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UNIVERSIDADE FEDERAL DE SANTA MARIA
CENTRO DE ARTES E LETRAS
PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM LETRAS
REMEMORAÇÃO/COMEMORAÇÃO: PRÁTICA
DISCURSIVA DE CONSTITUIÇÃO DE UM
IMAGINÁRIO URBANO
TESE DE DOUTORADO
MARIA CLECI VENTURINI
Santa Maria
2008
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REMEMORAÇÃO/COMEMORAÇÃO: PRÁTICA
DISCURSIVA DE CONSTITUIÇÃO DE UM
IMAGINÁRIO URBANO
Por
Maria Cleci Venturini
Tese apresentada ao Curso de Doutorado do Programa de Pós-graduação em
Letras, Área de Concentração em Estudos Lingüísticos, da Universidade Federal de
Santa Maria, como requisito parcial para obtenção do grau de
Doutor em Letras.
Orientadora: Prof.ª Dr. Amanda Eloina Scherer
Santa Maria
2008
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__________________________________________________________________
V469r Venturini, Maria Cleci
Rememoração/comemoração : prática discursiva de constituição
de um imaginário urbano / Maria Cleci Venturini. – 2008.
235 f. : il. color. ; 30 cm + 01 DVD.
Tese (Doutorado em Letras) – Universidade Federal de Santa
Maria, 2008.
Orientação: Profª. Dr. Amanda Eloina Scherer.
Acompanha 01 DVD com anexos.
1. Prática discursiva. 2. Análise do discurso. 3. Imaginário urbano.
4. Memória coletiva. I. Scherer, Amanda Eloina, orientadora. II. Título.
CDU 801
_____________________________________________________________________
Catalogação: bibliotecária Daiane Citadin Raupp - CRB 10/1637
Universidade Federal de Santa Maria
Centro de Artes e Letras
Programa de Pós-Graduação em Letras
A comissão Examinadora, abaixo assinada,
aprova a Tese de Doutorado
REMEMORAÇÃO/COMEMORAÇÃO: PRÁTICA DISCURSIVA
DE CONSTITUIÇÃO DE UM IMAGINÁRIO URBANO
elaborada por
Maria Cleci Venturini
como requisito parcial para a obtenção do grau de
Doutor em Letras
COMISSÃO EXAMINADORA:
____________________________________
Prof.ª Dr. Amanda Eloina Scherer (UFSM)
(Presidente/Orientadora)
____________________________________________
Prof.ª Dr. Mónica Graciela Zoppi-Fontana (UNICAMP)
____________________________________________
Prof.ª Dr. Carme Regina Schons (UPF)
____________________________________________
Prof.ª Dr. Elisabeth Fontoura Dorneles (UNICRUZ)
___________________________________________
Profª Dr. Verli Fátima Petri da Silveira (UFSM)
Santa Maria, 02 de junho de 2008.
AGRADECIMENTOS
À Profª Dr. Amanda Eloina Scherer, pela equilibrada orientação, pelas
incansáveis leituras, pela inestimável compreensão nos momentos difíceis, pelas
fortalecedoras palavras de incentivo, pela absoluta disponibilidade, pelo exemplo de
profissional que é, pelo carinho e amizade que me dedicou, enfim, por tudo;
Ao PROCAD/CAPES por ter me concedido seis meses de bolsa na
UNICAMP;
À Fundação Érico Verissimo, à Unicruz, ao Poder Público Municipal de Cruz
Alta, à Agência de Publicidade e Propaganda de Cruz Alta NPC; por
disponibilizarem documentos e informações;
Aos professores do PPGL, com os quais muito aprendi;
Aos professores da UNICAMP: Mónica Zoppi-Fontana, Suzy Lagazzi e
Eduardo Guimarães pelas aulas e pela acolhida;
À Irene e ao Jandir, secretários do PPGL, pela seriedade do trabalho que
realizam;
Às amigas que fizeram do Curso de Doutorado um espaço de profícuas
reflexões intercaladas por momentos alegres e descontínuos, em especial à Themis,
companheira de todas as horas; à Verli Petri da Silveira; à Rejane Arce Vargas, à
Michele Schimitt, à Marluza da Rosa;
Aos colegas da Unicruz, Antônio Escandiel dos Santos e Vaima Lemos e da
Unicentro, por compartilharem desta caminhada tão importante;
À Bety, dedicada professora de Francês, Lídia, Célia Bassuma, Ari, Edgar e
Raquel, pela força e amizade nas horas difíceis;
Ao meu irmão Gilmar de Azevedo pelo apoio e pelo carinho de sempre.
Ao esposo Alberto, às filhas Ana Rosa e Aline, por respeitarem as ausências
e acreditarem sempre nesta conquista;
Enfim, a todos que acreditam que se qualificar “vale a pena”.
Uma geração vai, e outra geração vem:
Porém a terra para sempre permanece
E nasce o sol, e põe-se o sol,
E volta ao seu lugar donde nasceu.
O vento vai para o sul, e faz o seu giro para o
Norte; continuamente vai girando
O vento, e volta fazendo circuitos.
(Eclesiastes – 1, 4-6)
RESUMO
Tese de Doutorado
Programa de Pós-graduação em Letras
Universidade Federal de Santa Maria
REMEMORAÇÃO/COMEMORAÇÃO:
PRÁTICA DISCURSIVA DE CONSTITUIÇÃO DE UM IMAGINÁRIO
URBANO
AUTOR: MARIA CLECI VENTURINI
ORIENTADOR: PROF.ª DR. AMANDA ELOINA SCHERER
Santa Maria, 31 de março de 2008.
O tema desta investigação é “rememoração/comemoração e imaginário urbano”. Buscamos
sustentação nos domínios teóricos da História e da Antropologia e deslocamos a noção de
comemoração para o funcionamento na análise discursiva. Refletimos acerca da
rememoração e da comemoração, definindo as duas noções separadamente. A
rememoração, de um lado, como o discurso de, que funciona como interdiscurso e que pelo
funcionamento do pré-construído, legitima e sustenta a comemoração. E de outro, a
comemoração como o discurso sobre – a atualidade. A rememoração/comemoração, juntas,
constituem o intradiscurso – fio do discurso do sujeito - como efeito do interdiscurso sobre si
mesmo. A rememoração eixo vertical tem dois funcionamentos: como memória e como
texto fundante. Dividimos o corpus discursivo a partir dos procedimentos de “fazer crer”, de
De Certeau (1994) e do lugar de memória, noção desenvolvida por Nora (1984) e que na
ordem do discurso se constitui, de acordo com Courtine (2006), como um sistema de
arquivo, uma rede de formulações a partir da qual retornam enunciados que atualizam os
dizeres e saberes de uma FD. A rememoração/comemoração é o lugar de memória desse
discurso e estrutura-se por quatro instituições da cidade: a Fundação Érico Verissimo, que
organiza a memória discursiva e determina o que deve ser visibilizado e o que deve ser
apagado; a Unicruz (Fundação Universidade de Cruz Alta); o Poder Público Municipal e a
Mídia. O imaginário urbano de que tratamos é Cruz Alta, cidade do interior do Rio Grande do
Sul, que se representa para dentro e para fora de seus limites como a terra de Érico
Verissimo”. O escritor é o objeto de rememoração/comemoração e se constitui como o
objeto a (causa do desejo) e o objeto do desejo (o objeto desejado) e se materializa no fio
do discurso pela perspectiva do sujeito desejante. Duas questões sustentam nossa reflexão:
a primeira é Como o objeto de rememoração/comemoração se constitui no espaço urbano?
E a segunda: Que domínios de memória funcionam nesse discurso? O corpus de arquivo
abrange um espaço temporal que vai de 1969 a 2006. Dele recortamos textos – exemplares
do discurso a partir de lugares, que se constituem a partir do museu. Delimitamos quatro
lugares: O museu, a Unicruz, o Poder Público Municipal e a Mídia. Trabalhamos com um
corpus complexo, que se constitui de diferentes materialidades discursivas: documentário
(dois), outdoors, placas e peças publicitárias que se materializam no fio do discurso por
enunciados verbais e não-verbais. As análises apontaram o esforço de instituições urbanas
de Cruz Alta em dar visibilidade ao objeto de rememoração/comemoração: Érico Verissimo.
Palavras-chave: rememoração/comemoração; prática discursiva; imaginário urbano; lugar
de memória; sujeito desejante.
ABSTRACT
Doctorate Thesis
Programa de Pós-graduação em Letras
Universidade Federal de Santa Maria
REMEMORATION/COMMEMORATION: DISCURSIVE PRACTICE OF
AN URBAN IMAGINARY CONSTITUTION
AUTHOR: MARIA CLECI VENTURINI
ADVISER: DR. AMANDA ELOINA SCHERER
Santa Maria, March 31, 2008.
The theme of this investigation explores “rememoration/commemoration and urban
imaginary”. This study is grounded on the theoretical domains of History and Anthropology
and the dislocation of the notion of commemoration to the discourse analysis operation.
Therefore, the two notions are defined separately. The rememoration, on the one hand, as a
discourse of, which operates as inter-discourse and the operation of the pre-constructed,
legitimates and supports the commemoration. On the other hand, the commemoration as a
discourse about is related to the present time. The rememoration/commemoration together
constitute the intra-discourse the line of the subject’s discourse as an effect of the inter-
discourse about itself. The rememoration vertical axle has two operations: as memory
and as founding text. We divided the discursive corpus based on memory place, notion
developed by Nora (1984) and which in the discursive order is constituted, according to
Courtine (2006), as a file system, a net of formulations from which return statements that
update the speeches and knowledge of a discursive formation. The
rememoration/commemoration is a place of memory of this discourse and is structured in
four instances, represented by the urban institutions: the Érico Verissimo Foundation, which
organizes the discursive memory and, determines what has to be observed and what has to
be erased; the UNICRUZ (Foundation of Cruz Alta University); the municipal government,
and the media. The urban imaginary refers to Cruz Alta, city located in the inland of Rio
Grande do Sul state, which is represented in the inner and outer boundaries as “Érico
Verissimo’s land”. The writer is the object of rememoration/commemoration and constitutes
himself as the object to (cause of willingness) and the object of willingness (the object of this
willingness) and he materializes himself in the line of the discourse by the willingness subject
perspective. Two questions support our reflection: the first one is How the object of
rememoration/commemoration is constituted in urban space? And the second one: which
memory’s domains operate in this discourse? Our aim is to know how the discourse of
rememoration/commemoration as discursive practice of an urban imaginary constitution is
represented and institutionalized. The corpus of this file comprehends the period from 1969
to 2006. There from we set apart texts samples of discourse from the instances of
delimitated place of memory. We analyzed a complex corpus, which is constituted of varied
discursive materialities: documentaries (two), billboards, signs and advertisement, which are
materialized in the line of discourse by verbal and non-verbal statements. The analyses
show, briefly, the effort of the urban institutions of Cruz Alta in providing visibility to object of
rememoration/commemoration: Érico Verissimo.
Keywords: rememoration/commemoration; discursive practice; urban imaginary; place of
memory; willingness subject.
LISTA DE ILUSTRAÇÕES
Figura 1
Folder de divulgação do museu - 2005............................................
27
Figura 2
Texto que circulou em Cruz Alta no coletivo urbano da Empresa
Nossa Senhora de Fátima - 2005.................................................... 88
Figura 3
Monumento “A Lenda da Panelinha - Cruz Alta -
2008..................................................................................................
150
Figura 4
Fotografia da placa que se encontra na entrada da cidade de Cruz
Alta - 2004........................................................................................ 154
Figura 5
Documento da família Verissimo dirigido ao administrador do
museu...............................................................................................
166
Figura 6
Peça publicitária divulgada no aniversário de Cruz Alta -
2004..................................................................................................
175
Figura 7
Érico Verissimo - um século de história - 2005................................
182
Figura 8
Placa colocada em frente ao Museu - 2005....................................
185
Figura 9 O mesmo lugar - frente do museu - 2008........................................
185
Figura 10
Divulgação do museu pela UNICRUZ e Fundação Érico
Verissimo.......................................................................................... 188
Figura 11
Ônibus que circula pela cidade e continua circulando - 2005..........
194
Figura 12
Portal da Prefeitura Municipal de Cruz Alta - 2006..........................
194
Figura 13
Peça publicitária desenvolvida pela agência NPC, de Cruz Alta,
para divulgar a coleção de relógios Guitel........................................
204
Figura 14
Peça gráfica criada pela Agência de Publicidade NPC, de Cruz
Alta, para divulgar a XI Coxilha Nativista - 1991..............................
208
Figura 15
Divulgação da TV por assinatura em Cruz Alta, veiculada em
1994..................................................................................................
211
Figura 16
Texto veiculado no jornal - aniversário de Cruz Alta - 2006............
214
Figura 17
Érico Verissimo na Fenatrigo em Cruz Alta - 1971..........................
226
LISTA
DE
ANEXOS
encartados no DVD
ANEXO 01
Vídeo ‘A casa perdida e a casa reconquistada’ (Inauguração do
museu)...........................................................................................
235
ANEXO 02
Vídeos ‘A casa conquistada e a ‘Volta à Cruz Alta’
.......................................................................................................
235
ANEXO 03
Vídeo ‘Museu Érico Veríssimo’.....................................................
235
ANEXO 04
Vídeo ‘Apresentação do Museu’....................................................
235
ANEXO 05
Vídeo ‘Cruz Alta hoje’....................................................................
235
SUMÁRIO
PRÓLOGO
A Cruz Alta de Érico Verissimo: um lugar fora do tempo e fora do espaço......
15
INTRODUÇÃO..................................................................................................
21
PRIMEIRA PARTE
REMEMORAR/COMEMORAR: RELAÇÕES E FILIAÇÕES TEÓRICAS.......
27
1Delimitando territórios e abrangências.....................................................
28
1.1 Primeiras palavras.................................................................................. 28
1.2 Apresentação do tema........................................................................... 29
1.3 Delimitação do tema e constituição de arquivo...................................... 35
2 Rememoração/comemoração: deslocamentos........................................ 42
2.1 Rememoração: espaço discursivo..........................................................
43
2.2 Comemoração: tensão entre o estratégico e o simbólico.......................
47
2.3 Lugar de memória...................................................................................
57
2.4 Lugar de memória e lugar da história..................................................... 61
2.5 Rememoração/comemoração: discurso de e discurso sobre.................
63
2.5.1 Rememoração: discurso de...........................................................
63
2.5.2 Comemoração: discurso sobre......................................................
65
3 Entre a memória e a história: a rememoração/comemoração...............
71
3.1 História e Memória..................................................................................
73
3.2 O funcionamento discursivo da memória pela história...........................
78
3.3 Sujeito porta-voz..................................................................................... 81
3.4 Funcionamento da memória discursiva.................................................. 83
3.5 Encerrando a primeira parte................................................................... 85
SEGUNDA PARTE
O IMAGINÁRIO URBANO: ENTRE A RECORDAÇÃO E A CELEBRAÇÃO
88
1 Materialidades do discursivo: a língua na história...................................
89
1.1 Primeiras palavras.................................................................................. 89
1.2 Práticas discursivas: rede conceitual......................................................
92
1.3 Categorias do interdiscurso: pré-construído e intradiscurso...................
95
1.4 Sujeito e discurso: modalidades de identificação................................... 98
2 O funcionamento do sujeito e a relação real e imaginário...................... 101
2.1 Real/realidade, sujeito/eu, simbólico/imaginário.....................................
103
2.2 Sujeito desejante: o desejo de ser igual a ou semelhante a...................
105
3 Materialidades não-verbais: diferenças e aproximações........................ 109
3.1 Discurso e funcionamento do enunciado-imagem..................................
109
3.2 A constituição do sentido dos textos não-verbais...................................
114
4 O imaginário urbano: condições sócio-históricas................................... 117
24
4.1 Imaginário urbano e discurso da cidade................................................. 117
4.2 Textualidades constitutivas do discurso urbano..................................... 120
4.2.1 O Público e o Privado no discurso urbano.....................................
123
4.2.2Cruz Alta e Érico Verissimo............................................................ 126
4.2.3 Constituição do sujeito imaginário ................................................ 128
4.2.4 Discurso de rememoração/comemoração no espaço urbano..... 131
4.3 Discurso linear e memória saturada....................................................... 137
5 Procedimentos metodológicos.................................................................. 141
5.1 Marcando posições.................................................................................
141
5.2 Encaminhando os procedimentos metodológicos.................................. 144
5.3 Conjuntos de textos e questões de pesquisa................................... 146
5.4 Encerrando a segunda parte.................................................................. 148
TERCEIRA PARTE
REMEMORAÇÃO/COMEMORAÇÃO: LUGAR DE MEMÓRIA......................
150
1 Rememoração/comemoração: procedimentos de fazer-crer.................. 151
1.1 Primeiras palavras.................................................................................. 151
1.2 A visibilidade material do discurso urbano..............................................
152
2 Lugar da organização e repetição de traços de identificação.................
158
2.1 Museu: representação do lugar de memória.......................................... 158
2.2 A organização dos saberes da rememoração/comemoração............... 165
3 Processo de identificação: entre o mesmo e o diferente........................ 174
3.1 Relação cultura e herança...................................................................... 174
3.2 Érico em cena: o escritor........................................................................ 182
3.3 A presença e a ausência no mesmo lugar..............................................
185
3.4 Patrimônio: recordação e preservação................................................... 188
3.5 Unicruz: um espaço de lugar de memória............................................ 191
4 Efeito de espelhamento e imaginário urbano.......................................... 194
4.1 O homem do espelho vai às vilas........................................................... 195
4.2 Na casa do povo: o contador de histórias..............................................
199
4.3 O funcionamento da Mídia......................................................................
202
4.3.1 Discurso transverso: O tempo e o Vento................................... 204
4.3.2Redes parafrásticas: traços de pertencimento e de identificação 208
4.3.3 Érico Verissimo/Cruz Alta: NET................................................... 211
4.3.4 A história e a memória......................................................................... 214
CONSIDERAÇÕES FINAIS............................................................................
218
POST-SCRIPTUM
Cruz Alta hoje: no tempo de Érico Verissimo...................................................
224
REFERÊNCIAS................................................................................................
227
ANEXOS...........................................................................................................
234
PRÓLOGO
A CRUZ ALTA DE ÉRICO VERISSIMO:
UM LUGAR FORA DO TEMPO E DO ESPAÇO
1
Érico Verissimo encontra-se com seu amigo mais íntimo todas as manhãs em
frente ao espelho do quarto de banho na hora onírica em que se barbeia. Estabelece
com ele diálogos mudos, numa linguagem misteriosa feita de imagens, ecos de
vozes, alheias (ou deles), antigas ou recentes, relâmpagos súbitos que iluminam
faces e fatos, remotos ou próximos, nos corredores do passado – e, às vezes,
inexplicavelmente, do futuro enfim, uma conversa que, quando analisamos os
sonhos da noite, parece processar-se fora do tempo e do espaço. Nesse encontro
misturam-se sonhos, realidades imaginárias, recordações, enfim, a
rememoração/comemoração de Érico Verissimo em torno de Cruz Alta, a terra natal,
e dele mesmo, sua família, a infância e a juventude, em suma, a sua vida.
Emerge, desse encontro fora do tempo e do espaço, a cidade constituída de
imagens, a partir das quais ele a descreve, às vezes suave e bela, como quando se
despedia para ir estudar no Colégio Cruzeiro do Sul, em Porto Alegre, em 1920.
Outras, como uma cidade encardida pela sua terra vermelha, que ele sentia nos
dedos, na face, nas folhas dos livros que manuseava, em cima das mesas, no chão
sob as solas do sapato e, às vezes, dentro dele mesmo [...].
Leitores e alguns críticos de sua obra e o povo cruz-altense vêem a cidade, a
família Verissimo e o sobrado como “modelos” para a obra ficcional, especialmente
O Tempo e o Vento. Do alto de suas memórias, “o sujeito do espelho” encerra as
discussões, dizendo que crê ser necessário esclarecer que a família Cambará não é
positivamente uma projeção dos Verissimo no domínio da ficção, assim como Santa
1
Neste prólogo, o que está grifado em itálico corresponde a excertos da narrativa autobiográfica Solo
de Clarineta I, aos quais intercalamos nossa voz a fim de descrever a Cruz Alta imaginária de Érico
Verissimo.
16
não é uma cópia papel carbono de Cruz Alta. O próprio sobrado do seu avô
Franklin não é em nada parecido com o sobrado dos Terra-Cambará.
Não nega, ao contrário, referenda Cruz Alta como o ponto de encontro dos
dois troncos, cujos ramos se uniram e, numa sucessão de enxertos e cruzas,
tornaram possível o desabrochar desse espécime humano que agora o contempla,
irreverente, do fundo do espelho. Nela, destacam-se a família Verissimo e o sobrado
a casa mais imponente da cidade que abriga o casal - Dr. Franklin Verissimo da
Fonseca e D. Adriana e seus oito filhos. Ele, cidadão conhecido pela sua
generosidade, pela sua habilidade como médico e pela sua atitude paternal para
com os pobres. Ela, dama de moral impecável, mas, para a época em que viveu, de
hábitos um tanto ousados e “modernos”, pois costumava fumar cigarrilhas e escrever
sonetos.
O casal teve oito filhos: três mulheres e cinco homens. A prole se dividia em
dois grupos: os magros e esbeltos e os baixos e gordos. O temperamento dos
membros do primeiro grupo podia comparar-se com uma brasa [...]. Os membros do
segundo grupo, esses viviam em permanente incêndio. Entre os homens da família
Verissimo destaca-se Sebastião. É o típico filho de família tradicional de cidades
pequenas: orador aplaudido, apesar da voz fraca, sem metal, efeminada. Vaidoso e
presenteador. Tinha mania de agradar aos outros e levava isso a extremos curiosos.
Um deles foi doar a um amigo a coleção de selos do filho Ênio. Apaixonado por
ópera, de vez em quando mandava vir a Cruz Alta, sob sua responsabilidade,
companhias de operetas italianas.
Cruz Alta era uma típica cidade do interior. Tudo era simples e cordial. A
pobreza era vista como algo irrevogável. Érico Verissimo e seus amigos eram todos
mais íntimos das estrelas e da lua. O céu era maior e estava mais perto de suas
cabeças. Um hábito na cidade não de Cruz Alta, é verdade, mas de quase
todos os burgos do Rio Grande era o de ficarem senhoras e senhoritas, das mais
variadas idades, longo tempo debruçadas em suas janelas, “olhando o movimento
da rua”. Elas sabiam da vida de toda a cidade. O Clube Comercial era o baluarte da
burguesia local. Um episódio ocorrido em 1913 ilustra o funcionamento da
sociedade cruz-altense.
O fato ocorreu na noite de 31 de dezembro, dia e hora em que o ano de 1914
entraria festivamente ao som de canções, gritos, vivas, abraços, beijos, frenéticos
atropelos... No momento em que os músicos fizeram uma pausa, ouviu-se um
17
tiroteio cerrado e próximo, identificado pelos entendidos como produzidos por armas
de guerra. Balas começaram a zunir por cima da cabeça das pessoas na área
descoberta do clube. Era o assalto ao Comercial. Por ter sido rejeitado como cio
do “baluarte da sociedade local”, um tenente arregimentou soldados da Artilharia
e atacou a sociedade. Terminado o tiroteio, o tenente marchou com seus
comandados até à frente do edifício como se quisesse invadir-lhe o recinto. A cidade
saiu em defesa do clube, chamando-os de covardes e canalhas. O tenente foi
expulso dali.
Além do clube, outros dois pontos de encontros destacam-se: a Farmácia
Brasileira, de Sebastião Verissimo, e a praça no centro da cidade. A farmácia ficava
a uma quadra da Praça e separava-se da casa residencial de Sebastião Verissimo
o proprietário - por um corredor pavimentado de mosaico. No pátio, havia mesas e
cadeiras para os visitantes, que ultrapassavam a muralha simbólica do balcão.
Agiam como se estivessem em festa permanente, ignoravam os doentes e os
remédios aviados no laboratório. Sebastião portava-se sempre como um anfitrião. O
tema das conversas eram os mexericos sobre o povo da cidade e sobre política.
Falavam também de mulheres, principalmente chinas, “raparigas”, pois esses eram
os nomes que se davam às prostitutas.
Uma sala de operações e dois pavilhões - abrigo dos recém-operados -
compunham o cenário da farmácia Brasileira. Nesse ambiente, o cômico alternava-
se com o trágico, o pitoresco com o grotesco, o sonho com o pesadelo. No pátio,
contrastando com o ambiente tido como normal para uma farmácia, os bichos
corriam: os cachorros andavam atrás das cadelas, os gatos atrás dos ratos e os
empregados da farmácia caçavam as criadinhas da casa. Os animais faziam amor
ao ar livre, à vista de todos, ao passo que os rapazes e as raparigas escondiam-se
atrás das portas ou no fundo dos porões. A descrição desse espaço visibilidade
às diferenças entre classes sociais e gêneros em torno do sexo em três instâncias: a
dos pobres, a dos ricos e a das mulheres. A primeira assemelha-se a dos animais, a
segunda é regrada, mas permissiva, podem ter uma esposa legítima e uma jovem
amante e, em relação à terceira, há silêncio.
O segundo ponto de encontro era a praça central. Nela, reunia-se aos
domingos a sociedade local para ouvir música, conversar e tomar cerveja. A banda
de música do 8º Regimento de Infantaria dava retretas. Os membros da sociedade
local usufruíam, portanto, da vida social e cultural da cidade. Freqüentavam o
18
cinema e as livrarias. Érico Verissimo e o sujeito do espelho faziam parte desse
grupo e, por isso, rememoram a sua “educação cinematográfica” e concluem que foi
lá por 1915 que começou o seu processo de americanização naquela escola que era
o Biógrafo Ideal. De quando em quando chegavam à cidade circos mambembes.
Havia também boas escolas - a Venâncio Aires - e a Aula Mista Particular da famosa
professora D. Margarida Pardelhas inesquecível figura de educadora. Ela era uma
espécie de Nêmesis, temida pelos alunos insubordinados ou vadios e respeitada e
mesmo venerada pelos outros.
Outro tempo: novo casal no sobrado - Maria Augusta Verissimo e o marido Dr.
Catarino Azambuja. A farmácia Brasileira não existe mais. Novo ponto de encontro
de amigos. Os tempos eram outros e o tema das conversas também. O grupo
reunia-se para ouvir pelo rádio a transmissão que a Broadcasting Municipal de
Buenos Aires fazia de óperas inteiras durante a temporada lírica do teatro e para
representar cenas de “Os Maias” ou de O Crime do Padre Amaro”. O sobrado era
um mundo cultural e social dentro de outro mundo maior e excluído que o
contemplava deslumbrado.
A Cruz Alta de Érico Verissimo era uma cidade sem rios nem lagoas, plantada
em cima dum coxilhão, a quase quinhentos metros acima do nível do mar e dotada
de bons ares. A Rua do Comércio era o seu eixo: começava na frente da estação
ferroviária e, indo de praça a praça, chegava até a umas ruelas baixas e
esburacadas. Dessas ruas avistavam-se suaves coxilhas, com capões azulados,
estradas e barrancos, que mais pareciam talhos ora dum vermelho de sangue de
boi, ora dum amarelo-alaranjado abertos naquelas terras vestidas de um verde
vivo e lírico. Depois da rua principal avistavam-se outras, não pavimentadas. Dessas
ruas, quando ventava, subia uma nuvem de poeira vermelha, que deixava muros,
casas e caras um tanto encardidos.
A arquitetura da cidade era incaracterística. Sejamos francos: feia. Não
possuía relíquias dos tempos coloniais porque fora fundada em 1834. O único
monumento tombado pelo Serviço de Patrimônio Histórico Nacional é o portão de
azulejos, em estilo colonial português, situado em certo trecho da rua principal.
Distinguia-se das demais cidades pelas bandas de músicas militares e pelo fato de
contar com um regimento de infantaria e outro de artilharia montada. Isso era
importante para a economia e também para as famílias. Quando chegavam à cidade
jovens oficiais do exército, as moças ficavam alvorotadas, pois em sua grande
19
maioria tinham fascinação pela farda. Os galãs locais eram então postos de lado [...].
A sede do município, em 1926, teria de dez a doze mil habitantes, quando muito. A
gente? Acolhedora, isso sem prejuízo de seu comovente bairrismo.
Era uma comunidade típica do Planalto Médio. A população possuía uma
remota origem portuguesa. Formava-se de caboclos “pêlo-duro” e de descendentes
dos tropeiros paulistas que vinham de Sorocaba para comprar mulas. O clima era
frio e seco no inverno, muitos ventos, algumas visitas do minuano, hóspede nada
agradável. Verões amenos, com noites perfumadas e tépidas [...]. Primavera
escabelada, flores de pêssegos e de laranjeiras nos pomares, doces perfumes no ar,
céus incertos, aguaceiros que não se anunciam com antecedência. [...] Érico
Verissimo veio descobrir a beleza do outono, por acaso num dia de maio e névoa
dourada, nos campos do Retiro, cheirava a mel. A água que abastecia a cidade em
geral era trazida às residências em pipas numa carroça puxada por matungos ou
petiços. Brotava ela duma fonte límpida chamada Panelinha. Havia um ditado
segundo o qual um forasteiro que bebesse dessa água ficava preso ao sortilégio da
cidade.
A lei era a dos políticos. Às vezes tarde da noite, homens batiam à porta da
farmácia [...] trazendo feridos e, sangrando, alguma vítima de capangas dos
políticos. Era um feudo republicano. Não havia oposição. Havia dois tipos de
recrutamento de soldados: os voluntários aceitos sem questionamentos e os
não-voluntários, que eles agarravam à força homens entre dezoito e cinqüenta anos,
que passavam a ser então conhecidos como “voluntários a maneador”. Destaca-se
na cidade a rivalidade entre pica-paus (republicanos) e maragatos (federalistas). Em
1926, essa rivalidade começou a declinar, tornando possível a Frente Única três
anos mais tarde.
Em princípios de 1928, as eleições municipais tiveram dois candidatos a
intendente para evitar uma cisão na família republicana cruz-altense. Borges de
Medeiros optou pelo engenheiro Pedro Paulo Scheunemann, alto funcionário da
Secretaria de Obras Públicas. As lideranças políticas da cidade o rejeitaram e ele foi
afastado. Em seu lugar ficou um homem “capaz de agüentar a mão”. Tratava-se de
Sebastião Verissimo, detentor das qualidades exigidas para o cargo: ser cruz-
altense e de preferência duma família tradicional da terra [... ] e ter coragem física e
senso de autoridade.
20
Em 1926 surgiu a segunda Farmácia a farmácia Central. Érico Verissimo
considerava o comércio uma atividade prosaica e vagamente imoral. Naquela cidade
quem não era amigo íntimo ou parente chegado ou remoto de Érico Verissimo o
havia conhecido “de pequeno”. Todos estavam empenhados em serem fregueses da
farmácia Central. Por essa razão, as vendas aumentavam, mas os lucros não.
Parecia que a cidade inteira tinha crédito ilimitado na casa. Se a Farmácia Brasileira
de Sebastião fora uma das mais estranhas de que se tem notícia, a Farmácia
Central lhe ficava muito atrás. Essa farmácia também foi à falência. Érico Verissimo
deixou a cidade em 1932 e foi para Porto Alegre, onde viveu até o fim, 1975.
INTRODUÇÃO
Para dar verossimilhança a uma personagem não autobiográfica, o
novelista tem de usar toda a sua capacidade de empatia, isto é, a faculdade
de meter-se no corpo de outras pessoas e que lhe permite sentir-se, ser
alternadamente um herói ou um covarde, um bandido ou um santo, uma
dama virtuosa ou uma prostituta (Érico Verissimo, Solo de Clarineta I, p.
297)
2
.
Para iniciar a caminhada, que nem o tempo nem o vento poderão impedir
3
,
apresentamos com esse texto os resultados da investigação em torno da
rememoração/comemoração. O tulo do trabalho é longo, explicativo e, assim como
a língua, falho, contraditório e opaco. De um lado, sabemos que é difícil assumir
uma tese como essa, mas de outro, o como não assumi-la. Desde nossa
chegada em Cruz Alta, em 2002, encontramos, nesse espaço urbano, Érico
Verissimo: sua presença imaginária ou simbólica está em todos os lugares, desde a
entrada da cidade, onde em uma placa pode-se ler: “Cruz Alta: Bem-vindo à terra de
Érico Verissimo”.
Não é preciso andar muito. Na avenida que corta a cidade está a casa
designada “centenária”. Em frente dela há uma placa com uma informação
referencial: “Nesta casa nasceu, em 1905, Érico Verissimo”. outras informações,
mas essa se destaca até porque se trata de um enunciado que se repete quando o
escritor é apresentado às pessoas que chegam ao museu. Trata-se do Museu Érico
Verissimo, inaugurado em 1969, na antiga casa onde o escritor nasceu e morou até
1930. Entrando no museu, fotos do escritor, de seus livros e de sua família em
todos os espaços. Destacam-se, também, objetos de uso pessoal (boné, óculos,
máquinas de escrever, manuscritos e exemplares de sua obra). O diretor do museu
2
Todas as demais epígrafes referem-se a mesma obra, nas quais passaremos a indicar apenas o n.º
da página respectiva, a fim de evitar repetições.
3
Com este enunciado, o roteirista Doc Comparato resume a angústia de Ana Terra ao ver os
escravos, o pai e os irmãos mortos e a casa destruída na primeira parte da obra O Tempo e o Vento.
A minissérie foi produzida e veiculada pela Rede Globo na década de oitenta.
22
– pessoa que recebe os visitantes - informa: “neste quarto nasceu Érico Verissimo” e
desfila informações, dados, exclamações, elogios, celebrações. Com isso se entra
na vida do escritor em vários dos aspectos de sua história. Ao lado da casa há outro
prédio e quem leu o texto Solo de Clarineta I sabe que se trata da casa onde
funcionava a Farmácia Brasileira. Diante disso, nos questionamos acerca dos outros
espaços que compunham a casa: o que foi feito dos pavilhões, onde as pessoas
convalesciam quando submetidas a cirurgias? E a nespereira? Não informações.
E o sobrado? O que fizeram? Foi destruído. Por quê? Silêncio.
Uma quadra adiante e está a praça central, a Rua do Comércio. Parece
que se está no cenário de Solo de Clarineta I. As materialidades que compõem o
efeito de evidência no espaço urbano não terminam aí. Os prédios com o nome do
escritor, de suas obras e seus personagens estão por todo o lado. Essa saturação
de imagens causa estranheza, mas também interesse, talvez mais do que isso. Em
2003, propusemos, juntamente com os professores do Curso de Letras da Unicruz,
um projeto de resgate da trajetória cultural do filho ilustre de Cruz Alta e o lançamos
festivamente, com a presença do então vice-governador do Rio Grande do Sul
Antônio Hohlfeldt e Luís Fernando Verissimo (filho de Érico Verissimo). Em 2004, a
cidade iniciou os preparativos para a comemoração do centenário de Érico
Verissimo. O governo do Estado do Rio Grande do Sul decretou o ano dedicado ao
escritor, à leitura de suas obras, enfim, ano de comemoração. É interessante
destacar que o que nos chamou a atenção foi o discurso em torno desse
acontecimento, que não iniciou em 2003, nem em 2004. É anterior. Também não
termina com a comemoração do centenário. Uma questão permanece desde 2002: o
que leva os sujeitos da cidade a desejar serem iguais ou semelhantes a Érico
Verissimo?
E mais: o que vai acontecer depois do centenário? E em relação à obra
literária: os cruz-altenses leram/lêem/lerão Érico Verissimo? Como ele é
discursivizado? Como é designado? Que memórias constituem-no discursivamente?
O que o sustenta? Que saberes e práticas o institucionalizam? O arquivo constitui-se
de materialidades distintas. Essas questões parecem ser locais, ligadas a uma
cidade, a um nome, mas elas ocorrem em outros espaços e enfocam não só nomes,
mas também e principalmente acontecimentos, de modo que cabe problematizar: A
comemoração implica a rememoração ou é o contrário? Esse tema trata de Érico
Veríssimo, de Cruz Alta ou dos dois juntos? Há, também, saberes de domínios
23
distintos e o funcionamento da rememoração/comemoração está nos entremeios
desses saberes.
Foram quatro anos de investigação, de caminhadas, de retomadas e, às
vezes, de paradas. Finalmente, seguimos um caminho e nós lhes convidamos a
trilhá-lo conosco. Apesar dos muitos questionamentos, nossa hipótese é a de que a
comemoração funciona discursivamente e faz sentido na formação social em que se
constitui e circula a partir de um discurso de, que a legitima e a sustenta. Isso ocorre
a partir de um nome pelo qual a cidade se representa e é por ele representada. A
questão de pesquisa é: Como o objeto de rememoração/comemoração se constitui
no espaço urbano? A resposta para essa questão traz junto outro questionamento
como: Que domínios de memória funcionam nesse discurso?
Estruturamos este texto em três partes que se completam e se reclamam.
A primeira, intitulada Rememorar/comemorar: relações e filiações
teóricas, compõe-se de três capítulos. No primeiro, apresentamos o tema e o
delimitamos teoricamente e em relação ao espaço de rememoração/comemoração e
também ao objeto do discurso, o qual se situa entre a cidade e Érico Verissimo. No
segundo, refletimos acerca da rememoração/comemoração, do lugar de memória, e
diferenciamos lugar de memória de lugar da história. No terceiro, abordamos a
rememoração/comemoração entre a História e a memória, o funcionamento da
memória pela história, o sujeito porta-voz e o funcionamento da memória discursiva.
A segunda parte intitula-se Discurso urbano: entre a recordação e a
celebração e a dividimos em cinco capítulos.
No primeiro capítulo, abordamos as materialidades do discursivo. Iniciamos
pela língua na história e a rede de noções necessárias para a análise discursiva.
No segundo, refletimos acerca do funcionamento do não-verbal na
perspectiva discursiva, bem como as diferenças e aproximações entre essa
materialidade e a verbal.
No terceiro, enfocamos a relação entre o real e o imaginário no discurso.
No quarto capítulo, abordamos o espaço urbano em sua história e as razões
histórico-sociais pelas, quais, Érico Verissimo constitui-se na cidade como um sujeito
que é ao mesmo tempo a causa do desejo e o próprio objeto dele.
No quinto capítulo, tratamos dos procedimentos metodológicos. O corpus
de análise constitui-se de dois eixos estruturantes:
24
O primeiro constitui-se do mobiliário material urbano de Cruz Alta e placa que
identifica a cidade, na qual se o enunciado: “Bem-vindos à Cruz Alta: terra de
Érico Verissimo”.
O segundo eixo é composto por quatro conjuntos de textos:
Do Museu Érico Verissimo - dois vídeos (Anexo 01 e 04);
Da Fundação Universidade de Cruz Alta (UNICRUZ) textos publicitários da
instituição (figuras 6, 7, 8, 10);
Do poder público municipal – textos publicitários (figuras 11 e 12);
Da mídia impressa – textos publicitários (figuras 13 a 16).
A terceira parte, denominada Rememoração/comemoração: lugar de
memória divide-se em quatro capítulos.
No primeiro, abordamos a rememoração/comemoração no discurso urbano
pelos procedimentos de “fazer-crer” que encaminham os textos para o discurso.
No segundo, analisamos dois deos sobre o Museu, este entendido como o
lugar que organiza a memória de Érico Verissimo no espaço urbano.
Trabalhamos com dois vídeos, (anexos 1 e 4): 1 documentário de
inauguração do Museu, recortado do programa 20 gaúchos que marcaram o
século, (RBS-TV); 1 vídeo produzido pela UNICRUZ, com duração de cinco
minutos, realizada em 2004.
No terceiro capítulo, analisamos quatro textos advindos da Unicruz. O
primeiro é o texto publicitário veiculado nos jornais de Cruz Alta, no qual a
universidade comunica que passa a administrar o museu (fig. 6); o segundo, o folder
“Érico em Cena” (fig.7) divulga o trabalho realizado pela Universidade com obras do
escritor nas escolas; o terceiro, é a placa colocada pela instituição em frente ao
museu (fig. 8), e o quarto é um peça publicitária de convite à visitação pública ao
Museu (fig. 10).
No quarto capítulo, abarcamos dois lugares: o Poder Público Municipal e a
Mídia. O primeiro constitui-se de dois textos. Um deles foi veiculado em 2005 nos
ônibus do transporte urbano (fig. 11), e tem como chamada central a designação do
escritor “Como nosso maior contador de história”. O outro texto é de 2006. Foi
colocado no pórtico da Prefeitura Municipal (fig. 12). O segundo lugar da mídia -
analisamos textos midiáticos a respeito de nossa temática. Recortamos quatro
textos publicitários: de 1982, a divulgação de relógios (fig. 13); de 1991, divulgação
da XI Coxilha Nativista (fig. 14); de 1994, propaganda da empresa de TV a cabo -
25
NET (fig. 15); de 2006, propaganda da Auto Panambi e do aniversário da cidade (fig.
16).
O imaginário urbano delimitado por meio das textualidades analisadas é o de
Cruz Alta. O campo discursivo de referência dá-se num enquadramento temporal
que vai de 1969 a 2006. Para fins de análise, consideramos que se realizam em
torno de discursos de rememoração e de comemoração, que se deslocam
ciclicamente: o que é hoje comemoração pode vir a ser rememoração. Nesse
sentido, as duas noções funcionam juntas. Por isso a grafamos com uma barra:
rememoração/comemoração.
O DVD é parte do texto, que dois documentários que o constituem fazem
parte do corpus de análise. É relevante destacar, ainda, as epígrafes recortadas da
narrativa autobiográfica Solo de Clarineta I que introduzem as partes e capítulos da
tese. Chamamos essas epígrafes de a memória da/na memória. O escritor é, no
texto autobiográfico, o sujeito-autor, mas é também personagem e narrador. Para
falar do passado, do presente e, às vezes, do futuro, ele “simula” seu encontro na
frente do espelho com o “outro”, seu amigo mais íntimo. Constrói a partir desse
encontro uma versão do Érico Verissimo que ele vê refletido no espelho, de sua
família, de suas casas, da terra natal e da sua vida como escritor. Essa narrativa
funciona como um discurso de rememoração – discurso de, porque legitima e
ancora o discurso sobre, que textualiza a comemoração. Ele funciona, enfim, como
uma memória.
O texto em questão compõe-se de dois volumes. Utilizamos as epígrafes do
primeiro volume porque nele destaque para a origem da família Verissimo, para
as casas: o sobrado, a casa onde o escritor nasceu e a casa em Porto Alegre; que
possibilita circunscrevermos um modo de funcionamento do espaço urbano nos
domínios social, cultural e político. Não é um tratado antropológico, nem um discurso
da história, mas uma memória. Nela irrompem discursos de um tempo mais longo,
que se inscreve no eixo da verticalidade, instaurando a repetibilidade, que anuncia a
produção de sentidos outros. Não nos preocupamos, em relação aos recortes, com
a cronologia dos fatos, mas com a rede de significância que eles constituem. O
passado que retorna se constitui de retomadas, avanços no tempo e sustenta as
reflexões da personagem acerca do presente em que foi escrita, do passado e
também do passado desse passado.
26
Utilizamos Solo de Clarineta I, publicado pela Editora Globo, em 1995. Nas
epígrafes recortadas, para evitar repetição, colocamos apenas o n.º da página
respectiva.
Além das epígrafes recortadas da obra autobiográfica, elaborados também a
partir de excertos dela, um prólogo e um post spriptum a fim de situarmos a nossa
tese entre a cidade imaginária de Érico Verissimo e a Cruz Alta que entendemos se
constituir por entre essas memórias, na medida em que compreendemos, por
Pêcheux (1999), que há sempre algo que falta. O sentido desliza e a memória
esburaca-se. Apesar de a cidade esforçar-se para inscrever no interdiscurso e de
escrever no intradiscurso Cruz Alta/Érico Verissimo/obra em um mesmo texto,
numa mesma ordem que se repete entre o tempo e o vento e, apesar dele, esse é
um processo que não tem fim.
27
PRIMEIRA PARTE
REMEMORAR/COMEMORAR: RELÕES E FILIAÇÕES TEÓRICAS
Outra recordação de minha distante infância nada tem a ver com estórias de
assombração. Posso calcular a minha idade nesse tempo: três ou quatro
anos, quando muito, pois quando a cena se passou eu estava recostado
num dos degraus da porta da frente da Farmácia Brasileira, e esse degrau
teria a altura do meu umbigo (p. 61).
Figura 1 – Folder de divulgação do museu – 2005.
28
1 DELIMITANDO TERRITÓRIOS E ABRANGÊNCIAS
Fregueses entravam e saiam da farmácia. Poucos compravam a dinheiro. Os
estancieiros costumavam pagar suas contas só depois da safra anual e
sempre que seu débito ia além de duzentos mil-réis, exigiam que lhes
déssemos de presente um vidro de perfume francês. (p. 215)
1.1 Primeiras palavras
Nesta primeira parte, apresentamos o tema e sua delimitação e, em seguida,
enfocamos os entornos teóricos que sustentam as análises empreendidas em
relação ao tema e aos recortes efetivados no corpus da pesquisa. A comemoração e
o lugar de memória, tomados da história e da antropologia, constituem a base do
arcabouço teórico desta investigação. Na seqüência, destacamos as noções
rememoração e comemoração na forma como funcionam nos seus domínios e
mostramos como nos apropriamos delas, reinscrevendo-as nos domínios da Análise
de Discurso de Linha Francesa. As duas ações que constituem o eixo desta primeira
parte - apresentação das noções e o deslocamento para o lugar teórico de onde
olhamos o objeto e o delimitamos são apresentadas concomitantemente. Com
isso, sinalizamos para o atravessamento de outros domínios disciplinares na análise
discursiva.
Para realizarmos os deslocamentos e a transformação da rememoração e da
comemoração ancoramo-nos em Pêcheux (1969, 1980 e 1997a)
4
, em Courtine
(1981 e 1982) e em Orlandi (2002a e 2004b). Há, como se pode ver, nas citações
efetivadas e nas referências bibliográficas ao longo deste texto, outros trabalhos e
nomes que sustentam nossas posições. No entanto, a maioria deles tomam Michel
Pêcheux
5
, como aquele que fundou as bases teóricas da análise discursiva,
4
Outros textos de Pêcheux, Courtine e Orlandi constituem nosso edifício teórico. Faremos referência
a eles ao longo desta investigação.
5
Os textos e nomes que tomamos como referência são aqueles que pensam a disciplina,
desenvolvem a teoria, e contribuem para o avanço teórico-analítico. Por isso, os citamos, mesmo sem
lhes dar o mesmo destaque dado a Pêcheux, Courtine e Orlandi.
29
juntamente com seus colaboradores. Referendamos, ainda, Jean Jacques Courtine
e Eni Orlandi como aqueles que, ao reler Pêcheux, deslocam e reformulam, tanto as
noções teóricas, como os funcionamentos da teoria, especialmente em relação aos
procedimentos analíticos, constituição de arquivo e procedimentos de delimitação
dos objetos a serem analisados. Em relação à Orlandi salientamos, mesmo sabendo
que é quase um consenso, o lugar teórico ocupado pela pesquisadora na
consolidação da Análise de Discurso em nosso país.
A hipótese norteadora desta investigação e que estrutura o seu percurso é a
de que a comemoração funciona discursivamente e faz sentido na formação social
em que se constitui e circula a partir de um discurso de, que a legitima e a sustenta.
1.2 Apresentação do tema
Senti um dia a curiosidade de descobrir a origem dos Verissimo [...] Cruz
Alta foi o ponto de encontro dos dois troncos cujos ramos se uniram e,
numa sucessão de enxertos e cruzas, tornaram possível o desabrochar
desse espécime humano que agora me contempla, irreverente, do fundo do
espelho. O miserável o está levando a sério minhas memórias (cap. 1, p.
1).
O tema de nossa investigação é rememoração/comemoração e imaginário
urbano. Trata-se de um tema abrangente e, por isso, antes de o delimitarmos
fazemos algumas considerações acerca do mesmo. A questão comemorativa tem
sido amplamente explorada, principalmente a partir da História e da Antropologia. O
mesmo, entretanto, não ocorre em relação à rememoração nesses domínios teóricos
e nem nas abordagens discursivas.
Para abordar o tema por esse viés, deslocamos essas noções e também a de
lugar de memória da História e da Antropologia para a perspectiva discursiva.
Buscamos em conseqüência as noções e os princípios próprios do trabalho nessa
perspectiva. Como salientamos anteriormente, a rememoração/comemoração não
se materializa no eixo da formulação somente por enunciados verbais, mas também
por imagens e gestos que constituem os rituais comemorativos, materializando-se
por enunciados-imagem. Na perspectiva discursiva, tem-se o discurso e o sujeito, as
30
formações discursivas, ideológicas e imaginárias e a memória em funcionamento
nas duas instâncias: como interdiscurso (constituição) e intradiscurso (formulação)
que são noções básicas.
Essa prática comporta eventos espacializados e temporalizados. Ocorre e
refere-se a formações sociais e a sujeitos que nela vivem e constróem realidades
sociais por processos de legitimação e por traços de identificação. Este processo faz
funcionar o imaginário dos sujeitos em relação a eles mesmos, ao espaço e ao
patrimônio que os constitui como sujeitos. O discurso de comemoração tem sentido
nas formações sociais pela institucionalização do seu objeto, isto é, pela
“normalidade” constituída pelos contratos sociais. Segundo Pêcheux (1997a, p. 154),
a relação contratual decorre da relação entre o “sujeito de direito” e o “sujeito
ideológico”, o pequeno “teatro teórico” da interpelação, que ilustra a discrepância da
formulação “indivíduo”/”sujeito”. A materialidade dessa interpretação ocorre nas
formações discursivas, nas quais os sujeitos se inscrevem.
O que é tido como normal legitima-se por um discurso anterior, de
rememoração que faz circular sentidos institucionalizados no eixo da formulação
pelo funcionamento da memória e realiza-se pelas coerções sociais imputadas a
grupos. Nos termos de Pêcheux (1997a, p. 160), as formações discursivas atuam
como normatizadoras desse funcionamento. Determinam o que o sujeito pode, deve
fazer ou dizer a partir de um determinado lugar.
O sujeito, pelas projeções imaginárias antecipa-se ao interlocutor e coloca-se
no lugar do outro e do seu próprio lugar para dizer ou o dizer o que diz. Isso
significa que as palavras e os enunciados têm sentido na formação discursiva em
que se inscrevem e não fora dela. A inscrição do sujeito em uma FD representa na
linguagem as formações ideológicas, em um funcionamento em que a FD constitui-
se como o lugar material da ideologia. Essa submissão tem origem na interpelação
dos indivíduos “em sujeitos-falantes (sujeitos do seu discurso)”, (Pêcheux, idem, p.
161) e legitima e ancora os discursos que entram na ordem do discursivo.
Em relação aos recortes desta investigação, destacamos que para
rememorar/comemorar é necessário antes institucionalizar determinado nome ou
evento e isso ocorre pela repetição, que faz com que o mundo institucional seja
experimentado como realidade objetiva. Essa realidade, segundo Berger e
Luckmann (2007), independe dos indivíduos e se constitui pelo tripé: sujeitos,
sociedade e realidade. Isso nos permite pensar que a constituição de um imaginário
31
urbano atende à demanda da formação social. Essa demanda a torna uma prática
social quando observada na formação social como natural e legítima.
Institucionalizar implica normatizar as práticas sociais e discursivas, de forma que
elas se tornem visíveis, aceitas e significativas para os sujeitos na formação social,
constituindo-se como discursos. No entanto, as práticas discursivas, apesar da
institucionalização, não afetam todos os sujeitos de uma FD da mesma maneira.
Como processo, elas resultam de eventos discursivos que sustentam e legitimam o
discurso de rememoração/comemoração no espaço recortado Cruz Alta e em
relação ao seu objeto - Érico Verissimo.
Delimitamos a abrangência do tema e o tratamos como prática discursiva que
se realiza entre sujeitos e constitui um imaginário urbano, isto é, buscamos saber
como os sujeitos se “vêem” e “vêemo espaço urbano, que imaginariamente está
sempre em “construção”. A matéria-prima desse discurso é o passado, não como um
tempo estagnado e finito, mas relacionado a sujeitos, que além de assujeitados à
ideologia, são também atravessados pelo inconsciente. A rememoração funciona
como memória em relação ao discurso de comemoração, que se sustenta no
interdiscurso, pelo efeito de pré-construído, segundo Pêcheux: (1997a, p. 171),
“aquilo que todo mundo sabe”. A comemoração é tomada no eixo da formulação
como a celebração de um nome ou de um evento passado.
As duas noções, nessa perspectiva, funcionam juntas e têm origem na
História e na Antropologia, lugares onde se constituem pela passagem do histórico
ao rememorativo e do rememorativo ao comemorativo. É nessa passagem que a
memória se constitui em história. Na perspectiva discursiva, cujo objeto é o discurso,
a rememoração funciona como memória e a comemoração, como atualidade. No fio
do discurso, quando da materialização do dizer, não há como separar o que é
memória do que não é. É nesse sentido que as duas noções se recobrem pelos
efeitos de evidência que dotam o discurso de transparência e homogeneidade.
A comemoração relevante, nessa perspectiva, o é a mesma da História,
nem a da Antropologia, apesar de vincular-se a elas. O recorte efetivado neste tema
e as textualidades estruturantes do arquivo e determinantes para a constituão do
corpus discursivo nos autorizam, enquanto analistas de discurso, a circular nos
entremeios de vários campos disciplinares. Entre eles sublinhamos a Lingüística, a
Literatura, a História, a Antropologia, a Sociologia, a Filosofia e a Psicanálise. À
medida que formos dando a conhecer o objeto de estudo, vamos também
32
delineando, de forma não-linear, o percurso empreendido. Essa forma de constituir o
percurso de trabalho é próprio, segundo Silveira (2004, p. 18), “de quem se serve de
noções de diferentes áreas do conhecimento, que viabilizam o desenvolvimento de
um ponto de vista, produzindo reformulações”.
A escolha do tema e o que faz parte dele realiza-se pelo gesto interpretativo
6
,
cuja questão central relaciona-se a como o texto significa. Distancia-se da tradicional
busca pelo sentido dado pelo texto, cuja função era veicular conteúdos, sem
interferência do sujeito afetado pela ideologia e pelo inconsciente. Por ser um
trabalho da ordem do discursivo, redimensiona o olhar e desloca a observação do
conteúdo (o que o texto diz) para a relação da língua com a história no que importa o
processo constitutivo do dizer. Esse deslocamento tem como efeito, segundo
Pêcheux (1997a), a compreensão do processo discursivo, como uma ruptura com as
aparentes evidências do sentido, que mostram o movimento do sentido e a deriva
para o diferente.
O discurso de rememoração/comemoração estrutura-se a partir da memória
tomada em sua dimensão vertical e horizontal. O primeiro, o eixo vertical, o da
seleção, representa “aquilo que fala antes” (interdiscurso), da ordem do -dito. A
memória tratada como interdiscurso constitui o processo parafrástico pelas redes de
formulações instauradas. O segundo, o eixo horizontal, o das relações, constitui-se
pela linearização do dizer (intradiscurso), no qual irrompem discursos inscritos em
uma rede de formulações que retornam, às vezes, re-significados, constituindo o
processo polissêmico e, noutras ainda, pela repetição, pelo mesmo, a paráfrase.
O funcionamento do discurso como estrutura, mas também como “prática
discursiva entre interlocutores” exige que se diferencie História e memória
7
. Para De
Certeau (2006), a escrita da história trata do passado, mas também do presente e
do futuro. Para ele, o passado reconstitui as sociedades e os seres humanos de
outrora. É escrita por homens e direciona-se a outros homens engajados na trama
da sociedade humana do presente. Em relação ao futuro, a “escrita da história”
contribui pela interpretação desse passado pela força do presente. A história,
segundo o mesmo autor,
6
Orlandi (2004b, p. 18) define gesto de interpretação como um ato no nível simbólico (cf. Pêcheux,
1969). Sem esquecer que a palavra gesto, na perspectiva discursiva, serve justamente para deslocar
a noção de “ato” da perspectiva pragmática; sem, no entanto, desconsiderá-la.
7
Esses dois conceitos são trabalhados na primeira parte deste trabalho, no capítulo 3, quando
explicitamos o funcionamento deles e a relação com a memória discursiva.
33
[...] se define inteira por uma relação da linguagem com o corpo (social) e,
também, pela relação com os limites que o corpo impõe, seja à maneira do
lugar particular de onde se fala, seja à maneira do objeto outro (passagem,
morto) de que se fala (DE CERTEAU, 2006, p. 77).
Isso significa que, na perspectiva da história, o sujeito fala sempre de “um
lugar” e de um tempo. Essa condição faz com que nos distanciemos da lenda e da
ficção, porque são da ordem do estabilizado. A memória, ao contrário, trabalha com
o que faz sentido na sociedade e permanece vivo nela. A diferença entre a memória
e a história está, portanto, na estabilidade da história e na instabilidade da memória,
que é da ordem do vivido.
Como o objeto desse discurso é Érico Verissimo nome de destaque na
Literatura Brasileira entendemos ser necessário nos referirmos a esse campo
disciplinar. Conforme explicitamos na introdução, as epígrafes utilizadas no início de
partes e de capítulos de nosso texto são recortes da obra Solo de Clarineta I
narrativa autobiográfica. Tanto esta obra quanto a trilogia O Tempo e o Vento
funcionam como memória (rememoração), no discurso de
rememoração/comemoração, contudo, salientamos que não estamos tratando da
literatura. No entanto, há razões para falarmos dela, como um campo disciplinar com
o qual a análise na perspectiva discursiva mantém relações.
A primeira razão diz respeito ao fato de que as memórias do escritor, tomadas
pela ficção, referendam Cruz Alta como a terra natal de Érico Verissimo e a
legitimam como a terra de. A segunda, relaciona-se ao funcionamento da obra do
escritor como memória nesse discurso, especialmente na constituição do imaginário
urbano, à medida que pessoas e lugares ficcionais constituem o cotidiano da cidade.
Além do texto autobiográfico, em nossa investigação, há referência à trilogia O
Tempo e o Vento (descrição da saga da família Terra-Cambará) e a alguns fatos
históricos do Rio Grande do Sul (1745-1945), os quais recobrem Érico Verissimo no
eixo da formulação e cidade no eixo da constituição pelo discurso transverso,
funcionamento em que um discurso anterior irrompe no eixo da formulação
8
.
Compagnon (2001) refere-se ao movimento da Literatura como disciplina e à
complexidade da teoria. Discute a relação da intenção com a realidade e da
recepção com a História. Define a ciência em sentido amplo como conjunto de textos
8
Abordaremos mais detidamente a questão do funcionamento do interdiscurso, via pré-construído,
como efeito de discurso transverso, na seqüência deste trabalho (segunda parte, 1.3).
34
escritos ou manuscritos de todas as épocas e depois pensa na sua especificidade e
suas funções. Aborda e reflete acerca do conceito de mimeses, desde Aristóteles
até nossos dias. Faz isso para falar de Literatura na relação com a realidade. Afirma
que ela não é cópia da realidade, mas também não se desliga totalmente dela. Entre
a ficção e o mundo normatizado pontos de contato decorrentes da
verossimilhança, uma importante característica do texto literário que aproxima o
ficcional da realidade.
A relação mimética entre o mundo social e o mundo da ficção nos interessa
particularmente, pois os textos de Érico Verissimo funcionam como memória no
discurso recortado, especialmente o Solo de Clarineta I e a trilogia O Tempo e o
Vento - romance que representa parte da história do Rio Grande do Sul.
O texto autobiográfico, por tratar da vida do escritor, ancora fatos que são
tomados como da ordem da realidade. No entanto, trata-se de versões do autor em
torno do espaço, do passado da personagem, de sua família, da cidade e do
contexto social, econômico e cultural da época. Ao se colocar diante do espelho, o
narrador delega a responsabilidade do que é dito a esse outro que ele vê no
espelho. Com isso, constitui um personagem que o representa. Nesse aspecto, as
memórias são tomadas como uma modalidade de discurso sobre
9
, este que
tomamos como a institucionalização, organização do dizer e da memória, no qual
aquele que fala é autorizado a fazê-lo e assume diante desse fazer uma atitude
“doutrinal”, porque busca “transmitir” informações referenciais acerca do objeto do
discurso e se ancora no discurso de rememoração.
O Tempo e o Vento, romance que recobre na ordem do ficcional duzentos
anos da história do Rio Grande do Sul, pode enquadrar-se no que Luckács (1966,
p.15) denomina de romance histórico, ao qual falta a especificidade da História. No
entanto, há nele a representação da singularidade de uma época pela atuação das
personagens. A trilogia de Érico Verissimo centra-se em acontecimentos da história,
mas não tem compromisso com a estabilidade desse campo disciplinar. É um
simulacro
10
, posto que a cidade e a família Terra-Cambará são fictícias, mas se
parecem com as cidades e as famílias existentes na ordem do real das formações
sociais. Sabemos por entrevistas dadas pelo autor, e pelos objetos culturais que
9
Discorremos acerca dessa noção na primeira parte deste trabalho, cap. 2, item 2.5.2
10
Cf. Pêcheux (1997a, p. 128)
35
constituem o acervo do Museu Érico Verissimo, em Cruz Alta
11
, que antes de iniciar
a narrativa, Érico Verissimo desenhou e planejou as cidades de sua obra e construiu
a árvore genealógica da família Terra-Cambará. O olhar que lançamos sobre esse
objeto de estudo sustenta o discurso tomado na perspectiva discursiva, por isso nos
interessam os efeitos de sentido desses exemplares do discurso como prática
discursiva, mas não ignoramos a literatura, como disciplina. Os demais campos
disciplinares de onde deslocamos noções vão sendo apresentados no decorrer
desta investigação.
1.3 Delimitação do tema e constituição de arquivo
O objeto desta pesquisa é o discurso da cidade de Cruz Alta em torno de
Érico Verissimo. Tomamos a rememoração/comemoração como prática discursiva
em relação ao imaginário urbano. A rememoração é o discurso que sustenta a
memória e possibilita a comemoração e a constituição do objeto desse discurso
como memória histórica. Esse discurso resulta do desejo dos sujeitos urbanos de se
identificarem na ordem do simbólico com o escritor, que não é um sujeito empírico,
mas um personagem criado pelo discurso urbano.
O processo metafórico materializa-se no discurso pela transferência de
qualidades, quase mitológicas imputadas ao escritor para os sujeitos/cidadãos da
cidade. O discurso em sua materialidade funciona como lugar de memória, como
dispositivo que organiza a repetição e as lembranças do passado do que foi
protagonizado pelo escritor. Como lugar de memória, o discurso sobre organiza
também os esquecimentos, o que deve ser lembrado e o que deve ser esquecido,
apagado. É nesse jogo contraditório entre a língua e a história que se realiza o
encontro de uma memória e uma atualidade, constituindo o acontecimento. O sujeito
do discurso apropria-se de elementos da vida do escritor e constitui a partir deles
traços de identificação que o aproximam dos sujeitos/cidadãos do espaço urbano.
11
Cf. anexo 2 do DVD, encartado neste trabalho.
36
Assim, Érico Verissimo/Cruz Alta podem ser lidos/interpretados/compreendidos um
pelo outro, o que legitima os discursos de rememoração/comemoração.
Para que isso ocorra, é preciso que o sujeito-objeto do discurso (Érico
Verissimo) constituído por essa memória inscreva-se no interdiscurso como Cruz
Alta, isto é, na mesma rede significante, de forma que, o que é próprio de um possa
representar ou ser transferido ao outro, por um processo metafórico, em que o Um e
o Outro se constituam no mesmo e sejam lidos e interpretados um pelo outro.
A relação que se estabelece entre o espaço da cidade e Érico Verissimo
coloca-nos em uma encruzilhada que pode ser formulada nos seguintes termos: o
objeto discursivo desta tese é o discurso da cidade ou o discurso sobre Érico
Verissimo? Resolvemos a questão de duas formas. A primeira é pela delimitação do
objeto como o discurso de rememoração/comemoração da cidade, sobre Érico
Verissimo, dando conta, de um lado, que o sujeito-objeto do discurso é um sujeito
imaginário, portador de qualidades idealizadas, que vence grandes obstáculos na
vida e mesmo sem ter curso superior fala várias línguas; e, de outro lado, o discurso
sobre realiza-se da perspectiva da cidade de Cruz Alta, que se diz ‘terra de Érico
Verissimo’. Nesse sentido, é a partir da FD da rememoração/comemoração que se
constitui esse discurso.
A segunda forma de resolver a questão foi desfazer possíveis equívocos pela
definição de cidade como um grande texto que se constitui e se deixa constituir
numa ordem que, de um lado, é própria dela e, de outro, caracteriza-se por sua
ligação com os cidadãos que a habitam e a significam como texto. A cidade
apresenta-se, ao mesmo tempo, como um texto saturado, no qual tudo está dito,
mas também como página em branco a ser escrita, preenchida,
lida/interpretada/compreendida pelos sujeitos/cidadãos que vivem nela e também
pelos que a visitam, os quais, num movimento dialético, significam-na e, são por ela
significados como o lugar do diferente no mesmo, da contradição que constitui e
vida ao sujeito/objeto do discurso.
Quando recortamos o objeto, entendemos que o discurso de
rememoração/comemoração da cidade sobre Érico Verissimo sustenta-se por meio
de lugares e que o Museu e a obra do escritor (principalmente pela trilogia O Tempo
e o Vento e Solo de Clarineta I), funcionam como materialidades desse lugar e
sustentam e legitimam o lugar de memória, em nosso caso, a
rememoração/comemoração. O enunciado ‘Cruz Alta: Terra de Érico Verissimo’,
37
inscrito em placas que identificam a cidade é uma condição discursiva para os
demais discursos urbanos e também marca os limites da cidade, estabelecendo
fronteiras
imaginárias entre o que a cidade de Cruz Alta diz que é e as outras não
são.
As visibilidades e os apagamentos do discurso de rememoração/comemoração
em torno desse objeto são determinados pelas instituições políticas, econômicas e
sociais e, é a partir delas que determinadas posições se consolidam e outras o.
Nessa perspectiva, as instituições regulam o movimento da memória histórica.
Estamos tratando de textos advindos de diferentes domínios discursivos e de
materialidades diversas. Recortamos um espaço temporal que vai de 1969 (ano da
fundação do museu) a 2006, um ano após o centenário do escritor cruz-altense.
Observamos que um espaço temporal de 37 anos em nosso recorte. Vale
lembrar que Érico Verissimo saiu de Cruz Alta em 1932 e retornou à cidade em
05 de maio de 1967, isto é, 35 anos mais tarde. O retorno foi motivado por
homenagens prestadas a ele na cidade de Cruz Alta. José Westhphalen Corrêa,
então prefeito da cidade, encabeçou essas homenagens. Na oportunidade, o escritor
doou documentos e objetos pessoais para a fundação do museu, que funciona na
casa da família Verissimo, onde o escritor nasceu em 1905. O imóvel tinha “ido a
hástia pública
12
” e foi comprado pelo poder público municipal.
Em 1969, o escritor voltou à cidade para a inauguração do museu em sua
homenagem. Na oportunidade, a RBS TV
13
filmou algumas cenas do passeio do
visitante pela cidade e pela casa onde nasceu. Entre as cenas do documentário
destacamos: ele e a esposa, Mafalda Verissimo, em visita à casa dos avós paternos,
os dois na janela do museu, o passeio pela rua e no Sobrado residência do avô –,
sentado na escada do casarão e andando no que foi um jardim e naquele momento
denotava o descuido com o casarão. Na obra Solo de Clarineta I, há várias
descrições dessa casa. Ela não existe mais em Cruz Alta, apesar de muitos
acreditarem que o Sobrado da ficção, em que vivia a família Terra-Cambará, era a
réplica da casa de Cruz Alta
14
.
12
Cf. palavras de Edemar Vieira. Anexo 4 do DVD, que faz parte deste trabalho.
13
Essa visita à Cruz Alta encontra-se no anexo 2, do DVD e foi editado pela RBS TV, para o
programa 20 Gaúchos que marcaram o século. A RBS TV é uma rede de mídia que abrange os
estado do RS e SC, uma das mais antigas afiliadas da Rede Globo.
14
A personagem da obra Solo de Clarineta I desfaz essa crença” dizendo “O próprio Sobrado de
meu avô Franklin não tem quase nada a ver com o sobrado dos Terra-Cambará.” (Verissimo, 1997,
p. 14).
38
Diante dessas particularidades acerca da relação Érico Verissimo e Cruz Alta,
buscamos constituir um arquivo a partir de prioridades, que foram as seguintes:
A primeira prioridade foi buscar textos advindos do executivo municipal e
do poder legislativo: os projetos de Lei da fundação do Museu Érico Verissimo, de
renomeação da Praça Independência, que passou a chamar-se Praça Érico
Verissimo, da transformação do museu em fundação, das premiações com o nome
do escritor e das homenagens feitas a ele e a sua família. Entendíamos ser possível
encontrar nesses textos o Érico Verissimo rememorado/comemorado pela cidade e
pelos sujeitos/cidadãos que vivem nela. Em relação à placa de identificação da
cidade, que se encontra em todos os seus limites com o enunciado Cruz Alta: Bem-
vindos à terra de Érico Verissimo, não foram encontrados datas e nem projeto de lei
de regulamentação dessa identificação. Mas entendemos que, a partir da fundação
do museu, a cidade passou a auto-designar-se como a ‘terra deÉrico Verissimo o
qual se transformou em Filho desta terra, maior bem cultural, uma herança a ser
dividida com todos. Os demais textos oficiais mostram o movimento do discurso de
rememoração/comemoração. Apesar dos efeitos de homogeneidade e linearização,
a memória histórica movimenta-se, reestrutura-se, falha, ressignificando-se.
A segunda prioridade foi recuperar textos em que o nome do escritor
funcionasse como força midiática. A busca por esses textos foi motivada por uma
palestra realizada na Universidade (UNICRUZ) por dois publicitários: Newton e
Denise Cullau
15
. Em uma de suas falas, Cullau disse: “Érico Verissimo é uma marca
imortal”.
16
Para exemplificar o funcionamento do nome do escritor como força
midiática, ele citou o Projeto da Imobiliária Projeção. Esse projeto previu a
construção de onze prédios na cidade de Cruz Alta com nome do escritor, de seus
personagens e das suas obras. Na palestra, os publicitários falaram das peças
publicitárias criadas por eles e por sua agência de Publicidade e Propaganda. Três
dessas peças constituem o corpus desta pesquisa.
Esses textos mostram o funcionamento do sujeito-Érico Verissimo e suas
obras como memória. Os discursos midiáticos, que classificamos como discurso
sobre, são, na verdade, discursos que adm do discurso sobre (que por sua vez
15
Newton e Denise Cullau são proprietários da Agência de Publicidade e Propaganda NPC,
responsável pelas campanhas que veiculam os textos em que o nome de Érico Verissimo ou de suas
obras é utilizado como força midiática, como um nome “capaz” de levar as pessoas a comprarem
determinados produtos.
16
O Diário Serrano (Jornal de Cruz Alta) abriu manchete na edição do jornal que circulou na cidade e região, no
dia 06 de junho de 2004, com esse enunciado.
39
advém de um discurso de) e originam outros discursos, constituindo-se como
discursos sobredeterminados por outros que os sustentam e lhes dão textualidade.
Os textos publicitários deslocam sentidos, promovem a ruptura entre uma coisa e
outra, ou seja, entre o que é dito no discurso urbano e o que ressoa como memória.
Neles ressoam discursos que vêm de vários lugares e de vários funcionamentos
discursivos.
A terceira prioridade foi buscar textos de 2003 a 2005, ou seja, 2003 e 2004,
anos anteriores à comemoração do centenário de nascimento do escritor, e 2005, o
ano do centenário. Os textos desses dois espaços temporais e discursivos
diferenciam-se pela noção de acontecimento histórico e acontecimento discursivo.
Entendemos que, a partir de 2003, o nome do escritor e o que diz respeito a ele na
cidade foi destacado, constituindo-se, além de acontecimento histórico, um
acontecimento discursivo, definido por Pêcheux (2002a) como a ruptura com uma
rede de formulação, à qual o enunciado está relacionado, perturbando a memória
(Pêcheux, 1999) pela inscrição do enunciado em uma nova rede de memória. Nesse
funcionamento, ocorre no intradiscurso de efeitos de sentidos e deslocamentos, que
movimentam a memória histórica da cidade.
Um dos textos que se inserem nessa terceira prioridade é o enunciado que
deu título ao projeto Resgate da trajetória cultural do filho ilustre de Cruz Alta, e
ainda: texto-outdoor com que a UNICRUZ (Universidade de Cruz Alta) e Cruz Alta
(cidade) saúdam as pessoas que visitam a Fenatrigo
17
; texto em que a UNICRUZ
apresenta-se como administradora do Museu. Ao se autodenominar desse modo, a
universidade, mobiliza um efeito de sentido de ambigüidade, na medida em que
cabe perguntar: o que é administrado por ela: o museu ou a memória do escritor?
Observamos também os slogans: Érico Verissimo, um século de história, que
circulou em canetas, camisetas e na placa em frente ao Museu
18
; e Para lembrar é
preciso preservar, slogan com o qual a Universidade (como administradora e
gerenciadora do museu e da memória) chama os cidadãos a visitarem o Museu.
Nesses textos, assim como nos demais, Universidade, Érico Verissimo e cidade de
Cruz Alta estão sobredeterminados, simulam a possibilidade de um ser
lido/interpretado/compreendido pelo outro.
17
Fenatrigo é uma festa tradicional de periodicidade anual na qual Cruz alta e cidades da região
expõem sua produção, nela acontece uma “celebração” à cultura do cereal.
18
Grifaremos a partir de agora o nome ‘Museu Érico Verissimo’, somente como Museu, a fim de
evitarmos repetições.
40
A quarta prioridade na constituição do arquivo centra-se na busca de textos
pós-centenário. Havia a possibilidade de incluir muitas textualidades nesse novo
conjunto, mas elegemos apenas duas, que circularam na cidade a partir de 2006.
Buscamos, por meio deles, mostrar o movimento da memória histórica. A primeira
textualidade foi a de um banner afixado no pórtico do prédio da Prefeitura Municipal.
Nele retornam enunciados que circularam, anteriormente (2005), um exemplo é um
dizer, assinado pelo governo municipal, disposto em ônibus do transporte público
urbano, “Este é o nosso maior contador de histórias”. A diferença mais imediata
entre o texto do banner e do ônibus está no suporte: o texto de 2005 circulou no
vidro traseiro dos ônibus e o de 2006, no pórtico da Prefeitura.
No texto de 2006, há uma logomarca da cidade, estilizada ao modo de um
brasão que retoma a história da cidade por meio de símbolos (trigo, o planalto, a
cruz e as cores), com ênfase à Administração Popular (2005-2008)
19
. O poder
público municipal, ao apropriar-se da imagem do escritor, ancorando-se num
discurso anterior, que lhe é fundante, faz com que se entrecruzem três
representações: a da cidade, a de Érico Verissimo e a da administração do
município, enquanto partido político. Acrescentamos, nessa quarta prioridade, outro
exemplar de discurso que circulou nos jornais da cidade no dia 18 de agosto de
2006 dia do aniversário do município. Nele, o escritor é retomado pela imagem do
Museu, que remete ao passado, enquanto história. Aparece nele um novo desejo
dos sujeitos urbanos: serem reconhecidos, juntamente com Érico Verissimo, como
parte desta história.
Incluímos uma quinta prioridade: relacionar a cidade imaginária descrita em
Solo de Clarineta I e a Cruz Alta de hoje (2008), bem como o que no mobiliário
urbano que remete à obra do escritor ‘filho ilustre’ de Cruz Alta, de modo mais
amplo. Para tanto, fotografamos os prédios que levam o nome do escritor, de suas
obras e de seus personagens e também os lugares mencionados no texto
autobiográfico. Registramos, também, as homenagens prestadas pela cidade a
pessoas referenciadas na obra do autor.
Os anexos 01 a 03 (encartados neste trabalho) correspondem ao recorte que
fizemos a partir do documentário 20 gaúchos que marcaram o culo (RBS TV),
episódio sobre Érico Verissimo.
19
Esse é o brasão da administração 2005-2008.
41
Nos anexos 1 e 2, destacamos as três casas de Érico Verissimo: a casa
perdida (dos pais), a reconquistada (o museu) e a conquistada (a de Porto Alegre).
O anexo 1 mostra a visita do escritor à cidade, em 1969, durante a
inauguração do Museu, exibe ainda a visita ao Sobrado (casa dos avós, descrita em
Solo de Clarineta I) e o escritor no meio do trigo, como referência “à fecundidade da
terra gaúcha”, que sinaliza a aproximação Érico Veríssimo/Cruz Alta/Rio Grande do
Sul/cultura do trigo.
O anexo 2, exibe o recorte em que visualizamos imagens da casa de Porto
Alegre e três fotos do escritor. Duas delas, de 1967- o retorno a Cruz Alta, após 35
anos de ausência (1932 1967) - oportunidade em que foi homenageado na cidade
e doou objetos pessoais para formar o acervo do Museu. A terceira foto é de 1971, e
registra a visita do escritor à Fenatrig a convite dos organizadores do evento. Há,
nessas imagens, distintas representações do objeto do discurso: o Érico Verissimo
imaginário de um texto não é o mesmo em outro. O mesmo pode-se dizer da cidade
neles representada: em cada nova ocorrência, a cidade que se diz Terra de Érico
Verissimo e que se projeta na ordem do imaginário como autorizada a falar de e a
identificar-se com Érico Verissimo não é a mesma: às vezes ela é a terra de Érico
Verissimo, em outras é igual a ele e em outras, busca sobrepor-se, reclamando sua
parte no sucesso dele.
No anexo 3, temos imagens do Museu Érico Verissimo e a Cruz Alta antiga,
do tempo de Érico Verissimo.
No anexo 4, temos o vídeo, produzido pela TV UNICRUZ, intitulado
‘Apresentação do Museu’.
No anexo 5, nomeado ‘Cruz Alta hoje’, podemos assistir imagens da cidade
na contemporaneidade.
2 REMEMORAÇÃO/COMEMORAÇÃO: DESLOCAMENTOS
E eu procurava escutar a voz do poeta apesar do barulho que produziam os
caminhões que passavam na rua cheia de soldados que gritavam vivas ao
Dr. Borges de Medeiros e ao Partido Republicano. E eu também era
assisista e, na minha ignorância pueril, via apenas a superfície daquele fato
sociológico representado pela Revolução de 1923 e que um dia ia ser
História (p. 168).
No eixo da formulação, a rememoração e a comemoração recobrem-se. No
entanto, pensadas como processo de estruturação do discurso, a rememoração
funciona como memória do saber, como interdiscurso pelo funcionamento do pré-
construído e a comemoração como intradiscurso, espaço da linearidade e da
sintagmatização da memória. Por esse caminho, adentramos a constituição da
memória discursiva, entendida como um fio que puxa outros fios e tece o discurso, o
qual pelos efeitos de verdade e de evidência lineariza-se como saturado, constitutivo
de memórias não-lacunares. A rememoração é apenas citada como recordação nos
domínios da História e da Antropologia. Não chega a ser pensada como constitutiva
da comemoração e nem como indispensável para que esta se efetive.
Na perspectiva discursiva, nós a tomamos como processo discursivo, definido
por Pêcheux (1997a, p. 161) como “o sistema de relações de substituições,
paráfrases, sinonímias [...] que funcionam entre elementos lingüísticos
´significantes´ - em uma formação discursiva dada”. Tomamos essa noção no
funcionamento dos enunciados em uma estrutura: vertical da ordem da memória -
e horizontal correspondente ao intradiscurso e sinaliza para a repetibilidade.
Iniciamos, por isso, nossas reflexões por essa noção, como um dos fios constitutivos
do “tecido” discursivo.
43
2.1 Rememoração: espaço discursivo
20
Na História e na Antropologia, a rememoração aproxima-se da recordação do
passado, que se subordina, segundo Catroga (2001b, p. 22): “ao princípio de
realidade, o que exige que as evocações, apesar de conjugarem um tempo passado
(anterioridade), mobilizem argumentos de veridição, tendo em vista garantir a
fidelidade do narrado [...]”. A rememoração, enquanto espaço discursivo, constitui-se
pela memória discursiva
21
e visibilidade, pela formação discursiva, ao sujeito
interpelado pela ideologia e atravessado pelo inconsciente. Participa da urgência de
uma formação social em comemorar, fornecendo-lhe um modo de funcionamento.
Constitui os andaimes que estruturam o discurso comemorativo, e se materializam
nos gestos de comemoração, como o ‘fazer-memória’ pela institucionalização e
legitimação da celebração de nomes ou eventos significativos para uma formação
social. Podemos perceber que alguns desses andaimes são retirados da obra,
apagados, mas retornam ao eixo da formulação porque são imprescindíveis para a
atualização da memória.
Os discursos de rememoração, de um lado, trazem para o domínio da
atualidade vestígios de um passado que retorna como recordação e, de outro, são
interpretados pelos valores sociais do presente. Sua função é instaurar e sustentar o
discurso de comemoração. Nesse movimento, conjuga representação-interpretação
e o devir, em um funcionamento que é, ao mesmo tempo, gesto de recordação, de
atualização e de prospecção. A possibilidade desse gesto decorre da celebração no
presente de nomes, de pessoas ou de eventos a partir dos quais a memória, apesar
da falta e da falha, atualiza saberes. Diante disso, pode-se dizer que a rememoração
não se lineariza materialmente, ela é um efeito de memória no eixo da formulação
intradiscurso – no discurso comemorativo.
Nesse sentido, funcionam como rememoração (discurso de) as memórias que
ancoram a comemoração e emergem no eixo da formulação, sustentando o dizer.
20
Noção desenvolvida por Pêcheux (2002) e referida por Courtine (1981) como domínio de memória,
a partir do qual é possível apreender os funcionamentos discursivos de encaixamento de pré-
construídos e de articulação de enunciados. Os espaços discursivos figuram em um plano de
organização de um corpus discursivo, em que o interdiscurso é uma instância de constituição de um
discurso transverso que regula para um sujeito enunciador as condições de produção de um discurso
e o modo de apresentação dele.
21
A memória discursiva de Courtine (1981) funciona pelo interdiscurso, pelo retorno de enunciados.
Explicitaremos esse funcionamento na segunda parte deste trabalho, capítulo 1 (1.3).
44
Constituem-se, assim, como a memória do discurso de comemoração (discurso
sobre) e retornam nos gestos comemorativos materializados pelo “fazer crer”
22
. As
ações que “fazem crer” tornam visível o objeto de comemoração para a formação
social e direcionam o sentido pelo que apagam e pelo que deixam visível. A
visibilidade dada por esses gestos significa pela memória - eixo da verticalidade.
Nessa memória, inscrevem-se saberes da FD
23
dominante na formação social, cuja
significação emerge pelas relações entretecidas com outras FD’s que a constituem
pelo lugar em que esse saber funciona. A rememoração se refere aos domínios de
pensamento e se constitui sócio-historicamente “sob a forma de pontos de
estabilização que produzem o sujeito, com, simultaneamente, aquilo que lhe é dado
ver, compreender, fazer, temer, esperar” (Pêcheux, 1997a, p. 161).
Esses pontos de estabilização constituem os traços de identificação pelos
quais os sujeitos se reconhecem e reconhecem o outro, em um funcionamento no
qual a FD seria a “matriz”, uma grade de leitura que faculta a interpretação. A
aparente homogeneidade do funcionamento de uma FD dissimula a sua
dependência ao “todo complexo com dominante”
24
das FD’s ao complexo das
formações ideológicas em que elas se inscrevem e a partir das quais significam. O
interdiscurso, como memória discursiva, é esse “todo complexo com dominante” que
se submete à desigualdade-contradição-subordinação constitutiva das formações
ideológicas. Sublinhamos, nesse aspecto, o assujeitamento do sujeito à ideologia,
fazendo funcionar, nos discursos de rememoração, o imaginário e o simbólico
25
.
O funcionamento do imaginário remete à realidade, à ilusão constitutiva do
sujeito de pertencimento a uma FD. Aproximamos esse reconhecimento da “norma
identificadora”, referida por Pêcheux (1997a, p. 159) pela qual o sujeito se identifica,
vendo-se imaginariamente no que é e no que deve ser. Ainda segundo Pêcheux
(Ibid.), é a ideologia que fornece as evidências pelas quais os sujeitos entram na
22
Explicitamos o funcionamento da noção fazer-crer”, utilizada por De Certeau (1994), na segunda
parte desse trabalho.
23
A FD que tomamos como dominante no espaço urbano de Cruz Alta é a da
rememoração/comemoração. Essa FD é heterogênea, pois outras FD´s articulam-se em torno dela.
No entanto, conforme explicitamos nos procedimentos metodológicos (item 5.2), analisamos nosso
corpus a partir dos procedimentos de “fazer-crer” e do lugar de memória: a
rememoração/comemoração, nessa perspectiva é o lugar de memória e sustenta outros lugares.
Recortamos quatro lugares: o museu (que organiza os demais lugares), a Unicruz, o poder público de
Cruz Alta e a Mídia.
24
Cf. Pêcheux, 1997a, p. 162.
25
As representações imaginárias e simbólicas, e os efeitos de sentido delas retomadas no terceiro
capítulo da segunda parte desse trabalho.
45
ordem do simbólico diferentemente, apesar de os mesmos enunciados estarem
disponíveis a eles em um mesmo espaço temporal. Um mesmo texto traz para o
eixo da formulação diferentes efeitos de sentido. Segundo Pêcheux (Ibid., p. 161), o
sentido se constitui em cada FD “pelas posições ideológicas que estão em jogo no
processo sócio-histórico no qual as palavras, expressões ou proposições são
produzidas (isto é, reproduzidas)”.
Aproximamos a rememoração da noção de ‘espaço discursivo’, tal como
definida por cheux (2003) como um saber estabilizado, pelo qual o sujeito tem a
ilusão de saber do que fala e por que fala. O enunciado “produzido nesses espaços
reflete as propriedades estruturais independentes de sua enunciação” (Ibid., p. 31).
A homogeneidade deles constitui-se no eixo da formulação pelas evidências lógico-
práticas, que mostram o discurso como aparentemente transparente como resultado
do “fazer-crer”
26
, constituído pelo mobiliário social e cultural no discurso, que circula
no espaço urbano. A rememoração constitui-se na verticalidade. Pêcheux
sistematiza funcionamento da memória vertical por meio de três evidências lógico-
práticas de nível muito geral. A primeira é a de que um determinado objeto não pode
estar ao mesmo tempo em duas localizações distintas. A segunda é que “um objeto
X não pode ter a ver ao mesmo tempo com uma propriedade P e a propriedade não-
P” (Ibid., p. 31). A terceira, da ordem do acontecimento, pode vir a se efetivar ou
não, pois às vezes a repetibilidade se solidifica e não instaura o novo.
A rememoração é tomada de duas formas distintas: a primeira como
interdiscurso, como “algo fala (ça parle) sempre antes, em outro lugar
independentemente” (Id., 1997a, p. 162), isto é, sob a dominação do complexo de
formações ideológicas. A segunda, pelos enunciados que veiculam saberes e
sustentam outros enunciados, fazendo-os retornar pelo lugar de memória. Nesses
dois sentidos, a rememoração e os saberes que a constituem irrompem na
atualidade. No primeiro caso, pelo interdiscurso e, no segundo, pelo mobiliário social
e cultural, pela narrativa memorialística e imagens que circulam na cidade. É
definido como discurso de porque, para que um discurso e os eventos de
comemoração tornem-se possíveis, comemoráveis, é necessário, antes de tudo,
institucionalizar o nome ou evento comemorado/celebrado, isto é, fazê-lo funcionar
nos domínios de memória, como atualização e também, de acordo com Courtine
26
Descrevemos essas evidências quando abordamos os procedimentos de “fazer-crer” desenvolvido
por De Certeau (1994).
46
(1981), como antecipação. Nesse sentido, entendemos o discurso de rememoração
como “coisas a saber” que, segundo Pêcheux (2002), funciona como redes de
memória decorrentes de filiações identificadoras.
Essas redes identificadoras não são transferidas ou apreendidas pelos
sujeitos por processos de aprendizagem ou interação, mas por sua inscrição em
formações discursivas que determinam o que pode ou não entrar na ordem do
discursivo. Os discursos atestam a presença do discurso-outro, como materialidade,
cujo funcionamento marca na materialidade descritível da seqüência “do interior
dessa materialidade, a insistência do outro, como lei do espaço social e da memória
histórica, logo como o próprio princípio do real sócio-histórico” (Id., p. 55). Pela
rememoração, constituem-se os espaços transferenciais da identificação. Esses
espaços são constituídos por uma pluralidade contraditória de filiações históricas
materializadas através de imagens, nas três formas de representação propostas por
Durand (2004): semelhança (1), imagem propriamente dita (2) e (3) vestígios.
Entendemos que esta última forma de representação materializa-se no discurso por
meio de palavras de ordem, de citações, de definições, de lugar de memória e de
enunciados fundadores que retornam ao eixo da formulação e sustentam os ritos
comemorativos.
Os discursos de rememoração, em relação às “coisas a saber”, constituem-se
de efeitos de evidência de que os sujeitos do discurso sabem “do que falam”, porque
evocam objetos que se inscrevem tanto na ordem do privado, como na ordem do
público, dotando-os de efeitos de realidade. Um elemento determinante para a
efetivação dessa ilusão são aqueles constituídos pelos procedimentos de “fazer
crer”, os quais dão visibilidade ao objeto do discurso pelo “fazer-ver”. Esses
procedimentos assemelham-se às reservas de conhecimento acumuladas, que
“protegem” a formação social de ameaças do esquecimento e do apagamento
daquilo que é tomado como o que necessita ser mantido, principalmente pelo Estado
e pelas instituições, que são “pólos privilegiados de resposta a essa necessidade ou
a essa demanda” (Pêcheux, op. cit., p. 34). Constitui o saber estabilizado, aquilo
que se repete, segundo Orlandi (2002a), numa rede parafrástica, em que a
paráfrase é a “matriz” do sentido. Nesse funcionamento, a repetição sustenta o
saber discursivo e presentifica experiências passadas que irrompem no eixo da
formulação. O saber discursivo retorna sob a forma de pré-construídos.
47
Apesar de conceber a rememoração como paráfrase (da ordem do repetível)
é importante enfocar a movência própria dela, cuja sustentação concretiza-se pela
relação da memória com a FD, que determina o que pode e deve ser dito, mas
também o que significa e não significa pelo lugar de onde o sujeito olha o objeto e
pelo grau de dependência dele a esse lugar. Para arrematar a questão da
rememoração como memória, ancoramo-nos na seguinte formulação:
a memória não poderia ser concebida como uma esfera plena, cujas bordas
seriam transcendentais históricos e cujo conteúdo seria um sentido
homogêneo, acumulado ao modo de um reservatório: é necessariamente
um espaço móvel de disjunções, de deslocamentos e de retomadas, de
conflitos, réplicas, polêmicas e contra-discursos (PÊCHEUX, 1999, p. 56).
Pode-se dizer, com isso, que a rememoração é linearizada no eixo da
formulação e instaura efeitos de sentidos distintos pelos espaços de memória que
convoca e faz trabalhar no discurso.
2.2 Comemoração: tensão entre o estratégico e o simbólico
A designação comemoração nos moldes em que foi definida por Pierre Nora
(1992) funciona junto à noção de lugar de memória. Essa noção foi cunhada por ele,
juntamente com cento e trinta historiadores filiados a diferentes instituições quando
do desenvolvimento de projeto de pesquisa histórica na França. É uma obra
grandiosa pela dimensão material (mais de 6.000 páginas)
27
, pela duração do
trabalho (dez anos, de 1984 a 1993), pela importância dos historiadores envolvidos
e, também, porque explora um conteúdo inovador. Recobre vários segmentos da
historiografia moderna e os fenômenos advindos dela. O centro de interesse dessa
obra é o fenômeno comemorativo, pelo qual Nora e seus colaboradores buscaram
recompor a passagem do histórico ao rememorativo e do rememorativo ao
27
O plano geral de Les lieux de mémoire, acompanhado da cronologia de sua publicação é o
seguinte: I – La Republique (1984), II La Nation (1986), estavam previstos dois volumes, mas foram
editados três: Vol. 1 – Héritages, historiographie, paysages, vol. 2 – Le territoire, L´Etat, le patrimoine,
vol 3 La Glorie, les mots; III – Le France (1993) Vol. I - Conflits et partages, vol 2 – Traditions, vol. 3
– D´archive à l´emblème.
48
comemorativo. Na passagem de um movimento ao outro, tanto a rememoração
quanto a comemoração constituem-se como história.
A noção de lugar de memória, ainda de acordo com Nora (idem) deveria
funcionar inicialmente como uma contra-memória: o lugar da crítica e da quebra com
a tendência ao elogio e à celebração. No entanto, o momento sócio-histórico
pautava-se pela “obsessão comemorativa” e isso fez com que o lugar de memória se
tornasse um instrumento de comemoração, de modo que esta passou a ser ela
própria um lugar de memória. Com isso, a possibilidade de olhar criticamente as
celebrações, inicialmente propostas pelo Estado, e as versões do passado que se
legitimavam, esvaziou-se. O objeto da comemoração, nesse projeto, é então o que
se mantém vivo do passado, descoberto por acaso pela direita e herdado pela
esquerda. Pelo processo de comemoração, o passado legitima o presente, por meio
da institucionalização de práticas simbólicas que sacralizam nomes e eventos a
serem comemorados e atualizados pelo lugar de memória.
Os rituais de comemoração iniciam pelo princípio da rememoração enquanto
recordação do passado. O ponto nodal da comemoração de um nome ou evento do
passado são as filiações e as relações identitárias, constituídas no presente. Nesse
sentido, o objeto comemorado e reconhecido como herança é sempre institucional.
Realiza-se por filiações a grupos e se constitui como um elo que liga passado,
presente e futuro, como tempos tridimensionais. A história, como continuidade,
dividia-se, inicialmente, como a história da nação e as memórias como eventos
desvinculados da Igreja e do Estado. A era do patrimônio inverteu o processo e as
memórias de grupos passaram a constituir a afirmação simbólica de identidades e
de representações não mais ligadas ao Estado. Esse fenômeno, no entanto, atingiu
e atinge não só a França, mas as sociedades contemporâneas laicas, que se vêem
como históricas e regidas pelo político.
Pierre Nora (1992) distingue dois tipos de comemoração: uma por a partir do
exemplo das comemorações que se articulam em torno da Revolução Francesa, e
outra a partir de Maio de 1968. Essa distinção possibilita uma análise contrastiva
entre os dois acontecimentos para diferenciar celebração de comemoração.
No que se refere à primeira comemoração a Revolução Francesa diz que
ela é voluntária e deliberada. Tem origem no Estado, mas funciona
contraditoriamente. Como uma comemoração imposta pelo Estado, que é impossível
de não ser comemorada, mas difícil de ser controlada nos sentidos que instaura.
49
Pertence ao domínio do mais consciente. Sua constituição resulta do trabalho dos
efeitos de evidência constituídos pelo funcionamento da ideologia, portanto, de
discursos aparentemente transparentes, próprios de memórias saturadas.
Courtine define as memórias saturadas pelo funcionamento do “interdiscurso
como preenchimento, produtor de um efeito de consistência no interior do
formulável” (1999, p. 22). O Estado comanda o dispositivo das repetições
características das celebrações e dá visibilidade à comemoração como “espetáculo”,
pelos rituais constituídos por desfiles, discursos, palavras de ordem e slogans. As
comemorações voluntárias e deliberadas instauram-se a partir do Estado e são por
ele controladas, mesmo assim, as divisões, as tensões e as contradições que
habitam a comemoração persistem e coexistem no espaço da celebração. Isso
ocorre porque é difícil controlar a memória que emerge na comemoração.
O sujeito desse discurso é sempre o sujeito investido do poder para dizer o
que diz. No discurso de comemoração
28
, recortado nessa investigação, o Museu é
uma das instituições e funciona como o lugar de onde o sujeito-locutor fala de Érico
Verissimo. O seu dizer ancora-se em dizeres institucionalizados, passíveis de serem
comprovados. No entanto, momentos em que o sujeito porta-voz
29
instaura no
discurso a sua voz, como intermediário entre a formação discursiva e as instituições,
abandonando a recitação. Isso significa que a memória, nesse caso, é voluntária,
gerenciada, datada, espacializada, o que não impede o deslizamento.
Já o acontecimento de Maio de 68 é, de acordo com Nora (1992), uma
comemoração involuntária, da ordem do inconsciente. Não é controlada nem
gerenciada pelo Estado. Funciona pelas repetições e pelas filiações identitárias de
grupos e formações sociais. Segundo Orlandi (1999, p. 65), “a falha é constitutiva da
memória, assim como o esquecimento [...], no entanto, o que acontece com os
sentidos de 68 é que eles não falham apenas nessa memória, eles foram silenciados
[...] há faltas e não falhas”.
Trata-se de ação revolucionária que, apesar de não ser palpável e consciente,
rompe com a ordem estabelecida. É auto-referencial, marcada pela opacidade e
pelo deslizamento de sentidos. A dificuldade de interpretá-la fez com que a auto-
análise, própria das autobiografias, se constituísse como lugar de memória do maio
28
Nesse discurso, a rememoração e a comemoração funcionam juntas no intradiscurso. Conforme
explicitamos no item 3.2 desta primeira parte.
29
Detalhamos o funcionamento discurso do sujeito porta-voz no item 3.3 na primeira parte.
50
de 1968, como possibilidade de atualização no seio da esquerda. As comemorações
públicas deveriam realizar-se de dez em dez anos, mas em relação a maio de 68,
isso não ocorreu, uma vez que o seu aniversário coincidiu com outras
comemorações relacionadas à esquerda.
O fenômeno comemorativo passa de uma história nacional para uma
afirmação simbólica de filiação. Isso fez com que o Estado buscasse favorecer e
enquadrar o novo impulso de laicização
30
comemorativo, por mais que esse
processo fosse estranho a ele. O imaginário da formação social e a memória como
descontinuidade passam a funcionar no processo comemorativo com a ampliação
da abrangência do sentido de patrimônio. Esse é o resultado do trabalho de
recomposição do sistema tradicional de identidade, que passou a valorizar as
referências tomadas pelo viés da proximidade, dando lugar às memórias localizadas,
às maneiras de “fazer-crer”, como processos de identificação de grupos
institucionais, que podem vir mesmo a intervir no cenário urbano, instituindo espaços
memoriais: como museus, obras autobiográficas, dando lugar a elementos do
privado.
Nesse sentido, a identidade, a memória e o patrimônio passaram a ser as
palavras-chave das identidades contemporâneas devido à urgência de
discursivização do presente. Os museus proliferaram e passaram a funcionar como
“uma máquina do tempo
31
que presentifica o passado, atualiza a memória e
encaminha para o futuro. Diante desse quadro, políticos e poder público não tiveram
outra opção a não ser institucionalizar os movimentos de comemoração. Não
gerenciadas pelo Estado, os rituais de comemoração constituem-se de efeitos de
uma verdade política, própria de filiações identitárias de grupos, o que faz com que
sejam aceitas pelos sujeitos da formação social.
A instituição do ano do patrimônio é, segundo Nora (1992), um pouco o Maio
de 68: teve pouca preocupação com o futuro e seu foco foi o passado e a política de
preservação de contingentes ameaçados pelo esquecimento. A comemoração, ao
deslizar do nacional ao institucional e setorial, exerce o poder de unificação, de tal
forma que a “herança” relacionada à transmissão de bens culturais passa a ser
definida como o bem que constitui os grupos sociais. A volta ao passado como
30
A laicização corresponde à desvinculação da comemoração do Estado e da Igreja, num movimento
em que passaram a ser comemorados também nomes e datas ligadas a pequenas comunidades e
grupos. Esse movimento coincidiu com a patrimonialização.
31
Cf. Catroga (2001b).
51
tradição constitui-se como uma rejeição à modernidade. Assim, as comemorações
fazem funcionar os imaginários sociais e as filiações simbólicas por um quadro de
representações que as legitimam.
Davallon (1993/1999), assim como Nora (Ibid.), teoriza acerca da
comemoração e aborda o fenômeno comemorativo a partir do Bicentenário da
Revolução Francesa. Para ele, a comemoração constitui-se como a possibilidade de
“olhar” criticamente o passado. Esse “olhar” pauta-se na leitura simbólica do fato
social comemorado, como resultado do jogo político ligado ao sócio-histórico que
envolve esse fato. A ação política da comemoração exige que os sujeitos sociais
tomem posição, filiando-se à comemoração, ou, ao contrário, desidentifiquem-se
dela pela rejeição aos valores colocados pelas celebrações e rituais comemorativos.
Isso ocorre porque o fazer comemorativo, mesmo quando proposto pelo Estado, não
tem como controlar a memória que o constitui e que atualiza o discurso do presente,
fazendo o sentido deslizar.
A comemoração desencadeia a aceitação e a crítica e, por isso, deve ser
abordada pela dupla dimensão estratégica e simbólica. Dessa abordagem,
decorrem, ainda segundo Davallon (1993), duas conseqüências: uma conjuntural e
outra estrutural. A primeira dimensão, a estratégica, diz respeito ao planejamento e
desenvolvimento dos ritos comemorativos, enquanto que a segunda, a simbólica,
refere-se à própria análise deles em suas conseqüências políticas e se concentra no
caráter ritualístico e institucional da comemoração. A dimensão estratégica
desencadeia conflitos e contradições próprias da vida pública que descarta a
unanimidade e a impossibilidade do congelamento dos sentidos. Nessa perspectiva,
a comemoração representa o que é vivo nas formações sociais, constituindo-se
como a refundação do passado. A Revolução Francesa, por exemplo, representa o
mito da instauração de uma sociedade nova pela revolução que propiciou o gesto
fundador de uma sociedade de direito pela Declaração dos Direitos Humanos.
Em relação aos rituais políticos desencadeados pela comemoração, Davallon
(Ibid) afirma que se pode provisoriamente chegar a três conclusões. A primeira é a
de que eles criam e materializam uma rede identitária entre os atores sociais.
Discursivamente, dizemos que se cria uma rede de relações entre os sujeitos de
uma formação social em um tempo e espaço determinados. Essa rede de relações
visibilidade a uma determinada ordem social, significando-a de acordo com
interesses institucionais, por meio de discursos, de imagens e de palavras de ordem.
52
A segunda conclusão é que a ordem social visibilizada não representa a
realidade comum à formação social. Na perspectiva discursiva dizemos que essa
ordem aparece num espaço imaginário, instaurando a pulsão, o desejo de ser
“semelhante” ou “igual a”. Essa segunda conclusão remete ao discurso de
rememoração que advém do espaço urbano em torno de Érico Verissimo, ou seja,
diante das perdas sofridas, os sujeitos colocam-no no lugar de e a partir desse lugar
o comemoram.
Ainda de acordo com Davallon o aparecimento de uma ordem social num
espaço imaginário significa três coisas: a primeira é que aquilo que está
representado, nesse espaço e nesse tempo, escapa à lógica do verdadeiro e do
falso. Pertence à lógica da figurativização, na qual os contrários coabitam, os
elementos fundem-se, condensam-se, modificam-se e se constituem como um
mundo de representação. A segunda é que aquilo que se desenvolve nesse espaço
e nesse tempo efetiva-se por um “contrato” imaginário realizado entre os sujeitos da
formação social e se funda sobre a experiência humana. Nela os sujeitos
identificam-se num mundo, designado por Pêcheux (2002) como “semanticamente
normal”. A terceira é que a lógica de figurativização e a experiência comum
instaurada por esse imaginário servem de fundo para a produção da significação.
Com isso, constituem-se símbolos comuns, alegorias, narratividades, que propiciam
a refundação de um passado pelo presente.
A terceira conclusão apontada por Davallon (op. cit.) é que todas essas
práticas simbólicas e políticas de agregação sustentam-se pela produção de objetos
de memória. Esses objetos integram a prática simbólica e fornecem a re-
presentação da cerimônia que vivifica a memória. O que era objeto da história passa
a ser visto como memória coletiva de grupos, passíveis de constituir arquivo e de
tornarem-se documentos históricos dados como herança a gerações futuras. No
entanto, em relação à memória social, a herança não é da mesma ordem da familiar.
Nesse sentido, pode ser dada como herança pela rememoração e a comemoração,
enquanto procedimentos ligados à memória social, que segundo Catroga (2001, p.
44), sobredetermina os ritos comemorativos.
Nesse funcionamento, o que volta do passado pela recordação e pela
comemoração é sempre tomado do coletivo, tanto em termos do que é gerido pelo
Estado, como aquilo que faz sentido em uma dada formação social. A recordação,
segundo o mesmo autor, realiza-se sempre na alteridade. O seu fio condutor é o
53
outro e a narratividade da história vivida. Nesse sentido, “a memória é uma re-
presentificação, feita a partir do presente e dentro de uma tensão tridimensional do
tempo” (Ibid., p. 46). Isso significa que o passado retorna de acordo com as
emergências do presente e conduz a um tempo futuro, ao devir.
A comemoração, nessa perspectiva, tem como contra-face a rememoração e
se caracteriza pela contradição. Organiza-se numa narrativa aparentemente
coerente, que apaga os “buracos negros deixados pelos esquecimentos” (Ibid., p.
46). Pode-se dizer, segundo o mesmo autor, que a recordação viabiliza a
comemoração e subordina-se ao princípio de realidade, aos conhecimentos
distribuídos socialmente pelas instituições, as quais, segundo Berger & Luckmann
(2007), estruturam as sociedades humanas pela linguagem. O efeito de realidade
decorre da datação e da institucionalização do discurso. A partir da rememoração, o
que retorna do passado para o presente é o que é tido como o melhor para ser
celebrado.
Segundo Catroga (op. cit., p. 53), o funcionamento das ritualizações do
passado é contraditório. Por um lado, convocam o passado e por outro, convocam o
futuro, na medida em que o “passado como memória, participa de sua edificação”.
Esse movimento destaca o funcionamento dialético entre a recordação e o
esquecimento. Para o mesmo autor, o esquecimento representa o atravessamento
do inconsciente no que é recalcado e funciona como a fonte das recordações. Ele
possibilita a existência “não de futuros para o presente, mas também, numa
atitude justiceira, de futuros para o passado”. O presente comemorado funda-se no
passado como recordação ou como desejo, que o passado rememorado instaura
pelas comemorações, que entra na ordem do discurso pela emergência criada
pelos discursos de rememoração.
A comemoração é mobilizada com freqüência em trabalhos da Análise de
Discurso, não como fio estruturador, mas como elemento desencadeador de
discursos e de efeitos de sentido. Exemplificamos esse funcionamento com os
trabalhos de Pêcheux (2002)
32
, Maldidier & Guilhaumou (1994) e Indursky (2003). O
primeiro e o último fazem funcionar essa noção em trabalhos a partir do discurso,
como estrutura e acontecimento. O segundo trabalho mobiliza-a em relação à língua
na história. Além desses três trabalhos, outros, especialmente aqueles nos quais
32
Neste trabalho, usamos o texto de 2002, publicado pela Editora da Unicamp com o título
Discurso, estrutura ou acontecimento?.
54
analistas do discurso brasileiros refletem acerca da comemoração a partir dos
acontecimentos constitutivos dos ritos comemorativos dos 500 anos do
descobrimento do Brasil, que não desenvolveremos aqui, visto que não é o foco de
nossa investigação. Destacamos os três trabalhos mencionados anteriormente para
ilustrar o funcionamento da comemoração nos textos de Pêcheux, Maldidier &
Guilhaumou e Indursky.
Pêcheux em Discurso: estrutura ou acontecimento? reflete acerca do
discurso como estrutura e como acontecimento a partir do enunciado on a gagné
com o qual os franceses comemoraram a vitória de François Mitterrand, em maio de
1981. Nesse texto, destaca as formas como “uns e outros fazem trabalhar o
acontecimento em seu contexto de atualidade e no espaço de memória que ele
convoca e que começa a reorganizar” (Pêcheux, 2002, p. 19). Com isso ilustra o
funcionamento da estrutura pela contradição e pelo deslizamento de sentidos. A sua
formulação constitui-se pelo enunciável
33
que escapa à intencionalidade e aos
interesses das instituições sociais, as quais, apesar de organizarem a realidade
social, são atravessadas pela falha e pelo equívoco da língua. De acordo com
Pêcheux (Ibid., p. 53), “todo enunciado é passível de tornar-se outro, diferente de si
mesmo, deslocar- se discursivamente de seu sentido para derivar para um outro (a
não ser que a proibição, própria ao logicamente estável se exerça sobre ele)”.
Segundo Guilhaumou & Maldidier (1994), a comemoração é o objeto mais
focalizado pelos historiadores, especialmente a da Revolução Francesa nos anos de
1889, 1939 e 1989. Com o objetivo de repensar a relação entre a Lingüística e a
história na Análise do Discurso, os dois autores recortam enunciados de três jornais:
L´Humanité, Le Figaro e Le Monde. A partir de unidades lexicais ou sintagmas
recorrentes descrevem o impacto discursivo da memória e a maneira como a
imprensa cotidiana procura dar conta do bicentenário da Revolução Francesa, como
acontecimento fortemente valorizado e tomado como um bem-comum em uma
tradição comemorativa fortemente “estruturada” e organizada pelo Estado. Um dos
enunciados mobilizados nesse trabalho é a Queda da Bastilha”. Os enunciados que
reproduzem os sintagmas e retrabalham discursivamente o duplo sentido do nome
33
O conceito de enunciável é desenvolvido por Foucault (1969) como enunciados que legitimam os
discursos na atualidade. Courtine (1981) retoma essa noção definindo-a como o que é legítimo em
uma determinada FD e funciona como uma memória que atualiza sentidos, permitindo a leitura.
55
Bastilha, símbolo da Revolução Francesa e também tomado como nome do lugar,
da praça (cf. Guilhaumou & Maldidier, 1994).
A memória histórica, retomada pela “queda da Bastilha”, remete ao
acontecimento de 14 de julho de 1789 e se constitui como o lugar da inscrição de
um pré-construído discursivo que cristaliza enunciados, elementos do discurso da
narrativa ou da descrição de enunciadores anônimos ou esquecidos que
contribuíram após a Revolução para a denominação dos acontecimentos. A análise
de subcorpus permite opor a reprodução do sintagma às formas múltiplas de
desconstrução-reconfiguração constitutivas do sentido desses enunciados e do
acontecimento discursivo.
Indursky (2003, p. 102), na esteira de Pêcheux (2002) e Foucault (2004),
inicia a reflexão pela afirmação de que “um discurso não existe de forma isolada, ele
estabelece relações com outros discursos, no interior de domínios de saber, as
formações discursivas (FD´s)”. A partir desses dois autores, sustenta, de um lado, o
funcionamento da formação discursiva como o lugar das regularidades, que define
“as condições de existência, coexistência, transformação e desaparecimento de
certos enunciados discursivos”. E, de outro lado, como lugar em que o dizer de um
sujeito se inscreve e, sempre pelo processo de identificação autoriza certos
discursos e impede outros. Com isso, referenda a interpelação do sujeito pela
ideologia, afetado pelo inconsciente e, conseqüentemente a sua inscrição a uma
determinada FD, de onde “não só ele retira os elementos de saber que se organizam
no interior de seu discurso, como também e, sobretudo, ele se significa ao significar
ou re-significar o seu dizer”.
A autora acentua ainda, nesse trabalho, que em Análise de Discurso as
noções funcionam conjuntamente e exemplifica este funcionamento pelas noções de
repetibilidade e estrutura. A repetibilidade remete aos esquecimentos que afetam o
sujeito do discurso, especialmente o esquecimento n.º 1, da ordem do inconsciente,
pelo qual os sujeitos têm a ilusão de ser a origem do dizer. Em relação à estrutura,
refere à inscrição dos enunciados em um eixo estrutural, que tanto pode ser vertical
como horizontal. No eixo vertical esses enunciados inscrevem-se tanto em uma FD
que os interpela como sujeitos do seu discurso quanto ao interdiscurso.
[...] ao inscrever seu discurso na ordem da repetibilidade, o sujeito produz
um duplo movimento. Inicialmente retira seu discurso de uma rede de
56
formulações pré-existentes (Courtine, 1981) e, ato contínuo, re-inscreve o
seu dizer nesta mesma rede de formulações (INDURSKY, 2003, p. 103).
O discurso realiza-se no cruzamento eixo vertical, o da memória, com o eixo
da horizontalidade, o do intradiscurso. O encontro desses dois eixos constitui,
segundo Pêcheux (2002), o acontecimento. Indursky analisa o enunciado “Lula-lá” e
busca definir como este dizer faz trabalhar a memória a partir de sua inscrição em
uma rede de formulações ligadas a um tempo de longa duração, que antecede a
todas as candidaturas de Lula à presidência da República e mesmo ao comunismo
no Brasil e fora dele. O ponto nodal da análise é o acontecimento discursivo
instaurado pela comemoração da vitória de Lula nas eleições presidenciais de 2002.
Nesse evento comemorativo ocorre o rompimento com o repetível e instaura-se o
novo, o efeito de memória. Isso ocorre durante a comemoração da vitória de Lula.
A referência aos trabalhos de Pêcheux (2002), Maldidier & Guilhaumou (1994)
e Indursky (2003), ilustram a abordagem da comemoração e também do lugar de
memória na perspectiva discursiva. Mas o esgotam a nossa teorização acerca
deles; ao contrário, mostram, de um lado, a sua produtividade e operacionalidade na
análise de discurso e, de outro, sinalizam para a necessidade de
deslocamentos/transformações a serem empreendidas em torno delas. Ao pensar
nesses trabalhos enfatizamos, em razão do nosso tema, a necessidade de
desenvolver a noção rememoração e do seu funcionamento juntamente com as
noções de comemoração e de lugar de memória.
O deslocamento da rememoração, da comemoração e do lugar de memória
para o funcionamento na ordem do discursivo mobiliza outras noções,
especialmente a noção de memória discursiva, tal como foi desenvolvida por
Courtine (1981) e o arcabouço teórico que a constitui. Além disso, corroboram para
mostrar como o objeto de rememoração/comemoração constitui-se no espaço
urbano, bem como os domínios de memória em que funcionam e os espaços de
memória que convocam. Referimo-nos, quando falamos da rememoração e depois
da comemoração, à emergência de um terceiro conceito: o lugar de memória. É a
partir desse conceito que continuamos nosso percurso.
57
2.3 Lugar de Memória
34
Comecei a escrever o primeiro volume de O Tempo e o Vento em 1947, com
enorme impulso. Durante os três anos em que vivi na casa do meu avô
materno, observando-o às vezes consciente, outras, inconscientemente
no ato de viver, de ser, mal sabia eu que estava fazendo com ele o meu
“aprendizado gaúcho”, e que sua prosódia, a cadência de sua voz, sua
sabedoria da vida, seus ditos, seu gosto em matéria de comida, os “causos”
que ele contava... (p.295)
O lugar de memória guarda traços e vestígios da memória como
descontinuidade: organiza e sustenta a continuidade dos discursos políticos
35
advindos das instituições que funcionam no espaço urbano. De acordo com Courtine
(2006), o lugar de memória recolhe, transcreve e organiza os traços de identificação
comuns a nomes ou eventos a serem comemorados. Como o mobilizamos, neste
trabalho, o lugar de memória ocorre pela inscrição do lugar na ordem do simbólico e
faz retornar enunciados já-ditos, significados, mas esquecidos. Não fosse assim, os
lugares seriam apenas lugares de história
36
e funcionariam como arquivo, que
guarda documentos, pois
é conhecido que a memória, quando arquivada, deixa de ser, na verdadeira
acepção, uma recordação, logo, algo que mantém um elo vivo de
continuidade e de pertença de um sujeito. Nesse sentido, ela adquire, ao
contrário, o estatuto de documento, seja seu suporte o registro sonoro e
fílmico ou a própria escrita (CATROGA, 2001b, p. 46)
O discurso de comemoração nos termos definidos anteriormente é lugar de
memória porque nele organizam-se e se repetem traços de identificação existentes
entre os sujeitos do espaço de rememoração/comemoração e o objeto comemorado.
Essa noção foi desenvolvida por Pierre Nora (1992), para funcionar junto aos
discursos de comemoração como o lugar da crítica. Isso em um momento particular
da história em que o Estado tomava para si a responsabilidade comemorativa e as
sociedades apareciam como fortes em termos de memória e fracas em relação à
história. A possibilidade de a memória da ordem do vivido poder extinguir-se
34
Lugar de memória é um conceito trabalhado em AD por Orlandi, Courtine (2006) e Zoppi-Fontana
(1997).
35
Entendemos que todo o discurso é em si mesmo político, porque nele atuam sujeitos que negociam
sentidos e posições.
36
Cf. Nora (1993, p. 24).
58
juntamente com as comunidades que as mantêm fez com que o lugar de memória
se fizesse necessário, como arquivo, onde a memória pudesse se constituir em
história, como continuidade e como estabilidade, o que a institucionaliza.
Nesse sentido, é esclarecedor o posicionamento de De Certeau (1995 b) para
o qual o discurso proveniente da memória institucionalizada (arquivada), impõe
sentidos na ilusão de poder instaurar a unidade da linguagem. O gesto de produção
de arquivo, como memória institucionalizada funciona na/pela cidade e sofre
coerções dos aparelhos ideológicos de Estado, os quais, segundo Orlandi (2004b, p.
96), “gerem a memória coletiva”. Esse gesto resulta da ilusão constitutiva do sujeito,
segundo a qual é possível determinar que acontecimentos devem/podem constituir a
história e que sujeitos podem/devem ler e escrever essa história com uma certa
autonomia. A ilusão de gerenciamento de sentidos referida por Orlandi (idem) tem
origem em Pêcheux (1997b, p. 198), e se relaciona à identificação do sujeito da
enunciação ao sujeito do saber (SU).
O lugar de memória é tomado como arquivo, mas não no sentido estático da
institucionalização da memória comemorativa, porque não é somente um campo de
documentos pertinentes sobre um nome ou objeto. Ele é mais do que isso, é em si
mesmo, um documento, não como mobiliário material, mas como objeto cultural que
representa em si mesmo os conteúdos imaginários constitutivos dos objetos que
arquiva. Nesse aspecto, o lugar de memória funciona duplamente. Primeiro, guarda
vestígios que irrompem no discurso da comemoração eixo das relações pelos
objetos culturais que os ritos comemorativos convocam e celebram. Segundo,
constitui e visibilidade a esses objetos, ressignificando-os, não somente como
rastros do passado, mas como movimento contraditório em que o passado é
interpretado em função de um presente e encaminha a um futuro. Esses rastros e
vestígios linearizam no eixo da formulação o presente cultural do espaço urbano,
mas também a história e a memória desse espaço e também dos sujeitos que o
constituem e são por ele constituídos.
O espaço a que nos referimos, aqui em nosso trabalho, é o museu que, de
acordo com Durand (2004, p. 6), “é o imaginário de todas as imagens passadas,
possíveis, produzidas e a serem produzidas”. Nesta investigação recortamos o
museu Érico Verissimo como um lugar de memória. Diante disso, reiteramos que
esse espaço mobiliza os três tempos: o passado como rememoração, o presente
como comemoração que encaminha para o futuro. Assim, o que deveria funcionar
59
como “lugar da estabilidade” transforma-se no lugar de onde emerge a memória em
movimento. Cada objeto cultural constitui-se de uma memória e relaciona outras
memórias, formando uma rede de filiações que encaminham e sustentam os ritos
comemorativos de uma formação social. As fotografias e os objetos que
representam o comemorado pertencem ao passado, mas irrompem no eixo da
formulação e significam diferentemente porque as memórias que são convocadas e
os efeitos de sentido que instauram não podem ser “controlados” pelas instituições.
O lugar de memória, em sua acepção primeira, assegurava a conservação e a
transmissão de valores institucionais da Igreja ou da Escola, da Família ou Estado.
Essa atuação dos “lugares” regulava a passagem de um tempo ao outro,
determinando o que deveria ser conservado. No entanto, a conscientização de que o
homem como ser social é responsável pelas mudanças na sociedade, fez com que
esse “gerenciamento” da memória se apagasse. Nora (1984) o define como o elo
indizível que liga o tempo atual ao passado, através de vestígios rememorativos que
eram/são os rastros constitutivos da memória coletiva e representam fatos, homens
e emblemas do passado. Na construção de arquivo, enquanto memória estabilizada,
os sujeitos falam dos lugares institucionais e realizam gestos interpretativos. Por
esse gesto, buscam a estabilização do discurso na ilusão constitutiva de ser a
origem do dizer. Com isso, esquecem que o discurso relaciona-se com a língua na
história e se constitui pela opacidade, pelo equívoco e pela falha.
As visibilidades e os apagamentos efetivados não são da mesma ordem, visto
que cada instituição, apesar de ter o mesmo objeto discursivo, funciona
diferentemente: os sujeitos investidos da posição de locutores ocupam diferentes
posições-sujeito e são afetados por formações discursivas heterogêneas
37
. No
entanto, a memória que as constitui e a emergência da formação social faculta a
transformação de um lugar material em lugar de memória pelo arquivo. Há um
processo seletivo de constituição do arquivo, que evidencia ou silencia e apaga
fatos, de acordo com a inscrição do sujeito responsável pelo dizer a uma ou outra
FD que invade a FD da rememoração/comemoração.
37
A noção de formação discursiva heterogênea tem origem em Pêcheux (1980), texto no qual
repensa a ideologia e depois em Semântica em Discurso, ao retomar a noção de forma-sujeito e a
interpelação do sujeito do discurso. Courtine (1981) relê Foucault (Arqueologia do Saber, 1975) e
pelo viés do enunciado dividido reflete acerca do domínio da memória e da FD como não-fechada em
um domínio do saber, mas heterogênea, invadida por saberes que vêm de lugares-outros.
60
A função do lugar de memória é constituir, sustentar e interpretar sujeitos
idealizados. Um dos questionamentos em torno da noção é a falta de identificação,
que significa também a falta de memória. Assim, o lugar de memória conservaria
apenas uma herança e não memórias. Na perspectiva discursiva, o lugar de
memória legitima por meio dos processos de interpelação do sujeito e pelo
funcionamento discursivo a memória discursiva que atualiza os sentidos e faculta a
leitura, a compreensão e a interpretação de textos exemplares do discurso. Essa
interpelação
38
, segundo Pêcheux (1997a, p. 214), tem como centro as formações
discursivas, que regulam o que pode e deve ser dito ou não pode e não deve ser
dito em determinado momento ou por determinado sujeito, de acordo como as
formações ideológicas que lhe são correspondentes. Dizemos que tem o efeito
discursivo de um discurso autorizado, que sem o calor da memória social, sofre
determinações da ideologia e do inconsciente.
O lugar de memória possui duplo papel: impede o esquecimento de antigas
tradições, como agente de mudança e transformação, pela preservação das
tradições e promove o resgate dos laços de continuidade. Além disso, assegura a
permanência do tempo tridimensional preconizado por Catroga (2001b) em que o
passado é retomado em função de um passado-presente, um presente-presente e
um presente-futuro. Isso significa que o passado atua como um discurso doutrinário
que guarda valores a serem incorporados ao presente, tendo em vista um futuro. Na
ausência de memórias espontâneas, o lugar de memória constitui arquivo, tomado
no sentido que lhe deu Pêcheux (1997b, p. 57) como campo de documentos
pertinentes e disponíveis sobre uma questão especialmente em formações sociais
em que a operação de memória não é mais natural, mas pensada em função das
instituições.
A noção lugar de memória é produtiva na Análise de Discurso e recobre os
mais diversos recortes discursivos, entre eles o de rememoração/comemoração
abordada nesta investigação. O lugar de memória, de acordo com Courtine (2006, p.
88), é um sistema de conservação de arquivo, uma rede de difusão que permite
fazer ressurgir os enunciados, tornando-os, uma vez mais disponíveis, quando a
necessidade da luta política os reclamam”. Isso significa que o funcionamento do
lugar de memória o somente nos discursos políticos, mas em outros discursos
38
Retomaremos o funcionamento da interpelação na segunda parte desse trabalho, quando
explicitarmos o arcabouço teórico que sustenta nossas análises.
61
também. Pelo lugar de memória, enunciados constituídos no eixo da verticalidade
retornam como enunciados fundadores, pela inscrição no eixo da formulação como
efeito de memória. Nos discursos de rememoração/comemoração os “lugares”
marcam e guardam vestígios e traços de identificação e de representação existentes
entre a formação social e nomes ou eventos que atendem à demanda dos sujeitos
do discurso de serem “semelhantes” ou “igual a” referidos em nossa investigação
como sujeito desejante, duplamente atravessado pela ideologia e pelo inconsciente.
Zoppi-Fontana (1997, p. 60), em sua tese de doutorado, aborda o “fazer-
memória” pelo lugar de memória (república, a constituição e a praça argentinas).
Esses lugares funcionam na constituição de uma linha de continuidade histórica “que
resulta na construção de um corpo imaginário para um povo-Uno”, que legitima a
relação de identificação/representação entre o povo argentino e o seu der. Um dos
recortes realizados por Zoppi-Fontana (Ibid.) é um filme com duração de cento e
sessenta minutos, “que desenha a epopéia do povo argentino” e recobre cinqüenta
anos de história. A pesquisadora salienta que os lugares de memória não
participam do gesto político de disciplinarização e controle da memória coletiva pelo
viés da história oficial, mas também produzem efeitos independentemente “da
vontade política de qualquer setor do estado(Ibid., p. 60), e sobre ela mesma pelo
deslocamento dos objetos simbólicos que deveria controlar.
2.4 Lugar de memória e lugar de história
É relevante, desde o início, marcar as fronteiras existentes entre lugar de
memória e lugar de história e o fazemos a partir de Nora (1993), para quem o lugar
de memória liga dois domínios, o que o torna complexo e ao mesmo tempo simples:
o domínio da naturalidade, da ordem da evidência e o da artificialidade, que permite
entendê-lo como construído. Na perspectiva discursiva, ele não é nem natural, nem
artificial. Decorre do desejo de “fazer-memória”, mas também da repetição, o que
resulta em efeitos de verdade, dados pela legitimação e sustentação institucional.
Tanto em uma abordagem como em outra o lugar de memória é material, funcional e
simbólico. Ele pode ser definido como um depósito de arquivos, que aparentemente
62
guarda vestígios históricos de memórias que não existem mais, e que, por isso,
necessitam de um lugar para lembrá-los. É funcional pelo papel desempenhado
nesse lugar e simbólico, pelo fato de estar no lugar de.
Nesse sentido, um lugar é lugar de memória se inscrever o acontecimento
na ordem do imaginário e do simbólico, isto é, se constituir laços identitários e de
representação entre sujeitos de uma formação social. Se, na ordem do discurso,
atualizar sentidos e se os sujeitos sociais e discursivos se reconhecerem nele, a
partir de valores constitutivos da FD a que eles estão assujeitados. De qualquer
forma, apesar de o lugar de memória ser material, a sua inscrição como lugar de
uma memória histórica não vem do material, mas de valores dos quais eles estão
investidos. Um mesmo objeto cultural pode significar diferentemente para os
sujeitos. Diante do Solo de Clarineta I, os efeitos de sentido decorrentes dele não
são sempre os mesmos. Ele pode funcionar na FD da rememoração/comemoração a
partir do museu, como o lugar que organiza os demais lugares, como um documento
que traz para o eixo da formulação um efeito de verdade sobre a vida do escritor,
sustentado pela casa em que nasceu. O mesmo ocorre na Escola Margarida
Pardelhas: o texto autobiográfico visibilidade ao trabalho social desenvolvido pela
professora de matemática e reverenda a importância e o seu valor como
profissional. No entanto, ela é conhecida por ter sido a ‘professora de matemática
de Érico Verissimo’.
A artificialidade, como uma das características do lugar de memória,
relaciona-se à construção social da memória pela presença da intencionalidade e
instaura a contradição constitutiva dos lugares. Se, de um lado, a ausência de
intenção caracteriza o lugar de história, diferenciando-o do lugar de memória, de
outro, no lugar de memória, a falha da intencionalidade, a ruptura com a
continuidade institucional faz com que esse lugar se constitua pela memória e não
pela história. Isso significa pensar que a rememoração/comemoração de nomes e de
eventos a partir do lugar de memória traz o novo, pelos espaços de memória que faz
funcionar, pela sua irrupção de outros discursos no eixo da formulação, atualizando
sentidos e instaurando o ciclo da repetibilidade.
63
2.5 Rememoração/comemoração: discurso de e discurso sobre
39
A diferenciação entre o lugar de história e o lugar de memória encaminha
para outros dois conceitos determinantes no processo discursivo em que funcionam
juntos, no intradiscurso eixo da formulação - a rememoração e a comemoração.
Trata-se de refletir de um lado, acerca do lugar da rememoração e o seu
funcionamento e, de outro, sobre o lugar da comemoração. A partir dessa
explicitação podemos pensar o discurso que engloba as duas noções. Iniciamos
pelo discurso de.
2.5.1 Rememoração: discurso de
Nesse mesmo capítulo falamos da rememoração e a tomamos a partir de
Pêcheux (2002), como espaço discursivo, e de Courtine (1981), como domínio de
memória. Por essa aproximação, entendemos o funcionamento dessa noção a partir
do interdiscurso, como pré-construído, ou seja, como o “‘sempre-já-aí’ da
interpelação ideológica”, que fornece-impõe a “realidade” o “mundo das coisas”
40
.
Por esse processo, constituem-se, no fio do discurso, pontos de estabilização que o
legitimam e o sustentam pela repetição, pelos procedimentos de “fazer-crer” e “fazer-
ver” e pelos procedimentos lingüísticos que trazem para o fio do discurso efeitos de
sentido que explicitamos nas análises.
A rememoração ocorre na dimensão não-linear do dizer e ocupa o espaço do
já-dito e do significado antes, em outro lugar, cujo retorno ocorre pela repetição, que
de um lado estabiliza os sentidos e de outro, instaura o novo. Constitui-se por meio
do processo parafrástico, pelo qual, segundo Orlandi (2002a, p. 36), “em todo o dizer
algo que se mantém, isto é o dizível, a memória”. Nesse funcionamento, é pela
rememoração, enquanto discurso de, que os sujeitos filiam seu dizer a determinadas
FD’s e falam “com palavras já-ditas”
41
constitutivas de redes parafrásticas, que
39
Para aprofundamento acerca do discurso sobre remetemos a Orlandi (1990); Mariani (1998) e
Indursky (2002).
40
Cf. Pêcheux (1997a, p. 164)
41
Cf. Orlandi (2002a, p. 36)
64
podem tanto cristalizar sentidos, como fazer intervir o diferente, instaurando o novo,
pelo processo polissêmico.
A rememoração é da ordem do mais inconsciente. Segundo Elia (2007, p. 83)
“o lugar do desejo do sujeito, veiculado na mensagem pelo sujeito do enunciado
que, no entanto, o desconhece radicalmente”. Dizemos que é da ordem do mais
inconsciente, porque, em seu funcionamento como memória, o que é lembrado ou
esquecido não faz parte de escolhas, mas de desejos e demandas do sujeito e da
formação social. A demanda e o desejo relacionam-se à identificação do sujeito
consigo mesmo, com o outro (com o minúsculo) e também com o Outro (o
inconsciente). Pêcheux (1997a, p. 167), aborda a identificação do sujeito consigo
mesmo, “como uma identificação com o outro (com o minúsculo, enquanto ego,
origem discrepante”, numa ordem em que “o efeito-sujeito e o efeito de
intersubjetividade são contemporâneos e co-extensivos”.
Nesse sentido, delimitamos duas modalidades de rememoração: a primeira,
como interdiscurso, enquanto pré-construído e, a segunda, como discurso fundante.
No primeiro funcionamento, a rememoração se realiza como memória e se
materializa no discurso como efeito do discurso transverso. Entendemos que o
discurso transverso ocorre pelo atravessamento no intradiscurso de discursos
advindos de tempos e lugares outros, instaurando efeitos de sentidos contrários à
homogeneidade. Pela repetição constituem a enunciabilidade por meio de
enunciados que retornam como discurso autorizado Nessa perspectiva o
interdiscurso, enquanto pré-construído, fornece a matéria-prima que sustenta o dizer
no eixo da formulação – intradiscurso. Nesse movimento, articula o já-dito e a
atualidade, construindo redes de memória, que realizam o que Pêcheux (Ibid., p.
167) chama de “incorporação-dissimulação dos elementos do interdiscurso: a
unidade (imaginária) do sujeito, sua identidade presente-passada-futura”.
O segundo funcionamento da rememoração - discurso de - realiza-se a partir
do discurso fundante, por intermédio do qual o dizer se sustenta na materialidade e
constitui no intradiscurso efeitos de verdade e de autoridade. No presente estudo, a
obra de Érico Verissimo, principalmente Solo de Clarineta I, é um exemplo de
discurso que retorna no eixo da formulação e legitima a constituição do imaginário
urbano e também do imaginário em torno do escritor com o qual os sujeitos da
cidade se identificam. Esse retorno ocorre sob a forma de citação ou pelo
funcionamento do interdiscurso, enquanto pré-construído, ou pelo efeito de discurso
65
transverso e funciona de modo semelhante à memória, que Orlandi (2004b) em seus
diversos trabalhos designa de constitutiva. A diferença é que retoma um tempo
marcado, a partir do discurso localizado, que cumpre no domínio discursivo, em que
se inscreve uma função, a qual desliza e instaura novos sentidos, quando retorna
como discurso fundante.
Acerca do discurso de é possível destacar a sua ocorrência como o que
sustenta o dizer, autorizando-o, ou não, em relação à FD, à qual o sujeito da
enunciação se assujeita, pela identificação, contra-identificação ou desidentificação
dos sujeitos locutores e também dos interlocutores com o que é próprio da FD,
como um saber. A constituição de um sujeito ou de um evento a ser comemorado
decorre da inscrição dos sujeitos a espaços discursivos como domínios do saber
relacionado ao lugar do evento rememorado.
2.5.2 Comemoração: discurso sobre
O discurso sobre se constitui pelo discurso de, que funciona como a memória
que o constitui e como o discurso fundante que retorna e o ancora. O efeito imediato
do discurso sobre, de acordo com Mariani (1999), é tornar objeto o nome ou evento
sobre o qual fala o sujeito no discurso. Isso se deve ao tom altamente pedagógico,
que o caracteriza aqui tomado como discurso doutrinário. Esse discurso, segundo
Orlandi (1996), tem reversibilidade zero e desconsidera o outro, enquanto alteridade
constitutiva do sujeito do discurso. O efeito primeiro dessa discursividade é a
aparente estabilidade, que aproxima o fazer discursivo do fazer histórico, na ilusão
de poder realizar, segundo Pêcheux (1997b, p. 60), “o apagamento seletivo da
memória histórica”.
Uma das marcas desse discurso é a
modalização deôntica do dizer,
materializada, no fio do discurso, pelos verbos dever e ter, própria dos discursos
institucionais em que os sujeitos do discurso atuam como porta-vozes, isto é, falam
do lugar autorizado em nome de, instituindo-se como mediador. A construção de
versões e a aparência de pura repetição aproximam as narrativas históricas,
segundo Pesavento (2007), daquilo que um dia teria acontecido. Com isso, afastam-
nas do fazer discursivo que não se atém a um tempo cronológico, mas ao tempo
afetado pelo simbólico, no qual, segundo Orlandi (2001a, p 19), “os fatos reclamam
66
sentido”. Para Henry (1985), a história, na perspectiva discursiva, não se define pela
cronologia, mas pela produção dos sentidos e por ser da ordem do discurso.
Para dar conta do funcionamento do sujeito do discurso, tomamos a noção de
objeto a
42
- causa do desejo e o objeto do desejo aquele que desencadeia o
desejo, de Lacan (1985) e o colocamos para funcionar, nesse trabalho, em relação
ao sujeito-objeto do discurso. Com isso dizemos que uma pessoa ou acontecimento
pode constituir-se, ao mesmo tempo, como o objeto a, e o objeto do desejo, dizemos
isso com referência à emergência de completude, própria do sujeito sempre
incompleto de uma formação social. A emergência de completude inconsciente e
ideológica dá visibilidade e mantém a aparente regularidade da memória histórica de
uma formação social, a qual apesar das repetições e da aparente saturação é
lacunar. Essa é uma das razões pelas quais o discurso sempre pode ser outro.
O discurso sobre sustenta-se na memória histórica, pelos esquecimentos da
ordem da enunciação (o dizer pode ser este) e da ordem do inconsciente (ilusão
do sujeito de ser a fonte do sentido). Realiza-se pela memória dos lugares sociais,
segundo Gadet, Leon, Plon e Maldidier (1997c, p. 54), “como representações
imaginárias determinadas pela estrutura econômica e tidas como escapadiças do
domínio desses sujeitos” e também pelos esquecimentos que se imbricam em várias
memórias, atualizando o discurso sustentado pelas evidências de homogeneidade e
de linearidade. Esse discurso se funda em outros discursos que constituem a sua
memória, a forma de referenciar o dito, tomados nesse trabalho como rememoração.
O discurso de comemoração ancora-se no discurso de rememoração. Os
procedimentos discursivos de sua constituição assemelham-se ao discurso
pedagógico, no qual o sujeito enunciador autoriza-se e é autorizado a dizer o que
diz. Nesse dizer projeta a imagem que faz de si mesmo e do outro, assim como do
objeto do discurso e a partir dessas projeções imaginárias constitui o seu dizer a
partir de valores, que atendem à demanda dos sujeitos interlocutores. Trabalha com
informações datadas, espacializadas e adquire o tom professoral. As palavras
utilizadas são do campo semântico da certeza. Ele não diz “talvez”, diz sempre “é”.
42
Não desconhecemos que o objeto a, é um conceito anterior ao sujeito e não tem um lugar
determinado de funcionamento na análise psicanalítica, relacionando-se à insatisfação é à perversão
na relação sexual. No entanto, deslocamos essa noção do seu sentido e a transformamos para referi-
la a Érico Verissimo, como o que falta no espaço urbano. Fizemos isso, baseando-nos na
transformação realizada por Lacan, no Seminário 16, onde ele aproxima essa noção ao conceito de
mais-valia, de Marx mais-valia, como algo muito valorizado.
67
Utiliza-se de definições, de palavras de ordem e que lhe o a ilusão de ser a
origem do dizer.
Segundo Orlandi (1990, p. 37), esse discurso “representa lugares de
autoridade, constituindo-se como uma das formas mais importantes de
institucionalização do sentido”. Assim é porque o sujeito enunciador, ao falar,
investe-se e está investido do poder que lhe é conferido pelo lugar de onde fala e
que legitima o seu dizer. Essa legitimação decorre do movimento contraditório de
valorização e desvalorização, que nega e confere relevância ao sujeito enunciador e
à posição discursiva que esse sujeito ocupa na formação social. Segundo Foucault
(2005), isso acontece porque a análise se centra nas relações de poder e não nas
relações de sentido. Essa característica do discurso sobre diz respeito aos pilares
que o sustentam: o sujeito e a formação discursiva em funcionamento no discurso.
A FD legitima a posição que o sujeito ocupa e lhe permite dizer o que diz sobre algo
que ele acredita conhecer e se sente autorizado a dizer.
Os lugares de autoridade referidos por Orlandi (op. cit.) constituem-se no
exercício do poder, o qual, de acordo com Pêcheux (1997a), está em relação com a
luta de classes, à posição ocupada pelo sujeito na formação social, pela qual é
interpelado pela ideologia e atravessado pelo inconsciente. Para Mariani (1998, p.
60), “os discursos sobre, atuam na institucionalização dos sentidos, portanto, no
efeito de linearidade e homogeneidade da memória”. É por isso que os sujeitos
desses discursos são intermediários
43
, pois o falar sobre pressupõe o falar de
(discurso fundante) que se situa entre o discurso sobre e o interlocutor, que fala de
um lugar que o autoriza a dizer o que diz, mas nem sempre é institucional. O fato de
o sujeito-locutor falar de um lugar institucional faz com que ele adote uma postura
pedagógica, que transita entre o narrar e o descrever um acontecimento singular
(Ibid., p. 60) a partir de instituições como lugares de regularidade e normatividade
44
.
O discurso sobre freqüentemente institucionaliza o dizer e não tem origem em
um sujeito empírico, individual, que diz eu e se responsabiliza pelo dizer, mas em
um sujeito imaginário, que, ao dizer, antecipa-se, colocando-se imaginariamente no
lugar de seu interlocutor, materializando, no discurso, o que gostaria de ouvir. Essa
antecipação designa, de acordo com Pêcheux (1997c, p. 82), no processo
43
Entendemos que o sujeito intermediário funciona de forma similar ao sujeito porta-voz, o qual é
autorizado a dizer o que diz e ocupa o lugar entre a FD e a instituição.
44
Cf. Foucault (1984).
68
discursivo, o lugar que A e B se atribuem cada um a si e ao outro e à imagem que
fazem desses lugares. Para dar conta dessa projeção imaginária, Mariani (Ibid., p.
84)
45
introduz a noção de contrato imaginário, referido anteriormente a partir de
Pêcheux (1997a). Trata-se do funcionamento de um jogo de imagens, a partir dos
lugares ocupados pelo sujeito-falante, ou sujeito-autor, e pelo sujeito-interlocutor. A
eficácia desse contrato depende das regras de projeção determinadas pelas
formações sociais. Por elas o sujeito do discurso sabe o que pode e o que não pode
ser dito ou interpretado.
O discurso sobre traz, para o intradiscurso, outros enunciados, que atuam
como seus fundadores.
De acordo com Orlandi (1990), sempre um discurso que
atua como fundador. A primeira menção à sustentação de um discurso a partir de
um discurso anterior aparece em AAD69, quando Pêcheux (1997c) afirma que um
discurso remete a outro, com o qual mantém relações de sentido, respondendo
direta ou indiretamente por ele. Para Mariani (1998), uma das mais importantes
características desse discurso é o fato de tornar objeto aquilo sobre o que fala. As
visibilidades, os silêncios e os apagamentos no discurso sobre devem-se ao
compromisso do enunciador com o dizer a partir do lugar que ocupa e de onde
enuncia. Esse compromisso está em relação com o que De Certeau (1995, p. 286)
chama de “táticas permitidas pelas exigências de uma posição e pelas pressões
históricas”. Por isso, a credibilidade do discurso depende do sujeito enunciador e do
lugar ocupado por ele. O dizer entra na ordem do discurso se o sujeito estiver
autorizado a dizer o que diz.
É na materialidade do discurso que os ditos e não-ditos podem ser
interpretados. De acordo com Orlandi (2002a, p. 193), “formular é textualizar em
palavras, é dar corpo ao sentido e isso demanda estabelecer diferenças entre
narração e narratividade, nos moldes do trabalho realizado por Mariani (1998), em
que narrar é contar fatos, que pertencem à ordem do saber, da informação e que se
colocam na ordem do vivido, portanto, da memória e não da história. De Certeau
(1994, p. 288) reflete acerca do contar que “tem o estranho e duplo sentido de
mudar o ver num crer e de fabricar com aparências”. A narratividade, nessa
perspectiva, é o processo discursivo que se engendra a partir do interdiscurso, na
verticalidade dos saberes, dependendo da posição em que se coloca o enunciador.
45
Em sua tese de doutorado, Bethania Mariani (1996) enfoca o discurso da imprensa sobre o PCB
no período que vai de 1922 a 1989.
69
O discurso de Érico Verissimo sobre ele mesmo no texto Solo de Clarineta I, livro
de memórias, é tido, num primeiro momento, como narração porque se realiza a
partir de lembranças, de vivências, que caracterizam,
As representações do tempo [...] apreendidas como ordenação dos tempos
vividos contendo as descontinuidades e rupturas que acabam por engendrar
uma representação das referências sociais, históricas e simbólicas que
pontuam a ritmicidade de um cotidiano sempre reinventado (ECKERT, 2002,
p. 81)
É por isso que não se pode tomar como literal e homogêneo o relato de
memórias vividas. Elas são reconstruídas, reinventadas pela rememoração
(lembranças e recordações) e pelas comemorações, as quais atualizam o presente
pela representação de nomes e de eventos instauradores de acontecimentos
discursivos que abrem para o devir. Esse funcionamento faz com os mesmos
discursos retornem e pela repetibilidade movimentem a memória dita histórica.
Ao falar de si, o sujeito coloca no intradiscurso efeitos de verdade e simula
uma realidade, tratando-a a partir do como se. Nesse sentido, o funcionamento
tanto do discurso autobiográfico quanto do discurso sobre, engendram a narração e
a narratividade. A narração é o encadeamento dos fatos, a fundação de um discurso
em outros discursos, a materialidade do discurso. A narratividade é o processo de
narração, os efeitos de sentido advindos da inscrição na FD que interpela o sujeito e
determina o que pode e deve ser dito a partir da FD com a qual o sujeito enunciador
identifica-se e pela qual é interpelado. A narratividade, portanto, é o elemento que
atua junto à memória discursiva,
[...] institucionalizando esses dizeres possíveis: um fio que tece e conduz
nos jornais o ecoar das repetições parafrásticas, impedindo o deslizar dos
significantes e/ou resistências históricas, misturando passado, presente e
futuro. Trata-se de um processo que estamos chamando de narratividade
(MARIANI, 1998, p.97).
No início dessa primeira parte, apresentamos a rememoração e salientamos
que esta se liga ao eixo paradigmático eixo das seleções cujo princípio se pauta
pela espacialidade e temporalidade. Deslocando esse funcionamento para o
funcionamento discursivo da memória, pode-se dizer que ela ocorre num tempo
específico e que o sujeito ocupa um lugar na formação social e não dois lugares ao
mesmo tempo. Nesse eixo estão os já-ditos, sempre-já significados do interdiscurso.
Na seqüência, enfocamos a rememoração, depois a comemoração separadamente
70
e definimos o discurso de de rememoração e o discurso sobre comemoração.
No terceiro capítulo refletimos acerca da rememoração/comemoração como duas
noções que no intradiscurso se encontram e se pautam no funcionamento do
discurso, segundo Pêcheux (1997a) “como efeito de sentido entre sujeitos”.
71
3 Rememoração/comemoração: entre a memória e a história
Senti um dia a curiosidade de descobrir a origem dos Verissimo [...] Cruz
Alta foi o ponto de encontro dos dois troncos cujos ramos se uniram e,
numa sucessão de enxertos e cruzas, tornaram possível o desabrochar
desse espécime humano que agora me contempla, irreverente, do fundo do
espelho. O miserável o está levando a sério minhas memórias (cap. 1, p.
1).
Pelo encaminhamento dado nesse trabalho, entendemos ser necessário
referir aos deslocamentos efetuados em relação à comemoração. Dissemos que ela
funciona no eixo sintagmático das relações e no discurso corresponde à
linearização, sintagmatização da memória. A rememoração, por sua vez, funciona
no eixo paradigmático das seleções e no discurso relaciona-se ao interdiscurso,
enquanto pré-construído, os saberes tomados em sua universalidade. A
rememoração, nessa perspectiva, ancora o dizer sintagmatizado como discurso
fundante.
Entendemos ser relevante repetir que tomamos a rememoração como
discurso de e a comemoração como discurso sobre, pois o que se destaca nela é o
fato de transformar em objeto aquilo de que fala ou comemora. Caracteriza-se como
um discurso doutrinal pelo efeito de autoridade, segundo Courtine (2006), de que
são revestidos os sujeitos enunciadores e pela submissão deles ao saber da FD
dominante ou a SU (sujeito universal, do saber). Nos rituais comemorativos uma
aparente sobreposição entre o sujeito do discurso e o sujeito universal pela recitação
dos conteúdos enunciados.
Outra colocação: enfocamos a rememoração/comemoração como duas
noções que funcionam juntas, a partir do interdiscurso na modalidade do
intradiscurso, no qual a memória (rememoração) encontra-se com a atualidade
(comemoração) como um efeito do interdiscurso sobre si mesmo. Nesse
funcionamento, o sujeito “esquece” que não é a origem do dizer
46
e que o seu dizer
46
Voltaremos a essas noções na segunda parte desse trabalho (rede conceitual).
72
está dito em uma memória que é anterior e se funda na História e na Memória, na
acepção da história e do discurso.
Na perspectiva discursiva em que nos inscrevemos a
rememoração/comemoração funciona em redes sociais e se caracteriza pela
demanda em situar o seu objeto nas formações sociais, o qual a partir dos sujeitos
institucionaliza o discurso. Nessa perspectiva, entendemos que as sociedades, ao
longo de sua história, elaboraram para si um sistema articulado de idéias e imagens,
de representações coletivas, que através delas e que se constituem as redes de
identificações, as quais se articulam por meio de um imaginário social que inclui uma
visão do passado tomado como ideal, em cuja esteira materializa-se um discurso
centralizado em personagens idealizadas, criadas a partir da rememoração
(recordação) e da comemoração (celebração).
Os sujeitos tomados no coletivo a partir de formações sociais não se
identificam com quaisquer personagens. A efetivação desse processo de
identificação decorre de pontos de contato dessas personagens com os sujeitos da
formação social, onde circula o discurso. Definimos pontos de contato como o
espaço em que os valores constitutivos da identidade do sujeito
rememorado/comemorado se encontram e se repetem no eixo da formulação por
serem caros à formação social, constituindo-se como memória, pela sobreposição e
pelo imbricamento de dizeres e saberes.
Podemos dizer, então que os espaços urbanos surgem, desenvolvem-se e se
mantêm imaginariamente em torno de famílias tradicionais e por isso celebram
sujeitos, cuja trajetória reforce os valores institucionalizados nesse espaço e os
constitua como sujeitos bem sucedidos. O discurso sobre, nesse sentido, realiza-se
e se legitima por vestígios de pertencimento do sujeito/objeto do discurso à
formação social, deixados no presente. assim ele se torna referência para os
sujeitos urbanos, interlocutores desse discurso. Desse processo, resulta a
construção idealizada de identidades, que se transformam em patrimônios urbanos.
É interessante, em relação a esse discurso, destacar que os valores do objeto
de rememoração/comemoração priorizam os valores da formação social. O discurso
no espaço urbano desliza para o Estado e para o país em um funcionamento tal que
o discurso que circula sustenta-se em outros discursos, que o legitimam. Érico
Verissimo, por exemplo, antes de ser cruz-altense é brasileiro e gaúcho (cidadão
que habita o Rio Grande do Sul). Podemos observar esse funcionamento pelo
73
retorno de enunciados ligados ao “orgulho de ser gaúcho”, “Deus é brasileiro”, “o
sujeito trabalhador sempre vence as dificuldades, entre outros. Esses enunciados
significam em termos de comemoração porque se inscrevem no intradiscurso a
partir da memória, que se constitui pela rememoração. Essa prática discursiva
realiza-se também em relação à rememoração/comemoração, o em Cruz Alta,
mas também em espaços urbanos, uma vez que o discurso sobre caracteriza-se
pela universalidade, mas encaminha para um funcionamento da ordem do privado.
3.1 Memória e História
Trazemos para nossa reflexão as relações entre a memória e a história como
elementos constitutivos do nosso trabalho. Segundo Nora (1992), elas não são
sinônimas, ao contrário, opõem-se. A primeira é a reconstrução sempre incompleta
do que não existe mais. A segunda, ao contrário, diz respeito ao que significa nas
formações sociais, é da ordem do vivido. Está em permanente evolução, aberta à
lembrança e também ao esquecimento. Diz respeito a grupos sociais e une os
sujeitos desses grupos por laços identitários e de representação. A história tem
vocação para o universal. Nela, ainda segundo Nora (Ibid.), a voz de todos e a
voz de ninguém. A memória é coletiva e se enraíza no que faz sentido na formação
social, abrange grupos que se aglutinam em torno de laços identitários.
Tratamos do discurso de rememoração, cuja matéria-prima é o passado, não
como um tempo estagnado e finito, mas relacionado a sujeitos, que além de
assujeitados à ideologia, são também atravessados pelo inconsciente. Esse discurso
funciona como memória em relação ao discurso de comemoração – discurso sobre -
que se sustenta pelo interdiscurso, pelo efeito de pré-construído, segundo Pêcheux
(1997a, p.171), aquilo que todo mundo sabe. Buscamos nesse discurso o seu
funcionamento e a sua relação ao real da língua e ao real da história. Milner (1987,
p.44) refere-se ao real da ngua pela lingüística, como ciência, e enfoca a tensa
relação entre a competência e o desempenho. Nessa perspectiva, a competência
refere às capacidades inatas, da ordem da infinitude e o desempenho como
capacidade social e finita. Com isso, destaca a língua como o lugar da falha, pois
74
“tudo não se diz”. Essa falha da língua é instauradora do equívoco, da fragmentação
e da possibilidade da transformação, do novo. O lingüístico seria o “todo” e a língua
o “não-todo”, a impossibilidade de dizer tudo. Entendemos que essa é a referência
ao real, como aquilo que existe, mas não é representável, nem dizível.
O real da história refere à possibilidade de rupturas e de transformações de
sentidos. Para dar conta da ruptura da História e da falta que a constitui, Pêcheux
(1997a) refere às reformulações efetuadas na teoria marxista por Althusser na leitura
que fez de Freud/Lacan, em trabalho de 1964 com o objetivo de “discernir o que
falha não por pretender com isso se amparar definitivamente no verdadeiro(!), mas
para avançar tanto quando se possa em direção à justiça” (Pêcheux, idem, p. 299).
Dessa forma desfaz o equívoco ocorrido pela aproximação do “ego” com a forma-
sujeito da ideologia jurídica, cujo funcionamento fez com que o funcionalismo saísse
pela porta da frente e entrasse pela porta dos fundos, instituindo a identificação
plena, refutada na teoria por Pêcheux, segundo o qual
“só causa daquilo que falha” (J.Lacan) É nesse ponto preciso que ao
platonismo falta radicalmente o inconsciente, isto é, a causa que determina
o sujeito exatamente onde o efeito de interpelação o captura; o que falta é
essa causa, na medida em que ela se “manifesta” incessantemente e sob
mil formas (o lapso, o ato falho, etc.) no próprio sujeito [...] (PÊCHEUX,
1997a, p. 300)
A referência ao real da língua e ao real da história na retificação da teoria,
realizada por cheux, desloca a abrangência e o funcionamento da FD, cuja
formulação inicial encaminhava para o fechamento e para o assujeitamento sem
falhas. Essa questão é importante nesse trabalho por várias razões, entre elas
destaca-se com o trabalho com a narrativa autobiográfica Solo de Clarineta I, que
faz referência à história “versus” memória na implicação com o real e a realidade.
Esclarecemos nesse ponto que o real, de acordo com Lacan (1995), é o impossível
de dizer e a realidade é uma ilusão constitutiva do sujeito, pelo funcionamento do
imaginário. Nesse sentido, o sujeito desse discurso é descentrado, isto é,
assujeitado não a uma, mas a várias formações discursivas, fazendo emergir a
opacidade e o equívoco, próprios da memória, como condição do legível.
A volta ao passado de glórias é própria do ser humano, que o
freqüentemente como o tempo ideal, o tempo que, através de um discurso
doutrinário ensina o presente a ser melhor, numa perspectiva de futuro melhor
75
ainda. Podemos refletir acerca da volta ao passado pela literatura, especificamente
no Romantismo Brasileiro, em que o índio primeiro povoador tem sua formação
imaginária constituída pela transferência de traços de identidade advindas do
português. Da mesma forma, as heroínas escravas geralmente brancas porque
filhas do coronel português e da escrava negra
47
incorporam as características das
donzelas da corte. Com isso, inscreve-se na memória social do novo país, no
intradiscurso, uma cultura que apaga outra. É por isso que não se pode dizer que o
discurso do passado corresponde à verdade, mas a rastros, definidos por Nora
(1992) como o vínculo indizível que liga o passado a um presente.
Entendemos memória e história enquanto forma de narrativa e de
representação que se distinguem de outros discursos que enfocam a realidade, pois
o seu referente é o passado, tempo transcorrido. Le Goff (1993, p. 2), pensando a
nova história, divide-a em duas, a que “se faz no mundo, que os homens vivem, e
aquela que os historiadores fazem”. A primeira é a que apesar de estar condicionada
a uma formação social, aos indivíduos interpelados em sujeitos, segue a ordem do
vivido, do rememorado e é tomada pela vontade de lembrar. Busca no presente
reconstituir o passado com vistas a transmitir ao futuro os valores caros à formação
social. Nela, o sujeito da enunciação, do lugar que ocupa e da posição que assume
em uma FD como sujeito do dizer, interpelado pela ideologia. Esse sujeito recupera
e visibilidade a determinados acontecimentos e a outros não, formulando um
discurso que se liga ao passado e se re-inscreve no presente pelo efeito de verdade,
e, com o futuro, pelo devir. A segunda aquela que os historiadores fazem refere
ao passado estagnado, fechado em si mesmo, ligado às continuidades temporais.
Essa segunda modalidade de volta ao passado desconsidera a memória e seu
objetivo talvez seja o de anular sua eficácia.
De acordo com Seixas (2001), toda memória é fundamentalmente “criação de
um passado”, uma reconstrução que busca resgatar determinados acontecimentos
ligados a grupos heterogêneos, aos quais interessa apreender o mundo do presente,
reconstruindo a sua identidade, inserindo dessa forma estratégias de reivindicações
por uma complexa reivindicação de reconhecimento. O que é colocado em primeiro
lugar entre a memória e a política é o poder. Ao constituir o lugar de memória, as
instituições buscam de alguma forma controlar o passado e o presente. Mudar
47
Exemplo desse funcionamento ocorre nas obras O Guarani e Iracema, de José de Alencar.
76
imaginariamente o passado em função do presente pelo controle da memória. Esse
trabalho realiza-se pela consideração da materialidade em que a memória se
expressa (a partir de relíquia, de monumentos, de arquivos, de símbolos, de rituais,
de datas, de comemorações). Uma das formas de expressar a memória é pelo
discurso de rememoração/comemoração em que os saberes constituem
acontecimentos que reproduzem as relações de poder, acentuando as diferenças.
Decorre daí, o retorno do passado no eixo da formulação pelo
atravessamento de discursos de tempos mais longos que fazem sentido na
formação social e retornam pelas formações imaginárias, isto é, pela imagem que o
sujeito tem de si mesmo, do outro e do sujeito ou evento que constitui o simulacro da
realidade e que é rememorado/comemorado. No tempo presente, uma simulação
do passado como um tempo bom em que os valores da justiça e da verdade são
valorizados e constituem a ordem do vivido. É pelo discurso que um sujeito é objeto
de rememoração discurso de e de comemoração discurso sobre. O discurso,
segundo Orlandi (2002a, p.15), é o ponto de contato entre o homem e a realidade
natural e social e torna possível tanto a estabilização quanto a transformação do
homem e da realidade em que vive. Isso ocorre pela prática discursiva, como o
trabalho simbólico do discurso – base da produção da existência humana.
A História ao privilegiar a memória como conhecimento, muitas vezes apaga
os traços da memória dita involuntária, especialmente quando esses traços
visibilizam memórias apagadas ou silenciadas que não interessam oficializar ou
tornar de domínio público. Ao ser discursivizada como ciência, a História passa a ter
mais compromisso com a veracidade e instaura um paradoxo: ao se fixar nos
fatos
48
, por exemplo, nos documentos escritos, corre o risco de se tornar apenas
uma transcrição do que outros escreveram, mas, se priorizar a memória oral,
também pode ser tida como memorialista, perdendo sua aura de ciência, de guardiã
da verdade.
Michel De Certeau (1995b, p.17), ao tratar da História, como disciplina, inicia
sua reflexão com a questão: o que o historiador fabrica quando faz história, em que
ele trabalha e o que produz? O historiador, segundo De Certeau (Ibid.), não apaga o
lugar de onde fala, nem o domínio pelo qual conduz a investigação. O que ele apaga
48
No início da segunda parte deste texto, nos procedimentos metodológicos, mostramos a passagem
de dados para fatos. Segundo Orlandi (2004b, p. 36), esse deslocamento “nos coloca no campo do
acontecimento lingüístico e do funcionamento discursivo”.
77
é o gesto que conduz às “idéias” aos lugares, concretizando, com isto, o gesto do
historiador. Para o autor, compreender é analisar em termos de produções
localizáveis o material que cada método inicialmente instaurou a partir de seus
próprios critérios de pertinência, pois
[...[ na história como em outras disciplinas, uma prática sem teoria leva
necessariamente, num momento ou noutro, ao dogmatismo de “valores
eternos” ou a apologia de um “intemporal”. A suspeita não conseguiria
alcançar toda a análise teórica (DE CERTEAU, 1995b, p. 18).
A História, compreendida como uma operação do saber, é válida quando a
teoria, aliada às práticas, abre espaço para a sociedade, organizando os
procedimentos próprios de uma disciplina em relação a um lugar e a um
procedimento de análise. Em resumo, a História passa em seus novos paradigmas
pela relação a lugares e a procedimentos de análises práticas que admitem tratar da
realidade humana, sem esquecer que leis que a determinam e a impedem de
fugir às regras impostas pela disciplinarização a que ela se submete.
De acordo com Nora (1992), o efeito de apropriação da memória pela história
ocorre pela proliferação de movimentos identitários (sociais e/ou políticos), que
contribuem também para afirmar novas subjetividades e novas cidadanias, de onde
emergem memórias subterrâneas relacionadas às zonas de sombras, de silêncios,
de não-ditos, que se deslocam, presentificando-se em discursos carregados de
metáforas e alusões. O silêncio, como censura, referido por Orlandi (2002b),
conto do funcionamento daquilo que é apagado de memória de sujeitos, espaços
sociais ou eventos relacionados a grupos sociais. O objetivo da censura é impedir
que a memória constituída nas “zonas de sombras”, não emerja.
As memórias subterrâneas estão fora da história oficial e podem retornar do
passado, com vistas a rememorar/comemorar nomes ou eventos, para transformá-
los em sujeitos imaginários tomados pela aura da idealidade, responsáveis pela
transmissão de valores. Esses sujeitos podem se tornar paradigmas para novos
comportamentos. O efeito da vulnerabilidade teórica, de acordo com Seixas (2001),
entrelaça-se ao efeito de apropriação, por levantar um divisor de águas entre história
e memória, para, em seguida, destruí-lo, sem discutir os mecanismos de produção e
reprodução de memória. Nora, por sua vez, trata
78
[...] da memória coletiva ou histórica, sem relacioná-las ao próprio paradigma
histórico. Tudo se passa como se a memória só existisse teoricamente sob os
refletores da própria história, postura que não resiste a uma observação mais
atenta e descentrada (NORA, 1992, p. 30).
Nas considerações realizadas nessa parte intercalamos as reflexões acerca
da História e da Memória, enfocando-as ora em termos memória como discurso, ora
em termos da História como disciplina que prioriza os fatos e não os dados.
Discursivamente interessa-nos a historicidade, pelos efeitos de sentido e pela
memória inscrita em práticas sociais.
3.2 O funcionamento discursivo da memória pela história
O processo discursivo de constituição de redes identitárias ocorre pela
memória, compreendida por Pêcheux (1999, p. 50) “não no sentido diretamente
psicologista da “memória individual”, mas nos sentidos entrecruzados da memória
mítica, da memória social inscrita em práticas, e da memória construída pelo
historiador.” O discurso de rememoração/comemoração, apesar de se marcar como
celebração e construção de um objeto de comemoração, aproxima-se da memória,
no sentido de Pêcheux (Ibid.), porque se inscreve na ordem do imaginário, pelo
simbólico. O sujeito-objeto
49
do discurso de rememoração/comemoração é da ordem
do imaginário. Ele se constitui a partir do que os sujeitos vêem nele e o que eles
vêem os completa a partir da idealidade de sujeito idealizado, que desencadeia o
desejo de identificação.
A memória, nessa perspectiva, não é temporalizada, nem se relaciona à
história como cronologia, mas a historicidades, que atualizam o dizer pelo
funcionamento do interdiscurso, instância em que não um sujeito responsável por
ela, que diz eu e se esquece de que não é a origem do dizer, o qual para significar,
significou anteriormente, segundo Orlandi (2002a). No interdiscurso, de acordo
com Courtine (1999a, p. 18), “o sujeito não tem um lugar que lhe é assimilável, que
ressoa no domínio de memória somente uma voz sem nome”. A sua constituição
49
Utilizamos aqui a designação sujeito-objeto porque Érico Verissimo, como autor da narrativa
autobiográfica Solo de Clarineta I, é sujeito-autor do discurso veiculado e, como aquele que é
discursivizado no discurso de rememoração/comemoração, ele é objeto.
79
não se dá apenas pela patrimonialização ou pela institucionalização, mas pela
identificação com a FD que o interpela. Nesse sentido, Sant´Anna (2003, p. 46)
afirma que o monumento trabalha e estabiliza a memória coletiva "[...] fazendo vibrar
o passado”. No processo de patrimonialização o monumento perdeu importância e
outros mecanismos de estabilização da memória passaram a vigorar em seu lugar,
especialmente o patrimônio cultural, que mantém traços do monumento cultural. Em
relação a isso a mesma autora afirma que
No Brasil, a idéia de que o patrimônio não se compõe apenas de edifícios e
de obras eruditas, estando também presente no produto da alma popular,
remonta a década de 30 e se encontrava no projeto que o poeta Modernista
Mário de Andrade elaborou para o Serviço de Patrimônio Artístico Nacional,
em 1936. Esse sentido amplo de patrimônio encontrava-se na definição
andradina de arte, como “a habilidade com que o engenho humano se utiliza
da ciência, das coisas e dos fatos” (SANT’ANNA, 2003, p. 51).
Pode-se dizer, com isso, que patrimônio se relaciona à cultura e abrange
também as artes. Em relação à seleção do patrimônio pela memória histórica, que
se relaciona com o arquivo. A memória abarca a história em sua historicidade e ao
esburacar-se exclui acontecimentos e visibilidade a outros, de acordo com
interesses institucionais. O procedimento de exclusão produz, pelo funcionamento
do silêncio, uma forma de censura, fazendo esquecer o que é silenciado e funda
sentidos. Isto, segundo Orlandi, demonstra
O movimento contraditório, tanto do sujeito quanto do sentido, fazendo-se no
entremeio entre a ilusão do um sentido (efeito da relação com o
interdiscurso) e o equívoco de todos os sentidos (efeito da relação com a
lalangue
50
) (ORLANDI, 2002b, p. 17)
A escolha entre o que faz parte da memória e o que é silenciado está a cargo
das instituições, como legitimadoras de memória. Elas buscam determinar aquilo
que deve ser lembrado e também o que deve ser esquecido, num movimento
dialético em que a lembrança pressupõe o esquecimento no discurso de
comemoração. No entanto, ao se inscreverem em espaços discursivos, os sentidos
deslizam, rompem com a linearidade. Segundo Augé (1998, p.7), “o esquecimento é
tão necessário à sociedade como ao indivíduo. [...] A própria memória tem
necessidade do esquecimento: é preciso esquecer o passado recente para
50
Lalangue, termo lacaniano, definido por Milner (1987) como aquilo que falta no real da língua, ou
em outras palavras, é aquilo que é impossível dizer.
80
reencontrar o antigo”. É a partir do sujeito em relação com o lugar social de onde
fala e dos esquecimentos que se imbricam várias memórias. É que a memória se
desvela e constitui o outro. É a partir da relação imaginária com esse outro que os
discursos constituem-se, formulam-se e circulam.
Ela não se reduz ao sujeito como fonte do sentido. Segundo Pêcheux
(1997a), “ela recebe sempre uma sobredeterminação
51
do social e do inconsciente”.
Os sujeitos discursivos ao rememorar trazem para a ordem do discurso versões
históricas da memória e têm a ilusão da cristalização do sentido. Encaminham para
a estabilidade para o mesmo. Esquecem-se, segundo Orlandi (2004b, p. 31), de que
“há uma parte do dizer, inacessível ao sujeito, e que fala em sua fala. Mais ainda: o
sujeito toma como suas as palavras da voz anônima, produzida pelo interdiscurso (a
memória discursiva)”. O sujeito empírico, enquanto indivíduo, ou na ordem blica,
como pessoa física, não tem funcionamento na ordem do discursivo. Toda
transformação ou mesmo reprodução se dá no coletivo. O sujeito e o discurso
constituem-se na historicidade que movimenta os processos sociais. A origem dos
saberes não está, portanto no sujeito, pois na análise discursiva ele é um lugar e
não uma pessoa. Além disso, o lugar é regulado por práticas sociais.
Pelo processo de apropriação, que consiste na tomada de uma memória por
outra, e pelo fato de apresentar um nome como patrimônio da comunidade, o
discurso de rememoração/comemoração, como memória discursiva, acentua alguns
aspectos do objeto do discurso e apaga outros. Atende a ordem discursiva da
instituição pela qual fala. O sujeito do discurso é assujeitado por determinada FD e
esta regula “o que pode e deve ser dito de uma determinada posição”. A constituição
de uma memória histórica, em torno de um nome, a partir do qual o imaginário da
cidade aglutina-se e se identifica exige algumas qualidades específicas. Essas
características positivas o são sempre iguais em todas as FD’s. Elas dependem
das formações ideológicas constitutivas do espaço. Nesse sentido, a
rememoração/comemoração, como prática discursiva em relação ao imaginário
urbano, constitui a memória histórica e resulta do desejo dos sujeitos urbanos de se
identificarem na ordem do simbólico com o sujeito comemorado, que não é um
sujeito empírico, mas um personagem inventado por esse discurso.
51
A sobredeterminação surge no âmbito da psicanálise, mas é utilizada por Althusser (1985) para
explicar a estrutura que cerca o indivíduo desde antes do seu nascimento, quando ele é sujeito,
tem um nome e está sobredeterminado pelas regras da formação social onde vai nascer.
81
3.3 Sujeito porta-voz
A certa altura de O Continente comecei a sentir necessidade de criar uma
personagem que pudesse fazer o papel de “coro” daquela comédia
provinciana. Devia ser uma pessoa não alfabetizada, mas também lida e
com pontos de referência geográficos e culturais que a tornassem capaz de
comparar aquela agreste e incipiente civilização sul-americana com a
européia [...] (p. 299)
O sujeito porta-voz
52
é um conceito próprio do discurso político. Tem origem
em Conein (1980) na descrição de um acontecimento político, em que o objeto de
análise são os arquivos políticos da Revolução Francesa, com o objetivo de ilustrar
os paradoxos desse discurso. O sujeito porta-voz funciona nessa perspectiva como
“um agente coletivo em movimento” , que exerce duas funções enunciativas: a de
agente enunciativo (aquele que fala no lugar de) e de agente a quem é atribuída
uma ação (como povo).
Pêcheux (1982/1990)
53
retoma esse conceito em relação à revolução
Francesa, à Revolução Socialista e às Revoluções do Século XX e define o porta-
voz como um agente que exerce duas funções enunciativas: uma como ator visível,
que fala em nome de e outra como aquele que resiste ao adversário. O porta-voz é,
de acordo com Pêcheux (idem, p. 17) “se expõe ao olhar do poder que ele afronta,
falando em nome daqueles que ele representa, e sob o seu olhar. [...] que o coloca e
posição de negociador em potencial, no centro visível de um “nós” em formação
[...]”. Nessa perspectiva o porta-voz circula entre três posições: a de profeta, a de
dirigente e do homem de Estado, constituindo-se como o agente de contradições e
deslocamentos, porque circula entre o mundo existe e a possibilidade de “um outro
mundo”.
Indursky (2002) enfoca o porta-voz e a função enunciativa dele no discurso
sobre o MST, destacando que o porta-voz visibilidade ao MST, mas não relata o
a fala do militante do movimento. Na verdade ele fala em nome dos integrantes do
movimento, mas assume o dizer, colocando-se como mediador.
O sujeito porta-voz, no discurso de rememoração/comemoração no espaço
urbano, funciona na dimensão linear do dizer, no intradiscurso e se relaciona com a
comemoração a partir do discurso sobre. É da ordem do mais consciente e lineariza-
52
Para aprofundar o funcionamento dessa noção em relação ao discurso político remetemos a Schons (2006).
53
Texto publicado no Brasil em 1990, nos Cadernos de Estudos Lingüísticos (no. 19).
82
se na tensão entre o já-dito do interdiscurso, em seu funcionamento pelo pré-
construído, como efeito do discurso transverso, no eixo da formulação. Trabalha no
plano da reformulação e da re-inscrição do dizer, o que faculta a polissemia, a
possibilidade do novo.
Nesse sentido, o porta-voz é responsável pelo que é dito a partir de lugares
de memória, distribuindo os saberes e os dizeres que atualizam a memória,
possibilitando assim, a constituição de uma coletividade, um “nós” que emerge do
museu, como lugar que organiza a memória e a atualiza nos demais lugares, da
Universidade, que se delega o poder de falar do lugar da cultura, das tradições e das
heranças e também do Poder Público. É importante destacar que o porta-voz, no
discurso de rememoração/comemoração, nem sempre é visibilizado, identificado.
Em alguns desses discursos, entre os quais se destaca o da Unicruz, ele simula um
anonimato, constituindo-se como “uma voz anônima”.
Com isso destacamos que o sujeito porta-voz é aquele que fala “no lugar do
outro” e assume o lugar do enunciado, que Pêcheux e Henry retomam pelos
desdobramentos do sujeito, referidos por dois termos: o sujeito da enunciação, como
o responsável pelo dizer e o sujeito do saber, que corresponde à forma-sujeito de
uma FD. Por esses desdobramentos ocorrem os processos de identificação, de
legitimação e de representação do sujeito em uma FD. Essa relação é constitutiva
do discurso de rememoração/comemoração, uma vez que, nesse discurso, uma
memória comum aos sujeitos e uma atualidade que reclama essa memória.
rememoração/comemoração se seu objeto e a demanda do espaço em que ela
ocorre afetar os sujeitos participantes desse evento.
Assumimos, na primeira parte deste trabalho, a rememoração/comemoração
como duas noções que funcionam juntas no intradiscurso. Essa possibilidade é um
efeito do interdiscurso como pré-construído. A hipótese que sustenta nossas
reflexões é a de que a comemoração funciona discursivamente e faz sentido na
formação social pelo discurso de, que a legitima e a sustenta. Além disso,
entendemos a comemoração como um ‘discurso sobre’, devido ao seu caráter
doutrinário e a sua vinculação institucional, que autoriza sujeitos a dizerem o que
dizem.
No discurso de rememoração/comemoração, o sujeito porta-voz emerge
como “autorizado” pela instituição e ocupa a posição de intermediário entre os
sujeitos da FD e a instituição. O sujeito porta-voz comporta
83
a relação do enunciador com o grupo enunciatário por ele representado.
Estas operações produzem a contradição constitutiva do funcionamento
discursivo da figura do porta-voz, que se caracteriza por um movimento
pendular de inclusão (como ator participante) e exclusão (como testemunha
do acontecimento) do porta-voz do/no grupo do qual ele é o centro visível
(ZOPPI-FONTANA, 1998, p. 79)
No discurso de rememoração/comemoração não confronto político entre
sujeitos de diferentes FD´s e isso constitui o sujeito porta-voz como o representante
do grupo, como aquele que é detentor do saber discursivo e por isso pode e deve
falar sobre, legitimando-se como aquele que pode dizer o que diz. Constituindo-se
assim a dupla visibilidade de que trata Zoppi-Fontana (Ibid.) referendada pelo fato de
estar em um lugar institucional e por, imaginariamente, serem detentores de saberes
ausentes nos demais sujeitos. O porta-voz, nesse funcionamento, não é uma
testemunha privilegiada, mas possui um excedente imaginário
54
que lhe permite
interpretar os fatos e assumir posicionamentos em relação a eles. Para explicar o
excedente imaginário, a Zoppi-Fontana (idem) se refere à visão excedente, que
conta de que o sujeito pelo lugar que ocupa “vê mais”, porque a posição-sujeito
ocupa o autoriza e porque ele se identifica com a forma-sujeito da FD, que
determina o que pode e deve ser dito desse lugar, assumindo, portanto, em relação
aos sujeitos que representa, uma atitude doutrinal, que constituem no intradiscurso
efeitos de verdade e de autoridade.
3.4 Funcionamentos da memória discursiva
Saigon exercia sobre o espírito do menino uma poderosa
fascinação. Por suas ruas rodavam aquelas curiosas
carruagens puxadas por um nativo, os rickishaws. (“Mamãe,
como se pronuncia essa palavra?” Resposta: Sabei-me lá!
Pergunta ao teu pai”. ) (p. 69)
Ao longo desta primeira parte trabalhamos a rememoração/comemoração e
explicitamos o seu funcionamento pelo lugar de memória (Nora, 1984), pela relação
54
Cf. Zoppi-Fontana (1998, p. 128)
84
da memória com a História e pela memória funcionando discursivamente pela
História. Frisamos, desde a introdução, que o nosso olhar tem como centro a
discursividade. Por isso, nesta parte, vamos enfocar mais detalhadamente a
memória discursiva, que é o fio estruturante de nossa investigação. Essa noção é
mobilizada diferentemente por Pêcheux, Courtine e por Orlandi. Para Pêcheux
(1999, p. 52), os enunciados que constituem a memória discursiva fazem sentido no
intradiscurso porque pertencem à ordem do sempre-já-lá dito e significado e dos pré-
construídos, memória constitutiva de uma formação social. É “a condição do legível
no próprio legível”.
A mesma noção é retomada por Courtine (1981), que a relaciona ao seu
funcionamento em redes, que instauram as repetições no eixo da formulação. A
materialidade das repetições constitui-se de uma memória, que atualiza os sentidos.
Nesses termos, o autor refere à existência histórica de enunciados, que retornam
como acontecimentos discursivos e se legitimam discursivamente pelos
acontecimentos históricos. Orlandi (2002a, 2003, 2004) trabalha essa noção pelas
paráfrases repetição do já-significado, que forma redes parafrásticas e desliza
sobre o já-significado em outro lugar. Para Orlandi (2002a), não somente uma
retomada do sentido, mas também movimento, reformulação, negação ou
esquecimento. É por essa retomada que a memória inscreve-se em uma zona de
sentido.
Neste trabalho, mobilizamos essa noção em relação à memória coletiva, que
funciona em simetria com as lembranças, as recordações (discursos de
rememoração) e ao que é refutado, esquecido, apagado ou lembrado e se
materializam nos discursos de comemoração. Diante da rememoração (eixo vertical
interdiscurso) e da comemoração (eixo horizontal formulação), tomamos a
memória discursiva como constitutiva dos dois eixos, nos quais o primeiro
(rememoração) funciona como a memória e o segundo (comemoração) como a
atualidade. A memória discursiva é, então, segundo Orlandi (2002 idem, p. 31), “o
saber discursivo que torna possível todo o dizer e que retorna sob a forma de pré-
construído, o já-dito na base do dizível, sustentando cada tomada de palavra”.
Nesse sentido, a memória discursiva, pelo interdiscurso, disponibiliza dizeres
que afetam o sujeito diferentemente em cada situação discursiva, pelo que vem pela
história e pela identificação do sujeito à FD que o assujeita. O sentido relaciona-se
ao que é dito em outro lugar e retorna pelo interdiscurso, pelo funcionamento dos
85
pré-construídos efeitos do discurso transverso, da articulação e dos
encadeamentos. Como interdiscurso, a memória discursiva não é fechada e
simétrica: depende de como o sujeito da enunciação se identifica ao sujeito do saber
e também do lugar que esse sujeito ocupa na FD. Apesar da ilusão de ser a fonte do
sentido, o sujeito não controla esses sentidos, nem os espaços discursivos que
fazem trabalhar o acontecimento. Cada evento discursivo significa diferentemente
pela imbricação entre os sujeitos, as posições ocupadas por eles e as condições
sócio-históricas de enunciação.
No encontro da rememoração/comemoração como prática discursiva esses
dois conceitos passam a funcionar como memória discursiva, isto é, segundo
Pêcheux (1999), o funcionamento dos pré-construídos saberes da ordem da
universalidade como legitimação daquilo que, por ser institucional, é legítimo.
Nesse sentido, é que a rememoração discurso de relaciona-se às redes
parafrásticas, que inscreve a repetição em zonas de sentido e de funcionamentos
que instaura o novo, pela comemoração que se constitui pela memória que desliza e
ao fazer isso movimenta, reformula e pelo processo polissêmico, faz irromper no fio
do discurso o novo.
3.5 Encerrando a primeira parte
Nesta primeira parte, enfocamos o tema desta investigação:
rememoração/comemoração. Apresentamos o tema e a problematização da
rememoração e da comemoração como noções advindas da História e da
Antropologia e que reclamam em seu funcionamento a noção de lugar de memória,
de Pierre Nora. Na seqüência, o discurso de, relacionado à rememoração e o
discurso sobre, como comemoração. Enfocamos a História e a memória em relação
ao tema proposto. No final desta primeira parte, assumimos que a
rememoração/comemoração funciona pela memória discursiva e a responsabilidade
do dizer está, com freqüência a cargo do sujeito porta-voz. A noção memória
discursiva foi trabalhada por Pêcheux (1997, 2003)
55
, por Courtine (1981) e também
por Orlandi (2002a, 2004b), entre outros. Vamos trabalhar essencialmente com a
55
Textos originais publicados respectivamente em 1975 e 1983.
86
memória discursiva como interdiscursivo, pelo funcionamento do pré-construído
(retomado por Henry, 1992) pelo processo de articulação, como efeito do discurso
transverso.
Encaminhamos para a segunda parte desta investigação, na qual destacamos
o funcionamento desse discurso pelo viés do simbólico e do imaginário em relação
ao espaço urbano. Destacamos as práticas discursivas e a rede conceitual em
relação à memória discursiva e aos procedimentos de “fazer-crer”. Discorremos
também acerca do processo discursivo desse discurso. O esquema analítico a
seguir ilustra a teorização realizada até agora.
87
SEGUNDA PARTE
O IMAGINÁRIO URBANO: ENTRE A RECORDAÇÃO E A
CELEBRAÇÃO
Cruz Alta era uma comunidade típica do Planalto Médio do Rio Grande do
Sul, em que predominavam uma população de remota origem portuguesa e
mais os caboclos “pêlo duro”, sim, e ainda os descendentes dos tropeiros
paulistas que no século passado vinham a cavalo de Sorocaba comprar
mulas para depois vendê-las na feira de sua cidade natal (p. 188).
Figura 2 – Texto que circulou em Cruz Alta, no coletivo urbano
da Empresa Nossa Senhora de Fátima desde 2005 até os dias atuais
1 MATERIALIDADES DO DISCURSIVO: A LÍNGUA NA HISTÓRIA
Aproximava-se o fim de dezembro, o dinheiro que eu trouxera minguava, e eu
continuava desempregado. Ganhei duzentos mil réis numa noite, pintando
até alta madrugada alguns bonecos em cores para ornamentar as vitrinas de
natal da casa Rheingantz, cujo gerente era meu conhecido (p. 236).
1.1 Primeiras palavras
Neste capítulo enfocamos a materialidade do discursivo, a partir da língua, e
a materialidade do não-verbal, a partir de imagens na constituição do discurso da
cidade. Para pensar a língua, de acordo com Henry (1992), é indispensável pensar
na forma-sujeito, isto é, nos desdobramentos do sujeito no discurso. Por esse
desdobramento é possível pensá-lo na ilusão referencial do sujeito, que se pensa
individual e responsável pelo dizer na enunciação e também em sua relação com o
sujeito do conhecimento sujeito social sujeito universal, da ciência que
determina o dizer por sua identificação e interpelação à forma-sujeito em que se
inscreve.
Nessa relação do sujeito com a língua e com a história, um dos princípios a
considerar é o da não transparência da linguagem, cujo objeto é a língua, que
funciona
[...] através do papel do equívoco, da elipse, da falta, etc... Num jogo de
diferenças, alterações e contradições. [...] O objeto da lingüística (o próprio
da ngua) aparece assim atravessado por uma divisão discursiva entre dois
espaços: o da manipulação de significações estabilizadas, normatizadas por
uma higiene pedagógica do pensamento, e de transformações de sentido,
escapando a qualquer ordem estabelecida a priori, de um trabalho de sentido
sobre o sentido, tomados no relançar indefinido das interpretações
(PÊCHEUX, 2002, p. 50-51).
A língua, nesta perspectiva, recusa a relação de univocidade entre
pensamento/linguagem/mundo. Define-se como acontecimento, que envolve o
90
sujeito afetado pela história e funciona, de acordo com Pêcheux (Ibid, p. 52), “em
uma zona intermediária de processos discursivos (derivados do jurídico, do
administrativo e das convenções sociais da vida cotidiana) que oscilam em torno
dela”. Apesar de ser herdeira, segundo Orlandi (2002a, p. 20), da Psicanálise, da
Lingüística e do Marxismo, na análise discursiva não se submete a nenhuma delas.
Do lugar de onde analisamos os discursos de rememoração/comemoração, o
trabalho de análise não se reduz à língua (objeto da Lingüística), mas também não
se deixa absorver pela Teoria Marxista, nem se limita à Psicanálise. O trabalho
analítico realiza-se nos entremeios dessas disciplinas, nos furos constituídos por
elas e nas relações que resultam desses furos.
A análise na perspectiva discursiva, segundo Orlandi (Ibid), é um
procedimento que busca a historicidade, o simbólico e a ideologia como
materialidade do inconsciente. No entanto, nenhuma dessas perspectivas absorve a
análise, posto que ela é determinada pelo objeto analítico, que representa em si a
escolha de um percurso a ser seguido. Segundo Courtine (1981), a análise na
perspectiva discursiva não reduz o discurso à análise da língua nem o dissolve no
trabalho histórico sobre as ideologias. O foco nessa perspectiva é a materialidade
discursiva em sua especificidade.
Trata-se, então, do funcionamento da língua no discurso como efeito de
sentidos. Para realizar o trabalho de análise na perspectiva discursiva é necessário,
de acordo com Courtine (1999, p. 18), “ser lingüista e deixar de sê-lo ao mesmo
tempo”. Outro ponto a considerar é a relação do sujeito e da ideologia no enfoque
discursivo, uma vez que não discurso sem sujeito e nem sujeito sem ideologia,
“é a ideologia que [...] constitui os sujeitos” (Pêcheux,1997a, p.129). A relação entre
os sujeitos e os sentidos afetados pela língua e pela história não se dá como
cronologia ou eventos determinados, mas como historicidade, cuja função é, pelos
processos discursivos, garantir determinados efeitos de sentido e não outros. Isso
ocorre porque o sentido escapa, podendo constituir novas relações e novas redes de
memória.
A historicidade movimenta e põe em relação acontecimentos, a partir dos
quais os sentidos se dispersam e podem sempre vir a serem outros. O que interessa
ao analista de discurso não é o tempo cronológico de um acontecimento histórico,
mas como se constituem no discurso as redes parafrásticas, que inscrevem o dizer
em domínios de memória. Nesse sentido, de acordo com Courtine (1981), é
91
importante sublinhar que toda produção discursiva que se efetua em condições
determinadas de uma conjuntura provoca movimentos, faz circular formulações
anteriores, enunciadas. Courtine (idem) denomina esse movimento de efeito de
memória. Esse efeito realiza-se pela relação do interdiscurso com o intradiscurso
sob a forma de uma contradição.
O efeito de memória ocorre pela aparente sobreposição entre o interdiscurso,
via pré-construído (o que todo mundo sabe) e o intradiscurso, que legitima o saber
da FD. A lacunaridade do discurso, a natureza intervalar, é apagada diante dos
efeitos de realidade/verdade, que levam os sujeitos a “crer” e também a “ver”. Esse
funcionamento resulta do atravessamento de um discurso em outro e das redes
sócio-históricas da organização do que deve ser lembrado ou esquecido pelas
instituições, que organizam a memória social em redes significantes. O nome das
obras ou palavras que as retomam no intradiscurso e sustentam a
rememoração/comemoração, legitimam seu objeto no espaço urbano, por meio de
designações que encaminham para a idealidade do sujeito. No discurso de Cruz
Alta, Érico Verissimo é designado como um grande escritor, um homem
superdotado, cidadão de todos os continentes ou como uma herança cultural que a
cidade, quer dividir com todos.
A organização material desse discurso busca a legitimação e a identificação
com os sujeitos aos quais se destina o texto. A repetição e as redes parafrásticas,
que reforçam o mesmo, “tecem” os traços de identificação e colocam em um mesmo
eixo os sujeitos e o objeto do discurso. Com isso, as redes costuram a ilusão de que
o dizer pode ser controlado pelas instituições. Contudo, permanece latente que
outros discursos ecoam, ressoam no presente e que a rememoração é determinada
por essa atualidade constituída por slogans, palavras de ordens e imagens que
constituem “realidades”. A memória discursiva como organização do saber na
formação social permite visibilizar o que retorna pela emergência do presente.
Pode-se afirmar, ancorados nesses pressupostos, que o compete aos
sujeitos tomados empiricamente, nem mesmo aos sujeitos porta-vozes
determinarem o que constitui ou não a memória histórica do espaço da cidade ou o
que constitui o espaço urbano. Essa memória relaciona-se à identificação entre os
sujeitos urbanos e a forma-sujeito (sujeito histórico) da FD, em que se inscrevem.
Segundo Pêcheux (1997a), os sujeitos são livres para assujeitarem-se, mas se
constituem pela ilusão de serem a origem daquilo que dizem.
92
Nessa mesma direção, Indursky (1998) na esteira de Pêcheux e Courtine
refere ao fato de o sujeito ser duplamente afetado em seu funcionamento individual,
pelo inconsciente e, em seu funcionamento social, pela ideologia. Destaca, que esse
assujeitamento constitui-se em uma das feridas narcísicas dos sujeitos capitalistas,
os quais se constituem pela ilusão de serem ‘a origem do dizer’. Não esgotamos as
reflexões em torno da caracterização do funcionamento material do discurso de
rememoração/comemoração, mas reiteramos a possibilidade de olhar o objeto desta
pesquisa a partir de outros lugares, sem com isso reduzi-lo, nem fechá-lo.
1.2 Práticas discursivas: rede conceitual
Naquelas semanas assisti ao desfile dos soldados e voluntários civis que iam
derrubar o Governo Federal para instaurar no país conforme diziam os
jornais e os oradores revolucionários, uma nova era de verdadeira
moralidade, em que se pudesse promover o progresso do Brasil e a felicidade
de seu povo. Eu olhava tudo aquilo com o olho morno e cético. Talvez o
“meu” ceticismo fosse apenas à máscara com que eu procurava disfarçar
minha preguiça de tomar uma posição concreta perante a revolução (p.228).
A rememoração/comemoração funciona em uma rede conceitual, cujo eixo
estruturador é a memória discursiva, como interdiscurso, definido e desenvolvido por
Pêcheux (1997). Abordamos junto a essa noção as questões relativas ao sujeito:
forma-sujeito, posição sujeito, interpelação e identificação, bem como as formações
discursivas, ideológicas e imaginárias que se articulam em torno do interdiscurso.
Retomamos também as materialidades discursivas do discurso de
rememoração/comemoração no que diz respeito à língua na história e ao
funcionamento das materialidades não-verbais nele. Além disso, relacionamos as
instâncias do real, do imaginário e do simbólico em relação ao sujeito desejante.
O processo discursivo estrutura-se em torno do sujeito e da ideologia. Para
estabelecer essa relação Pêcheux (1997a, p. 149-155) se refere a duas teses
apresentadas por Althusser: a primeira assevera que “só há prática através de
sujeitos e sob uma ideologia” e, a segunda que “só ideologia pelo sujeito e para
93
os sujeitos”. Na primeira, o uso do artigo indefinido “uma” conta da dependência
da ideologia às FD’s e também, sustenta dizer que uma mesma ideologia não afeta
a todos da mesma forma e ao mesmo tempo. Na segunda proposição, o sujeito está
marcado e isso significa que “a categoria do sujeito é a categoria constitutiva de toda
a ideologia” (ibidem, p. 155).
Nesses termos, Pêcheux distingue Ideologia, formação ideológica, e ideologia
dominante. A Ideologia em geral, o relacionada à história, concebe o homem
como um “animal ideológico”, isto é, que faz parte da natureza e se relaciona ao
inconsciente. As evidências, segundo Pêcheux (Ibid.), inclusive a da transparência
da linguagem, são um “efeito da ideologia”. Encontram determinação junto à
constituição do sentido e do sujeito pela figura da interpelação, num duplo sentido:
primeiro pela vinculação do sujeito aos Aparelhos Ideológicos de Estado, e pelos
vínculos estabelecidos entre o sujeito de direito (que se relaciona com os demais
sujeitos) e com o sujeito ideológico (aquele que ao falar de si mesmo diz “sou eu”)
56
.
As formações ideológicas, por referência ao “teatro da consciência”, refere à
evidência de o indivíduo “é sempre já-sujeito”
57
, mas se constitui pela ilusão de sua
autonomia dada pela ideologia, que, segundo Pêcheux,
fornece as evidências pelas quais todo mundo sabe o que é um soldado, um
operário, um patrão, uma fábrica, uma greve, etc., evidências que fazem com
que uma palavra, ou enunciado queiram dizer o que realmente dizem e que
mascaram, assim sob a transparência da linguagem, o caráter material do
sentido e das palavras e dos enunciados (PÊCHEUX, 1997a, p. 160)
No discurso, os efeitos de evidência materializam-se pelo funcionamento do
interdiscurso como a memória do dizer, que sinaliza como se o processo de
interpelação/assujeitamento e de identificação dos sujeitos nas práticas discursivas
de rememoração/comemoração. Nessa prática, a rememoração funciona de forma
análoga ao pré-construído, desenvolvido por Pêcheux (Ibid.) e Henry (1992) e
definido como saberes constitutivos da memória discursiva. O processo de
interpelação-identificação produz o sujeito no “lugar deixado vazio” pela
universalidade. O sujeito ideológico, nessa perspectiva, é o duplo do sujeito jurídico
e resulta da evidência dissimuladora da “norma identificadora”
58
, pela qual os
sujeitos se reconhecem e reconhecem os seus interlocutores. Essas evidências se
56
Cf. Pêcheux (1997a, p. 154).
57
Ibid., p. 155.
58
Ibid., p. 159.
94
fundam na linguagem pelo efeito de transparência e mascaram o caráter material da
língua, a sua dependência “ao todo complexo com dominante das ideologias”.
Isso significa duas coisas: primeira, o sentido não existe em si mesmo, de
acordo com Pêcheux (Ibid., p. 160) ele “é determinado pelas posições ideológicas
que estão em jogo no processo sócio-histórico, no qual as palavras, expressões e
proposições são produzidas (isto é, reproduzidas)”. Esse processo realiza-se pela
inscrição do sujeito a FD’s e pela posição ocupada por ele na FD. A posição que ele
ocupa determina o que ele pode e deve dizer ou fazer. A interpelação dos indivíduos
em sujeitos-falantes e sujeitos do discurso se pelas FD’s, que representam na
materialidade do discursivo as formações ideológicas do sujeito discursivo.
A ideologia dominante, nos termos de Pêcheux (1997a, 144) “não se torna
dominante pela graça do céu...”, o que quer dizer que os aparelhos ideológicos de
Estado não são a expressão da dominação da ideologia dominante, isto é, da
ideologia da classe dominante [...] isso significa que os AIE´s são o lugar e o meio
em que a ideologia dominante se realiza, mesmo assim, eles não são “máquinas
ideológicas que reproduzem pura e simplesmente as relações de produção
existentes”. Na verdade,
A dominação da ideologia (da classe) dominante, que é caracterizada, no
nível ideológico, pelo fato de que a reprodução das relações de produção
“subjuga” sua transformação (opõe-se a ela, a freia ou a impede, conforme os
casos), corresponde, pois menos à manutenção do idêntico de cada região
[...] (PÊCHEUX, 1997, p. 146)
Isso significa que a classe dominante impõe novas relações de desigualdade-
subordinação, interpelando os indivíduos em sujeitos e em relação a uma FD
dominante, que contemple a identificação e a sobredeterminação do sujeito pelo
Sujeito, o responsável pelo saber.
Essas distinções permitem dizer que o mesmo enunciado pode significar
diferentemente na mesma FD e para o mesmo sujeito, dependendo das filiações e
assujeitamentos.
Acerca das FD’s, remetemos à Indursky (2005) no que diz respeito
ao questionamento acerca da produtividade dessa noção na análise discursiva. Para
responder a esse questionamento, a autora refaz o percurso da noção, desde
Foucault, passando por Pêcheux (1997b)
59
e também por Courtine (1981, p. 51).
Este último desenvolve a noção de FD’s heterogêneas, definidas como “o conjunto
das diferentes posições de sujeito em uma formação discursiva como modalidades
59
Texto publicado, em português com o título Por uma análise automática da análise de discurso,
organizado por Gadet e Hak e publicado pela Unicamp. Utilizamos neste trabalho a 3. ed. de 1997c.
95
particulares de identificação do sujeito da enunciação ao sujeito do saber [...]”. A
dimensão heterogênea da FD que funciona no discurso de
rememoração/comemoração vincula-se à inscrição institucional desse discurso.
Nele, o enunciador é interpelado pela forma-sujeito da FD
rememoração/comemoração, que é a dominante. Nesse sentido, assumimos que
uma FD comporta outras que funcionam junto a ela e também que o sujeito assume
diferentes posições na mesma FD. Isso se realiza em nosso caso pelos processos
de identificação entre os sujeitos da FD dominante com Érico Veríssimo e o que ele
representa na formação social.
1.3 Categorias do interdiscurso: pré-construído e intradiscurso
A noção de interdiscurso relaciona-se à constituição não-homogênea e
fechada das FD’s, as quais dissimulam pela transparência de sentido sua filiação a
um “todo complexo com dominante”, cuja origem está no interdiscurso. Em relação a
isso é importante refletir sobre o funcionamento dessa categoria, a partir de sua
constituição como um lugar contraditório, que abriga o sentido e o não-sentido.
Segundo Silveira (2004, p. 42), o interdiscurso é um ‘lugar’ porque “todos os
sentidos estão lá, mas vão significar quando convocados por uma determinada
Formação Discursiva”. Nesse sentido, pode-se dizer que dois lugares o constituem:
o pré-construído e o intradiscurso.
A noção de pré-construído foi desenvolvida por Henry (1992) para designar
uma construção anterior e exterior ao sujeito da enunciação e que não se liga a um
sujeito enunciador. Trata-se, nas palavras de Courtine (1999), “de uma voz sem
nome”, que aparentemente não se liga a um sujeito enunciador e nem o que está
além dele. Nesse funcionamento, materializam-se, no fio do discurso, as formações
ideológicas, como aquilo que “fala antes” e legitima o discurso, constituindo o
aparente “consenso” em relação ao dizer e ao saber. Dois processos materializam o
pré-construído no discurso: o encadeamento sintático e a articulação. O primeiro,
pode ser definido como o processo de nominalização por encaixamento de “algo que
fala antes” e irrompe no intradiscurso sob a forma de explicativas, incisas e outros
processos sintáticos. O segundo processo de articulação ou de sustentação ocorre
sob duas formas: como discurso transverso ou como articulação.
96
O funcionamento do interdiscurso, tomado como discurso transverso é
descrito ao modo de um procedimento que
atravessa e põe em conexão entre si os elementos discursivos constituídos
pelo interdiscurso enquanto pré-construído, que fornece, por assim dizer, a
matéria prima na qual o sujeito se constitui como “sujeito falante, com a
formação discursiva que o assujeita (PÊCHEUX, 1997a, p. 167)
É no lugar do discurso transverso, que se produz, de acordo com Courtine
(1981), o enunciável e a coerência discursiva dos enunciados. Entre esses
procedimentos destaca-se a da co-referencialidade, que concorre para a
textualização do discurso sem que haja referência explícita. Trata-se do trabalho da
memória, do conhecimento já-lá convocado por uma FD, que sustenta e legitima o
dizer.
Nesse trabalho vemos o discurso transverso como o efeito de memória pelo
qual ressoam no eixo da formulação saberes desde o interdiscurso e que
permanecem deslinearizados e dependentes da inscrição de sujeitos a dizeres e a
saberes próprios dos lugares que sustentam a FD dominante, a qual interpela esses
sujeitos. Por esse funcionamento os discursos se atravessam de acordo com a
filiação dos sujeitos do discurso, não há, portanto, como sustentar a transparência
do sentido. O segundo funcionamento do interdiscurso como pré-construído consiste
na articulação. Esse procedimento refere à estrutura horizontal do discurso e à
linearização dos saberes no intradiscurso em forma de nominalizações, orações
adjetivas, incisas, principalmente. No processo de articulação as filiações são
explicitadas.
Como intradiscurso, o interdiscurso é um efeito sobre si mesmo, segundo
Pêcheux (1997a, p. 167) ““uma interioridade” inteiramente determinada como tal “do
exterior””. Nesse funcionamento, a memória e a atualidade simulam o sujeito como
centro do dizer pela identificação dele com a FD que o domina e representa no fio do
discurso as formações ideológicas próprias dela. A interpelação supõe o
desdobramento do sujeito em dois termos. Um que representa o sujeito locutor,
responsável pelo conteúdo do dizer (sujeito da enunciação), que assume uma
posição na FD e outro termo que representa o sujeito universal (sujeito da ciência).
Esse desdobramento
97
[...] corresponde ao pré-construído (o sempre-já da interpelação ideológica
que fornece-impõe a realidade” e seu sentido” sob a universalidade “o
mundo das coisas” e articulação ou efeito transverso (que como dissemos,
constitui o sujeito em sua relação com o sentido, isto é, representa no
interdiscurso aquilo que determina a dominação da forma-sujeito (PÊCHEUX,
1997a, p. 214)
Henry (1992, p.176) relaciona os desdobramentos do sujeito ao imaginário e
ao simbólico pelas noções de eu-ideal e ideal de eu. “O eu-ideal representa a face
visível do imaginário, aquela em que o sujeito é identificado aos seus objetos e com
ele mesmo como objeto”. O sujeito se vê, então, como a causa de si, como autor
em um funcionamento em que o sujeito do inconsciente (o Outro
60
) apaga-se e o
outro emerge no fio do discurso. Esse outro é o interlocutor com quem o sujeito
entra em relação discursiva. No entanto, segundo Henry (Ibid.), o Outro, mesmo
estando invisível permanece latente. O ideal de eu, nessa perspectiva, representa o
sujeito universal, o Outro, é a face inconsciente do imaginário e comanda a relação
com o outro, enquanto relação simbólica, intersubjetiva.
Trazemos para o fio do discurso, a referência a Henry (Ibid., p. 176) porque
trabalhamos com o sujeito desejante
61
, como resultado daquilo que o autor chama
do efeito de “estendimento” do inconsciente no imaginário do sujeito. Nesse sentido,
a discordância na relação entre o eu-ideal (sujeito da enunciação) e o ideal de eu
(instância do interdiscurso e do inconsciente) provoca o desejo, que pode chegar à
obsessão desejo sem controle. No discurso de rememoração/comemoração da
cidade de Cruz Alta, Érico Verissimo se constitui, ao mesmo tempo, como o objeto a
(a falta, a necessidade) e o objeto do desejo (aquilo que falta), nos termos de
Lacan
62
e desencadeia a demanda da cidade, que em determinado período, sofreu
perdas significativas e o colocou no lugar do que perdeu, constituindo-o como o
sujeito idealizado, capaz de representá-la para dentro e fora dos seus limites.
Esse discurso, apesar de se constituir como um discurso sobre, constitui-se
pelo inconsciente, que atravessa o sujeito e ocorre no fio do discurso pela falha e
pela ruptura com o estabelecido, como um efeito da divisão constitutiva do sujeito,
60
Cf. Lacan (1996, p. 22), “o inconsciente é o discurso do Outro”.
61
O sujeito desejante tem seu funcionamento relacionado à rememoração como memória, conforme esquema
analítico com o qual encerramos a primeira parte deste trabalho. Aprofundamos a reflexão em torno do sujeito
desejante nessa segunda parte, no capítulo 2, quando o relacionamos ao funcionamento do Real e do Imaginário
no discurso urbano.
62
Cf. referências bibliográficas, Seminários consultados (1, 2, 4, 5, 8, e outros) e também nos Escritos (1998).
98
pelo desejo de completude, segundo Lacan (1995)
63
. O sujeito responsável pelo
dizer no discurso sobre é o porta-voz, que investido da autoridade que lhe é
conferida pelo lugar que ocupa na FD, define Érico Verissimo a partir da
rememoração (discurso de), o que se repete e constitui a memória discursiva,
fazendo irromper no fio do discurso saberes de um tempo mais longo, cuja
existência é anterior ao discurso formulado.
1.4 Sujeito e discurso: modalidades de identificação
Pêcheux (1997a) descreve a teoria do discurso e retoma Henry (1992) e o
funcionamento do sujeito e os seus desdobramentos para trabalhar as modalidades
de identificação do sujeito, como uma reformulação da noção de formação
discursiva descrita em Pêcheux (1969), quando do lançamento das bases da teoria.
Nessa reformulação Pêcheux refere ao entrelaçamento entre as determinações da
FD e as implicações em relação à forma-sujeito e à ideologia. De acordo com o que
foi postulado em Semântica e Discurso (1997a) o processo de identificação realiza-
se juntamente com a interpelação/assujeitamento pela divisão/desdobramento do
sujeito em: sujeito da enunciação e em sujeito do saber. Esse desdobramento é
descrito por Henry (1992) por meio das noções eu-ideal e ideal de eu, conforme
distinções realizadas anteriormente. A primeira modalidade de identificação,
segundo Pêcheux é a do chamado “bom sujeito”, o qual se identifica aos saberes da
forma-sujeito que o domina. Essa primeira modalidade de identificação sugeria uma
identificação plena do sujeito da enunciação com a forma-sujeito, através da qual o
sujeito reproduz o conhecimento próprio da FD.
Essa primeira modalidade de identificação do sujeito em relação aos saberes
da FD e a forma-sujeito foi um dos pontos de reformulação na teoria, quando
Pêcheux inaugurou o tempo das “retificações” e reafirmou a interpelação do sujeito
pela ideologia, mas destacou que isso ocorre sempre com falhas. Nesse sentido
afirma:
[...] é a causa que determina o sujeito exatamente onde o efeito da
interpelação o captura; o que falta é essa causa, na medida em que ela se
“manifesta” incessantemente e sob mil formas (o lapso, o ato falho, etc.) no
63
Esse texto resulta dos Seminários ocorridos entre os anos de 1956-1957.
99
próprio sujeito, pois os traços inconscientes do significante não são jamais
“apagados” ou “esquecidos”, mas trabalham, sem se deslocar, na pulsação
sentido/non-sens do sujeito dividido. (PÊCHEUX, 1997a, p. 300)
Ancorado nos pressupostos de Henry (1994) admite que o sujeito é dividido e
que não há o assujeitamento pleno. Nessa mesma direção Courtine (1981) propõe a
FD heterogênea, na qual o sujeito assume mais de uma posição no funcionamento
da mesma forma-sujeito. Indursky (2000, p. 75) destaca em relação a isso, que “não
mais espaço apenas para a plena identificação com a forma-sujeito, que resulta
no retorno ao mesmo e na reduplicação da identificação”.
A segunda modalidade de identificação é referenciada por Pêcheux como a
do “mau sujeito”. Nela o sujeito da enunciação assume uma posição de
distanciamento e de dúvida em relação à interpelação do Sujeito. Trata-se de uma
contra-identificação. Apesar de instaurar o questionamento não desencadeia o
rompimento com os saberes da FD próprios da forma-sujeito.
Nessa segunda modalidade de identificação, ele aborda o desdobramento do
sujeito, e referencia o sujeito constituído não mais em sua unidade, mas em sua
divisão. Não fosse pela identificação com a FD, seria pelo atravessamento do
inconsciente, que instala a diferença. Segundo Pêcheux
o efeito daquilo que definimos como o interdiscurso continua a determinar a
identificação ou a contra-identificação do sujeito com uma formação
discursiva, na qual a evidência do sentido lhe é fornecida, para que ele se
ligue a ela ou a rejeite. Estamos diante do que P. Henry caracterizou
recentemente sob a forma do par acobertamento-rejeição, que não deve ser
confundido com o processo que ele chama de integração (PÊCHEUX, 1997a
p. 216).
Com essa afirmação, cheux introduz uma terceira modalidade subjetiva e
discursiva de identificação. Trata-se da desidentificação pela qual o sujeito da
enunciação rompe com a forma-sujeito que organiza os saberes da FD, em que se
inscreve e se identifica com outra FD. Segundo Indursky (2000, p. 74), “não se trata
de uma simples dessubjetivação, a partir da qual o sujeito torna-se livre. O que
ocorre é o deslizamento de uma forma de subjetivação para outra [...]”. Trata-se da
negação dos saberes de uma FD e a afirmação dos saberes de outra e do seu
domínio de saber. Ao introduzir a noção interdiscurso na teoria, definindo-a como
“um todo complexo com dominante”, Pêcheux (idem) admite que as FD’s abrigam a
diferença, a divisão e a contradição próprias da ideologia.
100
As formações discursivas, ideológicas e imaginárias funcionam em torno do
sujeito. Uma FD é heterogênea e se constitui a partir de um sujeito dividido pelas
diferentes posições que a interpelação ideológica lhe permite. Mesmo assim, o
sujeito histórico ou sujeito universal continua a organizar os saberes da FD. Ela é o
lugar material da ideologia que segundo Pêcheux (ibidem) materializa-se na língua.
Orlandi (2002a, p. 40), na esteira de Pêcheux diz que as formações imaginárias
decorrem das projeções, pelas quais o sujeito passa de situações empíricas (os
lugares sociais) para as posições discursivas (lugar ocupado na FD). Ainda de
acordo com Orlandi, as regras da ngua determinam a passagem da posição social
para a posição discursiva,
estabelecendo a relação do sujeito e do sentido a um ao
contexto sócio-histórico e a uma memória.
101
2. O FUNCIONAMENTO DO SUJEITO E A RELAÇÃO REAL E
IMAGINÁRIO
Na mesma semana em que nasceu Clarissa estando minha mulher ainda
no hospital recebi por intermédio do Grêmio Gaúcho de São Paulo a
notícia de que meu pai sofrera um derrame e encontrava-se em estado
grave e absolutamente sem recursos. Minha situação financeira no
momento era péssima. Gastara minhas economias com o enxoval do bebê,
e o que me restava mal dava para pagar o médico e as diárias da
Maternidade. [...] Mas eu precisa socorrer o Velho com a maior urgência (p.
258).
O discurso de rememoração/comemoração na cidade em torno de Érico
Verissimo visibilidade aos processos de identificação decorrentes do imaginário,
que se materializam pelo simbólico – trabalho da língua na história. Apesar da
aparente homogeneidade, o sentido, segundo Pêcheux (1997a), sempre pode ser
outro. A ilusão da transparência da linguagem é reforçada pelo fato de que os textos
que constituem esse discurso surgiram pela emergência da cidade em representar-
se para dentro e fora de seus limites através do Érico Verissimo imaginário
constituído por esse discurso. Os traços de memória e os vestígios da presença do
objeto de rememoração/comemoração no espaço urbano aproximam esse objeto da
cidade.
Definimos a cidade como um grande texto, que de um lado compõe-se como
o discurso de e de outro, como o discurso sobre. No discurso da cidade, a
legitimidade da relação entre o objeto de rememoração/comemoração - Érico
Verissimo - é um efeito do processo metafórico pelo qual a cidade e o objeto do
discurso recobrem-se na ordem do imaginário. Nesse sentido, a cidade se “vê” no
objeto de rememoração/comemoração e isso ocorre pela transferência, que segundo
Freud (Lacan, 1998), é a atualização do inconsciente, sua presentificação na relação
do sujeito com o ser real, que nesse trabalho chamamos de objeto do desejo, ou
seja, o Érico Verissimo imaginário que os sujeitos/cidadãos de Cruz Alta buscam.
Pela transferência, o sujeito locutor constitui o interlocutor (o outro) em seu discurso,
não apenas como interlocutor, mas como alguém com quem se identifica e participa
do discurso num processo de reversibilidade que aguarda resposta, que
102
entendemos como o processo de espelhamento, pelo qual os sujeitos se constituem
pelo “outro”, na alteridade.
Esse discurso resulta de um processo discursivo anterior em que as
instituições determinam o que pode ser visibilizado ou apagado. Faz-se necessário
pensar os efeitos de sentido, que segundo Orlandi (2002a, p. 30), “são produzidos
em condições de produção determinadas e estão, de alguma forma, presentes no
modo como se diz, deixando vestígios que o analista de discurso tem de apreender”,
como parte do que não está dito ali, mas constitui o dizer pelo que está dito em outro
lugar, em outro tempo. O discurso sobre, apesar da aparente homogeneidade,
constitui-se em espaços de memória que não se afastam da materialidade lingüística
e discursiva. A descrição de um objeto discursivo pressupõe a explicitação das
marcas lingüísticas presentes no fio do discurso, que respondem pelos efeitos de
sentido, decorrentes do trabalho do sujeito afetado pela ordem do social - a ideologia
e pelo inconsciente o desejo de completude, pelo processo identitário pelo qual o
sujeito assume algumas posições e não outras.
Os efeitos de sentido ocorrem pela relação do dizer com o exterior, num gesto
de interpretação que possibilita compreender o discurso como não-linear, marcado,
segundo Pêcheux (1999, p. 53), “como outra possibilidade de repetição vertical, em
que a própria memória esburaca-se, perfura-se antes de desdobrar-se em
paráfrase”. Esses furos, materializados por retornos e retomadas sob a forma de
pré-construídos, disponibilizam, no eixo da formulação, dizeres que possibilitam
recuperar os o-ditos, pela filiação de sentidos. Esses dizeres trazem para o
discurso diferentes vozes singularmente marcadas pela ideologia, pelas posições
sujeito e pelas relações de poder decorrentes do efeito de
identificação/reconhecimento produzido pelo discurso sobre, que ao se constituir
aproxima sujeitos que pertencem a diferentes formações discursivas.
2.1 Real/realidade, sujeito/eu, simbólico/imaginário
Solo de Clarineta I é um texto autobiográfico e, por isso mesmo, remete ao
equívoco de que o sujeito-autor narra objetivamente fatos relacionados à sua vida e
que os dizeres e os saberes são da ordem da realidade. Para minimizar os efeitos
103
desse equívoco, que se estabelecer as diferenças entre sujeito e eu e, entre real
e realidade. Para fazer isso, ancoramos-nos em Pêcheux (1997a), segundo o qual o
indivíduo é interpelado em sujeito pelo social ideologia - e afetado pelo
inconsciente psicanálise - e em Lacan (1986). Essas distinções derivam da
tripartição estrutural realizada por Lacan na Conferência pronunciada em 1953 entre
Simbólico, Imaginário e Real (SIR), cuja ordem foi alterada, segundo Jorge (2005),
em 1974/1975 para, o Real, o Simbólico e o Imaginário (RSI) para mostrar a
relevância e interdependência entre uma e outra noção.
A tripartição realizada por Lacan (idem) diz respeito à reunião dos três
registros (ou de acordo com Lacan, das três instâncias) sob a nova ótica adquirida
por meio do borromeano formado por três anéis. Esses anéis simbolizam, de
acordo com Ferreira (2005), uma tríplice aliança. Isso significa que se um desses
anéis fosse retirado, os outros ficariam soltos e perderiam a ligação que lhes é
constitutiva. Essas referências mostram a importância da linguagem na experiência
psicanalítica lacaniana em suas premissas essenciais. Para Lacan (1998, p.881), “o
inconsciente é linguagem” e “não se passa do inconsciente ao consciente, mas da
linguagem à palavra”. Nessa mesma direção o real, o simbólico e o imaginário são
três registros distintos e fundamentais da realidade humana. O Real define-se como
“aquela parte dos sujeitos que escapa à análise e constitui os limites da experiência
do ser humano”. É impossível de ser simbolizada, de ser transformada em discurso.
É a base da estrutura do sujeito. O Simbólico entra em relação com o real e é, na
experiência psicanalítica e discursiva, responsável pelas transformações do sujeito e
do discurso. O Imaginário relaciona-se ao simbólico e possibilita a representação.
A relação entre o real e o simbólico funciona contraditoriamente, na
linguagem, como o possível e o impossível de dizer. Ela é de um lado, a única
possibilidade de o sujeito desnudar-se e constituir-se como tal e, de outro, a
constatação de que a falta e a falha são constitutivas dele, pela impossibilidade de
captar o real pela linguagem e de nada ser sem ela. O simbólico é a possibilidade da
constituição do imaginário e realiza-se a partir de suas vertentes: vertente
significante do simbólico, que associa o simbólico ao real e representa a volta do
real e, a vertente sígnica do simbólico, associando-o ao imaginário. Essas duas
vertentes permitem destacar o lugar do sujeito, representado no campo do simbólico
como “entre significantes”. A definição da constituição do sujeito como entre
significantes permite que ele (sujeito) se volte ao real e também ao imaginário,
104
constituindo-se a partir deles. O imaginário é o terceiro elemento do borromeano.
Relaciona-se ao mesmo tempo com o real, que escapa à análise e ao simbólico
como aquilo que falta ao sujeito, mostra os deslocamentos realizados e possibilita a
análise a partir da representação do sujeito.
É na definição de sujeito e sua diferença com o eu que funciona o
borromeano, que determina a relação entre sujeito discursivo e sujeito psicanalítico.
O sujeito da psicanálise é descentrado, intervalar, isto é, realiza-se entre
significantes, nos intervalos (furos) entre o real, o simbólico e o imaginário. Constitui-
se no que um significante significa para outro significante. Na Análise de Discurso,
na perspectiva de Ferreira (2001, p. 71), a natureza intervalar do sujeito deve-se à
sua constituição entre a linguagem, a ideologia e a psicanálise. Os nós entre essas
três instâncias sinalizam para os furos deixados entre cada um deles e que
constituem o sujeito como um ser-em-falta. o furo da linguagem representa o
equívoco, o furo da ideologia, a contradição e o furo da psicanálise, o inconsciente.
Esse funcionamento constitui a diferença entre o sujeito e o eu. O sujeito é
clivado, dividido, descentrado e o eu, funciona pelo imaginário, a partir dos
esquecimentos que fazem com que ele entre na ordem do imaginário, na ilusão de
ser uma unidade completa. Essa ilusão é explicitada (Pêcheux, 1997a) pelos dois
esquecimentos. O esquecimento nº 2, da ordem da enunciação, pré-consciente.
Apaga para o sujeito as ligações parafrásticas entre os enunciados e o constitui na
ilusão de que o dizer o pode ser outro. O esquecimento 1, é da ordem do
inconsciente e apaga para o sujeito o interdiscurso, o fato de que ele não é a origem
do dizer e de que os enunciados e palavras significam diferentemente, dependendo
das condições sócio-históricas de produção e dos sujeitos envolvidos.
Segundo Pêcheux (1997a), esses esquecimentos são constitutivos dos
efeitos de homogeneidade do sentido e da identificação do sujeito a uma formação
discursiva que o domina, e na qual ele se encontra encravado na condição de
sujeito. Essa identificação, ainda segundo Pêcheux (1997a, p. 265), é imaginária e
diz respeito à natureza intervalar e incompleta do sujeito em relação a ele mesmo e
ao Outro, o inconsciente, ao que ele é, mas não tem consciência. Esse efeito
realiza-se no intradiscurso, como uma das fontes dessa identificação, ligada à zona
do esquecimento 2, em que o sujeito acredita ser a fonte do dizer e fica à mercê
do simbólico, das representações. Nesse sentido, é importante destacar que o real e
a realidade não são noções que se recobrem.
105
O real, como destacamos, é o impossível de ser dito, de ser representado.
Ele ocorre pela ilusão do sujeito de poder dizer tudo. Psicanaliticamente, o real
aproxima-se do objeto a, que é, segundo Lacan, o objeto faltoso, que causa o desejo
e não tem lugar definido. A realidade realiza-se pela montagem do simbólico e do
imaginário como um efeito de realidade. O real é aquilo que escapa a esta realidade,
que não pode ser mostrado, nem manifesto no eixo do discurso. É uma fantasia
inconsciente, aquilo que o sujeito simula para si mesmo e para aos outros como
sendo da ordem do real. Constitui-se no discurso a partir dos esquecimentos,
descritos em várias passagens do nosso texto.
2.2 Sujeito desejante: o desejo de ser igual a ou semelhante a
Em Porto Alegre poderia ter procurado quarto numa pensão barata, mas,
como prevalecessem em mim as inclinações paternas, conclui que, se me
hospedasse no Hotel Magestic, naquela época um dos melhores da cidade,
isso me ajudaria a levantar o moral (p. 235).
O sujeito desejante, segundo Lacan (1985) constitui-se pela falta e pela falha.
Por esse conceito, é possível compreender, de um lado, como pela linguagem, o
sujeito urbano revela o desejo de identificar-se a um sujeito imaginário e como, por
esse processo de identificação, constitui-se um imaginário urbano. De outro lado,
possibilita a recuperação dos processos discursivos que constitui o sujeito-objeto
desse discurso nesse caso Érico Verissimo - na formação social e em relação aos
sujeitos urbanos. Nesse funcionamento o escritor é, ao mesmo tempo, o objeto a
causa do desejo – e o objeto do desejo – o alvo desse desejo, como destacamos, na
esteira de Lacan (idem). Ele é a causa da falha e também o objeto que falta. Por
esses mecanismos, a memória histórica se constitui/mantém/movimenta-se no
discurso urbano. Outro fator determinante nesse movimento da memória histórica
são os ecos do interdiscurso pelo funcionamento do pré-construído o que fala
antes em outro lugar - no intradiscurso e também no interdiscurso e sustenta na
ordem do discurso, segundo Courtine (1982), a materialidade do discursivo que se
realiza pela língua na ordem da história.
106
O sujeito desejante constitui-se pelo efeito de espelhamento, procedimento
em que os sujeitos da formação social se vêem na imagem do sujeito tomado como
ideal de eu
64
. Sustentamos essa posição na releitura de Freud por Lacan, em que
essas noções são deslocadas, ampliadas e, às vezes, transformadas. Ferreira (2005
e 2007) enfoca o sujeito como trama a partir da figura topológica do borromeano,
de Lacan, e pelo espelhamento, em que ele se “vê” no e a partir do outro e do Outro,
referido pelo inconsciente.
Assim, a tomada de um nome ou evento como patrimônio social decorre do
desejo dos sujeitos. O procedimento que o desencadeia é a identificação com o
sujeito-objeto do desejo que se constitui na ordem do imaginário. Essa necessidade
de identificação ocorre quando o objeto do desejo é visto ou é detentor de
qualidades que satisfazem as demandas dos sujeitos tomados pela pulsão e pelo
desejo. A partir desse deslocamento, podemos verificar que o Érico Verissimo
rememorado/comemorado pelo discurso urbano é da ordem do imaginário e se
representa pela relação entre as instâncias do imaginário e do simbólico. A relação
com o imaginário é o efeito, segundo Lacan (1995), da impossibilidade de
discursivizá-lo, que ele, na instância do real, é impossível de ser alcançado. É
pela linguagem – ao mesmo tempo material e simbólica - que esse sujeito imaginário
constitui-se entre significantes, articulando, de acordo com Lacan (1998a), o
significado na relação entre significantes.
Diante disso, uma questão importante é: por que Érico Verissimo? Buscamos
a resposta para essa questão pela noção de sujeito desejante descrita
anteriormente. O sujeito imaginário que emerge do discurso de
rememoração/comemoração da cidade em torno de Érico Verissimo poderia ser
visto como a síntese das representações que os sujeitos urbanos fazem de si
mesmos. À medida que projetam essas imagens no sujeito, com o qual se
identificam, os sujeitos urbanos se (re)produzem nele. A justificativa desse nosso
dizer está na formação histórico-social do espaço urbano
65
, que passou de um
estado de desenvolvimento – vida – para um estado de falência – a morte simbólica.
Aconteceu o contrário com Érico Verissimo, que da falência familiar (a separação
64
Henry (1992) faz a distinção entre eu-ideal (sujeito individual) e ideal de eu (sujeito universal) ligado
ao inconsciente) foi trabalho por Henry (1992).
65
Explicitamos as condições sócio-históricas do espaço urbano na delimitação do tema e a cidade e
as materialidades discursivas que a ligam ao escritor pelas imagens da cidade do DVD, que funciona
nesse trabalho como anexo.
107
dos pais) e financeira (hipoteca da casa da família e a falência das duas farmácias,
primeiro a Farmácia Brasileira, de seu pai e depois a farmácia Central, de sua
propriedade) conseguiu chegar a Cidadão de todos os continentes, uma herança
cultural a ser dividida com todos. O efeito de sentidos desses enunciados é o
silenciamento das dificuldades enfrentadas pelo escritor na cidade.
Os sujeitos que se identificam com a FD da rememoração/comemoração
reconhecem no sujeito-objeto Érico Verissimo como “o ideal de eu”, pelo desejo e
vêem nele a imagem de si mesmos no espelho. Laplanche e Pontalis (2004, p. 139)
definem o ideal de eu como a identificação primária com outro ser investido de
onipotência. Para Lacan (1986), o ego ideal é igualmente uma formação
essencialmente narcísica. Origina-se na fase do espelho e pertence ao registro do
imaginário. Os discursos de rememoração atendem à demanda de constituição, pelo
discurso de, do sujeito alvo do desejo. A comemoração é o discurso sobre, como
dissemos anteriormente. Constitui-se a partir de um discurso de para que ele,
através de um discurso sobre, possa ser comemorado.
De acordo com Lacan (1998a), o sujeito é afetado pela linguagem, pela
ideologia e pelo inconsciente. O efeito de espelhamento é, nessa perspectiva, o
processo de identificação, em que os sujeitos/cidadãos do espaço urbano
representam-se na ordem do simbólico como semelhantes ou igual a. Em outras
palavras, o desejo de ser como Érico Verissimo faz com que o escritor, como sujeito
imaginário e a cidade, também imaginária, constituam-se como análogos no
discurso urbano. Isso se pelo apagamento das distâncias e das diferenças entre
a cidade e o escritor, entre ele e os sujeitos/cidadãos que nela vivem. Nessa
perspectiva, cidade/Érico Verissimo inscrevem-se no interdiscurso como um mesmo
objeto. Como o Outro capaz de restabelecer no intradiscurso a ilusão de unidade do
sujeito, constituído pela falha, pela incompletude.
A necessidade de criar e manter o sujeito a ser rememorado/comemorado e
de dar visibilidade a ele funciona, nesses discursos, pelo lugar de memória que faz
retornar enunciados fundadores que, segundo Courtine (2006), fazem parte da
memória discursiva que sustenta e legitima a memória histórica. É possível afirmar
que o discurso da cidade sobre Érico Verissimo o mantém como memória histórica,
trazendo-o para o fio do discurso como um sujeito imaginário, como uma
possibilidade imaginária de completude dos sujeitos marcados pela falta, e pela
falha.
108
Entendemos ser pertinente aqui reiterar que o sujeito desejante, nesse
discurso, é o sujeito denominado por Henry (1992) como eu-ideal. Aquele que
corresponde ao sujeito da enunciação. É a partir desses sujeitos, que falam das
instituições que se instaura o desejo de ser semelhante ou igual a. Esse desejo
surge diante de perdas enfrentadas pelos sujeitos-cidadãos, que buscam em Érico
Verissimo o que perderam. Nesse sentido, Érico representa aquilo que falta e
também o que falta no espaço urbano.
Destacamos, ainda, que o sujeito desejante é da ordem do mais inconsciente
e funciona no discurso de, como a dimensão não-linear do dizer. Trata-se da
memória estabilizada, que inscreve os dizeres e os saberes em uma rede
parafrástica, pela repetição, que institucionaliza o dizer. A seguir encaminhamos
para as materialidades não-verbais e abordamos as diferenças e aproximações com
os textos, cuja materialidade é o trabalho da língua na história.
3 MATERIALIDADES NÃO-VERBAIS: DIFERENÇAS E
APROXIMAÇÕES
Voltei a Cruz Alta para casar-me, apesar dos protestos dos amigos (“Casar,
poeta? Que idéia? Que idéia!”) e das amebas. Compareci à cerimônia
trajando calças à fantasia, jaquetão de mescla cor de grafite e sapatos de
verniz. A noiva estava radiosa... (p. 248)
3.1 Discurso e funcionamento do enunciado-imagem
O discurso de rememoração/comemoração não se constitui somente de
enunciados verbais, mas também de um mobiliário em torno do objeto de
rememoração/comemoração e de imagens, que chamamos aqui de enunciados-
imagem, face a seu funcionamento no discurso. Para trabalhar o enunciado-imagem,
buscamos sustentação teórica em Durand (2004), Eliade (1991) e Davallon (1993,
1999). Na perspectiva discursiva, ancoramo-nos em Pêcheux (1995), Henry (1992),
Orlandi (1995, 2001c, 2002) e Silveira (2004), assim como em textos de analistas do
discurso que têm promovido estudos que contemplam nuances imagéticas,
principalmente aqueles que enfocam o imaginário urbano, em textos veiculados pela
Revista Rua, entre os quais destacamos Souza (2001).
No discurso de rememoração/comemoração, como prática discursiva de
constituição de um imaginário urbano (de Cruz Alta) em torno de Érico Verissimo, há
enunciados-imagem que representam o escritor: a imagem da porta do Museu, a
casa em que ele nasceu (museu), sua assinatura junto às suas fotografias ou as
cores do museu. No intradiscurso, esses enunciados-imagem têm o efeito de sentido
de uma presença na ausência, pois retomam o mesmo referente (o escritor), que
não significa da mesma forma em cada ocorrência. Eles constituem
simultaneamente a enunciação e a materialidade do suporte e significam por sua
relação com a exterioridade, com a história.
110
Chamamos de mobiliário urbano o museu, os prédios com o nome de Érico
Verissimo, de suas obras e de seus personagens, a Praça Érico Verissimo, a placa
na entrada da cidade e as ruas que levam o seu nome ou de sua família. Eles dão
visibilidade a ele no espaço urbano. Concebemos o mobiliário como um dos
procedimentos de “fazer-crer”, que se conjugam com o “fazer-ver”, nos termos de De
Certeau (1994). Entendemos que esses procedimentos estruturam e constituem e
espaço da cidade
66
no que Orlandi (2004c) denomina de ordem e organização,
quando diferencia cidade e espaço urbano. Palavras de ordem mantêm Érico
Verissimo como memória a partir da relação dos enunciados-imagem com o dever
fazer e o poder fazer, que caracterizam os textos, os quais funcionam a partir de
enunciados que objetivo “fazer-ver” como “fazer” para rememorar e comemorar e,
essencialmente como constituir a memória que sustenta o discurso de
rememoração/comemoração.
Orlandi (2004c) reflete acerca das imagens sobredeterminadas pelo
componente verbal na análise do discurso urbano, no qual o verbal e o não-verbal
constituem o evento discursivo
67
. Nesse sentido, as imagens sem o componente
verbal perdem o significado, tornando-se imagem pura, que resulta na transparência,
no apagamento do sentido histórico e cultural, pois o lingüístico funciona como
marca do sujeito (posição) na materialidade imagética, contribuindo para o controle
dos sentidos. Nessa mesma direção, Davallon (1993) refere-se à relação entre o
não-verbal e a enunciação. Há que se considerar o lugar da materialidade, a
circulação da imagem, e a sua relação com o suporte a fim de interpretá-la. As
imagens representam o mundo exterior, o qual significa em relação a uma
interioridade, à memória. Nesse sentido, a materialidade e o suporte em que a
imagem circula são relevantes para a constituição do sentido. Os enunciados-
imagem constituem-se por redes parafrásticas e repetem o mesmo, mas rompem
com a linearidade do discurso, promovendo a ruptura e o estranhamento.
Isso se deve à tensão entre o mesmo e o diferente, entre a paráfrase e a
polissemia. Afirmamos na esteira de Souza (2001), que a imagem cumpre
primordialmente duas funções: uma como cenário e outra como linguagem. Como
cenário tem uma função ilustrativa. Na perspectiva discursiva, dizemos que é um
66
Cf análise realizada na terceira parte do nosso texto (cap. 1).
67
Aproximamos evento discursivo de texto, não como documento, mas como discurso, segundo
Orlandi (2004b).
111
processo de natureza parafrástica, em que algo se mantém pela repetição,
constituindo a memória discursiva que atualiza os dizeres. No entanto, a tradução de
uma imagem pelo verbal espaço ao silêncio e possibilita o não-dizer, que é
constitutivo do sentido e pode desencadear outros sentidos, constituindo o diferente,
o polissêmico.
Henry (1992, p. 173) ao se referir ao funcionamento da imagem em relação à
linguagem e ao simbólico, salienta que a imagem não tem sintaxe, mas uma
morfologia. Ela não se fragmenta em unidades sintáticas, mas supõe o verbal, o
simbólico. Pelo investimento do simbólico, o sentido pode constituir-se como o
mesmo ou como o diferente.
Como discurso, a imagem significa pelo interdiscurso, que segundo Courtine
(1982), num processo incessante de reconfiguração, organiza o saber de uma FD,
em função das posições ideológicas representadas por ela, em uma conjuntura
determinada. Nessa direção, incorpora os elementos do pré-construído que se
produzem no exterior do discurso e organizam a repetição por meio do retorno de
imagens (vistas como enunciados) e, provocam, eventualmente, apagamentos,
esquecimentos e, às vezes, a denegação. Nesse funcionamento, uma mesma
imagem, assim como os enunciados verbais, retorna em diferentes formulações,
fazendo migrar saberes de uma FD a outra, num movimento que determina os
saberes e os sentidos.
Nos textos que compõem o corpus desta tese, a imagem não tem função
meramente ilustrativa, de figura. Priorizamos seu enfoque como linguagem,
buscando na formulação, um possível discurso outro. Partimos da hipótese de que a
imagem, como materialidade, comporta um processo imaginário em que um sujeito
A projeta um sujeito B. A partir dessa projeção o dizer encaminha-se para
determinada direção e para sentidos outros, dependentes das condições de
produção do discurso.
A repetição constitutiva das redes parafrásticas, tanto nos enunciados-verbais
como nos enunciados-imagem, instauram regularidades e a manutenção do sentido.
A diferença entre um e outro está na organização das regularidades. Os saberes
mobilizados, tanto em um como em outro enunciado, remetem a uma estrutura
horizontal que corresponde ao intradiscurso, à linearização da memória. Nele, o
dizer encontra-se materializado pela forma que o enunciado tomou no discurso pela
linearização e sintagmatização.
112
A estrutura vertical interdiscurso sinaliza a existência anterior do
enunciado formulado na estrutura horizontal e sua inscrição, também anterior, a um
domínio do saber. De acordo com Pêcheux (2002), tanto em um eixo como em
outro, os saberes remetem à noção de estrutura, pela repetição que se instaura no
eixo da formulação, na simulação intradiscursiva de um evento de linguagem. Ainda
segundo Pêcheux, esse ponto de encontro entre memória e atualidade é o que se
chama ‘acontecimento’, momento em que o sentido desliza e instaura o novo. Desse
modo o enunciado-imagem possui uma estrutura interdiscursiva, que se inscreve no
intradiscurso pela repetição e instaura o efeito memória, que de acordo com
Indursky (2003) atualiza e ressignifica esses enunciados.
A mesma autora, ao se referir ao rompimento com a repetição, remete à
importância dada às imagens desacompanhadas de enunciados verbais, apontando
que é imperioso observá-las. Diante disso, afirmamos: as imagens quando
analisadas discursivamente relacionam-se a uma anterioridade e a uma
exterioridade comprometida com o sentido. Para Davallon (1999) as imagens, que
se repetem, funcionam como operadores de memória social. Estabelecem relação
entre uma FD e outra, entre um texto e outro, e entre um e outro discurso, ligando-se
a condições de produções de várias ordens. As imagens, assim como os
significantes verbais as palavras comportam sentidos atualizados pela memória
discursiva e pela relação do sujeito com a ideologia e com o inconsciente.
Funcionam, nesse sentido, os esquecimentos constitutivos do sujeito, como
referimos anteriormente.
Queremos, com isso, reiterar que o texto verbal e o não-verbal constituem-se,
tanto um, como o outro, como eventos discursivos, que significam em sua relação
com a história, não como dados, mas como historicidade
68
. A diferença existente
entre eles restringe-se ao eixo da formulação, especificamente à forma material. No
texto verbal, as palavras e os enunciados formam uma rede de significância para
compor o discurso e, no texto não-verbal, os enunciados-imagem exercem a mesma
função, significando pelo silêncio, que funda e constitui sentido
69
.
Isso significa que as duas materialidades discursivas linearizam-se no eixo da
formulação por enunciados e por proposições que vêm de outros lugares e
68
Cf. Orlandi 2004b).
69
Para aprofundar a noção de silêncio como movimento de sentidos remetemos a Orlandi (2002).
Nesse texto a autora destaca as várias formas de sentido do silêncio e o significado de cada um
destes modos de silenciar e significar.
113
inscrevem os sujeitos do discurso em FD’s heterogêneas e a outros domínios de
saber. Nessa perspectiva, o sentido sempre pode ser outro e uma das razões disso
é a posição ocupada pelos sujeitos enunciadores, os quais enunciam de diferentes
lugares e, conseqüentemente, identificam-se a FD’s abertas a saberes de outros
domínios, pelo atravessamento de discursos anteriores. Esse funcionamento
provoca rupturas, estranhamentos e novos acontecimentos discursivos.
Ocorre o mesmo quando se trata de um texto-não verbal constituído por
enunciados-imagem. O significante que o materializa não está representado por
signos verbais, mas por imagens, que afetadas por não-ditos, por silêncios, por
pertencimentos trazem para a atualidade sentidos já-dados pelo interdiscurso pelo
funcionamento do pré-construído como discurso transverso. Nem por isso, esses
sentidos são fechados a investimentos de outros discursos. Os enunciados-imagem
ao se inscreverem na atualidade, como eventos discursivos significam
diferentemente, pelo funcionamento da memória discursiva e pela inscrição em FD’s
heterogêneas, que as habitam. Os sentidos atualizam-se por procedimentos
mobilizados diferentemente em cada discurso.
O silêncio funciona nos textos verbais e não-verbais e isso significa que o
dizer e o não-dizer/não-mostrar relaciona-se à história e à ideologia. É justamente
pela historicidade inscrita no texto que se pode “olhar” o silêncio e ver nele a
ausência que significa. De acordo com Orlandi (2002c), há, então, um silêncio nas
palavras e nas imagens, um não-dizer que constitui o processo discursivo. Existe um
sentido no silêncio, que significa nele mesmo, não como complemento da
linguagem, mas como constituição de um evento discursivo. Desse modo, instaura
efeitos de sentido sempre distintos.
Nesse sentido, Orlandi (2002b, p. 23-24) distingue dois tipos de silêncio: o
silêncio fundador e a política do silêncio. O primeiro, é definido como aquele que
existe nas palavras e possibilita o recuo do significante e produz as condições para a
significação. O segundo, subdivide-se em dois funcionamentos, o silêncio
constitutivo, que sinaliza para o sentido do não-dizer e o segundo, o silêncio local,
que funciona como interdição, o que é proibido dizer em uma conjuntura dada. Ainda
segundo a mesma autora:
Isso nos faz compreender que estar no sentido com palavras e estar no
sentido em silêncio são modos absolutamente diferentes entre si e faz parte
da nossa forma de significar, do nosso relacionamento com o mundo, com
114
as coisas e com as pessoas. [...] Essa reflexão nos ensina também que,
embora seja preciso que já haja sentido para produzir sentido (falamos com
palavras que têm sentidos), estes não estão completamente
(ORLANDI, 2002b, p.24)
O silêncio, nessa perspectiva, constitui-se no lugar de memória, o qual tem a
função de recolher, transcrever e organizar os traços de identificação entre nomes
ou eventos rememorados/comemorados. Isso significa reforço à relação de
dependência a outros lugares que guardam esses traços. Disso, entendemos que o
que é dito a partir do museu, ressoa em outros lugares e também que o sujeito
porta-voz, cuja função é organizar e redistribuir a memória a partir do lugar que
ocupa, repete e visibilidade ao que constitui memória e faz sentido na formação
social, porque é constitutivo dela e dos sujeitos. A aparente intencionalidade é um
efeito de evidências decorrentes da ideologia e dos traços de identificação entre
sujeitos, que constitui a ilusão da memória estabilizada, sem os furos que instauram
o equívoco e a ruptura.
3.2 A constituição do sentido dos textos não-verbais
A verdade é que Clarissa e os quatro romances que se seguiram foram
escritos apenas em tardes de sábado (p. 254).
É da relação significante “versus” significação que se constitui o sentido dos
textos na perspectiva discursiva. O retorno de um mesmo enunciado-imagem
forma
uma nova cadeia significante e faz com que se instaure o equívoco
70
e a
possibilidade de outras significações, posto que o eixo da formulação intradiscurso
pressupõe e se constitui como saber discursivo, representado pelo eixo da
memória constitutiva interdiscursivo. Os enunciados-imagem são portadores de
uma memória social, mas o sentido não é dado a priori, ele se instaura, segundo
Orlandi (2002b, p. 13), a partir do processo simbólico, no qual inconsciente e
ideologia significam. As condições de produção relacionadas às posições-sujeito
daquele que diz “eu e aos sujeitos a quem se encaminha o dizer trabalham os
70
Pêcheux e Gadet (2004, p. 64) definem o equívoco dizendo que ele não se realiza apenas na
poesia, porque o que afeta e corrompe o princípio da univocidade na língua não é localizável nela.
Aparece exatamente como o ponto em que o impossível (lingüístico) vem aliar-se à contradição
(histórica); o ponto em que a língua atinge a história.
115
sentidos. O mesmo dizer e a mesma imagem podem instaurar sentidos
heterogêneos. Cada imagem, por funcionar como um elo entre a formação social e a
memória social, segundo Davallon (1999), retornam em novos textos e constituem
novas unidades de sentido, podendo constituir-se em novos acontecimentos
discursivos.
É também pela repetição que os enunciados-imagem, ao retornarem,
funcionam de forma análoga aos textos fundadores, que sustentam o dizer ou o ver
e, fazem funcionar outros espaços de memória, segundo Pêcheux (2002), apagando
sentidos (na ordem do ideológico). De acordo com Lacan (1986) na ordem do
inconsciente, sentidos são recalcados, mas podem retornar como atos falhos.
Aqueles que compõem o discurso de rememoração/comemoração, especialmente
os textos referentes ao centenário, têm como marcas a assinatura do escritor, a
máquina de escrever, a foto dele com uma caneta, compondo um sujeito imaginário
que atende aos desejos dos sujeitos urbanos de mostrarem-se como intelectuais ou
para referendarem o prestígio dos intelectuais na formação social. Esses desejos
são interpretados pelos valores caros à comunidade e que entram na ordem da
evidência pela relação do ideológico com o inconsciente. Os componentes
imagéticos porque repetem, constituem um discurso aparentemente saturado, que
lineariza o dizer e é constitutivo dos imaginários sociais.
É pela repetição, que essas imagens constituem Érico Verissimo no
imaginário social da cidade como um sujeito idealizado, que se aproxima do mito,
pois supera dificuldades pelo esfoo próprio, no caso do escritor, sem vincular-se a
partidos políticos. Nos outdoors e fotografias veiculadas no espaço urbano, o
enunciado-imagem visibilidade a um homem compenetrado, junto à máquina de
escrever ou com uma caneta na o, que se liga à cultura, ao saber erudito. O
sentido dos enunciados-imagem relacionam-se ao interdiscurso, enquanto memória
constitutiva dos sujeitos no espaço urbano.
Orlandi (1995, p. 41) retoma a questão do funcionamento das imagens a partir
do texto Discurso: Estrutura ou Acontecimento (2002), no qual Pêcheux analisa o
enunciado político On a gagné. Esse enunciado, apesar de não possuir a estrutura
enunciativa de uma manifestação ou de um comício político, significa para os
sujeitos que o entoam e para que os que o ouvem. O que lhe sentido é o ritmo
com que as palavras são cantadas (de uma torcida que repete a palavra ganhamos,
euforicamente) e das imagens que acompanham o dizer. Elia afirma que
116
Um gesto, uma expressão do rosto, uma dança, um desenho, tanto quanto
uma narrativa oral são produções simbólicas, regidas pelo significante, e
assim ditas verbais, por estarem na dependência do verbo significante. [...]
Como ser de linguagem, o sujeito humano se constitui no domínio do verbal
(ELIA, 2004, p. 21).
Com isso salientamos que mesmo o texto que se constitui apenas de
enunciados-imagem é igualmente sobredeterminado pelo verbal. É pela língua que
o sujeito formula o pensamento lógico relacionado à materialidade verbal. O que se
tem é que os significantes não existem se não puderem ser retomados pela língua,
por uma designação que as constitui. Mesmo as ações desprovidas de enunciados
verbais, como a dança e outros movimentos do corpo significam pela língua. A
importância dos enunciados-imagem em nosso texto se deve à relação do objeto
com o sujeito que elas representam.
Nesse sentido esses enunciados-imagem comportam a memória do objeto e
faz sentido na formação social, porque cada um deles comporta uma história, não no
sentido de cronologia, mas de historicidade, por uma memória que a significa. A
seguir, encaminhamos para o discurso urbano, onde enfocamos o contexto sócio-
histórico da cidade, que ancora e sustenta o discurso de
rememoração/comemoração.
4 O IMAGINÁRIO URBANO: CONDIÇÕES SÓCIO-HISTÓRICAS
Outra recordação de minha distante infância nada tem a ver com estórias de
assombração. Posso calcular a minha idade nesse tempo: três ou quatro
anos, quando muito, pois quando a cena se passou eu estava recostado
num dos degraus da porta da frente da Farmácia Brasileira, e esse degrau
teria a altura do meu umbigo (p. 61).
4.1 Imaginário urbano e discurso da cidade
Os estudos sobre a cidade passaram, ao longo dos tempos, por mudanças
significativas. Anteriormente, ela era vista apenas como um elemento de delimitação
espacial do objeto de estudo do historiador, era como um “palco da história”. As
transformações urbanas passaram a considerá-la objeto de estudo a partir do século
XIX, concebendo-a como questão e como memória, onde emergem as tensões
urbanas e, segundo Mattos (2002, p. 35), “sob a cidade descortinam-se, além da
cidade real, empírica, cidades análogas invisíveis, tecidos de memórias do passado,
de recolhidas ao longo da experiência humana”. A cidade é também documento e se
apresenta pela sua materialidade urbanística, que na ordem do discursivo, definimos
como grande texto a ser lido, decifrado.
Do ponto de vista discursivo, a cidade, segundo Orlandi (1999, p. 8), é um
espaço simbólico que tem sua materialidade e que produz sua significância. Ela
forma a um conjunto de gestos de interpretações específicos que constituem o
urbano, cujo discurso realiza-se no confronto entre o simbólico e o político. Nesse
sentido, subordina-se ao imaginário urbano. A origem dessa distinção está na
maneira como o urbanista fala da cidade a partir de categorias do urbanismo e, de
acordo com Orlandi (Ibid., p. 9), com isso “deixam de dizer a cidade em seu real, em
sua materialidade específica”. Nessa perspectiva, a autora (ibidem, p, 9) propõe
“flagrar esse real, por onde ele foge”, não se deixando então pegar pela fala do
urbano”. Em outro trabalho (2004c) Orlandi define a cidade como um acontecimento
social que se situa na modernidade e funciona como um espaço imaginário sem
exterioridade, ou seja, tudo que não é cidade, o não-urbano (campo), também é
significado por ela pela cidade.
118
Nessa perspectiva, podemos dizer que no imaginário urbano está o discurso
sobre a cidade e a própria materialidade dela. Para distinguir a cidade e o urbano,
Orlandi (1999, 2004c)
71
faz funcionar as noções de organização e ordem. O urbano
liga-se à organização do ponto de vista administrativo, diretivo e, ao imaginário,
como o arranjo das unidades. A ordem é do domínio do simbólico, ou seja, “a
relação com o real da história (a sistematização sujeito e a sua relação com o
equívoco), articulação necessária e contraditória entre estrutura e acontecimento”
(Orlandi, 2001b, p.13). O discurso urbano é então a organização da cidade em
discurso e o silenciamento do real desse espaço. O discurso urbano é,
[...] o discurso constituído a partir da sobreposição do conhecimento urbano
sobre a própria realidade da cidade. Nessa indistinção, aquilo que seria
realidade urbana é substituída pelas categorias do saber urbano, seja em sua
forma erudita (discurso do urbanista), seja no modo do senso comum em que
este discurso é incorporado pela política, pelo administrador, pela
“comunidade” convertendo sentidos no imaginário urbano. (ORLANDI, 2004a,
68)
A partir dessas reflexões, a autora pensa a constituição do discurso urbano e
as posições-sujeito do habitante da cidade e conclui que o mecanismo discursivo,
constitutivo desse discurso, é o das projeções imaginárias, ou de antecipação. Por
elas o sujeito coloca-se no lugar do outro e, desse lugar, “ouve” suas palavras,
antecipando-se ao sentido que elas produzem. Segundo Pêcheux (1997, 1997a) as
projeções imaginárias não ocorrem sem transformações, nem sem deslocamentos.
A passagem da posição de sujeito falante para a posição representada no discurso
pelo interlocutor decorre da reversibilidade do sujeito.
Nesse funcionamento, a cidade se constitui por um aglomerado de
instituições, que constituem “o seu tecido”, à medida que estas trabalham em torno
do que é legítimo e também do que não o é no espaço urbano, atuando como o
lugar da coerção. Há, segundo Orlandi (idem, p. 11) uma relação corporal entre o
corpo dos sujeitos e o corpo da cidade, de maneira que “formam um corpo,
estando o corpo do sujeito atado ao corpo da cidade, de tal modo que o destino de
um não se separa do outro”, de forma que um reclama o outro nas dimensões
histórica, material, social, cultural e econômica.
71
Essa distinção se faz também em outros textos, podemos destacar (2001b, 2003, 2004a)
119
Em relação à narratividade, a mesma autora afirma que ela realiza na
textualidade, por uma forma de narrativa em que o sentido advém da história e do
modo como a cidade é dita. Assim,
A cidade não tem um narrador, um seu contador de histórias (como o cego
nordestino, o violeiro, o velho indígena, etc). A narratividade urbana tem
vários pontos de materialização. Moventes. Fulgurações. Materialidade
dispersa. E é nas suas relações que podemos compreender esses seus
sentidos”. (Orlandi, idem, p. 31)
É pelo discurso que a cidade se significa e os sujeitos que a habitam
reafirmam o seu pertencimento ao espaço pelas filiações identitárias que os
inscrevem a redes de memória. A cidade, ainda segundo Orlandi (1999a), se define
como o espaço simbólico, cuja materialidade marca-se por formas específicas de
significar pela relação constitutiva
72
do espaço com a linguagem e com os
sujeitos/cidadãos que a habitam, num tempo determinado. É pelo discurso
aparentemente homogêneo e linear que a realidade imaginária da cidade liga o
espaço urbano aos sujeitos no movimento descontínuo da história e pela sua
relação com o real. Segundo Pêcheux (2002, p. 43), “há um real constitutivamente
estranho à univocidade lógica e um saber que não se transmite, não se ensina e
que, no entanto, existe produzindo efeitos. É este real sujeito à interpretação
resultante do cruzamento da língua com a história que é lido no grande texto a
cidade como o lugar onde são formulados discursos de sujeitos juridicamente
autorizados a dizer o que dizem e, também, em algumas situações a não-dizer.
Neste trabalho definimos, a cidade como um grande texto que se constitui e
se deixa constituir numa ordem que, de um lado é própria dela e, de outro, que se
caracteriza pela sua ligação com os cidadãos que a habitam e a constituem como
texto. O discurso, especialmente os de rememoração/comemoração advindos do
espaço urbano, apresentam-se, contraditoriamente, como um texto saturado no qual
tudo parece estar dito. Essa evidência é própria desse tipo de discurso, cuja
especificidade está em “fazer crer”, como dissemos anteriormente, na esteira de De
Certeau (1994). No entanto, apesar dessa aparente não-lacunaridade, a cidade
aparece como uma página a ser escrita, preenchida, lida/interpretada/compreendida
72
O termo relação constitutiva foi empregado por Rodrigues-Alcalá (2004, p. 65) em seu trabalho de
construção do glossário discursivo da cidade.
120
pelos sujeitos cidadãos, que vivem nela e pelos que a visitam. É pelos sujeitos que a
cidade se significa e que eles mesmos se significam.
Para habitar o espaço urbano e estar nele é necessário conhecer a sua
ordem. O espaço urbano e o sujeito mantêm uma relação de dependência: de um
lado, a cidade existe porque os sujeitos a constituem e, de outro, os sujeitos que
são por ela constituídos. A memória da cidade não se constitui a partir dos saberes
de um sujeito empírico e individual, mas dos saberes da formação social em sua
totalidade, de saberes constitutivos da memória social. É a partir dos sujeitos
urbanos ideologicamente constituídos e inconscientemente divididos, que o passado
retorna pelos enunciados fundadores - o com o mesmo sentido, mas
transformados a partir de recordações (memórias), e do conhecimento transformado
e deslocado pelo funcionamento discursivo (historicidade). Nessa perspectiva, o
espaço urbano e os cidadãos são inseparáveis: um não existe sem o outro.
4.2 Textualidades constitutivas do discurso urbano
Cruz Alta era um município agropastoril relativamente pobre, sem grandes
estâncias dignas de nota. O comércio local? Medíocre. Psicologicamente o
homem dessa região do Rio Grande do Sul se parece um pouco com o
mineiro na sua ausência a fanfarronice e teatralidade. Mas, diferente do
mineiro, é expansivo e sem desconfianças, embora de menor densidade
psicológica. (É bom ser ficcionista, pois se fosse sociólogo, etnólogo ou
qualquer outra coisa terminada em ólogo, não estaria fazendo tantas
afirmações levianas) (p. 188).
O imaginário da cidade constitui-se a partir da Mídia que trabalha o urbano
pela constituição de evidências e literalidade que simulam a transparência do
discurso. Nesse sentido, imobiliza os sujeitos, tirando-os do processo e colando-os à
realidade urbanística como representantes de situações sociais datadas e
temporalizadas. É possível, a partir disso, dizer que o processo de legitimação do
discurso urbano apaga, necessariamente, memórias e relações.
As diferentes textualidades que constituem o imaginário urbano significam no
discurso em relação à memória tomada na instância do interdiscurso, como
referimos. No espaço da rememoração, a história da cidade funciona como parte
121
das condições de produção do discurso urbano. No entanto, a memória que irrompe
no fio do discurso não se relaciona à história da cidade, como continuidade, mas à
historicidade, a outras memórias que ela evoca e às ideologias que afetam os
sujeitos urbanos. É a partir das posições do sujeito na FD da
rememoração/comemoração que se constitui Érico Verissimo como um sujeito
idealizado, como efeito, segundo Durand (2004), da emergência da formação social.
A constituição de um sujeito dessa ordem depende de uma necessidade e se
mantém pelas relações de identificação e ligações simbólicas entre o espaço urbano
e os sujeitos que constituem esse espaço. Nesse sentido, quem cria o mito é o povo
que nele o que lhe falta e o coloca como o objeto faltoso (objeto a e objeto do
desejo). De acordo com Silveira (2004), o povo cria o mito e as instituições o
tomam.tomamos esse funcionamento do mito como o de sujeito desejante, que
advém dos sujeitos-cidadãos. A forma de institucionalização se pelos
procedimentos de “fazer-crer” descritos nessa segunda parte, que o institucionaliza
pela repetição, fazendo-o circular.
A história do espaço urbano que nos interessa não se atém a nomes ou
datas, mas à historicidade dos fatos, que de acordo com Orlandi (2004b),
transformam-se em atos. Essa história inscreve o discurso em domínios de memória,
a partir dos quais o sentido desliza. Da história da cidade, destacamos em primeiro
lugar a sua origem relacionada a famílias e ao catolicismo. Em segundo lugar, o fato
de ter sido sempre “um burgo republicano” e por sustentar-se politicamente a partir
de nomes de famílias tradicionais. Em terceiro lugar, destacamos a influência do
governo Vargas nas pequenas cidades, especialmente daquela exercida por sua
propaganda positivista, centrada na ordem e no progresso, e, por extensão a
valorização do trabalho individual. Em quarto lugar, abordamos a influência do
governo de Juscelino Kubitschek de Oliveira e o seu programa de metas, que
desencadeou o progresso, mas também o aprofundamento das diferenças sociais.
Por ordem de importância, nos referimos às famílias na cidade e à
concentração de terras nas os de alguns proprietários rurais, o que favoreceu a
constituição e valorização das sagas familiares. Isso ocorreu a partir da concessão
de sesmarias, pelo governo federal, com a finalidade de povoar o lugar. O primeiro
beneficiado, na região de Cruz Alta, foi João José de Barros, tido como fundador da
cidade. Muitas famílias paulistas vieram para a região e até hoje o encontrados
vestígios dessa ocupação nas áreas vizinhas da fazenda do Umbu, atualmente área
122
do novo município de Boa Vista do Cadeado. A relação do espaço urbano com o
catolicismo pode ser destacada pela designação da cidade, que se deve a uma cruz
colocada no lugar mais alto do povoado pela primeira família que veio morar no
lugar.
É importante destacar a cidade e, na sua história o governo de Getúlio Vargas
e a campanha nacionalista, que colocava o trabalho individual como solução para
os problemas sócio-econômicos individuais e do país. O objetivo dessa campanha
era valorizar o espírito nacionalista e se filiava à ideologia positivista, seu lema era
“Ordem e Progresso”. Essa propaganda funcionou contraditoriamente, de um lado
fez progredir a cidade e promoveu o enriquecimento de alguns e, de outro, provocou
o empobrecimento de muitos. Outra característica desse governo foi o populismo,
movimento característico de governos que incentivam o assistencialismo, em
detrimento do desenvolvimento coletivo. O discurso da Era Vargas é relevante no
discurso da cidade porque, em muitos dos textos analisados, essa memória se
atravessa.
A construção da imagem de Getúlio como amigo dos trabalhadores ganhou
forma através de várias cerimônias e do emprego intenso dos meios de
comunicação. [...] O ministro do trabalho fazia palestra semanais e se dirigia
a grupos específicos: donas de casa, aposentados [...] construiu-se a força
simbólica de Getúlio Vargas (FAUSTO, 2002, p. 207).
A referência que fazemos a Getúlio Vargas se deve aos traços de
identificação entre ele e a cidade. Nesse período, a cidade experimentou um grande
desenvolvimento no âmbito cultural e econômico. Durante a década de 1940 e 1950
foi referência na região do Planalto Médio era chamada a Rainha do Planalto
Médio. Possuía, nesse período, dois jornais, três tipografias, sala de cinema, teatro
(que recebia companhias nacionais), cafés. Além da pecuária desenvolvida, na
cidade havia várias fábricas dentre as quais destacam-se: fábrica de fósforos, de
massas, de refrigerantes, de cerveja, de gelo, de anil, de torrefação de café,
frigorífico e moinhos.
A perda da hegemonia econômica e política pela cidade teve início com o
governo Kubitschek, que implementou o programa de reconstrução e melhoramento
de estradas e rodovias, a produção de energia elétrica, a construção de silos, a
melhoria da armazenagem de grãos, e abriu as fronteiras agrícolas para o mercado
externo. Além disso, este governo concedeu vantagens a grupos influentes nas
123
cidades, garantindo o sucesso das metas governamentais. Esses incentivos, por um
lado, trouxeram divisas para o país e para os municípios brasileiros e, por outro,
aumentaram os problemas sociais, dentre eles, o acréscimo da população urbana,
cuja conseqüência foi o recrudescimento da pobreza. O homem do campo,
principalmente, e o pequeno proprietário vieram para a cidade em busca de
emprego, mas pela falta de especialização, acabaram empobrecidos e sem trabalho.
Os dois governos, o de Getúlio Vargas e o de Juscelino Kubitschek de
Oliveira, trabalharam em prol do desenvolvimento, instaurando o otimismo, a
identificação imaginária entre o povo e a nação, entre o cidadão e sua cidade. Os
sentimentos nacionalistas encontram em Cruz Alta terreno fértil, principalmente
porque, tanto Vargas como Juscelino, esqueceram que o desenvolvimento não
atinge a todos, mas as conseqüências inflacionárias advindas dele, sim. As
conseqüências do otimismo nacional promovido pelos “cinqüenta anos em cinco”, de
Juscelino atingiram os pequenos centros urbanos como Cruz Alta, fazendo com que
perdessem espaços e poder entre as cidades do interior do Rio Grande do Sul.
Outro fator determinante para o empobrecimento da cidade foram os
problemas com a agricultura, ocasionados pelos financiamentos agrícolas, que
propiciaram o aumento da produção, especialmente do trigo e da soja. No entanto,
excluíram os pequenos produtores, que não puderam acompanhar o progresso.
Além disso, as culturas continuadas enfraqueceram as terras e diminuíram a
produção. Com isso, as cidades que viviam da agricultura, como Cruz Alta,
perderam espaço e o lugar de destaque entre as cidades da região. Essas perdas
fizeram com que os sujeitos da FD da rememoração/comemoração e, neste
contexto, os sujeitos-cidadãos da cidade buscassem um novo objeto de
identificação.
4.2.1 O Público e o Privado no discurso urbano
Antes de continuarmos nossa reflexão, faz-se necessário abordarmos a
constituição da sociedade brasileira e a influência dessa sociedade na escolha de
nomes e de eventos que constituem a rememoração/comemoração. Segundo
DaMatta (1997), no Brasil, coexiste uma dicotomia entre a Casa e a Rua, em que a
primeira desliza em seu funcionamento para a segunda, que legitima a coexistência
124
entre o público e o privado. Esse deslizamento é histórico na constituição social do
Brasil e também das origens das cidades brasileiras, as quais, em sua maioria,
surgiram a partir de aglomerações familiares.
Para DaMatta (idem), o sentido da oposição casa x rua tem aspectos
complexos e nem sempre estáticos. A casa é o lugar do privado, mas o público entra
nela. A rua tem funcionamento semelhante: tida como o lugar dos malandros e dos
“fora da lei” é, com freqüência, tomada pelas famílias, que fazem dela a extensão da
casa, quando as fecham para realizar festas familiares, fazendo deslizar o espaço
público para o privado, significando e funcionando ao modo da casa.
O mesmo autor destaca que a rua é o lugar dos malandros e dos meliantes, e
por isso, funciona como a casa destes, constituindo-se nesse funcionamento como o
lugar do privado. Os sujeitos, habitantes da casa, tomada socialmente em oposição
à rua, comportam-se diferentemente, uma vez que a primeira é o lugar da
individualização e a segunda, o lugar das contradições próprias desse espaço. Há,
na sociedade brasileira, “uma ideologia da casa e da família; contextos [...] onde se
pode mais utilizar a vertente vertical e hierarquizante de nossa constelação de
valores” (ibidem, p. 55). A estrutura da casa assemelha-se à da rua: possui um
interior e um exterior e, nesse funcionamento, o primeiro constitui-se das partes da
casa e o segundo, de corredores, pátios. Apesar da semelhança com a rua, a casa,
em seus aspectos exteriores, continua da ordem do privado. DaMatta acentua os
campos semânticos da casa e a relação com a família. Assim:
[...] a casa delimita um espaço calmo, dominado por um grupo social que, no
Brasil, é concebido como “natural”. Realmente, entre nós, a família é igual a
“sangue”, “carne” e tendências inatas que passam de geração a geração, pois
uma pessoa “puxa” e “sai” com a outra, isto é, como o seu pai, a sua mãe ou
avós. Trata-se de um discurso poderosamente implicado na natureza e na
premissa de que essa natureza independe das condições sociais. (ibidem, p.
56)
Com rua é o inverso. Ela é o lugar da permissividade.
O que nos interessa em relação ao discurso de rememoração/comemoração
quanto ao funcionamento da casa e da rua são as implicações desses espaços no
que diz respeito às famílias e ao prestígio delas na sociedade brasileira, bem como o
discurso que sustenta e ancora a cidadania nesses espaços. Refletimos acerca
disso a partir de DaMatta (1997), que sustenta que a sociedade brasileira é
relacional, isto, funciona a partir do privado, representado pela casa e a idéia de
125
comunidade pelas diferenças, pela heterogeneidade, feita de famílias. Neste
aspecto, a sociedade brasileira, além de heterogênea, é desigual, e inclusiva. Em
um funcionamento em que as instituições sociais submetem-se a dois tipos de
pressão: a universalista e a determinada pelas redes de relações.
A primeira relaciona-se às normas burocráticas e legais ligadas ao
funcionamento das instituições. Essas normas, no entanto, são aplicadas ao sujeito
ligado à rua, tomado como cidadão. A segunda é determinada pelas relações
pessoais e familiares e estão submetidas a uma rede que mobiliza e distribui os
benefícios sociais de forma desigual. Nesse funcionamento, o sujeito pertencente a
uma saga familiar não é apenas um cidadão: recebe tratamento diferenciado e
privilégios que não são responsáveis pelo sucesso, mas abrem caminhos e
possibilidades dadas pelo papel da amizade e das relações. Em outras palavras:
[...] uma forma de cidadania universalista, construída a partir dos papéis
modernos que se ligam à operação de uma burocracia e de um mercado; e
também outras formas de filiação à sociedade brasileira outras formas de
cidadania que se constroem em espaços tipicamente relacionais, dados a
partir do espaço da “casa”. (DaMatta, 1997, p. 86)
A seguir, destacamos os fatores que contribuíram para a constituição do seu
nome como um sujeito modelar, como a causa do desejo e também como objeto
dele. Essas reflexões são pertinentes
na
medida
em
que Érico Verissimo, pertenceu a
importante família
da
Cruz Alta e foi, nessa cidade, designado como
“o
filho
mais
ilustre
.
Isso fez com que retornasse à cidade em 1967.
Esse processo rememorativo
não foi
simples, nem ocorreu de um dia para o outro. A inauguração do museu representa a
sua culminância. A sobreposição da sua imagem à imagem da cidade foi lenta e por
que o dizer, definitiva. Pontuamos esses fatores, iniciando pela cidade e sua
memória, a qual significa pelo processo de discursivização de Érico Verissimo no
espaço urbano.
Enfocamos o discurso urbano em relação ao espaço comemorativo a
cidade de Cruz Alta as implicações sócio-históricas e o funcionamento da
sociedade a partir da casa e da rua, conforme DaMatta. No entanto, não reduzimos
nossas reflexões a suas duas determinações, as quais funcionam como as
condições de produção da rememoração/comemoração, mas não a esgotam.
Entendemos que nem todos os sujeitos pertencentes a famílias tradicionais e que
usufruem das redes de relações sociais alcançam o sucesso e se constituem objeto
126
de celebração. outros fatores determinantes para esse funcionamento. Um dos
deles é o desejo de ser semelhante ou igual a, conforme teorizamos nesse trabalho.
em relação a isso as emergências do espaço urbano e a constituição do sujeito
imaginário, constituído no espaço da cidade.
4.2.2 Cruz Alta e Érico Verissimo
[...] minha ansiedade aumentava ou então era desencadeada nas noites em
que eu ouvia o vento uivar lá fora. Sim, a voz do vento era um fator
desencadeador de ansiedade. Eu tratava de chamar-me à razão. Tudo
estava bem. Em breve apareceria o sol e a vida normal recomeçaria [...]
Num romance que eu iria escrever dali a quase trinta anos, uma
personagem dizia: “Noite de vento, noite dos mortos” (p. 145).
Os espaços urbanos, desenvolvidos ou não, dependem sempre de outras
esferas que os constituem e que funcionam como a FD, a qual se assujeitam. É por
isso que enfocamos aqui o contexto sócio-histórico e econômico brasileiro que
antecede o discurso de rememoração/comemoração que institui o escritor como um
sujeito celebrado e o constitui ao mesmo tempo, como objeto a e objeto do desejo,
em relação à FD da rememoração/comemoração e a relações entre a casa e a rua,
que determinam o funcionamento da sociedade brasileira pautada pelas redes de
relações sociais. Como destacamos anteriormente, a constituição da memória social
e da comemoração de nomes e eventos dependem também de outros fatores, que
colam o nome rememorado/comemorado ao espaço urbano.
Destacamos também, que a Mídia é um dos lugares constitutivos dessa
colagem, porque faz circular o discurso e, de certa forma, constrói um imaginário
urbano. Assim, o sujeito alvo e objeto do desejo atende às demandas do espaço
urbano e dos sujeitos que o constituem. Nesse sentido, destacamos alguns pontos
que poderiam desencadear o desejo de rememoração/comemoração da cidade em
torno de Érico Verissimo.
A primeira constatação é que a memória em torno do escritor se sustenta a
partir de lugares que atualizam a memória do dizer, e propiciam a filiação dos
sujeitos do discurso a redes de memória, memória discursiva e interdiscurso. Os
127
lugares a que nos referimos são o Museu, a Unicruz, o poder público e a dia que
lhe dão visibilidade.
Outro fator determinante, nesse processo, de identificação é o sucesso como
escritor e a repetição da cronologia relativa a sua trajetória como escritor. Duas
obras destacam-se e sustentam o discurso que se vincula ao Museu: a publicação
em 1932, de Clarissa
73
e a sua discursivização como sucesso de vendas. O Tempo
e o Vento representa mais de duzentos anos de história do Rio Grande do Sul e
narra a saga das famílias Terra e Cambará. É uma obra de mais de duas mil e
quinhentas páginas e compõe a trilogia formada por O Continente (dois volumes), O
Retrato (dois volumes) e O Arquipélago (três volumes). Essa obra consolidou
Érico Verissimo como um escritor de sucesso no Brasil, e lhe permitiu ser um dos
poucos escritores brasileiros a viver de direitos autorais.
Esse discurso valoriza o sujeito individual e o esforço pessoal em detrimento
do social. De um lado, assemelha-se ao discurso da “mão estendida” referido por
Courtine (1981), em que os governos mantêm-se no poder dando assistência aos
menos favorecidos, a partir de discursos inflamados, nos quais se colocam como
capazes de resolver todos os problemas do país. De outro lado, pauta-se nas
relações familiares, a partir da valorização da casa, que em nossa investigação, é a
casa da família, onde funciona o museu. O ponto de contato entre o discurso da
cidade sobre o escritor é a sua descrição como trabalhador, que venceu por esforço
individual.
As relações sociais de poder regem o pensamento social da cidade,
constituindo pela interpelação ideológica e inconsciente o sujeito imaginário que os
identifica. Nos discursos de rememoração/comemoração como prática discursiva de
constituição de um imaginário urbano – no caso de Cruz Alta sobre Érico Verissimo -
não fronteira entre o sujeito empírico e o sujeito imaginário, dissimulando, de
acordo com Pêcheux (1997, p. 162) pela transparência do sentido sua dependência
ao “todo complexo com dominante das formações discursivas”.
A cidade, ameaçada pelo esquecimento simbólico, constitui sua memória em
torno de Érico Verissimo e lhe visibilidade como um sujeito que tem existência
real, e que funciona, na ordem do imaginário, como uma força capaz de completar
73
O escritor teve uma vasta produção literária. Destacamos Clarissa por ser o primeiro livro de
sucesso e O Tempo e o Vento por ser considerada a obra de maior sucesso e também porque é por
esse romance que ele é designado em muitos dos textos do corpus desta tese.
128
os sujeitos/cidadãos marcados pela falta, pela falha e pela incompletude. É por esse
discurso que ele é tido como patrimônio cultural da cidade, como herança cultural
74
que as instituições, tais como a Universidade de Cruz Alta e a Secretaria de Cultura
do município querem deixar para o futuro. Como uma herança que não tem
fronteiras
75
e, que a cidade, juntamente com a universidade, quer dividir com todos.
Esse processo discursivo o constitui como sujeito imaginário, destacando-o entre os
sujeitos/cidadãos nascidos na cidade por ser possuidor de valores morais e cívicos
que o fazem admirado/idealizado.
O centro da remememoração/comemoração é o processo de identificação,
que coloca em uma mesma ordem o escritor e a cidade, como dois objetos a serem
lidos/interpretados/compreendidos um pelo outro. No entanto, a leitura desses dois
objetos discursivos cidade e Érico Verissimo mesmo a menos comprometida,
permite interpretar que a cidade e o escritor percorreram caminhos distintos e,
muitas vezes, em direções opostas. De um lado, ela (a cidade) passou da vida à
morte simbólica, evidenciada por seu destaque entre as cidades da região - a vida
e o ocaso, decorrente de problemas conjunturais, que afetaram também o Rio
Grande do Sul e o Brasil a morte simbólica. De outro lado, ele (Érico Verissimo)
passou da morte simbólica à vida. Após o fracasso tanto na ordem do privado
separação dos pais e perda da casa onde nasceu quanto na ordem pública
falência da farmácia Central experimentou o sucesso nas duas ordens: construiu
uma família sólida (dois filhos) e, apesar de mudar com freqüência de casa (de 1931
a 1937 mudaram-se cinco vezes), encontrou na casa da Rua Felipe de Oliveira, em
Porto Alegre, a casa perdida na juventude. Nessa casa, viveu até 1975, quando
faleceu. Nela, vive Luis Fernando Verissimo, com a família. Profissionalmente,
alcançou sucesso. Tudo isso, longe de Cruz Alta – a terra natal.
4.2.3 Constituição do sujeito imaginário
Chama a atenção no discurso de rememoração/comemoração o fato de que
nos tempos de pujança econômica e cultural, quando era chamada, nas décadas de
74
É como herança cultural a ser transmitida a todas as gerações que a Universidade de Cruz Alta o
denomina quando se apresenta à comunidade local como administradora desse patrimônio, em texto
referido, publicado nos jornais da cidade de Cruz Alta, dentre eles, o Diário Serrano, no dia 18 de
agosto de 2004, data de comemoração dos 183 anos de emancipação política da cidade.
75
Esse é outro enunciado do texto da Unicruz, divulgado, como foi destacado anteriormente, no
aniversário do município, em 2004.
129
50 a 70 de Rainha do Planalto Médio e de Capital do trigo, a cidade não se dizia
“terra de Érico Verissimo”, apesar de ele ser um escritor de sucesso e cidadão
polêmico pelas posições político-ideológicas assumidas e, também, pelas que
deixou de assumir. Nesse tempo, ele não era lembrado como filho desta terra e nem
como cidadão de todos os continentes.
A circulação desses dizeres capaz de inscrever Érico Verissimo e Cruz Alta
na ordem do discurso como sendo um mesmo objeto significante, tem início em
1969, quando a casa em que o escritor nasceu foi transformada em museu,
tornando visível à formação social o Érico Verissimo idealizado como escritor e pai
de família exemplar. Isso se pode depreender a partir do acervo, que prioriza objetos
pessoais e familiares
76
. Em 1986, o museu passou a ser Fundação
77
.
É a partir dos problemas coletivos, que Érico Verissimo ressurge altivo e
forte
78
, como um sujeito idealizado, semelhante ao mito, o qual segundo Durand
(2004, p. 86), “se cria por uma necessidade e se mantém pelas relações de
identificação e ligações simbólicas”. O Museu funciona como o lugar material que
guarda os objetos que representam o escritor e legitimam o discurso de
rememoração/comemoração da cidade em torno do Érico Verissimo, como sujeito da
ordem do imaginário com o qual os sujeitos que se filiam à FD da
rememoração/comemoração, reforçando os traços de identificação Érico
Verissimo/espaço urbano..
A representação dele, pela história que se conta, é a de um homem de
sucesso, capaz de superar dificuldades de todas as ordens, as quais, na maioria das
vezes, são as mesmas que os sujeitos-cidadãos da cidade também enfrentam. Por
esse processo de identificação, os sujeitos/cidadãos transferem para a cidade e para
si mesmos o sucesso de suas obras e de sua vida. São as obras e a história de vida
do escritor que impulsionam o discurso sobre e o constituem como vencedor, um
exemplo a ser seguido.
Nos textos que circulam na cidade, assemelha-se aos personagens de sua
obra. A diferença entre os personagens e ele está no fato de os primeiros
aproximarem-se mais dos sujeitos da cidade do que dele mesmo, enquanto sujeito
76
Cf. anexo 5, do DVD.
77
Lei Municipal no. 0367/86, de 13 de outubro de 1986 que cria a Fundação Érico Verissimo. No
Cartório de Registros de Imóveis de Cruz Alta, há o registro de compra e venda do imóvel efetivada
em 1984. Nesse mesmo documento consta a hipoteca e o tombamento do imóvel.
78
Para aprofundar o funcionamento do mito, especialmente, o do gaúcho, remetemos a Silveira
(2004).
130
imaginário. Segundo Eliade (2002, p. 125), “o mito garante ao homem que o que ele
se prepara para fazer já foi feito, e ajuda-o a eliminar as dúvidas que poderia
conceber quanto ao resultado de seu empreendimento. É o que ocorre em relação
ao Érico Verissimo que habita o discurso da cidade, que apesar de não ser um mito,
aproxima-se dele. O sentido veiculado pelos discursos em torno de seu nome e de
suas obras é dado como natural, conhecido pelos sujeitos da formação social,
porque se ancora nos valores que o constituem no espaço urbano.
Neste trabalho, entendemos que o escritor se constitui no eixo da formulação
como um sujeito imaginário, fruto do desejo dos sujeitos cidadãos do espaço urbano
de serem iguais ou semelhantes a, pelo efeito de espelhamento. Ele constitui-se
como uma memória histórica, que se movimenta e traz para a atualidade rupturas e
deslocamentos, próprios do discurso, enquanto “efeito de sentido entre locutores
(Orlandi, 2004b). Em relação ao sujeito idealizado, é importante que se diga que os
valores que o constituem vêm da FD da rememoração/comemoração, mas não
dela, mas do espaço urbano como um todo.
Como sujeito imaginário, Érico Veríssimo sustenta-se pela movimentação da
Mídia em torno dele. Há, em relação a ele, uma história não assumida por nenhum
sujeito autor. É conhecida por todos e pertence a um tempo que não é passado, mas
também não é presente, nem futuro. Podemos dizer, que é um tempo que engloba
todos os tempos e que o mantém como memória, apesar dos deslizamentos e das
rupturas próprias do discurso em movimento. Esse discurso advém das instituições e
que atendem à demanda da cidade e dos próprios sujeitos, que buscam constituir
laços de identificação com ele.
O sujeito-objeto da história que se conta na cidade é detentor de valores que
fazem com que seja admirado ao ponto de os sujeitos/cidadãos - seus conterrâneos
- terem orgulho de dizer que vivem ou moram “na terra de Érico Verissimo
79
. Os
valores destacados nos discursos da cidade são compatíveis com os da cidade,
marcadamente conservadora em relação aos aspectos sociais, religiosos e políticos.
Essa posição conservadora fez com que uma das qualidades mais importantes
desse Érico Verissimo imaginário constituído no e pelo discurso fosse o fato de ser
79
Cf. Prola Farias (2005).
131
trabalhador
80
, e ser dado à assistência social. Com esses enunciados o
administrador do museu, Edemar Vieira, apresenta-o aos visitantes.
que se destacar também, a origem da família e a trajetória dessa família
na cidade. De acordo com DaMatta, a sociedade brasileira é relacional, e por isso, a
história da família é relevante para que um sujeito seja admirado e prestigiado. A
família Verissimo é parte da história da cidade, que foi o ponto de encontro dos
dois troncos, cujos ramos se uniram e, numa sucessão de enxertos e cruzas,
tornaram possível o desabrochar desse espécime humano (...)” Solo de Clarineta I
(1995, p. 1). Essa é uma condição importante para que ele seja digno de ser filho
desta terra, o maior bem cultural. Some-se a isso o fato de ele, apesar de perder os
bens, e até a própria casa e de tornar-se parte dos grupos minoritários, ter
conseguido reerguer-se por esforço próprio, levando o nome da cidade para além de
suas fronteiras.
4.2.4 Discurso de rememoração/comemoração no espaço urbano
Do que foi afirmado anteriormente, pode-se compreender que o discurso de
rememoração/comemoração da cidade em torno do escritor divide-se em dois
momentos bem determinados: o primeiro, que investe no mobiliário social, que se
constitui pela idéia de deixar vestígios num tempo linear, pelo procedimento que De
Certeau (1994) chama de “fazer-ver”, ou seja, mostrar mais do que dizer. Os
exemplos ilustrativos desse funcionamento são dados pelas placas em todas as
entradas da cidade que limitam seu espaço como Terra de Érico Verissimo, pela
criação do Museu, pela renomeação da praça e pela construção de vários prédios
com seu nome, o de seus personagens, assim como de suas obras.
Essas visibilidades legitimam a cidade como “a terra de Érico Verissimo” e
contribuem para o efeito de saturação dessa memória, constituindo evidências de
homogeneidade destacadas nos procedimentos de “fazer-crer”. Discursivamente,
esses vestígios sustentam o efeito de pertencimento do escritor à cidade e conferem
ao discurso que emana dela e das instituições que a constituem, valor de verdade.
Os objetos culturais que estão no museu são da ordem do simbólico e funcionam
80
A palavra “trabalhador”, nessa perspectiva, remete ao discurso populista de Getúlio Vargas, cuja
propaganda valorizou aqueles que vencem por esforço próprio, como referimos nas relações sócio-
históricas de constituição do espaço urbano.
132
como a figuração do sujeito rememorado/comemorado, fazendo dele “uma presença
na ausência” (Courtine, 1999).
A casa da família Veríssimo
81
, em Cruz Alta, tem destaque especial entre o
mobiliário que o presentifica na cidade. Isso ocorre porque, simbólica e
discursivamente, ela funciona como uma prova material de que o escritor viveu na
cidade, constituindo um argumento de autoridade que encaminha o dizer para um
determinado sentido. Além disso, ele fez rias referências a essa casa, em sua
obra de memórias, Solo de Clarineta I, publicado postumamente. Nela, descreve a
casa de sua infância, destacando os momentos mais felizes e também os mais
tristes. Em 2005, o Centro Cultural Érico Verissimo, mantido pela Companhia de
Energia Elétrica do Estado (CEEE)
82
, levou para as principais cidades do Rio
Grande do Sul uma Mostra Itinerante sobre o escritor. Um dos destaques dessa
mostra foram as suas casas. A casa de Cruz Alta é discursivizada como A casa
perdida e depois A Casa Reencontrada, enquanto a casa de Porto Alegre, na qual a
família do escritor vive, é chamada de A Casa Conquistada.
O segundo momento é aquele em que as instituições passam a dar
visibilidade aos discursos de rememoração, que sustentam o discurso de
comemoração e o inscrevem na história da cidade por um processo metafórico, de
transferência de traços, que o caracterizam para a cidade, como se ele e espaço
urbano estivessem em uma mesma ordem social e histórica, constituídos
similarmente. Por esse movimento, os dois objetos inscrevem-se no interdiscurso
como semelhantes. Esses dois momentos acontecem simultaneamente, e atendem
à demanda da cidade em apagar o passado recente para reencontrar o antigo, o que
se realiza pela identificação Érico Verissimo-Cruz Alta. Segundo Augé (1998), esse
reencontro com o antigo tem a ver com a memória, e se liga à recordação que é a
“impressão” que permanece na memória, o efeito que os objetos exteriores
provocam nos órgãos do sentido. Isso significa a necessidade de esquecer para
lembrar e que o esquecimento é a conseqüência natural da recordação, que na
81
Há várias placas referentes à casa em que ele nasceu. Destacamos a que diz: “Nesta casa, nasceu
a 17 de dezembro de 1905, Érico Verissimo, o que antes da maturidade é conhecido e estimado em
toda a extensão do país como na sua terra natal que dele se orgulha”. (Cf. anexo 2 e 3, do DVD,
encartado nesse trabalho).
82
O Centro de Referência Érico Verissimo esem Porto Alegre. No ano do seu centenário, 2005,
neste centro foram expostas obras e fotos do escritor. Diversas atividades artísticas em homenagem
ao escritor realizaram-se no local. A mostra a que nos referimos anteriormente destacou as casas em
que ele viveu e percorreu as principais cidades do Rio Grande do Sul.
133
ordem do discurso se liga a uma anterioridade e a uma exterioridade e instaura a
rememoração.
O discurso que circula na cidade é institucional, e os sujeitos enunciadores
responsáveis por ele ocupam determinadas posições em relação à forma-sujeito e
vêem o objeto do discurso a partir dessas posições, de onde o constituem e são por
ele constituídos. Isso significa que em cada formação social os pontos de vista
resultam não de sujeitos individualmente constituídos, mas da posição-sujeito
ocupada por aquele que é responsável pelo dizer, pois o lugar de onde o sujeito fala
é constitutivo do seu dizer, segundo Pêcheux (1997a).
Para realizar esta aproximação, ancoramo-nos em Lacan, referido por
Althusser quando aborda os processos de identificação do sujeito à FD. Pode-se
dizer que o sentido em um discurso ocorre
[...] na relação do imaginário e do real, e na constituição do mundo tal como
ele é resulta disso, tudo depende da situação do sujeito. E a situação do
sujeito [...] é essencialmente caracterizada pelo seu lugar no mundo
simbólico, ou, em outros termos, no mundo da palavra (LACAN, 1986, p. 97).
A rememoração/comemoração de Érico Verissimo como sujeito imaginário
constitui-se a partir de duas ordens: uma do inconsciente e outra social e ideológica.
A primeira ocorre pelo desejo dos sujeitos de serem iguais ou semelhantes a, como
refere Lacan na citação anterior. A segunda referenda a interpelação do sujeito pela
ideologia, nos termos de Pêcheux (1997a). Em outras palavras, o Érico Verissimo
simbolizado pelo discurso não coincide com o sujeito que se inscreve pelo simbólico
no discurso e na realidade, como possibilidade imaginária do real. A imagem
presentificada pelo mobiliário social e pelo discurso de rememoração/comemoração
atende à demanda da cidade e ao desejo do sujeito urbano.
Para Lacan (1998), demanda é a necessidade que caracteriza o sujeito, mas
ela não é experimentada diretamente por ele. É sempre mediada pela linguagem,
que segundo Elia (2004, p. 46), modifica, pulveriza, fragmenta essa necessidade. A
demanda pode ser vista como sugestão e como transferência. Esses dois níveis
permanecem separados pelo desejo, que faz com que o sujeito resista à sugestão.
Interpretamos assim, porque pelo discurso, o nome do escritor e sua memória
associam-se imaginariamente ao sucesso. Os argumentos que encaminham para a
134
constituição dessa imagem deslocam a ordem dos acontecimentos, dando
visibilidade a determinados fatos e apagando outros.
O discurso de rememoração/comemoração da cidade de Cruz Alta em torno
de Érico Verissimo exige que o olhar do analista esteja atento ao que é comemorado
nesta formação social e que regularidades discursivas constituem, no eixo da
formulação, o sujeito imaginário e os efeitos de sentido dele no discurso urbano. É
possível que o Érico Verissimo e a Cruz Alta, “terra de Érico Verissimo”, não
signifiquem da mesma forma o tempo todo, não estejam no mesmo domínio
discursivo e nem sejam o mesmo objeto. Inicialmente, o escritor era retomado como
aquele que muito fez pela cidade (decreto de mudança do nome da praça).
No ano de sua morte, as manchetes dos jornais da cidade e de Porto Alegre
sinalizam para a relação de identificação existente entre ele e a cidade. É como se
houvesse dois objetos discursivos e um pudesse ser lido/compreendido/interpretado
pelo outro. Nos textos publicitários da Agência NPC, o escritor funciona como
argumento de autoridade para vender produtos e, em 2003 e 2004, como filho
ilustre, nosso maior bem cultural, como herança, como história (e outras
designações). Em 2006, apareceram outros textos. Neles, ele continua sendo visto
como história, como uma memória colada à memória da cidade, mas os sentidos
são outros e os sujeitos/cidadãos buscam incluir-se nessa memória. É importante
observar que esses discursos apagam o Érico Verissimo comerciante.
Pelo discurso, Cruz Alta faz mais do que dizer que é a Terra de Érico
Verissimo, pois mostra de várias formas aquilo que visibiliza pelo discurso,
materializando no espaço público as marcas do seu pertencimento à cidade pelos
lugares de memória, que organizam os discursos de e os discursos sobre no espaço
urbano. As placas (cf. fig. 4, p. 149), colocadas em todas as entradas da cidade,
marcam os limites entre o que Cruz Alta é, e as demais cidades não são: a terra
natal de Érico Verissimo. O enunciado visibilizado nelas tem o efeito de sentido de
uma promessa, que a cidade faz de constituir-se como um espaço de memória, de
rememoração e comemoração.
A promessa imaginária realiza-se pela simulação de um acordo simbólico
entre os sujeitos que chegam à cidade e os cidadãos cruz-altenses. Os primeiros
buscam, nesse espaço, vestígios da passagem do escritor referência no cenário
literário brasileiro - e, os segundos, apresentam-no como anfitrião do maior bem
cultural que a cidade possui. O desejo da cidade de ligar-se ao nome de Érico
135
Verissimo e de ser reconhecida para dentro e para fora de seus limites como
portadora das mesmas qualidades que ele, materializa-se, na ordem do imaginário,
por meio de placas, de prédios, do museu, de nomes de rua e das referências a ele
nos discursos advindos do espaço urbano a partir de diferentes materialidades (de
textos publicitários, de outdoors, de projetos de lei, de propaganda eleitoral, enfim,
de várias modalidades discursivas).
O discurso de rememoração/comemoração resulta de um contrato imaginário
celebrado pelas instituições entre os cidadãos de uma formação social, no caso a
cidade de Cruz Alta, e as pessoas que chegam à cidade. Tomamos o sentido de
contrato de Pêcheux (1997a, p. 154), que o define como a relação entre os sujeitos
sociais e o sujeito ideológico, cuja identificação permite que o sujeito, ao falar de si,
diga “sou eu”. Nesse sentido, a cidade cumpre a sua parte no contrato. Coloca em
todos os limites que a separam das outras cidades (Santa Maria, Ijuí, etc.) placas
que informam que é a Terra de Érico Verissimo e, também, placas indicativas da
localização do museu.
Essas placas são efeitos de evidência, de que na cidade, poderão ser
encontrados vestígios da vida do escritor e documentos sobre ele (talvez
lembranças para levar). O Museu funciona na casa em que ele nasceu e, por mais
que seja discutida a qualidade do seu acervo, essa casa é um espaço de memória,
talvez de ordem mais privada do que pública, mas de qualquer forma um lugar de
memória que se constrói sob a égide de objetos culturais, que re-presentam o
imaginário social histórico. Segundo Durand (2004, p. 41), “... o imaginário constitui o
conector obrigatório pelo qual forma-se qualquer representação humana”.
O acervo do museu, constituído por objetos culturais de ordem mais privada
do que pública, é deve-se à relação de identidade entre Érico Verissimo e o espaço
urbano, no qual ele é discursivizado como filho ilustre, maior bem cultural, herança a
ser dividida com todos, que encaminham para o campo semântico da família, da
relação que se estabelece sem que a pessoa queira ou opte por ela. Assim, os
objetos culturais representados por objetos de uso pessoal, tais como, álbuns de
família, desenhos, depoimentos, boné, etc. o aproximam do lugar, tornando-o “da
família”. Essas relações minimizam as dificuldades enfrentadas, pois é quase um
consenso que na família “quase tudo pode”. Outra razão a ser apontada é que, é
que nas cidades do interior, as relações de ordem privada são valorizadas.
136
Os documentos e objetos que circulam no museu e constituem o seu acervo
representam, na ordem do simbólico, Érico Verissimo em Cruz Alta, legitimando o
processo identitário que a cidade esforça-se por manter visível. Os documentos,
fotos e objetos pessoais que estão, são consideradas relíquias, por guardarem,
segundo Davallon (1999), relação mediata ou imediata com uma pessoa digna de
adoração ou de veneração, quer pelas realizações na formação social ou por aquilo
que representa para os sujeitos/cidadãos que nela vivem. Neste trabalho, esses
documentos funcionam como arquivo, nos termos de Pêcheux (1997b, p. 57) “amplo
campo de documentos pertinentes e disponíveis sobre uma questão”. Apesar de o
arquivo constituir uma memória aparentemente estabilizada, os textos que o
constituem encaminham para discursos de domínios heterogêneos e para leituras
também heterogêneas. Segundo Orlandi (2004b, p. 9), “os sentidos não se fecham,
não são evidentes, embora pareçam ser. Além disso, eles jogam com a ausência,
com os sentidos do não-sentido”.
Pelo movimento rememorativo e pelos ritos comemorativos em torno de Érico
Verissimo no ano do centenário do seu nascimento, os traços de identificação entre
o escritor e a cidade se fortaleceram. Isso ocorre pela visibilidade dada aos espaços
urbanos que o presentificam, como por exemplo, a praça que leva o seu nome, a
casa em que nasceu, a avenida por onde passeava com os amigos, nomes de ruas
e prédios que levam o seu nome, bem como os de seus personagens e de sua obra.
Os rituais de comemoração ficaram sob a responsabilidade da Unicruz - oficialmente
a porta-voz segundo Corten (1999, p. 42), consiste na apropriação pelo locutor da
universalidade do saber e da verdade daquilo que fala - do município em relação às
comemorações no Estado. Os eventos e o discurso decorrentes desses rituais
revitalizaram os discursos em torno do escritor, tornando mais forte e palpável a
possibilidade de a cidade transformar a memória de Érico Verissimo em história -
memória estabilizada, inscrita na ordem da ciência, investida de um aparente valor
de verdade. Assim, ele e Cruz Alta poderiam inscrever–se na instância do imaginário
como dois objetos empíricos que significam um pelo outro
83
.
As evidências materiais e discursivas contribuem sobremaneira para acentuar
a ilusão de que o sujeito é a fonte do dizer, e de que o dizer está pré-determinado,
construído a priori, encaminhando para o mesmo, para o repetível, sem deslizes de
83
Outros efeitos de sentido resultantes do discurso de rememoração/comemoração são explicitados
na terceira parte, quando analisamos os textos representativos desse discurso.
137
sentido. Os efeitos de saturação relacionam-se ao que é visibilizado no espaço
urbano, como aquilo que todo mundo vê. As placas, o mobiliário social (prédios,
ruas, etc.) e o museu, são exemplos dessas visibilidades. É a partir delas que se
sustentam narratividades constituídas pela simulação de uma realidade, a partir do
“como se”, desconsiderando o fato de que o sentido não advém apenas da
materialidade, mas do já-dito e significado antes em outro lugar, mas também da
inscrição do sujeito a FD´s. Diante disso, buscamos pensar as evidências da ordem
da língua e da história, que dão visibilidade à memória por meio de textos, que
funcionam como uma dispersão de discursos, que pela repetição, reiteram
determinados sentidos e apagam outros.
4. 3 Discurso linear e memória saturada
84
As materialidades descritas anteriormente e que constituem o discurso de
rememoração/comemoração sinalizam que os textos constituem-se na ordem do
imaginário como uma unidade fechada, que se ancora na simulação de realidades e
resulta no que chamamos, na esteira de Courtine (1999), de saturação da memória.
O ponto nodal dessas evidências é a constituição de uma memória saturada, e a
transformação do escritor em patrimônio da cidade pela identificação à FD da
rememoração/comemoração. Essa evidência ancora-se na aparente linearidade do
discurso e na ilusão do sujeito como fonte do sentido. A aparente intencionalidade
do sujeito no que se refere à constituição do discurso da cidade resulta do trabalho
da ideologia.
O efeito de saturação proveniente de evidências funciona a partir de duas
possibilidades: de um lado, por meio do mascaramento para o sujeito da
dependência à FD, pelo funcionamento da qual, segundo cheux (1997a, p. 160),
“o sentido de uma palavra, de uma expressão ou proposição não existe fora da
realidade significante” e a sua filiação a uma rede de memória. De outro lado, pela
negação da interpretação relacionada à exterioridade, à historicidade, enfim ao
interdiscurso, como memória do saber. Assim, podemos referir à fragilidade das
84
A saturação da memória é uma das formas de “fazer crer”.
138
evidências de completude, as quais não resistem a uma reflexão centrada no sujeito
afetado duplamente pelo social ideologia pelo inconsciente resultante dos dois
esquecimentos constitutivos do sujeito: o da ordem do ideológico (inconsciente) e o
da ordem da enunciação (semi-consciente).
Com isso, podemos dizer que os efeitos de evidência e de unidade desse
discurso aparentemente não-lacunar são produzidos pela ideologia, e se sustentam,
segundo Courtine (1982, p. 249), pelo interdiscurso, pensado como um processo de
reconfiguração incessante, no qual o saber de uma FD, em uma conjuntura
determinada, incorpora os elementos pré-construídos, produzidos no interior dessa
mesma FD. É esse processo que organiza a repetição e provoca não o efeito de
saturação, mas também apagamentos, esquecimentos e rupturas. Orlandi (2004b)
relaciona a repetição e o efeito de saturação à institucionalização dos sentidos
admitidos como “naturais”.
Essa naturalização dos sentidos decorre do encaminhamento do dizer em
uma direção, simulando conteúdos que dotam o discurso de transparência e o
diferenciam da história e do fazer discursivo. Essa naturalização é conseqüência,
especialmente no que tange ao discurso em torno de Érico Verissimo das
características do discurso doutrinário. Nesses discursos, as referências a ele
respondem a uma questão que não está colocada, não eslinearizada no fio do
discurso, mas é do domínio público, quando ele é identificado como um grande
escritor, nosso maior bem cultural, cidadão de todos os continentes e assim por
diante. A questão é: quem é Érico Verissimo? A estrutura das orações que o
designam é: nome + verbo ser, ou seja, Érico Verissimo é... Trata-se de um dos
mecanismos característicos dos enunciados definitórios constitutivos da modalidade
doutrinária dos discursos, que funciona como uma forma de repetir o
institucionalizado. Nesse discurso, não reversibilidade pela ausência da palavra
do interlocutor.
O mesmo ocorre em relação à cidade: o discurso aparentemente saturado
que advém dela, especialmente o que aparece na placa (cf. figura 4) que identifica a
cidade, constitui-se de enunciados definitórios, completando a oração : Cruz Alta é...
O complemento é um só: terra de Érico Verissimo... Além dos enunciados
definitórios, as citações, as palavras de ordem, os slogans e orações que dizem o
que se pode dizer e se deve fazer para preservar cem anos de história e para
139
lembrar Érico Veríssimo, constituem no fio do discurso os mecanismos lingüísticos
que materializam o dizer.
O discurso de rememoração/comemoração de Cruz Alta em torno de Érico
Verissimo mantém-se pelos efeitos de evidência, que constroem uma unanimidade
imaginária, e sustentam-se, pelo discurso de rememoração e pela mobilização de
estratégias de “fazer-memória”
85
, que desencadeiam a recordação da vida em
comum na formação social. Isso ocorre quando esses sujeitos são envolvidos e se
envolvem no processo de comemoração. Davallon, Dujardin e Sabatier abordam na
obra Commemorer la Revolution: politique de mémoire (1993) a comemoração
do Bicentenário da Revolução Francesa, tratando-a como um acontecimento de
celebração do passado e como atualidade, porque traz para o presente da época
não apenas os sentidos pretendidos pelos organizadores dos rituais de
comemoração da revolução, mas também os sentidos apagados ou contraditórios,
que colocam em choque os valores institucionais comemorados.
Segundo Nora (1992), o ano da comemoração dos duzentos anos da
Revolução na França coincide com a comemoração dos três mil anos da coroação
da dinastia capetiana
86
. Essas duas comemorações colocam em choque duas
ordens políticas distintas. Isso mostra que as comemorações, mesmo as voluntárias
e organizadas pelo Estado, são difíceis de serem controladas. Elas trazem para o fio
do discurso acontecimentos que a formação social prefere esquecer, porque se trata
de memórias subterrâneas.
Em relação às materialidades constitutivas do discurso de
rememoração/comemoração em torno do Érico Verissimo, que povoa o imaginário
dos sujeitos da cidade, o equívoco instaura-se quando ele e Cruz Alta dois objetos
empíricos situados em ordens discursivas distintas são discursivizados pelas
instituições como se um pudesse ser tomado lido/interpretado/compreendido pelo
outro como um mesmo objeto empírico. Isso decorre da inscrição no eixo da
verticalidade interdiscurso de uma memória que fala antes em outro lugar e os
inscreve no eixo da horizontalidade intradiscurso - como objetos discursivos que
se aproximam, tocam-se e se fundem em um mesmo objeto. A seguir,
compusemos um esquema analítico:
85
Cf. Davallon (1993a).
86
Davallon (1993) refere à Dinastia Capetiana para mostrar a impossibilidade de “gerenciar” as
memórias que retornam na comemoração. No ano em que era comemorado o Bicentenário da
Revolução Francesa, era também comemorado o aniversário de entronização do Rei Hugo Capeto.
140
141
5 PROCEDIMENTOS METODOLÓGICOS
Da grande biblioteca francesa de meu pai pouco ou nada restava. E por
falar em Sebastião Verissimo, eu passava dias, semanas sem vê-lo. Mas
acho que vale a pena contar uma estória em que ele foi a figura central e
que se desenrolou naquele tempo... (p. 202).
5.1 Marcando posições
Em nossa investigação, tomamos a rememoração como o discurso de e a
comemoração como o discurso sobre. Essas duas noções funcionam juntas no fio
do discurso. A primeira funciona como memória, que legitima e sustenta a segunda,
que tomamos como a atualidade que se materializa como discurso sobre pelo
caráter doutrinário que a constitui. A noção de memória discursiva tomada de
Pêcheux (1997a; 2002) abarca essas duas noções na perspectiva discursiva, isto é,
legitima aquilo que, por funcionar como pré-construído, é da ordem do já-dado, já-
significado.
A noção rememoração recobre dois funcionamentos: o da memória e do
discurso fundante. No primeiro, ela constitui os pré-construídos, na dimensão não-
linear do dizer, o lugar do já-dito, da ordem do inconsciente. É o lugar da
estabilização. Sustenta os textos que circulam no espaço urbano, no qual um
discurso se atravessa pelo efeito do discurso transverso e pelo funcionamento
sintático da articulação. Relaciona-se ao lugar de memória, que recorta, delimita e
organiza a memória. O segundo funcionamento relaciona-se a discursos que
retornam e sustentam o dizer por um já-dito verificável, mas que nem sempre
materializa-se no fio do discurso. Nesse segundo sentido, a obra de Érico Verissimo
tem valor de discurso fundante, especialmente o texto autobiográfico, em que a
cidade de Cruz Alta o lugar da rememoração/comemoração - é referenciada como
a Terra de. A Trilogia O Tempo e o Vento funciona nesse mesmo sentido.
142
O lugar de memória, deslocado para a análise discursiva, é tomado como o
lugar em que os saberes da FD dominante a da rememoração/comemoração
organizam-se e circulam. Nessa perspectiva, outras FD’s irrompem e se repetem
nela, de acordo com cheux (1997c), sob a forma de pré-construídos, pelo efeito
do discurso transverso. Entendemos que a própria rememoração/comemoração é o
lugar de memória, nesse discurso.
Marcados territórios e posições, delineamos os caminhos a serem trilhados na
realização das análises dos recortes efetivados. Faremos isso a partir do arcabouço
teórico descrito em nosso texto, que nos autoriza a olhar o nosso objeto de um
determinado lugar. Nesse sentido, destacamos que a perspectiva discursiva de
análise vê o seu objeto a partir de outros domínios do saber, sem que isso signifique
falta de unidade ou de rigor metodológico. O objeto de análise é o discurso em
relação ao sujeito, cuja constituição ocorre na alteridade, pela visão que tem do
outro e de si mesmo. Define-se pelas projeções imaginárias pelas quais, segundo
Pêcheux (1997b, p. 82), os sujeitos pensam do “lugar de onde A e B se atribuem
cada um a si e ao outro, a imagem que eles se fazem de seu próprio lugar e do lugar
do outro”. Isso significa que os discursos, em sua formulação, consideram o
funcionamento do sujeito, no efeito de autoria – controle político do dizer - e no efeito
leitor – como espaços de representação.
Nos recortes do nosso corpus, as imagens designam Érico Verissimo e
funcionam juntamente com os enunciados verbais, slogans e palavras de ordem
próprias desses discursos. O slogan, nesse funcionamento, aproxima-se do
provérbio. Trata-se de uma asserção curta, que significa pelo efeito de memória e
relaciona dizeres. Alguns slogans ancoram-se na situação de enunciação para
significarem. As palavras de ordem têm um funcionamento similar. A repetição de
imagem ocorre em vários textos e o designa a partir das memórias que ela
relaciona, a qual atualiza a memória discursiva. A imagem da sua assinatura é,
nesses textos, uma designação e constitui um argumento de autoridade, pelo valor
de verdade.
A legitimidade desse valor de verdade tem relação com a cultura, com aquilo
que De Certeau (1995, p. 43) chama de “o imaginário do ver”. O escritor é
designado por cores e logomarcas que relacionam diferentes domínios discursivos
por laços identitários materializados pelos enunciados-imagem tomados por
143
representações imaginárias ligadas à imagem propriamente dita, aos vestígios e às
semelhanças, como referimos na delimitação do tema.
A rememoração/comemoração ocorre no intradiscurso, no eixo sintagmático,
da ordem das relações, no lugar em que os elementos entram em relação
metonímica com outros, de acordo com Pêcheux (2002), pelo encontro de uma
memória e de uma atualidade. As duas noções juntas inscrevem-se no eixo da
horizontalidade e instauram o evento discursivo como acontecimento. Tratamos
também, da noção lugar de memória, enquanto o lugar que organiza a memória
como discurso, “efeito de sentido entre interlocutores” (Pêcheux (1997a).
Entendemos que a rememoração/comemoração como o lugar de memória funciona
juntamente com os demais lugares, que delimitamos como instâncias dele.
No esquema a seguir, mostramos o funcionamento da rememoração como
memória (pré-construído) e como discurso fundante, linearizado no eixo
paradigmático, da ordem das seleções, isto é, no lugar em que um elemento
selecionado exclui o outro. Nesse sentido, um sujeito não pode ser e não ser ao
mesmo tempo e nem estar e não estar em determinado espaço, como destacamos
anteriormente. A rememoração inscreve-se no eixo das formulações parafrásticas,
em que o mesmo se repete, mas rompe com o sentido no eixo da horizontalidade e
instaura o novo pelos processos polissêmicos, pelo seu funcionamento como
rememoração/comemoração.
144
5.2 Encaminhando os procedimentos metodológicos
Abordamos a rememoração/comemoração, nesta perspectiva, como prática
discursiva entre sujeitos interpelados ideologicamente e atravessados pelo
inconsciente. Trata-se do discurso institucional, isto é, que funciona pelos processos
de legitimação e de identificação entre os lugares de onde emanam e o objeto do
discurso. O espaço comemorativo é a cidade de Cruz Alta, e nele, as instituições
dão visibilidade aos acontecimentos constitutivos da memória social. Estruturamos
as análises em dois eixos: o dos procedimentos de “fazer-crer” e dos lugares, pelo
lugar de memória. O primeiro eixo comporta as visibilidades materiais dadas ao
objeto de rememoração/comemoração na cidade. E, o segundo, estrutura-se, como
mostramos no esquema anterior, a partir da rememoração/comemoração que
tomamos sob duas perspectivas, a FD dominante, que é invadida por outras FD´s e
como o lugar de memória.
Nessa perspectiva, a rememoração/comemoração é o lugar de memória, em
torno do qual os demais lugares funcionam, organizando e fazendo deslizar
sentidos. A partir do lugar de memória funcionam outros lugares, dentre os quais
tomamos o Museu (Fundação Érico Verissimo) como o lugar que organiza os demais
lugares, que são: a Unicruz, o Poder Público Municipal de Cruz Alta e a Mídia,
delimitados como instituições urbanas autorizadas a falar sobre, porque antes há um
discurso de.
Esses procedimentos estão em consonância com a apresentação e a
delimitação do tema, realizados na primeira parte deste trabalho e também com os
fundamentos teóricos que sustentam nossas posições. Nosso corpus de arquivo
compõe-se de textos oficiais, filmes, fotografias, outdoors, peças publicitárias e
documentários, em torno do objeto recortado. É um corpus de dimensões
complexas, mas o recortamos e analisamos como discurso de
rememoração/comemoração a partir das visibilidades materiais de “fazer-crer” e dos
lugares descritos anteriormente. Os recortes efetivados não atendem aos critérios de
simultaneidade e de seqüencialidade. Iniciamos com a placa de identificação da
cidade e do mobiliário social e colocamos em um mesmo recorte textos de 1969,
(inauguração do museu), e o texto de 2004 (apresentação do museu). Com isso,
145
mostramos o movimento desse discurso – o seu início com a inauguração do museu
e os demais textos que corroboram para a constituição desse discurso.
A memória discursiva abrange a rememoração e a comemoração (e também
a rememoração/comemoração), sendo assim, a tomamos no sentido de Pêcheux
(1999, p. 52), mobilizando-a em relação à memória coletiva, à lembrança, às
recordações (discursos de rememoração) e ao que é refutado, esquecido, apagado
ou lembrado como elemento do saber nos discursos de comemoração, que ao se
constituírem pela rememoração simulam o interdiscurso no intradiscurso, num
movimento em que a memória aparece como o puro “já-dito. É a memória discursiva
como interdiscurso, que segundo Pêcheux (1997a, p. 162), “fornece a cada sujeito a
sua realidade, enquanto sistema de evidências e de significações percebidas –
aceitas experimentadas”. Os efeitos do interdiscurso como pré-construído
deslocam sentidos e promovem a ruptura no discurso da cidade. Neles ressoam
discursos que vêm de diferentes lugares e por funcionamentos discursivos outros,
que buscamos recuperar no processo de análise.
Encartamos no final desse trabalho um DVD que contém cinco anexos: no
primeiro, dois capítulos: um com os dados de identificação da tese e o outro com
um documentário sobre a inauguração do museu Érico Verissimo. Trata-se de um
fragmento do documentário 20 Gaúchos que marcaram o século, realizado pela
RBS-TV, cujo foco é a cidade, a qual de acordo esse documentário, proporciona ao
escritor “reencontros”. O anexo dois é constituído por uma tomada da casa de Porto
Alegre, chamada “Casa Reconquistada” e por fotos da volta de Érico Verissimo à
cidade, sendo duas de 1967 (doação de objetos para constituir o acervo do museu)
e outra de 1971 (homenagem a ele na Fenatrigo). O anexo três é um documentário
sobre o museu, em que se mesclam imagens da Cruz Alta antiga e do museu (nessa
filmagem, a perspectiva é de fora para dentro), mostrando os objetos culturais do
museu. O anexo 4 é composto pelo documentário realizado em 2004, pela equipe da
TV UNICRUZ, no qual, o então administrador Edemar Vieira, apresenta o escritor a
quem visita a instituição. O anexo 5 é uma seleção de fotos de Cruz Alta em 2008.
Com estas imagens destacamos a cidade imaginária de Érico Verissimo e o
imaginário urbano na atualidade.
146
5.3 Conjuntos de textos e questões de pesquisa
Estruturamos nossas análises a partir de dois eixos: o do “fazer-crer” e o do
lugar de memória, e a partir deles constituímos cinco grupos, formados de textos
que entendemos, na esteira de Orlandi (2004b), como unidades de análise, afetadas
pelas condições de sua produção e que encaminham para o discurso. Destacamos
que uma FD dominante, a da rememoração/comemoração, que é invadida pelos
saberes e dizeres dos lugares destacados, que a invadem e funcionam junto a ela.
Grupo 1 Visibilidades materiais procedimentos de “fazer-crer”: placa de
identificação da cidade e mobiliário material (anexo 5, do DVD);
Esse primeiro grupo é da ordem das evidências materiais, que buscam
saturar o discurso e se centram no “fazer-crer” e se constitui pelo “fazer-ver”, cujo
funcionamento explicitamos na fundamentação teórica empreendida na primeira e
na segunda parte desse trabalho. Essas evidências sustentam e legitimam o
discurso efetivado no espaço imaginário da cidade. Dois textos constituem essa
visibilidade: a placa colocada em todas as entradas da cidade de Cruz Alta (fig. 4) e
o mobiliário material que “mostra” Érico Verissimo na cidade (anexo 5, do DVD).
Grupo 2 – Museu Érico Verissimo
A partir desse segundo grupo ancoramos as análises a partir do lugar de
memória a rememoração/comemoração. O Museu é, nessa perspectiva, o lugar
que organiza os ritos de rememoração/comemoração, e de certa forma, determina o
que deve ser visibilizado e o que deve ser apagado. Dois textos compõem esse
grupo: A casa perdida e a casa reconquistada (inauguração do Museu), e
odocumentário (anexo 1, do DVD, cap. 2). A organização do primeiro texto realizou-
se no ano 2000, mas as imagens que o constituem são de 1969 e mostram o
escritor em visita à terra natal e à casa em que nasceu. O segundo texto é uma
filmagem editada pela TV Unicruz, em 2004, no qual o então administrador
apresenta o escritor às pessoas que visitam o museu.
147
Grupo 3 – UNICRUZ:
A Universidade de Cruz Alta destacou-se, em 2004 e 2005, como o lugar
autorizado a falar sobre e a constituir traços de identificação capazes de inscrevê-la
no espaço da memória como igual ou semelhante a Érico Verissimo, objeto
comemoração e, como tal “idealizado” no espaço urbano. A análise desse grupo
efetiva-se a partir de quatro textos, a partir dos quais o escritor é designado,
definido, representado. O primeiro texto (fig. 6) circulou no espaço da cidade em
2004, no principal jornal da cidade Diário Serrano e no Jornal Zero Hora, de
Porto Alegre. O segundo (fig. 7), apresenta Érico em cena e o define como um
século de história. Trata-se de um folder de divulgação de apresentação de peças
teatrais, veiculado em 2005. O terceiro texto constitui-se de uma placa (fig. 8)
colocada em frente ao Museu, em 2005. Nela, a UNICRUZ destaca-se no enunciado
“Trabalhando para preservar a nossa memória”, fala de si mesma e não de Érico
Verissimo ou do Museu. O quarto texto (fig. 10) circulou em 2005, e divulga o
museu. O enunciado que se destaca, nesse texto, é “Preservar para lembrar”.
Grupo 4 - Poder Público Municipal de Cruz Alta:
O Poder Público Municipal de Cruz Alta, a partir de 2005, passou a
administrar o Museu. Selecionamos dois textos para analisar esse lugar. O primeiro
texto passou a circular na cidade a partir de 2005 e ainda circula nos ônibus da
Empresa de Transportes Urbanos Nossa Senhora de Fátima (fig. 11). O segundo
texto circulou em 2006. Trata-se de um banner colocado no portal da Prefeitura
Municipal (fig.12). Os enunciados do texto, que circula nos ônibus urbano, retornam,
não como memória, mas “aparentemente” iguais. No entanto, as condições de
produção o outras e o suporte no qual o texto circula também. O mesmo ocorre
com a disposição gráfica dos enunciados. Há, também, dois enunciados novos:
administração popular e Reinscrevendo a História.
Grupo 5: Mídia
A mídia identifica-se com um discurso sobre e se ancora em outros discursos
sobre, que no caso são os das demais instituições. Apesar de na ordem cronológica
148
- os textos midiáticos da Agência NPC serem da década de 1980, 1990 e no ano de
2006 enfocamos esses discursos após os outros três grupos. Fizemos isso porque
entendemos que a sua atuação não se encerrou naquela fase. Os textos midiáticos
são os mais recorrentes no espaço da cidade, e Érico Verissimo continua atuando
como argumento que “faz comprar” e também “vender”. Selecionamos nesse grupo
quatro textos. O primeiro, de 1982 (fig. 13) vende relógios e o faz a partir da obra O
Tempo e o Vento. O segundo divulga a XI Coxilha Nativista, em 1991 (fig. 14), e
nele O Tempo e o Vento é retomado. O terceiro texto: A NET em Cruz Alta (fig. 15)
é de 1994 e faz retornar as obras do escritor, não como conteúdo, mas como uma
forma de divulgação de uma mesma obra em várias línguas, no mundo. O quarto
texto (fig. 16) é de 2006 e circulou no dia do aniversário da cidade.
As condições de produção de cada um dos textos serão apresentadas
juntamente com as análises. Entendemos que os recortes realizados são de suma
importância para atender ao nosso objetivo. A hipótese que desencadeia essa
investigação é, como dissemos na introdução, que a comemoração funciona
discursivamente e faz sentido na formação social a partir de um discurso de, que o
legitima e sustenta. Essa hipótese suscita pelo menos duas questões: a primeira é:
Como o objeto de rememoração/comemoração se constitui no espaço urbano? E a
segunda: Que domínios de memória funcionam nesse discurso? Para respondê-la,
ancoramo-nos nos aportes teóricos descritos ao longo deste trabalho, e que
suscitam outras questões importantes para responder a essa que colocamos como
questão central e que serão uma por uma explicitadas.
5.4 Encerrando a segunda parte
O encerramento dessa segunda parte encaminha as demais análises,
conforme os recortes efetivados nos procedimentos metodológicos o como fazer.
Realizamos alguns percursos, mas sabemos que eles podem nos levar a muitos
lugares, especialmente, no que se refere ao objeto recortado nesse tema: cidade e
Érico Verissimo, obra e escritor e as instituições. No entanto, explicitamos na
delimitação do tema, a ordem da cidade e o funcionamento do discurso de
rememoração/comemoração em sua especificidade de “fazer-crer”, como dissemos
a partir de De Certeau (1994). Apesar dessa aparente não-lacunaridade, a cidade
149
aparece como um texto a ser lido/interpretado/compreendido pelos sujeitos que nela
vivem e que a constituem. Por esses sujeitos, cujos saberes advêm da FD que
regula e organiza o dizer da cidade, a cidade se significa e num movimento de
retorno/identificação/interpelação os sujeitos são por ela significados.
TERCEIRA PARTE
REMEMORAÇÃO/COMEMORAÇÃO: LUGAR DE MEMÓRIA
A água que bebíamos em geral nos era trazida às residências em pipas
numa carroça puxada por matungos ou petiços. Brotava ela duma fonte
límpida chamada Panelinha. Havia até um ditado segundo o qual o
forasteiro que bebesse dessa água ficava preso ao sortilégio da cidade,
voltando muitas vezes a visitá-la ou, mais provavelmente, fixando
residência nela (p. 188).
Figura 3 - Monumento “A Lenda da Panelinha” – Cruz Alta – 2008.
151
1 REMEMORAÇÃO/COMEMORAÇÃO: PROCEDIMENTOS DE
FAZER- CRER
Para dar verossimilhança a uma personagem não autobiográfica, o
novelista tem de usar toda a sua capacidade de empatia, isto é, a
faculdade de meter-se no corpo de outras pessoas, e que lhe permite
sentir-se, ser alternadamente um herói, um bandido ou um santo, uma
dama virtuosa ou uma prostituta (p.297).
1.1 Primeiras palavras
O discurso de rememoração/comemoração da cidade de Cruz Alta em torno
de Érico Verissimo aparece não nas várias etapas da nossa caminhada, mas
também no fio discurso, no que é visível, como possível transparência e
homogeneidade. A constituição desse discurso parece, inicialmente, pautar-se pela
repetição, pelo mesmo, sem o diferente. O sentido, engessado por conjuntos de
evidências caracterizadoras de um discurso linear, próprio de uma memória
saturada, torna visível, no corpo da cidade, o discurso que legitima Cruz Alta como A
terra de Érico Veríssimo, como o espaço social e cultural que guarda vestígios de
um tempo tido como glorioso – o tempo em que ele nasceu e viveu na cidade.
As marcas da presença de Érico Verissimo em Cruz Alta - sujeito idealizado
na ordem do simbólico - decorrem de vestígios e evidências, que o constituem como
memória. Segundo Courtine (1982), a inscrição da formação discursiva em um
domínio do saber, dota o discurso de aceitabilidade e de efeitos de realidade e de
verdade pela materialização dessas evidências no eixo da formulação. Decorre,
também, da identificação do sujeito com a forma-sujeito, que organiza e distribui os
saberes na formação social. O apagamento do sujeito-locutor faz com que o
discurso aproxime-se do discurso da ciência.
Nossas análises constituem-se, conforme descrição nos procedimentos
metodológicos, a partir de dois eixos: o primeiros que comporta as visibilidades
materiais desse discurso, dadas pelos procedimentos de fazer-crer, como uma das
formas determinantes de “fazer-ver”, segundo De Certeau (1994, p. 290) e o
152
segundo que se centra na noção de lugar de memória, que nesse discurso é a
própria rememoração/comemoração, que seria também, a FD dominante no espaço
urbano, que é invadida pelos lugar, entre os quais destacamos o museu (que
organizar os saberes e os dizeres em torno de Érico Verissimo), a UNICRUZ, o
Poder Público Municipal e a Mídia.
1.2 A visibilidade material no discurso urbano
Queria, porém, que Rodrigo Cambará fosse parecido, mas não idêntico a
Sebastião Veríssimo. Teriam ambos em comum a sensualidade, o amor à
vida, a bravura, a generosidade, a vaidade à flor da pele, auto-indulgência e
a mágica capacidade de fazer dos homens amigos fiéis até o sacrifício e
das mulheres amantes apaixonadas (p. 304).
Nesse trabalho, entendemos que a visibilidade material no discurso urbano no
funcionamento discursivo da rememoração/comemoração, como prática discursiva
resulta de procedimentos discursivos que “fazem-ver” o objeto do discurso,
constituindo-o como uma memória aparentemente saturada. Sustentamos nossas
posições em De Certeau, para o qual a citação é um desses procedimentos e
funciona na sustentação de um discurso, pelo jogo que se realiza em relação àquilo
que o outro supostamente crê. É, portanto, um meio para que se institua o “real” e a
credibilidade para os simulacros produzidos nos lugares que atualizam o dizer e
invadem a FD da rememoração/comemoração.
Outro procedimento de “fazer-crer é a definição, que assim como a citação é
um procedimento que produz efeitos de verdade e de autoridade em relação ao
objeto do discurso. Esse procedimento é fundante do discurso sobre,
especificamente quando a temática é rememoração/comemoração e quando o seu
objeto é idealizado e, por isso conhecido, e valorizado pelos sujeitos urbanos, como
enfatizamos em relação a Érico Verissimo e à constituição do imaginário urbano.
O mesmo podemos dizer em relação ao funcionamento do escritor cruz-altense,
como sujeito imaginário, que atende à demanda dos sujeitos da cidade.
As palavras de ordem constituem-se pela recorrência, nesse discurso, e
levam a “crer” pela repetibilidade de enunciados, que utilizam o modo deôntico de
dizer, característicos do discurso marcado pelo tom doutrinário, em que o sujeito
153
porta-voz assume a responsabilidade pelo que é dito, assegurando “autoridade”,
contribuindo, no discurso urbano, para a veiculação de imagens e de objetos
culturais. Referendamos nesse funcionamento o lugar de memória, que guarda
vestígios do passado e sustenta o que é dito.
A seguir desenvolvemos alguns conjuntos de evidências de “fazer-crer”, entre
quais as destacamos a visibilidade dos objetos e a possível saturação do discurso.
Pêcheux (1997a) emprega o termo evidência para falar de ideologia, de
interpelação e “efeito Münchhausen” e a toma como “sintoma” de uma verdade local,
que apaga o já significado e expõe o óbvio. Nesse sentido, a cidade de Cruz Alta é o
espaço discursivo, a partir do qual o discurso de rememoração/ comemoração em
torno de Érico Verissimo pode ser lido/interpretado/compreendido
87
num processo
contínuo de atualização em que a memória constitutiva (arquivo) e a memória
formulada parecem recobrir-se, como se não houvesse possibilidade de o sentido
deslizar e nem de ser outro. Os efeitos de evidências constituem, no discurso, uma
aparente saturação, decorrente do “efeito de realidade do pensamento” - expressão
com a qual Orlandi (2001a, p. 7) refere-se aos lugares das idéias - do trabalho da
ideologia e do inconsciente. Esse efeito de realidade sustenta-se no fio do discurso
pelo valor de verdade
88
.
A primeira evidência materializa-se pelas placas, estrategicamente colocadas
em todas as entradas da cidade. Nelas, as pessoas que chegam podem ler: Cruz
Alta: bem-vindos à terra de Érico Verissimo. Essa placa constitui uma materialidade
que leva os sujeitos “a crer”, porque estão vendo. Ela funciona como um discurso de
rememoração discurso de - que sustenta os demais discursos sobre o escritor.
Essa placa representa, nesse discurso, “aquilo que se mantém”, segundo Orlandi
(2002 a), e que, de acordo com Courtine (1982), faz corresponder uma seqüência
discursiva a um domínio de memória. É a partir desse enunciado que o espaço
urbano delimita suas fronteiras. A placa (figura 4) é um exemplo de instrumento de
“fazer crer”, especificada por De Certeau (1994).
87
Orlandi (2002, p. 26) diferencia inteligibilidade/interpretação/compreensão. Para ela, o inteligível diz
respeito ao que está no fio do discurso (basta saber ler), o interpretável considera o co-texto (as
outras frases) e o contexto imediato e a compreensão implica saber como um objeto simbólico (texto,
enunciado...) produz sentidos, saber como as interpretações funcionam, permitindo a escuta de
“outros sentidos”.
88
Utilizamos a expressão valor de verdade numa referência à coerção de ordem externa “vontade de
verdade”, que segundo Foucault (2004), faz com que o discurso entre na Ordem do discurso.
154
Figura 4 – Fotografia da placa que se encontra na entrada da cidade de Cruz Alta – 2004.
Essa evidência tem o efeito de sentido de uma informação referencial,
institucionalizada, cristalizada. Isso faz com que esse discurso entre na ordem do
discurso, de acordo com Foucault (2004a)
89
, e funcione no discurso de
rememoração discurso de - como o repetível, que sustenta, legitima e articula os
discursos da cidade sobre Érico Verissimo. O enunciado “Terra de érico Veríssimo”
retorna em outros textos, mas o efeito de sentido não é o mesmo, uma vez que as
condições de produção, a circulação e a recepção são distintas em cada retorno.
Além disso, esse enunciado estabelece os limites entre o que a cidade possui, como
maior bem cultural a ser dividido com todos
90
, e que as demais cidades não
possuem.
À medida que entramos no espaço urbano de Cruz Alta, aquela que
chamamos de primeira evidência, vai sendo reforçada. Destacam-se, como segunda
evidência, as diferentes materialidades discursivas que sustentam a informação
referencial, resultando no efeito de que as palavras e as coisas, ilusoriamente,
correspondem-se. O discurso de rememoração/comemoração da cidade é uma
prática discursiva de constituição de um imaginário urbano, no caso, Cruz Alta em
torno de Érico Veríssimo e constitui-se de diferentes materialidades, suportes que
89
A expressão “ordem do discurso” refere-se ao que faz com que um texto ou discurso entre nessa
ordem, que segundo Foucault, passa pelo saber e pelo poder. Orlandi (1996) utiliza a mesma
expressão – ordem do discurso mas em seu texto essa ordem diz respeito à constituição do
discurso pela relação da língua na história.
90
Esse é um dos enunciados do nosso corpus e uma das designações de Érico Verissimo no
discurso da cidade.
155
em sua circulação fazem sentido para diferentes sujeitos do espaço urbano,
significando igualmente de modo diferente. O escritor é sempre descrito, definido e
interpretado positivamente. Isso faz com que se institucionalize como o nome que
foi, e continua a ser, a grande personagem da cidade.
As palavras e as coisas na obra de Foucault (1992), apesar do título não
refere à simetria entre as palavras e seus referentes. o deslocamento do sentido
para a prática discursiva, em que não aproximação entre os objetos do mundo e
as palavras pelas quais são nomeados. A relação entre as palavras e os seus
referentes é denominada por Orlandi (2004b, p. 99) de conteudismo. Trata-se da
prática relacionada ao verdadeiro e ao falso, em que interessa saber o que o sujeito
quis dizer. Na análise na perspectiva discursiva, entretanto,
pensamento/linguagem/mundo não se correspondem termo-a-termo, pois não existe
relação natural entre as palavras e as coisas. Os procedimentos utilizados para
“fazer-crer” simulam a similaridade entre as palavras e as coisas no discurso, em
que o “conteúdo”, além de “fazer-crer” também “faz-ver”.
A visibilidade material como procedimento de “fazer-crer” pode ser observada
nos textos de rememoração/comemoração
91
, cujas materialidades não se
constituem somente pela linguagem verbal (enunciados e slogans), mas também,
por enunciados-imagem (imagens, cores, prédios, nomes de rua, etc.). No espaço
urbano de Cruz Alta, a constituição do Érico Verissimo imaginário decorre de
procedimentos de “fazer-crer”, que dão visibilidade material a ele no museu Érico
Verissimo; no projeto imobiliário que nomeou vários prédios da cidade com o seu
nome, com o nome das personagens de suas obras e com o nome das próprias
obras; na veiculação de chamadas pela TV local, cujo slogan é Cruz Alta, terra de
Érico Verissimo; na renomeação da praça central e de ruas e alamedas para
homenageá-lo. Esses textos circulam em lugares distintos e constituem-se de
diferentes materialidades: placas, prédios, espaços públicos (ruas, praça, etc.).
A terceira evidência funciona como reforço a essa segunda evidência e se
materializa nas deferências à família do escritor e a ele mesmo, e se realiza em
forma de homenagem à família: em 1994, Mafalda Verissimo recebeu o título de
cidadã cruz-altense, apesar de viver em Porto Alegre, desde 1932, Abeghay
91
No anexo 5, do DVD, encartado nesse trabalho, podemos observar a visibilidade dada ao escritor
pelos prédios que referem a ele, pelo nome da praça e escola com o nome da professora de
Matemática, referida no texto autobiográfico.
156
Verissimo, mãe do escritor, mesmo tendo se mantido distante da vida política e
social da cidade, é nome de uma das vilas da cidade. Além disso, o escritor é
rememorado/comemorado em letras de músicas apresentadas nos Festivais
Nativistas da cidade.
A quarta evidência, que sustenta as demais é a instituição do ano de 2005,
ano do centenário de nascimento do escritor, como acontecimento histórico na
cidade e no Estado do Rio Grande do Sul. Germano Rigotto então governador do
Estado – através de decreto instituiu esse ano como dedicado a Érico Verissimo – o
ano para comemorá-lo. Essa quarta evidência é particularmente importante na
análise do discurso de rememoração/comemoração na cidade de Cruz Alta sobre o
Érico Verissimo, que é, nesse discurso, da ordem do imaginário por duas razões.
A primeira razão diz respeito à constituição do discurso de
rememoração/comemoração como um acontecimento discursivo, pela res-
significação do sujeito-objeto no espaço urbano no ano da comemoração do
centenário do seu nascimento, quando em alguns textos uma ruptura na ordem
do repetível, possibilitando a instauração de novos sentidos. Esse acontecimento
foge à regularidade do discurso e se constitui no entrecruzamento de memórias. A
segunda razão relaciona-se à sustentação dessa memória em uma mesma rede de
memória de discursos anteriores, que atualizam a memória de Érico Verissimo e os
discursos desencadeados pela rememoração/comemoração, como acontecimento
que rompe com a linearidade e faz deslizarem os sentidos. O que parece
estabilizado pelo conjunto de evidências como memória histórica, passa por
renovações contínuas, apontando falhas, rupturas e a possibilidade de novos
sentidos, mesmo quando as evidências de completude e de saturação apontam para
o mesmo, sem espaço para o diferente.
A responsabilidade pelo desenvolvimento do projeto de
rememoração/comemoração do centenário do escritor ficou a cargo, no ano de
2005, de três universidades gaúchas: Pontifícia Universidade Católica do Rio
Grande do Sul (PUCRS), Universidade Estadual do Rio Grande do Sul (UERGS) e
Universidade de Cruz Alta (UNICRUZ). Esta última ocupa lugar de destaque porque
desenvolve o projeto que inaugura as comemorações do centenário do escritor
identificando-o como filho ilustre de Cruz Alta - e porque assume a administração do
museu, no ano de 2004, após a morte de Mafalda Veríssimo, aentão curadora do
acervo do museu. Isso mostra que o discurso de rememoração/comemoração é da
157
ordem do privado, isto é, realiza-se a partir da casa e destaca as relações do sujeito-
objeto a uma rede social sem compromisso com as normas ou com o ideológico.
Nesse funcionamento, de acordo com DaMatta (1997), o domínio da rua constitui-se
o lugar onde o sujeito é tomado pelas instituições, e é por elas determinado. Os
objetos transitam da casa para a rua e representam, na ordem do simbólico, o objeto
celebrado/comemorado e constituem-se pelas instituições sob a égide do sujeito
jurídico.
Érico Verissimo é o objeto tomado como referente nos discursos de
rememoração/comemoração no ano do centenário. Esses discursos trazem para a
atualidade o passado, rememorando fatos e acontecimentos que dizem respeito a
ele pelo discurso de discursos de rememoração. As comemorações constróem
uma cena discursiva que atualiza saberes, fomenta discussões, possibilita que o
mesmo dizer signifique diferentemente, pela ruptura com o mesmo. Podemos
acrescentar, nesse primeiro conjunto de evidências, a quinta evidência: Cruz Alta é
referência quando se trata de Érico Verissimo, apesar do pouco tempo que ele viveu
na cidade. Isso acontece porque o discurso da cidade sustenta um discurso que
desliza entre o privado e o público (a história de sua vida na cidade e sua trajetória
como escritor), mostrando-o como um sujeito imaginário.
As visibilidades materiais constitutivas do “fazer-crer” nos encaminham para a
constituição do sujeito idealizado, que pelos traços de identificação aproxima-se dos
sujeitos do espaço urbano e dos sujeitos interpelados pela FD da
rememoração/comemoração em relação aos espaços de memória que eles
convocam e fazem funcionar.
2 LUGAR DA ORGANIZAÇÃO E REPETIÇÃO DE TRAÇOS
IDENTITÁRIOS
Uma das noites mais terríveis de minha vida foi a de 2 de dezembro
daquele ano de 1922. Eu chegara de Porto Alegre no trem do meio dia, feliz
e ao mesmo tempo apreensivo à idéia de rever minha gente, minha casa
(minha?)
e minha cidade. Tinha ainda suficiente reservas de otimismo para
esperar que de uma hora para outra os problemas domésticos se
resolvessem satisfatoriamente (p. 151).
Conforme explicitamos nos procedimentos metodológicos e, especificamente
no recorte efetivado no corpus, deslocamos a noção lugar de memória, de Pierre
Nora (1984), para o funcionamento no discurso da cidade. Para isso tomamos a
rememoração/comemoração e a fazemos funcionar como a expressão desse lugar,
que não é um lugar físico, mas aquele que guarda rastros e vestígios do passado e
organiza os saberes de FD, no caso a rememoração/comemoração na cidade de
Cruz Alta. Ancoramo-nos em Courtine (2006), para dizer que esse lugar guarda
traços e vestígios da memória como descontinuidade. Com isso, organiza e sustenta
a continuidade dos discursos e determina as visibilidades, os esquecimentos e
também os apagamentos da memória. Nesse sentido, elegemos o museu como a
representação do lugar de memória na formação social.
2.1 Museu: representação do lugar de memória
O museu – casa de Érico Verissimo em Cruz Alta afigura-se como a
representação do lugar de memória e possui um duplo papel: busca impedir o
esquecimento de antigas tradições ao funcionar como agente de mudança e
transformação pela preservação das tradições. Além disso, trabalha para resgatar
traços de identificação entre o objeto de rememoração/comemoração e o espaço
urbano, tornando significativa e pertinente a continuidade do discurso sobre.
159
Assevera, ainda, a permanência do tempo tridimensional (Catroga, 2001b), no qual
o passado é retomado em função de um passado-presente, um presente-presente e
um presente-futuro. Isso significa que o passado atua como um discurso doutrinário,
que guarda valores a serem incorporados ao presente, tendo em vista o futuro. Na
ausência de memórias espontâneas, especialmente em formações sociais em que a
operação de memória não é mais natural, há a invenção de um passado inequívoco,
que empurra para um futuro, dando a impressão, segundo Orlandi (2001c), de que
estamos dentro de uma história “conhecida”, porque nela ressoam outros discursos,
que a sustentam.
No discurso de rememoração/comemoração da cidade de Cruz Alta em torno
de Érico Veríssimo, o museu é o lugar de acontecimentos discursivos que
encaminham para quatro espaços discursivos distintos: o próprio museu, a
Universidade de Cruz Alta, o Poder Público Municipal e a cidade. Deles emanam
textos próprios desses lugares, que interpelam os sujeitos responsáveis pelo dizer
nesses espaços a partir de saberes organizados nesses lugares. Entendemos, pelos
valores que constituem o sujeito imaginário e idealizado e também pelo contexto
sócio-histórico que determina esse funcionamento, que os sujeitos-enunciadores a
partir do Museu, da Unicruz, do Poder Público e da Mídia são interpelados e entram
em relação com a FD da rememoração/comemoração, que é a FD dominante, mas
cada um desses lugares se organiza em função do que é legitimo a partir deles.
Nesse trabalho, recortamos o museu, como o lugar que organiza a
rememoração/comemoração no espaço urbano, pois dele emanam dizeres
autorizados e legitimadores, que se repetem nos outros lugares (UNICRUZ, Poder
Público e Mídia).
O funcionamento discursivo do lugar de memória pelo viés da
rememoração/comemoração atualiza a memória discursiva, espaço do dizer e
determina as visibilidades e os apagamentos em torno do escritor. Érico Verissimo é,
neste sentido, o nome rememorado/comemorado na cidade de Cruz Alta como uma
memória histórica, que se constitui, segundo Orlandi (2002a), pelo excesso e não
pela falta. Os sujeitos que falam das instituições são porta-vozes daqueles que se
identificam com a rememoração/comemoração, isto é, situam-se entre a FD
dominante a rememoração/comemoração - e as instituições da cidade. Esses
lugares dão visibilidade ao escritor como herança a ser dividida com todos, como o
cidadão de todos os continentes. Enfim, como um sujeito, como referimos
160
anteriormente, que imaginariamente constitui a memória da cidade e os sujeitos
urbanos, os quais buscam nele o objeto do desejo, tal qual ele se atravessa no
inconsciente, e segundo Lacan (1998a), constitui o sujeito.
No esquema textual a seguir, estruturamos o documentário 20 gaúchos que
marcaram o século (anexo 1. do DVD). Não se trata de um esquema analítico, mas
de uma retomada dos enunciados do texto. Esse texto, que analisamos sob a
perspectiva do lugar de memória é também um procedimento de “fazer-crer”,
porque faz com se possa “ver” a cidade de Cruz Alta como a terra de Érico
Verissimo. A partir desse texto, queremos observar as redes de identificação
constituídas pela definição da cidade e do escritor, que os aproximam.
161
Este texto representa, na ordem do imaginário, a cidade de Cruz Alta, como o
espaço urbano que busca representar-se para dentro e fora dos seus limites como a
“terra de”, e nesse sentido, constitui seu discurso por uma rede de formulações
parafrásticas que legitimam o pertencimento de Érico Verissimo à cidade. As marcas
de visibilidade estão na própria estruturação do texto que “desenha” a cidade, a
qual por sua vez, “desenha” Érico Verissimo. Com esses procedimentos de “fazer-
crer”
92
pelos quais “faz-ver” a constituição de um e de outro: “a cidade se orgulha do
seu filho mais ilustre”. A cidade é para ele o lugar de “reencontros”, os quais
rememoram “uma vida plena de realizações”.
Três objetos constituem e são constitutivos desse texto e evocam a
rememoração: o museu, Cruz Alta e Érico Verissimo. A visibilidade dos três objetos
inscreve-se na FD da rememoração/comemoração pela recordação e sintagmatiza-
se pela apresentação de lugares que dão visibilidade ao dizer e o inscrevem no eixo
da atualidade. A imagem do museu e do Sobrado traz para o eixo da formulação,
pelo viés do interdiscurso, a vida do escritor na cidade e também a sua produção
literária.
A legitimidade dessas das recordações, designadas no texto como
“evocações”, são efeitos de sentido dos procedimentos da constituição de traços de
identificação e de informações referenciais da casa (esta casa esse quarto) do
nascimento dele “nesse quarto”, do sobrado. Enfim da reconstituição imaginária da
casa e também pela enumeração desses encontros. Nesse sentido, as imagens
relacionam objetos referenciais e ao fazer isso, trazem para o eixo da atualidade,
memórias fundantes. O Sobrado, casa dos avós foi demolido é, portanto uma
“presença na ausência”. Apesar da ausência uma memória que o constitui nesse
espaço, como rememoração e também como recordação.
Esse retorno instaura, no intradiscurso, efeitos de sentido contraditórios. De
um lado, sustenta os “reencontros” do escritor com a infância: com os tios, avós e
outros moradores do sobrado e com o “mundo da literatura”. E de outro, sinaliza
para a destruição, pelas imagens do sobrado e do mato ao redor da casa, a qual
representa na ordem do simbólico, a casa ficcional da família Terra-Camba e o
descuido em relação à casa, considerada como o modelo” para a casa ficcional da
família Terra-Cambará na obra O Tempo e o Vento. O significado da casa para o
92
Cf. De Certeau (1994).
162
escritor e também para a cidade de Cruz Alta sustenta-se pelo texto autobiográfico,
no qual a rememoração funciona como texto fundante, que desencadeia a
recordação.
duas vozes na narrativa que contam a história desses três objetos
discursivos: a primeira é de um sujeito porta-voz, que recita e simula uma narrativa
ficcional, como um consenso. É como se todos os sujeitos da cidade se
identificassem e se orgulhassem do “filho mais ilustre”. A segunda voz é a simulação
da voz de Érico Verissimo. Trata-se de um discurso sobre outro discurso que
também é sobre. Pauta-se em um discurso que é fundante. Simula o escritor falando
de si mesmo, num funcionamento em que “falar de si” corresponde a falar de sua
obra. O que está sendo representado neste texto não é o sujeito Érico Verissimo,
mas um personagem que é escritor e que viveu em Cruz Alta. A legitimidade dessa
voz vem do texto Solo de Clarineta I, e faz irromper no discurso, a rememoração
de um passado já comemorado pelo escritor, quando escreveu suas memórias.
Quem está sendo rememorado/comemorado no documentário é a cidade de
Cruz Alta. O nome da cidade é topicalizado. Ela se orgulha do seu filho mais ilustre e
é palco de reencontros. O que ele reencontra? A vida plena de realizações do
mundo da literatura, os primeiros tempos com Mafalda, a infância no velho Sobrado,
os tios, avós e outros moradores. A infância recordada é a que traz inspirações
literárias. O que é rememorado/comemorado em relação a Érico Verissimo quando
se inaugura o museu? O sucesso como escritor. A cidade e o passado como fonte
de inspiração e a fecundidade da “terra gaúcha” são comparadas ao seu sucesso e
que se deve “à mansidão do convívio” e “a fecundidade da terra” e . estão em um
mesmo eixo, constituindo uma rede parafrástica, que relaciona o discurso na história
e às condições desse discurso e pode ser assim descrita:
163
Nas condões sócio-históricas de produção desse discurso, desde 1969
fundação do museu e de cenas de Érico andando no meio do trigo, o que se pode
ler na descrição acima? Talvez que devemos ser como ele ou não. O sentido
depende dos espaços de memória que trabalham nesse evento. Três mundos são
dados a identificar nesse texto: o mundo da rememoração (o passado), o mundo da
literatura em Érico Verissimo e o mundo da riqueza proporcionada pelo trigo. O
primeiro desses mundos (da rememoração) está no mesmo eixo do mundo da
literatura. Ele é então o mundo dos reencontros. Que reencontros são esses? A
resposta encaminha para a literatura e para a identificação plena (idealização) com o
espaço da cidade, no qual o personagem (nesse texto, Érico Veríssimo) reencontra
Mafalda e a família, representada pelos moradores do casarão.
As formulações parafrásticas descritas no quadro anterior propiciam a leitura
de um ensinamento de “bem viver” nesse mundo e se pode ler “A ordem e o
progresso”, que veicula o trabalho em primeiro lugar, o nacionalismo de um passado
anterior. O texto como um todo é doutrinário, pois apresenta fórmulas para alcançar
o sucesso, seria como enunciar: seja como ele. Ressoa, ainda, o discurso do
populismo e também o discurso do silêncio constitutivo, no qual o não-dizer significa,
especialmente, as interdições políticas. Talvez o escritor não esteja sendo colocado
no lugar do trigo, mas junto dele. Talvez a “mansidão” signifique o silêncio
localizado, como censura, numa terra de militares e em tempos de ditadura. A
cidade se orgulha daqueles que não resistem, e que são mansos.
A referência à mansidão remete ao eixo vertical (interdiscurso), ao domínio
do saber religioso, especificamente ao Sermão da montanha narrado por Mateus
(5, 5-6) em que lê:
“Felizes os mansos, porque possuirão a terra.”
Com isso, inscreve no eixo horizontal (intradiscurso) a apologia à aceitação,
em que pelo interdiscurso, em seu funcionamento pelo pré-construído retornam
como discurso transverso discursos outros, que interpelam o sujeito pela ideologia e
lhe fornece-impõe a realidade
93
e o sentido sob a forma da universalidade. A
realidade imposta é o apagamento da vida privada e a celebração da vida literária.
93
Pêcheux (1997a).
164
Os discursos que se atravessam são os do populismo da era Vargas e o
desenvolvimentista de Kubitschek, da ditadura militar no Brasil e, também o discurso
religioso pelo sermão da montanha, como acabamos de enunciar.
É importante destacar que O Sermão da Montanha, de o Mateus recobre
os demais, porque referenda o não-dizer, o silenciamento, sugerindo que aqueles
que são “mansos” alcançam o sucesso. Nesse sentido, a cidade é
rememorada/comemorada e conjuga os outros mundos. Tudo que se celebra em
Érico Verissimo está na cidade. Ele é sucesso porque é “fértil como a terra gaúcha”
e talvez como o trigo, além de, dizendo de outro modo: não ser dado à resistência,
às reivindicações.
A legitimidade e o pertencimento ao espaço da cidade apagam, nesse texto,
as referências à vida em Cruz Alta, às perdas sofridas, à saída da cidade, e os trinta
e cinco anos longe da terra natal. As visibilidades são dadas à produtividade literária,
às obras, especialmente ao “Tempo e o Vento”. O escritor e a cidade são
idealizados e cabe às instituições fazê-lo funcionar como um sujeito de sucesso.
Nesse sentido, pode-se dizer, a partir de Durand (2004, p. 94), que “os papéis
positivos se institucionalizam”. É o que ocorre com Érico Verissimo na perspectiva
em que é rememorado/comemorado nesse evento discursivo, juntamente com a
cidade.
O processo de identificação à forma-sujeito e ao sujeito ideológico realizam-
se pela constituição de traços que ligam Érico Verissimo a Cruz Alta e suscitam nos
sujeitos/cidadãos o desejo de ser semelhantes ou igual a. Tanto que o mundo da
literatura e, por extensão, o mundo de Érico Verissimo entra em relação de
similaridade com a fecundidade do mundo gaúcho, e com Cruz Alta cidade que se
orgulha do seu filho mais ilustre.
Os enunciados verbais e os enunciados-imagem funcionam em um mesmo
lugar, mesmo se dissermos que esses enunciados-imagem existem a partir da
língua, que os interpreta, não como negar o funcionamento da memória neles.
Nas imagens do Sobrado, por exemplo, há tomadas do escritor andando pelo jardim,
mal-cuidado. Essas imagens do documentário (Anexo I) o visibilidade a não-
conservação do imóvel, o que significa destruição, passagem do tempo. A imagem
do escritor andando no meio do trigo tem efeitos de sentidos distintos. É fruto de
uma escolha, mas significa diferentemente para os sujeitos que assistem ao
documentário. Para os sujeitos/cidadãos da cidade têm o efeito de uma
165
sobreposição: os seus dois maiores bens estão juntos, mas para os sujeitos de
ligados a outros lugares, desencadeia outros efeitos de sentido, e faz trabalhar
outros espaços de memória.
A cena em que o escritor e a esposa estão na janela da casa (museu)
encaminha para sentidos polissêmicos, mas funciona a partir do interdiscurso. Para
quem leu o Solo de Clarineta I, essa imagem instaura a rememoração. O mesmo
ocorre nas cenas em que ele e a esposa passeiam pelas ruas e depois sentam-se
na praça. Retorna nesse enunciado-imagem o “jeito de namorar” das cidades do
interior, entre outros discursos e espaço de memória que funcionam nesse discurso.
Em relação ao funcionamento das imagens como texto, podemos dizer, retomando
Davallon (1999), que elas relacionam-se à memória social e ligam a rememoração,
como recordação à comemoração, tomada como atualidade. para concluir a
referência a esse texto, lembramos que nele estão as três casas: a casa perdida
(que foi à hástia pública), e a casa reconquistada (comprada pelo poder público para
instalar o museu), e também a casa da infância e da juventude: “O Sobrado”, que
seria o “modelo” para a constituição do sobrado, casa onde vivia a família ficcional
“Terra-Cambará”.
2 .2 A organização dos saberes da rememoração/comemoração
O segundo texto é um documentário da TV UNICRUZ (anexo 4). A sua
gravação atende à necessidade de registrar a apresentação de Érico Verissimo pelo
então administrador, a partir do museu. Ele recebia os visitantes e o apresentava
como “o pai dos pobres”. Chamou-nos atenção esse enunciado, que faz irromper no
fio do discurso a ideologia assistencialista da Era Getúlio Vargas. Buscamos
documentar essa fala, mas no dia da filmagem o administrador não usou o mesmo
enunciado, mas outro que remete a ele pela inscrição à rede parafrástica. Ele disse
que Érico Verissimo era “dado à assistência social”. Esse é o nosso segundo texto e
tem duração de cinco minutos.
Nesse texto de apresentação do museu (Anexo 4) recortamos:
166
Em relação ao primeiro item, podemos destacar a postura do sujeito da
enunciação: ele se coloca como um sujeito autorizado a falar sobre a obra e sobre a
vida do escritor. Ocupa a posição-sujeito de administrador. Nessa posição, afirma
que organiza e divulga a obra do escritor. No entanto, ele destaca também a vida de
Érico Veríssimo, e inclui no universo familiar, sua a esposa e os seus filhos e netos.
As imagens do documentário dão visibilidade à postura, aos gestos largos e
professorais, próprios desse lugar. Também o tom de voz sinaliza que ele diz o que
diz, porque pode e deve fazê-lo do lugar que ocupa. Duas razões fazem com que o
ele se veja assim: a autoridade que lhe foi conferida pela família Verissimo, como se
pode visualizar na figura 5, e a função de administrador do museu, que tomamos
como o lugar que sustenta a rememoração/comemoração, como lugar de memória.
Figura 5: documento da família Verissimo dirigido ao administrador do museu.
O documento assinado por Luis Fernando Veríssimo, em nome da família,
confere ao administrador autoridade para dizer o que diz. Ele se constitui como
167
sujeito porta-voz porque assume a posição de locutor e se constitui pela ilusão de
poder dizer o que dizer e dessa forma organizar o dizer. Desse lugar, ele realiza
projeções imaginárias da sua atuação como administrador do museu e constitui a
imagem de si mesmo, a partir do questionamento: quem sou eu para dizer o que
digo? Da mesma forma, projeta a imagem do outro a partir do questionamento:
quem é ele para que eu lhe fale assim? Essas projeções direcionam o dizer, e lhe
permitem assumir a condição de quem “sabe” do que está falando (conhece o tema)
e está autorizado a fazê-lo pelo lugar que ocupa na instituição. É importante
destacar, o lugar de observação e dos efeitos materiais da língua, como um sistema
em que funciona o jogo na história e do qual resultam os equívocos na
discursividade. (Orlandi, 2004b, p. 132).
O segundo item recortado diz respeito à preocupação com a cronologia. O
destaque a datas e a acontecimentos trazem para o intradiscurso o efeito de sentido
de um consenso imaginário pelo procedimento de “fazer-crer”. Ele não apenas diz o
que diz, mas “instrumentaliza” o dizer, utilizando-se de datas e de citações, as quais,
segundo De Certeau (1994), conferem ao dizer a precisão própria do discurso que
se pretende pedagógico ou doutrinário. A repetição é da ordem da estabilidade e
produz efeitos de saturação do discurso, simulando “realidades”. Esse efeito ocorre
pela apresentação da casa como uma informação referencial “nesta casa nasceu,
em 17 de dezembro de 1905, Érico Verissimo”, outra informação que tem
funcionamento similar é “Neste quarto”. Esses dois referentes funcionam como
ligações entre o discurso e o espaço material, passível de ser conferido, visto,
observado.
Da mesma ordem é a apresentação da produção literária do escritor, dos
fatos mais importantes da sua vida, do nascimento dos filhos e dos netos, dia e hora
da morte. A seqüência de fatos e datas constitui a rememoração - a memória do
dizer - e conferem ao intradiscurso efeitos de verdade e de autoridade do sujeito
enunciador, e por isso, fazem “fazem-crer” e também “ver”. Pela narrativa, constitui-
se um evento que se inscreve na ordem do já-dado, ilusoriamente transparente, que
encaminha para o mesmo. É como se entre um acontecimento e outro, a vida
transcorresse sem contratempos. Essa sucessividade de um lado sinaliza para a
saturação e de outro para a lacunaridade do discurso e para os apagamentos
efetuados nele, de tal forma que o mesmo se repete até ficar diferente, instaurando
168
o novo. As determinações do que pode e deve ser dito resultam dos saberes
próprios do museu, como lugar.
O discurso de rememoração/comemoração a partir do Museu é institucional.
Sustenta-se pelo discurso de, a rememoração, nos dois sentidos delimitados nos
procedimentos metodológicos: como memória e como texto fundante. No primeiro
funcionamento, o dizer entra em relação com o que foi dito e significado antes em
outro lugar. O museu funciona como o lugar, que sustenta o lugar de memória e tem
a função de recolher, transcrever e organizar os traços de identificação comuns a
nomes ou eventos rememorados/comemorados. Isso significa um reforço à relação
de dependência a outros lugares que transcrevem a memória, às quais chamamos
de lugares que sustentam o lugar de memória – a rememoração/comemoração, pelo
Museu. Disso, entendemos que o que é dito a partir do museu, ressoa nas outras
instâncias e também que o sujeito porta-voz, cuja função é organizar e redistribuir a
memória atua como intermediário, pois ocupa o lugar entre a instituição e aqueles
que ele representa e reforça traços de identidade entre os sujeitos da formação
social com pretensa estabilidade da memória, sem os furos que instauram o
equívoco.
A investidura de um discurso em outro ocorre pelo funcionamento dos pré-
construídos, “como o que tudo mundo sabe”, e cuja inscrição no eixo da formulação
ocorre pelo efeito do discurso transverso, em que saberes do eixo da verticalidade
interdiscurso – atravessam-se e irrompem no eixo da horizontalidade.
Pelos enunciados definitórios - um dos procedimentos de “fazer-crer” o
sujeito-objeto da rememoração/comemoração e definido. Os enunciados estruturam-
se a partir da predicativa: Érico Verissimo é... . O predicativo constitui-se de valores
próprios do sujeito idealizado no discurso de rememoração/comemoração e o
constituem como objeto a (causa do desejo) e ao mesmo tempo o objeto do desejo
(o que falta). É pela discursivização que o sujeito-objeto atende à demanda da
cidade e o desejo dos sujeitos/cidadãos. O sintagma “superdotado”, com o qual o
administrador do Museu designa o escritor, ilustra esse funcionamento,
encaminhando para a constituição de Érico Verissimo “como se fosse um mito”.
Nessa perspectiva, ele é um vencedor. Com isso faz-ver” a luta individual como
uma qualidade. Nessa mesma direção funcionam outros sintagmas. Visualizemos a
rede parafrástica que se constitui:
169
As relações visualizadas acima “autorizam a constituí-lo como “superdotado”.
Pode-se ler aí “ele é superdotado e trabalhador porque...
Nos enunciados definitórios referência à constituição do sujeito e o que o
faz assim. No caso de Érico Verissimo ele é definido como superdotado e
trabalhador. O fato de não ser formado e apesar disso alcançar sucesso profissional,
faz dele um sujeito “superior aos demais”, e referenda a dicotomia expressa por
DaMatta entre a casa e a rua e, igualmente, para a constituição relacional da
sociedade brasileira, em que as relações familiares, a rede de parentesco e
compadrio é determinante para a legitimação do sujeito no espaço social. A
apresentação do sucesso de Érico Verissimo, apesar de não ter estudado, faz
170
ressoar, no eixo da formulação, o discurso de constituição e funcionamento das
relações sociais brasileiras, bem como a memória das famílias poderosas e também
na visão de país como “uma grande família”, que na verdade, não engloba todos os
sujeitos, mas aqueles, cujas famílias são tradicionais.
A rede parafrástica que o constitui assim se fecha com a descrição da saída
de Cruz Alta:
“1932, Érico noivo, sem dinheiro, sem emprego e sem casa para morar...”
Esse enunciado, além de reforçar a constituição do sujeito “superdotado e
trabalhador”, reforça a constituição do sujeito idealizado e o atravessamento do
discurso populista no fio do discurso. Outra referência que concorre para isso é a
imagem de fracasso, no enunciado que reafirma a questão de ser “superdotado”,
pois uma pessoa desprovida de tudo o consegue chegar a cidadão de todos os
continentes ou vir a ser um bem cultural.
Ele disse e deixou escrito que a situação estava russa.
Nesse enunciado, há duas implicações: a primeira diz respeito à identificação
dos sujeitos à forma-sujeito da FD dominante, que valoriza a cultura e com ela a
escrita, e junto a elas, as obras do escritor, com o qual se identificam. Deixar escrito
reforça o valor e o peso da escrita na sociedade. A segunda refere-se ao
testemunho, ao efeito de verdade dado pelo papel, pela memória que a escrita
guarda, estabiliza. Concorre também para esse efeito, a repetição de fatos. A
ênfase dada à relação cultura/Érico Verissimo/Cruz Alta referenda a tendência à
comemoração sem crítica e reforça o funcionamento da noção lugar de memória
como um procedimento de comemoração, que no lugar de instaurar a crítica ou
possibilitar um olhar isento sobre o objeto, concorre para a celebração.
Para fechar essa reflexão e ao mesmo tempo abrir para outros
questionamentos, perguntamos: o que se comemora? Essa questão e o que
destacamos acerca do sujeito-objeto desse discurso e a forma como ele é definido
permite que se coloque que se comemora
171
Cf. enunciado do documentário analisado anteriormente (anexo 1, do DVD)
A entrada desse enunciado que não é deste texto, mas que retorna pelo
interdiscurso como um dito-anterior ou como um saber constitutivo dos discursos
doutrinários que dizem como o homem “deve comportar-se” para ser um cidadão
“exemplar” dos discursos de repressão destaca a impossibilidade de “controlar” a
comemoração, enfatizada por Davallon (1993). Entendemos, pelos enunciados que
sustentam esse discurso, o desejo de celebrar a cultura, a família, a cidade, o
sucesso. Mas irrompe no intradiscurso a celebração do autoritarismo, da repressão,
dos “anos de chumbo”. Por essa razão, referimos a Orlandi (1999 e 2002b) para dar
conta do silêncio, que faz sentido e do silêncio como censura. A entrada desse
enunciado referenda a interpelação do sujeito pela ideologia e o atravessamento
pelo inconsciente.
No texto de apresentação do Museu (Anexo 4 do DVD) o sujeito “tem de
dizer” e enfatizar alguns dados, mas ao fazer isso apaga determinados sentidos e
instaura outros. O dever e ter de comportar-se de determinada forma é o trabalho da
ideologia que o constitui e pela sua inscrição em uma FD. Em relação a Érico
Verissimo é comemorado não o sucesso, mas a mansidão. O que é dado como
elogio, significa como crítica. É a falha na/da língua no discurso que sinaliza para a
tendência da comemoração, como celebração, sem a crítica. O que se comemora é
a família, a casa, a obra, o sucesso, enfim a casa em detrimento da rua, mas
relações, não a cidadania.
No entanto, as instituições não controlam totalmente o que é comemorado e o
sujeito que ocupa a posição de administrador é interpelado pela ideologia e
atravessado pelo inconsciente, o que faz com que se atravessem, no seu dizer,
outros discursos, como nos referimos em relação à “voltado à assistência social” e
“superdotado”. Esses enunciados provocam um estranhamento que instaura a
divisão do sujeito, pois o lugar em que ele se inscreve e determina os dizeres e
saberes é invadido por saberes e dizeres de outros lugares, o que demonstra que a
identificação plena não existe. É por esse viés que o sujeito que fala do Museu, que
“a mansidão do convívio desse homem
172
representa e organizar o lugar de memória rememoração/comemoração se identifica
com o sujeito idealizado e com os lugares que o sustentam e institucionalizam. O
atravessamento de outros discursos faz com que o sentido deslize, pois se, de um
lado, os sujeitos investidos do desejo de rememoração/comemoração identificam-se
com o discurso populista e a memória dele, há, de outro, os que não se identificam
com os valores rememorados/comemorados. Talvez por constituírem-se de um
minoria, não são referidos e os seus dizeres e saberes, não ressoam, ao contrário,
são silenciados
A aproximação de Érico Verissimo como objeto a e como objeto do desejo,
nesse texto, é dada pela ligação com os valores de superação destacados na
constituição da memória do escritor, como sujeito imaginário. O sintagma “abriu uma
porta com uma estrela brilhando”, juntamente com “superdotado” o identifica com os
sujeitos excluídos, que constituem o excesso no discurso de
rememoração/comemoração, os quais por o serem escolarizados, caracterizam-
se como desprovidos de condões de ‘vencer na vida’, no espaço urbano
tradicional, onde a casa e a rua são determinantes nos contratos sociais.
Nesse exemplar do discurso filmagem de apresentação de Érico Verissimo
aos visitantes (anexo 4 do DVD) o escritor aproxima-se do sujeito/objeto do
discurso é da ordem do imaginário, relaciona-se à grandiosidade, como aquele que
conseguiu vencer todas as adversidades, como um modelo cruz-altense. Uma
afirmação que ilustra o que dissemos é “pelo destino da vida Érico foi à falência” e
“fins de 31 lhe abriu uma porta com uma estrela brilhando e foi convidado a trabalhar
na Revista O Globo.” Esses dois enunciados sinalizam que tanto as derrotas como
as vitórias devem-se a forças “sobrenaturais”. Isso instaura a contradição, pois ao
mesmo tempo em que é apresentado como “superior”, o seu sucesso é imputado a
forças da ordem do mitológico, não a forças ligadas aos seres humanos.
Isso traz como conseqüência a escolha do que deve ser visibilizado,
destacado, mas também os apagamentos e os silenciamentos efetuados. A falência
e a conseqüente perda da casa e da farmácia são imputadas “ao destino da vida”.
Não referência aos problemas do pai com o trabalho, com a família como um
dos motivos dessa falência. Apagam-se, igualmente, a mãe-modista e o fato de
sustentar a família com o seu trabalho, num tempo em que essa função era do
homem. A venda de remédios “a fiado” não é referida, nem a falta de aptidão de
173
Érico Verissimo para o trabalho no comércio. Esses apagamentos reforçam a
constituição do sujeito idealizado.
O sujeito desse discurso conclui o seu texto colocando-se como responsável
pelo dizer e pelo saber: “eu, como administrador do museu, tenho orgulho de
divulgar um pouco da obra desse ilustre filho de Cruz Alta”. Com isso, filia-se
constitui-se como sujeito porta-voz dos sujeitos;cidadãos do espaço urbano e
referenda o objeto de rememoração/comemoração e inscreve o museu como o lugar
de memória, autorizado a falar sobre, porque antes falou de. Essa filiação relaciona-
se com as projeções imaginárias do sujeito em relação a quem ele é: administrador
do museu, que sabe do que fala e por que fala e também o que pode e o que não
pode dizer ou fazer desse lugar. Instaura também quem é o outro: interlocutor-
visitante, que vem buscar saber sobre Érico Verissimo e o museu. Afirmamos, com
isso, a sua atuação como porta-voz, que se constitui pelo imaginário excedente que
lhe permite assumir posicionamentos.
Nos dois textos analisados sob a perspectiva do museu como lugar de
memória, os efeitos de sentido de homogeneidade e literalidade se devem à
constituição do sujeito-objeto como identificado com a FD da
rememoração/comemoração, que representa o lugar da cidade. Nos dois textos, a
rememoração como texto fundante a partir da obra memorialística Solo de Clarineta
I e como memória, faz retornar sentidos estabilizados, que no fio do discurso
rompem com o mesmo e instauram o polissêmico, os sentidos-outros. A
possibilidade de ruptura de sentidos deve-se à impossibilidade de gerenciar a
comemoração, pela determinação do que é comemorado.
Buscamos responder no nosso texto duas questões de pesquisa. A primeira
se refere à constituição do objeto de rememoração/comemoração e a segunda
questiona os domínios de memória que funcionam nesse discurso. Pelos dois textos
analisados, podemos concluir, de forma parcial, referendando a constituição do
objeto como da ordem da opacidade, pois quando no fio do discurso ele é celebrado,
os discursos que se atravessam no eixo da formulação instauram dúvidas e
questionamentos. Em relação aos domínios de memória que funcionam nesse
discurso, ainda que de forma parcial, podemos dizer que domínios de memória
do político, na referência “à mansidão” e também do domínio do religioso, em
relação a essa mansidão. Além disso, a forte tendência doutrinária o filia a outros
domínios.
174
3 PROCESSOS DE IDENTIFICAÇÃO: O MESMO E O DIFERENTE
(...) Rafael era um rapaz empertigado, caminhava pisando duro com os
saltos dos sapatos, não escondia o seu desprezo para com a gente da terra,
que procurava por todos os meios escandalizar. Foi o primeiro a sair sem
chapéu, chocando os nativos. “Que desaforo!” – exclamavam as comadres -
-“Que desrespeito com as famílias!” (p. 119).
O segundo conjunto de textos constitui-se do lugar da Unicruz como um
espaço de memória, que funciona na rememoração/comemoração. Quatro textos o
compõem. Todos circularam nos anos de 2004 e 2005, respectivamente, no ano que
antecedeu o centenário e no ano do centenário do escritor. Em relação à
Universidade, é importante destacar a sua movência em relação ao Museu e ao
discurso de rememoração/comemoração e à memória de Érico Verissimo. No
período em que esteve como administradora do lugar, ela buscou identificação com
o escritor por meio do Museu. Chama nossa atenção que a instituição fez o caminho
inverso do que fazem outras instituições. o buscou aproximar-se do Érico
Verissimo e do museu, o que fez foi colocar nesses dois objetos as suas marcas.
Cada vez que apresentava Érico Verissimo ou o Museu, a universidade
apresentava-se. Os percursos discursivos desses textos encaminham para o
discurso de rememoração/comemoração pela constituição de traços de
identificação.
3.1 Relação cultura e herança
O texto em que a Unicruz apresenta-se como administradora do Museu e
cumprimenta os cidadãos cruz-altenses pelos 183 anos de emancipação política da
cidade (fig. 6) circulou no jornal Diário Serrano, de Cruz Alta, e também no jornal
Zero Hora, de Porto Alegre, em agosto de 2004. Nesse texto, os procedimentos
discursivos mobilizados aproximam Universidade – Érico Verissimo – Museu. O
efeito de proximidade entre os três lugares decorre do fato de eles ligarem-se à
175
cultura e ao patrimônio e também a gerações, com referência a sagas familiares.
Nesse domínio, cada um tem sua atuação e também legitimidade. Trata-se de um
texto publicitário, que se caracteriza pela saturação: a reiteração de traços de
identificação da universidade (cores, logomarca, slogan), do Museu e de Érico
Verissimo (assinatura, slogan, imagem), o que acarreta um efeito de que tudo
parece dito e repetido.
Constrói-se uma rede parafrástica que encaminha para o mesmo, sem o
diferente, que retorna ao lugar do já-dito, do plano da estabilização. A instituição não
busca no escritor os elementos de identificação constitutivos dele, ao contrário, ela
coloca os seus traços de identificação em Érico Verissimo e no Museu. A
universidade coloca-se no centro dos rituais de rememoração/comemoração,
marcando, no fio do discurso, sua presença, comemorando, junto com Érico
Verissimo, sua atuação e marcando seu lugar. A apropriação da imagem do escritor
legitima-se pelo domínio da cultura, no qual se inscrevem a Universidade, Érico
Veríssimo, e o Museu e que convoca espaços de memória relacionados à tradição, à
educação e à continuidade.
Figura 6 - Peça publicitária divulgada no aniversário de Cruz Alta - 2004.
A forma-sujeito, nesse espaço urbano, simula o intradiscurso como o puro já-
dito do interdiscurso. Com isso, articulam-se os dizeres constitutivos da rede
176
parafrástica, encaminhando o sentido para uma mesma direção: a simulação-
incorporação de um objeto em outro constitui uma relação de similaridade. Essa
simulação de absorção de uma memória pela outra assegura o recobrimento dos
dois objetos no fio do discurso e assegura pelo funcionamento metafórico a
possibilidade de um ser tomado pelo outro. Nessa construção, a Unicruz representa
a memória da cidade. Vemos esse efeito pela seqüência que segue:
Ele é um grande patrimônio, ele é nosso, mas vamos dividi-lo com todos.
A legitimidade desse dizer advém do discurso de, anterior, que retorna pela
rememoração como memória. O fato de ser filho de Cruz Alta, de pertencer a uma
família tradicional, de ter vencido por esforço próprio, de ter divulgado seu nome e o
nome da cidade, faz dele um patrimônio, que a universidade assume como seu, mas
vai dividir com todos. Nesse sentido, ser patrimônio significa referendar os princípios
ideológicos da instituição e da cidade. Significa também, ir ao encontro do imaginário
constitutivo da instituição, que se vê no escritor. Nesse imaginário, há o “todos”, com
o qual esse patrimônio será dividido. Cabe uma questão: quem são “todos”? A
população cruz-altense ou uma minoria constituída de sujeitos que se identificam
com a FD dominante a rememoração/comemoração que é invadida pelos saberes
da universidade, como lugar, ou com os valores culturais e sociais que representam
Érico Verissimo na cidade?.
A fim de “fazer crer” que vai dividir com todos e que tem legitimidade para
fazê-lo, , no eixo da horizontalidade, a definição da instituição e de Érico
Verissimo. Para “fazer-vero que vai ser dividido e para que “todos” acreditem na
“herança” e no “maior bem cultural”, visibilidade ao objeto, ao museu e a ela
mesma. A assinatura, a imagem de Érico Verissimo, a logomarca da universidade e
as cores que constituem a peça publicitária os autorizam a dizer o que dizem.
Podemos visualizar, com relação ao dito anterior, de um lado, a universidade, que se
representa como “nós”, e do outro lado, ocupando lugar análogo, Érico Verissimo e o
museu.
177
No esquema analítico acima, podemos observar dois objetos funcionando
juntos no eixo da formulação pela comemoração: UNICRUZ e Museu. Os dizeres
formulados na conjunção da rememoração (discurso de) e, da comemoração
(discurso sobre) sustentam, estabilizam e movimentam a memória. A primeira
rememoração é da ordem do mais inconsciente e funciona como memória para
que a segunda comemoração que é da ordem do mais consciente, faça sentido
na formação social pelo desejo de celebrar. No eixo da formulação, a memória que
constitui o discurso articula-se pelo atravessamento de outros discursos, ditos em
outros lugares, que retornam pelos rituais rememorativos/comemorativos.
Há, entre Érico Verissimo e Unicruz, uma relação de similaridade, que se
realiza pelo processo metafórico, em que um objeto pode ser substituído pelo outro.
O que rompe com essa similaridade é a dependência de um em relação ao outro,
isto é, a Unicruz se diz “administradora” dessa memória, e com isso, investe-se de
um poder dizer e fazer pela inscrição a um lugar e aos saberes que tornam possível
178
certos dizeres e impedem outros. É por essas filiações e pela relação a uma base do
dizível que os dizeres retornam sob a forma do já-dito, como a base do dizível.
Ao definir o escritor como ‘um grande patrimônio’, ‘uma herança que nos
orgulha’ e que ‘não tem fronteiras’, a universidade identifica-se com a FD que
institucionaliza o sujeito tomado como um “bem” cultural, assim como estabelece
relações com outros domínios do saber. A rede parafrástica instaurada pelos
enunciados definitórios faz ressoar os domínios de saber da tradição familiar e da
cultura, mais do que do saber escolarizado que a universidade representa.
Observemos o enunciado abaixo e os discursos que se atravessam nele:
Os três nomes - cultura, legado e gerações fazem funcionar espaços
discursivos relacionados à família e à tradição, àquilo que DaMatta denomina de
Casa e que tem como reverso a rua. Esse enunciado remete pelo funcionamento do
interdiscurso como pré-construído àquilo que todo mundo sabe, à saga familiar,
descrita por Érico Verissimo na obra O Tempo e o Vento, e na qual o escritor
representa a história da família Terra-Cambará e também a saga da família
Verissimo, em Cruz Alta, lugar onde se encontraram as duas famílias que deram
origem aos Verissimo
94
. Além da representação da família da ficção e da família de
Cruz Alta que não deixa de ser também uma ficção irrompe o discurso da
história e da memória do Rio Grande do Sul, representado na obra composta por
sete volumes, e que abarca um espaço temporal de duzentos anos.
94
Cf. Solo de Clarineta I.
179
No enunciado acima, e em relação a Érico Verissimo, a “saga” é a história de
famílias e também da cidade. Na obra O tempo e o Vento, o autor descreve a saga
da família Terra-Camba e as tradições de fundação do estado e das pequenas
cidades do Rio Grande do Sul. A narrativa da constituição de um tronco familiar traz
também outros discursos, os quais retomam valores políticos e filiações históricas
que se organizam em memórias desencadeadas tanto por narrativas como por
narratividades. A palavra “gerações” relaciona-se à família, uma ramificação após a
outra em um mesmo tronco, mas também faz funcionar espaços discursivos da
ordem do religioso. Em O Continente, primeiro volume da trilogia, uma epígrafe
do texto bíblico do livro de Eclesiastes (cap,1, 4 -6), em que observamos a relação
entre a terra, as gerações e o vento como coisas permanentes. O vento gira e volta,
as gerações vão e vem, mas não terminam. Assim também é o patrimônio e a
cultura.
Trata-se do retorno de um pré-construído um já-dito em outro tempo e lugar
- constitutivo do imaginário das sociedades, segundo o qual a “herança” maior é a
cultura. Esse sentido de herança é constitutivo do imaginário das sociedades e é
representado por Érico Verissimo quando a cidade comemora “cem anos” de sua
fundação. A maior herança é, então, a própria Universidade, como o lugar do saber
e como administradora da memória de Érico Veríssimo Ela investe-se da autoridade
de dividir esse bem com todos. O patrimônio representa a estabilidade de um objeto
que guarda em “si” os vestígios de um passado e faz trabalhar o imaginário da
formação social. O que é guardado nos museus transforma-se, segundo Catroga
(2001a), em história e não em memória. A primeira congela, e a segunda
movimenta, atualiza, mas não se deixa aprisionar. Entram em relação com a cultura,
a fronteira e conhecimento. Nesse sentido, observemos:
A Universidade convida a todos a cruzar as fronteiras do conhecimento
O enunciado acima reafirma a posição da instituição e a sua autoridade em
relação à herança cultural, constituindo uma rede parafrástica com os enunciados
anteriores que reenviam à herança - orgulho fronteiras. Essa herança é o
conhecimento e quem é autorizado a distribuí-lo, dividi-lo, é a Universidade, que
também é “o maior bem cultural” da cidade, uma vez que ocupa o lugar que
assegura um processo de legitimação do poder e dever convidar “todos” a
180
“ultrapassar as fronteiras do conhecimento”. Ocorre o atravessamento de
enunciados que, apesar da variedade da situação, retornam sempre ao mesmo
espaço do dizível, reafirmando o lugar da estabilidade. Dizer que Érico é a maior
herança e colocar em uma mesma rede a cultura, o legado, a herança e o
conhecimento remetem à dimensão humana do conhecimentoslogan da Unicruz.
A instituição de ensino superior, na verdade, se re-presenta e se apresenta
aos cidadãos cruz-altenses como o lugar da cultura. A administração do museu pela
universidade entra na ordem da evidência pelas relações parafrásticas estabelecidas
entre Érico Verissimo/Museu/Unicruz. Mesmo assim, os elementos constitutivos
dessa memória e da constituição desse lugar são polissêmicos e movediços.
Remetem a memórias relacionadas à família (herança, patrimônio) que por sua vez,
fazem irromper a Antigüidade, fechamento ou abertura, dependendo da FD e dos
lugares em que os sujeitos enunciadores e interlocutores se inscrevem. É importante
ter presente que a palavra “cultura” não remete sempre ao conhecimento obtido pelo
ensino formal. Ela designa também conhecimentos transmitidos sem interferência
deste, como o que é constitutivo na formação social. O mesmo ocorre com a palavra
gerações. Uma das possíveis inscrições dela é no texto bíblico em referência a
passagem do tempo, normalmente relacionado a centenário (“à geração que vem e
que vai”), mas também, como enfatizamos anteriormente, à saga familiar, a um
tronco e às suas várias ramificações. Colocadas juntas: cultura legado gerações
encaminham para o que se “recebe da família” e não é essa a herança que a
Universidade se propõe a deixar.
No mesmo eixo da cultura, inscrevem-se o patrimônio e a herança. Nesse
sentido, o patrimônio relaciona-se com a prática de preservação de monumentos. É
também uma prática social que incorpora um processo cultural, não apenas material
como também simbólico. Relaciona-se à identidade de grupos, principalmente,
quando associada à herança. Mesmo assim, vemos aí uma contradição, pois a
cultura da Universidade não é transmitida por herança, é antes uma conquista que
resulta do esforço do sujeito. Nesse sentido, ressoam vozes marcadas pela ilusão
referencial de “gerenciamento de sentidos”, ligadas a práticas sociais autoritárias.
No Brasil, segundo Abreu (2003), a função do patrimônio deixou de abranger
somente monumentos e objetos artísticos. O sentido ampliou-se e passou a
significar a relação com a sociedade e também com a cultura. No entanto, essa
relação não se restringe à Universidade, mas vincula-se também a outras
181
instituições. A relação do patrimônio/cultura/fronteira remete para a universalidade
e para o enunciado “cidadão de todos os continentes” que designa Érico Verissimo.
Em relação a essas ligações, coloca-se outra: “A Universidade convida a
comunidade a cruzar as fronteiras do conhecimento”, que aponta para o enunciado
“dimensão humana do conhecimento”, com o qual a universidade se inscreve.
No texto analisado (fig. 6), a Universidade se representa como “nós” e dirige a
“todos”, colocando-se como intermediária entre esse “todos”, atuando como sujeito
porta-voz, falando do lugar autorizado e em nome de, nesse caso, em nome do
Museu. O efeito de sentido desse processo é o da transmissão de conhecimento,
um pedagogismo legitimado nas instituições de ensino. Por isso, dissemos,
inicialmente, que a Universidade transferiu os seus traços de identificação para o
Museu e para Érico Verissimo. Ela não se apropriou somente, mas fundiu esses
traços e com isso “faz-crer” que os três objetos podem transformar-se em um só.
O texto analisado (Fig. 6), a Peça publicitária divulgada no aniversário de
Cruz Alta 2004, inscreve-se num discurso em que se atravessam discursos da
ordem do religioso, do familiar e também da cultura. Constitui-se pela filiação à
ordem familiar, em que a Universidade pode ser tomada como um tronco familiar,
em torno do qual aglutinam-se outros troncos e formam novas famílias. Nesse
sentido, o Museu é uma casa e a Universidade também o é. Nesse sentido, as
relações efetuam-se a partir do privado e deslizam para o blico à medida em que
o funcionamento da Universidade como um espaço de memória que se ancora em
outros espaços também teve sua origem e o seu funcionamento relacionado a
famílias, a uma espécie de saga.
Ressoa o enunciado do Eclesiastes (1, 5-6) no que se refere a gerações, e
no movimento incessante delas (vem uma, mais uma...) em um deslocamento
temporal que não cessa. A imagem que compõe a figura também encaminha para o
eixo da família, em que o sujeito vale pelas relações contraídas com outras famílias
e outros espaços.
182
3.2 Érico em Cena: o escritor
Quais são as figuras humanas, os objetos, as sensações e os
acontecimentos mais remotos de minha vida de que me posso lembrar hoje?
Sei, por ouvir dizer, que até a idade de dois anos usei e abusei da minha
condição de mamífero, sugando o seio materno e outros emprestados ou
alugados. [...] Por essa época a criança já caminhava e a fita magnética de
sua memória estava ainda praticamente virgem, pronta para registrar as
impressões do mundo (p.59).
Figura 7: Érico Verissimo – 100 anos de história – 2005.
Érico em Cena foi um dos projetos desenvolvidos no ano do Centenário. O
slogan do projeto foi “Um século de história”. Nesse caso, o escritor representa o
estabilizado, mas que se fecha com o centenário. A história é a reconstrução sempre
incompleta do que não existe mais, e tem, segundo Nora (1992), vocação para o
universal, pois nela não vozes particulares, mas a voz de todos. Neste trabalho,
contrapomos a história/memória. A primeira é da ordem do já-dito, que é repetido,
mas não se move. A segunda, ao contrário, é da ordem do vivido, mas que ainda faz
sentido na formação social. O enunciado “Cem anos de história” constitui-se a
rememoração por essa volta ao passado, mas foge da estagnação, uma vez que
traz para o eixo da formulação, via comemoração, o escritor e os espaços de
memória que seu nome e a relação com esse nome faz funcionar.
183
A universidade, responsável por esse projeto, comemora o escritor pelas suas
obras infantis, que tomamos como eventos discursivos, pois fogem do planejamento
e comemoram também o inesperado. Esses espetáculos o levados para as
cidades próximas a Cruz Alta (Ibirubá, Salto do Jacuí, Espumoso, entre outras), e se
legitimam pela posição da Unicruz na região e pela autoridade dela como instituição
de ensino. Colocar “Érico em cena” é dar visibilidade à obra e ao sujeito. As obras
focalizadas são infantis, mas no folder um fragmento de Arquipélago, uma das
obras que compõe a trilogia O Tempo e o Vento. Essa citação constitui um
procedimento de “fazer-crer”, e faz retornar a obra considerada mais importante do
escritor, pela qual ele é conhecido e reconhecido na formação social.
O reconhecimento da trilogia O Tempo e o Vento não significa que ela foi lida
por sujeitos interpelados pela rememoração/comemoração como lugar de memória
ou FD. Não significa, igualmente, unanimidade em torno dos saberes constitutivos
do lugar de memória, que se vincula aos discursos que retomam essa obra, via
discurso transverso. O que a tornou conhecida e faz com que signifique para os
cruz-altenses foi a veiculação da minissérie baseada na obra de mesmo nome,
veiculada pela Rede Globo de Televisão, na década de oitenta, e também a
relação que as instituições da cidade efetivam em torno da cidade fictícia dessa obra
Santa e Cruz Alta, além das semelhanças entre o sobrado, casa de Franklin
Verissimo em Cruz Alta
95
e o sobrado ficcional, casa onde vivia a família Terra-
Cambará.
Observemos o enunciado de chamada para o espetáculo “Érico em cena”:
A Fundação Universidade de Cruz Alta e a Fundação Érico Verissimo promovem
um grande circuito cultural com o objetivo de resgatar as obras do escritor...
Podemos visualizar no enunciado acima, que a UNICRUZ e a Fundação Érico
Verissimo colocam-se no mesmo nível como lugar de memória, cuja função é
organizar um sistema de constituição de arquivo, uma rede de difusão que faz
retornar enunciados, tornando-os disponíveis. O equívoco que se instaura nesse
enunciado advém da palavra resgate, que se relaciona ao lugar da história e não ao
lugar de memória. O lugar de memória não resgata obras. Ele trabalha em torno da
95
No anexo 1, do DVD encartado, nesse trabalho, há imagens do sobrado, casa dos avós de Érico
Veríssimo em Cruz Alta.
184
memória que faz sentido na formação social porque a memória, na perspectiva
discursiva, foge ao gerenciamento, esburaca-se e se transforma em rede de
sentidos.
Salientamos, nesse texto (fig. 7), as repetições: a imagem de Érico
Verissimo, como um processo discursivo não-verbal (pela qual irrompem memórias
das formações sociais), a sua assinatura, como um argumento de autoridade. A
recorrência da Unicruz e a sua inscrição no eixo da formulação como o lugar do
saber. Uma forma de assegurar esse lugar é filiar-se e inscrever-se à memória do
escritor como herdeira desse saber, por identificar-se ela própria com o patrimônio
cultural que ele é. O objeto deste texto é a “cena”, o “fazer-crer” pela visibilidade e
por designações, que nesse texto é: Érico Verissimo é um século de história.
Destacamos ainda, que o texto tomado como um evento discursivo constitui um falar
de e encaminha para o discurso de rememoração/comemoração como o discurso
sobre.
3.3 A presença e a ausência na constituição do sentido
Figura 8: Placa colocada em frente ao Museu – 2005.
Figura 9: O mesmo lugar – frente do museu – 2008.
186
A Unicruz assumiu a administração do Museu em 2004, e colocou-se em
todos os espaços relativos a ele, como autorizada a ser “o lugar” da organização da
memória e da distribuição dos saberes que a constituem. O texto (Fig. 8) da placa
colocada em frente ao Museu materializa esse funcionamento. Nela se pode ler:
Trabalhando para preservar a nossa memória
O verbo no gerúndio indica uma ação continuada, que se realiza “sem
cessar”, cujo sujeito é a Unicruz. Na imagem, é dado mais destaque para a
universidade do que para o Museu. A imagem de Érico Verissimo sinaliza para o
fato de que não é o espaço físico do Museu que está sendo preservado, mas a
memória do escritor, como patrimônio, que nesse sentido, significa memória. Pelo
contexto sócio-histórico daquele momento e pela história da Fundação Érico
Veríssimo, nessa placa, silêncios, o-ditos que significam na forma do
silêncio constitutivo, que indica que é preciso não dizer para significar e que uma
palavra apaga outras palavras. Expliquemos com mais detalhes essa relação e
como referimos a ela. Na delimitação do tema, enfocamos a fundação do museu,
e como ela ocorreu em três tempos diferentes:
1. Volta de Érico Verissimo a Cruz Alta para doar objetos pessoais e
culturais
96
.
2. Projeto de Lei de desapropriação do prédio, encaminhado pelo executivo
municipal.
3. Em 1969 inauguração do museu, na casa onde o escritor nasceu - primeiro
texto trabalhado
97
.
Do dito anterior, podemos concluir que desde 1969, o museu era administrado
pelo Poder Público Municipal. Em 2003, com o falecimento de Mafalda Verissimo
responsável pelo acervo o filho Luis Fernando Verissimo transferiu à Unicruz o
poder de administrar a casa. Entendemos que no enunciado “Trabalhando para
preservar a nossa memória” irrompe o discurso da não-preservação, do não-trabalho
em prol da memória e do patrimônio por parte do poder público de município, que
96
Cf. anexo 2 do DVD, encartado nesse trabalho.
97
Segundo capítulo (2.1) desta terceira parte.
187
fora aentão, responsável pelo museu e pela memória do escritor. O nosso gesto
interpretativo nessa direção sustenta-se no texto (Fig. 9) em que uma fotografia
tirada, em 2008, do mesmo local em que estava a placa colocada pela Unicruz, em
2005 (cf. fig. 8) registra a ausência dela. Na frente do museu o palanque de
concreto vazio. A “falta” funciona como “uma presença na ausência” (Courtine,
1999). Mesmo a Unicruz não estando “em presença” naquele espaço, ela continua
fazendo sentido lá, mais sentido do que quando se colocava como administradora
do museu, como aquela que estava trabalhando para preservar a nossa memória.
Entendemos que os procedimentos de “fazer-crer” funcionam como formas de
tornar visíveis objetos e eventos no espaço da cidade. Esses procedimentos são
produtivos na construção de evidências, pois simulam a transparência dos sentidos.
Destacamos, entretanto, que na perspectiva discursiva nem só o que é visível
significa. Para significar e irromper no eixo da formulação não é necessário “estar
lá”. A inscrição em um domínio de memória e no interdiscurso saber não
relacionado a sujeitos, lugar onde “fala uma voz sem nome”, (Courtine, 1999) - é
determinante para o “fazer-memória”.
Nesse sentido, a memória discursiva “esburaca-se” e se transforma em
“paráfrases”, não necessitando que se “trabalhe” para a sua preservação. Tanto
Érico Verissimo como a Unicruz são memórias e se constituem por uma
rememoração um discurso de nos dois sentidos colocados inicialmente nesse
trabalho. Os discursos retornam pelos funcionamentos do pré-construído,
especialmente pela articulação (sustentação) que irrompe no fio do discurso ou pelo
discurso transverso, efeito de atualização que se pelo atravessamento de uma
memória anterior no eixo da formulação. As repetições decorrem da imagem do
escritor, da sua assinatura, da logomarca da universidade e a predominância das
cores pelas quais ela se designa.
188
3.4 Patrimônio: recordação e preservação
A decisão de deixar Cruz Alta era de natureza intelectual. Emocionalmente eu
queria ficar. Fosse como fosse, embarquei dois dias depois. Meu tio Americano
emprestou-me quinhentos mil-réis o que me habilitaria a pagar a passagem
de trem e o primeiro mês de hotel. Meu futuro sogro teve suficiente confiança
em mim para me emprestar uma máquina de escrever portátil. E assim, num
certo dia luminoso e quente de dezembro de 1930 lá fui eu (p. 234).
Figura 10 - Divulgação do museu pela Universidade de Cruz Alta e Fundação Érico
Verissimo.
189
No eixo da formulação, as imagens que sustentam o dizer. A fotografia
funciona como uma memória “presente” e a citação retirada da obra “Solo de
Clarineta I”, funciona como uma das destacadas formas de “fazer-crer”.
Observemos:
Aos poucos e estranhamente, eu me afeiçoava à minha casa pessoas, veis,
quadros, salas, objetos sentindo que ela era o meu porto seguro, o meu refúgio, o
meu recreio, um mundo muito meu, dentro do grande mundo dos outros.
A citação acima, constitui um efeito de autoridade, é uma das formas de
“fazer-crer”, e nesse texto, ela sinaliza para a representação da casa para Érico
Veríssimo, e também para a representação do museu que entra em relação
metafórica com essa casa “deve” significar para os cidadãos cruz-altenses. A fala
imputada ao escritor, representa-o na ordem do imaginário, mas quem fala é a
personagem criada por ele em uma obra de ficção, que apresenta uma versão da
vida de Érico Verissimo. Essa narrativa sofre coerções do próprio escritor, da
instituição e também da memória. Há, nela, fatos apagados e outros
supervalorizados. O tempo transcorrido entre a escritura e os acontecimentos
narrados faz com que eles distanciem-se da realidade, mesmo a imaginária. Além
disso, a escolha da citação retirada do texto autobiográfico é da ordem do
consciente e encaminha para determinados efeitos de sentido.
Nesse texto (fig. 10), a palavra de ordem é “para lembrar é preciso preservar”,
cujo funcionamento, de acordo com o que dissemos anteriormente, é contraditório e
instaura o equívoco, pois a memória não necessita de um lugar. Se assim fosse, ela
seria o lugar da história. Segundo Nora (1984), o lugar de memória é ao mesmo
tempo material, funcional e simbólico. Ela é material, como espaço físico, que tem
uma função de organizar arquivo, no entanto, para se constituir realmente em lugar,
é necessário entrar na ordem do simbólico, representando valores do objeto de
comemoração.
A citação que reforça o efeito de pertencimento de Érico Verissimo à casa e é
uma escolha da instituição. Nesse texto, a supervalorização da casa e isso faz
lembrar o que foi esquecido, apagado: a perda da casa, as dificuldades financeiras,
a saída da cidade. Essas rememorações reforçam “o sofrimento” com a perda da
casa. Com relação ao funcionamento da imagem junto aos enunciados verbais é
190
importante observar os outros objetos que a compõem: a máquina fotográfica e o
olhar “intelectualizado” do escritor.
O lugar de rememoração/comemoração é, nesse texto, o museu e por
extensão o escritor, que venceu todos os obstáculos, funcionando na formação
social como objeto a e objeto do desejo, e faz sentido porque suscita nos
sujeitos/cidadãos o desejo de ser forte como ele, de vencer na vida como ele venceu
e de ser conhecido como ele o foi, tanto na cidade, como em outros continentes. A
repetição o constitui como sujeito rememorado/comemorado é a repetição, que
significa no interdiscurso como memória e no eixo da formulação, assumindo
sentidos outros. Nos jornais, nas placas e nas emissoras de rádio da cidade o
enunciado “Cruz Alta: terra de Érico Verissimo” constitui no fio do discurso a
repetição e o efeito de pertencimento resulta daí e das versões narrativas do que foi
a sua vida e os valores que elas sublinham, isto é: o amor a casa, à família e a sua
gente.
Pelo lugar que ocupa na formação social e pela importância dada ao ensino,
a universidade desempenha um papel de destaque no discurso em análise.
Representa um lugar de autoridade, uma das características para a formulação do
discurso sobre, que transforma em objeto aquilo sobre o que fala. No contexto
comemorativo do centenário do escritor, a Unicruz apropria-se das funções que
deveriam ser desempenhadas pelo município. Isto inclui, por exemplo, assumir a
administração do Museu Érico Verissimo e colocar-se como porta-voz da formação
social. Na maioria dos textos relativos ao centenário (inclusive a divulgação do
museu) e nos ritos comemorativos desenvolvidos em 2005 – centenário do escritor
a UNICRUZ coloca-se como responsável pelo que é dito e também pelo que deixa
de ser dito.
A legitimação dessa apropriação deve-se às determinações sócio-ideológicas
da formação social e à inscrição da instituição universitária aos domínios de saber
relacionados à cultura e à preservação dessa cultura, que permite a ela dizer ou
fazer o que faz. Na FD dominante, a da rememoração/comemoração, a instituição
constitui um patrimônio social e cultural da cidade, como referenda a historicidade
constitutiva do espaço urbano.
191
3.5 Unicruz: um espaço de memória
As repetições constituem redes parafrásticas e são constituidoras do sentido.
É isso que buscamos retomar nos quatro textos advindos da Unicruz, como um dos
lugares que sustentam a rememoração/comemoração. Em todos eles, a
Universidade coloca as suas imagens, cores e palavras de ordem. No primeiro texto
trabalha com cultura, patrimônio e herança, que são os três sintagmas que recobrem
o Museu. É importante destacar que não se trata apenas de palavras, mas de
memórias. Essas memórias constituem-se pela rememoração, como discurso de,
que é da ordem do mais inconsciente. Esse discurso evidencia um sujeito
desejante, que se constitui pelo efeito de espelhamento, pelo qual os
sujeitos/cidadãos se “vêem” a partir dos efeitos de identificação e representação
instaurados por esse discurso. Nesse sentido, os dizeres repetem o mesmo no
diferente, constituindo uma rede parafrástica, inscrevendo em um mesmo domínio a
cidade e o objeto de rememoração/comemoração.
No segundo texto, a discursividade constitui-se por meio do enunciado “Érico
em cena: cem anos de história”. A imagem e a assinatura que se repetem
constituem o que chamamos de enunciado-imagem por funcionarem como
memórias e por significarem de acordo com as redes de memória constituídas pela
filiação dos sujeitos a lugares e posições.
No terceiro texto, a palavra de ordem é “Trabalhando para preservar a nossa
memória”. A imagem de Érico Verissimo como enunciado-imagem constitui a
repetição. Os óculos é um dos componentes desse enunciado e o filia ao domínio da
cultura e da intelectualidade, fortalecendo os traços entre ele e a universidade, como
uma recorrência. Esse terceiro e o quarto textos convidam os sujeitos/cidadãos a
visitarem o museu, que designamos como o lugar de memória que organiza os
dizeres e saberes em torno do escritor. Nesses textos:
192
Nos textos analisados, retomamos vários funcionamentos discursivos de
constituição da rememoração/comemoração como prática discursiva da Unicruz
como um espaço de memória. Um dos procedimentos é a definição, cujo
funcionamento delimita o alcance do objeto definido. Discursivamente, ela deixa
entrever o sentido que escapa, e apesar das coerções instituições promove o
cruzamento de discursos, fazendo funcionar no eixo da formulação, domínios de
memória de ordens distintas. Nesse aspecto, “os sentidos das palavras, sua
definição, não são dados pela realidade natural, mas são construídos num processo
discursivo, histórico-social pelo qual os sujeitos se constituem e se relacionam com a
realidade, com o mundo”. (Rodriguez-Alcalá, 2003, p. 67).
O gráfico analítico da página anterior possibilita a visualização de como Érico
Veríssimo é definido no discurso da Universidade de Cruz Alta e também como a
Universidade se define, pois ela se constitui pelo efeito de espelhamento destacado
anteriormente. Essas definições visualizadas sinalizam para a representação do
sujeito em termos discursivos, e em relação a sua inscrição em domínios de
memória, que contribuir para a representação da Universidade, e para a delimitação
do o alcance de sua atuação. Entretanto, os sentidos deslizam, e por isso, não se
pode tomar os enunciados definitórios em sua literalidade, mas buscar os espaços
de memória que eles convocam e os deslocamentos e rupturas que se instauram
pelo discurso.
Dissemos que o sujeito no discurso de rememoração é um sujeito desejante e
que instaura o efeito de espelhamento, o desejo de ser igual ou semelhante a.
Nesse funcionamento no discurso de rememoração/comemoração o dizer constitui-
193
se a pelo sujeito porta-voz, o qual se representa no fio do discurso como “nós”,
sinalizando para a posição–sujeito daquele que fala em nome de e inclui nesse dizer
os sujeitos/cidadãos do espaço urbano, dando visibilidade aos processos de
identificação. Nesse sentido, exerce função de enunciador e de intermediário entre a
instituição e a formação social, incluindo-se no discurso e incluindo também os
sujeitos/cidadãos pelo pronome “nós”.
194
4 EFEITO DE ESPELHAMENTO E IMAGINARIO URBANO
Figura 11- Ônibus que circula pela cidade 2005-2008
Figura 12 - Portal da Prefeitura Municipal de Cruz Alta - 2006.
195
4.1 O homem do espelho vai às vilas
Antes de ir para a cama, à hora de escovar os dentes junto da pia,
encontrei o Outro no fundo do espelho e interroguei-o com o olhar.
“Puxa pela memória homem” respondeu-me ele “nos teus 20 anos
achavas que psicologicamente D. Bega não havia ainda cortado o
cordão umbilical que te prendia a ela”... (p. 347)
O Poder Público Municipal planejou e executou, atendendo a interesses
institucionais do espaço urbano e da rememoração/comemoração, como lugar de
memória e FD dominante, a constituição do museu. Nesse sentido, “trabalhou” para
a “criação de sujeito que atendesse à demanda do espaço urbano”, colocando-o em
cena no momento em que a cidade perdia espaço para as demais cidades da região
e que isso aconteceu quando a cultura do trigo que representava a “fecundidade da
terra gaúcha”
98
entrou em franca decadência e acabou aprofundando as diferenças
sociais. Érico Verissimo, filho da terra, escritor de sucesso, membro de família
tradicional ocupa esse lugar. Esse processo, no entanto, ocorre aos poucos, como
podemos ver no documentário de inauguração do museu
99
.
Inicialmente, Cruz Alta era comemorada como a “terra de”, porque nela
promoviam-se os “reencontros”. Somente depois da morte do escritor, em 1975, as
comemorações em torno do seu nome iniciaram como discurso sobre, que num
movimento cíclico da memória passou a discurso de, fazendo funcionar eixo da
formulação a rememoração/comemoração. Nesse período, institucionalizou-se o
slogan “Cruz Alta Terra de Érico Verissimo” e foram colocadas placas em todas as
entradas da cidade, identificando-a como a “terra de”.
No ano anterior ao centenário de Érico Verissimo (2004), houve uma ruptura
no cenário político da cidade de Cruz Alta. A estabilidade rompe-se e instauram-se
novos sentidos. De acordo com as memórias de Érico Verissimo, a cidade sempre
foi “um burgo republicano”, isto é, estava do lado da ordem instituída e continuou
assim. No entanto, em 2004, o Partido dos trabalhadores (PT) venceu o pleito
municipal e assumiu a prefeitura em 2005. Com isso, o Érico Verissimo
rememorado/comemorado até então não é mais o mesmo: o poder público
acrescentou ao personagem outros valores, relacionados à ideologia do Partido.
Dois acontecimentos marcam esse novo período: a primeira é a retomada da
98
Cf. anexo 1, capítulo 2, do DVD.
99
Anexo 1, capítulo II do DVD, encartado nesse trabalho e que analisamos no capítulo 2, item 2.1
desta terceira parte.
196
administração do museu pelo município, em 2005 ano do centenário. A segunda
foi o redirecionamento nos ritos de rememoração/comemoração do centenário do
escritor, aproximando o sujeito rememorado/comemorado dos sujeitos/cidadãos que
não se identificam com os valores representados pela Universidade, porque estão
fora dela, constituindo aqueles que Orlandi define como o “excesso”, como aqueles
que se caracterizam por ocupar o não-lugar, mais precisamente, como os sujeitos
que ocupam as vilas e periferias da cidade e ficam nas margens.
Podemos dizer que houve um deslocamento na circulação e formulação dos
textos advindos do Poder Público Municipal em 2005. A universidade divulgava o
centenário e o escritor através de folders, outdoors e publicações nos jornais (Diário
Serrano e Zero Hora, este último de circulação estadual, também por meio de
espetáculos teatrais apresentados nas cidades vizinhas, conforme texto (fig. 7).
Esse material de divulgação não atinge igualitariamente aos sujeitos da formação
social: os cidadãos que vivem nas vilas não têm acesso a ele, e por isso, ficam
alheios aos ritos comemorativos. O poder Público, em parceria com a empresa de
transportes Urbanos Nossa Senhora de Fátima colocou em dois ônibus da sua frota
um painel com uma imagem de Érico Verissimo e enunciados que remetem à obra O
Tempo e o Vento, (conf. fig. 11). O deslocamento a que nos referimos é que o
sujeito que constitui o imaginário urbano sai do papel e vai para a vila. Os
sujeitos/cidadãos da periferia podem vê-lo e “se ver” na imagem dele, que os
representa, não mais como filho de família tradicional e rica, mas como o maior
contador de histórias. O enunciado que recortamos é então:
Este é nosso maior contador de histórias
Esse enunciado representa um deslocamento importante, pois Érico
Verissimo, como objeto de rememoração/comemoração, vinha sendo até então,
representado pela sua relação com a Casa, nos termos em que DaMatta a relaciona
aos privilégios advindos das relações familiares. A partir desse deslocamento
alcança as ruas - espaço público e passa a ser representado como “cidadão”,
como aquele que está sujeito ao exterior, o que está fora da casa, o exterior. O
pronome “este” constitui, junto com os enunciados-imagem que retoma o escritor
(imagem e assinatura, f. 11), o efeito de sentido de presença, de reforço, de
participação, de pertencimento.
197
Nos textos veiculados pela Unicruz, o escritor representava o intelectual,
sempre com os óculos ou uma caneta, na mão, e às vezes, acompanhado da
máquina de escrever. Nesse enunciado-imagem, ele não tem nenhum objeto na
mão que o inscreva aos domínios da intelectualidade. Por esse enunciado constitui-
se a simulação de um “olhar” sobre o espaço urbano. Esse efeito de presença
ocorre também pela altura do ônibus e pelo local onde está o texto: no vidro de trás
do ônibus. É como se Érico Verissimo estivesse sempre “vendoos conterrâneos e
eles estivessem “se vendo nele”, materializando o efeito de espelhamento, que se
repete também em outras materialidades discursivas.
Além do “este” e dos enunciados-imagem constituídos pela fotografia e
assinatura, destacamos o a designação “O contador de histórias”. Ser contador de
histórias não significa ser erudito, pelo contrário, o “contador” aproxima-se dos
sujeitos-interlocutores. As histórias “contadas” remetem ao popular pela estrutura
simples e pela aproximação com a oralidade. É o falar do povo. Esse enunciado
aproxima o escritor das camadas populares e faz irromper no fio do discurso a
história da cidade, aproximando-a das cidades fictícias de O Tempo e o Vento,
especialmente de Santa Fé.
Essa aproximação ocorre pelo atravessamento do discurso por outros
discursos. Esse efeito decorre do funcionamento do interdiscurso pelo efeito do
discurso transverso em que discursos se atravessam e fazem retornar os valores
constitutivos do gaúcho, o qual está representado ficcionalmente na trilogia em que
a saga da família Terra-Cambará participa de acontecimentos históricos que
envolvem o Rio Grande. Por esse atravessamento são representados alguns fatos
da história do Rio Grande do Sul, como traços de identificação entre os sujeitos
ficcionais e os sujeitos da cidade. A entrada da obra ocorre pelas palavras:
Esses dois sintagmas remetem à obra, e nesse texto, definem o escritor,
constituindo traços ideológicos que relacionam o partido político que administra a
cidade e os sujeitos/cidadãos urbanos, especialmente os da periferia. Observemos
os enunciado constitutivos dessa materialidade:
198
Nesses enunciados funcionam outras memórias, que se inscrevem em outros
espaços discursivos e encaminham para a naturalidade, o toma do mundo
empírico, mas que faz sentido para os sujeitos que se contra-identificam com os
rituais desencadeados pela rememoração/comemoração, como lugar de memória e
como FD dominante, que dão visibilidade a valores que não os constituem. Para
eles, a memória do escritor representa o que eles não têm, mas gostariam de ter:
prestígio, riqueza, sucesso.
A contra-identificação ocorre, porque nesses segmentos da formação social,
o sucesso é visto como natural para os filhos de famílias tradicionais, e impossível
de ser alcançado pelos segmentos menos favorecidos socialmente. Essa reflexão
permite pensar que “todos”, designados pela UNICRUZ (Fig. 6), inclui os sujeitos da
que se identificam com a cultura escolarizada e têm acesso ao “mundo da escrita”.
Vemos aí, outra vez, o funcionamento do sujeito desejante, que se constitui pelo
efeito de espelhamento, isto é, os sujeitos vêem no outro o ideal de eu. Mas o que
eles vêem no espelho (ônibus) é uma figura de serenidade, de perenidade, de
liberdade e de imortalidade. Esses valores constituem o escritor como objeto a e
objeto do desejo dos sujeitos que se filiam à FD da rememoração/comemoração,
que é nesse discurso o lugar de memória no discurso como prática discursiva. Não
se trata de uma falta materializada, mas daquilo que o personagem (Érico
Verissimo) representa.
O discurso de a rememoração remete à dimensão não-linear do dizer, ao
interdiscurso e retoma o lugar do já-dito e significado em outro tempo e lugar. Nesse
sentido, dizemos que o discurso de, é da ordem do mais inconsciente, porque não
há como controlar os espaços de memória que ela trabalha e os espaços de
memória que convoca. Ela estabiliza o dizer, mas ao linearizar-se no fio do discurso,
como discurso sobre, ancora-se em uma memória anterior e aí e as repetições
instauram a polissemia, o novo, o diferente no mesmo. O discurso sobre, mesmo
199
sendo da ordem do mais consciente, constitui-se na tensão entre o já-dito do
interdiscurso e o dito no eixo da formulação. O dizer re-inscreve-se no intradiscurso
pelas filiações interdiscursivas. Essa re-inscrição é determinada pelos domínios de
memória por meio dos lugares, que atualizam a memória discursiva e facilitam a
interpretação/compreensão da materialidade textual como discurso. Dizemos que
quem assina o texto responde pelo que é dito, mas não pelos sentidos instaurados,
esses resultam do trabalho da memória discursiva, lugar de funcionamento da
memória e da atualidade.
três inscrições nesse texto (fig. 11): a Empresa de Transporte Urbano, a
Administração do Município e a Coordenadoria Municipal de Cultura. Esses lugares
são sobredeterminados pela “Administração 2005-2008”. O brasão oficial do
município de Cruz Alta funciona como marca de responsabilidade pelo que é dito, e
traz para o fio do discurso a cidade como instituição, como um órgão independente
de partidos políticos. Não a inscrição do Partido dos Trabalhadores no discurso.
No entanto, pelo funcionamento do pré-construído como discurso transverso,
irrompem discursos vindos de outros lugares, que se filiam ao redirecionamento dos
ritos comemorativos à ideologia do Partido Político, que assumiu a administração
municipal. Por esse discurso, que irrompe no eixo da formulação, o pré-construído
pelo efeito do discurso transverso a memória que recobre os governos e as
ideologias dos governos populares irrompem no fio do discurso, especialmente pela
inclusão das camadas populares e na defender do direito delas terem acesso aos
bens culturais. Nesse sentido, Érico Verissimo vai às vilas, enquanto objeto cultural,
que é. Quando o discurso tem origem na universidade, esse bem cultural é de outra
ordem e não afeta a todos igualmente, como destacamos anteriormente.
4.2 Na casa do povo: o contador de histórias
O texto (fig. 11) que circula no ônibus, desde 2005 sinaliza para a mudança,
pois como dissemos “o homem do espelho vai às vilas”. É possível compreender as
razões dessas mudanças, as quais destacam o Poder Público Municipal e não as
marcas do PT, como partido político ou da Universidade como o lugar da cultura ou
o Museu como o lugar que organiza a memória do escritor. Esse texto volta no texto
200
veiculado pelo Poder Público Municipal (fig. 12). O suporte material onde esse texto
circula é o portal da Prefeitura Municipal, que representa, na ordem do imaginário, “a
casa do povo”. Nesse aspecto, na ordem do imaginário, o escritor ocupa o lugar “da
esquerda” .
O suporte material é um banner. Os enunciados verbais são aparentemente
os mesmos dos veiculados pelo texto anterior (Fig. 11). À primeira vista, parece ser
o mesmo texto. No entanto, não é assim. Em primeiro lugar, porque mesmo que os
enunciados verbais fossem idênticos, e a disposição gráfica das imagens também, o
texto não seria o mesmo porque mudaram as condições de produção e os sujeitos
do discurso. Entre as diferenças está o efeito de espelhamento no texto que circulou
no vidro do ônibus. Nesse segundo texto, não nem espelhamento, nem a
circulação pelas ruas da periferia, o texto está um espaço estático, que significa
pelas filiações e pelos domínios de memória que convoca, até porque o prédio da
prefeitura é um dos objetos culturais da cidade.
Além disso, esse banner, ao ser colocado no portal da Prefeitura coloca em
um mesmo espaço os sujeitos/cidadãos da cidade e o escritor, que é, na ordem do
simbólico e do imaginário o objeto do desejo deles. Esse funcionamento discursivo
constitui efeitos de sentidos de filiação identitária entre aqueles que administram o
espaço urbano, os sujeitos urbanos e o objeto rememorado/comemorado. Nesse
segundo texto, também o funcionamento do sujeito porta-voz que se delega o
“direito” de falar em nome de por meio do lugar político. A filiação política presente
nesse texto, cuja responsabilidade é delegada ao porta-voz e que não está no texto
anterior é:
Reescrevendo a história.
Nesse texto (fig. 12) funciona juntamente com este enunciado, como vestígio
do discurso político e da ruptura com a estabilidade do acontecimento
comemorativo, o brasão do município, que o é o oficial, mas o que identifica o
Partido Político que administra a cidade. No texto (fig. 11), que circulou no ônibus
urbano, o brasão utilizado é o oficial, aquele que aparece nos documentos
expedidos pelo município oficialmente, independentemente do Partido Político que
201
está no poder. No brasão oficial estão representadas a agricultura (trigo: cultura de
destaque na cidade) e a pecuária, e no brasão utilizado pelo PT, a cidade de Cruz
Alta é representada pela cruz, que designa a cidade e a história dela. Essa cruz está
colocada no lugar mais alto da cidade, no planalto, e representa a posição espacial
de Cruz Alta. As cores destacadas nele o o amarelo (que representa o trigo) e o
vermelho (cor do Partido dos Trabalhadores). O enunciado destacado anteriormente
“Reescrevendo a história” sinaliza para a mudança, a qual inclui fatos relativos à
memória enquanto história da cidade. Reescrever remete a uma nova interpretação,
inclusive das questões sócio-político-históricas do município, talvez da memória,
objeto de rememoração/comemoração e dos espaços discursivos que ela faz
funcionar.
A circulação desse texto no portal da Prefeitura sinaliza para a entrada dessa
memória na vida pública. No entanto, essa entrada rompe com o estabilizado, e
ocorre por uma re-escritura da história. O que é ressaltado pelos enunciados que se
repetem é a imortalidade, a liberdade e a esperança. Essas três palavras, juntas,
remetem para a história do Rio Grande do Sul, que é constituído por lutas pela
liberdade e pela esperança, que vem dos revolucionários, daqueles que não se
filiam a partidos políticos, mas à revolução e à resistência que possibilita a
transformação.
É relevante, nesse funcionamento, a atuação de um partido político na
rememoração/comemoração e a posição do banner no portal da prefeitura. A re-
escritura da história pode estar ligada a essa entrada do PT, mas pode também
remeter ao próprio Érico Verissimo, e ao que ele representa na/pela cidade. Esse
discurso institui um rompimento com os valores rememorados/comemorados,
especialmente “a mansidão”, presente na primeira materialidade analisada. Por
último, destacamos que o verbo “re-escrever” está no gerúndio, e isso traz para o
eixo da formulação o efeito de sentido de trabalho incansável, continuado.
Em relação a este texto (fig. 12), salientamos a posição dos enunciados e das
imagens destacam-se a cidade e o escritor, que no eixo da formulação
desencadeiam o efeito de sentido de uma disputa por lugares. Além disso, há que
se referir ainda à disputa pela administração entre o Poder Público e a UNICRUZ.
As práticas discursivas do poder público sinalizam para isso. O primeiro indício foi a
retirada da placa da Unicruz da frente do museu. A segunda foi o texto colocado no
ônibus (fig. 11), que sinalizou a popularização do centenário. A terceira foi a
202
colocação do banner na prefeitura. Estas práticas discursivas constituem formas de
marcar o lugar, a posição em relação à rememoração/comemoração.
4.3 O funcionamento da mídia
Elegemos a Mídia como o quarto funcionamento do lugar da memória, como
o lugar da atualização de saberes e de dizeres. Este conjunto de textos é constituído
por quatro peças publicitárias. Entendemos, que pela distância temporal em relação
ao eixo da atualidade, essas peças publicitárias constituem discursos de e
funcionam como memória. Trata-se de textos publicitários não-institucionais em que
o escritor e a sua obra funcionam como argumento para “fazer-crer”. Pensamos nos
procedimentos de constituição de Érico Verissimo como uma marca, utilizada como
força midiática para divulgar espaço na TV a cabo, nos prédios e na própria cidade
de Cruz Alta como “a terra de Érico Verissimo”.
A partir de 1969, o nome Érico Verissimo começou a aparecer na Mídia e uma
das razões disso foi a compra da casa em que nasceu pela Prefeitura de Cruz Alta e
a transformação desta em Museu. Outra razão, a partir de 1975, foi a inscrição do
escritor e da cidade no interdiscurso como se um e outro fossem o mesmo pelo
processo metafórico. Por este processo, ocorre a substituição de um objeto empírico
pelo outro. Um dos procedimentos de constituição dessa aproximação foi o
mobiliário social em torno do seu nome, de suas obras e de seus personagens,
dando a ele espessura material e tornando-o visível, como uma marca
100
, que talvez
identifique e signifique homogeneamente os cidadãos da cidade, de tal forma que
quem chegar à cidade perceba logo, que essa é a terra de Érico Verissimo.
Segundo dados da NPC Publicidade e Propaganda, agência de Cruz Alta,
esse processo teve início quando a Arauto Publicidade, de Porto Alegre, dirigida por
João Firme de Oliveira, responsável pela conta da Feira Nacional do Trigo (IX
Fenatrigo), convidou Érico Verissimo e sua família para vir a Cruz Alta. O objetivo do
100
Segundo os publicitários Denise e Newton Cullau, em palestra em que abordam a força midiática
de Érico Verissimo em Cruz Alta, a marca, nos domínios da publicidade e propaganda, ultrapassa a
simples representação gráfica de uma empresa, produto ou serviço. Ela serve como intermediária ou
facilitadora das escolhas dos consumidores, funcionando como um comparativo indiscutível entre as
opções disponíveis no mercado. Com isso, agrega valor ao produto.
203
convite foi colar o nome do escritor ao evento e chamar a atenção do público. a
imagem do escritor, sujeito empírico funcionou nesse evento, como sujeito porta-voz
da cidade, dono da terra. Um dos efeitos de sentido do nome do escritor como
marca foi a popularização do seu nome. Segundo Cullau, na palestra proferida em
2004, na Unicruz, o escritor é uma marca sólida e bem estruturada para vender a
cidade.
Nesse tempo, Érico Verissimo era apenas um cidadão, filho de Cruz Alta, de
quem a cidade se orgulhava. O fato de ser um escritor de sucesso ajudava na
consolidação da sua imagem. O discurso que se atravessa e ressoa no eixo da
formulação é o da família, da casa na cidade. Antes de ser escritor de sucesso, ele
era filho de família tradicional, conhecida e destacada na cidade. Nos textos
publicitários, o nome do escritor nem sempre é explicitado. A referência a ele se faz
por meio de objetos: o museu, a porta do museu, ou por referência à obra. Nessa
perspectiva, a trilogia O Tempo e o Vento
101
é a mais citada pela Mídia.
Destacamos, nesse espaço, apenas quatro peças que ilustram a constituição do
imaginário urbano pela Mídia, o objeto de rememoração/comemoração e os
domínios de memória que funcionam no discurso.
101
A obra “O Tempo e o Vento” e as memórias que ela suscita irrompe como um conhecimento da
ordem do “sempre-já significado” nos textos analisados. Entendemos ser importante referir que Érico
Verissimo, ao nomear a trilogia, construiu outro texto, no qual busca relacionar Continente, Retrato e
Arquipélago. Denominou a primeira parte da trilogia, composta de dois volumes, de O Continente,
representando o todo das formações discursivas constituídas pela obra. Em O Retrato (dois volumes)
traça um perfil do espaço, através de duas famílias: Terra e Cambará. A última parte da trilogia, O
Arquipélago, compõem-se de três volumes, referido à composição da sociedade em muitas ilhas,
que se transformam em um arquipélago conjunto de ilhas. Com isso, aglutina o individual
(sociedades diferenciadas) ao social.
204
4.3.1Discurso transverso: O Tempo e o Vento
Figura 13 - Peça publicitária desenvolvida pela agência NPC, de Cruz Alta, para divulgar a coleção
de relógios Guitel.
A atuação da Mídia em torno do nome de Érico Verissimo constitui-o como
personagem na cidade de Cruz Alta, quando ainda era vivo, e depois de sua morte,
esse processo intensificou-se. Um dos procedimentos dessa transformação foi o
mobiliário social que lhe deu visibilidade, e o legitimou como “filho da terra”. A Mídia
passou a utilizá-lo para vender os mais diferentes produtos: apartamentos, seguros
de vida, TV a Cabo, Relógios, dentre outros. Destacamos a peça publicitária dos
relógios Guitel, de 1982, quando a NPC, agência Publicitária recém chegada em
Cruz Alta, lançou a coleção de relógios de mesmo nome. Essa coleção foi
designada O Tempo e o Vento, nome da trilogia que começou a ser publicada em
1948, talvez não com referência explícita à obra, mas como um enunciado que se
repete e constitui uma rede parafrástica em torno dele. Da peça publicitária
destacamos o seguinte enunciado:
205
O Tempo e o Vento é o nome da trilogia escrita por Érico Veríssimo no
período que vai de 1939 a 1962. No ano em que esta peça publicitária foi veiculada
a Rede Globo de Televisão (RBS) apresentava, em forma de minissérie, a
adaptação dessa obra. É por esse viés, que ela se tornou conhecida. O apelo
publicitário dirige-se àqueles que executam atividades com precisão e se
apresentam com originalidade. O discurso que se atravessa aqui, em primeiro lugar,
é o do apelo da Mídia e a forma como ela interpela os sujeitos, seduzindo-os por
aquilo que é importante na FD a que eles estão assujeitados.
Como o sentido depende da filiação do sujeito a redes identitárias e a
domínios discursos distintos, não como determinar o sentido dos enunciados ou
que discursos irrompem no eixo da formulação. Marcar o tempo com precisão e a
presença com originalidade significa diferentemente, dependendo dos sujeitos e das
formações discursivas a que esses sujeitos se filiam. Pode mesmo ser interpretado
como característica negativa, que designa pessoas preocupadas em excesso com a
pontualidade e com a originalidade. Outra interpretação possível pode estar colada
ao nome Coleção de Relógios, a sentidos já-ditos e significados pela obra do
mesmo nome. Por essa possibilidade, o tempo histórico recoberto pela obra e os
gaúchos representados nela poderiam recobrir a pontualidade e a originalidade pela
forma como se constituem. Outra possibilidade é tomar o tempo e o vento como
forças da natureza que não se esgotam.
O deslizamento de sentidos e as rupturas com o lugar comum e os sentidos já
dados recobrem também o tempo e o vento na obra do escritor, os quais nem
sempre tiveram valor positivo. Bibiana, uma de suas personagens mais importantes
da obra, em noite de vento diz: Noite de vento, noite dos mortos. O próprio escritor,
em suas memórias, refere-se ao medo que tinha do vento. Discursivamente,
entretanto, as palavras significam pela inscrição em redes parafrásticas e de
memórias. O tempo e o vento podem inscrever-se e ressoar pelo discurso religioso,
por exemplo, nos textos do Eclesiastes, utilizado por Érico Verissimo na obra “O
Continente”, o que os relaciona à inexorabilidade do tempo e ao efeito arrasador do
vento.
Esse deslizamento de sentido decorre do gesto interpretativo do sujeito
enunciador, que ressignificou essas duas palavras, dando-lhes outros sentidos, de
acordo com o lugar de onde fala e a formação discursiva a que pertence, além disso,
206
o sujeito enunciador atende, imaginariamente, às expectativas daqueles a quem se
destina o texto.
Na peça publicitária a que nos referimos, não é a obra de Érico Verissimo que
está em questão. Muitos dos sujeitos-interlocutores deste discurso não a leram. Um
dos fatores determinantes para a não-leitura é a extensão dela. As palavras “tempo
e vento dão visibilidade a Érico Verissimo e o recobrem pelo funcionamento do
interdiscurso, como pré-construído em que discursos se atravessam, trazendo a
obra do escritor para o eixo da formulação. A motivação para usá-las em uma peça
publicitária em que a busca pela adesão do sujeito/leitor/consumidor decorre de
dois fatores: da memória do escritor em Cruz Alta e o sucesso da Trilogia. A
emergência da cidade em criar uma memória que se pudesse ser um patrimônio
para com ela identificar-se fez com que, no imaginário popular, o filho de Cruz Alta,
se constituísse em sujeito idealizado. Nesse aspecto, tudo que refere a ele é
sucesso ou está fadado ao sucesso. O tempo e o vento, como fenômenos da
natureza, representam na ordem do simbólico, o inexorável, aquilo que ninguém
pode deter. Nesse sentido, a relação tempo-vento/Erico Verissimo constitui processo
de idealização dele.
O segundo fator o sucesso da trilogia O Tempo e o Vento fez com que a
obra também se inscrevesse junto ao nome do escritor, significando pela
transferência de sentidos um pelo outro. Assim, vento e tempo remetem ao escritor,
mas nem sempre pelo conteúdo da obra, mas pelo sucesso dela, que ficou
conhecida por representar a história do Rio Grande do Sul e a saga da família Terra-
Cambará, que remete à origem das famílias gaúchas. Em relação à família, pode
ocorrer uma relação parafrástica que relaciona a família da ficção e os valores que a
constituem as famílias do espaço urbano. Por esse viés, é possível visualizar uma
rede parafrástica: pertencer a uma família, a uma casa, e estar relacionado a essa
família constitui, com freqüência, um argumento de autoridade para o que é dito.
Em relação à família, a pontualidade e a originalidade constituem valores sociais.
Pode-se dizer com isso, que é pela linguagem que as palavras tempo e vento
significam, mas é pela memória discursiva, que elas são dotadas de sentidos outros.
É pela memória histórica que elas significam em Cruz Alta como ligadas a Érico
Verissimo. Essas palavras são enunciados que retornam, e isso ocorre pela
inscrição da obra do escritor a uma rede parafrástica, ligada a domínios de memória,
como um dos mecanismos que sustenta o lugar de memória, em nosso texto, o lugar
207
da rememoração/comemoração. Pelo funcionamento do discurso transverso
discursos provenientes de outros domínios discursivos se atravessam e constituem,
no eixo da formulação, o tempo e o vento como argumentos de autoridade.
A atualização dos discursos decorre da constituição imaginária tanto do
sujeito-objeto, que desencadeia o processo, como do discurso que irrompe e
possibilita sentidos outros, relacionados a efeitos do real, que escapam e rompem
com a sua linearidade. No entanto, o que tomamos como realidade não é mais do
que a construção simbólica de um objeto imaginário, diante da impossibilidade do
real poder ser dito e significado. O sujeito, tomado pela ilusão de ser origem do
dizer, esquece que as palavras só têm sentido quando historicizadas e que o sentido
relaciona-se tanto às regularidade, às repetições que constituem a estabilidade dada
pela inscrição a uma rede de memória, quanto pela ruptura, que instaura o novo.
Inscrevem-se, nesses textos, vários domínios discursivos: o do tempo
(relógio), o do comportamento social (precisão e originalidade), a passagem da vida
(relação tempo e vento) e Érico Veríssimo pela obra. Outro domínio discursivo é o
da religião, pelo discurso bíblico que irrompe no fio do discurso. A definição, como
dos procedimentos de “fazer-crer” e como um processo lingüístico que busca
delimitar o sentido e a atuação do objeto definido, na ordem do discursivo vaza,
rompe-se e instaura o novo. No entanto, isso não ocorre de forma estanque, mas em
relação aos domínios discursivos inscritos no dizer. Assim, nesse texto publicitário,
define-se quem pode usar esses relógios: aqueles que marcam o tempo com
precisão. Os relógios, por sua vez são aqueles que, pela sua relação com O Tempo
e o Vento, duram e que talvez, tenham tradição.
Para concluir a leitura que realizamos em torno do texto publicitário tomado
como objeto, salientamos que os sentidos e relações que vislumbramos não são os
únicos possíveis, posto que o gesto de leitura depende do lugar do sujeito leitor e
das interpelações e atravessamentos que o constituem. Em relação à
rememoração/comemoração, podemos dizer que esse texto, nos dias atuais,
funciona como rememoração, o discurso de, como a possibilidade de atualizar o
alcance e a influência de Érico Veríssimo no espaço urbano, bem como o imaginário
que o constitui nesse espaço. O texto pode ainda, dar visibilidade ao processo
discursivo dessa rememoração e aos deslizamentos na constituição desse sujeito,
bem como aos espaços de memória que ele fez trabalhar no passado, constitutivo
da rememoração e faz trabalhar naquela atualidade, no espaço da comemoração.
208
4.3.2 Redes parafrásticas: traços de pertencimento e identificação
Figura 14 - Peça gráfica criada pela Agência de Publicidade NPC, de Cruz Alta, para divulgar a XI
Coxilha Nativista - 1991
.
Enfocamos a análise do texto materializado na figura 14 pelo contexto sócio-
histórico de sua produção, datando-o e relacionando-o ao evento de sua
constituição. Esse texto circulou em 1991, e foi produzido pela NPC, agência oficial
da XI Coxilha Nativista de Cruz Alta, juntamente com a comissão organizadora do
evento, coordenada por Odir Lautert, Flávio Moura e Cezar Zanchi. Segundo os
publicitários da agência, a obra de Érico Verissimo foi usada para divulgar a Coxilha,
uma festa tradicional na cidade.
Os sentidos sempre podem ser outros, mas o enunciado “Nem o tempo nem o
vento apagarão esta marca”, entra em relação parafrástica com o enunciado “Nem o
Tempo nem o Vento impedirão a caminhada”, que ressoa da fala da personagem
Ana Terra, no texto O Continente, primeira parte da trilogia O Tempo e o Vento.
Com esse mesmo enunciado Doc Comparato inicia a minissérie veiculada pela Rede
Globo de Televisão, que tornou a trilogia acessível ao grande público, até por que
os atores que nela atuaram eram populares na época. Dentre eles, destacam-se:
Tarcisio Meira, Lélia Abramo, Glória Pires, entre outros.
Além do texto escrito, foram produzidos cinco filmes em línguas diferentes:
português, inglês, espanhol, alemão e italiano inferindo à globalização, que por meio
209
da língua une povos de diferentes etnias. O cenário é o pampa gaúcho materializado
no filme por uma fazenda do Cadeado, aquela que em suas memórias, Érico diz ter
pertencido aos Verissimo, especificamente ao seu avô paterno.
A ligação entre essas duas ordens discursivas decorre da imagem, a parir da
qual se visualiza o objeto utilizado pelos estancieiros para marcar o gado com ferro
quente e no qual está esculpida, em alto relevo, a marca da estância. O segundo
elemento coxilha nativista - materializa-se pela nominalização. Trata-se da
logomarca da festa, que se representa, pela relação da imagem com o texto, o
evento.
As palavras o tempo e o vento não são tomadas no sentido literal, mas pelo
interdiscurso, pelo efeito de pré-construído
102
, designam o que remete a uma
construção anterior ao acontecimento, ao sempre-já-lá, pelas evidências fornecidas
pela ideologia, que significam o que todo mundo sabe (Pêcheux, 1997). O enunciado
se refere, pelo interdiscurso, à frase com que Doc Comparato, na minissérie da
Rede Globo, resume o sofrimento e a esperança de Ana Terra, quando perde tudo,
mas resolve continuar e diz: Nem o tempo, nem o vento impedirão esta caminhada e
também à epígrafe com que Érico Verissimo inicia a trilogia O Tempo e o Vento,
retirado do, que a seguir transcrevemos:
Uma geração vai, e outra geração vem:
Porém a terra para sempre permanece
E nasce o sol, e põe-se o sol,
E volta ao seu lugar donde nasceu.
O vento vai para o sul, e faz o seu giro para o
Norte; continuamente vai girando
O vento, e volta fazendo circuitos. ( Eclesiastes – 1, 4-6)
nesse texto, o cruzamento de discursos de várias ordens e se intercalam
domínios discursivos que trazem para o discurso o efeito de sentido de durabilidade:
a estância propriedade – rural e a coxilha nativista - música nativa, que identifica o
gaúcho. Podemos visualizar também a inscrição da ordem familiar, da tradição pelo
discurso religioso que se atravessa a partir do texto bíblico. Assim, observemos:
102
Para Pêcheux (1997:99), o pré-construído é a condição formal de um efeito de sentido cuja forma
material se assenta, de fato, na relação dissimétrica por discrepância entre “ dois domínios do
pensamento”, de modo que um elemento de um domínio irrompe num elemento do outro, sob a forma
de que chamamos de pré-construído, isto é, como se o elemento já se encontrasse aí.
210
Essa relação parafrástica faz trabalhar, no texto, o domínio do saber da
família que se imbrica ao domínio do religioso. As gerações que vão e vêm fazem
irromper o discurso da tradição, ligada às famílias e às sagas. Nesse sentido, a terra
pode ser tomada como um “bem” permanente e que passa de pai para filho, apesar
dos giros e da passagem do tempo. O vento, nessa perspectiva, poderia inscrever-
se na relação das dificuldades que assolam as sociedades, em particular as famílias.
que se destacar em relação a isso tudo, que as Coxilhas Nativistas inscrevem-se
no domínio discursivo da tradição, das gerações e das sagas familiares.
Resumindo, nesse texto (fig. 14) há três efeitos de sentido:
1. presença do escritor, orgulho dos cruz-altenses, que traz como
conseqüência a adesão em torno da campanha publicitária;
2. eternização da marca pela transferência de características do tempo e
do vento a ela, enquanto fenômeno da natureza e referência à obra, cujo
sucesso e o tempo de duração da história a transforma em uma epopéia da
literatura brasileira e,
3. popularização da marca por ligar a obra de Érico Veríssimo e por
trazer à memória um produto da Rede Globo de Televisão.
Nesse funcionamento, o enunciado-imagem e enunciado verbal
complementam-se. A ausência do enunciado faria com a imagem remetesse apenas
ao evento, identificando-o, com a coxilha nativista e a marca a ferro, que fica para
sempre, sem relação com Érico Verissimo e a sua obra. A força discursiva, desse
enunciado, nas relações de sentido e na inscrição a domínios discursivos não se
relacionados apenas à Coxilha Nativista, mas também ao domínio do religioso, como
referimos anteriormente. Os sujeitos interpelados pela FD
211
rememoração/comemoração imputaram a autoria do enunciado “Nem o tempo nem
o vento apagarão esta marca” ao escritor. Mas ele é uma criação da Mídia, que se
constitui como o discurso que, de certa forma, organiza o imaginário urbano,
fazendo com que sentidos “colem” ou não entrem na ordem do discurso.
4.3.3 Érico Verissimo/Cruz Alta: NET
Figura 15 - Divulgação da TV por assinatura em Cruz Alta, veiculada - 1994.
Em 1994, a NET, televisão por assinatura, chegou a Cruz Alta e a agência de
Publicidade NPC foi escolhida para apresentar o novo modo de assistir televisão.
Érico Verissimo foi escolhido como o tema da Campanha Publicitária, mas desta vez
em outros moldes. Deste texto destacamos três enunciados:
1. Através de sua obra, Érico Verissimo divulgou Cruz Alta para o
mundo, sendo traduzido em mais de doze idiomas.
2. Com a NET, o mundo chega a Cruz Alta, traduzido em várias
línguas.
3. NET sua janela para o mundo.
212
Esse texto (Fig. 15) coloca no mesmo eixo as obras do escritor, a tradução
delas e a NET televisão por assinatura. Pelo processo metafórico, constitui a
possibilidade de esses dois objetos poderem ser substituídos um pelo outro. É como
se a tradução de uma obra pudesse aproximar-se da veiculação de programas a
partir de outras línguas. A legitimação dessa proximidade realiza-se pela citação do
número de traduções em torno da obra de Érico Verissimo, mas apaga a distância
existente entre a constituição do mundo ficcional e a reprodução de programas de
televisão.
Ancora-se no movimento do VAI E VEM presente na relação
família/geração/terra do discurso religioso e também do discurso familiar. Nesse
sentido, a obra de Érico Veríssimo LEVOU Cruz Alta ao mundo e o mundo VEM a
Cruz Alta pela NET. uma simulação que torna evidentes sentidos que não se
aproximariam, não fosse o discurso que a Mídia organiza em relação ao espaço
urbano, e cola como se fossem evidentes. Trata-se de um discurso que se pauta em
um discurso sobre, que por sua vez, constitui-se a partir de um discurso de. O
trabalho da língua e do discurso têm como centro a ruptura com o mesmo, mas que
na verdade, é ainda o mesmo. Não estamos tratando do sentido, mas de
procedimentos que instauram efeitos de verdade e que pela citação e definição,
constituem efeitos de autoridade.
Intercalam-se nesses enunciados:
A rede parafrástica possível a partir do funcionamento de saberes que advém
da língua, da família e do mundo decorre do funcionamento da memória, em que
cada um desses domínios constitui-se como uma memória, a qual ao entrar em
relação com outra memória instaura sentidos outros, constituindo a estabilidade,
pela inscrição a rede de formulações, ou rompem com a estabilidade e instauram
novos sentidos. Essas reflexões sinalizam para a possibilidades de realização por
procedimentos discursivos, os quais funcionam de acordo com os sujeitos aos quais
213
o discurso se encaminha. Pode significar pelas relações instauradas a partir do
discurso bíblico, do discurso do domínio familiar ou da constituição e funcionamento
da sociedade brasileira pela oposição CASA x RUA, ou ainda, pela visibilidade da
família Veríssimo. A inscrição à ordem do empírico independe do nosso gesto
analítico, mas da interpelação dos sujeitos pela ideologia e pelo atravessamento do
inconsciente.
A textualidade do enunciado destacado e o seu efeito de sentido decorrem de
uma definão que fica subjacente e que limita, satura e instaura a obviedade: A NET
aproxima-se da janela, constituindo a abertura para o mundo. A possibilidade de vê-
lo, de aproximar uma cidade do interior a grandes centros. A definição, no entanto,
assim como os demais procedimentos discursivos desliza do óbvio e possibilita
outros sentidos. A simulação aproxima domínios de memória distintos. É como se,
assistir um programa de televisão correspondesse a conhecer, pelos programas
veiculados, outros países. A legitimação decorrente dessa aproximação apaga a
cultura própria de cada país, que desaparece quando se assiste passivamente
“programas” de televisão, dissociados do contexto sócio-histórico.
Reforça o equívoco, a falha decorrente da aproximação de duas ocorrências
de tradução, até porque em nenhuma dessas ocorrências o mundo é levado ou
divulgado, transparentemente. O que se tem, são efeitos de sentido atravessados
pela posição enunciativa daquele que utilizou a língua para aquele fim. Diz-se
posição enunciativa, porque naquele enunciado, naquele momento, o locutor fala de
um lugar (o do publicitário) e daquele lugar o seu dizer está determinado pela
formação social: ele precisa mostrar o seu produto, buscando atrair o consumidor.
Neste caso, os telespectadores cruz-altenses para os quais Érico Verissimo funciona
discursivamente como objeto a ou objeto do desejo, portanto, a referência a ele
funciona como um argumento de autoridade.
214
4.3..4 A história e a memória
Na minha casa a peça que mais me atraía e divertia era o escritório de meu
pai que ele pouco usava. estavam seus armários cheios de livros, uma
escrivaninha conhecida solenemente como bureau com o tampo coberto
com um pano verde como os das mesas de bilhar (p. 68).
Figura 16 - Texto veiculado no jornal – aniversário de Cruz Alta – 2006.
Entre os textos selecionados, chama a atenção um dos textos publicitários
veiculados no dia 18 de agosto de 2006 (comemoração dos 185 anos de
emancipação política da cidade no jornal Diário Serrano). Nele, a imagem do
museu que é a casa o mundo das relações familiares que possibilita a entrada
em diferentes mundos. Os carros na frente de uma concessionária de veículos faz
irromper a família do escritor, a história dela e a rede de relações que se instauram
pelo domínio familiar. Nesse sentido, talvez a imagem do museu, que funciona como
um enunciado-imagem não remeta a Érico Verissimo, nem a sua obra, mas ao
prestígio e a história da família Verissimo na cidade: o prestígio e os privilégios
215
decorrentes dessa inscrição. O que ancora a possibilidade dessa interpretação é a
relação abaixo esquematizada:
Os dois objetos constituem pela relação familiar, isto é, são bens particulares,
mas que não são alcançados por todos. Não são quaisquer famílias que podem
possuí-los. Nesse sentido, podem comprar o carro que a agência vende aqueles
que possuem tradição, prestígio e uma rede de relações que além do privado e
se inscreva no público, sem que isso signifique constituir um cidadão comum.
Outra possibilidade de leitura, que não possibilita um rompimento com a FD
da família decorre do enunciado que relaciona com a História. Trata-se do
enunciado:
Nós também fazemos parte dessa história.
Esse enunciado ancora-se no enunciado-imagem da casa centenária, que
por ter sido construída em 1905, ter mais de cem anos, e ser a casa em que Érico
Verissimo nasceu, constitui a memória da ordem do vivido, do estabilizado, do
sentido que, segundo Catroga (2001a) faz parte dos museus. Nesse sentido, “ser
história” é ter prestígio, é ser merecedor de confiança, é inscrever-se no domínio da
tradição, que oferece menos riscos, pela visibilidade dada pela sua inscrição na
perenidade.
Por esse enunciado, enquanto parte do discurso que rememora/comemora
Érico Veríssimo e o ressignifica, podendo se constituir pelo efeito de memória de
uma queixa ou da aproximação cidade X escritor como dois objetos que no eixo das
formulações parafrásticas repetem o mesmo. De qualquer forma, a estabilização e a
repetição reorganizam a memória e a reinscrevem em outras redes de filiação. Esse
enunciado e a relação da memória com a história, entretanto, provoca um
deslocamento importante: Érico Verissimo, tomado pela Unicruz como herança,
como cultura, como conhecimento, significa agora como família em relação ao
CASA CARRO
216
consumo, ao privilégio, apagando a relação com a cultura, com o domínio do saber
escolarizado.
Estabelecendo relações com os demais textos midiáticos analisados,
percebemos o reforço desse deslocamento, que chega a se constituir em uma
ruptura. No primeiro e no segundo textos, relação com a obra O TEMPO E O
VENTO e a partir desta obra a outros domínios do saber, que mascaram a relação
com a venda, com o comércio. O mesmo ocorre no terceiro texto, em que a relação
obra, língua e mundo encaminham para a cultura, talvez não a erudita, no que se
refere à televisão. A relação com a comercialização é mais velada.
Nesse último texto, a relação é clara entre a família, a tradição, a casa e a
possibilidade de comprar/vender um carro. Redes parafrásticas constituem e
sustentam essa relação, que é reforçada pelo enunciado definitório constituído pelo
interdiscurso, no funcionamento do discurso transverso, no qual o discurso da
tradição se atravessa e define quem pode/deve comprar um carro. É nesse sentido
que lemos o pronome nós”, como a referência àqueles que se identificam com a
memória familiar, não em relação a suas obras e ao sucesso, mas à posição
ocupada na formação discursiva. O funcionamento discursivo do nós pode significar
inclusão ou separação.
Esse texto é um exemplo do movimento em torno da memória histórica que
se mantém na cidade em torno do nome Érico Verissimo. A memória do escritor é
constituída por um processo marcado pela contradição. Ele é
rememorado/comemorado, visto como história, mas também como uma memória
que exclui: é o que os outros gostariam de ser e que constitui o desejo, mas por
esse desejo os sujeitos que rememoram/comemoram se desidentificam com a
forma-sujeito, pois o excluídos do mundo constituído em torno do escritor. Parte
dos sujeitos interpelados por esse lugar busca incluir-se nessa memória, não
somente por meio de uma reflexão, mas através de ação para o futuro. O enunciado
nós também fazemos parte dessa história, destacado anteriormente, ilustra o que
dizemos.
Este segundo texto do pós-centenário constitui um movimento do discurso.
Entendemos que o que nos outros textos era discurso de comemoração, funciona
nesse texto como discurso de rememoração. É o movimento da memória na
formação social. Trata-se de um texto publicitário no qual o escritor é tomado pelo
interdiscurso e o enunciado “Nós também fazemos parte dessa história” o traz para
217
o eixo da atualidade. Isso ocorre pelo encontro de uma memória Érico como
história e uma atualidade o aniversário da cidade em que a Concessionária de
carros busca identificar-se à cidade e também colocar-se como memória, assim
como Érico Verissimo. As palavras empenho e trabalho – funcionam, de certa forma,
como uma contra-memória em relação ao escritor, isso se tomarmos o sentido
ideológico do trabalho.
218
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Nossa tese situa-se entre a Cruz Alta de Érico Verissimo descrita como “um
lugar fora do tempo e do espaço” e “A Cruz Alta hoje: no tempo de Érico Verissimo”.
Estabelecemos relação entre o ontem e o hoje pelo texto autobiográfico Solo de
Clarineta I, no qual a personagem fala de si mesma e da terra em que nasceu e
viveu parte de sua vida. Tomamos esse texto como um discurso de, que legitima e
sustenta o discurso sobre a comemoração. O escritor, de um lado, descreve a
cidade imaginária, enquanto que, as instituições urbanas, de outro, tomam esse
discurso, institucionalizam-no e o fazem circular em forma de comemoração.
A rememoração, que entendemos como um discurso de, constitui-se como
memória e também como discurso fundante. Como memória, tem no passado a
matéria-prima que retorna como recordação e funciona juntamente com as noções
de comemoração e de lugar de memória, cuja função é organizar e sustentar a
continuidade do discurso, como discurso fundante pela sintagmatização no
intradiscurso de dizeres e saberes que se constituem no fio do discurso como efeitos
de verdade e de autoridade. A repetição é um dos mecanismos de
institucionalização da memória de Érico Verissimo, que representa, no imaginário
urbano, o objeto a (a falta) e o objeto do desejo (aquilo que falta), conceitos tomados
de Lacan, nos seminários, em que fez a releitura de Freud.
Em relação ao objeto a, podemos dizer que o tomamos pela relação com o
não-lugar, com a não referência a um sintoma identificável, mesmo sabendo que é
uma noção anterior ao sujeito. Por meio dos discursos analisados podemos dizer
que o objeto da rememoração/comemoração não é Érico Veríssimo, mas o que ele
representa no espaço urbano, por isso o designamos como objeto a (o qfalta) e
objeto do desejo (a razão da falta), sinalizando para os deslizamentos de sentido e
para a possibilidade de funcionamento de outros espaços de memória.
219
Na ordem do discurso de Cruz Alta, a comemoração funciona como um
discurso sobre, que institucionaliza o dizer e organiza a memória no fio do discurso
pelos procedimentos de “fazer memória”. Deslocamos o funcionamento da
comemoração e a colocamos para funcionar junto à rememoração no eixo da
formulação. O eixo estruturante desse funcionamento é a memória discursiva, como
lugar onde a memória e a atualidade se encontram e atuam pela urgência dos
sujeitos em comemorar.
Nessa perspectiva, fazemos funcionar também a noção lugar de memória,
que se constitui pela rememoração/comemoração como o lugar em que se organiza,
estrutura e difunde a memória que guarda os vestígios e os traços de identificação
entre o escritor e o espaço da comemoração. Nossa análise constitui-se, portanto, a
partir de lugares. Delimitamos o Museu como lugar que centraliza os demais lugares,
quais sejam: o da Unicruz, o do Poder Público e o da Mídia. Destacamos a
rememoração/comemoração como a FD dominante, que determina o que pode e
deve ser dito no espaço urbano em torno do escritor, os lugares recortados
funcionam em torno dessa FD, que se constitui como o lugar de memória, que seria
nos termos de Nora, o lugar da crítica, que deveria romper com a celebração.
Nessa perspectiva o Museu representa, em relação a Érico Veríssimo, e ao
discurso de rememoração/comemoração a casa, que constitui a passagem do
público para o privado e instaura a contradição e ao mesmo tempo reforça as
relações entre ele e a cidade. Podemos dizer que o valor do Museu na cidade
constitui-se pela institucionalização da memória, pela circulação de objetos pessoais
como óculos, boné, livros, desenhos, álbuns de fotos familiares que o representam e
aproximam da cidade. Ao mesmo tempo, esses objetos reforçam a relação existente
entre a rememoração como memória e a comemoração como a atualidade e
legitimam esse discurso e apagam a possibilidade de outros sentidos.
A rememoração e comemoração funcionam ciclicamente, isto é, o que é
comemoração passa a ser rememoração e desencadeia outras comemorações
como práticas discursivas que se realizam entre sujeitos interpelados pela ideologia
e atravessados pelo inconsciente. Não há, portanto, como circunscrever o início ou o
final desse processo e nem exatamente as razões pelas quais ele iniciou ou as
razões de sua manutenção ou movimento. No funcionamento
rememoração/comemoração irrompem discursos do tempo mais remoto e também
220
do tempo mais presente, instaurando a repetibilidade, que inscreve o discurso em
uma rede de formulações parafrásticas, pela qual a repetição constitui a quebra com
a ordem estabilizada e possibilita a polissemia.
Por esse discurso, as instituições buscam inscrever-se no interdiscurso e
também no intradiscurso como igual ou semelhante a, de forma que um objeto
possa ser lido/interpretado/compreendido pelo outro: Cruz Alta por Érico Verissimo e
vice-versa, a obra do escritor por ele mesmo, o mobiliário urbano pelo
escritor/obra/personagens ilustres. Esse procedimento materializa-se no fio do
discurso pela transferência de traços de identificação de um para o outro. Esse
procedimento constitui-se pela idealização do sujeito e pelo seu funcionamento
como objeto a e objeto do desejo e possibilita a abordagem pelo sujeito desejante,
da ordem da rememoração e do mais inconsciente.
Delimitamos a relação do sujeito desejante ao discurso de rememoração, pois
vislumbramos a relação da constituição da memória do escritor também na
imbricação entre a casa e a rua, descritas por DaMatta (1997) em relação ao
funcionamento da sociedade brasileira. Não há como não efetuar essa aproximação.
No entanto, também o como ignorar que a rememoração/comemoração em
relação a Érico Verissimo não se restringe à sua privilegiada condição familiar e nem
às relações da ordem do privado que se estendem para além da casa. A delimitação
realizada foi fruto de uma escolha e de uma reflexão acerca do funcionamento da
rememoração e da comemoração, e também da constatação de que a
comemoração se sustenta na rememoração e que as possibilidades de sua
efetivação passam pela memória em sua relação com o passado, que retorna como
recordação e que faz sentido na formação discursiva num tempo tridimensional que
se origina no passado, passa pelo presente e constitui o futuro, como o devir.
A rememoração/comemoração, no entanto, implica mais que desejo, mais
que família. Ela se efetiva pela identificação, pelas redes de filiações existentes
entre aqueles que desencadeiam o processo e o sustentam e o objeto desse
processo. Além disso, esse discurso foge às determinações, ao gerenciamento.
Apesar de ser institucional, de pautar-se no discurso sobre, de discursivizar o objeto
por procedimentos relacionados ao “fazer-crer” pelo “fazer-ver” e de assemelhar-se
ao discurso doutrinário, os sentidos sempre deslizam, e irrompem no eixo da
formulação memórias que as instituições apagam, relegam ao esquecimento.
221
A escritura desta tese deu visibilidade à dificuldade de encerrar reflexões
acerca deste tema. Entendemos que essa dificuldade é fruto da incompletude do
discurso como prática de sentidos entre sujeitos, que não se esgota, constitui-se
pela falha, pela ruptura e pelos deslocamentos. A característica salutar do discurso,
nessa perspectiva, é sua lacunaridade, a partir da qual memórias que o habitam
e que podem ou não irromper no intradiscurso e instaurar novos acontecimentos e
com eles novos sentidos.
Antes de encerrar essas reflexões finais e para impedir a repetição do já-dito,
destacamos dois deslocamentos em relação a esse discurso. O primeiro diz respeito
ao funcionamento do discurso do Poder Público Municipal e à mudança de suporte
que levam ao conseqüente redirecionamento do discurso. O enunciado Este é o
nosso maior contador de histórias” provoca esse deslocamento e instaura o novo.
Ele foi colocado em circulação nos ônibus do transporte público urbano, e Érico
Verissimo, o escritor dos grandes feitos do povo gaúcho, em suas obras de extenso
fôlego, que impõem uma certa ordem de leitura e assegura o lugar da erudição, da
cultura a ser perpetuada, vai transitar em outros cenários, vai para as periferias,
paras as bordas da cidade, para os limites do urbano.
Com isso, o discurso da rememoração/comemoração ganha novos contornos
pelo movimento dos sujeitos, pelo movimento do dizer, pelo político. Érico Veríssimo,
como objeto do discurso entrou em uma outra discursividade, que movimenta a
memória instaurada no lugar da tradição para alocá-la no lugar do popular, daquele
sujeito gaúcho que conta suas histórias, que conta seus causos, que inventa o
cotidiano.
O discurso que se mantinha no eixo da estabilidade, da paráfrase, em geral,
instaura o novo. Desde 2005, e até os dias de hoje, os ônibus levam para aos
bairros e vilas da cidade uma imagem de Érico Verissimo que insta à alteridade,
movimenta o imaginário do lugar de
“o filho mais ilustre de Cruz Alta”
para o de um ‘popular’
“contador de histórias” - igual ou semelhante a _________________.
222
O outro deslocamento refere-se ao da memória de Érico Verissimo em
relação à cultura, ao erudito para a ordem do comércio, mostrando que pela relação
história x memória reforçam-se as relações da casa e da rua. O texto (fig. 16)
aproxima o material CASA X CARRO da história e da memória. No entanto, as
demais relações referidas podem ser instauradas, visto que dependem do sujeito-
leitor e das suas inscrições nos domínios da memória.
Retomamos aqui nossas questões de pesquisa.
Como o objeto de rememoração/comemoração se constitui no espaço
urbano?
Que domínios de memória funcionam nesse discurso?
No que concerne à primeira questão: o objeto de rememoração/comemoração
constitui-se no espaço urbano de Cruz Alta pela visibilidade dada a Érico Verissimo
e pela repetição que o constitui como um sujeito idealizado, tanto pelas
possibilidades de relacioná-lo à tradição familiar, que se sustenta e ancora no
Museu, que representa a casa, da ordem do privado que deslizou para o público,
como pelo viés do sujeito desejante, que se legitima pela rememoração, que foge à
coerções porque é da ordem do inconsciente.
Esse discurso surge pela emergência da cidade em representar-se para
dentro e fora dos seus limites como semelhante ou igual a. Por meio dessas
emergências são transferidas para Érico Verissimo as possibilidades de o sujeito
vencer na vida, apesar das dificuldades por que passa. Nesse sentido, a
determinação sócio-histórica é atenuada.
Em relação à segunda questão, entendemos que esse discurso funciona a
partir de domínios de memória mobilizados por instituições, mas que fogem ao
gerenciamento delas, pois irrompem no eixo da formulação, memórias da ordem do
político (anos de chumbo, silenciamento), da tradição familiar e dos privilégios dessa
tradição, em que relações sociais se pautam pela heterogeneidade, pela
individualidade e pela diferença; do religioso e também do comércio. Um efeito que
sustenta essa memória é o de espelhamento, que ocorre pelo desejo, pela visão do
sujeito pelo outro.
Queremos retomar ainda uma questão: a relação do espaço urbano de Cruz
Alta com o texto autobiográfico de Verissimo. Dissemos, inicialmente, e reafirmamos
223
em sua conclusão, esse texto funciona como uma memória em relação ao discurso
urbano, pois legitima e sustenta a designação da cidade ‘como a terra de’. O texto
autobiográfico referenda essa designação, na medida em que o escritor afirma ter
nascido na cidade e dela se aproxima. Essa obra pontua relações como Cruz Alta
Santa ; casa dos avós em Cruz Alta e o sobrado dos Terra-Cambará, ou seja, o
homem do espelho diferencia o que ‘é’ da ordem ‘realidade’, e o que é da ordem do
imaginário literário.
Encerramos nossas considerações, mas não as reflexões. Repetimos: tomar
o espaço urbano em torno rememoração/comemoração é comprometer-se a “olhar”
outras cidades, outros lugares e questionar-se: quem é o objeto a ou o objeto do
desejo dos sujeitos? A partir de que nome e de que saberes um lugar se constitui?
Que espaços de memória funcionam aí? Desse modo, sinalizamos para a
possibilidade de continuar pensando o espaço urbano e as discursividades que o
constituem.
POST-SCRIPTUM
CRUZ ALTA: NO TEMPO DE ÉRICO VERISSIMO
“O homem do espelho” na sua autobiografia “desenhou” a cidade imaginária:
Cruz Alta. Simulou uma narrativa e um quadro. Nesse quadro inseriu as cores e as
imagens da família, da infância, dos sonhos e também dos fracassos, das tristezas.
Mas não isso: desenhou também o futuro da cidade, assim como desenhou o
Érico Verissimo que povoa/povoaria/povoará o imaginário da Cruz Alta hoje e talvez
a de amanhã.
A cidade tomou essas cores e essas imagens e com elas constituiu, pela
prática discursiva, um outro imaginário urbano. Nesse imaginário está o filho ilustre,
o maior bem cultural, uma herança a ser dividida com todos, cem anos de história, o
cidadão de todos os continentes. Construiu também um memorial e nele escreveu a
lenda da Panelinha, contada na Cruz Alta de todos os tempos. Imortalizou a
professora de matemática de Érico Verissimo, Margarida Pardelhas (nome de uma
Escola Estadual na cidade e que junto com a professora homenageia o conterrâneo
ilustre). A Rua do Comércio continua sendo o eixo da cidade: liga uma praça a outra.
Com essas cores, os sujeitos cruz-altenses construíram um mobiliário social que
visibilidade ao sucesso, à herança a ser dividida com todos e à cultura. Faz-ver/faz-
crer os valores rememorados/comemorados, mas busca apagar alguns fatos da vida
de Érico Verissimo em Cruz Alta: essa o “Tempo e o Vento” levaram.
A Cruz Alta fora do espaço e do tempo tem o Clube Comercial, Quartéis, duas
Praças que cortam a cidade, a casa de Érico Verissimo e a Panelinha de onde vinha
a água, para todas as casas. Tem quase dois séculos de história, uma população de
oitenta mil habitantes. Representa-se para dentro e fora de seus limites como a
“terra de Érico Verissimo”. Ele é uma herança a ser dividida com todos, a herança
cultural que talvez ajude a consolidar a UNICRUZ, a Praça da matriz, a Praça Érico
225
Verissimo, os prédios com o seu nome, de suas obras e de seus personagens, o
monumento à Nossa Senhora de Fátima e o Museu, mas não traz o trigo, nem a
riqueza. No entanto, mantém o sonho, o objeto a e também o objeto do desejo
Érico Verissimo.
Nas campanhas eleitorais, nas campanhas midiáticas, nos folders, nos
outdoors, nos lugares em que a cidade se significa e é significada é possível ver
Érico Verissimo. Ele, entretanto não é um homem, nem um escritor: ele é o cruz-
altense, o filho desta terra. Tomemos Solo de Clarineta I e nela encontramos as
duas cidades: a de ontem e a de hoje e talvez uma terceira: a Cruz Alta de amanhã.
No anexo 5, do DVD encartado neste trabalho, damos visibilidade à Cruz Alta de
hoje, trabalhamos com os procedimentos que “fazem-ver”, mesmo na ausência, que
quase sempre é presença.
Pela rememoração/comemoração como prática discursiva de um imaginário
urbano, o discurso institucional dá visibilidade ao Érico imaginário, mitológico, sujeito
de sucesso, superdotado, dado à assistência social. Mas apaga a falta do trigo, a
falta de cores, de livros, de sonhos e também, do Érico Verissimo como pessoa,
aquele que perdeu a família, a casa e que o tempo levou. Apaga a sua saída da
cidade em 1932 evisibilidade a sua volta em 1967, quando o museu foi projetado
e ele doou fotos, livros e objetos de uso pessoal para ajudar os cidadãos a lembrar.
Apaga que em 1971 ele foi colocado no lugar de outro bem, que não é cultural, mas
econômico e igualmente valorizado na terra: o trigo. Nesse ano, a Cruz Alta de então
o colocou no lugar do trigo ou junto com o trigo? Convidou-o a voltar à cidade para
visitar e prestigiar a “festa do trigo” (cf. figura 17). Esse foi um dos procedimentos
inaugurais do “fazer-crer” e fazer-ver” em relação a esse discurso. ”De qualquer
forma, ele continua nesse lugar, mesmo que Cruz Alta não seja mais a Rainha do
trigo, nem a Capital do Planalto Médio, a sua compensação é ser a TERRA DE
ÉRICO VERISSIMO... E a outra cidade? Talvez o vento a tenha levado... e o tempo
não a traga mais.
226
Figura 17 – Érico Verissimo na Fenatrigo em Cruz Alta – 1971 (vide Anexo 2).
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ANEXOS
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