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Relatos da Vida Amorosa: a intimidade no contexto contemporâneo Sylvia Maria da Penha Cioffi
três meses sem ligar. Daí ela liga de novo e fala horas o que fez, o que
trabalhou, ou seja, é óbvio que ela tem necessidade de ter contato com pessoas
e se relacionar. Porque ela é uma pessoa super auto-suficiente, com um cargo
executivo altíssimo, milhões de funcionários nos pés dela, gente mais velha do
que ela no pé dela. Mora sozinha num apartamento que é dela própria, no
coração do Itaim, um carro próprio – um Audi. Fim de semana, dá na telha dela
ir para a Costa do Sauípe, ir viajar, mas é uma pessoa sozinha. Ela não acredita
mais que vai encontrar uma pessoa. Na verdade, ela fala que não quer, porque
perdeu a credibilidade, perdeu aquela coisa, “Eu vou encontrar uma pessoa, que
me aceite como eu sou”. Ela acha que ninguém vai aceitar ela, como ela é.
Então, ela preferiu inverter o papel. Ela fala que “eu sou o homem da minha
relação. Eu me sustento e só faço o que eu quero. Tenho a minha casa e da
minha casa eu não saio. E é só quando eu quero que me encontrem. Do jeito que
eu quero”. Laura, fisioterapeuta, noiva, 27 anos.
Está cheio de mocinho por aí. Mas eles não querem namorar. Seja porque não
querem encarar essas meninas mais independentes. Não sei até que ponto pesa
essa questão, porque, por exemplo, você pegar uma pessoa como a J. [refere-se à
filha], 30 anos, uma médica super bem sucedida, nova ainda na profissão. Toda,
toda. Certo? Ganha bem, porque tem 500 empregos. Acaba ganhando bem, de
tanto juntar plantão, daqui e de acolá. Não sei, até que ponto, isso não é uma
coisa, que o cara não encara. Um bater ficha, entendeu? Não quer também se
envolver com uma mulher, que vai ser melhor provedora do que ele. Que vai ser
mais bem sucedida economicamente, do que ele. Isso é uma coisa que já vem da
nossa geração, que acho que não mudou. Maria Eunice, arquiteta, divorciada,
57 anos.
Eu achava que nunca enfrentaria esse tipo de problema, porque na minha cabeça
a revolução era completa. Eu me deparei até com esse marido que era
guerrilheiro, revolucionário. Que um dia disse assim para mim, “As coisas iriam
melhor aqui em casa se você estivesse sempre aqui na hora do jantar”. Eu olhei
para a cara dele atônita, perplexa, “Eu não acredito que você está dizendo isso
para mim”. Eu comecei a dar risada, é piada. Ele falou, “Não. Era sério”. Ele
ficava bravo porque ele chegava do serviço e tinha que dar jantar para D. [filha do
casal] e não sei o quê e tal. Eu chegava depois. Eu dou aula à noite, enfim. Não
imaginei que eu fosse passar por esse tipo de problema. Leandra, antropóloga,
professora universitária, desquitada, 53 anos.
Eu sempre tive muitas amigas mulheres, para entender como elas eram. Como é
que eu ia lidar com esse bicho indomável, que não sabia lidar e como fazer. Vejo
que a maioria dos meus amigos não gosta de mulheres de muita personalidade,
independentes. Eles ainda se assustam com mulheres independentes. Preferem a
loira burra. Aquela que só serve para ir para a cama e é gostosa para comer.
Então, vou ter um bom sexo e ela não precisa pensar, porque se sente ameaçado
com a mulher que pensa. A maioria dos meus amigos – quando a gente senta
numa roda de homens e vai falar sobre as mulheres – o conceito ainda é um
pouco assim. Ainda quer fazer parecer que a mulher ainda é esse objeto. Por isso,
que eu me sinto atípico, porque não quero isso. Eu quero estar bem. Estar com a