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Tese apresentada ao Programa de
Pós-Graduação em Sociologia, do
Departamento de Socilogia da
Faculdade de Filosofia, Letras e
Ciências Humanas da Universidade
de São Paulo, para obtenção do
título de Doutor em Sociologia.
Orientadora: Prof. Dra. Maria Helena Oliva Augusto
São Paulo
2005
UNIVERSIDADE DE SÃO PAULO
FACUDADE DE FILOSOFIA, LETRAS E CIÊNCIAS HUMANAS
DEPARTAMENTO DE SOCIOLOGIA
PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM SOCIOLOGIA
RELATOS DA VIDA AMOROSA:
A INTIMIDADE NO CONTEXTO CONTEMPORÂNEO
Sylvia Maria da Penha Cioffi
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RELATOS DA VIDA AMOROSA:
A INTIMIDADE NO CONTEXTO CONTEMPORÂNEO
Sylvia Maria da Penha Cioffi
Summer Evening Edward Hopper
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iii
Relatos da Vida Amorosa: a intimidade no contexto contemporâneo Sylvia Maria da Penha Cioffi
A meus amigos de todas as horas.
Aos meus entrevistados que, pacientemente,
me deram seu tempo e desvendaram sua intimidade.
iv
Relatos da Vida Amorosa: a intimidade no contexto contemporâneo Sylvia Maria da Penha Cioffi
AGRADECIMENTOS
Este trabalho constitui o produto dos meus estudos sobre a fa-
mília, iniciados tempos atrás e que vieram a resultar num interesse pe-
las relações interpessoais e depois pelo amor e a intimidade. O tema
faz parte da vida da maioria das pessoas e é assunto instigante e cons-
tante de inúmeras conversas entre homens e mulheres. Assim, faz par-
te de minhas afinidades eletivas a sociologia do cotidiano, a sociologia
que acontece nas esquinas....Como dizia a meus alunos, muitos anos
atrás, é preciso ligar a vida à sociologia. Eu ensinava a eles coisas da
vida, e não só sociologia. Além disso, o tema despertou o interesse de
muitas pessoas, que ficaram surpresas com o fato do assunto ser trata-
do numa tese acadêmica.
Nessa trajetória, às vezes dura e solitária, outras vezes prazerosa,
a possibilidade de tomar conhecimento de várias histórias de vida de
meus entrevistados, não só me deu estímulo para continuar, como
ampliou meu conhecimento e minha atuação como pesquisadora, pro-
porcionando experiências surpreendentes, pelo painel rico e abrangente
resultante de cada depoimento singular.
Quero, portanto, expressar meu agradecimento a todos os en-
trevistados que, com boa vontade, me falaram de alegrias e tristezas,
esperanças e sonhos. Pelas muitas horas de entrevistas e pela delicade-
za com que me abriram seu coração.
A meus pais, Henrique Cioffi e Maria de Lara Cioffi pela cons-
tante presença e cuidado comigo.
A Célia de Toledo Lara, pelo incentivo nas horas difíceis.
A meus filhos Ulysses, pelo apoio na informática, a Olga pela
compreensão e a meu genro, Helio Carneiro Junior, pela cumplicidade.
v
Relatos da Vida Amorosa: a intimidade no contexto contemporâneo Sylvia Maria da Penha Cioffi
A Maria Helena Oliva Augusto, pela orientação, pelo processo de
crescimento e a coragem de enfrentar desafios.
A Renato Sergio de Lima e Liana de Paula, como poderei agradecer?
Pelas discussões enriquecedoras, pelo apoio que me proporcionaram e pela
cumplicidade construída no decorrer desses anos. E também pelo incentivo
de Renato, que me convenceu a iniciar este percurso.
A Elisa Médici Pizão Yoshida, amiga (ainda) dos tempos de colégio,
pelo auxílio na leitura dos primeiros originais e pela discussão dos conceitos
da Psicologia.
A Icléia Alves Cury pela amizade e por ter me presenteado com a
cuidada editoração e programação visual.
A Maria Olga do Amaral Malheiros, que compartilhou comigo cada
momento deste trabalho e pelo afeto incondicional no decorrer desses anos.
A Catarina Guarnieri Silvério, pela solidariedade e meticulosidade ao
revisar comigo a bibliografia e Guiomar Haro Aquilini, pelo auxílio na atua-
lização dos dados estatísticos.
A Maria Conceição d’ Incao e Gerard Le Roy, pelas sugestões e pelas
nossas conversas constantes sobre o tema.
A Marilda Lopes Ginez de Lara e Durval de Lara Filho pelo estímulo e
auxílio na localização da bibliografia.
A Vânia Regina Fontanesi da Silva pela revisão da biografia dos en-
trevistados.
A Stuart Ozer pela análise e revisão do resumo em inglês.
A Ângela Ferraro de Souza e Irani Terezinha Placidino Emídio, da
Secretaria de Pós-Graduação do Departamento de Sociologia da Faculdade
de Filosofia, Letras e Ciências Humanas pela simpatia e presteza com que
sempre me atenderam.
Aos demais amigos que compartilharam comigo esta tarefa, que,
muitas vezes, me pareceu não ter fim, permitindo que eu não esmorecesse:
Ana Maria Narducci, Alda Araújo, Eliana Bordini, Ida Maria Caminada
Bismara, Lílian Konishi, Maria Benedita Reis, Daura Rita Peres Souto Maior e
a todos aqueles que manifestaram sua empatia pelo tema.
vi
Relatos da Vida Amorosa: a intimidade no contexto contemporâneo Sylvia Maria da Penha Cioffi
SUMÁRIO
Introdução ...................................................................................................................... 1
A problemática ............................................................................................................................. 1
Capítulo 1 – Investigando o Cenário Amoroso Contemporâneo ...................................... 9
Intimidade e relação amorosa ............................................................................................... 12
O Contexto da Contemporaneidade ..................................................................................... 18
As transformações na sociedade brasileira ............................................................................ 21
Masculino e feminino ............................................................................................................28
Percurso teórico .................................................................................................................... 30
A pesquisa ............................................................................................................................ 33
As entrevistas ............................................................................................................................. 34
Capítulo 2 –
Permanências e Mudanças ................................................................................ 49
Persistência do ideal romântico .............................................................................................51
O amor construído ................................................................................................................ 59
Relação amorosa e narcisismo ............................................................................................... 60
Sua majestade, o Ego ............................................................................................................64
A fidelidade........................................................................................................................... 67
Os novos papéis de gênero ...................................................................................................75
Condicionamentos da ordem amorosa tradicional ................................................................ 85
Avaliação dos novos tempos ...............................................................................................100
Capítulo 3 –
A Contraposição das Gerações ........................................................................ 102
Os mais jovens e o novo caráter da experiência amorosa .................................................... 103
A geração intermediária ...................................................................................................... 115
Novas formas de conjugalidade ................................................................................................. 119
A geração mais velha .......................................................................................................... 127
Relações monogâmicas seriadas .......................................................................................... 138
Narcisismo como culto à beleza .......................................................................................... 141
Maturidade e desencontro .................................................................................................. 144
As mulheres abandonam a cena amorosa... ........................................................................ 147
Os homens permanecem..................................................................................................... 149
Capítulo 4 –
A Recusa à Intimidade ..................................................................................... 151
Relações íntimas ..................................................................................................................152
Relação amorosa e compromisso ........................................................................................ 155
O medo da entrega amorosa .............................................................................................. 162
Abrindo caminhos..................................................................................................................... 181
Relações prudentes ................................................................................................................... 184
O medo da dor ...................................................................................................................185
Considerações Finais ........................................................................................................
188
Referências Bibliográficas ................................................................................................
193
vii
Relatos da Vida Amorosa: a intimidade no contexto contemporâneo Sylvia Maria da Penha Cioffi
RESUMO
Analisa-se as transformações das relações afetivas – do amor e da intimidade – entre
homens e mulheres das camadas médias intelectualizadas, nas três últimas décadas,
na cidade de São Paulo. Considera-se o amor como um sentimento histórico construído
culturalmente e procura-se investigar como a mudança do caráter social afetivo na
vida contemporânea incidiu na biografia dos indivíduos. Trabalha-se com a hipótese,
que, hoje, os indivíduos tendem a flexibilizar suas biografias amorosas, o que tem
como conseqüência uma alteração na natureza da experiência sentimental. Para ve-
rificar a pertinência dessa hipótese, utilizou-se entrevistas com histórias de vida amo-
rosa de homens e mulheres, analisadas na perspectiva de gênero e geração. Conclui-
se que há uma recusa da intimidade consubstanciada no desencontro amoroso e que
o caráter social da contemporaneidade não incentiva os indivíduos a manterem laços
afetivos mais estáveis.
Palavras-chave: amor; intimidade; contemporaneidade; mudança social; pes-
quisa qualitativa
ABSTRACT
The transformation of affectionate relationships - of love and intimacy - among men
and women middle class intellectuals, in city of São Paulo during the last three de-
cades, are analyzed. Love is considered as a historical feeling constructed culturally
and the changes to the character of affectionate relationships are examined as the
biographies of individuals evolve. One works with the hypothesis that, today, social
and cultural forces have led to changes in the emotional experience associated with
love, and have led to more flexible and non-tradicional love biographies. To verify the
pertinence of that hypothesis, interviews with men and women were used examining
the histories of their love lives, analyzed in the context of both gender and genera-
tion. It is concluded that there is a lack of intimacy accompanying lovers’ disagree-
ments which discourages individuals from maintaning more stable affectionate ties.
Key words: love; intimacy; contemporary period; social change; qualitative
research
1
Relatos da Vida Amorosa: a intimidade no contexto contemporâneo Sylvia Maria da Penha Cioffi
Introdução
A problemática
N
os últimos anos, assiste-se, com freqüência, à demonstração da insatisfação amorosa
de homens e mulheres, que se manifesta em suas falas, na seção de comportamento
de jornais e revistas, na literatura, no cinema.
Numa sociedade crescentemente marcada pela preocupação com a qualidade de
vida e com o hedonismo – principalmente para as camadas médias e altas da população
que já superaram a luta pela sobrevivência diária e que estão num patamar de consumo
mais elevado de bens e serviços – é flagrante a inquietação com os relacionamentos amo-
rosos.
Mas se, em geral, há um investimento no sentido de uma vida mais sadia e harmo-
niosa, parece não ocorrer o mesmo quando se trata das relações pessoais e afetivas. Basta
uma consulta aos classificados de encontros nos jornais e aos “chats” da Internet, para
perceber a enorme carência amorosa das pessoas. Homens e mulheres estão à procura de
afeto e amizade e de relacionamentos amorosos satisfatórios. Hoje, tornou-se usual pesso-
as estabelecerem “relações virtuais” mais ou menos duradouras pela Internet, ou, então,
recorrerem às “salas de bate papos” para encontros amorosos ou de amizade.
Expressando essas inquietações, pode-se citar o tema do filme “Uma Relação
Pornográfica”, do diretor francês Fréderic Fonteyne, que se refere às relações de afeto e de
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Relatos da Vida Amorosa: a intimidade no contexto contemporâneo Sylvia Maria da Penha Cioffi
intimidade contemporâneas. O cenário em que se passa a história é a Paris dos dias de
hoje. A cidade é o pano de fundo no qual se desenrola a ligação erótico-afetiva de um casal
adulto. O filme centra-se na ligação sexual entre um homem e uma mulher anônimos, para
realizar uma fantasia sexual mútua, que se encontram por meio de um anúncio na Internet.
Essa relação dá-se no campo da mais absoluta impessoalidade (nem sequer sabem seus
nomes), marcada por uma postura voluntária mútua de não envolvimento amoroso e de
total anonimato de suas vidas privadas. Na realidade, não se trata de uma ligação
pornográfica, mas sim de uma relação baseada no exercício da sexualidade livre, firmada
num contrato de não envolvimento afetivo. O título é usado no filme um tanto
ironicamente, para denotar uma relação impessoal de recusa da intimidade, mas que, no
final, fracassa nos seus intentos, quando os protagonistas se percebem aprisionados pelo
sentimento da paixão. A pornografia aparece aqui entre “aspas”, essa ligação não tendo
nada de pornográfica. É, isso sim, uma relação de sexo livre que “descamba” para a
intimidade e com a repetição dos atos, vem a dar na afetividade. Trata-se de um filme em
que as defesas amorosas estão todas expostas e são levadas às últimas conseqüências - a
recusa à intimidade, quando ela começa a ser o pressuposto do amor. Na realidade, no
sentido exato da palavra, trata-se de uma relação abortada. A própria atmosfera criada por
essa relação impessoal, para a satisfação de uma fantasia sexual, realimenta,
constantemente, o clima erótico. A perspectiva de se entregarem sem intimidade é mais
um componente que aviva o desejo entre os envolvidos. O futuro é mediado pela semana
seguinte, pelo próximo encontro, sendo todos os cuidados tomados, sobretudo por ela,
para que o envolvimento não aconteça.
No filme, a escolha amorosa resolve-se pela recusa, sendo vitorioso o medo.
O medo do amor e da paixão, o medo do salto no escuro, o medo da rotina, do cotidiano
empobrecido do amor. O medo do Outro, das dificuldades do enfrentamento de duas
singularidades. Desvenda, assim, o medo contemporâneo do envolvimento, da dor, do
espelho que o outro se torna numa relação afetiva. O medo da fragilidade de se sentir presa
do outro, nas mãos do outro, de se confundir com ele(a), perdendo-se de si mesmo,
perdendo sua identidade e individualidade. Nesse sentido, o filme coloca os embates
diante do amor por parte de homens e mulheres contemporâneos. Expressa o contexto
3
Relatos da Vida Amorosa: a intimidade no contexto contemporâneo Sylvia Maria da Penha Cioffi
social das dimensões do individualismo, característico das sociedades de capitalismo
avançado, consubstanciado nas relações sociais e amorosas, tratadas aqui numa situação
limite.
Assim, o contexto subjacente ao filme refere-se às novas relações de intimidade,
vivenciadas por determinados segmentos da sociedade, derivadas das mudanças de
comportamento em face das transformações sociais em curso. Reflete, ainda, o
alargamento das fronteiras rígidas do padrão de moralidade e o surgimento de modelos
alternativos de relações entre os sexos. Está em jogo, no caso em questão, a recusa à
intimidade, o medo da entrega e a deserção dos personagens, do mundo perigoso das
relações amorosas, para o terreno seguro das “relações prudentes”.
Até que ponto essa recusa da intimidade está na origem da insatisfação amorosa?
Essa é a interrogação a partir da qual se constrói a problemática orientadora deste trabalho
de investigação. Seu contraponto é a reflexão que diferentes autores vêm fazendo sobre a
trajetória do amor e da intimidade em nossos dias.
O amor romântico desenvolveu-se na idade moderna, fruto de uma concepção de
individualismo e autonomia característica da sociedade burguesa e de uma longa síntese
entre o eros pagão, o amor cristão idealizado e a moderna filosofia iluminista. Em sua
essência o amor romântico só amadureceu quando sociedades recém-industrializadas e
crescentemente anônimas isolaram a família nuclear e a tornaram economicamente
independente, permitindo aos homens e às mulheres considerável escolha pessoal de
parceiros no casamento (Solomon, 1992: 60).
O amor é um produto histórico e culturalmente construído, sujeito às transfor-
mações da sociedade; pode-se, então, perguntar se, hoje, as bases de sustentação do amor
romperam-se dando lugar à insatisfação amorosa ou, ainda, como se reconstrói o
imaginário social sobre o amor na contemporaneidade.
A despeito da sobrevivência do mito do amor romântico como ideal, acredita-se
que o caráter social das relações afetivas contemporâneas seja mais marcado pela
concepção pragmática do amor, consubstanciada no que se chamará aqui de “relações
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Relatos da Vida Amorosa: a intimidade no contexto contemporâneo Sylvia Maria da Penha Cioffi
prudentes”. Nos dias de hoje, os excessos amorosos banalizam-se e, cada vez mais, é
predominante o medo do compromisso e da entrega incondicional. Nesse cenário, como
escolha ou como contingência, a solidão torna-se a companheira de muitas pessoas nas
grandes metrópoles (Simmel, 1903).
Diferentemente do sentido clássico de solidão que o amor romântico estabeleceu
como “falta”, vazio, ausência do outro, nesse caso, a solidão é considerada como eleição
voluntária, que se realiza na privacidade. A vida em solidão, como escolha, diz respeito a
uma priorização do “eu” em relação ao “outro”. O indivíduo, que vive só, procede a uma
decisão racional, baseada em um cálculo de custos e benefícios comparados na ação de
compartilhar sua vida. Como resultado, está presente a concepção do vínculo amoroso
como algo que implica “gasto de tempo” e esforço, subtraídos tanto do cuidado de si
mesmo, como da atenção dos mais próximos. Em consonância com essa linha de
pensamento de valorização da privacidade e de defesa de uma esfera, da qual o indivíduo é
dono absoluto, perfila-se uma certa concepção de relações afetivas que poderia ser tachada
de “pragmática” em relação à outra denominada “romântica”.
1
Para alguns autores, (Giddens,1993; Solomon,1992) a modernidade abriu grandes
possibilidades e foi condição necessária de todo desenvolvimento na ciência, nas artes, na
política e também do relacionamento entre os sexos, pois possibilitou que homens e
mulheres estivessem frente a frente como iguais, reféns apenas de sua própria escolha,
desembaraçados de toda restrição social e política. Giddens julga possível que, a partir daí,
emergia um tipo de relacionamento “puro” ou relação convergente, baseada na igualdade,
no envolvimento, no compromisso e no valor da própria relação. Para Solomon (1992),
deveria ser proposta, a reinvenção do romance, em nossos dias.
Para outros, (Hunt, 1974; Lasch, 1983; 1986; 1991) ao contrário, a época atual seria
vazia de valores afetivos e morais. O culto ao ego, o anonimato, a ausência de modelos e a
mobilidade da vida moderna teriam provocado a perda de orientação para as vidas pes-
soais. Não há mais imperativos específicos de pertinência a esta ou aquela cultura (traços
1. Ver: BÉJAR, Helana. La cultura del yo. Madrid: Aliança Editorial, 1993.
5
Relatos da Vida Amorosa: a intimidade no contexto contemporâneo Sylvia Maria da Penha Cioffi
culturais com os quais, antigamente, cada indivíduo podia identificar-se), a esta ou aquela
comunidade, e o sujeito encontrar-se-ia, assim, sem referências, ou melhor, diante de um
leque tão grande de possibilidades para sua biografia, que não saberia que rumo dar às
suas escolhas. Esse desenraizamento resulta num individualismo exacerbado.
Helena Béjar (1990:18) considera que, na ordem do liberalismo, o individualismo
possuía um sentido positivo de cidadania e liberdade, de autonomia e auto-realização para
o indivíduo, voltado para o cultivo da esfera privada como ideal normativo. Hoje, a seu
ver, esse sentido positivo parece deturpado e o narcisismo converteu-se na nova face do
individualismo e cabe perguntar se essa concepção atual representa a continuação do ideal
liberal clássico de privacidade, ou é, em realidade, sua inversão.
É constante ouvirem-se queixas de homens e mulheres em relação à suas
possibilidades de encontros amorosos satisfatórios. Os ideais do amor romântico conti-
nuam existindo e ocupando lugar importante na vida das pessoas, mas há uma disjunção
entre o ideal e a realidade. Parece que, no plano das relações pessoais, este seja um tempo
de transição e desordem, um tempo de insatisfação e desencontros. Talvez essa questão
seja o grande desafio da contemporaneidade.
A rapidez com que, em nossa sociedade, se modificaram a intimidade e as relações
interpessoais, produto das últimas décadas, coloca questões importantes a respeito de
como sesse novo caráter social das relações afetivas se manifesta na vivência e no
cotidiano dos indivíduos.
Portanto, é importante investigar algumas das razões para essa insatisfação
amorosa e para a corrosão das relações de intimidade. A proposta desta investigação é
abordar a transformação das relações afetivas (do amor e da intimidade) para o segmento
das camadas médias. Buscar-se-á aprofundar a análise sobre como a mudança do caráter
social afetivo na contemporaneidade incide na biografia dos indivíduos, influenciando seu
comportamento em relação à questão amorosa, observando, em sentido mais restrito, a
relação amorosa entre homens e mulheres das camadas médias intelectualizadas da cidade
de São Paulo.
6
Relatos da Vida Amorosa: a intimidade no contexto contemporâneo Sylvia Maria da Penha Cioffi
Partindo de uma concepção abrangente, pode-se caracterizar as camadas médias
como aquelas compostas por trabalhadores não manuais, assalariados ou não. A noção de
camadas médias reporta-se à teoria da estratificação social, trazendo o pressuposto de que
elas se sobrepõem e podem ser delimitadas em função dos rendimentos auferidos pelos
seus integrantes. Portanto, existe uma considerável heterogeneidade entre as camadas
médias e essa pluralidade exige uma qualificação. Romanelli (1986) esclarece que a
diferença interna das camadas médias pode ser associada a dois elementos: um de cunho
econômico-social, referindo-se ao montante de rendimentos de seus componentes e outro
de cunho cultural, fundado no universo simbólico, que orienta a ação social dos indivíduos
desse segmento. Para o autor, de acordo com esse segundo critério, as camadas médias são
qualificadas como alternativas, conservadoras, intelectualizadas ou emergentes. Para os
propósitos deste trabalho, eleger-se-ão as camadas médias intelectualizadas como campo
de investigação mais próximo.
Assim, o interesse de pesquisa que norteia este trabalho diz respeito às novas
formas de sociabilidade amorosas vigentes na contemporaneidade. Parte-se da hipótese de
que, hoje, os indivíduos flexibilizaram suas biografias amorosas, o que desencadeou mu-
danças na natureza da experiência sentimental que vivenciam. As relações amorosas
tornaram-se contextuais e pontuais e ocorre o enfraquecimento ou mesmo a recusa dos
laços de intimidade. O chamado amor romântico não mais constitui prerrogativa obriga-
tória da construção de identidades subjetivas, ainda que permeie o imaginário social. Essas
transformações são mais visíveis nos segmentos mais intelectualizados das camadas
médias, onde os indivíduos se consideram livres para uma escolha amorosa entre iguais.
Não obstante, pode-se supor que essas mudanças tendam a espraiar-se das camadas mé-
dias dos grandes centros urbanos para outros domínios mais gerais da sociedade, ou seja,
podem estar começando a influenciar o imaginário dos indivíduos de outros segmentos.
Na realidade, ao se falar desse tema, que faz parte da biografia da maioria, falamos
de todos os indivíduos. Independente de faixa etária, sexo ou classe social, a visão utópica
ou distópica quanto à possibilidade de realização amorosa toca a todos. Hoje, o encontro
amoroso e o engendramento de uma relação estável satisfatória constitui um desafio,
perseguido por muitos, mas levado a bom termo por poucos.
7
Relatos da Vida Amorosa: a intimidade no contexto contemporâneo Sylvia Maria da Penha Cioffi
Resta indagar por que, atualmente, essa questão se tornou tão visível e presente nas
subjetividades contemporâneas, a ponto de sobressair no cenário social. Mesmo não sendo
possível responder a essa questão, é necessário investigar, refletir e apontar caminhos; são
esses os objetivos colocados nesta empreitada.
Outro elemento a ser contornado, ou melhor enfrentado (não seria mais adequado
dizer “controlado”?) da melhor maneira possível é o fato de a pesquisadora pertencer ao
mesmo segmento das camadas médias que investiga. Se, por um lado, isso constitui
motivo de maior cuidado para não incorrer em vieses na pesquisa, por outro, obrigou-a a
promover um movimento de estranhamento em relação a seu próprio meio social, nos
moldes do que Roberto da Matta coloca em seu belo artigo “O ofício do etnólogo ou como
ter anthropological blues” (Da Matta, 1974). Segundo o que é dito por ele, foi preciso
transformar o familiar em exótico, ou “tirar a capa de membro de uma classe e de um
grupo social específico para poder – como etnólogo – estranhar alguma regra social
familiar e assim descobrir (...) o exótico no que está petrificado dentro de nós pela
reificação e pelos mecanismos de legitimação” (Da Matta, 1974:6). Tal como um xamã, o
pesquisador tem de promover um movimento “drástico, onde, paradoxalmente, não se sai
do lugar. E, de fato, as viagens xamanísticas são viagens verticais (para dentro ou para
cima) muito mais do que horizontais, como acontece na viagem clássica dos heróis
homéricos” (Da Matta, 1974:8).
Da mesma maneira, a pesquisadora escondeu as emoções suscitadas pelos relatos
de seus informantes, mas elas estavam presentes e subjacentes no seu íntimo, o que,
talvez, possa ter criado a empatia que favoreceu o contato. Também o fato de ser
considerada “uma igual”, ou seja da mesma classe social que o informante, constituiu
ponto positivo na aproximação inicial com o(a) entrevistado(a), fazendo com que ele(a) se
sentisse mais à vontade.
Deve ser ressaltado que o objeto de estudo em questão perpassa o senso comum
2
e
faz parte do domínio que os teóricos, apropriadamente, chamam de sociologia do
2. Boaventura de Souza Santos ao conceber uma nova postura para a ciência contemporânea, valoriza o pa-
pel aí desempenhado pelo senso-comum, propondo que seja reapropriado no trabalho intelectual. No di-
8
Relatos da Vida Amorosa: a intimidade no contexto contemporâneo Sylvia Maria da Penha Cioffi
cotidiano. Como adverte Pais (2003:103) se “a sociologia é o estudo dos fatos sociais, os
discursos do senso comum são assuntos da sociologia, ou seja, são fatos sociais – o que
não quer dizer que os discursos e os padrões de comportamento não tenham de ser
estudados a partir da análise de processos sociais que transcendem os indivíduos e as suas
circunstâncias especiais”. Na visão do autor, o que importa levar em conta é se, no quadro
das rupturas epistemológicas do discurso científico relativamente ao senso comum, as
interpretações espontâneas e as evidências do senso comum revelam ou ocultam relações
sociais que, do ponto de vista de uma sociologia da vida cotidiana devem ser objeto de
reflexão.
Além disso, o objeto desta pesquisa é interdisciplinar, fincando raízes no campo da
Psicologia e, mais especificamente até, no da Psicanálise, pois são tratadas as relações so-
ciais, entranhadas com a psiché humana. Apreender esse objeto, e lidar com os meandros
entre as fronteiras interdisciplinares, constituiu, portanto, um desafio para a pesquisadora.
No primeiro capítulo deste estudo discutem-se as visões de alguns autores sobre o
tema do amor e da intimidade, bem como as disposições da contemporaneidade, seus des-
dobramentos no cenário brasileiro e os pressupostos teórico-metodológicos da pesquisa
empírica; no segundo, apresentam-se os relatos dos entrevistados interpretados na pers-
pectiva de gênero, matriz importante que influencia as representações dos indivíduos, re-
cuperando as mudanças e permanências dos valores relativos ao envolvimento amoroso. O
capítulo três diz respeito à análise das entrevistas sob a perspectiva da geração dos entre-
vistados. Finalmente, o capítulo quatro que versa sobre a intimidade, partindo da clivagem
de gênero e geração procura responder à hipótese colocada nesta investigação.
zer do autor, caminhamos para uma nova relação entre ciência e senso comum. Se superarmos o
etnocentrismo científico, a caracterização do senso comum pode ser mais positiva. Essa caracterização
alternativa do senso comum procura salientar sua positividade e sua contribuição possível para um proje-
to de emancipação cultural e social. Santos propõe que tanto o senso comum como a ciência moderna se
superem a si mesmos, para dar lugar a uma outra forma de conhecimento, voltado para uma dupla ruptura
epistemológica (Santos, 1989:40).
Capítulo 1
Investigando o Cenário
Amoroso Contemporâneo
Nighthawks Edward Hopper
10
Relatos da Vida Amorosa: a intimidade no contexto contemporâneo Sylvia Maria da Penha Cioffi
E
ste capítulo apresenta, inicialmente, a concepção sobre intimidade e relação
amorosa adotada neste estudo, confrontando-a com a visão de alguns teóricos. Trata
também do contexto da contemporaneidade e as principais conseqüências das
transformações ocorridas nesse período, que reverberaram no terreno das relações
interpessoais, bem como seus reflexos na sociedade brasileira. A seguir, estabelece os
pressupostos teórico-metodológicos que embasaram este trabalho. Descreve a pesquisa
empírica, acrescentando, no final, um apanhado geral das histórias dos personagens
envolvidos nessa empreitada.
O trabalho trata a relação afetiva como qualquer vínculo afetivo-sexual entre um
homem e uma mulher, independente das relações institucionais de conjugalidade ou
uniões consensuais. Nesse sentido, abordam-se, também, os temas da família e do casa-
mento (ou conjugalidade, na acepção mais ampla), que serão tomados como ponto de
partida e discutidos conforme sua influência sobre o fenômeno do encontro amoroso.
Assim, as construções dominantes das categorias do masculino e do feminino não podem
deixar de levar em conta as formas modulares como as relações estáveis se organizam no
Ocidente, passando necessariamente pelo casamento ou a coabitação, a sexualidade e a
reprodução familiar.
Considera-se relação amorosa satisfatória aquela em que haveria um ponto de
equilíbrio razoável entre custo-benefício, em conformidade com o que Giddens (1993;
2002) define como relação pura ou convergente, tratada mais adiante. Acresça-se, que não
se trata de uma relação idealizada (embora o componente de idealização exista em toda
relação no terreno do psíquico) com ausência de conflitos, já que o conflito é inerente à
condição humana e às relações interpessoais, mas aquela na qual esses conflitos
caminham no sentido de uma superação ou negociação, tendo em vista a preservação e a
11
Relatos da Vida Amorosa: a intimidade no contexto contemporâneo Sylvia Maria da Penha Cioffi
valorização da própria relação. A relação em si é revestida de um valor maior que
converge para o afeto mútuo e o respeito na diferença, que caracterizam a relação
satisfatória.
Pode-se argumentar, com razão, que a definição acima peca pelo idealismo, mas
trata-se de um tipo ideal nos termos weberianos. Na realidade, a relação satisfatória
também constitui uma projeção idealizada e ela sempre acusará as dimensões da
assimetria presente no campo social, marcada pelas diferenças de gênero e pela ordem
simbólica androcêntrica (Bourdieu, 1999), da qual se falará adiante.
Mas também é verdade que existem casais que lidam melhor que outros com essa
assimetria e a contornam, visando a preservação do laço afetivo, no qual os conflitos
caminham para uma negociação. Assim, a reciprocidade associada à alteridade impede
que o potencial conflitivo presente em toda relação significativa se torne destrutivo.
Outra questão presente nos tempos atuais é a do rumo tomado pelo individualismo,
que, a exemplo do que aponta Béjar (1990), parece querer transformar-se num culto à
autonomia, com aspectos narcisistas
3
. No passado, a autonomia do indivíduo, como parte
3. O termo narcisismo surgiu, pela primeira vez, nos textos de Freud, numa nota acrescentada em 1910 aos
“Três Ensaios sobre a Teoria da Sexualidade”, em que ele se refere aos “invertidos”, ainda não utilizando
a palavra “homossexual”. O autor escreveu que eles “tomam a si mesmos como objetos sexuais” e, “par-
tindo do narcisismo, procuram rapazes semelhantes à sua própria pessoa, a quem querem amar tal como
sua mãe os amou”. Entretanto, foi em 1914, em “Sobre o Narcisismo: uma introdução”, que o termo
adquiriu seu valor de conceito. A partir da observação do delírio de grandeza no psicótico, Freud definiu o
narcisismo como a atitude resultante da transposição, para o eu do sujeito, dos investimentos libidinais,
antes feitos nos objetos do mundo externo. Ele distinguia entre narcisismo primário e narcisismo secun-
dário. O primário se configura como um estado no qual o recém-nascido não tem consciência do outro,
nem distingue a fronteira entre seu eu e o mundo externo, tomando-se a si mesmo como objeto de amor. A
definição de narcisismo secundário reporta-se ao represamento da libido em relação a todo objeto exter-
no, e a volta desta para o próprio ego do indivíduo. Não obstante, o narcisismo secundário ou narcisismo
do eu, não se limita a esses casos extremos, uma vez que o investimento libidinal do eu coexiste, em todo
ser humano, com os investimentos objetais, havendo Freud postulado a existência de um processo de
equilíbrio energético entre as duas formas de investimento que participam de Eros, a pulsão de vida, e de
seu combate contra as pulsões de morte. Em outras palavras, certa dose de narcisismo é característica de
todo ser humano e aparece na vida normal, não correspondendo a um estado psíquico específico. O nar-
cisismo secundário faz parte do dinamismo da vida psíquica, mas, além de um certo patamar, converte-se
em fonte de desprazer. Amor e narcisismo estão intimamente ligados. Uma vez que o narcisismo tem lu-
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Relatos da Vida Amorosa: a intimidade no contexto contemporâneo Sylvia Maria da Penha Cioffi
do projeto liberal, apresentava valores enriquecedores, que não comprometiam os ideais
coletivos; dito de outra forma, a autonomia servia de ponte entre o indivíduo e os ideais
coletivos. Hoje, esse sentido parece haver-se perdido e “nas sociedades mais
desenvolvidas, as pessoas pensam a si próprias como seres individuais e independentes,
separadas umas das outras por uma espécie de muro invisível”(Oliva-Augusto, 1994:99).
Por suposto, esse fato também repercute nas relações amorosas dos indivíduos, fazendo
com que se instaure o medo ao compromisso ou o medo de amar como perda da
autonomia, e esta, sem um projeto e um sentido que a qualifique, se transforma num vazio.
É como se a entrega amorosa trouxesse consigo a perda da auto-identidade, como se o
indivíduo perdesse a si próprio ou alguma coisa de si mesmo.
Por isso, emerge o interesse pela vigência do que se chama aqui de “amores
prudentes” ou “relações prudentes”, amores passageiros e expressos, sem a presença do
risco da entrega completa, caminhando para o inevitável sofrimento e frustração perante
as impossibilidades surgidas no desenrolar de um relacionamento a dois.
Para o esclarecimento dessa problemática é necessário que se examinem alguns
significados atribuiídos, em nosso dias, à idéia de intimidade, da ótica de vários autores, o
que será feito a seguir.
Intimidade e relação amorosa
A questão da transformação da intimidade, visualizada nas relações afetivo-sexuais
dos indivíduos, faz parte das mudanças que se fizeram notar mais fortemente, na socie-
dade brasileira, a partir dos anos 70.
gar quando a libido se evade do objeto e se volta para o eu, é possível distinguir duas tendências, dentro
da complexidade da vida psíquica, que se enfrentam, em função do objeto sobre o qual se volta a energia
sexual. Por um lado, encontram-se as pulsões do eu (e seus impulsos básicos como a fome, pela qual o
indivíduo satisfaz sua necessidade vital mais urgente, seguindo o próprio instinto de conservação) em
virtude das quais o indivíduo se considera um ser independente, um fim em si. Por outro lado, às pulsões
do eu, contrapõem-se as pulsões sexuais – ou libido objetal – pelas quais a energia sexual se centra em
um objeto que já não é mais o eu. O amor fundamenta-se nas pulsões sexuais e “se apresenta como uma
dissolução da própria personalidade em favor da carga de objeto”. (ROUDINESCO E. e PLON, M.,
1998: 530-32)
13
Relatos da Vida Amorosa: a intimidade no contexto contemporâneo Sylvia Maria da Penha Cioffi
Numa acepção mais geral, essa noção abrange as relações pessoais de indivíduos
próximos e, num sentido mais estrito, a vida afetiva dos indivíduos. Entretanto a dimensão
da intimidade dá-se tanto no plano das relações ditas amorosas e eróticas como no plano
mais abrangente das relações sociais das pessoas com os seus pares, incluindo aqui a
amizade e as relações com pais, filhos e parentes. Para o escopo desta pesquisa, tratar-se-á
a intimidade na acepção mais restrita do termo, englobando a sexualidade e as relações
amorosas dos indivíduos.
Na concepção de Giddens (1993), a revolução na intimidade deve-se, pri-
mordialmente, às conquistas femininas que “libertaram a sexualidade” por meio do
advento da contracepção, permitindo às mulheres a fuga ao controle masculino e ins-
taurando um novo tipo de relacionamento afetivo. A adoção de métodos contraceptivos
eficazes por parte dos mais diversos segmentos sociais reforçou o aparecimento de “novos
valores” em prol de maior liberdade sexual, promovendo a separação entre sexualidade e
reprodução. Esse processo está ligado ao nascimento de um novo padrão de intimidade e
de relacionamento afetivo entre os sexos, para o qual a união entre parceiros se torna um
acordo de vontades, um contrato entre livres e iguais.
Com o uso da expressão “transformação da intimidade”, o autor aponta esse
fenômeno para qualificar os novos valores que regem as relações dos casais. Em suas
palavras
“a contracepção efetiva significava mais que uma capacidade aumentada de
limitar a gravidez. Associada a outras influências, (....), que afetaram o tamanho
da família, marcou uma profunda transição na vida pessoal. Para as mulheres –
e, em certo sentido, diferente também para os homens – a sexualidade tornou-se
maleável, sujeita a ser assumida de diversas maneiras, e uma “propriedade”
potencial do indivíduo. A sexualidade passou a fazer parte de uma progressiva
diferenciação entre o sexo e as exigências da reprodução” (Giddens, 1993:37).
Giddens concebe o surgimento de uma “sexualidade plástica” e do “rela-
cionamento puro” – baseado na igualdade, no envolvimento, no compromisso e no valor
da própria relação – e atribui essa nova espécie de relacionamento ao papel desempenhado
pelas mulheres nas últimas décadas. Uma relação pura ou convergente é aquela em que
critérios externos, como parentesco, dever social ou obrigação tradicional, se dissolveram:
14
Relatos da Vida Amorosa: a intimidade no contexto contemporâneo Sylvia Maria da Penha Cioffi
ela existe somente pela retribuição que ela própria pode dar. Essas transformações
possibilitariam um futuro promissor para o relacionamento entre os sexos e a
democratização das relações pessoais, baseadas na co-responsabilidade e no
envolvimento.
Destaque-se que a visão de Giddens é de cunho essencialmente otimista, ao prever
a democratização, baseada no compromisso, das relações pessoais. É como se o casais,
hoje, vivessem numa redoma, longe dos constrangimentos e vicissitudes da
contemporaneidade e de uma sociedade que tem como fim último o sucesso individual a
todo custo. Por outro lado, é certo que ocorreram progressos no sentido de uma maior
igualdade e reciprocidade entre os pares, que seria o fundamento da complementaridade
dos papéis sexuais, que, entretanto, está longe de se concretizar.
Outros autores, como Bauman (1998:184), apontam justamente na direção
contrária, criticando os conceitos de “relacionamento puro” e “sexualidade plástica”, ao
afirmar que “um aspecto da transformação dos nossos dias é o desemaranhamento do sexo
do denso tecido de direitos adquiridos e deveres assumidos”. O autor acrescenta que nada
resulta do encontro sexual, a não ser o próprio sexo e as sensações que acompanham o
encontro; “o sexo, pode-se dizer, saiu da casa familiar para a rua, onde apenas os
transeuntes acidentais encontram quem – enquanto encontram – sabe que mais cedo ou
mais tarde (antes mais cedo do que mais tarde) seus caminhos são obrigados a se separar
novamente” (Bauman, 1998:184).
Para Beck (2001), a liberação da mulher se impôs como trajetória irreversível no
terreno das relações de gênero, mas está repleta de contradições e conflitos que se
expressam no cotidiano dos casais. A liberação demográfica (com a maior expectativa de
vida feminina), o trabalho doméstico modificado e facilitado pelos avanços tecnológicos,
a contracepção, o divórcio, a participação na educação e ocupações expressam o grau de
liberação da mulher dos ditames do seu destino, anteriormente traçado para o convívio
exclusivo no lar.
As oportunidades, ameaças, ambivalências da biografia, que anteriormente era
possível superar em um grupo familiar, na comunidade da aldeia ou recorrendo a
uma classe ou grupo social, devem ser cada vez mais percebidas, interpretadas e
15
Relatos da Vida Amorosa: a intimidade no contexto contemporâneo Sylvia Maria da Penha Cioffi
resolvidas pelos próprios indivíduos. Certamente, ainda podem ser encontradas
famílias, mas a família nuclear está se tornando uma instituição cada vez mais
rara. (...) E mesmo o eu (self) não é mais o eu inequívoco, mas se tornou
fragmentado em discursos fragmentados do eu (Beck,1997:18-19).
Diante do cenário de transformação social dos últimos anos, o autor faz uma
abrangente análise sobre os papéis de gênero dentro do casamento, enfocando a família
nuclear e os principais impasses nas relações afetivas entre os sexos e os problemas
relativos à maternidade e paternidade. Para ele, a situação da mulher com filhos é, ainda,
desvantajosa em relação ao homem, pois a ela cabe sempre a maior responsabilidade na
criação dos filhos, seja na jornada dupla de trabalho, seja no caso da separação em que os
filhos preferencialmente ficam com as mães (Beck, 1997; 2001).
Anteriormente, as regras do casamento baseado no status dominavam como
imperativos (a indissolubilidade do casamento, os deveres da maternidade e
assim por diante). Isso certamente reduzia o escopo da ação, mas também
obrigava e forçava os indivíduos a ficarem juntos. Em contraste com isso, hoje
em dia não há um modelo, mas vários modelos (.....). Esses modelos não
consolidam a união das pessoas, mas a dissolvem e multiplicam as dúvidas.
Assim, forçam todo homem e mulher, tanto dentro como fora do casamento, a
operar e persistir como agente individual e planejador de sua própria
biografia”(Beck, 1997:27).
Essa concepção, à semelhança de Giddens (1993), pressupõe um novo tipo de
relacionamento entre os sexos, para o futuro, baseado no compromisso e na solidarie-
dade dentro ou fora do casamento, em que a biografia pode tornar-se algo com potencial
revolucionário, considerando as várias formas de vida conjunta como uma prática
sensível, ou preocupada com a tentativa de remover as más experiências do passado.
Já Lasch (1991) é pessimista em sua análise e considera, ainda, que vivemos em
um tempo de fuga ao sentimento, marcado pelo culto à intimidade que, no cerne, carrega
sua própria recusa. O autor criou a expressão “cultura do narcisismo” para referir-se às
relações vigentes na sociedade contemporânea, fenômeno que parece contribuir para o
desencontro amoroso entre homens e mulheres e a exacerbação do individualismo.
Nessa vertente, hoje, as relações de intimidade encontrar-se-iam profundamente
minadas, reverberando perversamente nas relações amorosas, sobretudo porque as con-
cepções de amor e intimidade estão profundamente ligadas.
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Relatos da Vida Amorosa: a intimidade no contexto contemporâneo Sylvia Maria da Penha Cioffi
Como bem define Solomon (1992: 33), o amor é um artefato cultural e não uma
emoção inata como preconizam os idealistas. É uma emoção histórica, condicionada pela
cultura e sujeita às transformações impostas pelo tempo e pelas circunstâncias. O amor é
uma forma de interação emocional e de construção de identidades pessoais, nascida na
idade moderna, que se vem prolongando com variantes, na contemporaneidade. Em outras
palavras, o que chamamos “amor” não é um fenômeno universal e sim uma interpretação
específica cultural do fenômeno universal de atração sexual e suas complicações.
Dentre as formas culturalmente determinadas que o amor pode assumir, destaca-se
aqui a do amor romântico, fruto de uma concepção de privacidade e de autonomia
individuais pouco conhecida em períodos anteriores, a qual contém a idéia de que as
emoções devem ser cultivadas como fonte de prazer e a noção imprescindível de uma
unidade entre sexualidade e sentimento (Ver Costa, 1999).
Do ponto de vista dos sentimentos, o amor faz parte de um projeto de construção de
identidades partilhadas a longo prazo, que envolve o compromisso e um certo “trabalho
emocional” entre parceiros, para, em nome da união amorosa, driblar as dificuldades e
fazer certas concessões ao outro.
Portanto, essa constante necessidade de “alimento emocional” que a relação amo-
rosa tem no tempo diacrônico parece chocar-se diretamente com os preceitos sincrônicos
do capitalismo flexível apontados por Sennett (2001) e reconhecidos no lema do “curto
prazo”, provocando uma dissociação difícil de ser superada.
O fato é que essa crença emocional vem se transformando em nossos dias,
adquirindo contornos mais voláteis e sendo progressivamente apropriada pela lógica do
cálculo utilitário. Certamente, no passado, sempre existiram os desencontros amorosos e a
incomunicabilidade entre os dois sexos, somente mais dissimulados. A despeito disso,
havia valorização e apreço pelo amor. Hoje, essas discrepâncias são tratadas à luz do dia,
nos programas de tv, tanto pelos próprios envolvidos como pelos especialistas,
provocando a corrosão da privacidade e da intimidade. Parece, portanto, ser verdadeiro
que as determinações da vida contemporânea propiciaram condições mais adversas para o
encontro amoroso.
17
Relatos da Vida Amorosa: a intimidade no contexto contemporâneo Sylvia Maria da Penha Cioffi
Ao contrário da imagem romântica, o amor é uma crença emocional como outra
qualquer, uma crença piegas – como diriam os autores que têm do amor uma visão
“realista” ou pessimista –, ou enriquecedora – como reconhecem os autores que valorizam
o amor como um ideal. Como bem esclarece Costa (1999), em nossa cultura, esse termo
está associado a imagens de aprovação ou reprovação e discutir o amor é colocar-se na
posição de quem pensa de forma axiológica.
Dessa perspectiva, esse último autor apresenta posição bastante interessante ao
enunciar que, hoje, na construção de identidades emocionais, há primazia de imagens e
sensações sobre os sentimentos, enquanto, antes, o amor era um valor moral para os
indivíduos, que reconheciam sua importância na constituição de suas biografias. Em suas
palavras,
o sujeito do amor romântico (...) era o que sabia distinguir seu “verdadeiro
mundo interior” da sedução das sensações e dos costumes, em especial dos
costumes da moda. Esse mundo interior era feito de afetos estáveis, construídos
por práticas de autocontrole, disciplina, sacrifício e tenacidade, força de vontade
etc. O sentimento de amor era um entre outros sentimentos como a piedade, a
fraternidade, a compaixão, além das variantes domésticas do próprio amor, como
amor aos pais, aos filhos aos parentes, etc. Na base de todos eles estava a
premissa de projetos emocionais a longo prazo (Costa, 1999: 213-14).
Bauman (1998: 186) partilha da mesma opinião de Costa, ao afirmar a busca
frenética do indivíduo de hoje pela sedução das sensações em detrimento dos valores
afetivos mais sólidos, cujo resultado final, a seu ver, é o rápido definhamento das relações
humanas, despindo-as de intimidade e emotividade, e o esmorecimento do desejo de entrar
nelas e conservá-las vivas.
Nessa perspectiva, surge ainda a questão da privacidade, que também vem se trans-
formando, e perdendo seu sentido original, como coisa íntima, burguesa, relativa ao recôn-
dito dos lares, e agora, é tratada como espetáculo pela mídia; a alteração também ocorre
pela falta de intimidade amorosa, no sentido de maior cumplicidade e empatia entre os
casais. Essa situação, necessariamente, vai implicar uma perda da privacidade, ou, dito de
outra forma, falta de condições para que floresça a intimidade. Para Costa (1999: 216)
a
decadência da intimidade deve-se menos à sua transformação em mercadoria pela pressão
da mídia do que ao desinvestimento em seus processos de formação e manutenção”.
18
Relatos da Vida Amorosa: a intimidade no contexto contemporâneo Sylvia Maria da Penha Cioffi
É nesse contexto interseccionado entre cultura e subjetividade, ou num dos pólos
entre o local e o global como diria Giddens, que se coloca o problema do caráter social
4
no
referente às relações afetivas na contemporaneidade. Ou seja, as profundas transfor-
mações ocorridas no cenário global não deixaram, também, de contaminar as relações
interpessoais. Nesse sentido, pode-se perceber que o saldo não é muito positivo e, hoje, as
formas nas quais o individualismo se transvestiu não propiciam o encontro afetivo.
O contexto da contemporaneidade
Alguns teóricos (Giddens, 1991; 2002; Hall, 2002) afirmam que um novo tipo de
mudança estrutural está transformando as sociedades modernas no início do século XXI,
espraiando-se por todos setores da vida social
5
.
Na concepção de Hall (2002) as sociedades contemporâneas são, portanto,
caracterizadas por mudanças rápidas e constantes e essas transformações provocariam “a
fragmentação das paisagens culturais de classe, gênero, sexualidade, etnia, raça e
nacionalidade, que no passado, nos tinham fornecido sólidas localizações como
indivíduos sociais” (Hall, 2002: 9).
4. Utilizar-se-á a concepção de caráter social adotada por David Riesman em sua obra “ A Multidão Solitá-
ria”. Caráter, para o autor, é a organização mais ou menos permanente social e historicamente condicio-
nada dos impulsos e satisfações do indivíduo – o tipo de “configuração” com o qual ele aborda o mundo e
as pessoas. O caráter social é definido como a parte do caráter que é compartilhada por grupos significati-
vos e é o produto da experiência desses grupos, permitindo assim, falar do caráter de classes, grupos,
regiões e nações (Riesman, 1995: 68).
5. O período contemporâneo é diferentemente nomeado pelos teóricos, bem como suscita várias interpreta-
ções no campo das ciências humanas. Foi chamado de pós-modernidade na década de 80, quando estudi-
osos franceses (Lyotard, J., 1984) decretaram o fim das grandes narrativas dos mestres do Iluminismo,
assim como pela corrente de autores americanos, tais como Harvey, D. (1992), Jameson, F. (1991) e pelo
sociólogo polonês radicado na Inglaterra, Bauman, Z. (1998). Esse período foi denominado, ainda,
modernidade reflexiva por Beck, U. e Giddens, A. (1997) e também alta modernidade por este último.
Em livro recente Beck (2003) utiliza o conceito de segunda modernidade, discutindo suas características.
Bauman, em suas obras mais recentes, utiliza o termo “modernidade líquida”, onde tudo se esvai, para
contrapor-se à solidez da modernidade precedente. Por uma questão de estilo de redação, neste trabalho,
usar-se-ão os termos alta modernidade e modernidade avançada como sinônimos de contemporaneidade.
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Relatos da Vida Amorosa: a intimidade no contexto contemporâneo Sylvia Maria da Penha Cioffi
Giddens (1991: 14) igualmente considera que tanto em sua extensão como em
intensidade, as transformações envolvidas na contemporaneidade “são mais profundas que
a maioria dos tipos de mudança característicos dos períodos precedentes. No plano da
extensão, elas serviram para estabelecer formas de interconexão social que cobrem o
globo; em termos de intensidade elas alteraram algumas das mais íntimas e pessoais
características de nossa existência cotidiana”.
Nesse cenário, as transformações da modernidade tendem a estender-se ao núcleo
do eu, ocasionando mudanças nas identidades pessoais, abalando a idéia que temos de nós
próprios como sujeitos integrados. Hall afirma que essa perda de um “sentido de si”
estável provoca um deslocamento ou descentração do sujeito e que esse duplo
deslocamento – descentração dos indivíduos, tanto de seu lugar no mundo social e
cultural, quanto de si mesmos – constitui uma crise de identidade para o indivíduo.
Assim, a identidade é concebida como formada na interação entre o eu e a
sociedade. O sujeito possui também um eu interior que é constantemente confrontado com
o mundo externo e modificado mediante esta interação. No dizer de Hall (2002: 11-12)
a identidade (...) preenche o espaço entre o ‘interior e o ‘exterior’ – entre o
mundo pessoal e o mundo público. O fato de que projetamos a ‘nós próprios’
nessas identidades culturais, ao mesmo tempo que internalizamos seus
significados e valores, tornando-os ‘parte de nós’, contribui para alinhar nossos
sentimentos subjetivos com os lugares objetivos que ocupamos no mundo social e
cultural. A identidade , então, costura (ou, para usar uma metáfora médica,
‘sutura’) o sujeito à estrutura.
A contemporaneidade impõe novas exigências ao indivíduo e à sua subjetividade.
Esta deve ser permanentemente remodelada, em função dos processos de transformação
contínua da ordem social, tanto intensivos como extensivos. Dito de outra forma, no
mundo da modernidade avançada os caminhos entrecruzam-se e multiplicam-se.
Aumenta, assim o potencial de incerteza do sujeito, que passa a ser exposto a muitas
possibilidades e escolhas e estas não são mais terrenos seguros para trilhar, aumentando
também a angústia e a insegurança. Mostram-se também, algumas vezes, como
impossibilidades existenciais.
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Relatos da Vida Amorosa: a intimidade no contexto contemporâneo Sylvia Maria da Penha Cioffi
Em sua visão da sociedade de risco, Beck (1997; 2001) considera que, na moder-
nidade avançada, a insegurança reconfigurou a estrutura social interna da sociedade
industrial, assim como suas certezas de conduta da vida: classe social, formas familiares,
status de gênero, casamento, parentesco e ocupações.
A transição do período industrial para o período de risco ocorre, no dizer de Beck
(1997), de “forma indesejada, despercebida e compulsiva” frente ao dinamismo autônomo
da modernização. Assim,
a sociedade de risco não é uma opção, que se pode escolher ou rejeitar no
decorrer de disputas políticas. Ela surge na continuidade dos processos de
modernização autônoma, que são cegos e surdos a seus próprios efeitos e
ameaças. De maneira cumulativa e latente, estes últimos produzem ameaças que
questionam e finalmente destroem as bases do sociedade industrial (Beck,
1997:16).
Segundo Giddens (2002) é bem apropriado o conceito criado por Beck para a
caracterização da modernidade avançada, uma vez que a expressão se refere a algo mais
que o simples fato de que
a vida social moderna introduz novas formas de perigo que a humanidade terá
que enfrentar. Assim, ‘viver na sociedade de risco’, significa viver com um atitude
calculista em relação às possibilidades de ação, positivas e negativas, com que
somos continuamente confrontados, como indivíduos e globalmente em nossa
existência social (Giddens, 2002:33).
Beck (1997; 2003) e Giddens (1997; 2002) referem-se, também, à noção de
reflexividade subjetiva e institucional, que domina as relações sociais na modernidade
avançada. Essa reflexividade envolve a incorporação rotineira do conhecimento e
informação novos em situações de ação que são assim reconstituídas e reorganizadas.
Essa ação, incorporada pelos indivíduos e pela sociedade, conta também com o risco e
pode dar num acerto ou num erro. Como assinala Beck, esse conceito não implica (como
pode parecer o adjetivo “reflexivo”) reflexão, mas antes de tudo, autoconfrontação.
Assim, os indivíduos de hoje se acham autoconfrontados. Daí a multiplicidade de
escolhas que o indivíduo tem na alta modernidade, para as quais a reflexividade se
orienta em forma de ações, que carregam intrinsecamente incertezas.
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Relatos da Vida Amorosa: a intimidade no contexto contemporâneo Sylvia Maria da Penha Cioffi
As transformações na sociedade brasileira
A sociedade brasileira não ficou imune às transformações que afetaram o mundo
globalizado na modernidade avançada. A partir da década de 50, intensificou-se o processo
de industrialização e de crescente urbanização. Não só mudanças socioeconômicas foram
incrementadas, mas também as culturais e as comportamentais, constituindo-se esse período
como de intensa ebulição no cenário social, culminando nos movimentos de contra-cultura
dos anos 60. Dentre esses processos destacam-se o desenvolvimento de uma nova classe
média, as transformações na família e no casamento, o engajamento político de parte da
juventude da época e o movimento de liberação feminina.
A nova classe média
No contexto da sociedade brasileira, após 1964, a modernização promovida pelo
regime militar expandiu as classes médias urbanas e promoveu maior diferenciação em
seu interior, mediante um processo de mobilidade social ascendente. Contribuíram para
esse processo a expansão do emprego, a diferenciação das ocupações no mercado de
trabalho e o acesso de maior parcela desses segmentos à universidade.
Vários autores (Mello e Novais, 1998; Vaitsman, 1994) denominaram esses
segmentos ascendentes, de “nova classe média”, que se beneficiaram, em grande parte, do
processo de modernização da sociedade brasileira. Entre 1960 e 1980, a industrialização e a
acelerada urbanização, características desse período, não só promoveram oferta maior de
empregos para seus componentes, como expandiram o mercado interno de consumo de bens
e serviços. Houve maior integração dessas camadas médias aos padrões modernos de
consumo de massas, nos diversos setores do mercado. O acesso à casa própria, por meio dos
financiamentos habitacionais, e a possibilidade de aquisição de automóvel, constituíram
símbolos de status significativos na época. A posse de novos eletrodomésticos, e a expansão
da telefonia residencial ampliaram muito o conforto dos lares desses estratos.
O padrão de vida da nova classe média também se beneficiou da estrutura de
serviços, que se foi desenvolvendo no país para responder às novas demandas de consumo
(Mello e Novais, 1998).
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Relatos da Vida Amorosa: a intimidade no contexto contemporâneo Sylvia Maria da Penha Cioffi
O domínio da grande empresa da cultura de massas avançou cada vez mais, com o
uso da televisão, que veicula seus valores por meio de programas, séries e novelas. Sua
influência foi enorme junto às classes populares, constituindo o seu principal lazer, e
consolidou o padrão da sociedade de consumo de bens diferenciados para a classe média.
O cenário político do país foi marcado pelo autoritarismo instaurado com o golpe
militar de 64 e a geração que entrou para as universidades, nesse período, participou de um
conjunto de mudanças econômicas e políticas, que também afetaram o comportamento e as
relações entre os gêneros. A despeito de a luta ser contra a ditadura militar e o capitalismo,
havia por parte dessa geração estudantil, uma crítica aos valores, na época, ditos pequeno-
burgueses, implicando uma ruptura com valores da geração anterior.
Nos anos 70 e nos seguintes, essas mudanças consolidaram-se e as práticas sociais
voltadas para a igualdade de gênero reforçaram-se nas camadas intelectualizadas da classe
média, principalmente entre as mulheres de nível educacional e ocupacional mais elevado,
que freqüentaram a universidade e participaram de movimentos políticos e culturais.
Foram as mulheres das camadas médias que iniciaram a transição do âmbito da
vida privada do lar para a vida pública, se fizeram presentes nas universidades,
conquistaram o mercado de trabalho e foram protagonistas de um conjunto de mudanças
nos códigos de comportamento e nas relações entre os gêneros. Do mesmo modo, essas
transformações atingiram intensamente o casamento e a família.
Família e casamento
Atualmente, a família e o casamento passam por transformações profundas. Homens
e mulheres escolhem livremente seus parceiros e o chamado casamento convencional ou
tradicional, baseado no modelo do chefe provedor, com a separação rígida de papéis de
gênero
6
, parece coisa do passado, principalmente para os segmentos médios escolarizados
6. Gênero é um conceito socialmente construído e identifica o tipo de relação social que se estabelece entre
homens e mulheres. Apresenta ligação estreita com o conceito de divisão sexual do trabalho, que foi so-
bretudo utilizado pelos etnólogos para designar uma repartição complementar de tarefas entre homens e
mulheres nas sociedades por eles estudadas. Assim, Levi-Strauss serviu-se desse conceito para explicar a
23
Relatos da Vida Amorosa: a intimidade no contexto contemporâneo Sylvia Maria da Penha Cioffi
da população. Na configuração do novo padrão de relacionamento, vários temas fazem
parte do debate , entre eles: as escolhas amorosas, a liberdade sexual conquistada pela
mulher, a nova família, a união entre parceiros do mesmo sexo e o advento da AIDS.
Na perspectiva das tendências recentes, a família nuclear está sofrendo profundas
transformações, não só em decorrência de mudanças de ordem demográfica, como
também de mudanças econômicas, sociais e culturais. Assim, houve redução do arranjo
familiar nuclear e a conseqüente elevação nas proporções de outras formas de
organização. Segundo os dados do Censo Demográfico de 2000, no Brasil, a proporção
dos domicílios chefiados por mulheres evoluiu de 18,1% em 1991, para cerca de 25%,
em 2000.
Como já mencionado anteriormente, todo esse quadro foi acompanhado de
mudanças econômicas e demográficas, que estão em andamento na sociedade brasileira
desde a década de sessenta do século passado. São transformações características da
sociedade urbano-industrial, com destaque para o processo denominado de transição
demográfica pelos demógrafos, no qual se combinam o declínio da mortalidade com uma
acentuada queda da fecundidade.
Assim, a rápida queda da fecundidade no país, perpassando todos os estratos da
população, sem a necessidade de intervenção de políticas oficiais de planejamento
familiar, fez com que se verificasse uma redução no tamanho médio da família,
aumentando a proporção de famílias menores na população. Desse modo, o número
estruturação da sociedade em famílias. A divisão sexual do trabalho é a forma de divisão do trabalho
social decorrente das relações sociais de sexo, sendo modelada historicamente e socialmente. Ela tem por
característica a designação prioritária dos homens à esfera produtiva e das mulheres à esfera reprodutiva.
Essa forma de divisão social do trabalho apresenta dois princípios organizadores: o princípio de
separação - há os trabalhos de homem e trabalhos de mulher - e o princípio hierárquico - o trabalho do
homem “vale” mais que o da mulher. As diferenças de função e atividade entre homens e mulheres são
percebidas, sobretudo, como “naturais”. O casamento tradicional reforçou a divisão de papéis, cabendo à
mulher, no âmbito privado, o cuidado da casa e dos filhos e ao homem, na dimensão da esfera pública, o
trabalho assalariado e o sustento da família. Dessa forma o trabalho assalariado foi associado ao homem,
enquanto que o trabalho doméstico considerado exclusivamente da alçada da mulher. Essa dicotomia re-
produziu-se em escala profissional havendo atividades femininas e masculinas (Hirata, H. 2000).
24
Relatos da Vida Amorosa: a intimidade no contexto contemporâneo Sylvia Maria da Penha Cioffi
médio de filhos por mulher era 4,0, em 1970, passando a 3,4, em 1980, 2,5 em 1991,
para alcançarem 2000, 2,3 filhos por mulher (IBGE, Censo Demográfico). Pelos dados
da PNAD 2003, esse número diminuiu ainda mais, registrando 1,4 filhos por mulher no
país.
Atualmente, o casamento está passando por alterações na sua forma de
legitimação e duração. No Estado de São Paulo, o casamento legal sofreu uma queda
bruta de mais de 25 mil eventos, do início da década de 80 até 1992, ou seja, 22% em 12
anos, o que significou uma redução da taxa de nupcialidade de 8,3 por mil habitantes
para 5,7 em 1992. Em 2000, essa taxa continuou em decréscimo, correspondendo a 5,1,
sugerindo que as pessoas estão optando por novas formas de união em substituição à
legal.
O número de uniões consensuais, ou a coabitação sem vínculos legais, vem
crescendo no país, praticamente dobrando as cifras absolutas no período entre 1970 e 1980
e atingindo 12% de todas as uniões. Em 1995, esse número chegou a quase 20% (para
mulheres de 15 anos e mais) no Estado de São Paulo. Para Berquó (1989), principalmente
nos grandes centros urbanos, esse tipo de união parece estar começando a atrair a atenção
dos jovens, como primeira opção de vida conjugal, significando ruptura com valores ou
normas tradicionais.
As separações e divórcios cresceram vertiginosamente, indicando que o vínculo do
casamento se tornou frágil. Assim, a taxa de separações tem crescido, sistematicamente,
no país, passando de 0,8% separações por 10.000 pessoas de 15 anos ou mais, em 1960,
para 1,7%, em 1970, 6,1%, em 1980, e 13,3%, em 1985 (Berquó, 1989). Entre 1990 e
2001, no Estado de São Paulo, a taxa de divórcios elevou-se significativamente, indicando
que para cada 100 casamentos realizados, 44 resultaram em divórcio (Estatísticas do
Registro Civil, IBGE).
Além desses aspectos, a conjuntura econômica do país também propiciou transfor-
mações no projeto familiar. Nesse contexto, como resultado da recessão econômica da
década de 80 e início dos anos 90, com o aumento das taxas de desemprego e o
empobrecimento de amplos setores da população, as mulheres foram empurradas mais
25
Relatos da Vida Amorosa: a intimidade no contexto contemporâneo Sylvia Maria da Penha Cioffi
intensamente para o mercado de trabalho, como alternativa para compor ou suprir a renda
familiar
7
.
Acresçam-se a isso as novas necessidades de consumo, criadas pelo mercado
interno para os setores médios da população. Em conseqüência, o projeto familiar não
mais tem se baseado no modelo do chefe provedor – a sobrevivência sendo dada pela
soma dos salários dos membros da família.
A liberação feminina
Assim, na sociedade brasileira, a participação feminina no mercado de trabalho
intensificou-se nos últimos trinta anos. Esse incremento apresenta duas tendências: uma,
oriunda da proletarização de parte da população devida aos períodos de recessão
econômica e outra como resultado da maior escolaridade, do acesso à universidade e
maior qualificação para o mercado de trabalho obtidos pelas mulheres, principalmente as
oriundas de estratos médios da população. Para as mulheres das camadas médias, a
trajetória do mundo privado do lar, em que elas se restringiam ao papel de mãe e esposa,
para o mundo público, passou, necessariamente, pela aquisição de maior escolaridade. De
fato, o aumento da participação da força de trabalho feminina remunerada no país foi de
cerca de 16% para 39%, entre 1960 e 1990 (Bruschini e Lombardi, 1996; Goldani, 1994),
para alcançar, em 1999, 49%, segundo dados da PNAD do IBGE. No ano de 2004, a taxa
de participação feminina (indicador que mede a proporção de mulheres inseridas no
mercado de trabalho) na Região Metropolitana de São Paulo registrava 55%. (Fundação
Seade, 2005).
7. Nos anos 80, o país passou por um dos períodos mais recessivos de sua história,denominado pelos econo-
mistas de “década perdida”, em que a sociedade brasileira foi marcada por um aprofundamento das desi-
gualdades sociais, concentração de renda e queda acentuada dos salários para grande parte da população.
Ao mesmo tempo houve uma sofisticação do consumo para uma minoria, conformando, no dizer de
Goldani (1994), um processo de “modernização excludente” no qual se acirraram as diferenças. Nesse
contexto, as mulheres aumentaram sua participação no mercado de trabalho, visando suprir a renda fami-
liar, com a incorporação, agora, não só das jovens, mas também das mais velhas, casadas e mães, . As-
sim, a atividade feminina aumentou nas faixas etárias mais elevadas, fazendo com que em 1998, a mais
alta taxa de atividade, superior a 66% encontre-se entre as mulheres de 30 a 39 anos e cerca de 63% entre
aquelas de 40 a 49 anos. (Bruschini, C., 2001; Bruschini, C. e Lombardi, M. R., 1996)
26
Relatos da Vida Amorosa: a intimidade no contexto contemporâneo Sylvia Maria da Penha Cioffi
Assim, a conquista do mercado de trabalho pelas mulheres abriu caminho para
mudanças nos padrões culturais de comportamento e nos valores relativos ao seu papel
social. Surge um novo universo cultural, em que as idéias de igualdade entre os sexos
estão em circulação, além da possibilidade de liberação sexual por meio da contracepção.
A obtenção da autonomia financeira e a participação na vida pública parecem estar
afetando, de modo mais imediato, os padrões da divisão sexual do trabalho, as relações de
dominação e o próprio modelo de família legalmente constituída. Essas tendências tornam-
se terreno fecundo para a contestação das relações de dominação-subordinação entre os
sexos, do controle da sexualidade feminina e da própria forma do vínculo conjugal.
A rapidez e a qualidade das mudanças propiciaram campo fértil para um contexto
novo de oportunidades e necessidades sociais, que responderiam pela aceitação de valores
e confrontos entre gerações nas famílias. No entanto, a adequação entre valores e práticas
sociais dá-se, ainda, de forma desigual na sociedade e, inicialmente, parecem ser as
famílias das camadas médias urbanas as mais permeáveis às influências culturais
“modernizantes” e as mais receptivas à adoção de comportamentos individualizantes fora
dos padrões institucionalizados (Salem, 1986).
É nesse contexto societário que, a partir da década de 1970, o movimento feminista
começou a influenciar o imaginário das mulheres brasileiras. A participação feminina nos
espaços públicos vinha intensificando-se no país, tanto em associações diversas, como
também em movimentos políticos. As propostas do movimento trouxeram para a
discussão temas como liberdade e igualdade para ambos os sexos, contestando as formas
hierarquizadas de relacionamento social. Além disso, questões concernentes ao trabalho, à
sexualidade, aos direitos civis e à violência contra a mulher alcançaram visibilidade.
Como já foi assinalado, foram as mulheres das camadas médias as mais suscetíveis
aos novos valores trazidos pelo feminismo, que vinham legitimar práticas que começavam
a fazer parte de seu cotidiano. É o caso das questões relacionadas com a posição social da
mulher e, por decorrência, também da posição masculina diante dos novos valores, as
reivindicações em torno do trabalho extradoméstico, da liberdade individual e sexual, do
controle reprodutivo e da separação entre concepção e sexualidade.
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Relatos da Vida Amorosa: a intimidade no contexto contemporâneo Sylvia Maria da Penha Cioffi
Romanelli (1986:111), ao analisar esse processo como resultado da modernização
societária, acrescenta que, à medida que a temática da opressão feminina foi sendo
discutida, se ampliou a possibilidade de novos questionamentos relativos às modalidades
de dominação e de exercício do poder, presentes no cotidiano das famílias. As questões
trazidas pelo femininsmo, relacionadas à condição feminina e aos valores de liberdade e
igualdade, foram absorvidas pelas mulheres das camadas médias e funcionaram como
elementos legitimadores de uma prática que já começava a ser vivenciada por elas.
Assim, houve um alargamento das fronteiras rígidas do padrão de moralidade e
surgiram modelos alternativos de relações intrafamiliares e entre os sexos, que colocam a
discussão da chamada “nova” família (Figueira, 1987). A família hierarquizada cedeu
terreno para um outro tipo em que as relações são mais igualitárias (ou menos
hierárquicas), valorizando-se as opções e a vida pessoal de seus membros, o privado e o
subjetivo, em detrimento dos valores tradicionais e patriarcais.
Identificado com os setores médios da população, o modelo da nova família é
veiculado pela mídia e reforçado pela crescente indústria cultural, contribuindo
significativamente para a disseminação dos novos padrões. Não deve ser subestimado o
papel desempenhado pela mass media nesse processo, no final dos anos 70, uma vez que a
mídia televisiva abriu espaço, no horário nobre, para a veiculação dos temas propostos
pelo feminismo e pelo novo modelo de família, trazendo à baila esses assuntos para
discussão e incorporando-os aos enredos das novelas e seriados, ícones de alta audiência
do telespectador brasileiro.
Salem (1986) interpreta essas novas configurações familiares como dimensões do
individualismo, característico das sociedades de capitalismo avançado e, em última
instância, evolução do modelo de amor romântico, surgido na sociedade burguesa. Daí a
multiplicidade de modelos, em que o casamento e a família passam a ser assuntos do
domínio da subjetividade e do mundo privado dos indivíduos. Sennett (1989: 413) reforça
essa concepção, ao enunciar que, nas sociedades contemporâneas, predomina a crença de
que “as significações sociais são geradas pelos sentimentos dos seres humanos
individuais”.
28
Relatos da Vida Amorosa: a intimidade no contexto contemporâneo Sylvia Maria da Penha Cioffi
Masculino e feminino
Para abordar o tema dos vínculos amorosos entre homens e mulheres na atualidade,
é necessário que se retomem as construções dominantes das categorias do masculino e do
feminino. Assim, as questões de gênero, que dão sustentação às representações dos
agentes, devem ser consideradas.
Atualmente, diante dos avanços do feminismo e do novo papel da mulher na
sociedade, podem-se vislumbrar ganhos e progressos em relação à igualdade de gênero,
mas o fato não encobre a permanência da dominação masculina, como disposição
simbólica que ainda vigora, com singular força, nas relações entre os sexos. Ainda que,
nos dias de hoje, os valores antigos se encontrem mais suavizados na sociedade, há certa
permanência das disposições simbólicas da velha ordem, em que o masculino tinha a
primazia em relação ao feminino. As mudanças não se dão abruptamente e há
irregularidades na forma de penetração dos novos comportamentos na sociedade.
Algumas modalidades de dominação estiveram muito arraigadas nas formas de
socialização dos sexos, havendo preceitos inculcados na criança, desde muito cedo, pela
educação familiar e escolar, que obedeciam aos papéis de gênero tradicionais. Esses
condicionamentos transmitidos pela socialização, eram vistos como verdades “naturais” e
universais para melhor particularizar as diferenças sexuais, outorgando ao dominante
masculino a legitimidade e a posição de representante do universal.
A posição estrutural distinta dos homens e das mulheres introduz uma assimetria na
forma de conhecer e apreender o real, que determina a forma pela qual os homens e as
mulheres se representam, constroem e geram as relações que mantêm entre si e suas
relações com o espaço social público e privado. Do mesmo modo, a identidade pessoal e a
subjetividade e, mais geralmente, as formas psíquicas de individuação são, elas também, a
resultante do lugar singular que o sujeito ocupa no funcionamento concreto das relações
de dominação e de gênero. Ou, dito de outra forma, a dissimetria constitutiva da relação de
dominação manifesta-se não somente nas práticas sociais, mas também no plano da
consciência e até nas estratégias identitárias (Hirata, et al., 2000:47).
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Relatos da Vida Amorosa: a intimidade no contexto contemporâneo Sylvia Maria da Penha Cioffi
Pierre Bourdieu (1999) denuncia as disposições da dominação masculina, a seu ver
ainda vigentes na sociedade, demonstrando como no campo do simbólico, a ordem
androcêntrica, ou seja, a ordem masculina não foi de todo estirpada. Nessa vertente teórica
é também remarcada a cumplicidade ou adesão do dominado às armadilhas da dominação,
na medida em que ele não dispõe de outros esquemas de pensamento, além daqueles que
ele tem em comum com o dominador. Há, portanto, um consentimento do dominado em
relação à dominação, que se interpõe nos interstícios da sua consciência, fazendo com que
ela lhe pareça naturalizada e legitimada na ordem do social.
Assim, as relações sociais trazem em si a lógica da dominação masculina no
mundo, que passa despercebida, como algo natural e incorporado às instâncias
econômicas sociais e culturais da sociedade e à vida cotidiana das pessoas. É o que
Bourdieu chama de
violência simbólica, violência suave, insensível, invisível à suas próprias vítimas,
que se exerce essencialmente pelas vias puramente simbólicas da comunicação e
do conhecimento, ou, mais precisamente do “desconhecimento, do
reconhecimento ou, em última instância, do sentimento (Bourdieu, 1999: 45)
Trata-se, no dizer do autor, “de um longo condicionamento que leva a uma
socialização do biológico e, o inverso, a uma biologização do social, nos corpos e nas
mentes dos indivíduos” (Bourdieu, 1999:9), produzindo uma construção social natura-
lizada – os gêneros como habitus sexuados – como o fundamento in natura da árbitrária
divisão que está no princípio não só da realidade, como também de sua representação. O
conceito de habitus para Bourdieu deve ser entendido como:
um sistema de disposições duráveis e transferíveis que, integrando todas as
experiências passadas, funciona a cada momento como uma matriz de
percepções, apreciações e ações, e torna possível a realização de tarefas
infinitamente diferenciadas, graças às transferências analógicas de esquemas
que permitem resolver os problemas da mesma forma e graças às correções
incessantes dos resultados obtidos, dialeticamente produzidas por estes
resultados (Bourdieu, 1993: 65).
O habitus, portanto, seria um conjunto de disposições inculcadas desde a
socialização familiar, constantemente reatualizadas ao longo da trajetória social dos
30
Relatos da Vida Amorosa: a intimidade no contexto contemporâneo Sylvia Maria da Penha Cioffi
indivíduos, conformando o capital cultural
8
de um grupo ou segmentos da sociedade e que
explicam as práticas coesas desses mesmos grupos. Assim, ele age como princípio
operador que provoca a interação entre dois sistemas de relações, as estruturas objetivas e
as práticas. O habitus permite o movimento de interiorização de estruturas exteriores do
social, do mesmo modo que as práticas dos agentes exteriorizam os sistemas de
disposições incorporadas. (Miceli, 1974).
Portanto a forma de um segmento social agir na sociedade é resultante direta do
habitus desse grupo social e, assim, a divisão entre os sexos cria habitus sexuados
diferenciados, assim como a possibilidade de um certo tipo de diferença se sobrepondo
sobre outra no campo do simbólico.
Desse modo, a divisão entre os sexos e os valores a ela ligados parecem estar “na
ordem das coisas”, como se diz corriqueiramente, ou seja na ordem “normal” do mundo,
naturalizada e irremediavelmente inevitável. Essa ordem aparece objetivada nas coisas (na
casa, exemplo usado por Bourdieu, cujas partes são todas sexuadas), em todo mundo
social e incorporada nos corpos e nos habitus dos agentes, servindo a esquemas de
sistemas de percepção, de pensamento e de ação (Bourdieu, 1999:17).
E, mais ainda, a força da ordem androcêntrica ou masculina dispensa justificativa e
apresenta-se como neutra (a linguagem, na qual o gênero masculino é tratado como
padrão, é um bom exemplo disso, ao contrário do feminino que é mais especificado), não
havendo necessidade de ser legitimada.
Percurso teórico
Partindo das práticas ressaltadas por Bourdieu, as mulheres incorporam os
esquemas de pensamento dessa ordem simbólica androcêntrica, aplicando esses princípios
8. O conceito de capital cultural pode ser considerado como o acúmulo de conhecimento, relativo a um
grupo ou sujeito específico na sociedade, incluindo aí não só a escolaridade, mas todo seu universo sim-
bólico, ou seja, suas representações. (Bourdieu:1996:19).
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Relatos da Vida Amorosa: a intimidade no contexto contemporâneo Sylvia Maria da Penha Cioffi
a toda a realidade e principalmente às relações de poder nas quais se vêm entranhadas. E
aderem à visão dos dominantes, percebendo-a como “natural”. Portanto, quando os
dominados aplicam à realidade padrões de pensamento e representações em conformidade
com as estruturas mesmas da relação de dominação que lhes é imposta, seus atos de
conhecimento são, invariavelmente, atos de reconhecimento e de submissão.
Todas essas disposições da ordem simbólica dominada pela visão androcêntrica faz
com que as mulheres também se tornem agentes de reprodução dessa ordem. Elas educam
seus filhos e transmitem-lhes valores em conformidade com essas disposições. Ou, ainda,
é freqüente encontrar mulheres que, incorporando o sentido de inferioridade, tanto na vida
profissional como cotidiana, padecem de baixa auto-estima e se esforçam para estar “à
altura” das exigências ditadas pelos valores masculinos. Isso pode ser bem observado na
estrutura geral de valores que fundamentam padrões estéticos em relação ao corpo, como a
valorização da juventude, da beleza, da magreza e dos ditames da moda, numa busca
frenética para agradar ao sexo oposto.
As disposições do androcentrismo estão presentes no cotidiano das mulheres, são
vivenciadas como naturais e têm por efeito colocá-las em constante estado de insegurança
corporal, transformando-as em seres para agradar o outro, cuja existência é reafirmada
pelo olhar do outro. Assim é que a concepção de feminilidade é regida pelos valores
inculcados pela ordem androcêntrica no campo do simbólico, enaltecendo a docilidade, a
sedução e a submissão, numa forma de aquiescência em relação às expectativas
masculinas. Em conseqüência, a dependência em relação aos outros (e não só aos homens)
tende a tornar-se parte de seu ser. Por mais que se tenha avançado no terreno do
feminismo, essas determinações ainda permanecem regendo o imaginário social e
encontram ressonância em corações e mentes dos agentes sociais.
Como já ressaltado, essas determinações são percebidas no campo da socialização
e educação dos filhos, com a transmissão de valores de virilidade para os meninos e de
docilidade e afabilidade para as meninas.
Do mesmo modo, é também verdade que, se as mulheres são submetidas a um
trabalho de socialização que tende a diminuí-las, os homens também são prisioneiros e
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Relatos da Vida Amorosa: a intimidade no contexto contemporâneo Sylvia Maria da Penha Cioffi
vítimas da mesma ordem simbólica androcêntrica. Eles não escapam às suas disposições,
uma vez que foram socializados e educados para exercer seu papel de gênero, em que
contam a força e a virilidade como virtudes máximas. Assim, nas palavras de Bourdieu,
“o privilégio masculino é também uma cilada e encontra sua contrapartida na
tensão e contensão permanentes, levadas por vezes ao absurdo, que impõe a todo
homem o dever de afirmar, em toda e qualquer circunstância, sua virilidade”
(Bourdieu, 1999:64).
As concepções sociais e as representações dos agentes sobre a masculinidade
enfatizam o lugar privilegiado ocupado pelo homem na estrutura social e na ordem do
simbólico.
Em sua pesquisa sobre identidade masculina, com homens de classe média, no Rio
de Janeiro, Nolasco (1995), em 1985, constatou que os homens não conseguem ainda
compreender o significado das diferenças individuais entre os sexos, caso elas não estejam
definidas biologicamente.
Segundo o autor, a biologização do social aparece na fala dos pesquisados,
apontando que as tensões vividas por eles decorrem da imposição de se adequarem a uma
expectativa de desempenho social que funciona como uma exigência da virilidade e que
muitas vezes constitui um grande peso para os homens. Acrescenta que esses, ainda hoje,
têm uma consciência de si próprios produzida por conceitos vagos de autoridade e
tradição, como referência para definirem o masculino, sendo que suas representações
permanecem calcadas na construção cartesiana.
A socialização dos meninos continua fortemente marcada por valores tradicionais
de gênero, tendo como referência o modelo do macho e ocorre pela exclusão dos valores
simbólicos identificados com o feminino, ou seja, pela negação dos aspectos culturais
relativos a essa ordem. Nas palavras de Nolasco (1995: 45)
a diferenciação entre um menino e uma menina se faz por meio da exclusão, no
cotidiano, das determinações culturais que definem o masculino e o feminino,
que por sinal culmina com as definições e atribuições de tarefas que competem a
um menino e a uma menina.
Esse comportamento assimilado como um ideal de virilidade é reforçado pela família
e depois pela escola e sofre um controle rígido por parte dos educadores. Daí derivam as
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Relatos da Vida Amorosa: a intimidade no contexto contemporâneo Sylvia Maria da Penha Cioffi
inclinações masculinas à homofobia, definida como a aversão ao homossexualismo. Para ser
valorizado, o homem deve mostrar-se viril, superior, forte, competitivo, senão é considerado
como os fracos e as mulheres ou identificado com os homossexuais.
A educação de um menino, como concebida por nossa cultura tende a esfacelar os
conteúdos afetivos da dinâmica subjetiva, desvalorizando as demandas afetivas, em prol
de respostas objetivas e adequadas, reforçadas socialmente, implicando posturas de força
e poder.
Além do mais, um menino cresce valorizando os ideais masculinos de liberdade,
voltados para as conquistas sexuais, com a dissociação entre afeto e sexo. Essa
dissociação favorece o não envolvimento emocional do homem, fazendo do sexo uma
instância separada das emoções e mais voltada para as sensações. É também no sexo que o
homem reconhece a sua masculinidade, reafirmando sua identidade.
Nolasco (1995), portanto, em sua pesquisa, identificou as determinações da
dominação masculina, apontadas por Bourdieu (1999), tanto nas disposições simbólicas
relativas à sexualidade como no determinismo dos habitus sexuados e na socialização
enquanto transmissão de valores afeitos à ordem androcêntrica na sociedade.
Assim, as representações relativas ao habitus masculino e feminino permanecem
influenciando as novas formas de relacionamento entre homens e mulheres na sexualidade
contemporânea.
Esses elementos são identificados aos “valores antigos” e tradicionais de gênero
pelo senso comum e ainda aparecem operando, parcialmente, na sociedade. Ressalte-se,
todavia, que, atualmente, esses valores aparecem suavizados ou reinterpretados, mas ainda
povoam parte dos inconscientes (e conscientes) masculinos e femininos.
A pesquisa
O trabalho de campo baseou-se em entrevistas qualitativas com homens e
mulheres das camadas médias intelectualizadas acerca da problemática investigada
neste estudo.
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Relatos da Vida Amorosa: a intimidade no contexto contemporâneo Sylvia Maria da Penha Cioffi
A adoção de métodos qualitativos de pesquisa estabeleceu-se como prioridade,
uma vez que se mostram mais adequados aos objetivos pretendidos, que eram enfocar as
representações e vivências dos indivíduos ante as relações amorosas e de intimidade e,
mais especificamente, investigar as transformações no universo afetivo de segmentos das
camadas médias intelectualizadas, nos últimos trinta anos.
Desde já, reconhecem-se as dificuldades de trabalhar no campo das subjetividades,
mas acredita-se haver um substrato social comum, norteando as expressões individuais.
Trata-se aqui das concepções orientadoras do imaginário que circula entre os indivíduos,
das representações e percepções dos agentes sobre relações afetivo-sexuais e intimidade,
bem como de suas histórias afetivas.
As entrevistas
Foram feitas entrevistas qualitativas em profundidade, com histórias da vida
afetiva dos informantes, combinadas com perguntas abertas orientadas para a discussão
das hipóteses. A escolha dessa técnica pareceu adequada aos propósitos da investigação,
por permitir desvendar, por meio dos depoimentos dos informantes, os processos de
mudança e transformação das relações afetivo-sexuais nos últimos trinta anos. Como
afirma Queiroz (1991:21 ) “a história de vida é, portanto, técnica que capta o que sucede
na encruzilhada da vida individual com o social”. Ainda, sobre o emprego desse
instrumento metodológico, enquanto uma técnica de pesquisa extremamente útil para
captar transformações, Becker (1999) tem a acrescentar:
Sob estas contribuições que a história de vida é capaz de dar, oculta-se uma que é
mais fundamental. A história de vida, mais do que qualquer outra técnica, exceto,
talvez, a observação participante, pode dar um sentido à superexplorada noção
de processo. Sociólogos gostam de falar de “processos em curso” e coisas
parecidas, mas seus métodos geralmente os impedem de ver os processos sobre
os quais falam tão desembaraçadamente (Becker, 1999:109).
Outra vantagem apontada pelo autor é a de que a técnica de história de vida permite
elucidar outras áreas de pesquisa relacionadas à nossa problemática maior, que apenas
tangencialmente a tocam. Tratando-se aqui de um objeto de estudo bastante amplo, que
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Relatos da Vida Amorosa: a intimidade no contexto contemporâneo Sylvia Maria da Penha Cioffi
ultrapassa as fronteiras sociológicas e lança raízes no campo da psicanálise, da psicologia
social e da cultura, torna-se, assim, bastante adequada a utilização dessa técnica. Além
disso, considera Becker:
a história de vida pode ser particularmente útil para nos fornecer uma visão do
lado subjetivo de processos institucionais muito estudados, sobre os quais
pressupostos não verificados também são feitos com freqüência (Becker,
1999:108)
O universo ou segmento investigado
O grupo estudado pertence ao segmento das camadas médias urbanas com uma
identidade cultural específica, que o diferencia da classe média mais abrangente. Os
contornos socioculturais do grupo obedecem a critérios como educação, profissão,
consumo de bens culturais e universo simbólico, que se refere a comportamentos, visão
de mundo e estilos de vida.
Ademais, reconhece-se a dificuldade de trabalhar com os segmentos das camadas
médias, por serem eles muito heterogêneos. Portanto, para definição desses estratos sociais,
não foi utilizado somente o critério socioeconômico, mas também os, já citados,
determinantes socioculturais. Considerando a diversidade interna das camadas médias,
quando se deseja analisar o estilo de vida de indivíduos pertencentes a esses segmentos,
pode-se afirmar que elas são compostas por segmentos sociais, cuja delimitação torna-se útil
para a construção de categorias voltadas para recortes empíricos. Assim, esse estilo de vida
depende não só do montante de renda auferido pelos sujeitos, mas, sobretudo, da mediação
de elementos simbólicos, implicando uma associação entre recursos materiais e culturais.
Bourdieu (1974; 1983) ao estudar a articulação entre os domínios material e
cultural que tocam aos indivíduos, privilegia a noção de estilo de vida definido por ele
como:
um conjunto unitário de preferências distintivas que exprimem, na lógica
específica de cada um dos subespaços simbólicos, mobília, vestimentas,
linguagem ou héxis corporal, a mesma intenção expressiva, princípio da
unidade de estilo que se entrega diretamente à intuição e que a análise destrói
ao recortá-lo em universos separados (Bourdieu, 1983: 83-4).
36
Relatos da Vida Amorosa: a intimidade no contexto contemporâneo Sylvia Maria da Penha Cioffi
Em conformidade com tal interpretação, práticas e propriedades de cada segmento
social expressam um estilo de vida, oriundo de seu capital econômico e de outros capitais
adquiridos pelos sujeitos e transformados em habitus, enquanto “sistema de disposições
duráveis e transponíveis” e princípio unificador e gerador de todas as práticas, entre as
quais se inserem também as práticas afetivas (Bourdieu, 1983: 82).
Como aqui o interesse é captar as concepções do imaginário e as transformações de
comportamento diante de questões afetivas, considerou-se importante que fossem
escolhidos, para as entrevistas indivíduos de gerações diferentes que, contudo (cf.
Bourdieu, 1974;1983;1996), partilhem o mesmo universo simbólico. Essa abordagem
permitiu ter uma visão linear no tempo, apreendendo a noção de processo e de mudanças
ocorridas no período dos últimos trinta anos. Do mesmo modo, foi utilizado um recorte de
pessoas preferencialmente nascidas entre 1940 e 1970, para contemplar as gerações e o
tempo que a investigação abrange, ou seja, os últimos trinta anos, período em que as
transformações da sociedade foram mais visíveis; no entanto esse recorte não foi usado de
forma muito rígida, visando não engessar a pesquisa, uma vez que, para muitos
indivíduos, a idade é um atributo relativo.
Inicialmente, havia e expectativa de que as diferenças entre as gerações fossem
bastante grandes no relativo ao envolvimento amoroso (e suas representações) . Porém,
isso pôde ser relativizado no decorrer da pesquisa. As diferenças, quanto ao ideal
romântico, da geração de meia idade e da formada por adultos jovens, de trinta e poucos
anos, não foram tão significativas, ainda que existam e façam parte de uma clivagem
dupla, de geração e de gênero, que adquiriram significância no decorrer da pesquisa. Essas
diferenças dão-se mais na prática dos entrevistados, ou como diz Bourdieu, na prática dos
agentes, e menos na concepção do ideal romântico, que a pesquisa mostrou permanecer,
talvez porque o conjunto escolhido de entrevistados não incluísse adolescentes e jovens,
na faixa de 16 até 25 anos, que, presume-se, poderiam apresentar mais diferenças
significativas com a geração precedente.
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Relatos da Vida Amorosa: a intimidade no contexto contemporâneo Sylvia Maria da Penha Cioffi
Os entrevistados
Todos os entrevistados pertencem ao segmento das camadas médias urbanas
intelectualizadas e suas idades situam-se no intervalo entre 26 e 60 anos. Entende-se por
camada média intelectualizada aquela que possui educação superior, consumo de bens
culturais pertencentes a uma “elite” que detém o mesmo capital cultural e o mesmo
universo simbólico quanto à visão de mundo e estilo de vida. Do mesmo modo, em todos
os casos,quando sua origem é registrada como sendo de outro Estado, os entrevistados
residem em São Paulo, há mais de cinco anos. Há apenas dois casos de pessoas que,
mesmo tendo vivido e estudado em São Paulo, residem fora da cidade; mudaram-se, por
questões de trabalho, o primeiro para uma cidade do interior, próxima à capital, e a
segunda, para outro Estado. No entanto, as entrevistas foram realizadas em São Paulo, em
sua maioria, nas residências dos informantes. O universo dos entrevistados é composto por
profissionais liberais e assalariados, contando com cinco artistas que vivem de sua própria
arte.
Utilizou-se a técnica de rede para ter acesso aos depoentes. Partiu-se de um elenco
pequeno de informantes, detectado por intermédio de relações pessoais da pesquisadora,
mas que não fazia parte de seu círculo de amizade mais próximo, e que foi sendo ampliado
por novas indicações dos próprios entrevistados. Normalmente, um indicava outro para ser
ouvido em seguida; desse modo, formou-se uma rede de pessoas, sendo que alguns eram
conhecidos longínquos da pesquisadora e outros totalmente desconhecidos. Por esse
motivo, há vários entrevistados com a mesma inserção profissional.
A seleção foi feita levando-se em conta os seguintes critérios: a) indivíduos que
tenham cursado a universidade, que consumam bens culturais relativos a um elevado capital
cultural, pertencentes ao segmento intelectualizado das camadas médias urbanas, residentes
em São Paulo; b) de gerações diferentes, numa perspectiva de ciclo de vida (entre aqueles
nascidos entre 1940 e 1970, estendendo-se até 1978, como parâmetro não rígido), para
detectar-se as diferentes concepções que regem seu imaginário afetivo-sexual; c)
pertencentes a famílias com o mesmo universo sociocultural e simbólico, com pais que
tenham cursado ensino superior. Em um dos casos, foram entrevistados indivíduos
pertencentes à mesma família (mãe e filha), para podermos detectar as transformações no
38
Relatos da Vida Amorosa: a intimidade no contexto contemporâneo Sylvia Maria da Penha Cioffi
imaginário, relativas às gerações diferentes, mas não constituindo isso uma regra geral; d)
indivíduos que não possuíam vínculo amoroso entre si, como por exemplo marido e mulher,
porque interessava mais à pesquisadora as concepções singulares de cada pessoa não
relacionadas ao parceiro; e) como o objetivo era detectar mudanças no imaginário e nos
padrões de intimidade de segmentos sociais mais influenciáveis por valores modernizantes,
era necessário que, quando os indivíduos fossem casados, o casal estivesse inserido no
mercado de trabalho, ou seja, era importante que, de seu ponto de vista, seu casamento não
fosse estruturado no modelo tradicional de chefe provedor e mulher dona de casa e que
partilhassem (ou pelo menos acreditassem que o fizessem) valores de igualdade de gênero.
O processo de entrevista
Foram feitas ao todo 22 entrevistas, entre novembro de 2003 e março de 2004, com
onze homens e onze mulheres. No final de 2004, entre novembro e dezembro, foram feitas
as duas últimas entrevistas (uma mulher e um homem) com pessoas que, tomando
conhecimento do tema, por meio de conversas informais, solicitaram ser entrevistadas e
quiseram dar seu depoimento, espontaneamente. Como já citado, utilizou-se a técnica de
entrevista não diretiva, com um mínimo de intervenção. Usou-se, apenas, como
balizamento, um roteiro semi-estruturado e evitou-se a colocação da problemática de forma
fechada. Assim, a maior parte das entrevistas deu-se na forma de longos relatos, sem a
interferência da pesquisadora (a não ser para esclarecer algum ponto obscuro) em que,
somente no final da fala do entrevistado, eram feitas algumas perguntas para amarrar os
principais pontos de interesse da investigação. Inquiridos a respeito do relato de sua vida
afetiva, a maioria, espontaneamente obedeceu a um sentido cronológico em seus depoi-
mentos (não colocado como obrigatoriedade pela pesquisadora), iniciando sua história na
adolescência e chegando a nossos dias. Somente duas das entrevistas fugiram a esse padrão,
atendo-se mais ao tempo presente e ao que os depoenes pensavam sobre a problemática
geral colocada pela pesquisadora. O conteúdo das entrevistas mostrou um painel muito rico,
do qual sobressaem não só as experiências afetivas dos entrevistados, como também seu
universo simbólico cultural, em termos de práticas de sociabilidade mais amplas,
39
Relatos da Vida Amorosa: a intimidade no contexto contemporâneo Sylvia Maria da Penha Cioffi
especificidades de campos profissionais e de trabalho, hábitos de lazer e relações familiares
e de parentesco.
Os depoimentos transcorreram num clima de empatia entre entrevistado(a) e
pesquisadora, sendo de duas a três horas a duração média das entrevistas, agendadas para
hora e local escolhidos pelos entrevistados. Geralmente, cada um era avisado sobre o tema
da entrevista e a forma em que ela se desenvolveria, bem como seu teor sigiloso. Os
nomes foram substituídos para preservar a identidade dos informantes, mantendo-se
somente suas idades e profissões, quando da transcrição de seus relatos neste trabalho.
Quanto à disponibilidade das pessoas para falar de sua vida afetiva, ocorreu fato
interessante. Inicialmente, tratando-se de assunto delicado, do âmbito da intimidade e
muitas vezes do segredo, esperava-se encontrar dificuldades e mesmo recusa por parte das
pessoas para falarem de sua vida afetiva. No entanto, deu-se o contrário, o que causou
certa surpresa à pesquisadora. As pessoas receberam bem a proposta e se dispuseram de
boa vontade a falar sobre sua vida privada. Elas abordaram com naturalidade assuntos
relativos à sua história amorosa, à sexualidade, às relações familiares e aos conflitos
engendrados por essas relações. Ao selecionar e abordar as pessoas escolhidas, não se
contou com nenhuma recusa explícita, tendo havido somente uma “velada”, assim
interpretada pela pesquisadora, pela impossibilidade de agendamento de horários com a
pessoa em questão.
O tema da pesquisa mostrou ser de grande interesse para os envolvidos. Alguns
conhecidos, que não faziam parte do círculo mais próximo da investigadora, ao tomarem
conhecimento do projeto, em conversas ocasionais, pediram para ser entrevistados. Essas
pessoas mostraram-se bastante entusiasmadas com o tema do estudo e interessaram-se em
manifestar sua opinião e relatar as suas experiências. Algumas, ainda, sugeriram outras
pessoas, que vieram, posteriormente, a ser procuradas.
Pode-se interpretar esse fato como a possibilidade de criação de uma instância para o
diálogo, uma abertura para as pessoas falarem de si, advinda, talvez, da falta de um espaço
de comunicação para que elas se expressem em relação ao seu próprio mundo íntimo. Está
certo que os homens e mulheres entrevistados foram notificados do sigilo da entrevista, mas,
40
Relatos da Vida Amorosa: a intimidade no contexto contemporâneo Sylvia Maria da Penha Cioffi
mesmo assim, foi surpreendente a espontaneidade com que relataram sua vida afetiva,
falando de coisas, muitas vezes, dolorosas ou então muito íntimas, como a sexualidade e os
amores difíceis, uma vez que esses assuntos são considerados da esfera do segredo.
Eles e elas contaram suas experiências e, a partir delas, puderam-se vislumbrar
suas concepções de amor, envolvimento amoroso, resolução de conflitos e sociabilidade,
entre outras. Os momentos de crise apareceram nos relatos de três formas: bem
elaborados, partindo de reflexão em que já havia um balanço avaliativo; de forma mais
ligeira, como coisa ultrapassada e superada, em que as pessoas não se detinham muito; ou,
ainda, de forma menos trabalhada emocionalmente (o relato brotava como um jorro
“bruto”) em que se podiam perceber mecanismos (defesas do ego, projeções e raciona-
lizações) mais inconscientes. De qualquer forma, as pessoas expressavam suas expe-
riências de acordo com sua maturidade e capacidade de elaboração de sua vida afetiva.
Quantos mais “recursos emocionais” as pessoas tinham, mais elaborada, vívida e “tratada”
era experiência relatada.
Muitas vezes, os entrevistados contaram casos de outras pessoas, de amigos ou
conhecidos, referindo-se a terceiros, mas isso demonstrou, de qualquer forma, que esses
acontecimentos foram significativos para eles, como elementos fixados em relação à sua
própria experiência e concepção de mundo.
Não foi preocupação da pesquisadora obter a “verdade” dos fatos, mas tão somente
observar, pelos relatos, as práticas sociais afetivas, as representações e o imaginário
singular de cada pessoa, desvendando aí os nexos sociais mais abrangentes. Somos, todos,
prisioneiros do nosso próprio inconsciente, havendo mecanismos poderosos de projeção
9
e
racionalização
10
que interferem em nosso cotidiano. Entretanto, todos pareceram sinceros
em suas histórias.
9. No sentido propriamente psicanalítico, operação pela qual o indivíduo expulsa de si e localiza no outro,
pessoa ou coisa, qualidades, sentimentos, desejos, e mesmo “objetos”, que ele desdenha ou recusa em si.
Trata-se aqui de uma defesa de origem muito arcaica e que vamos encontrar em ação particularmente na
paranóia, mas também em modos de pensar normais como a superstição.
Cf. LAPLANCHE, J. e PONTALIS, J. B., 1970. p. 478.
10. Processo pelo qual o indivíduo procura apresentar uma explicação coerente do ponto de vista lógico, ou
aceitável do ponto de vista moral, para uma atitude, uma ação, uma idéia, um sentimento, etc., de cujos
41
Relatos da Vida Amorosa: a intimidade no contexto contemporâneo Sylvia Maria da Penha Cioffi
Outro ponto observado diz respeito à forma como os indivíduos vivem sua
intimidade. Em alguns casos, o relato da vida afetiva parecia contaminado pelo momento
presente que o(a) depoente vivia, de desinteresse pela vida amorosa, no caso de um trauma
vivenciado (o que foi observado em um caso) ou, ainda, por uma situação social
desfavorável, como por exemplo o desemprego sofrido por longo período (característico
de outro caso).
Nesses dois casos observados, a entrevista apenas tangenciou o objeto, não indo a
fundo nele e havendo, claramente, outras formas “sublimatórias”
11
de substituição da
relação amorosa, mais compensatórias para a pessoa, como por exemplo o apego religioso
ou a experiência mística (observado em um dos casos).
Observou-se também que as mulheres gostam e se dispõem mais a falar de sua vida
afetiva, e que para os homens é mais difícil abordar sua afetividade. Notam-se aí
estereótipos culturais devidos à socialização masculina e feminina, já tratados acima. Para
a mulher, é reservada culturalmente essa maior desenvoltura no terreno emocional; os ho-
mens têm mais dificuldade para lidar com isso.
Foi curioso observar, que mais de um(a) entrevistado(a), notadamente homens, em
suas palavras, “se sentiram bem”, ao término da entrevista e manifestaram explícitamente
isso por terem podido, ao contarem sua vida afetiva, organizar a experiência vivida. O fato
pode ser interpretado como a oportunidade, muitas vezes rara, para os homens, de falar
sem amarras, sosbre sua vida afetiva. Em princípio, o fato de a pesquisadora, muitas vezes
desconhecida para o entrevistado, ser depositária de uma certa “legitimidade científica”,
motivos verdadeiros não se apercebe; fala-se mais especialmente da racionalização de um sintoma, de
uma compulsão defensiva, de uma formação reativa.
Na formação reativa, o indivíduo lida com conflitos emocionais ou estressores internos ou externos,
substituindo seus pensamentos ou sentimentos inaceitáveis, por comportamentos, pensamentos ou senti-
mentos que são diametralmente opostos aos seus. Cf. LAPLANCHE, J. e PONTALIS, J. B., 1970.
p.543.
11. Sigmund Freud conceituou o termo em 1905 para dar conta de um tipo particular de atividade humana
(criação literária, artística, intelectual) que não tem nenhuma relação aparente com a sexualidade, mas
que extrai sua força da pulsão sexual, na medida em que esta se desloca para um alvo não sexual, inves-
tindo objetos socialmente valorizados. Cf.ROUDINESCO, E. e PLON, M., 1998. p.734.
42
Relatos da Vida Amorosa: a intimidade no contexto contemporâneo Sylvia Maria da Penha Cioffi
isenta de julgamentos morais, e externa à vida do informante – parecia constituir um
elemento de estímulo para que o depoimento se desse mais naturalmente e sem censuras.
Tratamento dos dados
As entrevistas foram gravadas, transcritas e analisadas segundo temas de interesse
da pesquisa. Contabilizou-se perto de 50 horas de entrevistas com cerca de 400 páginas de
transcrição. Destas, em torno de 40 páginas em forma de relatos, recortados segundo os
temas tratados, foram incluídas neste trabalho.
Tratando-se de histórias pessoais, relativas à vida íntima dos(as) entrevistados(as) e
obedecendo ao sigilo, como de praxe nesses casos, como já mencionado, foram utilizados
nomes fictícios para os depoentes. No entanto, deu-se um fato singular: alguns assumiram
tão inteiramente o depoimento concedido, que informaram à pesquisadora não se importar
e até gostar se isso ocorresse – caso seu verdadeiro nome e sua história fossem mantidos.
No entanto, foram mantidos os nomes atribuídos, no intuito de preservar a privacidade
dos informantes e como procedimento de pesquisa.
Os depoimentos foram mantidos ipsis literis e inseridos nos três últimos capítulos
deste trabalho, que versam sobre a análise das entrevistas. No entanto, cada um desses
capítulos apresenta uma história inteira, retirada do total do relato, que ilustra o tema
tratado no capítulo. Os demais depoimentos foram inseridos como partes significativas de
outros relatos. Todas as entrevistas foram recortadas segundo os temas constantes do
roteiro aberto de entrevista.
As histórias e seus personagens
Para contextualizar as histórias amorosas dos entrevistados, optou-se por tratá-los
como personagens, apresentando-se a seguir um ligeiro panorama de quem são eles e de
suas experiências afetivas. A descrição dos personagens deste estudo obedeceu ao critério
de proximidade de faixa etária dos entrevistados, em ordem crescente.
43
Relatos da Vida Amorosa: a intimidade no contexto contemporâneo Sylvia Maria da Penha Cioffi
Vera, psicóloga, 26 anos, solteira, é natural de São Paulo e possui um consultório, no
qual trabalha com terapia infantil. Foi noiva de um rapaz, mas terminou a relação
quando estava para casar-se, alegando que havia incompatibilidade e diferentes visões
de mundo no casal. Relatou que, em data recente, havia se envolvido amorosamente
com um companheiro de 32 anos que, embora afirmasse gostar dela, não deu conti-
nuidade à relação, porque ainda não estava preparado para assumir um compromisso.
Vera sentiu-se bastante envolvida nesse relacionamento e ainda mantinha contatos
esporádicos, por telefone, com o companheiro. Tinha esperança de retomar a relação.
– Laura, 27 anos, fisioterapeuta, nasceu em São Paulo, e mudou-se para uma grande
cidade do Interior de São Paulo, ainda na infância. Trabalha numa clínica de ortopedia,
além de ter seu próprio consultório. Narrou suas experiências afetivas, desde o primeiro
namoro até agora, quando ficou noiva de um amigo de infância com o qual pretende
casar-se. Seu relato partiu das etapas usuais da sociabilidade adolescente e mostrou
clara evolução e amadurecimento de suas relações afetivas. Pode-se, ainda, por meio
dele, vislumbrar toda a sociabilidade de uma parte da juventude de classe média de
nossa época. Posteriormente, mudou-se com a família para uma capital do sul do país,
onde cursou a faculdade. Namorou, durante anos, um profissional liberal bem-sucedido
da região, mas rompeu o relacionamento poucos meses antes do casamento, por achar
que entre eles havia incompatibilidades intransponíveis. Depois disso, veio para São
Paulo, onde reside até hoje. Envolveu-se com dois namorados de classe média alta, mas
ambos não assumiram a relação, dizendo não estarem preparados para um compromisso
mais sério.
– Simone, 27 anos, solteira, nascida em São Paulo, é economista. Passou a adolescência
numa pequena cidade do Interior para onde os pais se mudaram, quando ainda pequena.
Após terminar a faculdade, em uma outra cidade de porte médio do Interior paulista,
veio para a capital, onde reside e trabalha. Relatou duas experiências amorosas mais
significativas: uma com um parceiro doze anos mais velho no interior, que não contava
com a aprovação da família; e um namoro recente na capital. Seu depoimento permite,
ainda, perceber as formas de sociabilidade e lazer de uma parte da juventude univer-
sitária de classe média paulista.
44
Relatos da Vida Amorosa: a intimidade no contexto contemporâneo Sylvia Maria da Penha Cioffi
Renata, 29 anos, solteira, natural de uma grande cidade do Nordeste, é psiquiatra, com
especialização em psiquiatria infantil, tendo concluído sua residência médica em um
grande hospital paulistano. Relatou suas experiências afetivas, desde a adolescência
até os dias de hoje, descrevendo minuciosamente suas duas relações amorosas mais
importantes até o momento da entrevista, além de relacionamentos esporádicos.
Renata foi noiva de um companheiro de turma da faculdade e estava para se casar,
quando ele recebeu uma “proposta irrecusável” (em suas palavras), fora do Estado de
origem dos dois, para trabalhar em um organismo de saúde internacional. Ela decidiu
acompanhar o noivo, mas, no último momento, ele rompeu a relação. Após esse
episódio, ela teve outra ligação séria com outro companheiro, também médico da
mesma cidade, o qual pretendia casar-se com ela, mas a depoente, nesse contexto,
optou pela profissão, vindo fazer sua especialização em São Paulo, onde ainda reside.
No momento da entrevista, Renata tinha acabado de romper um namoro de meses,
com um colega do mesmo hospital.
– Marcos, 29 anos, solteiro, natural de uma cidade do interior do Nordeste, é médico
psiquiatra, tendo feito sua residência em um hospital de São Paulo. Na época do
depoimento, tinha acabado de romper um relacionamento amoroso com uma colega de
profissão que, segundo seu relato, lhe causou muita dor. A iniciativa do rompimento
partiu da companheira a quem ele devotava muito sentimento. No momento da
entrevista, Marcos “recuperava-se”, em suas palavras, dessa ligação.
Joana, 30 anos, separada, paulistana, é médica pneumologista e trabalha num grande
hospital de São Paulo. Depois de um namoro de vários anos com um colega da
faculdade de Medicina, uniu-se a ele e permaneceu casada por cerca de um ano e meio.
A relação começou a apresentar dificuldades devido a episódios de ciúmes do marido,
relativos a acontecimentos anteriores ao casamento. O depoimento de Joana, muito rico
em detalhes, permite perceber, muito do universo masculino, devido à inserção
profissional da entrevistada e ao seu grande círculo de amizades masculinas. No
momento da entrevista Joana encontrava-se sozinha.
– Eugênia, 32 anos, separada, nascida em uma capital do Sul, é comissária de bordo.
Mudou-se para São Paulo, onde cursou a faculdade de Turismo e permanece atuando na
45
Relatos da Vida Amorosa: a intimidade no contexto contemporâneo Sylvia Maria da Penha Cioffi
mesma área. Durante cerca de quatro anos, viveu conjugalmente com um homem vinte
anos mais velho que ela, que era passageiro assíduo da companhia aérea na qual
trabalha. Segundo conta, a relação esgotou-se e eles chegaram a uma separação ami-
gável. Eugênia continuou tendo relacionamentos amorosos esporádicos e encontrava-se
sozinha no momento da entrevista.
Felipe, 32 anos, solteiro, natural de uma pequena cidade do Interior paulista, é músico e
trabalha com diversos grupos musicais. Relatou suas experiências afetivas mais
importantes no decorrer dos últimos anos. No momento da entrevista encontrava-se,
segundo ele, à procura de uma namorada. Viveu uma experiência mais intensa com uma
namorada, que terminou pelo fato de a namorada não se adaptar com sua rotina de
músico, que envolve horários muito diferenciados, com viagens, trabalho noturno e nos
fins-de- semana.
– Roberto, 35 anos, solteiro, administrador de empresas, é natural de uma pequena
cidade do Interior de Minas Gerais. Reside e trabalha em São Paulo há vários anos.
Seu depoimento destaca-se pela riqueza de detalhes, relatando todas as suas
experiências afetivas. Em particular, merece destaque sua relação com a última
companheira, com a qual pretendia construir uma relação estável, rompida por uma
situação que, segundo ele, traíra a sua confiança. No momento da entrevista, Roberto
encontrava-se sozinho.
Paulo José, solteiro, nascido numa grande cidade do Interior paulista, 35 anos, fez fa-
culdade de música e permanece atuando na área, acompanhando músicos de renome.
Relatou sua relação amorosa mais importante com uma companheira, que conheceu no
cursinho pré-vestibular. No momento da entrevista a namorada tinha se mudado de São
Paulo, para trabalhar em um hospital de outra Capital, e a relação passava por uma
crise de definição. No relato do depoente, destacou-se a importância da vida profissio-
nal para o casal.
– Letícia, 43 anos, casada, natural do Interior paulista, é psicanalista e possui um
consultório em São Paulo. Mantém um relacionamento conjugal com um companheiro,
13 anos mais velho que ela, separado do primeiro casamento e com dois filhos. O casal
46
Relatos da Vida Amorosa: a intimidade no contexto contemporâneo Sylvia Maria da Penha Cioffi
não possui filhos. Seu depoimento destacou as dificuldades das ligações amorosas na
atualidade e abrangeu também sua vivência no consultório.
Márcia, 45 anos, promotora da Justiça Federal, é natural de São Paulo. É divorciada do
primeiro marido e possui dois filhos adultos. É a única entrevistada que reside fora do
Estado de São Paulo, por motivo de sua inserção profissional, mas seu depoimento foi
colhido em São Paulo, onde reside sua filha mais velha. Márcia manteve um
relacionamento de anos com um companheiro, por quem rompeu seu casamento. Esse
companheiro, casado na época, se separou posteriormente e eles continuaram a manter o
relacionamento em casas separadas. Na época da entrevista eles encontravam-se
separados.
Ângelo, 40 anos, divorciado, natural de uma pequena cidade do Interior, próxima a São
Paulo, é músico e trabalha na regência de grupos de coralistas. Relatou a história de seu
casamento, do qual possui um filho e seus principais relacionamentos até o momento da
entrevista. Segundo seu depoimento, o término do vínculo se ocorreu pela falta de
companheirismo da parceira que, após o casamento e o nascimento do filho, mudou o
estilo de vida, adotando um modo de ser mais reservado. O casal, entretanto, mantém
uma relação amigável. Por seu depoimento também são percebidos aspectos de socia-
bilidade e lazer, bem como influências culturais, da juventude da época.
Rodrigo, 43 anos, natural de São Paulo, psicólogo e músico, é o principal representante
de uma banda de sucesso, que toca na noite paulistana. Vive um casamento em casas
separadas, ou seja, passa o dia em sua própria casa e, muitas vezes, dorme na casa da
companheira. O casal possui uma filha, além da filha do primeiro casamento da
companheira. Seu relato abarcou todas suas experiências amorosas significativas.
Ivan, 45 anos, administrador de empresas, natural de São Paulo, é casado e possui dois
filhos. Mudou-se recentemente para uma cidade nos arredores da capital, por não
agüentar mais o ritmo da grande metrópole. Considera seu casamento muito bom e, em
suas próprias palavras, encontrou sua “alma gêmea”. Em seu depoimento, destaca a
importância da dimensão afetiva para a vida das pessoas.
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Relatos da Vida Amorosa: a intimidade no contexto contemporâneo Sylvia Maria da Penha Cioffi
Cássio, arquiteto, 48 anos, natural de São Paulo, separado, viveu um relacionamento de
doze anos com uma companheira, casada anteriormente e com duas filhas dessa
primeira união. Passou algum tempo em outro Estado, a trabalho, tendo deixado o
emprego para continuar ao lado da companheira em São Paulo. Posteriormente, houve o
rompimento dessa relação, de forma bastante drástica. O entrevistado não possui filhos
e encontrava-se desempregado na época do depoimento, fator este que influenciou
bastante o relato.
Ivana, solteira, 49 anos, natural de São Paulo, é médica neurologista. Possui consultório,
além de também trabalhar em hospitais. Relatou, com riqueza de detalhes, todos seus
relacionamentos amorosos, desde a adolescência. No seu depoimento vislumbram-se,
ainda, os condicionamentos de gênero que marcaram seu contexto profissional.
Leandra, 53 anos, separada, é antropóloga e professora universitária. Nasceu em uma
cidade de porte médio do Interior do Estado de São Paulo. Casou-se muito jovem, ainda
em sua cidade de origem, e separou-se após um ano de casamento, mudando-se para
São Paulo. Posteriormente, viveu uma relação conjugal, durante 17 anos, com um
militante político e possui uma filha desse casamento. Seu depoimento destaca-se pelo
humor e riqueza de detalhes e permite identificar trajetórias da juventude dos anos 1970.
Maria Eunice, 57 anos, paulistana, divorciada, é arquiteta. Casou-se no início dos anos
1970 e possui duas filhas. Relatou, com desenvoltura, seus envolvimentos amorosos
mais importantes. Seu depoimento permite antever todo um contexto relativo à
juventude dos anos 1960, tanto no engajamento político como na transformação de
comportamentos, o que levaria a uma mudança de padrões tradicionais. É mãe de
Joana, personagem apresentada anteriormente.
Geraldo, 57 anos, divorciado, arquiteto, é professor universitário. Viveu um casamento
de 15 anos, sendo que o casal não teve filhos. O entrevistado privilegia o engajamento
religioso no cotidiano e encontrava-se só quando a entrevista foi realizada.
Nuno, 58 anos, natural de uma cidade média do Interior da Bahia, é contador e possui
um escritório no centro de São Paulo. Seu primeiro casamento terminou por ele ter se
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Relatos da Vida Amorosa: a intimidade no contexto contemporâneo Sylvia Maria da Penha Cioffi
envolvido com outra mulher. Casou-se pela segunda vez e possui dois filhos desse
casamento. Atualmente, vive um relacionamento estável de dez anos com a antiga
namorada e companheira de militância política, por quem rompeu o primeiro casamento
e que reencontrou depois de vinte anos.
José Antonio, 60 anos, casado, artista plástico, reside em São Paulo. Vive de aulas de
pintura e da venda de suas obras de arte. Casou-se a primeira vez nos anos 1960,
permanecendo por dez anos nessa união. Posteriormente, casou-se com uma mulher
recém-separada, filha de um modelo que freqüentava seu ateliê. Além dos dois filhos
dela do primeiro casamento, o casal possui um filho dessa ligação, que já dura cerca de
25 anos.
Quadro dos entrevistados
Homens Idade Profissão Estado civil
Marcos 29 anos Psiquiatra Solteiro
Felipe 32 anos Músico Solteiro
Roberto 35 anos Adm. de Empresas Solteiro
Paulo José 35 anos Músico Solteiro
Angelo 40 anos Músico e Regente Divorciado
Rodrigo 43 anos Músico Casado
Ivan 45 anos Adm.de Empresas Casado
Cássio 48 anos Arquiteto Separado
Nuno 58 anos Contador Divorciado
Geraldo 58 anos Arquiteto Separado
José Antônio 60 anos Artista Plástico Casado
Mulheres Idade Profissão Estado civil
Vera 26 anos Psicóloga solteira
Cristina 26 anos Economista Solteira
Laura 27 anos Fisioterapeuta Solteira
Renata 29 anos Médica Solteira
Joana 30 anos Médica Separada
Eugenia 32 anos Comissária de Bordo Separada
Letícia 43 anos Psicanalista Casada
Márcia 45 anos Promotora de Justiça Divorciada
Ivana 48 anos Médica Solteira
Leandra 53 anos Antropóloga Divorcida
Maria Eunice 57 anos Arquiteta Divorciada
Capítulo 2
Permanências e Mudanças
Acho que é assim, a paixão vem com esse fogo inicial. Aquele encontro.
Aquela troca de olhar que você se apaixona e fica. Dá aquele fogo. Aí você
escreve poemas, deixa recado na secretária, manda flores, faz música, faz
tudo. Brinca. Paixão tem muito humor. Tem muita brincadeira, tem muita
felicidade. Paixão é uma delícia. O estado da paixão.Só que depois de um
tempo têm paixões que se apagam e têm outras que evoluem e a essas
chamo de amor. O amor é aquele, é quando você aprende com o outro.
Quando você começa a abrir suas fragilidades para o outro. Quando você
começa a tirar os segredos. Quando você começa a tirar uma casca. A pai-
xão tem casca. A paixão eu acho... você está de personagem ainda. Você
está vestido. Tem uma armadura na paixão por mais fantasiosa que ela seja,
por mais louca tem uma maquiagem. Acho que o amor é sem maquiagem,
sem armadura. É quando você está nu, literalmente. Aí, quando você está
nu o outro gera em você muita descoberta. Até coisas que te incomodam.
Começa a rever conceitos. Começa a aprender com o outro. Quando você
está aberto a aprender. Aberto para ouvir. Ouvir. Ouvir, mesmo. Ouvir e
refletir. Isso só acontece no amor. Na paixão... A paixão é muito em torno
do prazer. Tudo é prazer na paixão. Vou ouvir tudo que vai me direcionar
ao prazer. Quando começa a ficar chato eu mudo. Dou volta e não sei o
quê. Agora, o amor, não. O amor tem dia que você vai para a cama e transa
sem transar. Às vezes uma conversa é uma transa. Isso é o amor.
Ângelo, músico, divorciado, 40 anos.
Room in New York Edward Hopper
50
Relatos da Vida Amorosa: a intimidade no contexto contemporâneo Sylvia Maria da Penha Cioffi
ste capítulo tratará das relações afetivas vivenciadas pelos entrevistados em suas
histórias amorosas singulares. Procurar-se-á explicitar como o processo de mu-
danças sociais econômicas e culturais sofridas pelas camadas médias paulistas, nos
E
últimos 30 anos, incidiu na prática e no imáginário de homens e mulheres e como isso
determinou os sentidos e significados atuais das relações afetivas que mantêm.
Aqui, as diferenças e semelhanças encontradas nas entrevistas referem-se,
preponderantemente, à perspectiva de gênero, na qual valores e papéis atribuídos aos
sentimentos e práticas envolvidas nos relacionamentos afetivos são resultantes da
socialização sexuada, que ainda permanece como eixo estruturador das ações sociais.
Em todos os depoimentos, subjaz a tensão entre o velho e o novo, entre duas formas
de sociabilidade, e a conformação de comportamentos socialmente aceitos e valorizados.
É como se os relatos transcorressem num cenário em transformação, no qual, embora
antigos condicionamentos permaneçam como pano de fundo, novas disposições vão sendo
erigidas sobre as antigas.
No seu livro Sem Fraude nem Favor, que enfoca os estudos sobre o amor
romântico, Jurandir Freire Costa (1999) inicia a introdução relatando um filme intitulado
Terra das Sombras, cujo enredo enaltece o valor do amor como sentimento superior a
todos os demais, sem o qual a vida parece destituída de significado. E o autor acrescenta:
esta imagem do amor, típica do romantismo, nos é totalmente familiar. Ela domina o
imaginário no qual o amor erótico é o signo do supremo bem”
(Costa, 1999:11). De fato,
basta um olhar para a produção artística e literária do nosso tempo e percebemos que,
como tema, o amor continua a ocupar um lugar privilegiado em nossa sociedade. Faz parte
da idealização do amor não só considerá-lo como um sentimento universal e, portanto,
“natural” ao ser humano, presente em todas as culturas, como lhe é atribuído valor em si,
independente de quaisquer outros interesses humanos.
51
Relatos da Vida Amorosa: a intimidade no contexto contemporâneo Sylvia Maria da Penha Cioffi
Corroborando a afirmação acima, para a maioria dos entrevistados as relações
afetivas constituem parte importante de suas vidas. A relação amorosa, entendida como
fundamental para a realização pessoal dos indivíduos, marcou presença em todos os
relatos. Estes indicam que o sentimento do amor continua a ser bastante valorizado.
Praticamente todos os entrevistados gostariam de manter relações amorosas compensadoras,
não importando a forma do vínculo. Percebe-se, pelo relato dos depoentes, que, como aponta
Costa (1999), esse sentimento continua a ocupar um lugar privilegiado no imaginário dos
indivíduos, a despeito das transformações dos últimos trinta anos, que inauguraram novos
modos, mais flexíveis, de sociabilidade amorosa. As formas dos vínculos amorosos transfor-
maram-se, mas o ideal permanece incólume.
Persistência do ideal romântico
Atualmente, os laços afetivo-sexuais dão-se num contexto novo, no qual, pelo
afrouxamento de padrões morais rígidos, há maior liberdade de ação. Todavia, o ideário
do amor romântico ainda está presente nos depoimentos de grande parte de homens e
mulheres, fazendo parte de um imaginário social recorrente. Essa valorização, do amor
como sentimento, perpassa toda a cultura ocidental (Cf. Rougemont, 2003) e permanece
ainda viva nos relatos dos entrevistados, que é manifesta pelos depoentes, na vontade de
viver uma relação amorosa ou no desejo de encontrar parceiros satisfatórios.
É interessante observar como, no relato de Leandra, a importãncia da dimensão
afetiva é marcadamente preponderante: já no início da entrevista ela declara o fato:
A minha experiência afetiva é uma coisa assim, é muito comprida nessa altura do
campeonato. Fui casada duas vezes. Mas o meu casamento mesmo, assim, com
quem é o pai da minha filha e tal, durou 17 anos. No total, durou uns 20. Vinte anos
da minha vida ocupada com um mesmo homem. Um homem por quem eu fui
apaixonada. Por quem eu me dediquei mais e abri mão, talvez, de um monte de
coisas. Mas eu tive muitos namorados. Isso é até uma coisa que tenho discutido na
minha análise, como é que a relação com um homem e a vida afetiva para mim tem
um lugar muito importante. É quase que ter um lugar central na minha... na minha
existência. Um lugar existencial muito importante.Tenho agora até trabalhado isso
na análise porque eu acho que é um lugar grande demais para o momento que estou
vivendo. Eu queria que ele fosse menor. Que ele diminuísse um pouco. Leandra,
antropóloga, professora universitária, desquitada, 53 anos.
52
Relatos da Vida Amorosa: a intimidade no contexto contemporâneo Sylvia Maria da Penha Cioffi
Leandra faz parte do contingente de mulheres chefes de família, inseridas no
mercado de trabalho em postos valorizados, pertencente às camadas médias inte-
lectualizadas. No entanto, o lugar “central”, que o domínio afetivo ocupa em sua vida é
considerado por ela mesma “grande demais”.
Poder-se-ia dizer que a valorização do sentimento amoroso é quase um estereótipo
social, que se revela no cinema, na tv, na literatura e em outras manifestações da indústria
cultural. A necessidade de viver um grande amor faz parte do imaginário feminino (e ao
que parece também, do masculino) e a sua não concretização traz um sentimento de
frustração e desencanto, não obstante todas as outras conquistas obtidas na vida. Parece
que se instaura um “buraco afetivo” no eu dos indivíduos. Essa concepção do amor
romântico, como uma coisa imprescindível na vivência das pessoas, não foi só
prerrogativa das falas femininas e apareceu também nos relatos masculinos.
A história de Nuno, como exemplo emblemático da permanência do ideal
romântico, é bastante significativa. Tal como nos romances de amor, ele esperou vinte
anos para reaver a companheira, à qual devotava um afeto especial, e com quem mantém
uma relação estável há dez anos. Inicialmente, tendo se casado jovem, com uma colega do
curso pré-vestibular, Nuno terminou o primeiro casamento para ficar ao lado dela. Perma-
neceram juntos por seis meses e a moça rompeu o relacionamento, sem maiores expli-
cações. A partir daí, seguiram caminhos diferentes. Ela casou-se, teve duas filhas e ele, nos
anos 60, seguiu a militância política enveredando na clandestinidade. Algum tempo
depois, ele se casou novamente e teve três filhos. Permaneceu casado por cerca de treze
anos, separando-se a seguir. Em seu próprio relato de sua vida afetiva:
Só fui namorar quando estava fazendo cursinho. Só em 69. Até então, no máximo
assim, teve um, como é que eu diria?, Um casinho, uma coisa assim. Nem lembro
como se chamava na época. Namorar mesmo só quando eu estava fazendo o
cursinho. Que veio a ser na verdade a minha primeira mulher. Terminei casando
com ela e tal. Entramos juntos na faculdade. Ficamos três anos casados e depois
nos separamos. Nos separamos por conta daquelas paixões que acontecem na
vida das pessoas. No caso, comigo. Aí fiquei 6 meses assim. Não chegou a ser um
casamento. Mas era uma coisa de se encontrar todo dia. Mas em seguida também
acabou porque essa companheira resolveu romper sem nenhuma explicação.
Pouco tempo depois eu me casei de novo. Já com outra pessoa com a qual eu
fiquei... Não sou muito bom de contar datas. Mas acho que de 12 para 15 anos.
53
Relatos da Vida Amorosa: a intimidade no contexto contemporâneo Sylvia Maria da Penha Cioffi
Tenho 3 filhos com ela. A única com quem eu tive filhos. Dessa eu me separei.
Coisa de uns 10 anos. Quando eu me separei coincidiu que aquela paixão de 6
meses e tudo mais a gente se reencontrou. Estamos nos relacionando até hoje. Eu
a considero como a minha companheira. Dez anos já. Não se pode dizer que é
namoro. Nuno, contador, divorciado com uma relação estável, 58 anos.
Para o entrevistado sua relação mais marcante é essa, com a companheira de seis
meses, objeto de sua paixão, cuja ruptura provocou-lhe imensa dor, segundo seu relato:
Doeu muito esse rompimento?
Profundamente. (silêncio)
É difícil. Não. Com certeza.
Essa ruptura é o seguinte. Na época era isso, “Não. Não quero mais”. Certa
avaliação que eu fazia naquele momento era o seguinte, “Eu estou apaixonado e
ela também está apaixonada”. Não sei isso vale para os outros. Não gosto de
generalizar a minha visão na experiência dos outros. Para mim, eu tenho um
método muito simples de saber isso. Desculpa a expressão. É dar uma puta de
uma trepada. Sente que a pessoa sentiu tanto prazer quanto você e vem falar,
“Não. Não quero mais!”. Essa era a visão que eu tinha, “Isso não faz sentido!”.
Aceitei. Não fiz qualquer tipo de chantagem. De ficar atrás. De encher o saco.
Nem nada disso.
Perguntou o porquê?
Sim. Mas a resposta foi essa, “Não quero mais”.
Nuno permaneceu fiel a esse afeto por vinte anos e sentia necessidade de esclarecer
que permanecia preso a esse envolvimento ao se relacionar com outras mulheres. É um
caso clássico de amor romântico. Estão presentes nessa história a singularidade e a
exclusividade reclamados pela relação amorosa única e intransferível.
Hoje, (...) a gente voltou depois de 20 anos. Reatamos, vamos dizer assim.
Conversamos muito sobre isso e a explicação que eu tenho, que bate e acho que é
razoável é a seguinte: ela queria viver muitas experiências. Que era muito comum
nessa época. A relação da gente que era uma relação de paixão, de compromisso
por essa via impedia isso. Foi. Foi e teve todas as experiências. Casou e teve
filhas e tal. Viveu tudo que era necessário viver. Depois de 20 anos, “Olha,
realmente precisamos reatar”. Ótimo. Durante esses 20 anos, na verdade, eu
posso dizer assim, com tranqüilidade, fiquei à disposição dela. À disposição,
assim. Fui viver a minha vida afetiva. Mas fiquei à disposição. Nenhuma das
pessoas com as quais me relacionei nesse período eu neguei que tinha essa paixão
não resolvida e me colocava assim na relação. Nem sempre gostavam muito, mas
eu tinha uma puta necessidade de falar isso.
A postura e a história do entrevistado lembram o romance de Gabriel Garcia
Márquez, O Amor nos Tempos do Cólera, de uma forma bastante vívida. Tal como o herói
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Relatos da Vida Amorosa: a intimidade no contexto contemporâneo Sylvia Maria da Penha Cioffi
do romance, Florentino Ariza, ele não se furtou a viver outras relações amorosas, mas
sempre “marcando o terreno” para as outras envolvidas, em relação ao seu afeto especial
(a sua Fermina Daza). Esse comportamento é explicitado no seu relato:
Nunca acreditei nessa história de viver mil paixões. Nunca acreditei muito nisso.
Para mim pelo menos não é bem assim. Não é que eu não tenha me apaixonado,
mas [a gente] sente que não é a mesma coisa. Não é aquela relação que você está
querendo. Por isso que mexe um pouco comigo quando falo disso.
Eu me consideraria um idiota, em todos os sentidos, se eu parasse de viver. Pelo
contrário. Era fundamental que eu fosse à luta – para utilizar uma expressão de
hoje. Procurasse tirar o máximo de prazer da vida, em todos os sentidos. Inclusive
no afetivo. Mas sempre foi um entrave. Eu tinha necessidade de falar para as
minhas companheiras, nesse período de 20 anos, exatamente para não....Era um
direito delas saber disso. Que eu gostava dela. Por que estava com ela porque
gostava e tudo mais. Mas que tinha aquela coisa lá, né. Aquela espinha encravada
que doía. De um modo geral a maioria respeitava e entendia. Não se fala mais no
assunto e acabou. Está comigo. Então, está bom.
A história, diga-se, ainda, tem lances romanescos, como o fato de, no início, a
dupla não saber seus nomes verdadeiros, uma vez que ambos eram militantes políticos e
então só se tratavam pelo “nome de guerra”.
A propósito. Essa da paixão também era militante. A gente estava assim na maior
das paixões. Ela não sabia o meu nome e eu o nome dela. Só os nomes de guerra.
Tal como Leandra, para Nuno, a relação afetiva adquire um caráter central na vida
do sujeito, fazendo parte de uma identidade indissociável, sem a qual a vida não se mostra
satisfatória. Assim, segundo seu depoimento:
Porque para mim, a vida afetiva, a vida sexual é algo absolutamente fundamental.
Vamos dizer assim, como um dos pilares para você ter uma vida razoável. Você
precisa ter uma fonte de renda, um emprego, alguma coisa. Trabalhar é legal. Ou
pelo menos ter uma fonte de renda de preferência do seu trabalho. Fruto do seu
trabalho. Ter uma vida afetiva razoável. Ter amigos. São questões fundamentais.
Essa disposição de encontrar um parceiro, segundo o ideal do amor romântico
permanece nos depoimentos da maioria dos entrevistados. Faz parte de um imaginário
recorrente, em que estão presentes os principais componentes do envolvimento amo-
roso: a “naturalidade” e universalidade do sentimento amoroso; a singularidade do obje-
to de amor; o amor como força incontrolável independente da vontade dos indivíduos e a
condição para a felicidade máxima como grande conquista de vida (Cf. Costa, 1999).
55
Relatos da Vida Amorosa: a intimidade no contexto contemporâneo Sylvia Maria da Penha Cioffi
Essa idéia do amor como sentimento universal é defendida por Paz (1994: 34) ao
dizer que “o sentimento amoroso é uma exceção dentro dessa grande exceção que é o
erotismo diante da sexualidade – mas é uma exceção que aparece, porém, em todas as
sociedades e épocas”.
Para o autor, entendido como “misteriosa inclinação passional por uma única
pessoa” (Paz,1994:35), o que variaria no amor seriam as formas culturais de expressão
ligadas às diversas sociedades. Ele ainda considera a liberdade como condição básica para
o afloramento desse sentimento.
Mas, ao mesmo tempo, Paz (1994:142) não é condescendente com as formas nas
quais o amor se transmutou na sociedade contemporânea. Na sociedade de consumo, ele
teria se transformado em mercadoria e “deixamos a liberdade erótica ser confiscada pelos
poderes do dinheiro e da publicidade”. Considera que esse fenômeno da transformação do
amor em mercadoria teria alcançado proporções inusitadas e uma mudança em sua natureza:
imaginava-se que a liberdade sexual acabaria por suprimir tanto o comércio dos
corpos quanto o das imagens eróticas. A verdade é que ocorreu o contrário. A
sociedade capitalista democrática aplicou as leis impessoais do mercado e a
técnica da produção em massa na vida erótica. Assim, a degradou, embora como
negócio tenha tido grande sucesso.
A mesma forma de enaltecimento do sentimento amoroso é encontrada em
Solomon (1992), que concebe o amor como uma experiência enriquecedora e digna de ser
vivida. No entanto, reconhece-o como um “produto” histórico, sujeito às transformações
culturais da sociedade, concepção da qual é partidário este estudo.
Todos os entrevistados manifestaram em seus relatos o sentimento positivo da
importância da relação amorosa. Mas, de modo geral, as mulheres sentem-se mais à vontade
para falar do amor e fazer grandes narrativas a respeito do assunto, usando linguagem
poética e figuras de estilo. Parecem gostar disso. Já a maioria dos homens tende a remeter,
de forma mais pragmática, ao sentimento, não sabendo muito bem como defini-lo, servindo-
se de situações mais concretas. Isso reflete os condicionamentos da socialização feminina,
que incentivam as mulheres a lidar melhor com os sentimentos que os homens. Assim, pode-
se perceber essa diferença nas falas masculinas e femininas a seguir:
56
Relatos da Vida Amorosa: a intimidade no contexto contemporâneo Sylvia Maria da Penha Cioffi
O amor? É você se dar bem com uma pessoa. Eu não fico fantasiando e achando.
A coisa simplesmente acontece. Acho que se você fica correndo atrás, aí, você vai
se decepcionar. Não sei se eu tive, ou não tive sorte. No momento, eu não tenho
namorada. Mas não fico correndo atrás de achar e tentar conhecer. Não sei se tive
sorte. Comigo acontece pelo fato de tocar, enfim. Sempre acontece algum rolo e
você não fica muito tempo sozinho. Mas “tipo assim”, não fico pensando o que é
o amor, e o que vai acontecer. Você tem que ir dando corda e vai se relacionando
e constrói uma história ou não. Agora, nunca fiquei pensando o que é, o que não
é. Felipe, músico, solteiro, 34 anos.
Ele [o amor] tem alguns componentes. O desejo de um pelo outro. Se sentir bem
um com o outro. Compartilhar – e volto a insistir nisso – os aspectos culturais da
vida e tudo o mais. Encarar de forma prazerosa. Dar continuidade à vida com o
outro. Não tenho uma definição. Acho que esses são componentes do amor. Ter
um carinho todo especial. Ser uma pessoa única em toda a humanidade. Não
existe ninguém igual àquela pessoa que tem defeitos, problemas, mas é única.
Uma pessoa com quem você quer dar continuidade à sua vida. Esses são os
componentes, eu acho. Mas definição de amor... Eu não sei. Não tenho não.
Nuno, contador, divorciado, 58 anos.
O que é o amor? Putz! Não sei. (risos) Se eu soubesse...O amor é uma porção de
coisas. O amor tem uma porção de componentes e vai mudando de coloração e
passa por várias coisas, várias fases e passa por várias sensações. Você não sente
o amor em só um lugar, você sente em vários. Paulo José, músico, solteiro, 35
anos.
O amor é como... Eu vou usar uma palavra que já usei algumas vezes nesta
entrevista. Digo que o amor é o fogo da vida. E o amor no sentido mais amplo da
palavra. No sentido de troca, envolvimento. Como as ondas do mar. É muito
intenso e ao mesmo tempo muito sereno. Ele eleva, ele acalma.(...) Na troca,
sentir o amor no carinho. Sentir o amor no olhar. Quando eu falo do fogo da vida
é porque vem um impulso, uma pulsão interna, uma pulsão de vida que te leva a
olhar para essa onda do mar tão intensa e ao mesmo tempo tão serena e vem a
marolinha. Acho que faz a gente brilhar, se sentir bem. Faz a gente ver o colorido
da vida. É fogo que queima. Por outro lado, queima quando não alimentado na
mesma instância, quando não correspondido. Por outro lado, ele aquece e brilha
quando correspondido, quando trocado. Mesmo não sendo correspondido. Mesmo
não sendo reconhecido, talvez, pelo outro, mas quando é próprio e verdadeiro
continua tendo esse fogo e esse brilho. Por vezes, ele queima. Mas continua numa
intensidade positiva. Vera, psicóloga, solteira, 26 anos.
Ah, eu acho que [o amor] é uma celebração. Tem um livro. Não me lembro o
nome dele agora que fala do amor como uma coisa suplementar. Não é uma coisa
utilitária. Eu acredito nisso. Eu acredito que seja uma celebração, realmente. Eu
acho que a própria energia da vida é uma energia amorosa. Esses encontros são
para ser celebrados... Márcia, promotora de Justiça, divorciada, 45 anos.
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Relatos da Vida Amorosa: a intimidade no contexto contemporâneo Sylvia Maria da Penha Cioffi
Embora a idealização do sentimento amoroso perdure em nossos dias, há um certo
descompasso entre essa e a realidade. Em outras palavras, essa idealização alimenta o
descompasso entre o desejo e o princípio de realidade.
A despeito do mito do amor romântico como força incontrolável, que, muitas
vezes, foge à razão dos indivíduos (ou acontece à revelia), vislumbrado como o desejo que
se lança em direção a um objeto singular (e somente a ele), as pessoas procuram suas
ligações amorosas dentro de um universo provável de escolhas, que se baseia mais em
semelhanças que nas diferenças entre indivíduos. Ou seja, as pessoas se aproximam mais
de outras da mesma condição social e universo simbólico semelhante. Essa disposição já
foi remarcada por Bourdieu (1983) na sua concepção do habitus, constituindo um sistema
de esquemas geradores éticos ou estéticos, exprimindo segundo essa lógica, condições
cristalizadas em sistemas de preferências e gostos conformados a determinados grupos
sociais.
O depoimento de Laura evidencia esse fato ao manifestar que sua escolha amorosa se
deu por uma pessoa de seu próprio meio social, que se mostrou digna de sua confiança:
Ela está super feliz [refere-se à amiga] porque ele elogia ela de todas as formas
do mundo. Tudo para ele é ela e para ela é ele. Ele sabe dividir isso com ela.
Coisa que o outro não sabia. Mas quem que é? É o cara que era amigo dela e
conheceu ela na faculdade. .Então, eu acho assim, é muito difícil você conhecer
um cara. Você tem que ir na tua base, nos teus amigos. Ele é meu amigo de
infância. Ele é filho de uma amiga da minha mãe. A primeira viagem que eu fiz
na vida foi para conhecer ele. Quando ele tinha nascido. Ele estudou comigo no
colégio a vida inteira. Sempre foi meio que apaixonadinho por mim. Laura,
fisioterapeuta, noiva, 27 anos.
Assim, nos depoimentos, parece haver uma divisão entre amor idealizado e amor
real. Quando se referem ao amor como fenômeno da ordem do sentimento, os
depoimentos são absolutamente românticos. Mas, quando diz respeito à esfera do vivido, o
relato torna-se condicional, falando de uma série de exigências reais para a sua realização,
tais como maturidade, compreensão, tolerância e, principalmente, respeito ao outro. Todos
os entrevistados afirmaram que o respeito à individualidade do sujeito é uma condição
imprescindível para o bom andamento de uma relação. Ou seja, o amor, como sentimento
idealista, pertence à esfera da retórica e da louvação incondicional e o amor realizado na
58
Relatos da Vida Amorosa: a intimidade no contexto contemporâneo Sylvia Maria da Penha Cioffi
experiência vivida pertence à esfera das contingências. Ao vivenciar o amor num contexto
real, os indivíduos deparam-se com os limites impostos pela individualidade do outro e
têm necessariamente de fazer concessões e estabelecer negociações. Além disso, a
imagem ideal e um dos mitos do amor romântico prega o esmaecimento das diferenças
individuais, em prol de uma fusão de dois seres que se pretende una e única e que não
encontra ressonância na realidade
12
. Os indivíduos teriam de lidar por aproximações, com
o amor, renunciando à idéia primeira da fusão absoluta, mais do campo da paixão,
sentimento esse fortemente marcado pela sexualidade.
O amor... É um sentimento calmo. Que te traz paz. É quando você não precisa
daquela pessoa na sua vida, mas ainda sim você quer que ela participe. Acho que
foi o Eric Fromm. Às vezes eu fico me repetindo isso, “Na arte de amar algumas
pessoas pensam que o amor e feito a pintura. Basta o pintor achar a paisagem
perfeita que aí sairá a obra perfeita. Basta você encontrar a pessoa perfeita que
vai sair o relacionamento perfeito. E não é assim que funciona”. O amor e uma
construção. Eu não comecei meu relacionamento com o E. amando-o. Foi uma
coisa que a gente foi construindo aos poucos. Renata, médica, psiquiatra
infantil, solteira, 29 anos.
Em todos os relatos de homens e mulheres há nítida separação entre os sentimentos
de amor e paixão. A paixão seria um sentimento de encantamento que se apossa do sujeito
e o toma inteiramente, marcadamente físico e avassalador. Não é do âmbito do racional.
Um dos entrevistados cita que há idealização na paixão e uma projeção do próprio eu no
outro, matéria já discutida pela Psicanálise e que foi incorporada pelo imaginário popular,
tornando-se idéia corrente entre os indivíduos.
A paixão é uma coisa bem louca, bem forte, muito física. Graças a Deus não dura.
Porque se durasse seria todo mundo improdutivo. Porque aquilo te consome
assim... É uma coisa legal. E o amor... Poxa! Eu lembrei da Rita Lee agora. Da
música da Rita Lee. O amor é uma outra coisa. Mas ele tem alguns componentes
de paixão, eu acho. É uma coisa mais de parceria. Ele tem mais profundidade.
12. Esse tema tornou-se referência na Psicanálise, principalmente na linha lacaniana, que trata as impossibi-
lidades amorosas como atributo imanente aos indivíduos. Segundo essa concepção estaríamos diante de
um impasse perante o amor, que se consubstanciaria no primado de que “não há relação sexual” no cam-
po do simbólico, ou seja, a comunhão absoluta de dois sexos é considerada impossível, já que não há
aparato simbólico para a comunicação e o partilhamento do prazer do Outro. Assim, a relação sexual
mediatizada pelo falo é pontual, mas não unificadora. O significante do gozo é escamoteado na ordem do
simbólico. Cf. JULIEN, Philippe, 1986.
59
Relatos da Vida Amorosa: a intimidade no contexto contemporâneo Sylvia Maria da Penha Cioffi
Requer mais maturidade. Paixão é para qualquer um. O amor acho que não.
Márcia, promotora de Justiça, divorciada, 45 anos.
Depois que eu tive a decepção com o M. – aquele dia da pizzaria. A hora que eu
saí, a primeira coisa que me veio na cabeça foi o seguinte, eu aprendi que, nunca
mais, na minha vida quero me apaixonar por ninguém. Por que paixão é uma
desgraça. Ela tem pacto com Deus e com o diabo. Qual é o problema da paixão?
Do mesmo jeito que você é extremamente feliz: são os melhores dias da sua vida,
os melhores momentos que você está com a pessoa, e aquilo acaba. Quando você
está apaixonado, você está cego. Você não consegue observar os defeitos do
outro. Você não enxerga a falta de respeito com você. Não enxerga o egoísmo
dele com você. Você só vai enxergar, quando acabar a paixão. Talvez quando
acabe a paixão, a decepção seja muito maior. Laura, fisioterapeuta, noiva, 27
anos.
Eu quero alguém para envelhecer comigo. Para passar por todas as dificuldades.
Para quando a paixão acabar, existir o amor. Porque eu acho que é uma outra
coisa. No meu entendimento, a paixão é aquele primeiro momento da fissura, do
imaginário. Porque, muitas vezes, a gente tenta criar uma pessoa que muitas
vezes não existe. Que é aquilo que a gente quer. Roberto, administrador de
empresa, solteiro, 35 anos.
O amor construído
Não obstante a ideologia romântica perdurar, como uma representação ideal, em
que todos os elementos valorizam a singularidade e aleatoriedade da escolha amorosa, as
pessoas constroem suas relações afetivas com um cálculo mais pragmático, levando em
consideração as possibilidades de acerto e erro. Isto faz parte do comportamento reflexivo
que Giddens (2002) estabelece como um dos parâmetros da alta modernidade e da
chamada “relação pura ou convergente” que se desenvolve como um trabalho de
construção.
Acho que o amor é construção. Eu continuo acreditando nisso: que amar é
construir com respeito, com acreditar, com andar junto, com caminhar junto. Eu
acho que amor, ainda, está nesse conceito. Com toda essa mudança, essa
modernidade, enfim. Mas eu ainda continuo acreditando no amor. Não importa de
que forma ele venha. Não importa como ele seja, mas eu acho que tem que ser o
amor. Roberto, administrador de empresa, solteiro, 35 anos.
Eu falei “M., o negócio é o seguinte: eu gosto e quero muito ficar com você. Mas
quem dá tempo é relógio. Eu não vou esperar nada”. Você também não pode falar
muito que é certinha. Que quer namorar e quer casar porque eles caem fora
porque têm medo. Então, fica muito complicado você levar um relacionamento
60
Relatos da Vida Amorosa: a intimidade no contexto contemporâneo Sylvia Maria da Penha Cioffi
com quem você não conhece. O que acontece, vejo assim as minhas amigas... é
engraçado. Das minhas melhores amigas da minha idade. Eu estou noiva do G.
que é meu amigo de infância. Que é uma pessoa que eu conheço a vida inteira. O
que fui buscar nele? Justamente a segurança. Não quis mais sofrer. E ele com
certeza buscou isso em mim, também. Porque, também, ele tomou poucas e boas
de mulher, na vida dele. Laura, fisioterapeuta, noiva, 27 anos.
Essa concepção do amor como construção perpassou grande parte dos relatos,
embora os entrevistados sintam que no terreno das contingências, a relação amorosa
abandone seu teor de idealismo e se choque com os ditames da realidade nem sempre
favoráveis ao intercurso amoroso. Em outras palavras, na prática os indivíduos vivenciam
os limites e negociações de um amor condicional, que faz esboroar um dos mitos mais
fortes do sentimento amoroso – o do amor incondicional, que tudo venceria.
Como diz Leandra:
Eu acho isso assim... Como sou uma pessoa, ao contrário eu enfrento as
dificuldades, eu me esforço, mergulho, tenho paciência, eu acho que... um
relacionamento é como cultivar um jardim. Você planta, você rega. Você precisa
se dedicar. Acho que é isso assim. Olhar para o outro. Descobrir e tal. Mas eu
sinto que as pessoas não querem isso. Elas não querem cultivar. Elas te tratam
como um ser descartável. Se você fica chata, então, eles vão embora. Leandra,
antropóloga, professora universitária, desquitada, 53 anos.
O relato refere-se a uma das imagens mais comuns do imaginário amoroso, ao
comparar o amor com uma “plantinha” que exige cuidado diário e um “trabalho”
constante para que viceje em boa forma.
Relação amorosa e narcisismo
Todas as histórias de vida afetivas relatadas nas entrevistas apresentam um aspecto
comum marcado pelo caráter de autocentramento do sujeito. Ao contrário da sociedade
baseada na comunidade e nos valores tradicionais, na qual o indivíduo se constituía como
uma peça da engrenagem social, que afirmava os valores comunitários, o indivíduo
contemporâneo é desenraizado, vivendo num meio, preponderantemente, de relações
impessoais. Essa situação marca o indivíduo com uma soberania que lhe é imposta em
relação ao seu “destino”, e esse caráter singular, como indivíduo único, perpassa a totalidade
61
Relatos da Vida Amorosa: a intimidade no contexto contemporâneo Sylvia Maria da Penha Cioffi
de suas relações. Em contrapartida, o participante da comunidade tradicional não era senhor
de seu destino e não tinha vontade própria, estando subordinado aos valores comunitários,
sob pena de ser marginalizado pela comunidade. Uma vez que tivesse transgredido tais
normas, a pessoa sofria as sanções sociais cabíveis para tal delito.
Na circunstância da sociedade tradicional, o indivíduo encontrava-se preso a redes
de valores cristalizados, de longa data, que privilegiavam os interesses coletivos e que
davam suporte aos vínculos pessoais e às instituições. As disposições da sociedade
comunitária, se, por um lado, o tolhiam, por outro, lhe davam sustentação, segurança e
maiores certezas de vida, com um sentido de continuidade, menos presente na sociedade
contemporânea.
O que está em pauta para o indivíduo da contemporaneidade é a constituição de
uma subjetividade em que o autocentramento se conjuga de forma paradoxal com o valor
da exterioridade, que privilegia as sensações em detrimento dos sentimentos e apresenta a
tendência a manifestar uma interioridade pouco desenvolvida e a preferência por vínculos
mais leves (Birman, 2003).
Portanto, o indivíduo sente-se livre para decidir seus caminhos, mas as angústias da
escolha num mundo pleno de possibilidades causam desorientação e ansiedade. São
muitas as possibilidades e os caminhos para o sujeito que, agora, se torna seu próprio
árbitro e essa situação causa insegurança. A necessidade de fazer escolhas é socialmente
imposta aos indivíduos, não se podendo dizer o mesmo das conseqüências, que são
individuais. Ou seja, na contemporaneidade a autodeterminação é compulsiva e
obrigatória.
As grandes narrativas da modernidade extinguiram-se para dar lugar a uma míriade
de novas crenças e inúmeras visões de mundo. Na sociedade contemporânea, o valor dado
ao individualismo tornou-se exacerbado, podendo descambar para um narcisismo de
proporções nefastas, que dificulta a formação de vínculos mais duradouros e confunde o
cerne das intersubjetividades. Segundo a Psicanálise o narcisismo como impulso vital é
necessário à formação da identidade e da estrutura psicológica sadia do indivíduo. Sua
dimensão erótica também está presente no investimento na saúde, na beleza e na formação
62
Relatos da Vida Amorosa: a intimidade no contexto contemporâneo Sylvia Maria da Penha Cioffi
dos vínculos amorosos. Esse narcisismo é necessário. Como dizem os psicólogos e
psicanalistas, “o indivíduo requer um suporte identificatório para exercer o papel sexual,
sustentar o erotismo, expandi-lo e transformá-lo em algo criativo” (Fuks, 2003: 140).
Assim, para a psicanálise, a constituição da primeira relação amorosa entre mãe e filho é a
matriz que dá suporte ao desenvolvimento do psiquismo e a base do estabelecimento de
outros vínculos amorosos posteriores. No dizer de Fuks
como Freud (1914) afirma, em certo momento do complexo processo de
constituição do sujeito psíquico, na conjuntura em que se instala o narcisismo,
abrem-se para o indivíduo possibilidades que se apresentam como uma
alternativa: tomar como objeto de seu amor ao outro (a mãe) ou a si mesmo. No
entanto, quando a retração libidinal sobre o eu resultante dos conflitos no amor
de objeto se torna maciça e exclusiva, nos impõe um sofrimento e uma ameaça
talvez maior: deveremos voltar a amar, como pudermos, para não adoecer”
(Fuks, 2003:141).
Como alerta a autora, na citação acima, essa volta à relação com o outro não é
muito facilitada na sociedade contemporânea. Segundo a opinião de vários analistas
(Lasch,1983; Giddens, 2002; Béjar,1990), a contemporaneidade inaugurou uma nova
forma de narcisismo, que, entretanto, é perverso.
Nas últimas décadas, forjou-se uma forte predominância de valores indi-
vidualistas radicais, voltados para o brilho da exterioridade. As aparências adquirem
centralidade jamais vista em outra época no Ocidente, consoante com o que Guy
Débord (1997) chamou de “sociedade do espetáculo” , que vive do enaltecimento das
celebridades.
Costa (2004) e Birman (2003), recorrem a esse autor para explicarem as novas
configurações que dominam a atualidade e o papel da mídia. Tal como as noções de
caráter social para Riesman (1995) e para Sennett (2001), já referidas anteriormente,
Birman aponta que a sociedade contemporânea propicia, ou melhor, torna quase
imperativa a emergência de novas formas de subjetividade que privilegiam a soberania do
eu e as compleições narcísicas. Assim, pode-se dizer, que o caráter social da contem-
poraneidade tende a ser, preponderantemente, narcísico.
Lasch (1983: 53) já o tinha observado ao afirmar que
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Relatos da Vida Amorosa: a intimidade no contexto contemporâneo Sylvia Maria da Penha Cioffi
nossa sociedade, (...) tornou cada vez mais difíceis de ser conquistadas
amizades profundas e duradouras, casos de amor e casamentos. À medida que
a vida social se torna cada vez mais hostil e bárbara, as relações pessoais, que
ostensivamente proporcionam alívio para essas condições, assumem o caráter
de combate.
Ainda que Lasch pareça um tanto apocalíptico em sua afirmação, é bem verdade
que, na sociedade atual, as dificuldades para a construção de laços afetivos constituem
evidências claras que foram temas recorrentes na pesquisa efetuada para este estudo.
Segundo Béjar (1990), o sujeito narcisista está, predominantemente, centrado em si
mesmo. Sua meta principal é o reconhecimento do seu “eu” e dos seus recursos internos. A
ação sobre os demais e a realidade externa são secundárias. O equilíbrio emocional adquire
estatuto de imperativo categórico, para uma personalidade frágil que não agüenta o conflito,
a confrontação ou o risco. Assim, ele tem pouca percepção das necessidades do outro e um
limite de compreensão muito baixo para as carências alheias. Mas, ao mesmo tempo que não
se envolve plenamente com os outros, para alimentar um sentido incerto de auto-mere-
cimento, ele depende de manifestações contínuas de admiração e aprovação.
Alguns dos depoimentos dos entrevistados apontam nessa direção e abordam, de
forma explícita, as dificuldades de formar vínculos estáveis que exijam contrapartida. Não
é à toa que grande parte dos homens entrevistados quando perguntados sobre o que
priorizam na relação amorosa afirmaram ser, antes de tudo, a liberdade. Esse ideal de
liberdade e autonomia que os indivíduos querem conservar a todo custo acaba por se
transformar numa falta de disponibilidade para o outro. Assim, atestam os relatos:
O que é um relacionamento bom para você?
Tem que ter a liberdade como prioridade. Tem que se discutir bem. Negociar bem
essa liberdade. Por exemplo, tem coisas que eu faço, que eu posso fazer e que
minha mulher não gosta. Ela disse que ninguém me manipula e que ela morre de
tentar. “Você é que nem um bicho. Você faz o que tem que fazer. Não quer nem
saber o que estou pensando, o que não estou”. Eu faço as coisas, que eu sinto ter
direito de fazer aquilo. Não estou fazendo aquilo para foder você. José Antônio,
artista plástico, casado, 59 anos.
Parece que as pessoas querem tudo pronto e que o outro não encha o saco. O
princípio hoje é esse. “Não encha o meu saco”. Tanto homens quanto mulheres.
Não encha o meu saco. Vamos viver em paz. Numa boa. Aí, quando vê um está de
um lado e outro está do outro. Leandra, antropóloga, professora universitária,
divorciada, 53 anos.
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Relatos da Vida Amorosa: a intimidade no contexto contemporâneo Sylvia Maria da Penha Cioffi
O que você prioriza numa relação amorosa?
É. não encher o saco. Antes de gostar. É não ter vícios de possessão, vícios de
desrespeito e implicâncias. O que eu busco é principalmente alguém que não me
encha o saco. Rodrigo, músico, casado, 42 anos.
Laura, no entanto, sintetiza com clareza as concepções da maioria das entrevis-
tadas, quando inquiridas sobre uma relação afetiva satisfatória e ainda aponta, de
passagem, segundo ela, o caráter “mais egoísta” apresentado pelos homens.
O que é um relacionamento ideal para você? Um bom relacionamento.
Um bom relacionamento? Um relacionamento [em] que se tem respeito, [em] que
se tem amor, [em] que se tem compreensão. [Em] Que você tenha o grande poder
– que a maioria dos homens não tem – de saber se por no lugar dos outros, quando
existem problemas, e principalmente o companheirismo. E o óbvio. Não pode
deixar de ter atração física, mas não é tudo. Mas sem ela não tem gosto nenhum.
Laura, fisioterapeuta, noiva, 27 anos.
Já Joana percebe esse caráter social marcadamente individualista, ou “egoísta”,
como menciona, relacionando-o com as disposições mais gerais vigentes na sociedade:
Acho que as pessoas, no geral, são mais egoístas hoje. Com tudo, em todas as
relações. Desde as mais próximas. Como família, todo mundo é egoísta.
Antigamente, as mães ficavam doentes e moravam com os filhos. Hoje em dia,
não. Você quer ter seu espaço e se a sua mãe estiver sozinha em casa você larga
ela lá. No geral, as pessoas ficaram assim, tanto nas relações de marido e mulher,
nas relações com família, você fechar um carro no trânsito porque você está
atrasado, está se lixando se a outra também está atrasada. No geral, as pessoas
ficaram mais egoístas, mais centradas. Acho porque um pouco reflete como a
economia é. A sociedade inteira reflete um pouco isso. É o consumismo de novo.
É um come-come. Que vença o melhor. Ao vencedor, as batatas. Sei lá. Joana,
médica pneumologista, separada, 30 anos.
Sua majestade, o Ego
A história de Rodrigo é um exemplo bastante adequado de como as novas
configurações da sociabilidade amorosa incidem na experiência pessoal. O ponto central
do depoimento consiste no caráter atemorizador do compromisso para o depoente, temor
bastante típico de nossos tempos. Destaca-se no relato o desconforto sentido ante qualquer
ônus de uma possível relação. O entrevistado, de 42 anos, é músico, empresário, dono de
uma banda de sucesso e possui uma agenda cheia de compromissos. Relatou, com
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Relatos da Vida Amorosa: a intimidade no contexto contemporâneo Sylvia Maria da Penha Cioffi
desenvoltura, sua história amorosa desde a infância, da qual se reproduzirão os trechos
mais significativos.
Essa relação durou quanto?
Durou uns três anos, sem assumir. Eu tinha essa relação e tinha outras várias, de
farra. Era sabido por ela que eu era farrista e que não assumia. Isso foi perdendo a
graça, porque ela não era farrista e por fim era uma relação aberta só do meu
lado. Certamente, eu a magoei profundamente, por causa desse comportamento.
Depois desse relacionamento tive um outro que era muito intenso. Foi a pessoa
com que eu tive mais afinidade sexual. Que era para mim enlouquecedor. Era a
paixão. Essa outra... era muito intensa e também deu muito errado. Porque
também eu não assumia e tinha essa coisa muito intensa com essa pessoa. Quanto
mais intenso ficava com ela, mais eu queria com outras também. Fiquei muito
sexualizado nesse período. Também magoei essa pessoa porque ela queria
namorar e eu queria, mas não queria. Não que eu não quisesse. Então, minha
posição era muito confusa. Essa era bem mais nova que eu, mais infantil e fazia
pequenas vinganças. Sentar no colo do cara que eu detestava... No fim dessas
duas relações eu estava neurótico e deprimido. Bem deprimido, mesmo.
Quanto tempo durou essa relação?
Uns dois anos. Eu estava com 38. Aí fiz uma lista mental das pessoas [de] quem
eu queria me aproximar. Tinha uma menina que morava no Rio. Eu gostava dela e
ela de mim, mas nunca deu certo. Quando ela estava namorando eu não estava e
vice-versa. A gente nunca conseguiu e eu achei que era com ela que...
Você fez uma lista?
Mental. Eu tenho que sair dessa relação maluca. Qualquer coisa que não fosse a
maluquice que eu estava. Que era ainda sobre a extrema competitividade e briga
com uma pessoa muito dura e a outra me cobrando uma coisa e eu no delírio
gostando, mas negando. Aí, eu pensei que ia namorar e casar com essa menina.
Aí... Com essa do Rio. Eu ficava lá. Escrevia. Telefonava e não sei o quê. Mas
ela estava enrolada com um cara, lá
Nesse momento você pensava em casar?
Eu pensava em sair por um caminho totalmente novo na minha vida. Em tudo.
Profissionalmente, existencialmente... (...) Realmente foi a vez que eu deprimi,
mesmo. Eu tenho um caráter depressivo e infantil que vai e volta. Não é uma
depressão que me tira da ativa. Mas dentro da psicopatologia, eu tenho esse
caráter. Foi o período mais difícil que eu tive. Aí eu reencontrei uma amiga
minha que foi do colégio. Que durante o colégio eu nunca olhei. Na verdade era
amiga do meu irmão. Ela até freqüentava a minha casa, mas ela não olhava para
mim e nem eu para ela. Foi uma relação de total desprezo mútuo. No fim ela
estava com alguns problemas. (...) Ela em S., com uma filha pequena, teve uma
única relação mais intensa com um cara que era casado. Ela ficou cinco, seis anos
(...) sem um homem direito. Pois encontrava e depois sumia. Uma coisa de
amantes, mesmo. Ela estava ficando completamente neurótica porque essa
relação não se resolvia. Ela veio para São Paulo e a gente se encontrou. Eu estava
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Relatos da Vida Amorosa: a intimidade no contexto contemporâneo Sylvia Maria da Penha Cioffi
muito paranóico. Ela ficou extremamente impressionada com o meu grau de
paranóia. Porque eu não tinha nenhum motivo para crer que alguma relação
pudesse não ser doente. A gente começou a sair e foi muito legal. Era uma mulher
da minha idade e tinha uma filha de sete anos. Tinha uma casa e sua própria
grana.
Então, sempre quis ter filha mulher. Aí tive a M. num relacionamento assim
moderno, digamos. Tenho a minha casa. Não sei se é moderno. Porque moderno é
uma palavra usada, meio que de piada. Eu tenho a minha casa e as minhas coisas
e ela tem a estrutura dela. A estrutura dela é maior que a minha. Ela tem uma casa
maior que a minha. Tem uma empregada, uma babá. Eu também não contribuo
com dinheiro. Porque não tem sentido eu contribuir. Então, eu não senti um certo
ônus de ter que trabalhar, para sustentar a criança. Mas não é uma produção
independente, porque eu durmo lá todo dia. (...)
Eu consegui um equilíbrio e o fato dela ter sido bailarina e agora trabalha com
outras coisas (...). Foi bailarina de um grande bailarino completamente maluco.
Um bailarino contemporâneo de comportamento também. Não encontrei uma
pessoa conservadora. Não sinto esse controle ostensivo. Se eu sentir, eu piro.
Acho que enlouqueço. Não teria relação. Não é assim, “Ah! Ninguém manda em
mim.” É o contrário. Se eu me deixar, me sentir submisso, algo que eu não goste,
isso é muito ruim. Então, das relações que eu tive esse modelo é o que está mais
combinando com a minha personalidade: é cheio de coisa, cheio de show, cheio
de mulher, cheio de viagem. Escrevi umas peças de teatro... é um ambiente
artístico. É o que estou conseguindo. Tudo veio depois da grande depressão. Uma
grande transformação que foi por um lado intelectual. Foi procurado. Procurei,
“como vou sair daquela merda e construir alguma coisa onde eu consiga
transitar”. Então é nesse estágio onde me encontro. Rodrigo, músico, casado, 42
anos.
O depoimento de Rodrigo parece conter alguns dos elementos da subjetivação
narcísica. A procura incessante de objetos amorosos; as muitas experiências amorosas
que não podem ser rechaçadas; a dificuldade de estabelecer compromissos; o pavor da
cobrança e de uma relação mais estreita com uma parceira, que atrapalhe seu sentido de
privacidade e a realização de seus projetos; uma forma pouco ortodoxa de viver um
casamento; o auto-centramento como referência maior de vida; os mimos ao “eu” e o
enaltecimento da autonomia como comportamento mais valorizado. Ressalte-se que ele
se refere à companheira, chamando-a de “namorada”. Estão presentes nesse relato as
novas formas de subjetividade, referidas por Birman, nas quais o auto-centramento e a
importância do ego adquirem um valor imprescindível nos relacionamentos do sujeito.
Nas relações narcísicas, a dependência é temida, como sinônimo de fragilidade e a auto-
nomia endeusada. No dizer de Bustos
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Relatos da Vida Amorosa: a intimidade no contexto contemporâneo Sylvia Maria da Penha Cioffi
o paradoxal disso é que a tão temida dependência reaparece de forma encoberta,
já que não há Narciso sem o lago que o espelhe. E o lago interativo é o olhar do
outro: procura-se incessantemente o aplauso e a aprovação que confirmem o
próprio valor. Narciso volta a morrer dentro do lago que o fascina e o destrói.
(...) Os vínculos de casal, criados nesse contexto, são lábeis desde o início.
Fuks (2003) corrobora essa concepção ao afirmar que o individualismo exarcebado
da contemporaneidade é marcado pela tendência de identificação do indivíduo com
modelos idealizados, calcados na autonomia absoluta do sujeito que, em última instância,
incide de maneira negativa na formação de vínculos amorosos. Assim, para a autora
“as mudanças sofridas ao longo desses anos e as formas que assumem es-
sas relações na atualidade fazem pensar mais em um narcisismo frio, que
provoca um esvaziamento dos vínculos, do que naquele outro que induzia a um
face a face apaixonado e ambivalente, às vezes amoroso, outras agressivo”
(Fuks, 2003: 141).
A fidelidade
O depoimento de Rodrigo tocou, ainda, na questão da fidelidade, que também
apareceu como tema de outras entrevistas. Em relação à fidelidade, pode-se perceber uma
dualidade, ou seja, parte dos entrevistados manifestou concepções tradicionais em relação ao
assunto, ao lado de informantes que apresentaram uma visão mais “moderna”, ancorada
numa concepção relativista do fenômeno. Mas, em ambas, as concepções observa-se maior
valorização do que se chamou lealdade, ligada à concepção de honestidade na relação.
E a fidelidade... É claro que a gente tem tesão por outras pessoas, mesmo quando
a gente está amando. Eu acredito nisso. Mas o acordo de fidelidade não é por uma
questão de não ter tesão por mais ninguém. É uma questão de eu vou acreditar
nesse relacionamento e eu tenho tantas outras coisas que valem a pena que eu não
preciso ser infiel e por tudo a perder por conta de uma infidelidade. Roberto,
administrador de empresa, solteiro, 35 anos.
A fidelidade tem a ver com o grau de satisfação que você está tendo com o seu
parceiro. Toda moral que eu construo sobre fidelidade é a partir daí. Se é
insatisfatória, a infidelidade não é ilegítima. Acho que ela é legítima. Não
importa em que grau. Sobre essa questão, sou muito conservador. Meu ponto de
partida é esse, está certo? Nesse momento, nesses últimos anos eu tenho uma
relação satisfatória. Isso não quer dizer que aqui e ali eu não sinta desejos com
outra mulher. Mas sem nenhum esforço, sem nenhuma auto-repressão isso não
vale a pena. Sei que no dia seguinte eu não quero mais. Essa consideração me
68
Relatos da Vida Amorosa: a intimidade no contexto contemporâneo Sylvia Maria da Penha Cioffi
traz pro canto da fidelidade. Não tem nenhum interesse ali, alguma coisa que
está me obrigando. Nuno, contador, divorciado, com uma relação estável, 58
anos.
Eu já fui traído. Eu tenho uma experiência pessoal. É uma coisa que vejo sempre
nas minhas relações de amizade. Tenho várias experiências de traição. Mas acho
que está dentro de tudo que a gente falou. Se você se entrega de verdade para o
outro. Se você realmente gosta daquela pessoa. Se você se faz, né, gostar. Se você
também é amado por essa pessoa, acho que a traição não existe. Da outra forma é
muito fácil. Ocorre a traição, por ser uma relação superficial, cada um
individualista, existem muitas formas de trair. A relação em si, a relação
superficial desse casal individualista, por ser superficial é muito tênue e aí nas
experiências do dia a dia é muito fácil acontecer a traição. Aquela relação é muito
frouxa. Nas vivências, nas outras relações, a carne é fraca. Aí, as traições
acontecem muito facilmente. Não é o que pretendo para mim. Marcos,
psiquiatra, solteiro, 29 anos.
Eu estava dizendo que a fidelidade não é um conceito fechado para mim. Não a
vejo como indispensável. Também não é uma coisa de oba-oba, de todo mundo
ficar com todo mundo. Eu acho assim. Se você tem uma relação, a sua tendência
é você estar com aquela pessoa. Mas isso não quer dizer que eventualmente não
vá rolar uma coisa de sexo só com outra. E não acho que ninguém seja dono da
sexualidade. Márcia, promotora de Justiça, divorciada, 45 anos.
Acho que a fidelidade depende do casal. Acho que é um pacto, né. Acho que a
fidelidade é uma palavra usada errada. Acho que é lealdade a palavra que deveria
ser a certa. A fidelidade, você é fiel ao seu sentimento. Não existe ser infiel à
pessoa. Você está sendo infiel ao seu sentimento. E também sem julgar
moralmente. Tem gente que pode amar mais de uma pessoa e há pessoas que não.
Que conseguem amar uma pessoa, de casa vez, e tem gente que consegue amar
mais de uma. Vai se fazer o quê. Pode parecer hipócrita, cafajeste, alguma coisa,
mas a pessoa não está sendo infiel se ela é capaz de amar duas pessoas. A pessoa
que está com ele não pode entender e pode jurar de pé junto que não vai entender
e eu também não entenderia. Mas aí não entra a fidelidade, entra a lealdade. É um
pacto que se faz com a pessoa, “Como que é? Vai poder ter mais gente na jaula ou
só nós dois?”. Paulo José, músico, solteiro, 35 anos.
Assim, para vários informantes, hoje, a fidelidade adquire contornos mais fluidos e
concepções mais plásticas. Em alguns relatos aparecem idéias mais liberais sobre fide-
lidade, mas os entrevistados percebem, claramente, que se trata de um assunto delicado e
muitas vezes doloroso. Portanto, eles parecem ter consciência que entre a concepção
abstrata e a prática há um grande intervalo e que as emoções que envolvem a fidelidade
são elementos difíceis de lidar. Há sempre dubiedade entre a concepção e a prática.
69
Relatos da Vida Amorosa: a intimidade no contexto contemporâneo Sylvia Maria da Penha Cioffi
Na medida que você pode discutir as coisas com seu parceiro, as coisas se tornam
mais fidedignas. Tem um lance melhor de fidelidade. Porque está aberto e vocês
podem conversar a respeito. À medida que não pode conversar, que fidelidade
esquisita é essa? Que companhia é essa que você tem? Eu não acredito em posse,
“a minha mulher”, “o meu marido”. Acho que não existe isso. Não é
propriedade, não se faz escritura. Acho que ela tem a liberdade de sair com os
amigos, com as amigas, enfim, e eu quero ter a minha liberdade de sair com os
meus amigos, com as minhas amigas. Sem conotação sexual. Mas se houver, vai
fazer o quê? Acontece... É de igual para igual. Acho que deve ser isso mesmo.
Acho que deve ser como essa garotada que eu vejo nesse barco aí. Acho que tem
que ser por aí. Ter menos hipocrisia. Olha, fidelidade para mim é não contar
mentira, é não esconder o que sente. Isso para mim é fidelidade. Eu prezo isso.
Sinceridade acima de qualquer coisa. Verdade, doa a quem doer, mesmo. Cássio,
arquiteto, separado, 48 anos.
Eu não vou te falar assim, que não perdoaria uma traição. Eu não sei. Para mim é
muito importante o respeito. Mas eu já traí. Traí o L., traí o B. da primeira vez.
Traí o J., o trouxão que não fazia nada da vida. Até ter algo a mais com outro
cara, eu tive enquanto estava namorando com ele. Antes o meu conceito de
fidelidade era o seguinte: eu tenho que ser esperta. Ele tem que ser fiel. Mas se
aparecer um cara gostoso na minha frente, ele que se fôda, porque eu tenho que
aproveitar a minha vida. O meu conceito era esse. Mas depois que eu tomei e vi o
M. com a menina, a decepção que eu tive foi tão grande e a falta de respeito, de
tudo, sabe? Aquilo foi tão forte, foi tão grande, que, hoje, eu namorando o G. não
trairia. Meu conceito de fidelidade mudou. Para mim infidelidade é perdoável,
mas ela só acontece quando não tem amor. Você não trai. Não adianta. Ninguém
que está apaixonado trai e quem ama também não trai. Fui ao apartamento do
cara, onde tive as melhores transas da minha vida, e nem vontade de beijar ele eu
tive. Porque respeito e amo o G. Laura, fisioterapeuta, noiva, 27 anos.
Renata relata um caso, que ilustra bem a questão da existência, ainda nos dias de
hoje, do duplo padrão de moralidade em relação à fidelidade. O relato traz à baila a
questão da infidelidade masculina, vivida como um “impulso natural” característico dos
homens. Ressalta, ainda, a separação entre sexo e amor, como parte integrante da
identidade masculina, reforçada pela socialização.
A relação que eu tinha antes com a fidelidade era mais ou menos essa. “Tenho
que ser fiel. Eu não consigo. Eu não sei”. Até hoje eu tenho essa dificuldade,
mesmo quando eu fico. Não consigo ficar com dois caras, ao mesmo tempo. Uma
coisa de cada vez. Mas eu tenho percebido também, que, como a maioria das
coisas, eu acho que a minha relação com o P. me fez perceber isso. Que, às vezes,
você até gosta de alguém. Até você ama alguém. Ele está em Recife e eu estou
aqui. Você se sente só, você se sente isolada. Surge alguém, que, de alguma for-
ma, é interessante. Você fica com aquela pessoa, mas não consegue se envolver.
Você está traindo. Bom. Você está traindo... e aí vem o mais interessante. Eu não
70
Relatos da Vida Amorosa: a intimidade no contexto contemporâneo Sylvia Maria da Penha Cioffi
estou traindo o P., estou traindo os meus sentimentos, o que eu sinto por ele.
Então, é uma mentira aquilo que eu estou vivendo. Acho que muito mais do que
ficar preocupada “em” ser fiel, “é” ser fiel. É uma conseqüência. Se eu estou com
alguém e eu gosto daquela pessoa, não que eu não vá sentir desejo. Que é uma
outra confusão que eu acho que as pessoas fazem. Não é que eu não vá sentir
desejo. Eu não sou doida. Se passa um cara bonito, putz! eu vou olhar. De repente
eu vou até pensar. O problema não é sentir desejo. O problema é o que faço com
esse desejo. Eu acho que é com isso que as pessoas não conseguem lidar. Às
vezes elas mentem. Eu estou casada e não sinto desejo por ninguém. Não olho
para ninguém. Eu não sinto vontade de ficar com ninguém. A mulher não é linda.
Isso é mentira. Agora, diante desse meu desejo, aí eu faço a pergunta: o que vou
fazer com ele? Vale a pena eu, de repente, arriscar nessa relação e fazer sofrer a
mim e a pessoa para realizar esse desejo imediato, se isso não vai me render
nada? Se a resposta for sim, então, a relação acabou. Vamos rever algumas
coisas, porque, provavelmente, não vai ser um desejo imediato que eu vá resolver
ali. É alguma coisa que eu estou querendo que perdure. Eu tenho revisto algumas
coisas de fidelidade. Eu vejo tantas histórias. Eu tenho um colega médico que tem
um casamento maravilhoso. A mulher dele é linda. Tem filhas lindas. Está super
bem no que ele faz. Se você vê os dois juntos, meu Deus!, como eles se amam.
Estão sempre se beijando, se abraçando e pondo ela no colo. Ela é super
ciumenta. Mas até penso, pô!, com um cara desse. Mas eu acho que é bobagem.
Não rola nada. E ele consegue trair. Eu até pergunto para ele, até brinco com ele,
“Me ensina”.
Você perguntou por que ele trai?
Perguntei. Ele falou assim, “Eu não consigo explicar. Não é com todo mundo.
Não é sempre. Mas, às vezes, tem uma pessoa que eu consigo me apaixonar. Eu
me apaixono”. E eu falo, “Me explica”. Como você pode amar alguém e se
apaixonar por uma outra pessoa. Eu não consigo entender isso. Ele é até
professor. Eu falo, “Olha, você que provavelmente vai me ensinar muitas coisas
em outras áreas, me ensina como é que eu faço isso. Porque eu não consigo...”.
“Ah, Renata, você pensa demais”. Eu não penso nessas coisas. E tem disso,
homens são de Marte e mulheres são de Vênus. Ele fica muito ali na superfície,
porque se aprofundar muito não segura. Então, “Eu nem penso sobre isso. Você
que pensa muito nessas coisas”.
Eu já me vi enrolada com mais de uma pessoa ao mesmo tempo. Dessa história
do P. Eu não conseguia deixar de ligar para deixar de falar com ele, mas ao
mesmo tempo eu estava namorando aqui. Eu ficava muito confusa, às vezes.
Renata, médica, psiquiatra infantil, solteira, 29 anos.
A infidelidade é praticada por homens e mulheres, mas é vista, ainda, no imagi-
nário sociocultural e no senso comum, como sendo mais praticada pelos homens, como
um atributo de gênero. Aparece “naturalizada” como um comportamento masculino, ao
qual o homem não consegue (ou não deve) se furtar. É tratada como um impulso
71
Relatos da Vida Amorosa: a intimidade no contexto contemporâneo Sylvia Maria da Penha Cioffi
masculino, que condiz com a “macheza” ou como suposta essência masculina. Assim, em
alguns relatos masculinos, pode-se perceber, ainda, a vigência ou permanência desse
duplo padrão de moralidade. O depoimento de Rodrigo é exemplar, quanto à questão da
fidelidade na concepção e na prática
13
, o que faz com que o depoente entre em
contradição, que se pode observar pelo relato:
Esses homens aceitariam uma liberdade da mulher...[quanto ao mesmo
padrão em relação à fidelidade]?
Acho que muito mais do que uma geração anterior. Mas não. Não pegaria uma
faca, “Sou corno”... Conviver eu acho difícil. Acho que se soubesse ficaria puto
da vida, mas acho que é caso a caso. Eu, por exemplo, nesse momento da minha
vida a minha relação de ciúmes com a minha namorada é zero. Acho que nunca
pensei se ela tem outro. Acho até que pode ter. Ela morou 8 anos na (...). Teve um
monte de relações lá. Acho, nem pergunto. Ela, por vários motivos, passa lá todo
mês pelo menos uma semana. Por que ela não teria uma relação mal resolvida ou
um cara que ela goste só de encontrar, só de transar? Porque eu teria, vivendo
anos na (...) Toda vez que eu voltasse lá ia... talvez eu não realizasse.
A fidelidade para você é uma coisa que conta?
Acho que não conta.
Nem do seu lado nem do lado da parceira?
Acho que no fim a minha observação é de que... Porque já terminei
relacionamento quando aconteceu uma vez dessa minha namorada transar com
um cara. Fiquei louco e acabei a relação, sendo que eu já tinha transado com mais
de uma. Aí... A palavra traição não existe. Infidelidade, sim. O sexo. “Ah, você
traiu”. Essa palavra para mim soa antiga. Acho que tem pessoas fiéis. A
graduação sexual, acho, é uma curva como várias outras. Tenho amigo que não
liga para sexo. Eu sempre viajo com o cara e não está nem aí. Rodrigo, músico,
casado, 42 anos.
Uma concepção sua de fidelidade. Qual é?
É a seguinte. Quando, e essa concepção é construída, eu já passei por isso e tenho
amigos que passam por isso. De repente eu acho que há uma necessidade interior
do homem de repente aonde ele vai ele paga. Ele vai numa casa de massagem e
tem umas coisas... Não é um cara insatisfeito com o casamento. Estou falando de
um, especificamente, que é muito meu amigo. Um cara que está num segundo
casamento maravilhoso. Que, de repente, me conta coisas. O que eles fazem.
Certas coisas parecem de molecagem. Vai para lá e faz. Mas a esposa, não. A
esposa... Nossa! Eles tratam a esposa... Ela não tem como... Sabe? Mas não sei.
Eu mesmo fico pensando como tem isso nos homens. Essa coisa que... E eles não
acham que estão traindo.
13. O filme de Michael Nickols intitulado, Closer: Perto Demais, trata com maestria do assunto.
Ver também crônica de Contardo Calligaris sobre esse filme na Folha de S. Paulo, de 03/02/2005.
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Relatos da Vida Amorosa: a intimidade no contexto contemporâneo Sylvia Maria da Penha Cioffi
Os homens em geral?
Em geral. Eles acham que estão traindo quando vira uma amante. Aí ele está
pondo sentimento. Aí a coisa balança. Tanto até que eu já reparei em coisas que
eu já via acontecer e sei que acontece e que as mulheres perdoam uma escapadela
que o cara deu. Porque é uma escapadela. A preocupação é o relacionamento.
José Antônio, artista plástico, casado, 60 anos.
Independente da variação de opiniões a respeito da fidelidade, houve unânimidade
entre homens e mulheres, na constatação de que, no decorrer de um relacionamento, a
atração por um outro, que não seu par amoroso, é inevitável e se faz sentir inúmeras vezes.
De qualquer modo, o fato põe por terra outro dos mitos do amor romântico: a
singularidade indissociável do objeto amado. Embora, aqui, na realidade, se esteja falando
do campo da sexualidade e da atração homem-mulher, a unicidade e exclusividade do
objeto amado também são imagens idealizadas do amor romântico.
No mais, pode-se perceber que é mais bem aceita a prerrogativa masculina em
relação à infidelidade e, ainda subsiste, embora atenuada, no imaginário social.
Concepções que remetem ao essencialismo de gênero pregam a vigência de um
modo de ser masculino e outro feminino, como um fundamento, baseado no biológico. A
diferença de sexos marcada pelo biológico parece perdurar como uma representação de
longa duração, que ainda permeia muitas das visões existentes no ideário dos indivíduos,
afetando principalmente os homens e, em menor grau, também as mulheres. Como se
pode averiguar pelos relatos abaixo, essa idéia ainda está muito presente no senso comum
e no imaginário social:
Mas eu acho que os homens são voltados para fora, para sobrevivência. Para
caçar, para buscar o alimento, para buscar a proteção. Não pode ficar voltado para
o detalhe. Maria Eunice, arquiteta, divorciada, 57 anos.
Vou te dizer uma coisa, esse é um pensamento meu, acho... Eu não sei. Eu vi um
documentário sobre o homem e a mulher, relacionamento etc. Onde o macho é
programado. Dizendo, cientificamente, porque o homem pode gostar de uma
mulher, mas ele sente atração facilmente por outras mulheres, porque está
programado para isso. Eles começam dos animais. Mostrando por quê. Um
estudo científico mostrando que o homem pode. A mulher ovula uma vez, já o
homem está disponível sempre. Então, o macho tem aquele negócio. Eu achei até
interessante, porque muita gente vai usar o álibi. Mas é normal. Eu percebo isso.
O homem tem isso. Está sempre meio pronto. José Antônio, artista plástico,
casado, 60 anos.
73
Relatos da Vida Amorosa: a intimidade no contexto contemporâneo Sylvia Maria da Penha Cioffi
Existe um padrão de necessidade de outras relações além do casamento. Isso é
um fato. Aí, o homem, muitas vezes, repete um hábito transformado. O cara
casado fala assim: “estou casado, adoro minha mulher, adoro meus filhos e tem
uma coisa de homem que não tem nada a ver com crise conjugal. É de gostar de
fazer sexo como homem”.
O amor eu vejo como um sentimento fundamental para a espécie subsistir e
evoluir. Se a mãe não amar o nenê dela, não amamenta e o nenê morre, a espécie
acaba. Esse é o amor. São essas ligações de subsistência. Eu sou um pouco... Eu
sou ateu. Mais materialista dialético. Não sou espiritualista e não sou romântico.
Eu vejo o amor darwinianamente. Rodrigo, músico, casado, 42 anos.
Aí, vinha aquele conflito. Quero ser uma mãe e continuar trabalhando. Tipo, um
mês depois eu estou trabalhando normal. Minha vida não vai mudar. De repente,
ela tem uma chacoalhada do bicho, mesmo. Olha, não adianta. Quando nasce é a
mãe. Por mais que tenha sido esse pai moderno que ajuda, tem aquela coisa. O
nenê chorava num quarto, vazava leite do peito dela que estava no outro quarto.
Aquela coisa que você fala assim, “Meu, isso aqui...”. Quer dizer, o pai é
arquibancada, mesmo. O homem é arquibancada dessa relação. Você fica vendo
ali. Você ajuda, mas não adianta é o peito da mãe. Quero o peito, quero minha
mãe. Não quero o pai. Esse conflito da mulher, “Eu quero trabalhar. Quero ser
moderna”. E não sei o quê. “Não quero ser que nem a minha mãe”. Mas de
repente, está lá embutido ainda, “Eu quero um homem forte que me proteja, que
me dê cafuné. Quero também que ele seja romântico. Quero passear na Paulista
de mãos dadas”. A mulher também tem esse desejo, hoje em dia, de dominar.
Ângelo, músico, divorciado, 40 anos.
O que atrai? Nós somos animais, acima de tudo. Eu acho uma mulher bonita é
porque o meu cérebro, a minha intelectualidade fez achar bonita. É porque eu
acho ela bonita, porque os meus hormônios querem aquele gen para misturar com
o meu e procriar. Um descendente meu com aquelas características e vice-versa.
A mulher gosta do cara bonito pelo mesmo motivo ou o cara bem sucedido
porque ele tem condição de sustentar a prole. A atração entre o homem e a mulher
é muito animal, falando mesquinhamente. Paulo José, músico, solteiro, 35 anos.
Os homens gostam de uma coisa – justamente a diferença entre o homem e a
mulher. Eles gostam disso, depois que eles passaram a gostar disso, a mulher bate
neles por causa disso. Eles gostam da natureza da mulher. Para a mulher, o
homem é a coisa mais importante. Para o homem é a profissão, é o caçar, é o ir
buscar as coisas. Isso não diminui as mulheres. Ao contrário. Só que são
diferentes. Esse apreço que as mulheres têm pelo homem, dá ao homem uma
coisa muito gostosa. Então esse “servir”, de uma maneira nobre, sagrada. Não
estou falando de uma maneira servil. Isso atrai muito o homem, essa dedicação
assim tão forte da mulher para com ele. Passado um tempo, a mulher percebe que
não é a mesma coisa do homem para a mulher. E não é mesmo. Porque as
naturezas são diferentes. Obviamente tem padrões de desejos sexuais que são de
outra natureza. Estou falando do homem que procura a sua companheira para ser
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Relatos da Vida Amorosa: a intimidade no contexto contemporâneo Sylvia Maria da Penha Cioffi
a mulher da sua vida e ficar o resto da vida com ela. Os trejeitos de uma mulher,
que a mulher tem vergonha, que costuma esconder, que disfarça. Isso atraía o
homem. Aquela coisa mais essencial da mulher, que por algum motivo ela acha
uma vergonha, isso atrai o homem e se de alguma forma ele tem a cumplicidade
de ver isso nessa mulher e, de repente, se desmancha nessa coisa. É
extremamente atraente para o homem. Ivan, administrador de empresas,
casado, 45 anos.
Esses atributos masculinos e femininos destacados nos relatos, baseados na diferença
biológica e aceitos como resultantes da “natureza”, remetem diretamente à socialização
masculina. A esse respeito Nolasco (1995:44) tem a acrescentar que “em razão do método
como são socializados, os homens concebem a noção de diferença como conceito biológico,
um indicador de oposição entre ele e uma mulher. As diferenças, enquanto pares de
oposição, no contexto patriarcal passam a ser compreendidas, pelos homens, como ameaça
e criam-se mecanismos de defesa.” Embora, se tenham amenizado esses comportamentos,
há uma certa permanência desses condicionamentos na contemporaneidade.
Segundo esse autor, a desvalorização social das mulheres, que vigorou durante
anos, pode ser entendida como uma reação a essa ameaça. Ele ainda toca em outro aspecto
bastante significativo e não muito pensado nos estudos de gênero (tão “natural”, a
diferença nos parece), que é a questão da anatomia do corpo feminino e masculino.
Retomando Freud, ele constata que, de fato, para o homem a anatomia é um destino.
Assim,
o corpo de um homem, comparativamente ao da mulher, quase não sofre
alterações durante a vida. Até chegar à maturidade do corpo, uma mulher deve
perder a representação de um corpo de menina e substituí-lo por outro de mulher.
Se ela desejar, a maternidade é representada pela construção de um outro corpo.
O continuísmo a que está exposto o corpo dos homens e o controle afetivo a que
estão submetidos seus comportamentos nos permitem pensar numa metáfora da
compreensão que têm de si e do mundo: a biologia é um destino. (...) Se a
subjetividade de um homem é a continuação de sua herança genética, ao menino
resta conformar-se com esta visão de mundo e resistir a qualquer outra
possibilidade de reflexão. (Nolasco, 1993:47).
Talvez esteja aí a razão, ou uma pista dada pelo autor, para o fato de que mais para
os homens que para as mulheres, o sexo se remete ao físico, ou seja, a imagem social do
gênero aparece colada ao biológico. Todas essas questões estão presentes no essencia-
lismo de gênero, entendido aqui como características essenciais e “naturais” atribuídas a
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Relatos da Vida Amorosa: a intimidade no contexto contemporâneo Sylvia Maria da Penha Cioffi
homens e mulheres, já apontadas por Bourdieu (1999) na ordem androcêntrica da
sociedade. Essas disposições podem ser observadas no relato de José Antônio, no qual
sobressai, ainda, a existência do padrão duplo de moralidade, quanto à fidelidade para
homens e mulheres :
Eles acham que estão traindo quando vira uma amante. Aí ele está pondo
sentimento. Aí a coisa balança. Tanto até que eu já reparei em coisas que eu já via
acontecer e sei que acontece e que as mulheres perdoam uma escapadela que o
cara deu. Porque é uma escapadela. A preocupação é o relacionamento. No
próprio documentário veio isso. Que é preocupação da fêmea é que “ele é meu”.
Isso de fazer lá tudo bem. Mas se está lá envolvido e fica. Aí vai embora ficar
com a outra. Ele vai trocar. Eu perdi o marido. Entendeu? Tanto que parece que
mais as mulheres perdoam essa coisas dos homens.
Os homens perdoam também? Os homens também permitem? Os homens de
seu meio permitem que as mulheres dêem suas escapadelas?
Olha, é interessante que eles não permitem. Mas eu já vi o comportamento de
quando a mulher vai embora. Porque tem duas fases aí.
Como quando a mulher vai embora?
Quando fala que não quer mais.
Quando ela rompe?
Eu tenho um caso de família. Ela rompe e não quer mais e está namorando outro
e não é nem que quer casar. Ela quer ficar livre. E o marido fica atrás tentando
reconquistar porque gosta da mulher. José Antônio, artista plástico, casado, 60
anos.
Os novos papéis de gênero
As mudanças nos papéis de gênero foram temas muito freqüentes nos depoimentos
de homens e mulheres. Nos últimos trinta anos, a ideologia do igualitarismo e a conquista
do espaço público pelas mulheres trouxeram novos valores adotados pelos segmentos da
classe média escolarizada. A derrocada do modelo tradicional de família e do papel de
chefe provedor é uma realidade que perpassou todos os relatos. Essas mudanças foram
assimiladas e até louvadas, mas não deixaram de apresentar ambigüidades, que vieram à
tona nas histórias dos entrevistados. Se, por um lado, para os homens, a divisão do
orçamento doméstico com as companheiras tornou mais leve a tarefa do sustento familiar
(e para a geração mais nova, isso é um fato dado) por outro lado, eles perderam poder na
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Relatos da Vida Amorosa: a intimidade no contexto contemporâneo Sylvia Maria da Penha Cioffi
relação de casal. Já as mulheres conquistaram sua autonomia e mais poder com a
participação no mercado de trabalho, embora tenham de enfrentar uma sobrecarga de
trabalho e o cuidado dos filhos (tarefa, ainda, primordialmente delegada a elas), muitas
vezes, tornando-se as únicas provedoras do lar. É o que se constata nos depoimentos de
Letícia e Maria Eunice:
Eu penso que ao mesmo tempo é bom ter uma mulher independente e autônoma,
principalmente para ele, que vem de uma estrutura, onde o homem é o provedor,
onde o homem tem que fazer absolutamente tudo. Acho que, talvez, ele estivesse
um pouco cansado disso. Um pouco cansado, mas ao mesmo tempo, é um lugar
conhecido, um lugar de privilégio, porque você detém o poder. O poder
financeiro, o poder de quem determina, que manda. Um lugar de privilégio. Você
paga um preço. Você leva todo mundo nas costas, também. Porém você ganha...
Acho que deve ser um conflito. Ao mesmo instante, que é bom poder dividir,
compartilhar, poder pensar com, ao mesmo tempo, tem que abrir mão do “decido
sozinho”. Acho que deve sofrer um pouco. A gente tem algumas dificuldades. Eu
saio tarde do consultório. Trabalho muito à noite. Tive que assumir as tarefas
domésticas. Letícia, psicanalista, casada, 43 anos.
E acho que teve uma outra coisa também (..). Que é o fato de você ficar
sozinha. Eu fiquei sozinha com as minhas filhas, muito nova. Fui tomando uma
consciência muito clara do que é você ser um provedor. Você ser um provedor,
na nossa sociedade, é você ser um homem, não é ser uma mulher. Isso exige um
comportamento, em muitos momentos, masculino. Principalmente no trabalho.
Você tem que ser uma pessoa forte. Você tem que ser uma pessoa firme. Você
tem que ser uma pessoa decidida. Você tem que ser uma pessoa que toma
decisões sem titubear. Não pode ficar chorando pelos cantos. Isso não passa
uma imagem de uma mulher, para um homem, que quer se acasalar, digamos.
Certo? Tenho super amigos, que me admiram como admirariam um homem.
Uma pessoa que é igual a eles. Não como uma pessoa com quem eles desejem
uma relação afetiva. Que de uma forma consciente ou inconsciente, eles são os
dominadores na relação. Uma mulher que sabe o que quer, paga as contas,
precisa de que do cara? Não precisa de nada. Eles não podem tomar conta,
cuidar, proteger e amparar aquela pessoa, porque ela não precisa disso. Ela
passa essa imagem. Claro que não é assim. Mas você passa essa imagem, por
força das circunstâncias. Acho que eu perdi algumas qualidades afetivas nesse
processo. Você se dedicar mais à pessoa, olhar com mais cuidado as reações das
pessoas e tal. Isso é uma certa imposição da sobrevivência. Tenho muita
convicção de que as pessoas são seres sociais. Se você socialmente é um
homem, porque você é provedor, então, você assume as características de
comportamento desse ser, que na sociedade tem esse papel. Que você precisa
passar por cima de uma porção de coisas. Que você precisa relevar uma porção
de coisas. Porque, acima de tudo, você tem que pagar as suas contas. Isso está
em primeiro lugar. É uma inversão de prioridade em relação, por exemplo, ao
papel da mulher que está cuidando da casa, da família, da felicidade das
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Relatos da Vida Amorosa: a intimidade no contexto contemporâneo Sylvia Maria da Penha Cioffi
pessoas, das relações, dos comportamentos. É um outro tipo de papel. Acho que
isso criou uma dificuldade de relacionamento do ponto de vista afetivo. Acho
que pode até ter homens que me admirem. Mas acho que o cara não quer casar
comigo. No sentido de enfrentar uma convivência diária em que ele não
consegue visualizar muito que papel ele vai ter. Claro que tudo isso não é uma
coisa tão clara, tão explícita. No fundo, acho que é um pouco essa imagem. Eu
brinco, sempre, dizendo que eu virei homem e não arrumo um namorado por
isso. Só se eu fosse um gay. Maria Eunice, arquiteta, divorciada, 57 anos.
O depoimento de Maria Eunice casa-se perfeitamente com o de Leandra, que tam-
bém se sentiu “homem” em alguns momentos de sua vivência, desempenhando o papel de
chefe provedor.
Agora, voltando àquele negócio dos papéis. Você sabe que eu tive um
momento, em que eu estava me separando do meu marido...Foi quando resolvi
comprar esse apartamento e arrumei um outro emprego, trabalhei muito para
poder ter um dinheiro, para poder comprar um apartamento. Coisa cara e tal. Eu
queria morar nesse bairro. Eu gosto de morar aqui. Eu trabalhando muito e
juntando muito dinheiro e não sei o quê. Você sabe que me senti um homem?
Eu me senti muito mal com isso. Aí, aconteceu uma coisa muito engraçada. Eu
estava trabalhando muito. Eu estava me separando do meu marido. Eu estava
um pouco rancorosa e me sentindo muito masculinizada. Eu saía de casa e ia
caminhar. Então, punha moleton, tênis, camiseta. Caminhava, caminhava,
caminhava. E quando tinha que ir ao supermercado, eu ia direto. Levava, na
pochete, o cheque. Ia para o supermercado, depois da caminhada. Chegava no
supermercado completamente desgrenhada. Uma vez, eu estava no caixa e a
moça que estava na minha frente era uma loira toda bonita, toda cheirosa e tal,
arrumadíssima e linda. E ela começou a enrolar, porque já tinha passado a
compra dela e já tinha pagado e ficou fazendo um monte de pergunta para a
caixa e não ia embora e eu reclamei. “Ai! Vamos andar mais depressa”. Ela
ficou brava comigo. Nós começamos a bater boca. “Pô! Eu tenho que ir
trabalhar. Vamos logo”. Ela começou a reagir e, de repente, quis me agredir,
virou para mim e falou assim, “Ah! Você. Olha, com essa cara. Toda mal
arrumada. Você deve estar muito frustrada. Você está com cara de mal amada.
Toda desarrumada. Horrorosa. Você está com cara de homem”. E foi embora.
Aquilo me pegou, lá no âmago, que eu nunca mais visto uma calça de moleton
(risos) e camiseta. Eu não tenho uma camiseta. Não visto mais esse negócio de
t-shirt, essas camisetonas. Eu não visto isso. (risos) Mas foi legal. Ela me deu
um sinal de alerta. Daí eu tomei consciência, “Eu estou me sentindo um
homem. Eu estou bancando tudo. Como, agora, eu vou fazer uma compra dessa,
desse tamanho sozinha. Eu fiquei louca”. Como, sozinha assim, compro um
apartamento? Isso é coisa de homem, isso não é coisa de mulher. Mas, se eu
não comprar, homem nenhum vai comprar para mim. Então, é melhor eu me
arrumar mais bonitinha, e comprar o apartamento do mesmo jeito. Leandra,
antropóloga, professora universitária, divorciada, 53 anos.
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Relatos da Vida Amorosa: a intimidade no contexto contemporâneo Sylvia Maria da Penha Cioffi
Há também uma certa desorientação vivida pelos homens quanto a seu novo papel
de gênero, inadequação, que é manifesta claramente em seus próprios relatos e nos das
mulheres. Essa dubiedade, quanto ao comportamento masculino sugere certa insegurança,
principalmente da geração mais velha em lidar com os novos papéis, como os relatos
atestam abaixo:
Como os homens estão diante desse novo papel da mulher?
Os homens? De um modo geral muito inseguros. Muito inseguros. Bastante
inseguros. Eu acredito que posso estar falando alguma besteira, mas vou falar, a
mulher sempre foi um enigma muito grande par ao homem. Eu penso isso.
Talvez, esteja fazendo as generalizações a partir da minha experiência pessoal.
Mas acho que, atualmente, mais do que o enigma, dá um certo medo, um certo
pânico. Porque quando está diante de uma mulher firme no trabalho, com a
executiva e não sei o que lá, fica totalmente apavorado. É muito comum isso. Dá
uma insegurança muito grande aí por conta da história mesmo. O cara ficou
acostumado a vida inteira com o chefe e de repente vem lá uma e diz “Não. Não é
bem assim”. Nuno, contador, divorciado com uma relação estável, 58 anos.
Acho que isso [o novo papel da mulher] é uma coisa muito importante. Por isso
que tem tanta mulher que está sozinha. Porque esse novo papel do homem não
está definido. Eles estão na defensiva, no sentido de ter... As mulheres invadiram
uma área que era exclusivamente dele, ou muito predominantemente dele, e
ficaram com o papel duplo. E ele com o que ficou? Ele não consegue assumir o
outro. Porque o outro papel, o feminino, tem uma conotação complicada na nossa
sociedade. Eu acho que os homens estão perdidos. Têm dificuldades de se
relacionar nessa nova ordem. Eles têm medo de se comprometer. Mas eu acho
que eles ainda não acharam o outro papel deles. Eles só perderam uma parte. Eles
perderam um terreno e não ganharam nada. O que vai ser? Um super pai que
cuida da casa. Isso para eles não é conquista. Isso é uma derrota. O cara faz isso e
a mulher fica enchendo muito o saco. Não é? Não alguma coisa que ele vai
ganhar. Acho que eles estão meio perdidões. Maria Eunice, arquiteta,
divorciada, 57 anos.
Ainda em relação aos novos papéis de gênero, o fato de alguns homens sentirem-se
“prescindíveis”, atualmente, faz com que eles se refugiem nos velhos estereótipos de
gênero, recorrendo a um imaginário essencialista, que, por vezes, também está presente
nas representações femininas e permanece influenciando o cenário social. É o que
demonstra o trecho do depoimento de Ângelo:
Eu sinto as mulheres, e aí que eu falo que as mulheres estão ferradas, depois
desse momento da mulher livre, da mulher que trabalha, a mulher que não precisa
mais desse pinto. Como símbolo, ela vai à luta, ela faz, ela trabalha, ela não
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Relatos da Vida Amorosa: a intimidade no contexto contemporâneo Sylvia Maria da Penha Cioffi
precisa mais do homem para se sustentar. Ela também não quer ser que nem a
mãe dela, que só ficava em casa fazendo comida e ta-ta-tá, ta-ta-tá. Essa
liberdade começa a mexer um pouco com o centro da questão que para mim é a
poesia, mesmo. Voltando a falar da poesia. É o romantismo. Por que? Como que
se a princesa virasse príncipe. Começou a lutar que nem o príncipe. Embora seja
simplista essa análise. Mas assim, como símbolo. O que aconteceu é que a
mulher, ainda nas entranhas tem aquela coisa da mãe, da formação que ela teve.
Eu acho que ainda tem um pouco... Eu lembro de uma amiga, depois de 10 anos
em que se separou, “Acho, que tudo que eu queria, hoje, era um marido que me
deixasse em casa, eu cuidando dos filhos. Ai! Eu queria lavar louça. Ficar em
casa o dia inteiro e chegar em casa e trepar. Eu não queria trabalhar”. Aí, começa
a dar um nó. Comecei a sacar esse movimento. Ângelo, músico, divorciado, 40
anos.
No entanto, a versatilidade manifestada pelas mulheres, de assumir o duplo papel,
não se deu sem esforço e luta, e parece sugerir que, nesse ponto, a vantagem é mais
feminina que masculina, uma vez que a maioria dos relatos demonstra que elas tiveram
êxito na empreitada. É o que pode ser averiguado no trecho abaixo:
Da mesma forma, as mulheres quando foram trabalhar, também [era difícil].
Nossa! Como eu chorava com esse negócio de não dar certo as coisas, que você
vai fazer. Você não conhece, você não sabe, e o cara vem e te cobra o negócio.
Não sabe nem o que é, o que ele está falando. Tinha que ser, de outro jeito, que
você nem imagina. É um processo de aprendizado. Que, por força das
circunstâncias, você teve que ir, teve que fazer e teve que meter a cara. Eu acho
que esse equilíbrio, vai ter que acontecer, entendeu. Dos homens perderem esse
medo de se envolver com os assuntos do cotidiano, da vida, da reprodução, da
construção da vida de uma pessoa, um filho. Acho que as mulheres tomam tempo
demais com isso. Os homens, tomam tempo de menos. Precisa chegar num
equilíbrio. Muitas coisas das vidas das minhas filhas, eu passei por cima. Não
tinha tempo para isso. Não podia desviar a minha atenção do trabalho, porque
senão não conseguia manter aquele padrão. Acho que as mulheres conseguiram,
porque já tinham uma formação e foram obrigadas a fazer outra. Isso era uma
conquista. Conquistar o mundo. Conhecer coisas novas. Coisas importantes.
Trabalhar fora, é fazer coisa importante. Trabalhar dentro de casa, imagina!, é o
be-a-bá, é lavar uma roupa, é só uma reprodução da sobrevivência. Coisas que
não têm nenhum conhecimento maior que você vá desenvolver. Embora exista
toda uma tecnologia, numa administração de uma casa. Eu sempre falava para as
minhas primas e as minhas irmãs, que são ótimas donas de casa, que seriam
excelentes executivas. Porque uma pessoa que organiza no tempo uma quan-
tidade de tarefas tão diversificadas como de uma casa, e controla o estoque de
não sei quantos itens, e as coisas acontecem direitinho. Se transplanta essa
experiência... Acho que isso tem muito a ver. Essa é uma experiência que...
Imagina você botar as crianças na escola num horário. Almoço pronto. A roupa
lavada e passada na gaveta. Não faltar papel higiênico. Tudo ao mesmo tempo e
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Relatos da Vida Amorosa: a intimidade no contexto contemporâneo Sylvia Maria da Penha Cioffi
com 4 ou 5 filhos que as pessoas tinham, né. É uma tarefa. Um gerenciamento...
Eu me lembro que ficava pensando essas coisas quando morava lá no Rio. Eu
descia para comprar, “Hoje eu vou fazer um lagarto, uma escarola e
mandioquinha”, por exemplo. O cara dizia, “Não tem lagarto...”. Em um minuto,
você tem que reestruturar todo o seu planejamento. Maria Eunice, arquiteta,
divorciada, 57 anos.
Já Roberto e Paulo José, em suas falas, defendem a necessidade do equilíbrio maior
entre papéis masculinos e femininos no cotidiano dos casais:
A mulher, como era muito reprimida, vivia muito dentro de casa e era colocada
em segundo plano. Houve um primeiro momento em que ela veio com a história
do feminismo e das grandes mudanças e que acho que... Como eu disse, sem
querer ser machista, eu acho que a gente precisa equilibrar os papéis. Acho que a
mulher, de repente, a mulher tomou tanta posição na vida e os homens não
estavam prontos para entender isso. E toda mudança gera conflitos. A gente ficou
meio acuado. A minha geração, principalmente, que passou por isso. Acho que
todos os garotos da minha idade, ou pelo menos a maioria deles, vinha de mãe
que ficava em casa. Ainda tinha um pouco disso. De repente encara o fato de que
todas as namoradas, que, com certeza, da minha geração, eram mulheres que
estavam lá fazendo faculdade e se preparando para a vida. Para alguns menos.
Mas acho que sou da geração que pegou um pouco a transformação e tem que
aprender ainda a lidar com isso. Esse feminismo demais assustou. Como eu te
disse, quando contei aí na minha história, de não saber como é que me posiciono.
Como eu tenho que ser, então? Tem momento que ela quer deitar no meu ombro.
Ela quer o super-homem. Mas tem momento que ela quer ir à luta sozinha. E
como é que eu me posiciono? Essa dificuldade toda, que é complicada. Acho que,
hoje, a mulher está entendendo e acredito que não precisa ser tão feminista assim.
Acho que o equilíbrio dos papéis é o mais importante. E torço muito, para que
essa geração, que vem aí, depois de mim, tenha essa sacada de entender que tudo
bem. Você quer ir à luta, vá à luta. Mas eu também vou à luta e a gente vai unir
talentos. Se eu tenho mais talento para cozinhar, vou cozinhar, vou fazer o jantar.
Não tem problema. Se você não tem talento para a cozinha, então não cozinhe.
Mas se a gente harmonizar essas forças, sem ter ninguém melhor que o outro.
Sem o homem querer ser machista e a mulher tão feminista. Aí a gente consegue
chegar num caminho de respeitar o ser, independentemente da sexualidade ou do
feminino e do masculino. “Porque sou homem, eu tenho que prover. Porque você
é mulher, gerar”. Que não fiquem baseados os papéis tão definidos como eram
antes. Mas também porque nós saímos de um extremo para outro. A gente saiu do
extremo machismo para o extremo feminismo e aí gerou conflito. Roberto,
administrador de empresa, solteiro, 35 anos.
Por exemplo, a mulher, entre aspas, moderna. Ela, por exemplo, é incapaz de ir
à cozinha fazer um bolo, porque fazer um bolo é um valor da mulher antiga. Da
mãe dela. Não quer fazer nem se estiver com vontade, porque aquilo é uma
coisa que a vai levar assumir papéis que ela já rompeu com aquilo. Ela é
incapaz de fazer um bife para o namorado dela, porque aquilo é uma coisa que a
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Relatos da Vida Amorosa: a intimidade no contexto contemporâneo Sylvia Maria da Penha Cioffi
mãe dela fazia. Então, ela não quer acostumar mal o homem dela. Enquanto que
o homem, meio o que eu vivo assim, ele já sabe que aquele papel que
desempenhava não funciona mais. Engraçado que pelo menos para mim,
individualmente, nunca tive essa ilusão e essa necessidade de assumir o mesmo
papel que o meu pai tinha. Me parece que eu já nasci, eu não tive choque, para
mim não existiu a mudança de papel. Simplesmente, estou em outra época,
vivendo um outro papel. Eu não sinto essa ruptura, essa necessidade de
reassumir papéis antigos. Eu até prefiro, não sei pelo fato de mexer com arte, e
ser, entre aspas, uma coisa mais feminina. Não que quem mexe com Artes seja
afeminado. Mas a gente está falando de uma coisa, que não essa do prover.
Paulo José, músico, solteiro, 35 anos.
Essa confusão de anseios, provocada pela mudança dos papéis tradicionais de
gênero, acaba por criar tensões nos relacionamentos amorosos, principalmente para os
homens, que, muitas vezes, se ressentem da perda do papel de provedores, o qual
implicava uma maior relação de poder diante das mulheres. Nesse sentido, o relato de
Márcia é muito claro, ao falar de seu companheiro, quando este era casado e se separou,
dando continuidade a uma ligação com ela, que já durava alguns anos:
Como ele era casado, volta e meia vinha história. Discutia aquilo tudo. Ele tinha
muita culpa, em relação ao que estava acontecendo. Tinha culpa em relação a
mim. Culpa em relação à mulher. E eu dizendo, ”Olha, somos todos adultos”. A
mulher dele sabia. Então, se a gente está nessa não tem culpados, né. Todo mundo
adulto. Sabe o que está fazendo. A afetividade existe aqui de uma forma e existe
lá de outra forma. “Você não conseguiu equacionar essa história, mas eu estou
bem. Se eu quiser ir embora, eu vou. Você não está me prendendo. O que há entre
nós é uma relação de afeto. Existe amor e tal. A gente está vivendo da maneira
que está dando. Eu estou respeitando as suas limitações”. Mas ele chegou a
expressar, de várias formas, o fato de achar que eu seria demais para ele. Ele
preferia uma pessoa que não tivesse esses vôos, esses questionamentos todos. Eu
percebi, também, que fez um pouquinho de mal a ele, a separação. Porque,
quando ele estava na casa da mulher, e como a mulher era dependente dele
economicamente e o filho; e ali ele tinha o papel de pai provedor, ele estava mais
tranqüilo, ele se sentia mais necessário. Se relacionando comigo, eu achei que ele
ficou muito solto, e não fez muito bem a ele isso. Ele ficou inseguro. Ficou meio
assim, sem rumo. Tinha um papel que ele prezava exercer. Eu acho, que isso não
fez bem. Márcia, promotora de justiça, divorciada, 45 anos.
O depoimento de Márcia toca ainda em outra questão mais ampla, que transcende
os papéis de gênero e está situada no universo das inquietudes, no caso, femininas,
marcada pela insegurança masculina diante de uma mulher questionadora, que almeja ou
espera mais de uma relação amorosa, que anseia por um aprofundamento das questões que
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Relatos da Vida Amorosa: a intimidade no contexto contemporâneo Sylvia Maria da Penha Cioffi
envolvem um vínculo amoroso. E, mais ainda, uma mulher que, em suas próprias
palavras, está em “busca de auto-conhecimento”, tal como manifesta em sua fala:
Então, como eu trabalho muito nesse sentido [de ser independente do Outro], o A.
não se sentiu à vontade. Porque ele não tinha esses mesmos anseios.
Ele chegou a expressar isso para você?
Expressou. Expressou, sim. Verbalmente. Ele dizia: “Você vai muito longe. Você
gosta de voar. Você é uma mulher para alçar grandes vôos e eu não sou. Eu quero
uma vida mais pacata”. O que o incomodava muito era o fato de eu estar sempre
buscando auto-conhecimento. Então, mesmo que eu respeitasse os espaços dele,
como fazia, ele se sentia incomodado porque eu estando na busca, ele acabava
entrando nela de alguma forma. Ele dizia claramente para mim: “Eu não quero.
Eu não gosto dessa coisa de terapia, de questionar. Eu quero estar quieto”.
Márcia, promotora de Justiça, divorciada, 45 anos.
O divã como contraponto
A história de Márcia permite vislumbrar, ainda, outro comportamento significativo
no universo das classes médias intelectualizadas, consubstanciado no recurso à terapia,
como lugar privilegiado para a discussão dos envolvimentos amorosos.
Torna-se necessário ressaltar, neste momento, o papel que a Psicanálise e as várias
correntes psicoterapêuticas vêm desempenhando junto às camadas médias intelec-
tualizadas. No final dos anos 60, houve uma expansão significativa da procura pela
psicanálise e psicoterapias afins, por esse contingente de pessoas, como meio de solu-
cionar conflitos de ordem subjetiva do cotidiano. Esse constituiu um dos principais meios
de fazer frente às agudas transformações socioeconômicas e culturais, que agitaram o
cenário social e incidiram diretamente na vida dos indivíduos, principalmente das
camadas médias que, como se salientou anteriormente, sofreram mais intensamente essas
mudanças. Romanelli (1986) refere-se a esse período como sendo marcado por uma in-
tensa demanda por psicoterapia, que se espraiou pela classe média dos centros urbanos.
Esse traço comportamental da época foi apropriado pelos meios de comunicação,
ocorrendo vulgarização de conceitos e o surgimento de um dialeto psicanalítico, bem
como a adoção desse saber pelas escolas. Houve, portanto, uma penetração bastante
intensa da cultura psicanalítica junto às famílias de classe média e, como aponta o autor, a
83
Relatos da Vida Amorosa: a intimidade no contexto contemporâneo Sylvia Maria da Penha Cioffi
explicação para esse fato remonta à necessidade de recorrer à psicanálise quando famílias
ou indivíduos “viviam uma situação de desmapeamento, isto é, quando os mapas
interiorizados pelo sujeito na socialização primária entravam em contradição com os
mapas incorporados em períodos posteriores de sua existência. (...). As crises, resultantes
das mudanças induziram alguns indivíduos a procurarem a psicanálise como meio de
encontrar um ponto de equilíbrio na sua vida pessoal” (Romanelli, 1986: 104).
Portanto, essa expansão da psicanálise ocorreu apenas pela via da procura por
psicoterapia, mas foi mais ampla e manifestou-se por meio da apropriação dos conceitos
psicanalíticos pela mídia. Criou-se, portanto, nesse período, um “modismo psicanalítico”,
responsável pela vulgarização de conceitos, muitas vezes apreendidos de forma
inadequada. Como já citado anteriormente, Lasch (1991:137) já tinha destacado esse
fenômeno (na sociedade americana), quando afirmou que a educação nas famílias tinha
sido delegada à especialistas, promovendo assim, em suas palavras “um novo
imperialismo psiquiátrico”. Para Giddens (2002:38) “a terapia oferece alguém para quem
podemos nos voltar, uma versão secular do confessionário”.
Assim, a autonomia do sujeito foi louvada e supervalorizada e o “psicologismo”
alçado a “um sistema organizador das condutas e investido da autoridade conferida pela
ciência” (Romanelli, 1986:106), tendência essa que ainda, permanece influenciando os
segmentos das camadas médias objetos deste estudo.
Condizente com essas novas disposições relativas à vida sociocultural dos últimos
anos, grande parte dos relatos dos entrevistados, refere-se à procura do recurso à
psicoterapia, para resolução de situações de crise envolvendo o desencontro amoroso.
Assim, como relata Joana:
Chegou aqui em casa um outro dia. Deu dó, tadinho. Sentou aqui nesse sofá. Em
geral, ele fica deixando eu falar. Ele sentou aqui e desatou a falar uns 15 minutos.
“Eu amo você. Queria fazer tudo com você. Queria viver todas as coisas boas e
ruins. Você é minha melhor amiga. É a única pessoa com quem gosto de
conversar uns assuntos que só tenho com você. Eu amo você. Acho você linda,
maravilhosa. Tenho vontade de transar com você. Mas se você me perguntar hoje
se eu consigo ficar com você, eu não consigo. Não sei porque. Não sei do que é o
medo. Eu estou morrendo de medo de fazer isso. Mas eu entendo o que você está
falando. Eu vou me tratar. Acho que estou deprimido”. Está fazendo terapia há
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Relatos da Vida Amorosa: a intimidade no contexto contemporâneo Sylvia Maria da Penha Cioffi
um tempão, mas acho que nesse tempo que a gente começou a fazer terapia, acho
que ele regula um pouco das informações. Ele é muito fechado. Eu melhorei
muito na terapia e ele nem tanto. Quase nada. Joana, médica pneumologista,
separada, 30 anos.
Já Leandra se refere à análise, que freqüenta regularmente, no primeiro trecho do
seu relato, já reproduzido anteriormente, ao contar sobre o lugar central que o
envolvimento amoroso ocupa em sua vida.
No relato de Marcos, nos primeiros momentos de sua entrevista, percebe-se
claramente a instância significativa ocupada pela psicoterapia para a discussão da vida
afetiva do depoente e também a já demarcada importância da dimensão do envolvimento
amoroso para os indivíduos.
Eu queria que você me contasse um pouco da sua vida afetiva, da sua
experiência afetiva.
Afetiva... É...Interessante que hoje... É... Tem um tempo suficiente.
Pode falar como você quiser. Se você quiser falar, começar...
Posso ser mais objetivo?
Pode ser mais objetivo. Você também pode me dar um relato das suas relações
mais importantes. Das coisas que mais te tocaram. Como você quiser.
Você falou em afetividade. Então, vamos para a afetividade. Hoje eu acabei de vir
da minha terapia. Eu acabei a sessão falando disso, da afetividade. Eu tenho na
minha cabeça algo um pouco construído há tempo que vou ser feliz
profissionalmente, sabe, mas não tanto no amor, digamos assim. Isso há um bom
tempo, na minha construção psíquica. Acho que falta e vai faltar isso. A minha
terapeuta até terminou a sessão dizendo assim, “Tem que ver de quem é esse
olhar e se realmente é seu”. Ele remonta, lógico, à minha história de infância.
Quando eu era pequeno e as pessoas apertavam a minha cabeça, lá no Ceará, na
cidade onde nasci, em Juazeiro, diziam que eu tinha moleira fofa. Tem uma...
Acho que é uma fantasia deles, lá, de quem tem moleira fofa vai ser rico. Vai ser
feliz profissionalmente. Fazendo uma simbologia. Eu cresci com essa história. As
pessoas apertando a minha cabeça, “Olha! Esse menino tem moleira fofa. Vai ser
rico”. Veio isso. Eu vim carregado com essas informações. Mas vamos ver se isso
muda, não é. Por que não ser feliz também no amor?
A que você deve esse juízo de achar que não vai ser feliz no amor?
A que eu devo? É... Muito complexo isso. Mas eu acho que tenho muito amor
para dar. Eu sou muito de dar. Eu me dou muito. Eu, talvez, tenha um pouco de
dificuldade de receber. E a relação afetiva-amorosa tem que ter esse equilíbrio. A
pessoa tem que querer receber, mas tem que saber dar também. Tem que ter esse
equilíbrio. Parece que não sei. Eu tenho dificuldade um pouco de receber. Eu dou
muito carinho. Eu me dou muito nas relações. Em todas as relações que eu tenho,
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Relatos da Vida Amorosa: a intimidade no contexto contemporâneo Sylvia Maria da Penha Cioffi
em todas as relações afetivas. Mas eu tenho um pouco de dificuldade de receber.
Talvez, seja por isso. Marcos, psiquiatra, solteiro, 29 anos.
O mesmo se dá com Geraldo já nos primeiros instantes de seu depoimento:
Eu acho que um relacionamento com a família é um relacionamento básico e ele
condiciona a questão afetiva para o resto da vida. Eu, muito cedo, me propus a
rever valores básicos meus, porque tive um relacionamento afetivo na família
muito precário. Um pai e uma mãe muito neuróticos. Profundamente neuróticos.
Eu fui... de uma certa forma... e vou usar um pouco a linguagem da psicologia,
porque eu comecei a fazer trabalho de psicologia, de auto-conhecimento com 20
anos de idade, provavelmente uma imagem muito derivada dos termos da
psicologia. Eu, com certeza, depois de algum tempo, de fazer terapia que
comecei lá pelos meus 20 anos, fui me dando conta do que tinha sido (...) na
minha família. Aí, eu me dei conta. Foi um processo de me entender e conseguir
enxergar hoje. Com 57 anos, acho que consigo enxergar, com alguma clareza, o
processo o qual fui submetido desde... desde o ventre materno. Geraldo,
arquiteto, professor universitário, separado, 57 anos.
Condicionamentos da ordem amorosa tradicional
Em meio a essa mescla do velho com o novo, ainda perduram comportamentos,
relativos ao que se chamará aqui, de ordem amorosa tradicional, ou seja, a ordem amorosa
patriarcal, na qual as assimetrias de gênero, parecem plenamente justificadas e a mulher
tem seu papel subordinado ao homem.
A ascensão social da mulher: constrangimento para os homens?
As grandes transformações ocorridas, no curto espaço de tempo, de cerca de trinta
anos, reverberaram intensamente nas relações entre os sexos. A lenta, mas irreversível,
ascensão social das mulheres coloca em questão as conjugalidades ou os vínculos
amorosos contemporâneos, requerendo uma nova divisão de papéis e funções, não só
dentro como também fora da família. Há algumas décadas, quando uma mulher conseguia
ascender à Universidade, era comum abdicar do exercício de sua profissão, para dedicar -
se ao cuidado do marido e dos filhos. Como assinala Gerard Vincent (1992: 305)
hoje as coisas mudaram: podem surgir tensões – quando não uma ruptura –
quando a mulher tem um desempenho universitário superior ao do marido (...).
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Relatos da Vida Amorosa: a intimidade no contexto contemporâneo Sylvia Maria da Penha Cioffi
Assim nasce no casal uma nova forma de ciúme, pois a permanência das idéias
convencionais ameaça tornar insuportável para o marido um êxito profissional
da mulher superior ao seu. (Vincent, 1992: 305)
Essa questão, mais presente nas falas femininas, denuncia a ambigüidade com que
o homem, principalmente da geração de meia idade ou mais velha, lida com a nova
posição da mulher na sociedade e com seu sucesso profissional. No discurso, há uma
ampla aceitação dos avanços femininos, mas, na convivência privada, este continua sendo
um problema que ainda causa tensões na relação do casal. Embora essa pareça ser uma
questão bem resolvida, para parte dos homens mais novos, pode-se supor, que mediante
os depoimentos das mulheres, essa questão se coloca de forma muito recorrente. Os
relatos demonstram, textualmente, a dificuldade masculina de lidar com o sucesso
profissional e a independência da companheira.
A mulher que trabalha acho que todos eles querem. Eu não conheço nenhum
cara, que fale que quer uma que não faça nada e fique em casa cuidando dos
filhos. Não conheço nenhum cara que pense assim. Mas, ao mesmo tempo, essa
história da mulher se sustentar, ser independente e ganhar mais do que eles,
também não admitem. Vejo a minha cunhada, a irmã do G. Ela está com 32 anos
e não consegue arrumar um namorado. Porque ela é uma pessoa completamente
independente, com a opinião completamente formada. Ela é super geniosa.
“Tipo assim”..., tem a maior originalidade do mundo, tem personalidade. Nada
afeta a personalidade dela, e sabe muito bem o que ela quer. Se ela está se
relacionando com um cara e se tiver tesão por ele, ela vai chegar e vai falar,
“Vamos para o apartamento comigo”. Ela é super bem sucedida. Ela hoje está
como superintendente de cartão de crédito do (...). Ela tem um cargo altíssimo.
Ela tem dinheiro, tem o apartamento dela. Ela anda de Audi e o cara assusta.
Com toda essa independência, toda essa auto-afirmação, toda essa liberdade o
cara assusta. O que acontece: ela começa a namorar, namora um mês e o cara
pica a mula. Fica com medo. Tem medo de ser submisso a ela. Tem medo de,
sei lá, não ganhar como ela. Não vai se sentir bem por ganhar menos que ela.
Ele compete, não é ela que compete. O que acontece? Ela acaba se ferrando.
Agora, ela está namorando. Namorando um cara que está separado e que tem
uma filha de 3 anos. Uma relação totalmente inconstante, porque ela sofre para
burro. Ao mesmo tempo que ela quer, pôs na cabeça que não vai casar. Porque
ela prefere a profissão dela, a independência dela e a auto-suficiência dela do
que ter um cara dentro da casa dela. Então, para ela qual é a visão de
relacionamento? Sexo e ponto final. No dia que ela está a fim liga para ele e,
“Quer dormir na minha casa?” Ele vai e dorme com ela. Só que se você me
perguntar se ela é feliz, digo que não, ela não é feliz. Com toda a auto-
suficiência dela ela não é feliz porque ninguém é auto-suficiente. Então o que
acontece. Tem dias que ela está super carente. Ela liga no meu celular de noite,
e, do nada, passa horas falando comigo contando da vida dela. Aí ela passa dois,
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Relatos da Vida Amorosa: a intimidade no contexto contemporâneo Sylvia Maria da Penha Cioffi
três meses sem ligar. Daí ela liga de novo e fala horas o que fez, o que
trabalhou, ou seja, é óbvio que ela tem necessidade de ter contato com pessoas
e se relacionar. Porque ela é uma pessoa super auto-suficiente, com um cargo
executivo altíssimo, milhões de funcionários nos pés dela, gente mais velha do
que ela no pé dela. Mora sozinha num apartamento que é dela própria, no
coração do Itaim, um carro próprio – um Audi. Fim de semana, dá na telha dela
ir para a Costa do Sauípe, ir viajar, mas é uma pessoa sozinha. Ela não acredita
mais que vai encontrar uma pessoa. Na verdade, ela fala que não quer, porque
perdeu a credibilidade, perdeu aquela coisa, “Eu vou encontrar uma pessoa, que
me aceite como eu sou”. Ela acha que ninguém vai aceitar ela, como ela é.
Então, ela preferiu inverter o papel. Ela fala que “eu sou o homem da minha
relação. Eu me sustento e só faço o que eu quero. Tenho a minha casa e da
minha casa eu não saio. E é só quando eu quero que me encontrem. Do jeito que
eu quero”. Laura, fisioterapeuta, noiva, 27 anos.
Está cheio de mocinho por aí. Mas eles não querem namorar. Seja porque não
querem encarar essas meninas mais independentes. Não sei até que ponto pesa
essa questão, porque, por exemplo, você pegar uma pessoa como a J. [refere-se à
filha], 30 anos, uma médica super bem sucedida, nova ainda na profissão. Toda,
toda. Certo? Ganha bem, porque tem 500 empregos. Acaba ganhando bem, de
tanto juntar plantão, daqui e de acolá. Não sei, até que ponto, isso não é uma
coisa, que o cara não encara. Um bater ficha, entendeu? Não quer também se
envolver com uma mulher, que vai ser melhor provedora do que ele. Que vai ser
mais bem sucedida economicamente, do que ele. Isso é uma coisa que já vem da
nossa geração, que acho que não mudou. Maria Eunice, arquiteta, divorciada,
57 anos.
Eu achava que nunca enfrentaria esse tipo de problema, porque na minha cabeça
a revolução era completa. Eu me deparei até com esse marido que era
guerrilheiro, revolucionário. Que um dia disse assim para mim, “As coisas iriam
melhor aqui em casa se você estivesse sempre aqui na hora do jantar”. Eu olhei
para a cara dele atônita, perplexa, “Eu não acredito que você está dizendo isso
para mim”. Eu comecei a dar risada, é piada. Ele falou, “Não. Era sério”. Ele
ficava bravo porque ele chegava do serviço e tinha que dar jantar para D. [filha do
casal] e não sei o quê e tal. Eu chegava depois. Eu dou aula à noite, enfim. Não
imaginei que eu fosse passar por esse tipo de problema. Leandra, antropóloga,
professora universitária, desquitada, 53 anos.
Eu sempre tive muitas amigas mulheres, para entender como elas eram. Como é
que eu ia lidar com esse bicho indomável, que não sabia lidar e como fazer. Vejo
que a maioria dos meus amigos não gosta de mulheres de muita personalidade,
independentes. Eles ainda se assustam com mulheres independentes. Preferem a
loira burra. Aquela que só serve para ir para a cama e é gostosa para comer.
Então, vou ter um bom sexo e ela não precisa pensar, porque se sente ameaçado
com a mulher que pensa. A maioria dos meus amigos – quando a gente senta
numa roda de homens e vai falar sobre as mulheres – o conceito ainda é um
pouco assim. Ainda quer fazer parecer que a mulher ainda é esse objeto. Por isso,
que eu me sinto atípico, porque não quero isso. Eu quero estar bem. Estar com a
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Relatos da Vida Amorosa: a intimidade no contexto contemporâneo Sylvia Maria da Penha Cioffi
pessoa, do meu lado, que pensa. Não suporto mulher burra. Não dá. Roberto,
administrador de empresa, solteiro, 35 anos.
A respeito da dificuldade masculina em incorporar as conquistas femininas,
Carvalho (1992: 206-07) aponta o mesmo problema em seu estudo sobre o casamento e as
relações familiares:
quando [os homens] arriscam ser mais liberais, com uma mentalidade mais
moderna e aberta, sentem-se inseguros como se as coisas estivessem fugindo do
seu controle. Quando vivem o modelo tradicional deparam-se com a sua própria
insatisfação perante um tipo de mulher considerado por eles superado, além da
insatisfação da mulher por uma vida dependente que a tolhe e oprime. Tudo
indica que eles querem usufruir das vantagens dos dois tipos de mulher: a
tradicional e a moderna, mas que as conseqüências das duas situações trazem-
lhes dissabores: insatisfação num caso e insegurança no outro.
Limites da construção de novos padrões da auto-estima
feminina e masculina
As contradições criadas pela profundidade e velocidade das transformações
aparecem nos depoimentos dos entrevistados, como uma clivagem de gênero, em relação
à permanência de representações e condicionamentos ligados à ordem amorosa
tradicional. Trata-se aqui da vigência de padrões de relacionamento baseados ou não na
conjugalidade, mas regidos por representações tradicionais afeitas aos papéis masculinos e
femininos.
Para as mulheres, há a permanência de condicionamentos relativos à auto-estima e
à insegurança de quem, durante longo tempo, viveu a dominação masculina e a violência
simbólica, como menciona Bourdieu (1999). Para elas, por décadas, o sentido da auto-
valorização era construído com base em valores e assertivas advindos do juízo masculino
sobre a sua pessoa, característicos da ordem androcêntrica. Toda a socialização feminina
era marcada pelo olhar do outro, pois, como bem sublinha o autor, a mulher era educada
para agradar ao outro,
Do lado masculino, essa clivagem de gênero aparece nos depoimentos, marcada
pela insegurança masculina diante das conquistas femininas e do novo papel desem-
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Relatos da Vida Amorosa: a intimidade no contexto contemporâneo Sylvia Maria da Penha Cioffi
penhado pela mulher na sociedade. Essa insegurança aparece, relatada nas falas femi-
ninas, tanto no campo profissional, como no domínio emocional. Manifesta-se no sentido
do homem não se sentir mais imprescindível para a mulher, comportamento mais explícito
nos relatos de entrevistadas mais velhas. É como se o homem se sentisse descartável e
ameaçado por uma mulher que detém o privilégio de muitas procuras e escolhas,
tornando-se responsável pelo seu sustento e contribuindo para a sociedade com o fruto de
seu trabalho. Nesse sentido, os depoimentos de Ivana e Leandra são exemplares: não só
espelham a necessidade do outro para a mulher, como as disposições masculinas ante a
nova realidade feminina. Essa necessidade do outro para as mulheres esbarra nos
condicionamentos da auto-estima e são regidos também pelo olhar masculino sobre elas.
Assim, como os relatos atestam, fica clara essa dupla determinação:
O pai dele tinha sido diretor do J. por muitos anos. Tem até uma praça com o
nome do pai dele. E eu era bronca italiana ainda, né. Apesar que eu estudei muito
mais do que ele, eu passei melhor do que ele nos anos de residência. Em todos os
anos de residência tirei primeiro lugar e um em quarto. Quando entrei na Neuro,
entrei em primeiro lugar na residência. Sempre fui a melhor aluna. Não digo a
melhor médica. Isso atrapalhava com o M. que fazia residência de Neurocirurgia.
Apesar de achá-lo um cara brilhante. Ele tinha uma certa dificuldade com esse
fato que eu ia super bem.
Você era melhor que ele nesse sentido?
Não que fosse na realidade, mas eu aparecia para os outros residentes mais
velhos. Eles tinham uma consideração diferente por mim. Eu estudava e tirava
boas notas e sou falante mesmo. Ele falava para mim, “Você não faz prova para
passar, se classificar. Você faz prova para tirar o primeiro lugar e ponto. Nada
menos do que isso pode te satisfazer”. Era verdade. Porque eu não me achava
suficientemente boa. Só se eu fosse absolutamente perfeita que alguém poderia
gostar de mim. Ninguém poderia gostar de mim do jeito que eu era. Eu achava
isso. Eu me sentia dessa maneira. Racionalmente eu sabia que não era isso,
evidentemente. Mas emocionalmente era assim. Eu tinha também uma certa
sensação de inferioridade social em relação a ele. Intelectual não. Mas isso
incomodava ele. Porque ele, muitas vezes, disse que ele tinha receio de ser
conhecido como meu marido. Ele seria o marido da doutora Ivana. Até o próprio
professor C., que era o titular na época e que gostava muito de mim. Até um dia
ele falou para mim, “O M. é muito bom, mas você é brilhante”. Não é verdade
que eu seja brilhante, mas o professor falou assim mesmo. Ivana, médica
neurologista, solteira, 48 anos.
A separação é uma coisa muito dolorosa. A separação é uma coisa muito
complicada. Como nunca sou eu quem quer se separar, já tive mais de uma
experiência com isso. Como nunca sou eu, então, a auto-estima vai lá para baixo.
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Relatos da Vida Amorosa: a intimidade no contexto contemporâneo Sylvia Maria da Penha Cioffi
Ela baixa de uma tal maneira que eu viro um pó de merda. Eu viro alguma coisa
assim, que nem esse último namorado. O cara me “deletou”. “Essa aqui apaga.
Joga na lixeira”. E eu me senti “deletada”. Depois, eu arrumei um namorado aqui
e outro ali. Depois de um tempo me aparece esse. Falei, “Nossa! Esse veio de
presente para mim. Ele caiu do céu”. Não, ele não tinha nem vindo de presente
para mim e nem caído do céu. Ele era tão perverso quanto aquele primeiro que
me deixou na mão. Ele também me deixou na mão. E foi terrível e agora ainda é.
Eu acho que perco muito tempo na minha vida com esse assunto. Eu acho que eu
precisava... Eu trabalho muito. Eu sou uma pessoa que trabalha muito. Mas
parece que só fico... bem mesmo, quando eu tenho um namorado ou um marido.
Enfim, eu só fico bem assim. Eu sou uma pessoa positiva, eu jogo a vida para
frente, eu tenho esperança, eu tenho uma visão de mundo positiva, eu acho. Eu
não tenho uma visão de mundo negativa. Eu acho que as contradições da
sociedade – a miséria, as desigualdades sociais e o sofrimento humano – são
muito grandes. Mas, eu acho que há sempre uma brecha, pela qual sair e lutar e
batalhar. Eu acho que a gente tem que batalhar. Eu sou da luta. Eu sou da batalha.
Eu estou sempre achando que é possível construir um mundo melhor. Mas, eu
fico mais positiva, se eu estiver amando, entendeu? Quando eu não estou
amando, eu trabalho também com a mesma garra e tal, mas talvez eu deva
inverter. Era um pouco isso que eu queria na vida: inverter. Dar mais importância
ao meu trabalho. Leandra, antropóloga, professora universitária, desquitada,
53 anos.
Nesses depoimentos, além do desejo manifestado de manter um relacionamento
amoroso estável, merece destaque esse traço explícito, relativo à dificuldade masculina de
lidar com as conquistas de suas companheiras.
Eu acho que ele tinha inveja de mim. Ele externava essa inveja meio com raiva.
Ele me agredia, desqualificava o meu trabalho. Dizia que intelectual era uma
bosta. Intelectual, pequeno-burguês, não presta. Intelectual é isso e aquilo.
Desqualificava o trabalho intelectual. Eu achava que isso tinha uma explicação,
uma fonte específica no caso dele pelo fato de ter ficado tantos anos na cadeia.
Tanto tempo fora da vida social, digamos. Cadeia, clandestinidade, cadeia,
clandestinidade em quase dez anos. Que essa perturbação vinha daí. Ele não
sabia lidar com a vida, não sabia se inserir na sociedade depois de uma
experiência tão longa, alijado e tal. Mas ele estudou, fez faculdade de
Economia. Ele não teve dificuldade nenhuma para arrumar emprego e
rapidamente o salário dele passou o meu. Entendeu, eu era mestre, já.
Professora universitária com mestrado. Rapidamente o salário dele ficou maior
que o meu. Não deu dois, três anos de formado e ele já ganhava mais que eu.
Aí, eu achava que ele ia aquietar, mas não era suficiente. Ele tinha bronca,
mesmo. Raiva do meu sucesso, digamos assim. Do meu brilho. Me considero
uma pessoa vitoriosa. Sou uma caipira, de uma família de classe média, que
rejeitei aquela vida e vim para São Paulo. Batalhei, batalhei e virei professora
universitária, antropóloga, pa-pa-pá e eu acho que sou a vitoriosa na vida. Ele
queria me diminuir. Ele me agredia com essas coisas. Falava mal dos meus
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Relatos da Vida Amorosa: a intimidade no contexto contemporâneo Sylvia Maria da Penha Cioffi
amigos. Que eles eram todos chatos, burgueses, reacionários e não sei o quê.
Que eu também era. Que intelectual não prestava, que intelectual é egoísta, que
só vê o mundo a partir do próprio umbigo. Uma coisa, por exemplo, que ele
externava. Nesse sentido até uma coisa boa entre nós porque ele dizia tudo que
pensava. Era assim, eu começava a falar alguma coisa e explicar alguma coisa e
ele dizia, “Você está explicando igual a professor. Pode parar que eu não quero
mais ouvir. Você está me dando aula”. Eu ia falar do que eu sentia, de alguma
coisa que era da nossa vida, dos nossos desentendimentos e eu tinha uma
linguagem, eu tinha conceitos, eu tinha, enfim, uma forma de explicar
intelectualizada e por vezes até um pouco acadêmica demais. Era bom, até ele
me criticar para eu ser menos acadêmica. Eu não posso desconhecer as coisas
que eu li, as coisa que eu estudei e tal. Ele ficava muito bravo com isso. Ele não
gostava das coisas que eu falava. Então, na família dele a gente ia para a casa
dos pais dele, ele começava a falar assim para mim, “Ó! Cuidado com o que
você vai dizer. Porque lá, não tem intelectual. Eu ficava me reprimindo. Não
usar certas palavras. Ficar me policiando. Até que eu descobri que o meu sogro
não era um homem que não podia ouvir certas palavras, ele era um advogado e
tal. Ele tinha sido do Partido Comunista. Ele era um homem esclarecidíssimo.
Aí eu peguei e me soltei e me dei muito bem com o meu sogro e com a minha
sogra, também, apesar dela não ser nenhum pouco intelectualizada. Meu sogro
gostava de conversar comigo, mas eu me reprimi principalmente nesses
momentos e ele não suportava. O J. externava. Pelo menos isso, era franco.
(risos) Era de uma franqueza dolorida. Mas era essa a diferença entre nós.
Marcou. Acho até que ele quis ir embora também por causa disso. Não
suportou, não agüentou ter uma mulher que se vira, que enfrenta as coisas, dá
um jeito em tudo. Que conseguia até ficar casada com ele. Ele ficou muito
bravo comigo uma vez. Ele resolveu separar os quartos. “Eu vou dormir nesse
quarto e você fica nesse”. E eu achei bom. (risos) Aí ele ficou bravo. (risos).
Ele usava a beleza dele para me provocar. Todo lugar que a gente ia, ele ficava
me fazendo ciúme porque as mulheres ficavam tudo dando em cima dele. Aí um
dia eu virei para ele, “Sabe de uma coisa, cara? Não vou mais ter ciúme de
você”. Cada vez que ele fazia essas pavonices e tal. Eu pegava e ia embora. Ele
ficou muito bravo, “Como você não tem mais ciúme de mim? Você tem que
ter”. Não, não vou ter”. Adorava me fazer ciúme. Porque ele pegava daí, por aí,
o narcisismo. Combinava o narcisismo interno com a beleza física. Na família
dele todo mundo cultua a beleza, o corpo, a magreza, a esbelteza e eu sou
baixinha, bunduda, gordinha, tenho a tendência para engordar e tal. Mas ele
usava isso, ele pisava, porque ele era o rei do pedaço. Ele é um cara
inteligentíssimo. Um cara super capaz. Pára meu! Vai cuidar da sua vida. Vai
rechear a sua cabeça com livro, (risos) não ficar pegando no meu pé. Leandra,
antropóloga, professora universitária, desquitada, 53 anos
Essa fala menciona um comportamento masculino também encontrado por
Carvalho (1992:193-94) junto às suas entrevistadas, manifesto pela crítica sistemática, no
sentido da desvalorização da companheira. Ao analisar os resultados de sua pesquisa, a
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Relatos da Vida Amorosa: a intimidade no contexto contemporâneo Sylvia Maria da Penha Cioffi
autora chama a atenção para esse fato ao afirmar que, perante uma companheira bem
sucedida profissionalmente, o homem tende a ver nela “uma adversária que compete com
ele” sentimento que, talvez tenha suas raízes no medo de ser suplantado. O fato é que essa
crítica contumaz e a subestimação das realizações profissionais da mulher apontam, como
ficou claro no relato de Leandra, para a insegurança masculina diante das conquistas fe-
mininas.
Já no relato de Ivana também vem à tona o universo das escolhas profissionais,
marcado por guetos de gênero. É freqüente observar mulheres que, mesmo optando por
profissões ditas “masculinas”, como a Medicina, escolhem especializações femininas. No
caso da entrevistada, deu-se o contrário, com a escolha de uma especialização tradicio-
nalmente do domínio masculino. Bourdieu ressalta esse fato ao afirmar que, de modo geral
em número maior que os rapazes, quer pela obtenção do bacharelado, quer nos
estudos universitários, as moças estão bem menos representadas nos
departamentos mais cotados, mantendo-se sua representação inferior nos
Departamentos de Ciências, ao passo que cresce no departamento de Letras.(...)
A mesma persistência de desigualdades se verifica nas classes preparatórias
para as grandes escolas científicas e para essas mesmas escolas. Nas
Faculdades de Medicina, a porção de mulheres decresce à medida que se sobe na
hierarquia das especialidades, algumas das quais, como a cirurgia, lhes estão
praticamente interditadas, ao passo que outras, como pediatria, ou a ginecologia,
lhes estão quase que reservadas (Bourdieu, 1999:109).
No depoimento da entrevistada, tanto aparecem os condicionamentos relativos à
“inadequação” diante das expectativas masculinas, quanto as dificuldades enfrentadas
pela mulher diante de uma profissão considerada “masculina demais”, com toda a carga de
prestígio que ela carrega.
Nós namoramos oito meses, mas realmente eu não gostava dele. Ele me
sufocava. Depois, ele se sentia inferiorizado em relação a mim, porque não era
bem sucedido profissionalmente. Isso incomodava ele. Eu ganhava bem. Eu tinha
um Santana zero e ele não tinha nada. Eu não podia falar do meu trabalho. Ele
podia falar das dificuldades dele e tudo mais. Eu não podia falar quanto ganhava,
porque ele falava que eu estava tentando deixá-lo mal. Depois tive mais um
namorado que era um professor de Educação Física. Era meio bronco assim. Ele
não gostava tanto de mim. A gente tinha atração. Namoro assim. Eu sou meio
chata para uma pessoa que... Porque sou meio caxias, para o que eu faço. Ele
também se incomodava porque eu ganhava mais que ele. Ele se incomodava por
que eu tinha ido para a Índia, Nepal, Tailândia. E ele, “Eu não posso ir nem para
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Relatos da Vida Amorosa: a intimidade no contexto contemporâneo Sylvia Maria da Penha Cioffi
São Vicente”. Esse dinheiro eu ganhava. Minha família nunca foi rica assim. Eu
fui me adaptando e acomodando também porque eu sofri muito, muito, muito,
muito. Mesmo esses outros, que apesar de não ser tão apaixonada quanto eu era
pelo M. O fato de não dar certo ou da rejeição era terrível para superar. Para eu
lidar com aquilo, tinha um pavor de ser rejeitada. Então, no fim, fui me
convencer, que, talvez, a minha vida não fosse mesmo, o meu destino, viver com
outra pessoa. Eu sempre mantive, e falo francamente, aquele sentimento de
inadequação. Sabe, que até hoje eu tenho. Tenho o fato também da fantasia que os
homens fazem a meu respeito. Não é verdade? Quanto a eu ser neurologista. Não
é qualquer cara que encara isso tranqüilamente. Se sente um pouco inseguro.
Ivana, médica neurologista, solteira, 48 anos.
Mulheres fáceis: os velhos clichês?
O período de transformações por que passou a sociedade brasileira, ainda é
relativamente recente e não excede trinta e cinco anos. A profundidade e a velocidade das
mudanças, aliadas ao curto espaço de tempo em que se colocaram em curso, faz com que
elas não sejam assimiladas de forma semelhante pela sociedade. Nesse sentido ainda
vigoram comportamentos ligados à ordem amorosa tradicional, que sobrevivem ao lado de
novas formas de sociabilidade amorosa. A coexistência do tradicional e do moderno
continua presente nas relações entre os gêneros, conformando os múltiplos processos de
individuação. Isso explica, em parte, a diversidade comportamental, as contradições e
ambigüidades encontradas nos relatos dos entrevistados.
Nesse sentido, é curioso perceber que comportamentos referentes ao contexto
tradicional, emergiram no relato de entrevistadas jovens, como Laura, sobretudo em
relação a juízos masculinos quanto ao comportamento feminino.
Assim, os velhos estereótipos de gênero como “mulher fácil” e “mulher que dá no
primeiro encontro” são, ainda, encontrados, ou explicitamente ou nas entrelinhas, nos
relatos abaixo. No âmbito do senso comum, fala-se que, muitas vezes, as gerações mais
novas tendem a ter um comportamento mais conservador que a geração precedente,
sobretudo nas classes médias intelectualizadas, em que os pais prepararam o caminho para
as liberdades conquistadas. Esse tema (que será tratado no próximo capítulo) não foi sufi-
cientemente explorado em pesquisas, que investigassem mais a fundo as diferenças
94
Relatos da Vida Amorosa: a intimidade no contexto contemporâneo Sylvia Maria da Penha Cioffi
comportamentais de geração. Todavia, concepções conservadoras apareceram nos
depoimentos:
Sei que ele [o noivo] é diferente desses outros meninos [com] que me relacionei.
Desses tipos de meninos que tem hoje. Porque hoje em dia, a mulher é muito
fácil. Você faz assim [estala os dedos] e aparece 15 em volta de qualquer homem,
principalmente quando o cara tem dinheiro. Então, eles não dão valor nenhum. Os
valores deles são completamente diferentes dos nossos, pelo menos dos meus.
Mesmo quando eu era nova, sempre, na minha cabeça eu estava namorando...
Tudo bem! Já namorei, já fiquei, já aprontei e pintei o sete. Mas sempre, “Tô
namorando para conhecer a pessoa, para casar com ela e construir uma família
igual a minha”. Essa é a educação que eu tive e é o que eu quero para mim. Não
sei se vou casar em igreja. Não sei. Mas, sei lá, vou ficar com a pessoa que eu
gosto.
É o que a C. falava para mim, “Esse negócio de ir para balada... você acha que
vai para a balada para conhecer seu namorado? Esquece. Você não vai conhecer
seu namorado na balada. Por que na balada se o cara está lá dentro é para pegar as
que são fáceis.” Não vou te falar que os bons não vão na balada, mas vão com
outro espírito. De que lá não tem nenhuma mulher que preste. Mesmo o bom.
Mesmo o G., o R. ... Quando eles iam para a balada, eu tenho certeza que eles
eram como qualquer um daqueles outros. Ele iam naquela desesperança. Eu
estava até conversando, esse fim de semana com o G. Ele pensava do mesmo
jeito, “Puta merda, eu nunca vou casar na minha vida. Nunca vou encontrar uma
menina que preste”. As outras meninas são tudo vagabundas.
O que é prestar?
Prestar? É você, no mínimo, querer alguma coisa séria do cara. Das coisas que
ele conta. Da menina chegar e ficar com ele na balada e se convidar para ir no
motel com ele. É o que ele falou, “Você acha que eu vou querer casar com uma
mulher dessa? Vou para o motel com ela, transo com ela. Ha, ha, ha, muito bom.
Mas você acha, que eu vou ligar para essa menina, no dia seguinte? Não vou
ligar”. Eles não aceitam. Eles são machistas. Eles não aceitam o fato da mulher
ter os mesmos direitos do homem, de ter tesão. Isso para eles é inconcebível.
Então, se você quer arrumar uma pessoa para estar do teu lado. Como é que você
tem que fazer? Tem que buscar a tua base. Ou você vai no aniversário da sua
amiga para conhecer os amigos de sua amiga. Então, ele vai ter uma referência,
“Ah, não. É amiga da fulana. Então, é menina direita”. Porque o homem se
preocupa muito com isso hoje. Pela mulher ser liberal, falar que tem tesão ou que
não tem. Chegar para o cara e falar, “Oh, cara! Na boa, não quero ficar com você
porque você não me atrai”. Eles ficam chocados com isso. Eles acham, a busca
deles é por alguém conhecida. Que eles tenham referências. Eles são antiquados
em relação a isso. Mesmo que ele te conheça e comece a te namorar, que nem eu
conheci o M. e ele não tinha referência nenhuma, conheceu o meu pai e a minha
mãe e viu que eu era família, que eu não era uma qualquer, eu era uma mulher
para casar com ele. Você entendeu?
95
Relatos da Vida Amorosa: a intimidade no contexto contemporâneo Sylvia Maria da Penha Cioffi
Em relação ao sexo. Você acha que quando a mulher manifesta “tesão” para o
namorado, ou companheiro, ela perde alguma coisa? Ou nessa situação, a
mulher pode assumir a sua sexualidade?
Com certeza pode. Com o G. eu assumo completamente. A gente tem um
relacionamento completamente igual na cama. O que eu gosto eu falo, o que ele
gosta ele fala. Tenho total liberdade de falar para ele, do que eu não gosto. Ou se
eu estou a fim ou não. Se estou a fim eu agarro ele e ponto final. Ele não me acha
sem vergonha por isso. Pelo contrário, ele até gosta quando eu faço isso. Agora,
antes dele gostar da menina, quando ele está na busca, ele não admite isso.
Laura, fisioterapeuta, noiva, 27 anos.
Segundo o relato acima, para alguns segmentos mais conservadores da classe
média, a sexualidade feminina só é sancionada no contexto de uma relação de envol-
vimento legitimada pelo compromisso. Ou seja, a condição masculina para a aceitação
do desejo feminino parece, aqui, atrelada a uma relação “séria”, com uma “moça de
família”.
Esse contexto tradicional também emerge nas falas masculinas:
Eu tenho tesão por aquela mulher. Ela gosta de mim, eu gosto de trepar. A gente
gosta de trepar, ótimo! Aliás, eu adoro essa mulher moderna que se dá ao direito
de trepar. Sem culpa. E é difícil. São poucas aquelas mulheres que chegam e
falam. Aliás, nem falam. Mas, de uma certa maneira, deixa claro, “Olha, bicho,
adoro ficar com você um pouco. Vamos dar beijo. Vamos trepar e sem maiores”.
Não vai ficar te enchendo o saco. Tem o lado chato das mulheres, e aí vem uma
reclamação dos homens, que, às vezes, vai para o Bar Avenida e você sabe que ali
é um lugar que as pessoas vão para dançar e... opa! “Eu quero trepar. Arrumar
uma confusão para essa noite”. O cara conhece a mulher e vão na mesma noite
para um motel. Transam. Aí, no dia seguinte a mulher liga e, “Fiquei pensando
em você. Quero te ver mais...”. Vem já com uma tonalidade do namoro, do
romantismo. Que eu acho, que isso o homem não acredita. Na cabeça do homem,
acho que está assim, “Estou ali no Avenida e se não fosse eu, ia ser outro cara”.
Não é que ela está apaixonada. Parece que ele não acredita muito nessa
historinha.
Você vai no Bar Avenida, homens vão ali para catar, “Vou dançar, esfregar e vou
para cama”. As mulheres às vezes se chocam com isso, “Puta, bicho! Eu quero
dançar. Tem algum lugar que eu possa ir para dançar... sem algo mais?”. Mas aí, à
noite para mim, ainda mais quando envolve dança, por trás disso está o desejo.
Consciente ou inconscientemente, todo mundo que sai para dançar à noite, olha,
98% vai atrás de algum encontro afetivo, não sei de que tipo. Pode até ser uma
transa rápida ou a esperança de conhecer alguém, conhecendo aos poucos. Acho
que 98%, com certeza, se não for mais. Todo mundo sai e fala: “Eu vou ali
dançar”. Isso falando pessoa solteira. Casal já é outra coisa. Ângelo, músico,
divorciado, 40 anos.
96
Relatos da Vida Amorosa: a intimidade no contexto contemporâneo Sylvia Maria da Penha Cioffi
Mas, se existe a permanência do ideário tradicional, é certo também que, cada vez
mais, as novas formas de sociabilidade amorosa ganham terreno na sociedade. Os novos
comportamentos tornam-se visíveis em questões que antes, eram consideradas como
elementos centrais inquestionáveis da relação amorosa. Assim, é fato que, até aqui, as
mulheres sempre advogaram a união do sexo ao amor, um condicionamento de gênero,
fortemente arraigado, que, atualmente, começa a ser quebrado. Para os homens, a
separação entre sexo e amor sempre vigorou e é parte integrante da identidade masculina,
reforçada pela socialização.
Se, por um lado, é incontestável que, para os entrevistados, sexo e amor são
melhores quando andam juntos, por outro lado, hoje, as mulheres de classe média
intelectualizada vivem mais livremente sua sexualidade e aprenderam a valorizar o sexo
pelo sexo como positivo. Há, portanto, uma tendência de quebra dessa dicotomia, até
como um direito feminino, com a adoção do que se pode chamar de “postura masculina”
até aqui. É o que defende o relato de Márcia:
É muito bom também. Não é uma coisa ruim o sexo pelo sexo. Transei algumas
vezes com pessoas no dia em que conheci, na primeira noite, e foi super bom.
Depois acabou. Então, era um momento que eu queria vivenciar aquilo e eu
vivenciei. O fato de eu ter um parceiro não iria me impedir de vivenciar aquilo
que eu quis. Por um momento é tão raro acontecer isso, essa química ... Porque
não? Agora, sempre com muito cuidado com o parceiro. Depende muito do tipo
de relação que você estabelece. Eu ainda não consegui estabelecer uma relação
de cabeça um pouco mais aberta. Mas eu acredito nela. Que vai chegar um
momento de maturidade. Quem sabe tem uma pessoa com a cabeça mais
parecida com a minha. Márcia, promotora de Justiça, divorciada, 45 anos.
Querelas e mazelas do cotidiano
Nas dificuldades apontadas para a convivência a dois, estão incluídos problemas de
comunicação do casal, não aceitação da alteridade, aspectos culturais relativos à
socialização masculina e feminina, querelas do cotidiano e até a famosa “discussão da
relação”. Segundo as mulheres, os homens odeiam discutir a relação:
Acho que hoje os assuntos também são mais falados. Assim. As relações
amorosas estão mais na ordem do dia. Não é só na novela. Mas tem uma
97
Relatos da Vida Amorosa: a intimidade no contexto contemporâneo Sylvia Maria da Penha Cioffi
brincadeira besta que já pareceu em propaganda, em publicidade que é assim,
porque a mulher seria uma chata por querer discutir a relação. Essa brincadeira
me incomoda muito. Ela incomoda porque... Não sei pelo menos quando... Há
trinta anos, na minha década dos 20 anos, a gente discutia horas a relação. Dias
intermináveis. Você varava a noite com seu namorado discutindo a relação.
Depois, hoje em dia, vejo os homens achando isso uma coisa chata. Virou até
piada. Leandra, antropóloga, professora universitária, separada, 57 anos.
O cara é capaz de perder a chance de sair com a menina e estava louco para
transar com ela e poderia ter saído duas ou três vezes. Ele perde essa
oportunidade, para não correr o risco de discutir a relação. Os homens têm pavor
de DR. [DR= discutir a relação]. Joana, médica, pneumologista, separada, 30
anos.
Joana, que por ser médica, possui vários amigos homens, com os quais convive no
cotidiano do hospital, descreve, ainda, outras queixas masculinas, fruto de suas conversas
com os seus colegas:
Os homens se queixam disso. Das mulheres querendo muito e sempre naquela
sensação de que eles não conseguem satisfazer aquela mulher. Que tudo que eles
fazem é pouco para satisfazer. Não é nem tanto controladora. Eu acho que tem uma
falha grande de linguagem entre os homens e as mulheres. Elas querem uma coisa
dos homens, que nem elas sabem explicar. Acho que as mulheres são muito
românticas ainda. Elas querem que eles sejam super românticos, para umas coisas
que eles não dão bola. Que eles lembrem de aniversário de casamento, que eles não
lembram. Porque eles não dão bola para isso. Não é porque eles não ligam para ela.
Ele a ama, mas não acha a data importante. Os homens toleram um pouco melhor,
eu acho, entendem a diferença entre homem e mulher. Eles entendem que mulher
não gosta de ver programa de futebol. Eles não tentam convencer as mulheres que
programa de futebol é legal. Mas as mulheres tentam convencer que o aniversário
de namoro é importante. Eu vejo eles se queixarem um pouco disso. Mulher tem
muito de falar assim, “Se você não sabe porque estou chateada, eu não vou te
explicar”. Tem um amigo que adora falar essa frase, porque ele fala que mulher
adora falar isso. O cara continua não entendendo o que você queria. Acho que isso
as mulheres fazem mesmo. Direto. E acha que é uma incompetência, “Como é que
esse cara é tão insensível de não saber o que eu quero?”. Não, ele não sabe, mesmo.
Ou você fala o que você quer. Primeiro, falar o que você quer. Segundo, na hora que
você falar e for uma coisa meio absurda. O cara fala, “Olha, pensa bem você querer
que eu esteja...”. Elas estão super empolgadas com o aniversário de casamento e
esperam que eles estejam empolgados. Querer que uma pessoa tenha o sentimento
que ela não tem. Isso é super injusto. Eu acho os homens e as mulheres muito
diferentes em muitos aspectos. Acho que os homens, antigamente mais, aquela
história do P., entendiam, acho que até muito mais, “Mulher é assim mesmo.
Mulher é um pouco diferente de homem. Elas querem umas coisas, que a gente não
entende direito o que é, tudo bem! Porque mulher é assim mesmo”. Eles estão
perdendo um pouco isso. Mas mulher não tolera que o homem seja “assim
98
Relatos da Vida Amorosa: a intimidade no contexto contemporâneo Sylvia Maria da Penha Cioffi
mesmo”. Homem, calma! Não dá bola para aniversário de casamento. Mas as
mulheres querem que dê. Se não dá ficam super chateadas. Não querem falar o que
é, porque querem que ele perceba. Querem que ele entenda uma linguagem que ele
não entende. Ele nunca vai entender aquilo. Acho que os homens reclamam disso e
esse negócio de fidelidade. Eu tenho conversado muito com homens que se
separaram e estão solteiros. Eles acham muito que, “Eu tenho vontade de transar
com um monte de mulher e por quê não?”. A mulher não se conforma com aquilo e
quer o cara super romântico. Joana, médica pneumologista, separada, 30 anos.
Já Maria Eunice reconhece, em seu relato, as dificuldades dos homens em assumir
tarefas para as quais não foram preparados. E fala da versatilidade feminina em
comparação com, diga-se assim, a maior “especialização” masculina, fruto da
socialização androcêntrica, vigente por longo tempo. Quanto ao trabalho doméstico, pode-
se supor que isso se deva à educação materna no lar, uma vez que, parte das mães, ainda
segue poupando seus filhos, em detrimento das filhas, quando se trata de executar
trabalhos, considerados “femininos”.
Mas eu acho que os homens são voltados para fora, para a sobrevivência. Para
caçar, para buscar o alimento, para buscar a proteção. Não pode ficar voltado para
o detalhe. Se a pessoa está triste, ou não sei o que lá. Porque senão não faz aquilo.
Quando você estabelece essa dicotomia e você fala, vamos todo mundo fazer um
pouco, que é a situação que as mulheres têm. Elas têm os dois lados hoje. Nós
trabalhamos, mas não nos desinteressamos de fazer um tricô, de conversa da
empregada, de botar um perfume, de contar um ti-ti-ti de um namorado. E chega
lá, você discute com a diretoria do negócio, fala e acontece e faz o relatório. Você
não precisa fazer uma coisa ou outra. O problema que os homens não foram
treinados minimamente para isso. Têm dificuldades de fazer isso. Eu fiz uma
época uma experiência. Depois que eu me separei do A. morei com dois homens.
Antes, eram dois casais. A primeira mulher saiu, depois o A. Fiquei eu e o F. Todo
mundo achava que tinha um caso e tal. Nunca tive nada. Nem passava na minha
cabeça. Aí foi um outro cara morar com a gente e, uma época, a gente estava
muito duro e resolvemos ficar sem empregada. Estava aquele negócio de fazer
revoluções de comportamento. Essas coisas. Não vai ter empregada, todo mundo
vai ter que cozinhar, fazer tudo, lavar roupa. Não tem mais esse negócio de
homem ou mulher aqui e tãrãrã. Para os caras fazerem um trabalho doméstico era
uma situação pior do que você chegasse num, sei lá, agora você vai ser gerente
desse banco. Você não sabe o que é CDB. Você não sabe nada. O cara não sabia,
para fazer um arroz, que tamanho de panela usava. Como que faz o arroz e se a
panela é assim ou assado. Quanto tempo leva para cozinhar. É um conhecimento
que ele não tem. Você não quer se submeter àquilo. Você vai estar por baixo. A
reação da pessoa é não querer fazer. Se ela for fazer, não vai fazer bem a primeira
vez que ela vai fazer. Então, foi um processo super interessante. Maria Eunice,
arquiteta, divorciada, 57 anos.
99
Relatos da Vida Amorosa: a intimidade no contexto contemporâneo Sylvia Maria da Penha Cioffi
Outro ponto presente nos depoimentos, motivo para várias reclamações das
mulheres, diz respeito à dificuldade encontrada na divisão de tarefas domésticas.
Realmente, essa é uma questão que volta novamente à baila, nos primórdios do século
XXI, com a mesma força de antigamente. Desde que as feministas queimaram o primeiro
sutiã, esse tem sido um problema intensamente debatido. O trabalho doméstico é
considerado invisível, facultativo e impessoal enquanto trabalho, portanto desvalorizado.
14
Enquanto, para as mulheres, ele constitui uma obrigação, para os homens, ainda é facul-
tativo.
15
Tratando-se de mulheres das camadas médias, quase todas contam com a ajuda de
empregadas domésticas, mas o trabalho da organização da casa, a delegação de tarefas e o
gerenciamento do lar fazem parte de suas atribuições. Assim, como diz Letícia:
A gente tem algumas dificuldades. Eu saio tarde do consultório. Trabalho muito à
noite. Tive que assumir as tarefas domésticas. Por mais que saiba, teoricamente,
quando você vê não fez coisas mínimas. Chegar do consultório e estar, pelo menos,
a mesa do jantar pronta. “Ai que bom que você chegou! Estou morrendo de fome”.
Bom. Ponha a mesa, lave uma alface. Qualquer coisa assim. Adianta. Então, não
faz e nem passa pela cabeça. Eu tive que assumir também um outro lado que é a
tarefa da dona de casa. De mandar na empregada. Empregada sozinha, sem
comando não faz. Tem que observar. Tem que saber o que tem na geladeira. Na
despensa o que está faltando. Ter controle sobre isso. Coisa que não tinha na minha
vida de solteira. Eu simplesmente chegava e pedia um delivery, fazia um ovo
mexido, saia e ia jantar com uma amiga. Uma vida bastante diferente. Não me
preocupava com isso. Hoje, às vezes me dá a sensação, que eu me vejo, parece que
não saio do açougue e do supermercado, “O que estou fazendo aqui de novo? Não é
possível que estou aqui. Puxa vida, será que eu ia tanto ao supermercado?”.
Provavelmente, não. Eu tenho que fazer o supermercado, o sacolão. Uma moça
solteira, porque precisa de tanta banana, abacaxi, melancia, pêssegos? Não precisa.
Você compra um e olhe lá. Meu marido gosta de geladeira farta, de muita fartura.
Vem de família grande com muitos filhos. É uma outra estrutura familiar que se
criou. Letícia, psicanalista, casada, 43 anos.
14. A socióloga francesa Annie Dussuet,em entrevista, cita um estudo estatístico do INSEE, que investiga o
trabalho doméstico e o gasto do tempo em tarefas da casa entre homens e mulheres. O estudo mostra
que em dez anos, o tempo do trabalho doméstico semanal dos homens aumentou em dez minutos, ao
passo que o trabalho executado pelas mulheres diminuiu somente trinta minutos.
Ver: http:// l libertaire.free.fr/TravailFemmes.html
15. Para os casais mais jovens, este parece ser um problema um pouco mais bem resolvido, já que a questão
apareceu mais nos relatos das mulheres mais velhas. Pode-se supor que os condicionamentos da sociali-
zação masculina, em gerações mais velhas, contribuam, em grande parte, para o problema.
100
Relatos da Vida Amorosa: a intimidade no contexto contemporâneo Sylvia Maria da Penha Cioffi
Observando os entrevistados de sua pesquisa, Carvalho tem a acrescentar:
a participação do marido na realização do trabalho doméstico nunca se deu de
uma forma efetiva e quando ela ocorria esporadicamente era considerada uma
ajuda, algo fora do comum e não como uma atitude corriqueira na vida do
casal.” Nos relatos de seus depoentes transparece a concepção de que trabalhos
domésticos “como por exemplo, cozinhar diariamente, lavar e passar roupa,
limpar e colocar em ordem a casa, lavar louças, banheiros, cuidar de crianças é
‘coisa de mulher’. Esta divisão de trabalho está de tal forma arraigada que as
próprias mulheres a assumiram sem muita alternativa, mesmo quando não
concordavam com ela. Carvalho (1992:159-60)
Por mais que, hoje, se tenha avançado nesse terreno, as mulheres ainda trazem esses
condicionamentos relativos aos cuidados do outro, arraigados em si, como uma estrutura
profunda, traço marcante de sua socialização.
Avaliação dos novos tempos
Embora as transformações tenham incidido de uma forma um tanto caótica, nas
relações afetivas, provocando descontinuidades, dubiedades e fazendo com que se instaure
uma pluralidade de comportamentos e sentimentos (às vezes desencontrados) no campo
dos relacionamentos, tanto homens como mulheres consideram positivas as mudanças por
que passaram o cenário amoroso contemporâneo.
Eu vejo assim. Hoje é muito mais aberto. A própria comunicação no lado da
intimidade e sexo está muito mais livre. Muitos tabus foram quebrados. Hoje a
mulher não se assusta mais com alguma coisa que antigamente seria um tabu.
Sabe? O cara precisava fazer aquilo com uma postura. Ele achava isso também.
“Com a minha mulher, não. Não vou fazer isso com a minha mulher”. Ele deve
estar sendo respeitoso em procurar a prostituta. Aquela coisa. Acha que com a
mulher não pode fazer isso. Esses exageros e essas coisas todas. Isso mudou. Os
jovens têm um relacionamento mais aberto. Sexualmente todo mundo é mais
aberto. José Antônio, artista plástico, casado, 59 anos.
Nós estamos numa coisa chamada nova economia, apesar dos brasileiros terem
pânico desse nome, relembra NASDAQ, bolha da Internet. Mas nova economia é
um novo modelo de sociedade e de economia que está claramente mudada. Esse
novo modelo, o perfil do líder desse novo modelo são as mulheres. Então, as
mulheres tendem a ocupar cada vez mais os cargos mais altos, posições mais
importantes. Essa é a tendência natural. Não vejo o homem sendo ameaçado na
masculinidade ou qualquer coisa nesse tipo por causa disso. O que eu acho que às
101
Relatos da Vida Amorosa: a intimidade no contexto contemporâneo Sylvia Maria da Penha Cioffi
vezes se exagera tanto para um lado quando para o outro. A mulher na vontade da
competição acaba se masculinizando um pouquinho. Mais do que deveria. O
homem na busca de tentar ser um pouco mais tenro, leve e tal, acaba se
afeminando mais do que deveria. Acho que, no geral, vão melhorar muito as
relações entre homens e mulheres, na minha opinião. Isso não está indo numa
coisa para piorar. Minha visão é que está indo numa coisa para melhorar. Ivan,
administrador de empresas, casado, 45 anos.
Hoje em dia essa mulher [que trabalha], e sou um torcedor dessa mulher. Eu acho
um barato. Eu tenho muito tesão por uma mulher que trabalha. Eu acho um
barato, eu luto por essa mulher. Eu sinto pena das minhas amigas de colegial que
ficaram lá no interior. Que eram lindas e divertidas e não tiveram a chance de
outras relações. Ficaram lá dos 15 aos 19 anos namorando o mesmo cara. Se
casam com 20 anos de idade. Esse cara não deixa ela trabalhar. Elas vão ficando
em casa e têm filhos, engordam e ficam feias. Auto-estima, né... e ficam naquela
vida de interior. Cada vez que eu vou lá, eu encontro e menos assunto se tem
porque não pode falar. É triste ver uma pessoa perdendo essa possibilidade da
evolução. É como se o trem estivesse indo e eu fiquei na estação. Sinto tristeza
quando vejo pessoas assim. De não ter pegado alguns trens e viajar um pouco e
experimentar um pouco. Eu acho um barato, essas mulheres que conseguiram sair
desse modelo dominante, de dominada por essa figura homem. Ângelo, músico,
separado, 42 anos.
As avaliações positivas sobre as transformações do cenário amoroso contem-
porâneo foram unânimes, independente da geração a que pertençam os entrevistados. Vale
ressaltar que esse ponto pode ser considerado como a grande convergência de opiniões
entre homens e mulheres da pesquisa.
As ambigüidades que toda época de transição apresenta e a diversidade com que as
várias gerações de entrevistados vivenciaram esse processo serão analisados no capítulo
seguinte.
Capítulo 3
A Contraposição das Gerações
Mas, então o que é o amor? É o ápice da união entre loucura e sabedoria.
Como destrinchar esse fato? Parece evidente que se trata de um problema
com o qual nos defrontamos em nossa vida, e que não há nenhuma chave
que permita encontrar uma solução exterior ou superior. O amor contém
justamente esta contradição fundamental, esta co-presença da loucura e
da sabedoria.
Edgard Morin, Amor, Poesia, Sabedoria, 2003, p. 28.
Chop Suey Edward Hopper
103
Relatos da Vida Amorosa: a intimidade no contexto contemporâneo Sylvia Maria da Penha Cioffi
P
ara analisar os relatos dos depoentes, privilegiando os nexos entre as gerações,
optou-se por dividir o total de entrevistados em três grupos etários. Uma geração
mais nova que abarca de 26 a 37 anos, uma intermediária de 38 a 48 anos e, por
fim, a mais velha de 49 a 60 anos. Assim, constataram-se especificidades na forma como
os agentes vivenciam, na prática, as relações amorosas que apresentam significâncias
ligadas aos nexos societários correspondentes à temporalidade.
Os mais jovens e o novo caráter da experiência amorosa
O grupo de integrantes da pesquisa pertencente à geração mais nova compõem-se
de pessoas solteiras e sem filhos. A maioria encontrava-se sozinha no momento da
entrevista. Do grupo apenas Laura tem uma relação estável, sendo noiva e pretendendo se
casar.
Ao tomar-se o grupo da geração mais nova, pode-se perceber um denominador
comum que permeia todos os depoimentos. Trata-se do caráter bem marcado da vivência
da experiência amorosa, que sempre está atrelada a um projeto de vida mais amplo, nos
moldes da relação reflexiva que Giddens (2003) afirma ser característica da alta
modernidade. Ou seja, a esfera afetiva também adquire aqui um caráter reflexivo, como as
outras escolhas que o indivíduo tem na sua vida. Em outras palavras, a experiência
amorosa não mais apresenta o caráter absoluto de centralidade da vida para os mais
jovens, mas aparece subsumida à experiência mais ampla de vida, ou a outras esferas
vistas pelo indivíduo como importantes e a um conjunto de circunstâncias que apresentam
o mesmo valor em si. Isso sugere uma mudança na identidade amorosa dos indivíduos das
camadas médias entrevistados para este estudo.
104
Relatos da Vida Amorosa: a intimidade no contexto contemporâneo Sylvia Maria da Penha Cioffi
Já para as gerações mais velhas, a vivência do amor ou da experiência amorosa
tendia a se apresentar como um fim em si. Como bem apontou Costa (1999: 214 ), a
valoração da esfera amorosa pertencia ao rol dos valores cultuados e jogava um papel
importante na formação da identidade do indivíduo, entendida como a capacidade dos
indivíduos de se reconhecerem a si próprios frente às normas e valores sociais adquiridos e
de estarem inseridos na realidade simbólica de um grupo
16
.
O sujeito do amor romântico “foi um sujeito formado na escola da satisfação
sentimental, que não se confundia com o prazer da gratificação sensual” (Costa, 1999:
212). Em outras palavras, a satisfação sensual fazia parte do projeto de amor romântico,
mas vinha sempre a reboque da satisfação sentimental, ou melhor, constituía sua
conseqüência. Assim, a crença amorosa era parte da vida sentimental burguesa que vem
sofrendo uma enorme mudança nos dias atuais” (Costa, 1999: 212).
Hoje, a experiência amorosa tem um caráter facultativo e esses valores aparecem
desinvestidos de sua importância capital para a formação da identidade do indivíduo.
Como diz Costa,
esse modo de vida durou enquanto os sujeitos não dispunham de modos
alternativos de gozo ou de Ideais de Eu que pudessem competir com os ideais
românticos dominantes. Experimentar a realização sentimental, sob o modo do
amor paixão romântico, era, de fato, uma obrigação cultural que se sustentava
na repressão da sexualidade feminina, na crença na ‘verdade sentimental da
natureza do homem’, na desigualdade social entre homens e mulheres, na firmeza
dos afetos familiares, na importância do convívio doméstico, nos preconceitos da
moralidade burguesa, no agudo sentimento de responsabilidade para com o
futuro dos filhos (...) Uma vez desfeita esta rede emocional e liberadas as
possibilidades de fruição sexual, o sentimento deixou de ser o ‘abre-te sésamo’
da felicidade (Costa, 1999: 214).
16. Para Habermas (1983: 78) “uma identidade bem sucedida do Eu, (...) significa a capacidade peculiar de
sujeitos capazes de falar e agir, de permanecerem idênticos a si mesmos, inclusive nas mudanças pro-
fundas da estrutura da personalidade, com as quais eles reagem a situações contraditórias. Os sinais de
auto-identificação, todavia, devem ser reconhecidos intersubjetivamente, a fim de poder ser fundada a
identidade de uma pessoa.(...) A unidade simbólica da personalidade, produzida e mantida através da
auto-identificação, apóia-se, por sua vez, no fato de se estar inserido na realidade simbólica de um
grupo, na possibilidade de se localizar no mundo desse grupo. Uma identidade de grupo que vá além
das biografias individuais, portanto, é condição para a identidade da pessoa singular”.
105
Relatos da Vida Amorosa: a intimidade no contexto contemporâneo Sylvia Maria da Penha Cioffi
Assim é que, agora, outros valores mais externos acabam adquirindo a mesma
importância, se não maior, que os sentimentos do amor significavam na vida dos
indivíduos. Para os depoentes mais jovens da pesquisa, a esfera profissional adquire a
mesma importância ou, em alguns casos, até maior significância que o domínio amoroso.
Esse fato pode ser atestado nos relatos de Renata, Felipe e Paulo José. No relato de Felipe,
disposição em relação ao compromisso profissional é manifestada explicitamente:
Conheci uma garota dois anos mais velha do que eu. Através de uma festa de
amigos também. Ficamos juntos 5 anos. E pelo mesmo motivo, ela achou melhor
a gente não ficar junto. Por causa do meu horário, não digo maluco, mas muito
incerto. Trabalho na sexta-feira, das dez à meia-noite e fico sábado e domingo
sem fazer nada. Aí, eu tenho 5 dias de trabalho direto. Como elas têm um horário
normal de trabalho, de 2ª à 6ª, isso sempre acaba criando algum atrito. Mas isso é
o único que sempre pega. Eu adoro o que eu faço. Não vou deixar de fazer o que
eu faço. Felipe, músico, solteiro, 32 anos.
A F. é médica cirurgiã-cardíaca infantil. Ela fez [nome da Universidade] e depois
trabalhava aqui no [..]. E a profissão dela tem uma exigência de tempo absurda.
Durante toda faculdade dela a gente estava namorando. Fazer a faculdade de
medicina já é super sacrificado em termos de horário, em termos de tempo.
Depois a residência, que é pior ainda. Depois a profissão que é pior ainda. E
plantões...A área dela é delicadíssima, cirurgia cardíaca infantil. Recém-nascidos
à morte, com problema, e tendo que fazer cirurgia de emergência. Engraçado que
ela trabalha numa profissão de extremo risco e qualquer erro pode significar a
morte de alguém. Eu, justamente ao contrário. Eu trabalho com o lado oposto da
existência humana. Não tem nada a ver com a existência física e sim com a
existência do espírito, da alma. Bom. Mas enfim. Por conta dessa e tanto eu
quanto ela, por bem ou mal, não sei se a gente... posso dizer que somos expoentes
na nossa profissão. Mas pelo menos a gente é bem sucedido e muito dedicado.
Muito requisitado. Tanto eu quanto ela demos muita importância a isso na
carreira profissional. Se a gente tem algum sucesso é fruto de algum talento e
muita dedicação. A gente foi tomando esses caminhos. Ela na profissão dela e eu
na minha. Isso de uma forma dificultou muito a relação por motivos óbvios. Só
que por outra forma, possibilitou a relação. Se algum de nós não tivesse esse tipo
de postura ou tivesse uma profissão mais estável, uma coisa mais acomodada,
talvez um não suportasse a vida do outro. Se eu fosse, sei lá, um dentista, um
bancário e convivesse com ela no regime de horário que ela tem, talvez eu não
suportasse isso. E ela também. Se ela fosse uma dermatologista e se não soubesse
o que eu ia fazer no dia seguinte, nem eu. Às vezes essa falta de rotina é até ruim
para mim. Era ruim. No começo eu estranhava muito isso. Sentia falta. Depois eu
acostumei com isso. Aconteceu isso. A vida profissional dificultou as coisas
enquanto possibilitou outras. Possibilitou a sobrevivência da nossa relação. Paulo
José, músico, solteiro, 35 anos.
106
Relatos da Vida Amorosa: a intimidade no contexto contemporâneo Sylvia Maria da Penha Cioffi
Em outro trecho do depoimento, o mesmo entrevistado reafirma a importância da
dimensão profissional para o casal.
A gente passou a viver uma vida de casado, mesmo que oficialmente não tivesse
acontecido isso. E de novo a profissão influenciando. Não sei se para o bem ou
para o mal, mas influenciando bastante. Eu viajo muito e ela estava também
trabalhando demais. Pelo falo dela estar fazendo esse trabalho no hospital como
estagiária e não sendo remunerada. A gente tinha que fazer outras coisas para
conseguir. Então, ela ficava a semana inteira aqui trabalhando como uma louca e
depois ia no fim de semana para Campinas para fazer plantão. Não parava de
trabalhar. Não tinha fim de semana. Eu viajando também. Isso vai
desestabilizando a relação. Desestabilizou novamente. Até que chegou a questão
de uns seis meses atrás que a gente resolveu que a situação não estava entre nós
muito boa. Que a gente precisaria de um tempo juntos para poder resolver a
situação. A gente praticamente não se via. Só que nessa época ela recebeu uma
proposta do [nome do hospital]. O [...] vai implantar um hospital em B. Ela
recebeu a proposta de trabalho em B. mas aí realmente de contratação. E ela foi
para lá. Então, a gente está nessa situação. A gente não está, oficialmente,
separado. (risos) Se é que existe isso aí. Mas a gente não consegue ficar longe
um do outro. A gente sempre se fala e ela vem para cá e a gente passa o fim de
semana junto. A gente namorou meio sem namorar e se casou sem ficar casado e
se separou sem se separar. Paulo José, músico, solteiro, 35 anos.
No relato de Renata também fica evidente a importância da esfera profissional,
quando relata que decidiu deixar o companheiro para vir estudar em São Paulo. Da mesma
forma, seu depoimento permite perceber significado semelhante e relevância da inserção
profissional para o namorado, de quem ela fala:
Mas assim, tem outras coisas que ele fala muito. Ele diz que faz medicina por
hobby, faz medicina porque gosta, medicina é uma parte da vida dele. Ele já me
disse que medicina é a vida dele. “O meu trabalho me preenche”, ele brinca
muito. Ele diz que se a gente for para uma festa e provavelmente procurarem por
mim, eu vou estar em cima da mesa dançando. Todo mundo pensando que estou
bêbada, mas eu absolutamente sóbria e que ele vai estar provavelmente trancado
dentro do banheiro de saco cheio das pessoas perguntando e ele, “Por que eu vim
para cá? Por que eu vim para cá?” Por que eu vim para cá”. A gente é muito
diferente, não que as diferenças sejam inconciliáveis. Mas eu não sei se vai dar
certo. Uma coisa que eu tenho aprendido é tentar segurar. Renata, médica,
psiquiatra infantil, solteira, 29 anos.
Em outro trecho da entrevista:
O Z. me convenceu a semana passada que na verdade eu não queria namorar com
ninguém porque eu queria estudar. Se eu namorasse com alguém precisaria
dedicar um tempo àquela pessoa e não ia poder estudar. Na hora, eu achei um
107
Relatos da Vida Amorosa: a intimidade no contexto contemporâneo Sylvia Maria da Penha Cioffi
absurdo. Mas hoje eu fico pensando até que ponto ele não está certo. Porque eu
tenho isso. Quando eu me dedico, eu gosto de me dedicar e é difícil achar um
meio termo. Renata, médica, psiquiatra infantil, solteira, 29 anos.
Essa problemática também se fez presente no depoimento de Roberto:
E aí nessa história, e principalmente quando eu já estava na faculdade e ouvia as
garotas falando de suas construções de carreira... Eu tive uma namorada na época
e a gente teve conflito de relacionamento por conta disso. Ela fazia Direito, e eu
Administração de Empresas, e a gente estudava em prédios um vizinho do outro,
era uma universidade. Ela achava que tinha que ir atrás da carreira dela. Que isso
podia atrapalhar. Eu não achava que podia atrapalhar. Mas ela achava que tinha
que ser e viver o individual. Ela gostava muito de mim e isso que eu não
conseguia entender. Poxa, se você gosta de mim, se diz que me ama porque tem
que me excluir da sua vida. Porque você tem que amar só você. Não, você pode
amar você e amar a mim. A gente brigou muito nesse terreno. Foi muito bom
enquanto durou. Na verdade, acabei terminando com ela. Eu insisti nesse
relacionamento muito, mas terminei com ela quando vim para São Paulo. Quando
terminei a faculdade e decidi vir para cá. O tempo que eu estive lá eu insisti a
todo tempo de que a gente ficasse juntos. Terminamos alguns meses antes de eu
vir para cá. Porque aí, já que ela não queria tentar, eu tinha algumas perspectivas
de mudança de vir para São Paulo e fui embora. Roberto, administrador de
empresas, solteiro, 35 anos.
O aprendizado amoroso
Outra questão a destacar nos depoimentos da geração mais nova é o caráter
experiencial de que, hoje, se reveste a relação amorosa. Esse aspecto traz em si, também,
um sentido de aprendizado incorporado pela nova geração. Assim, a experiência amorosa
é assimilada como uma bagagem que o sujeito traz consigo e que será reaplicada em
outras ligações futuras. De modo diverso, no passado, as relações amorosas, bem como o
casamento eram mais estereotipados ou, dito de outra forma, possuíam um raio de ação
mais previsível, dentro de parâmetros mais estreitos. Ou seja, as uniões seguiam certas
regras claras, que delimitavam a experiência de forma mais restrita, ancoradas nos papéis
tradicionais de gênero. No depoimento de Laura esse caráter de aprendizado amoroso é
muito presente:
Depois que terminei com meu noivo não conseguia achar nenhuma pessoa que eu
pudesse falar “essa pessoa me respeita”. Para mim é assim, regra básica, faltou
comigo com respeito, acabou. Perco interesse na hora. Posso gostar, eu desgosto
108
Relatos da Vida Amorosa: a intimidade no contexto contemporâneo Sylvia Maria da Penha Cioffi
na hora. Falta de respeito é uma coisa que não admito. A educação da pessoa, se
se preocupa comigo. Principalmente se ele é egoísta ou não. A falta de interesse.
Eu e o G. começamos a namorar com um outro ritmo. Um ritmo de ele vir para cá
3 vezes por semana me ver. Dele mandar flor. De eu mandar bilhetinho para ele.
Eu entrei de cabeça. Eu não entra de cabeça em lugar nenhum depois da decepção
com o R. Com o M. eu sofri. Mas eu sofri mais a decepção da traição, da mentira,
da palhaçada. Porque, como terminei com ele chorei um, dois dias, mas estava
me restabelecendo quando liguei para dar parabéns para ele. Eu estava muito
bem, obrigado. Nunca mais entrei de óculos cor-de-rosa em relacionamento
nenhum depois do Ricardo. Aprendi muito com ele. Isso eu falei para ele. Foi o
primeiro fora que eu tomei na vida. Ele concorda comigo. Laura, fisioterapeuta,
noiva, 27 anos.
Tal como o “aprendizado” com a relação amorosa que aparece incorporado na
experiência dos mais jovens, a admissão e aceitação da transformação dos papéis de
gênero, parece ser uma questão melhor resolvida para a nova geração. Os jovens ao se
depararem com as mudanças contemporâneas da sociedade, já assumem a igualdade de
gênero como algo esperado na organização societária, ou seja, eles já incorporaram os
valores conquistados pelas bandeiras políticas do feminismo pós anos 70.
Simone fala sobre isso em seu relato:
Para o pessoal que eu convivo, eu vejo que, pelo menos, eu vou chutar um
percentual aqui, em 70% dos relacionamentos estáveis, essa questão da mulher se
destacar é até positiva porque gera um companheirismo maior, a relação fica
mais resolvida porque os dois estão resolvidos no trabalho. Então, aumenta esse
companheirismo, essa divisão do peso das despesas da casa. E fica um
incentivando o outro. É lógico que eu conheci uma exceção. Morei até com um
casal que era exceção brava. O cara estava bem ruim no emprego e a menina
estava muito bem, tinha passado num concurso e está concursada até hoje.
Comprando carro. Sabe, deslanchando. Eles até terminaram o relacionamento
porque ele não agüentou. Na minha opinião, no geral, acho que isso não
atrapalha. No geral, na minha geração não atrapalha, não. Simone, economista,
solteira, 27 anos.
O velho e o novo
Resta, no entanto, uma questão que ainda divide opiniões no grupo mais jovem de
entrevistados. São diferenças que apresentam bipolaridade quanto aos comportamentos
modernizantes. Se, por um lado, alguns relatos manifestaram a permanência de valores
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Relatos da Vida Amorosa: a intimidade no contexto contemporâneo Sylvia Maria da Penha Cioffi
tradicionais, que continuam influenciando mentalidades (ainda que repaginados), por
outro, há também aqueles depoentes que adotaram condutas mais liberais afeitas à
rupturas com os velhos padrões de comportamento. O tema da iniciativa feminina na
abordagem aos homens apresentou-se em muitos relatos, ora de forma tradicional, voltada
ao velho estigma que rondava as mulheres chamadas de “fáceis”, ora como fato
ultrapassado e assimilado com naturalidade entre os entrevistados mais jovens. Nesse
sentido, Simone menciona essa situação com naturalidade, informando que em seu meio
social isso é coisa bastante comum:
Tem muitos homens da minha geração e alguns amigos que eu conheço que
dizem, “Eu não tomo atitude. Eu gosto de mulheres que tomem atitude”.
Entendeu? A pessoa é tímida e gosta de mulheres que... Eu acho que eles até
gostam. Alguns gostam, não sei se todos. Eu acho que não tem isso muito
marcado. Eu não sinto dificuldade. Não sinto essa coisa de ficar estigmatizada.
E o machismo na sua geração hoje?
Eu acho muito difícil, mas acontece. A gente acha, mas é mais difícil. Esse, mais
velho, com quem me relacionei com 18 anos era. Você via que ele esteriotipava
as mulheres. Na minha geração se tem? Eu acho difícil encontrar. Apesar de no
discurso ainda ser bastante. Eles brincam, falam. Quando a mulher é vulgar.
Porque tem, né. Tem a mulher que toma atitude e que conquista e que transa na
primeira noite, mas acho que tem essa diferença entre vulgar, a vulgaridade, a
mulher que não se valoriza, que não tem o valor, e a mulher que tem. Nessas
mulheres aí o machismo deles extrapola. Até o nosso, né. Até o das mulheres
contra as mulheres, “Nossa! Mas aquela ali não tem condição”. Daí junta homem
e mulher para falar mal e num conceito machista até. Simone, economista,
solteira, 27 anos.
Para Paulo José, que não manifestou preconceito em relação ao assunto e o
considera, também, fato corriqueiro, o que vigora, hoje, é apenas confusão em relação aos
papéis masculinos e femininos, que ainda estão se ajustando. Assim, ele refere-se a uma
“definição de papéis”:
Com a mulher mais ativa na relação amorosa e sexualmente também, para ela
também ficou possível a abordagem; e ela chegar até o homem. Então, às vezes,
fica uma dúvida. O homem não se aproxima da mulher porque ele acha que se ela
quer, realmente, vai se aproximar e a mulher também não se aproxima. Sabe, é
aquele problema dos papéis indefinidos. Antigamente era o homem que chegava
na mulher. Se o homem não fosse conversar com a mulher, a mulher não viria até
ele. Ponto final. Com certeza não iria. Paulo José, músico, solteiro, 35 anos.
110
Relatos da Vida Amorosa: a intimidade no contexto contemporâneo Sylvia Maria da Penha Cioffi
Por outro lado, entre alguns entrevistados mais novos, também foram percebidas
idéias mais conservadoras que as da geração precedente, que conquistou maior liberdade
sexual. A concomitância de opiniões e representações diferenciadas numa mesma geração
é considerada aceitável, partindo do pressuposto que qualquer processo social não existe
em um tipo puro na realidade. A questão que se coloca aqui aponta para a elucidação de
quais situações sociais permitem que parcelas da mesma geração e do mesmo estrato
socioeconômico vivenciem valores, muitas vezes, de modo antagônico. Afinal, todos os
entrevistados pertencem às camadas médias, mas, igualmente, fazem parte desse ou
daquele grupo profissional, cultural, intelectual, e isso determina a aceitação da mudança
ou o reforço de valores tradicionais. A resposta, portanto, está no pertencimento a grupos
diferenciados de uma mesma geração, quanto à trajetória vivida e ao universo simbólico
de suas famílias de origem. Assim, filhos de pais que tiveram participação política nos
movimentos de esquerda da década de 60 ou nos movimentos feministas tendem a ter um
universo simbólico mais voltado para os valores da mudança. Portanto, diante de uma
sociedade estratificada em classes e chaves de gênero, o pertencimento a um determinado
grupo determina gostos e estilos de vida (Bourdieu, 1983). Do mesmo modo, a diferença
entre condição e posição de classe
17
feita por Bourdieu (1974) pode constituir elemento
útil na análise dessas situações encontradas na pesquisa empírica.
Joana toca nesse ponto em seu relato, ao refletir sobre as contradições presentes
nos relacionamentos atuais. Em relação à iniciativa feminina na abordagem aos homens,
ela diz:
Acho que [os homens] ficam assustados. Vão para cama com ela, mas eles
pulam rápido fora. Porque essa mulher aí é exatamente como antigamente. No
fundo, os homens ainda são muito quadrados nesse aspecto. “Eu, hein! Depois
17. Bourdieu estabelece uma diferença entre condição de classe e posição de classe ao relativizar o perten-
cimento de classe do indivíduo como única chave de reconhecimento na sociedade. As propriedades de
posição são distinções significantes. Assim, “as diferenças de segunda ordem, vale dizer, as marcas de
distinção como duplicação simbólica dos valores de posição vinculados a cada posição na estrutura
social (a cada ‘nível’) dependem das atitudes que os agentes desenvolvem para se apropriar dos mode-
los da transmutação das diferenças em distinções, transmutação esta que depende principalmente da
educação dos agentes e, portanto, de sua condição e de sua posição estrutural”. (Bourdieu, 1974: 14).
111
Relatos da Vida Amorosa: a intimidade no contexto contemporâneo Sylvia Maria da Penha Cioffi
eu estou aqui em casa e ela vai sair, vai falar isso para outro cara em outra
festa”. Essa menina ninguém quer namorar com ela. Por isso que eu estou
falando que chegou numa situação louca que os caras vão na festa, querem
transar com as meninas, mas não valorizam nenhuma menina que transe com
ele. Voltamos à situação antiga, de um jeito louco. Pelo menos antigamente eles
tinham isso e não valorizavam as meninas e tinham uma namorada que ia casar.
Agora, como não tem isso, fica todo mundo sozinho. De vez em quando a
menina, dependendo da conversa que o cara tem, “Bem, esse é legal. Vou
transar com ele”. Na hora que ela topa transar, ele, “Essa menina aqui está só a
fim de transar. Eu, hein!”. É aquele cara que já está com medo de mulher e vê
uma menina que não tem vergonha de transar com o cara na primeira noite.
Foge de medo dessa mulher. Morre de medo de virar corno. “Essa mulher aqui
está bem resolvida. Não está com medo de transar comigo. Então, eu é que não
vou porque é capaz dela vir atrás de mim ou fazer uma cena.Ou me confrontar.
De repente vai que eu me apaixono por ela e ela transa com outro cara”. No
fundo, os homens têm medo das mulheres, eu acho. Porque são muito seguras,
mas também ninguém quer uma menina insegura. Por isso que eu acho que está
todo mundo reclamando. No fundo, ninguém se entende. Por incrível que
pareça os homens querem que as mulheres sejam duronas com eles. Querem e
não querem. Não querem que elas sejam, mas não valorizam se não forem. Fica
tudo sem saída. Se elas forem duronas, eles falam “Essa daqui está muito
difícil. Já vi que não vai transar comigo. Deixe largá-la aqui, porque já são três
da manhã já, e eu vou tentar ficar com outra”. Joana, médica pneumologista,
separada, 30 anos.
Já Eugenia e Laura abordam em seus relatos a banalidade dos relacionamentos
amorosos atuais:
Também hoje é tudo muito fácil, né.
Em que sentido?
Fácil porque tem muita gente no mercado. Porque está todo mundo disponível a
tudo. Estou generalizando, tá. Porque é mais fácil sair e conhecer uma pessoa,
ficar, beijar, transar, enfim.
Existe mais liberdade sexual?
Aí, cada um tem sua casa, tem sua vida, seu trabalho, enfim sua fonte de renda e
tu vai botar alguém no meio disso tudo? Será que eu vou querer isso na minha
vida tão arranjada, tão tranqüila, tão harmoniosa? Então, é mais fácil ficar com
uma pessoa aqui, uma pessoa ali. Acaba tudo sendo mais descartável, mais
plástico. Eugenia, comissária de bordo, separada, 32 anos.
Porque hoje em dia a mulher é muito fácil. Você faz assim [estala os dedos] e
aparece 15 na volta de qualquer homem e principalmente quando o cara tem
dinheiro. Então, eles não dão valor nenhum...
Tá difícil! Complicado. Com essa história da mulher ser independente, tudo é
liberal, tudo é muito bonito e menina de 12 anos transando. Que na minha época
112
Relatos da Vida Amorosa: a intimidade no contexto contemporâneo Sylvia Maria da Penha Cioffi
eu brincava de Barbie. Não pensava e tinha aversão a homem, com 12 anos. Hoje,
a gente vê que é completamente diferente. Laura, fisioterapeuta, noiva, 27
anos.
A fragilidade dos laços amorosos
Por fim, as histórias de vida afetiva do grupo de personagens mais jovens apontam
para um fenômeno comum a vários depoimentos, ou seja, a fragilidade de que se revestem
os laços afetivos na contemporaneidade. É interessante ressaltar que foi insistentemente
nomeado por vários depoentes, como causa do rompimento de uma ligação amorosa, a não
disposição do outro em assumir uma relação de caráter estável ou mais compromissado.
Isso ocorreu nos relatos de Laura, Renata, Vera, Simone, Joana e Ricardo. Embora, mais
característico das falas femininas ao denunciar um comportamento masculino, acredita-se
que a queixa abarque ambos os sexos. A fluidez dos relacionamentos atuais é tão marcada
que, em alguns casos, se tornaram usuais os rompimentos (ou nem sequer) sem palavras,
se é que se pode chamar assim uma relação abortada nos primeiros momentos de contato
com o outro. O comportamento reflete, ainda, a dificuldade de se colocar perante o outro.
Os relatos abaixo abordam explicitamente o fato :
Tempos depois eu comecei a me afastar um pouco do G. Eu tinha uma relação
conturbada com a mãe dele. Ele preferiu ficar com a mãe. Só que ele nunca
terminou. Simplesmente desapareceu. Pouco tempo atrás, ele me ligou e falei,
“Não tem mais nada para a gente falar. Acabou, acabou”. Renata, psiquiatra
infantil, solteira, 29 anos.
Laura relatou sua história com um namorado antigo, que desapareceu após meses
de relacionamento:
Não, não. Você quer ir embora e já que é assim. Você tem certeza? Eu queria te
trazer aqui porque eu me arrependi muito do que fiz com você. Sei que fui filho
da puta com você. Eu queria te pedir desculpas pelo que fiz. Na verdade, não tive
coragem de terminar com você porque você é uma pessoa legal. Mas eu não
estava preparado para assumir um relacionamento. Eu estava na gandaia, mas eu
via que você era uma menina séria, uma pessoa legal, uma mulher... Enfim, uma
pessoa para eu casar como sempre te falei. Mas eu vi que você foi se empolgando
e fiquei com medo daquilo e eu não sabia como “sair fora”. Mas ao mesmo tempo
eu sofri porque eu gostava de você. Daí eu te convidava para sair e ficava muito
feliz quando você falava que ia sair comigo. E o dia em que te liguei e você disse
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Relatos da Vida Amorosa: a intimidade no contexto contemporâneo Sylvia Maria da Penha Cioffi
que eu não prestava nem para ser seu amigo, eu refleti tudo que fiz com você. Eu
precisava muito falar com você. Eu não durmo tranqüilo”. Laura, fisioterapeuta,
noiva, 27 anos.
A falta de disponibilidade para um mínimo de encontro ou confronto é denunciada
por Joana:
Para escapar desse conflitinho o cara é capaz de transar com você, desaparecer e
nunca mais ligar no dia seguinte e assim cortou. A chance de você se encontrar
aqui em São Paulo é super pequena. Se achar que vai te encontrar numa festa em
que você é amiga de não sei quem, deixa de ir em duas ou três festas e não te
encontra mais. Eu fiquei impressionada quando fiquei pensando nisso hoje, por
acaso. Porque numa festa apresentei uma amiga para um amigo meu, uma prima
minha. Daí ela, “Adorei ele. Mas daí quando falei que não ia rolar nada. Falei
para ele me ligar no dia seguinte. Ele não me ligou”. Acho que é um pouco isso.
Não ligou por achar que a menina ia dar uma de durona, “Não estou a fim. Eu
quero fast food, mesmo”. Se ele não tiver a fim de namorar e sair duas ou três
vezes com elas. “Daqui a pouco ela tem o meu telefone, vai ligar e não quero
passar por esse conflito”. Os homens têm medo do compromisso e têm pavor de
briga. Por que o cara poderia chegar e, “Não me enche o saco”. “Não estou a fim
de você”. Têm pavor de ser confrontado por alguém!”. Joana, médica
pneumologista, separada, 30 anos.
Já Vera lamenta a indisponibilidade do namorado para uma relação “mais séria”
como define em suas palavras:
Era uma paixão no sentido da intensidade, do fogo do amor. Por outro lado tinha
uma consciência desse amor. Não era uma coisa impulsiva, paixão de
adolescência. Uma pessoa de vida adulta com amor junto. Para mim foi muito
legal. Eu me senti mulher de novo. Senti poder acreditar em estar junto com
alguém. E assim, podendo me dispor a esse estar junto. Porque até então por
muitos momentos ficou meio que sem poder, sem a credibilidade, sem a minha
própria confiança. E aí eu confiei. Mas por uma outra instância, por um outro
olhar ele estava de outro jeito. Ele foi uma pessoa que desenvolveu comigo, a
princípio. Mas quando começou a se dar conta da seriedade, e a gente começou a
envolver família de uma maneira muito rápida, aí assustou. Ele foi muito claro,
“Eu gosto muito de você. Quero estar junto com você, mas não quero te
machucar”. A minha história do casamento pesou [a entrevistada refere-se ao
noivado rompido por ela, pouco antes do casamento]. A confusão em termos da
responsabilidade. Do papel que não era dele. E o fato de não ter casado. Então ele
dizia para mim, “Vera, acho que nós estamos assim. você tem certeza do que
quer” – era o que eu dizia do tempo, do momento, anteriormente – “e eu ainda
não.“ “Eu tenho muito medo de continuar nesse envolvimento...” Porque ele
também estava se envolvendo, começando esse início da entrega. A minha
entrega foi um pouco mais intensa. Entrega de verdade. Até fui cautelosa. “Gosto
de você, sim. Quero ficar com você, sim. Mas eu tenho medo de não dar conta. E
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Relatos da Vida Amorosa: a intimidade no contexto contemporâneo Sylvia Maria da Penha Cioffi
daqui um ano ou dois e olhar para a situação e dizer ‘não, não quero me casar’.
Pra você vai ser uma segunda frustração”. Vera, psicóloga, solteira, 26 anos.
Simone igualmente referiu-se ao mesmo problema vivenciado com o namorado:
Eu acho que ele não quer se envolver. Acho não, eu tenho certeza. Agora, eu não
sei porque ele não quer se desprender de mim. Isso é uma coisa que a gente tem que
conversar e a gente não conversou ainda. Porque eu estou querendo envolvimento.
Eu acho difícil conseguir isso de uma pessoa que ainda está na faculdade e não está
pensando muito sério na vida, ainda. Não é impossível, mas é difícil.Em todas as
atitudes que ele me mostra, ele me mostra que não quer envolvimento. Só que ele
não se desprende e fica atrás. Nessa conversa. Na primeira conversa que a gente
teve séria, ele falou verbalmente. Tipo “Eu não que me envolver agora. Não é
hora”. E depois ele verbalizou o oposto, “Eu quero. Agora eu quero”. Na hora que
eu acho que ele viu que estava... Então, eu acho que ele não decidiu, ainda o que
quer e eu já decidi. Eu quero um colo. Eu estou procurando um relacionamento
estável. Se a pessoa estiver disposta, ótimo. Senão... Vamos procurar com calma.
Não é assim. Estou tranqüila. Nesse caso estou. Demorou para eu me desapegar.
Porque eu me apego fácil até. Mas... e demora para desapegar. Passo por um
processo até profundo. “Por que não quer? Não. Poderia dar certo com esse aqui”.
Mas na hora que eu me desprendo... A pessoa conquista de novo, lógico. Mas ela
tem que me mostrar. A hora que eu viro racional, “Vamos ser racional, agora!
Chega de sentimentalismo. O que está acontecendo? Está acontecendo isso, isso e
isso”. Aí...Simone, economista, solteira, 27 anos.
Laura adverte, ainda, que a mulher não pode demonstrar de forma clara seu
envolvimento com um homem, sob pena dele desaparecer rapidamente:
Você começa a namorar. Se você for muito certa, muito boa, demonstrar que está
muito apaixonada, ele cai fora e, ao mesmo tempo, se mostrar muita
independência, ele [também] cai fora. Ele [o homem] está perdido, ele não sabe
como ele age. Então, é complicado porque você não sabe como agir. Não pode ser
muito independente nem muito submissa. Laura, fisioterapeuta, noiva, 27 anos.
Em sua recente obra, Amor Líquido, que trata da fragilidade das relações humanas
na atualidade, Bauman (2004) atesta que o indivíduo de hoje se encontra ambivalente em
relação aos relacionamentos afetivos. Vive-se uma situação paradoxal: ao mesmo tempo
que os sujeitos parecem ávidos e aflitos por afeto, por encontrarem a mão amiga que lhes
trará conforto, desconfiam de forma abrangente das relações afetivas. Nas palavras do
autor,
relacionamento é o assunto mais quente do momento, e aparentemente o único
jogo que vale a pena, apesar dos seus óbvios riscos. (...) De fato, hoje em dia, as
atenções humanas tendem a se concentrar nas satisfações que esperamos obter
115
Relatos da Vida Amorosa: a intimidade no contexto contemporâneo Sylvia Maria da Penha Cioffi
das relações precisamente porque, de alguma forma, estas não têm sido
consideradas plena e verdadeiramente satisfatórias. E, se satisfazem, o preço
disso tem sido com freqüência considerado excessivo e inaceitável” (Bauman,
2004: 9).
A situação paradoxal vivida pelos indivíduos encontra sua expressão na enorme
quantidade de espaço reservada ao assunto na mídia em geral. E faz com que se pergunte o
porquê de tal visibilidade e insistência no assunto amoroso. Outro ponto a ser acrescentado
é que as visões veiculadas pela indústria cultural sempre reforçam o ideário do amor
romântico. Pode-se supor que as imagens de um romantismo exagerado estejam em
consonância com os anseios dos indivíduos; um exemplo claro são os altos índices de
audiência, de programas e novelas da televisão, que abordam o assunto e frequentemente
veiculam imagens de amores idealizados. A situação real é muito diferente das imagens
idealizadas, havendo de fato, dissociação entre idealização romântica e a fragilidade dos
laços pessoais vivenciados na atualidade.
Pode-se dizer que vigora a contradição: ao mesmo tempo que os indivíduos
esperam muito das relações amorosas, como refúgio para os males de um cotidiano
embrutecedor, e daí a profusão desse assunto na mídia, existe também por parte deles o
temor da possível perda de sua autonomia. Essa dubiedade é de difícil resolução.
Lasch (1983) aponta que os indivíduos aspiram cada vez mais ao desapego
emocional, diante dos riscos de instabilidade, inerentes às relações pessoais, denominando
esse fenômeno de “fuga ao sentimento”. Trata-se do desejo de manter relacionamentos
sem a amarra do compromisso, isto é, sem que haja cobrança, por um lado e o sentimento
da própria vulnerabilidade, de outro, o que se expressa no medo da dependência afetiva.
Vive-se uma época de desapego das paixões, na qual se mostrar cool, consiste num ideal
de comportamento e as intensidades afetivas estão totalmente fora de moda.
A geração intermediária
O grupo de entrevistados na faixa etária entre 38 e 49 anos é composto por duas
mulheres uma casada e outra divorciada com filhos; e quatro homens, dois casados e com
filhos e dois separados, sendo que um possui um filho e o outro não.
116
Relatos da Vida Amorosa: a intimidade no contexto contemporâneo Sylvia Maria da Penha Cioffi
O relato de Letícia enfoca as dificuldades dos vínculos amorosos contemporâneos
não só do ponto de vista de sua história, mas aborda também muito de seu cotidiano como
psicanalista e os problemas afetivos mais encontrados na clínica psicológica.
Eu passo o dia conversando com pessoas. Ouvindo, falando, interagindo, sentindo
emoções. Porque se eu não sinto, não trabalho, eu não entendo os meus pacientes
afetivamente. Porque não é só uma compreensão intelectual que eu tenho que ter.
Se eu não sinto? Eu sinto emoção o tempo inteiro. E já sou assim por mais análise
que eu faça. Que eu saiba precisa realmente existir um distanciamento, mas não
pode ser muito, porque senão o paciente não entra dentro de você e você não
compreende a dinâmica de trabalho. A psicanálise é basicamente isso. As pessoas
têm uma visão errada da psicanálise. Parece racional. O divã e o psicanalista
naquele distanciamento todo. Então, com o vinculo ele está sentindo. Acompanha
a vida. Você não pode inferir, não vai resolver, mas... O trabalho a posteriori só
fica sabendo na próxima sessão o que aconteceu. Não jogo búzios. Não posso
saber. Então, é um trabalho de uma delicadeza, de uma fineza quase artesanal.
Olha, a gente ouve de tudo, né. Existem os casados. Existem os solteiros. Existem
os divorciados. Existem os que querem se separar. Você ouve todos os tipos
possíveis e sei que as pessoas continuam querendo encontrar pessoas com as
quais podem compartilhar. Às vezes, com um ideal romântico um tanto quanto
fora da realidade. Como se não fosse haver necessidade de negociação, como se
fosse tudo muito fácil. Acho que se frustra rapidamente em função disso. Letícia,
psicanalista, casada, 43 anos.
A exigência do próprio espaço
Letícia fala, ainda, sobre os espaços de cada um na relação afetiva, referindo-se às
diferenças nas maneiras de ser entre ela e o marido, pontuando que para haver
entendimento é necessário que haja uma negociação. Fica patente em seu depoimento a
necessidade de espaços individuais e respeito às idiosincrasias do outro, características
dos vínculos afetivos contemporâneos:
Então, eu chego em casa esgotada, muito cansada, exaurida. É uma doação
[refere-se ao trabalho]. Permitir que o outro entre dentro de você emocionalmente
e nem sempre eu estou... e ele [o marido] está com todo amor para dar. Eu chego
cansada e nem sempre me entende, “Você está distante”. Não estou distante dele.
Só estou precisando de um distanciamento. Eu descanso na minha solidão.
Solidão para mim é necessária para a minha saúde mental, para eu poder me
repor, para as coisas assentarem. O silêncio... Só um tempinho... Não peço muito
para me reorganizar, me reabastecer. A solidão me reabastece de energia. Entrar
117
Relatos da Vida Amorosa: a intimidade no contexto contemporâneo Sylvia Maria da Penha Cioffi
em contato comigo mesma. Meu marido é de outra forma. Ele gosta de contato.
Ele descansa conversando. Eu descanso quieta. Então, a gente tenta se
estabelecer já que a gente se diverte e descansa de formas diferentes, apesar da
gente se gostar. Temos enfrentado uma grande dificuldade para poder estar
juntos, né. A existência da família... Apesar da sociedade ter mudado demais nos
últimos anos. A gente tentou a família conservadora. Na medida do possível a
gente tenta estabelecer algumas negociações. Também nem sempre eu o
acompanho para sair. Começa a me atordoar, muito barulho. No início, não. No
início eu achava que eu tinha que acompanhar. Aquilo não me fazia bem, sempre.
Não tinha que acompanhar. Não nasci grudada com ele. Eu tinha que ter um
espaço que era fundamental para mim. Não sei quem casa muito cedo, aos 20
anos, se acaba acostumando ou se não deu tempo para haver um desenvolvimento
maturacional adequado. Uma parte da identidade não se forma... Não sei. Letícia,
psicanalista, casada, 43 anos.
Já a história de Márcia parte do contexto de um casamento tradicional, nos moldes
de um chefe provedor e uma dona-de-casa e permite identificar os processos de mudança
por que passou a mulher nos últimos anos. De maneiras diferentes, ambas Letícia e Márcia
reivindicam espaços para si, a primeira em sua quietude e privacidade e a segunda em um
espaço para uma vida diferente em que se possa sentir mais realizada e afirmar sua
individualidade.
Quando eu me casei... Quer dizer, eu estava noiva quando nós começamos a
trabalhar juntos. Ele montou um escritório de contabilidade e eu fui trabalhar com
ele. Então, eu trabalhava fora mais ou menos. Trabalhava com o marido. Como
nós trabalhávamos por conta própria, quando E. chegou, eu tive a P. com 19 anos,
nós dávamos um jeito de conciliar. O que foi muito traumático e não me dei conta
na época dos resultados disso tudo foi que eu parei de estudar. Porque eu terminei
o 2º grau com 17 anos, mas já de casamento marcado. Como a gente não tinha
muita grana, tivemos que fazer algumas opções. Então, ele foi estudar e eu parei
de estudar. Eu ficava cuidando da P. e das coisas, nós não tínhamos empregada, e
ele saia para estudar à noite. Era uma vida bastante difícil para a gente e eu fiquei
5 anos sem estudar nessa brincadeira. Mas como dona de casa e dando a força
para o marido no escritório também. Eu só voltei a estudar em B. Saí daqui de
São Paulo e fui para B. A P. tinha um ano. Voltei a estudar ainda uns 4 anos depois
disso. Já estava grávida do L. quando voltei a estudar. E foram assim opções. A
questão da sexualidade foi muito forte nas opções que eu fiz. Porque eu me casei
virgem. Na Igreja não podia ter relacionamento sexual antes do casamento. E eu
despertei para a sexualidade nesse namoro, com meu marido e não podia transar e
eu queria transar. Hoje vejo que isso foi um fator preponderante para eu ter me
casado tão cedo. Na época eu devia estar entrando na faculdade e devia estar
exercendo a minha sexualidade com liberdade e tudo mais. O que eu fiz? Eu parei
de estudar e me casei. Isso foi uma ruptura muito forte. Que depois quando fui
ficando mais madura, foi aflorando essa opção que eu fiz. Eu não conhecer outros
118
Relatos da Vida Amorosa: a intimidade no contexto contemporâneo Sylvia Maria da Penha Cioffi
homens. De eu não ter tido liberdade na época. De eu não ter vivenciado certas
coisas. Uma coisa que me marcou muito foi o fato de ter começado a fazer teatro
e a família inteira era contra e o noivo era contra. Eles me pressionaram muito
para eu largar. “Coisas do mundo”, como dizia meu pai. E o F. com muito ciúme e
tal. Márcia, promotora de Justiça, divorciada, 45 anos.
Por esse relato, como era comum acontecer no casamento tradicional, vê-se que há
sacrifício dos anseios pessoais em favor da união, que era considerada o ponto central da
vida de uma mulher. Assim, como ilustra o depoimento:
Aconteceu um fato muito marcante. Foi o seguinte. Eu comecei a fazer uma peça,
“Morte e Vida Severina”, que fez muito sucesso. Eu recebi o convite para
trabalhar como atriz. Aí, a família ficou maluca com isso. Eu já estava noiva do F.
Um dia o F.entrou numa crise muito grande de achar, poxa! justo a mulher que ele
escolheu, a mulher para levar uma vida dentro daqueles padrões que a gente tinha
na Igreja [refere-se à Igreja Presbiteriana] quer fazer teatro? É uma loucura
isso!Então, um dia ele chegou e xeque-mate, né, ou eu ou o teatro. E eu escolhi
ele, né. Eu larguei tudo. Como eu era uma aluna brilhante e adorava fazer teatro...
Eu tive um professor fantástico de Literatura. O colégio que eu estudei aqui em
São Paulo, você optava entre Humanas e Exatas. Eu fiz Humanas, então eu tinha
Filosofia, Sociologia, Psicologia e Letras. Eu adorava essas matérias. Esse
professor que começou a montar o grupo de teatro para pegar os bons textos
literários e representá-los. Ele tinha um relacionamento muito próximo comigo.
Gostava e achava que eu tinha um futuro brilhante pela frente e essas histórias.
Tanto que quando decidi parar de estudar e casar, ele foi lá em casa, “Você está
louca? Você não pode fazer isso”. E essa história ficou toda para trás. Eu me
casei, parei de estudar, virei dona-de-casa que ajuda o marido no trabalho e essa
coisa toda até os 30, mais ou menos. Quando começou a vir uma angústia muito
grande. Uma angústia, uma angústia. E eu já estava formada. Tinha começado a
trabalhar em outro lugar. Trabalhei com meu marido até depois de formada em
Direito. Ele queria muito que eu trabalhasse na área de Direito Tributário para
fazer o casamento perfeito entre Contabilidade e Tributário. Eu estava me
sentindo muito e muito presa. Com vontade de outras coisas. Fiz um concurso e
saí, fui trabalhar. E essa angústia crescente. Aí, o que me marcou muito, e queria
te contar, foi um filme, “A Sociedade dos Poetas Mortos”. Menina, esse filme
mexeu comigo de um jeito, de um jeito. Vi na tela uma história parecida com a
minha. Quer dizer, eu tinha tido um professor muito marcante. Eu queria fazer
teatro e não pude. E algumas opções que eu fiz, comecei a questionar. Comecei a
questionar e depois que comecei a questionar eu não parei nunca mais. E meu
marido na história ficou muito inseguro com aquilo tudo e o casamento foi para o
brejo. Márcia, promotora de Justiça, divorciada, 45 anos.
Igualmente, o relato de Rodrigo aborda o tema do casamento tradicional, iden-
tificando a rapidez com que as transformações se colocaram no cenário social e reconhe-
cendo, também, a força do padrão da geração de seus pais:
119
Relatos da Vida Amorosa: a intimidade no contexto contemporâneo Sylvia Maria da Penha Cioffi
As coisas realmente mudaram muito de uma geração para outra. Na Idade Média
demorava 500 anos para acontecer alguma coisa. Na Índia por 5000 anos, não
mudou nada. E todos nós ainda somos filhos, ainda, dessa geração. Quer dizer,
meu pai, advogado. Minha mãe trabalhava como datilógrafa numa repartição
pública. Casaram e estão juntos até hoje. Meu pai saía para trabalhar de manhã e
voltava à noite. Minha mãe ficava em casa. Então, isso é um padrão. Posso negar
isso. A gente nega. Mas essa transformação extremamente rápida ainda tem um
monte de coisas no meio aí. Rodrigo, músico, casado, 43 anos.
Embora isso seja um fato, a maioria dos entrevistados do grupo etário intermediário
da pesquisa sugeriu a importância do estabelecimento ou surgimento de novas formas de
união, mais condizentes com os novos tempos. Tanto seus depoimentos, como as vivências
afetivas com seus companheiros, sugerem maior liberdade de opção e até criatividade em
estabelecer modelos diferentes do casamento tradicional. De todos os seis entrevistados do
grupo, Ivan era o único que vivia um casamento considerado, por ele, plenamente
satisfatório. Assim, na época da entrevista, Márcia saía de uma relação estável em casas
separadas; Letícia vivia conflitos em sua união e considerava que um casamento em casas
separadas seria mais vantajoso; Rodrigo mantinha uma relação de união estável, mas tinha
sua própria casa; Cássio e Ângelo já tinham passado por casamentos anteriores e estavam há
um bom tempo sozinhos, com namoradas esporádicas. Portanto, parece haver uma
predominância da valorização de vínculos heterodoxos entre esses personagens, que
sugerem, ou melhor, afirmam novas formas de cojugalidade.
Novas formas de conjugalidade
Quando se fala em novas formas de união é importante ressaltar o papel
desempenhado pela geração de 1960, que rompeu com os velhos padrões de
relacionamento, fato reconhecido por grande parte dos entrevistados, tanto homens como
mulheres. A ruptura conquistada por essa geração é o patamar a partir do qual se
estruturam os novos comportamentos na atualidade. Esse espectro inclui desde os
comportamentos dos jovens e adolescentes em relação ao encontro passageiro e
descompromissado, chamado por eles de “ficar” (sem intercurso sexual), o sexo livre
praticado entre homens e mulheres adultos, até novas formas de conjugalidade. Como a
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Relatos da Vida Amorosa: a intimidade no contexto contemporâneo Sylvia Maria da Penha Cioffi
seleção dos entrevistados privilegiou uma população adulta situada a partir dos 26 anos, o
termo “ficar”, tratado aqui como nova forma de relacionamento entre os jovens, que
tangencia as primeiras experiências amorosas, aparece no depoimento de Nuno, como
relato em relação ao comportamento do filho:
Essa molecada já encontra o terreno mais limpo, onde as escolhas podem ser
feitas com muito menos tensão. Aí tem aquela história do “ficar”, não tem
compromisso. Mas mudando de nome tinha um pouco disso na nossa época
também. Namora com uma aqui e com outro ali. Acabou? E caía do cavalo. Isso
acontece com essa molecada. “Tô ficando, tô ficando”. De repente você vê um
emburrado, porque queria uma relação mais aprofundada, com mais
compromisso. Aí, também o outro está querendo ficar e não sei o que lá e se deu
mal. Acho muito semelhante com o que acontecia com nós e comigo. Guardadas
determinadas características, não é muito diferente. Nuno, contador, divorciado,
58 anos.
Já Letícia fala sobre o assunto, a partir da experiência no consultório como
psicanalista:
Acho que os jovens têm uma experiência diferente, que é a questão do “ficar”.
Um descompromisso maior, que gera angústia. Eles não sabem o que está
acontecendo. Por mais que você ouça que é bom assim. Isso também gera certa
aflição, certa angústia. Vai ligar, não vai ligar. “Eu fiquei. Mas isso o que quer
dizer? No fundo eu gostaria mais do que ficar”. Você vai cutucando e encontra
um outro tipo de desejo e um outro tipo de expectativa. Acho que isso gera um
certo sofrimento. As relações são mais fluídas. Nem compromissos são. Então,
fica com um, fica com outro. Não é no sentido moral da coisa, mas da própria
expectativa. Muitas vezes é o desejo de um encontro. Vai para uma festa, vai para
uma balada, sempre com a expectativa de encontrar alguém. Passa semanas
esperando para ligar ou se vai ligar. Então, você acompanha esse tipo de
sofrimento. Coisa que você não vê no pessoal mais velho porque é outro tipo de
experiência. Muitas vezes de namoros longos, já na adolescência ou depois da
faculdade. Acho que há sim uma diferença e num espaço de tempo curto.
Letícia, psicanalista, casada, 43 anos.
Alguns relatos falam das novas formas de união, que são assumidas ou pensadas
como ideais. É o caso de Rodrigo, em depoimento já explicitado anteriormente, e Letícia.
O primeiro vive uma relação de casamento em casas separadas e a segunda citou essa
forma de união como vantajosa.
As pessoas têm um pouco mais de liberdade dentro daquilo que está dentro da
própria fórmula, penso. Porque necessariamente é mais saudável estar morando
junto, que um casal que mora em apartamentos separados? Fico pensando nisso.
121
Relatos da Vida Amorosa: a intimidade no contexto contemporâneo Sylvia Maria da Penha Cioffi
Há uma maior dificuldade? As pessoas não estão mais procurando compartilhar?
Eu questiono um pouco isso, sabe. (silêncio) Se pode ser bom em casas
separadas. Acho que é mais saudável você assumir o que é. Tem pessoas que não
gostam de ficar compartilhando, viver junto. Letícia, psicanalista, casada, 43
anos.
É interessante ressaltar no depoimento de Cássio o contraponto que ele faz entre os
novos tempos e o período de sua adolescência e juventude. Ele refere-se à
contemporaneidade como um período de perda da inocência. O que o entrevistado percebe
como a inocência de um período anterior, pode-se dizer que é, hoje, resultante do
contraponto de uma sociedade organizada cultural e economicamente em formas mais
complexas, características da modernidade avançada.
Assim, em suas palavras, as relações amorosas eram mais “ingênuas” (menos
complexas):
Acho que mudou, mudou sim. Antes tinha uma coisa assim, ingênua na nossa
adolescência. Uma coisa da descoberta. Hoje, já vem pronto. Não tem que
procurar, tatear no escuro, aquela de encostar o cotovelo, dos bailinhos de
garagem. Não existe mais isso. O cineminha era legal. Armar situações para, de
repente, roubar um beijo. Não existe mais isso. Era essa molecagem que eu
achava que era saudável. Hoje vem pronto. Acho que a molecada se cansa logo. E
mais tarde tem um outro componente também que eu acho legal. A gente, na
minha adolescência, tinha aquela história dos hippies, do amor livre. Hoje a
molecada “fica”. Eu acho um barato. Assumir uma coisa que a gente sempre quis,
mas também a gente não soube lidar muito. Foi uma revolução brigar com os
pais. ...Eu fui outro dia num bar em Moema, freqüentado por um pessoal dos 20,
30 anos de idade. Casal já formado, com filhos. Gente bonita de classe média e
tal são swingers. Que é o que a gente propunha na adolescência do amor livre,
paz e amor. Eles lidam assim de uma forma... O bar é aberto para a rua. Não é
nada escondido. O pessoal ali mesmo se propõe. Aí, no outro bar, que é fechado,
rolando uma festa swing. Eu achei interessante esse tipo de comportamento.
Parece mais autêntico, mais sincero principalmente para essa geração que está
vindo após a gente e que tem idade de nossos filhos. Acho interessante a forma
como eles vivem. Acho que vivem de uma forma mais aberta. Coisa que ainda a
gente questiona. Coloca muito tabu e preconceito, mas ao mesmo tempo fica
curioso. Acho hipócrita. A gente lida de uma forma hipócrita. Mas... interessante,
eu acho. Cássio, arquiteto, separado, 48 anos.
Essas reminiscências citadas por Cássio remontam a uma época em que os
comportamentos e os papéis de gênero obedeciam a padrões mais rígidos e eram emba-
sados em valores unívocos. Portanto, os relacionamentos afetivos eram pautados por esses
122
Relatos da Vida Amorosa: a intimidade no contexto contemporâneo Sylvia Maria da Penha Cioffi
valores. Mesmo o envolvimento amoroso era uma experiência pessoal e até “cultural”
valorizada, como aponta Costa (1999) e a ruptura com esses valores, iniciada na época,
tinha o sabor do proibido ou da transgressão.
Os impactos da mudança tecnológica nas relações pessoais
Outro tema, objeto da fala do grupo de entrevistados da faixa etária intermediária e
presente em vários depoimentos, foi o impacto provocada no cotidiano das pessoas pelas
mudanças tecnológicas dos últimos anos. Essa geração intermediária, já adulta na época,
testemunhou o advento de mudanças tecnológicas importantes, como o computador
pessoal, o telefone celular, o vídeo cassete, o DVD, etc. Esses depoentes viveram sua
primeira juventude sem contar com esses recursos da tecnologia e observou-se, pelos
depoimentos, que essas transformações também reverberaram nas formas de sociabilidade
dos indivíduos. Assim, no passado recente, as relações interpessoais ocorriam de modo
mais direto, sem contar com o auxílio de correios eletrônicos e novas formas de contatos
via rede computacional. É justamente nesse segmento etário que o tema é mais presente
nos relatos.
Assim, como diz Cássio:
Não tinha Internet, não tinha vídeo cassete. A televisão para pegar era o cão.
Quando você enxergava alguma coisa além de chuvisco era uma maravilha.
Acertar o Rin-tin-tin. Pois é. Uma coisa ingênua. O cachorro e o homem. Hoje,
senta porrada em todo mundo. Schwazenegger elimina todo mundo com um
monte de arma. E isso que é legal. É só andar na rua que você vê um monte de
Schwazenegger. Eu acho que perderam os valores éticos, morais. Sei lá. Cássio,
arquiteto, separado, 48 anos.
Ângelo manifesta descontentamento com as sociabilidades contemporâneas, ao
afirmar que, antigamente, as relações eram mais estreitas entre as pessoas, quando não
havia o computador e as crescentes necessidades criadas pela sociedade de consumo:
Essa coisa do computador, né. Você compra o computador. Mal você terminou de
ler o manual, você está atrasado. Você tem que comprar um modem ou não sei o
quê e a velocidade e você põe o Speed e vem e faz você comprar não sei o quê. E
é tudo vruuuumm! muito rápido. Isso faz com que o ser humano não tenha tempo
123
Relatos da Vida Amorosa: a intimidade no contexto contemporâneo Sylvia Maria da Penha Cioffi
para curtir as suas emoções. Aí vem o afetivo, vêm as relações. É um mingau, né,
você tem que mexer. Você põe leite e fubá. Não, não. Agora é leite e Nescau.
Não, agora saiu um outro produto. Não dá tempo de curtir aquele prato e
saborear. Um pouquinho de pé no freio. Calma! É o que temos é essa velocidade.
Acho que o caminho vai ser, talvez, descobrir um eixo novo. Uma nova via aí.
Que não vai ser nem tanto aquela relação de antigamente. O macho... A fêmea
fica em casa na cozinha e nem essa mulher que acha que pode tudo. Que é
independente.
Essa praticidade de computador, de tecnologia. Hoje é tudo muito rápido.
Inclusive as relações. Então, o prazer tem que ser rápido. As pessoas estão muito
sem aquela paciência do paquerar, do olhar, de não sei o quê, de chegar, de ir
conquistando e saboreando. Quando se vê, aí já está envolvido.
Você chega na sua casa. Chegou do trabalho cansado. Toma um banho, janta,
“Ah, vou abrir a Internet”. E a internet é um mundo que a pessoa vai com esse
exercício de ficar 3 horas na frente do computador. Quando você olha, passou;
estou cansado, vou dormir. Num primeiro momento, essa coisa da Internet, as
pessoas mandam piada e vai e vai. É um movimento, é um parceiro, é um
namorado. As mulheres começaram a namorar o computador e os homens
também. Mas mais as mulheres nesse ponto do que estou falando agora. Estou
falando da mulher, né. Só que hoje em dia sinto que as pessoas estão começando
a ficar irritadas com o computador. Começando a cansar desse filho da mãe. Hoje
em dia ninguém mais conta piada. “Você recebeu aquele?”. “Recebi”. “Ha, ha,
ha!”. Então, perde o humano. Perde o contato. É isso que eu defendo a vida
inteira. Eu sou tradicional nesse ponto. Tem essa coisa de jogar pôquer sempre.
Tem um bar que eu sempre vou com um amigo. É um bar balcão, que é um bar
que freqüento. Chega lá é sentar para conversar. Em vez de ficar no telefone ou
mandando e-mail. Vamos sentar num bar, tomar cerveja. É o contato humano.
Não quero ficar mandado e-mail e uma frasinha, “Oi! Como é que você está?
Tudo bem?”. Ângelo, músico, divorciado, 40 anos.
O que está em jogo aqui é como, hoje, os relacionamentos são construídos
hedonisticamente auxiliados pela mudança tecnológica. O que a tecnologia possibilitou
foi trazer o virtual para o real. Ou seja, o virtual trazido para o plano do real e imediatizado
em relações efêmeras.
Em vários trechos do seu depoimento, Ângelo refere-se às formas de sociabilidades
passadas, em que as pessoas se viam mais freqüentemente, faziam mais festas e, segundo
ele, tinham maior disposição para o contato. Ele estabelece uma causalidade entre essas
disposições e a maior probabilidade do encontro afetivo entre os indivíduos.
Porque a sociedade vai chegar num novo... porque eu... Mesmo essa coisa do
homossexualismo crescendo no mundo. Teoricamente, você fala assim, é uma
124
Relatos da Vida Amorosa: a intimidade no contexto contemporâneo Sylvia Maria da Penha Cioffi
grande novidade. E é. Trinta anos atrás quem ia falar que era homossexual. Hoje
em dia... Agora, não vai ser, não é essa via, eu acho. Estou falando de relação
homem-mulher. Vai chegar um tempo que, espero, esse movimento que já está
acontecendo de “Não me mande mais piada pela internet”. “Não me manda mais
correntes”. Vamos nos escrever menos e nos ver mais. Espero que o caminho seja
por aí. Voltar a curtir juntos, amigos, rodas, festas. Vamos curtir juntos um novo
disco que lançaram. Vamos fazer a festa dos anos 30, dos anos 60. Vamos voltar
ao exercício. As pessoas estão fazendo menos festas hoje. Isso para mim é o
reflexo... e não é por faixa etária. É que hoje você está mais velho. Não é. Porque
como eu sou caçula, freqüentava festa sempre dos mais velhos. As pessoas estão
fazendo menos festas. Fico em casa. Não é por um negócio de grana. Porque as
festas nunca tinham grana. Cada um levava uma bebida e já era uma festa. Não
tinha motivo para festa. Era a festa da inauguração do filtro. Todo mundo tinha
que chegar lá e tomar um gole d´água do filtro. Fazer festa por qualquer coisa,
qualquer motivo. Essa coisa do coletivo. A necessidade das pessoas dançarem
juntas. Eu tinha, no mínimo, 40 festas por ano. Hoje em dia, dá para contar nos
dedos, fora aniversário e mesmo aniversário foi mudando. Antes tinham uns
aniversários que davam um festão. Mas festa independente de aniversário, de
data é coisa rara. Eu lembro que festa junina em sítio, aqui em São Paulo, na casa
das pessoas era assim, tinha dia que eu passava em três festas. Hoje em dia não
tem isso. Não tem festa junina mais. Olha que louco a individualização. Ângelo,
músico, divorciado, 40 anos.
Amores virtuais
Diante desse relato, identifica-se outro fato corolário, relativo às formas de contato
pessoais inauguradas pelos meios eletrônicos. A questão que pode-se dizer, está na ordem
do dia dos relacionamentos contemporâneos e foi abordada pelo grupo dessa geração, é o
fenômeno do que se chamará aqui de amores virtuais. Esse fenômeno é tratado por
Bauman (2004) com brilhantismo e fina ironia. Não é desprezível o papel desempenhado
pela Internet, na vida cotidiana dos segmentos da classe média intelectualizada, Cada vez
mais, indivíduos dedicam boa parte de seu tempo de lazer aos contatos via rede,
transformando as territorialidades, mundo afora. Assim, inauguraram-se novas formas de
proximidade virtuais, como amizades e namoros, acionadas eletronicamente. As
conseqüências dos novos modos de sociabilidade criados pelo ambiente virtual não foram
ainda inteiramente abordadas pela literatura sociológica, constituindo um novo território
de estudo.
125
Relatos da Vida Amorosa: a intimidade no contexto contemporâneo Sylvia Maria da Penha Cioffi
Essa forma de relacionamento, se é que se pode chamar assim, torna-se um
anteparo entre o indivíduo e a realidade, possibilitando um canal para realizações
imagéticas idealizadas entre as pessoas. No dizer de Bauman
as conexões tendem a ser demasiadamente breves e banais para poderem
condensar-se em laços. (...) e estão protegidas da possibilidade de extrapolar e
engajar os parceiros além do tempo e do tópico da mensagem digitada e lida – ao
contrário daquilo que os relacionamentos humanos, notoriamente difusos e
vorazes, são conhecidos por perpetrar (Bauman, 2004: 82).
Todavia, se esses contatos virtuais podem vir a ganhar em freqüência, como muitos
diriam, perdem em profundidade e tornam-se banais e se, ainda, exigem menos tempo e
esforço para serem estabelecidos, o mesmo deve ser dito em relação aos rompimentos, que
podem ser efetuados com um simples apertar de uma tecla.
A realização mais importante da proximidade virtual parece ser a separação entre
comunicação e relacionamento.
Diferentemente da antiquada proximidade topográfica, ela não exige laços
estabelecidos de antemão nem resulta necessariamente em seu estabelecimento.
‘Estar conectado’ é menos custoso do que ‘estar engajado’ – mas também
consideravelmente menos produtivo em termos da construção e manutenção de
vínculos” (Bauman, 2004:82).
Essas mesmas conexões foram encontradas na pesquisa empírica. As relações
virtuais funcionam como uma espécie de anteparo entre o sujeito e o mundo, como pode
ser percebido nos relatos a seguir:
Quando eu comecei a entrar na Internet... Eu adoro. Aí, eu comecei a entrar
nesses chats e essas coisas. Um dia eu estava em casa, conversando com uma
pessoa e conversava e conversava. Super interessante. A gente falava um monte
de coisa. Aí, eu perguntei, O que você faz?”. “Eu sou jornalista do Valor
Econômico”. Falei, para a V., “Ele é jornalista”. “Que jornalista! Deve ser
jornaleiro”. Acabou na hora todo o meu encanto. Poderia ser verdade.
Você não marcou encontro?
Não. Morro de medo. Virtual é virtual. De estar só na Internet. Nunca marquei de
encontrar ninguém. Acho que é preencher o tempo e acaba sendo mais fácil do
que ler, sei lá. Mas foram coisas assim de conversar duas, três vezes. Nunca tive
nada muito extenso na Internet. Eu tenho medo.
126
Relatos da Vida Amorosa: a intimidade no contexto contemporâneo Sylvia Maria da Penha Cioffi
Medo de quê?
Medo de chegar e ser um louco. Esse medo dessa coisa macro de São Paulo. Não
saber quem são as pessoas, que família. Não a família no sentido de Tradição,
Família e Propriedade. No sentido assim, “Será que tem uma boa índole?”. Será
que não é um traficante?”. Pode ser muito mirabolante da minha cabeça. Eu tenho
medo de me envolver. Até porque se acontecer alguma coisa comigo, até minha
família sentir a minha falta. Porque eu posso ficar uma semana longe da minha
casa. Não é verdade? Eugênia, comissária de bordo, separada, 32 anos.
Quero conhecer alguém, vou entrar num site. Ah, porque São Paulo. Eu não tenho
o menor desejo de entrar numa brincadeira dessa. Nem essa questão da
sexualidade, de site pornô. Ou mesmo revista de mulher pelada, às vezes um
amigo me manda e eu acho a foto legal. Mas nunca me masturbei pensando
numa... olhando para uma revista ou num site. Até a masturbação que é um outro
ponto importante na sexualidade das pessoas. É tão legal o imaginário, é tão legal
você construir suas fantasias, os seus sonhos, que delícia! Agora, você precisar
entrar num site, eu acho o retrato da falta de dar a cara para bater. Porque é muito
fácil dentro do seu computador ficar ali trancadinho e eu entro ali e eu falo, “Eu
vou comer a sua boceta”. Eu escrevo “Eu quero te foder. Manda resposta”. Às
vezes, as coisas que o cara tem vontade de falar, numa cama, e não fala por pudor
e não sei o quê. Aí ele trancado, é muito protegido. Esse mundo acaba criando
possibilidade de errar, zero; de passar vergonha, zero. Assim se perde um pouco
do sentido do mundo. Essa experiência minha de teatro e de música ensina isso.
Vamos dar a cara para bater! Ângelo, músico, divorciado, 40 anos.
Existem os relacionamentos pela Internet, o que é curioso. Que dificuldade a hora
que é para marcar um encontro, que é para se ver, sentir o cheiro do outro. Não
conheço pessoas assim. Conheço mais distantes de mim e até casaram através da
Internet. Mas é uma coisa distante. Letícia, psicanalista, casada, 43 anos.
Nessa mesma vertente, outro ponto abordado nos relatos, foi o caráter de
urgência que contaminou a vida cotidiana das pessoas, que agora também se estende aos
relacionamentos. Existe também outro aspecto dessa questão relativo às descon-
tinuidades do tempo e espaço, levadas ao extremo, na grande rede mundial da Internet.
Assim, a velocidade da vida na modernidade avançada e as descontinuidades
geográficas de tempo e espaço foram aspectos abordados de forma recorrente pelos
informantes e funcionam como uma estrutura subjacente aos relatos dos entrevistados.
Homens e mulheres referem-se, constantemente, ao curto tempo, em oposição ao longo
127
Relatos da Vida Amorosa: a intimidade no contexto contemporâneo Sylvia Maria da Penha Cioffi
prazo, do passado, em que havia um lugar mais previsível para os projetos mais
permanentes. O tempo mudou, ficou escasso. A sociedade globalmente mercantilizada
impõe um ritmo que condiciona a formação de iguais, no tocante à aspectos da vida
cotidiana e subjetiva, incidindo na percepção comum dos indivíduos. Ângelo e Letícia
referem-se a essa questão:
A poesia. O sonho dos anos 60 de... A luta. A gente pára para pensar hoje o Brasil
musicalmente. Referências musicais, ainda Chico, Caetano e... Quem apareceu
nos últimos 30 anos? Ao mesmo tempo, os casamentos começaram a despencar
cada vez mais. O número de pessoas se separando. Porque o mundo com isso
mexeu, um pouco, no ritmo, na velocidade. Essa praticidade de computador, de
tecnologia. Hoje é tudo muito rápido. Inclusive as relações. Ângelo, músico,
divorciado, 40 anos.
Eles [homens e mulheres] não dão tempo. Não têm tempo para mobilizar o
desejo. Se criar um certo mistério. O desejo se desenvolve através do mistério. A
hora que você desnuda tudo... É tudo tão rápido. O relacionamento precisa de um
tempo. “Olha como essa mulher é interessante”, ”Como será que é?”. É jogar um
pouco da conquista. Um certo mistério. É uma época rápida, então, tudo tem que
ser rápido. Terapia tem que ser breve. Doze, dezoito sessões. (...) Mas é uma
demanda por tempo. Tem que ser tudo rápido. Rápido e descartável. Um
relacionamento não dá para ir construindo. Como você vai construir um
relacionamento com rapidez, com imediatismo? Você me passa um e-mail, eu
passo um e-mail para você. Não é assim. Há uma falta de fôlego, tamanha a
urgência. A urgência! Não dá tempo para mistério, curiosidade. Aquele joguinho.
Tudo de uma urgência. Perde o encantamento. Até precisa do encantamento para
depois... Mas não dá tempo. A gente está numa época de ritmo diferente. Então, a
noção de ritmo e tempo é outra. A que ponto isso não permeia a subjetividade?
Letícia, psicanalista, casada, 43 anos.
A geração mais velha
O grupo da geração mais velha deste estudo é composto por personagens na faixa
etária entre 49 e 60 anos. Eles testemunharam as significativas transformações que se
deram na sociedade brasileira, nos últimos trinta anos. Todo esse contexto de mudança
pode ser observado como pano de fundo de suas histórias. Destaca-se, assim, a
participação da mulher no mercado de trabalho, que se incrementou nesse período, seu
acesso à universidade e a conseqüente melhora da qualificação para o mundo do trabalho.
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Relatos da Vida Amorosa: a intimidade no contexto contemporâneo Sylvia Maria da Penha Cioffi
Os protagonistas das mudanças
Cumpre ressaltar que parte da geração dos anos 60/70 participou ativamente nos
movimentos de esquerda e contra-cultura no país, bem como presenciou a valorização do
engajamento político e a ascensão dos valores de cunho social. Esse cenário permeia os
depoimentos de Leandra, Maria Eunice e Nuno. Na época, Maria Eunice trabalhou num
jornal alternativo de esquerda e Nuno participou ativamente de uma organização de
esquerda, tendo vivido um longo período na clandestinidade. Nuno e Leandra contam:
Eu não queria ter filhos. Até porque era uma situação extremamente por conta da
militância. Uma situação extremamente precária e perigosa. Nessa época tinha uma
vida dupla. Toda uma parte da vida era clandestina, mesmo. Não era brinquedo.
Você sabe. Nuno, contador, separado, com uma relação estável, 58 anos.
É assim, olha. Acho que faço parte de uma geração que foi uma geração que
quebrou valores. Eu abracei a Revolução. Eu tinha 19 anos. E a Revolução para
mim significou muita coisa. Não era só a Revolução Socialista, Comunista,
política e social. A Revolução era uma revolução de costumes. Era uma revolução
sexual. Era a conquista da independência da mulher. Até hoje eu queria parar de
fumar e é uma coisa difícil parar de fumar. Muito difícil porque o cigarro é um
emblema disso. Eu vim do interior par São Paulo. Vim em 1969. A repressão
estava muito forte, mas eu não tive medo da repressão. Preferi enfrentar a
repressão do que ficar acuada e entrar num bar e no balcão pedir um café e fumar
era o máximo. Era um ato de liberdade. Um ato de emancipação. Isso para mim
era tão bonito, tão revolucionário, tão diferente do que era P. [cidade do Interior
da qual é originária] que é a minha cidade. Então, esse cigarro, o café no balcão
do botequim. Tinha que ser bar com balcão. Botequim bem chinfrim. Isso foi uma
coisa fantástica. Um dos desafios que me coloquei foi perder a virgindade (risos).
Foi perder a virgindade. Então, eu cheguei aqui em São Paulo determinada. Quer
dizer, não cheguei determinada. Fui me determinando, assim, nos primeiros
meses. Mas cheguei aqui muito a fim de mudar de vida, de mudar de jeito de ser,
de mudar de modo de pensar, de me livrar das amarras interioranas, provincianas,
do moralismo cristão, católico. Estudei em colégio de freira. Cheguei aqui com
sede e vivi tudo que se apresentou para mim. Fui viver. Aí, eu tinha que perder a
virgindade e foi uma coisa muito bonita que aconteceu comigo. Eu tive a
felicidade de ir morar numa pensão que tinham moças mais velhas do que eu.
Elas estavam fazendo pós-graduação. E a M., que era lá da minha cidade, meio
que tomou conta de mim. Ela quase que me foi uma tutora porque dizia para
mim, “Tá, bom! Você quer cair na vida, né. Tá certo. Mas tem que ter
consciência”, ela dizia. Ela me levava ao Teatro Municipal para ouvir música
clássica que eu nunca tinha ouvido, assim, ao vivo na vida. Ela mandava eu ler
livros e tal. Quando ela percebeu o meu desejo (risos) de perder a virgindade, ela
falou assim, “Oh! Pequenininha”, era o meu apelido lá na pensão, “Você tem que
ler o Eric Fromm, um livro chamado Medo à Liberdade”. Eu li Eric Fromm
(risos). E ela tomou a lição depois. Para botar na minha cabeça que eu podia fazer
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Relatos da Vida Amorosa: a intimidade no contexto contemporâneo Sylvia Maria da Penha Cioffi
tudo que eu quisesse contanto que eu tivesse consciência do que eu estava
fazendo e tal. Leandra, antropóloga, professora universitária, separada, 53
anos.
Maria Eunice fala da quebra dos padrões morais vigentes e da conquista da
sexualidade livre por sua geração:
O processo de mudança é muito grande. A nossa geração se propôs a fazer essa
mudança pessoalmente. Nós vamos viver o amor livre. Nós vamos pensar de outro
jeito. Nós vamos revolucionar os costumes. Nós vamos mudar. Mudou muito
pouco. Acho que teve um certo esforço, mas o preço é muito alto e todo mundo
voltou para trás. Porque sofre muito. É você contrariar todos os seus sentimentos e
construir uma coisa nova que não sabe o que é e se vai ser melhor ou não. Você
acha que vai. Não é uma construção isolada. Ela não pode ser solitária. Acho que
essa questão do ciúme, da traição. Está ligada a esse arcabouço antigo. Acho que o
desafio de superar isso é um desafio social. Tem que começar em algum momento.
Maria Eunice, arquiteta, divorciada, 57 anos.
O relato de Leandra, reproduzido a seguir, traz à luz, de forma resumida, toda a
trajetória de uma geração. Como a escolaridade dos filhos se tornou um valor social, para
as famílias de classe média da década de 60, em consonância com as oportunidades
abertas pelo desenvolvimento social e econômico da época, o magistério, como carreira
feminina, era altamente incentivado pelas famílias como forma de conjugar carreira com
obrigações domésticas, concernentes às mulheres (Cf. Vaitsman, 1994; Romanelli, 1986).
A geração de mulheres que foi para a Universidade rompeu, em parte, com essa
profissionalização segundo os modelos de gênero, idealizada, muitas vezes, pelos pais.
Eu acho que [o papel do homem e da mulher] mudou sim e nem sabem direito o
que fazer com isso. A minha mãe dizia assim, para mim, que era para eu fazer
escola normal, para ter uma profissão de professora primária porque se eu
precisasse ajudar o meu marido, seria uma boa profissão da professora primária,
porque trabalhava meio período e podia cuidar da casa, dos filhos, do marido e
tal. Não atrapalhava o andamento da casa e aí você trabalhava e ganhava um
dinheirinho, para ajudar o marido. Eu acabei indo para a universidade e não sei o
quê e tal. Eu não trabalhei para ajudar marido nenhum. Eu trabalhei para me
sustentar, porque eu tinha que me sustentar. Eu tive um marido que me
abandonou e eu tinha que me sustentar e ponto final. Quando eu casei de novo eu
já tinha uma profissão. E até foi o inverso, eu que sustentava a casa. (risos) O
meu dinheiro era mais importante que o dele. Aí ele se formou e tal. Depois
inverteu um pouco. A gente dividia despesas, eu pagava umas contas e ele outras
e tal. Acho que isso é um motivo de confusão na vida de casada. Era um pouco
sim, uma certa confusão de papéis, de coisas. Principalmente de papéis. Quem é
o homem? Quem é a mulher? Porque desmancha a referência do papel. Ao
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Relatos da Vida Amorosa: a intimidade no contexto contemporâneo Sylvia Maria da Penha Cioffi
homem cabia o maior salário, pagar todas as contas, bancar tudo e tal. À mulher,
o papel de coadjuvante. Então, quando você ganha tanto ou mais que o marido a
referência de papel inverte, embola um pouco. Quando o meu marido começou a
ganhar mais do que eu resolvi comprar móveis, trocar os móveis na casa e tal. Ele
ficou bravo. Ficou muito bravo comigo. Falou que o dinheiro dele não era para
isso. Que ele ia ajudar a mãe dele. Ele era danado. Ele era triste. (risos) Nem sei
porque eu gostava tanto dele. Mas ele ficou bravo, ficou incomodado. Então, a
gente não sabe lidar com isso, porque não está prescrito. Não tem uma coisa
prescrita. Olha, daqui para frente e tal. Daí o cara pega e vai embora de casa e
ponto final. Como pai ele tem que se encarregar de algumas coisas da filha dele.
Óbvio. Mas eu tenho que dar a metade senão ele fica bravo se eu não der a
metade. Por que ele não pode dar tudo? Então, é muito confuso. Eu acho assim,
muda, porque mudam as referências dos papéis de marido, de pai, de mãe, de
mulher e tal e a gente não tem nada construído. Acho que a gente está construindo
ainda, né. Meu marido trocou fralda de criança, fez papinha, lavou louça, limpou
banheiro e até roupa ele foi lavar quando foi preciso. Ele não se recusou a isso.
Mas estava querendo inverter também. Ele ia virar mãe e eu pai. Aí eu não quis.
(risos) Eu me lembro disso. Minha filha era muito pequena. “Epa! Péra lá. A mãe
aqui sou eu. Não vou abrir mão também do meu papel de mãe”. É engraçado. Eu
acho que isso aí é uma confusão. Leandra, antropóloga, professora
universitária, desquitada, 53 anos
O caráter transitório das uniões na contemporaneidade
Muito já se falou sobre a crise do casamento e da família na sociedade brasileira.
Mas, as pessoas continuam querendo unir-se a um parceiro e a família ainda constitui
refúgio importante, numa sociedade em que os laços de solidariedade tornam-se cada vez
mais frágeis. Hoje, no entanto, há uma maior flexibilização das biografias amorosas, tanto
para homens como mulheres, coexistem inúmeras formas de conjugalidade, colocadas no
horizonte social. Em pesquisa recente com a classe média carioca, Goldemberg (2004:80),
afirma que “o que estaria em crise seria uma determinada forma de família e de
casamento.” A autora ressalta o fato de que “o modelo hegemônico permanece como um
valor enraizado em cada um”, fazendo com que as pessoas que não se submetem a ele se
sintam, ainda hoje, como.
Assim, o modelo dominante de casal ainda impera, fortemente, como valor social,
o que faz com que as pessoas sozinhas, se percebam como “diferentes”, comportamento
que toca muito mais às mulheres, do que os homens. O depoimento de Ivana, que vive a
condição de solteira como “inadequação”, é exemplar:
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Relatos da Vida Amorosa: a intimidade no contexto contemporâneo Sylvia Maria da Penha Cioffi
Às vezes a pessoa não está junto porque tem interesse ou porque ela gosta, mas
porque ela tem que ter alguém que esteja junto, que queira, para ela se sentir
melhor como pessoa. Menos inadequada. Eu luto contra isso. Não acho certo, eu
querer arrumar alguém, qualquer, que seja para eu me sentir socialmente mais
aceitável. Eu sou solteira. Nunca na minha vida casei. Eu não tenho filho. Então,
se eu tivesse um cara seria mais normal. Racionalmente, eu luto contra isso
porque eu não acho isso correto. Hoje em dia tenho certeza eu não preciso mais
disso. De eu socialmente ser diferente. Não ser bem aceita, alguma coisa anormal
existe em mim, porque não dei certo. Quando eu vejo os caras da minha idade,
solteiros, também acho que deve ter alguma coisa errada. Entendeu? Pode ser
uma pessoa, que seja que nem eu, que não foi dando certo. Mas eu não quero um
cara para falar, “Eu estou com um cara”. Mostrar para as minhas amigas, que
tenho um companheiro. Que eu consigo conquistar alguém. Que eu tenho alguém
para desfilar, como meu acompanhante. Eu vou às festas sozinha. Estou sempre
sozinha. Eu viajo sozinha. Porque, quando estou trabalhando tenho contato com
muita gente. Não tenho dificuldade de fazer amizade. Minha família é muito
bacana. Eu tenho uma boa família. Então, isso é minimizado. Estou sempre
sozinha e o que vou fazer? É a verdade. Não preciso mascarar essa verdade. O
que isso vai me trazer de benefício? Eu vou sozinha em todos os jantares. Eu vou
viajar sozinha, de ficar 15 dias, sozinha. Mas eu não acho que eu tenha que deixar
de viver por causa disso. Eu gosto de história, arqueologia. Eu leio. Eu me ocupo.
Mas agudamente consciente [de] que estou sozinha e que tenho que batalhar para
me sentir bem, apesar de estar sozinha, de não ficar sofrendo o tempo todo.
Lógico que eu gostaria que as coisas tivessem sido diferentes. Que eu estivesse
casada com o O. Que o meu casamento fosse bem e eu estivesse até hoje com ele.
Que eu tivesse tipo uma família, mas não foi dessa maneira. Então, é um esforço
diário, consciente, para não deprimir, para não me sentir pior. De modo geral eu
consigo. De vez em quando me bate um vazio, uma tristeza. Talvez pudesse ser
diferente, mas não é. A realidade é esta. Então, eu escolho olhar para o que eu
tenho sempre de bom na vida, do que me entristecer pelo que eu não tenho. Eu
acho, que, no geral, eu vivo muito bem. Eu tenho uma boa profissão. Eu sou bem
sucedida. No que eu faço, sou bem considerada, eu sei disso. Tenho um certo
prestígio com os meus colegas. Não sou uma pessoa ambiciosíssima, não sou
mesmo. Minha ambição era viver bem. Não ficar jogada às traças, pelo resto da
vida, e de um dia não ter esse sentimento de inadequação. Ivana, médica
neurologista, solteira, 48 anos.
Atualmente, os resquícios da força do casamento como instituição ainda se fazem
sentir no imaginário social. Até a primeira metade do século XX, casar-se era um projeto
de vida completo. Ele incluía formar um lar, ter filhos e “lançar as bases de uma
realidade social nitidamente definida e claramente visível dentro da coletividade. Ainda
em 1930, a profissão e a fortuna, bem como as qualidades morais pareciam mais
importantes do que as inclinações estéticas ou psicológicas para decidir sobre uma
união” (Prost,1992: 87). Os anos dourados, como ficou conhecida a década de 50, deram
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Relatos da Vida Amorosa: a intimidade no contexto contemporâneo Sylvia Maria da Penha Cioffi
continuidade a esse processo, ao somar casamento com amor, e criar uma via de
legitimação da sexualidade, nesse momento, ainda, mais vinculada à procriação (Cf.
Bassanezi, 2001). Nessa época, casar era quase uma obrigação social, um imperativo
para homens e mulheres, uma busca tornada necessidade, ante as pressões sociais
vigentes. Quinteiro (1993: 185) analisou o significado do casamento entre as classes
sociais e afirmou a grande importância dada à união conjugal, registrando que a pessoa
qe dela era alijada se tornava socialmente “anormal” e relegada à mais profunda solidão,
uma vez que “a sociedade não é mais capaz de lhe oferecer os laços afetivos com as
relações primárias de outrora”.
Mas os tempos mudaram e com eles os costumes, culminando no aprofundamento
das idéias feministas e no aperfeiçoamento da contracepção com a separação entre
sexualidade e reprodução. A mulher liberou-se e o casamento “deixa gradativamente de
ser uma instituição para se converter numa formalidade” (Prost, 1992: 91).
Hoje, as pessoas continuam querendo encontrar um parceiro para unir-se ou casar-
se, mas, para parte significativa das camadas médias, esse desejo adquire um caráter não
obrigatório ou efêmero, não constituindo um imperativo para a construção da identidade
ou um álibi para a convivência social. O caráter transitório das conjugalidades é um dado
muito concreto nos relatos obtidos nas entrevistas.
Os depoimentos de Maria Eunice e Joana permitem vislumbrar as mudanças em
pauta nas uniões, nos últimos anos. Esses relatos são complementares por tratar-se de mãe e
filha. Foi proposital a escolha da díade, como possibilidade de avaliar o processo de
mudança dos valores que envolvem a ligação amorosa de uma geração para outra. É
interessante constatar que as falas apresentam um aspecto de complementaridade e, muitas
vezes, se tocam de forma surpreendente. Nelas estão presentes os problemas vivenciados
pela geração dos anos 60, as lutas e conquistas obtidas pelos jovens de então, o engajamento
político e a ruptura com valores tradicionais. E, de certa maneira, o saldo que restou para a
geração subseqüente. Do mesmo modo, pelo relato de Joana, tem-se a visão das
transformações em curso, ou melhor, do rumo que vem tomando essas transformações e dos
novos cenários da sociabilidade amorosa para a juventude do início do século XXI.
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Relatos da Vida Amorosa: a intimidade no contexto contemporâneo Sylvia Maria da Penha Cioffi
Na entrevista com Joana, ela relatou um caso ocorrido, que ilustra bem as
mudanças por que o casamento passou nas últimas décadas:
Eu me lembro quando antes de casar, eu ainda estava em Boston, encontrei um
cara que é pneumologista também e agora é o meu chefe. Na época eu nem sabia
que ele ia ser meu chefe. Ele atualmente é mais ou menos meu chefe, a gente
trabalha junto. Não tem essa relação de chefe, mas ele é um cara mais velho. Ele
ficou brincando comigo se um outro professor, super piadista, tinha me ensinado
as regras do casamento. E eu, “ah! Como é que é isso?”. E ele veio me contar: o
casamento... Quando eu fui casar estava super angustiado, e P. veio e me falou
que isso era bobagem porque... E deu um exemplo de um outro cara, que era um
cara que tocava flauta e tinha casado. Veio contar para esse P.: “Eu casei e minha
vida não é mais a mesma”.
“Mas qual é o problema? Você tem saído para tocar flauta?”.
“Não, não tenho”.
“Sua mulher fala que não?”.
“Não, ela não fala que não. Mas, sei lá, eu sinto”.
Daí ela falou, “Ah! Você vai sair? Vai tocar flauta?”.
“Vou”.
“Legal! Pelo menos um de nós dois se diverte”.
As mulheres pegam os homens pela culpa. Fazem se sentir culpados de deixá-las
em casa. A outra coisa é a conversa bumerangue. A que inocentemente você entra
numa conversa numa mesa de amigos e de repente a conversa volta e te pega.
Puxa um assunto de roupa. Você entra naquele assunto e no final termina e conta
para todo mundo como você é inadequado em algum aspecto assim, em se vestir,
por exemplo. E a outra como a mulher aniquila o homem no casamento e
levando-o no supermercado. “Você pode lá escolher uns tomates?”. Daí o cara vai
lá e escolhe e volta com os tomates. E parece que ela está falando no microfone
do supermercado, “Escolheu esses tomates”? Parece que está todo mundo
olhando e ela o torna um incompetente. Era uma piadinha. Mas o que ele queria
dizer e que achou que consolava os homens no casamento que era assim, “Fica
tranqüilo porque isso acontece com todo mundo”. Tinha essa história que o
casamento tem muitas dificuldades. Que as mulheres fazem algumas coisas meio
inaceitáveis com os homens no casamento. Acho que muitas fazem, mesmo. As
mulheres viram meio umas bruxas. Tem aquele ditado que diz assim: “as
mulheres casam com os homens, esperando que eles mudem. Eles nunca mudam.
E os homens casam com as mulheres, esperando que elas nunca mudem. Elas
sempre mudam”. Acho que tem esse negócio. A mulheres casam e começam a
mandar nos maridos. Aí, toda teoria desse P. era falar, “Mas ora! Isso é assim
mesmo, acontece com todo mundo. Relaxa! Não liga se sua mulher fizer isso. Ela
não está fazendo de sacanagem. Não é que todo mundo tem uma mulher legal e
você está com uma mulher chata. Mulher é assim mesmo”.
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Relatos da Vida Amorosa: a intimidade no contexto contemporâneo Sylvia Maria da Penha Cioffi
Até não concordo totalmente com isso. Mas isso se repete um pouco nas relações
homem-mulher. As mulheres ficam um pouco mandando nos maridos. Dando
opinião nas roupas deles e o que escolhem. E a gente não percebe que faz em
público e eles se sentem mal. Até acho que eu não era assim com o C. Ainda
bem. Mas todo mundo tinha esse negócio, “Mas é assim mesmo. Relaxa e vai lá.
Todo mundo vai casar. Então, pára de frescura e casa com essa mulher, que você
gosta mais”. Aquele negócio, “Você vai ter que casar mesmo. Se gosta dessa,
casa com essa”. Hoje em dia não tem muito isso. Os homens ficaram com mais
medo dessas coisas e aí não é mais assim. Uma hora ela pega e vai embora. Ainda
te larga na mão. Depois de tudo isso. De fazer você passar vexame no mercado e
tudo. Ainda ela te larga. A geração mais velha tinha essa de que todo mundo vai
casar e pronto. Com isso se tinha coisas ruins no casamento, tinha uma coisa
muito boa que a minha geração perdeu que é entender o seguinte: que nenhum
casamento é perfeito. Conto de fada não existe, então, você vai ter que aprender a
se adaptar. Joana, médica pneumologista, separada, 30 anos.
Se a geração mais velha encarava o casamento como “um mal necessário”
(carregando nas tintas), como se pode constatar pelo trecho acima, a maioria dos
entrevistados, tanto homens como mulheres consideram que, hoje, há menos tolerância
para enfrentar os conflitos inerentes à relação amorosa. Assim, as relações afetivas
tornam-se, cada vez mais, descartáveis como bem assinalou Bauman (2004:65) afirmando
metaforicamente que “a líquida racionalidade moderna recomenda mantos leves e
condena as caixas de aço”.
A baixa tolerância aos conflitos é um fato presente nos depoimentos, que aponta
para um imediatismo característico dos novos tempos. Os casais, já no momento do
encontro amoroso inicial, anseiam que a relação venha pronta, que só “dê bônus e que não
tenha ônus” (Ramos,2003: 63). Assim, Joana expressa esse fato em relação à geração de
sua mãe Maria Eunice:
O que tinha de bom [no tempo de minha mãe] era que todo mundo entrava no
casamento com um sonho romântico. Isso acontece idêntico. É impressionante
como todo mundo pensa o seguinte – você vê as outras pessoas com problemas e
tal –, “Mas o meu é especial”. Engraçado. Acho que é que nem comprar esteira
[de caminhar]. Como todo mundo compra esteira e ninguém usa, mas você acha
que vai usar. (risos) E eu tenho minha esteira encostada aqui em casa. “Eu vou
usar, porque sou uma pessoa diferente e todo mundo é igual”. As pessoas
casavam e achavam que ia dar tudo certo. Quando aconteciam essas coisas, e
apareciam imprevistos e você se via, de repente, no casamento – homens ou
mulheres – se sentindo mal, vendo aquela pessoa que não estava correspondendo
ao seu sonho... Acho que é uma decepção da pessoa não corresponder ao seu
sonho e ela não poderia mesmo. Nem que ela fosse muito maravilhosa. Porque o
sonho é uma coisa tão irreal, de você casar com o príncipe e ele casar com a
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Relatos da Vida Amorosa: a intimidade no contexto contemporâneo Sylvia Maria da Penha Cioffi
princesa, e não é. São pessoas com defeitos, com chegar mal humoradas, que vão
descontar em você coisas que estão acontecendo fora de casa. Acho que todo
mundo passava por uma crise, pelo que eu entendi. Quando eu tive tudo isso, fui
conversar com minha mãe, “Imagina! Isso acontece com tudo mundo”. Todo
mundo passava por isso, mas era um negócio assim, daí vinha alguém falar para
você, “Calma! Todo mundo passa por isso”. Botavam calma, porque era muito
mais difícil separar e tudo. A maioria das pessoas falava, “Então, deixa eu... Ah!
Bom. Você se sente melhor de ver que aquele problema não é só seu”. É
impressionante. Isso acontece. Acontece com todo mundo. Não é que você não
casou com a princesa e todos nós casamos. Todo mundo casou com uma mulher
normal. “Relaxa. Calma. Vai resolvendo, que o casamento é assim mesmo”. A
minha geração perdeu isso, em algum momento, de um jeito engraçado. Primeiro.
Ninguém conversa com os pais. Eu converso com a minha mãe. Mas as pessoas
não conversam com seus pais e ninguém está muito a fim de perder tempo com
isso. O que tenho visto. Os amigos todos separam e aí vão acertar isso no
próximo relacionamento. Ou não, porque a gente ainda está novo, e eles podem
terminar o relacionamento daqui há dois ou três anos. Vão ter em algum
momento que se tocar, ou vão passar por essa crise nesse novo relacionamento.
“Agora, não adianta eu me separar desse cara”. Senão, vão ficar numa
monogamia serial. De dois em dois, de três em três, de cinco em cinco anos, você
troca de pessoa, mas o problema não sumiu dali. Esperar de uma pessoa algo que
ela nunca vai te dar. Porque uma pessoa não pode dar isso, só um príncipe,
mesmo. Não sei aonde a gente perdeu essa percepção de que não é descartável,
não é um negócio que você fala assim, que nem aconteceu comigo, “Putz! Eu
estou confuso e vou embora”. “Não, não vai embora. Fica aqui. Vamos ver. Isso é
assim mesmo. Um monte de casais passou por uma crise de infidelidade. Você
não é o primeiro nem o último corno do mundo”. Ele também descontou e bem
descontado [ refere-se ao ex-marido ], na minha opinião. E bola para frente. Se
ele não resolver isso comigo. A próxima namorada que ele tiver, esse problema
vai aparecer de novo. Não adianta você trocar de pessoa. Acho que isso, talvez, é
um reflexo da minha geração, que tudo é descartável. “Meu carro não está bom.
Vendo o meu carro”. “Esse apartamento não está legal? Eu troco”. As pessoas
não faziam isso antigamente. Como vivemos numa sociedade que te estimula a
trocar, se alguma coisa não está funcionando tão bem, ao invés de consertar. O
meu som quebra não vale a pena consertar. Melhor comprar outro. As pessoas
estão fazendo isso com gente. “Ah! Esse marido aqui não está funcionando? Vou
comprar outro”. E não resolve. Joana, médica pneumologista, separada, 30
anos.
Além disso, a incerteza da contemporaneidade contaminou as relações afetivas.
Tanto homens como mulheres têm de aprender a conviver com as desestabilidades e
tensões de um mundo externo bastante adverso. A falta de perspectivas num mercado de
trabalho cada vez mais restrito, a competição desgastante e o desemprego são “fantasmas”
que ameaçam a paz do casal, deixando-os inseguros e desnorteados. No dizer de Ramos,
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Relatos da Vida Amorosa: a intimidade no contexto contemporâneo Sylvia Maria da Penha Cioffi
em tal contexto, sem dar-se conta, esperam encontrar no casamento uma espécie
de oásis, uma fonte de conforto e de reasseguramento da qual possam beber, sem,
entretanto, se curvarem a nenhum tipo de exigência ou assumirem maiores
compromissos. É uma situação que convida a uma regressão e que,
paradoxalmente, requer desenvolvimento e maturidade” (Ramos, 2003: 63).
É o que evidencia o relato de Maria Eunice:
A perspectiva de casar e constituir família, acho que era mais generalizada do que
é hoje. Por que? Acho que de uma maneira geral, uma mulher não tinha nenhuma
outra opção a não ser casar. Para a sobrevivência. Da geração imediatamente
anterior a nossa. Mas, ainda, era uma coisa muito previsível de você querer casar
e constituir família e tal. Portanto, namorar, noivar e tal. O fato de, hoje, você ter
liberdade sexual, para as mulheres mudou tudo isso, eu acho. Porque você não
precisa mais se casar. Um homem não precisa casar mais com a namorada. Ele
dorme com a namorada e pronto. Acho que essa perspectiva de construção da
família, ela está um pouco abalada do ponto de vista assim, não é uma coisa
absolutamente necessária, por um lado. Por outro lado, a perspectiva social de
você construir uma família do ponto de vista assim, de manter uma família, de ter
um trabalho, de ter segurança em relação a um processo de progressão econômica
que vai te dando estabilidade e capacidade para criar os filhos, pagar todas as
contas que vão decorrer disso e tal, não estão mais colocados. Acho que essa
geração nova não tem certeza que ela vá ser bem sucedida do ponto de vista
econômico, financeiro. Do ponto de vista de estabilidade que uma família precisa
ter. Que a gente vai construindo no tempo. Você começa com, um aparta-
mentinho. Depois você compra uma casa. Você vai ter filhos e vão estudar. Isso
não está mais colocado para essa geração. Hoje não vêem, não têm a perspectiva
da construção de uma vida que tem uma previsibilidade. Acho que isso daí, tem
um peso muito grande também. Associada a uma liberalização dos costumes, que
permite um jogo muito mais diversificado nas relações, você não tem a
perspectiva da vida estável. A insegurança em relação ao futuro é uma coisa
muito forte hoje. Quem pagou uma vida inteira uma aposentadoria, está aí
miserável, sem poder comprar nem os remédios. As pessoas não querem assumir
compromisso, porque os compromissos não vão ser mantidos. Acho que esses
dois componentes andam juntos nesse momento. Acho que para a nossa geração
não. Na nossa geração, isso estava mais visível. Você podia comprar uma casinha
com jardim. Poderia ter um carro, um fusquinha. Depois os seus filhos iriam para
a escola e você ter três ou quatro filhos. Ninguém pensava em ter um, dois filhos.
Pensava numa família mais numerosa, ter uma casa ampla, ter uma profissão, ter
uma carreira, ter coisas que eram visíveis, presumíveis. Maria Eunice,
arquiteta, divorciada, 57 anos.
Outro ponto importante ao qual se refere o relato acima é o das uniões, que,
antigamente, faziam parte de um projeto de longo prazo. Com a imprevisibilidade da alta
modernidade, o “curto prazo” do capitalismo avançado impregnou as relações estáveis. É
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Relatos da Vida Amorosa: a intimidade no contexto contemporâneo Sylvia Maria da Penha Cioffi
o que Sennett (2001) chama de capitalismo flexível que incide no caráter pessoal, sendo
que o termo caráter é marcado principalmente no aspecto “a longo prazo” da nossa
experiência emocional.
É expresso pela lealdade e o compromisso mútuo, pela busca de metas a longo
prazo, ou pela prática de adiar a satisfação em troca de um fim futuro. Caráter
são os traços pessoais a que damos valor em nós mesmos, e pelos quais
buscamos que os outros nos valorizem (Sennett, 2001:10).
O autor questiona-se a respeito de como decidimos o que tem valor duradouro em
nós, numa sociedade impaciente, que se concentra no momento imediato. Esse caráter
provisório da relação amorosa é ressaltado no relato de Joana:
Eu vivo conversando esse assunto [das mudanças] com mil pessoas. Tem uma
coisa engraçada que é assim. A geração da minha mãe quebrou uma barreira que
é essa de transar com o namorado e não ser galinha. Então, todo mundo tem vida
sexual boa, afetiva, com o namorado, antes de casar. A geração da minha mãe
conquistou tudo isso para mim. Eu ganhei isso de mão beijada. Tenho liberdade
sexual. Transo com quem eu quero. Falo de sexo com quem eu quero. Isso não
escandaliza mais quase ninguém. Mas as pessoas... Aí, você conhece alguém
muito especial e você tem vinte e poucos anos, você casa e tenta repetir o
casamento da sua avó. As pessoas casam e ficam super dependentes umas das
outras. Acho que isso é a coisa que ficou mais confusa. Por isso eu acho que
quase todo mundo, que eu conheço, da minha geração, separou de alguém.
Porque todo mundo tenta repetir um modelo que não funciona mais. Um modelo
antigo. Por que não funciona mais? Porque, agora, nenhuma mulher mais tolera,
que seu marido tenha uma amante fora. E a gente também sai e trabalha. Conhece
outros homens interessantes. Você corre o risco de se apaixonar por outra pessoa
fora. Isso eu acho que mudou demais. Não tem mais o negócio de que a mulher
depende do marido. Ela não vive mais para aquele casamento. Se o casamento
começar a dar errado, ela pode pular fora. Não dependo dele para viver aqui. Não
preciso voltar para casa da minha mãe. Joana, médica pneumologista,
separada, 30 anos.
As dificuldades de relacionamento, apontadas por Joana, ressaltam a questão das
expectativas, que, atualmente, se encontram agudizadas numa união, sendo por vezes
exigentes demais ou contraditórias.
O que os casais esperam do casamento se torna confuso. Antigamente, se o homem
fosse bom provedor, não tivesse vícios e respeitasse minimamente a mulher, poderia ser
considerado um bom marido. Do mesmo modo, a mulher que fosse uma boa dona-de-casa
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Relatos da Vida Amorosa: a intimidade no contexto contemporâneo Sylvia Maria da Penha Cioffi
e que cuidasse bem dos filhos supriria as expectativas de ser uma boa esposa. Isso não vale
mais para a atualidade. Novos e velhos padrões de comportamento convivem e entram em
conflito uns com os outros.
Relações monogâmicas seriadas
Ao mesmo tempo que os indivíduos desejam construir relações convergentes ou
“puras”, no sentido que Giddens (2003) dá ao termo, vigora aí uma situação paradoxal,
dada à pouca disponibilidade em lidar com conflitos e frustrações, inevitáveis numa
relação amorosa. Atualmente, isso permite, como esclarece Joana, que se instaure o
primado das relações monogâmicas seriadas, ou seja, de tempos em tempos, troca-se de
parceiro ou parceira, para não mudar coisa alguma em referência aos próprios
comportamentos estruturais, que impedem a formação de um vínculo mais estável. Essa
percepção das dificuldades da relação amorosa e do casamento perpassa as falas dos
entrevistados; a história contada por ela, utilizando como exemplo o cartoom do Papa-
léguas, aborda essa problemática dos rompimentos consecutivos:
Acho que as mulheres reclamam com muita razão que os homens são muito
imaturos. Por isso que eles têm medo dos conflitos porque não conseguem lidar
com eles. “Bom. O que a gente errou aqui? Vamos melhorar assim e da próxima
vez pelo menos eu acerto”. Ele quer apagar aquele negócio, ele quer mudar. Para
mim parece aquele desenho do Papa-léguas. O Coiote, de vez em quando, tem
uns planos bons só que ele executa meio mal. Resolve jogar uma pedra, fazendo
uma alavanca e erra a mira da pedra. Em vez dele ir lá e encurtar essa alavanca,
ele muda de plano. Por isso que ele nunca pega o Papa-léguas. É a mesma coisa.
Você fez um plano ruim, sei lá, é administração de empresa, tentou e não deu
certo, vamos fazer uma reunião e ver onde é que errou e corrigir para o próximo.
Ao invés de passar para o projeto próximo sem pensar no que errou naquele. Você
vai ficar fazendo o mesmo erro outras e outras vezes. Joana, médica
pneumologista, separada, 30 anos.
Outros depoimentos seguem na mesma direção:
O pessoal antigamente, da geração mais velha, enfrentava melhor os conflitos.
Porque, na verdade, se a gente for pensar, pensar não. Mas se deixar levar só pela
emoção, pelos hormônios, a gente fica casado uma semana, no máximo. Paulo
José, músico, 35 anos, solteiro
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Relatos da Vida Amorosa: a intimidade no contexto contemporâneo Sylvia Maria da Penha Cioffi
Eu acho que as pessoas estão mais impulsivas, toleram menos. Isso dificulta o
encontro. Há um desejo. Mas quais são os instrumentos para que isso possa
ocorrer e permanecer, a vir a dar certo? No primeiro obstáculo não quero mais,
“Ah, não quero mais casar”; “Quero separar”. São casamentos de 6 meses. O que
aconteceu? Casou sem condição de estar preparado para o casamento. Para aquilo
que o casamento exige. Um dia estávamos reunidas e falando do homem assim-
assado. Que ligasse e mandasse flores, bombons e jantares. Uma disse, “Você não
quer um marido, você quer um amante. São coisas completamente diferentes”.
Então, eu penso assim, há maior dificuldade atual. Letícia, psicanalista, casada,
43 anos.
Parece que as pessoas querem tudo pronto e que o outro não encha o saco. O
princípio hoje é esse. “Não encha o meu saco”. Tanto homens quanto mulheres.
Não encha o meu saco. Vamos viver em paz. Numa boa. aí, quando vê um está de
um lado e outro está do outro. Leandra, antropóloga, professora universitária,
separada, 57 anos.
Há cinco décadas, o casamento como obrigação social fazia com que muitas
uniões perdurassem, mesmo quando não tinham mais nada que as embasasse, em
relação ao afeto. Essa situação era bastante comum e vigorava com certa regularidade
na maioria das relações conjugais da época. É o que se explicita nos relatos de Maria
Eunice e Geraldo:
Na nossa época, as pessoas em geral buscavam dar certo. É... O problema é que
acho que muitos dos casamentos que se mantinham, eram mantidos na base da
infelicidade das pessoas, da conveniência, dessa história da dificuldade da mulher
se manter. Muitas vezes por razões econômicas do “tipo assim”, “Bom. Se eu me
separar, vou ter que bancar pensão para essa mulher. Então não vai dar. Meu
dinheiro não dá. Acho que não vale a pena”. Ou eu não quero dividir o meu
patrimônio. Enfim, muitos casamentos se mantinham assim. Em muitos casos,
esse processo de tolerância acabava gerando uma vida não totalmente
desagradável com as pessoas. De alguma forma se gostam, sem muitos arroubos
e tal. Abre mão de umas tantas coisas, e opta por outras e vai em frente. Em
alguns casos eram situações mais tormentosas e que se mantinham apesar disso.
Acho que hoje os jovens não têm porque fazer isso. Então, aflora mais
rapidamente essa questão de “Não dá para ficar”. Eu lembro de uma amiga
minha, “É impossível você brigar com um cara e dormir na mesma cama que ele.
Eu não agüento. Tenho que dormir na sala”. Essa coisa que você tem que engolir
as coisas, porque o casamento é assim mesmo não dá. Não entra mais nessas
novas gerações essa concepção, de que você tem que passar por cima de algumas
coisas, para conseguir sobreviver no casamento “Porque o casamento é assim
mesmo”. Acho que o grau de exigência em relação ao casamento é mais alto.
Como você não tem nenhuma razão moral, nenhuma razão econômica para
manter um envolvimento, chega um ponto que você rompe. Essa percepção de
construção de uma relação, a despeito de ter um monte de coisas que não é nada
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Relatos da Vida Amorosa: a intimidade no contexto contemporâneo Sylvia Maria da Penha Cioffi
do que você pensou, acho que não cola muito hoje. Maria Eunice, arquiteta,
divorciada, 57 anos.
A gente precisa distinguir várias coisas do passado, na década de 40, 50 quando
eu comecei a me sentir gente, lá com 10 anos, os relacionamentos eram muito
mais formalizados. Meus pais brigaram como cão e gato por 56 anos e não se
separaram porque a sociedade não permitia. Eles não se permitiam. A
estabilidade do casamento deles era uma formalidade. Eles não permaneceram 56
anos juntos porque se davam bem. Não. Porque era uma formalidade que a
sociedade exigia. Então, essa história que as pessoas se davam melhor, de que os
relacionamentos eram mais sinceros, eu acho mentiroso. Acho que hoje é mais
verdadeiro. Acho que hoje as pessoas se separam porque não tem que manter uma
formalidade. Se elas estão bem, elas continuam juntas. Se separam quando
percebem que não estão juntas. Quando não estão bem, não estão juntas de fato.
Geraldo, arquiteto, professor universitário, separado, 57 anos.
Se antigamente homens e mulheres permaneciam casados por questões econômicas
ou sociais, atualmente, pode-se considerar, que, para os segmentos da classe média
intelectualizada, analisados neste trabalho, o medo da separação para a mulher ou para
ambos, envolve muito mais o medo das perdas emocionais do que das materiais. Assim,
como no depoimento de Joana:
(...) eu cheguei para ele e disse, “Ou você decide o que quer ou sai fora. Eu vou
tocar a minha vida sem você”. Isso não tinha antes. Antes as mulheres tinham
muito medo de se separar. Não só por motivos afetivos. Eu fiquei com muito
medo de separar porque para mim... eu estive muito tempo com ele... “Eu nunca
mais vou ser feliz, porque eu nunca mais vou achar alguém que nem ele”. Então,
esse medo vem muito de perder uma pessoa que é super especial para você e você
achar que não vai achar nada melhor do que aquilo. Ou você não vai sentir aquilo
de novo, ou que ninguém vai te tratar daquele jeito, que ele me tratou muito bem.
Fora essa época. Mas eu não tinha medo de ficar sem ter com que me sustentar.
Quando você se liga que, “Chega de sofrer com esse negócio de que ele não me
ama mais. Paciência. Vou tocar para frente”. Não dependo dele para dinheiro. Eu
tenho o meu trabalho. Eu tenho outras coisas que me motivam, e eu saio aí pela
rua e, sempre, parece que tem, de vez em quando, quem está interessado em mim.
Acho que trabalhar trouxe essas duas coisas. Você ter uma independência
financeira e intelectual. Eu tenho um projeto de vida que não é o projeto de vida
dele; e não é da família. Eu tenho um projeto de vida profissional. E o fato de
você trabalhar lhe torna interessante para outros homens. Isso faz com que os
homens fiquem inseguros. Porque se acostumaram muito. Eles acham muito
estranho não serem mais os protetores da mulher. Joana, médica pneumologista,
separada, 30 anos.
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Relatos da Vida Amorosa: a intimidade no contexto contemporâneo Sylvia Maria da Penha Cioffi
Narcisismo como culto à beleza
Outro tema que toca especialmente as mulheres do grupo em que a faixa etária é
mais elevada e se reproduziu em vários depoimentos consiste na exteriorização do culto à
forma do corpo.
Uma das maneiras mais visíveis de exteriorização do narcisismo em nossa
sociedade diz respeito às disposições dos indivíduos em relação ao corpo. Do mesmo
modo que o cuidado de si ou do corpo constitui um dos aspectos saudáveis da nossa
sociedade, quando exacerbado, essa tendência transforma-se num culto ao hedonismo, ou,
melhor dizendo, numa tirania do hedonismo. Uma das modalidades dessa exigência é o
culto à beleza, materializado na obrigatoriedade de ter um corpo bonito, saudável e
“malhado”, que se apresenta como um dos valores narcísicos cultivados principalmente
pelas camadas médias, não só tocando as mulheres, mas agora também os homens.
Poder-se-ia considerar o padrão narcisista da obrigatoriedade da beleza em nossa
sociedade como a procura, por parte dos indivíduos, de aquisição de maior capital
simbólico no dizer de Bourdieu (1996; 1999) para, assim, ocuparem posições de maior
prestígio. O narcisismo do culto à beleza seria, portanto, efeito da busca de acumulação
por capital simbólico, que ajudaria homens e mulheres a se aproximarem dos ideais
disseminados pela indústria cultural como valores distintivos ou de excelência. Nesse
sentido, também pode-se perceber o efeito de reprodução da dominação masculina
(Bourdieu, 1999), já citada anteriormente, nas disposições corporais femininas. Como diz
Bourdieu,
tudo, na gênese do habitus feminino e nas condições sociais de sua realização,
concorre para fazer da experiência feminina do corpo o limite da experiência
universal do corpo-para-o-outro, incessantemente exposto à objetivação operada
pelo olhar e pelo discurso dos outros (Bourdieu, 1999: 79).
Desse modo, para as mulheres mais velhas entrevistadas neste estudo, esse aspecto
contemporâneo da obrigatoriedade da beleza e esbeltez influencia de forma quase
perversa sua vida amorosa e sexual. Nesse sentido o aspecto estético do corpo é muito
valorizado e faz com que mulheres mais velhas se percebam menos atraentes para os
homens, comportamento que rebate diretamente em sua auto-estima.
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Relatos da Vida Amorosa: a intimidade no contexto contemporâneo Sylvia Maria da Penha Cioffi
Lipovetsky (1986; 62-3) aponta as inúmeras conseqüências da valorização do
corpo, reinante em nossos dias: angústia da idade e das rugas, obsessão pela saúde e pela
magreza, rituais de controle e manutenção (esportes, regimes, consumo exagerado de
cuidados médicos, produtos farmacêuticos e produtos de beleza). Para esse autor, a
representação do corpo sofreu uma mutação, cuja profundidade pode comparar-se à
normalização do corpo” como ditame social e o advento desse novo imaginário social do
corpo é um dos efeitos do neo-narcisismo, como é chamado por ele. Atualmente,
a personalização do corpo reclama o imperativo da juventude, a luta contra a
adversidade temporal, o combate por uma identidade que deve se conservar sem
interrupção nem avarias. Permanecer jovem, não envelhecer: o mesmo
imperativo de reciclagem, o mesmo imperativo de desubstancialização
acossando os estigmas do tempo a fim de dissolver as heterogeneidades da idade
(Lipovetsky, 1986: 62) .
Hoje, a feiúra tornou-se obscena. É preciso ser bonita ou bonito, é preciso agradar a
qualquer preço. A beleza exige vigilância constante, investimento diário, tornou-se a
condição do desejo. É certo que, atualmente, mais pessoas podem recorrer aos tratamentos
estéticos, cirurgias plásticas, etc., perseguindo o ideal de beleza, mas como afirmam
Bruckner e Finkielkraut a esse respeito:
o novo rigor estético sem dúvida fabrica mais corpos intercambiáveis, do que a
antiga resignação aos caprichos da natureza, mas seu efeito nem por isso
propicia os encontros. Ao contrário, não há meio melhor de bloquear o mercado
da sedução do que tornar as pessoas obsedadas com seu poder de sedução...Os
corpos se oferecem, sem dúvida, mas sim ao Deus Olhar e, não, uns aos outros
(Bruckner e Finkielkraut (1981:235).
Mesmo a sexualidade, hoje, tende a ser pautada por elementos externos,
predominantemente de conteúdo narcísico, “em que a libido não é mais abertamente
reprimida, mas canalizada, rebatida pelo sujeito sobre sua própria imagem” ( Bruckner e
Finkielkraut 1981:235) .
Os dois sentidos do narcisismo estão presentes, atualmente, na sociedade brasileira:
o que se pode chamar de narcisismo psíquico nefasto e o narcisismo do culto à beleza, que
constituem os dois lados de uma mesma moeda. Em pesquisa recente na cidade do Rio de
Janeiro, a antropóloga Mirian Goldemberg (2004), atestou a importância do corpo e da
tirania da beleza para a classe média carioca.
143
Relatos da Vida Amorosa: a intimidade no contexto contemporâneo Sylvia Maria da Penha Cioffi
O tema do narcisismo apareceu, freqüentemente, nos relatos dos entrevistados, seja
como complicador das relações afetivas, seja como exigência de padrões estéticos, que
rebate, principalmente, na auto-estima feminina. Os depoimentos colhidos para este
trabalho atestam:
[O narcisismo] no sentido físico da beleza, isso é meio visível. Enfim, as pessoas
comuns não são tão belas, quanto os ideais aí que são valorizados. Mas o
narcisismo psíquico é uma realidade. Ele é muito forte. Eu tenho percebido isso, e
ele é muito cruel. Esse meu último namorado, ele é assim. Ele é uma pessoa
voltada para si própria e ele é um exemplo muito disso. As perturbações dele
são... O cara faz coleção de mulheres. O cara faz coleção. De repente ele estava
com três e eu fui a espirrada, a “deletada”. Claro, porque não vai dar conta, né.
Ele é muito narcisista, muito, muito. Tem uma coisa que ele precisa viver, e aí ele
vai viver, porque ele precisa viver aquilo. Você? Ah, você. “Eu não posso fazer
nada. Me perdoa. Me desculpa, eu vou viver o que preciso e pronto.” Pelo menos,
essa minha última experiência foi isso. O meu marido também era assim.
Também era Narciso. Todos os problemas dele são mais importantes do que
qualquer outro. Quando ele resolveu que tinha que viver a vida dele, por
liberdade, até a filha dele ficou em segundo plano. Eu não me conformo com isso.
Eu não sei se é uma coisa de mulher. Eu conheço mulheres narcísicas também,
terríveis! Eu tenho umas amigas assim também. E acho que isso daí é uma coisa
que está muito no nosso meio. Pelo menos no meio que eu vivo. Leandra,
antropóloga, professora universitária, desquitada, 53 anos.
O homem brasileiro... também a situação... Quando ele é bem sucedido
financeiramente, nunca vai sair como uma mulher que nem eu. Por que? Ele tem
vinte muito bonitas e que vivem na academia. Só querem saber de se embelezar
para conseguir... Ivana, médica neurologista, solteira, 48 anos.
[O narcisismo] afeta porque rebate imediatamente nas suas relações pessoais. No
trabalho. Você tem que ser... Para você ser bom, quem tiver embaixo ou pelo lado,
ou quem tiver te ameaçando, tem que “tirar fora”. É uma questão de
sobrevivência. Ou é você ou é aquela pessoa. Para isso, não é ser só bom
profissional, pessoa charmosa, cara bonito, pessoa que se arruma bem. Tudo isso
conta nesse mundo. Então, acaba sendo um cultivo personalista. Nos assuntos
afetivos, também, né. Se pegar determinados homens, eles são narcisos. Eles
querem a sedução. Eles seduzem, mas uma vez conseguido o objeto... passam
para outra.... os homens são, em geral, muito vaidosos do ponto de vista das suas
realizações pessoais, profissionais. Eles se auto-promovem muito. Fico um pouco
assustada de ver. Sabe, você está conversando com uma pessoa, de repente, ela
começa a dizer o que ela fez, o que ela disse. Muito comum entre os homens.
Mais velhos, não tão os novos. É raro ter uma mulher que fique se auto-
promovendo. Das pessoas que eu conheço. Agora, entre os homens é uma coisa
muito comum. Sabe aquela música do Chico Buarque, “Que me contou das
vantagens que ele tinha”. É isso. É uma coisa assim, que faz parte da colocação
144
Relatos da Vida Amorosa: a intimidade no contexto contemporâneo Sylvia Maria da Penha Cioffi
dele na sociedade. Ele colocar as fichas na mesa, em todo lugar que ele vai.
Maria Eunice, arquiteta, divorciada, 57 anos.
Nuno abordou o assunto da condição cativa do corpo em relação à obrigatoriedade
da “boa forma” de maneira bastante crítica:
O que posso dizer é o seguinte, de uma maneira indireta. As mulheres que eu
conheço têm uma dificuldade espantosa de admitirem que estão ficando velhas.
Bem entendido. Não estou dizendo que não me incomode o processo de
envelhecimento. Vou morrer e a vida? Eu gosto da vida. Me incomodo
profundamente. Agora, é muito comum a observação de que as pessoas se
paralisam por causa disso. Mulheres, principalmente. Homem também, mas acho
que mulher é de uma forma mais acentuada. Vamos dizer assim, “Ah, essa
menininha é bonitinha assim, mas é uma idiota”. Escuta! Está querendo se
comparar. Uma mulher de 50 anos com uma moça de 20 anos. Isso é um absurdo.
Você quando tinha 20 anos, provavelmente era mais bonita que essa idiota. Você
tem 50. Tem um tipo de beleza que deve ser comparado com um tipo semelhante.
Já não é para fazer esse tipo de comparação. Ou eu, 58, comparado com um
surfista. Não tem o menor cabimento. Se eu quiser fazer uma comparação para
saber se estou mais ou menos? Alguém da minha idade que tenha um modo de
vida semelhante e assim por diante. Não sei se isso é uma forma de manifestação
narcisística. Essa verdadeira neura .... Que eu não tenho nada contra. Acho legal a
pessoa se cuidar. Veja, não faço qualquer tipo de reparo a isso. Falando da
apreensão subjetiva desse processo de envelhecimento. Eu noto que é
praticamente indigerível. Uma saudade permanente de quando tinha tudo em
cima. Eu acho um absurdo. Não valoriza o que tem de excelente para aquela
idade, para a situação e assim por diante. Não sei se isso é uma maneira indireta
dessa manifestação [do narcisismo]. Eu vejo assim com muita clareza que me
salta aos olhos. Nuno, contador, separado com uma relação estável, 58 anos.
Maturidade e desencontro
Ainda na vertente do narcisismo e como conseqüência da extrema valorização da
juventude em nossa sociedade, surge um aspecto que diz respeito mais às mulheres que
aos homens. Trata-se da dificuldade que as mulheres de meia idade têm para encontrar
parceiros. Essa queixa é muito recorrente entre as mulheres. O fato já foi abordado em
artigo de Elza Berquó intitulado A Pirâmide da Solidão? no qual a autora reconhece ser
mais difícil para as mulheres encontrar parceiros após os 35 anos, havendo tendência de os
homens acima dos 40 anos unirem-se com mulheres cerca de dez anos mais novas que
eles.
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Relatos da Vida Amorosa: a intimidade no contexto contemporâneo Sylvia Maria da Penha Cioffi
Como vigora o padrão da juventude, da obrigatoriedade da beleza e da forma do
corpo, é certo que as mulheres, na faixa etária de 40 anos e mais, se sentem muito distantes
desse padrão ideal, tão valorizado nos dias de hoje. Isso aparece de forma recorrente nos
depoimentos das mulheres nessa faixa etária:
Na nossa faixa etária, é muito difícil você encontrar um homem que não esteja
com uma mulher. Porque quando eles separam, imediatamente, eles arranjam
uma mulher. Muitas vezes mulheres mais novas. Eu tenho ficado um pouco
assustada, com a quantidade de amigos meus, mais velhos, que namoram
meninas de 35. Eu me lembro, na época que eu tinha 32 anos, tinha um cara que
deveria ter uns cinqüenta e poucos que ficava querendo me namorar. Eu achava
aquilo tão absurdo, tão fora de propósito que eu fico..., sempre olho... Por que
essas meninas querem um cara dessa idade? Para mim é inconcebível. Porque é
assim, uma coisa física. Um homem de cinqüenta e poucos anos é um homem
fisicamente decadente. Como uma mulher, para ser um padrão de beleza que
você almeja. É claro. Decadente assim no sentido de ter... Você entendeu o que é.
Nós estamos... você já tem essa pele mais flácida, você já tem uma barriguinha.
Cheia de ruga e tal. Não é uma coisa atraente, isso para o jovem, de jeito nenhum,
do ponto de vista físico. Eu sei porque eu me sentia assim. Achava tão absurdo
aquele cara ter aquela pretensão. “Tipo assim”, eu não ia falar nunca isso para
ele, mas para mim parecia absurdo, o cara achar que eu fosse topar ir dormir com
ele. Eu ficava achando aquilo tão fora de propósito. Eu acho estranho. Uma coisa
do tipo... Para mim tem duas conotações, que não consigo deixar de pensar. Uma
é a estabilidade financeira. A pessoa quer um cara, que tenha grana e possa dar
sossego para ela e tal. A outra, é uma pessoa que quer ser totalmente dependente,
que quer um pai. Eu não quero dormir com meu pai. Quero dormir com um cara
da minha idade. Meu pai, eu quero abraçar, beijar, conversar, sentar no colo. Mas
é óbvio, que isso não é uma perspectiva de vida para uma pessoa assim. Eu acho
isso uma coisa estranha. Como que eu vou dizer? A palavra é muito forte, mas é
uma aberração. Claro, que você pode se apaixonar por uma pessoa mais nova, ou
mais velha. Isso daí não é uma coisa eventual. Virou uma coisa que é muito
comum. ... Maria Eunice, arquiteta, divorciada, 57 anos.
O depopimento acima coloca uma situação muito visível em nossa sociedade. Ou
seja, para os homens, é um fato corriqueiro a situação de relacionar-se com uma parceira
muito mais jovem que ele. Conseqüência da herança do patriarcalismo, é considerado mais
“natural”, quando se trata de um homem mais velho, cuja escolha amorosa recai sobre uma
parceira bem mais jovem que ele. Ultimamente, as mulheres começam a quebrar esse
padrão, também se relacionando com homens mais novos, mas esse comportamento ainda é
mais adscrito às mulheres “famosas”, que detêm poder ou que fazem parte dos guetos de
mercado relacionados à mídia das celebridades. Além desse aspecto, o tornar-se mais velha
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Relatos da Vida Amorosa: a intimidade no contexto contemporâneo Sylvia Maria da Penha Cioffi
para uma mulher, ante as disposições narcísicas contemporâneas, além de ser encarado
como perda, envolve condicionamentos que incidem na auto-estima feminina de modo
bastante contundente. Para as mulheres, o não se sentir mais sedutora e objeto do desejo
masculino provoca um rebaixamento da auto-estima que reverbera em seu campo afetivo. É
o que se pode depreender da fala de Ivana:
Eu me sinto assim. Já não sou jovem mais. Já não sou tão atraente. Eu era bem
mais atraente. Eu sempre tive aquele sentimento, que eu não sou bonita o
suficiente. Que eu não sou feminina o suficiente. Sempre, as outras mulheres são
melhores do que eu. Agora, particularmente, que já estou mais velha, mais gorda,
mais feia, mais chata e com os meus defeitos mais cristalizados e também muito
mais consciente que... Sempre falo, “Quando a gente é jovem, não se quer
enxergar determinadas coisas. A pessoa tem que se adequar ao seu sonho. Porque
você, às vêzes, não está vendo o real”. Hoje em dia não. Eu tenho plena
consciência que... Tudo bem! Não é impossível, porém, é muito improvável, eu
ter que gostar da pessoa e poder aceitá-la. Vendo suas dificuldades e seus defeitos
e ela a mim. Eu vejo isso, não quero esconder. Agora eu achei o príncipe.
Entende? Às vezes eu vejo de cara que não vou poder tolerar aquilo. Ivana,
médica neurologista, solteira, 48 anos.
As cobranças em relação à exigência da beleza para as mulheres de meia idade
também são reconhecidas no relato de Ângelo:
A cobrança para a mulher é muito grande. Isso vai dependendo de cada faixa que
a gente vai... Acho que a mulher depois dos 40 anos, vem uma fase mais difícil
ainda porque nessa sociedade que cultua o corpo, a mulher depois dos 40, 50, 60
anos começa a lidar com uma coisa que é cruel para as mulheres que é a cobrança
da velhice, do corpo. Um homem de 40, careca, de cabelo branco. Ah! Ele
também não gosta de se olhar no espelho. “Meu cabelo está caindo. Eu estou
ficando careca”. Mas a sociedade não tem esse peso que em uma mulher que
começa a ficar com vergonha de ir à praia para não mostrar o corpo que começa a
ficar com, “Puta! Eu estou com estria e não sei o quê. Eu estou gorda”. Essa
independência que a mulher conseguiu com o trabalho, com liberdade, essa
cobrança da sociedade eu acho que é muito difícil ela lidar. “Foda-se! Eu sou
assim e acabou”. Esse “E acabou” é muito na teoria. Na prática é muito difícil.
Ainda mais nessa velocidade de relações. O mundo é prático e aí começam novos
conceitos e novas fórmulas. “Ah, a gente é um casal aberto. Cada um dorme na
sua casa”. Ou então, experiências homossexuais, que, cada vez mais, começam a
aumentar no mundo. Acho que é, justamente, por aí. Eu sempre brinco, porque
acho que quem quiser ganhar dinheiro hoje monta uma fábrica de bússola. Porque
as pessoas estão tão desnorteadas, que se você vender bússola fala assim, “Esse é
o meu produto”. As pessoas estão sem norte, mesmo. Ângelo, músico,
divorciado, 40 anos.
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Relatos da Vida Amorosa: a intimidade no contexto contemporâneo Sylvia Maria da Penha Cioffi
As disposições do narcisismo vigentes na sociedade contemporânea incidem
fortemente nas relações íntimas dos indivíduos, fazendo com os sujeitos criem anteparos e
defesas ao estabelecimento de laços amorosos sólidos e manifestem preferências por
ligações cujo caráter de externalidade e superficialidade são seus pontos marcantes.
As mulheres abandonam a cena amorosa...
Pode-se perceber nos relatos obtidos um comportamento feminino defensivo, refe-
rente ao desenvolvimento de relações estáveis e compensadoras. Depois de inúmeras
tentativas frustradas de estabelecer relações amorosas mais significativas, as mulheres
desertam do cenário amoroso. Muitas, depois de casamentos seqüenciais ou de relações
amorosas abortadas, partem em busca de outros lugares onde investir sua vida emocional.
Mulher após mulher, depois dos primeiros anos ‘tentando’, desiste e começa a se
afastar em silêncio, gradativamente, talvez até imperceptivelmente (Giddens,
2002: 88).
Esse fato parece estar se tornando bastante comum, observado nos relatos das
mulheres entrevistadas e quando não faz parte dos depoimentos explicitamente, ele
aparece nas entrelinhas como um desalento ligado à procura de parceiros. Os relatos de
Leandra e Maria Eunice assim o atestam:
Eu olhava aquele monte de homem. Tinha um bar na Consolação, que acho que não
tem mais, que eles ficavam até na calçada. Tanto homem, tanto homem de todas as
idades. De cabelo branco, de cabelo preto; gordo, alto, magro, baixo, bonito, feio.
Um monte. Eu passei ali um dia e olhei, “Como é que pode, né. Não vai mais
sobrar homem para mim”. Eu já estava ficando velha, sei lá, com 45, 46 anos e
vendo aquilo e falando, “Acabou. Acabou a minha vida sexual. Acabou a minha
vida afetiva. Eu vou morrer se não puder ter homem”. Então, por isso, eu precisava
da análise. Leandra, antropóloga, professora universitária, separada, 53 anos.
Na verdade, do ponto de vista de uma relação afetiva permanente com 32, 33
anos eu deixei de ter uma relação amorosa mais permanente. Não sei
exatamente se é uma decisão inconsciente de não... Mas é fruto de uma
dificuldade de me sentir satisfeita com as minhas relações, talvez por esperar
muito de uma relação amorosa, muito, do ponto de vista afetivo. Ao mesmo
tempo, não me interesso por uma pessoa que seja exclusivamente afetiva
comigo. Ela tem que ser uma pessoa que eu ache inteligente e interessante e
que tenha uma visão de mundo muito parecida. Então, é um nível de exigência
muito alto, porque você quer concentrar numa pessoa várias qualidades. Eu
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Relatos da Vida Amorosa: a intimidade no contexto contemporâneo Sylvia Maria da Penha Cioffi
acho que fica muito complicado depois que as pessoas têm uma história de vida
um pouco mais complexa no ponto de vista amoroso. Você juntar duas vidas
que já têm um passado, entre aspas, mais amplo, eu acho que é mais
complicado. Porque todo mundo tem feridas e exigências, das quais você não
abre mão. Muito mais do que você tem, ao casar pela primeira vez. Mais nova,
mais disposta a enfrentar a vida comum que não está muito pré-definida. Acho
que eu também tenho uma característica e refleti muito sobre a vida. A vida
amorosa. A vida pessoal. Então, você teoriza muito sobre aquilo e acaba
enquadrando as pessoas, antes da hora, em categorias e isso vai eliminando
qualquer possibilidade. Isso vai criando uma certa barreira. Depois disso, eu
nunca fiz análise. Imagino que seja assim. Você interpõe uma barreira ao
relacionamento, porque não é possível que você não consiga se relacionar com
ninguém. O fato de eu ter ficado sozinha. Sempre fui uma pessoa... Tem gente
que diz que é autoritarismo, mas não é isso. É ser muito assertiva. Você fala
muito. Você tem opinião sobre tudo. Você é muito atirada em expor o que acha.
Às vezes, você nem pensou sobre aquilo e sai falando. Sempre tive muito essa
característica, de ser inconseqüente com esses negócios e falando as coisas. E
mais. À medida, que eu fui vivenciando essas relações amorosas, eu passei a
falar muito delas e das observações que eu fazia, em relação às relações
afetivas de outros casais e do comportamento de homens e mulheres. Isso passa
uma imagem para as pessoas que você é extremamente segura, e, que sabe o
que quer e tal. Isso amedronta as outras pessoas, eu acho. O que não é verdade.
E os homens mais ainda. Porque na medida em que eles têm um
comportamento, de serem menos expansivos em relação aos seus sentimentos e
verbalizarem muito menos as suas emoções e tal. Quando você vê uma pessoa
que faz isso com facilidade, você não consegue avaliar o que aquilo significa.
Dá a impressão que sou capaz de me atirar pela janela, por causa de uma
pessoa, de repente, ou que eu vou ficar julgando o cara, o tempo inteiro. Isso eu
acho que afastou um pouco as pessoas. O fato de eu falar as coisas com clareza.
Acho que isso sempre... Muitas pessoas me observavam isso, “Você afasta! O
cara fica com medo” e tal. De uma certa forma, nunca me dispus a mudar isso,
de uma forma muito consciente. Não vou ficar uma idiota. Fingindo que não sei
um negócio. Fazendo um gênero, de que sou uma coitadinha, porque isso faz
bem para os caras. Esse tipo de homem, não estou interessada. Então, na
verdade, acho que fico querendo um homem ideal. Que é uma pessoa que
conviva bem com essa situação. Você acaba fazendo um monte de exigências e
como minha vó já dizia, “Se você escolhe muito, fica sozinha”. Você acabe não
conseguindo se relacionar. Você tem ótimos amigos... Maria Eunice,
arquiteta, divorciada, 57 anos.
Os homens permanecem...
Percebeu-se, pelos depoimentos, que os homens do grupo da geração mais velha
valorizam bastante a dimensão da afetividade e, que, diferentemente das mulheres da
mesma geração, eles continuam perseguindo o caminho do encontro amoroso. Mesmo
149
Relatos da Vida Amorosa: a intimidade no contexto contemporâneo Sylvia Maria da Penha Cioffi
porque eles têm uma relação de maior poder no mercado simbólico das trocas amorosas
(Bourdieu, 1999). Essa dimensão pareceu clara na fala de Nuno que afirmou ser essa uma
dimensão central em sua vida. Da mesma forma, José Antonio reafirma em todo seu
depoimento o agrado e o companheirismo de um casamento que já dura 25 anos. No
trecho abaixo, ele relata como é gratificante conviver a sós com sua companheira:
Quando nós viajamos, eu fico com ela sozinho, a gente se dá assim como se fosse
uma lua-de-mel. É diferente quando está aqui. Ela tem compromissos, tem a
janta, tem as netas. Quando a gente viaja não tem nada. Na Dinamarca. Quando
fomos para lá, ficamos confinados. Eram 23 artistas. Ficamos confinados num
internato que estava de férias, inclusive as dependências ficaram para a gente.
Tinha uma grande sala onde se faziam as refeições e a parte social era ali.
Ficamos num apartamentinho só nós dois. Foi uma maravilha. Não tinha
problema de filhos. Que horas saiu. Quando vai chegar. Como isso é um saco.
(risos) Tem uma hora que dá vontade de falar, “Por que essa gente não vai
embora?”. Ela fala também.
Nesse sentido, também sobressai o depoimento de Geraldo que, mesmo se
recuperando de uma separação recente, manifestou a significância da esfera afetiva em
sua vida:
Olha, eu fiquei casado 15 anos. Nós tivemos... Para mim foi uma experiência
importantíssima. Os primeiros anos de vida de casados foram muito bons. Depois
disso começou um afastamento. Eu também era convencido que a profissão era
um espaço de realização importante. Minha ex-mulher até hoje ela acha isso.
Hoje eu questiono. Acho que a realização pessoal não coincide com a realização
profissional. A realização profissional é apenas uma parte e, muitas vezes, pode
ser pouco significativa na realização emocional. Geraldo, arquiteto, professor
universitário, separado, 57 anos.
Mesmo no relato de Ivana, que não pertence a essa geração, mas que pela faixa etária
aproxima-se dela, pode-se perceber a centralidade da dimensão afetiva para sua vida.
Tive sorte também de encontrar a minha cara metade. A minha alma gêmea. Ou
será que não investi num caminho totalmente... Não sei. De outras coisas. Eu
acreditava nisso o tempo todo. Até que aparece. Apareceu. Então. Isso fez que...
Eu acho que esse otimismo é recompensado. Eu olho e não, não quero mal feito,
não quero de qualquer jeito, não aceito isso. “Mas isso aqui vai demorar mais
tempo”. Paciência. Vamos fazer isso. Vamos atrás. Não é sorte. É uma escolha
buscar uma coisa com melhor qualidade. Ivan, administrador de empresas,
casado, 45 anos.
150
Relatos da Vida Amorosa: a intimidade no contexto contemporâneo Sylvia Maria da Penha Cioffi
Não é que esses personagens não tenham outros interesses na vida, eles os têm, e
isso constitui um enriquecimento para a própria relação. Mas, por outro lado, esses
entrevistados têm em comum, além de suas inserções sociais diversas, um projeto de vida,
construído a longo prazo e partilhado com a companheira.
Nuno é bem claro ao abordar esse assunto em sua fala, afirmando o valor do
compromisso na relação amorosa:
O que eu posso observar é que [as pessoas] se dão muito mal de achar que tem
estrutura de, por exemplo, ter vários relacionamentos ou não ter compromisso.
Não se jogar de cabeça na relação porque é mais conveniente um certo
distanciamento. Enfim. Pelos mais diferentes motivos. O que eu noto é que há
uma insatisfação muito grande. Muito grande. Nuno, contador, separado com
uma relação estável, 58 anos.
Assim, a questão do compromisso ancorada em projetos comuns parece ser de
suma importância para a realização amorosa. Essa questão reveste-se de grande
ambivalência na atualidade. Bauman (2005: 68) em sua concepção da “modernidade
líquida” reitera o fato ao dizer que “as relações interpessoais, com tudo o que as
acompanha – amor, parcerias, compromissos, direitos e deveres mutuamente reconhecidos
– , são simultaneamente objetos de atração e apreensão, desejo e medo; locais de
ambigüidade e hesitação, inquietação e ansiedade”.
Resta saber se, na contemporaneidade, os indivíduos ainda se dispõem a enfrentar o
árduo caminho da realização amorosa.
Capítulo 4
A Recusa à Intimidade
É somente com um trabalho de todos os instantes, sem cessar recomeçado,
que pode ser arrancada das águas frias do cálculo, da violência e do interes-
se a “ilha encantada” do amor, este mundo fechado e totalmente autárquico
em que se dá toda uma série contínua de milagres: o milagre da não-violên-
cia, que torna possível a instauração de relações baseadas em total
recipro-
cidade
e
autorizando o abandono e a retomada de si mesmo; o milagre do
reconhecimento mútuo, que permite, como diz Sartre, sentir “justificado o
próprio existir”, assumido, até em suas particularidades mais contingentes
ou mais negativas, na e por uma espécie de absolutização arbitrária da ar-
bitrariedade de um encontro (“porque era ele, porque era eu”); o milagre
do
desinteresse
, que torna possíveis relações desinstrumentalizadas, gera-
das pela felicidade de fazer feliz (que se opõe fundamentalmente ao fato
de tratar o outro como instrumento, como puro meio de gozo, sem levar
em conta suas próprias finalidades), de encontrar no encantamento do ou-
tro, e sobretudo no encantamento que ele suscita, razões inesgotáveis de
maravilhar-se.
Pierre Bourdieu, Post-scriptum sobre a dominação e o amor, 1999.
p.130-131.
Hotel Room Edward Hopper
152
Relatos da Vida Amorosa: a intimidade no contexto contemporâneo Sylvia Maria da Penha Cioffi
E
m O Mal-estar na Civilização, Freud (1930) reconhece o amor [sexual] como um
dos fundamentos da civilização, “protótipo de toda felicidade” e fonte das “mais
intensas experiências de satisfação” para o indivíduo. Mas, adverte que, ao mesmo
tempo, ao se entregar ao amor, o indivíduo adentra pelo perigoso caminho da dependência.
Assim, torna-se dependente “de uma forma muito perigosa, de uma parte do mundo
externo, isto é, de seu objeto amoroso escolhido, expondo-se a um sofrimento extremo,
caso fosse rejeitado por esse objeto ou o perdesse pela infidelidade ou pela morte”. E
acrescenta: “nunca nos achamos tão indefesos contra o sofrimento como quando amamos,
nunca tão desamparadamente infelizes como quando perdemos o nosso objeto amado ou o
seu amor”. Em outra passagem ele pondera: “contra o sofrimento que pode advir dos
relacionamentos humanos, a defesa mais imediata é o isolamento voluntário, o manter-se
à distância das outras pessoas. A felicidade passível de ser conseguida através desse
método é, como vemos, a felicidade da quietude. Contra o temível mundo externo, só
podemos defender-nos por algum tipo de afastamento dele, se pretendermos solucionar a
tarefa por nós mesmos”.
A despeito de Freud referir-se ao indivíduo da modernidade, crê-se, também, ser
essa a principal defesa do sujeito contemporâneo em relação aos males de amor. Pode-se
dizer mesmo, que hoje as defesas estão aguçadas e os indivíduos se resguardam cada vez
mais, procurando experienciar “amores prudentes”.
Relações íntimas
Para Lasch (1983), vivemos um tempo de fuga ao sentimento, marcado pelo culto à
intimidade que, no cerne, carrega sua própria recusa. Assim, para o autor,a procura da
intimidade traz consigo a crescente desesperança de encontrá-la, conseqüência do peso
emocional e das grandes expectativas investidas nas relações pessoais.
153
Relatos da Vida Amorosa: a intimidade no contexto contemporâneo Sylvia Maria da Penha Cioffi
Giddens (2002) parte de posição distinta, ao considerar a intimidade como
condição básica de qualquer relacionamento estável. Nesse sentido, ele é otimista,
afirmando que a relação pura, característica da alta modernidade, instaura as condições
necessárias para que aflore a verdadeira intimidade. Ele faz a ressalva que a intimidade
deve ser distinguida do fenômeno mais negativo da falta de privacidade, característica da
vida cotidiana na Europa pré-moderna
18
.
Abrem-se aqui duas vertentes teóricas, ligadas à forma de conceber a intimidade na
atualidade. Para Lasch (1983) e Bauman (1998; 2004), há uma tendência negadora da plena
intimidade nos relacionamentos contemporâneos. Ao mesmo tempo que é intensamente
procurada pelos sujeitos, a intimidade traz em si o germe do seu abortamento, não só pelos
altos investimentos idealistas, nela colocados, como pela predominância de relações
narcísicas, que não aceitam a alteridade.
Ao contrário, para Giddens a busca da intimidade tem um valor positivo e
possibilita a interligação entre o projeto reflexivo do eu e a relação pura. A intimidade
estaria no centro das formas modernas de amizade e relações sexuais estabelecidas.
Ele aponta, citando os manuais de terapia, que a intimidade é quase sempre obtida
pelo “trabalho” psicológico e que ela só é possível entre indivíduos seguros de suas
próprias auto-identidades. É justamente esse “trabalho” que Lasch e Bauman consideram
que os indivíduos não estão dispostos a aceitar. O depoimento de Letícia também caminha
nessa direção, ao destacar:
Viver o dia a dia, que é o mais difícil. Que é a rotina. Que é a negociação. Que é
poder olhar para o outro e ver o outro com defeitos. Às vezes, defeitos que você
não gosta. Poder aceitar e conviver, conviver suficientemente bem. Não estou
falando de maravilhas, não. É difícil. Exige trabalho. Trabalho interior. Acho que
nem todo mundo está preparado. Você passa por um outro tipo de sentimento que
18. A proximidade física e a falta de privacidade era conseqüência inevitável da arquitetura na comunidade,
mas também do estilo de vida O desenvolvimento da vida pessoal, durante o período inicial da
modernidade, junto à burguesia da Belle Époque constituiu um domínio claramente delimitado, não ocor-
rendo, necessariamente, o mesmo nos outros meios sociais. Assim, as condições de vida dos campone-
ses, operários ou das camadas mais baixas das cidades não lhes permitiam conquistar essa privacidade,
apartando-se dos olhares alheios .em suas vidas cotidianas. A busca de privacidade e intimidade é uma
“invenção” moderna. Prost, 1992: 16.
154
Relatos da Vida Amorosa: a intimidade no contexto contemporâneo Sylvia Maria da Penha Cioffi
não é aquela da paixão. Você pode criar cumplicidades, respeito. Acho que exige
muita tolerância, uma capacidade de tolerância que não sei se o mundo atual, a
cultura tem dado condições para que esses indivíduos ou sujeitos possam estar
desenvolvendo. Létícia, psicanalista, casada, 43 anos.
A intimidade requer, ainda, uma certa medida de privacidade de parte de cada
parceiro, pois é necessário alcançar equilíbrio entre a autonomia e o universo
compartilhado de sentimentos e experiências, para que a proximidade pessoal não se
transforme em dependência. Nesse sentido, a intimidade não deve ser reduzida
unicamente ao relacionamento sexual, pois este faz parte dela, mas não necessariamente
ocorre o contrário. Em outras palavras, a intimidade construída vigora também em
relações não sexuadas, como as de amizade e pode não existir numa relação altamente
sexuada. Assim, o depoimento de Renata aborda esse ponto de vista, ao afirmar que a
intimidade não deve ser confundida com laços sexuais:
Não é que eu seja uma pessoa fácil de se apaixonar. Mas eu acho que demonstro
uma afetividade, um carinho, um cuidado, um beijar, um abraçar e demonstrar
que estou gostando e as pessoas se assustam simplesmente porque não estão
acostumadas com isso. Elas ficam achando que é tudo muito rápido. Eu fico
brincando, “Mas vocês são engraçadas, né. Vocês conhecem as pessoas. Transam
um dia, dois, depois. Eu acho que não tem nada mais íntimo do que uma pessoa
entrar em você, no português bem claro, mas isso não é intimidade. Intimidade é
quando você leva o cara para casa e começa a apresentar o seu dia a dia. Você
começa a querer dividir a sua vida. Isso é intimidade. É uma coisa muito confusa”
Renata, médica, psiquiatra infantil, solteira, 29 anos.
Outro ponto apontado por Giddens é que, na relação pura a confiança estabelecida
entre os parceiros é essencial, o que, por sua vez, se liga estreitamente à realização da
intimidade. Na relação pura, a confiança não é dada, mas conquistada. Na concepção do
autor “essa confiança supõe a abertura do indivíduo para o outro, pois saber que o outro
está comprometido conosco e que não abriga ressentimentos é o único referencial para a
confiança quando praticamente não existem suportes exteriores” (Giddens, 2004: 93).
Ainda que Giddens defina a relação pura com base em relacionamentos reais dos
dias de hoje, ele parte de uma posição bastante idealizada, pois esse tipo de
relacionamento pressupõe a maturidade, a aceitação da alteridade, a capacidade de
enfrentar conflitos, a limitação do narcisismo individual e, sobretudo, a disposição para o
compromisso. Ou seja, o autor peca por tomar a parte pelo todo. Não é que não existam
155
Relatos da Vida Amorosa: a intimidade no contexto contemporâneo Sylvia Maria da Penha Cioffi
relacionamentos puros; eles até existem, mas são minoria e a contemporaneidade não
incentiva a sua emergência.
Relação amorosa e compromisso
Assim sendo, o compromisso tem um papel central nas relações puras e, no dizer
do autor, este “é essencialmente o que substitui as âncoras externas que as relações
pessoais próximas costumavam ter em situações pré-modernas. O amor, no sentido do
amor romântico contemporâneo, é uma forma de compromisso, mas entre os dois, o
compromisso é a categoria mais ampla” (Giddens, 2004: 90). A importância dada por
Giddens ao compromisso, parece ser a parte mais frágil da teoria da relação pura, uma vez
que a sociedade contemporânea não prima pelo enaltecimento desse valor. Ademais, a
pesquisa empírica mostrou que, hoje, vigora com mais força o medo do compromisso nos
relacionamentos amorosos.
Assim, a perspectiva compartilhada por Lasch e Bauman, pode ser considerada
mais condizente com as disposições da modernidade avançada, por contemplar as
compleições narcísicas que alimentam a sociedade e, sobretudo, em vista dos resultados
obtidos na pesquisa empírica efetuada para este estudo.
A história de Roberto, que pertence ao grupo mais novo de entrevistados, é bastante
significativa, como exemplo das dificuldades que perpassam as relações afetivas, quando
estas se revestem de um caráter mais permanente. A problemática vivenciada pelos casais
do medo do compromisso aflora de forma nítida, marcada pela diferença de expectativas
contidas na relação. O entrevistado adota a postura daquele que anseia o compromisso,
consubstanciado numa relação estável e esbarra nas dificuldades de aceitação da proposta
pela companheira.
Roberto, 35 anos, solteiro, administrador de empresas vem de uma família de
ascendência italiana, na qual as relações afetivas são muito valorizadas. Em seu
depoimento, sobressai a vontade de construir uma relação afetiva estável e construída nos
moldes do que Giddens chamou de relação pura. Sua fala foi mantida, propositalmente
156
Relatos da Vida Amorosa: a intimidade no contexto contemporâneo Sylvia Maria da Penha Cioffi
extensa, para que se possa levar em conta todo o contexto em que se deu o principal
envolvimento amoroso do entrevistado. Ainda que se abuse, aqui, da benevolência do
leitor, dada a extensão do relato, considerou-se importante mantê-lo assim, uma vez que
uma gama ampla de pontos abordados neste estudo foi abordada pelo depoente.
Eu cresci nesse ambiente de casamentos não desfeitos. Até excesso de amor
como eu disse. Eu tive a sensação do mundo, que ele era assim. Eu achava que o
mundo era assim. Vivia num ambiente onde o amor reinava. Onde os casais se
davam bem, tudo maravilhoso; isso interferiu na minha formação como
indivíduo. Eu cresci um cara romântico, extremamente romântico. Busco até hoje
essa mulher perfeita. Tenho tentado, hoje, aprender a encontrar uma mulher não
tão perfeita. Talvez não seja a mulher perfeita, mas o relacionamento perfeito.
Acho que eu fico buscando o casamento dos meus pais e dos meus avós. Mas das
últimas reflexões, e a gente vai amadurecendo, tenho entendido que o tempo
deles era outro, a formação deles era outra. Tanto a minha avó quanto a minha
mãe foram educadas para o casamento. A minha geração já é uma geração de
conflito. A maioria das garotas que eu conheço tem vida própria. São
independentes, trabalham e querem ter a sua vida individual preservada, a sua
carreira, o seu momento. Eu sou daquele que acredito e respeito tudo isso, mas
acredito que isso pode se aliar com relacionamento, com a construção de alguma
coisa em comum. Nunca fui machista nesse sentido. Acredito. Não mesmo, muito
pelo contrário. Talvez tenha sido um pouco mais moderninho que meus irmãos ou
coisa que o valha. Eu acho que até o fato de ter me tornado um cidadão mais
urbano e ter vindo para a cidade grande e ter morado fora, ter me envolvido com
outras pessoas e outros estilos de vida mais modernos, menos tradicionais. Acho
que isso ajudou [para] que fosse entendendo o mundo de uma maneira melhor,
mas eu ainda tento aliar uma coisa com a outra, de ter um relacionamento onde eu
possa respeitar sim a individualidade da mulher. Que ela possa trabalhar e ter a
construção da vida dela, mas que ela também queira construir um relacionamento
em paralelo. Que ela queira construir família, um relacionamento a dois e uma
vida em comum. E que isso não tem necessariamente que separar. Talvez hoje, no
mundo de hoje, a gente tem que fazer mais concessões que nos tempos anteriores
que da minha mãe e da minha avó. Porque mulher concedia muito mais em
relação ao homem. Porque ela ficava lá com papéis muito definidos. A mulher
está no lar e vai cuidar da casa, dos filhos, da alimentação e o homem vai prover.
Ele vai sair para trabalhar e vai gerar dinheiro. Enfim, as possibilidades de
sustentar aquele lar. Eram papéis muito definidos. À medida que eu entrei numa
geração que veio da mudança e que todas as garotas da minha idade já estão no
mercado de trabalho e eu fui crescendo com essa modificação, não dava para ter
um casamento onde acontecia como na minha mãe e nos meus avós. Que a
mulher fica lá dentro de casa esperando por mim com a comidinha na mesa.
Também nem espero isso. Roberto, administrador de empresas, solteiro, 35
anos.
157
Relatos da Vida Amorosa: a intimidade no contexto contemporâneo Sylvia Maria da Penha Cioffi
No trecho acima, Roberto discorre sobre a transformação dos papéis de gênero,
partindo da perspectiva de aceitação desses novos padrões, mas afirmando seu desejo de
encontrar uma companheira para construir uma relação amorosa satisfatória, que tenha
como exemplo, no passado, seus pais e avós. Se, por um lado, há um componente idealista
na fala do depoente (”busco até hoje a mulher perfeita”), por outro, há o reconhecimento,
de que é necessário se adequar à realidade dos fatos (“tenho tentado, hoje, aprender a
encontrar uma mulher não tão perfeita”).
O ponto central da narrativa é o desencontro amoroso vivido com a companheira,
com a qual o entrevistado queria estabelecer uma relação estável, em que o compromisso
e a confiança fizessem parte das negociações acordadas para alcançar um cotidiano
harmonioso, baseado na troca e cumplicidade.
A história começou em uma viagem para a Europa, na qual Roberto conheceu uma
moça no avião e passou toda a temporada da estadia junto com ela. Começaram a namorar
e deram continuidade a esse relacionamento em São Paulo, onde ambos moravam. No
entanto, esse relacionamento passou por inúmeras fases e vários percalços. A dificuldade
da entrega amorosa, nesse caso por parte da companheira, apareceu em várias passagens
do relato do entrevistado:
Apesar de estar comigo, ela estava muito fechada. Nos primeiros dias de
relacionamento ela não falava quase. Ela só queria ouvir. Como se ela quisesse
aprender muito de mim. Mas ela não falava nada. Mas eu falava com ela, “Olha,
é muito difícil. Porque você sabe quem eu sou, porque estou falando tudo que eu
sou. Mas você não diz quem é e eu não entendo você. Preciso saber com quem
estou me relacionando”. Brigamos bastante até. Mas assim, não eram brigas para
magoar o outro ou para ficar com raiva. Mas era porque eu a botava contra a
parede, “Se abre! Se você está num relacionamento não dá para ficar pela
metade. Você não quer ficar comigo? Então, deixa eu saber quem é você”. Tinha
muito medo. Aí ela me contou porque tinha tanto medo. Eu entendi e continuei
achando que não era razão, “Eu também venho de uma série de outras histórias.
Inclusive a minha última história não é muito boa. Eu também acho que não sirvo
para me relacionar. Isso que se passa na minha cabeça nesse momento. Eu não
sirvo para relacionamento é melhor ficar sozinho porque eu não dou uma dentro.
Isso não é privilégio seu. E demais a mais eu não vou casar com você. Você vai
embora daqui a alguns dias e eu vou ficar por não sei quanto tempo. Então, vamos
viver o que tem para viver sem culpa, sem cobrança, sem medo. Vamos pegar
mais leve”. Enfim, eu sei que conversei muito, falei muito.
158
Relatos da Vida Amorosa: a intimidade no contexto contemporâneo Sylvia Maria da Penha Cioffi
A questão a que o entrevistado se refere (em relação à namorada) das más
experiências amorosas, que imunizam o indivíduo para um novo relacionamento, é fato
bastante comum do cotidiano, que reforça o medo dos envolvimentos compromissados.
Sintomaticamente, a relação de Roberto com sua namorada fluiu melhor quando não havia
expectativa de compromisso:
Enfim, o tempo em que éramos amigos coloridos foi um tempo em que a gente
ficou muito próximo. Que deu muito certo. Comecei a discutir com ela. Eu
falava, “Eu quero envelhecer com você”. Ela me cobrava muito. Ela dizia que eu
não tinha ciúme dela. Aprendi tanto que tinha que respeitar a mulher. Que eu
tinha que dar liberdade para mulher. Que ela tinha amigos homens e eu não ficava
cobrando. Eu chegava no apartamento dela e tinha um vizinho que estava lá
sentado tomando cerveja com ela e só os dois dentro do apartamento. Eu chegava
e a primeira coisa que eu fiz foi tentar ficar amigo do cara. No fundo, o que ela
queria é que eu fizesse uma cena de ciúmes. Porque para ela não bastava toda
aquela minha eloqüência que te contei da cena do shopping ou de qualquer outra
coisa. Ela queria cena de ciúme. Ela queria me ver dizendo “eu te amo”. Eu não
sou tanto de dizer “eu te amo” porque eu tenho medo de gastar isso. Eu prefiro
fazer. Depois que eu entendi que isso era tão importante, em alguns momentos eu
dizia. Mas eu falava para ela, “Se eu disser ‘eu te amo’ para você só porque você
quer ouvir, vai ser uma coisa automática, alguma coisa assim programada. Não
vai ser uma coisa espontânea que veio de dentro de mim. Eu acho que vem tanta
coisa a mais de dentro de mim, que eu mostro para você”. Ela começou a duvidar.
Depois de algum tempo voltamos a ser namorados outra vez. Não precisava nem
dizer, porque a coisa estava acontecendo e eu passava muito tempo com ela.
Dormíamos juntos muitas vezes por semana. Metade do tempo na minha casa e
metade morando com ela. Eu ficava na minha casa quando ela viajava. Ela
começou a entrar num outro processo. Estava insatisfeita com a empresa [em]
que estava trabalhando e queria pedir demissão. Ela meio que forçou a demissão
dela. Começou a ter um monte de comportamentos de má disciplina para forçar a
demissão. Como ela não é de São Paulo, é do sul do Brasil, forçou a demissão e
teve que ir embora porque morava de aluguel em São Paulo. São Paulo é uma
cidade cara e morava num apartamento caro. Voltou para a casa dos pais, porque
senão ela ia gastar toda grana de rescisão de contrato com aluguel. O mercado de
aviação, que era o mercado onde ela estava – e ainda está – estava num processo
difícil de conseguir trabalho. Eu achava que nada disso era motivo da gente
separar.
O descontentamento em relação à imaturidade da companheira e à preferência dela
por um relacionamento mais “leve” fazem parte das queixas:
Eu achei que ela pudesse ser uma garota madura, porque ela já tinha 28 anos, já
não era mais tão menina, achava que ela era uma mulher e podia estar preparada
para construir alguma coisa assim. Ela pareceu muito apaixonada por mim. Mas
depois de algum tempo, começou a entrar num processo de insegurança e
159
Relatos da Vida Amorosa: a intimidade no contexto contemporâneo Sylvia Maria da Penha Cioffi
instabilidade emocional (...). Não em relação ao sentimento, necessariamente,
mas a rumos de vida. Resolveu que queria morar fora um tempo, como eu fiz. Ela
também tinha esse sonho. Falei para ela que devia ir porque não queria
interromper ninguém de fazer nada. Se eu tive direito, ela tinha também. Isso
poderia ser um dificultador no relacionamento e poderia ser que não. Ela
começou a ficar muito instável e eu procurei entender toda instabilidade dela.
Aquilo que eu disse no início. A gente tem que entender o mau humor do outro. A
TPM da mulher. Enfim, essa coisa toda para preservar o relacionamento.
Mas ela começou a me pôr para escanteio. Começou a me ligar menos e como ela
viajava muito em função do trabalho eu nunca ia saber quando ela estava em São
Paulo ou não. Às vezes ela chegava em São Paulo e me ligava. Comecei a achar
que o relacionamento estava esfriando. Depois cheguei para ela e propus
amizade, “Já que a gente está funcionando assim. eu percebo que não estou
fazendo mais parte da sua vida. De repente, você precisa de seu momento para
viver a sua vida, é melhor a gente chegar e ser franco e dizer.” Eu acho que
quando falei isso e ela percebeu que poderia me perder – e no fundo confesso que
comecei a ficar um pouco desiludido porque vi que o relacionamento não ia durar
muito. Não ia muito longe – já que tínhamos ficado amigos, nós ficamos os
amigos mais coloridos do mundo.
Fica evidenciado aqui o desencontro de expectativas entre os componentes do casal
e o descontentamento de Roberto diante dos rumos da relação:
Mas como ela provocou a demissão, provocou essa saída, esse rompimento. Ela
queria ir embora do país e morar no Canadá. Depois inventou que iria morar na
Espanha e nunca se resolvia. Queria viver o mundo dela, na individualidade dela.
Eu percebi que ela não participava muito. Eu estava disposto a deixar ela viver
tudo que quisesse, mas desde que eu participasse da vida dela. Eu achei que eu
tinha passado por toda aquela transformação. O casamento, do meu pai e da
minha mãe, onde a mulher é pronta para o lar. Eu já tinha vivido uma séria de
coisas, de estar pronto para viver com uma mulher, que pudesse ter a
independência dela. Ela viajava muito. Ela ficava muito fora. Eu não sabia onde
ela estava. Eu tinha noção. Mas eu digo assim, não sabia se ela estava no hotel ou
na rua. Se ela estava na cama com outro homem. Não podia saber. Cada dia ela
estava numa cidade diferente. Claro que neuras passavam na minha cabeça, mas
eu nunca perguntei. Quando ela chegava eu falava, “ E aí! Como é que foi a
viagem? Tudo bom? Lá em Maceió estava bom? Conseguiu pegar praia?”. Se ela
quisesse me contar o que ela fez, ela me contaria. Eu não ficava perguntando,
“Onde é que você foi na sexta? O que você fez? Você jantou onde?”. Não fazia
cobrança nenhuma, porque eu dizia para ela, “Se você quer estar comigo é porque
você quer. Não posso forçar você a ficar comigo e me amar. Assim como você
não pode fazer comigo. Tem que ser uma relação de confiança em que eu acredito
que você está comigo por que quer”.
Neste trecho do relato, Roberto explicita o sentido da relação pura de Giddens e
enaltece o valor da relação como finalidade em si, explicitando o papel da confiança.
160
Relatos da Vida Amorosa: a intimidade no contexto contemporâneo Sylvia Maria da Penha Cioffi
Antes dela mudar para a casa dos pais, quando estava com essa história de que
estava indo embora, fui para a Europa de novo a passeio.
Então, eu fui para a Europa. Fiquei uns 20 dias lá. Como eu estava inseguro, sem
saber o que queria da vida, “Vamos fazer o seguinte? Vamos aproveitar o meu
tempo fora, para nós pensarmos no assunto. Você resolve o que você quer da sua
vida e onde eu participo dela e onde eu não participo. Como eu vou me posicionar.
Porque quem está mudando aí é você. Eu estou no mesmo trabalho, na mesma
cidade. A minha vida vai seguir com uma certa estabilidade nesse momento. Eu
preciso me adaptar no seu projeto de vida. Eu preciso saber se quero ou não me
adaptar. Quanto isso vai mudar para saber se estou pronto ou não”.
Ela falou, “Me liga”. “Olha. Não vou ligar, logo de cara, porque senão a gente
não vai ter tempo nem de sentir saudade”. Viajei num fim de semana. No dia 12
de setembro. Eu ia viajar no dia onze até, mas não viajei, mudei a passagem por
conta do episódio de Nova Iorque. Fiquei o primeiro final de semana, a semana
inteira, e o segundo final de semana sem ligar para ela. Em torno de uns 10 dias.
Não achei que era tanto tempo assim. Tinha se dado um tempo para pensar.
Aí ela foi para... Convidou os meus amigos para sair. Porque ela achou que eu
não tinha ligado para ela... Se convidou, na verdade, para sair com meus amigos.
Chegou na danceteria. Foi para uma balada na Vila Olímpia e tal. Chegou lá, ela
bebeu para caramba. Até aí tudo bem. Não importo que ela tenha os porres dela.
Muitas vezes eu já bebi e ela, juntos. Além disso ela ficou com quatro caras e foi
embora com os quatro para casa. Ela estava beijando quem aparecesse. Ela não
ficou com os meus amigos, mas na frente. Ela quis fazer isso mesmo, para me
provocar. São Paulo é muito grande. Ela poderia ter ido para um monte de outros
lugares. Ela achou que eu estava lá na Europa galinhando. “Ele vai me encontrar
com os amigos dele e vai fazer e acontecer. Então, eu vou dar o troco. Quando
chegar vou ter feito a mesma coisa. Vou ter platéia para assistir”. Quando liguei
para ela na segunda- feira – isso aconteceu no sábado, aqui no Brasil – me recebe
toda “Oi!”. Ela me chamava de bonitinho. “Oi, bonitinho. Como é que você está?
Que legal que você me ligou”.
Aí eu fiquei ligando para ela. “Eu passei em Paris” – eu já estava em Amsterdã -
“Almocei naquele mesmo restaurante que agente almoçou”. Pedi um croissant de
gotas de chocolate, que a gente tinha comido juntos e que a gente gostou muito.
Sabe, assim de fazer as mesmas coisas. Até porque o que estou comendo, remete
àquela pessoa e tal. Ficamos até o final da minha viagem em contato. Aí eu
chego no Brasil. Liguei para ela e ainda estava cumprindo aviso prévio. Ainda
tinha vôos para fazer e não estava logo que eu cheguei. Falei com um amigo meu.
Ele me disse assim, “Você encontrou com a sua namorada?”. “Encontrei”.
“Vocês conversaram?”.
“Na verdade, encontrar pessoalmente, não. A gente falou por telefone”.
“Porque ela saiu com a gente. Na verdade, ela se convidou para a balada e ela
bebeu para caramba. Estava lá no maior porre”.
161
Relatos da Vida Amorosa: a intimidade no contexto contemporâneo Sylvia Maria da Penha Cioffi
“Tá bom. Até aí tudo bem”.
“Pergunta para ela, para você ver”.
Logo quando eu cheguei teria um feriado, não me lembro do quê. Era mais para o
fim do ano isso. Um amigo me convidou para viajar em Angra dos Reis. Falei que
não, porque eu ia para a casa dos pais dela. A gente já havia combinado de ir para
o sul.
Aí nos encontramos e almoçamos no Shopping Ibirapuera, como sempre. Como é
que foi e tal. “Meus amigos me disseram que você tomou o maior porre. Que
vergonha!”. Ainda brinquei com o assunto. Ela desconversou. Para mim não era
problema nenhum, que ela tivesse tomado um porre. Ainda mais com os meus
amigos. Sem problema. Ela estava toda amorosa. Extremamente carinhosa,
apaixonada e tal. Falei muito da viagem e ela quis saber de tudo. Ela falou que ia
viajar e quando voltasse... O feriado era na sexta-feira e aí a gente embarca.
Encontrei com meu amigo e ele perguntou se conversei com a minha namorada.
Falei que conversei.
“Ela te contou como é que foi no sábado?”.
“Ela falou que bebeu, mas até aí não tem problema”.
“Então, vou te contar. Eu deixei isso para ela fazer. Mas já que ela não fez e eu
sou seu amigo, a questão foi a seguinte, ela bebeu muito, beijou quem quis. Só eu,
a vi beijando quatro caras diferentes. Mas eram beijos, mesmo, intensos. Para
todo mundo ver, ela foi embora com quatro caras. Foram embora juntos para a
casa dela”.
Foi um choque para mim, porque eu não via razão para tudo isso. Eu, na Europa,
não estava aprontando nada. Estava com meus amigos. Isso foi numa 4ª feira, e
meu amigo ia para Angra na 5ª à noite. Perguntei se ainda tinha vaga no carro e
ele disse que sim. Eu ia para o sul com ela. Liguei para o celular dela. Eu sabia
que estava desligado porque estava em vôo. “Não vou mais viajar com você. Na
segunda-feira quando voltar para São Paulo me liga, a gente precisa conversar.
Tchau”. Curto e grosso. Desliguei o meu celular e ela não sabia para onde eu
tinha ido. Aí passei o fim de semana lá. Me diverti tanto quanto pude. Voltei e
quando foi na 2ª feira ela me ligou. Mas ela teve uma série de vôos para fazer na
semana. Vôos curtos. Mas ficou a semana inteira voando e só nos encontramos no
sábado. Ela queria porque queria saber o que era.
“Não. Eu tenho que te falar pessoalmente”.
Nos encontramos de novo no Shopping Ibirapuera, como sempre, para almoçar.
Almoçamos tranqüilamente. Eu estava com, um pacote de presentes para ela e
falei, “Eu fui para Paris e lembrei de você e trouxe isso. Passei em Bruxelas,
lembrei de você e trouxe isso. Eu passei em Amsterdã e trouxe isso... Em todos os
lugares onde eu fui trouxe alguma coisa. Eu pensei em você a viagem inteira.
Você me acompanhou a viagem inteira”. Ela ficou feliz a respeito.
162
Relatos da Vida Amorosa: a intimidade no contexto contemporâneo Sylvia Maria da Penha Cioffi
“Pena que você não fez o mesmo”.
“Eu não fiz outra coisa a não ser pensar em você”.
“Mas você tem um modo estranho de pensar em mim, não é? Você vai para a
boîte, beija um monte de caras. Leva o último para casa, para dormir com você e
pensa em mim?”.
Enfim, desfez-se essa coisa toda da fantasia. Do achar que a gente podia construir
um relacionamento. E esse foi o meu último relacionamento desde então.
O depoimento de Roberto evidencia a quebra de uma condição absolutamente
necessária à manutenção da relação pura – a confiança no parceiro – que, uma vez
rompida, pode levar ao término da união, ou exige, no mínimo uma negociação em bases
novas. A confiança e o compromisso alicerçados numa relação estável fazem parte dos
traços de caráter, já apontados por Sennett (2001), próprios do processo de “longo prazo”
que se choca com os ditames da contemporaneidade marcada pelo tempo do “curto
prazo”.
Assim, é característica comum do grupo dos entrevistados mais jovens esse caráter
mais volátil da relação amorosa. Retomando, pode-se perceber que esse tema perpassou os
depoimentos de Laura, Vera, Eugênia, Roberto, Joana, Renata e Marcos.
O medo da entrega amorosa
O perigo da entrega amorosa, reconhecido por Freud no Mal-estar na Civilização é
um sentimento de defesa bastante antigo e já encontra eco nas narrativas mitológicas e nos
estereótipos calcados, principalmente, na visão do feminino e da mulher. Esse medo da
entrega amorosa tem sido mais identificado como atributo masculino, e isso transpareceu
claramente nas entrevistas, mas há indícios que, hoje, ele começa a ganhar terreno
também entre as mulheres. Como nos relatam Ivana e Eugênia:
Os homens e as mulheres estão com medo de amar?
Amar é uma responsabilidade e um risco.
Hoje as pessoas têm mais medo de amar?
Mais medo. Eu acho. O risco sempre existe de não ser correspondido.
163
Relatos da Vida Amorosa: a intimidade no contexto contemporâneo Sylvia Maria da Penha Cioffi
Esse medo do compromisso é mais masculino ou mais feminino?
Acho que hoje seria mais masculino. É lógico, que têm muitas mulheres que
também têm e fogem. Mas ainda eu acho isso, mais masculino. A mulher, ainda,
no fim das contas, procura se adaptar às situações atuais. Não é que deixou de
querer encontrar alguém, não. É uma coisa meio que você é obrigada. Que a
evolução está sendo ainda. Não é verdade? Esse processo está em andamento e os
homens e as mulheres estão... assim.
Você acha que os homens estão assustados com o novo papel da mulher?
Muito, muito, muito assustados. Não sabem, exatamente, qual o seu papel mais.
Ivana, médica neurologista, solteira, 48 anos.
Você acha que esse medo da perda da liberdade é mais feminino ou mais
masculino?
Mais masculino. Em tese. Porque a mulher também tem medo. Tem muito medo.
Eu falo que quero namorar, mas não sei se quero perder essa liberdade. Não de
ficar com alguém melhor, mas é não ter que dar satisfação da minha vida.
Dar satisfação é perder um pouco da liberdade?
Para mim é porque eu não sei dizer não. Eu não sei muito me posicionar, sabe. Eu
quero isso e é assim.
Você não se coloca no relacionamento?
Não. Para mim está sendo melhor estar sozinha do jeito que estou do que ter um
relacionamento e voltar a perder a minha essência, justamente por não me impor,
não saber me posicionar.
Por que você acha que estar junto é perder a essência?
Porque é o exemplo que eu tive, né. Porque a minha última experiência foi assim.
Eu acabei me moldando assim. Estou fazendo terapia para isso, para ter alguma
coisa mais madura. Porque eu sou muito infantil nessa coisa de relacionamento.
Você acha que as pessoas estão num individualismo radical...
Impera. Com certeza. É. Também pode ser porque é tudo muito fácil, né.
Entretanto, pelas características da socialização feminina e pelas disposições
simbólicas como já apontou Bourdieu (1999: 82) as mulheres “são ensinadas” a esperar
muito da relação amorosa, estando mais disponíveis aos desígnios masculinos, que
estabelecem para a mulher um lugar mais romântico na relação afetiva. Isso faz com que
elas sejam menos “defendidas” em relação à questão amorosa. A conformidade em ter
sempre de agradar o outro, o desejo de atrair atenção ou o que se convencionou chamar de
coqueteria e graça feminina, e até a propensão de esperar muito do amor, ou de não se sentir
completa sem ele, são prerrogativas femininas em nossa sociedade. Portanto, esse medo da
entrega amorosa tende a ser, ainda, mais masculino que feminino.
164
Relatos da Vida Amorosa: a intimidade no contexto contemporâneo Sylvia Maria da Penha Cioffi
Já a Psicanálise tem outra explicação para o fato, que remonta às diferenças no
processo psíquico de superação do complexo de Édipo para homens e mulheres
19
. Nesse
terreno, há mesmo quem diga que toda a história de dominação das mulheres é fruto do
medo dos homens
20
.
Estariam na raiz desse medo difuso em relação ao feminino, os mitos antigos como
o da Vagina Dentada
21
e a visões que identificam a mulher com a figura do demônio ou da
feiticeira. A história das religiões e do catolicismo está repleta de exemplos de tais
identificações.
Badinter (1986) faz referência a dois medos masculinos, aparentemente
contraditórios: um em relação à vagina e outro da confusão dos sexos, que ela denomina
de dualismo conflitante. Esses medos segundo ela parecem não ter equivalente mítico e
psicológico nas mulheres acrescentando que embora cada um dos sexos tema o outro, a
vagina parece mais temida do que o falo. “E se a simbologia do inconsciente o assimila a
uma espada (...) ou serpente, os mitos de origem com mais freqüência, identificam-no com
a força e com a vida” (Badinter,1986: 148). A autora reitera que o mesmo não acontece
com a vagina, objeto de uma literatura assustadora. Assim, os homens temem-na “como o
19. A Psicanálise identifica o medo do Outro, no sentido masculino, com o medo da castração e o situa nas
diferenças por que passam meninos e meninas na formação do psiquismo. Kehl (1996) fornece uma
pista para tal fenômeno, ao discutir as principais implicações de que o Édipo se reveste para as diferen-
ças dos sexos. Assim, o menino e a menina passam pela fase do Édipo de forma diferente: o que força o
menino a fazer a renúncia ao amor edípico e reorientar os investimentos libidinais para outro objeto é o
complexo de castração, que se estabelece no momento em que ele descobre a falha no sexo da mulher.
Já a menina, no entra no Édipo num “segundo tempo”, por meio do mesmo complexo, reorientando seu
amor da mãe castrada para o pai fálico. Como mostra a autora, o Édipo feminino apresenta
especificidades e a grande diferença é que a mulher não tem nada a perder, pois já é castrada (Kehl,
1996: 39;47).
20. Essa posição é defendida por Jean Cournut (2001), psicanalista francês, em seu livro Pourquoi
les Hommes ont Peur des Femmes (Por que os homens têm medo das mulheres) que discute a hipó-
tese concernente à dominação masculina, como corolário do medo que os homens têm das mulheres.
Por meio da psicanálise, ele aprofunda a questão, ao investigar o motivo de tão inusitado temor, apre-
sentando uma visão das inúmeras faces do problema. Ver: COURNUT, Jean, 2001.
21. Badinter (1986:149) cita as inúmeras lendas sobre a Vagina Dentada. “Na India numerosos contos falam
de mulheres cuja vagina está cheia de dentes, que cortam o pênis do homem”.
165
Relatos da Vida Amorosa: a intimidade no contexto contemporâneo Sylvia Maria da Penha Cioffi
Outro absoluto”, um perigo ameaçador e misterioso
22
. A esse medo do Outro que
caracteriza a psicologia masculina acrescentar-se-ia o da confusão dos sexos,
característico por ser “indissociável de um desejo feroz de possuir os atributos do Outro.
Desejo abertamente reconhecido para as mulheres, mas severamente recalcado pelo
inconsciente masculino ocidental” (Badinter, 1986: 148).
No inconsciente e nos mitos, relata a autora, a vagina é representada como força
devoradora, insaciável, acrescentando a esse, o medo do sangue menstrual. Em várias
religiões e culturas (incluindo as primitivas) o sangue menstrual é considerado impuro,
trazendo má sorte para os homens. Cournu (2001) referenda esse temor à vagina, no
terreno da psicanálise, ao afirmar que “o medo que os homens sentem das mulheres e o
discurso que elas lhes inspiram fazem parte do jogo das representações. Entretanto, esse
sentimento de medo é mal reconhecido, sobretudo negado e, ainda, freqüentemente, não
conscientemente experimentado” (Cournut, 2001: 6)
23
.
Não obstante esses mitos nos pareçam, como contemporâneos que somos, com
histórias da Carochinha (entendidas como histórias fantásticas do imaginário popular), não
é de todo infundado que o medo da entrega intensa nas relações amorosas vigore, ainda
hoje, para ambos os sexos. Além do fenômeno constituir terreno fecundo para a
psicanálise, esconde-se aí um medo ou um conflito bastante característico da atualidade,
ou seja, a dificuldade de lidar com a diferença nas relações afetivas.
Como se viu, o medo do outro é mais identificado com os homens, sendo
confirmado pelo relato das entrevistadas, mas o fato sugere que, hoje em dia, ele possa
estar influenciando ambos os sexos.
Khel (1996: 45) assume uma posição semelhante à de Badinter (1986) ao reiterar
que a mulher possui “uma bissexualidade muito menos recalcada que a do homem” (ou,
para Badinter, um dualismo conflitante menos severo), “já que para este, toda
22. Em recente filme de Pedro Almodóvar, Fale com Ela, há uma alusão a uma fantasia ou sonho do perso-
nagem principal, que se perde na vagina de uma mulher. Ele se torna pequeno e entra dentro de uma
vagina descomunal como se entrasse em uma caverna. Tal imagem evoca o medo masculino de “per-
der-se” quando profundamente envolvido por uma mulher.
23. Tradução livre.
166
Relatos da Vida Amorosa: a intimidade no contexto contemporâneo Sylvia Maria da Penha Cioffi
identificação com a mãe é sentida como uma ameaça de perda pela castração, enquanto
para a mulher essa identificação paterna é vista como ganho.
Que a mulher tenha conseguido, no último século, angariar inúmeras conquistas
(por meio da inserção no mercado de trabalho, da contracepção e da instrução, só para
citar algumas) foi uma transformação que alterou de forma revolucionária o cenário dos
costumes, da cultura e a própria imagem da feminilidade. Mudanças essas que Freud – a
despeito de sua capacidade profética ter se mostrado acertada em relação à agressividade
humana do mundo atual, tratada na obra “O mal-estar na civilização” – nem sonhou que
poderiam acontecer. Assim, na expressão de Kehl (1996: 49), “o trinômio passiva-infantil-
maternal já não dá conta de dizer a mulher, que começa a ampliar o leque de suas
possibilidades identificatórias”, conquistando terrenos na sociedade da qual faz parte.
Segundo a autora, as mulheres passaram de desejadas a desejar, assenhorando-se
de sua sexualidade, perdendo com isso “a posição narcisista de eternas desejadas,
comprometidas com a indiferença e a frigidez” (Kehl,1996: 49). Mas agora ela compete
num terreno que sempre foi masculino – o desejo do Outro – e assim também pode jogar o
homem por sua vez na condição de narcisista.
Ao revelar seu desejo ao homem, e dividir com ele o ônus de desejar, a mulher
adentra um terreno que, se por um lado promete um encontro mais satisfatório entre os
sexos, ainda constitui uma ameaça velada a eles, que, muitas vezes, em reação,
recusam-lhe a antiga posição idealizada conferida pela tradição. A mulher que declara
livremente a sua sexualidade “se depara com o horror masculino diante desse vazio-
que-fala, já que no (seu) inconsciente toda mulher se confunde com a figura da mãe,
cuja voracidade seduz, mas ameaça – de onde se conclui que a tradicional interdição da
sexualidade feminina, além dos motivos práticos de controle da linhagem dos herdeiros,
fundava-se no temor inconsciente da mãe devoradora” (Kehl, 1996: 51).
O fato é que as conexões vistas pela Psicanálise encontram eco no contexto social,
já que, hoje, estão mais aguçadas as defesas e o medo da entrega amorosa vigora com mais
força. Mesmo porque nunca a mulher fugiu tanto ao controle masculino como na atua-
lidade. Os depoimentos dos entrevistados abordaram essa questão, tornando subjacente
ou explícito, o retraimento dos indivíduos diante do envolvimento amoroso:
167
Relatos da Vida Amorosa: a intimidade no contexto contemporâneo Sylvia Maria da Penha Cioffi
As relações passaram por tantas transformações, não é? Eu acredito que o
movimento feminista e a mulher inserida no mercado de trabalho revolucionaram
tanto as relações afetivas. Porque um ser independente pode escolher “eu não
quero viver assim”. Quando a mulher era dependente, não tinha grandes escolhas.
Então, eu acho que o amor se tornou uma coisa mais fluída. Isso dá medo nas
pessoas. Márcia, promotora de Justiça, divorciada, 45 anos.
Quando você leva alguém para a sua intimidade e começa a quebrar e não ser tão
encantadora assim, ser tão perfeita assim. Quando os caras começam a perceber
que você é normal, o encantamento vai embora e às vezes não fica mais nada. É
esse lugar que eu estou tendo dificuldade para preencher. Quando o encantamento
vai embora como eu tenho que lidar com isso? Renata, médica, psiquiatra
infantil, solteira, 29 anos.
Acho que esse medo de amar foi ensinado desde criança. Desde que você é
criança, principalmente para o homem, você... Toda parte afetiva é um sinal de
fraqueza. Você tem que estar por cima da sua dor. Se você está com dor não
chora. Se você está com medo, esconde o medo e vai lá e faz. Toda parte,
digamos assim, afetiva e emocional do homem foi cerceada numa educação
completamente complicada que, graças a Deus, hoje está mudando. Estamos
assistindo uma educação onde um menino pode brincar com boneca. Alguns anos
atrás isso era sinal de que seria gay. Hoje, é um sinal de absoluta normalidade.
Ele pode chorar. Pode fazer uma série de coisas que antigamente não podia. Acho
que vamos ter crianças muito mais masculinas do que nós tivemos, por muito
tempo, por essa falta de afetividade que dá medo ao homem. Aliás, os
depoimentos que eu escuto dos homens quando estão perto de uma coisa de amor,
se sentem à beira do precipício. Por mais que se sintam atraídos pelo precipício,
morrem de medo e ficam aliviados de terem recusado pular no precipício. É
lamentável porque perderam uma chance maravilhosa de ir para outro nível, outra
coisa, totalmente, que eles perderam e vão se arrepender muito lá na frente. Até
tarde demais. Ivan, administrador de empresa, casado, 45 anos.
Assim, no campo psicológico, o medo da intimidade parece estar inserido no
contexto da sociedade atual, alicerçado por dois aspectos: a vigência do narcisismo
exacerbado que incide na possibilidade do pleno desenvolvimento psíquico do eu,
implicando na conseqüente inexistência do “instrumental emocional” para a sustentação
de ligações amorosas duradouras e, ainda, esse medo inconsciente, revelado no dizer de
Khel, frente ao “vazio que deseja”,
24
relativo ao desejo feminino.
24.A psicanálise nasceu escutando o discurso avesso daquelas mulheres consideradas pelos médicos como
histéricas. Daquelas que se sublevaram contra a complementaridade do sexo e começaram, já que impos-
sibilitadas de falar pela linguagem, a falar pelo corpo e a fazer sintomas. Na verdade, como diz Julien
(1996: 134), “o chamado discurso histérico foi, desde sempre, uma subtração do discurso do mestre po-
lítico ou religioso que atribui à mulher um lugar fixo de complementaridade em relação ao homem.” Essa
168
Relatos da Vida Amorosa: a intimidade no contexto contemporâneo Sylvia Maria da Penha Cioffi
No contexto sociológico há a vigência dos novos papéis de gênero e a liberação
feminina, que alteraram a correlação de forças no campo do poder das relações entre os
sexos. Os homens, em sua maioria os da geração mais antiga, apresentam dificuldades
de assimilar ou, melhor dizendo, superar os valores da socialização tradicional a que
foram submetidos pela família. Isso provoca insegurança e um maior temor dos
relacionamentos compromissados diante dessa nova mulher que protagonizou as
mudanças. Assim, os homens parecem perplexos desorientados e até desconfiados,
perguntando-se o que é esperado deles. Isso apareceu no relato de Cássio do segundo
grupo de entrevistados e também no depoimento de Roberto já explicitado em capítulo
anterior. Assim :
Acho que existe basicamente uma cultura judaico-cristã arraigada, sedimentada
por séculos e que as pessoas, por sermos latinos, que também é uma
característica, que frisa o “machismo” e que o homem é o mantenedor. Nessa
época de crise onde as mulheres, de repente, encontraram o seu lugar no mundo
aí. Elas trabalham, elas se sustentam, elas seguram a onda... Eu acho que o
homem entrou em parafuso e a mulher não sabe lidar com isso. Isso cria
dificuldade nas pessoas. Dificuldades para manter um compromisso. Eu vejo a
mulherada se queixando que os homens não querem mais nada com nada. Eu
também acho que eles não querem nada com nada. Mas eu acho que é o medo um
do outro. Medo de se expor, medo de falar. Ninguém quer perder a sua
autonomia. Cássio, arquiteto, separado, 48 anos.
complementaridade é, portanto, voltada para um “lugar adequado” para a mulher na sociedade e colocada
em termos de tarefas a executar e papéis a exercer na sociedade familiar, econômica religiosa e política.
Pode-se perceber a devida medida dessa complementaridade, que é de fato o lugar da subordinação da
mulher e da desigualdade, já que essa complementaridade é sempre ditada pelo homem. Cada um, é cla-
ro, necessita do outro, mas a posição de mestre é ocupada pelo homem. Já a vocação da mulher estaria
ligada aos Três K: Kindern, Küche, Kirche (crianças, cozinha e igreja). Assim, a mulher deve ter a voca-
ção de servir ao mestre. O que certas mulheres, taxadas de histéricas pelos médicos, e pelos teólogos de
vítimas de possessão diabólica, perpetraram foi a sublevação contra essa rigidez fixada pelos papéis fe-
mininos, trazendo à luz a misteriosa sexualidade feminina, considerada obscura e perversa, desde que o
cristianismo declarou o corpo da mulher como templo do pecado. Não por acaso, esse mal foi batizado
com o nome do útero (hystéra em grego), o centro sexuado da mulher, e os ataque histéricos considerados
manifestações do “útero errante”, a sexualidade que sobe à cabeça da mulher (Kehl, 1987). O que Freud
fez foi escutar o discurso da histérica, partindo do pressuposto de que ela tentava dizer alguma coisa, que
esse discurso tinha um nexo nos meandros do inconsciente. Essa mulher estava dizendo com o corpo
coisas que não podia dizer com palavras. Coisas do amor, do sexo, do ódio e do desejo. E quando a
paciente pôde expressar seu desejo, mesmo que insatisfeito, libertou-se dos sintomas, tentativa repetitiva
e fracassada do retorno do reprimido. O corpo não precisa mais adoecer de uma sexualidade obscura e
negadora. Ver: JULIEN, Philippe, 1996.
169
Relatos da Vida Amorosa: a intimidade no contexto contemporâneo Sylvia Maria da Penha Cioffi
O culto à autonomia do indivíduo leva a uma situação paradoxal nos dias de hoje.
Na medida em que as pessoas buscam autonomia fora do compromisso e não querem ser
cobradas a assumir a responsabilidade que um relacionamento mais estável exige, não são
levadas a enfrentar os desafios do crescimento e, assim, não vêem necessidade de
amadurecer, criando situações cômodas, mas insatisfatórias. Ao mesmo tempo, o culto da
tão propalada liberdade volta-se contra o indivíduo, que assim se torna prisioneiro da
própria liberdade.
Ser cativo da própria liberdade, pode significar viver no limbo amoroso. Esse fato é
reconhecido na fala de Renata:
Em todas as minhas relações eu priorizei muito [a liberdade]. Só que às vezes era
uma coisa meio aprisionante. Às vezes eu falo isso muito, da minha liberdade.
Liberdade é uma coisa muito louca. Fico com a idéia fixa de ser livre, que não
percebo estar presa na minha própria idéia. Eu me privo de um monte de coisas,
em prol dessa liberdade. Isso termina virando idéia. Eu me privo de um monte de
coisas em prol dessa liberdade. Isso termina virando uma prisão. Eu sou livre
dentro de uma prisão. Estou livre dentro de uma prisão, que me impede de um
monte de coisas que eu deveria fazer. Renata, psiquiatra infantil, solteira, 29
anos.
Outros depoimentos abordaram o mesmo tema:
Bato muito nessa questão da maturidade. Você tem muito medo da dependência.
Mas que tipo de dependência? Tem medo de depender de alguma coisa boa? Mas,
por exemplo, os homens. Os que eu tive e que estavam separados queriam
alguém. Mas ao mesmo tempo queriam alguém que não desse problema. Porque
já tem a família anterior e os filhos. Já tem a pensão da outra ex-mulher. A mulher
que se mostrar aparentemente mais frágil está descartada na hora. Não sei se
homens mais velhos, acostumados a não dar muita satisfação, por exemplo, a
uma mulher, hoje em dia talvez cobrem mais. Então, existem essas diferenças
também. São pequenas e precisam ser trabalhadas. Poder trabalhar com o homem
é ajudá-lo a entender o seu universo feminino, esse universo da mulher. Às vezes,
não entendem. Letícia, psicanalista, casada, 43 anos.
Porque o homem nessa... Aquele homem, o machão, também tem medo dessa
mulher livre. Tem medo porque acha que, aquela coisa do homem, da mulher
ganhar mais que o homem. Nossa! Para ele é inadmissível. Eu me considero um
romântico na vida. Eu acho lindo essa mulher independente. Eu adoraria que uma
mulher ganhasse mais do que eu sem o menor problema. Não tem problema
nenhum. Vamos embora. Isso acabou gerando essa insegurança. Isso acaba
gerando uma coisa de, “Opa! Vou ficar no meu cantinho. É melhor eu ficar no
meu cantinho sossegado do que ficar arriscando muito”. Isso eu sinto no geral.
Ângelo, músico, divorciado, 43 anos.
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Relatos da Vida Amorosa: a intimidade no contexto contemporâneo Sylvia Maria da Penha Cioffi
O depoimento de Leandra expressa bem essa recusa à intimidade e o temor ao
compromisso, que permeiam algumas das relações afetivas atualmente:
Eu tenho encontrado homens com medo. Com medo das mulheres.
Recentemente, eu tive uma experiência assim. Uma pessoa que eu conheci.
Enfim, um advogado, um homem feito e tal. Tem filho, também separado e com
dois casamentos. Conheci esse homem, e saiu faísca, o dia em que nós fomos
apresentados um para o outro. Muito prazer e “pah!”. Parece que deu um choque.
E eu, opa! Nossa! Fazia tempo. Encontramos numa outra ocasião. Saímos juntos.
Tivemos uma relação sexual muito gostosa e para mim eu continuava e ele
recuou. Ele me procura, de vez em quando, mas ele fica me telefonando. Ele não
quer me ver. Acho que ele não quer. Não sei. Porque cada hora ele está ocupado.
Ele me liga, quando chega na casa dele. Ele é incapaz de me ligar e “Vou passar
na sua casa! Vou te pegar. Vamos sair e tal”. É um homem amedrontado. Liga
sempre, mas não quer encontrar. Fica arrumando desculpa, para não me
encontrar. Não se esforça para me encontrar. Isso quando eu tinha, sei lá, 20 e
poucos anos, se eu encontrasse uma pessoa que saía faísca, a gente se grudava e
não se desgrudava mais, e apostava para ver até onde ia. Podia dar errado, mas a
gente não se importava. Hoje os homens recuam, e eu tenho que aprender a
recuar também. Porque eu sou uma mulher que assusta os homens. Acho que eu
ponho medo neles. Não sei. Leandra, antropóloga, professora universitária,
divorciada, 53 anos.
O relato sugere também a dificuldade de indivíduos comprometerem-se com o
próprio desejo e não vislumbrarem suas necessidades afetivas junto a questão do
adiamento dos relacionamentos mais permanentes seja pelo medo da dor, seja pela
cobrança que tal relacionamento exige dos parceiros. É interessante observar, que até
mesmo o vocabulário de hoje reflete a questão da indefinição amorosa em muitos
relacionamentos. Os termos “ficar” e “ter um rolo” são exemplos disso, e a definição de
qualquer relação torna-se terreno minado, em que as pessoas têm de entrar com o máximo
de cuidado.
Há ainda a dificuldade de estabelecer relações mais igualitárias e aceitar a
alteridade do outro, diante dos resquícios da socialização tradicional de homens e
mulheres, que o relato de Joana aborda:
Acho que, antigamente, os homens punham a cara para bater porque sabiam que
não vinha tapa. Os homens ficavam no casamento porque ali eles estavam numa
posição, com certeza, superior. Segura. Todo mundo quer segurança. Todo mundo
quer um equilíbrio. Eu acho que as mulheres davam a cara para bater, talvez.
Acho que, no geral, as mulheres dão mais a cara para bater que os homens.
171
Relatos da Vida Amorosa: a intimidade no contexto contemporâneo Sylvia Maria da Penha Cioffi
Culturalmente você aprende isso. O que te falei do amor materno. Você aprende a
se dar e você não liga se alguém te trata mal. É duro. É horrível. As mulheres são
super sentimentais, mas elas só expressam mais que os homens. Todo mundo
detesta ser rejeitado ou ser maltratado, principalmente, por alguém que ama. Só
que as mulheres demonstram isso; e os homens nunca querem demonstrar. Não
faz parte do repertório deles demonstrar muito sentimento. Aí, até pior. Porque se
eu ficar chateada, venho aqui e choro no teu colo, no da minha mãe ou de quem
eu quiser. Posso contar isso para uma pessoa, no elevador do prédio, e vou me
sentir melhor. Os homens, não. Têm que guardar aquilo para eles. Então, eu acho
que os homens dão menos a cara para bater. Se envolvem menos ou têm mais
medo de se envolver porque lidam muito mal com a rejeição. As mulheres, não.
Ninguém gosta de ser rejeitado. Mas as mulheres, culturalmente, isso é mais
comum. Tudo que a mulher já ouviu falar, “Ai, fui trocada por outra”. É uma
coisa meio “Cabíria” [referência ao filme de Fellini, Noites de Cabíria], sabe.
Alguém vem e te sacaneia e quando você menos espera vem uma coisa bonita e
você está sorrindo de novo. Acho que as mulheres fazem muito isso, mas os
homens não. Eles se sentem diminuídos pela sociedade se forem rejeitados. As
mulheres menos. Também se sentem diminuídas as mulheres separadas que vejo,
às vezes, com auto-estima muito baixa. Mas os homens não sabem lidar com isso.
Eles se sentem o anti-homem. O homem é para ser másculo, seguro e não sei o
quê. Mulher é para ser insegura, protegida e tal. Se alguém te desproteger é que o
guarda-sol saiu. O homem é o guarda-sol. Se não está dando certo, ele que é o
incompetente. Mulher é sempre a abandonada. Se você foi abandonada é, “os
homens são assim mesmo”. Se o cara é abandonado, ele é incompetente. Se sente
menos másculo, menos capaz. Nenhuma mulher abandonaria um homem. Se a
mulher daquele cara abandonou ele é porque deve ser um lixo de homem. Acho
que é um pouco assim. Joana, médica pneumologista, separada, 30 anos.
Em outro trecho da entrevista, Joana refere-se ao medo masculino das relações
estáveis:
Na época eu desconfiei que era um pouco assim esse medo que ele e os amigos
dele [do ex-marido] tinham um pouco assim de casar. Que eu sempre achei um
absurdo. Eu lembro que eu falava assim, “Quem devia ter medo de casar é
mulher”. Porque a gente casa e separa e os homens em um minuto estão com
outra mulher. A gente está com filho e ninguém quer uma mulher de trinta e
tantos anos com dois filhos para namorar e não sei o quê. Joana, médica
pneumologista, separada, 30 anos.
Acho que a outra coisa, que pelo menos eu ouvi recentemente do C. e ouvi de um
outro cara com quem acabei me envolvendo, “Agora os homens têm um pouco de
medo das mulheres”. Acho que eles têm medo porque o que percebi nele e no
outro cara. Porque eles disseram que sou muito segura. “Me sinto meio
supérfluo”. Como quem diz assim, “Sou tão segura que se você pisar na bola
comigo, Negão, eu te chuto e pego outro. Não vou ficar aqui te esperando”. O C.
me falou que tem um pouco de medo de mim porque ele se sente um pouco
inseguro e nessa crise ele já era um pouco e ficou muito mais fragilizado que eu.
172
Relatos da Vida Amorosa: a intimidade no contexto contemporâneo Sylvia Maria da Penha Cioffi
Naqueles cinco meses que foi uma droga, eu super fragilizada, fiquei péssima.
Mas aí, uma hora, e me lembro que meu pai falou isso, “Isso não é normal,
filha!”. Joana, médica pneumologista, separada, 30 anos.
É muito medo. Principal queixa das mulheres é essa. Eles têm muito medo de se
envolver. Uma coisa que ficou ridícula. Isso é meio caricato, na minha opinião. O
cara tem tanto medo de se envolver, que ele transa com você e desaparece no dia
seguinte. Ficou uma relação meio neurótica. Por um lado, as mulheres ganharam
toda essa liberdade, de ir numa festa e encontrar um cara todo bonitinho e transar,
não estar nem aí. Mas aí, por incrível que pareça, o cara não te liga no dia
seguinte. Que tipo de mulher esses caras estão interessados? Não são as mulheres
mais duronas, pois essas não vão transar com eles. Com essas, não querem correr
o risco de depois ter uma briga, porque não queriam ficar com elas. E também
não é das mulheres mais liberais. Então, ficou um negócio meio neurótico. Eu
vejo algumas mulheres que têm vontade de transar e parece que tudo voltou para
trás. Tudo que minha mãe conseguiu e você conseguiu e tal, a gente está voltando
para trás porque é assim. Bom. Ela está na festa. Ela fica com o cara, mas ela não
vai transar com ele, pois se ela transar, ele desaparece. Isso. Ela não está afim,
porque se sente um lixo, se sente usada. As mulheres ficam dando uma de durona,
“Ai! Não sei se eu quero”. Quando elas querem, e todo mundo poderia ficar feliz
e transar, mas não porque esse cara não vai me valorizar. No fundo o cara não vai
te chamar de galinha. Isso não tem importância. Isso daí todo mundo faz. É que o
cara simplesmente foge de medo de você. Antes, ele te desprezava; agora, ele te
teme. Mas é a mesma coisa porque ele sabe que agora se ele pisar na bola, você
liga e fala, “Oh! Qual que é? Por que você desapareceu? É o fim da linha!”. Para
escapar disso, o cara não se arrisca. A principal queixa que eu ouço é essa de os
homens terem medo e a outra que são muito imaturos. Joana, médica
pneumologista, separada, 30 anos.
Assim, percebe-se que a problemática do receio das relações compromissadas ou
do culto da autonomia perpassou todos os grupos etários de entrevistados, sendo como
constatação nos depoimentos, sendo em relação ao cotidiano vivenciado pelos depoentes:
Voltando à minha história há alguns anos atrás. Acontecia isso comigo também.
Nessa minha auto-suficiência, entre aspas. O meu medo passava por aí. A defesa
é que eu era auto-suficiente, que eu não precisava. Mas no fundo, era esse medo
de que se eu me envolvesse, além, lógico, do meu possível sofrimento que iria vir
quando acabasse essa relação, esse amor. Mas antes desse medo, desse
sofrimento, existia esse medo da entrega de achar que o meu ego ia estar sendo
dissolvido. Eu ia me doar para alguém. Ia ser dessa pessoa e ia deixar de ser eu
mesmo. Eu... ainda bem que não penso dessa forma e não estou... É... Agindo
dessa maneira. Marcos, médico, psiquiatra, solteiro, 29 anos.
Por mais que ela quisesse não queria muito compromisso. Aí que eu falo que de
repente era a questão da liberdade da mulher. Enquanto ela era autônoma e dona
do nariz, tinha vida própria e viajava quando queria e aí, de repente, ter um cara
173
Relatos da Vida Amorosa: a intimidade no contexto contemporâneo Sylvia Maria da Penha Cioffi
dentro de casa, que sabe todos os dias que ela viaja e todos que está em casa. Não
sei se isso incomodou ou não. De repente eu falo tanto de casamento, entre aspas.
Eu nunca falo do casamento no sentido de ter que ir para a igreja. Poderia ser
simplesmente morar junto, mas viver uma coisa mais definida. Roberto,
administrador de empresa, solteiro, 35 anos.
O [homem] da nossa idade não está sozinho, a menos que ele realmente não
queira se relacionar. Conheço pouquíssimos caras assim, que não querem. Os
outros querem comer todo mundo. Não quer casar. Não quer ficar com ninguém.
Quer, cada hora, estar namorando uma. O tipo de pessoa, que não quer uma
companheira fixa, seja porque teve alguma desilusão amorosa, seja que razão for.
Maria Eunice, arquiteta, divorciada, 57 anos.
Se o grupo de entrevistados mais novos é aquele no qual mais se manifestam as
incertezas dos novos modelos de relação amorosa, no dos depoentes de meia idade
vislumbram-se os efeitos da transição por que vem passando o cenário amoroso nos
últimos anos. Todos os integrantes desse grupo foram casados ou estão vivendo
experiências conjugais.
Nesse sentido, o depoimento de Márcia e os personagens abordados em sua história
funcionam como um modelo das novas disposições amorosas e da transição por que
passou esse cenário.
Eu fui passado por transformações e as relações afetivas foram se transformando
também. Quando isso está acontecendo você não tem consciência. Hoje eu posso
fazer uma reflexão sobre como a afetividade evoluiu na minha vida. Então, eu me
casei, na época, na Igreja, meu pai tinha padrões muito rígidos. Uma sociedade
com influência muito grande do patriarcalismo. Eu tinha em casa um pai bastante
forte e me casei e tinha um marido bastante forte e continuei nesse sistema meio
sem me dar conta de mim até os 30, mais ou menos.
O casamento padrão que você fala, você trabalhava fora, ou naquela época
você cuidava dos filhos?
Quando eu me casei... Quer dizer, eu estava noiva quando nós começamos a
trabalhar juntos. Ele montou um escritório de contabilidade e eu fui trabalhar com
ele. Então, eu trabalhava fora mais ou menos. Trabalhava com o marido. Como
nós trabalhávamos por conta própria, quando a B. [refere-se ao nascimento da
filha] chegou, eu tive a C. com 19 anos, nós dávamos um jeito de conciliar. O que
foi muito traumático e não me dei conta, na época, dos resultados disso tudo foi
que eu parei de estudar. Porque eu terminei o 2º grau com 17 anos, mas já de
casamento marcado. Como a gente não tinha muita grana, tivemos que fazer
algumas opções. Então, ele foi estudar e eu parei de estudar. Eu ficava cuidando
da C. e das coisas, nós não tínhamos empregada, e ele saía para estudar à noite.
Era uma vida bastante difícil para a gente e eu fiquei cinco anos sem estudar
174
Relatos da Vida Amorosa: a intimidade no contexto contemporâneo Sylvia Maria da Penha Cioffi
nessa brincadeira. Mas como dona-de-casa e dando a força para o marido no
escritório também. Eu só voltei a estudar em B. Saí daqui de São Paulo e fui para
B. A C. tinha um ano. Voltei a estudar ainda uns quatro anos depois disso. Já
estava grávida do M. quando voltei a estudar. E foram assim opções. Márcia,
promotora de Justiça, divorciada, 45 anos.
Márcia relata a história de um casamento nos moldes tradicionais:
A questão da sexualidade foi muito forte nas opções que eu fiz. Porque eu me
casei virgem. Na Igreja, não podia ter relacionamento sexual antes do casamento.
E eu despertei para a sexualidade com esse namoro, com meu marido e não podia
transar e eu queria transar. Hoje eu vejo que isso foi um fator preponderante para
eu ter me casado tão cedo. Na época eu devia estar entrando na faculdade e devia
estar exercendo a minha sexualidade com liberdade e tudo mais. O que eu fiz? Eu
parei de estudar e me casei. Isso foi uma ruptura muito forte. Que depois quando
fui ficando mais madura, foi aflorando essa opção que eu fiz. Em não conhecer
outros homens. De eu não ter tido liberdade na época. De eu não ter vivenciado
certas coisas. Uma coisa que me marcou muito foi o fato de ter começado a fazer
teatro e a família inteira era contra e o noivo era contra. Eles me pressionaram
muito a eu largar. “Coisas do mundo”, como dizia meu pai. E o D. [o noivo] com
muito ciúme e tal. Aconteceu um fato muito marcante. Foi o seguinte. Eu
comecei a fazer uma peça, “Morte e Vida Severina”, que fez muito sucesso. Eu
recebi o convite para trabalhar como atriz. Aí, a família ficou maluca com isso.
Eu já estava noiva do D. Um dia o D. entrou numa crise muito grande de achar,
poxa! justo a mulher que ele escolheu, a mulher para levar uma vida dentro
daqueles padrões que a gente tinha na Igreja quer fazer teatro? É uma loucura
isso! Então, um dia ele chegou e xeque-mate, né, ou eu ou o teatro. E eu escolhi
ele, né. Eu larguei tudo. Como eu era uma aluna brilhante e adorava fazer teatro...
Eu tive um professor fantástico de Literatura. O colégio que eu estudei aqui em
São Paulo, você optava entre Humanas e Exatas. Eu fiz Humanas, então eu tinha
Filosofia, Sociologia, Psicologia e Letras. Eu adorava essas matérias. Esse
professor que começou a montar o grupo de teatro para pegar os bons textos
literários e representá-los. Ele tinha um relacionamento muito próximo comigo.
Gostava e achava que eu tinha um futuro brilhante pela frente e essas histórias.
Tanto que quando decidi parar de estudar e casar, ele foi lá em casa, “Você está
louca? Você não pode fazer isso”. E essa história ficou toda para trás. Eu me
casei, parei de estudar, virei dona-de-casa que ajuda o marido no trabalho e essa
coisa toda até os 30, mais ou menos. Quando começou a vir uma angústia muito
grande.
Márcia fala de sua trajetória, em busca da liberação, que coincide com muitas das
mulheres de sua geração, que superaram os velhos modelos se reinventando como novas
pessoas:
Uma angústia, uma angústia. E eu já estava formada. Tinha começado a trabalhar
em outro lugar. Trabalhei com meu marido até depois de formada em Direito. Ele
175
Relatos da Vida Amorosa: a intimidade no contexto contemporâneo Sylvia Maria da Penha Cioffi
queria muito que eu trabalhasse na área de Direito Tributário para fazer o
casamento perfeito entre Contabilidade e Tributário. Eu estava me sentindo muito
e muito presa. Com vontade de outras coisas. Fiz um concurso e saí, fui trabalhar
no [...]. E essa angústia crescente. Aí, o que me marcou muito, e queria te contar,
foi um filme, “A Sociedade dos Poetas Mortos”. Menina, esse filme mexeu
comigo de um jeito, de um jeito. Vi na tela uma história parecida com a minha.
Quer dizer, eu tinha tido um professor muito marcante. Eu queria fazer teatro e
não pude. E algumas opções que eu fiz, comecei a questionar. Comecei a
questionar e depois que comecei a questionar eu não parei nunca mais. E meu
marido na história ficou muito inseguro com aquilo tudo e o casamento foi para o
brejo. Eram transformações muito fortes. Eu fiquei muito diferente. Não queria
mais dependência. Não queria que estivesse tão em cima de mim. E já nessa fase
eu me apaixonei pelo meu segundo companheiro. Trabalhava com ele. Já tinha
passado no concurso para [...] E encontrei o F. Que foi uma relação altamente
tumultuada desde o início até o fim. Ele era casado e eu também. Aí, eu contei
para o meu marido que estava apaixonada por outro homem e que eu queria me
separar. Eu me separei e o F., não. Ele demorou uns sete anos para se separar. A
gente se relacionando, uma coisa muito difícil. Eu aprendendo a ter uma relação
afetiva completamente fora dos padrões numa situação, em que eu tive que
relevar um mundo de coisas e me soltando cada vez mais dos apegos. Percebendo
que há outras possibilidades de se relacionar afetivamente e por outro lado
aprendendo a ter independência também. Como o F. era casado e não podia estar
comigo o tempo todo e tinha muitas restrições, eu fui criando a minha
independência e fui caminhando nessa direção. Até que ele se separou. Aí, nós
nos propusemos ter esse relacionamento cada um na sua casa. Depois de um
tempo o F. viu que não era isso que ele bem queria. Que ele não dava muita conta
de ter uma relação assim em que ele não tivesse um papel mais preponderante.
Márcia, promotora de Justiça, divorciada, 45 anos.
O depoimento de Letícia, do mesmo grupo de informantes de Márcia, reitera o
aspecto da liberação da mulher ao fornecer uma visão bastante valorizada da
independência feminina. Percebe-se em seu relato a necessidade de construção de espaços
próprios dentro da relação amorosa e o respeito às idiossincrasias de cada um dos
parceiros na relação conjugal.
Eu acho que tive um percurso, com 43 anos, um pouco diferente do pessoal da
minha geração. Eu casei relativamente tarde. Com 36 anos. Não é um casamento
oficial, de igreja nem no civil, uma união estável. São 7 anos de relacionamento.
Eu tive muitos namorados. Não eram namoros curtos. Tive o primeiro namorado
que fui muito apaixonada com 12 anos. Depois terminamos, mas continuava
gostando dele. Por um pouco de pressão da família, não entrava no vestibular, e
coisa e tal, e a gente acabou terminando.
Quanto tempo durou?
Eu namorei dois anos. Nesse período eu fiz intercâmbio nos Estados Unidos.
176
Relatos da Vida Amorosa: a intimidade no contexto contemporâneo Sylvia Maria da Penha Cioffi
Sempre tive uma educação onde meus pais primaram pela independência e pela
autonomia. Era uma educação que já foi para à época de uma menina se tornar
uma profissional, independente e que se viessem a casar e não desse certo eu
poderia pegar as minhas coisas e ir embora. Essa era uma preocupação dos meus
pais. Fui para os Estados Unidos porque tinha que falar inglês para ter um
diferencial. Ao mesmo tempo, apesar da educação, eu acho que tinha uma
natureza romântica, apaixonada. Daí eu comecei a namorar um rapaz. Namorei
de 6 a 7 anos.
De volta do intercâmbio?
Sim. Passei 6 meses nos Estados Unidos.
Nesse período todo, meus pais mudaram de São Paulo e eu fiquei aqui estudando.
Eu já estava na faculdade. Penso que fiquei um tempo, talvez longo, com esse
namorado em função até da ausência dos pais. Apesar de ter uma postura de
autonomia acho que emocionalmente eu não estava preparada. Uma vida sozinha.
Arrumei uma casa e fiquei com meu irmão. Acho que esse namorado me dava
uma certa retaguarda emocional. Depois acabamos. Terminou a faculdade,
terminou o relacionamento. E assim foi. Depois eu namorei um outro rapaz por
pouco tempo. Até que eu tive um relacionamento bastante forte. Foi, para mim,
bastante profundo em termos emocionais e fiquei bastante apaixonada. Mas
curiosamente era uma pessoa também difícil. Eu não sei se eu acabava
escolhendo pessoas também com alguma dificuldade. Antes de eu namorar o
rapaz fui morar em São Paulo. Depois me apaixonei por ele que não era
brasileiro. Estava somente fazendo uma residência aqui. Então, alguns
obstáculos. Então, ele acabou pelo motivo da residência e foi embora. Passei um
tempo sossegada. Foi quando conheci o meu atual marido.
O marido de Letícia era casado na época em que se conheceram e rapidamente se
separou para ficar junto dela:
Rapidamente ele se divorciou. Se separou, né. Era um pedido meu. Em questão de
dois meses ele saiu de casa. Foi um período conturbado onde eu tive que dar
conta também junto com ele da separação. A separação não era muito bem
vinda depois de anos de casamento. Então foi muito difícil. Foi uma experiência
emocional difícil. Eu estava em análise bastante tempo. Já estava mais madura e
também... adulta, né, com 35 anos. Achei que eu tinha que agüentar a barra.
Estamos juntos até hoje. Se for pensar em termos de dificuldade de
relacionamento, e fora tudo que a gente enfrentou, de família. Não da minha
porque a minha acolheu, “Você é adulta e sabe o que deve estar fazendo”. Mas
também da família dele. De uma certa resistência, um entendimento. Foi
complicado para ambos. Com filhos. Não do meu lado porque não tenho filhos,
mas do lado dele. Acho que não esperavam. Eu sinto assim. Quais seriam as
maiores dificuldades. Eu investi muito na minha carreira. Tenho um perfil mais
independente. Letícia, psicanalista, casada, 43 anos.
Continuando, Letícia reitera a importância da independência:
177
Relatos da Vida Amorosa: a intimidade no contexto contemporâneo Sylvia Maria da Penha Cioffi
Fui criada até os seis anos no interior. Muito assim na rua. A cidade era meio
extensão da minha casa, do meu quintal. Meu pai veio a falecer quando eu tinha
seis anos. Teve um acidente de carro. Viemos para São Paulo, para a casa de
meus avós maternos, que moravam aqui. Minha mãe pegou os três filhos e veio.
Foi uma transformação muito grande da minha vida da noite para o dia. Perdi pai,
perdi o entorno, perdi o quarto, perdi todos os referenciais. Vim de férias e aqui
fiquei. Acho que tem essa marca que, provavelmente, também me ajudou a ter
algumas frustrações e algumas defesas com relação a estar totalmente
dependente. Acho que são três fatores. Não acredito que seja sempre um fator.
Talvez o traço de personalidade, uma educação no sentido da autonomia, da
independência e também essa perda precoce. Acho que cedo, muito cedo, talvez,
eu tenha entrado em contato com a vida real porque as coisas acontecem da noite
para o dia. Talvez, os meus relacionamentos que fui encontrar têm um lado
romântico, mas também tem um lado que é o de ter um certo medo da
dependência. E todo o meu percurso me levou a ser mais independente. Acho que
justamente por também me envolver. Sinto as coisas com muita intensidade. Ao
mesmo tempo que isso é bom para mim, por saber disso, talvez, eu estabeleça
algumas barreiras, pretensões, um tipo de independência.
Isso incomoda o seu companheiro?
Eu penso que sim. Nós temos uma diferença de idade, de 13 anos. Ele é de uma
outra geração. Eu acho que ao mesmo tempo que encanta – o que eu acho que
encantou a ele – e talvez, inicialmente [ele tivesse] uma imagem um tanto
idealizada de mim. Solteira, independente, vai para cima e para baixo, que
estabelece o que vai fazer no final do ano. Era ele quem decidia o que fazer. Acho
que de certa forma deu um encantamento. Mas no dia-a-dia ele não pergunta para
mim se eu quero almoçar em determinado lugar ou o que eu quero, enfim.
Estabeleceu e chegou com a coisa pronta. Existem algumas contradições sutis
que a gente tenta conversar, obviamente. Eu penso que ao mesmo tempo que é
bom ter uma mulher independente e autônoma, principalmente para ele que vem
de uma estrutura onde o homem é o provedor, onde o homem tem que fazer
absolutamente tudo. Acho que talvez ele estivesse um pouco cansado disso. Um
pouco cansado, mas ao mesmo tempo é um lugar conhecido, um lugar de
privilégio porque você detém o poder. O poder financeiro, o poder de quem
determina, que manda. Um lugar de privilégio. Você paga um preço. Você leva
todo mundo nas costas, também. Porém você ganha... Acho que deve ser um
conflito. Ao mesmo instante que é bom poder dividir, compartilhar, poder pensar
com, ao mesmo tempo, tem que abrir mão do “decido sozinho”. Acho que deve
sofrer um pouco. A gente tem algumas dificuldades. Eu saio tarde do consultório.
Trabalho muito à noite. Tive que assumir as tarefas domésticas. Letícia,
psicanalista, casada, 43 anos.
Tal como Márcia, em seu relato Letícia afirma as dificuldades da transição do
velho momento do casamento tradicional, para as negociações estabelecidas numa relação
mais igualitária que, atualmente, o cotidiano dos casais exige. Assim, as mulheres (Márcia
178
Relatos da Vida Amorosa: a intimidade no contexto contemporâneo Sylvia Maria da Penha Cioffi
e Letícia) do grupo da faixa etária intermediária de entrevistados ressentem-se das
disposições masculinas, pouco afeitas ao seu desejo de independência e a um espaço
próprio no interior da relação. O caráter do “trabalho emocional” e da negociação para
manter o relacionamento amoroso torna-se, portanto, bem marcado. Nesse sentido, seus
depoimentos estão mais voltados para uma concepção menos idealizada de amor e mais
colada na realidade, sendo isso textualmente explicitado em seus relatos. É interessante
ressaltar que, em sua fala, Márcia chama a atenção para o caráter supérfluo e facultativo
do amor. Assim em suas palavras:
O amor não serve para coisa alguma. Ele não serve para suprir as suas
carências. Ele não tem uma função utilitária. Ele é uma coisa muito bonita para
ser celebrada e vivida, mas as pessoas precisam estar inteiras. Então, não é o
outro que vai te suprir. Você tem que estar com as coisas resolvidas para ter um
amor legal. Penso isso em tese. Não encontrei ainda. Mas eu penso assim. O
ideal é que a pessoa já tivesse passado por um processo de individuação.
Estivesse bem consigo e estivesse se relacionando com outra pessoa que
também tivesse passado por isso. Celebrando afetividade e não querendo tirar
de outro. “Ah, eu preciso de você”. Aí, você fica naquela co-dependência, que
vira uma relação altamente neurotizada e eu não queria viver isso mais. Então,
como eu trabalho muito nesse sentido, o F. não se sentiu à vontade. Porque ele
não tinha esses mesmos anseios. Márcia, Promotora de Justiça, divorciada,
45 anos.
Ao tratar do assunto, Letícia refere-se também à sua experiência no consultório e
relata a diversidade de experiências vivenciadas pelas pessoas ao refletir:
Olha, a gente ouve de tudo, né. Existem os casados. Existem os solteiros. Existem
os divorciados. Existem os que querem se separar. Você ouve todos os tipos
possíveis e sei que as pessoas continuam querendo encontrar pessoas com as
quais possam compartilhar. Às vezes, com um ideal romântico um tanto quanto
fora da realidade. Como se não fosse haver necessidade de negociação como se
fosse tudo muito fácil. Acho que se frustram rapidamente em função disso.
Você acha, ainda, que grande parte das pessoas ainda tem aquele ideal...
Sim, do amor romântico.
Do amor que tudo vence?
Sim.
O amor todo poderoso que conseguirá superar todos os obstáculos. Uma coisa
assim um pouco mágica, como a gente acreditou na adolescência?
Um pouco mágica. E eu penso que essa magia da adolescência tem se estendido
na vida adulta. Também por isso algumas dificuldades. E também uma defesa
179
Relatos da Vida Amorosa: a intimidade no contexto contemporâneo Sylvia Maria da Penha Cioffi
contra a frustração. Que eu acho que, quanto mais, enfim, imatura a pessoa, mais
se estende à adolescência, mais dificuldade de se entrar na vida adulta, mais você
precisa de defesas quanto à possibilidade de uma frustração. Você se frustra mais
quanto mais você idealiza, obviamente. Quanto mais fora da realidade você tiver.
Eu sinto que as pessoas jovens e um pouco até mais velhas – com seus 20, 21
anos – estão mais próximas da adolescência, da infância do que da vida adulta.
Como se não dessem tempo para as coisas acontecer. Letícia, psicanalista,
casada, 43 anos.
Nesse grupo de entrevistados, parece ter havido uma ressocialização dos
informantes diante dos novos padrões relativos às mudanças em curso na sociedade. Essa
reeducação cultural e amorosa foi um dos temas do relato de Ângelo que veio para a
metrópole, oriundo de uma pequena cidade do Interior de São Paulo, onde as mentalidades
tendem a ser mais provincianas.
Quando chego em São Paulo vim morar com meus irmãos. Eles estavam em
quatro aqui. Eles, mais velhos, e tal. Dois jornalistas, o outro trabalhava em banco
e a minha irmã trabalhava na faculdade e muitas festas em casa. Na primeira...
Na primeira, não. Uma das primeiras que eu fui aqui, uma mulher de 40 anos me
leva para cama e me come. Embora eu não considere essa a minha primeira
experiência sexual. Até antes dessa festa eu comecei a tocar num bar e tive a
minha primeira transa com 17 anos. Foi quando cheguei em São Paulo e que eu
sai do bar. Era uma figura que gostava de ver, eu tocava cavaquinho à noite e ela
foi a primeira transa. Quando começam essas festas e começo a transar com
mulheres mais velhas que foram as minhas primeiras amigas. Eu não tinha
referência aqui em São Paulo de amizade, né. Minhas amigas e meus amigos
eram dos meus irmãos. Porque fiquei um ano sem estudar aqui, assim em escola.
Fiz teatro e música. Estudando cavaquinho com professor particular e fiquei um
ano sem fazer faculdade. Nesse um ano comecei a transar mulheres mais velhas.
Era uma coisa deliciosa porque o exercício do corpo já vinha desde os 12 anos
com uma prima. Então, quando chegou aqui, puta, que delícia. Vai numa festa
dança, trepa e trepa no banheiro. Aquela época não tinha AIDS, transava muito
sem camisinha. Camisinha nem passava pela minha cabeça. Aí, nesse exercício,
eu fui perdendo um pouco de contato com a minha geração, afetivamente. Porque
essa coisa do namorar, do paquerar tinha uma lentidão, que eu acho que não
estava mais nesse ritmo, “Ah, não! Transar é bom para caramba. Eu quero mais é
sacanagem”. Essa sacanagem divertida. O sexo tem essa coisa também. Essa
coisa do encontro rápido, por mais que depois, no outro dia, algumas experiências
são frustrantes, você fala, “Puta! No fundo não era isso que eu queria”. Mas é
como se fosse um jogo, né. Na hora do jogo, você tem aquela festa, o prazer. Eu
acho também que é ótimo na vida você encontrar uma pessoa e aprofundar. Sair
dessa coisa do fogo inicial e ter uma relação mais profunda e tal. Mas o rápido
também eu acho interessantíssimo. Eu sou bem aberto para essas experiências. É
porque eu tive bastante. Carrego também com orgulho essas experiências, mesmo
180
Relatos da Vida Amorosa: a intimidade no contexto contemporâneo Sylvia Maria da Penha Cioffi
as frustrantes, porque eu acho que assim a gente aprende muito com essas
histórias. Acho gostoso essa independência que São Paulo me deu de você sair e
não ter essa preocupação, “O Ângelo, saiu com a filha da fulana”. Aquela vigília
do interior não tinha. São Paulo era a liberdade total. Ângelo, músico,
divorciado, 40 anos.
Em outro trecho da entrevista Ângelo referiu-se à condição provinciana das antigas
colegas de escola que ficaram no Interior:
Eu sinto pena das minhas amigas de colegial que ficaram lá no interior. Que eram
lindas e divertidas e não tiveram a chance de outras relações. Ficaram lá dos 15
aos 19 anos namorando o mesmo cara. Se casaram com 20 anos de idade. Esse
cara não deixa ela trabalhar. Elas vão ficando em casa e têm filhos, engordam e
ficam feias. Auto-estima, né... e ficam naquela vida de interior. Cada vez que eu
vou lá, eu encontro e menos assunto se tem porque não pode falar. É triste ver
uma pessoa perdendo essa possibilidade da evolução. É como se o trem está indo
e eu fiquei na estação. Sinto tristeza quando vejo pessoas assim. De não ter pego
alguns trens e viajar um pouco e experimentar um pouco. Eu acho um barato
essas mulheres que conseguiram sair desse modelo dominante, de dominada por
essa figura homem. Até eu lembro de outra coisa que eu ficava com vergonha
pela classe masculina. Aquele cara casado com aquela menina que era linda na
época e aí chega na roda do futebol, esse cara que trancou uma mulher em casa
com filhos e dinheiro – que ele tem dinheiro – e fala, “Estou transando a minha
secretária”. O cara fica nesse exercício do machismo. “Minha mulher está lá em
casa quietinha”. “A patroa”. Um homem que chama a mulher de patroa tinha que
ser expulso do planeta. Eu sinto pena dessas mulheres que perderam essa chance.
E por outro lado, toda transformação, essa nova mulher vai gerar insegurança,
mesmo. Não tem como. Ângelo, músico, divorciado, 40 anos.
Roberto e Leandra, do primeiro e terceiro grupo de entrevistados passaram por
experiência semelhante, quando chegaram à capital, vindos de cidades do Interior (o
primeiro de Minas Gerais e a segunda do interior paulista).
Talvez tenha sido um pouco mais moderninho que meus irmãos ou coisa que o
valha. Eu acho que até o fato de ter me tornado um cidadão mais urbano e ter
vindo para a cidade grande e ter morado fora, ter me envolvido com outras
pessoas e outros estilos de vida mais modernos, menos tradicionais. Acho que
isso ajudou que fosse entendendo o mundo de uma maneira melhor, mas eu ainda
tento aliar uma coisa com a outra de ter um relacionamento onde eu possa
respeitar sim a individualidade da mulher. Roberto, Administrador de
empresas, solteiro, 35 anos.
Um dos desafios que me coloquei foi perder a virgindade (risos). Foi perder a
virgindade. Então, eu cheguei aqui em São Paulo determinada. Quer dizer, não
cheguei determinada. Fui me determinando, assim, nos primeiros meses. Mas
cheguei aqui muito a fim de mudar de vida, de mudar de jeito de ser, de mudar de
181
Relatos da Vida Amorosa: a intimidade no contexto contemporâneo Sylvia Maria da Penha Cioffi
modo de pensar, de me livrar das amarras interioranas, provincianas, do
moralismo cristão, católico. Estudei em colégio de freira. Cheguei aqui com sede
e vivi tudo que se apresentou para mim. Fui viver. Aí, eu tinha que perder a
virgindade e foi uma coisa muito bonita que aconteceu comigo. Eu tive a
felicidade de ir morar numa pensão que tinham moças mais velhas do que eu.
Elas estavam fazendo pós-graduação. E a M., que era lá da minha cidade, meio
que tomou conta de mim. Ela quase que me foi uma tutora porque dizia para
mim, “Tá, bom! Você quer cair na vida, né. Tá certo. Mas tem que ter
consciência”, ela dizia. Ela me levava ao Teatro Municipal para ouvir música
clássica que eu nunca tinha ouvido, assim, ao vivo na vida. Ela mandava eu ler
livros e tal. Quando ela percebeu o meu desejo (risos) de perder a virgindade, ela
falou assim, “Oh! Pequenininha”, era o meu apelido lá na pensão, “Você tem que
ler o Eric Fromm, um livro chamado Medo à Liberdade”. Eu li Eric Fromm. E ela
tomou a lição depois. Para botar na minha cabeça que eu podia fazer tudo que eu
quisesse contanto que eu tivesse consciência do que eu estava fazendo e tal. Para
mim foi uma felicidade encontrar essas moças. Particularmente, ela que ia
mostrando que as coisas não eram separadas. Que uma coisa não estava separada
da outra. Que a idéia de Revolução implicava numa radicalidade assim.
Existencial, mesmo. Leandra, antropóloga, professora universitária,
separada, 53 anos.
Abrindo caminhos...
O terceiro grupo de entrevistados, ou seja, a geração mais velha, foi protagonista
das mudanças dos últimos trinta anos. Nuno, Maria Eunice e Leandra abraçaram os ideais
da revolução e tiveram participação política como militantes em organizações de
esquerda. Mas também transformaram a intimidade, estendendo esses novos padrões ao
terreno das relações amorosas.
Tive muitos problemas de repressão política. Fui preso no Golpe de 64. Fui
passar uns tempos com os meus pais, eu morava com os meus avós. Fui passar
uns tempos com eles porque estavam, lá se chama fazenda, mas pouco mais que
um sítio, na verdade.
Há algumas diferenças. Existe uma diferença, no meu entender que é a seguinte:
Hoje, aparentemente. E precisaria ser jovem para ter certeza disso. Muito fácil
falar pelos outros – nós tivemos que desbravar nesse campo. Por abaixo os
preconceitos. Se colocando. Fazendo as coisas acontecer. Eu acho isso. Enquanto o
pessoal mais novo já encontra esse terreno. Esse terreno foi limpo, de certa forma,
pela nossa geração. Não sei nem se pode falar da nossa geração letrada, vamos
dizer assim. Porque também as coisas não se podem generalizar. Essa molecada já
encontra o terreno mais limpo onde as escolhas podem ser feitas com muito menos
tensão. Nuno, contador, separado com uma relação estável, 58 anos.
182
Relatos da Vida Amorosa: a intimidade no contexto contemporâneo Sylvia Maria da Penha Cioffi
É assim, olha. Acho que faço parte de uma geração que foi uma geração que
quebrou valores. Eu abracei a Revolução. Eu tinha 19 anos. E a Revolução para
mim significou muita coisa. Não era só a Revolução Socialista, Comunista,
política e social. A Revolução era uma revolução de costumes. Era uma revolução
sexual. Era a conquista da independência da mulher. Leandra, antropóloga,
professora universitária, separada, 53 anos.
O processo de mudança é muito grande. A nossa geração se propôs a fazer essa
mudança pessoalmente, a fazer a revolução política também. Nós vamos viver o
amor livre, nós vamos fazer a revolução. Nós vamos pensar de outro jeito. Nós
vamos revolucionar os costumes. Nós vamos mudar a sociedade. Mudou muito
pouco. Acho que teve um certo esforço, mas o preço é muito alto e todo mundo
voltou para trás. Porque sofre muito. É você contrariar todos os seus sentimentos
e construir uma coisa nova que não sabe o que é e se vai ser melhor ou não. Você
acha que vai. Não é uma construção isolada. Ela não pode ser solitária. Acho que
essa questão do ciúme, da traição. Está ligada a esse arcabouço antigo. Acho que
o desafio de superar isso é um desafio social. Tem que começar em algum
momento. Maria Eunice, arquiteta, divorciada, 57 anos.
Porque eles [os jovens] já tiveram essa oportunidade de ter uma grande liberdade
de comportamento dissociado de um projeto de vida. Que no nosso caso era
muito associado. O projeto de vida. Uma mudança da sociedade. Era a
perspectiva da revolução. De mudar o mundo. Do mundo ser mais justo. De ser
mais o que a gente quer. E fazia parte. A liberdade sexual fazia parte disso. Hoje,
ela é uma coisa descolada. Está descolada do resto. Ela é dada já. Está associada
com um mundo meio confuso. Maria Eunice, arquiteta, divorciada, 57 anos.
Nesse grupo de entrevistados, parece ter havido uma relação mais fácil com o
compromisso; era uma geração mais envolvida não só com o comprometimento afetivo,
mas também com o engajamento político para transformar a sociedade.
O diferencial da geração mais velha talvez esteja, justamente, nessa disponi-
bilidade pessoal para assumir compromissos, nessa abertura para o engajamento. A ética
do compromisso Fazia parte da juventude da época, uma ética solidária, na qual as
amizades, as obrigações familiares e os amores se alicerçavam. Isso não significava que
não havia desencontros amorosos, mas a disposição e abertura para recomeçar estava
sempre presente.
O relato de Maria Eunice aborda esse tema:
Eu acho que a disponibilidade de assumir esse compromisso era maior. Era uma
necessidade. Você não ia dormir com aquela mocinha se não casasse. Via de regra,
é claro! O que aconteceu com a nossa geração? Rompemos essa primeira regra.
Pode dormir com a mocinha sem casar. Acho que isso mudou muito o
183
Relatos da Vida Amorosa: a intimidade no contexto contemporâneo Sylvia Maria da Penha Cioffi
comportamento porque estabeleceu relações um pouco mais instáveis. Ter um
momento amoroso com uma pessoa. Não é ela é outra. Muda. Você não constrói
um relacionamento com a mesma facilidade. Ele pode não durar nada. Com muito
mais facilidade se desmancha. Eu acho que isso é uma mudança. E por outro lado
essa geração atual, como já recebeu esse prato pronto, ela também não tem muito o
que construir em cima disso. Ela vai usufruindo disso aí sem uma perspectiva mais
completa de onde isso vai dar. Acho que eles são super conservadores. Maria
Eunice, arquiteta, divorciada, 57 anos.
Essa mudança no caráter social das sociabilidades amorosas faz parte do cenário de
transformações mais amplo característico da contemporaneidade. Giddens (2000:36)
considera “que mudanças em aspectos íntimos da vida pessoal estão ligados ao
estabelecimento de conexões sociais de grande amplitude”, ao afirmar que as
transformações na auto-identidade e a globalização são os dois pólos da dialética do local
e do global nas condições da alta modernidade.
Assim, na sociedade atual, sobretudo nos últimos anos, os valores ligados à
ideologia do individualismo atingiram uma hegemonia tão profunda que conseguiram
esgarçar laços de relações sociais que eram sólidos, enraizados e estáveis de longa data.
Beck refere-se a esse fenômeno como um dos efeitos da segunda modernidade,
afirmando que se trata de um “individualismo institucionalizado”. A seu ver, isso se
explica pelo fato de as instituições centrais da sociedade, como a educação, os direitos
sociais, políticos e civis, assim como as oportunidades de inserção no mercado de trabalho
e os processos de mobilidade, estarem voltados para o indivíduo e não mais para os grupos
sociais ou para a família. “Isso acelera o conjunto da individualização. Esta se transforma
em uma dinâmica imanente da sociedade e, em conseqüência, as definições e as
identidades coletivas são eliminadas de dentro para fora (...). Isso se irradia na totalidade
das relações sociais, no mercado de trabalho, tanto no espaço privado como no público
(Beck, 2003: 23).
Diante desse cenário da contemporaneidade, a insegurança e o desnorteamento
tomaram conta, também, do domínio amoroso. Isso é manifestado nos relatos de Nuno,
Maria Eunice e Cássio
184
Relatos da Vida Amorosa: a intimidade no contexto contemporâneo Sylvia Maria da Penha Cioffi
Aí, é o seguinte. Eu penso o seguinte. Isso tem muito a ver com a situação. Com a
época que a gente vive. Que é uma época, e esse é o meu ponto de vista, de
absoluta insegurança em todos os sentidos. Ninguém tem mais emprego
garantido. Ninguém mais tem aposentadoria. Ninguém pode garantir mais nada.
Não se pode confiar no governo. Não se pode confiar nas instituições de um
modo geral. Não se tem mais sonhos. Bom. Pelo menos não os tenho mais. O
socialismo já vinha... Já estamos na barbárie, mesmo. Então, desse ponto de vista
os valores estão tão mexidos. Sei lá o que vai surgir disso aí. Nuno, contador,
separado com uma relação estável, 58 anos.
Estamos num tempo de insegurança. Nossa! Completamente. Aguçado com valor
econômico. Uma crise geral de valores, mesmo. Também impunidade. Quem tem
pode, quem não tem dane-se. Daí o governo culpa o outro governo. Porque o
governo que começou, que isso e aquilo. Umas coisas assim ilógicas. Não gosto
disso, sabe. Todo mundo tem culpa menos quem tem que fazer e não faz
absolutamente nada. Cada um está defendendo o seu interesse individual. Não
tem nada de coletivo, não. Acho que se chegou a um ponto que as pessoas se
tornaram tão egoístas que é a única forma de sobrevivência. Que eu acho que está
errado. Acho que se fechasse mais socialmente, tipo um clube, tipo um gueto eu
acho que seria melhor porque as pessoas procurariam ajudar o seu grupo. Eu acho
que daí melhoraria alguma coisa. Solidariedade. Solidário pelos menos com as
pessoas que se conhece. Fecha! Como faz judeu, japonês, chinês. Têm uns
guetos. Eles se fecham. Eles se ajudam. Eu acho bárbaro isso. Até o momento que
tenha melhora. Melhorando, eu acho que dá para dar uma abertura. Cássio,
arquiteto, separado, 48 anos.
Relações prudentes
A observação empírica corroborou a hipótese levantada neste estudo de que, os
indivíduos flexibilizaram suas biografias amorosas, o que levou a uma mudança na
natureza da experiência sentimental. As relações amorosas tornaram-se contextuais e
pontuais e há um enfraquecimento ou mesmo uma recusa dos laços de intimidade. O
chamado amor romântico não mais constitui prerrogativa obrigatória da construção de
identidades subjetivas, ainda que permeie o imaginário social. Essas transformações são
mais visíveis nos segmentos mais intelectualizados das camadas médias, onde os
indivíduos se consideram livres para uma escolha amorosa entre iguais.
Como o casamento e as uniões deixaram de ser uma obrigatoriedade social para o
indivíduo, o estabelecimento de relações compromissadas torna-se prescindível. Se, antes,
185
Relatos da Vida Amorosa: a intimidade no contexto contemporâneo Sylvia Maria da Penha Cioffi
as uniões conjugais se revestiam de certa “naturalidade” e faziam parte do “destino” dos
sujeitos, jogando papel importante tanto na sua auto-identidade como na identidade social
perante os outros, atualmente, as conjugalidades adquirem o caráter de escolha e até de
uma certa “artificialidade”, no sentido de um diferencial a mais, uma opção a mais no
intrincado jogo das subjetividades.
Uma vez que a sexualidade se tornou autônoma, ela dá o tom marcante dos relacio-
namentos intersubjetivos, como se constituisse um fim em si mesma. Em outras palavras,
a sexualidade está em alta e a intimidade em baixa.
Como bem demonstrou Costa (1999) há um predominância das sensações em
detrimento dos sentimentos e estes não constituem mais valores morais ligados à auto-
identidade do indivíduo. A ética dos relacionamentos conseqüentes esboroou-se, diante de
um cenário de laços cada vez mais socialmente narcísicos.
O medo do compromisso acaba por instaurar uma tendência de recusa à
intimidade e a preferência por amores prudentes, dos quais a superficialidade se torna
característica marcante. Essa recusa mostra-se de inúmeras formas, conforme
demonstraram os resultados da pesquisa empírica. Ela aparece nas ligações sexuais
passageiras, nos relacionamentos virtuais, no medo do compromisso e da entrega
amorosa, na forma como os homens “desaparecem” nos relacionamentos e no abandono
do campo amoroso pelas mulheres.
O medo da dor
Hoje vivemos numa sociedade que teme a dor psíquica acima de tudo, que não
tolera a frustração, ou lida mal com ela. Lipovetsky (1994) usou o termo “cultura da
felicidade” para exprimir essas disposições. De fato, a cultura contemporânea alia o
individualismo narcísico e hedonista ao combate acirrado a toda forma de dor. Essa
predominância de uma “felicidade light” “celebra a individualidade livre, privilegia a
comunicação e multiplica as escolhas e opções”, no dizer de Lipovetsky (L1994:66).
186
Relatos da Vida Amorosa: a intimidade no contexto contemporâneo Sylvia Maria da Penha Cioffi
Assim, não há lugar para grandes extravasamentos emocionais e há substituição da dor
íntima, pela norma de equilíbrio mental (Béjar, 1993: 173)
25
.
Letícia reconhece o medo da dor no seu relato:
Medo... eu penso que o medo está relacionado justamente com a possibilidade de
vir a sofrer, a não dar certo. Me dá a impressão de que há um evitamento ou é
uma evitação? Desse sentimento, do sofrimento. É como se as pessoas não
pudessem sofrer. Muito medo. No primeiro sinal de afastamento o outro já se põe
na defensiva. Na decepção. Aí entra a questão narcísica que você estava de não
conseguir suportar que o outro pode se afastar, de que não sou tão importante
assim para você porque não sou a única coisa na sua vida. Não tem problema.
Posso ser algo muito importante, mas faço parte, eu não sou todo, sou uma parte.
Mas parece que não agüentam isso. Letícia, psicanalista, casada, 43 anos.
Nesse sentido, é interessante o relato que faz da atual transformação da tristeza em
patologia: se existe tristeza, ela tem de ser curada. Pode-se pensar que não existe tempo,
nem espaço, para pessoas tristes. A velha “dor de cotovelo” não é mais citada: parte-se
para outra, rápido, e não se vivencia mais a frustração e a dor como elementos naturais
(que fazem parte) da vida dos indivíduos. Não há mais tempo para elaborar as perdas
inerentes e necessárias para o desenvolvimento humano ou, melhor dizendo, não existem
condições favoráveis para a promoção da maturidade dos sentimentos e das emoções.
Fico pensando, onde está a tristeza? Todo muito chama tristeza de depressão.
“Ah, estou deprimida”. Ela não está nenhum pouquinho deprimida, ela está triste.
Tristeza virou patologia. Tristeza é tristeza. Faz parte da condição humana. É uma
emoção como outra qualquer. A pessoa não pode ficar triste. Como fica uma
sociedade onde você não pode ter frustrações? Tristeza virou patologia. Tristeza é
tristeza. Faz parte da condição humana. É uma emoção como outra qualquer. A
pessoa não pode ficar triste. Letícia, psicanalista, casada, 43 anos.
A cultura da felicidade “leve”, segundo Lipovetsky (1994: 66), induz a uma
ansiedade crônica de massa, mas faz desaparecer a culpabilidade moral. Há, portanto, uma
regressão do super-ego e um declínio do discurso da obrigação moral, incitando à auto-
determinação individualista e às formas mais brandas da felicidade narcísica.
Assim, vislumbra-se na contemporaneidade a tendência crescente dos indivíduos,
obedecendo ao grau máximo de personalização dos sentimentos, adotarem formas de
25. Tradução livre.
187
Relatos da Vida Amorosa: a intimidade no contexto contemporâneo Sylvia Maria da Penha Cioffi
26. Segundo Elias (2001:75) “o conceito de solidão tem um amplo espectro. Pode referir-se a pessoas cujo
desejo de amor em relação aos outros foi muito cedo tão ferido e perturbado que mais tarde dificilmente
podem reviver a experiência sem sentir os golpes anteriormente recebidos, sem sentir a dor a que esse
desejo as expôs em outros tempos. Involuntariamente, pessoas assim afetadas ocultam seus sentimentos
em relação aos outros. É uma forma de solidão”.
subjetividade em que o autocentramento se soma ao valor da exterioridade e ao cultivo de
uma ética leve e indolor, na qual não há espaço para os riscos de sofrimento, ou
compromissos enclausurantes. Entretanto, ao mesmo tempo em que há uma procura
intensa pela intimidade sexual em nossa sociedade, esses valores da felicidade leve e dos
amores prudentes vão desaguar no desencontro amoroso e na solidão
26
.
Considerações Finais
O laço conjugal dói, tanto na queixa de quem o realiza quanto no lamen-
to de quem não consegue. Desmentindo qualquer comportamentalismo,
esta dor não acarreta nenhuma solução.
Não é porque o laço conjugal dói que as pessoas param de tentá-lo. È um
mistério, aliás. Isto é uma novidade, ele não doeu sempre desta maneira.
Ele dói só a partir do momento no qual se tratou de inventar um laço
conjugal que se decidisse por amor e desejo.
Contardo Calligaris, 1999.
Summer Interior Edward Hopper
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Relatos da Vida Amorosa: a intimidade no contexto contemporâneo Sylvia Maria da Penha Cioffi
bservou-se no decorrer da pesquisa que as representações amorosas que
embasam as disposições simbólicas sobre a afetividade são perpassadas por
ambivalências, relativas às transformações sociais da modernidade avançada.
O
Assim, constata-se uma penetração muito maior da esfera pública no âmbito do privado.
Muitas vezes, a determinação das disposições da contemporaneidade funcionam como
forças coercitivas, às quais os indivíduos não podem fugir e esse é o caráter reflexivo já
apontado por Beck e Giddens.
Numa era, na qual as certezas se esvaem (amor, profissão, etc.), falar de valores
que possuíam centralidade e força para estruturar relações ou elos estruturadores das
relações sociais e, portanto, falar de bússolas, parâmetros ou referências, que dêem algum
sentido ou significado às práticas cotidianas constitui tarefa árdua. Nesse sentido, tal
quadro parece ser resultado, ou melhor, efeito das apostas políticas e culturais de uma
sociedade de massa. O viver torna-se, por conseguinte, mais complexo e supera a
sobrevivência física e psíquica do indivíduo. Ou seja, não basta introjetarmos valores
sociais para determinarmos a nossa identidade. Temos, agora, de decidir a partir de um
volume de informações que aumenta o leque de escolhas e modos de vida tidos como
possíveis; aumenta nossa possibilidade de experiência e, com isso, rompe com a certeza
antes traduzida no ideal da família estratificada e perpassada exclusivamente pelos
modelos de dominação masculina.
A difícil tarefa que se coloca para homens e mulheres, na atualidade, é a
conciliação entre os padrões de um individualismo exacerbado e os valores morais que
ainda carregam o ideal romântico.
Ao contrário da sexualidade, a intimidade exige sacrifícios que o indivíduo
contemporâneo reluta em fazer, por ir contra o primado dos valores sociais do seu tempo.
190
Relatos da Vida Amorosa: a intimidade no contexto contemporâneo Sylvia Maria da Penha Cioffi
A individualização – entendida como valorização social da autodeterminação – coloca-se
como fato social. Assim, ao entrar em conflito com a individualização, a intimidade como
valor social dificilmente prevalecerá .
Como demonstraram os resultados da pesquisa empírica, no campo das sub-
jetividades aqui tratadas, está-se sob o efeito de uma clivagem, que se desdobra no gênero
e na geração. Assim, as diferenças de gênero permanecem influenciando as relações
amorosas e sendo expressadas, como diz Bourdieu, na ordem da dominação masculina.
Hoje, sem dúvida, essas disposições, apresentam-se mais suavizadas, (no dizer de
Bourdieu, 1999:106, atualmente, a dominação masculina precisa ser justificada), mas há,
ainda, uma dessimetria entre valores de igualdade largamente disseminados na sociedade
e a prática concernente às relações íntimas dos indivíduos. Por outro lado, a experiência
geracional acumula vivências que impactam a identidade do sujeito transformando-a
incessantemente.
Partindo da averiguação empírica, pelos depoimentos de homens e mulheres sobre
os relacionamentos amorosos, sobressai, como pano de fundo, a questão do desencontro
amoroso. Assim, pode-se dizer que o caráter social da contemporaneidade não incentiva os
indivíduos a manterem laços afetivos mais estáveis.
Mulheres bem sucedidas profissionalmente, pertencentes às camadas médias
intelectualizadas apresentam dificuldades de encontrar um parceiro. Por sua vez, do lado
masculino, parece também haver queixas relativas ao comportamento feminino, voltado,
no momento, para seus próprios interesses, fazendo com que os homens se sintam des-
cartáveis. Privados de seu antigo papel de provedores e cabeças do casal, os homens
colocam-se na defensiva, afirmando não serem mais prioridade para as mulheres e que o
egoísmo individualista também foi incorporado por elas.
O momento parece ser de transição em relação ao futuro das relações entre os
sexos, mas um fato salta aos olhos: até aqui, as mulheres, por serem as principais
responsáveis pelas transformações no terreno das relações amorosas, parecem mais
versáteis em abarcar o duplo papel de engendradoras de suas vidas amorosas e
191
Relatos da Vida Amorosa: a intimidade no contexto contemporâneo Sylvia Maria da Penha Cioffi
profissionais, desempenhando seu papel na esfera pública e privada com mais
desenvoltura que os homens, os quais, ainda, parecem se ressentir das mudanças.
O individualismo característico das sociedades contemporâneas configura-se,
muitas vezes, como elemento de contradição que afeta as relações amorosas. No mundo
atual, ele organiza a concepção da vida social, a partir do lugar privilegiado outorgado à
auto-realização do indivíduo e ao seu reconhecimento. Se, por um lado, traz valores
positivos, por outro, quando exacerbado, cria condições desfavoráveis à realização
amorosa. Assim, é possível perceber dificuldades em conciliar as disposições do
individualismo e as concessões que parceiros devem fazer numa relação amorosa, visando
à construção de projetos comuns, que exigem uma relação “alicerçada” numa união
estável. A intimidade, diferentemente da sexualidade sem laços, exige compromisso que o
indivíduo contemporâneo reluta em identificar, por ir contra o primado dos valores sociais
do seu tempo. Numa sociedade de consumo, na qual tudo é descartável, o amor também se
reveste desse caráter.
O desencontro amoroso parece advir do descompasso entre o ideário do amor
romântico, que continua a existir no imaginário social e na mente dos indivíduos, e as
disposições amorosas encontradas na realidade. Em outras palavras, o ideal do amor
romântico ainda persiste para homens e mulheres (principalmente para estas), como valor
que se choca com o comportamento individualista dos tempos modernos. As mulheres
permanecem idealizando as relações amorosas, como aprenderam com suas mães,
embora, como se demonstrou até aqui, o cenário social não seja propício a essas
idealizações.
Outro problema que parece existir, constatado nas entrevistas, é a naturalização da
concepção de amor, como se a forma do amor romântico, com seus corolários, na
singularidade da escolha amorosa e na falta de controle do sujeito perante sua “força”,
fosse um fenômeno imanente ou “natural” aos seres humanos, e não um sentimento
histórica e socialmente construído, que está em consonância com a sociedade de seu
tempo. Esse descompasso entre vida pública e intimidade parece estar no cerne do
desencontro amoroso vivenciado por homens e mulheres do nosso tempo.
192
Relatos da Vida Amorosa: a intimidade no contexto contemporâneo Sylvia Maria da Penha Cioffi
A idéia que carrega este estudo pode dar a entender que existiu uma “época de
ouro” do amor. Que, hoje, o amor é mais corrompido que em outros tempos. Essa idéia é,
em si, enganosa. O amor é um sentimento como outro qualquer, sendo sua forma
historicamente determinada. Por outro lado, a Psicanálise já mostrou que ele faz parte da
gama de sentimentos que habita a psiché humana e sua realização não tem muita solução,
só podemos vivenciá-lo por aproximações.
Se, por um lado, o século XX, inaugurou as condições para o florescimento da
intimidade, quando as uniões começaram a ser celebradas por livre escolha, baseadas no
amor romântico, por outro, nos primórdios do século XXI, vive-se a situação paradoxal da
procura intensa da intimidade, que pode levar à sua negação, pelas disposições do caráter
social contemporâneo, já discutidas até aqui, sobretudo para os segmentos das camadas
médias intelectualizadas, visadas neste trabalho. Em outras palavras, nunca houve tanta
liberdade sexual entre homens e mulheres como atualmente, mas, ao mesmo tempo, nunca
as condições sociais foram tão adversas para o vicejar da intimidade ou dessa interação.
Antes de tudo, o amor é um valor (pode-se chamá-lo um valor moral) e como valor
pode ser abraçado ou não, pelos indivíduos. Ele é facultativo e pertence ao âmbito das
escolhas pessoais. Mas também é verdade que, hoje, esse valor, diante da busca de
sensações e do prazer individualista, que correm com toda força pela sociedade, se
encontra desinvestido de sua importância para a identidade dos sujeitos. Ou seja, diante
das disposições narcísicas da sociedade contemporânea e perante o primado da sociedade
do espetáculo, essa forma de interação entre as pessoas, carregada de idealismo, tende a
sofrer os reveses do seu tempo histórico. Não obstante, permaneça, ainda, o ideal
romântico, no dizer de Calligaris (1999), “o laço conjugal dói, tanto na queixa de quem o
realiza quanto no lamento de quem não consegue”.
193
Relatos da Vida Amorosa: a intimidade no contexto contemporâneo Sylvia Maria da Penha Cioffi
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