
Esse estudo tem demonstrado que, a partir da cada de noventa do
século passado a a consolidação da Terceira Revolão Industrial - com
os avanços da eletrônica, da computão e das redes de telecomunicações-,
surgiu um novo padrão sócio-espacial, com o estabelecimento, cada vez
mais acentuado, de uma sociedade em rede, e, conseqüentemente, com uma
espacializão reticular, substituindo as antigas formas espaciais connuas e
integradas de forma linear e/ou em área . A reestruturação econômica provoca
alterações necessárias nasrias instâncias da vida social e, naturalmente,
na organização espacial, conforme estamos demonstrando ao longo deste
estudo. Entretanto, é na forma de entender a dinâmica dos diversos fluxos
e interações, quer seja do capital, da distribuição da produção material, das
pessoas e principalmente, na atualidade, dos fluxos imateriais, representados
pelas informações, a partir das múltiplas possibilidades abertas com o novo
aparato tecnológico, é que devemos entender os novos formatos impostos a
ordem espacial para servir de arcaboo material a realização física desta
nova circulão.
De modo geral, pode-se definir essa nova conjuntura como sendo a
passagem do espaço polarizado, horizontalizado e linear para o formato
descentralizado, reticular e flexível.
As redes, em suas múltiplas combinações e possibilidades, quer
sejam aquelas assentadas em bases físicas ou mesmo aquelas que têm seu
funcionamento em fluxos imateriais, direcionam nosso entendimento do
processo de construção espacial, tanto nas formas originárias bem como
nas re-apropriações espaciais de forma ou conteúdo, para a análise das
diversas relações, nas complexas interações do conjunto e não apenas das
suas partes integrantes.
113
Reordenamento Territorial no Surbio da VP
O espaço social é uma totalidade com as suas múltiplas combinões
entre as partes, em que as interações são responsáveis por esculpir e dotar
de conteúdo as formações espaciais e sociais.
Um dos expoentes das antigas formas espaciais polarizadas e lineares,
tanto nas suas análises teóricas, nas intervenções do capital ou mesmo nas
possibilidades de superão da condição de atraso e subdesenvolvimento, é
reconhecida a teoria de François Perroux dos “pólos de desenvolvimento”.
A partir dos pólos, haveria uma difusão espacial centrífuga do crescimento
e desenvolvimento econômico, que gradativamente e dependendo da força
implementada ao pólo pelos diversos agentes econômicos, seria capaz de
se espalhar linearmente pelo espaço. Independentemente dos locais e das
situações em que essa teoria foi aplicada, o que queremos demonstrar é a
maneira como a então os diversos agentes da sua constrão entenderam
o processo de formação espacial. Aliás, os mecanismos da economia e
produção fordista, os meios técnicos disponíveis até então, a lógica capitalista
da economia de escala e de aproveitamento racional do aparato de infra-
estrutura, foram fundamentais no estabelecimento deste modelo espacial
polarizado e linear.
Nas formas espaciais, nos processos e nas funções, de maneira inerente
a este modelo geral, as cidades também se constituíram com base nessa
lógica. É claro que, nos espaços intracidades, como no Rio de Janeiro, essa
disposição espacial estava presente enquanto mecanismo dos mais variados
fluxos, quer seja na escala local ou mesmo na escala mundial, já que a
cidade sempre esteve conectada à dinâmica da economia mundializada.
Os vários autores que trataram, analisaram ou propuseram intervenções
na ordem urbana das cidades, de modo geral, interpretaram a produção do
espaço com a formatação, segundo a lógica da contigüidade, da linearidade
da forma espacial.
No Rio de Janeiro, os vários estudos e intervenções no subúrbio
também obedeceram a essa lógica espacial, que era até então a própria lógica
geral de reprodução do capital industrial associado à intervenção estatal.
114
Reordenamento Territorial no Surbio da VP
Porém, no mundo informacional e tecnogico, o espaço e a paisagem
são objetos de novas construções, de novas e complexas intervenções,
simultaneamente exteriores e interiores, ou seja; que recebe fluxos oriundos
da economia global tercerizada e da dinâmica da economia nacional/local. As
antigas formas e funções se diluem e se reconstroem em novas modalidades
espaciais carregadas de representões da sociedade pós-moderna. O mundo
do consumo se assenta necessariamente numa outra espacialidade, que agora,
e cada vez e com mais força, assentada sobre a espacialidade reticular, que
cada localidade está conectada a uma rede mais ampla, tornando-se, eno,
um elo de cruzamento e de comutão de fluxos múltiplos que alimentam
essa rede, fluxos econômicos, sociais, políticos e ideológicos.
Encontramos, em SANTOS (op. cit., p.210), uma análise que confirma
nossas argumentações:
A chamada pós-modernidade (...) um terceiro momento
na evolução de redes, os suportes das redes encontram-
se, agora, parcialmente no terririo, nas forças naturais
dominadas pelo homem e parcialmente nas foas recentes
elaboradas pela inteligência e contidas nos objetos técnicos
(por exemplo, o computador).
Desse modo, a rede parcialmente assentada no território opõe a
espacialidade atual, reticular, não-linear, e o-contiguo, às formas cssicas
da linearidade e contigüidade.
No caso da Vila da Penha e do conjunto do reordenamento territorial,
um dos aspectos que temos verificado é a singularidade desse processo
num determinado ponto do surbio, ou seja, essas mudanças não ocorrem
em todo o subúrbio, mas numa dada fração do espaço suburbano. Áreas
adjacentes a VP, como é exemplar o tradicional subcentro de Madureira,
não são contagiadas na mesma proporção e com a mesma velocidade por
esse processo renovador.
115
Reordenamento Territorial no Surbio da VP
Tomando os tradicionais subcentros das localidades centrais adjacentes,
tais como; Bonsucesso, Méier e Madureira, vimos que a Vila da Penha está
localizada numa fração não contígua do espo em relação a estes subcentros
e não tem uma relação hierarquizada, o que permite inclusive o uso do termo
ilha de prosperidade que lhe é conferida. Essa situação comprova nossa
observão sobre a nova modalidade espacial, a qual estamos atribuindo
ao modelo espacial reticular, característico desta nova fase da acumulação
vinculada e conectada em rede a economia globalizada.
O elo que transforma e VP num ponto de coneo e articulação aos
fluxos da rede global podem ser compreendidos em três processos, a ppria
reconversão espacial, redefinindo e re-apropriando das formas, funções; a
emergência dessa nova modalidade espacial vinculada a uma rede global; e a
intensificação do consumo e da cidadania do consumo pela via do mercado.
A localidade, na qualidade de espaço das sociabilidades e de fundão
das identidades, não pode mais ser entendida como um ponto de resistência
ao global. Muitos conflitos entre o local e o global são absorvido atras
dos fluxos da rede, e se tornam parte integrante do processo ecomico
globalizador.
Há interações, cada vez mais complexas, entre a localidade e a
globalidade. Essas promovem uma suposta modernização da localidade e, do
outro lado, estimulam uma cultura da fragmentão como lo resisncia
aos estímulos da globalidade. Mas isso são máscaras usadas de acordo com
os diversos interesses, ora por aqueles que radicalizam o local como centro
de resistência, ora por aqueles que estimulam a interão como mecanismo
de acesso às modernidades e aos avanços do mundo global pós-moderno.
No entanto, precisamos aprofundar esse modelo espacial reticular,
analisar em profundidade seus múltiplos e complexos mecanismos de conexão,
tanto nos aspectos da materialidadesica, ainda indispensável e vivel no
espaço, bem como naqueles aspectos inovadores das conexões imateriais,
116
Reordenamento Territorial no Surbio da VP
um dos elementos fundamentais para a ativação continua desta ligação e
formação da economia e da sociedade em rede. A VP é um dos pontos desta
conexão, por isso essa renovação espacial pode ser processada de maneira
inovadora e rompendo com os mecanismos da espacialidade clássica. E
economia tercerizada e pós-industrial assentada no capital especulativo e
financeiro necessita produzir uma outra espacialidade para dar conta desse
momento hisrico da acumulação.
Na VP, os três processos estão presentes. Primeiro quando identificamos
os mecanismos de reconversão de deseconomias presentes no espaço-social
como um primeiro fenômeno em curso. Segundo, a imposição de uma nova
forma da geometria espacial reticular, não-hierarquizada e descontinua.
Terceiro, pelos mecanismos de entendimento da questão da localidade, do
lugar, como ponto ou nó de uma ampla rede globalizada.
117
Reordenamento Territorial no Surbio da VP
CONSIDERAÇÕES FINAIS:
Há algum tempo venho pensando a cidade a partir do meu espaço
vivido, percorrendo caminhos que cruzam a sensibilidade e as reflexões
teóricas que o exercício profissional da geografia abriga. Esta dissertação é
ntese desse momento que procura estabelecer os nculos entre o percebido
e o concebido nas mudanças do meu pedo de cidade.
A onda de mudanças - analisadas no presente trabalho- colocou
imensos desafios para se pensar e entender a cidade e, sobretudo, a luta que
se trava no seu interior para impor os interesses dos diversos atores sociais
na construção de uma nova espacialidade: a reticular.
Um dos desafios colocados nesta empreitada foi pensar o espo da
cidade, mais especificamente de uma parte dela, o subúrbio, no bojo da sua
inserção na economia globalizada e na sociedade informacional, em função das
inovações que esta temática comporta, tanto no campo dos estudos empíricos
como o da prodão trica disponível. Esse é um fenômeno bastante recente
e um desafio posto para todos, inclusive para a Geografia.
É nesse sentido que essas mesmas preocupações estão presentes em
importantes pesquisadores que se debruçam sobre a probletica urbana, o
que pode ser constatado pelo temática proposta para o VII Simpósio Nacional
de Geografia Urbana, cuja eixo geral das idéias e reflexões apresentadas
foi Pensar e projetar a cidade do século XXI: desafios à construção da
probletica urbana.
Uma das questões mais enfatizadas estava diretamente relacionada
à inserção da cidade no sistema global da economia e que não pode ser
ignorada porque formam territórios complexos e articulados com novas
funções, colocando desafios à geso de lugares que são penetrados, pela
concorrência, na procura de uma maior competitividade por parte das
empresas. Ainda, nesse simpósio, refletindo sobre as espacialidades e as
temporalidades urbanas, ABREU
1
(2003), assim, sintetizou as discussões:
1
Abreu M. In Cidades: Espacialidades e Temporalidades. Dilemas Urbanos: Novas Obordagens Sobre a
Cidade. Org. Carlos Ana F. A. e Lemos Amália I. G. o Paulo. 2003. Editora Contexto
118
Reordenamento Territorial no Surbio da VP
“Pensar as cidades como compósitos de espacialidades e de
temporalidades é reconhecer que o processo de produção do
espaço urbano gera formas, conteúdos e representações que
se inserem em múltiplos níveis de investigação. Se esta forma
de estudar as cidades transforma-se em ricos mananciais
de pesquisa, ela faz também com que sua interpretação seja
bem mais dicil e complexa, pois só poderá ser realizada
se trabalharmos, ao mesmo tempo, com diferentes escalas(e
categorias) espaciais e temporais.”
São exatamente essas as queses que colocamos para buscar entender
as transformações espaciais que estão ocorrendo na Vila da Penha, a partir
dos novos interesses do capitalismo global que aportam na metrópole carioca.
O subúrbio carioca ao longo de mais de cem anos de história, conheceu
importantes mudaas na sua constituição. Primeiramente sua formação
esteve associada ao processo histórico de expansão da cidade cujos principais
eixos indutores foram as ferrovias e as fábricas, conformando um modelo
de ordenamento territorial em linha.
Posteriormente, identificou-se um outro modelo estruturador do
subúrbio fundado na expansão do capital imobiliário e das vias de circulação;
configurando um modelo de ordenamento territorial em área conguas.
Na atualidade, as novas condições de reprodução do capital e da vida
cotidiana exigiram novas condições para apropriação e uso de território no
surbio, impondo uma nova geografia que pode-se designar de modelo de
ordenamento territorial em rede.
Esse está intimamente relacionado à produção do espaço da cidade e
às novas sociabilidades que, por sua vez, estão profundamente marcadas pela
presença das avançadas tecnologias das telecomunicões e da infortica,
criadoras de condições para reprodução do capital associado à era da
economia globalizada. Nesse processo é que se forjam as novas paisagens
e as novas espacialidades com as características da economia em rede, onde
cada ponto es unificado a processos de âmbito global, tanto na produção
como no consumo.
119
Reordenamento Territorial no Surbio da VP
O subúrbio carioca estudado é representativo de mudanças sob a
hegemonia de firmas de bens e serviços organizadas em rede. Essas (re)
elaboram formas e conteúdos de apropriação e uso do terririo, através de
um conjunto de empreendimentos territorializados que demonstram uma
nova dinâmica do subúrbio carioca, em particular, da Vila da Penha.
Outro elemento importante constatado, neste trabalho, o as alterações
operadas nas relações sociais e na sociabilidade dos indivíduos. Cada vez
com mais força operam-se mudaas na esfera do exercício da cidadania no
espaço da cidade, reduzindo os indivíduos à categoria de consumidor-cliente,
que passa ter parte dos seus direitos fornecidos por relações de mercado e o
mais pela esfera do poderblico. O individualismo substitui radicalmente
o sentido de coletividade e os espaços de uso público são cada vez mais
embalados pelos encantos do capital privado.
Por último, é preciso reafirmar a confiança e a esperança na luta que a
sociedade organizada deve empreender no processo de luta pela aproprião
e produção do espaço da cidade. Ainda acredito nos embates coletivos que
coloquem em cheque os encantos desse espo do capital. Ainda acredito
na produção de um espo, nas cidades, em que as virtudes apregoadas pelo
discurso das modernidades, que efetivamente criam condições e meios para
construção de uma sociedade mais avaada quanto aos aspectos materiais e
quanto às formas de vida, possam estar ao alcance de um contingente muito
am daqueles que hoje podem desfrutar de condições dignas de existência.
120
Reordenamento Territorial no Surbio da VP
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