Download PDF
ads:
1
UNIVERSIDADE FEDERAL DO PARANÁ
DÉBORA CRISTINA DE ARAUJO
RELAÇÕES RACIAIS, DISCURSO E LITERATURA INFANTO-JUVENIL
CURITIBA
2010
ads:
Livros Grátis
http://www.livrosgratis.com.br
Milhares de livros grátis para download.
2
DÉBORA CRISTINA DE ARAUJO
RELAÇÕES RACIAIS, DISCURSO E LITERATURA INFANTO-JUVENIL
Dissertação apresentada ao Setor de Pós
Graduação em Educação, Universidade Federal do
Paraná, como parte das exigências para a obtenção
do título de Mestre em Educação.
Orientador: Prof. Dr. Paulo Vinicius Baptista da
Silva
CURITIBA
2010
ads:
3
DÉBORA CRISTINA DE ARAUJO
RELAÇÕES RACIAIS, DISCURSO E LITERATURA INFANTO-JUVENIL
BANCA EXAMINADORA: AVALIAÇÃO:
PROF. DR. PAULO VINICIUS BAPTISTA DA SILVA aprovação com
Universidade Federal do Paraná (Orientador) recomendação para
publicação
PROFA. DRA. APARECIDA DE JESUS FERREIRA aprovação com
Universidade Estadual de Ponta Grossa (Membro) recomendação para
publicação
PROFA. DRA. TÂNIA MARIA FIGUEIREDO BRAGA GARCIA aprovação com
Universidade Federal do Paraná (Membro) recomendação para
Publicação
PROF. DR. ALEXANDRO DANTAS TRINDADE aprovação com
Universidade Federal do Paraná (Membro) recomendação para
publicação
4
Dedico a todas as mulheres e homens militantes, aos meus ancestrais e a minha família que
antes de mim lutaram para que eu pudesse chegar aqui.
5
AGRADECIMENTOS
Laroiê!
À Oyá, mãe-guerreira, que com seus ventos, ora com a intensidade de uma tempestade ora
com a leveza de uma brisa, me guia e me protege nas batalhas da vida.
À Iyá Gunã, que tem me ensinado o que não aprendi em toda uma vida escolar. Sua
sabedoria supera qualquer leitura teórica sobre as minhas origens e meus ancestrais.
Ao Edilson Pereira Brito, que durante a maior parte do processo doloroso e dos problemas
enfrentados esteve ao meu lado dividindo os momentos difíceis e também as boas experiências.
Seu amor e sua crença em dias melhores foram essenciais para que eu chegasse aqui.
A minha família: avó Maria; avó Geralda; minha mãe, Erli; meu pai, José Herlique; meus
irmãos Fábio e Eduardo; as minhas tias Valdice, Elci (Ci), Anízia, Valdelice e Maria Senhorinha e
tios, como Valdeci Anacleto, que mesmo distantes fisicamente nunca deixaram de me apoiar e
torcer por minhas conquistas.
Ao meu orientador, Paulo Vinicius Baptista da Silva, que ensinou o verdadeiro significado
do que é ser um orientador. Ensinou-me como desenvolver uma pesquisa acadêmica com ética,
mostrando o “caminho das pedras” mas também as possibilidades de utilizá-las para construir
uma fortaleza.
À Lucilene Soares (Lu), minha comadre, amiga, irmã, com quem pude rir e chorar muitas
vezes e que me mostra a cada dia uma outra possibilidade de ser guerreira, nunca perdendo a
ternura e a paciência.
Ao Artur Ganesh, meu afilhado lindo e guerreiro desde antes de nascer, que ficou por
muito tempo convivendo com a ausência de sua “dinda”, restando apenas as fotos da internet.
Às amigas Tânia Aparecida Lopes e Lena Garcia pelos dias e madrugadas de discussão
teórica, pelo auxílio na interpretação de leituras e, sobretudo, pela amizade.
À Dayana Brunetto Carlin dos Santos e Léo Ribas, guerreiras duplamente, que me
mostraram o quanto devemos somar as lutas de grupos discriminados para construirmos realmente
um lugar bom para se viver.
Às amigas Cássia, Kátia, Michelle, Gleisse e Daniela, em que algumas mais distantes e
outras mais próximas, todas sempre estiveram presentes no meu coração e fortalecendo minha
alma com energias boas e crença no meu trabalho!
Ao prof. Dr. Renilson José Menegassi e Luiz Carlos Paixão da Rocha, por sempre
acreditarem e me incentivarem a ir mais longe.
À nia Mara Pacífico, companheira de viagens durante o mestrado, e que sempre me
incentivou a continuar, principalmente nos momentos mais difíceis.
Ao Sérgio Luis do Nascimento, que surgiu na minha vida no momento e hora certos para
mostrar caminhos e soluções. Agradeço por ter me apresentado o nosso orientador de mestrado.
6
À Ana Carolina Lopes Venâncio, que quando os maiores problemas da pesquisa surgiram,
foi alguém que me deu todo apoio e transformando os rumos do meu trabalho.
Às/ao amigas/o de mestrado, Ana Lúcia Mathias, Veridiane Cintia Souza Oliveira e José
Antonio Marçal pelo incentivo que sempre me deram, sobretudo ao José, por acompanhar os
momentos antecedentes à defesa, ajudando-me na compreensão da importância de trabalhos como
esse para a trajetória de outras/os pesquisadoras/es negras/os.
Às/aos companheiras/os de militância: Jane Márcia Madureira, Neli Gomes da Rocha,
Celso Santos, Dona Neide, Paulo Borges (Nivaldo Arruda), Maria Evilma Moreira, Edmundo
Silva Novaes, Dermeval Ferreira, Cassius Marcelus Cruz, Cristiane Pereira Brito, Angélica
Roxinsky, Andrea Rosendo, Wiliam Barbosa, Marcolino Gomes de Oliveira Neto, Kátia Costa e
tantas outras mulheres e homens, pelo fortalecimento que demos uns aos outros em momentos de
batalhas e vitórias.
Às/aos pesquisadoras/es que me ensinaram muito do que discuto nesse trabalho e me
mostraram o quanto somos capazes de ir mais além: profa. Dra. Nilma Lino Gomes, que
apresentou considerações essenciais para a qualificação desse trabalho, além de representar um
ícone para mim como pesquisadora das relações raciais; profa. Dra. Tânia Braga, que sempre
esteve pronta para me auxiliar nas dúvidas de construção da análise dos dados
coletados/produzidos, atuando de forma essencial para o desenvolvimento dessa dissertação;
profa. Dra. Aparecida de Jesus Ferreira, que apontou muito mais do que eu poderia enxergar nesse
trabalho, mostrando as possibilidades para seu crescimento; prof. Dr. Alexandro Dantas Trindade,
que observou aspectos relevantes relacionados à qualidade teórica do texto.
Às bolsistas de projetos de pesquisa e do NEAB, Solange Rosa, Kerolyn Daiane Teixeira
e Suzilaine Pontes que acompanharam grande parte do meu trabalho e das minhas dificuldades.
A mulheres e homens e intelectuais negras/os, que durante o percurso do meu trabalho
incentivaram e apontaram caminhos para seguir: prof. Dr. Eduardo David de Oliveira, prof. Dr.
Henrique Cunha Jr., profa. Dra. Conceição Evaristo, prof. Dr. Nelson Olokofá Inocêncio e profa.
Ms. Cidinha da Silva.
Ao Programa de Pós-Graduação em Educação e à Linha de Cognição, Aprendizagem e
Desenvolvimento Humano, responsável por me proporcionar uma formação de grande qualidade
sobre produção acadêmica.
Às professoras envolvidas na pesquisa, sobretudo à professora de literatura da escola onde
desenvolvi o trabalho de campo. Sua postura docente me ensinou muito sobre relações raciais.
E, principalmente, agradeço às crianças das escolas pesquisadas, que mesmo
anonimamente foram as responsáveis pela existência deste trabalho e é por elas e por todas as
crianças brasileiras que este estudo foi desejado e construído.
7
VÓ GERALDA: Nóis é cerno.
TIA ANIZIA: Hã?
VÓ GERALDA: Nóis somo cerno de imbraúna.
TIO GERALDO CATITA: Ah é, graças a Deus!
EU: [O que que é isso?
TIA ANIZIA: [Cerno de braúna é uma madeira. O miolo da madeira que é
forte e não acaba.
TIO GERALDO CATITA: [Graças a Deus!
EU: Ó! E nós somos cerno de braúna, vó?
VÓ GERALDA: [É. (riso)
TIO GERALDO CATITA: [Graças a Deus!
EU: Nós, nós quem a senhora diz?
VÓ GERALDA: Nóis tudo!
TIO GERALDO CATITA: É, graças a Deus!
VÓ GERALDA: Cerno da braúna!
EU: Vou guardar isso pra mim.
TIA ANIZIA: O cerno é uma madeira que tem... o miolo da madeira, não é
seu Geraldo?
TIO GERALDO CATITA: É.
TIA ANIZIA: Que num acaba.
TIO GERALDO CATITA: A gente é como diz, vai levano.
[...]
TIO GERALDO CATITA: O cerno é mesma coisa de ferragem: porque num
acaba!
(Santa Isabel do Ivaí-PR, 30 de dezembro de 2009)
8
RESUMO
A presente pesquisa teve como objeto de análise os discursos sobre os grupos raciais brancos
e negros, produzidos a partir de leituras de obras infanto-juvenis em salas de aula. A partir
dessa perspectiva foi constituído o problema de pesquisa: os discursos da literatura infanto-
juvenil e sua interpretação, em contexto escolar, apresentam estratégias ideológicas relativas à
dominação racial? A metodologia utilizada foi a Hermenêutica da Profundidade (HP), com a
proposta de investigar se a produção, veiculação e recepção/interpretação de obras literárias
infanto-juvenis apresentavam discursos que atuavam no sentido de produzir/reproduzir
hierarquias raciais. O exame de contexto consistiu em análise de bibliografia sobre literatura
infanto-juvenil e, em específico, de estudos sobre ideologia e relações raciais relacionados a
este gênero literário; análise de documentos relativos ao Programa Nacional Biblioteca da
Escola; análise de estudos sobre relações raciais na escola. Para análise formal foi realizado
estudo exploratório em uma escola e estudo de campo em outra, que consistiu em presenciar,
gravar e transcrever oito aulas de leitura em turmas de quarta série do ensino fundamental.
Foram observadas várias estratégias ideológicas na interpretação das mensagens dos livros,
em especial a diferenciação, que se relacionou, neste estudo, ao cânone estabelecido por meio
de um modelo eurocêntrico de currículo e literatura infanto-juvenil, conferindo às aulas
analisadas nesta pesquisa uma característica de artificialidade, por serem direcionadas única e
exclusivamente a obras que tematizam a cultura africana. Outra estratégia recorrente foi a
estigmatização, responsável por reforçar pré-concepções e estereótipos a respeito da história e
cultura afro-brasileira e africana. No que se refere à branquidade (enquanto categoria de
análise das relações raciais) resultados ambíguos e divergentes foram encontrados: em alguns
momentos, a postura da professora atuou no sentido de reforçar estereótipos ora por meio do
silêncio e omissão diante de práticas discriminatórias, ora através de conceituações restritivas
e estigmatizantes sobre a população africana; e, em outros, avanços foram verificados por
relacionarem-se a alterações na atuação pedagógica de professoras brancas que, diante do
compromisso em atender às expectativas desta pesquisa, desenvolveram leituras e posteriores
debates que operaram de forma a promover rupturas de um modelo depreciativo de
representação da cultura africana. Este resultado, em específico, representou um diferencial
em comparação com resultados de outras pesquisas sobre o mesmo tema, as quais
identificaram que a branquidade como norma agiu de forma latente no fortalecimento do
racismo no espaço escolar. Em síntese, os resultados observados através da interpretação das
formas simbólicas apontam que a ideologia se fez presente nos diversos estágios de produção,
difusão e, sobretudo, recepção de obras literárias infanto-juvenis.
Palavras-chave: Literatura infanto-juvenil; Relações raciais; Ideologia; Discurso;
Hermenêutica da Profundidade.
9
ABSTRACT
This research had to be analyzed speeches on racial groups white and black, made from
readings of books for children and young people in classrooms. From this perspective, has
been the research problem: the discourse of children's literature and its interpretation in the
school context, present strategies for the ideological racial domination? The methodology
used was the Hermeneutics of Depth (HP), the proposal to investigate the production,
transmission and reception/interpretation of literary works for children and young speeches
that had worked to produce/reproduce racial hierarchies. The context analysis consisted of
analysis of literature on children's literature, and specific studies on ideology and race
relations related to this literary genre, analysis of documents relating to the National School
Library; review of studies on race relations in school. For formal analysis was performed
exploratory study in a school and study in another field, which was to witness, record and
transcribe eight classes in reading. Several strategies have been observed in the ideological
interpretation of the messages of the books, especially the differentiation, which was
associated in this study to the canon established by a Eurocentric model of curriculum and
children's literature, giving classes analyzed in this study a characteristic of artificiality,
because they are directed solely to works that analyze the African culture. Another strategy
was the stigma applicant is responsible for reinforcing preconceptions and stereotypes about
the history and culture African-Brazilian and African. With regard to the whiteness (as a
category of analysis of race relations) ambiguous and conflicting results were found: in some
instances, the attitude of the teacher served to reinforce stereotypes either through silence and
omission in the face of discriminatory practices, either through conceptualizations of
restrictive and stigmatizing of the African population, and in others has been accomplished
because of their relationship to changes in the educational performance of white teachers that
given the commitment to meet the expectations of this research, readings and developed
further discussions that operated in to promote a model breaks derogatory representation of
African culture. This result, in particular, represented a gap in comparison with results of
other studies on the same subject, which pointed out that whiteness as the norm has acted to
strengthen the latent racism in school. In summary, the results observed in the interpretation
of symbolic forms show that the ideology was present in the various stages of production,
dissemination, and especially reception of literary works for children and youth.
Keywords: Children's literature; Race relations; Ideology; Discourse; Hermeneutics of Depth.
10
LISTA DE ILUSTRAÇÕES
QUADRO 1
Síntese de formas de hierarquização captadas por pesquisas sobre
personagens negras na literatura infanto-juvenil brasileira ..................
22
QUADRO 2
Síntese de mudanças captadas por pesquisas sobre personagens
negras na literatura infanto-juvenil brasileira .......................................
24
QUADRO 3
Conceitos diversos atribuídos ao termo “Ideologia” ............................ 33
QUADRO 4
Modos de operação da ideologia .......................................................... 35
FIGURA 1
Formas de investigação hermenêutica ..................................................
42
QUADRO 5
Tipos de análise discursiva ...................................................................
44
FIGURA 2
Desenvolvimento metodológico do enfoque tríplice ............................
50
QUADRO 6
Relação PNBE: ano/quantidade ...........................................................
77
QUADRO 7
Principais programas/projetos de incentivo à leitura das últimas
décadas do século passado ....................................................................
79
QUADRO 8
Considerações acerca do PNBE e suas seis primeiras edições .............
81
QUADRO 9
Resultado das pesquisas sobre relações raciais ....................................
85
QUADRO 10
Considerações acerca da implementação da Lei 10.639/2003 ............. 95
QUADRO 11
Histórico da observação participante sob a perspectiva da sociologia .
102
QUADRO 12
Livros do “Cantinho da Leitura” – Escola A ........................................
119
FIGURA 3
Ilustração do conto Ulomma: a casa da beleza ..................................... 166
FIGURA 4
Ilustração do conto Okpija ....................................................................
166
FIGURA 5
Ilustração produzida por aluna/a sobre o conto Okpija ........................
167
FIGURA 6
Ilustração produzida por aluna/a sobre o conto Ulomma .....................
167
FIGURA 7
Ilustração produzida por aluna/a sobre o conto Ulomma .....................
167
FIGURA 8
Ilustração produzida por aluna/a sobre o conto Okpija ........................
167
11
LISTA DE SIGLAS
AD Análise de Discurso
ADC Análise de Discurso Crítica
FPEDER Fórum Permanente de Educação e Diversidade Étnico-Racial do Paraná
FNDE Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação
FUNDEF Fundo de Manutenção e Desenvolvimento do Ensino Fundamental e
Valorização do Magistério
HP Hermenêutica da Profundidade
IBGE Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística
INEP Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira
LDB Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional
MEC Ministério da Educação
NRE Núcleo Regional de Educação
PNBE Programa Nacional de Biblioteca da Escola
PNLD Programa Nacional de Livro Didático
PNLEM Programa Nacional do Livro Didático para o Ensino Médio
SEB Secretaria de Educação Básica
SECAD Secretaria de Educação Continuada, Alfabetização e Diversidade
SEED Secretaria de Estado da Educação do Paraná
12
SUMÁRIO
INTRODUÇÃO
..............................................................................................................................
13
PARTE I: CAMPO DO ESTUDO
Sobre o objeto .................................................................................................................................. 19
CAPÍTULO 1: Ideologia e hermenêutica da profundidade .............................................................
30
1.1 Ideologia .......................................................................................................... 31
1.2 Modos de operação da Ideologia ..................................................................... 34
1.3 Hermenêutica da Profundidade ........................................................................ 40
1.4 Enfoque Tríplice .............................................................................................. 48
CAPÍTULO 2: Literatura Infanto-Juvenil ....................................................................................... 52
2.1 Literatura Infanto-Juvenil e ideologia .............................................................. 57
2.2 Literatura Infanto-Juvenil e desigualdades raciais ........................................... 67
PARTE II: ANÁLISE DO CONTEXTO SÓCIO-HISTÓRICO
CAPÍTULO 3: Programa Nacional de Biblioteca da Escola ...........................................................
76
3.1 Acervo .............................................................................................................. 84
3.2 Diversidade .......................................................................................................
87
CAPÍTULO 4: Relações raciais na escola ....................................................................................... 90
4.1 Implementação da Lei 10.639/2003 ................................................................. 97
PARTE III: ANÁLISE FORMAL E REINTERPRETAÇÃO DAS FORMAS SIMBÓLICAS
CAPÍTULO 5: Análise formal ......................................................................................................... 104
5.1 O trabalho de transcrição dos dados ................................................................. 107
5.2 Trabalho de campo: a construção do estudo exploratório ................................ 110
CAPÍTULO 6: Análise, resultados e (re)interpretação da ideologia ............................................... 133
6.1 O processo de imersão no campo d
e pesquisa ..................................................
133
6.2 Branquidade como norma: os limites entre alteridade e ideologia .................. 138
6.3 Ideologia e discurso para a construção de uma imagem de África ..................
151
CONSIDERAÇÕES FINAIS
........................................................................................................
169
REFERÊNCIAS
.............................................................................................................................
176
ANEXOS
.........................................................................................................................................
183
13
INTRODUÇÃO
Escambado, escambado, foi Maria que inventou
Maria já morreu, escambado aqui ficou.
Chora escambado, chora escambado...
Esta e outras músicas que ouvia desde muito pequena na voz de minha avó Geralda,
mulher negra, analfabeta, mineira do Cerro, assim como a história da Maria e sua cadelinha,
e que hoje reproduzo nas minhas turmas de ensino fundamental, fazem parte da memória
coletiva de minha família, memória esta que se reproduzida assim como ela foi criada:
oralmente, passada de avó para neta, de tia para sobrinha... A oralidade, como elemento
básico de toda e qualquer cultura, é essencial para a perpetuação dos seus detalhes
mnemônicos. Contudo, o registro escrito amplia a possibilidade de mais grupos conhecerem
como se dá a organização e a forma de viver de outros povos.
Muitas pessoas têm a possibilidade de ver registrado em documentos oficiais como os
livros, por exemplo, um pouco da memória e cultura de seu povo. Isto certamente fortifica e
enriquece as novas gerações sobre o seu passado, sua trajetória e história. Além da ausência, o
que se verifica sobre (e para a) população afro-brasileira é a deturpação de informações,
estereotipação e inferiorização, produzidas por meio das histórias literárias, dos
conhecimentos “científicos” e da história oficial. Esta combinação de ausência e (quando não)
presença deturpada representa um importante elemento para a manutenção de uma hierarquia
entre grupos humanos.
Por vezes me deparava, nas bibliotecas das escolas onde atuei, com enredos e
ilustrações que enfatizavam aspectos negativos de personagens negras e isso me chamava a
atenção por considerar que, embora a leitura literária deva ser por fruição, livre de controles e
regras morais, a ideologia implícita nestes textos, além de impedir esta liberdade de fruição,
servia para gerar, difundir e/ou reproduzir preconceitos racistas. Sentia, numa espécie de
dejavu, o quão significativas aquelas imagens ou enredos eram para a minha formação como
criança-adolescente-mulher, professora e cidadã brasileira negra. Esta, verdadeiramente, foi a
grande motivação para esta pesquisa.
As interações sociais ao longo da história do Brasil foram e continuando sendo
marcadas pela influência do racismo, cuja manifestação, por vezes explícitas e outras sutis,
estabelecem-se de diferentes formas, inclusive na interação verbal. Tais manifestações vêm
sendo constantemente denunciadas em busca de uma efetiva superação. Concomitantemente a
14
isso, contudo, novas configurações do racismo também são verificadas, o que exige a
elaboração de suportes mais eficazes de interpretação. É neste campo que esta dissertação se
estabelece: estudar aulas de leitura de obras literárias em turmas de 4
as
séries
1
do Ensino
Fundamental e analisar os discursos proferidos a partir da leitura, no que se refere a relações
raciais
2
, em particular a formas de racialização, nos discursos, entre brancas/os e negras/os
3
.
A discussão em torno do racismo como elemento presente nos espaços escolares vem
sendo estudada por diversas/os autoras/es. Grande parte dos estudos brasileiros tem-se voltado
para a análise de conteúdo de livros didáticos e de literatura, os quais são identificados como
mecanismos de criação e/ou reprodução de ideias
4
e representações preconceituosas acerca da
população (ou personagens) negras brasileiras
5
. Estas análises apontaram que, embora
diversos segmentos do movimento negro e pesquisadoras/es da área indicassem, como uma
das maiores reivindicações, a não-discriminação em livros didáticos e de literatura infanto-
juvenis como forma de minimização de preconceito, as mudanças detectadas o
relativamente diminutas. Mesmo com a sanção da Lei Federal 10.639/2003 e sua
normatização pela Resolução 01/2004 e Parecer 03/2004 do Conselho Nacional de Educação
6
apontando indicativos de como as representações estereotipadas de pessoas negras em
materiais didáticos e paradidáticos contribuem para a manutenção e reprodução do racismo,
no que se refere à produção literária e didática, bem como nos meios midiáticos, a situação
apresenta-se quase estagnada:
1
Nas duas escolas em que esta pesquisa aconteceu, a nomenclatura das turmas não era de ano como preveem
as mudanças na legislação educacional (Lei 11.274/2006).
2
Por todo o texto utilizarei os termos “relações raciais” e “relações étnico-raciais” como sinônimos, bem como
“literatura infanto-juvenil” e “literatura infantil”.
3
Por defender uma educação não-sexista, que se baseia num “conjunto de atitudes acadêmicas, que se expressa,
sobretudo, na forma escrita” (Jimena FURLANI, 2009, p. 134), neste artigo, além de utilizar o gênero feminino e
masculino para me referir às pessoas em geral, adoto tamm outra postura originada dos Estudos Feministas: o
destaque dos/as autores/as citados/as. Sendo assim, na primeira vez que a citação de um/a autor/a, transcrevo
seu nome completo para a identificação do sexo e, consequentemente, para proporcionar maior visibilidade às
pesquisadoras e estudiosas. Assim também por todo o texto, e não somente na introdução, a linguagem de gênero
se fará presente: em alguns momentos por meio de barras (/) e outro pelo registro total dos vocábulos: “alunas e
alunos”, por exemplo.
4
Considerando as alterações na ortografia brasileira, esta dissertação tem como proposta adequar-se às novas
regras, buscando, contudo, a manutenção das palavras em seus contextos originais quando se tratar de citação.
5
Ver mais em Silva (2008b).
6
A Lei 10.639 de 09 de janeiro de 2003 altera o artigo 26-A da Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional,
tornando obrigatório o ensino de História e Cultura Afro-Brasileira, depois modificada pela Lei 11.645 de 11 de
março de 2008, que manteve o mesmo texto e acrescentou o ensino de História e Cultura Indígena. A primeira
destas Leis foi normatizada por: Resolução 1 de 17 de junho de 2004 que institui as Diretrizes Curriculares
Nacionais para as Relações Étnico Raciais e para o Ensino de História e Cultura Afro-Brasileira e Africana por
meio do Parecer 03 de 10 de março de 2004 do Conselho Nacional de Educação/Conselho Pleno/DF.
15
No plano simbólico, as pesquisas sobre diversos meios: literatura, cinema,
imprensa, televisão, publicidade, literatura infanto-juvenil indicam que nos
últimos anos ocorreram modificações nos discursos sobre o negro. Mas são
mudanças circunscritas, que não significaram a ruptura ou quebra nas
práticas discursivas que limitam o/a negro/a e privilegiam o branco, que é
considerado o representante natural da humanidade e, via de regra, a quem
os discursos se dirigem (Paulo Vinicius B. da SILVA, 2005, p. 6).
Outras pesquisas empenharam-se em analisar os discursos produzidos na escola acerca
das relações raciais: Rachel de Oliveira, 1992; Eliane Cavalleiro, 2006; Rita de Cássia Fazzi,
2006; Luiz Paulo da Moita Lopes, 2006; Letícia Passos de Melo Sarzedas, 2007; Elânia de
Oliveira, 2008 e outras. Tais estudos também apontaram para a presença do racismo vigente e
atual nas escolas brasileiras que adota, por vezes, novas configurações que o fazem adquirir
um caráter mais sutil, porém tão danoso quanto manifestações diretas.
A presente pesquisa integra, portanto, este grupo de estudos voltados ao campo da
interpretação de interações sociais no espaço escolar. Contudo, tendo foco especificamente
voltado para a recepção de leituras de obras infanto-juvenis, este trabalho estabelece um
diferencial pois propõe uma análise de três eixos essenciais: a literatura infanto-juvenil, a
aplicação desta literatura no espaço escolar e os discursos racializantes produzidos acerca de
tais leituras.
Neste prisma, a investigação parte da premissa de John B. Thompson (2002) de que
relações, quando assimétricas, seja no campo das representações seja na distribuição e acesso
ao poder, operam por meio das formas simbólicas, que estão presentes nos discursos, e são
reproduzidas para grandes audiências nas mensagens midiáticas (livros, programas de
televisão, jornais, etc.). A escola e sala de aula em particular tornam-se, portanto, uma área
fértil de interpretação da ideologia cuja definição é, para o autor, considerada em seu sentido
negativo: trata-se de um conceito que está a serviço do poder(THOMPSON, 2002, p. 16).
Neste sentido, Thompson propõe a reformulação do conceito de ideologia por concebê-la
como “o pensamento de alguém diferente de nós”, que é responsável por modificar, de acordo
com os interesses de outrem, a forma como recebemos e interpretamos as formas simbólicas.
Portanto, para o autor, “o conceito de ideologia pode ser usado para se referir às maneiras
como o sentido (significado) serve, em circunstâncias particulares, para estabelecer relações
de poder que são sistematicamente assimétricas [que ele chama de] ‘relações de dominação’”
(THOMPSON, 2002, p. 16, destaques do autor). Por sua vez, o termo “dominação” é tomado
por Thompson não apenas “em relação a formas de poder que estão institucionalizadas”
16
(THOMPSON, 2002, p. 18) por não serem as únicas e nem necessariamente as mais
importantes. O autor considera que:
Para a maioria das pessoas, as relações de poder e dominação que as atingem
mais diretamente são as caracterizadas pelos contextos sociais dentro dos
quais elas vivem suas vidas cotidianas: a casa, o local de trabalho, a sala de
aula, os companheiros. Esses são contextos em que os indivíduos gastam a
maior parte de seu tempo, agindo e interagindo, falando e escutando,
buscando seus objetivos e seguindo os objetivos dos outros. Esses contextos
estão organizados de maneira complexas. Eles implicam desigualdades e
assimetrias de poder e recursos, algumas das quais podem estar ligadas a
desigualdades e assimetrias mais amplas, que passam de um contexto a outro
e que se referem às relações entre homens e mulheres, entre negros e
brancos, entre aqueles que têm riqueza e propriedade e aqueles sem riqueza e
propriedade (THOMPSON, 2002, p. 18).
Assim, concordando com o autor que, “[a]o estudar a ideologia, estamos interessados
tanto nos contextos da vida cotidiana como naquele conjunto específico de instituições que
compreende a esfera da política, no seu sentido estrito” (THOMPSON, 2002, p. 18), esta
pesquisa emprega sua teoria por ter como proposta um estudo que amplia seu foco de análise
sobre o racismo para além do espaço escolar. Para tanto, utiliza o sistema metodológico
proposto por Thompson (2002) por meio da Hermenêutica da Profundidade (HP), que se
constitui em uma estrutura analítica orientada para a interpretação (ou reinterpretação) dos
“fenômenos culturais, isto é, para a análise das formas simbólicas em contextos estruturados”
(THOMPSON, 2002, p. 33).
Este referencial metodológico propõe procedimentos em três fases distintas, mas que
se complementam: análise sócio-histórica, que se interessa pelas condições sociais e
históricas de produção, circulação e recepção das formas simbólicas; análise formal ou
discursiva, que compreende um estudo voltado às construções das formas simbólicas; e
(re)interpretação que se constrói a partir dos resultados da análise sócio-histórica e a análise
formal ou discursiva, tendo seu foco de interesses sobre a “explicitação [...] do que é dito ou
representado pela forma simbólica” (THOMPSON, 2002, p. 34). O autor ainda propõe que,
para uma efetiva interpretação que abranja desde a produção até a recepção das formas
simbólicas, é necessário um enfoque de modo mais particular sobre três aspectos: a) a
produção e transmissão; b) a construção; e c) a recepção das mensagens. É o chamado
Enfoque Tríplice.
Do ponto de vista conceitual, para a construção da categoria analítica, esta pesquisa
fez uso dos Modos gerais e estratégias de operação da ideologia (THOMPSON, 2002) que
17
consistem em modos em que o sentido pode servir, em condições sócio-históricas específicas,
para manter relações de dominação. São considerados ideológicos, portanto, apenas e se
estiverem a serviço do poder. Thompson (2002) aponta os seguintes modos: Legitimação,
Dissimulação, Unificação, Fragmentação e Reificação. Para cada um dos modos, o autor
considera algumas estratégias típicas pelas quais as formas simbólicas são construídas.
Posteriormente, duas pesquisas que se fundamentaram na teoria de Thompson (Leandro F.
Andrade, 2004; Paulo Vinicius B. da Silva, 2005) propuseram novas estratégias que serão
também utilizadas nesta pesquisa. Todos estes elementos compõem o arcabouço teórico que
orientará este estudo.
A partir dessa perspectiva foi constituído o problema de pesquisa: os discursos da
literatura infanto-juvenil e de sua interpretação, em contexto escolar, apresentam estratégias
ideológicas relativas à dominação racial? A proposta foi de investigar, por meio da
Hermenêutica da Profundidade (THOMPSON, 2002), se a produção, veiculação e
recepção/interpretação de obras literárias infanto-juvenis têm discursos que atuam no sentido
de restringir ou reforçar preconceitos raciais.
Este trabalho sofreu algumas alterações a partir do exame de qualificação, que serviram
para enriquecer tanto a organização de capítulos quanto elementos relacionados à
metodologia. A principal alteração, sem dúvida, relaciona-se com o modelo de pesquisa
utilizado. Inicialmente, e sob influência, sobretudo, da pesquisa de Luiz Paulo da Moita Lopes
(como será mais bem detalhado à frente) a proposta que aparentemente mais se adequava a
este estudo era de um modelo de micro-análise etnográfica, considerando que a imersão no
espaço escolar não seria de tempo relativamente longo (e, portanto, não podendo ser
etnográfica), mas que fazia uso de características desta vertente, que analisava contextos
particulares de sala de aula. Contudo, no exame de qualificação, os apontamentos da banca
indicaram que, diante do perfil dos dados coletados/produzidos
7
e da forma como foi minha
imersão no campo de pesquisa, este estudo configurava-se em observação participante. E,
neste sentido, as adequações necessárias foram realizadas uma vez que a pesquisa, como um
todo, enquadrava-se perfeitamente ao modelo de observação participante, não necessitando,
portanto, de alterações ou na necessidade de retorno ao campo.
Outra importante alteração apontada durante o exame de qualificação foi a readequação
dos parâmetros de análise das duas escolas pesquisadas. Como será descrito no capítulo 5, o
7
Em consonância com o que afirmou a profa. Dra. Tânia Maria Figueiredo Braga Garcia durante a banca de
qualificação desta dissertação, adotarei, além de “coleta”, o termo “produção” de dados pois, segundo Garcia
(2009), em pesquisas qualitativas, de forma geral, os dados são produzidos e não meramente coletados.
18
tempo de imersão na primeira escola foi bem inferior ao da segunda escola, além de outros
problemas relacionados ao modelo de aula de leitura e à explicitação e compreensão, por parte
da escola, dos objetivos da pesquisa. Tais elementos foram considerados impeditivos para que
se estabelecesse uma “comparação” entre os dois estabelecimentos e, a alternativa para a
inclusão dos resultados , portanto, foi inserir a coleta/produção de dados da Escola A como
um estudo exploratório, e seus resultados como indícios e não de ideologia racista, que de
certa maneira, corroboraram os resultados da Escola B.
Mais relacionado às expectativas subjetivas de uma pesquisa engajada em interpretar as
ideologias presentes no contexto escolar e literário no que se refere às relações raciais, foi o
rompimento de uma concepção estereotipada sobre a branquidade. Com a professora de
literatura da Escola B pude ter acesso a outras possibilidades de compreender a branquidade
com comportamentos e atitudes diferentes do modelo normativo, hegemônico e unilateral; a
preocupação em desenvolver debates relevantes sob uma perspectiva de alteridade em relação
à cultura africana sobressaiu-se na pesquisa, a ponto de levar à criação de uma categoria
específica de análise no capítulo 6.
Este trabalho está estruturado a partir da proposta metodológica da Hermenêutica da
Profundidade, contendo três partes, além do campo de estudo: análise do contexto sócio-
histórico, análise formal e reinterpretação das formas simbólicas.
Inicialmente, é o Campo de estudo que fornecerá as primeiras informações sobre o
objeto da pesquisa, o conceito de ideologia adotado neste trabalho, a metodologia da
Hermenêutica da Profundidade e do Enfoque Tríplice, elementos essenciais para a
compreensão da estrutura deste estudo como um todo. A literatura infanto-juvenil (capítulo
2), e as principais vertentes e pesquisas sobre ideologia e desigualdades raciais relacionadas a
este gênero literário serão também discutidas nesta parte.
A parte II, Análise do contexto sócio-histórico, correspondente ao primeiro vel de
análise conforme proposta da Hermenêutica da Profundidade, reúne os capítulos 3 e 4: ambos
têm como finalidade discutir sobre as políticas públicas de incentivo à leitura por meio do
Programa Nacional de Biblioteca da Escola e as implicações decorrentes dos debates acerca
das relações raciais no espaço escolar.
A terceira e última parte, Análise formal e reinterpretação das formas simbólicas, será
responsável por apresentar os procedimentos da análise formal e desenvolver a
(re)intepretação da ideologia, buscando verificar se houve ou não o estabelecimento de
relações assimétricas na produção, veiculação e recepção de obras infanto-juvenis no que
refere à representação de personagens negras.
19
PARTE I – CAMPO DO ESTUDO
SOBRE O OBJETO
Este estudo estabeleceu-se a partir da análise discursiva produzida por meio da
articulação de três grandes eixos: a literatura infanto-juvenil presente no espaço escolar, a sua
utilização em aulas e as relações raciais. Dada a sua complexidade, esta articulação define-se
a partir de uma base de análise teórico-metodológica, a Hermenêutica da Profundidade
8
, com
vistas a elaborar uma interpretação da ideologia na perspectiva de Thompson (2002).
Buscando analisar a importância destes três grandes eixos e a relevância de sua articulação, a
proposta, nesta seção, é de situá-los sócio-historicamente.
A constante polêmica envolvendo a presença da literatura infanto-juvenil na escola e a
forma como suas leituras são encaminhadas se faz presente também nesta pesquisa. Seja
relacionado aos aspectos de ausência/presença de livros que abordam em seus enredos a
diversidade étnico-racial, seja com relação à metodologia das aulas de leitura e
encaminhamento dos debates, torna-se necessário discutir mais amplamente a relação entre
livros x encaminhamento metodológico x educação das relações étnico-raciais.
Para tanto, parte-se do pressuposto de quão conflituoso vem sendo o campo de análise
da presença da literatura infanto-juvenil no espaço escolar: sua associação ao ensino de língua
materna tem provocado discussões sobre a sua veiculação e os objetivos que deve alcançar.
Por se tratar de um gênero literário que tem seu surgimento e desenvolvimento atrelado à
escola, por vezes sofre as consequências de não conseguir firmar seu caráter literário não
subordinado às funções didáticas.
Ancorado em diversos estudos, a polêmica no espaço escolar permanece: é mais
adequado trabalhar literatura inserida no contexto das demais disciplinas ou separá-la para
que haja efetivamente a relação necessária entre as crianças, leitoras em construção, e o livro
como um bem cultural? Não há, na presente pesquisa, a pretensão de propor respostas a esta
pergunta, mas sim, a partir dela, introduzir a busca pela interpretação da ideologia envolta no
processo de leitura literária e relações raciais na escola.
Nely Novaes Coelho (2002) defende que a escola e a literatura devam estar
intrinsecamente ligadas, dadas as características de ambas e que as unem em um fim comum:
8
Que será apresentada no próximo capítulo 1.
20
[...] a escola é, hoje, o espaço privilegiado, em que deverão ser lançadas as
bases para a formação do indivíduo. E, nesse espaço, os estudos literários,
pois, de maneira mais abrangente do que quaisquer outros, eles estimulam o
exercício da mente; a percepção do real em suas múltiplas significações; a
consciência do eu em relação ao outro; a leitura do mundo em seus vários
níveis e, principalmente, dinamizam o estudo e conhecimento da língua, da
expressão verbal significativa e consciente condição sine qua non para a
plena realidade do ser (COELHO, 2002, p. 16, destaques da autora).
Para Regina Zilberman (1987, p. 21) as forças conjugadas de literatura infanto-juvenil
e escola agem “no projeto de doutrinar os meninos e então seduzi-los para a imagem que a
sociedade quer que assumam – a de seres enfraquecidos e dependentes, cuja alternativa
encontra-se na adoção dos valores vigentes, todos solidários ao adulto”. Para a autora, a
construção de uma imagem de literatura didatizante e doutrinária contribuiu para estabelecer
esta relação conflituosa com a escola, já que ambas, segundo ela, têm “servido à multiplicação
da norma em vigor” “[...] que é também a da classe dominante [...]” (ZILBERMAN, 1987, p.
20). Porém, esta mesma autora retoma esta discussão reconsiderando que, diante de tal
contexto instaurado, literatura e escola podem atuar como propulsora para a criança
“refletir sobre sua condição pessoal” (ZILBERMAN, 1987, p. 21).
Recentes pesquisas indicam que essa relação conflituosa, e sem previsões de ser
findada, têm apresentado resultados, alguns diagnosticados e outros diferentes do que se
concebe no senso comum, como por exemplo, de que jovens não gostam de ler. Uma
publicação do Ministério da Educação (BRASIL, 2008) revela a realização da pesquisa
Avaliação diagnóstica do Programa Nacional de Biblioteca da Escola PNBE que teve
como objetivo “obter subsídios sobre o uso que vem sendo feito dos livros encaminhados às
escolas e sobre o impacto desse Programa [PNBE] na formação de leitores” (p. 5). E esse
estudo indicou que entre jovens estudantes a concepção é outra:
O aprendizado e o desenvolvimento cognitivo apareceram como sendo os
principais motivos que levavam estudantes a ler sabiam que era
importante ler porque ajudava no conhecimento, ajudava a saber mais: ‘A
leitura em si encanta, gosto de ler sobre povos e culturas, é importante ler, é
importante saber mais’. Explicitaram que lêem para se preparar para o
futuro, para ‘fazer pesquisas, para prova, para saber mais e ter mais
conhecimentos’. Disseram que a prática da leitura ajudava muito, porque
‘você fica mais atualizado, não gagueja na hora de ler, conhece as palavras e
novos assuntos também, faz você ter contato com outras linguagens’. Mas
também atribuíam outras funções para a leitura como: ‘eu leio para viajar’,
‘eu leio para me distrair’ (BRASIL, 2008, p. 92, destaques do autor).
21
Embora esta mesma pesquisa situe historicamente que esta informação se faz presente
em outros estudos (como, por exemplo, em Flamarion Maués
9
, 2002), a realidade ainda
aponta que, mesmo quando se considera que houve um “possível descompasso entre ‘os
discursos catastrofistas sobre condições de leitura no país e os dados numéricos’ sobre
tiragens de livros, jornais e revistas [...]
10
(BRASIL, 2008, p. 18, destaques do autor), os
níveis de leitura necessitam aumentar, sobretudo se considerarmos sob o ponto de vista de
conquista da cidadania. É o que defende Magda Soares (2003):
[...] não há, em sociedades grafocêntricas, possibilidades de cidadania sem o
amplo acesso de todos à leitura e à escrita, quer em seu papel funcional
como instrumentos imprescindíveis à vida social, política e profissional
quer em seu uso cultural – como forma de prazer e de lazer. [...] [O] acesso à
leitura e à escrita, como acesso a condições de possibilidade de participação
social e cultural, é, fundamentalmente, um processo político, através do qual
grupos excluídos dos direitos sociais, civis e políticos e dos privilégios
culturais têm acesso a um bem simbólico que lhes é sonegado e que é um
capital indispensável na luta pela conquista desses direitos e desses
privilégios, na luta pela participação no poder e nas instâncias culturais de
lazer e de prazer; enfim, na luta pela transformação social (p. 58-59,
destaques da autora).
Contudo, retomando a relação entre literatura e escola, Zilberman (1991), ao se referir
sobre a “crise da leitura”, aponta que a escola (enquanto instituição a serviço do poder) atua
no sentido de promover um movimento contraditório, auxiliando o processo de capitalização
do ensino e educação:
[...] enquanto o público leitor, em especial o infantil, eleva-se
quantitativamente, constata-se sua evasão, isto é, o decréscimo de seu
interesse por livros. De modo que, se a crise efetivamente existe, ela ocorre
sob o signo da contradição entre o crescimento numérico dos consumidores
potenciais e da oferta de obras, de um lado, e a recusa do leitor em tomar
parte nesse acontecimento cultural e mercadológico. Esse último fato detona,
por parte da escola, um rol de providências corretivas com vistas à
valorização do livro e da leitura. Todavia, também essa medida revela-se
contraditória, pois como simultaneamente favorece o aumento do consumo,
acaba por transformar a ação pedagógica reparadora, que se diz
desinteressada e neutra ou então progressista e emancipadora, num agente de
incremento do mercado, vale dizer, num organismo que atua em prol dos
9
MAUÉS, Flamarion. A exclusão da leitura. Revista Teoria e Debate. São Paulo, n. 50, fev/mar/abr, 2002.
10
Segundo este documento, a Associação de Leitura do Brasil (ALB) desenvolveu, em 1999, o Censo da Leitura,
“com o objetivo de identificar que tipo de texto se lê, de que maneira e com qual finalidade, mapeando uma
amostra estatisticamente representativa de pessoas” (BRASIL, 2008, p. 18). E um dos resultados apontou que
quando se afirma que as pessoas brasileiras não leem, desconsidera-se as leituras de best-sellers, jornais
“populares”, livros religiosos, revistas femininas, novelas sentimentais e livros de auto-ajuda, por caracterizá-las
fora do “cânone” de leitura.
22
setores ligados ao capital no conjunto da sociedade burguesa
(ZILBERMAN, 1991, p. 16).
Neste sentido, e concordando com a autora, é possível afirmar que a relação entre
literatura infanto-juvenil e educação apresenta-se intrinsecamente ideológica, por revelar-se
criadora de um fenômeno simbólico específico a leitura literária inserida num espaço de
poder, a escola que atua para “estabelecer e sustentar uma relação de dominação”
(THOMPSON, 2002, p. 76). Portanto, este campo, por si só, já se torna possível e passível de
análise e interpretação da ideologia. Mas, se adicionarmos o elemento “relações raciais”, este
campo amplia-se consideravelmente, por firmar-se em uma base ideológica a priori que passa
a refletir também a ideologia racista, da qual estas duas grandes instituições sociais (literatura
e escola) atuaram historicamente para a sua manutenção e reificação; ou, como, nas palavras
de Paulo Silva (2007, p. 161), “[o]s nossos leitores infanto-juvenis continuam convivendo
com discursos literários que difundem a hierarquia entre brancos e negros e que discriminam
a não-brancos”.
Para ilustrar o que se afirma como uma considerável ampliação do campo de literatura
juvenil e escola acrescida do estudo sobre relações raciais, um quadro, inicialmente elaborado
por Paulo Silva (2007) e que recebeu a adição de novas categorias e pesquisas, busca
explicitar a gama de produções científicas que se preocupou com estes eixos. Nele inseridas
estão pesquisas elaboradas desde o final da década de 1970
11
.
Praticamente não existiam personagens negras na literatura infanto-juvenil anterior a 1920
(
GOUVÊA
12
, 2004, 2005);
obras do período entre 1890-1920 cujos enredos ignoram as atrocidades da escravização, embora
relatem o período
(FRANÇA, 2006) e obra atual que apresenta a mesma omissão (OLIVEIRA, 2003);
sub-representação de personagens negras, em textos e ilustrações (ROSEMBERG, 1985; BAZILLI,
1999;
LIMA, 1999; GOUVÊA, 2004, 2005; KAERCHER, 2006; PESTANA, 2008; FERREIRA, 2008;
VENÂNCIO
, 2009);
menor elaboração de personagens negras, com altas taxas de indeterminação de situação familiar e
conjugal, escolaridade, origem geográfic
a, religião (ROSEMBERG, 1985; BAZILLI, 1999; OLIVEIRA,
2003;
GOUVÊA, 2004, 2005; KAERCHER, 2006);
estereotipia na ilustração de personagens negras (ROSEMBERG, 1985; LIMA, 1999, GOUVÊA, 2004,
2005;
KAERCHER, 2006; FRANÇA, 2006; FERREIRA, 2008; PESTANA, 2008);
associação do ser negro com castigo e com feiúra (ROSEMBERG, 1985; OLIVEIRA, 2003;
KAERCHER
, 2006);
associação do ser negro com simplicidade, primitivismo, ignorância, proximidade à natureza
(
ROSEMBERG, 1985; GOUVÊA, 2004, 2005; KAERCHER, 2006; PESTANA, 2008);
11
A publicação do livro de Fúlvia Rosemberg (1985) apresenta síntese de resultados de pesquisa da Fundação
Carlos Chagas com relatórios depositados na biblioteca desta fundação em 1978-79.
12
Para não expandir exageradamente a extensão deste quadro, os nomes por extenso das pesquisadoras e
pesquisadores serão explicitados nos capítulos 2 e 3, ou, no caso das pesquisas indicadas no quadro original,
ver mais em Paulo Silva (2007).
23
associação com personagens antropomorfizados (não-humanos) (ROSEMBERG, 1985; OLIVEIRA,
2003;
GOUVÊA, 2004, 2005);
associação, pela cor, com maldade, tragédia, sujeira, escravidão (ROSEMBERG, 1985; LIMA, 1999;
OLIVEIRA
, 2003; FRANÇA, 2006; PESTANA, 2008);
correlação de personagens negras com profissões socialmente desvalorizadas (ROSEMBERG, 1985;
BAZILLI, 1999; LIMA,
1999; OLIVEIRA, 2003; SOUZA, 2005; PESTANA, 2008);
a/o branca/o é apresentada/o como condição humana “natural”, como representante da espécie. Ser
branco é a condição normal e neutra da humanidade: os não
-brancos constituem exceção (ROSEMBERG,
1985; BAZILLI, 1999;
NEGRÃO 1988; NEGRÃO E PINTO, 1990; PESTANA, 2008; FERREIRA, 2008);
glamuralização do mundo branco, em que se vinculam imagens de luxuosidade, requinte e riqueza a
personagens brancas (
KAERCHER, 2006);
os livros o produzidos pressupondo como leitores crianças brancas. O cotidiano e a experiência da
criança negra s
ão alijados do ato de criação das personagens e do enredo dessa literatura (ROSEMBERG,
1985;
NEGRÃO, 1987; NEGRÃO, 1988; NEGRÃO E PINTO; 1990);
mulher negra presa ao estereótipo de empregada doméstica, particularmente as senhoras submissas,
sem vida própria, devotada aos patrões brancos (
ROSEMBERG, 1985; NEGRÃO, 1998; NEGRÃO E
PINTO, 1990; PIZA, 1
995; LIMA, 1999; GOUVÊA, 2004, 2005; SOUZA, 2005; KAERCHER, 2006;
FRANÇA, 2006).
Na literatura infanto-juvenil publicada após a década de 1970, entrada de outra
personagem estereotipada, a “mulata sensual”
(PIZA, 1995; KAERCHER, 2006; FRANÇA, 2006);
ascensão social de personagem negra devido ao auxílio de personagem branca, por meio de adoção ou
de incentivo financeiro e moral, personagens brancas conseguem mudar o destino de personagens negras
(
OLIVEIRA, 2003; FERREIRA, 2008);
maioria de personagens masculinos, adultos e brancos, que, além de heterossexuais e representando a
normatividade sexual, indicam, nos seus caracteres e personalidades, modelos a serem seguidos
(
KAERCHER, 2006);
ênfase no discurso sobre a mestiçagem, em uma perspectiva de “evolução da espécie” (OLIVEIRA,
2003; KAERCHER, 2006
; FRANÇA, 2006);
clareamento, nas ilustrações, de personagens negras (Negritude radializada
13
), de modo a promover a
ocultação das características fenotípicas de tais personagens,
padronizando as ilustrações (KAERCHER,
2006);
personagem negra com identidade construída de modo fragmentado, em que não há referências
específicas e corretas sobre sua verdadeira origem (
OLIVEIRA, 2003);
discurso de tolerância às diferenças ao invés de valorização das diferenças, reafirmando a
inferioridade e desconsiderando uma perspectiva de olhar altero acerca de personagens não
-brancas
(
KAERCHER, 2006);
auto-rejeição e desejo de embranquecimento por parte de personagens negras, como uma fuga diante
do sofrime
nto que as atingem (OLIVEIRA, 2003; FRANÇA, 2006);
nomes atribuídos a personagens negras que representam metaforicamente uma carga negativa ou
apelidos depreciativos
, seja pela sua relação de vinculação comumente feita com profissões de menor
prestígio so
cial ou pobreza (OLIVEIRA, 2003; PESTANA, 2008);
configuração pedagógica e didática formando um “manual da cultura afro-brasileira”, em que
ilustrações indicam a composição de instrumentos musicais, mapas de quilombos e de locais de origem de
povos africanos, minivocabulários, etc. (FRANÇA, 2006).
QUADRO 1 NTESE DE FORMAS DE HIERARQUIZAÇÃO CAPTADAS POR PESQUISAS
SOBRE PERSONAGENS NEGRAS NA LITERATURA INFANTO-JUVENIL BRASILEIRA
FONTE: PAULO SILVA (2007, p. 161-162); ADAPTAÇÃO E AMPLIAÇÃO DA AUTORA
A maior parte dos resultados destas pesquisas foi apresentada por Paulo Silva (2007)
e, portanto, não serão retomadas aqui. As demais compõem aspectos relevantes para este
13
A autora define Negritude radializada como o “[...] resultado da fusão dos conceitos de raça e cor no Brasil
que [...] termina por criar um leque de matizes cromáticos (como um radial) que pode chegar ao infinito e que,
apesar disto, exclui as cores localizadas nas extremidades: o branco e o preto. Ou seja, ao articular o processo de
reificação da branquidade com o processo de radialização da negritude, terminamos por criar representações
cromáticas da negritude que excluem o preto, e os demais matizes escuros, como cores possíveis de serem
utilizadas em suas ilustrações. Deste modo, ao promover o desaparecimento do escuro implementa-se um
embranquecimento” (KAERCHER, 2006, p. 137-138).
24
estudo por se tratarem de pesquisas mais recentes e que apresentam, em seus resultados,
algumas alterações com relação à valorização de personagens negras. Desta forma, além de
apresentar uma análise mais detalhada no capítulo 2
14
, surgiu a necessidade da elaboração de
um quadro em separado, apontando os resultados que revelam algumas mudanças nas
hierarquias sociais, com resultados positivos para a população negra ainda que com limites
– no tocante à criação literária e ilustrações.
presença de narradoras/es negras/os, ainda em desvantagem em relação a brancas/os, mas com um aumento
em relação a pesquisas anteriores (Venâncio, 2009);
incidência maior, no acervo do PNBE/2008 (ainda com “lacunas”) de personagens negros em contextos
familiares (Venâncio, 2009);
enredos contemporâneos que expressam crítica à escravidão capitalista ao invés de ênfase na
escravização como fato passado, evidenciando outros elementos (problemas sociais) que compuseram este
momento histórico do Brasil (França, 2006);
personagem negra escravizada em obra contemporânea cuja imagem distancia-se da representação de
escravo submisso, em que sua voz ganha um tom de denúncia em relação ao processo ao que foi submetida
(França, 2006);
diminuição da taxa de branquidade relativa a personagens masculinos negros e aumento relativo a
personagens femininas negras em obras do acervo do PNBE/2008 (Venâncio, 2009);
resultados menos desiguais que pesquisas anteriores, no que se refere ao percentual de personagens
brancas ilustradas nas capas e no corpo da obra (Venâncio, 2009);
traços físicos e comportamentais de personagens negras idealizadas e superiorizadas em obras
contemporâneas (França, 2006);
aumento no número de protagonistas negras em obras de 1979-1989, embora a representação quantitativa
não represente qualidade na construção de suas identidades, enredos e contextos sociais (Oliveira, 2003);
QUADRO 2 SÍNTESE DE MUDANÇAS CAPTADAS POR PESQUISAS SOBRE
PERSONAGENS NEGRAS NA LITERATURA INFANTO-JUVENIL BRASILEIRA
FONTE: SÍNTESE DA AUTORA
Em síntese, os resultados de pesquisas brasileiras sobre relações raciais na literatura
infanto-juvenil apontam para um tratamento profundo e sistematicamente desigual entre
brancas/os e negras/os e as pesquisas mais recentes indicam mudanças nos discursos dessa
literatura, passando a apresentar algumas formas mais favoráveis a negras/os, concomitante
com a manutenção de formas de hierarquização branca/o-negra/o. Essas pesquisas focaram-se
nas desigualdades manifestadas nos discursos dos textos de obras literárias infanto-juvenil.
A proposta nesta pesquisa parte da aproximação entre grandes eixos, correspondentes
à: i) literatura infanto-juvenil, ii) seu uso na escola e iii) relações raciais. A análise dos
discursos produzidos a partir da leitura de obras infanto-juvenis em contexto escolar é a
proposta desta pesquisa, que se estabelece sobre os discursos elaborados por estudantes e
professoras. Em outras palavras, a recepção e interpretação de leituras literárias feitas em
contexto de debate sobre as relações étnico-raciais (por meio da presença de personagens
14
Com exceção da pesquisa de Venâncio (2009) que será apresentada mais detalhadamente no item 3.2, capítulo
3.
25
negras) é o diferencial nesta pesquisa, que busca promover uma interpretação da ideologia
para além do processo meramente de produção das formas simbólicas, ampliando também
para a recepção e apropriação das mensagens” (THOMPSON, 2002, p. 392, destaques do
autor). Por isto, o enfoque tríplice deste autor que será explicitado no capítulo seguinte
torna-se essencial para a produção deste trabalho.
Os próximos parágrafos buscam elucidar demais estudos que tiveram como eixo de
análise a produção discursiva acerca de leituras com temática de relações raciais no espaço
escolar, descrevendo-os brevemente e propondo a necessidade de ampliação deste formato de
pesquisa.
Na pesquisa bibliográfica realizada foi possível identificar apenas quatro trabalhos que
têm semelhanças com o presente estudo. O primeiro deles, de Rachel de Oliveira (1992), teve
como objetivo “[...] descrever e avaliar uma experiência desenvolvida por um grupo de
educadores(as) negros(as) na rede pública de ensino do Estado de São Paulo na década de 80
(OLIVEIRA, 1992, p. 1). Por meio de análise dos relatos escritos da direção, professoras/es e
estudantes, após a realização de um projeto proposto por um segmento da Secretaria de
Estado da Educação de São Paulo, o Projeto “Salve 13 de Maio?”, a autora apontou elementos
relevantes para a interpretação das relações raciais na escola:
Comparando os argumentos usados pelos diferentes autores dos relatórios,
uma forte diferença de tom entre as produções dos adultos (professores e
diretores) e dos alunos. Enquanto os primeiros parecem cautelosos na
explicitação da discriminação, os alunos tendem a ir diretamente ao ponto,
relatando inúmeras situações em que a discriminação contra a criança negra
é praticada tanto pelos professores quanto por eles próprios (OLIVEIRA,
1992, p. 124).
Em síntese, a fala da criança negra resume-se em três pontos: o de afirmação
da existência da discriminação racial, embora algumas crianças neguem a
experiência de terem sido discriminadas individualmente; a afirmação de
igualdade humana (biológica, moral, intelectual e cultural) entre brancos e
negros; e o apelo ao combate à discriminação, baseando-se na igualdade
universal dos seres humanos, a qual transcende a situação racial e social
(OLIVEIRA, 1992, p. 109).
Embora o recurso utilizado de coleta/produção de dados tenha diferenciação com o
que foi proposto nesta pesquisa, ambas aproximam-se por envolverem o campo de análise da
recepção/interpretação de mensagens textuais produzidas no espaço escolar, focadas nas
relações raciais no Brasil.
Outra pesquisa, de Ivone Martins de Oliveira (1993), buscou, na perspectiva Sócio-
Histórica dos estudos psicológicos, interpretar a autoconceituação de crianças negras de uma
26
série no ano de 1990, “por intermédio da observação, do registro e da reflexão sobre uma
série de eventos ocorridos em sala, os quais focalizavam as interações das crianças em
momentos em que elas falavam e fazem avaliações sobre si mesmas e sobre os colegas [...]”
(OLIVEIRA, 1993, p. 4).
Na pesquisa, a autora fez uso de registros escritos após observação das interações
estabelecidas em sala de aula e, em algumas situações (como conversas com a professora) de
gravações de voz, além de análise de textos produzidos por alunas/os. Propondo uma pesquisa
que amplia a análise para além da “visão reducionista da sala de aula, [que] tem buscado as
variáveis que interferem no desempenho escolar do aluno (e, conseqüentemente no nível de
autoconceito) nos limites da relação entre aluno, conhecimento escolar e estratégias de ensino,
por um lado, entre aluno e professor” (OLIVEIRA, 1993, p. 44), a pesquisadora sugere maior
atenção para a interação “aluno/aluno” (OLIVEIRA, 1993, p. 44). Foi a partir desta
constatação que seus interesses de pesquisa voltaram-se particularmente para o
acompanhamento da vida escolar de duas alunas “discriminadas por serem consideradas
‘pretas’” (OLIVEIRA, 1993, p. 45, destaques da autora).
Dentre os resultados encontrados, a autora ressalta:
O aprofundamento deste estudo colocou-nos em contato com uma
complexidade de aspectos intervindo nas interações estabelecidas e
interlocuções produzidas entre estas crianças e as outras da classe, bem
como na própria definição do que era/deveria ser uma menina-aluna-‘preta’
e de seu lugar na escala de valores construída entre e pelo grupo de alunos.
Em meio a esta complexidade de aspectos ressaltam-se a situação sócio-
econômica e a identidade de gênero, determinando modos de dominação e
de interação estabelecidos com crianças que têm sinais diacríticos étnicos
referentes ao negro. Em contrapartida, observamos nos enunciados destas
alunas explicitamente discriminadas, ao falarem sobre si próprias, indícios
de algumas vozes que circulam pela sala e, em meio a estas vozes, da voz
que fala da perspectiva da discriminação (OLIVEIRA, 1993, p. 138-139,
destaques da autora).
Embora esta pesquisa tenha a sua relevância no que se refere aos estudos sobre
relações raciais no espaço escolar, considero como sendo sua limitação a opção da autora em
desenvolver uma análise unilateral de interpretação, justamente das relações raciais, sob a
perspectiva unicamente da criança negra. Mesmo compreendendo a relevância de se dar voz
aos sujeitos discriminados, sobretudo diante do momento histórico da produção da referida
pesquisa e a necessidade vigente da época de se evidenciar a crueldade de práticas racistas e
porque “[n]ão como negar que o preconceito e a discriminação constituem um problema
que afeta em maior a criança negra” (Eliane CAVALLEIRO, 2006, p. 98), tal perspectiva
27
restringe o ato da discriminação as suas vítimas, como sendo responsáveis únicas e isoladas
pelas causas e consequências do racismo. Trata-se, a meu ver, além dos argumentos que serão
resgatados do estudo de Edith Piza (2002) no capítulo 4, de mais um estudo sobre o
“problema do negro” e não um problema da sociedade, ou seja, da relação entre negras/os e
brancas/os que se concretiza na nomenclatura “relações raciais”.
O trabalho de Luiz Paulo da Moita Lopes (2002), ancorado na perspectiva da
“socioconstrução das identidades sociais”, teve como objetivo investigar “como, nas práticas
discursivas situadas na escola, aprendemos a nos constituir como seres sociais” (p. 16). Tal
pesquisa foi realizada em turmas de série de duas escolas públicas, durante aulas de língua
materna. Seu arcabouço teórico está vinculado aos “novos estudos de letramento” que,
segundo o autor, “se refere não somente ao que as pessoas fazem com o letramento na vida
social como também aos valores, às ideologias e às crenças que envolvem essa atividade
humana” (p. 17).
Considerando o letramento como prática social, o autor afirma:
Assim, com base em uma visão de leitura como prática social situada, em
que se ressalta o discurso como ação por meio do qual escritores e leitores
(aqui alunos e professores) estão fazendo as coisas uns com os outros, por
assim dizer, focalizo como esses estão agindo no mundo social, se
construindo e construindo os outros (MOITA LOPES, 2002, p. 17).
Seu trabalho, organizado em três partes (I - A construção da diferença e da raça; II – A
construção da sexualidade e do gênero: masculinidades escolares; III Uma abordagem do
discurso: desconstruindo identidades sociais em sala de aula), teve foco de análise na
constituição de identidades de gênero, raça e de sexualidade. Sua pesquisa, embora tenha
primado por discutir três eixos de forma equilibrada (raça, gênero e sexualidade), tendeu,
durante seu curso de coleta/produção de dados, a abordar com maior profundidade a
construção da masculinidade, dadas as alterações no trabalho de campo
15
. No que se refere
especificamente aos discursos produzidos acerca das relações raciais, Moita Lopes (2002)
analisou uma aula em que o debate foi suscitado a partir da leitura de um texto narrativo
15
Segundo o autor, a mudança se deu em face de que em uma das salas, havia a presença de um menino,
identificado pelos demais meninos e meninas como “homoerótico”. “Como conseqüência da relevância que a
questão da masculinidade passou a ter para o entendimento da problemática do gênero e da sexualidade nesse
contexto [...],” o foco direcionou-se para a análise da construção de uma “masculinidade hegemônica” (MOITA
LOPES, 2002, p. 19-20).
28
intitulado “Respeito às diferenças”. Foi possível verificar, por meio de quatro narrativas
16
feitas por estudantes, o quão imbricada e complexa é a relação entre respeito a diferenças e
raça.
Dentre os resultados encontrados, muitos deles relacionados à presença da narrativa
para a interpretação da vida social e a construção das identidades, um deles se destaca por
relacionar-se ao encaminhamento pedagógico da professora pesquisada em relação aos
debates:
Ficou clara [...] a posição que a professora ocupa como legitimadora de
alguns sentidos aos quais os alunos estão prontos a aderir ao projetarem uma
imagem positiva de si mesmos na medida em que contam histórias que
envolvem preconceito racial e que vão ao encontro dos argumentos da
professora de desaprovação desse tipo de discriminação. [...] [A] professora,
na assimetria interacional em sala de aula, tende a orientar os significados
possíveis sobre aquilo que se fala em sala de aula. [...] Isso também chama a
atenção para o papel que professores desempenham nos processos de
construção das identidades sociais em sala de aula ao sancionarem uns tipos
de identidades sociais e não outros (MOITA LOPES, 2002, p. 79).
O estudo de Moita Lopes (2002) representou, no momento de elaboração do problema
desta pesquisa, uma grande inspiração para a produção/coleta dos dados por, de certa forma,
ter apresentado resultados que se aproximavam das minhas “hipóteses subjetivas” de que a
atuação da professora de literatura infanto-juvenil seria no sentido de reforçar preconceitos.
Tais hipóteses foram, nesta pesquisa, em parte contraditas e em parte fortalecidas, conforme
indicam os resultados apresentados no capítulo 6 (página 134).
O estudo mais recente do qual tive acesso cujo foco é voltado para a interpretação
discursiva acerca de leituras sobre relações raciais na escola foi desenvolvido por Elânia de
Oliveira (2008) em turmas de 3º ano do 2º ciclo do ensino fundamental de uma escola pública
de Belo Horizonte. De caráter etnográfico, sua pesquisa teve objetivo “discutir a relação entre
o ensino de Português e a visibilidade ou não de categorias sociais de raça e de gênero, dentre
outras, no contexto da interação social” (OLIVEIRA, 2008, p. vi). Por meio de registros de
notas de campo e filmagens, a autora chegou a um total de 169 horas/aula, além de entrevistas
formais e informações e análise de produções diversas. Oliveira (2008, p. 154) aponta que
“foi possível observar que as atitudes, os discursos e as ações ligadas à questão racial e de
gênero fazem parte do jogo de relações e interações presentes na sala de aula, porém, não são
16
Neste sentido específico, Moita Lopes (2002) refere-se às narrativas como sendo “formas de organizar o
discurso através das quais agimos no mundo social [e que] têm sido entendidas como desempenhando um papel
central no modo como aprendemos a construir nossas identidades na vida social” (p. 63-64).
29
percebidos e/ou problematizados pela(s) docente(s)”. Além destes, destacam-se outros
elementos relacionados à concepção de ensino de língua portuguesa:
Os resultados evidenciam que a gramática ainda exerce primazia sobre o
texto, o qual, muitas vezes, serve de artifício para o exercício das normas
gramaticais, contrariando as orientações com base nas novas concepções de
língua, conforme indicações dos PCN, que buscaram incorporar tais
orientações teóricas. Não se percebeu, por exemplo, no desenvolvimento das
atividades, uma preocupação com as características dos gêneros textuais ou
com a importância dos aspectos discursivos do texto, tais como identificar o
ponto de vista do(s) autor(es), estudar as características do vocabulário
empregado no texto, discutir o modo como o tema foi tratado pelo autor, a
perspectiva histórica e social na qual o texto está situado, dentre outras
possibilidades (OLIVEIRA, 2008, p. 154).
As pesquisas aqui apresentadas reiteraram o quão vasto é o campo do espaço escolar
no que se refere às relações raciais. Mesmo com limitações (como apontado sobre uma das
pesquisas) e possíveis diferenças metodológicas e de interpretação, os quatro estudos
evidenciam a constante necessidade de se criar mecanismos para compreensão de práticas
discriminatórias e racistas, com vistas a exercer a crítica a tais e, além disso, discutir e propor,
cada vez mais, modelos de educação democráticos e igualitários. É sob este prisma que o
presente estudo também se firma: buscando desvelar, por meio da interpretação da ideologia,
possíveis reificações ou restrições do racismo no contexto da recepção de obras literárias
infanto-juvenis e, ao mesmo tempo, compromete-se com a qualidade da educação para todos
os grupos humanos, que devem ser respeitados em suas especificidades e receber tratamento
baseado ao mesmo tempo na igualdade e no respeito à diferença.
30
CAPÍTULO 1 – IDEOLOGIA E HERMENÊUTICA DA PROFUNDIDADE
Engajar-se na interpretação da ideologia é uma atividade
arriscada e cheia de conflitos. É arriscada porque o significado
de uma forma simbólica não é dado de antemão, fixo,
determinado; oferecer uma interpretação é projetar um
significado possível, dentre muitos significados possíveis que
podem divergir, ou conflitar com outro.
John B. Thompson
Este capítulo propõe a apresentação dos conceitos de Ideologia, Hermenêutica da
Profundidade e Enfoque Tríplice, desenvolvidos por Thompson (2002), e que serão subsídios
teórico-metodológicos desta dissertação. Compõe-se das seguintes partes: a primeira dedica-
se a explorar o conceito, para Thompson, de ideologia, e como o livro literário representa um
meio de comunicação de massa. Apresenta as diversas conceituações que o termo ideologia
recebeu ao longo da história ocidental, buscando apontar as diferenças entre tais definições e a
que é proposta pelo autor em questão. A segunda parte apresenta a Hermenêutica da
Profundidade, metodologia desenvolvida por Thompson e que estabeleceu as bases de análise
deste estudo, além de expor, brevemente, pesquisas atuais que utilizaram tal metodologia para
a interpretação da ideologia em meios de comunicação de massa, particularmente os livros.
Por último, a estrutura do Enfoque Tríplice é descrita por meio de esquema a fim de
evidenciar a relação da presente pesquisa com a análise de todas as etapas pelas quais o livro
literário infanto-juvenil percorre: produção, transmissão/distribuição e leitura/interpretação.
O interesse pelos estudos deste autor inicia-se ainda quando cursava, na condição de
aluna não-regular, o seminário Infância, Relações Raciais e Aprendizagem escolar,
ministrado pelo prof. Dr. Paulo Vinicius Baptista da Silva, no segundo semestre de 2007. Mas
a efetiva decisão de optar por esta corrente teórica aconteceu durante o ano de 2008 quando
pude cursar, também ministrado por meu orientador, o seminário Ideologia, Discurso e
Educação. Com o aprofundamento na leitura da obra Ideologia e cultura moderna: teoria
social crítica na era dos meios de comunicação de massa (THOMPSON, 2002) e de outros
textos que tratavam dos diversos conceitos de ideologia gradativamente conseguia estabelecer
relações entre os objetivos desta pesquisa e os conceitos propostos pelo autor.
A proposta de Thompson firma-se na busca pela interpretação da importância dos
meios de comunicação de massa para a cultura moderna, sobretudo ocidental. Por meio do seu
conceito de ideologia, ressignificado para atender à necessidade de uma interpretação crítica,
Thompson afirma que é um de seus objetivos centrais “elaborar uma teoria diferente da
31
relação entre ideologia e os meios de comunicação”, ou, em outras palavras, “repensar a teoria
da ideologia à luz do desenvolvimento dos meios de comunicação” (THOMPSON, 2002, p.
11-12). Em síntese, ele conceitua ideologia como sendo o “pensamento do outro, o
pensamento de alguém diferente de nós” e “que se refere às maneiras como o sentido
(significado) serve, em circunstâncias particulares, para estabelecer e sustentar relações de
poder que são sistematicamente assimétricas” (THOMPSON, 2002, p. 14-16, destaques do
autor).
Considerando que entre os meios de comunicação está o livro, e cada vez mais (pelos
programas governamentais de incentivo à leitura na escola) o livro de literatura infanto-
juvenil, a interpretação da ideologia é importante para a compreensão de possíveis
mecanismos responsáveis por criação, reprodução e perpetuação de desigualdades. E,
levando-se em consideração que as obras analisadas nesta dissertação fazem parte de um
grupo específico do gênero literário infanto-juvenil (por serem obras que tratam de relações
raciais), a análise ideológica torna-se mais que necessária para a identificação dos possíveis
“efeitos” negativos ou positivos na formação sobre o ser negro por leitoras e leitores.
Para um efetivo estabelecimento e demarcação de qual conceito de ideologia
Thompson define (e que, por consonância, esta dissertação utilizará) é importante
contextualizá-lo sócio-historicamente, que se trata de um conceito adaptado pelo autor por
considerar que “a tradição de reflexão sobre a ideologia padece [...] de certas limitações”
(THOMPSON, 2002, p. 11). Para ele, este conceito percorreu “um caminho longo e sinuoso”,
responsável por uma “multiplicidade de significados” (THOMPSON, 2002, p. 12-14). E este
caminho é refeito pelo autor quando retoma desde a primeira aparição deste conceito,
passando pelos escritos de Karl Marx e chegando a autores contemporâneos que consideram
ideologia em acepções diferenciadas.
A proposta aqui, portanto, é de investigar seu percurso cronológico inverso e buscar
apreender os fatores que o levaram a estabelecer um novo conceito de ideologia.
1.1 Ideologia
O uso do termo ideologia, comumente feito, seja nos discursos orais do senso comum
quanto nas diversas vertentes das Ciências Sociais ancora-se, por vezes, em teorias
desenvolvidas em períodos e em contextos bem diferentes do atual. Sobre isso, Pedrinho
Guareschi (2000, p. 89) afirma:
32
Talvez o exista conceito mais complexo, escorregadio e sujeito a
equívocos, no campo das ciências sociais, do que o de ideologia. Embora o
nome como tal ‘ideologia’ somente tenha aparecido pouco mais de
um século, sua realidade já estava presente desde que se começou a pensar a
vida social, com diferentes nomes, mas querendo designar a mesma
realidade (destaques do autor).
Em uma pesquisa sobre as origens do termo ideologia, Thompson (2002) encontra o
responsável pela sua cunhagem: Destutt de Tracy, filósofo francês que em 1796 utiliza o
termo pela primeira vez para descrever uma nova ciência que propunha. Tal ciência tinha
como objetivo produzir uma análise sistemática das ideias e sensações, pelas quais ele
argumentava “que não podemos conhecer as coisas em si mesmas, mas apenas as idéias
formadas pelas sensações que temos delas” (THOMPSON, 2002, p. 45). Assim, “Ideologia”
era para de Tracy, literalmente conceituado como “Ciência das Idéias” e genealogicamente
como
[...] ‘a primeira ciência’, pois todo o conhecimento científico envolveria a
combinação de idéias. Ela seria, também, a base da gramática, da lógica, da
educação, da moralidade e, finalmente, ‘a maior de todas as artes, isto é, a
arte de regular a sociedade de tal modo que o ser humano encontraria ali o
maior auxílio possível e, ao mesmo tempo, o menor desprazer de sua
existência’ (THOMPSON, 2002, p. 45, destaques do autor).
Ainda segundo Thompson (2002, p. 48), “[o] conceito surgiu como parte de uma
tentativa de desenvolver os ideais do Iluminismo no contexto das revoltas sociais e políticas
que marcaram o nascimento das sociedades modernas”.
Como não é objetivo adentrar como fez Thompson na busca dos diversos conceitos
atribuídos ao vocábulo “ideologia”, a organização do quadro a seguir tem a proposta de, se
não apresentar detalhadamente cada um dos autores
17
que contribuíram para as
transformações do significado deste termo, pelo menos expor as características que cada
conceituação recebeu ao longo dos séculos.
17
Neste momento utilizo os termos no masculino pois a pesquisa de Thompson indica apenas homens como
sendo responsáveis pelo desenvolvimento do termo “ideologia”.
33
Autor Período Conceito
Destutt de Tracy 1796 Ciência das Idéias; Ideologia é parte da Zoologia, pois
considera que “os seres humanos são vistos como [...] um tipo
bem mais complexo de uma espécie animal [...]”.
Napoleão Bonaparte 1799 Utilizou inicialmente do conceito de Tracy para elaborar uma
nova Constituição, mas depois o ridicularizou por considerá-la
“uma doutrina especulativa abstrata, que estava divorciada das
realidades do poder político”. Passou, a partir daí, a perseguir
os “ideólogos” que desenvolviam uma “pretensa filosofia que
tinha incitado à rebelião ao tentar determinar os princípios
políticos e pedagógicos na base apenas no raciocínio abstrato”.
Marx
Meados do
século XIX
Concepção polêmica de ideologia: Em A ideologia alemã,
“ideologia” “é usada como um termo que conota uma doutrina
teórica e uma atividade que olha erroneamente as idéias como
autônomas e eficazes e que não consegue compreender as
condições reais e as características da vida sócio-histórica”.
1859 Concepção epifenomênica: “um sistema de idéias que expressa
os interesses da classe dominante, mas que representa relações
de classe de uma forma ilusória”.
Concepção latente: “um sistema de representações que servem
para sustentar relações existentes de dominação de classes
através da orientação das pessoas para o passado em vez de
para o futuro, ou para imagens e ideais que escondem as
relações de classe e desviam da busca coletiva de mudança
social”.
Luckács
Lenin
1920 Neutralização implícita do conceito: ideologia refere-se “às
idéias que expressam e promovem os respectivos interesses
das principais classes engajadas no conflito”.
Mannheim Início do
Século XX
Concepção particular de ideologia: “uma concepção que
permanece no nível de disfarces mais ou menos conscientes,
de enganos e mentiras”.
Concepção total de ideologia: “características da estrutura
mental de global de uma época”.
QUADRO 3 – CONCEITOS DIVERSOS ATRIBUÍDOS AO TERMO “IDEOLOGIA”
FONTE: SÍNTESE DA AUTORA SOBRE A OBRA DE THOMPSON (2002, p. 43-73)
A opção pelo conceito de Ideologia de Thompson parte do interesse de analisar os
discursos produzidos no espaço escolar sobre/de relações raciais, tendo a obra literária como
elemento mobilizador de sentidos. E, nesta situação, verificar em que medida há a valorização
ou depreciação de uma matriz civilizatória da sociedade brasileira que foi, historicamente,
relegada a um patamar inferior em relação à outra(s). Ou seja, a escolha aqui tem um caráter
de submissão de uma hipótese a uma teoria consistente que propõe, em sua conceituação, que
[...] o estudo da ideologia [...] requer que perguntemos se e, se for o caso,
como o sentido é mobilizado pelas formas simbólicas em contextos
específicos, para estabelecer e sustentar relações de dominação. A
distintividade do estudo da ideologia está na última questão: ele exige que
perguntemos se o sentido, construído e usado pelas formas simbólicas, serve
34
ou não para manter relações de poder sistematicamente assimétricas
(THOMPSON, 2002, p. 16, destaques meus).
Torna-se importante, para uma compreensão mais ampla do conceito de ideologia
deste autor, apresentar o que ele identifica como formas simbólicas: “um amplo espectro de
ações e falas, imagens e textos, que são produzidos por sujeitos e reconhecidos por eles e
outros como construtos significativos” (THOMPSON, 2002, p. 79). Nesse sentido, as formas
simbólicas em questão aqui (livros literários infanto-juvenis, ações, falas e imagens)
poderão ser identificadas como realmente ideológicas ou não, dependendo do que a
interpretação e reinterpretação permitir compreender. E para tanto, Thompson, além de
reformular o conceito de ideologia, desenvolve uma estrutura metodológica composta por
modos de operação da ideologia e a hermenêutica da profundidade. Tais estruturas são
responsáveis por possibilitar condições concretas de se analisar como e se pode o sentido
servir para estabelecer e sustentar relações de dominação.
1.2 Modos de operação da ideologia
Thompson defende a ideia de que há inúmeros modos de estabelecer relações de
dominação, dentre os quais elenca alguns que seriam os modos gerais. Contudo, uma das
características mais evidentes na obra de Thompson e que ele toma para a sua teoria é a
preocupação em relativizar as conceituações, evitando o prescritismo e o doutrinamento. A
ressalva relacionada especificamente aos Modos de Operação da Ideologia que ele faz é no
seguinte sentido: 1) não se pode identificar os modos (cinco considerados como gerais) como
sendo os únicos pelos quais a ideologia opera: sua intenção é exemplificar os tipicamente
associados apenas; 2) nem sempre tais estratégias ou modos podem ser consideradas
intrinsecamente ideológicos: o serão se estiverem servindo para estabelecer relações de
dominação. O trabalho de Silva (2008b) auxilia esta pesquisa na breve apresentação de cada
um dos modos e estratégias propostos por Thompson, por proporcionar “exemplos de uso de
estratégias ideológicas, retirados de estudos sobre discurso racista [com o objetivo de] retratar
um pouco da diversidade dos estudos, em termos de meios discursivos [...], localização
geográfica e grupos submetidos à discriminação” (SILVA, 2008b, p. 45). O Quadro 4 é
adaptação do autor (2008a, 2008b) sobre as proposições de Thompson (2002, p. 80-89).
O primeiro dos modos é a legitimação que se refere aos processos em que relações de
dominação são validadas como certas e coerentes. E as estratégias mais recorrentes são:
35
a) racionalização: “[s]upõe o uso de argumentos para explicar, justificar ou defender
comportamentos, relações ou instituições sociais” (SILVA, 2008b, p. 46). Como exemplo o
autor apresenta uma situação ocorrida na Suíça no final do século XIX com imigrantes
italianos que eram explorados. “Um economista suíço atribuiu essa diferença salarial ao
grande afluxo de imigrantes nos anos anteriores a 1899. [...] O argumento racional funcionou
como justificativa para a desigualdade” (SILVA, 2008b, p. 46).
Modos gerais Estratégias típicas de construção simbólica
Legitimação:
formas
simbólicas são
representadas como justas e
dignas de apoio, isto é,
como legítimas.
Racionalização:
cadeia de argumentos racionais que justificam as
relações, tendo como objetivo a obtenção de apoio e persuasão.
Universalização: interesses de alguns são apresentados como
interesses de todos.
Narrativização: o presente é tratado como parte de tradições eternas,
que são narradas com o objetivo de mantê-las.
Dissimulação:
formas
simbólicas são
representadas de modos que
deviam a atenção.
Ocultação, negação ou
ofuscação de processos
sociais existentes.
Deslocamento:
transferência de sentidos, conotações positivas ou
negativas, de pessoa ou objeto a outro(a).
Eufemização: ações, instituições ou relações sociais são referidas de
forma a suavizar suas características de valoração mais positiva.
Tropo: uso figurativo das formas simbólicas.
- Sinédoque: tropo caracterizado pelo uso do todo pela parte, do plural pelo
singular, do gênero da espécie, ou vice-versa.
- Metonímia: tropo caracterizado pelo uso de atributo ou característica de
algo para designar a própria coisa.
- Metáfora: tropo que consiste na aplicação de termo ou frase a outro, de
âmbito semântico distinto.
Silêncio: ocultação ‘do processo social de desigualdade racial’
(SILVA, 2008a).
Unificação:
construção de
identidade coletiva,
independentemente das
diferenças individuais e
sociais.
Estardantização (Padronização):
as formas simbólicas são adaptadas
a determinados padrões, que são reconhecidos, partilhados e aceitos.
Simbolização da unidade: mbolos da unidade, de identidade e
identificação coletivos são criados e difundidos.
Fragmentação:
segmentação de grupos ou
indivíduos que possam
significar ameaça aos
grupos detentores do poder.
D
iferenciação:
ênfase em características de grupos ou indivíduos de
forma a dificultar sua participação no exercício do poder.
Expurgo do outro: construção social de inimigo, a que são atribuídos
características negativas, ao qual as pessoas devem resistir.
Estigmatização: ‘a desapropriação de indivíduo(s) ou grupo(s) do
exercício de sua humanidade pela valorização de uma deficiência ou
corrupção de alguma condição física, moral ou social’ (Andrade, 2004,
p. 107-108).
Reificação:
processos são
retratados como coisas.
Situações históricas e
transitórias são tratadas
como atemporais,
permanentes e naturais.
Naturalização:
fenômeno social ou histórico é tomado como natural e
inevitável.
Eternalização: fenômeno social ou histórico é tomado como
permanente, recorrente ou imutável.
Nominalização: transformação de partes de frases ou ações descritas
em nomes, ou substantivos, atribuindo-lhes sentido de coisa.
Passifização
18
: uso da voz passiva que leva à retirada das ações.
QUADRO 4 – MODOS DE OPERAÇÃO DA IDEOLOGIA
FONTE: SILVA (2008a, p. 2-9; 2008b, p. 44)
18
Na obra de Thompson o termo utilizado é “Passivação”.
36
b) universalização: firmamento de acordos baseados em falácias que denotam uma
falsa ideia de serem de interesse de todas as pessoas, mas reflete o interesse de um grupo.
Como exemplo, Silva (2008b) indica referências de pesquisas que analisam as políticas de
controle migratório na Europa, cujo discurso é veiculado de modo a convencer a população de
que é o mais adequado para todas/os.
c) narrativização: reificações discursivas por meio de narrações do passado que
buscam evidenciar o presente como “parte de uma tradição eterna e aceitável” (THOMPSON,
2002, p. 83). Um dos exemplos apontados é o do “mito da democracia racial
19
” no Brasil.
O segundo modo é a dissimulação em que a ocultação opera no sentido de desviar ou
atenuar elementos que indiquem um processo de dominação. E as estratégias apontadas são:
a) deslocamento: transferência de características positivas ou negativas de um grupo
para o outro. Silva apresenta como exemplo, um fato evidenciado cotidianamente nas relações
interpessoais no Brasil: pesquisas que apontam em falas de entrevistados brancos que a causa
“das desigualdades entre brancos e negros, no Brasil, refere-se ao ‘sentimento de
inferioridade’ do próprio negro” (SILVA, 2008b, p. 47, destaques do autor).
b) eufemização: termos ou expressões que denotariam dominação sendo substituídos
por outros de caráter semântico mais ameno. Expressões como “restauração da ordem” ao
invés de “supressão violenta do protesto”, “desenvolvimento paralelo” para substituir
“desigualdades institucionalizadas, baseadas em divisões étnicas” são alguns dos exemplos
apresentados por Thompson (2002, p. 84).
c) tropo: uso figurativo da linguagem. Este modo subdivide-se em:
c.1) sinédoque: utilização da parte buscando significar um todo ou vice-versa. “Essa
técnica pode dissimular relações sociais, através da confusão ou da inversão das relações entre
coletividades e suas partes [...], por exemplo, ‘os ingleses’, ‘os americanos’ [...] passam a ser
usados para se referir [...] a grupos dentro de um estado-nação” (THOMPSON, 2002, p. 85).
c.2) metonímia: a associação a alguma característica de outro grupo sem que seja
explicitado. Como exemplo, Thompson apresenta um processo em que a metonímia nem
sempre pode ser considerada como uma estratégia de operação da ideologia
20
: “[...] na
19
À frente, uma discussão mais aprofundada sobre racismo retomará este conceito.
20
E ele próprio afirma isso: “[...] não quero sugerir [...] que o uso figurativo da linguagem é sempre, ou mesmo
predominantemente, ideológico. Quero somente afirmar que o uso figurativo da linguagem é uma característica
bastante comum do discurso cotidiano, que é uma maneira eficaz de mobilizar o sentido no mundo sócio-
histórico, e que, em certos contextos, [...] pode estar envolto com poder, podendo servir para criar, sustentar e
reproduzir relações de dominação” (THOMPSON, 2002, p. 86-87).
37
propaganda, onde o sentido é, muitas vezes, mobilizado de maneiras sutis e sub-reptícias, sem
tornar explícitas as conexões entre os objetos referidos ou supostos pelo anúncio”
(THOMPSON, 2002, p. 85).
c.3) metáfora: combinação de termos semânticos diferentes, o que gera um efeito
figurativo no sentido de criar uma nova significação e, na concepção de Thompson,
duradoura. Silva (2008b) aponta uma pesquisa em jornais brasileiros que utiliza metáforas
negativas atribuídas aos termos negro/preto/escuro que eram associados à representação de
pessoas negras, em exemplos que se multiplicam, “negão é o teu passado”; “samba do crioulo
doido”, etc.
d) silêncio: esta estratégia é proposta por Silva (2008a) por entender que o silêncio
atua na manutenção de hierarquizações. Voltado especificamente para a interpretação de
discursos racistas brasileiros, o autor argumenta “que para a análise do discurso racista no
Brasil, é importante estar atento ao silêncio, que é atuante na hierarquização entre brancos e
negros (como entre brancos e indígenas)” (SILVA, 2008a, p. 2). As categorias estabelecidas
como elementos a serem considerados na análise discursiva racializante são:
d.1) O silêncio sobre a branquidade que atua para estabelecer o branco como norma:
“é que a estratégia ideológica do silêncio é particularmente atuante no estabelecimento do
branco como norma de humanidade” (SILVA, 2008a, p. 3). Segundo o autor, não se
encontram estudos e pesquisas que tematizam a condição do ser humano branco da mesma
maneira e intensidade que se aborda a respeito do negro. Isso evidencia marcas da
branquidade normativa.
d.2) A negação da existência plena ao negro: invisibilidade e sub-representação: uma
das manifestações do “racismo à brasileira” é, segundo Silva (2008a), a invisibilidade da
população negra, principalmente nas produções midiáticas.
d.3) O silêncio sobre particularidades culturais no negro brasileiro: esta categoria
pode, de acordo com o autor, atuar de duas maneiras: a ocultação das características
peculiares à cultura e história da população negra ou a negação dos processos de
discriminação racial.
d.4) O silêncio como estratégia para ocultar desigualdades: “a reativação de discursos
que pregam a democracia racial no Brasil, como resposta a execução de políticas afirmativas
para negros, tentam reativar o uso desta forma de silêncio” (SILVA, 2008a, p. 9, destaques do
autor). Ou seja, discursos atuais que apregoam uma ideia de igualdade conquistada entre
negras/os e brancas/os, descartando a necessidade de ações específicas para a população negra
brasileira.
38
O terceiro modo de operação da ideologia seria, para Thompson, a unificação, que
pode ser sintetizada como a construção de uma identidade coletiva de caráter unificador e que
contemplaria todas as diferenças. A unificação se subdivide em:
a) padronização: adaptação de formas simbólicas para construir uma identidade de
grupo. Como exemplo, Thompson aponta a adoção de uma linguagem nacional, buscando
“unificar” todos os grupos e as variações linguísticas existentes em um país.
b) simbolização da unidade: mbolos que têm como objetivo representar uma
coletividade e assim unificar grupos. Nesse sentido, uma pesquisa italiana que analisa o
fascismo “apresenta os jovens ‘camisas negras’ como descendentes de um passado mítico
comum, que tem nos grupos de jovens paramilitares [...] a possibilidade de tornarem-se heróis
nacionais” (SILVA, 2008b, p. 49, destaques do autor).
Outro modo de operação da ideologia é a fragmentação, ou seja, segmentação de
grupos que representam perigo aos interesses dominantes. Tal modo tem como estratégias a:
a) diferenciação: destaque às diferenças e divisões dos grupos fazendo com que as
condições de acesso destes ao exercício do poder sejam anuladas.
b) expurgo do outro: construção de uma imagem negativa dos grupos excluídos por
meio de associação a representações do perigo e ameaça à ordem. “O expurgo do outro é
estratégia descrita em pesquisas [italianas, alemãs, austríacas e argentinas] diversas sobre a
condição dos imigrantes” (SILVA, 2008b, p. 49-50).
c) estigmatização: esta estratégia não é proposta pela obra de Thompson e, sim, por
Leandro F. Andrade (2004) que, segundo ele, trata-se de uma forma específica de expurgo do
outro. “Um indivíduo apresenta determinado atributo que o desvaloriza e, outro, com quem
mantém contato, irá percebê-lo estereotipadamente, isto é somente por meio do atributo
indesejável, sem possibilidade de perceber suas demais características” (SILVA, 2008b, p.
50). Um exemplo brasileiro refere à pesquisa de Guimarães (2002
21
apud SILVA, 2008b) que
analisa a estigmatização por meio de insultos raciais de pessoas negras registrados em queixas
criminais.
O quinto modo identificado por Thompson (2002) é a reificação, que se refere à
eliminação ou ofuscamento do caráter sócio-histórico dos fenômenos. Assim, as estratégias
mais comuns são:
a) naturalização: forma de referência a processos sociais como sendo naturais. Um
dos exemplos apontados por Silva (2008b) refere-se à perspectiva de Nina Rodrigues que
21
GUIMARÃES, Antonio Sergio Alfredo. Classes, raças e democracia. São Paulo: Fundação de Apoio à
Universidade de São Paulo. ed. 34, 2002.
39
associou em sua obra “[a]s relações familiares dos negros [...] como ‘naturalmente’ precárias,
promíscuas, tendentes à ilegalidade” (p. 51).
b) eternalização: tratamento de fenômenos sócio-históricos como sendo imutáveis e
permanentes. É o caso, por exemplo, da imagem do Islã representada nos livros didáticos
italianos, associando-o ao atrasado e ao tacanho (SILVA, 2008b).
c) nominalização: tem vinculação com a reificação por estar relacionada ao uso de
recursos gramaticais e sintáticos: “consiste em atribuição do sentido de coisa a processos
sociais, transformando descrições de ações e dos participantes nelas envolvidos em nomes”
(SILVA, 2008b, p. 51). Como exemplo o autor indica a seguinte circunstância: “[...] a frase
‘A Coroa Portuguesa decidiu aumentar o tráfico de escravos para o Brasil’ é substituída por
‘Aumento do tráfico de escravos’, como forma de amenizar a responsabilidade dos dirigentes
portugueses” (SILVA, 2008b, p. 51, destaques do autor).
d) passivização: também relacionada ao uso de recursos gramaticais e sintáticos, é a
utilização da voz passiva com o intuito de também minimizar a responsabilidade por
determinadas ações. Thompson (2002, p. 88) fornece um exemplo bem evidente: “[...]como
quando dizemos que ‘o suspeito está sendo investigado’, ao invés de ‘os policiais estão
investigando o suspeito’”.
Com a indicação de tais estratégias, Thompson (2002) reitera a atenção que deve ser
dada às interpretações que indicarão se realmente estão inseridas em contextos que denotam
dominação:
[...] elas devem ser tomadas como orientações gerais que podem facilitar a
pesquisa de um tipo mais empírico ou histórico. Pois estratégias particulares
de construção simbólica ou tipos particulares de formas simbólicas não são
ideológicos em si mesmos: se o sentido gerado pelas estratégias simbólicas
ou difundido pelas formas simbólicas serve para estabelecer ou sustentar
relações de dominação, é uma questão que deve ser respondida somente pelo
exame dos contextos específicos dentro dos quais as formas simbólicas são
produzidas e recebidas, somente através do exame dos mecanismos
específicos através dos quais elas são transmitidas dos produtores para os
receptores, e somente através do exame de sentido que essas formas
simbólicas possuem para os sujeitos que as produzem e as recebem
(THOMPSON, 2002, p. 89).
Esse é, portanto, o grande desafio de uma pesquisa que se utiliza da perspectiva de
Thompson para interpretação da ideologia: verificar se os contextos onde situações
identificadas como modos de operação da ideologia realmente o são, ou se não se tratam de
formas simbólicas existentes nas relações sociais. Para tanto, aliado ao quadro desenvolvido
por Thompson (2002) e apresentado por Silva (2008a, 2008b), o método de (re)interpretação
40
da ideologia a Hermenêutica da Profundidade – possibilita condições seguras de realizar tal
trabalho.
1.3 A Hermenêutica da Profundidade
Thompson fundamenta sua proposição de um marco referencial diferente dos
propostos anteriormente no que se refere ao estudo da ideologia, apoiando-se em uma tradição
clássica. Tal tradição origina-se do termo hermenêutica, construído na Grécia. As
justificativas apontadas para tal base de pensamento são:
1) Thompson considera que utilizando a hermenêutica, consegue desenvolver um
método que difere de outros por propor uma pesquisa sócio-histórica, que não se trata “apenas
de uma concatenação de objetos e acontecimentos que estão ali para serem observados e
explicados como é feito nas ciências naturais
22
” (THOMPSON, 2002, p. 32). Para ele,
o objeto-domínio da pesquisa sócio-histórica é um campo pré-interpretado
em que os processos de compreensão e interpretação se o como uma parte
rotineira da vida cotidiana. O caráter pré-interpretado do mundo sócio-
histórico é uma característica constitutiva que não tem paralelo nas ciências
naturais. Na consecução dessa pesquisa sócio-histórica, procuramos
compreender e explicar uma série de fenômenos que são, de algum modo, e
até certo ponto, compreendidos pelas pessoas que fazem parte do mundo
sócio-histórico; estamos procurando, em poucas palavras, reinterpretar um
domínio pré-interpretado (THOMPSON, 2002, p. 33).
2) Em um nível mais concreto, sua opção pelo desenvolvimento de um “referencial
metodológico de hermenêutica da profundidade” tem a ver com a capacidade de abrangência
que a hermenêutica possui em comparação com outros métodos. Segundo o autor, “[...]
métodos particulares de análise podem iluminar alguns aspectos do fenômeno à custa de
outros, que sua força analítica pode estar baseada em limites estritos, e que esses métodos
particulares podem ser melhor analisados como estágios parciais dentro de um enfoque
metodológico mais abrangente” (THOMPSON, 2002, p. 33).
22
Sobre isso, a preocupação dele é a seguinte: “[...] nas ciências sociais, como em outras disciplinas relacionadas
com a análise das formas simbólicas, a herança do positivismo do século XIX é forte. Existe uma tentação
constante de tratar fenômenos sociais em geral, e formas simbólicas em particular, como se elas fossem objetos
naturais, passíveis de vários tipos de análise formal, estatística e objetiva. Minha argumentação aqui não é que
esta tentação é completamente equivocada [...]. Ao invés, minha argumentação [...] é que embora vários tipos de
análise formal, estatística e objetiva sejam perfeitamente apropriados [...] esses tipos de análise se constituem, na
melhor das hipóteses, num enfoque parcial ao estudo [...] porque, como nos lembra a tradição da hermenêutica,
muitos fenômenos sociais são formas simbólicas [e estas] embora possam ser analisadas pormenorizadamente
por métodos formais ou objetivos, inevitavelmente apresentam problemas qualitativamente distintos de
compreensão e interpretação” (THOMPSON, 2002, p. 357-358, destaques do autor).
41
Essa perspectiva apóia-se no trabalho de Paul Ricoeur, entre outros, os quais
desenvolvem a hermenêutica da profundidade como possibilidade de construir um referencial
metodológico que abrange diferentes tipos de análise que se amparam de modo recíproco.
Isso elimina uma interpretação única; ao contrário, propõe uma reinterpretação de fenômenos
significativos. Contudo, discordando em alguns aspectos a respeito do conceito atribuído ao
termo historicamente (como indica o Quadro 3), Thompson elabora uma Hermenêutica da
Profundidade, responsável pela condução da análise cultural, análise esta que o autor
classifica como “o estudo da construção significativa e da contextualização social das formas
simbólicas” (THOMPSON, 2002, p. 363), além de se referir, também, à análise da ideologia.
Para construir este arcabouço metodológico, Thompson parte de algumas premissas
que são essenciais: o objetivo de investigação da HP é um campo pré-interpretado, ou seja,a
hermenêutica da vida cotidiana é um ponto de partida primordial e inevitável do enfoque da
HP” (THOMPSON, 2002, p. 363, destaques do autor); e, principalmente para o enfoque desta
pesquisa,
[a] HP deve se basear, o quanto possível, sobre uma elucidação das maneiras
como as formas simbólicas são interpretadas e compreendidas pelas pessoas
que as produzem e as recebem no decurso de suas vidas quotidianas. Este
momento etnográfico é um estágio preliminar indispensável ao enfoque da
HP. Através de entrevistas, observação participante e outros tipos de
pesquisa etnográfica, podemos reconstruir as maneiras como as formas
simbólicas são interpretadas e compreendidas nos vários contextos da vida
social. É evidente que essa reconstrução é, ela própria, um processo
interpretativo; é uma interpretação do entendimento quotidiano ou, como
denominarei, uma interpretação da doxa, uma interpretação das opiniões,
crenças e compreensões que são sustentadas e partilhadas pelas pessoas que
constituem o mundo social (THOMPSON, 2002, p. 363-364, destaques do
autor).
Mas, como o próprio autor ressalta, a interpretação da doxa, isto é, o contexto da vida
cotidiana, “é um ponto de partida indispensável da análise, mas não é o fim da história”
(THOMPSON, 2002, p. 364). É preciso ir além deste nível de análise “para tomar em conta
outros aspectos das formas simbólicas [...] [pois estas] são construções significativas que são
interpretadas e compreendidas pelas pessoas que as produzem e recebem, mas elas são
também construções que são estruturadas de maneiras definidas e que estão inseridas em
condições sociais específicas” (THOMPSON, 2002, p. 364-365). E, para tanto, Thompson
desenvolve um tipo especial de investigação da hermenêutica que compreende três fases,
como se evidencia no esquema a seguir:
42
Hermenêutica da vida Interpretação da Doxa
Vida cotidiana
Situações espaço-temporais
Campos de interação
1) Análise Instituições sociais
sócio-histórica Estrutura social
Meios técnicos de transmissão
Referencial Análise semiótica
Metodológico da 2) Análise formal Análise da conversação
Hermenêutica da ou discursiva Análise sintática
Profundidade Análise narrativa
Análise argumentativa
Análise de conteúdo
3) Interpretação/
Re-interpretação
FIGURA 1 – FORMAS DE INVESTIGAÇÃO HERMENÊUTICA
FONTE: THOMPSON (2002, p. 365)
A primeira delas trata-se da análise sócio-histórica: interessa-se pelas “condições
sociais e históricas da produção, circulação e recepção das formas simbólicas” (THOMPSON,
2002, p. 34). Este seria, portanto, o ponto de partida (a interpretação da doxa) e responsável
por fornecer os primeiros dados de análise das formas simbólicas no intuito de verificar se
relações assimétricas na distribuição de poder. Neste aspecto, o autor faz uma importante
ressalva: “[e]ssas fases devem ser vistas não tanto como estágios separados de um método
seqüencial, mas antes como dimensões analiticamente distintas de um processo interpretativo
complexo” (THOMPSON, 2002, p. 365). É nesse sentido que será possível identificar que a
presente pesquisa busca percorrer os três estágios sem a preocupação de estabelecer um elo
sequencial, mas sim, analisar sob diversas perspectivas determinadas formas simbólicas.
Neste trabalho, a análise sócio-histórica é tratada em especial no conteúdo dos
capítulos 3 e 4 sendo, respectivamente, o Programa Nacional de Biblioteca da Escola, o qual
é responsável não pela produção diretamente, mas pela escolha, aquisição e veiculação de
obras literárias infanto-juvenis para as escolas públicas brasileiras e Relações raciais na
escola, momento que analisa os avanços e limites existentes no espaço escolar no que se
refere ao combate do racismo.
Inserido na análise sócio-histórica, o autor destaca alguns elementos dos quais seriam
os percursos indicados para um efetivo trabalho desta fase. O primeiro deles tem a ver com as
situações espaço-temporais em que as formas simbólicas são produzidas (por meio de falas,
43
narrações, inscrições) e recebidas (vistas, ouvidas, lidas) “por pessoas situadas em locais
específicos, agindo e reagindo a tempos particulares e a locais especiais” (THOMPSON,
2002, p. 366). Trata-se, portanto, de um momento propício para uma análise de contexto.
Também propõe que campos de interação, que se trata de “[...] regras e
convenções, as posições das pessoas e o ‘capital’ a elas disponível” (SILVA, 2008b, p. 54,
destaques do autor). O terceiro elemento da análise sócio-histórica tem relação com as
instituições sociais, onde é possível reconstruir os conjuntos de regras, recursos e relações que
as constituem, já que se constituem assim. “[É] traçar seu desenvolvimento através do tempo
e examinar as práticas e atitudes das pessoas que agem a seu favor e dentro delas”
(THOMPSON, 2002, p. 367). Neste sentido, ao se discutir, como a exemplo desta pesquisa,
sobre os critérios de escolha de determinados livros para compor um acervo para as escolas
públicas brasileiras, realiza-se a análise sócio-histórica no nível das instituições sociais
responsáveis por este processo (que neste caso é o FNDE). E mais, quando se propõe uma
análise dos critérios de escolha e de quantidade de livros de um acervo que devem atender à
diversidade cultural e étnica de um país, está-se diante de um estudo relacionado a esse
terceiro elemento da análise sócio-histórica.
Por último, no que se refere à análise sócio-histórica, Thompson propõe o
direcionamento aos meios técnicos de construção de mensagens e de transmissão. Neste nível
os livros podem ser identificados, pois, a exemplo de outros meios de difusão,
[e]les estão sempre inseridos em contextos sócio-históricos particulares; eles
sempre supõem certas habilidades, regras e recursos para codificar e
decodificar mensagens, atributos esses que estão, eles próprios,
desigualmente distribuídos entre as pessoas; e eles são, muitas vezes,
desenvolvidos dentro de aparatos institucionais específicos, que podem estar
relacionados com a regulação, produção e circulação das formas simbólicas
(THOMPSON, 2002, p. 368).
O segundo nível diz respeito à análise formal ou discursiva, que “está interessada
primariamente com a organização interna das formas simbólicas, com suas características
estruturais, seus padrões e relações” (THOMPSON, 2002, p. 369). São diversas as
possibilidades de análise nesse nível. A primeira delas é análise semiótica que, para o autor, é
entendida como o estudo das relações entre os elementos que compõem a forma simbólica e
das relações entre esses elementos e os do sistema mais amplo do qual tal forma pode fazer
parte. Este nível será importante para esta pesquisa na análise das imagens produzidas pelas
crianças após a leitura de obras literárias que retratavam personagens negras em contextos
44
culturais africanos. A forma como representavam as princesas e príncipes poderá fornecer
indícios de que um processo tão intenso de assimetria na formação do imaginário infantil
no que se refere à diversidade humana, a ponto de locações com características africanas
serem descritas como europeias (carruagens, torres, vestidos longos, etc.). Para facilitar a
explicitação dos possíveis tipos de análise propostos por Thompson (2002), o quadro a seguir
fornecerá as informações necessárias:
Tipo de Análise Princípio metodológico
Análise da conversação Estudar as instâncias da interação linguística nas situações concretas em
que elas ocorrem e prestando-se atenção cuidadosa às maneiras como elas
estão organizadas, realçar algumas das características sistemáticas da
interação linguística.
Análise sintática Tem como foco a sintaxe que atua no discurso do dia-a-dia. Assim, pode
auxiliar a realçar algumas das maneiras como o significado é construído
dentro das formas cotidianas do discurso.
Análise narrativa Tal estudo pode-se identificar os efeitos narrativos específicos que operam
dentro de uma narrativa particular ou elucidar seu papel na narração da
história.
Análise argumentativa Tem como objetivo reconstruir e tornar explícito os padrões de inferência
que caracterizam o discurso, especialmente no que se refere ao estudo de
discursos abertamente políticos, por serem muitos apresentados na forma
de argumento, uma série de proposições ou asserções, tópicos ou temas,
encadeados conjuntamente de uma maneira mais ou menos coerente e
procurando, muitas vezes, com a ajuda de adornos retóricos, persuadir
uma audiência.
Análise de conteúdo
23
Um conjunto de procedimentos relacionados “à mensagem, objetiva e
sistematicamente, e algumas vezes, se possível, quantificável, a fim de
interpretá-la” (ROSEMBERG, 1981
24
, p. 70 apud SILVA, 2008b, p. 55).
QUADRO 5 – TIPOS DE ANÁLISE DISCURSIVA
FONTE: THOMPSON (2002, p. 371-375); SILVA (2008b, p. 55)
Este nível direciona-se à fala especificamente e é chamado de análise discursiva,
considerada pelo autor não como momentos específicos e direcionados, “mas antes casos
concretos da comunicação do dia-a-dia, uma conversação entre amigos, uma interação em
sala de aula, um editorial jornalístico, um programa de televisão” (THOMPSON, 2002, p.
370). É neste nível que se destacam a análise da conversação, a análise sintática, a análise
narrativa, a análise argumentativa, e a análise de conteúdo.
As diferentes formas de análise discursiva propostas pelo autor foram tratadas como
procedimentos de análise dos quais se pôde dispor nessa pesquisa por estarem submetidas ao
23
Assim como informa Silva (2008), não foi identificado na obra de Thompson o detalhamento da análise de
conteúdo. Por isso, utilizo aqui as considerações de Silva.
24
ROSEMBERG, Fúlvia. Da intimidade aos quiprocós: uma discussão em torno da análise de conteúdo.
Cadernos CERU. São Paulo, n. 16, p.69-80, 1981.
45
método da Hermenêutica da Profundidade. Sobretudo a análise de conversaçãopor se tratar
de análise de falas produzidas durante aulas de leitura – e da análise sintáticapor utilizar os
modos e estratégias de operação da ideologia que estão intimamente ligados com o discurso
(já que são produções discursivas) foram utilizadas no presente estudo.
A terceira e última fase, a interpretação/reinterpretação, é, segundo Thompson
embora distinta das demais, muito facilitada por elas, pois cabe à análise sócio-histórica e
discursiva “procurar desvelar os padrões e efeitos que constituem e que operam dentro uma
forma simbólica e discursiva” (THOMPSON, 2002, p. 375). a esta fase cabe o processo de
construção de um novo pensamento que reúne as análises produzidas nos dois âmbitos
anteriores. O autor critica pesquisas que não vão além da análise, pois sob sua perspectiva,
por mais rigorosos e sistemáticos que os métodos da análise formal ou discursiva possam
ser, eles não podem abolir a necessidade de uma construção criativa do significado, isto é, de
uma explicação interpretativa do que está representado ou do que é dito(THOMPSON,
2002, p. 375, destaques do autor). Ele ainda acrescenta que os riscos de se estabelecer
unicamente sobre o enfoque sócio-histórico ou discursivo pode levar a pesquisa à “falácia do
reducionismo” (relacionada à primeira análise) ou à “falácia do internalismo” (relacionada à
análise discursiva).
Outro elemento bastante relevante com relação a esta terceira fase diz respeito à
reinterpretação. Se, para Thompson, as formas simbólicas que são o objeto de interpretação
fazem parte de um campo pré-interpretado, o que acontece ao desenvolver a HP nada mais é
do que uma reinterpretação: “estamos projetando um significado possível que pode divergir
do significado construído pelos sujeitos que constituem o mundo sócio-histórico”
(THOMPSON, 2002, p. 376).
A interpretação da ideologia, proposta desta pesquisa, é considerada por Thompson
como uma forma específica de HP. É específica por produzir uma dimensão crítica: “[a]
interpretação da ideologia se apóia sobre cada uma das fases do enfoque da HP, mas ela toma
essas fases de uma maneira particular, com a finalidade de realçar as maneiras como o
significado serve para estabelecer e sustentar relações de dominação” (THOMPSON, 2002, p.
378). Assim, em cada uma das fases, o autor indica o que considera importante ser
identificado: 1) na análise sócio-histórica a interpretação da ideologia deve estar atenta às
relações de dominação que caracterizam as instituições sociais e os campos de interação; 2)
na análise formal ou discursiva e o emprego dos modos gerais de operação da ideologia
(QUADRO 5) podem indicar, também, que as estratégias utilizadas têm servido para sustentar
relações de dominação, seja por meio da narrativização, da eternalização, ou de outros. Por
46
meio deste procedimento, o estudo estará indo além de uma mera análise e propondo uma
reinterpretação, ou ainda, uma interpretação da ideologia. E esta, por sua vez, acaba por
desenvolver um papel de síntese por aliar as análises sócio-histórica e discursiva para mostrar
as relações de assimetria na distribuição de poder.
Pesquisas brasileiras no campo da educação dão mostras de que a interpretação da
ideologia sob a perspectiva de Thompson representa um campo amplo nos estudos críticos.
Três destas serão descritas brevemente a seguir.
A dissertação de mestrado de Sergio Luis do Nascimento (2009) utilizou a HP
desenvolvida por Thompson para um estudo sobre relações raciais em livros didáticos de
ensino religioso para o ensino fundamental. Fazendo uso dos três níveis sócio-histórico,
formal ou discursivo e interpretação e reinterpretação –, Nascimento (2009) analisou 20 livros
da referida disciplina das séries finais do ensino fundamental (distribuídos em três modelos de
ensino religioso: Confessional, Interconfessional e Fenomenológico), sendo que a amostra foi
composta por 229 unidades de leitura. Neste estudo, o pesquisador chegou à seguinte
conclusão:
Os personagens negros analisados, no modelo Confessional, foram
submetidos, principalmente, a uma estratégia ideológica de dissimulação
que ocultava, negava a existência social desse grupo étnico. Além disso,
observamos que nos selos publicados e classificados do modelo
Interconfessional, em seu conteúdo as formas simbólicas atuaram de forma a
naturalizar os personagens brancos como representantes da espécie e como
interlocutores em potencial dos textos. O modo de operação ideológica da
fragmentação foi identificado nos três modelos e o principal nas
publicações mais recentes como os que são classificados de
Fenomenológicos. Os livros desse modelo apresentaram, ao mesmo tempo,
rupturas e permanências nos discursos sobre os personagens negros e
brancos (NASCIMENTO, 2009, p. vii, destaques do autor).
Voltada para a literatura infanto-juvenil no contexto religioso católico, Célia Maria
Escanfella (2006), sob o enfoque da HP, analisou 30 livros do período entre 1976 a 2000
produzidos por editoras laicas e católicas. Diante das questões norteadoras levantadas por
Escanfella
25
, os resultados indicaram que:
25
As perguntas eram: “1) Estaria ocorrendo um processo de laicização da literatura infantil? 2) Estaria ocorrendo
uma reordenação ou diminuição do sagrado ou da magia na literatura infantil; 3) As editoras católicas estariam
processando as transformações observadas na sociedade e no universo acadêmico quanto à concepção de
infância, mediadas pelo debate em torno de uma nova concepção de socialização?(ESCANFELLA, 2006, p.
vi).
47
[Houve] uma tendência à laicização da literatura infantil, sugerida em
pesquisa anterior, e permitiu observar, no último período da amostra (de
1995 a 2000), uma mudança no cenário de editoras católicas que produzem
literatura infantil, com avanços nas concepções de infância e de socialização
em textos de algumas editoras, porém com manutenção de padrões
tradicionais em outras. Os resultados permitem afirmar que predomina
principalmente nos textos de editoras católicas uma visão utilitária, e, por
vezes, idealizada, com o objetivo de ensinar determinados valores como
bondade, fraternidade e obediência, ou transmitir valores cristãos, bem como
uma tendência mais intensa a uma representação assimétrica das relações de
gênero e raciais. Porém, na produção de ambas as categorias de editoras
católicas e laicas
observa-se um fenômeno similar: a utilização do universo
fantástico, com a ancoragem na produção literária para crianças de tradições
mágicas (ESCANFELLA, 2006, p. vi).
Por último, o estudo que mais auxiliou esta pesquisa é sobre racismo em livros
didáticos de língua portuguesa, de Paulo Vinicius B. da Silva (2005), que se utiliza dos
enfoques da HP para analisar 33 livros didáticos de série do ensino fundamental, com
amostra composta de 252 unidades de leitura, incluindo ainda análise de ilustrações, num total
de 2.142 personagens. Os resultados indicados por meio da interpretação da ideologia no
modelo da HP e dos modos de operação da ideologia são de que:
[...] a despeito de toda a movimentação no campo de produção dos livros
didáticos, de o tema racismo nos livros didáticos ter participado da agenda
das políticas educacionais brasileiras, das avaliações promovidas pelo
Ministério da Educação/MEC, o livro didático continuou produzindo e
veiculando discurso racista. Os livros didáticos de Língua Portuguesa
apresentaram modificações após o início do ciclo de avaliações do Programa
Nacional do Livro Didático/PNLD, mas continuaram produzindo e
veiculando discurso que universaliza a condição do branco, tratando-o como
representante da espécie, naturaliza a dominação branca e estabelece os
personagens brancos como interlocutores potenciais dos textos, estigmatiza o
personagem negro, situando-o como out-group, mantendo-o circunscrito a
determinadas temáticas e espaços sociais e reafirma tendência a passifização
dos personagens negros, mantidos como dependentes, sem acesso à fala e
com menor possibilidade de ação nas tramas. Na conclusão, refletimos sobre
as limitadas possibilidades de mudanças no discurso veiculado pelos livros
didáticos de Língua Portuguesa, que amiúde reproduz discurso racista
produzido em outros meios, particularmente na literatura infanto-juvenil, na
literatura e na mídia escrita (SILVA, 2005, p. ii, destaques do autor).
É neste sentido, e amparada nos exemplos explicitados anteriormente de pesquisas
nacionais que abordam temas relacionados à educação e, em sua maioria, aliada aos estudos
sobre relações raciais, que esta pesquisa firma-se no propósito de estabelecer um estudo
crítico focado no conceito de ideologia desenvolvido por Thompson, tendo como suporte
metodológico a Hermenêutica da Profundidade e os Modos de Operação da Ideologia.
48
A citação a seguir é escolhida para sintetizar (embora que ainda de forma extensa)
qual a dimensão de importância e no que se constitui esta forma específica de Hermenêutica
da Profundidade. Segundo Thompson (2002), a interpretação da ideologia
[...] penetra, então, no domínio das afirmações e contra-afirmações, da
argumentação e contra-argumentação; não é apenas uma projeção de um
significado possível, mas uma intervenção potencial da vida social, isto é,
uma projeção que pode intervir nas próprias relações sociais que o objeto de
interpretação serve para sustentar. Interpretar uma forma simbólica como
ideologia é abrir a possibilidade à crítica, não apenas de outras interpretações
(inclusive as interpretações dos que constituem o mundo social), mas
também das relações de dominação em que esses sujeitos estão inseridos
(THOMPSON, 2002, p. 380).
Além de desenvolver a Hermenêutica da Profundidade como recurso adequado à
interpretação da ideologia, Thompson desenvolve uma maneira específica de análise dos
referenciais metodológicos da HP, o chamado Enfoque Tríplice, que será o próximo tópico
deste capítulo.
1.4 Enfoque Tríplice
Thompson propõe que, atrelado à Hermenêutica da Profundidade, sejam discutidos
aspectos específicos da produção e transmissão das formas simbólicas dentro do contexto de
comunicação de massa, pois considera duas importantes características desta comunicação: 1)
a produção das formas simbólicas é “feita para ouvintes que geralmente não estão fisicamente
presentes no local de produção e transmissão ou difusão” (THOMPSON, 2002, p. 392); 2)
pela grande demanda de produção de mensagens que atingem o “receptor”, a capacidade deste
de “intervir no processo comunicativo é, muitas vezes, limitado” (THOMPSON, 2002, p.
392).
É, portanto, considerando tais características que o autor constrói o que ele chama de
enfoque tríplice, responsável por analisar as formas simbólicas mediadas pelos meios de
comunicação de massa. Este enfoque constitui-se em:
1) Produção e transmissão ou difusão das formas simbólicas: por estar situado “dentro
de condições cio-históricas específicas e geralmente envolvem acordos institucionais
particulares” (THOMPSON, 2002, p. 392), tal enfoque pode, segundo o autor, ser analisado
mais adequadamente por meio da combinação de análise sócio-histórica e observação
participante (ou interpretação da doxa). Nesta dissertação, este enfoque será responsável por
49
analisar as principais características do Programa Nacional de Biblioteca da Escola e como
vem se dando a implementação da Lei 10.639/2003 no contexto escolar, por meio do qual
utilizará dados de pesquisas com objetivos aproximados e análise de documentos, buscando
verificar em que medida interesses institucionais estão sendo atendidos. Para Thompson
(2002, p. 393):
Através da análise sócio-histórica podemos procurar determinar, por
exemplo, as características das instituições dentro das quais elas são
transmitidas ou difundidas a receptores potenciais. Podemos examinar os
padrões de posse e controle dentro das instituições dos meios de
comunicação; as relações entre as instituições de comunicação e outras,
incluindo as organizações governamentais responsáveis pelo controle do
produto dos meios de comunicação; as técnicas e tecnologias empregadas na
produção e transmissão; o recrutamento do pessoal que trabalha na
comunicação; e os procedimentos rotineiros seguidos pelas pessoas que
desempenham suas atividades quotidianas, desde o escrever até o editar [...].
Podemos também adotar um enfoque mais interpretativo e buscar elucidar a
percepção das pessoas envolvidas na produção e transmissão de mensagens,
isto é, as maneiras como eles entendem o que estão fazendo, o que estão
produzindo e o que estão tentando conseguir.
2) Construção da mensagem dos meios de comunicação: este enfoque tem relação com
a análise formal ou discursiva proposta na HP. Tem como objetivo analisar a mensagem
comunicativa em suas nuances.
Por exemplo, ao analisar programas de televisão, podemos examinar a
justaposição de palavras e imagens; os ângulos, as cores, as seqüências das
imagens usadas; a sintaxe, o estilo e o tom da linguagem empregada; a
estrutura da narração ou o argumento; o quanto a estrutura narrativa ou
argumentativa lugar a subenredos, à digressão ou discordâncias; o uso de
efeitos especiais, como retrospectivas (flashbacks) e sobreposição de sons;
as maneiras como a tensão narrativa se combina com características como
humor, sexualidade e violência; as interlocuções entre programas que fazem
parte de uma seqüência finita ou aberta; e assim por diante (THOMPSON,
2002, p. 394).
Neste trabalho especificamente, este segundo enfoque recairá sobre a análise das
produções infanto-juvenis que apresentam personagens negras. O objetivo é, portanto, de
analisar elementos que apontem para a valorização ou depreciação deste grupo em função dos
preceitos de uma Educação para as Relações Étnico-Raciais.
Porém, concordando com Thompson, este segundo enfoque seria limitado se tomado
isoladamente dos outros enfoques. Portanto, embora legítimo, torna-se necessário a cadeia
tríplice de análise.
50
3) Recepção e apropriação das mensagens comunicativas: Thompson afirma que, da
mesma forma que o primeiro enfoque, este se pode utilizar da combinação da análise sócio-
histórica e de outras formas de análise formal ou discursiva.
Pela análise sócio-histórica nós podemos examinar as circunstâncias e as
condições socialmente diferenciadas em que as mensagens são recebidas por
pessoas particulares. As circunstâncias específicas seriam: em que contextos,
com que companhia, com que grau de atenção, consistência e comentários,
as pessoas lêem livros, assistem televisão, escutam música, etc.? As
condições socialmente diferenciadas seriam como a recepção das mensagens
varia de acordo com situações como classe, gênero, idade, etnia, situação
geográfica do ouvinte? Tal análise sócio-histórica pode ser conjugada com
uma forma mais interpretativa de investigação, em que se procura elucidar
como pessoas particulares, situadas em circunstâncias especificas, chegam a
entender as mensagens e como as incorporam em suas vidas quotidianas
(THOMPSON, 2002, p. 394).
Por meio deste enfoque será possível evidenciar se a ideologia se faz presente no
campo da recepção das mensagens ou se o encaminhamento e os debates suscitados pela
leitura podem estabelecer relações de dominação ou hierarquização entre o modelo cultural
eurocêntrico, bastante difundido no espaço escolar, e o africano (e/ou afro-brasileiro).
Sintetizando estes enfoques, o quadro a seguir apresenta, de forma visual, a
interrelação entre este modelo e a Hermenêutica da Profundidade.
Produção e
transmissão ou Análise sócio-histórica
difusão e interpretação da doxa
Enfoque Construção Análise formal Interpretação do
tríplice ou discursiva caráter ideológico
das mensagens
Recepção e Análise sócio-histórica
apropriação e interpretação da doxa
FIGURA 2 – DESENVOLVIMENTO METODOLÓGICO DO ENFOQUE TRÍPLICE
FONTE: THOMPSON (2002, p. 395)
Tal figura ilustra as possibilidades que o Enfoque Tríplice fornece aos níveis de
Hermenêutica da Profundidade com vistas à interpretação da ideologia presentes nas
mensagens comunicativas. A presença deste modelo tríplice de análise em todos os capítulos
51
desta dissertação será responsável por ampliar as possibilidades de interpretação da ideologia
desde a produção, difusão ou transmissão das formas simbólicas, perpassando pela construção
das mensagens comunicativas e a sua respectiva recepção e apropriação.
Num contexto de interpretação da ideologia racista, os modelos expressos por meio da
teoria de Thompson sobre ideologia e meios de comunicação de massa representa um subsídio
teórico relevante e adequado. As possibilidades fornecidas tanto pelos modos e estratégias de
operação da ideologia, quanto pela HP e o enfoque tríplice representam, para esta pesquisa o
caminho pertinente e seguro para a interpretação em um campo frágil, subjetivo e repleto de
armadilhas teóricas que são as relações raciais no Brasil.
Após esta explanação da teoria basilar desta dissertação, os capítulos seguintes buscam
evidenciar os dados e análises construídas acerca da proposta de interpretação da ideologia de
Thompson.
52
CAPÍTULO 2 – LITERATURA INFANTO-JUVENIL
Mas na verdade, o que se gostaria de ter é uma outra visão de
mundo, não apenas apregoada, mas também agida,
desbaratando, pelo menos ao nível simbólico, as relações
habituais de dominação e subordinação. No caso específico da
literatura infanto-juvenil, essa nova relação adulto/criança
deveria levar, simultaneamente, à eliminação da estrutura
didática e à busca de formas de expressão igualitárias.
Fúlvia Rosemberg
Este capítulo tem como objetivo discutir sobre a literatura infanto-juvenil brasileira e a
relação com esta pesquisa. A primeira parte apresenta informações sobre o percurso deste
gênero literário ao longo da história brasileira e as diversas funções que lhe foram atribuídas,
funções estas que muitas vezes distanciaram-se do modelo de literatura por fruição. Também
apresenta pesquisa sobre as influências de modelos didatizantes de obras em crianças leitoras,
além de discutir sobre a sua perspectiva adultocêntrica. Em seguida, a proposta é de
apresentar estudos que evidenciam o quanto a marca de uma literatura para crianças com um
olhar adulto impõe valores e normas para o estabelecimento de um modelo hegemônico de
sociedade, transmutando-se, portanto, em ideológica por excelência. E, para finalizar, propõe
uma revisão de literatura sobre pesquisas atuais que abordam a condição de personagens
negras nas tramas, o que auxiliará na compreensão dos elementos que compõem os discursos
produzidos na segunda escola pesquisada e as ilustrações elaboradas pelas crianças.
Tratar de literatura infanto-juvenil numa perspectiva crítica implica relacionar
elementos que a transformaram no que conhecemos e classificamos hoje como literatura para
um público leitor específico. Ainda mais porque este gênero vigente para nós atualmente trata,
na maioria dos estudos catalogados, de olhares sobre a história da literatura infanto-juvenil
ocidental. Seria inviável, neste texto, ousar discutir com a mesma propriedade teórica acerca
da produção literária de outra perspectiva que não esta.
Seguindo em frente rumo à história ocidental deste gênero literário, sendo as crianças
o público-alvo, aspectos muito particulares devem ser destacados antes de avançarmos ao
panorama atual da produção literária infanto-juvenil brasileira. As obras inicialmente
produzidas diziam respeito a grupos específicos de crianças: meninos (em sua grande
maioria), burgueses e brancos (tratando-se especialmente do Brasil). Segundo Marisa Lajolo e
Regina Zilberman (1984), que analisam a história desta literatura como um “itinerário longo,
cheio de idas e vindas” (p. 10), as primeiras obras publicadas na Europa remontam da
primeira metade do século XVIII. Tais publicações foram antecedidas de obras esporádicas
53
durante o classicismo francês (século XVII) que posteriormente foram classificadas como
literatura para crianças: Fábulas, de La Fontaine, As aventuras de Telêmaco, de Fénelon e os
Contos da Mamãe Gansa, de Charles Perrault (LAJOLO e ZILBERMAN, 1984).
De acordo com as autoras, a literatura infanto-juvenil surge num contexto de grandes
transformações. Ancorada na revolução industrial, que o modelo rural feudal lugar ao
urbano e ao progresso dos grandes centros por meio das indústrias que exigem mão-de-obra
em massa, a nova configuração de organização social e familiar passa a necessitar de recursos
que auxiliem no estabelecimento de valores e características caras à burguesia em ascensão. É
preciso, então, de instituições favoráveis à criação, manutenção e perpetuação destes valores.
Sendo assim, a família é a primeira grande instituição responsável pela organização social
privada:
A manutenção de um estereótipo familiar, que se estabiliza através da
divisão do trabalho entre seus membros (ao pai, cabendo a sustentação
econômica, e à mãe, a gerência da vida doméstica privada), converte-se na
finalidade existencial do indivíduo. Contudo, para legitimá-la, ainda foi
necessário promover, em primeiro lugar, o beneficiário maior desse esforço
conjunto: a criança. A preservação da infância impõe-se enquanto valor e
meta de vida [...] (LAJOLO e ZILBERMAN, 1984, p. 17).
Nessa estrutura, a criança passa a ter formas de tratamento específicas e distintas dos
momentos anteriores, diminuindo práticas de violência e exploração a que eram submetidas.
Porém, a mudança de olhar sobre esse grupo social faz com que outras características o
classifiquem de modo desfavorável, “pois ressaltam, em primeiro lugar, virtudes como a
fragilidade, a desproteção e a dependência” (LAJOLO e ZILBERMAN, 1984, p. 17). Nesse
sentido, a criança que obtém ganhos, paradoxalmente é expropriada de sua liberdade no
contexto familiar pois, para se enquadrar na sociedade que o como elemento produtivo
economicamente no futuro, é preciso que haja uma preparação e formação (no sentido
conotativo da palavra) para a vida cidadã. Assim, a escola firma-se como a grande instituição
de favorecimento à burguesia: “[...] postulados a fragilidade e o despreparo dos pequenos,
urgia equipá-los para o enfrentamento maduro do mundo” (LAJOLO e ZILBERMAN, 1984,
p. 17). Por consequência, diversos ramos de produção logística para esse público são criados:
brinquedos, ciências e livros.
A literatura infanto-juvenil surge com fins estritamente didatizantes, responsável por
impor regras morais e de convívio “adequado” em sociedade. A produção para e não entre
crianças (como afirma Fúlvia Rosemberg, 1985) é feita sob a perspectiva do que o adulto
54
deseja que a criança veja. A partir daí, pode-se inferir, inclusive, que a transposição de
estereótipos da vida real para a literatura (tema que será mais bem discutido a diante) tenha
este como um dos principais argumentos: o adulto produtor desta literatura idealiza o mundo
para a criança em que os seus pares são os representantes da espécie.
Outra característica destacada desde o início desta literatura é a sua estreita relação
com a produção mercadológica em série. Sendo elemento essencial na escola e passando cada
vez mais a compor o conjunto de objetos destinados à criança, o livro vai ganhando uma
representatividade econômica.
Assim como a literatura para adultos, a literatura infanto-juvenil brasileira busca
inspiração na produção europeia. Na realidade vai mais além do que simples inspiração.
Inicialmente são as traduções que ocupam o então tímido mercado livresco para crianças.
Obras como As aventuras pasmosas do Barão de Munkausen, em 1818, O canário, em 1856 e
Robison Crusoé, em 1885 (LAJOLO e ZILBERMAN, 1984) são alguns dos exemplos da
influência europeia que além de traduzirem-se como modelo para outras produções nacionais
trazem também características geográficas, climáticas, culturais, etc., diferentes das
brasileiras.
Paralelamente ao sucesso das primeiras obras, um movimento de intelectuais
brasileiros decide produzir para crianças brasileiras literatura genuinamente nacional. Não era
possível a um país que buscava a construção de uma imagem de nação moderna, permanecer
sem produção infanto-juvenil. À parte isso, “[t]ampouco os editores ficaram insensíveis ao
novo filão que se abria para seus negócios, inevitavelmente magros num país de tantos
analfabetos. Começaram a investir no setor infantil e escolar” (LAJOLO e ZILBERMAN,
1984, p. 28). Programas de nacionalização do acervo literário europeu (que era traduzido
grande parte em português de Portugal, gerando dificuldade de leitura pela diferença
vocabular) foram desenvolvidos na tentativa de se produzirem adaptações adequadas às
crianças brasileiras.
Outro aspecto destacado pelas autoras é a ênfase no patriotismo como enredo para as
obras. Diversas produções brasileiras promoviam, além dos estereótipos de criança (ou como
sendo virtuosa e obediente ou como cruel), a explícita valorização nacional como forma de
ensinamento moral das histórias. As autoras ainda acrescentam: “[a]lém de estereotipada, essa
imagem [da criança] é anacrônica em relação ao que a psicologia da época afirmava a respeito
da criança” (LAJOLO e ZILBERMAN, 1984, p. 17).
55
Nesse sentido, enquanto a literatura infantil buscava se desvencilhar das armadilhas
das traduções descontextualizadas de obras europeias, caía em outras ao propor uma
literatura extremamente didatizante e patriótica
26
.
Tais características foram responsáveis por relegar a literatura infanto-juvenil a um
patamar inferior ao da literatura para adultos. Sendo alvo de críticos da teoria literária, por
vezes sua qualidade como obra de arte foi colocada em xeque, embora o tenha afetado sua
disseminação (LAJOLO e ZILBERMAN, 1984).
Passadas as turbulências de início do século, a partir da década de 1920, e muito por
conta do Modernismo, a literatura infanto-juvenil passa a ter nova configuração. Monteiro
Lobato firma-se como escritor para crianças, e passa a investir em novas editoras. Outros
escritores e escritoras surgem ou passam a produzir também neste gênero, dentre os quais
alguns têm suas obras reeditadas e amplamente difundidas nas escolas, seja por meio dos
livros didáticos seja por distribuição feita por programas nacionais de incentivo à leitura
27
.
João Luís T. C. Ceccantini (2004), em seu artigo Perspectivas de pesquisa em
literatura infanto-juvenil, considera que a empreitada de se pesquisar literatura infanto-juvenil
insere-se num campo de “tensões”, por ser “resistente ao enquadramento em definições
precisas e à clara delimitação e descrição, situando-se numa espécie de limbo acadêmico, que
o transforma, por vezes, em propriedade de todos e, ao mesmo tempo, de ninguém” (p. 20). E
essa dificuldade acentua-se justamente pelo fato de a parte interessada, a criança, não ter
atuação efetiva na produção literária, “reproduzindo, no plano etário, um conflito de tipo
social: a oposição adulto X criança corresponde aos modelos opressor X oprimido e produtor
X consumidor, sendo que cabe à criança o papel passivo, situação que somente abandona na
adolescência, isto é, quando não mais absorve literatura infantil” (ZILBERMAN, 1987, p.
39).
Assim, diversas áreas Psicologia, Pedagogia, História, Teoria Literária, entre
outras
28
assumem o posto de apresentar as diretrizes de como é e o que é literatura infanto-
juvenil. Sobre isso, Peter Hunt
29
(1990, p. 1) afirma:
26
As principais obras da época com estas características são: Contos infantis, de Júlia Lopes de Almeida e
Adelina Lopes Vieira (1886), Pátria, de João Vieira de Almeida (1889), Por que me ufano de meu país, de
Afonso Celso (1901), Contos pátrios, de Olavo Bilac e Coelho Neto (1904), Histórias da nossa terra, de Júlia
Lopes de Almeida (1907) e Através do Brasil, de Olavo Bilac e Manuel Bonfim (1910) (apud LAJOLO e
ZILBERMAN, 1984, p. 34).
27
Destacam-se José Lins do Rego com as Histórias da velha Totônia (1936), Érico Veríssimo com As aventuras
do avião vermelho (1936), Graciliano Ramos com A terra dos meninos pelados (1939), Henriqueta Lisboa, com
O menino poeta (1943) (apud LAJOLO e ZILBERMAN, 1984, p. 47).
28
Ceccantini (2004, p. 22) destaca: “Se, num primeiro momento, o processo ocorre sobretudo entre o campo das
Letras e o da Educação, num momento posterior abrange outras áreas, como a Psicologia (nas suas muitas
56
Trata-se de um tipo de literatura cujas fronteiras são muito nebulosas; não
pode ser definido por características textuais, seja de estilo, seja de conteúdo,
e seu público principal, a ‘criança-leitora’, é igualmente escorregadio. Como
um outsider do universo acadêmico, não se encaixa nitidamente em
nenhuma das disciplinas estabelecidas e tem sido certamente esnobado por
algumas delas (apud CECCANTINI, 2004, p. 20, destaques do autor).
Dessa forma, a pesquisa acadêmica que propõe, como é o caso desta, inserir-se no
universo infanto-juvenil, buscando apreender, além de outros aspectos, as impressões de
leitura das crianças, pode ser considerada uma possibilidade de mudança de perspectiva, por
realocar este “público” que pode deixar de ter a conotação de mero receptor, ou “receptor
cativo” (ROSEMBERG, 1985, p. 30) – a agente da produção literária destinada a ele.
Sobre isto, o artigo Com a palavra o leitor infantil (2004), resultante da dissertação de
mestrado
30
de Diógenes Buenos Aires de Carvalho apresenta uma pesquisa com proposta de
transpor a difundida idéia de público infantil passivo: “[...] o público deixa de ter uma atitude
passiva para assumir a de interlocutor [...]” (p. 271). O objetivo era diagnosticar as marcas da
recepção do texto literário deixadas pelo pequeno leitor (CARVALHO, 2004, p. 272). A
pesquisa coletou narrativas de crianças de série do ensino fundamental a partir de atividade
de produção/reprodução de uma história que achavam mais interessante. O universo da
pesquisa abrangeu duas escolas de Teresina-PI, uma municipal que atende à classe social
“desfavorecida” (termo usado pelo autor) e outra particular, “voltada à classe social
favorecida” (CARVALHO, 2004, p. 272). A justificativa apresentada por Carvalho corrobora
parte das intenções desta pesquisa: evidenciar a posição da criança como interlocutora da
leitura de seus textos já que, para ele, “[a] definição de um interlocutor infantil para a
‘criança-narradora’ fez-se presente como tentativa de amenizar o caráter assimétrico constante
na literatura infantil, em que o autor está numa posição de superioridade em relação ao seu
leitor” (CARVALHO, 2004, p. 273, destaques do autor).
Os resultados da pesquisa evidenciaram alguns aspectos que me fazem inferir sobre a
influência da ideologia adultocêntrica no imaginário infanto-juvenil. Sintetizei alguns dos
resultados, a seguir:
variantes Social, Cognitiva, Psicanálise etc.), as Ciências da Documentação e da Informação
(Biblioteconomia), a Antropologia, a História, a Sociologia ou a Semiótica, transformando a literatura infantil
num campo por essência interdisciplinar [...]”.
29
HUNT, Peter. (ed.). Children´s Literature: the Development of Criticism. London; New York: Routledge,
1990.
30
O título da dissertação é: As crianças contam as histórias: os horizontes dos leitores de diferentes classes
sociais (2000), defendida no Programa de Pós-Graduação em Letras da PUCRS.
57
- a incidência maior de “estórias” foi sobre contos de fadas ou populares;
- posições conservadoras, tendo em vista o modelo de sociedade explicitado nos textos
ser ainda o que se apresenta nos contos de fadas ou nas histórias que remontam a esse
modelo;
- escolha de personagens adultas em detrimento das infantis com base no modelo
social vigente;
- a concepção de família e matrimônio são regidos pelos modelos consagrados,
embora haja manifestações de fragmentação destas instituições no estrato social
“desfavorecido”;
- reprodução de uma forma de organização do mundo em que predomina uma visão
fantasiosa da realidade;
- a estratificação social é apresentada como natural pelos textos.
(Adaptado de Carvalho, 2004, p. 283).
Primeiro, inferindo sobre a ideologia adulta, é possível reconhecer as marcas que a
infantilização (como sinônimo de inferioridade) incutiram na formação das crianças: a escolha
de personagens adultas em detrimento de personagens infantis demonstra que uma
idealização do mundo adulto, desencadeando o desejo de ser também deste grupo. E,
especificamente sobre a ideologia hegemônica, verifica-se que o modelo de sociedade atual
pautado em desigualdades torna-se “naturalizado” para as crianças, sobretudo para as pobres:
“[a] resposta dada pelos alunos do grupo social desprivilegiado revela que eles sabem que o
mundo valorizado é o que a escola propaga, logo, as imagens reproduzidas nas histórias são
aquelas que refletem a vida de acordo com o modelo sedimentado nas histórias infantis, as
quais são escolhidas pela escola” (CARVALHO, 2004, p. 284).
Diante de tais considerações, torna-se essencial uma abordagem de forma mais
profunda acerca da relação entre ideologia e a produção literária infanto-juvenil. A seguir a
proposta é de apresentar elementos que evidenciam e justificam tal necessidade.
2.1 Literatura infanto-juvenil e ideologia
Torna-se inevitável discutir os aportes teóricos que subsidiam a literatura infanto-
juvenil ocidental sem abordar possíveis marcas da ideologia subjacente a estas produções
literárias. Considerando o que foi apresentado sobre a passividade em que o público leitor
infantil era (e por vezes ainda é) caracterizado, é preciso desvelar os mecanismos que
58
estabeleceram e mantiveram essa passividade ao longo da história da literatura infanto-
juvenil.
Para iniciar esta abordagem, a obra A literatura infantil na escola, de Regina
Zilberman (1987), aponta para duas grandes questões a serem encaradas ao se tratar de
ideologia na literatura infanto-juvenil. Ao apresentar o contexto histórico do surgimento deste
gênero literário, a autora afirma:
A infância corporifica, a partir de então, dois sonhos do adulto.
Primeiramente, encarna o ideal da permanência do primitivo, pois a criança é
o bom selvagem, cuja naturalidade é preciso conservar enquanto o ser
humano atravessa o período infantil. A conseqüência é sua marginalização
em relação ao setor da produção, porque exerce uma atividade inútil do
ponto de vista econômico (não traz dinheiro para dentro de casa) e, até
mesmo, contraproducente (apenas consome). Em segundo lugar, possibilita a
expansão do desejo de superioridade por parte do adulto, que mantém sobre
os pequenos um jugo inquestionável, que cresce à medida em que esses o
isolados do processo de produção. Enfim, este afastamento se legitima pela
alegação a noções previamente estabelecidas, relativas à índole frágil e
dependente da criança, desmentindo-se o fato de que essa foi tornada
incapacitada para a ação devido às circunstâncias ideológicas com que a
infância é manipulada (p. 16).
Ambos os aspectos correspondem às inferências feitas anteriormente sobre os
resultados da pesquisa de Carvalho (2004): a criança é culturalmente inferiorizada por uma
ideologia adultocêntrica. E mais, esta ideologia está intimamente ligada à produção literária
infanto-juvenil que, embora pesquisas mais recentes apontem para mudanças
(CECCANTINI, 2004; TURCHI, 2004), o que se verifica “extraempiricamente” e o que foi
constatado por Rosemberg (1985) é que a qualidade, tanto do material livro (encadernação,
tipo de papel, etc.) quanto literária, é inferior à produção para adultos. Observa-se tal situação
ainda hoje, por exemplo, nas coleções de livros infantis com ampla difusão nas escolas de
séries iniciais da educação básica e na educação infantil, cujas adaptações de contos clássicos
e/ou coleções educativas do tipo “virtudes”, “higiene pessoal”, “animais da fazenda”, entre
outras, apresentam, além de uma qualidade material ruim, edições sem revisão textual, além
de enredos pobres. Inclusive, no estudo exploratório desta pesquisa foi possível identificar
este perfil de “literatura infanto-juvenil”.
Mas ainda sobre a ideologia, considerações precisam ser feitas. Para tanto, arrolarei
diversas perspectivas e conceitos utilizados por pesquisadoras da área de literatura infanto-
juvenil. A primeira delas é Regina Zilberman (1987) que considera a ideologia como “as
noções comuns em circulação num determinado momento histórico” (p. 68). Buscando no
59
quadro de “classificações de algumas concepções seletas de ideologia” de Thompson (1990,
p. 74), é possível verificar que tal definição de Zilberman (1987) equipara-se ao que o autor
chama de concepção neutra da ideologia (THOMPSON, 2002, p. 14) por, nesta concepção,
“as ideologias poderem ser vistas como ‘sistemas de pensamento’, sistemas de crenças’, ou
‘sistemas simbólicos’, que se referem à ação social e à prática política” (p. 14, destaques do
autor).
Embora a perspectiva de ideologia dessa obra difira da abordagem de ideologia nesta
pesquisa, que Thompson considera que estudar ideologia é estudar as maneiras como o
sentido serve para estabelecer e sustentar relações de dominação(THOMPSON, 2002, p.
76, destaques do autor), sua contribuição teórica é incorporada neste trabalho. Em uma das
afirmações mais contundentes acerca do caráter ideológico do texto infanto-juvenil,
Zilberman (1987, p. 20) afirma:
[...] também a obra literária pode reproduzir o mundo adulto: seja através da
atuação de um narrador que bloqueia ou censura a ação de seus personagens
infantis; seja através da veiculação de conceitos e padrões comportamentais
que estejam em consonância com os valores sociais prediletos; seja pela
utilização de uma norma lingüística ainda não atingida por seu leitor, devido
à sua falta de experiência mais complexa na manipulação com a linguagem.
Assim sendo, os fatores estruturais de um texto de ficção narrador, visão
de mundo, linguagem podem se converter no meio por intermédio do qual
o adulto intervém na realidade imaginária, usando-a para incutir sua
ideologia.
Os elementos apontados pela autora devem ser levados em conta quando se busca
explicitar a ideologia presente no texto. Assim também, a forma como a escola faz uso do
livro literário contribui para a intensificação de aspectos ideológicos, pois
[...] participa do processo de manipulação da criança, conduzindo-a ao
acatamento da norma vigente, que é também a da classe dominante, a
burguesia [...]. A literatura infantil, por sua vez, é outro dos instrumentos que
tem servido à multiplicação da norma em vigor. Transmitindo, via de regra,
um ensinamento conforme a visão adulta de mundo, ela se compromete com
padrões que estão em desacordo com os interesses do jovem (ZILBERMAN,
1987, p. 20).
Embora com estes argumentos a autora pareça estar enveredando para a proposição de
erradicação da literatura na escola, ela conclui este assunto afirmando que assumir tal postura
“representa tão-somente abandonar a criança à sua própria sorte, após tê-la feita adotar a
imagem de sua impotência e incapacidade. [...] Além disso, enquanto instituições, a escola e a
60
literatura podem provar sua utilidade quando se tornarem o espaço para a criança refletir
sobre sua condição pessoal” (ZILBERMAN, 1987, p. 21).
Inferindo-se sobre isso, é refletindo acerca de sua condição pessoal que a criança pode,
por si própria, auxiliada por educadoras e educadores, desenvolver mecanismos de
interpretação de ideologias que a relegaram a espaços menores da sociedade. E mais, sobre o
racismo especificamente, pode desvelar formas simbólicas que corroboram a manutenção de
hierarquizações, tal como apontado por Silva (2008a) em seu estudo sobre livros didáticos.
Nesse sentido, há quem poderá dizer: “Mas, se a criança, bem como os adultos, forem capazes
de desvelar todos os aspectos ideológicos subjacentes nas obras literárias, como ficará o
caráter de fruição e de apreciação do belo, presentes nestes livros?” Dentre várias, uma
resposta possível é a de que a literatura, assim como outras manifestações artísticas, servem
como suporte para a construção de identidades individuais e coletivas ou, nas palavras de
Nelly Novaes Coelho (2002, p. 15) “tem uma tarefa fundamental a cumprir nesta sociedade
em transformação: a de servir como agente de formação[...]”. Sendo assim, sem ser
considerado um processo anacrônico, desvelar perpetuações discriminatórias com o intuito de
ressignificar conceitos sobre um grupo humano, deve ser tarefa de profissionais de educação
conscientes de sua função social, já que “não é atribuição do professor apenas ensinar a
criança a ler corretamente: se está a seu alcance a concretização e a expansão da
alfabetização, isto é, o domínio dos códigos que permitem a mecânica da leitura, é ainda
tarefa sua o emergir do deciframento e compreensão do texto, [...] auxiliando o aluno na
percepção dos temas e seres humanos que afloram em meio à trama ficcional”
(ZILBERMAN, 1987, p. 25).
O caráter eminentemente impulsionador que faz com que a leitura de obras literárias
amplie os horizontes de expectativas de leitoras e leitores é um elemento muito frisado por
Zilberman (1987) ao tratar da ideologia, sobretudo quando se refere à literatura verista
31
. Esta
vertente da literatura infanto-juvenil tem sua eclosão na segunda cada de 1970 e surge
como uma proposta de tratar de temas pouco abordados pela literatura infantil como
desigualdades racial, de gênero, social e relacionamentos humanos conflitantes. Até então, a
literatura “evitava o ‘lado podre’ da sociedade, seja em termos sociais (ausência de temas
relacionados ao sexo, às diferenças raciais ou conflitos de classe) ou existenciais, faltando a
apresentação de determinados problemas familiares, como a falta de dinheiro, dos pais, a
morte, os tóxicos” (ZILBERMAN, 1987, p. 80, destaques da autora). Mas o fato de tratar de
31
Conceito utilizado por Zilberman (1987, p. 87-88) para se referir a obras de perspectiva “realista na criação
dos textos, ao mostrar a vida ‘tal qual é’ ao leitor mirim”.
61
assuntos “polêmicos” não fez desta vertente uma inovação no que se refere ao combate de
estereótipos, reforçando-os, muitas vezes.
Para abordar este assunto, é relevante destacar uma pesquisa que tratou de
personagens negras em narrativas infanto-juvenis, de Maria Anória de Jesus Oliveira (2003).
Embora Oliveira (2003) não opte por uma perspectiva de análise de obras sob o enfoque
verista, é facilmente possível associar sua pesquisa com este momento literário: ela estuda
personagens negras de obras produzidas entre 1979 e 1989, época de auge desta literatura.
Sobre os resultados encontrados ela afirma:
Na análise das produções literárias publicadas entre 1979 e 1989, visou-se a
inovação no momento em que se atribui o papel principal aos personagens
negros, com o propósito de denunciar a pobreza, o preconceito racial, e em
enaltecer os seus traços físicos (em duas narrativas principalmente). Mas,
por outro lado, a maioria das produções acabou corroborando para reforçar
exatamente o que se tentou denunciar: o preconceito racial, uma vez que
alguns protagonistas negros são: 1) em grande maioria, associados à
pobreza, quando não à miserabilidade humana; 2) desamparados, sem
família, haja vista a carência do pai e/ou da mãe; 3) tecidos de maneira
inferiorizada e sujeitos à violência verbal e/ou física; 4) enaltecidos pelos
atributos físicos e/ou intelectuais, com vista [ao mito da] democracia racial
(OLIVEIRA, 2003, p. 10).
Torna-se surpreendente que um movimento literário surgido no bojo de revoluções
sociais no Brasil pela redemocratização e de discussões dos movimentos negros e de mulheres
tenha efeitos tão prejudiciais e contraditórios. Dentre as obras analisadas, Oliveira encontra
apenas uma “que, mesmo apresentando alguns problemas, um salto de qualidade [...] e
rompe com os estereótipos atribuídos aos personagens negros
32
” (OLIVEIRA, 2003, p. 10).
Retomando o conceito de Thompson (1990) sobre ideologia, que se refere “às
maneiras como o sentido (significado) serve, em circunstâncias particulares, para estabelecer
e sustentar relações de poder que são sistematicamente assimétricas” (p. 16), é possível propor
aproximações entre esta afirmação e os resultados encontrados na pesquisa de Oliveira
(2003): torna-se evidente que formas simbólicas foram responsáveis, em grande parte das
obras deste período, por reforçar estereótipos e reproduzir práticas discriminatórias.
Zilberman (1987, p. 80) observa que entre os riscos envolvidos numa produção
literária infanto-juvenil desta natureza estão as armadilhas dos clichês tão combatidos
justamente por esta vertente:
32
Trata-se da obra A cor da ternura, de Geni Guimarães.
62
[...] a introdução de uma temática apropriada à narrativa de denúncia social
na literatura infantil pode desencadear uma dificuldade em que submergem
algumas criações: a insistência numa visão adulta do problema, convertendo
o texto num manual de regras para a percepção da realidade circundante. Sob
este aspecto, ele pode cair na mesma armadilha do didatismo que aflige
grande parte da produção para infância.
Em outro exemplo de interpretação dos modos de operação da ideologia em obras
literárias, Viviane de Melo Resende e Viviane Ramalho (2006), apresentam uma análise
acerca do “discurso sobre a infância nas ruas na Literatura de Cordel” (RESENDE,
RAMALHO, 2006). Os textos de base da pesquisa são quatro folhetos de cordel sobre o tema
infância em situação de rua no Brasil
33
, mas no livro as autoras abordam apenas um destes
(Meninos de rua, de Mestre Azulão). Utilizando a proposta de Norman Fairclough, um dos
representantes da Análise de Discurso Crítica ADC e que tem sua teoria em grande parte
fundamentada no conceito de ideologia de Thompson, a conclusão é a de que:
[a] análise da articulação desse discurso na literatura de cordel serve para
evidenciar como a circulação massiva dessas representações do mundo
social, em variados tipos de texto e ambientes institucionais, é parte
importante da hegemonia. Isso porque o texto analisado evidentemente não
objetiva a legitimação da apartação, mas, pela internalização desse discurso,
acaba por fazê-lo (RESENDE e RAMALHO, 2006, p. 143, destaques meus).
Esta afirmação novamente retoma a discussão sobre a intencionalidade ou não na
produção de estereótipos na literatura infanto-juvenil. A presença de obras veristas em
espaços escolares atuais (OLIVEIRA, 2003), ou sobre o momento específico de sua produção
(conforme ZILBERMAN, 1987), bem como outros gêneros literários (RESENDE e
RAMALHO, 2006) presentes na escola e que são responsáveis pela manutenção de
ideologias, terão muito mais implicações negativas se, independentemente da
intencionalidade, forem utilizadas por educadoras e educadores de forma a não questioná-las.
É o não questionamento de textos escritos, assim como é o silenciamento diante de discursos,
que fazem com que ideologias atinjam seu objetivo principal que é estabelecer uma relação
assimétrica de poder (THOMPSON, 2002). Sobre isso é importante levar em conta que “a
decisão por mudança de rumo implica algumas opções por parte do professor, delimitadas
essas, de um lado pela escolha do texto e, de outro, pela adequação desse último ao leitor”
(ZILBERMAN, 1987, p. 22).
33
As obras analisadas foram: Meninos de rua, de Mestre Azulão; Meninos de rua, de Esmeralda Batista;
Meninos de rua e a Chacina da Candelária, de Gonçalo Ferreira da Silva e A discussão de um menino de rua
com o Resgate Pró-Criança, de Vicente Pereira.
63
Para detalhar um pouco mais as diversas facetas da ideologia presentes na produção
literária infanto-juvenil, uma pesquisa também da década de 1980 que marcou os estudos
desta área será abordada aqui: o livro Literatura Infantil e Ideologia, de Fúlvia Rosemberg
(1985). Com a proposta de “estudar a relação adulto-criança implicada e veiculada pela
literatura infanto-juvenil, indagando se ela reflete a mesma bipolarização dominador-
dominado observado no tratamento imposto a outras categorias sociais” (p. 20), esta obra vem
sendo recuperada por diversas pesquisas que tratam de temas relacionados às ideologias
presentes no ambiente escolar
34
, muitas vezes em pesquisas de pós-graduação orientadas pela
autora.
Foram analisados 168 livros infanto-juvenis editados entre 1955 e 1975 no que se
refere às personagens na ilustração e no texto e os seus comportamentos. O fator mais
marcante desta pesquisa foi a evidenciação da relação hierárquica estabelecida entre os
adultos e as crianças, entre brancos e não-brancos, e entre personagens masculinos e
femininos, confirmando também as ideologias responsáveis pela manutenção destas
desigualdades:
O caráter unilateral da relação estabelecida pelo livro infanto-juvenil não
decorre apenas do domínio exercido pelo adulto sobre a criação de um texto
ou de uma imagem, mas também de seu poder sobre a produção, difusão,
crítica e consumo de um livro. São adultos os escritores, ilustradores,
diagramadores, programadores, capistas, editores, chefes de coleção; são
também adultos os agentes intermediários (críticos, bibliotecários,
professores, livreiros) responsáveis pela difusão do livro junto ao comprador
que também é adulto (bibliotecários, pais e parentes). Aqui, a distância entre
criação e consumo é máxima, pois o público infantil, enquanto categoria
social, não participa diretamente da compra do produto que consome e quase
não dispõe de canais formalizados para opinar livremente sobre o livro que
lê. Fala-se nesse caso, em receptor cativo (ROSEMBERG, 1985, p. 30).
Esta afirmação chama a atenção para elementos da ideologia que muitas vezes são
ignorados em estudos diversos: a produção e difusão de uma obra tem relação estreita com os
34
Dentre elas citam-se: PIZA, Edith O caminho das águas: Estereótipos de Personagens Negras por
Escritoras Brancas. São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo: Com-Arte, 1998; BAZILLI, Chirley.
Discriminações contra personagens negros na literatura infanto-juvenil brasileira contemporânea. São
Paulo: Dissertação de mestrado. (Psicologia Social – PUC/SP), 1999; OLIVEIRA, Maria Anória de Jesus.
Negros personagens nas narrativas literárias infanto-juvenis brasileiras: 1979-1989. Dissertação (Mestrado
em Educação) Universidade do Estado da Bahia: Salvador, 2003; SILVA, Ana Célia da. A discriminação do
negro no livro didático. 2. ed. Salvador: EDUFBA, 2004; SILVA, Paulo V. B. Relações Raciais em livros
Didáticos de Língua Portuguesa. 228 f. Tese (Doutorado em Psicologia Social) Pontifícia Universidade
Católica de São Paulo, São Paulo, 2005; ESCANFELLA, Célia Maria. Literatura Infanto-Juvenil Brasileira e
Religião: Uma proposta de interpretação ideológica da socialização. Tese (doutorado em Psicologia Social)
Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, 2006.
64
profissionais nela envolvidos. Sendo adultos e tendo uma concepção de adultos sobre o que
crianças devem ler e que tipo de conhecimentos socioculturais elas devem ter acesso, torna-se
evidente que a literatura infanto-juvenil firma-se numa base assimétrica. Da mesma forma,
isso se verifica ao recapitular, brevemente, a imagem que personagens negras vinham/vêm
tendo na produção midiática brasileira, seja da literatura ou da televisão. É o caso, por
exemplo, da representação de Tia Nastácia, “preto velho”, Rita Baiana, Mussum (SILVA,
2005; SILVA e ROSEMBERG, 2008) e tantos outros que, ao mesmo tempo em que
contribuíram para a constituição da identidade da população negra brasileira, o fizeram de
modo a relegá-la a espaços sociais inferiores quando não folclóricos ou exóticos.
Ao interpretar as formas simbólicas responsáveis pela produção/reprodução de
ideologias, é importante uma atenção redobrada para as nuances envolvidas neste processo, e
uma delas é o fato de que houve e uma assimetria também na produção e veiculação
literária (e midiática como um todo). Em outras palavras, os grupos sociais que produzem a
cultura midiática nem sempre têm identificação com os grupos sociais aos quais se referem
em suas obras ou, como afirma Paulo Vinicius B. da Silva (2005), ao tratar do racismo e
ideologia, “[u]ma possível interpretação explicativa seria a dificuldade dos autores (também
de ilustradores, revisores, etc., isto é, as equipes de produção), predominantemente brancos,
de construir textos em que a sua própria condição racial não seja naturalizada” (p. 84).
Sobre a produção acadêmica, especificamente, Teun van Dijk (2008b, p. 14) afirma
algo parecido:
[...] a maior parte dos pesquisadores acadêmicos vem dos mesmos grupos
sociais e classes cujas elites estiveram no poder. Soma-se a isso o fato de
eles mesmos terem nenhuma ou pouca experiência com o racismo, o que,
portanto, acarreta em menor motivação para investigar um sistema de
desigualdade do qual eles próprios foram beneficiados.
Utilizando o mesmo enfoque teórico de Thompson (1990) para a interpretação das
ideologias, Chirley Bazilli (1999) produziu uma pesquisa que analisou 41 livros infanto-
juvenis publicados entre 1975 e 1994, num processo de atualização da pesquisa de Fúlvia
Rosemberg (1985). A pesquisadora constatou que:
Poucas transformações que ocorreram nos vinte anos que separam ambas
pesquisas: alteração no gênero literário (temas mais relacionados à vida
cotidiana e universo realista); laicização da produção; redução de livros
históricos e a maior presença ficcional de indivíduos humanos. A grande
tendência, observada pela Pesquisa de 1975, de representar personagens
brancos, adultos e de sexo masculino como ‘representantes da espécie’
65
continua vigorando, assim como o de representar personagens negros
tipificados (traços físicos, vestimenta, nomeação da cor-etnia negra logo de
início), porém mais sutil (BAZILLI, 1999, p. v, destaques da autora).
Tal constatação reitera, mais uma vez, o poder ideológico que a produção midiática, e
neste caso a literatura infanto-juvenil em especial, exercem na sociedade, reforçando,
também, as relações assimétricas entre os grupos.
Outra pesquisa que teve como suporte teórico a Hermenêutica da Profundidade de
Thompson (1990) foi desenvolvida por Silva (2005) que analisou, em livros didáticos de
Língua Portuguesa da quarta série (hoje quinto ano) do ensino fundamental, publicados entre
1975 e 2004, discursos produzidos sobre negras/os. Embora sua análise focasse
particularmente livros didáticos, ele destaca, em seu texto, pesquisas sobre a produção
literária infanto-juvenil, sendo esta considerada como um elemento midiático também
responsável pela disseminação de ideologias. Sobre os discursos dos livros didáticos, a
conclusão do autor é que:
No discurso racista com o qual nos deparamos nos livros didáticos que
analisamos observamos características detectadas por estudos brasileiros
sobre racismo em livros didáticos (Pinto, 1981; Negrão, 1988; Marco
Oliveira, 2000) e sobre racismo na literatura infanto-juvenil (Rosemberg,
1985; Negrão, 1988; Bazilli, 1999): concomitante com negação aparente do
racismo, são apresentadas formas simbólicas que atuam no sentido de
estabelecer e manter a hierarquia entre brancos e negros (aspecto comum ao
descrito na literatura internacional como peculiar ao discurso do “novo
racismo” culturalista, nesse caso com possibilidade de tratar desigualmente
outros grupos racializados[...](SILVA, 2005, p. 183, ).
Partindo do que o autor discute sobre o Programa Nacional do Livro Didático, no que
se refere à distribuição gratuita deste material às escolas públicas brasileiras, e considerando
que a sua difusão faz parte do conjunto de meios de comunicação de massa, sendo
responsável, portanto, pela produção, transmissão e recepção das formas simbólicas
(THOMPSON, 2002), Silva (2005) aponta que “atores sociais que têm maior influência nas
políticas de produção dos livros didáticos continuam os mesmos. Editores de livros didáticos,
burocratas ligados ao PNLD e políticos vinculados à assistência social vêm em primeiro
plano” (p. 112). Desta maneira, discussões sobre a diversidade étnico-racial, sexual ou
desigualdades de nero e outras, ficam submetidas às políticas momentâneas de governantes
mais ou menos “sensíveis” a estes temas. Neste caso, o caráter ideológico envolvido nas
avaliações do Programa Nacional do Livro Didático e do Programa Nacional de Biblioteca
Escolar (como veremos mais detalhadamente à frente) revela-se explícito, ao contrário de
66
diversas manifestações veladas que levaram Thompson, inclusive, a elaborar um quadro de
análise dos modos de operação da ideologia.
Elementos como estes e outros presentes nas nuances do processo ideológico de
produção literária infanto-juvenil brasileira tornam-se evidenciáveis quando nos propomos a
analisar, com um pouco mais de atenção, algumas obras. O que se esperar de tal contexto
sócio-histórico, então? Abolirmos a literatura da escola (como problematizou Zilberman,
1987)? Ela própria nos mostrou anteriormente neste texto que não, que ambas, escola e
literatura, podem ser úteis “quando se tornarem o espaço para a criança refletir sobre sua
condição pessoal” (ZILBERMAN, 1987, p. 21). Outra pesquisadora que fornece uma possível
alternativa é Rosemberg (1985) ao afirmar que:
[...] a criação e a produção de livros infanto-juvenis pode, não apenas
reproduzir modelos de relacionamentos existentes, mas propor outros: novos
modelos de ação concreta junto à criança, que poderão atuar como guias para
outros adultos, que se relacionam com a criança em outros campos. [...] Ora,
a literatura infanto-juvenil, por sua forma específica de comunicação,
mediatizada pelo livro, lidando com o simbólico, com o imaginário, pode se
constituir em terreno propício à criação de novas formas de relacionamento
com a criança. Ao invés de seguir modelos, erigir-se em modelos (p. 76).
No artigo O estético e o ético na literatura infantil, Maria Zaira Turchi (2004) aponta
para uma perspectiva que é preciso sempre ser levada em conta para se produzir este gênero
literário no Brasil:
[n]a sociedade contemporânea, as crianças de um mesmo país estão expostas
a fronteiras e diferenças. [...] Assim, a discussão do estético deve estar ligada
a uma ética do imaginário que contemple as diferentes vozes, a variedade
étnica e os múltiplos aspectos culturais em diálogo na obra, especialmente
num país como o Brasil. A história da literatura infantil deve integrar texto e
contexto sócio-histórico, demonstrando de que modo, de um lado, a
formação cultural extraliterária molda o discurso literário e, de outro, como
as práticas literárias são ações que fazem coisas acontecer, moldando a
consciência psíquica e ética do jovem leitor (TURCHI, 2004, p. 41).
Ainda que seja possível concordar, é admissível também verificar o quão distantes
estamos desta afirmação, considerando o que temos de produções atuais e de obras que,
embora já publicadas muito tempo, permanecem como leitura cotidiana em nossas escolas,
revelam-se repletas de estereótipos e preconceitos de diversas naturezas, sobretudo na relação
adulto-criança. Atuam, como constata a mesma autora, de modo a representar uma “falha
quando não consegue[m] construir pontos de vista em que a criança se reconheça, deixando
67
sobressair a visão do adulto, sua autoridade, sua influência e ideologia” (TURCHI, 2004, p.
39). Neste sentido, é que, a seguir, proponho apresentar, com um pouco mais de ênfase, os
efeitos da ideologia na identidade étnica do público leitor infanto-juvenil.
2.2 Literatura infanto-juvenil e relações raciais
Se a constatação de que as influências ideológicas operam de forma a produzir, nos
meios de comunicação de massa (especialmente na produção literária infanto-juvenil) uma
“bipolarização dominador-dominado” (ROSEMBERG, 1985, p. 20), relegando a criança a um
espaço menor, no que se refere às relações raciais esta influência se expressa de forma ainda
mais evidente. A desigualdade na caracterização de personagens negras em relação a brancas,
aliada à estereotipia e explícitas manifestações racistas, fizeram da literatura um dos maiores
fomentadores do preconceito racial no Brasil, pois, concordando com o que afirma Regina
Dalcastagnè (2008, p. 88) “[...] uma vez que a opressão é tanto material quanto simbólica,
podemos percebê-la também na própria literatura, uma forma socialmente valorizada de
discurso que elege quais grupos são dignos de praticá-los ou de se tornar seu objeto.
Investigando clássicos da literatura para adultos, a pesquisa de Amauri Rodrigues da Silva
(2007), que buscou “examinar e discutir a trajetória descrita pelo personagem negro no
âmbito da Literatura brasileira” (p. 5), tanto em obras históricas, sociológicas como as
literárias propriamente ditas, destaca que:
O sedimento da discussão proposta encontra-se nos tratamentos que os
textos de teor não-estéticos dispensam ao negro, a partir da utilização de
práticas discursivas que histórica e tradicionalmente, no atendimento de
interesses ideológicos de caráter dominante, visam mantê-lo num patamar de
sociabilidade que se diferencie muito da situação por ele vivida em tempos
de Brasil-colônia. É do interior desse panorama que a Literatura brasileira
emerge, e do ponto de vista ideológico, explora o mesmo assunto a partir da
adoção de práticas discursivas semelhantes às encontradas nas páginas dos
textos de natureza não-estética. Pelo cultivo desses aspectos encontrados na
utilização de práticas estratégico-discursivas a Literatura se consagra como
uma estrutura cultural a serviço da classe dominante, considerando sua
dimensão de instrumento de reprodução ideológica dos interesses dessa
classe (AMAURI SILVA, 2007, p. 5).
Utilizando obras históricas e sociológicas como Os africanos no Brasil, de Nina
Rodrigues, Casa grande & senzala, de Gilberto Freyre, Raízes do Brasil, de Sergio Buarque
de Hollanda, além de autores representantes de importantes momentos na Literatura, como
Padre Antonio Vieira, José de Alencar, José Lins do Rego e outros, Amauri Silva (2007) refaz
68
todo o percurso traçado por personagens negras que tiveram suas histórias de vida (como
personagens fictícias e seres reais) submetidas às investidas explícitas de manutenção da
ideologia racista. Como não é intenção desta dissertação tratar da literatura para o público
adulto, resta dizer, para encerrar os comentários sobre esta pesquisa, que a análise comparada
do autor entre discursos histórico-sociológicos e literários servem para ratificar o quão
ideológica vem sendo a produção literária brasileira, com raras exceções (que são peculiares
quando conhecemos suas autorias), como por exemplo:
São pouquíssimas as manifestações que a Literatura brasileira nos oferece
como referências de tratamentos que se insurgem contra um status quo
literário, e entre elas o destaque recai sobre Emparedado, de Cruz e Sousa e
Um defeito de cor, de Ana Maria Gonçalves, por se tratarem de dois
momentos muito especiais no que concerne ao comprometimento estético,
sobretudo como referências de contraponto, a carência maior presente nos
textos históricos, bem como nos literários (AMAURI SILVA, 2007, p. 222).
Para enfatizar a produção infanto-juvenil e sua intrínseca aproximação com as relações
raciais no Brasil, um artigo de Maria Cristina Soares de Gouvêa (2005) (Imagens do negro na
literatura infantil brasileira: análise historiográfica) recupera, em obras clássicas deste
gênero literário, a representação de personagens negras. Sua pesquisa recai sobre a produção
das três primeiras décadas do século XX, cujos principais expoentes são Olavo Bilac,
Menochi Del Picchia e Monteiro Lobato. Diante da análise de publicações da época, a autora
chega à seguinte síntese de resultados:
Por um lado, o negro vinha reafirmar a identidade nacional, associado ao
folclore brasileiro e marcando com suas histórias, práticas religiosas e
valores, a infância dos personagens. Por outro, esses mesmos valores não
encontravam lugar no seio de uma sociedade que se pretendia moderna,
fazendo-o ocupar um espaço social à parte. Enquanto a modernidade,
associada à urbanidade, ao progresso, à técnica, e à ruptura, era representada
pelos personagens brancos adultos, os negros eram relacionados a
significantes opostos, como tradição e ignorância, universo rural e passado
(GOUVÊA, 2005, p. 84).
Assim como a literatura adulta estava firmada nas bases do racismo científico, não é
de se estranhar que a literatura infanto-juvenil seguisse os mesmos passos, porém com um
agravante: seu caráter didatizante que, por conseqüência, servia para reafirmar às novas
gerações quem ocupava cada um dos “seus devidos lugares” na sociedade da época. E,
inegavelmente, Monteiro Lobato firma-se como um dos maiores representantes desta
característica eugenista, tema apresentado na pesquisa de Paula Arantes Botelho Briglia
69
Habib (2003). Por meio da investigação de parte da vida e obra de Lobato e relacionando-as
com as teorias racistas da época, a pesquisadora aponta que, em diversas produções, seus
anseios por uma nação próspera estavam firmados no ideal de raça pura, livre das
mestiçagens, ou “má semente” (LOBATO apud HABIB, 2003, p. 168) encontradas no Brasil.
A regeneração da espécie seria responsável pela realocação do país a um status de progresso,
digno de sua história. Com tais apontamentos, a intenção é de evidenciar muito além de um
momento histórico específico; é, sobretudo, discutir o cânone e quais os aspectos que o
constituem como tal. Neste prisma, concordo com Habib (2003, p. 20) que afirma que:
[...] o objetivo central [...] não é, diferente do que possa parecer, destruir um
mito ou negar o encanto de páginas que marcaram sucessivas gerações de
brasileiros nas quais, evidentemente, me incluo. Pretende-se chamar a
atenção para uma outra faceta deste escritor tão popular e cultuado, tanto no
meio acadêmico quanto pelas pessoas em geral, através do livro ou da TV
– para enxergá-lo em seu tempo histórico, como um sujeito que viveu
intensamente seus equívocos e contradições.
Acabaria por se tornar inviável assumir uma empreitada de interpretação da ideologia
por meio do discurso e da literatura sem buscar desvelar aspectos subjetivos (e outros nem
tantos) que podem ser responsáveis por construir as bases desta ideologia, como é o caso da
herança literária deixada por Lobato. Em duas pesquisas (mestrado e doutorado) sobre as
discriminações raciais nos livros didáticos, Ana Célia da Silva (2001; 2004) discute
amplamente o caráter ideológico imbricado nas produções didáticas e literárias para a escola:
Os materiais pedagógicos têm papel fundamental na reprodução das
ideologias, uma vez que expandem visões estereotipadas dos segmentos
oprimidos da sociedade. Entre eles, sobressai-se pela importância que lhe é
conferida pelos pais, alunos e professores, o livro didático, considerado o
depositório da verdade, a memória conservada das civilizações. Contudo,
muitos processos civilizatórios e muitas visões de mundo são omitidos ou
minimizados pelo livro, que veicula, na maioria das vezes, a visão de mundo
e o processo civilizatório das classes dominantes (SILVA, 2004, p. 51).
Mesmo fazendo referência direta ao livro didático, é possível inferir que é o que faz,
em suma, Monteiro Lobato ao descrever Tia Nastácia como uma “negra beiçuda [...] sem
cultura nenhuma, que nem ler sabe [...] e que outra coisa não faz [...] senão ouvir as histórias
de outras criaturas igualmente ignorantes, e passá-las para outros ouvidos, mais adulterados
ainda” (LOBATO, 1982
35
). Associar o conhecimento de uma personagem, que traz tradições
35
1ª edição: 1937.
70
orais advindas da cultura africana (e que o próprio autor as resgata) a um conhecimento
inferior e alienante, é negar qualquer possibilidade de descendentes que têm acesso a estas
leituras de se identificarem com tal cultura. Ou seja, “[o]mitindo e minimizando a história, os
valores culturais, o cotidiano e as experiências da criança negra, o livro concorre
significativamente para o recalque da sua identidade étnica e seu branqueamento mental e
físico” (SILVA, 2004, p. 52). Além disso, para as crianças de forma geral, mensagens que
poderiam operar no sentido de valorização da origem africana fazem o contrário, a
desvalorizam.
Da mesma forma, Célia Maria Escanfella (1999; 2007), em uma análise comparativa
de 30 obras infanto-juvenis publicadas entre 1976 e 2000, “com o objetivo de compreender
como o setor editorial tem representado a questão étnica/racial” (ESCANFELA, 2007, p. 1),
aponta para manutenções na relação assimétrica entre a disposição (tanto imagética quanto
literária) de personagens brancas e não-brancas:
Os resultados ressaltam, apesar do aumento na representação de personagens
negros, a manutenção da assimetria na representação racial na produção
literária para crianças, pois permanece pouco expressivo o índice de
personagens negros no texto e nas ilustrações tanto na produção de editoras
laicas como católicas. Evidencia-se, assim, que o leitor implícito no texto é a
criança branca para a qual a relação étnica/racial é apresentada de forma
ideológica, acima de tudo pela ausência de representação de grupos étnicos
não-brancos, universalizando-se a representação da espécie como branca, ou
por meio de uma representação estereotipada.
[...]
Ao comparar esses resultados com outros estudos sobre a questão racial,
pode-se afirmar que a literatura infantil contemporânea não sofreu grandes
alterações quanto aos aspectos raciais nela representados, principalmente
quando se toma como referência a produção de editoras católicas,
permanecendo, portanto, uma fonte de produção, manutenção e reprodução
das assimetrias raciais (ESCANFELA, 2007, p. 7).
Com isto, pode-se concluir que não basta, a quem pretende discutir a trajetória da
literatura infanto-juvenil, focar-se somente nas produções do início do século XX (mesmo
estando presentes ainda hoje em bibliotecas e escolas) mas também intensificar a análise de
publicações atuais, que visam manter relações assimétricas de poder.
Outra pesquisa reveladora sobre os estudos de relações raciais e literatura infanto-
juvenil foi desenvolvida por Maria Anória de Jesus Oliveira (2003) que teve como foco,
conforme já informado anteriormente, a análise de “personagens negros na Literatura infanto-
juvenil brasileira em narrativas publicadas entre 1979 e 1989” (p. 17). Incidindo sobre
publicações reeditadas e/ou sobre produções de autoras/es consagradas/os neste período, a
71
pesquisadora elaborou categorias analíticas sobre personagens negras e buscou verificar se
houve inovações quanto à caracterização de tais personagens de modo a romper com a
estereotipia já apontada por outros estudos (OLIVEIRA, 2003).
Para elaborar as categorias analíticas, a pesquisadora buscou verificar três aspectos:
“a) ‘expressão’, maneira de se caracterizar as personagens negras na tessitura do texto; b)
‘realidade’, determinado contexto sócio-histórico de produção das obras; c) ‘homem’, aqueles
que produziram as obras” (OLIVEIRA, 2003, p. 32, destaques da autora), embora ela ressalte
que neste aspecto sua perspectiva não é biográfica, interessando-a o narrador, como
“elemento constitutivo da relação interna do texto, e não a pessoa física, o autor em si
(OLIVEIRA, 2003, p. 32).
Neste sentido, os resultados apontaram que:
Na análise das produções literárias publicadas entre 1979 e 1989, visou-se a
inovação no momento em que se atribuiu o papel principal aos personagens
negros, com o propósito de denunciar a pobreza, o preconceito racial, e em
enaltecer os seus traços físicos (em duas narrativas principalmente). Mas,
por outro lado, a maioria das produções acabou corroborando para reforçar
exatamente o que se tentou denunciar: o preconceito racial [...] (OLIVEIRA,
2003, p. 32).
A pesquisa de Gládis Elise Pereira da Silva Kaercher (2006) representou um
importante estudo para a compreensão de aspectos particulares do PNBE, sobretudo no que
diz respeito à articulação entre gênero e raça, por ter como objetivo analisar “as
representações de gênero, raça, presentes no acervo de 110 obras que integram o Programa
Nacional de Biblioteca da Escola do ano de 1999 [...] [tendo como] aportes os Estudos de
gênero e Estudos Culturais para dar conta de como tais representações se articulam para
engendrar a branquidade, negritude, masculinidade e feminilidade presentes no acervo” (p.
13). Este estudo possibilitou, para a autora, o estabelecimento de conceitos os quais ela
nomeou de reificação da branquidade, radialização da negritude, masculonormatização e
periferização da feminilidade” (KAERCHER, 2006, p. 13, destaques da autora), com o
objetivo de “dar conta das elaboradas estratégias discursivas que possibilitam a circulação,
nas obras analisadas, de discursos hegemônicos, residuais e emergentes de cada uma das
categorias analisadas gênero e raça” (KAERCHER, 2006, p. 191). Tais termos relacionam-
se diretamente às questões de pesquisa levantadas pela pesquisadora:
72
1. Que representações de gênero e raça o incorporadas, produzidas e/ou
atualizadas no livros que integram o acervo do Programa Nacional de
Biblioteca da Escola/1999?
2. Como os processos de racialização e generificação se articulam, em tais
representações, de modo a engendrar as significações de branquidade,
negritude, masculinidade e feminilidade presentes no acervo? (KAERCHER,
2006, p. 16).
Estas perguntas foram respondidas pela autora, sobretudo na afirmação que faz:
[...] ao analisar como as representações de branquidade, negritude,
masculinidade e feminilidade são mobilizadas, dentro do acervo, de modo a
promover a implementação/consolidação de identidades raciais e de gênero,
pude perceber que estas identidades se instauram/engendram através de um
efeito de fixidez que, parece congelar a identidade masculina branca como a
identidade padrão (KAERCHER, 2006, p. 191).
Outro estudo importante encontrado na pesquisa bibliográfica realizada nestes dois
anos de mestrado, refere-se a uma análise que, diferentemente da perspectiva de Maria Anória
de Jesus Oliveira (2003), aponta para elementos positivos em obras que a autora identificou
como problemáticas do ponto de vista do exagero no enaltecimento de traços físicos de duas
personagens em obras distintas
36
. É a pesquisa de Luiz Fernando de França (2006) que teve
como objetivo analisar a representação da personagem negra na literatura infantil brasileira,
em diversas épocas, desde o surgimento deste gênero no país, passando pelas décadas de 1920
a 1950 e o período contemporâneo
37
. Os resultados encontrados por França (2006) indicam
que:
Através destas obras verifica-se que, se na primeira metade do século XX, a
literatura infantil nacional conserva estereótipos do negro, a produção
contemporânea sob influência da negritude e do próprio movimento negro,
numa tentativa de eliminação do racismo, lança mão de outras formas de
representação, tais como: inserção de traços e símbolos da cultura afro-
brasileira; representação dos mecanismos de resistência para enfrentar os
preconceitos e a realidade social; consciência crítica da escravidão;
valorização da identidade afro e das diferenças culturais. Nesse sentido, a
36
Tais obras são Menina bonita do laço de fita, de Ana Maria Machado (1995, 2001) e O menino marrom, de
Ziraldo (s/d).
37
Os textos referentes ao período inicial são: 1) o poema Os reis magos, e os contos Mãe Maria, Uma vida... e
A borboleta negra, de Olavo Bilac; 2) de 1920 a 1950 são: Reinações de Narizinho, de Monteiro Lobato;
Cazuza, de Viriato Corrêa; As aventuras do avião vermelho, de Érico Veríssimo; A ilha perdida e A
montanha mágica, de Maria José Dupré e Os segredos de Taquara-poca, de Francisco Marins; e, 3)
correspondentes ao período contemporâneo: A cor da ternura, de Geni Guimarães; Menina bonita de laço de
fita e Do outro mundo, de Ana Maria Machado; O menino marrom, de Ziraldo, Luana: a menina que viu a
Brasil neném, de Aroldo Macedo e Oswaldo Faustino; Duula, a mulher canibal um conto africano, de
Rogério Andrade Barbosa).
73
presença do negro na literatura infantil brasileira participa de um processo
que vai da manutenção à desconstrução do estereótipo negativo (FRANÇA,
2006, p. vi).
Embora o objetivo nesta seção seja de apenas apresentar brevemente as principais
informações destas pesquisas tão importantes para a literatura infanto-juvenil, não posso me
furtar de propor algumas considerações que divergem do autor. Seja diante da leitura da
dissertação de França (2006), bem como de um artigo sobre o mesmo tema (França, 2008),
reconheço aspectos apontados como muito pertinentes, como, por exemplo, de que em uma
das obras também analisadas por Oliveira (2003) “a personagem negra recebe um tratamento
artístico mais bem elaborado” (FRANÇA, 2008, p. 126). Contudo, a perspectiva do autor de
que, ao enfatizar de forma exagerada os atributos físicos das personagens está-se construindo
um modelo de literatura que valoriza personagens negras, isso não exime o fato de, no campo
das interpretações ideológicas, esta ênfase transmutar-se em ideologia racista, por meio da
estratégia de estigmatização (Andrade, 2004), em que se reforça veementemente
características físicas como sendo as principais ou mais importantes do ser humano negro. A
intelectualidade, no caso específico da personagem Menina bonita, por exemplo, fica relegada
a um segundo plano, já que a mesma, como bem apontou Oliveira (2003) apresenta poucas ou
fragmentadas informações sobre sua história, podendo-se inferir, portanto, uma espécie de
alienação por parte da personagem, que não se interessa em conhecer suas origens.
Também discordo da afirmação de que:
Neste sentido, a figura do coelho torna-se relevante uma vez que representa
o diferente, o branco. Em relação à temática da obra, essa personagem
desenvolve uma função importante: a de adorador da cor preta. A inserção
desta personagem, visivelmente apaixonada pela menina negra, não apenas
valoriza os traços físicos do negro como instaura um processo de idealização
das relações inter-raciais e da mestiçagem (FRANÇA, 2008, p. 129).
Mesmo considerando o fato de se tratar de um animal (e isto representa a meu ver
problemas com relação à associação personagem humana negra relacionando-se em posição
equivalente com animais), o “branco”, destacado pelo autor, remete à representação do
homem branco que, historicamente teve na mulher negra inclusive verificado pela literatura
(PIZA, 1998) – a imagem de promiscuidade e sensualidade, transmutado na imagem da
“mulata sensual”. Portanto, novamente, estabelece-se o estigma como estratégia ideológica
recorrente em tais obras.
74
Um estudo mais recente, de Leda Cláudia da Silva Ferreira (2008) objetivou analisar
“do ponto de vista da pluralidade cultural, o perfil das personagens que povoam os contos
brasileiros contemporâneos selecionados e distribuídos pelo [...] PNBE de 2005” (p. 2). Esta
pesquisa promoveu, segundo a autora, “questionamentos variados acerca do perfil
sociocultural das personagens (gênero sexual, idade, estrato social, cor/raça), da temática e do
gênero literário. Investigaram-se, também, questões relacionadas ao autor, ao ilustrador, ao
tradutor; bem como, aos dados técnicos das obras” (FERREIRA, 2008, p. 2). A autora
apontou que os resultados indicam, ainda que com ressalvas, reificações de resultados
encontradas em pesquisas anteriores:
A [...] pesquisa [...] pôde verificar a prevalência da perspectiva do universo
social característico da elite dominante, visto que as personagens, em sua
maioria, integram grupos formados por homens, adultos, brancos e de classe
média. Disso decorre que a representatividade dessa presença literária se
revelou deficiente e problemática, uma vez que privilegia a representação
artística de apenas uma parcela da sociedade.
Apesar disso, tem-se que o crescimento de uma consciência social mais
atenta aos matizes multiculturais brasileiros se faz sentir, sensivelmente, na
literatura nacional. Isso porque já a possibilidade de se ver presente no
universo ficcional, ainda que em poucos casos, a figura do negro, da mulher,
da criança, do idoso, do pobre; quase sempre invisíveis em uma sociedade
que se apoia em um discurso excludente, frente à diversidade cultural, e
mantenedor do preconceito
(FERREIRA, 2008, p. 102).
A pesquisa de Paulo Sérgio Pestana (2008) teve como “objetivo analisar as duas
protagonistas negras: Tânia e Geni, respectivamente, nas obras: na garganta (1991), de
Mirna Pinsky e A cor da ternura (1998), de Geni Guimarães” (p. vii, destaques do autor), no
intuito de compreender as identidades de tais personagens. Sob a perspectiva das metáforas
por trickster e lingüista divino (sobretudo por meio de Exu, um deus da mitologia africana) a
análise feita comprovou “que as identidades culturais não são fixas nem acabadas e que uma
mesma personagem pode comportar vários exus: submissos, resistentes, tricksters ou
lingüistas divinos” (PESTANA, 2008, p. vii).
O autor exprime, por meio dos estudos literários fundamentados em Henry Louis
Gates
38
(1988), que as identidades das duas protagonistas são construídas nos estágios
assimilacionista e nacionalista, e estes são fatores essenciais para a compreensão das
38
GATES, Henry Louis. The signifying monkey: a Theory of afro-american literary cristicism. New York,
Oxford: Oxford University Press, 1988.
75
inovações e da manutenção de estereótipos no que se refere à representação de personagens
negras na literatura infanto-juvenil.
Segundo ele:
As duas unidades de análise (conteúdo x ilustração) focalizada na segunda
parte desta dissertação contribuíram para afirmar que se por um lado
algumas obras da literatura infanto-juvenil, ao representar a personagem
negra, denunciam o racimo; por outro lado alguns procedimentos narrativos
podem reforçar o preconceito e a discriminação. Isso se deu tanto no
conteúdo veiculado pelas obras analisadas como nas suas ilustrações.
Enquanto na maioria das figuras os leitores negros não conseguem se ver
representados, em grande parte dos enredos o emprego de expressões
pejorativas acaba por legitimar a estereotipia negativa de forma velada ou
explícita (PESTANA, 2008, p. 106-107).
O que se pode verificar na maior parte das pesquisas arroladas nesta seção é que se
reiteram, em seus resultados, a presença de estereótipos acerca da representação de
personagens negras na produção literária infanto-juvenil. Outro elemento importante, é que
grande parte das obras analisadas fazem parte de acervos bibliotecários de escolas podendo,
desta forma, atuar de modo negativo e depreciativo na formação de estudantes acerca da
população afro-brasileira e africana.
A proposta a seguir é de buscar a análise e interpretação do contexto sócio-histórico
literário brasileiro voltado para crianças e adolescentes no intuito de desvelar os fatores que
colaboram para que tais resultados continuem incidindo e contribuindo para a manutenção,
criação e perpetuação de desigualdades raciais.
76
PARTE II – ANÁLISE DO CONTEXTO SÓCIO-HISTÓRICO
CAPÍTULO 3 – PROGRAMA NACIONAL DE BIBLIOTECA DA ESCOLA
Sou um preto mas naturalmente não o sei, visto que o sou.
Em casa, minha mãe canta para mim, em francês, romanças
francescas nas quais os pretos nunca estarão presentes. [...]
Um pouco mais tarde lemos livros brancos e assimilamos
paulatinamente os preconceitos, os mitos e o folclore que nos
chegam da Europa.
Frantz Fanon
A análise a seguir destina-se à interpretação dos dados referentes à distribuição
gratuita de livros de literatura para as escolas públicas brasileiras. Realizando essa
interpretação, torna-se possível a identificação dos critérios de seleção das obras e em que
medida a preocupação em contemplar, nas produções bibliográficas escolhidas, a
diversidade cultural e étnica que compõe o país. Inicialmente, discutirá sobre a constituição
do PNBE e seu objetivo principal, além de apresentar um histórico das últimas décadas sobre
outros programas e projetos de incentivo à leitura. Em seguida, apresenta dados quantitativos
sobre a distribuição de livros por meio deste programa atual e os problemas decorrentes de
seu formato de difusão e permanência nas escolas. Posteriormente, uma análise, com base em
duas pesquisas, dos gastos relacionados a uma das ações em particular do PNBE, intitulada
Literatura em Minha Casa, aponta para problemas também relacionados à sua distribuição.
Encerra promovendo uma discussão em torno dos critérios utilizados por este programa para o
atendimento da “diversidade” humana do país, buscando apresentar, por meio de uma
pesquisa dedicada ao tema, o quão distante está a proposta de um modelo de bibliotecas
escolares que contemplem os diversos sujeitos e suas especificidades.
O Programa Nacional de Biblioteca da Escola PNBE tem como objetivo principal
“democratizar o acesso a obras de literatura infanto-juvenis, brasileiras e estrangeiras, e a
materiais de pesquisa e de referência a professores e alunos das escolas públicas brasileiras”
(Aparecida PAIVA, 2008, p. 8). Tal objetivo relaciona-se diretamente com o processo de
emancipação intelectual ao qual o sistema educacional público almeja e, que, por
consequência, amplia a produção da indústria de livros, possibilitando geração de lucros em
maior escala. Se o compromisso aqui fosse de realizar uma análise “neutra
39
”, buscando
39
Neste sentido, considero neutra a perspectiva de análise que não considera a ideologia como um elemento a ser
interpretado por representar um conceito negativo, utilizado para sustentar relações assimétricas.
77
apreender os avanços e retrocessos da produção deste material midiático em massa (o livro) e
sua veiculação por meio de programas oficiais de Estados e da União, este capítulo teria como
compromisso identificar apenas uma parte do todo. É preciso ir além, buscando compreender
as relações estabelecidas entre o processo de produção, distribuição e veiculação de obras e os
critérios de escolha que elegem algumas obras em detrimento de outras. Para tanto será
preciso entender como vem se organizando o PNBE desde sua implantação.
Sendo considerado “uma ação pública de incentivo à leitura, como parte da política
educacional [...]” (BRASIL, 2008, p. 5), este programa surge em 1997 com a proposta de
difundir, em escolas públicas, o uso do livro como bem cultural. Anteriormente a isso,
Zilberman (1995) e outras/os especialistas apresentam um histórico de programas nacionais e
regionais que tinham como objetivo difundir a literatura. Zilberman (1995) inclusive afirma
que diversos projetos foram criados no século passado, dos quais ela destaca alguns:
Oriundo do poder público federal é o projeto de financiamento de
publicações de obras literárias, por intermédio do Instituto Nacional do
Livro. Este implantou, nos anos 70, uma política de co-edições que patrocina
parte do custo de produção de textos, responsabilizando-se também pela
distribuição de sua cota de livros, procurando, com isso, suprir bibliotecas
públicas nos níveis estadual e municipal (ZILBERMAN, 1995, p. 125).
O quadro a seguir busca compilar informações que demonstram o percurso de projetos
e programas dos quais muitos tiveram êxito, embora já tenham sido extintos:
Descrição do Programa/Projeto Responsável
Programa de aquisição de livros didáticos dirigidos a escolas
públicas carentes (ZILBERMAN, 1995, p. 125).
Fundação de Assistência ao
Estudante – FAE
Programa ‘Salas de Leitura’: responsável pela “seleção, compra e
distribuição, entre alunos freqüentadores do ensino público, de
textos destinados a crianças e jovens” (ZILBERMAN, 1995, p.
125). Inicialmente também promoveu, em parceria com Secretarias
de Educação, cursos de formação a professoras/es para o incentivo
à leitura.
“[...] ocasionou a distribuição de 73.591 acervos onde 3.017.000
livros foram enviados a 4.074.000 crianças, alunos prioritariamente
de zonas rurais e periferias urbanas” (Walda de Andrade
ANTUNES, 1995, p. 144).
Fundação de Assistência ao
Estudante – FAE
Programas ‘Ciranda de Livros’ e ‘Viagem à Leitura’: “compra de
obras destinadas à infância e juventude existentes no mercado e
posterior doação delas a escolas pobres” (ZILBERMAN, 1995, p.
125).
Ciranda de Livros distribuiu 30 mil coleções e 60 títulos de
literatura infantil entre 1980 e 1984 (Eliana YUNES, 1995).
Iniciativa privada: Fundação
Nacional do Livro Infantil e
Juvenil e Instituto Nacional do
Livro, da Fundação Nacional
Pró-Leitura
Formação de professoras/es que atuem no incentivo à leitura
(ZILBERMAN, 1995).
Câmara Brasileira do Livro
78
Projeto ‘Livro mindinho seu vizinho’: distribuição de cerca de 30
mil livros em coleções de 100 títulos, atingindo em dois anos 120
mil crianças e cerca de 10 mil professores, recreadores e adultos
[...] [por meio de] cursos de leitura, de animação de leitura, de
programação e aproveitamento da biblioteca” (YUNES, 1995, p.
130).
Fundação Nacional do Livro
Infantil e Juvenil e Associação
de Moradores do Rio de Janeiro
e outros estados.
Projeto ‘Meu livro, meu companheiro’: voltado para enfermarias de
longa internação de crianças no Rio de Janeiro e São Paulo
(YUNES, 1995).
Fundação Nacional do Livro
Infantil e Juvenil
Projeto ‘Leia criança, leia’: atuando em 18 estados brasileiros
atendia preferencialmente as “Associações de Moradores de
Favela” (YUNES, 1995, p. 131), atingindo mais de 100 mil
crianças.
Fundação Nacional do Livro
Infantil e Juvenil
Programa ‘Re-criança’: “visava o desenvolvimento do trabalho, da
saúde principalmente, [também] aceitou introduzir a questão da
leitura” (YUNES, 1995, p. 131). Atingindo 200 mil crianças, foram
criadas 250 bibliotecas em estados brasileiros, “fossem clubes de
futebol, pequenos grupos assistenciais ou sociedades que se
ocupavam desse amparo aos menores adolescentes” (YUNES,
1995, p. 131).
Ministério da Previdência
Social e participação da
Fundação Nacional do Livro
Infantil e Juvenil
Projetos locais: ‘Criança lendo, Araxá vivendo’ e ‘Leitura: com
açúcar e com afeto’ (Campos – RJ)
Fundação Nacional do Livro
Infantil e Juvenil e outras
parcerias
Criação de bibliotecas públicas em mais de 308 municípios Instituto Nacional do Livro, da
Fundação Nacional Pró-Leitura
e outras parcerias
Programa ‘Cheque Livro’: cheque remetido a municípios para que
adquiram seus livros.
Instituto Nacional do Livro
QUADRO 6 PRINCIPAIS PROGRAMAS/PROJETOS DE INCENTIVO À LEITURA DAS
ÚLTIMAS DÉCADAS DO SÉCULO XX
FONTE: SÍNTESE DA AUTORA BASEADO EM ZILBERMAN, 1995; ANTUNES, 1995; YUNES,
1995.
Tais informações, embora evidenciem o quanto políticas públicas e privadas atuaram
de modo a promover a difusão da leitura, também indicam defasagens e deficiências,
responsáveis por desencadear sua extinção:
No entanto, o problema persiste: as intenções, por melhores que tenham
sido, parecem chegar a resultados parcos, às vezes contraproducentes [...].
As causas do fracasso talvez não estejam nos próprios projetos, e sim em
circunstâncias bem mais amplas, incontornáveis por quem propõe aquelas
iniciativas: o modelo econômico, que se apóia na concentração da renda,
extremando a polarização da estrutura de classes da sociedade brasileira e
deixando grande parte da população sem condições de sobreviver, nem de
comprar livros (ZILBERMAN, 1995, p. 127).
Da mesma forma, os dados apresentados a seguir sobre o PNBE indicam problemas
relacionados ao cumprimento de seus objetivos. Observando os dados quantitativos de
distribuição de livros por meio deste programa é possível reconhecer que houve um crescente,
79
a partir do final da década de 1990, no valor bruto de investimento financeiro, na quantidade
de livros distribuídos e de escolas atingidas. Além disso, amplia-se o público a que se
destinam as obras e variedade de gêneros textuais, conforme indica o quadro a seguir:
Ano Acervo Quantidade Público atingido
1998 a 8ª séries 20.000 16.600/escolas com mais de 500 estudantes
1999 a 4ª séries 36.000 10.800.000/ escolas com mais de 150
estudantes
2000 Biblioteca do Professor 30.718 Profissionais da educação em 30.718 escolas
2001 Literatura em minha Casa
e 5ª séries
12.184.788
coleções
8.561.639 estudantes de 139.119 escolas
2002 Literatura em minha Casa
série
4.216.576
coleções
3.527.014 estudantes em 70.455 escolas
2003
Literatura em minha Casa
e 8ª séries
4.062.510
coleções
3.449.253 estudantes de série, em 124.408
escolas
3.745.810
coleções
2.969.086 estudantes de série, em 35.685
escolas
Palavra da Gente – EJA 544.916 coleções 463.134 estudantes de séries, etapas e ciclos
finais do ensino fundamental de educação de
jovens e adultos (EJA), em 10.964 escolas
Biblioteca do Professor 1.451.674 livros 724 mil educadoras e educadores
Biblioteca Escolar 3.193.632 livros 20 mil escolas de 5ª a 8ª série
Casa da Leitura 41.608 acervos
num total de
6.372.912 livros
3.600 municípios
2004 Foi dada continuidade as ações do PNBE 2003.
2005 Séries iniciais do Ensino
Fundamental
5.918.966 livros 16.990.819 estudantes de 136.389 escolas
2006 Séries Finais do Ensino
Fundamental
7.233.075 livros
13.504.906 estudantes de 46.700 escolas
2007
40
Não há informações
2008
Acervos – Educação Infantil 1.948.140 livros 5.065.686 estudantes de 85.179 escolas
Acervos – Ensino
Fundamental
3.216.600 livros 16.430.000 estudantes de 127.661 escolas
Acervos – Ensino Médio 3.956.480 livros 7.788.593 estudantes de 17.049 escolas
2009
Acervos – Ensino
Fundamental
Formado por 300
obras
16,4 milhões de estudantes de 49.327 escolas
Acervos – Ensino Médio Formado por 300
obras
7,2 milhões de estudantes de 17.471
unidades de ensino
QUADRO 7 – RELAÇÃO PNBE: ANO/QUANTIDADE
41
FONTE: Adaptado de Brasil (2008, p. 13);
http://www.fnde.gov.br/home/index.jsp?arquivo=biblioteca_escola.html – Acesso em 11/08/2009.
Mesmo sendo visível o investimento financeiro na aquisição de obras literárias para os
diversos espaços possíveis de fomento à leitura (escola, biblioteca pública, residência de
40
Segundo o que aponta Venâncio (2009, p. 96): “No site do FNDE não consta listagem das obras entregues
nem meros referentes aos alunos e escolas beneficiadas no tocante ao ano de 2007, somente é explicitado que
houve investimento de 54 milhões e que todas as escolas do ao ano cadastradas no Censo Escolar
realizado pelo Inep/MEC – receberam acervos”.
41
Alguns dos valores apresentados neste quadro diferem de dados apresentados na tese de doutorado de Lívio
Lima de Oliveira (2008, cf. p. 20).
80
estudantes, de educadoras e educadores) e a busca em atingir todas as modalidades de ensino,
o simples fato da aquisição e distribuição não foi responsável por contribuir na tentativa de
sanar os problemas relacionados aos baixos índices de leitura e o combate ao analfabetismo
funcional.
Uma publicação do Ministério da Educação (BRASIL, 2008) intitulada Avaliação
diagnóstica do Programa Nacional de Biblioteca da Escola PNBE realizada com
profissionais da educação, estudantes e familiares teve como finalidade:
[...] investigar a realidade das práticas pedagógicas em torno das obras
distribuídas pelo Programa Nacional Biblioteca da Escola, realizando um
diagnóstico sobre: o que professoras e professores, diretores, coordenadores
pedagógicos, responsáveis por biblioteca, estudantes e pais pensam sobre os
livros de literatura que chegam às escolas; que uso vem sendo feito desses
livros; quais são as práticas de leitura e de escrita realizadas nas salas de aula
e pelas escolas; e que papel a biblioteca tem representado nas escolas
públicas (BRASIL, 2008, p. 9).
Tal pesquisa possibilitou, por meio de seus dados, uma verificação mais detalhada de
como vem sendo veiculados e disponibilizados os livros distribuídos pelo PNBE às escolas
públicas. Compondo uma amostra formada por 149.968 unidades, sendo 96.600 na área rural
e 53.368 na área urbana, os dados apresentados referem-se ao ano de 2003, época em o
número de estudantes matriculados/as nas escolas da amostra foi de 31.162.624, com
6.136.317 em área rural e 25.026.307 em área urbana. Sendo uma pesquisa de imersão no
cotidiano da escola, e possibilitando ouvir as vozes dos diversos sujeitos que compõem o
ambiente escolar no que se refere à difusão do livro como um bem cultural para a comunidade
no qual se insere, os resultados apontaram para uma realidade pessimista:
Nenhum programa de incentivo à leitura, vinculado a políticas educacionais,
entretanto, pode subestimar as condições em que a educação escolar vem
sendo realizada nas redes públicas deste país. O cotidiano das escolas
visitadas pelas equipes, as condições sociais onde estão inseridas, revelam o
PNBE como uma ação cultural de baixo impacto em políticas de formação
de leitor e produtor de textos (BRASIL, 2008, p. 123).
Os demais resultados foram compilados e reorganizados no quadro a seguir:
81
No que se refere à presença do PNBE nas escolas:
Aspectos positivos:
de modo geral, os acervos provocaram mudanças positivas: maior envolvimento de
estudantes com a leitura, por meio do aumento nas demandas feitas por professoras/es ou por
recém-desenvolvimento de práticas de leitura;
algumas escolas localizadas em bairros e com estruturas precárias tinham profissionais
engajados com um efetivo trabalho com o PNBE;
estudantes demonstram concepções bem delineadas sobre a importância da leitura e da
escrita para suas vidas, diferentemente das/os professoras/es;
as/os estudantes reagiram satisfatoriamente à doação de livros e passaram a frequentar mais
as bibliotecas;
a pesquisa despertou o interesse por mais detalhes do programa;
alguns municípios vêm complementando o acervo, ainda que com poucas informações sobre
os objetivos de fazê-lo;
os participantes avaliaram os acervos do PNBE como sendo de boa qualidade;
Aspectos negativos:
o PNBE é uma ação cultural de baixo impacto em “políticas de formação de leitor e produtor
de textos” (p. 123);
dificuldades de coleta de informações sobre o acervo, devido ao pouco conhecimento por
parte dos participantes da pesquisa sobre as possíveis fontes de financiamento do PNBE;
a nomenclatura do acervo era ignorada para a maioria das/os usuárias/os;
a pesquisa denunciou a carência do acervo e a falta de formação adequada para sua efetiva
utilização;
os acervos não eram considerados pela comunidade escolar como patrimônio da escola e a
maior preocupação relacionava-se aos cuidados com os livros para a devolução no fim do ano
letivo;
diretoras/es informaram que não muitos estímulos à leitura em casa pois as famílias de
baixa renda são analfabetas, embora o que a pesquisa verificou é que o maior fator que
dificulta a promoção da leitura é a pouca interação entre escola e família;
falta de informações mais detalhadas sobre os objetivos do PNBE geraram ambiguidade,
que para muitas pessoas não havia diferenças entre livros didáticos, paradidáticos e obras de
referência e livros de literatura;
uma homogeneidade na representação dos diversos grupos de leitores escolares: crianças,
adolescentes e jovens são vistas/os como a “categoria aluno”, o que evidenciou a preferência
de professoras/es em desenvolver trabalhos com o acervo do Literatura em Minha Casa, por
possibilitar que todas/os lessem livros iguais, não fugindo, portanto, do controle “do
professor que não lê os livros”(p. 127);
descontinuidade das gestões municipais e estaduais, interrupção de informações de um
mandato para outro e a transferência de responsabilidade de um poder a outro, bem como
ausência de documentos e registros sobre a história das escolas dificultam o êxito do PNBE;
as escolas se sentem anônimas já que representam apenas dados expressos no Censo Escolar
do INEP e que nem sempre correspondem aos números oficiais de matrículas do ano
seguinte, fazendo com que, na maioria das vezes, menor quantidade de acervos sejam
disponibilizados;
No que se refere às ações do PNBE:
as coleções do Literatura em Minha Casa são as mais utilizadas e todas as escolas
pesquisadas as receberam;
os critérios de utilização da ação Literatura em Minha Casa foram variados: algumas escolas
não distribuíram os livros por suporem que “as famílias não davam valor a eles” (p. 125),
embora isso não tenha se confirmado nas entrevistas com mães, pais e estudantes; outras
desenvolveram exploração do acervo na escola para depois distribuir aos estudantes, diante
de experiências negativas com os acervos dos anos anteriores;
82
o kit circulou para além das famílias dos estudantes, atingindo também amigas/os vizinhas/os
e outras pessoas, inclusive colegas de turma por meio de intercâmbio de títulos;
a ação Biblioteca do Professor era quase que totalmente desconhecida pelas/os professoras/es;
a ação Palavra da Gente teve avaliação parcial pois poucas foram as escolas pesquisadas que
ofertavam EJA e nem todas receberam o acervo por problemas de ordem orçamentária do
FUNDEF; nas escolas contempladas, a procura por parte de estudantes foi grande;
No que se refere às bibliotecas das escolas:
, em geral, uma ênfase na concepção de biblioteca como sendo apenas a estrutura física e
uma separação entre essa e projetos de incentivo à leitura;
o são vistas como promotoras de ações voltadas para o incentivo à leitura e à escrita, mas
como um espaço físico responsável por aglomerar os materiais destinados a estas ações, que,
inclusive, devem acontecer sob orientação unicamente de professoras/es e coordenação e não
também de profissionais da biblioteca;
insegurança e pouco interesse, por parte de professoras/es, no manuseio e utilização dos
acervos e da própria biblioteca;
profissionais da escola cobraram a necessidade de formação específica para a adequada
utilização dos acervos do PNBE;
professores/as não utilizam a biblioteca, não a frequentam e não conhecem o acervo; também
apresentam pouco hábito de leitura ou não gostam e/ou não têm tempo;
em grande parte das escolas a biblioteca não existe como tal, sendo substituída por salas de
leitura, cantinhos, etc. e outras são adaptadas como salas de aula;
apenas em um Estado (Goiás) teve-se a informação de escola que re-dinamizou o espaço
físico da biblioteca para reorganizar a disposição tradicional dos livros;
a maioria das bibliotecas apresenta condições inadequadas de disposição dos livros o que
dificulta o acesso das/os usuárias/os;
em diversas bibliotecas verificou-se um acúmulo de livros didáticos, livros doados e obras
sem atrativo para o público específico da escola;
em muitas não a catalogação dos livros, implicando no desconhecimento dos acervos por
parte da comunidade escolar;
critérios inadequados de armazenamento dos livros: armários trancados, livros embalados ou
depositados de forma aleatória;
quase total inexistência de bibliotecárias/os com formação e quase absoluta ausência de
concursos específicos para o cargo, relegando a função, na maioria das vezes, a
professoras/es readaptadas/os;
houve recomendação da criação de bibliotecas que atendam a comunidade, principalmente
ex-estudantes e familiares de estudantes;
No que se refere às proposições para mudanças:
professoras/es reivindicaram qualificação, formação e remuneração adequadas a sua função;
houve críticas em relação às sistemáticas de remessas dos acervos e à ausência de
participação das/os profissionais da educação básica no processo de seleção dos livros;
evidenciou-se a necessidade de instrumentos de controle operacional por parte do MEC para
produzir um “sistema contingente de bibliotecas escolares em rede” (p. 126);
profissionais da educação apontaram a necessidade de políticas públicas de incentivo à leitura
por meio da escola e da comunidade em geral.
QUADRO 8 RESULTADOS DA AVALIAÇÃO DIAGNÓSTICA DO PROGRAMA NACIONAL
DE BIBLIOTECA DA ESCOLA – PNBE
FONTE: COMPILAÇÃO DA AUTORA COM BASE EM BRASIL (2008, p. 123-129)
É possível afirmar, diante disso, que um programa de dimensão nacional que tem
como objetivo primordial a democratização da leitura, não acontece de maneira efetiva a
ponto de ser reconhecido e reconhecer-se com tal função. Embora alguns resultados da
83
pesquisa tenham apontado boas práticas de incentivo à leitura que acontecem mesmo em
condições de infra-estrutura adversas, a maior parte dos dados coletados e analisados
ratificam a informação de que o PNBE tem, a então, ficado restrito à mera função de
aquisição e distribuição de livros, ou seja, “[o] modelo de intervenção adotado vem
historicamente privilegiando um único aspecto que compõe uma política de formação de
leitores: a compra e a distribuição de livros às escolas e aos alunos” (BRASIL, 2008, p. 5).
Outro elemento de crítica ao PNBE é apresentado por Ana Carolina Lopes Venâncio
(2009), no que se refere ao armazenamento e acessibilidade de uso dos livros que em
muitos estabelecimentos impera a cultura de preservação das obras a ponto de mantê-las
isoladas:
O PNBE, mesmo que com as melhores intenções, também tem encontrado
em sua prática algumas dificuldades. Sob alegação de que sem educação
para o trato com o objeto livro não se saberá preservar os acervos recebidos,
se tem dificultado o acesso dos livros às crianças, ou seja, ao guardar-se a
obra e torná-la assim inacessível a alguns, numa ação de cunho
discriminatório que fomenta, ao invés de leitura, desigualdade, mantêm-se o
acesso aos livros restrito a determinados grupos (VENÂNCIO, 2009, p. 97-
98).
Por outro lado, torna-se fundamental o reconhecimento de que principalmente a partir
de 2009, verifica-se que ampliações gradativas do PNBE para outras modalidades que não
o ensino fundamental. Assim como o Programa Nacional do Livro Didático PNLD teve
sua extensão para o ensino médio por meio da implantação, em 2004, do Programa Nacional
do Livro Didático para o Ensino Médio PNLEM –, o PNBE passa, a partir de 2009, a
contemplar esta modalidade. E para 2010, segundo o edital, as modalidades atendidas são:
séries iniciais do ensino fundamental, educação infantil (creches e pré-escolas) e educação de
jovens e adultos (ensino fundamental e médio) (EDITAL PNBE 2010), além de constar, a
partir deste ano de 2010 no site do FNDE, a informação de que outras duas vertentes do
programa serão implementadas: trata-se do PNBE Professor 2010, que distribuirá a
professoras/es da rede pública “livros específicos para orientá-los como ensinar em cada
disciplina da educação básica” (FNDE, 2010) e PNBE Periódicos, distribuídos às bibliotecas
das escolas públicas.
No entanto, estes fatores positivos não são suficientes para evidenciar um efetivo
sucesso do PNBE. A seguir, uma discussão acerca da composição dos acervos dará mostras
dos problemas ainda enfrentados para uma real melhoria nos índices de leitura no país e ao
fomento no uso do livro como bem cultural para a sociedade.
84
3.1. Acervo
Desde sua implantação em 1998, o PNBE é alvo de estudos sistematizados e pesquisas
científicas que buscam compreender seus efeitos para a educação brasileira. Uma tese de
doutorado (de Lívio Lima de OLIVEIRA, 2008) apresenta informações relevantes ao que se
estabelece na composição dos acervos do PNBE. Segundo o autor, sua pesquisa teve como
finalidade:
[...] analisar os complexos processos de seleção, avaliação e execução nas
seis primeiras edições do Programa Nacional de Biblioteca da Escola
(PNBE), no qual se entrelaçam como atores principais a Secretaria de
Educação de Infantil e Fundamental (SEB) do Ministério da Educação
(MEC), o Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação (FNDE) e
parcelas da indústria editorial brasileira (OLIVEIRA, 2008, p. 7).
Tal estudo focou-se na análise de documentos oficiais
42
buscando desvelar as
mudanças ocorridas no programa que, no período que compreende a análise, a verba foi
aumentada de 23 milhões em 1998 para mais de 110 milhões em 2003 (OLIVEIRA, 2008).
Este aumento no quadro financeiro do programa chamou a atenção do autor por diversos
fatores, dentre os quais se destaca o fato de o Brasil ser “o oitavo maior produtor de livros no
mundo, graças, principalmente aos programas do governo federal de compra e distribuição de
livros didáticos e paradidáticos” (p. 18). Além disso, “[o] interesse de grupos estrangeiros nas
áreas editorial e gráfica é crescente e algumas das grandes editoras e gráficas brasileiras
foram adquiridas por grupos estrangeiros interessados nesse volume de negócios”
(OLIVEIRA, 2008, p. 18).
Diante dos dados levantados por meio não da análise de documentos oficiais como
de discursos documentados de responsáveis pela seleção e gerenciamento do programa,
sobretudo da ação Literatura em Minha Casa”, as considerações as quais Oliveira (2008)
chegou foram sistematizadas a seguir:
42
Segundo o autor, os documentos analisados foram: editais de convocação de compra das coleções; portarias
ministeriais que listam quem selecionaria, avaliaria e apontaria como e para quem os livros seriam distribuídos;
relatórios de atividades do FNDE e relatórios de monitoramento do Tribunal de Contas da União (OLIVEIRA,
2008, p. 20).
85
Reclamações infundadas da indústria editorial brasileira (sobre o fato de o programa não
privilegiar as empresas brasileiras e não pagar o preço justo pela produção realizada), que a
análise dos cálculos de despesa e receita, pelo contrário, apontam que a indústria editorial não
teve lucro baixo, o que justifica seu constante interesse de participação no programa;
Auditorias do Tribunal de Contas da União que constatam que não preocupação em
melhoramento da infra-estrutura das escolas para receber os acervos;
Não explicitação na sistemática do programa, já que são adquiridos acervos bibliográficos em
alguns anos, livros para estudantes de séries específicas em outros e ainda livros para educadoras
e educadores em outros;
Nos anos analisados o descumprimento da portaria que institui o programa, que seu texto
versa sobre a responsabilidade de constituição de um acervo básico da Biblioteca da Escola e não
prevê a distribuição de livros a docentes ou a estudantes;
Não informações explícitas de caráter pedagógico ou literário que justificaram a escolha dos
livros que compõem a ação “Literatura na Minha Casa” (4ª, 5ª e 8ª séries);
Houve um trato desigual na ação “Literatura na Minha Casa”, pois as outras séries não foram
contempladas e esta ação não foi periódica (já que perdurou de 2001 a 2003 apenas);
Não foi possível, em todas as edições analisadas, a identificação dos nomes dos responsáveis por
selecionarem as obras, havendo um sigilo de critérios e pessoas injustificável, o que resultou em
uma concentração de grupos editoriais;
Não houve explicitação dos critérios de seleção dos livros já que termos encontrados nos
documentos que tratam do assunto são vagos e até conflitantes, “de forma que se possa com eles
tanto aprovar quanto rejeitar” as obras;
O conteúdo dos editais que estabelece os critérios de seleção tende a favorecer algumas empresas
em detrimentos de outras e não foi possível analisar os relatórios analíticos com maiores detalhes
da negociação realizada, já que não estão disponibilizados para consulta;
Os relatórios sintéticos, únicos disponíveis para acesso, apresentam erros nas tabelas, o que gera
dificuldade na interpretação dos dados;
Pelos cálculos realizados no preço médio dos livros adquiridos, foi possível identificar indícios de
gestão do dinheiro público por haver discrepância de quase 1000% entre o valor mínimo e
máximo.
QUADRO 9 – CONSIDERAÇÕES ACERCA DO PNBE E SUAS SEIS PRIMEIRAS EDIÇÕES
FONTE: SÍNTESE DA AUTORA SOBRE RESULTADOS DE OLIVEIRA (2008).
Tais dados reiteram um debate desenvolvido por Zilberman (1991) quando a política
de acesso ao livro e à leitura. Segundo a autora, ao analisar a conjuntura de alguns programas
de incentivo à leitura no país, é possível considerar que:
[...] ainda quando o Estado colabora para o fortalecimento do capital, pois
este, às vezes, se beneficia mais que a própria escola com o tipo de política
de leitura proposta, os programas em questão revelam a permanência da
tensão entre dois poderes, o público e o privado, com um agravante: o
segundo não se submete aos interesses do primeiro mas, ao mesmo tempo,
almeja continuar sendo o principal favorecido das medidas tomadas.
Indicou-se como a indústria brasileira do livro cresceu quando a escola se
expandiu, sem que necessariamente o público leitor fora da escola tenha
aumentado (ZILBERMAN, 1991, p. 54).
86
Outra pesquisa que aponta, em dimensão local, os problemas que envolveram o PNBE
foi realizada por Regina Janiaki Copes (2007), que desenvolveu um estudo sobre a ação
“Literatura em Minha Casa” no município de Ponta Grossa. Por meio de análise documental e
de entrevistas realizadas com gestoras/es, pedagogas/os, professoras/es e responsáveis pelas
bibliotecas municipais e estaduais da cidade, os resultados apurados evidenciaram que:
a) a maioria dos gestores escolares desconhecia os programas, os projetos e
as campanhas de incentivo à leitura emanados do Governo Federal; b) os
livros não chegaram às escolas da forma como estava proposto nos
documentos oficiais oriundos dos órgãos governamentais; c) os alunos não
receberam os kits conforme o prescrito no projeto; d) em algumas escolas,
tanto nas estaduais quanto nas municipais, um resíduo de volumes nas
estantes das bibliotecas e nas salas de leitura e; e) as escolas receberam uma
quantidade de kits muito aquém da demanda de matrículas. Pelas
informações dos sujeitos, constatou-se um certo distanciamento entre as
intenções manifestadas nos documentos e os resultados da proposta
implementada nas escolas. O projeto não ganhou visibilidade nem dentro das
escolas, nem na comunidade (COPES, 2007, p. vi).
É, portanto, válido inferir que o PNBE não esteja atendendo, a contento,aos seus
objetivos principais de promoção e incentivo à leitura nas escolas, seja por aspectos
relacionados à distribuição irregular de obras, ou pela inconsistência na apresentação dos
critérios de escolha (o que indica haver privilégios a determinadas editoras) ou ainda pela
falta de formação adequada aos profissionais da educação no uso do livro na escola. Assim,
concordo com a afirmação de Copes (2007) sobre os interesses ideológicos envolvidos no
PNBE que impedem seu efetivo sucesso:
A prática de leitura e a formação de leitores possuem as marcas das funções
sociais atribuídas pelo Estado em uma determinada época. Dizendo de outra
maneira, o Estado, ao elaborar e formular suas políticas faz interpretações de
suas funções a partir de seus interesses, ideologias e prioridades. Portanto,
para se compreender as políticas oficiais voltadas para concepções de leitura,
modelo de leitor e a produção do discurso oficial sobre a promoção da
leitura, faz-se necessário situar o momento histórico e explicitar tais
conceitos à luz do contexto sócio-político da época contemplada, para que
tal política possa se tornar um objeto passível de verificação (COPES, 2007,
p. 15).
Por isso, especialmente no que se refere às obras que tratam em alguma medida de
personagens negras, é importante compreender como o PNBE vem considerando a produção
literária que tem como proposta o atendimento à “diversidade”, sendo este vocábulo por vezes
associado a conceitos confusos e conflitantes. A seguir, uma discussão específica sobre este
87
tema propõe investigar mais a fundo a relação do PNBE com a promoção de uma Educação
das Relações Étnico-Raciais.
3.2 Diversidade
Não é correlacional o aumento de livros que abordem a diversidade com a
“democratização” de livros literários nas bibliotecas das escolas públicas. A política federal
de estímulo e fomento à leitura não tem incorporado, de maneira sistemática e explícita em
seus editais de compra de livros, a necessidade de os acervos contemplarem temas
relacionados à diversidade.
Aliás, a própria definição do termo “diversidade” e sua inserção nos programas
oficiais de aquisição de livros para bibliotecas escolares são por vezes incertas. No artigo
Diversidade e currículo, Nilma Lino Gomes (2007) propõe uma análise sistemática sobre o
espaço que a “diversidade” ocupa na escola.
Nessa perspectiva curricular, a diversidade está presente na parte
diversificada, a qual os educadores sabem que, hierarquicamente, por mais
que possamos negar, ocupa um lugar menor do que o núcleo comum. E é
neste último que encontramos os ditos conhecimentos historicamente
acumulados recontextualizados como conhecimento escolar (GOMES, 2007,
p. 29)
Esta afirmação converge com o que se verifica no PNBE. No que se refere à produção
literária financiada por este programa federal de incentivo ao gosto pela leitura, não se
verifica um equilíbrio na contemplação da diversidade nos enredos e muitas vezes nas
ilustrações das obras selecionadas. É o que aponta Venâncio (2009) em sua pesquisa que
buscou verificar “em que medida os livros que compunham os acervos distribuídos pelo MEC
em 2008 valorizavam a diversidade ou, pelo contrário, atuavam para apresentar padrões
hierarquizados, atuando, ao mesmo tempo, no processo de estigmatização dos personagens
desviantes desse padrão” (p. 10).
Seu estudo, que analisou amostra de 20 livros componentes do acervo do PNBE,
focalizando a análise da presença de diversidade de gênero, raça, idade e deficiência,
evidenciou uma série de problemas que corroboram a analogia feita à afirmação anterior de
Gomes (2007) de que diversidade muitas vezes é entendida como diversificado e, portanto,
forma do campo de produções literárias de núcleo comum:
88
De forma geral, apesar de algumas obras buscarem contemplar a idéia da
diversidade, verificou-se manutenção de relações hierarquizadas. A
representação de sociedade explicitada na amostra analisada, com enfoque
significativo do personagem branco, homem, sem deficiências, permite
inferir que se busca estabelecer vinculação com o real naturalizando-se
conceitos e ações concordes com uma percepção de sociedade na qual a
diversidade não cabe e onde a diferença é motivo de conflito, estranhamento
e, conseqüentemente, os discursos atuam muito mais para estabelecer e
perpetuar desigualdades; para gerar e reproduzir processos de estigmatização
(VENÂNCIO, 2009, p. 157).
Nesta pesquisa, inclusive, a autora apresenta uma informação relevante sobre a
presença da diversidade étnico-racial em particular no PNBE:
A partir de 2004 a SECAD passou a atuar junto a gestores do PNLD para
incluir critérios na seleção dos acervos que contemplassem as políticas de
diversidade que estavam sendo gestadas e operadas por tal Secretaria. Dessa
forma, no PNLD 2007-2008 ficou estabelecido que cada um dos acervos
deveria conter ao menos uma obra de valorização de indígenas e de
valorização de negros(as), que cumprisse o estabelecido pela Lei 10.639-03
(onde se determina a obrigatoriedade de ensino de História e Cultura Afro-
Brasileiras) (VENÂNCIO, 2009, p. 99).
Embora esta informação não tenha sido identificada no referido edital e nos
subsequentes, os dados empíricos da autora apontam para tais informações: de vinte obras
analisadas no acervo, apenas duas contemplavam a diversidade étnico-racial
43
.
O que se pode verificar nos editais mais recentes é uma preocupação em evitar as
manifestações explícitas de preconceito. No edital PNBE (2010), por exemplo, verifica-se tais
menções:
Anexo I – Critérios de avaliação e seleção
1. 1 Qualidade do texto
[...] Para todas as categorias, os textos deverão ser eticamente adequados,
evitando-se preconceitos, moralismos, estereótipos.
[...]
1.2 Adequação temática
[...]
Não serão selecionadas obras que apresentem didatismos, moralismos,
preconceitos, estereótipos ou discriminação de qualquer ordem (EDITAL
PNBE 2009, p. 13).
Na maior parte dos anos, a redação dos trechos envolvendo esta preocupação é
praticamente a mesma. O que se verifica, contudo, é a ausência de indicativos que incentivem
43
Trata-se das obras: Ulomma: a casa da beleza e outros contos e Catando piolhos, contando histórias.
89
a concorrência de obras que valorizem a diversidade étnica, racial e cultural. A menção,
apenas, à não-discriminação torna-se insuficiente para reparar uma construção histórica de
representação negativa acerca de um grupo humano. É preciso romper o silêncio (SILVA,
2008a) para superar tal contexto sócio-histórico. O silêncio diante do reconhecimento e
valorização da diversidade que vai “muito além da visão romântica do elogio à diferença ou
da visão negativa que advoga que ao falarmos sobre a diversidade corremos o risco de
discriminar os ditos diferentes” (GOMES, 2007, p. 19) torna-se um fator que evidencia o
quão incompreendido tem sido este conceito para as políticas públicas educacionais.
Por isso, a presença da diversidade no acontecer humano nem sempre
garante um trato positivo dessa diversidade. Os diferentes contextos
históricos, sociais e culturais, permeados por relações de poder e dominação,
são acompanhados de uma maneira tensa e, por vezes, ambígua de lidar com
o diverso. Nessa tensão, a diversidade pode ser tratada de maneira desigual e
naturalizada (GOMES, 2007, p. 19).
Neste sentido, a ideologia se faz vigente e opera no sentido de criar uma política
institucional de universalização (THOMPSON, 2002) dos modelos literários que devem fazer
parte dos acervos das bibliotecas escolares e que atuam para perpetuar relações de dominação
no que se refere ao trato com a diversidade brasileira.
E, em se tratando especificamente da diversidade étnico-racial, tal política atua de
modo intenso na forma como a escola reconhece as diferenças já que o acervo de suas
bibliotecas tem circulação para além da leitura como fruição ou prazer. Ocupa, por vezes, a
sala de aula e de forma a ser utilizado em contextos pedagógicos de incentivo à leitura. Neste
sentido, além das mensagens ideológicas de promoção de um modelo hegemônico de
humanidade estar incutido nas obras, recebem um fortalecimento ao circularem como leituras
canônicas.
O capítulo a seguir busca discutir sobre as implicações de tais modelos hegemônicos
no que se refere à forma como a diversidade étnico-racial vem sendo concebida pela escola, e
que se aproxima ao que se verificou neste capítulo ao identificar uma ideologia que opera
intensamente para a manutenção de relações de dominação por meio do PNBE.
90
CAPÍTULO 4 – RELAÇÕES RACIAIS NA ESCOLA
Por isso, ao discutirmos a relação entre cultura e educação, é
sempre bom lembrar que a educação não se reduz à
escolarização. Ela é um amplo processo, constituinte da nossa
humanização, que se realiza em diversos espaços sociais: na
família, na comunidade, no trabalho, nas ações coletivas, nos
grupos culturais, nos movimentos sociais, na escola, entre
outros.
Nilma Lino Gomes
Este capítulo dedica-se a uma discussão mais aprofundada sobre o processo de
inserção sistemática no espaço escolar de temas voltados à compreensão das relações raciais,
com vistas ao combate do racismo. Sua organização compreende a uma apresentação inicial
dos conceitos de raça utilizados nesta pesquisa e o “mito da democracia racial”, elemento
presente nos discursos do senso comum. Em seguida, discorre acerca da necessidade de
compreensão das desigualdades vigentes que dificultam o acesso, permanência e êxito na
escola, por parte de estudantes negras/os em comparação com brancas/os. Amplia o debate,
também, para uma análise da perspectiva que o racismo foi e ainda vem sendo abordado por
diversos estudos, relegando-o a um “problema do negro” e não de uma sociedade como um
todo. Para tanto, promove uma reflexão acerca da importância de pesquisas voltadas para a
branquidade, o que, por consequência, amplia o foco de debate para um efetivo estudo das
relações raciais. Apresenta, na sequência, um percurso histórico das reivindicações do
movimento negro sobre um ensino e currículo que privilegiem, de forma crítica, a cultura e
história africana e afro-brasileira como mecanismo de compreensão da real história do país. E,
por último, apresenta os impactos da Lei 10.639/2003 no espaço escolar e os problemas
relacionados à sua implementação.
Para uma efetiva análise das relações raciais na escola torna-se relevante, antes, uma
investigação sobre o que se concebe por raça. Partindo do pressuposto de que raça é vista e
considerada atualmente apenas no sentido sociológico, Silva (2005, p. 45) aponta a trajetória
deste conceito na História Moderna, o que elucida esta discussão:
Nos Quinhentos popularizou-se o uso para designar grupos humanos,
inicialmente na Itália e França, e logo a seguir nos outros países de ngua
latina e nos de língua anglo-saxônica. Os agrupamentos humanos passaram a
ser classificados em função de diferenças físicas, supostas ou reais. [...] Nos
Setecentos, e principalmente nos Oitocentos, as teorias racistas adquiriram
importância para explicar diversos fenômenos sociais e justificar novas
desigualdades (Wieviorka, 1992).
91
No início dos Novecentos, as teorias racistas foram decisivas para inúmeros
processos sociais, e o racismo foi determinante para diversas tragédias
humanas. Ato contínuo a essas tragédias, o conceito de raça passou a ser
recusado pela Biologia e as Ciências Sociais tomaram o racismo como
objeto de estudo. Raça passou a ser entendida como uma construção social.
Sendo uma construção social, historicamente determinada e reificada nos dias de hoje
por meio de diversas formas, “o uso do conceito de raça, como categoria analítica, tem um
efeito político, que é lutar contra as desigualdades que são definidas/redefinidas pelas idéias
de raça” (SILVA, 2005, p. 47-48). Assim, estudar relações raciais implica uma proposta de se
desvelar as nuances relacionadas com um conceito de raça, superado biologicamente, mas
vigente no imaginário coletivo. Como afirma Gomes (2005, p. 45, destaques da autora) raça
ainda é o termo que consegue dar a dimensão mais próxima da verdadeira discriminação
contra os negros, ou melhor, do que é o racismo que afeta as pessoas negras da nossa
sociedade”.
A perspectiva atual de estudo das relações raciais no Brasil enfrenta grandes
obstáculos teóricos
44
por estabelecer-se como base contrária ao que se denominou
“democracia racial”. Este termo, cunhado em meados do século XX, tem como grande
expoente Gilberto Freyre, por meio de suas obras, especialmente Casa Grande e Senzala.
Antonio Sérgio Alfredo Guimarães (2001) apresenta outros nomes significativos desta linha
ideológica (no sentido thompsoniano):
Vargas, na política; Freyre, nas ciências sociais; os artistas e literatos
modernistas e regionalistas, nas artes; esses serão os principais responsáveis
pela ‘solução’ da questão racial, diluída na matriz luso-brasileira e mestiça
de base popular, formada por séculos de colonização e de mestiçagem
biológica e cultural, em que o predomínio demográfico e civilizatório dos
europeus nunca fora completo a ponto de imporem a segregação dos negros
e mestiços. Ao contrário, a estratégia dominante sempre fora de
‘transformismo’ e de ‘embranquecimento’, ou seja, de incorporação dos
mestiços socialmente bem sucedidos ao grupo dominante ‘branco’ (p. 124,
destaques do autor).
Outra problemática envolvida nos estudos sobre relações raciais no país tem relação
com a discussão de que o combate às desigualdades sociais devem estar acima das demais
44
Tais obstáculos (que adquirem novas configurações com o tempo) atualmente referem-se, principalmente, no
estabelecimento de contra-argumentos que buscam desqualificar os objetivos das políticas afirmativas, como
cotas em vestibulares e concursos públicos, por exemplo.
92
desigualdades (raciais, de gênero, de diversidade sexual, etc.)
45
. Contudo, Maria Aparecida
Silva Bento (2002) aponta outra perspectiva que corrobora a afirmação de que a luta de
classes não supera os preconceitos e o racismo:
[T]entar diluir o debate sobre raça analisando apenas a classe social é uma
saída de emergência permanentemente utilizada, embora todos os mapas que
comparem a situação de trabalhadores negros e brancos, nos últimos vinte
anos, explicitem que entre os explorados, entre os pobres, os negros
encontram um déficit muito maior em todas as dimensões da vida, na saúde,
na educação, no trabalho. A pobreza tem cor, qualquer brasileiro
minimamente informado foi exposto a essa afirmação, mas não é
conveniente considerá-la. Assim o jargão repetitivo é que o problema limita-
se à classe social. Com certeza este dado é importante, mas não é isso (p.
27, destaques da autora).
Da mesma forma, Marcelo Paixão (2008) discute sobre a contradição presente na
generalização do discurso de classes como eixo único de desigualdade. Tal perspectiva
caminha, segundo ele, para um círculo vicioso que nos impede de identificar os reais fatores
responsáveis pelas diferenças de escolaridade entre os grupos negros e brancos:
Se é verdade que as desigualdades raciais são produzidas socialmente pelas
desigualdades em termos de anos de estudo; elas acabam sendo explicadas
por fatores de caráter estritamente social, ou seja, a pobreza. Ora, então
podemos chegar à seguinte conclusão: as assimetrias nas condições
econômicas dos negros e dos brancos são explicadas pelas disparidades nas
escolaridades médias de cada grupo. Porém, essas diferenças raciais de
escolaridade são explicadas pelas assimetrias nas condições econômicas dos
jovens negros e brancos e de seus respectivos pais. Então, quando se trata de
explicar as desigualdades raciais, essas seriam geradas pelas desigualdades
no acesso à escola, que é, por sua vez, gerada pela assimetria nas condições
de vida (e pela pobreza), que, por seu lado, é explicada pelas desigualdades
no acesso à escola. Desse modo, parece mais ou menos evidente que nos
encontramos em um raciocínio de tipo circular que não nos permite entender
verdadeiramente o motor dinâmico nem das assimetrias entre brancos e
45
É o que nos mostra Adreana Dulcina Platt (2004, p. 32): Torres [...] analisa que os debates sobre a raça, etnia,
gênero (e a estes podemos acrescer todos os demais grupos que perscrutam a igualdade de direitos) são cada vez
mais focadas, uma vez que, no discurso pós-moderno estas categorias serão mais bem definidas por meio da
fragmentação dos tipos sociais. Torres nos lembra com propriedade que o conceito marxista de classe possuía a
peculiaridade de seu universalismo e a condição de que a classe trabalhadora sobrepujasse as classes média e
alta. A diferença de classe era algo mais que o ‘reconhecimento das diferentes trajetórias de socialização e
experiência’. Desta forma, sintetizamos a crítica neomarxista, que entende todos os movimentos realizados pelos
grupos minoritários como movimentos que enfraquecem as bases das estratégias coletivas na busca da
modificação dos condicionantes sociais, mesmo que se compreenda a necessidade que tais grupos têm do
reconhecimento social de suas subjetividades e materialidades enquanto ‘sujeitos de identidades suprimidas e
colonizadas (..), e em celebrar suas inevitáveis diferenças’ (destaques da autora).
93
negros no mercado de trabalho e, tampouco, das disparidades existentes em
termos do acesso aos espaços escolares (PAIXÃO, 2008, p. 45).
Bento (2002) apresenta outro dado importante no tocante ao que se concebeu por
muito tempo como “o problema do negro” e a necessidade de responsabilização social de
todos os grupos humanos no racismo como elemento estruturante da sociedade brasileira:
A falta de reflexão sobre o papel do branco nas desigualdades raciais é uma
forma de reiterar persistentemente que as desigualdades raciais no Brasil
constituem um problema exclusivamente do negro, pois ele é estudado,
dissecado, problematizado.
Evitar focalizar o branco é evitar discutir as diferentes dimensões do
privilégio. Mesmo em situação de pobreza, o branco tem o privilégio
simbólico da brancura, o que não é pouca coisa (BENTO, 2002, p. 26-27).
Ao se estudar o racismo, levando-se em conta que o problema não se restringe “ao
negro” e ampliar as possibilidades de análise para a branquidade, amplia-se também as
possibilidades de combate. O primeiro ponto talvez seja concordando com Janet Helms (1990
apud BENTO, 2002, p. 43) quando “descreve [que] a evolução de uma possível identidade
racial branca não-racista [...] pode ser alcançada se a pessoa aceitar sua própria branquitude
46
,
e as implicações culturais, políticas, socioeconômicas de ser branca, definindo uma visão do
eu como um ser racial”. O reconhecimento da racialização como elemento responsável por
estabelecer hierarquias sociais fornece subsídios para o rompimento da omissão e “da
interferência da branquitude como uma guardiã silenciosa de privilégios” (BENTO, 2002, p.
41).
A definição de branquidade enquanto categoria analítica corresponde, como afirma
Vron Ware (2004), a diversas perspectivas:
Mas, como começar a analisar um tema tão vago quanto à branquidade, em
contraste com a supremacia branca ou o racismo branco? Como os contornos
de uma nuvem amorfa, o conceito de branquidade pode ser difícil de definir
e, à medida que atravessou lentamente os céus da consciência acadêmica da
última década, foi interpretado como tendo significados diferentes. [...] Para
alguns, a investigação da branquidade nessas diferentes manifestações tem
46
Embora a citação desta autora bem como de outras/os pesquisadoras/es apresente o termo “branquitude”
adoto, neste trabalho, “branquidade”, concordando com o que propõe as traduções de Tomaz Tadeu da Silva
(1996) do artigo de Michael Apple (Consumindo o outro: branquidade, educação e batatas fritas baratas). O
termo branquidade estabelece-se como referência ao whiteness do inglês, que significa “a condição ou qualidade
de ser branco”. Já “branquitude”, segundo Silva (1996), apresenta problemas ideológicos pois “carregaria
consigo [a] [...] conotação da palavra ‘negritude’” (p. 25), que entre outros significados associa-se “a uma
política específica de certos movimentos negros”.
94
como premissa a crença em que o pensamento racial está tão profundamente
inserido nas estruturas sociais, culturais e psicológicas, que constitui um
dado fixo e indelével de nossa vida, onde quer que estejamos. Para essas
pessoas, a tarefa do anti-racismo é expurgar a branquidade suas associações
homicidas e suas inclinações dominadoras, forjando, de algum modo, uma
identidade racial anti-racista e isenta de culpa que ainda seja resolutamente
branca (WARE, 2004, p. 9-10).
para Henry A. Giroux (1999), os estudos sobre a branquidade ampliam-se para a
reconstituição de uma sociedade democrática: “[a]nalisar a branquidade como elemento
central da política racial torna-se útil para explorar em que condições a branquidade, como
prática cultural, promove hierarquias baseadas em raça, de que modo a identidade racial dos
brancos estrutura a luta por recursos culturais e políticos e como direitos e responsabilidades
são definidos, confirmados ou contestados [...]” (p. 110).
É sob esta dimensão que neste trabalho aborda-se o tema da branquidade:
considerando-a como elemento essencial para a construção de um modelo educacional e de
sociedade antirracista não como Ware (2004) a define, e sim, como uma postura de
consciência de sua identidade e reconhecimento em mesma medida das demais
identidades. E, para deslocar o foco de identificação do racismo e das influências do
branqueamento apenas para o segmento negro, o artigo Porta de vidro: entrada para a
branquitude, de Edith Piza (2002) por apresentar um histórico de pesquisas relacionadas ao
tema – proporciona possibilidades de interpretação dos efeitos produzidos por hierarquizações
racializantes. A seguir, um quadro que sintetiza as pesquisas arroladas pela autora sobre o
tema:
95
Perspectiva de interpretação das relações raciais como “problema do negro” ou de constituição de identidade
racial positiva de negros
Autor/a – Período
47
Tema e/ou conclusão
W.E.B. Du Bois (1903) Reflexão da construção de uma identidade negra (por meio de uma identidade
coletiva)
Carl Degler (1971) Perspectiva estrangeira que apontou os processos de branqueamento em sua
superfície.
Florestan Fernandes (1978) Estudo progressista e denunciador do preconceito e da diferença, no Brasil.
Oracy Nogueira (1985) Estabelecimento de comparação dos diferentes modos de definir a racialidade
no Brasil e nos Estados Unidos.
Souza
48
(1983) Evidenciação de prejuízos psicossociais sofridos na constituição da identidade
grupal e individual da parcela negra da população.
Kabengele Munanga (1986);
William Cross Jr. (1991)
Visou analisar a negritude, ou seja, por que meios a população negra busca e
encontra uma identidade positiva e politicamente divulgada através de marcas
diacríticas sociais e culturais dessa identidade.
Gates Jr. e West² (1997) Evidenciação de progresso da intelectualidade negra norte-americana.
Perspectiva de interpretação das relações raciais como relações entre negros e brancos
Autor/a – Período
49
Tema e/ou conclusão
Oracy Nogueira (1955; 1962) Relações raciais e sociais no município de Itapetininga – SP.
Carlos Hasenbalg; Nelson do
Valle Silva; Fúlvia Rosemberg
(década de 1970)²
Estabelecimento de comparação entre a parcela branca e negra da população
brasileira.
Ruth Frankenberg (1995);
McIntoshi (1989)
Análise sobre a questão da branquidade para uma compreensão do ideário
branco sobre racialidade.
Janet Helms (1990) Evidenciação de uma tentativa de mudança da identidade branca norte-
americana, a partir da aplicação da Lei de Direitos Civis.
Maria Aparecida da S. Bento
Teixeira (1992); Rachel de
Oliveira (1992)
Evidenciação de uma ‘consciência’ racial muito precoce e conflituada, mas
nunca negada, entre indivíduos negros entrevistados.
Beverly Tatum (1997) Análise sobre a questão da branquidade para um espaço de relações vividas.
Edith Piza (2002) Ausência de alteridade na constituição da branquitude em relação ao espaço
social privilegiado que ocupa.
QUADRO 10 – RESULTADO DE PESQUISAS SOBRE RELAÇÕES RACIAIS
FONTE: SÍNTESE DA AUTORA SOBRE A PESQUISA DE PIZA (2002, p. 64-72)
47
DU BOIS, W.E.B. The talented tenth. In: GATES, JR. et al. The future of the race. New York: Vintage Book,
1996 [Publicado originalmente em The negro problem, 1903]; DEGLER, Carl. Neither black nor white:
slavery and race relations in Brazil and United States. New York: MacMillan, 1971; FERNANDES, Florestan. A
integração do negro na sociedade de classes. São Paulo: Ática, 1978; NOGUEIRA, Oracy. Tanto preto
quanto branco: estudo das relações raciais. São Paulo: T.A. Queiroz, 1985; MUNANGA, Kabengele.
Negritude: usos e sentidos. São Paulo: Ática, 1986; CROSS JR., William. Shades of black: diversity in
African-American identity. Philadelphia: Temple University Press, 1991.
33
Esta referência foi omitida do texto da autora, embora a suposição seja de que se trata de SOUZA, Neusa dos.
Tornar-se negro. São Paulo: Editora Paz e Terra, 1983.
49
HELMS, Janet E. Black and white racial identity: theory, research and practice. New York: Greenwood Press,
1990; NOGUEIRA, Oracy. Relações raciais no município de Itapetininga. In: BASTIDE, Roger; FERNANDES,
Florestan. Relações raciais entre negros e brancos em São Paulo. São Paulo: Anhembi, 1955. p. 362-553;
______. Família e comunidade: um estudo sociológico de Itapetininga. Rio de Janeiro: Centro Brasileiro de
Pesquisas Educacionais/Instituto Nacional de Estudos Pedagógicos/Ministério da Educação e Cultura, 1962;
FRANKENBERG, Ruth. White women, race matters: the social construction of whiteness. Minneapolis:
University of Minnesota Press, 1995; McINTOSHI, P. White privilege: unpacking the invisible knapsack. In:
Peace and freedom. S.1., 1989; OLIVEIRA, Rachel de. Relações raciais na escola: uma experiência de
intervenção. São Paulo, 1992 [Dissertação de Mestrado, Supervisão e Currículo. PUC-SP]; TATUM, Beverly D.
Why are all the black kids sitting together in the cafeteria? and other conversation about race. New York:
Basic Books, 1997; TEIXEIRA, Maria Aparecida da S. Bento. Resgatando a minha bisavó: discriminação
racial e resistência nas vozes de trabalhadores negros. São Paulo, 1992 [Dissertação de Mestrado, Psicologia
Social na PUC-SP].
96
É possível, diante deste quadro, localizar três perspectivas de estudo sobre relações
raciais: a) tendo foco na problemática “do negro” que se subdivide em: i) brancos que tratam
“do/sobre o negro” e ii) negros que tratam da formação identitária do sujeito negro frente a
uma sociedade hegemonicamente br
a
nca; b) como relações entre negros e brancos. Segundo a
Piza (2002), dentre os três grupos, o que mais se destacou no campo acadêmico é o “olhar
branco (enquanto neutro em relação aos brancos) sobre o mundo” (PIZA, 2002, p. 69). Tal
neutralidade para a autora tem relação com a noção de ser representante da espécie, condição
transposta como inerente para os sujeitos brancos e informado em todos os momentos por
meio das interações sociais com seus pares. A definição metafórica de Piza sobre o tema
elucida o que a autora identificou em sua pesquisa:
Eu sabia muito sobre negros, mas isto não era compreender as relações entre
negros e brancos. [...] Talvez uma metáfora possa resumir o que comecei a
perceber: bater contra uma porta de vidro aparentemente inexistente é um
impacto fortíssimo e, depois do susto e da dor, a surpresa de não ter
percebido o contorno do vidro, a fechadura, os gonzos de metal que
mantinham a porta de vidro. Isto resume, em parte, o descobrir-se
racializado, quando tudo o que se fez, leu ou informou (e formou) atitudes e
comportamentos diante das experiências sociais e públicas e principalmente
privadas, não inclui explicitamente nem a mínima parcela da própria
racialidade, diante da imensa racialidade atribuída ao outro. Tudo parece
acessível, o muito que se sabe sobre o outro e o quase nada que se sabe sobre
si mesmo (PIZA, 2002, p. 60-61).
É nesse sentido que a pesquisadora aponta que Oracy Nogueira embora tenha se
destacado com outra pesquisa que compara a racialização no Brasil e nos Estados Unidos é
um dos nomes que buscou desvelar a aparente “transparência” branca. Em outras palavras,
pesquisas como as de Oracy Nogueira (1955; 1962) e tantas outras feitas sob “um olhar do
branco sobre o branco” (PIZA, 2002, p. 62) são extremamente relevantes para que se
estabeleça uma real interpretação do que se concebe como relações raciais = relações entre
brancas/os e negras/os.
Outro pesquisador que propõe o estudo da branquidade como forma de interpretação
das relações raciais é Michael Apple (2001). Sua perspectiva reconhece que:
Questões como branquidade podem parecer demasiado teóricas para alguns
leitores ou mais um tópico ‘na moda’ que encontrou um jeito de imiscuir-se
na agenda educacional crítica. Esse seria um erro grave. Aquilo que é
considerado como ‘conhecimento oficial’ carrega de forma consistente a
marca de tensões, lutas, e compromissos nos quais a raça desempenha papel
importante [...] (APPLE, 2001, p. 66, destaques do autor).
97
Pensar no ambiente escolar, segundo Apple, desconsiderando a hierarquização
produzida por meio da desigualdade racial é ignorar um fator importante dos debates sobre
educação de qualidade.
A branquidade também se torna um fator bastante relevante na interpretação do grau
de mobilidade social possível aos grupos negro e branco, tendo a escola como mola
propulsora. Sobre isso, Paixão (2008, p. 75), discutindo a “dialética do bom aluno” afirma:
Um bom aluno portador das marcas raciais caucasianas será aquele que
aprender que está naturalmente fadado a exercer as funções de comando,
prestígio e compensadoras financeiramente. Que ele não venha a exercer tais
papéis mais favoráveis não muda em nada o problema, pois esse remete às
hierarquias sociorraciais vigentes, e não necessariamente a posição que cada
indivíduo irá ocupar no interior da pirâmide social. Do mesmo modo, um
bom aluno negro será aquele que aprender que está fadado, assim como
todos os que lhe são semelhantes, a exercer os papéis sociais menos
valorizados, piores remunerados e de baixo prestígio social.
Nesse sentido, a promoção de um sistema educacional que contemple a Educação das
Relações Étnico-Raciais compreendendo todos os grupos envolvidos, representa a grande
possibilidade de superação do preconceito racial na escola e execução de uma efetiva
igualdade racial. É nessa perspectiva que a presente pesquisa propõe, a partir de seus dados
preliminares, a necessidade de identificar e reconhecer aspectos positivos existentes já hoje na
educação pública brasileira, aspectos esses muitas vezes criados em circunstâncias artificiais
e/ou pontuais mas que representam um avanço no que propõe a legislação atual de
valorização da História e Cultura Afro-Brasileira. A seguir, apresenta-se uma discussão sobre
os limites, contradições e conquistas na implementação da Lei 10.639/2003.
4.1 Implementação da Lei 10.639/2003
Em 1977, no 2º Festival Mundial de Artes e Culturas Negras e Africanas, em Lagos
Nigéria, impedido de apresentar seus estudos que denunciavam o que chamou de “Genocídio
do negro brasileiro”, Abdias do Nascimento (2002) conseguiu, por meio do relatório do
Grupo IV do Colóquio, informar a todos os países participantes do evento sobre as
desigualdades raciais da época. Na explanação com base em dados históricos, estatísticos e
sociológicos, Nascimento apresentou uma proposta de recomendação da qual destaco:
98
5. O colóquio recomenda:
Que o Governo Brasileiro, no espírito de preservar e ampliar a consciência
histórica dos descendentes africanos da população do Brasil, tome as
seguintes medidas:
a) permita e promova livre pesquisa e aberta discussão das relações raciais
entre negros e brancos em todos os níveis: econômico, social, religioso,
político, cultural e artístico;
b) promova o ensino compulsório da História e da Cultura da África e dos
africanos na diáspora em todos os níveis culturais da educação:
elementar, secundária e superior;
c) inclua informações válidas com referências aos brasileiros de origem
africana em todos os censos demográficos, assim como em outros
indicadores tais como: natalidade e morte, casamento, crime, educação,
participação na renda, emprego, mobilidade social, desemprego, saúde,
emigração e imigração;
d) demonstre seu muito autoproclamado interesse e amizade à África
independente, concedendo ativo apoio material, político e diplomático
aos legítimos movimentos de libertação de Zimbawe, Namíbia e África
do Sul (NASCIMENTO, 2002, p. 68-69, destaques meus).
Não obtendo sucesso em tais proposições, Abdias, ainda em tentativa de que
deliberações mais sistemáticas fossem tomadas com vistas a reformular o ensino dos países
que em sua história promoveram a escravização africana, propôs no Grupo I a seguinte
redação:
G. Educação dos africanos na Diáspora
26. Que os governos dos países onde exista significativa população de
descendência africana incluam nos currículos educativos de todos os níveis
(elementar, secundário e superior) cursos compulsórios que incluam História
Africana, Swahili, e Histórico dos Povos Africanos na Diáspora
(NASCIMENTO, 2002, p. 69, destaques meus).
Novamente a proposta foi derrotada, assim como tantas outras elaboradas por diversos
seminários, simpósios, colóquios e outros, em nível nacional e internacional. Com este
exemplo é possível perceber que fazia parte, muitas décadas, da pauta de reivindicações
dos diversos segmentos do movimento negro brasileiro
50
e pan-africano, a necessidade de
uma reformulação nos currículos escolares com o objetivo de combater estereótipos acerca da
população negra dos diversos países com presença afrodescendente e do continente africano.
Propostas como estas passaram a ser contempladas parcialmente no que se refere à educação
brasileira por meio da Lei que altera os artigos 26A e 79B da Lei de Diretrizes e Bases da
50
Ver mais em A Lei 10.639/03 como fruto da luta anti-racista do movimento negro, de Sales Augusto dos
Santos. In: EDUCAÇÃO, Ministério da / DIVERSIDADE, Secretaria de Educação Continuada, Alfabetização
e. Educação anti-racista: caminhos abertos pela Lei Federal 10.639/03 Brasília: Ministério da Educação,
Secretaria de Educação Continuada, Alfabetização e Diversidade, 2005, p. 21-39 (Coleção Educação para todos).
99
Educação Nacional, a conhecida comumente como Lei 10.639/2003. A segunda Lei
sancionada na primeira gestão do Presidente Luiz Inácio Lula da Silva, determina que “[n]os
estabelecimentos de ensino fundamental e médio, oficiais e particulares, torna-se obrigatório o
ensino sobre História e Cultura Afro-Brasileira” (BRASIL, 2003). No ano seguinte a sua
aprovação, o Conselho Nacional de Educação aprovou a Resolução nº 1/2004, que instituiu as
Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educação das Relações Étnico-Raciais e para o
Ensino de História e Cultura Afro-Brasileira e Africana. Teoricamente, as Diretrizes
representaram um grande avanço no sentido de promover uma revisão curricular na educação
básica brasileira, não por fornecer subsídios mais consistentes sobre História e Cultura
Afro-Brasileira, mas também por acrescentar o ensino de História e Cultura Africana.
Embora a sanção desta Lei represente uma conquista, sobretudo pela exemplificação
anterior de que tal reivindicação fez parte da pauta do movimento negro por décadas, sua
prática, ou seja, sua implementação ainda não se deu de forma efetiva. Sobre isso, Paixão
(2008, p. 48) afirma:
O espaço escolar representa o nosso ponto de partida para a compreensão da
construção das disparidades raciais no acesso à educação. De fato,
atualmente, depois da família, a escola representa a principal agência de
socialização de crianças e jovens. Porém, de acordo com os estudos
realizados sobre as relações raciais no espaço escolar, a escola, como
agência de socialização, muitas vezes acaba confirmando e reproduzindo as
tradicionais assimetrias entre brancos e negros em múltiplos aspectos.
Diversos são os relatos de educadoras e educadores que consideram não ter preparação
adequada para trabalhar na perspectiva desta lei
51
. Uma pesquisa de cunho etnográfico,
desenvolvida por Letícia Passos de Melo Sarzedas (2007) relata alguns dos típicos
comentários acerca das dificuldades que a Lei 10.639/2003 enfrenta no ambiente escolar.
Coletando depoimentos de professoras de ries iniciais do ensino fundamental, Sarzedas
(2002, p. 103) apresenta:
Em um outro momento no corredor, enquanto olhávamos os livros didáticos
que tinham acabado de chegar, uma professora reflete sobre a
obrigatoriedade do Ensino da História e Cultura Africana e Afro-brasileira:
[...]
Você viu, agora nós somos obrigadas a ensinar a História da África?
Como se a gente já não tivesse muita coisa pra ensinar. Se eu termino o ano
51
Afirmo isso também com base em minha experiência como docente de cursos, oficinas e palestras sobre
Literatura Infanto-Juvenil e Relações Raciais, onde, por diversas vezes, ouvi depoimentos que demonstram a
falta de formação adequada para o trabalho com a representação valorativa de personagens negras.
100
com eles conseguindo escrever um pouquinho já estou satisfeita. Não sei por
que isso agora. Acho que é porque o Lula quer se mostrar. Ele que venha dar
aula aqui, então. Aí sim eu acho que eles (crianças) vão começar a ser
racistas, pois a gente vai ficar falando assim: Olha, não pode ser racista, todo
mundo é igual, a cor não faz diferença. (Paula)
O desconhecimento dos motivos que levaram à aprovação de uma lei com tal
perspectiva, associado ao racismo (in)consciente acaba por gerar manifestações contrárias que
prejudicam a efetiva implementação da Lei. Dentre as resistências, impera o discurso: “por
que não se fala também da história dos italianos, dos japoneses, dos alemães, etc
52
”:
O fato de não perceber o racismo faz com que as professoras não percebam
as práticas discriminatórias existentes na escola. Em uma das reuniões
pedagógicas, talvez sentindo necessidade de colocar o assunto em pauta
em grande parte pela minha presença a diretora sugere que as professoras
definam de que forma iriam trabalhar com o racismo na escola. Nesse
momento presencio o seguinte diálogo entre as professoras:
Não sei se é necessário trabalhar o racismo, não. Na minha aula não tem
nada que eu possa fazer. Como as crianças ficam brincando e jogando, as
crianças “pretas” até se saem melhor. Porque já viu, eles (negros) são sempre
melhores nos esportes. Tem o Pelé, o Ronaldinho Gaúcho. quem sai em
desvantagem são os branquinhos, que têm menos força física. na minha
aula não tem discriminação não. (Ana Luísa)
Eu também acho. Na minha sala não tem preconceito não. Todas as
crianças se dão bem. Aqui no bairro está cheio de “preto”, eles estão
acostumados e não discriminam não. Até a gente se acostumou. (Maria)
A gente pode aproveitar as comemorações, usar o folclore, o Zumbi.
Assim acho que eles teriam uma boa imagem da África e dos negros.
(Rebeca)
— É acho que isso está bom. (Maria)
— Eu concordo. (Ana Luísa e Maria) (
SARZEDAS, 2007, p. 104-105).
Diante de situações como estas, e concordando com o que discute Eliane Cavalleiro
(2005, p. 71) de que os sujeitos envolvidos no processo de escolarização “apresentam um
pensamento orientado e influenciado pela estrutura racial da sociedade”, é possível também
concordar com uma série de suas afirmações sobre a questão:
- [Na escola a] existência de racismo é negada.
- Não são reconhecidos os efeitos prejudiciais do racismo para os negros.
- Não são reconhecidos os aspectos negativos do racismo também para as
pessoas brancas.
52
Em outra experiência, num ambiente institucional, ouvi da então chefe do departamento (que é nipo-brasileira)
do qual eu fazia parte, (após saber da sanção da Lei 11.645/2008 que institui a obrigatoriedade do ensino de
História e Cultura Afro-Brasileira e Indígena) “de que, daqui a pouco, ela ia se reunir com o povo dela para
reivindicar uma Lei para os japoneses também”.
101
- Não se buscam estratégias para a participação positiva da criança negra,
mesmo quando se reconhece a existência da discriminação no cotidiano
escolar (CAVALLEIRO, 2005, p. 71).
É nesse sentido que se torna imprescindível que discussões mais aprofundadas sobre
as relações raciais na escola passem a fazer parte do quadro formativo de educadoras e
educadores, com vistas a uma reformulação na prática docente, para além do currículo.
Relacionado a este aspecto, Gomes (2003) discute sobre o que significa a escola do
ponto de vista da influência das relações raciais para a formação identitária do sujeito negro:
[...] quando pensamos a escola como um espaço específico de formação,
inserida num processo educativo bem mais amplo, encontramos mais do que
currículos, disciplinas escolares, regimentos, normas, projetos, provas, testes
e conteúdos. A escola pode ser considerada, então, como um dos espaços
que interferem na construção da identidade negra. O olhar lançado sobre o
negro e sua cultura, na escola, tanto pode valorizar identidades e diferenças
quanto pode estigmatizá-las, discriminá-las, segregá-las e até mesmo negá-
las (GOMES, 2003, p. 171-172).
Se a escola é capaz de exercer tal influência sobre a formação identitária dos sujeitos
nela inseridos, é possível concordar que a responsabilidade no combate a toda forma de
discriminação tem também sua força de ação no interior da própria escola. Neste sentido, leis
que buscam promover a valorização, inclusão ou combate à discriminação
53
são fundamentais
no processo de reconhecimento das diversas identidades e sujeitos que compõem a sociedade.
Contudo, outras problemáticas inseridas entre a aprovação de uma lei com tal caráter e
sua efetiva aplicação têm a ver com a forma como cada sujeito (principalmente o corpo
docente) na escola encara as diversidades presentes. Muitas vezes, o diferente é encarado
como o exótico, o Outro (Erick LANDOWSKI, 2002). Resultados recentes de uma pesquisa
realizada por Rozani Clair da Cruz Reis (2008) na rede pública estadual de Cascavel PR ,
demonstram o quanto ainda são escassas as informações sobre como e o que se espera com a
legislação de promoção da educação para as relações étnico-raciais. A investigação, por meio
de estudo de caso de duas escolas e 14 professoras e professor, apontou que:
Os dados obtidos na pesquisa parecem demonstrar que as atividades
desenvolvidas de modo a aplicar a lei no município de Cascavel identificam-
se com as perspectivas que McLaren (2000) denomina como
multiculturalismos de tendência liberal, nas quais as questões relativas à
53
Refiro-me, especificamente, ao Projeto de Lei 5003/2001, conhecido como “Estatuto contra a homofobia” que
“[d]etermina sanções às práticas discriminatórias em razão da orientação sexual das pessoas” (PROJETO DE
LEI). Disponível em: <<http://www.camara.gov.br/sileg/prop_detalhe.asp?id=31842>> Acesso em
15/07/2009.
102
diversidade são abordadas num enfoque folclórico, de celebração da
diversidade. Assim, na educação das relações étnico-raciais no espaço
escolar, é preconizado que deve haver o respeito, uma vez que todos são
iguais. A pesquisa não observou reflexões críticas nas quais os alunos
fossem levados a refletir sobre a origem das diferenças, os meios pelas quais
essas diferenças são mantidas na sociedade e de que modo elas beneficiam
ou prejudicam diferentes grupos sociais (REIS, 2008, p. 7).
Embora sua perspectiva de análise pareça primar por “diferenças” no sentido de
“desigualdade”
54
, seus resultados apontam para um elemento importante a ser considerado
nesta dissertação: a concepção de educadoras e educadores sobre a valorização da história da
população negra brasileira refere-se à folclorização ou exotização. Esta se torna uma grande
armadilha ao se sancionar uma Lei sem um subsídio teórico consistente sobre o que se
concebe por valorização de um grupo humano.
A seguir disponho, no Quadro 11, síntese dos resultados da pesquisa de Reis (2008)
sobre a implementação do ensino de história e cultura afro-brasileira e africana, no sentido de
evidenciar as dificuldades existentes no trabalho de aplicação da Lei 10.639/2003.
Aspectos positivos
O órgão fiscalizador
55
tem controle da aplicação da Lei nos documentos oficiais da escola
(como o Projeto Político Pedagógico);
Os projetos realizados estão se “constituindo em importantes instrumentos de inserção da LF
n.º 10.639/2003 na rotina escolar [...] ainda que não de forma muito adequada” (p. 146).
Aspectos negativos
Educadoras
56
têm ciência da obrigatoriedade da Lei 10.639/2003 mas em suas práticas
cotidianas em sala de aula ainda não a aplicam, embora explicitem em seus Planos de Trabalho
docente;
Relato de profissionais sobre informações de curso de formação na área embora a maioria não
tivesse oportunidade de participar por não ter tempo ou não ter sido selecionada/o;
A promoção de cursos a distância
57
nem sempre tem promovido o resultado efetivo de
compreensão dos textos sobre a temática;
O não-oferecimento, por parte da mantenedora, de cursos suficientes e adequados à rotina
docente é um dos fatores que dificultam a aplicação efetiva da Lei;
Embora fiscalize os documentos, o NRE não faz acompanhamento das práticas docentes;
54
Este uso sinonímico tem relação com a perspectiva teórica que a pesquisadora considera que, para Maclaren
(2000) (um dos seus suportes teóricos) a consideração de que diferença sendo tratada como algo inerente ao ser
humano faz parte da tendência “multiculturalista liberal de esquerda” (REIS, 2008).
55
A instituição mantenedora (Secretaria de Estado da Educação do Paraná – SEED) por meio do Núcleo
Regional de Educação – NRE.
56
Utilizo, aqui, o genérico no feminino por tratarem-se preponderantemente de mulheres. O único entrevistado
do sexo masculino era um vice-diretor.
57
Trata-se do Grupo de Estudos de História e Cultura Afro-Brasileira e Africana promovido pela SEED por
meio de seis encontros anuais na própria escola onde se forma o grupo de profissionais interessados em
participar do curso e, por meio de leituras dirigidas, o grupo promove debates e produção de textos e inventários
com relatos de experiências.
103
A quantidade de material disponibilizado com o texto da legislação completa é relativamente
pequena, dificultando o acesso das/os profissionais da educação;
O não-discernimento, por parte de educadoras e educadores, entre o que preconizam as
Diretrizes Curriculares para a Educação das Relações Étnico-Raciais e para o Ensino de
História e Cultura Afro-Brasileira e Africana e os Parâmetros Curriculares Nacionais;
O desconhecimento no portal do MEC, de uma área específica da SECAD, inclusive por parte
da profissional responsável pelo ensino de História e Cultura Afro-Brasileira e Africana junto
ao NRE;
Falta de informações, na formação inicial de profissionais da educação, sobre a temática;
Dificuldade e insegurança teórica de tratar da temática em sala de aula;
Posicionamentos contrários à existência da Lei por parte de direções de escolas;
Falta de domínio de conceitos básicos sobre a temática;
Discursos inferiorizantes sobre a imagem do ser africano em comparação com o europeu;
Ausência de problematizarão e questionamento dos motivos que levam à existência de
conflitos raciais no espaço escolar;
A negação de conflitos raciais no espaço escolar;
Acúmulo de responsabilidades na aplicação da Lei em profissionais da área de História;
Desconhecimento de bibliografia e fontes fidedignas sobre o tema;
Execução de projetos de cunho prioritariamente folclórico e histórico;
QUADRO 11 – CONSIDERAÇÕES ACERCA DA IMPLEMENTAÇÃO DA LEI 10.639/2003
FONTE: SÍNTESE DA AUTORA SOBRE A PESQUISA DE REIS (2008)
Esse quadro evidencia dificuldades encontradas em grande parte dos contextos
escolares brasileiros e aponta para as necessidades de reformulação de políticas voltadas à
formação inicial e continuada a profissionais da educação no que se refere à Educação das
Relações Étnico-Raciais.
No que se refere à rede municipal de educação de Curitiba, contexto onde esta
pesquisa foi desenvolvida, embora certamente possam ocorrer dificuldades e resistências na
implementação da Lei 10.639/2003 (como a exemplo de outras redes que aqui foram citadas)
alguns elementos são indicativos de que a formação continuada sobre a Educação das
Relações Étnico-Raciais tem sido realizada para parte de professoras/es da rede por meio de
ações específicas, como será melhor evidenciado no capítulo 6. Tais elementos auxiliaram na
interpretação de que a formação específica pode atuar no encaminhamento pedagógico de
profissionais da educação no que se refere à História e Cultura da África ou afro-brasileira.
A preocupação deste tópico foi de apresentar elementos que auxiliam na análise sócio-
histórica no que se refere ao estudo de relações raciais no Brasil relacionados à educação. A
parte subsequente apresenta capítulos voltados para a maneira e os procedimentos da análise
formal para (re)interpretar as formas simbólicas com vistas à identificação aspectos
ideológicos que servem para manter, sustentar ou estabelecer relações de dominação.
104
PARTE III – ANÁLISE FORMAL E REINTERPRETAÇÃO DAS FORMAS SIMBÓLICAS
CAPÍTULO 5 – ANÁLISE FORMAL
A reflexão crítica sobre as relações de poder e dominação
levanta novas perguntas, novas questões, exige novos tipos de
evidência e argumentação. Ela está interessada não com a
pergunta: ‘Essa interpretação é a correta?’, mas antes com a
pergunta: ‘Essas relações sociais são justas?
John B. Thompson
Neste capítulo será apresentada a descrição dos procedimentos de produção de dados
que deu origem ao corpus desta pesquisa. Inicialmente apresentarei o modelo de pesquisa que
inspirou a proposta deste estudo e a seguir uma breve conceituação sobre Observação
Participante e suas principais características das quais esta pesquisa fará uso. Em seguida,
uma descrição de como se deu o processo de transcrição de dados e a construção do estudo
exploratório demonstrarão os percursos e problemas enfrentados por esta pesquisa no trabalho
de campo. Por fim, os indícios do estudo exploratório têm a finalidade de indicar os primeiros
passos rumo à construção de um arcabouço de análise e interpretação da ideologia.
Esta pesquisa utiliza-se de imersão em instituição escolar e em sala de aula, com
recursos diversos de coleta/produção de dados (leitura de documentos, análise de acervo de
literatura infanto-juvenil, observação, conversas informais, gravações e transcrições de aulas
de leitura). Tais estratégias tiveram como base a pesquisa desenvolvida por Moita Lopes
(2002), publicada com o título Identidades fragmentadas: a construção discursiva de raça,
gênero e sexualidade em sala de aula. Por indicação da banca de qualificação houve,
contudo, alteração na estratégia metodológica, já que o trabalho de Moita Lopes – que
inspirou grande parte da estratégia utilizada para produção/coleta de dados não apresentou
em suas características, a proximidade que aparentemente demonstrava ter com esta pesquisa.
Considerava, ao elaborar uma estratégia de micro-análise etnográfica tal como fez o autor,
que seria esta a maneira mais adequada para representar como se deu o processo de
produção/coleta dos discursos produzidos em espaço escolar. Contudo, enquanto Moita Lopes
(2002) desenvolveu seu trabalho com um tempo de imersão no campo maior e com
características de envolvimento com a pesquisa bem diferenciadas desta, os procedimentos
adotados nesta pesquisa convergiram muito mais para uma observação participante
58
.
58
Neste aspecto agradeço particularmente à professora Tânia Braga pelos apontamentos acerca da produção de
dados.
105
Segundo Teresa Maria Frota Haguette (2005), divergências no que se refere à
origem do método da observação participante, que “tem sido visto por alguns como se
originando da antropologia, a partir dos estudos e experiências de Malinowski [...] e, por
outros, como tendo sido iniciado pela Escola Sociológica de Chicago, na década de vinte(p.
66). Neste sentido, a autora refaz o percurso do surgimento desta vertente metodológica na
Sociologia, evidenciando as diferenças de concepções. Focado nas correntes interacionistas na
sociologia, seu histórico apresenta indicativos de como se deu a constituição da observação
participante para as pesquisas sociais qualitativas. O quadro a seguir explicita sucintamente
este histórico:
Autoras/es da Sociologia Definições de Observação Participante
Eduard C. Lindeman Resume-se a uma técnica de coleta de dados distinta das técnicas.
Enfatiza “a necessidade da presença constante do observador nas
atividades do grupo pesquisado a fim de que ele possa ‘ver as
coisas de dentro’” (HAGUETTE, p. 72, destaques da autora).
Florence Kluckhohn Concebe a observação participante não apenas como uma simples
presença da/o observadora/or, mas sim com a necessidade de
efetivo envolvimento e compartilhamento com as atividades
externas e subjetivos do grupo.
Morris S. Schwartz
Charlotte Green Schwartz
Trata-se de não um instrumento de captação de dados mas,
também, como instrumento de modificação do meio pesquisado.
Aceita não a presença constante da/o observadora/or no
contexto observado como a interação face a face como pré-
requisitos da observação participante, além de alguns aspectos
relevantes: o tempo de observação pode ser curto ou longo; o
papel da/o observadora/or pode ser revelado ou encoberto, formal
ou informal, parte integrante ou periférica quanto à estrutura
social, destacando ainda seu papel ativo como modificador do
contexto e, ao mesmo tempo, como receptáculo de influências do
mesmo contexto observado” (HAGUETTE, p. 73, destaques da
autora).
Severyn T. Bruyn
59
Diverge dos demais por concebê-la como um processo de
interação entre a teoria e métodos dirigidos pelo pesquisador na
sua busca de conhecimento não só da ‘perspectiva humana’ como
da própria sociedade (HAGUETTE, p. 69, destaques da autora).
QUADRO 12 – HISTÓRICO DA OBSERVAÇÃO PARTICIPANTE SOB A PERSPECTIVA DA
SOCIOLOGIA
FONTE: SÍNTESE DE AUTORA SOBRE A OBRA DE HAGUETTE (2005)
Um elemento importante apontado por Haguette (2005) sobre tais autoras/es chama a
atenção quando se refere a Schwartz e Schwartz: “[...] os autores não vêem incompatibilidade
entre ‘objetividade’ e intervenção’, ao contrário, a natureza e qualidade dos dados se
59
BRUYN, S. T. The human perspective in sociology: the methodology of participant observation. New
Jersey, Prientice-Hall, Inc. Inglewood Cliffs, 1966.
106
aperfeiçoam quando o pesquisador desempenha um papel ativo na modificação de certas
condições do meio, em benefício dos observados” (p. 74). Como o objetivo é de explicitar de
modo geral as características básicas da observação participante para a presente pesquisa,
neste trabalho o foco recairá sobre as melhores contribuições de cada produção com vistas a
enriquecer a etapa de imersão em campo. Assim também, o que afirma e defende Bruyn,
segundo Haguette (2005) acerca da observação participante, estabelece-se como um
importante elemento para a construção desta estratégia metodológica:
Axioma 1: O observador participante compartilha da vida ativa e dos
sentimentos das pessoas em termos de relações face a face.
Corolário: o papel do observador participante requer ao mesmo tempo
desprendimento e envolvimento pessoal.
Axioma 2: O observador participante é uma parte normal da cultura e da
vida das pessoas sob observação.
Corolário: o papel científico do observador participante é interdependente
com seu papel social na cultura do observado.
Axioma 3: O papel do observador participante reflete o processo social de
vida em sociedade (BRUYN, 1966, p. 13-20 apud HAGUETTE, 2005, p.
75).
Tais características reiteram e subsidiam a estratégia utilizada por esta pesquisa no
trabalho de campo e produção de dados. A presença de uma pesquisadora que buscou
investigar as interações sobre relações raciais durante aulas de leitura teve como efeito a
alteração da realidade e das práticas das turmas analisadas, sobretudo no planejamento das
aulas.
Uma problemática apontada por Haguette (2005) diante de sua revisão literária acerca
da observação participante refere-se ao que ela chama de calcanhar de Aquiles” em que o
aponta como sendo dois problemas:
a) na relação observador/observados e na ameaça constante de obliteração da
percepção do primeiro em conseqüência do seu envolvimento na situação
pesquisada, envolvimento este inerente à própria técnica, que lhe confere a
natureza que a distingue de outras técnicas; b) na impossibilidade de
generalização dos resultados; por ser uma técnica que busca mais os sentidos
do que as aparências das ações humanas ela coloca seus próprios limites;
[...]. Sua força é, também, sua fraqueza... (HAGUETTE, 2005, p. 76).
Embora tais elementos representem, sem dúvida, considerações importantes para o
processo de coleta/produção de dados, a preocupação com o risco excessivo de envolvimento
é tema de discussão também de Manuel Jacinto Sarmento (2003) que, ao se referir à
107
perspectiva da pesquisa etnográfica, apresenta uma afirmação também condizente com a
observação participante:
Segundo Peter Woods, no trabalho etnográfico tem lugar uma cena adicional
da luta omnipresente a que chamaríamos ontológica entre Eu e Mim, o
princípio da realidade e o princípio do prazer, a necessidade e a liberdade. A
cena desenrola-se tendo por enredo os seguintes dilemas: envolvimento do
investigador no contexto investigado versus distância crítica; criatividade na
interpretação versus rigor da avaliação; assunção aberta da investigação
versus encobrimento por motivos estratégicos ou éticos [...].
[Contudo] [...] o envolvimento efectivo pessoal, intelectual e emotivo
com as problemáticas e situações estudadas na investigação, se afasta a
ilusão da distância, não obnubila necessariamente o sentido crítico: este é
mesmo uma das componentes necessária àquele envolvimento
(SARMENTO, 2003, p. 158).
É sob tal perspectiva que esta pesquisa concorre para o estabelecimento de um estudo
científico que não ignora a existência e participação da pesquisadora enquanto sujeito atuante
de seu mundo. Portanto, defende-se a ideia de que o envolvimento com o campo de relações
estudado é importante para a sua análise crítica. Além disso, o desenvolvimento de áreas
como a literatura feminina (e/ou feminista), a história das mulheres, a literatura negra e o
movimento de Negritude têm explicitado como é fundamental a voz daquelas/es que foram
classificadas/os como Outros”. As possibilidades de rupturas e quebras de discursos
hegemônicos estão diretamente relacionadas às condições de presença dos discursos
daquelas/es que se dizem na produção intelectual e acadêmica. A seguir serão relatados os
procedimentos adotados para a transcrição dos discursos produzidos nas duas escolas.
5.1 O trabalho de transcrição dos dados
Para explicitar os detalhes envolvidos no processo de coleta/produção de dados desta
pesquisa, é importante delimitar em que metodologia esta coleta/produção se ancora. Além
das anotações feitas no campo, buscando observar diversos elementos que compõem as salas
de aula pesquisadas e as escolas como um todo, para a gravação do áudio foram utilizados
dois gravadores: um MP3 Player LSC_91N171V_A1 9.1.52 e um Powerpack DVR-1920, que
eram posicionados em locais opostos (um sobre a mesa da professora e outro no fundo da
sala, onde eu também me posicionava). Embora tenha utilizado equipamentos adequados,
nem todas as falas foram possíveis de serem captadas, por conta dos barulhos externos e das
próprias crianças.
108
O percurso de escolha da metodologia de transcrição passou por diversos modelos. O
artigo Transcrição lingüística, de Maria da Conceição Paiva (2007), forneceu subsídio teórico
na área. O trabalho da autora consistiu em apresentar variados modelos de transcrição de
dados, além de destacar elementos fundamentais que devem ser considerados durante o
processo. Um deles tem relação com os objetivos da pesquisa:
De certa forma, podemos afirmar que a transcrição pressupõe uma pré-
análise dos dados, na medida em que nosso posicionamento teórico
preestabelece, muitas vezes, a própria unidade de análise a ser considerada (a
sentença, a unidade entonacional, o turno conversacional). [...] E, além disso,
[...] é a orientação teórica do pesquisador e os seus objetivos que modelam
previamente um conjunto de convenções (um sistema de transcrição) que
norteará a transposição dos registros orais para uma forma gráfica. Esse
sistema de convenções se faz necessário para garantir um mínimo de
consistência no processo de transcrição dos dados da fala (PAIVA, 2007, p.
135).
Outros elementos apontados pela autora em relação aos cuidados que devem ser
considerados tanto no momento (e para quem faz a) da notação das falas quanto para quem
a notação foram reunidos, a seguir, em forma de tópicos:
a) [...] qualquer notação gráfica do oral é descontínua [..] pois tem de
recorrer a elementos discretos (letras, palavras, frases) para repensar o que se
manifesta como um fluxo contínuo.
b) [também é] [d]issociativa, pois, por mais elaborado que seja, nenhum
sistema de transcrição consegue reproduzir a conjugação dos componentes
segmental e suprassegmental própria do discurso falado. Assim, as pausas,
as diferenças de entonação e de altura da voz, os alongamentos de vogais e
consoantes, a intensificação (ênfase) de sílabas ou palavras traduzir-se-ão em
problemas particulares de notação, uma vez que jamais estão isentos de uma
avaliação subjetiva por parte daquele que transcreve e, não raro, estão
sujeitos a um processo de filtragem por parte do ouvinte.
c) [o] discurso falado, em maior ou menor grau, a depender do seu grau de
planejamento, está impregnado de hesitações, repetições, gaguejos,
truncamentos e falsos começos que exigem recursos especiais de notação, já
que os recursos disponíveis nos sistemas ortográficos não são suficientes
para dar conta de todos esses aspectos.
d) [...] os eventos de ocorrência de superposições de fala e de sons ou
palavras que servem para estimular a conversação.
e) [...] o discurso falado se caracteriza [...] por uma associação de
particularidades contextuais, como gestos e posturas, que podem ou não ser
de interesse do pesquisador (p. 135-136).
Para proceder à escolha do modelo de transcrição mais adequado para a análise
proposta, foi importante considerar as necessidades da pesquisa, concordando com o que
aponta Paiva (2007, p. 137): “qualquer sistema de transcrição pode ser definido em função
109
dos seus objetivos e das suas finalidades”. A autora apresenta diversos possíveis modelos,
sempre com a ressalva de que “[n]ão há fórmula mágica ou modelos inquestionáveis, existem,
sim, alguns princípios que o pesquisador deve seguir para obter o máximo possível de
regularidade e coerência no trabalho de transcrição” (PAIVA, 2007, p. 137).
Por fim, a pesquisa de Moita Lopes (2002) apresentou um modelo que acabou por ser
considerado o mais adequado à presente pesquisa. Nesse sentido, o sistema de convenção
utilizado apresenta os seguintes códigos:
AS - quando várias crianças falam ao mesmo tempo;
G - fala de um garoto;
M - fala de uma menina;
P - fala da professora;
Pq - fala da pesquisadora;
( ) - algo inaudível;
/ - pausa curta;
// - pausa longa;
[ - fala sobreposta.
Contudo, outros elementos subjetivos à transcrição foram necessários serem criados:
no que se refere à fala das crianças, nem sempre foi possível identificar as vozes, o que exigiu
a criação de mais códigos:
M¹, M², M³, etc. - para meninas cujos nomes não são conhecidos;
G¹, G², G³, etc. - para garotos cujos nomes não são conhecidos;
E em algumas situações foi utilizado também G
n
e M
n
, considerando a dificuldade de
identificação até dentro de uma sequência numérica. As transcrições em alguns momentos
foram dificultadas, gerando inclusive a omissão de falas, principalmente das crianças, que
durante as aulas na Escola B a porta das salas pesquisadas ficavam sempre abertas, fazendo
com que os barulhos externos prejudicassem a audição. Preferi não solicitar à professora que
as fechasse pelo fato de ela ter ressaltado em alguns momentos que não gostava de trabalhar
com a porta fechada. Resta, portanto, acrescentar às transcrições (quando houver trechos
inaudíveis) informações feitas pelo diário de campo.
Outro procedimento utilizado por Moita Lopes (2002) também foi adotado nas
transcrições. Assim como o autor, a proposta de analisar os discursos produzidos não pretende
incidir em consequências de culpabilização ou exposição de nenhum dos indivíduos. Portanto,
110
“[p]or motivos éticos [...], todos os nomes de alunos usados na transcrição são fictícios. Estou,
de fato, [...] usando nomes estrangeiros para evitar qualquer possibilidade de identificação
com qualquer aluno naquela turma específica ainda que o nome da escola e a turma não sejam
revelado, pelas mesmas razões” (MOITA LOPES, 2002, p. 102).
5.2 Trabalho de campo: a construção do estudo exploratório
O processo de coleta/produção de dados obedeceu a algumas etapas preliminares (de
fevereiro a março de 2009), em que apresentamos uma solicitação formal à Secretaria
Municipal de Educação de Curitiba, por meio de ofício. A partir do protocolamento do ofício
no Departamento de Educação, foi necessário aguardar o tempo de análise do documento e
pesquisa por parte de profissionais da Secretaria de escolas que desenvolvessem aulas de
leitura em horário e dias específicos sem, necessariamente, ter vinculação com o ensino de
língua materna.
Após a realização da pesquisa de escolas que atendiam ao perfil do estudo
60
, a
responsável pela análise do pedido de autorização me consultou por telefone para que eu
fornecesse mais informações do que se tratava a minha pesquisa. Inicialmente preocupei-me
com a burocracia envolvida no procedimento, pois havia recebido instruções anteriores de que
poderia protocolar um ofício ou um projeto, e o que fiz foi optar pelo primeiro. depois que
entendi, segundo informações desta profissional, que minha autorização havia sido dada
sem a necessidade de entrega de projeto pelo fato de eu ter um bom acesso dentro do
Departamento
61
. Passado o tempo, e ponderando a situação, considero que talvez se os
protocolos tivessem sido seguidos à risca desde o início não haveria ocorrido tantos
transtornos
62
na coleta/produção dos dados.
O segundo passo, com o documento de autorização em mãos, foi contatar a direção da
escola, pois no texto da autorização estava explicitado que poderia realizar a pesquisa se a
direção do estabelecimento estivesse de acordo. Outra informação explícita que recebi do
setor responsável da Secretaria Municipal de Educação pela análise de projetos de pesquisa e
emissão de autorizações, é que não havia a necessidade de elaboração de formulários de
autorização individuais, já que esta pesquisa não faria uso de imagens e os nomes das crianças
60
A escola a mim indicada pertencente ao Núcleo Regional de Educação do Boqueirão.
61
Isso se deve ao contato constante que mantinha com profissionais do setor devido a nossa atuação conjunta
como membros do Fórum Permanente de Educação e Diversidade Étnico-Racial do Paraná.
62
Como serão mais bem relatados posteriormente.
111
participantes seriam todos fictícios. Mesmo assim, este tema foi pauta de várias reuniões de
orientação até que, finalmente, meu orientador e eu chegamos à resolução de que não haveria
a necessidade ética de ampliar as solicitações de autorização, devido aos cuidados de não
identificação de nenhum participante seja por nome, endereço ou identificação da escola.
Durante o exame de qualificação este assunto foi retomado e a opção estabelecida é a de
proporcionar por meio de devolutiva às crianças participantes da pesquisa as informações
sobre a importância deste trabalho, enfatizando que não houve nenhuma forma de exposição
ou menção as suas verdadeiras identidades.
No primeiro contato por telefone, a diretora foi solícita, dispondo-se a investigar com
as professoras qual delas poderia me receber em sua sala. Informei o tema da minha pesquisa
(literatura infanto-juvenil e relações raciais) e os procedimentos metodológicos: as aulas
seriam gravadas e eu faria análise do discurso das crianças e da professora diante da leitura de
obras que representam personagens negras de forma estereotipada ou valorizada.
Dias depois, conforme pedido da diretora, retornei a ligação buscando saber em qual
das turmas faria a pesquisa. Ela me explicou que no ano anterior a escola havia desenvolvido
um projeto de leitura e que neste ano de 2009 ainda não havia sido reiniciado pois a biblioteca
estava em construção. Desta forma, havia uma única professora que mantinha as aulas de
leitura no formato do projeto e que eu poderia realizar a coleta/produção de dados.
Como a proposta neste momento é apresentar basicamente os procedimentos de
coleta/produção de dados e os motivos que levaram à ampliação da pesquisa para outra
escola, sintetizarei as informações que serão mais bem detalhadas a seguir.
Estudo Exploratório – Escola A
Marquei a primeira visita à Escola A
63
levando somente o documento de autorização
expedido pela Secretaria de Educação de Curitiba (já que neste período não sabia da
necessidade da apresentação do projeto). Fui bem recebida pela diretora que me apresentou à
diretora auxiliar e à pedagoga. Ela me explicou que as aulas de leitura aconteciam nas
quartas-feiras das 7h40min
64
às 8h e solicitou que eu desse informações do que faria a cada
dia de pesquisa na escola. Obviamente eu concordei. Assim, fui apresentada à professora que
me recebeu de forma muito aberta e disposta a me ajudar. Solicitou que eu aguardasse a
63
No dia 08/04/2009. Chamarei o primeiro estabelecimento pesquisado e onde se desenvolveu o estudo
exploratório de Escola A.
64
As aulas iniciavam às 7h30min.
112
entrada das crianças e as primeiras instruções do dia e entrasse no horário da aula de
leitura.
Com um roteiro semi-estruturado de observação, atentei para outros aspectos além do
espaço de sala de aula a ser pesquisado: cartazes, ilustrações e diversidade étnica das crianças
e profissionais da escola. Ao ser encaminhada à sala, acompanhei a decoração dos corredores
que apresentavam ilustrações de crianças e pessoas adultas brancas, sem nenhuma imagem de
outro grupo humano. Ao chegar à sala fui apresentada pela professora às crianças que me
receberam de forma séria pois haviam iniciado a leitura (cada criança com um livro).
Procurei sentar-me no fundo da sala (que era bem apertada) para causar menos incômodos às
crianças e à professora. Havia uma única carteira desocupada. Após eu me sentar uma aluna
que havia chegado atrasada entrou e teve que buscar carteira em outra sala.
A professora perguntou se eu estava com um livro para ler e eu disse que sim mas
preferia pegar um dos que haviam sido disponibilizados por ela. Ao observar os livros que
estavam sobre a mesa da professora e ao passar os olhos sobre os das crianças percebi que
faziam parte de obras:
1) Livros de coleções “toscas”
65
;
2) Livros do Programa Literatura em Minha Casa destinados à 4ª série;
3) Gibis.
Não havia, no acervo da professora (que ficava dentro de uma caixa-arquivo), nenhum
livro enviado pelos programas mais recentes de distribuição de livros, e muito menos que
valorizasse a cultura afro-brasileira e africana ou indígena.
No primeiro dia havia me comprometido a somente observar a aula de leitura e o
realizar gravações. Foi a partir daí que me deparei com os primeiros problemas operacionais
da pesquisa. Tinha como suposição que as aulas de leitura eram estruturadas com base na
leitura propriamente dita e posterior debate sobre a(s) obra(s) lida(s); ou em leituras ora feita
pela professora (num formato de contação de histórias) ora por alguma criança. Verifiquei que
a aula de leitura restringia-se à leitura somente. Passados os vinte minutos cronometrados, a
professora levantou-se e explicou, olhando para mim, que estava terminada a aula de leitura e
que todas as quartas-feiras eram assim.
65
Identifico “livros de coleções toscas” ou qualidade duvidosa aqueles que compõem coleções como “Animais
da fazenda”, “Dinossauros”, “Virtudes”, e outras adaptações de obras clássicas editadas em material inadequado,
sem o cumprimento dos requisitos mínimos estipulados para um livro literário, como exigem, por exemplo, os
Anexos I (Triagem/Critérios de exclusão) e II (Critérios de Avaliação e Seleção) do Edital PNBE 2009 ou os
Anexos I (Critérios de Exclusão) e III (Critérios de Avaliação e Seleção) do Edital – PNBE 2010.
113
Diante da metodologia, perguntei-a se podia ficar até o recreio e ela foi muito solícita
na resposta afirmativa. Iniciou, então, outro momento perguntando, primeiro, quem tinha
conseguido ler o livro até o final. Cinco crianças ergueram a mão e a professora perguntou se
alguém gostaria de comentar sobre o seu texto. Todas que haviam lido ficaram tímidas e se
entreolharam para saber quem teria coragem. Sem muito incentivo e com brevíssima pausa
entre a pergunta e as possíveis respostas das crianças, a professora disse:
Ninguém? Bem, então eu vou comentar sobre a minha leitura. Eu ainda não
acabei pois eu estou lendo algumas quartas-feiras e como não tenho
tempo de ler em outras horas, leio aqui. A história é de Mulheres ( ) e fala
sobre como muitas vezes nós confiamos em contar nossos problemas a
pessoas erradas. A mulher na história está com um problema e decide
contar para quem ela confia, que é Jesus. É Jesus que pode nos ajudar. Ela
tem um problema com a filha que está doente, possuída e Jesus é o único
amigo com quem ela pode contar. Muitas vezes contamos nossos problemas
para os outros mas é só Jesus quem nos ajuda.
Mais alguém quer falar? Então tá.
Depois disso, ela iniciou a aula de matemática. Mas antes passou a pauta do dia no
quadro:
- Oração*
- Matemática
- Italiano
- Recreio
- Matemática
(*A oração não foi feita. Pelo menos enquanto estive na sala.)
A professora começou a corrigir uma tarefa de matemática, mas para ir de carteira em
carteira, ela passou outra atividade. Conforme as crianças tinham dúvidas de como executá-la,
iam até onde ela estava e perguntavam. Sua postura para com as crianças era de muito
carinho, respeito e atenção. Porém, neste primeiro de dois dias em que estive na sala,
verifiquei uma diferença na forma de abordagem a um aluno (a única criança negra da sala).
Como tais impressões não puderam ser comprovadas pelo pouco tempo de imersão nesta
turma, as informações a seguir a esta parte serão analisadas sob a perspectiva de indícios e
não de evidências. Além disso, diante da pouca comunicação estabelecida com a professora e
a equipe pedagógica, torna-se inviável compreender a totalidade das relações entre as crianças
e a professora ou entre crianças e crianças, embora como pesquisadora que lida com sua
pesquisa nos limites entre a subjetividade e a objetividade dos fatos, considero ser estes fortes
indícios, e que poderiam sim evidenciar um tratamento diferenciado no sentido negativo a
114
este aluno. Afinal, concordando com o que afirmou Eliane Cavalleiro (2006, p. 40) em sua
pesquisa: “Sem dúvida, o fato de ter sido criança negra e vivenciado situações muito
semelhantes às que lá encontrei possibilitou-me identificar melhor os problemas”.
A aula transcorreu até o recreio da mesma forma e, ao sair, perguntei à professora se
poderia também assistir as aulas de língua portuguesa, que não conseguiria coletar/
produzir muitos dados em 20 minutos de leitura. Ela me disse que sim, ressalvando que a
forma de ela trabalhar leitura era daquele jeito. Assim, fiz a mesma solicitação à diretora que
autorizou já que a professora havia concordado. Ressaltou que a cada semana eu fosse
informando o que iria fazer na escola.
Durante o tempo que assisti à aula, a professora em nenhum momento perguntou o que
especificamente eu estava investigando em literatura infanto-juvenil, portanto entendi que
estas informações haviam sido passadas a ela anteriormente a minha chegada. Mas fiquei
na dúvida quando ela me perguntou se eu era estagiária. Expliquei-lhe que estava fazendo
uma pesquisa do mestrado. Pude constatar ali os primeiros indícios de um dos grandes
problemas estabelecidos na pesquisa: referente tanto a minha postura em estabelecer pouco
diálogo com a professora por considerar adequado não “interferir” em sua rotina, quanto por
parte da equipe pedagógica de não apresentar com detalhes as informações sobre a pesquisa
que realizaria na escola. Posteriormente, pude verificar que a escola como um todo não teve
acesso à totalidade de informações necessárias para a compreensão da pesquisa e por isso as
dificuldades para o seu desenvolvimento foram intensificando-se.
Como combinado, retornei na semana seguinte
66
para assistir a aula de língua materna
e no dia subsequente mais uma aula de leitura. Ao entrar na sala com a professora, dirigi-me
ao fundo deixando sobre a sua mesa um gravador e o outro posicionado onde eu sentava.
Mesmo estando em locais estratégicos, nem todos os sons foram possíveis de serem captados.
Nesta primeira escola investigada fiquei pouco tempo, que o perfil do trabalho
desenvolvido com leitura, entre outros problemas, dificultou a coleta/produção de dados. A
metodologia de trabalho da professora regente indicada não priorizava a interação entre as
crianças e ela, o que, por consequência, impedia apreensões significativas sobre a recepção da
leitura. Este problema gerou outro: a necessidade de solicitação para assistir às aulas de língua
materna para que pudesse complementar os dados e ter melhor imersão no cotidiano da turma,
inicialmente não aparentou ter gerado manifestação de qualquer contrariedade, sendo que
tanto a professora como a equipe de direção foram muito solícitas. Nas semanas seguintes,
66
Dia 14/04/2009.
115
devido a uma paralisação e feriados não pude ir à escola e, ao retornar, no dia 28/04/2009
para acompanhar a aula de língua materna, por ter chegado no início do intervalo, fiquei
sentada próximo à entrada das salas de aula e da sala das professoras e professores, num
espaço no pátio onde estavam os livros do chamado “Cantinho da Leitura”. Tratava-se de uma
prateleira com uma série de livros antigos e coleções “toscas” (ver Quadro 12, p. 119).
Ao tocar o sinal, fui abordada pela pedagoga que me explicou que naquele dia a
professora não poderia me receber em sua sala pois ela estava fazendo revisão para a Prova
Brasil. Além disso, acrescentou dizendo que a professora havia solicitado que eu
acompanhasse apenas as aulas de leitura como combinado e explicitado no documento
entregue à direção. Não questionei os motivos e, concordando, expliquei as dificuldades e ela
me aconselhou que eu retornasse à escola só depois de a biblioteca ser inaugurada para que eu
pudesse acompanhar melhor o processo de leitura das crianças. Convidou-me para ver, na sala
da direção, os livros novos que haviam chegado para a biblioteca e apresentou um documento
da Secretaria Municipal de Educação que dava instruções de como proceder com os livros: até
o momento da inauguração da biblioteca deveriam ficar em pacotes lacrados (conforme
estavam).
Diante da situação, eu disse que conversaria com meu orientador, mas de qualquer
forma solicitei autorização para registrar, naquele dia, as referências dos livros que eram
disponibilizados para leitura no recreio. No dia seguinte ainda liguei para a diretora que me
confirmou a dificuldade de me receber em outros horários além da aula de leitura por não
conhecerem com detalhes a minha pesquisa, já que o documento apresentado por mim não
indicava muitas informações. Pediu que eu fosse a dia e horário marcados para apresentar à
equipe pedagógica o projeto; isso viabilizaria a realização da pesquisa.
Após isso, meu orientador aconselhou-me a continuar na escola coletando/produzindo
dados na medida do possível. Porém, como também havia feito novo contato com a Secretaria
da Educação para explicar a situação (já que tinha sido orientada se diante de qualquer
problema solicitar indicação de nova escola) e havia tido indicações
67
de que em uma escola
onde outra mestranda trabalhava como supervisora as aulas de leitura eram da forma como
procurava, optei por não levar a diante a pesquisa na Escola A. Por considerar principalmente
os transtornos que minha presença aparentemente estava causando, a opção pelo respeito aos
limites entre a pesquisa acadêmica e a o cotidiano da escola foi mantido.
67
Agradeço a indicação do então mestrando Sérgio Luiz do Nascimento por me lembrar de nossa colega que
também era, como nós, orientanda do prof. Dr. Paulo Vinicius B. da Silva e teria disponibilidade em receber em
sua escola uma pesquisa com este perfil.
116
Durante o curto tempo que estive lá, optei por uma postura discreta, buscando alterar o
mínimo possível a rotina escolar e preservar ao máximo o distanciamento necessário para a
interpretação dos dados. Ao receber convites de entrar na sala das/os professoras/es, por
exemplo, recusava por entender que o ato de explicitar com detalhes a minha pesquisa poderia
alterar a postura típica de conduta da professora. Porém, é no curso da pesquisa, durante os
percalços, anseios desnecessários em busca da preservação do rigor metodológico, que o
crescimento e aprendizagem enquanto pesquisadora acontece. Descobri, no relacionamento
diário na outra escola, que muitas vezes acabamos pecando pelo excesso de cuidados.
Embora o próprio contexto da escola tenha dificultado o desenvolvimento da pesquisa,
um fator externo foi, sem dúvida, o de maior destaque para a interpretação acerca do trabalho
desenvolvido com literatura infanto-juvenil: a burocracia relacionada ao acervo do PNBE
que se origina de uma espécie de preciosismo por parte da mantenedora, impondo-se como
obstáculo para o acesso a uma diversidade de obras e temáticas diferentes das presentes na
escola.
De certa forma, é razoável considerar que deliberações que de caráter “preventivo” de
possíveis depreciações que possam ocorrer com o acervo do PNBE, não deveriam sobrepujar
o interesse maior do programa que é o incentivo à leitura. Analogamente , torna-se válido
conceber que, diante do mito (já superado no campo teórico
68
mas que insiste em resistir no
senso comum) de que a população brasileira não gosta de ler, o fator que mais contribui para
esta afirmativa e que efetivamente influencia os baixos índices de leitura são provenientes,
conforme afirma Brasil (2008, p. 17), do fato de que “o baixo índice de escolaridade com
qualidade e as condições de acesso ao livro são a raiz do problema”. E é, sobretudo, este
último fator que se evidenciou na Escola A por conta da necessidade do cumprimento de
instruções da Secretaria Municipal de Educação de Curitiba, cuja postura foi de não promover
o incentivo à leitura (por meio da ampliação de obras literárias, tanto no que se refere à
variedade de opções quanto à qualidade do material) em prol da preservação do acervo que é
destinado justamente às crianças que dele estavam sendo privadas. Retomando uma citação
explicitada anteriormente, o que se verifica neste contexto é o que Venâncio (2009, p. 97-98)
aponta:
68
Alguns dos trabalhos responsáveis por transpor esta afirmação para um mero mito do senso comum: MAUÉS,
Flamarion. A exclusão da leitura. In: Revista Teoria e Debate. São Paulo, n. 50, fev./mar./abr. 2002; ABREU,
Márcia de Azevedo. Os livros e suas dificuldades. In: Associação de leitura do Brasil. Disponível em: <<
http://www.alb.com.br/ensaios/ens002.asp>> Acesso em 13/09/2009.
117
Sob alegação de que sem educação para o trato com o objeto livro não se
saberá preservar os acervos recebidos, se tem dificultado o acesso dos livros
às crianças, ou seja, ao guardar-se a obra e torná-la assim inacessível a
alguns, numa ação de cunho discriminatório que fomenta, ao invés de
leitura, desigualdade, mantêm-se o acesso aos livros restrito a determinados
grupos.
Mais adiante, a interpretação acerca das obras disponibilizadas à turma da Escola A
até o momento da pesquisa, apresentam maiores detalhes sobre a aparente concepção
pedagógica da literatura infanto-juvenil.
Indícios do estudo exploratório
Na Escola A, havia 29 e 26 crianças, respectivamente, nos dois dias de aula
pesquisados. A sala é bem apertada, sendo que o espaço entre as carteiras é bem pequeno.
Além disso, a iluminação é precária, já que as janelas são pintadas (provavelmente para filtrar
a entrada de luz solar quando esta incide diretamente sobre a sala). Do lado esquerdo um
armário grande onde estão guardados, entre outros materiais, os livros didáticos utilizados
pelas crianças. Sobre ele fica uma caixa contendo os livros de literatura utilizados na aula de
leitura. Não há na sala nenhum cartaz que apresente a diversidade étnica do país.
Fisicamente as crianças são em sua maioria brancas, sendo que apenas um aluno é
reconhecidamente identificado como negro. A professora provavelmente identifica-se como
branca, embora apresente características fenotípicas indígenas (tom de pele e tipo de cabelo).
Esta inferência é possível a
partir da compreensão sobre o processo de “mestiçagem” no
Brasil, conforme análise de Kabengele Munanga (2004). Ao descrever os diversos conceitos
atribuídos à mestiçagem, ele informa que outro autor, Francisco José de Oliveira Viana,
apresentava, já em 1920, proposições aproximadas as de Nogueira:
O conceito de racismo de ‘marca’, mais tarde elaborado por Oracy Nogueira
para distinguir o Brasil dos Estados Unidos, estava em filigrama presente
no pensamento de Viana, através dos conceitos de branco ‘puro’ e
‘aparente’, negro ‘puro’ e ‘aparente’, sobretudo na idéia de que, socialmente,
o branco puro e o branco aparente são igualmente tratados no Brasil.
Os mamelucos superiores tiveram uma ascensão mais fácil e segura na
sociedade colonial do que os mulatos superiores. Viana explica essa
diferença pela dupla superioridade dos mamelucos: não descendem de raça
escrava e aproximam-se mais do tipo somático do homem branco não
pela pigmentação, mas também pelos cabelos nitidamente negros e corredios
(MUNANGA, 2004, p. 84-85).
118
Com isso não quero afirmar que concorde com tais classificações, mas reconheço que
os sujeitos em nossa sociedade atual podem, em diversas circunstâncias e contextos, utilizar
tais definições para estabelecer um posicionamento aproximado destes conceitos, inclusive no
momento de se auto-declararem brancos ao invés de indígenas, dada a carga pejorativa que os
“índios” brasileiros carregam ainda hoje.
a) Concepção de literatura
Por estar com a biblioteca em construção/reforma, foi possível verificar que uma
prática da entidade mantenedora (isto é, da Secretaria Municipal de Educação) é de não
autorizar a utilização dos livros “novos”, principalmente os que compõem o acervo do PNBE.
Seria uma atitude louvável de preocupação com a manutenção de um bem público se não
estivesse influindo diretamente na formação literária das crianças que estudam. Não foi
possível, dados os problemas apontados, listar os livros utilizados pela série pesquisada.
A lista a seguir é da estante “itinerante” chamada “Cantinho da Leitura”, cujos temas dos
livros aproximavam-se daqueles disponibilizados para a turma da 4ª série.
Livros Coleção Autor/a Cidade/Editora/Ano
1 Cartilha Educativa:
Risotolândia serviços
de alimentação
Educação Nutricional para
Unidades da Rede Municipal de
Ensino de Curitiba
2
A bruxa malvada Coleção A turma do bicho-papão AMORIM, Patrícia
Blumenau: Edições
Sabida
3
Subtração Coleção Amiga matemática
AMARAL, Rita de
Cacia P.; ITTNER,
Tânia R. C; BAEHR,
Vivien I.
Blumenau: Edições
Sabida
4
Melinho
Coleção Baby Dinos: aprendendo
a conviver
PABST, Marcel Luiz;
AMORIM, Patrícia;
HECK, Sandra Regina.
Blumenau: Edições
Sabida
5 Lendas e fábulas de
Natal: a vela de Natal AMORIM, Patrícia
Blumenau: Vale das
Letras
6
Elias e o anjo caridoso Coleção Anjos do Senhor FREITAS, Valéria
Blumenaut: Vale das
Letras
7
Branca de neve Os mais belos clássicos AMORIM, Patrícia
Blumenau: Vale das
Letras
8 Be-a-bá edadisrevidoib!
Biodiversidade para
crianças CARVALHO, Ricardo Schmitt
CARVALHO, Ricardo
Schmitt Curitiba, 2006
9
História avacalhada ORTHOF, Sylvia
Curitiba: Editora
Braga, 1997
10
História vira-lata ORTHOF, Sylvia
Curitiba: Editora
Braga, 1997
119
11
Mentirinha!
Coleção Turma do Smilingüido; 4
FIRZLAFF, Jaqueline
J. V.
Curitiba: Luz e vida,
2001
12 Série dinossauros:
estegossauro
Difusão Cultural do
Livro.
13 Brincando com as
cores: dinossauros Editora Brasileitura
14
A ovelha Dorinha Coleção A vida na fazenda BELLI, Roberto Editora Brasileitura
15
Hamster Coleção Animais de estimação BELLI, Roberto Editora Brasileitura
16
Papagaio Coleção Animais de estimação BELLI, Roberto Editora Brasileitura
17
José Coleção Clássicos da Bíblia Editora Brasileitura
18
Josué Coleção Clássicos da Bíblia Editora Brasileitura
19
O dilúvio Coleção Clássicos da Bíblia Editora Brasileitura
20
Os discípulos de Jesus Coleção Clássicos da Bíblia Editora Brasileitura
21
O leão e o camundongo
Coleção Fábulas inesquecíveis
brasileiras BELLI, Roberto Editora Brasileitura
22 O rato do campo e o
rato da cidade
Coleção Fábulas inesquecíveis
brasileiras BELLI, Roberto Editora Brasileitura
23 A bela adormecida /
A bela e a fera Coleção Histórias Encantadas MARQUES, Cristina Editora Brasileitura
24
A bela adormecida
Coleção Os mais belos contos
clássicos Editora Brasileitura
25
O porquinho Pig Coleção Animais fofos MOURA, Paulo Editora Ciranda Cultural
26
To paint Coleção Atividades de Inglês Editora Ciranda Cultural
27 Seleção brasileira:
jogadores Coleção Show da Copa
BUCHWEITZ,
Donaldo Walter Editora Ciranda Cultural
28
O pássaro sem cor
PASCOAL, Luís
Noberto
Ed. Fundação Educar
DPaschoal, 2004.
29
O livro do "Eu"
Encyclopaedia
Britannica do Brasil
Publicações LTDA
30 Pena de pato e de tico-
tico
MACHADO, Ana
Maria; CLAUDIUS
Rio de Janeiro:
Salamandra, 1988
31 O gato do mato e o
cachorro do morro
MACHADO, Ana
Maria São Paulo: Ática, 1986
32
O equilibrista
ALMEIDA, Fernanda
Lopes de; LOPES,
Fernando de Castro. São Paulo: Ática, 1998
33 O pavão do abre-e-
fecha
MACHADO, Ana
Maria São Paulo: Ática, 1998
34
A formiga falante Coleção Os bichos grandões São Paulo: DCL
35
Além do Rio ZIRALDO
São Paulo:
Melhoramentos, 1986
36
O cantor prisioneiro BRASIL, Assis.
São Paulo: Moderna,
1987
37
A anunciação Coleção Tempo de Natal W. Buch
QUADRO 12 – LIVROS DO “CANTINHO DA LEITURA” – ESCOLA A
FONTE: AUTORA
É possível verificar, por meio desta lista, que mesmo as obras enviadas pelas edições
anteriores do PNBE não estão acessíveis às crianças. Como os pacotes contendo os novos
livros estavam lacrados, não tive acesso aos seus respectivos títulos para identificar se
120
estavam também os livros adquiridos pela Secretaria Municipal de Educação sobre a
diversidade étnico-racial (conforme Anexo 1). Diante deste fato, a hipótese é de que os títulos
mais antigos dos programas federais e municipais, que certamente compuseram o acervo da
biblioteca nos anos anteriores, foram distribuídos (diluídos) em caixa-arquivo para as diversas
turmas da escola. Isso justificaria a presença de obras da Coleção Literatura em Minha Casa
(que observei na 4ª série pesquisada), juntamente com livros de qualidade “duvidosa”.
Dois aspectos podem ser evidenciados de antemão nestes dados: o primeiro relaciona-
se à ideologia envolta em obras como algumas das listadas acima, e o segundo ao tratamento
desigual da diversidade étnico-racial na “literatura” que compõe este acervo.
Analisando primeiramente o teor do acervo (com base no tulo, na coleção e na
popularidade das/os autoras/res) é possível classificar e quantificar os livros da seguinte
forma:
2 Fábulas
2 Não identificados
3 Dinossauros
3 Contos de fadas
4 Didático (“educativo”)
6 Religiosos
6 Animais
9 Literatura
Por meio desta classificação (feita sem nenhum critério mais aprofundado que os
apresentados anteriormente) é importante ressaltar que os contos de fadas são adaptações
extremamente sintéticas que têm função muito mais de treinamento de leitura do que propiciar
o acesso a uma obra clássica de origem europeia. Isso se aplica também aos livros de tema
“animais”, “dinossauros” e “fábulas”. No que se refere aos “educativos”, a presença de
livro sobre a diversidade ambiental, cartilha alimentar (de uma empresa terceirizada que
fornece merenda à rede municipal de educação), matemática e inglês. Um possível contra-
argumento à crítica que aqui se constrói seria no sentido de que o espaço intitulado “Cantinho
da Leitura” não precisa ter vinculação direta com a literatura, pois pode ser intencional a
presença de textos de diversos gêneros e tipologias.
Contudo, mesmo em se considerando tal perspectiva, o questionamento maior (e é
que se verifica com grande ênfase a presença de ideologia) é no que se refere tanto à
quantidade quanto à temática dos livros classificados aqui como “religiosos”. Por meio dos
títulos anteriormente descritos, é possível identificar que todos são de uma única matriz
121
religiosa: a judaico-cristã. Neste sentido, além de não estar sendo contemplada a diversidade
religiosa do país, está-se ferindo um direito constitucional, o qual prevê:
Art. 19. É vedado à União, aos Estados, ao Distrito Federal e aos
Municípios:
I - estabelecer cultos religiosos ou igrejas, subvencioná-los, embaraçar-lhes o
funcionamento ou manter com eles ou seus representantes relações de
dependência ou aliança, ressalvada, na forma da lei, a colaboração de
interesse público;
II - recusar fé aos documentos públicos;
III - criar distinções entre brasileiros ou preferências entre si (BRASIL,
1988).
De forma subjetiva, também se pode inferir que este privilégio a uma única matriz
civilizatória tem base na concepção errônea de que ao se falar de “Deus”, “Jesus”, “Bíblia”,
a contemplação de todos os credos e crenças, numa espécie de unificação que, segundo os
modus operandi da ideologia de Thompson (2002), tem a ver com “a construção, no vel
simbólico, de uma forma de unidade que interliga os indivíduos numa identidade coletiva,
independentemente das diferenças e divisões que possam separá-los” (THOMPSON, 2002, p.
86). Desta forma, a circulação de formas simbólicas neste caso específico os livros que
relacionem somente um segmento religioso a todo o grupo composto pelas crianças da escola,
homogeneíza suas concepções individuais como sendo únicas e unânimes.
E as estratégias recorrentes podem ser relacionadas tanto com a padronização, como
elemento recorrente da unanimidade e unidade quanto com a simbolização da unidade que se
faz representar na reiteração constante da imagem de um único ser sagrado e único conjunto
de leis que regem a vida espiritual de todas as pessoas, num sentido de “universalização”.
Tal processo auxilia na manutenção de uma representação coletiva de que o país,
embora rico em diversidade ambiental, cultural e étnica (sob uma perspectiva do mito da
democracia racial), tem um mbolo que os une: a religiosidade, que possui variações entre
católica e evangélica mas mantém a unidade num modelo cristão. Esta situação vincula-se
diretamente à prática da sala de aula em questão, que será o próximo tópico de análise de
indícios.
Ainda relacionado à qualidade das obras disponibilizadas, outro aspecto relevante
refere-se às condições de produção de uma aula de leitura que compreenda não a
necessidade de que os alunos leiam diferentes tipos de textos e com diferentes intenções e
funções” (COLOMER e CAMPS, 2002, p. 90) mas uma literatura como “agente de
122
formação” (COELHO, 2002, p. 15), responsável por promover os recursos adequados para o
desenvolvimento do autoconhecimento e [... acessibilidade] ao mundo da cultura que
caracteriza a sociedade a que [a criança] pertence” (COELHO, 2002, p. 17, destaques da
autora).
Diante do relato sobre as condições de leitura propiciadas nesta escola, é possível
considerar que a ausência de uma política municipal específica de fomento à literatura
infanto-juvenil impossibilita ou dificulta o estabelecimento de condições adequadas e
igualitárias a todas as escolas. Firmando-se em modelos cujos momentos dedicados à leitura
sejam estabelecidos com base em critérios múltiplos, além de serem facultativos
69
, a
presença, neste sentido, de indícios marcadamente ideológicos no que se refere ao acesso e
promoção da literatura como bem cultural torna-se evidente. Como afirma Thompson (2002),
a ideologia se faz presente também em contextos específicos que “podem estar ligadas a
desigualdades e a assimetrias mais amplas, que passam de um contexto a outro” (p. 18).
Com isto, quero afirmar que uma situação aparentemente desconectada de qualquer
relação ideológica como as poucas condições da professora em desenvolver um trabalho
com literatura infanto-juvenil que abarque uma variedade qualitativa maior de livros pode
representar, por si só, ideológica por firmar-se sob a égide de uma fragmentação (no sentido
thompsoniano), ao proporcionar formação literária com pouco comprometimento contextual,
promovendo um cerceamento ao invés de ampliação s crianças leitoras) das possibilidades
de “ler” o mundo a sua volta sob perspectivas além do modelo marcadamente didatizante e
doutrinário. Tais indícios agravam-se no sentido de evidenciar a ideologia presente na
produção literária, sobretudo quando são confrontados com os preceitos teórico-
metodológicos da Secretaria Municipal de Educação, explicitados nas Diretrizes
Curriculares para a Educação Municipal de Curitiba (2006):
Para formar bons leitores, precisa-se de bons textos orais e escritos, entre os
que circulam socialmente. Bons textos são os que possuem significação, ou
seja, intencionalidade, interlocução e linguagem apropriada para o
interlocutor, e que acrescentam informações e subsídios lingüísticos. Um
bom texto encanta os leitores de diferentes maneiras. No ensino da leitura,
bons textos são os que encantam pela leitura em si (CURITIBA, 2006, p.
209).
69
Neste sentido, considero o termo “facultativo” adequado por verificar que se trata de uma opção (desde que
ressalvadas as condições básicas: a existência de uma biblioteca) em desenvolver ou não momentos destinados
especificamente à leitura. No caso desta escola, por exemplo, a única professora que desenvolvia o projeto de
leitura na época era esta pesquisada.
123
Ao propor essa análise, o objetivo é de evidenciar que muito além de possíveis
metodologias pouco adequadas, e pequena ou nenhuma disponibilidade de tempo (e tempo
com qualidade) para a leitura literária, os indícios apontam para uma contradição entre o que
se prega como a necessidade da presença de bons textos” e a real condição de escolas
municipais de Curitiba. Mesmo que em caráter provisório que a biblioteca estava em
reforma e o possível argumento sobre a manutenção dos livros novos lacrados em pacotes seja
no sentido de preservá-los a maneira como as aulas de leitura foram organizadas
provisoriamente e por meio de apenas uma professora de uma única turma, contribuem para a
conclusão de que a ausência de uma política educacional efetiva para a promoção da literatura
infanto-juvenil nas escolas (e que não dependa unicamente do engajamento pessoal dos
profissionais de um ou outro estabelecimento) reitera uma relação assimétrica no acesso e
promoção da leitura às crianças estudantes da rede municipal. Esta reiteração é caracterizada
por Thompson (2002) como sendo, portanto, ideológica, por firmar-se em um modelo de
abordagem da literatura infanto-juvenil desconexo do contexto de literatura de qualidade,
responsável por “encanta[r] os leitores de diferentes [e não únicas] maneiras” (CURITIBA,
2006, p. 209).
Reafirmo, aqui, que esta análise preocupa-se em reconhecer, em contextos particulares
(ou menores), possíveis marcas de uma ideologia sobre a produção literária relacionada a um
contexto institucional, maior e ampliado, por meio do qual é possível afirmar que “[...] a
interpretação da ideologia possui uma conexão intrínseca com aquilo que se pode chamar de
crítica da dominação: ela está metodologicamente predisposta a estimular uma reflexão
crítica sobre as relações de poder e dominação” (THOMPSON, 2002, p. 38, destaques do
autor).
Neste caso, discutir sobre a ausência de obras que apresentem a diversidade étnica do
país, responsável por possibilitar um maior contato com a cultura indígena e afro-brasileira
(como preconizam as Leis 11.645/2008 e 10.639/2003) torna-se mais difícil, que
provavelmente o acervo (Anexo 1) disponibilizado pela Secretaria Municipal de Educação a
todas as escolas estivesse também presente nesta porém em pacotes lacrados à espera do
momento “propício” para seu uso. Mais uma vez, portanto, o tema da “diversidade” que,
como o termo “exclusão”, tem sido “empregado por quase todo o mundo para designar quase
todo o mundo” (Avelino da Rosa OLIVEIRA, 2004, p. 160), fica relegado a segundo plano,
por se tratar de um dos problemas inseridos no contexto de ausência de literatura de
qualidade. Novamente a ideologia, desta vez racista, evidencia-se por meio de diversas
estratégias, dentre as quais se destaca a universalização, em que os interesses de alguns são
124
apresentados como interesses de todas as pessoas. Em outras palavras, a presença de modelos
e temas “literários” (verificados com base em observação na escola) que não abordam a
diversidade étnico-racial, corroboram a manutenção de uma assimetria no que se refere à
representação da humanidade, que, ao preconizar uma única matriz civilizatória e/ou sub-
representar as demais, estabelece-se a branquidade como norma.
Outra estratégia que pode ser adequada para sintetizar as demais verificadas neste
contexto é o silêncio (SILVA, 2008a) ao ocultar a assimetria presente no acervo
disponibilizado a crianças leitoras, como se, tanto no que se refere à qualidade literária
unicamente quanto à diversidade humana, a variedade de livros disponibilizada para leitura
fosse suficientemente “diversa” a ponto de ser responsável por promover às/aos suas/seus
leitoras/es a fusão “dos sonhos e a vida prática, o imaginário e o real, os ideais e sua
possível/impossível realização...” (COELHO, 2002, p. 27), do qual a literatura enquanto
manifestação artística se propõe.
Mesmo considerando que esta análise parte de uma base indiciária sobre as condições
de acesso à literatura infanto-juvenil em uma escola da rede municipal de Curitiba, foi
elaborada com base em um contexto sócio-histórico que forneceu elementos suficientes para,
a partir da perspectiva de ideologia de Thompson (2002), estabelecer o que pode ser
considerado como uma relação assimétrica a serviço do poder. Portanto, é concordando com
este autor que a escolha por apontar indícios de uma ideologia literária e racista parte da
tentativa de que “podemos rejeitar a busca de certeza sem abandonar a tentativa de elucidar as
condições sob as quais podemos fazer juízos razoáveis sobre a plausibilidade, ou a
implausibilidade, de uma interpretação, ou sobre a legitimidade ou não de uma instituição” (p.
39).
b) Hegemonia discursiva no que se refere à manifestação religiosa
No capítulo anterior, a apresentação no quadro da pauta do dia uma espécie de
horário de aula (1º dia de pesquisa na Escola A
70
) forneceu indícios importantes sobre a
presença de uma hegemonia religiosa que é preciso ser retomado aqui:
- Oração*
- Matemática
- Italiano
70
Dia 08/04/2009.
125
- Recreio
- Matemática
(*A oração não foi feita. Pelo menos enquanto estive na sala.)
A vinculação entre os livros disponibilizados no “Cantinho da Leiturae a prática de
oração nesta turma de série está no fato de, mesmo eu não tendo acesso à primeira parte da
aula (a oração) para confirmar tal análise, é possível considerar que há, nesta escola, a
presença reiterada de uma apologia a uma única matriz religiosa. Não é possível estabelecer
uma ressalva (muito menos hipótese) de que o termo “oração” como pauta do dia de aula
contemple outras matrizes como a budista, a umbanda, o candomblé ou o islamismo, por
exemplo. Relembrando a definição de ideologia proposta por Thompson (2002, p. 16:
“[i]deologia [...] é sentido a serviço do poder”), é evidente que estamos diante,
verdadeiramente, de uma manifestação ideológica que muitas vezes é ignorada ou
simplesmente não diagnosticada nas escolas públicas brasileiras.
Outro aspecto confirma esta (re)interpretação: a fala da professora realizada após os 20
minutos de leitura:
71
[...] Bem, então eu vou comentar sobre a minha leitura. Eu ainda não
acabei pois eu estou lendo algumas quartas-feiras e como não tenho
tempo de ler em outras horas, leio aqui. A história é de Mulheres ( ) e fala
sobre como muitas vezes nós confiamos em contar nossos problemas a
pessoas erradas. A mulher na história está com um problema e decide
contar para quem ela confia, que é Jesus. É Jesus que pode nos ajudar. Ela
tem um problema com a filha que está doente, possuída e Jesus é o único
amigo com quem ela pode contar. Muitas vezes contamos nossos problemas
para os outros mas é Jesus quem nos ajuda. Mais alguém quer falar?
Então tá.
É possível identificar no discurso da professora a sua concepção religiosa de forma
latente e constante. Não só neste exemplo de sua escolha de leitura e na forma como narra o
enredo da história, mas em contextos diários como quando informa (no segundo dia de
pesquisa na escola
72
) que no dia seguinte não haveria aula:
01 P: Crianças, então prestem atenção aqui ó. / Então vocês vão levar
02 este bilhete pra casa. Podem colar na agenda, tá. Então amanhã vai ter,
03 como teve estes dias, no dia // 15 passado, né? 30? Dia 30? Dia 31 teve,
04 isso. Dia 31 teve aquela paralisação. Amanhã vai ter novamente. Tá
71
Neste primeiro dia de aula não realizei a gravação.
72
Dia 14/04/2009.
126
05 explicando aqui, / tá, direitinho. Peça pros pais de vocês lerem,
06 olharem. Vamos torcer para que se Deus quiser, em Nome de Jesus,
07 amanhã Deus vá à frente e sensibilize o coração daquele prefeito,
08 daquelas pessoas que têm o poder pra/ pra ganhar esta causa, né, pra
09 conceder o que, né, a categoria está pedindo para que não haja, / que
10 não haja a necessidade da gente ficar parado por mais dias. Não é meu
11 desejo, não é desejo de nenhuma professora. A gente quer tá junto,
12 trabalhar, / né, ensinar vocês mas a coisa tá bem difícil. Então vamos
13 torcer, aqueles que têm ( ), e fazem as suas orações, orem mesmo neste
14 sentido pra que Deus vá a frente desse aumento e que seja uma coisa
15 abençoada, né, pra que dê tudo certo, pra que o prefeito, a prefeitura
16 entenda, né, a nossa situação. Não é, não é uma situação de rebeldia por
17 parte dos professores, nada disso. É que infelizmente, realmente tem
18 gente aí que tá ganhando muito pouquinho mesmo. A professora ( ),
19 por exemplo, é uma das que ganha bem pouquinho aqui na escola. Ela
20 quase, ela mesmo me falou ali agora, ela quase paga pra trabalhar. E
21 tem muita gente aí que pensa aí: “Não, os professores ganham bem, só
22 trabalham quatro horas...”, quatro horas nós trabalhamos aqui com
23 vocês, mas em casa, eu em casa, às vezes eu fico mais quatro horas pra
24 fazer o planejamento de vocês porque as quatro horas que a gente tem
25 uma vez por semana aqui não dá tempo. A gente tem planejamento, tem
26 que fala de vocês, tem conselho de classe, tem um monte de coisa pra
27 fazer. Então num é, num é bem assim como a mídia fala, fala na
28 televisão (INTERRUPÇÃO: UM ALUNO ERGUEU O BRAÇO).
29 Calma, tá aqui comigo ainda, agora é outro assunto. Entenderam,
30 pessoal? //Então amanhã vão / em casa, dormindo, descansando, né,
31 tranquilamente e cuidem vocês pra que Deus ajude pra que já na
32 sequência, porque amanhã já resolva. Se não ficar resolvido
33 provavelmente daí na na quinta-feira vocês vêm normalmente daí se
34 tiver / resolvido, esperamos que esteja né, se não tiver daí a gente vocês
35 levarão outro bilhete. // Mas não esqueçam de colocar o bilhete, colem
36 colem na agenda. Coloquem a data bem rapidinho lá pra gente
37 continuar o trabalho.
Este elemento, associado à prática diária de exercício de oração (pois neste dia, 14/04
a pauta também apresentava “oração”), reitera a informação de que a ideologia, neste sentido,
é utilizada para privilegiar uma matriz religiosa. A forma utilizada pela professora para
convencer e informar às crianças sobre as decisões do sindicato que influenciam diretamente
na escola, demonstram que a argumentação escolhida pauta-se muito mais em elementos de
cunho subjetivo e pessoal da sua crença religiosa, do que em fatores substanciais responsáveis
por demonstrar as reivindicações e as justificativas da categoria em fazer uma paralisação.
Desta forma, a legitimação evidencia-se porque “[...] está baseada em certos
fundamentos, expressa em certas formas simbólicas e que pode, em circunstâncias dadas, ser
mais ou menos efetiva” (THOMPSON, 2002, p. 82). Quando o autor classifica e explicita este
modo geral, ele o faz baseado em Max Weber, que distingue três tipos de fundamentos da
legitimação: “fundamentos racionais (que fazem apelo à legalidade de regras dadas),
127
fundamentos tradicionais (que fazem apelo à sacralidade de tradições imemoriais) e
fundamentos carismáticos (que fazem apelo ao caráter excepcional de uma pessoa individual
que exerça autoridade)” (THOMPSON, 2002, p. 82). Concordando com ambos os autores,
defendo que neste caso especificamente os fundamentos tradicionais estejam em voga no
contexto de fala da professora sobre a paralisação das aulas. A legitimação firma-se por meio
da concordância tácita de que quem “tiver fé” (linhas 12-14) tem condições propícias para
promover as transformações necessárias para os problemas enfrentados pela classe de
professoras/es. Trazendo à discussão uma tradição imemorial, um modelo cristão de e
concepção de vida, legitima-se e ratifica-se tal tradição. Por vezes é importante salientar que
as propostas deste trabalho de re(interpretação) das formas simbólicas não têm como foco de
crítica as pessoas em seus contextos individuais, mas uma organização social que permite que
tais situações ocorram de forma naturalizada e reiterada. O que pesquisas como esta podem
oferecer, portanto, além de uma nova interpretação é a possibilidade de uma “reeducação do
olhar”, uma alteração de perspectiva ou, como nas palavras de Thompson (2002, p. 414), “a
possibilidade de transformação interpretativa da doxa”, transformação esta que “é também
uma autotransformação, no sentido que o questionamento e a revisão do entendimento
quotidiano não é uma atividade realizada apenas pelo analista [...], antes, é uma atividade que
pode ser assumida pelas próprias pessoas cujo entendimento quotidiano foi questionado pelo
processo de interpretação” (destaques do autor).
c) Diferenciações na forma de tratamento em relação às crianças da turma
Outro elemento passível de interpretação de caráter ideológico relaciona-se com a
forma como crianças recebem desigualmente a atenção da professora. Foram apenas duas
aulas de observação e (sendo que destas, apenas uma de gravação) cujos dados dão indícios
de que uma relação assimétrica no que se refere ao grau de aprendizagem e à cor da pele
no relacionamento da professora (especificamente) com o aluno “Chris”, que é o único aluno
da turma heteroclassificado (por mim) como negro. Não foi possível compreender qual(is) (e
se) o aluno apresenta um histórico diferenciado das demais crianças da sala seja no que se
refere a dificuldades de aprendizagem seja no quesito indisciplina
73
. Nos dois dias que estive
73
Utilizo como concepção de indisciplina um dos conceitos apontados por Joe Garcia (2006, p. 125): “No
ambiente escolar o termo ‘indisciplina’ também recebe diferentes conotações. Entre os professores aquele termo
pode se referir a determinadas contrariedades observadas no cotidiano das suas práticas pedagógicas, que
decorreriam de rupturas e tensões produzidas por alunos, tanto em relação aos acordos que estariam sancionados
128
na sala de aula e ao vê-lo durante o recreio próximo à sala da direção com outro colega que
chorava, Chris não apresentou indícios de indisciplina. Mesmo assim, sempre que ele se
deslocava de sua carteira para tomar explicações com a professora para resolver determinada
atividade, a resposta era sempre a mesma: “Chris, vai sentar”. Alguns dados foram
coletados/produzidos na observação do primeiro dia de pesquisa:
- Chris dirige-se até a carteira onde a professora está corrigindo uma atividade de outro
aluno com a intenção de tirar uma dúvida na atividade de matemática e a professora responde
rispidamente (diferente da forma como trata as outras crianças);
- Ao atender as crianças em suas carteiras, constatei que a professora tratava diferente
o aluno Chris. Em um momento, quando finalmente chegou em sua carteira e observou a
atividade do aluno, ela disse: “Ai, Chris, o que que eu faço com você?” O aluno baixou a
cabeça e ficou aguardando a professora retirar-se para continuar a fazer a atividade.
No segundo dia de pesquisa:
- Várias crianças foram autorizadas a irem ao banheiro, mas quando Chris pediu, a
professora não autorizou e menos de um minuto depois autorizou uma menina;
- Novamente Chris foi até a professora e ela não respondeu a sua pergunta sobre o que
era antônimo de uma das palavras no quadro. Somente disse para ele sentar e parar de andar
pela sala.
Com relação às falas, alguns trechos apresentam indícios importantes sobre a relação
estabelecida entre a professora/escola e Chris:
01 P: Chris, pega a sua agenda e vai lá falar com a professora Celie C. (a
02 profa. aproxima-se do aluno). Sua mãe mandou bilhete de ontem por
03 que que você não veio?
04 CHRIS: ( )
05 P: Ela não mandou nenhum bilhete, Chris?
06 CHRIS: ( ) (resposta longa)
(Alguns minutos se passaram).
07 P: Deixou a agenda lá?
08 CHRIS: Ahã. ( ) porque eu pensei que tava de férias e levei o bilhete.
09 P: Férias?
10 CHRIS: Ahã.
11 P: Ê, Chris.
Em outro momento:
formalmente na escola, e particularmente em sala de aula, quanto em relação a expectativas tácitas sobre a
conduta na escola” .
129
12 CHRIS: Professora ( ) leva o caderno ou deixá?
13 P: Deixa, Chris.
14 CHRIS: Deixa? Mas não era pra levar pra casa?
15 P: Não, mas deixa ( ).
No momento em que a diretora-auxiliar entra na sala para dar um recado à turma,
ocorreu a seguinte situação:
(Entra a diretora-auxiliar na sala)
16 DIRETORA-AUXILIAR: ( ) Chris, quem vai contar o que
17 aconteceu lá no recreio pro seu pai e pra sua mãe é você mesmo. Conte
18 a verdade.
Não é possível explicitar, por meio da análise de discurso, o tom escolhido para emitir
a voz, os olhares, a maneira de se expressar, etc. e que certamente denotariam com maior
propriedade do que qualquer argumentação que proponho aqui, de que os indícios apontam o
estabelecimento, nesta sala, de uma hierarquização pautada pelo diferencial de um aluno: sua
cor de pele. Torna-se, portanto, complicado não atribuir estes contextos a um caso de
discriminação conferida, em primeiro plano, à cor da pele do aluno, sobretudo se
considerarmos tal contexto sob o ponto de vista da identidade. Moita Lopes (2002), ao
discutir a relevância da atuação da/o professora/or para a construção das identidades de
estudantes, afirma:
Os professores de língua precisam considerar a linguagem como fenômeno
essencialmente social se suas aulas devem ter qualquer relação com o modo
como usamos a linguagem na sociedade, e isso inclui consciência como,
através do uso da linguagem, construímos nossas várias identidades sociais
no discurso e de como essas afetam os significados que construímos na
sociedade (MOITA LOPES, 2002, p. 54-55).
Se uma reiteração, por exemplo, no tocante ao tom e entonação de voz para se
dirigir a determinado, especificamente, pode-se inferir que isso contribuirá para a construção
de uma identidade que o relega a um espaço de estigmatização (ANDRADE, 2004).
Analisando com mais detalhe cada um dos contextos aqui apresentados, e associando-os à
pesquisa de Eliane Cavalleiro (2006) que identificou elementos semelhantes na relação entre
professora-alunas/os, a interpretação da ideologia aponta para alguns aspectos importantes
sobre as relações racializantes no espaço escolar. O roteiro a seguir (proposto pela autora)
servirá de subsídio para a compreensão de tais contextos:
130
a) Expressão verbal Falas valorativas positivamente (elogiosas) ou
negativamente (depreciativas) explícita ou implícita sobre algum
indivíduo, sobre sua cultura ou sobre o grupo étnico.
b) Prática não-verbalAtitudes que demonstram a aceitação ou rejeição do
contato físico proposto pelas crianças e seus professores – por meio de
abraço, beijo, carinho ou olhar e comportamento que evidencie afeição – e as
tentativas de aproximação ou afastamento entre os indivíduos.
c) Práticas pedagógicas das professoras positiva, negativa ou invisível –,
no uso de materiais (cartazes, livros, revistas, desenhos ou outro meio
qualquer) sobre a variedade étnica brasileira (CAVALLEIRO, 2006, p. 13-
14, destaques da autora).
Diante da situação de um aluno ter se confundido com as datas de dias letivos e férias,
por exemplo, o comentário “Ê, Chris” (linha 11) pode ser indício de uma desvalorização ou
descrença de que o aluno possa ser capaz de elaborar um raciocínio lógico sobre a diferença
abismal existente entre os dias letivos (pois este fato aconteceu no mês de abril) e as férias
(que normalmente ocorrem em julho). Mais que isso, a atitude da mãe em acreditar no filho
(linhas 01 a 03) corroboram a representação negativa da família. Este tom de desvalorização
(“Ê, Chris”) relembra outros, bem mais contundentes mas com efeitos parecidos como, por
exemplo: “Tinha que ser preto!”. Da mesma forma que “quem vai contar o que aconteceu
no recreio pro seu pai e pra sua mãe é você mesmo. Conte a verdade” (linhas 16 a 18)
reforçam a incapacidade além de intelectual do aluno também social, pois ele deverá “contar a
verdade”. vislumbrando uma possível reinterpretação da interpretação aqui proposta, é
possível levar em consideração que este tom e linguagem utilizados para se referir a este
aluno é o mesmo que seria utilizado para qualquer outra criança, que crianças costumam
mentir em situações que comentem algum ato digno de sanção por parte de adultos (sobretudo
pai e mãe). Contudo, pelo acúmulo de situações em que o mesmo aluno é encontrado como
vítima de atitudes que o desvalorizam, torna-se fácil associar mais esta a uma atitude
discriminatória. Assim também como a frase: “Ai, Chris, o que que eu faço com você?
evidenciam um tratamento estigmatizante no sentido verificado nos modos de operação da
ideologia (proposto por Andrade, 2004).
Também utilizando os apontamentos de Cavalleiro (2006), é possível associar sua
análise, juntamente com modos e estratégias propostos por Thompson, aos contextos
retratados sobre a relação entre a professora e o aluno Chris. A expressão verbal, denotada
muito mais pelo tom e entonação de voz do que pelas palavras, apregoam marcas da estratégia
de deslocamento, ou seja, “conotações positivas ou negativas do termo são transferidas para o
outro objeto ou pessoa” (THOMPSON, 2002, p. 83). Especificamente neste caso, o
deslocamento atua no sentido de atribuir as condições de discriminação pela cor da pele à
131
falta de capacidade de relatar a verdade ou o equívoco de Chris entre as datas de férias
escolares.
Outra possibilidade de crítica a esta análise é a ausência de elementos que demonstrem
o quão diferente é a forma de tratamento da professora para com as demais crianças. Contudo,
assim como a branquidade é considerada normativa numa sociedade racista, o simples
tratamento adequado (muitas vezes até ausentes de elogios explícitos), com um modo
respeitoso de linguagem e entonação agradável são os indícios mais francos de que uma
forma de tratar crianças brancas que não é, na maioria das vezes, a mesma que se trata
crianças negras. “A escola oferece aos alunos, brancos e negros, oportunidades diferentes para
se sentirem aceitos, respeitados e positivamente participantes da sociedade brasileira. A
origem étnica condiciona um tratamento diferenciado na escola” (CAVALLEIRO, 2006, p.
98).
Portanto, o que se verifica de essencial para a alteração dos indícios apontados nesta
seção com relação ao reconhecimento e valorização das diferenças étnico-raciais em
detrimento de um modelo educacional excludente, é a mudança de olhar ou, nas palavras de
Ana Lúcia Valente (2005, 73):
[...] a formação de professores da educação básica para o tratamento da
questão racial nas escolas, abarcando o desenvolvimento de metodologias
[...] [para a Educação das Relações Étnico-Raciais] envolve várias
dimensões: desde o repensar sobre a política educacional até a ‘capilaridade’
do processo que envolve os professores e alunos nas salas de aula. Como
pólos de um mesmo processo, ambos exigem uma ‘mudança de olhar’ que se
propunha a ver, entender, reagir, e não mais silenciar ante o racismo que se
manifesta nos espaços escolares (destaques da autora).
Com estas considerações, esta parte final do capítulo objetivou apresentar os indícios
decorrentes de um estudo exploratório que, dada sua complexa construção, enfrentou
problemas relacionados à concepção de estratégia de imersão no campo, mas que apresentou
dados relevantes para a interpretação da ideologia no espaço escolar, sobretudo se
considerarmos do ponto de vista da abordagem literária proposta. A “mudança de olhar” aqui
indicada implica, portanto, em uma alteração muito mais abrangente do que meramente
cursos de capacitação para profissionais no tocante às diferenças ou ao enfoque efetivamente
literário do qual deve ter a literatura infanto-juvenil. Implica, também e principalmente, uma
mudança estrutural que atingiria diretamente as políticas educacionais vigentes para o
estabelecimento de uma verdadeira Educação das Relações Étnico-Raciais. Além disso, para a
132
presente pesquisa, a realização desse estudo significou transformações para a etapa seguinte
do trabalho de campo, como será apresentado a seguir.
133
CAPÍTULO 6 – RESULTADOS, ANÁLISE E (RE)INTERPRETAÇÃO DA
IDEOLOGIA
[...] apresentaremos perspectivas, avaliaremos e
hierarquizaremos valores, sabendo que não podemos fazê-lo
neutramente, desvinculados de nossas crenças. Entendemos
que valorar é preciso na construção de um projeto ético
coletivo.
Luiz Paulo da Moita Lopes e Branca Falabella Fabrício
Este capítulo destina-se à apresentação dos resultados, análise e (re)interpretação da
ideologia na perspectiva de Thompson (2002) e uma análise específica sobre a branquidade
como aspecto essencial para a compreensão das relações raciais e possíveis elementos para a
constituição de um modelo antirracista de atuação pedagógica. A primeira parte relata o
processo de imersão no campo de pesquisa, diferenciado, em diversos aspectos, do processo
desenvolvido na escola onde se deu o estudo exploratório. Em seguida, as análises
propriamente ditas são divididas em dois grandes grupos: o primeiro refere-se a uma
abordagem específica sobre as relações raciais sob o ponto de vista de uma professora branca
e o segundo relaciona-se às categorias que apontam a construção de um modelo ideológico
acerca da representação do continente africano, sua história e cultura.
6.1 O processo de imersão no campo de pesquisa
Na Escola B, o contato foi realizado inicialmente com a coordenadora pedagógica que
me confirmou a informação de que em uma das duas escolas em que trabalhava havia aulas de
leitura ministradas separadamente das aulas de língua materna. Explicou-me que lá a literatura
infanto-juvenil era trabalhada por temas e que, caso eu tivesse interesse e houvesse
autorização da direção, certamente a professora responsável me receberia. A partir daí, entre o
período de entrega de nova solicitação à Secretaria Municipal de Educação até o ingresso
como pesquisadora na escola, o tempo foi relativamente curto e tudo transcorreu de forma
esperada.
Contudo, um fato peculiar diferenciou-se durante os procedimentos de solicitação para
realização da pesquisa na escola: ao relatar à pessoa responsável pelo encaminhamento das
solicitações dentro da Secretaria as dificuldades de coleta/produção de dados na Escola A
devido à metodologia do trabalho com leitura, ela pediu que desta vez, como deveria ter sido
134
feito desde o início, eu enviasse o projeto e um ofício. Mas ela me orientou a alterar o tulo
do projeto que, talvez, “a expressão ‘relações raciais’ fosse muito forte” e dificultaria a
aprovação por parte da escola. Atendi a sua solicitação e enviei o conteúdo do projeto na
íntegra porém com o título diferente: Análise discursiva de obras literárias infanto-juvenis.
Após a autorização ter sido concedida pela chefia do Departamento de Ensino
Fundamental, utilizei os mesmos procedimentos de contato com a escola: por telefone,
apresentei a proposta real de pesquisa. Novamente foi muito receptiva a postura da direção.
No primeiro dia de pesquisa
74
, pude ter contato com uma escola bem diferente das
expectativas em relação ao contexto socioeconômico: por estar localizada em uma região
historicamente de imigração italiana, minha pré-concepção vislumbrava uma escola
localizada em um bairro de boa estrutura, com crianças provenientes de famílias com renda
salarial razoável e, sobretudo, em sua maioria brancas. O que verifiquei, contudo, foi uma
escola de periferia, com diversos problemas de ordem econômica e social e uma população
negra razoavelmente grande para os índices da cidade.
Ao chegar ao estabelecimento, tanto a direção da Escola B como a equipe-pedagógica
e docentes receberam-me muito bem. Fui convidada pela pedagoga a conhecer a biblioteca da
escola e lá pude ter acesso às primeiras informações para a pesquisa. Tratava-se de um espaço
com tamanho razoavelmente adequado (tem a medida das salas de aula) em que a disposição
dos móveis abria um espaço para leituras serem realizadas num tapete ou em mesas
adequadas ao tamanho de crianças pequenas. A distribuição dos livros era feita por meio de
estantes em que a maioria destes ficava em posição vertical sendo possível, apenas, a
visualização do título (quando seu número de páginas era grande), caso contrário as crianças
teriam que retirá-los para poder identificá-los. Havia também uma outra estante com uma
espécie de seleção dos “mais procurados” pelas crianças e todas, independentemente da
altura, poderiam acessar mais facilmente, tanto pelo fato de ser uma estante menor quanto por
ter os livros dispostos de modo a identificar a capa. O procedimento de ser apresentada pela
pedagoga à pessoa responsável pela biblioteca favoreceu meu acesso e permanência por muito
mais tempo lá.
Por manter uma relação mais próxima com a pedagoga, ao ser convidada para entrar
na sala das/os professoras/es, não recusei como na escola anterior. Durante o recreio fui
apresentada a todas as professoras e ao professor
75
, inclusive sendo relatados os objetivos da
74
Em 29/05/2009.
75
Na Escola A também identifiquei um professor, ambos de Educação Física.
135
minha pesquisa. Isso talvez tenha facilitado a aproximação por parte de outras professoras no
decorrer dos dias para solicitar apoio na elaboração de projetos relacionados à temática (como
será explicitado mais adiante). Por ser a última sexta-feira do mês, havia informes a serem
dados pela diretora
76
. Outro informe feito por uma professora relaciona-se com a presente
pesquisa: por ser representante da escola na Equipe Multidisciplinar de implementação da Lei
10.639/2003 (uma instância instituída pela Secretaria Municipal de Educação) ela explicou
que havia feito um curso na semana anterior sobre “cultura afro” e que tinha sido muito bom.
E durante uma conversa sobre a pintura dos muros, esta professora sugeriu que fossem feitos
desenhos de diversas crianças de todas as origens étnicas, justamente para contemplar os
preceitos de uma escola que atende a diversidade.
As ilustrações e cartazes nos corredores da escola não tinham a preocupação em
retratar a diversidade da região onde ela se insere. Inclusive nas produções das próprias
crianças poucos desenhos indicavam isso. Nos muros internos, no entanto, havia desenhos de
crianças (tanto meninos como meninas) brancas e pretas. Nas salas de aula as ilustrações
obedeciam à regra dos corredores.
Neste primeiro dia, pude conhecer e assistir o trabalho com leitura em duas (de três)
turmas de 4
as
séries. A professora que realiza o trabalho recebeu-me muito bem. Por ser o
primeiro dia de trabalho com tema voltado para a cultura afro-brasileira e/ou africana (já que
o tema que estava sendo desenvolvido era sobre a Turma da Mônica), a própria pedagoga
propôs uma contação de história. Por ter conhecimento com maior profundidade dos objetivos
de meu trabalho na escola, ela solicitou licença à professora de literatura, além de pedir que
alterasse por um período determinado o foco de estudo para contemplar a minha pesquisa.
Antes de iniciar a história (que não foi lida e sim contada), a pedagoga, sempre com a
presença da professora de literatura, propôs um breve comentário sobre os preconceitos
existentes no Brasil com relação à população afro-brasileira. Muitos comentários tiveram que
ser interrompidos devido ao tempo, mas diante do que pude ouvir, havia muito interesse por
parte das crianças (de ambas as turmas) em discutir o tema, citando exemplos, expondo
opiniões e fazendo perguntas. Diante disso, ela combinou que na próxima aula haveria um
momento maior para este debate o que na realidade não aconteceu pois a pedagoga
76
Um dos informes que me chamou a atenção foi o fato de a página da escola na internet ter sido premiada pela
Secretaria Municipal de Educação. A responsável pela organização da página era, justamente, a professora de
literatura.
136
licenciou-se da escola. A contação foi sobre o conto Ulomma, cuja história apresenta diversos
aspectos a serem analisados (conforme será feito adiante).
Nos outros dias o trabalho foi encaminhado pela própria professora de literatura,
embora a pedagoga houvesse se disponibilizado a realizá-lo. Dando continuidade, a
professora trabalhou, nas aulas subsequentes, outro conto do mesmo livro (Okpija), depois
uma síntese do filme Kiriku e a feiticeira, além de exibir o próprio filme. Estas diversas
atividades e propostas de trabalho com a cultura afro-brasileira forneceram subsídios para
análises sob diferentes aspectos, grande parte inovadores e engajados com a necessidade de
valorização da história e cultura “afro” e outros nem tanto por estabelecerem reificações
depreciativas.
Sobre este aspecto é importante destacar reiteradamente a preocupação, inicialmente
por parte da pedagoga e na sequência da professora, em contribuir para que a pesquisa fosse
desenvolvida a contento das minhas expectativas. O comprometimento e engajamento da
professora em promover um debate com elementos ricos para a produção da pesquisa chamou
a minha atenção tanto como pesquisadora de relações raciais que me deparei com o
rompimento de um estereótipo (a branquidade como sendo alheia ao combate do racismo) de
minha parte, tanto como professora que descobri nesta profissional possibilidades além das
que já conhecia de se abordar temas como a alteridade e o respeito a grupos étnicos
marginalizados, mesmo que muitas dessas possibilidades apresentem-se com limites, como
será discutido mais a diante.
Por isso, enfatizo também que não há, na construção desse estudo, uma tentativa de
estabelecer um caráter punitivo ou a intenção de classificar e rotular as pessoas que
produzem/reproduzem (dentro de seus limites) os discursos racializantes, até porque fazemos
parte de uma sociedade na qual o racismo é parte de base estrutural e todas as pessoas estão
sujeitas (em maior ou menor escala) a este processo. É, antes de tudo, uma produção
acadêmica compromissada em possibilitar uma nova interpretação de um campo pré-
interpretado e constituído como um espaço social, em que elementos do mito da democracia
racial estão em voga. Uma afirmação de Philomena Essed
77
(1991, p. 174) ilustra bem a
intenção desta pesquisa: “combater o racismo não significa lutar contra indivíduos, mas se
opor às práticas e ideologias pelas quais o racismo opera através das relações culturais e
sociais” (apud ROSEMBERG, BAZILLI, SILVA, 2003, p. 128).
77
ESSED, Philomena. Understanding everyday racism: interdisciplinary theory. Londres: Sage, 1991.
137
No que se refere essencialmente ao trabalho com literatura infanto-juvenil nesta
escola, contudo, foi possível verificar que, embora haja uma preocupação constante em
desenvolver o letramento por meio de debates e reflexões escritas acerca da leitura realizada,
a impossibilidade, por parte das crianças, de contato com a leitura da obra em momento
concomitante e paralelo ao que é feito pela professora, acabou, por vezes, transformando a
aula em uma extensão da aula de língua materna.
A constatação de representações ideológicas no que se refere às relações raciais na
Escola B foi verificada em contextos vinculados mais diretamente com a produção literária
infanto-juvenil. O trabalho desenvolvido na escola foi realizado, principalmente, em função
da demanda que esta pesquisa promoveu sobre a atuação e os conteúdos ministrados pela
professora de Literatura. Com esta constatação, a intenção não é de afirmar que a Escola B
não desenvolve um trabalho significativo no sentido de implementação da Lei 10.639/2003. A
atuação como um todo da rede municipal de educação de Curitiba é reconhecida, não pela
promoção constante de cursos de formação sobre a Educação das Relações Étnico-Raciais,
mas por ser um dos poucos municípios brasileiros a instituir o Fórum Municipal Permanente
de Educação e Diversidade Étnico-Racial, por meio do qual fomenta e incentiva ações do
Fórum Permanente de Educação e Diversidade Étnico-Racial do Paraná (FPEDER) e atou
diretamente na construção do documento intitulado “Plano Nacional de Implementação das
Diretrizes Curriculares Nacionais para Educação das Relações Étnico-Raciais e para o Ensino
de História e Cultura Afro-Brasileira e Africana”.
E, pelo contrário, diante da formação teórica da professora das turmas pesquisadas e
do engajamento como um todo de grande parte das/os profissionais da escola, é válido afirmar
que a Escola B destaca-se no trabalho que desenvolve sobre a Educação das Relações Étnico-
Raciais. Inclusive, durante a pesquisa fui solicitada a auxiliar (a pedido de outra pedagoga)
uma equipe de professoras na elaboração de uma proposta de curso de formação à Secretaria
Municipal de Educação. Trata-se de um projeto intitulado “Universidade na Escola”, em que
instituições de ensino superior são contratadas para desenvolver cursos voltados às temáticas
que as escolas necessitam. Neste caso, o que a Escola B estava propondo era um curso sobre a
Educação das Relações Étnico-Raciais e minha “função” foi unicamente ler o pré-projeto e
analisar se estava condizente com os preceitos das Leis 10.639/2003 e 11.645/2008. Observei
que havia bastante consistência teórica tanto no estabelecimento dos objetivos quanto na
literatura utilizada e foi esta a conclusão que apresentei ao grupo. Tal informação, embora não
tenha relação direta com a pesquisa, revelou-se para mim um fato importante na constituição
do perfil da Escola B como um todo.
138
Ao se estabelecer as categorias a seguir, a preocupação é de analisar os discursos
buscando elementos que evidenciem ou não ideologia. É neste sentido que tais categorias
serão divididas em dois grandes grupos: sob a perspectiva da branquidade, buscando
identificar limites e avanços acerca do enfrentamento do racismo e a partir da representação
criada acerca da África.
Os discursos analisados a seguir são partes de aulas de leitura em que a professora
utilizou três contos e um filme. Os contos são Ulomma: a casa da beleza (SUNNY, 2006),
Okpija (SUNNY, 2006) e Kiriku e a feiticeira (Roberto BENJAMIN et al., 2006) sendo que
este último é também o título do filme que foi exibido nas semanas subsequentes. A
apresentação e análise não serão estabelecidas cronologicamente em relação aos discursos
produzidos, pois a preocupação é de reuni-los de acordo com as categorias. É necessário fazer
uma ressalva no sentido de que alguns dos episódios analisados a seguir foram interpretados
tanto em categorias de limites quanto de avanços, que embora do ponto de vista das
relações raciais possam representar mudanças positivas, no que se refere à construção social
acerca do continente africano pode indicar limitações.
6.2 Branquidade como norma: os limites entre alteridade e ideologia
É concordando com a tarefa do antirracismo que a proposta desta seção é discutir
quais os limites verificados na branquidade no que se refere à criação ou reprodução de
ideologias racistas, e a construção de elementos relacionados à alteridade e reconhecimento
do Outro como ser constituinte de sua própria identidade branca.
Como informado, a professora participante da pesquisa na Escola B, professora de
literatura de todas as turmas no período da manhã, foi heteroclassificada por branca, tendo
suas características associadas ao modelo do imaginário coletivo de Curitiba, de uma cidade
que teve sua imagem construída como sendo eminentemente de origem europeia
(especialmente italiana quando se refere ao bairro onde a escola se localiza). Sua formação,
em História e Geografia e magistério em nível médio, habilitou-a a trabalhar com crianças do
ensino fundamental, mas foi possível verificar que sua atuação vai além do ato de lecionar.
Seu comprometimento com a escola acabou por delegar-lhe novas funções, como a de ser
responsável, voluntariamente, por elaborar as notícias e publicá-las no site da escola:
01 [...]
02 P: Festividades, eu saio distribuindo papelzinho, tirinhas do
139
03 endereço da escola. E daí quando eles vem no Comunidade
04 Escola no sábado e no domingo eles podem ter acesso no
05 horário do curso, podem entrar e acessar porque já quando liga
06 o computador com a página inicial da escola.
07 [...]
08 Pq: Ah, deve ser legal um trabalho assim, né, de poder colocar
09 as coisas que a escola produz, né.
10 P: Daí tem que ficar correndo atrás de notícia né, então, tem...
11 Pq: Ah, mas você tem hora reservada pra isso...
12 P: Eu tenho a segunda-feira dois horários. Só que às vezes, o
13 que que acontece? Sally, eu preciso que você venha tirar uma
14 foto aqui comigo. Daí de onde eu to eu tenho que sair
15 [...]
16 P: E tirar foto, sabe? Ou às vezes a Valerie [a diretora] chega pra
17 mim e diz: Sally, tem tal notícia que dá pra pôr no portal. Aí
18 quando eu tenho um tempinho vago eu vou lá, vasculho com ela
19 o que que é direitinho tudo, né, que nem aquele, aquele ( ) que
20 veio da câmera.
21 Pq: Sim
22 P: Ela “Sally, coloque no portal”. Então ela já me mandou daí. E
23 à tarde quando eu tenho um horariozinho que eu vou dar uma
24 olhada pra pôr no meu arquivo.
25 Pq: Mas você é regente à tarde?
26 P: Eu sou regente à tarde.
27 Pq: Nossa, deve ser uma loucura!
28 [...]
29 P: Não porque na verdade ele é um trabalho voluntário.
30 Pq: Ah.
31 P: A gente não ganha por isso, sabe, então pega quem quer.
Contudo, o destaque de sua atuação profissional revelou-se muito mais de interesse
desta pesquisa no que se refere à abordagem pedagógica sobre a representação do continente
africano. É o que será apresentado a seguir.
a) A alteridade e o reconhecimento das diferenças
Com limitações bem demarcadas, certamente, a postura da professora das turmas
pesquisadas serviu para romper com estereótipos também construídos no bojo desta pesquisa,
seja por mim enquanto pesquisadora e militante, seja pelo próprio contexto de estudo voltado
para as relações raciais. Pesquisas diversas apontaram para problemas relacionados à forma de
abordagem pedagógica acerca da “cultura afro” por parte de professoras da educação básica
78
e, de certa forma, o olhar deste estudo também foi direcionado para encontrar tais elementos.
78
Como demonstrou o capítulo 4.
140
Buscando elucidar e evidenciar características de destaque (positivos e negativos) na
atuação de uma professora branca na forma de encaminhamento das leituras, inicialmente
indicarei aspectos positivos, tendo como suporte teórico estudos sobre branquidade. É o caso,
por exemplo, do produzido na 4ª B, no dia 05/06/2009:
01 P: O que que a gente percebe do comportamento da Okpija,
02 gente? // O que que a gente pode perceber? // Por que que ela não
03 se casou cedo?
04 G
n
: Porque ela sempre rejeitava os maridos.
05 P: Mas por quê?
06 AS: Porque ela se achava bonita.
07 P: Ela se achava bonita.
08 GEORGE: Mas num era bonita.
09 P: Ela era bonita. Todos achavam ela muito bonita. E realmente
10 era muito bonita. / Só que ela tinha um pequeno problema, né, ela
11 tinha uma vaidade muito grande. Será que é legal, né, a gente ter
12 essa vaidade, achar que é melhor do que os outros?
13 AS: Não.
[...]
14 P: E me diga uma coisa: é... ela se achava, né e realmente ela era
15 muito bonita, / né? É... e aí você, daí alguns disseram: “ah
16 professora mas ela não era bonita não ela era feia”. Por que ela
17 era feia? Por que vocês acham que ela era feia?
18 M¹: Eu não sei.
19 G¹: Eu não falei nada.
20 P: Acho que foi você, Ryan?
21 AS: Foi.
22 P: George, por que que você acha, / não, a gente tá conversando.
23 Não to dizendo se tá certo ou tá errado, quero saber a opinião. Por
24 que você acha que ela era feia? Vou mostrar de novo pra você
25 olhar bem pra ela pra não... pra [não
26 GEORGE: [Ah, por causa do rosto dela, professora, cheio de
27 enfeite.
28 P: Por causa do [rosto.
29 G²: [O rosto não tem nada de enfeite.
30 GEORGE: Tem sim, tem umas bolinhas.
31 P: Tem, ela tem alguns desenhos no rosto.
32 G²: Ah.
33 AS: [( ).
34 GEORGE: ( ) que ela é indiana.
35 P: E me diga uma coisa, e aquelas pessoas que usam piercing,
36 põem piercing aqui na sobrancelha,
37 GEORGE: [Nossa eu acho ridículo, horrível!
38 G²: [No nariz.
39 P: [No nariz?
40 G²: [Na língua.
41 GEORGE: Nossa eu acho ridículo!
42 P: Elas também, elas também têm ( ), Elas são feias?
43 AS: [Sim.
44 AS: [Não. ( ).
45 G³: O professora, professora, meu primo tá assim, ó: ele coloca
46 uma bola assim, ó.
141
47 P: E me diga uma coisa, e aqueles meninos que fazem topete,
48 passam gel no cabelo pra ficar arrepiadinho, eles são feios?
49 AS: [Sim.
50 AS: [Não.
51 P: [É uma maneira de se arrumar.
52 AS: Eu uso assim, professora.
53 P: É? / E aquelas meninas que fazem os frufruzinhos, põem as
54 presilhinhas, arrumam [maria-chiquinhas,
55 G
n
: [Ridículas! Acho elas ridículas!
56 P: Elas também são feias?
57 AS: [Sim.
58 AS: [Não.
59 P: Olha só, em todas as perguntas que eu fiz eu ouvi sim e não
60 AS: ( ).
61 P: Uma parte sim e uma parte não. Então olha só, gente, na
62 verdade, / é bem o caso lá da Ulomma, né, que a professora Charlote
63 contou semana passada. / É... não existe o feio.
64 G
n
: A Ulomma é feia porque ela é careca.
65 P: Mas ela não é feia, sabe por quê? Porque lá na tribo onde ela
66 mora, é... [ter
67 G
n
: [Tudo careca.
68 P: [A cabeça raspada é um sinal de nobreza e um sinal de beleza.
69 M¹: E se a gente raspasse a cabeça?
70 AS: [( ) (Risos).
71 P: [Pra nós ia ser normal?
72 [...]
73 P: Pois é, olha lá. O Marvin tem a cabeça raspada, vocês é...
74 deram risada.
75 AS: É a maneira [( ).
76 P: [Por que o que acontece? / É uma coisa normal?
77 AS: [Não.
78 AS: [É.
79 P: Pra nós é normal?
80 AS: [É.
81 P: [É normal ( )? Por que normal?
82 AS: [Não é normal.
83 P: [( ). Né? / Então, o que que [acontece,
84 Então olha só, / como disse o George, né, ela é feia porque ela
85 tem uns desenhos, né? Então veja ( ), qualquer pessoa que tenha
86 algo ( ) vai se tornar feia?
87 AS: Não.
88 P: Não. Até porque lembram que nós estamos vendo contos
89 africanos. / Então, assim como vocês estão vendo na novela / do
90 Caminho das Índias,
91 Gn: É massa.
92 P: Então o que que acontece? Aquela parte do mundo, né, na
93 Ásia e na África, as pessoas têm por é... tradição,
94 M³: Aquele carinha careca, lá que tem aqueles negocinhos...
95 P: Isso! Eles têm por por símbolos, né, por por maneiras, [por
96 costumes,
97 Gn: ( ) é um Dalit.
98 AS: ( ).
99 P: Então olha só, eles têm, por tradição esses costumes, / né, e a
100 gente pode pensar, bem aquilo, né, é feio pra mim, mas pruma
101 outra pessoa é bonito. O George de topetinho e gel pode ser feio,
142
102 mas para uma outra pessoa pode ser bonito, né? A... Grace, de
103 touquinha na cabeça aqui pode estar feia para alguns, pra alguns
104 ela pode estar bonita. / [A Marie, com o cabelinho preso, pra
105 alguns pode estar feia, pra outros pode estar bonita.
[...]
Neste momento, verifica-se uma tentativa da professora de propor às crianças uma
nova forma de interpretação acerca das diferenças. Usando como exemplo a novela Caminho
das Índias
79
que foi, inclusive, uma “leitura” feita por algumas crianças de outras salas, a sua
abordagem tenta despertar nas/os alunas/os novas perspectivas para o reconhecimento e
valorização das diferenças, como sendo marcas culturais presentes em todas as sociedades. A
sugestão proposta por uma aluna (linha 69) “E se a gente raspasse a cabeça?” amplia o debate
para a perspectiva da alteridade, em que o “Outro” pode se transmutar no “Nós”. E neste
trecho como em diversos outros, mesmo que com dificuldades, a professora não se omite do
debate. Pode-se considerar, portanto, que sua postura acaba por não promover o silêncio
(SILVA, 2008a) como forma de omissão acerca dos preconceitos.
Sob a perspectiva proposta por Moita Lopes (2002) para a interpretação dos discursos
no espaço escolar, é possível considerar que a postura da professora ao não se furtar da
promoção de um debate crítico sobre as diferenças responsáveis por construir as hierarquias
entre a estética africana e a ocidental, favorece para a construção de identidades que têm sua
base fundada na alteridade. Esta inferência é possível se concordarmos com a afirmativa de
que “[...] os significados gerados em sala de aula têm mais crédito social do que em outros
contextos, particularmente devido ao papel de autoridade que os professores desempenham na
construção do significado” (MOITA LOPES, 2002, p. 38).
É possível considerar outros elementos sobre tal episódio: levando-se em conta a
fragilidade ainda vigente em cursos de formação sobre propostas teórico-metodológicas de
encaminhamentos acerca da forma mais “adequada” de se abordar a(s) cultura(s) africana(s), a
postura de tal professora surpreende, sobretudo, se considerado do ponto de vista de sua
posição numa escala de branquidade, do grupo que poderia afirmar: “[...] o significado de ser
branco é a possibilidade de escolher entre revelar ou ignorar a própria branquitude... não
nomear-se branca...” (PIZA, 2002, p. 75). Tal postura remete ao que Helms (1990, apud
Bento, 2002) propõe como uma sequência de estágios pelos quais uma pessoa branca pode
passar até desenvolver a autonomia, ou seja, “a internalização de uma nova percepção do que
79
Novela exibida pela emissora TV Globo durante o ano de 2009 abordou como tema os costumes e tradições,
sob a concepção e perspectiva de sua autora, Glória Peres, da população indiana, dividida em castas e religiões.
143
é ser branco [...] [em que o]s sentimentos positivos [...] energizam os esforços pessoais para
confrontar a opressão e o racismo na sua vida cotidiana” (BENTO, 2002, p. 44).
É possível, portanto, considerar que, independentemente de maior ou menor qualidade
na formação específica sobre a Educação das Relações Étnico-Raciais, a opção teórica da
professora pelo não-silenciamento ou omissão acerca do que sabia sobre a cultura africana
demonstra seu posicionamento, se não autônomo em relação a sua condição, pelo menos
aproximado e em constante evolução.
Em outro momento da mesma aula, uma explanação da professora sobre a decisão de
solicitar às crianças que produzissem uma ilustração, informam a sua preocupação acerca das
representações das crianças sobre sua autoimagem:
106 P: Eu gosto de pedir até pra ver o que vai vir na ilustração. [...] A
107 porque na ilustração é... é... aquilo que a gente tem, eu tenho feito um
108 curso de História e a... a nossa professora trabalha, né, tem a questão
109 da...
[...]
110 P: Da miscigenação que é hoje, né, mais a cidade, né, porque a gente
111 ( ) de Curitiba.
112 Pq: Hum-hum.
113 P: A miscigenação e o que que acontece? Daí ela fez até pediu pra que
114 a gente fizesse um auto-retrato pra gente se conhecer. Então o que que
115 acontece? Tem crianças que às vezes fazem os desenhos e colocam lá o
116 cabelinho loirinho, né?
117 Pq: Porque é a idéia que a criança quer se representar, né?
118 P: É.
119 Pq: Ela quer ser vista daquela forma.
120 P: É. / Então eu até, a Charlote não tinha falado que queria desenho
121 não, mas eu acho legal ilustrar porque eu quero ver até que ponto eles
122 registram.
123 Pq: Sim. Como eles vão ilustrar uma personagem de pele escura, né?
124 P: É. Porque não se tem não se tem contos assim, né?
125 Pq: Hum-hum.
[...]
126 P: Né, e e daí ela... eu quero ver como é que eles fazem essa questão do
127 retrato, a questão de se colocar ali, / né, / que eu acho interessante.
Quando proponho que a postura pedagógica da professora indica uma percepção de
sua branquidade sob uma perspectiva mais além do que o mero contato inicial apontado por
Helms (1990 apud Bento, 2002), esta afirmação apresenta-se neste trecho, em que esta
profissional evidencia o quanto a formação proporcionada por meio de cursos de capacitação
têm lhe auxiliado na compreensão das relações Étnico-Raciais do país. A maneira como
adquire esta percepção chama a atenção pelo fato de se relacionar ao que a Educação das
Relações Étnico-Raciais propõe, por meio das Diretrizes Curriculares Nacionais específicas:
144
[...] necessidade [...] de professores qualificados para o ensino das
diferentes áreas de conhecimentos e, além disso, sensíveis e capazes de
direcionar positivamente as relações entre pessoas de diferentes
pertencimento étnico-racial, no sentido do respeito e da correção de posturas,
atitudes, palavras preconceituosas. Daí a necessidade de se insistir e investir
para que os professores, além de sólida formação na área específica de
atuação, recebam formação que os capacite não só a compreender a
importância das questões relacionadas à diversidade étnico-raciais, mas a
lidar positivamente com elas e, sobretudo criar estratégias pedagógicas que
possam auxiliar a reeducá-las (BRASIL, 2004, p. 8).
Portanto, é possível concordar com Bento (2002) que a adoção de atitudes e posturas
diferenciadas que a construção social estabelece na relação entre pessoas brancas e negras,
pode ser construída com base não só na interação crescente com pessoas negras – fator
relevante como afirma também van Dijk
80
(2008b) mas também na preocupação de
compreender o “racismo institucional e cultural [que compõe a sociedade], o que pode
assinalar o início” (BENTO, 2002, p. 43) de um outro estágio de evolução de uma identidade
branca racial não-racista.
Ainda na mesma turma e dia, um diálogo entre a professora e que, constantemente
preocupava-se em estabelecer um diálogo aproximado comigo, foi sobre o seguinte tema:
128 Pq: E daí você fez no primeiro ciclo a leitura?
129 P: E daí então, no primeiro ciclo eu quero ver se faço, então eu
130 comecei eu comecei eu fiz com eles dois contos Green, né?
131 Pq: Hum-hum.
132 P: Contos europeus. Aí fiz a Ulomma essa semana. Vou fazer a
133 Okpija. E vou pegar contos chineses.
134 Pq: [Ah, que legal!
135 P: [Então, e tem os contos indianos. / Então eu quero fazer a... aí
136 vários contos de vários de vários [países.
137 Pq: [De várias culturas diferentes.
138 P: De várias culturas, exatamente, né, pra montar uma atividade neste
139 sentido, né?
140 Pq: Ah, é uma idéia...
141 P: Porque quando começou eu falei “Meu Deus” e agora eu acho que
142 eles tendo o ( ), que a gente trabalha também, e como eu sei que tem
143 o acervo porque no curso de História a professora disse: Olha, ( )
144 contos chineses que chegaram ( ) materiais pra escola, então
145 aproveitem! / Então, daí eu quero ver se eu faço, à medida que eu for
146 trabalhando com eles eu vou trabalhando com o primeiro ciclo
147 também.
80
Van Dijk (2008b, p. 15) defende: “De fato, muitos [brancos] são não-racistas e/ou anti-racistas devido a
experiências pessoais com racismo, sexo, preconceitos de classe social ou outras formas de marginalização e
exclusão, bem como devido ao discurso veiculado ocasionalmente na mídia sobre o tema ou através de contatos
com membros de grupos minoritários”.
145
Mais uma vez, os cursos de capacitação (e o incentivo da presença desta pesquisa de
cunho observatório participante) auxiliaram a professora na ampliação de suas possibilidades
de trabalho com a literatura infanto-juvenil para além do cânone, ou seja, dos modelos
tradicionais de literatura. Esta atitude interfere diretamente na formação das crianças acerca
das diferenças étnico-raciais, culturais, sociais e econômicas, além de atuar de forma relevante
na constituição de sua formação identitária, conforme defende Ware (2004): “[o] esforço
necessário para que o sujeito se identifique com as histórias e contextos de outras culturas
oferece-lhe uma oportunidade de interpretar sob uma nova luz aquilo que é conhecido em sua
própria cultura” (WARE, 2004, p. 16).
Outro episódio bastante ilustrativo de uma construção discursiva sob a perspectiva da
alteridade revelou-se na 4ª A, no dia 10/07/2009, última aula do semestre e da pesquisa de
campo. Após assistirem ao filme nas aulas anteriores, a professora propôs às crianças um
debate sobre as diferenças entre as mulheres retratadas no filme e as mulheres ocidentais.
01 P: [...] Então hoje a gente vai pensar sobre duas diferenças que a gente
02 vai fazer um paralelo: do que acontecia lá / e o que acontece / conosco.
03 Então na nossa sociedade, porque lá é um tipo de sociedade, né, com
04 determinados costumes e nós temos uma determinada sociedade com
05 também determinados costumes, né, não somos iguais. Então eu quero
06 que vocês pensem // então lá no filme // do Kiriku, eu quero que vocês
07 pensem um pouquinho // nas mulheres, /tá? Então e // hoje, Brasil,
08 Curitiba, né, nossa sociedade, pode até estar acontecendo ao mesmo
09 tempo, mas lá no filme como nós não estamos naquela região, nós
10 estamos nesta região, nós estamos nesta sociedade [...]
[...]
11 P: Essas mulheres aqui elas trabalham?
12 AS: Não.
13 P: Elas cuidam dos filhos?
14 AS: Sim.
15 P: Então também tinha isso aqui né: cuidar dos filhos.
16 G²: Mais ou menos né, professora, porque elas deixavam os filhos
17 soltos na mata.
18 P: É, mas elas sabiam onde tava, né, as crianças estavam juntas, mas
19 lembram que quando elas foram buscar água tinha uma outra que foi
20 junto?
[...]
21 P: Então, aqui a mãe do Kiriku é diferente das nossas mães ( )
22 G
4
: É desprotegida.
23 AS: [( ).
24 G
n
: [É irresponsável.
25 P: Ela era irresponsável?
26 AS: [Não!
27 LISA: [Ela é responsável, só que ela sabia aonde o filho ia ( ).
28 G
4
: [Não tinha perigo antigamente.
29 LISA: [É.
30 P: Porque as crianças andavam juntas, né, então elas sabiam que a
146
31 determinado lugar elas poderiam ir e as crianças também sabiam. Se
32 passasse determinado lugar já era território da Karabá, então se passasse
33 as mulheres tinham medo e as crianças tinham medo, então todos
34 respeitavam. Então, a gente pode dizer que essa mãe ela não é
35 irresponsável. Porque ela cuidava, ficavam atentas. Mas, ela era uma
36 mãe /
[...]
37 P: Mas também era uma mãe, vou colocar essa palavra mas não seria
38 bem essa, era uma mãe liberal ( ). A gente pode dizer que ela liberal
39 nesse sentido de que ela se preocupava com o filho, mas ela não se
40 preocupava porque ela sabia que o filho estava ali.
Este aspecto denota o interesse da professora em promover uma interpretação
diferenciada do que algumas crianças conceberam como negligência por parte das mães
personagens do filme. Aparentemente, este episódio não teria nenhuma relevância, mas
retomando alguns adjetivos e conceitos atribuídos como “típicos” do comportamento africano
como “primitivismo” e “selvageria”, por exemplo, qualquer impressão negativa construída
acerca deste grupo humano pode reificar tais pré-concepções. Em um estudo sobre a infância,
e discutindo acerca da relação entre “Norte e o Sul”, Fúlvia Rosemberg (2006) aborda
elementos que se relacionam a esta análise. Para ela, um “uso estratégico da infância em
processo de dominação social [como] uma constante nas relações entre o norte ‘civilizado’ e o
sul ‘selvagem’” (p. 49, destaques da autora). Diante disso, a autora apresenta, brevemente, um
estudo de Nancy Scheper-Hughes, antropóloga norte-americana que foi premiada por
pesquisar o comportamento de mães de uma região rural da Zona da Mata em Pernambuco.
Ao concluir que a negligência das famílias, sobretudo das mães, é tão expressiva, a pesquisa
desta antropóloga, comenta Rosemberg (2006. p. 67), “passou a ser narrada pela mídia
(internet) norte-americana como ‘mães pobres brasileiras que matam seus filhos’” (destaques
da autora). E embora outros pesquisadores, inclusive norte-americanos, tenham apontado em
suas pesquisas o empenho de famílias daquela região para salvar as crianças, estudos como
desta antropóloga contribuem para a manutenção de uma representação em que pobreza
associa-se à negligência e omissão por parte de pais e mães.
Neste sentido, e comparando estes dois contextos de análise bastante aproximados
por ambos serem pautados em preconceitos –, a postura da professora em desenvolver um
debate mais consistente auxiliou na possível alteração, para algumas crianças, da imagem de
negligência de mães africanas.
Os apontamentos desta seção forneceram considerações especiais e diferenciadas do
que a maioria das pesquisas com tal perfil encontrou como resultados. Separando os limites e
dificuldades de um sistema educacional marcado pelo eurocentrismo e por parte da formação
147
inicial de profissionais da educação no que se refere à Educação das Relações Étnico-Raciais,
foi possível constatar que atuação desta professora apontou caminhos bastante relevantes para
o contexto atual de elaboração de propostas pedagógicas coerentes com os preceitos legais de
reconhecimento e valorização das diferenças.
A proposta, a seguir, é de apresentar elementos que, do ponto de vista da constituição
da branquidade como norma, foram identificados como limites.
b) A ideologia da branquidade como norma
Embora elementos de avanços existam no que se refere à branquidade como
componente não mais de uma perspectiva normativa e sim de uma possibilidade de
reconhecimento das diferenças, é possível ainda definir alguns episódios como sendo frágeis
por estabelecerem-se em uma linha tênue entre a valorização e a folclorização. No dia
05/06/2009, na B, alguns trechos suprimidos em uma análise anterior serão agora
apresentados para a elaboração da interpretação que virá a seguir:
92 M¹: E se a gente raspasse a cabeça?
93 AS: [( ) (Risos).
94 P: [Pra nós ia ser normal?
95 AS: ( ). Pinduca!
[...]
96 P: [É normal ( )? Por que normal?
97 AS: [Não é normal.
98 P: [( ). Né? / Então, o que que [acontece,
99 G
n
: É a Pinduca!
100 P: Hã?
101 G
n
: A farinha, a marca da farinha.
102 P: Quem é a marca da farinha?
103 G
n
: [Pinduca!
104 P: [Aqui quem tem a marca da farinha Pinduca?
105 Gn: [Porque ele é careca!
106 Gn: [Ele é o Pinduca!
107 P: Ah...
108 G
n
: Professora eu raspo o cabelo e ninguém me chama de
109 Pinduca.
110 AS: ( ).
111 M²: Porque sua cabeça é gordinha e ( ).
112 P, AS: ( ). (Risos)
113 P: Então [olha só,
[...]
114 P: Então, é... a gente vai...
115 Gn: Professora, o Billy com o cabelo arrepiado!
116 P: O Billy com todo o cabelo arrepiado ( ).
117 AS: (Risos) ( ).
118 P: Olha só, então o que que acontece? Às vezes o cabelo da gente
148
119 ele realmente é arrepiadinho, a gente pode até tentar [( ).
120 G¹: [O meu cabelo é arrepiado, professora só que eu passo gel daí
121 ele fica arrepiado
122 P: [Por conta
123 G¹: [( ) fica normal.
124 P: [Por conta que a gente tem os redemoinhos na cabeça e eles deixam
125 os cabelos oriçadinhos mesmo. / Alguns podem achar
126 feio, alguns podem achar bonito. De repente alguém vai achar: nossa,
127 Billy, você fez um penteado novo? // [Né?
128 Gn: [Ê, professora, a Jaqueline nem penteou [o cabelo ( ).
129 P: [Às vezes tem, quan quantas pessoas saem com o cabelo sem pentear
130 só fazem assim, ó: pegam, passam os dedos assim, “ai tá bom, pronto!”
131 AS: [( ).
132 G²: Meu irmão é um destes, só faz assim, ó.
133 P: [Então, é uma maneira de viver.
134 G³: [Seu irmão tem o cabelo liso também, né?
135 G²: [Só que ele usa boné, por isso ele fica assim.
A supressão do trecho refere-se à menção, feita por algumas crianças, ao apelido
provavelmente atribuído a um aluno que mantém a cabeça raspada. O encaminhamento dado
a esta questão pela professora não se procede como adequado, que os apelidos são marcas
constantes do relato de crianças, sobretudo negras
81
, acerca da forma são tratadas por colegas
(CAVALLEIRO, 2006, OLIVEIRA, 1993). Portanto, o encaminhamento dado a esta questão
pela professora não deveria ser de omissão.
Desta vez, a opção da professora em não ampliar
o debate, o que poderia propor alternativas de combate aos estigmas que são presentes no
espaço escolar, acaba por revelar uma omissão ou um silenciamento (SILVA, 2008a) diante
de um dos “carros-chefes” das manifestações discriminatórias.
Outro aspecto levantado neste trecho diz respeito aos tipos de cabelo: ao apresentar
explicações sobre os motivos que deixam o cabelo “arrepiado” (linhas 118-119), a professora
toca no cabelo de algumas crianças para exemplificar melhor. Neste sentido, é possível inferir
sobre as dificuldades que seria se ela tentasse atribuir esta mesma explicação na C, onde a
incidência de crianças negras é maior e uma menina especificamente tem o cabelo crespo,
sendo que nos primeiros dias de minha presença na escola ela usava um aplique de tranças
canecalon que apresentavam uma estética visual comprometida, pelo fato de o cabelo ter
crescido bastante e não ter sido feito o reaplique; e nos últimos dias, ela havia retirado as
tranças e usava seus cabelos crespos e presos. Qual seria a reação das demais crianças e desta
81
Em uma experiência empírica pude vivenciar, neste ano letivo de 2010, uma situação em que um aluno negro
do ensino médio recebeu este mesmo apelido de “Pinduca”. Em conversa com a turma, a “justificativa” dada foi
em função de o aluno ser negro e ter a cabeça raspada. Procurei estabelecer um debate sobre o tema e acredito
que alguns aspectos tenham sido alterados na perspectiva de grande parte dos alunos que atribuíram este apelido.
149
própria aluna? Quais possíveis comentários surgiriam da situação? Além disso, e se a
professora escolhesse essa aluna para fazer tal demonstração?
Portanto, utilizando elementos apontados por Thompson (2002), é possível interpretar
este episódio com resquícios de estigmatização (ANDRADE, 2004) por parte de algumas
crianças e posterior silêncio (SILVA, 2008b) por parte da professora diante da aceitação do
apelido atribuído a um aluno.
O próximo episódio ocorreu no dia 03/07/2009 na B, quando as crianças estavam
assistindo à parte final do filme Kiruku e a feiticeira, que havia iniciado na aula anterior (dia
26/06/2009). O trecho compilado a seguir corresponde a mais de 4 minutos de exibição da
última cena do filme, quando os homens da aldeia retornam junto com o avô de Kiriku. Eles
estão tocando tambores e dançando.
01 G¹: Parece uns macaquinho (Risos)
01 G²: Batendo, né? (Risos).
02 G¹, G²: ( ).
03 G¹: Parece uns macaco, cara!
04 G
n
: Todos macaquinhos!
05 G
³
: Ó o pai do Kiriku ali!
06 G
³
: Ó o pai do Kiriku!
07 G¹: É o pai do Kiriku?
08 G
³
: Ali, ó!
09 G¹: Kiriku! (Risos)
10 G²: É o Kirikão!
(Risos)
11 G
²
: É o pai dele! Parece ( ).
12 G
n
: Todos macaquinhos!
13 P: Gostaram do filme, gente?
14 AS: Sim!
15 P: Legal, né?
16 G¹: Professora, traz mais filme igual este.
17 G²: Traz o Negrinho do Pastoreiro!
18 P: Então olha só, gente, ( ) final, né? O que que vocês acharam do
19 filme?
Os comentários feitos pelas crianças não foram tema de pauta do debate que a
professora desenvolveu na sequência. Para estabelecer a interpretação sobre este episódio,
será preciso descrever alguns aspectos sobre a professora e os produtores do discurso. A
professora, que estava de ao lado do aluno que emitiu o primeiro comentário (linha 1),
continuou ali até o momento quando outro aluno fez o comentário sobre o pai de Kiriku (linha
10). A posição de ambos era próxima à porta que se localizava a frente da sala, ao passo que
eu que ouvi o comentário independentemente de ter sido captado pelos dois gravadores (e o
foram) estava no fundo da sala em uma fileira do meio. Diante isso, é possível propor três
150
hipóteses acerca do silêncio por parte da professora: i) ela não ouviu tais comentários (o que
de certa forma parece impossível, dada a distância); ii) ela não considerou relevante o tema
e/ou concordou que as ilustrações realmente indicaram características daqueles homens
parecidas com as de macacos, ou, ainda; iii) por não saber como encaminhar a situação, optou
por ignorar ou silenciar-se diante do fato.
Como este trabalho propõe interpretar “se o sentido, construído e usado pelas formas
simbólicas, serve ou não para manter relações de poder sistematicamente assimétricas”
(THOMPSON, 2002, p. 16), e nem sempre estes tipos particulares de formas simbólicas “são
ideológicos em si mesmos” (THOMPSON, 2002, p. 16), o exercício de análise e interpretação
deste episódio exige uma atenção especial do ponto de vista da dimensão que tais comentários
têm para as relações raciais no Brasil.
Recorrendo ao que Apple (1996) aponta sobre a branquidade como um “conceito
espacial” (p. 36), a proposição defendida pelo autor converge com os efeitos que o
silenciamento por parte da professora criou:
Isto requer que vejamos a branquidade como sendo ela mesma um termo
relacional. O branco é definido não como um estado, mas como uma relação
com o preto, ou com o marrom, ou amarelo, ou vermelho. O centro é
definido como uma relação com a periferia.
Nos nossos modos usuais de pensar essas questões, a branquidade é algo
sobre o qual não temos que pensar. Ela está simplesmente aí. Trata-se de um
estado naturalizado de ser. Trata-se de uma coisa ‘normal’. Tudo o mais é o
‘outro’. É o lá que nunca está lá. (APPLE, 1996, p. 39-40).
A naturalização com que o fato ocorre e é ignorado reitera a constatação do autor de
que a branquidade atua de modo a não reconhecer o que não se relaciona com sua construção
identitária. Assim, se acrescentada de outras estratégias e modos de operação da ideologia, é
válido caracterizar este episódio como uma marca da ideologia racista operando de maneira
latente por meio da recepção de formas simbólicas. Sobretudo o expurgo do outro,
estigmatização e silêncio são os modos mais evidentes pelos quais foi possível interpretar tal
micro-cena.
Outros episódios seriam passíveis de análise nesta seção, assim como na seção anterior
que buscou apresentar elementos positivos no que se refere ao reconhecimento das diferenças
e perspectiva da alteridade. Mais do que evidenciar a ideologia, o interesse nessas categorias
em particular foi de desenvolver um olhar sobre a branquidade, por considerá-la como um
aspecto necessário de ser tematizado quando se aborda as relações raciais. Tal opção, ainda,
possibilita considerações ampliadas sobre a formação docente de professoras/es brancas/os e a
151
sua atuação na promoção ao lado de professoras/es negras/os de um modelo pedagógico
antirracista. É o que também defende Giroux (1999):
À medida que os jovens brancos lutam para encontrar um espaço cultural e
político a partir do qual falem e ajam como cidadãos transformadores, é
importante que educadores tratem daquilo que significa pedagógica e
politicamente ajudar os estudantes a rearticular a branquidade como parte de
uma política cultural democrática. Embora seja imperativo que uma análise
crítica da branquidade trate de seu legado histórico e de sua cumplicidade
com a exclusão e a opressão racistas, é igualmente crucial que tal trabalho
possa distinguir entre a branquidade como identidade racial que é não-racista
ou anti-racista e aqueles aspectos da branquidade que são racistas
[...](GIROUX, 1999, p. 114).
6.3 Ideologia e discurso para a construção de imagem da África
Se, ao considerar que houve, ao longo da história da educação brasileira, uma explícita
intenção de descaracterizar a história da população africana e de suas origens, estamos
concordando que a necessidade de alteração no que se refere à formação continuada, à
produção de material didático e metodológico é urgente. A polêmica, então, gira em torno da
literatura infanto-juvenil (bem como da literatura adulta) por conta das características e
peculiaridades destas produções. Ora, se pesquisas diversas, algumas citadas inclusive nesta
dissertação anteriormente, apontam para os danos causados pela representação didatizante da
literatura infanto-juvenil, como agora propor que este gênero literário sofra alterações para
atender aos interesses de uma educação das relações étnico-raciais? Não se trata, portanto, de
ideologia (no sentido thompsoniano) também? Uma das respostas possíveis é não. Não se
trata (em princípio e obviamente) de ideologia por não ser a utilização ou criação do sentido a
serviço do estabelecimento e sustentação de relações de poder assimétricas. Pelo contrário, a
proposição de mudança refere-se justamente à tentativa de diminuir uma assimetria. O
problema, contudo, persiste: é adequado interferir na produção artística de uma escritora ou
escritor? Ou ainda, é adequado indicar, selecionar ou propor qual tema deve conter as obras
produzidas e veiculadas na escola?
Embora tais perguntas não serão respondidas a princípio pois a proposta neste
momento é de desenvolver a construção de um arcabouço argumentativo que será subsídio
para a resposta proposta que virá a seguir, a pesquisa desenvolvida por Dalcastagnè (2008)
relativa “a um corpus de 258 romances, que correspondem à totalidade das primeiras edições
de romances de autores brasileiros publicadas pelas três editoras mais prestigiosas do País” (p.
89) buscando verificar dados referentes às personagens negras, apresenta uma consideração
152
bastante relevante e que vai ao encontro do que se propõe no presente estudo e que, de certa
forma, ratifica a resposta negativa de que há uma tendência ideológica neste debate:
A pesquisa não comunga de nenhuma noção ingênua da mimese literária
que a literatura deva ser o retrato fiel do mundo circundante ou algo
semelhante. O problema que se aponta não é o de uma imitação imperfeita
do mundo, mas a invisibilização de grupos sociais inteiros e o silenciamento
de inúmeras perspectivas sociais, como a dos negros. A proposta, então, é
entender o que o romance brasileiro recente aquele que passa pelo filtro
das grandes editoras, atinge um público mais amplo e influencia novas
gerações de escritores está escolhendo como foco de seu interesse, o que
está deixando de fora e, enfim, como está trabalhando as questões raciais
(DALCASTAGNÈ, 2008, p. 89).
Para a apresentação das categorias a seguir consideradas como limites, é importante,
portanto, considerar tal afirmação de Dalcastagnè (2008) pelo fato de expressar intenções e
interesses convergentes com o que é proposto neste trabalho. O filtro”, do qual a autora se
refere e que dificulta a difusão de uma literatura para além do cânone, pode atuar de modo
ideológico, reificando representações sociais que depreciam determinados grupos e valorizam
outros, numa relação, portanto, assimétrica e hierárquica. É o que será possível verificar a
seguir.
a) A África tribal: os limites na construção do imaginário infantil sobre povos africanos
e suas culturas
Nesta categoria, a análise possibilitou a identificação de todos os modos gerais
apontados por Thompson como sendo pelos quais a ideologia pode operar. As estratégias
correspondentes a tais modos foram: narrativização, naturalização, simbolização da unidade,
metonímia, estigmatização e expurgo do outro. Por estarem inseridos em contextos
específicos, a opção é de não apresentar os Modos Gerais quando alguma das estratégias for
identificada. Assim, evita-se a repetição constante de um modo por mais de uma vez.
O momento a seguir aconteceu na C da Escola B quando, na semana anterior (dia
29/05/2009), havia sido a primeira aula de campo, ainda em caráter de observação. Na
primeira aula, uma das pedagogas da escola é que havia feito, por meio de contação de
histórias, a narração do conto Ulomma: a casa da beleza. A professora, portanto, ao retomar o
tema (neste dia 05/06/2009) e comentar sobre a protagonista da próxima história (Okpija) diz:
01 P: Ela também / mora na África, tá, ela faz parte de uma tribo /
01 e, a gente vai observar / que neste conto acontece também algumas
153
02 situações que a gente tem que pensar, tá? Então eu quero que
03 vocês prestem bastante atenção, não quero que vocês conversem
04 agora, porque a gente vai // conversar [...]
na aula anterior, quando foi a pedagoga que realizou a contação de histórias, um
aspecto havia sido evidenciado por seu discurso: a ideia de África tribal. Um recurso utilizado
historicamente para a construção depreciativa da imagem do continente africano é a sua
associação com a ideia de tribo. Historicamente este termo sofreu alterações na sua aplicação
semântica, embora etimologicamente o vocábulo tenha como significado “grupo racial unido
pela mesma língua, tradições e costumes e que vivem em comunidade sob um ou mais
chefes” (LUFT, 2000, p. 651) sendo, portanto, passível de associação a qualquer grupo étnico.
Porém, escolhas ideológicas marcam a sua real aplicação: generalizadamente não se encontra
em exemplos midiáticos, sobretudo, expressões como “conflitos tribais” associados a guerras
civis ocorridas na história recente europeia (como a guerra da Bósnia e antiga Iugoslávia, por
exemplo) mas, frequentemente é possível identificá-la quando a referência é feita a grupos
étnicos de países africanos. Um estudo italiano, de Bernardo Bernardi (1998), aponta
elementos relevantes na correlação entre África e tribo:
No curso dos últimos cem anos da História da África se chegou à adoção dos
conceitos de etnicidade e de etnia, pelo refuto ao uso, antes prevalente, de
tribo e tribalismo. A palavra tribo, obsoleta, foi ‘repescada’, na metade do
século XIX pelos antropólogos evolucionistas, da linguagem bíblica e latina
para indicar a organização de parentesco dos ‘povos primitivos’. Na Bíblia
as ‘doze tribos de Israel’ afirmam a descendência de todos do patriarca Jacó.
Na antiga Roma monárquica a tribo – tribus – era uma espécie de bairro pois
indicava a distribuição territorial do parentesco, distinto em tribo urbana e
tribo rústica ou do campo. O termo foi largamente aplicado às sociedades
tradicionais africanas, mas a atribuição percebida de sentidos negativos
torna-se ofensiva. No mesmo campo antropológico é descartada quando a
concepção evolucionista de povos primitivos foi considera da errada. Na
África independente o termo tribo soa impróprio e seu derivado tribalismo
assumiu o significado sinônimo de atitudes conservadoras e retrógradas
contrárias ao progresso político ou, comumente, com interesse pessoal a
favor de parentes ou do próprio eleitor. Durante o processo Otieno
82
o jovem
filho do advogado morto refuta a palavra ‘tribú’, como notado, e se serve da
expressão ‘grupos étnicos’ (p. 47, destaques do autor).
Neste sentido, a escolha pelo vocábulo ‘tribo” ao invés de “grupo étnico”,
“civilização” ou “nação”, por exemplo, denota uma negação da possibilidade de
reconhecimento de um grupo humano como sendo civilizado, participante de um mesmo
82
Caso de “conflito étnico entre direito comum e direito consuetudinário” analisado pelo autor nas páginas 45-
46.
154
patamar que o identifica como ser de características humanas. É o que afirma Augustinho
Portera (2000, p. 138-139, destaques do autor): “[o] uso do termo tribo é criticado por
relacionar-se a abordagem exterior e folclórica de povos africanos, contribuindo para mediar a
imagem preconceituosa e estereotipada do ‘selvagem violento e primitivo’”.
Em análise de notícias jornalísticas da imprensa europeia, van Dijk (2008a, p. 146)
identifica marcas do racismo por meio das escolhas lexicais:
Assim, a imigração é sempre definida como um problema fundamental, e
nunca como um desafio, muito menos como um benefício para o país,
freqüentemente é associada a um fardo financeiro. [...] O crime, ou os
tópicos relacionados ao crime, tais como as drogas, são quase sempre entre
os primeiros cinco retratos das minorias inclusive focando no que é tido
como crimes étnicos ‘típicos’, tais quais tráfico e venda de drogas, mas
também definido como ‘terrorismo’ político [...] (Destaques do autor).
Não é adequado associar diretamente que o contexto de produção dos discursos
analisados por van Dijk (2008a) tenha a mesma carga ideológica que os verificados na Escola
B nas falas das duas professoras. Mas o que se verifica em relação à ideologia é que, ao servir
para sustentar relações de dominação, ela é capaz de produzi-las em novos sujeitos. Em outras
palavras, não como reconhecer uma explícita intencionalidade das professoras em formar
nas turmas analisadas a ideia de associação de grupos humanos africanos como “tribo”, mas é
possível interpretar tais falas como ideológicas por serem frutos de acúmulo teórico (ou do
senso comum) que representa a África como tribal (sendo sinônimo de atrasada, primitiva ou
tacanha, por exemplo).
Em outros momentos, a ideia de tribo reaparece. Na B, no mesmo dia e sobre a
mesma história a professora afirma:
01 P: Então olha só, eu vou contar a história o conto sobre a Okpija. Então
02 olha só, a Okpija é essa moça,
03 G: Horrível! (Risos)
04 P: Tá? Lembram que a... professora Charlote havia comentado com
05 vocês / sobre a questão dos costumes, né? / Porque nós estamos falando
06 de tribos africanas / né, que nem nessa tribo, [...].
Mais uma vez a reiteração da África e das pessoas que lá vivem como sendo membros
de grupos relegados a uma representação social inferiorizada é verificada neste momento.
Mesmo ao ouvir ou não ouvir, devido à distância entre ambas de uma aluna da C
83
a
83
Sua voz não aparece na gravação neste momento.
155
substituição do termo “tribo” por “aldeia”, a professora não reconhece a diferença semântica
entre as duas palavras. Por três vezes a aluna troca o termo, o que sugere que seu
entendimento sobre os efeitos que o vocábulo tribo representa foi ampliado provavelmente
por meio de algum comentário de outra professora ou por meio de formação específica
84
. Este
mesmo momento será analisado posteriormente em outra categoria.
Em dois outros momentos na C a mesma aluna apresenta a sua escolha léxica. Após
terminar a leitura do conto, a professora mostra as ilustrações do livro:
01 P: A Okpija e a Ulomma são parecidas?
[...]
02 M¹: Que a Okpija ela morava numa aldeia e a Ulomma num
03 castelo.
04 P: E que mais?
[...]
05 P: Então ela se achava muito, é isso?
06 AS: É.
07 M²: Ela se achava a gostosona só por causa ela era a mais bonita
08 da...
09 M¹: Da aldeia!
10 M²: Da tribo.
11 M¹: Eu num acho.
A professora não reconhece, mais uma vez, a preferência da aluna pela utilização do
vocábulo. Mesmo considerando o fato de o conto não ter feito nenhuma menção ao local onde
a história acontece como sendo uma tribo, a citação é constante. Observando os modos de
operação da ideologia que, segundo Thompson (2002) podem operar em circunstâncias
particulares para estabelecer relações assimétricas de poder, a correlação possível entre
África tribal e ideologia é que uma estratégia de “narrativização”, ou seja, “a expressão de
idéias legitimadoras em histórias que retratam o passado e tratam o presente como tradição
eterna e aceitável” (SILVA, 2008b, p. 46). A ênfase na construção de uma imagem do
continente africano como primitivo reitera a uma narrativização de atraso e falta de
desenvolvimento. E tal estratégia relaciona-se com outras duas: a “naturalização”, por reificar
“um estado de coisas que é uma criação social e histórica pode[ndo] ser tratado como um
acontecimento natural ou como um resultado inevitável de características naturais”
84
Um vídeo de bastante circulação nas escolas e cursos de formação de professoras/es (além da televisão)
chamado “A cor da cultura” apresenta uma pesquisa feita com dez pessoas de uma grande cidade sobre a
imagem que m da África. Utilizando os vocábulos: desenvolvimento X atraso, saúde X doença, riqueza X
pobreza, instabilidade política X estabilidade política, tribo X civilização, as pessoas deveriam escolher as
palavras que mais representavam a imagem de África. E o resultado apontou que a maioria das pessoas identifica
o continente como palavras de sentido negativo. Este vídeo foi por alguns anos veiculado no canal Futura, uma
outra possível fonte para esta aluna que fez a intervenção durante a aula.
156
(THOMPSON, 2002, p. 86) e a eternalização, ou seja, “costumes, tradições e instituições que
parecem prolongar-se indefinidamente em direção ao passado, de tal forma que [...] adquirem,
então, uma rigidez que não pode ser facilmente quebrada” (THOMPSON, 2002, p. 86).
Assim como há a presença de simbolização da unidade, que se refere à “construção de
símbolos de unidade, de identidade e identificação coletivas” (THOMPSON, 2002, p. 86). Na
reafirmação frequente de que grupos étnicos africanos são tribos, constrói-se uma série de
representações simbólicas que acionam esquemas mentais de associação entre tais grupos, o
que impossibilita a identificação de diferentes modos de viver suas particularidades culturais.
Sobre outro conto, uma síntese do filme “Kiriku e a feiticeira” presente na coleção A
África está em nós: história e cultura afro-brasileira (BENJAMIN et al., 2006), a
atividade que é solicitada após a leitura indica alguns aspectos estereotipados sobre a
personagem africana. As questões que se seguem após o conto (e que a professora as utiliza)
são:
1) Você gostou da lenda Kiriku e a feiticeira? Sim, não? Por quê?
2) O que você achou mais importante nesta história?
3) Na sua opinião qual a vantagem de Kiriku ser pequenino?
4) Você conhece alguma lenda brasileira que tenha a mesma mensagem da lenda
africana Kiriku e a feiticeira?
Apenas na 4ª B as crianças encontram a “resposta certa” para a questão de número 4:
12 G³: Ô, cara, você conhece alguma lenda brasileira? / Eu num
13 conheço nenhuma, professora.
14 G
4
: Eu conheço altas.
15 AS: [Eu não conheço nenhuma.
16 P: [Então qual?
17 G
4
: Eu conheço..., deixa eu ver, o Pequeno Polegar.
18 P: Lenda brasileira que tenha mais ou menos a mesma mensagem
19 que a lenda do Kiriku?
20 G¹: Ah, o Negrinho do Pastoreio!
21 AS: O Neguinho. ( ).
22 M¹: Pior é que é verdade. ( ).
23 G²: Ele sofria também!
24 P: Ele sofria também.
25 G²: Ele apanhava de chicote todo dia.
26 M²: ( ).
27 P: É, nós podemos usar a lenda do Negrinho do Pastoreio
28 também.
157
Observando o conto tal como foi narrado para as crianças, não se verifica relação entre
as duas personagens, a não ser o tamanho de ambas.
Kiriku e a feiticeira
Numa aldeia da África nasce Kiriku. O pequeno Kiriku era minúsculo, tão
pequeno que não chegava a atingir o joelho de um adulto. Era rápido,
esperto, muito perguntador e corajoso. Nasceu sozinho, sabendo andar e
ainda escolheu o próprio nome.
_ Mãe, eu me chamo Kiriku disse, logo após o parto. Lavou-se sozinho e
perguntava, perguntava, perguntava. Ainda no seu primeiro dia de vida:
_ Mãe, cadê meu pai?
_ Foi devorado pela feiticeira Karabá.
_ Mãe, e os homens da aldeia?
_ Todos os homens da aldeia foram devorados por Karabá.
_ Mãe, por que não existe água na aldeia?
_ Karabá, a feiticeira, mandou secar a fonte.
Sem água se banhar, para beber, para nadar, para brincar, para apagar o fogo
que Karabá lançava sobre a aldeia, a vida do povo era muito dura e o menino
estava decidido a resolver esse problema.
Kiriku, corajosamente, entrou na fonte que estava seca e dentro dela
encontrou um grande monstro que engolia toda a água. Diante daquele
monstro enorme, o menino ficou paralisado:
_ Quem vai matar o monstro? Nenhuma pessoa grande pode entrar aqui.
eu, porque sou pequeno posso matá-lo.
Arriscando sua própria vida, Kiriku espeta o monstro e ele morre, liberando
a água da fonte para a aldeia. A alegria é geral e o povo aclama Kiriku como
herói:
Água de banhar, água de beber, água de nadar, água de brincar... Kiriku
não é grande, mas é valente e tem seu valor. Ele parece um gigante e é um
grande amigo e seu maior tesouro é o coração.
Havia água na aldeia e Kiriku era o grande herói para o povo, mas algo ainda
inquietava o seu coração:
_ Mãe, por que Karabá é má?
_ Não sei – respondeu a mãe.
_ Mãe, quem sabe?
_ Ah, o grande sábio, seu avô.
E com coragem e decisão, e ajuda de sua mãe, Kiriku entrou numa nova
aventura: encontrar o avô e descobrir por que Karabá é má.
Vencendo toda a ira e perseguição de Karabá, Kiriku encontra o seu avô.
_ Bom-dia, vovô!
_ Bom-dia, Kiriku! Estava esperando por você.
_ Vovô, eu queria ser grande.
_ Quando você for grande vai querer ser pequeno. Seja feliz como pequeno.
Depois você será feliz quando for grande.
_ Por que Karabá é má?
_ Porque ela sofre. Ela tem um espinho cravado em suas costas, sobre a
espinha dorsal, o que lhe causa muito sofrimento.
_ Por que ela não tira o espinho?
_ Porque ela não alcança e não tem amigos para tirá-lo. Existe outra razão: o
espinho de lhe dá poderes mágicos. Se o retirar, ela pode perder seus
poderes.
_ Vovô, por que Karabá devora os homens?
_ Ela não os devorou, ela os transformou em objetos.
158
Kiriku, como toda criança, gosta de colo, de proteção e de carinho, por isso
ele disse:
_ Vovô, me dá colo. Às vezes eu fico triste porque tenho que lutar sozinho.
O vovô pega Kiriku e o embala. Decido ajudar o seu povo, Kiriku entrou na
casa da feiticeira e, aproveitando a distração de Karabá, retira com os dentes
o espinho cravado. Karabá é libertada do sofrimento que dava origem ao mal
e transforma-se em uma doce mulher, que agradecida beija Kiriku,
transformando-o num belo jovem. Os homens que foram enfeitiçados o
libertados e voltam para a aldeia. Karabá e Kiriku se apaixonam e todos
vivem felizes para sempre (BENJAMIN et al., 2006, p. 61-63).
Outro aspecto evidenciado como ideológico é a associação imediata de sofrimento
atribuída a personagens negras. Esta técnica reitera práticas identificadas principalmente na
vertente realista da literatura infanto-juvenil brasileira. Contudo, os finais de ambas as
histórias não indicam sofrimento para as duas personagens. Pelo contrário, como a própria
narrativa informa (sob uma perspectiva europeia) que “Karabá e Kiriku se apaixonam e todos
vivem felizes para sempre” (BENJAMIN [et al.], 2006, p. 63). Por o ter tido acesso à
mesma edição utilizada pela professora, não foi possível identificar se um “Manual do
professor”, com respostas “certas” às perguntas e atividades do livro. De qualquer maneira, o
que se verifica é que, seja a professora ou sejam o autor e autoras do livro, a explícita
associação da personagem Kiriku a uma outra personagem estigmatizada da literatura
brasileira o Negrinho do Pastoreio reitera elementos de uma representação inferiorizante
ou deprimente sobre crianças negras. Neste sentido, um modo de operação da ideologia
verificado por meio da estratégia do tropo metonímia, que “envolve o uso de um termo que
toma o lugar de um atributo [...] ou de uma característica relacionada a algo para se referir à
própria coisa, embora não exista conexão necessária entre o termo e a coisa à qual alguém
possa estar se referindo” (THOMPSON, 2002, p. 85). A associação injustificada de duas
personagens com características e desfechos completamente diferentes é feita de modo
arbitrário, somente pelo fato de serem, além de negros, de tamanho pequeno. E, acima de
tudo, a presença de estigmatização que se trata de uma forma específica de expurgo do
outro: “a desapropriação de indivíduo(s) ou grupo(s) do exercício de sua humanidade pela
valorização de uma deficiência ou corrupção de alguma condição física, moral ou social”
(ANDRADE, 2004, p. 107-108).
Assim, é adequado afirmar que a ideologia está operando de forma a construir, manter
e sustentar relações de dominação no que se refere ao ensino de história e cultura afro-
brasileira e africana por meio da literatura infanto-juvenil. Isto pode ser a revelação de uma
prática pedagógica constante, não no contexto pesquisado, mas também na atuação em
outras escolas de realidades diferentes.
159
A categoria a seguir relaciona-se à primeira no sentido de expor o quão frágil ainda
são os recursos metodológicos para a implementação da Lei 10.639/2003.
b) Contextos pontuais ou artificiais: os limites no cumprimento da Lei 10.639/2003
Nesta categoria, a ideologia foi identificada por meio da unificação e fragmentação,
tendo como estratégias a padronização e diferenciação.
Embora não seja explicitado nos textos da legislação da Educação das Relações
Étnico-Raciais (Lei 10.639/2003; Diretrizes Curriculares Nacionais para Educação das
Relações Étnico-Raciais e para o Ensino de História e Cultura Afro-Brasileira e Africana; Lei
11.645/2008) que o ensino de história e cultura afro-brasileira e africana deva estar inserido
no currículo e não por meio de projetos pontuais, esta vem sendo uma preocupação constante
dos estabelecimentos de ensino e instituições mantenedoras engajadas no efetivo
cumprimento dos preceitos legais. Contudo, a aplicação pontual é uma prática ainda
verificada em diversas escolas, como se a história e cultura afro-brasileira e africana
resumissem-se em datas ou semanas comemorativas (como o Dia Nacional da Consciência
Negra, por exemplo). Com a apresentação dos momentos discursivos a seguir, será possível
evidenciar que, mesmo havendo uma preocupação em inserir conteúdos relacionados à
valorização da história e cultura afro-brasileira e africana, ainda muitas dificuldades, o que
acaba reforçando um modelo curricular eurocêntrico, pautado no entendimento de que a
normatividade é branca e ocidental, restando às “minorias” indígenas e africanas (duas das
grandes matrizes brasileiras) momentos específicos no conteúdo oficial escolar.
Na 4ª B, no dia 05/06/2009, a seguinte situação foi verificada:
01 P: Então olha só, nós vamos fazer uma produção sobre um outro
02 conto e como então aquele já passou um pouquinho talvez até é...
03 não fique tão vivo na nossa memória. / Mas eu vou contar hoje
04 pra vocês
05 G: Dos Irmãos Green.
06 P: Não, não é sobre os Irmãos Green. É... é... eu vou contar um
07 outro conto, tá, e eu quero daí saber bem como é a opinião sobre
08 esse conto. Ele é bem interessante.
Nesta passagem, um aluno associa que a escolha por contos de origem europeia é uma
constante, sabendo, inclusive, identificar nomes expoentes desta matriz literária. Em outro
dia, 19/06/2009, na 4ª A, as falas foram as seguintes:
160
01 G: Professora, tem que desenhar? [Que que a professora quer?
02 Pq: [Acho que a professora. Tem que ver com a professora o que que
03 ela pediu que eu num lembro.
04 P: Nas ilustrações que vocês trouxeram, as melhores ilustrações são pra
05 entregar pra Débora, que a Débora vai fotografar pra pôr num trabalho
06 que ela tá fazendo. Se tiver alguma frase também que tenha sido bem
07 interessante vou separar e entregar pra ela pra ela pra que ela possa
08 fazer o registro do material de vocês, ta? Então caderno aberto, por
09 favor, que ( ). Vou ver a Ulomma e a Okpija.
10 M: Da Magali não, professora?
11 P: Não. Daí a gente volta depois da depois das férias.
Como foi relatado anteriormente, houve alteração no planejamento das aulas de
leitura das 4
as
séries em função desta pesquisa, o que interrompeu as atividades que a
professora estava desenvolvendo em suas aulas. O que a aluna questiona é, portanto,
relacionado ao conteúdo interrompido: a professora estava trabalhando as principais
personagens da Turma da Mônica. Esta passagem evidencia que o trabalho com a literatura
até então não tinha abordado especificamente obras que pregam a valorização da cultura afro-
brasileira e africana, o que sugere a ideia de que os conteúdos seriam desenvolvidos em
momentos futuros, principalmente próximo ao dia 20 de novembro.
Neste sentido, surge uma pergunta: como se desvencilhar das armadilhas do currículo
(que têm base ideológica) que fazem com que os conteúdos relacionados a esta temática
sejam concentrados em apenas um bimestre ou em momentos pontuais? Tal contexto chama a
atenção por constituir-se como uma estratégia ideológica, a padronização, em que “formas
simbólicas são adaptadas a um referencial padrão, que é proposto como um fundamento
partilhado e aceitável de troca simbólica” (THOMPSON, 2002, p. 86). Em outras palavras, ao
estabelecer que as temáticas da “diversidade” (Educação das Relações Étnico-Raciais,
Educação Ambiental, etc.
85
) sejam abordadas em momentos específicos, as escolas, em geral,
acabam por relegar tais discussões as suas “datas comemorativas” como 19 de abril, 20 de
novembro, 5 de junho, etc. E, além de compartimentalizar estes temas a momentos pontuais,
esta estratégia acaba por impedir que o ensino de História e Cultura Afro-Brasileira neste
caso em específico perpasse todos os conteúdos de modo contextualizado e adequado às
particularidades de cada disciplina. É o que aponta Gomes (2007, p. 28) ao afirmar que
“[c]ertamente, iremos notar que a questão da diversidade aparece, porém, não como um dos
85
Ao citar tais temáticas, faço alusão à Secretaria de Educação Continuada, Alfabetização e Diversidade
(SECAD) do Ministério da Educação, que é responsável por ações que vão desde a Alfabetização de Jovens e
Adultos, Educação Indígena, Educação do Campo e diversos outros temas da “diversidade”. Ver mais em:
<<http://portal.mec.gov.br/index.php?option=com_content&view=article&id=12499&Itemid=817>> Acesso
em: 05/03/2010.
161
eixos centrais da orientação curricular, mas, sim, como um tema. E mais: muitas vezes, a
diversidade aparece somente como um tema que transversaliza o currículo entendida como
pluralidade cultural. A diversidade é vista e reduzida sob a ótica da cultura”.
Contudo, o diálogo a seguir evidencia que, mesmo pontualmente (buscando atender
aos interesses da pesquisa e cumprir com o planejamento feito pela pedagoga que iniciou o
trabalho), estabelece-se uma preocupação por parte da professora em desenvolver um trabalho
adequado e condizente com a Educação das Relações Étnico-Raciais:
01 P: Tá acompanhando bem o meu encaminhamento? Foi mais ou
02 menos o que ela deixou.
03 Pq: Fica à vontade, tá bem legal!
04 P: Aí ela disse: Sally, eu não venho,
05 Pq: Eu liguei pra ela ontem e ela falou que não vinha.
06 P: Né, / Sally, eu não venho, daí veja, eu deixei o
07 encaminhamento ( ).
08 Pq: Não... é assim mesmo. / E pros próximos a ideia é que eu fique
09 algum tempo. Então pode ficar à vontade, escolha as obras que você
10 quiser. O que eu tinha pedido pra Charlote é que fossem do acervo.
11 P: Ahã.
12 Pq: Então num importa.
13 P: E... até porque depois eles possam, né, tanto que tenham o interesse
14 de ir na biblioteca e pegar, / [né?
15 Pq: [Viu que legal? Não, é bom é bom variar, né? Isso que é o legal!
16 P: É.
17 Pq: Mas você fica à vontade porque em qualquer momento de
18 leitura eles vão fazer comentários da forma que eu que eu acho que vão,
19 então não se preocupe.
20 P: Que ótimo! (Risos) Porque às vezes até / até tem umas viagens que
21 vão até... né? E... eu sei que a parte da Secretaria que tem o...
22 a... o pessoal que faz parte da da... comissão étnico-racial, né?
23 Pq: Isso.
24 P: Então, eu não faço, então eu não sei que pé está realmente (4ª
B, 05/06/2009).
Esta preocupação tanto pode se referir à insegurança no encaminhamento das leituras e
posteriores debates acerca de um tema de pouca formação, sobre quanto à necessidade de
correspondência com os objetivos desta pesquisa (que a professora considerava que suas aulas
deveriam ter). Ela demonstra reconhecer que a mudança de temáticas de leitura para as
crianças pode influenciar inclusive nos seus gostos e interesses (linhas 13 e 14). E seu
conhecimento está na medida em que as informações chegam para ela, que, por não fazer
parte da equipe multidisciplinar (linhas 21 a 24), não tem acompanhado na íntegra como está
ocorrendo a implementação das Leis 10.639/2003 e 11.645/2008. Sob o ponto de vista da
branquidade (como já discutido anteriormente), esta postura revela um comprometimento com
162
a educação antirracista, ao passo que, sob a perspectiva de um trabalho voltado para os
preceitos de uma Educação das Relações Étnico-Raciais, o modo de operação ideológico
identificado (e que se aproxima da anteriormente apontada) é a unificação em uma
“construção de identidade coletiva, independentemente das diferenças individuais e sociais”
(SILVA, 2008b, p. 44). Refere-se, neste caso, ao estabelecimento de um cânone curricular que
omite ou restringe o espaço destinado ao ensino de história e cultura afro-brasileira, africana e
indígena, por exemplo, em favor de uma formação eurocêntrica. Assim, a insegurança da
professora no encaminhamento das discussões acerca de leituras de outras matrizes,
demonstra os efeitos desta unificação que desconsidera as diferentes perspectivas que o
currículo deve abranger para atender aos preceitos de uma Educação das Relações Étnico-
Raciais.
Além deste modo, uma estratégia que se vincula neste caso é diferenciação que
promove a “ênfase em características de grupos ou indivíduos de forma a dificultar sua
participação no exercício de poder” (SILVA, 2008b, p. 44). Esta estratégia tem relação com
as escolhas de conteúdos a serem desenvolvidos ao longo do ano letivo que normalmente
desconsideram possibilidades para além do modelo tradicional. Relaciona-se, particularmente,
à dificuldade apresentada pela professora de acesso a informações mais concretas de como se
dá o trabalho e a atuação das equipes multidisciplinares nas escolas, e a escassez (embora seja
ainda muito maior que em grande parte das redes municipais de ensino) de formação sobre as
formas de trabalho com a literatura infanto-juvenil de temas voltados para a valorização da
cultura afro-brasileira, africana e indígena.
Outro aspecto verificado nesta pesquisa de observação participante, embora não se
relacione diretamente às estratégias e modos de operação da ideologia destaca-se por ser
recorrente: a preocupação da professora em desenvolver um trabalho que ficasse a contento
deste estudo aliada à imagem que eu, como pesquisadora, representava em sala. No dia
10/07/2010, na 4ª B, dois trechos se destacam pela forma de encaminhamento:
01 G³: Lá elas usavam muito ouro que elas tinham guardado e aqui quase
02 ninguém usa ouro, [só
03 P: [Elas usavam ouro?
04 AS: ( ).
05 P: Elas tinham ouro, né. Em nenhum momento a gente podia perceber a
06 questão de estar usando ouro.
07 M5: A Karabá pegava tudo.
08 P: Até porque a Karabá pegava tudo, então às vezes ali aparece e não
09 aparece. Aparece o ouro mas não dá a entender se elas usam ou não, ou
10 se elas só têm o ouro pra dar pra Karabá. Então fica meio difícil
11 perceber a utilização. Não sei, Débora, você sabe alguma coisa com
163
12 relação a isso?
13 Pq: Não, não sei. Eu imagino que elas devam ter parado de usar, né,
14 usaram menos quando a Karabá começou a tomar
15 P: Por conta disso, né, elas se tornaram mais simples, né?
[...]
16 LISA: Professora, e antigamente eles não bebiam é...
17 G
n
: Refrigerante?
18 LISA: Não, eles não bebiam bebidas alcoólicas e hoje tem bebidas
19 alcoólicas.
20 P: Também. Mas // eu não, é que ali não aparece ( ) a bebida alcoólica
21 ela existe desde a época dos egípcios.
22 AS: Nossa!
23 P: Então na verdade, é que a gente não vê ali se existe ou não naquela
24 tribo, mas a bebida alcoólica já é uma coisa muito antiga, ela sempre
25 existiu, tá? Diga, ( ). Me corrija, por favor, [com qualquer
26 Pq: Não, eu acho que é [isso mesmo
27 P: [Qualquer
28 Pq: [Cerveja, né, que acho que é uma das mais antigas
29 P: É, também tem o vinho, né, o vinho
É possível verificar que informações expressas pela professora acerca de temas mais
específicos sobre a cultura africana necessitaram, em vários momentos, de uma espécie de
legitimação da minha parte, como se eu representasse a especialista no assunto, e ela
meramente compunha um cenário do qual eu precisava para realizar a pesquisa. Tal contexto
revela-se extremamente importante se considerarmos sob o ponto de vista do desconforto que
a presença de uma “suposta” especialista no assunto gerava. Neste sentido, dois movimentos
são percebidos: o da professora, que buscava subsídio e validade de suas explicações na
minha experiência, e o meu, que evitava me fazer mais presente do que já era, dada a
complexidade de se tratar de uma pesquisa sobre algo que tinha relação direta com as minhas
origens. Estes pequenos “detalhes” de uma pesquisa de observação participante são relevantes
por marcarem comportamentos e atitudes que tanto pesquisadora como participantes
manifestam em campo.
c) Estética africana: os limites na representação estereotipada das personagens
Por meio da análise de um evento discursivo e produção de ilustrações por parte de
algumas crianças, os modos de operação pelos quais foi possível afirmar a reificação
ideológica da estética africana foram unificação e fragmentação, sendo que do primeiro a
padronização e simbolização da unidade foram as estratégias identificadas, e do segundo, a
estratégia de expurgo do outro.
164
O episódio a seguir refere-se ao momento em que a professora apresenta à B,
também no dia 05/06/2009, o conto que irá ler (Okpija).
27 P: Então olha só, eu vou contar a história o conto sobre a Okpija.
28 Então olha só, a Okpija é essa moça,
29 G
n
: Horrível! (Risos)
30 P: Tá? Lembram que a... professora Charlote havia comentado com
31 vocês / sobre a questão dos costumes, né? / Porque nós estamos
32 falando de tribos africanas / né, que nem nessa tribo, essa é a
33 Ulomma, [o costume é, até pelo sinal de nobreza, era /
34 G
n
: [Ui!
35 M
n
: [Deixa eu ver, professora.
36 AS: [( ).
37 G
n
: [Todas careca!
38 G
n
: [Ô professora, acho que essas mulher tá tudo sem ( ).
39 P: Manter a cabeça raspada.
40 AS: ( ).
41 P: E agora, olha só, neste outro nesse outro conto / já, a gente não
42 percebe mais que é um sinal de nobreza estar com a cabeça
43 raspada, então
44 G
n
: ( ).
45 P: Então provavelmente aqui é uma outra tribo, né, e é... os
46 enfeites já são diferentes. Né, ela tem adornos no cabelo, / ela tem
47 os colares, ela tem pinturas no [corpo // né?
48 G
n
: [Professora, é implante, num é cabelo não, né?
49 P: Não, não é implante de cabelo. São os cabelos dela mesmo.
Além da ideia de tribo presente nesta passagem, outros elementos chamam a atenção:
os comentários relacionados às características fenotípicas e estéticas das personagens (linhas
29, 34 e 37), e a hipótese de um aluno sobre as origens do cabelo da personagem Okpija
(linha 48) evidenciam marcas do olhar ocidental, ou do Nós (nas palavras de van Dijk) sobre o
Eles. O estranhamento presente nos comentários das crianças ganha reforço com a
argumentação rasa de que as diferenças entre uma e outra personagem são relacionadas às
diferenças entre as “tribos”. Abaixo, ilustrações de ambas as histórias apresentam personagens
negras retratadas em sua altivez, mas que foram insuficientes para impedir um olhar e
interpretação estereotipados.
165
FIGURA 3 – ILUSTRAÇÃO DO CONTO FIGURA 4 – ILUSTRAÇÃO DO CONTO
ULOMMA: A CASA DA BELEZA (p. 14) OKPIJA (p. 30)
Estereótipos também se fizeram presentes em parte das ilustrações produzidas pelas
crianças. Como assinalado anteriormente, a proposta (que partiu da professora) de ilustrar as
histórias, teria como objetivo ampliar as possibilidades de interpretação de recepção sobre a
compreensão das crianças acerca das leituras realizadas.
166
FIGURA 5 – ILUSTRAÇÃO PRODUZIDA FIGURA 6 – ILUSTRAÇÃO PRODUZIDA
POR ALUNA/O SOBRE O CONTO OKPIJA POR ALUNA/O SOBRE O CONTO ULOMMA
FIGURA 7 – ILUSTRAÇÃO PRODUZIDA FIGURA 8 – ILUSTRAÇÃO PRODUZIDA
POR ALUNA/O SOBRE O CONTO ULOMMA POR ALUNA/O SOBRE O CONTO OKPIJA
167
As duas primeiras imagens (figuras 5 e 6) evidenciam os efeitos de uma abordagem
pedagógica que enfatiza a relação entre “tribal” e povos africanos. Mesmo que as ilustrações
não apresentem tonalidade de pele condizente com as personagens, as vestimentas indicam
marcas que associam as personagens a um contexto primitivo. Já nas figuras 7 e 8 a presença
de uma formação eurocêntrica arraigada impede que a leitura de uma obra literária sob
perspectiva diferente seja “lida” de modo mais aproximado de seu contexto de enredo e de
produção. Tanto no que se refere às marcas físicas (tipo e cor dos cabelos, vestimentas, etc.)
como às marcas de cenário (castelos, disposição e tipo de mobílias, entre outros) a presença
de ideologia é explícita, dentre os quais se podem identificar alguns dos modos e estratégias
em que ela opera:
a) padronização: no que se refere às ilustrações de personagens negras retratadas em
contextos e com características europeias, fator influenciado, sobretudo, pelo fato de as
crianças terem contato constante com um único grupo humano nos enredos literários
86
;
b) simbolização da unidade: a recorrência de ilustrações que apresentam as
personagens com características “tribais” ou, nas palavras de Thompson (2002, p. 86)
“envolve a construção de símbolos de unidade, de identidade e de identificação coletivas”.
Esta estratégia, como bem aponta o autor, relaciona-se diretamente com a narrativização,
estratégia difundida para “tratar o presente como parte de uma tradição eterna e aceitável”
(THOMPSON, 2002, p. 83). A aproximação está, portanto, no fato de símbolos, como as
roupas feitas de peles de animais ou uma semi-nudez, por exemplo, serem associados
constantemente como representação simbólica de grupos africanos, por firmar-se “na medida
em que símbolos de unidade podem ser uma parte integrante da narrativa das origens que
conta uma história compartilhada e projeta um destino coletivo” (THOMPSON, 2002, p. 86);
c) expurgo do outro: quando o comentário “horrível” (linha 3) seguido de risos
evidenciam o quão estranho é a imagem de uma mulher negra em sua estética de origem.
Thompson (2002, p. 87) define esta estratégia como sendo “a construção de um inimigo, seja
ele interno ou externo, que é retratado como mau, perigoso e ameaçador e contra o qual os
indivíduos são chamados a resistir coletivamente ou a expurgá-lo”. Embora não tenha essa
complexidade, a interpretação dessa estratégia como recorrente nesse episódio denota do fato
de que o estabelecimento de um comentário como este pode representar, do ponto de vista
86
Não considero que esta interpretação seja fruto de uma inferência. Acredito ser consenso entre
pesquisadoras/es e profissionais da educação que a presença constante de enredos literários e de uma
branquidade como modelo civilizatório estabeleçam esta elaboração de cenários e locações de origem europeia.
168
histórico para nossa sociedade, como uma demarcação étnica sobre qual estética é a tradução
do belo e qual simboliza a feiura. Sobre isso, Gomes (2002, p. 21) aponta:
Foi a comparação dos sinais do corpo negro (como o nariz, a boca, a cor da
pele e o tipo de cabelo) com os do branco europeu e colonizador que,
naquele contexto, serviu de argumento para a formulação de um padrão de
beleza e de fealdade que nos persegue até os dias atuais. Será que esse
padrão está presente na escola? A existência de um padrão de beleza que
prima pela “brancura”, numa sociedade miscigenada como a nossa, afeta ou
não a nossa vida nas diferentes instituições sociais em que vivemos? Essas
representações estão presentes na escola? Como?
Dada a dimensão dos dados produzidos/coletados, esta pesquisa apresenta
possibilidades de se estabelecer mais análises inseridas nestas categorias bem como sob a
perspectiva de Thompson (2002) acerca da (re)interpretação poderia, inclusive, suscitar
novas categorias, com vistas a elucidar outros aspectos que certamente aqui podem não ter
sido apontados, que foram análises e interpretações feitas sob um prisma e olhar
específicos. Contudo, o mesmo autor também aponta para uma importante consideração a
respeito de pesquisas com o perfil deste trabalho: “[a]firmar que existe grande exigência para
uma reflexão crítica desse tipo é um fato que não pode ser colocado em dúvida por ninguém
que esteja familiarizado com as múltiplas formas de desigualdades e conflito, que
permanecem como características generalizadas, explosivas e aparentemente intocáveis do
mundo moderno” (THOMPSON, 2002, p. 417).
Neste sentido, encerro o presente capítulo propondo que esta consideração do autor
seja reconhecida também para este estudo que se embrenhou em um campo amplo e
complexo, mas que buscou manter-se atento a todas as possibilidades de interpretação, na
tentativa de elucidar com coerência, ética e criticidade a ideologia envolta na relação livros
literários infanto-juvenis, seu uso e o discurso racializante produzido por sua leitura e
recepção.
169
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Não posso e não me interessa transcender a mim mesmo, como
habitualmente os cientistas sociais declaram supostamente
fazer em relação às suas investigações. Quanto a mim,
considero-me parte da matéria investigada. Somente da minha
própria experiência e situação no grupo étnico-cultural a
que pertenço, interagindo no contexto global da sociedade
brasileira, é que posso surpreender a realidade que condiciona
o meu ser e o define. Situação que me envolve qual um
cinturão histórico de onde não posso escapar conscientemente
sem praticar a mentira, a traição, ou a distorção da minha
personalidade.
Abdias do Nascimento
Finalizar um trabalho de dois anos não é tão fácil como se imagina. Como compilar os
aspectos mais importantes de um trabalho tão extenso e complexo em apenas algumas
páginas, já que todo o processo foi importante? Esta é a dificuldade do momento. Dificuldade
esta que espero superar assim como outras o foram.
Ao ingressar no mestrado imaginava um modelo de pesquisa e um padrão de
resultados. Surpreendi-me em alguns momentos, decepcionei-me em outros, mas, acima de
tudo, aprendi em todos. Aprendi o quão grande é a responsabilidade de se desenvolver uma
pesquisa com seres humanos, de construir um arcabouço teórico para analisar o
comportamento de outras pessoas (mesmo que não sejam o foco de análise em si) e,
principalmente, aprendi que as impressões são diferentes dos fatos. Construí-me como
pesquisadora mais ponderada, que passa a considerar perspectivas além do que as aparências
transfiguram. Por outro lado, cresci como militante e mulher negra, por ampliar o olhar sobre
as relações raciais, descobrindo possibilidades de mudança, conhecendo profissionais brancas
que buscam romper com o modelo vigente criado pela branquidade normativa e promovem,
na medida do possível a suas condições, outras possibilidades de se construir o conhecimento
acerca do Outro, do diferente.
As dificuldades de toda ordem surgidas no percurso do meu trabalho auxiliaram para
que eu compreendesse que a qualidade de uma pesquisa científica está na manutenção de seu
princípio ético, de buscar interpretar as ações em contextos teóricos bem demarcados,
evitando, assim, reducionismos ou falácias.
E, enfim, chegou ao fim. Fim com gosto de recomeço. Uma vontade enorme de
recomeçar e alterar todas as peças, de remodelar a estrutura da pesquisa, alterar perspectivas,
170
objetivos e hipóteses... este deve ser um dos sintomas da maturidade. E é com alguma
maturidade que julgo ter adquirido nestes dois anos que apresento agora as considerações que
encerram esta etapa, mas não o desejo de continuar pesquisando.
A proposta de análise e interpretação de discursos em salas de aula de 4
as
séries acerca
de leituras de obras infanto-juvenis, buscando verificar se apresentavam estratégias
ideológicas relativas à dominação racial, encontrou elementos significativos. Por meio da
Hermenêutica da Profundidade foi possível construir uma estrutura de análise para além dos
episódios discursivos, propiciando condições mais amplificadas de interpretação da ideologia
que se mostrou presente em todos nos níveis, desde a análise sócio-histórica, passando pela
análise formal ou discursiva e sendo identificada de modo mais evidente na (re)interpretação
das formas simbólicas. Paralelamente, o Enfoque Tríplice atuou por toda a extensão da
pesquisa (produção e transmissão, construção das mensagens comunicativas e posterior
recepção/interpretação), o que contribuiu para fundamentar os resultados encontrados por
meio do referencial metodológico da HP.
Sobretudo os “Modos Gerais de Operação da Ideologia” forneceram subsídios
consistentes para a análise e interpretação dos discursos que foram identificados como
ideológicos: nas formas simbólicas foi possível verificar todos modos de operação da
ideologia de Thompson (2002) (legitimação, dissimulação, unificação, fragmentação e
reificação). Além disso, estratégias específicas, como padronização, simbolização da unidade,
estigmatização, narrativização, eternalização e outras, foram identificadas nos contextos
particulares que se estabeleceram como forma de dominação racial.
Com os resultados foi possível afirmar que o processo de hierarquização brancas/os
negras/os se faz vigente no espaço escolar pesquisado pelo modo como produções midiáticas
(filme e obras literárias) representam personagens negras e são recebidas e apropriadas pelas
crianças e professora. Isso se deveu, em grande medida, à constante reificação feita em torno
de um modelo literário canônico, o que dificultou a algumas crianças de reconhecerem a
diversidade humana. Por outro lado, no que se refere à branquidade, resultados ambíguos e
divergentes foram encontrados: em alguns momentos, a postura da professora atuou no
sentido de reforçar estereótipos ora por meio do silêncio e omissão diante de práticas
discriminatórias, ora através de conceituações restritivas e estigmatizantes sobre a população
africana; e, em outros, avanços foram verificados por relacionarem-se a alterações na atuação
pedagógica de professoras brancas que, diante do compromisso em atender às expectativas
desta pesquisa, desenvolveram especificamente a professora regente da disciplina de
literatura infanto-juvenil leituras e posteriores debates que operaram de forma a promover
171
rupturas de um modelo depreciativo de representação da cultura africana. Este resultado em
específico representou um diferencial em comparação com resultados de outras pesquisas
sobre o mesmo tema, as quais identificaram que a branquidade como norma agiu de forma
latente no fortalecimento do racismo no espaço escolar.
Em relação à veiculação e leitura da literatura infanto-juvenil no ambiente escolar, esta
pesquisa encontrou resultados bastante divergentes no que se refere ao encaminhamento e
organização bibliotecária das escolas em uma mesma rede municipal de educação. Foi
possível verificar que o trabalho com a literatura infanto-juvenil depende, em grande medida,
do comprometimento e envolvimento de profissionais e escolas do que propriamente uma
política de fomento à leitura. Pôde-se inferir que a literatura infanto-juvenil por vezes é
inserida durante as aulas de língua materna.
Diante de tal constatação, uma política educacional eficaz e coesa no sentido de
fomentar a leitura, sobretudo a literária, torna-se essencial para a promoção não só de uma
educação formal de qualidade para todos os grupos, como também para a formação de
sujeitos que reconheçam o livro literário como um bem cultural. Concordo, portanto, com
Coelho (2002) quando aponta que:
[u]ma política educacional que garanta a proliferação da leitura em todos os
segmentos sociais, depende, em primeiro lugar, da existência de uma escola
popular. Vale dizer, de uma escola
- aberta indiscriminadamente, a toda a população;
- eficiente, independentemente da camada social e da região geográfica onde
se situe;
- estruturada de modo democrático e público, tanto no plano de sua
organização, sendo, pois, autônoma e igualitária no que se refere às relações
internas entre as pessoas que dela participam, como no plano da concepção
de ensino ali ministrado.
Transferida à leitura, essa política educacional significa:
- dar acesso à leitura e a escrita para todos, alfabetizando-os eficientemente
(COELHO, 2002, p. 44).
No que se refere aos discursos produzidos a partir das leituras realizadas e do filme
assistido foi possível verificar a sua importância que pode ser de atuação para a manutenção
ou a ruptura de concepções e práticas racistas, pois, conforme afirma Norman Fairclough
(2001, p. 21), “[o]s discursos não apenas representam entidades e relações sociais, eles as
constroem ou as ‘constituem’” (destaques do autor). Foi por meio dos discursos que esta
pesquisa conseguiu abordar todas as fases da Hermenêutica da Profundidade, auxiliada pelo
Enfoque Tríplice de interpretação das formas simbólicas, evidenciando que a ideologia atuou
de forma a estabelecer relações assimétricas entre os grupos humanos negros e brancos. Neste
172
sentido, estudos com tais proposições se fazem necessários por representarem um campo
vasto para análise e posterior combate dos preconceitos. A promoção de uma educação
antirracista é, sem dúvida, o propósito maior de uma pesquisa como esta que se compromete a
desenvolver uma investigação crítica sobre as relações raciais no Brasil. Como Moita Lopes
(2002), defendo e acredito em um modelo educacional efetivamente democrático e inclusivo:
Como um espaço institucional de construção de conhecimento e de
significados, cabem à escola democrática: a) a aproximação dos alunos a
discursos outros, isto é, outras histórias, diferentes daquelas referendadas
pela família e pela comunidade (religiosa, por exemplo) da qual participam;
b) o reconhecimento da sociedade como espaço constituído pelo discurso em
que os conflitos são inerentes, sendo, freqüentemente, o resultado da luta
política, entendida como relações entre as pessoas no mundo social; e c) a
criação de condições para construir outros sentidos de quem somos, nem
sempre legitimados ou, minimamente, referendados pela família e/ou outras
instituições (MOITA LOPES, 2002, p. 81).
Considerando que “na investigação social o objeto de nossas investigações é, ele
mesmo, um território pré-interpretado (THOMPSON, 2002, p. 358, destaques do autor), este
estudo embrenhou-se em um espaço que por si apresenta sua interpretação, realizada por
“sujeitos que, no curso rotineiro de suas vidas quotidianas, estão constantemente preocupados
em compreender a si mesmos e aos outros [...]”(THOMPSON, 2002, p. 358). Ao suscitar um
debate, discussão ou apenas uma leitura sobre um tema tão polêmico quanto as relações
raciais em um país que sofre as consequências de uma construção histórica de um “mito de
democracia racial”, as estruturas discursivas devem ser acionadas pelas/os falantes com vistas
a elaborar a “melhor e mais adequada” conceituação, principalmente se produzidas em
espaços formais como a escola. Com isso, estou me referindo tanto à preocupação por parte
da professora – que busca representar valores e conceitos de uma instituição e modelo
educacional, e não apenas suas convicções pessoais – quanto das crianças, que almejam
compreender as nuances das relações interpessoais que ora valorizam ora desprezam pessoas
por suas características físicas.
Esta complexidade que, a priori, poderia estabelecer-se como uma grande
dificuldade, ganhou suporte teórico adequado por meio do exercício de auto-reflexão,
proposto por Thompson para a elaboração de (re)interpretações das formas simbólicas. Para o
autor, três princípios são essenciais para o desenvolvimento de um trabalho com tal dimensão:
o princípio da não-imposição, o princípio da auto-reflexão e o princípio da não-exclusão. O
primeiro relaciona-se à preocupação de se construir uma interpretação pautada em provas e
não em imposições. Assim,
173
[d]ar uma interpretação [...] é fazer uma afirmação que é arriscada e aberta à
discussão. Quando oferecemos uma interpretação, nós nos expomos;
fazemos uma afirmação que pode, supomos, ser defendida e sustentada de
algum modo. Não supomos necessariamente que nossa interpretação seja
apenas uma interpretação possível ou razoável, mas supomos que ela é
correta, isto é, que ela pode ser provada, se formos chamados a fazê-los. [...]
[N]a suposição que uma interpretação é correta, nós pressupomos que ela
não pode ser provada pelo fato de ser imposta. Nós pressupomos, com outras
palavras, que existe uma distinção entre provar uma interpretação e impô-la
a outros, ou ser imposta sobre nós. Provar é apresentar razões,
fundamentações, evidências, elucidação; impor é afirmar ou reafirmar, forçar
outros a aceitar, silenciar os questionamentos ou as discordâncias. Provar é
tratar o outro como uma pessoa capaz de ser convencido; impor é tratar o
outro como uma pessoa que deve ser submetida (THOMPSON, 2002, p. 411,
destaques do autor).
Neste prisma, o que se buscou neste trabalho foi elaborar um sistema interpretativo
que, ancorado em diversos aspectos da constituição de uma forma simbólica (neste caso, os
livros literários infanto-juvenis) e não apenas na sua recepção aos grupos usuários, provasse o
quão imbricado está esta forma simbólica, seu uso e apropriação de suas mensagens com a
ideologia racista. Em outras palavras, por meio da Hermenêutica da Profundidade, este estudo
propôs-se a comprovar e não impor que o racismo se faz vigente, sob configurações por
vezes implícitas outras nem tanto, desde o processo de produção, até a transmissão e recepção
da forma simbólica, o livro.
O segundo princípio relaciona-se estritamente com a postura adotada nesta pesquisa e
em qualquer outra que se compromete a interpretar com objetividade um campo subjetivo. É
chamado de princípio de auto-reflexão porque “está ligado, em princípio, a sujeitos que
constituem este campo, e que esta ligação, em tese, pode servir na prática para estimular a
reflexão entre e por estes sujeitos” (THOMPSON, 2002, p. 413). Por considerar que a
interpretação da ideologia pode possibilitar (embora nem sempre consiga) a transformação
interpretativa da doxa, isto é, da vida cotidiana, é importante que estejamos atentas/os à
capacidade de auto-reflexão, prática constante e necessária à/ao analista para que não se
estabeleça uma interpretação não-plausível. Mas a auto-reflexão, ou reflexão crítica, é
possível de acontecer entre os “sujeitos sobre quem [a plausibilidade da interpretação] foi
formulada” e que também “podem tomar a interpretação plausível e digna de
reconhecimento” (THOMPSON, 2002, p. 415). Por isso, a interpretação da ideologia possui
uma conexão intrínseca com a crítica da dominação; ela está metodologicamente preparada
para estimular uma reflexão crítica das relações de poder e dominação, e esta reflexão inclui,
174
em princípio, a reflexão dos sujeitos que estão inseridos nessas relações (THOMPSON, 2002,
p. 416, destaques do autor).
Neste sentido, a partir do momento que esta pesquisa ganha espaço público para além
dos muros acadêmicos, ela pode suscitar contra-argumentos ou reinterpretações, nas palavras
de Thompson. Muitas destas reinterpretações podem ser desenvolvidas por processos de
negação ou contrariedade aos apontamentos sobre a ideologia racista. Pode, como afirma o
autor, “levantar reações violentas, [pois] atingem os nervos do poder, [...] coloca[ndo] em
evidência as posições dos que se beneficiam e dos que sofrem as relações sociais que são
assimetricamente estruturadas [...]” (THOMPSON, 2002, p. 416). Por isso, o princípio da
auto-reflexão destina-se tanto a mim, enquanto analista de um contexto de base complexa,
quanto às/aos futuras/os leitoras/es, que podem dispor de recursos adequados à interpretação
da ideologia ou serem “leigos” (p. 413) e que tanto um quanto outro grupo necessitará
estabelecer uma auto-crítica para então firmar uma reinterpretação adequada e coerente nos
seus princípios.
Mas ainda o autor defende que este princípio é regido por outro mais abrangente: o
princípio da não-exclusão. Ao estabelecermos, por meio da interpretação (comprovada pelo
princípio de não-imposição e submetido a auto-crítica por meio da auto-reflexão), que
algumas instituições ou acordos sociais não são justos do ponto de vista da representatividade
e simetria na distribuição do poder a todos os grupos da sociedade, é possível exigir que o
sejam, pois, concordando com o autor:
[...] quando se dá voz às pessoas e aos grupos que até aqui ocuparam
posições sociais subordinadas, então é provável que suas necessidades e
desejos, suas preferências e prioridades, devem ser tomadas em conta no
processo de decisão. E a conseqüência não é indesejável, porque numa
sociedade onde todas as pessoas são tratadas como sujeitos capazes de
entendimento e reflexão, as instituições e acordos sociais em que as pessoas
vivem sua existência devem contribuir, o mais possível, com o que elas têm
a dizer, mais do que com uma situação onde apenas algumas pessoas são
tomadas em consideração, e a maioria tem de aceitar isso como inevitável e
imutável (THOMPSON, 2002, p. 417).
Portanto, uma pesquisa que se propõe a interpretar formas simbólicas, buscando
desvelar seus aspectos ideológicos e os comprova, assume também a responsabilidade e o
compromisso de promover uma inclusão social dos grupos por ela evidenciados como sendo
os excluídos. Neste caso, se a esparsa produção literária infanto-juvenil disponibilizada nas
escolas públicas brasileiras que aborda a diversidade étnico-racial do país foi evidenciada, é
preciso que as vozes dos sujeitos que compõem a “diversidade” sejam ouvidas; se os
175
encaminhamentos metodológicos desenvolvidos na escola acerca desta esparsa produção
(mesmo que com grandes ressalvas) seja inadequado do ponto de vista do reconhecimento e
valorização da “diversidade”, é preciso que a sociedade mobilize-se em busca de propostas
educacionais que ampliem a formação de profissionais da educação para abordar tais temas; e,
por último, se a recepção e a forma de assimilação da leitura de tais obras apresente
problemas relacionados a concepções prévias, errôneas e equivocadas acerca dos grupos
“Outros”, é preciso que a sociedade mude. E esta mudança não é proposta aqui como algo
utópico ou panfletário, mas sim como um processo plausível e concreto de acontecer, pois a
humanidade teve(tem) mostras, por diversas vezes, inclusive, que o estabelecimento de
relações assimétricas de poder não construiu um mundo melhor nem para os que se
estabeleceram no poder (sempre considerado um poder provisório) nem para os que foram a
ele submetido.
176
REFERÊNCIAS
ANDRADE, Leandro F. Prostituição infanto-juvenil na mídia: estigmatização e ideologia.
São Paulo: Editora da PUC – SP (EDUC), 2004.
ANTUNES, Walda de Andrade. De leitor para leitores: políticas públicas e programas de
incentivo à leitura. In: ABREU, Márcia. (Org.). Leituras no Brasil: antologia comemorativa
pelo 10º Cole. Campinas: Mercado das Letras, 1995. p. 123-160.
APPLE, Michael. Consumindo o outro: branquidade, educação e batatas fritas baratas. In:
COSTA, Marisa Vorraber (Org.) Escola básica na virada do século: cultura, política e
educação. São Paulo: Cortez, 1996. p. 25-43.
______. Políticas de direita e branquidade: a presença ausente da raça nas reformas
educacionais. In: Revista Brasileira de Educação. São Paulo: n. 16, jan./abr. 2001. p. 61-67.
BATISTA, Antônio Augusto Gomes. Alfabetização, leitura e escrita. In: CARVALHO, Maria
Angélica Freire de; MENDONÇA, Rosa Helena. (Orgs). Práticas de leitura e escrita.
Brasília: Ministério da Educação, 2006. p. 12-17.
BAZILLI, Chirley. Discriminação contra personagens negros na literatura infanto-
juvenil brasileira contemporânea. Dissertação (Mestrado em Psicologia Social). Pontifícia
Universidade Católica de São Paulo, 1999.
BENJAMIN, Roberto et al. A África está em nós – vol. 2. João Pessoa: Editora Grafset,
2006.
BERNARDI, Bernardo. África: Tradizione e Modernitá. Roma: Carocci, 1998.
BENTO, Maria Aparecida Silva. Branqueamento e branquitude no Brasil. In: CARONE, Iray;
______. (Orgs). Psicologia social do racismo: estudos sobre branquitude e branqueamento.
Petrópolis: Vozes, 2002. p. 25-57.
BRASIL. Presidência da República. Lei 10.639 de 9 de janeiro de 2003. Altera a Lei nº
9.394, de 20 de dezembro de 1996, que estabelece as diretrizes e bases da educação nacional,
para incluir no currículo oficial da Rede de Ensino a obrigatoriedade da temática "História e
Cultura Afro-Brasileira", e dá outras providências. Disponível em:
<<http://www.planalto.gov.br/ccivil/LEIS/2003/L10.639.htm>> Acesso em 23/06/2009.
______.
Conselho Nacional de Educação, Conselho Pleno. Resolução nº 1 de 17 de junho de
2004. Institui Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educação das Relações Étnico-Raciais
e para o Ensino de História e Cultura Afro-Brasileira e Africana. Disponível em:
<<http://portal.mec.gov.br/cne/arquivos/pdf/res012004.pdf>> Acesso em 05/10/2009.
______. Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educação das Relações Étnico-Raciais
e para o Ensino de História e Cultura Afro-Brasileira e Africana, 2004. Disponível em:
<<
http://portal.mec.gov.br/dmdocuments/cnecp_003.pdf>> Acesso em 04/03/2010.
______. Presidência da República. Lei 11.274 de 6 de fevereiro de 2006. Altera a redação
dos arts. 29, 30, 32 e 87 da Lei no 9.394, de 20 de dezembro de 1996, que estabelece as
diretrizes e bases da educação nacional, dispondo sobre a duração de 9 (nove) anos para o
ensino fundamental, com matrícula obrigatória a partir dos 6 (seis) anos de idade. Disponível
177
em: << http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_Ato2004-2006/2006/Lei/L11274.htm>>
Acesso em 10/09/2009.
______. Presidência da República. Lei 11.645 de 10 de março de 2008. Altera a Lei no
9.394, de 20 de dezembro de 1996, modificada pela Lei no 10.639, de 9 de janeiro de 2003,
que estabelece as diretrizes e bases da educação nacional, para incluir no currículo oficial da
rede de ensino a obrigatoriedade da temática “História e Cultura Afro-Brasileira e Indígena”.
Disponível em: <<http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_Ato2007-
2010/2008/Lei/L11645.htm>> Acesso em 23/06/2009.
BRASIL, FNDE. Programa Biblioteca da Escola. Disponível em:
<<http://www.fnde.gov.br/index.php/programas-biblioteca-da-escola>> Acesso em
24/01/2010.
______. Programa Nacional de Biblioteca da Escola (PNBE): leitura e biblioteca nas
escolas públicas brasileiras. Brasília: Ministério da Educação, 2008.
CARVALHO, Diógenes Buenos Aires de. Com a palavra o leitor infantil. In: CECCANTINI,
João Luís C. T.. (Org.). Leitura e literatura infanto-juvenil: memória de Gramado. São
Paulo: Cultura Acadêmica; Assis: ANEP, 2004. p. 269-285.
CAVALLEIRO, Eliane dos Santos. Discriminação racial e pluralismo em escolas públicas da
cidade de São Paulo. In: EDUCAÇÃO, Ministério da Educação, Secretaria de Educação
Continuada, Alfabetização e Diversidade. Educação anti-racista: caminhos abertos pela Lei
Federal nº 10.639/03. Brasília, 2005. (Coleção Educação para todos). p. 65-104.
______. Do silêncio do lar ao silêncio escolar: racismo, preconceito e discriminação na
educação infantil. 5. ed. São Paulo: Contexto, 2006.
CECCANTINI, João Luís C. T. Perspectivas de pesquisa em literatura infanto-juvenil. In:
______. (Org.). Leitura e literatura infanto-juvenil: memória de Gramado. São Paulo:
Cultura Acadêmica; Assis: ANEP, 2004. p. 19-37.
COELHO, Nelly Novaes. Literatura infantil: teoria, análise, didática. 7. ed. São Paulo:
Moderna, 2002.
COPES, Regina Janiaki. Políticas públicas de incentivo à leitura: um estudo do projeto
“Literatura em minha casa”. Dissertação (Mestrado em Educação). Universidade Estadual de
Ponta Grossa, 2007.
CURITIBA. Diretrizes Curriculares para a Educação Municipal de Curitiba. Vol. 3 –
Ensino Fundamental. 2. ed. Curitiba, 2006. Disponível em: <<
http://www.cidadedoconhecimento.org.br/cidadedoconhecimento/index.php?portal=531&cod
_dica=508#508>> Acesso em 13/09/2009.
DALCASTAGNÈ, Regina. Entre silêncios e estereótipos: relações raciais na literatura
brasileira contemporânea. In: Estudos de literatura brasileira contemporânea. n. 31.
Brasília, jan./jun. 2008. p. 87-110.
ESCANFELLA, Célia Maria. Literatura infanto-juvenil brasileira e religião: uma proposta
de interpretação ideológica da socialização. Tese (Doutorado em Psicologia Social). Pontifícia
Universidade Católica de São Paulo, 2006.
178
______. Relações raciais na literatura infantil: uma construção de palavras e imagens. In:
Encontro Regional da ABRALIC 2007. Literatura, artes, saberes. USP, São Paulo, Brasil,
23 a 25 de julho de 2007.
FAIRCLOUGH, Norman. Discurso e mudança social. Brasília: Editora Universidade de
Brasília, 2001.
FAZZI, Rita de Cássia. O drama racial de crianças brasileiras: socialização entre pares e
preconceito. 1. reimp. Belo Horizonte: Autêntica, 2006. (Coleção Cultura negra e
identidades).
FERREIRA, Leda Cláudia da Silva. A personagem do conto infanto-juvenil brasileiro
contemporâneo: uma análise a partir de obras do PNBE/2005. Dissertação (Mestrado em
Literatura Brasileira). Universidade de Brasília – UnB, 2008.
FRANÇA, Luiz Fernando de. Personagens negras na literatura infantil brasileira: da
manutenção à desconstrução do estereótipo. Dissertação (Mestrado em Estudos de
Linguagem). Cuiabá: Universidade Federal do Mato Grosso, 2006.
______. Desconstrução dos estereótipos negativos do negro em Menina bonita do laço de fita,
de Ana Maria Machado, e em O menino marrom, de Ziraldo. In: Estudos de literatura
brasileira contemporânea. Brasília, n. 31, jan./jun. 2008. p. 111-128.
FURLANI, Jimena. Representações da mulher e do feminino na mídia impressa brasileira:
desconstruindo significados na Educação Sexual. In: PARANÁ, Secretaria de Estado da
Educação. Sexualidade. Curitiba: Imprensa Oficial, 2009. Disponível em:
<<
http://www.diaadia.pr.gov.br/cdec/arquivos/File/cadernos/SEXUALIDADE_SEED.pdf>>
Acesso em 14/11/2009. p. 131-158.
GARCIA, Joe. Indisciplina, incivilidade e cidadania na escola. In: ETD – Educação
Temática Digital. Campinas, v. 8, 1, dez. 2006 (Artigos Estudos em Cidadania &
Movimentos Sociais). p. 121-130.
GIROUX, Henry A. Por uma pedagogia e política da branquidade. In: Cadernos de
Pesquisa, n. 107, jul. 1999. p. 97-132.
GOMES, Nilma Lino. Trajetórias escolares, corpo negro e cabelo crespo: reprodução de
estereótipos ou ressignificação cultural? In: Revista Brasileira de Educação. n. 21,
Set./Out./Nov./Dez. 2002. p. 40-51.
______. Alguns termos e conceitos presentes no debate sobre relações raciais no Brasil: uma
breve discussão. In: EDUCAÇÃO, Ministério da/ DIVERSIDADE, Secretaria de Educação
Continuada, Alfabetização e. Educação anti-racista: caminhos abertos pela Lei Federal nº
10.639/03. Brasília: Ministério da Educação, Secretaria de Educação Continuada,
Alfabetização e Diversidade, 2005. (Coleção Educação para todos). p. 37-62.
______. Diversidade e currículo. In: BEAUCHAMP, Jeanete; PAGEL, Sandra Denise;
NASCIMENTO, Aricélia Ribeiro do. (Orgs). Indagações sobre o currículo: diversidade e
currículo. Brasília: Ministério da Educação, Secretaria de Educação Básica, 2007. p. 17-47.
GOUVÊA, Maria Cristina Soares de. Imagens do negro na literatura infantil brasileira: análise
historiográfica. In: Educação e Pesquisa. São Paulo, v.31, n.1, jan./abr. 2005. p. 77-89.
GUARESCHI, Pedrinho Arcides. Ideologia. In: STREY, Marlene Neves [et al.]. Psicologia
social contemporânea: livro-texto. Petrópolis, RJ: Vozes, 1998.
179
GUIMARÃES, Antonio Sérgio Alfredo. In: Tempo Social; Rev. Sociol. USP, S. Paulo,
13(2), nov. 2001. p. 121-142.
HABIB, Paula Arantes Botellho Briglia. “Eis o mundo encantado que Monteiro Lobato
criou”: raça, eugenia e nação. Dissertação (Mestrado em História). Universidade Estadual de
Campinas, 2003.
KAERCHER, Gládis Elise Pereira da Silva. O mundo na caixa: gênero e raça no Programa
Nacional de Biblioteca da Escola 1999. Tese (Doutorado em Educação). Porto Alegre:
Universidade Federal do Rio Grande do Sul.
LAJOLO, Marisa; ZILBERMAN, Regina. Literatura infantil brasileira: histórias &
histórias. São Paulo: Ática, 1984.
LANDOWSKI, Eric. Presenças do outro: ensaios de sociossemiótica. São Paulo:
Perspectiva, 2002.
LOBATO, Monteiro. Histórias da Tia Nastácia. 21. ed. São Paulo: Brasiliense, Brasília:
INL, 1982.
LUFT, Celso Pedro. Minidicionário. São Paulo: Ática, 2000.
MOITA LOPES, Luiz Paulo da. Identidades fragmentadas: A construção discursiva de
raça, gênero e sexualidade em sala de aula. Campinas: Mercado das Letras, 2002. (Coleção
letramento, educação e sociedade).
MOITA LOPES, Luiz Paulo da; FABRÍCIO, Branca Falabella. Discurso como arma de
guerra: um posicionamento ocidentalista na construção da alteridade. In: DELTA.
Documentação de Estudos em Lingüística Teórica e Aplicada, São Paulo, v. 21, n. Especial,
2005. p. 239-285.
MUNANGA, Kabengele. Rediscutindo a mestiçagem no Brasil: identidade nacional versus
identidade negra. Belo Horizonte: Autêntica: 2004.
NASCIMENTO, Abdias do. O Brasil na mira do pan-africanismo. Segunda edição das
obras O genocídio do negro brasileiro e Sitiado em Lagos. Salvador: EDUFBA: CEAO, 2002.
NASCIMENTO, Sergio Luis do. Relações raciais em livros didáticos de ensino religioso
do ensino fundamental. Dissertação (Mestrado em Educação). Curitiba: Universidade
Federal do Paraná, 2009.
OLIVEIRA, Avelino da Rosa. Sobre o alcance teórico do conceito de “exclusão”. In: Civitas,
Porto Alegre, v. 4, n. 1, jan./jun. 2004. Disponível em:
<<http://revistaseletronicas.pucrs.br/ojs/index.php/civitas/article/viewFile/52/1726>>. Acesso
em 27/02/2010. p. 159-188.
OLIVEIRA, Elânia de. Relações étnico-raciais e de gênero no discurso da sala de aula de
Português: uma abordagem etnográfica interacional. Tese (Doutorado em Educação). Belo
Horizonte: Universidade Federal de Minas Gerais, 2008.
OLIVEIRA, Ivone Martins de. Identidade e interação em sala de aula: pre/conceito e
auto/conceito. Dissertação (Mestrado em Educação). Universidade Estadual de Campinas,
1993.
180
OLIVEIRA, Lívio Lima de. Indústria editorial e o Governo Federal: o caso do Programa
Nacional de Biblioteca da Escola (PNBE) e suas seis primeiras edições. Tese (Doutorado em
Comunicação). Universidade de São Paulo, 2008.
OLIVEIRA, Maria Anória de Jesus. Negros personagens nas narrativas infanto-juvenis
brasileiras: 1979-1989. Dissertação (Mestrado em Educação). Salvador: Universidade do
Estado da Bahia, 2003.
OLIVEIRA, Rachel de. Relações raciais na escola: uma experiência de intervenção.
Dissertação (Mestrado em Educação). Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, 1992.
PAIVA, Aparecida [et al.]. Literatura na infância: imagens e palavras. Brasília: Ministério
da Educação, Secretaria de Educação Básica; Belo Horizonte: UFMG, Centro de
Alfabetização, Leitura e Escrita, 2008. Disponível em:
<<http://portal.mec.gov.br/seb/arquivos/pdf/Avalmat/literatura_na_infancia.pdf>> Acesso em
24/01/2010.
PAIVA, Maria da Conceição. Transcrição de dados lingüísticos. In: MOLLICA, Maria
Cecilia; BRAGA, Maria Augusta. (Orgs.). Introdução à sociolingüística: o tratamento da
variação. 3. ed. São Paulo: Contexto, 2007. p. 135-146.
PAIXÃO, Marcelo. A dialética do bom aluno: relações raciais e o sistema educacional
brasileiro. Rio de Janeiro: Editora FGV, 2008.
PESTANA, Paulo Sérgio. Exu literário: presença do afro-descendente nos romances infanto-
juvenis na garganta de Mirna Pinsky e A cor da ternura de Geni Guimarães. Dissertação
(Mestrado em Letras). Curitiba: Centro Universitário Campos de Andrade, 2008.
PIZA, Edith. O caminho das águas: estereótipos de personagens negras por escritoras
brancas. São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo: Com Arte, 1998.
______. Porta de vidro: entrada para a branquitude. In: CARONE, Iray; BENTO, Maria
Aparecida Silva (Orgs). Psicologia social do racismo: estudos sobre branquitude e
branqueamento. Petrópolis: Vozes, 2002. p. 59-90.
PLATT, Adreana Dulcina. O paradigma inclusivo das políticas educacionais e o
paradigma excludente das políticas econômicas nos anos 90: o constructo sócio-conceitual
da normalidade/anormalidade (ou adequação). Tese (Doutorado em Educação). Faculdade
Estadual de Educação, Universidade Estadual de Campinas, SP, 2004.
PORTERA, Agostinho. L’Educazione Interculturale nella teoria e nella pratica:
Stereotipi, prediudizi e pedagogia interculturale nei libri di texto della scuola elementare.
Padova: CEDAM, 2000.
PROENÇA FILHO, Domício. A trajetória do negro na literatura brasileira. In: Estudos
avançados. 18(50), 2004.
REIS, Rozana Clair da Cruz. Diversidade étnico-racial: a lei 10.639/2003 e abordagens
possíveis na sua aplicação. Dissertação (Mestrado em Letras). Cascavel: Universidade
Estadual do Oeste do Paraná, 2008.
RESENDE, Viviane de Melo; RAMALHO Viviane. Análise de discurso crítica. São Paulo:
Contexto, 2006.
181
ROSEMBERG, Fúlvia. “Criança pequena e desigualdade social no Brasil”. In: FREITAS,
Marcos Cezar de. (Org.). Diversidade social e diversidade cultural na infância e na
juventude. São Paulo: Cortez, 2006.
______. Literatura infantil e ideologia. São Paulo: Global, 1985 (Teses; 11).
ROSEMBERG, Fúlvia; BAZILLI, Chirley; SILVA, Paulo Vinicius Baptista da. Racismo em
livros didáticos brasileiros e seu combate: uma revisão da literatura. In: Educação e
Pesquisa, São Paulo, v. 29, n.1, jan./jun. 2003. p. 125-146.
SARZEDAS, Letícia Passos de Melo. Criança negra e educação: um estudo etnográfico na
escola. Dissertação (Mestrado em Psicologia). Faculdade de Ciências e Letras, Universidade
Estadual Paulista: Assis, 2007.
SILVA, Amauri Rodrigues da. Presença e Silêncio da colônia à metrópole: sina-is do
personagem negro na Literatura Brasileira. Tese (Doutorado em Teoria Literária).
Universidade de Brasília, 2007.
SILVA, Ana Célia da. Desconstruindo a discriminação do negro no livro didático.
Salvador: EDUFBA, 2001.
______. A discriminação do negro no livro didático. 2. ed. – Salvador: EDUFBA, 2004.
SILVA, Paulo Vinicius Baptista da. Relações raciais em livros didáticos de Língua
Portuguesa. Tese (Doutorado em Psicologia Social) Pontifícia Universidade Católica de São
Paulo, 2005.
______. Desigualdades raciais em livros didáticos e literatura infanto-juvenil. In: COSTA,
Hilton; ______. (Orgs.). Notas de história e cultura afro-brasileiras. Ponta Grossa: Editora
UEPG/UFPR, 2007. p. 159-190.
______. Projeto “Racismo e discurso na América Latina”: notas sobre personagens negras e
brancas no discurso midiático brasileiro. In: III Simpósio Internacional sobre Análise do
Discurso. Belo Horizonte, Núcleo de Análise do Discurso (NAD) e o Programa de Pós-
Graduação da Faculdade de Letras da Universidade Federal de Minas Gerais, 1º a 4 de abril
de 2008a.
______. Racismo em livros didáticos: estudo sobre negros e brancos em livros de Língua
Portuguesa. Belo Horizonte: Autêntica Editora, 2008b. (Coleção Cultura Negra e
Identidades).
SILVA, Paulo Vinicius Baptista da; ROSEMBERG, Fúlvia. Brasil: lugares de negros e
brancos na mídia. In: VAN DIJK, Teun A. (Org.) Racismo y discurso na América Latina.
São Paulo: Contexto, 2008. p. 73-117.
SOARES, Magda. Alfabetização e cidadania. In: ______. Alfabetização e letramento. São
Paulo: Contexto, 2003. p. 55-60.
SUNNY. Okpija. In: ______. Ulomma: a casa da beleza e outros contos. 2. ed. São Paulo:
Paulinas, 2005. (Coleção árvore falante).
______. Ulomma. In: ______. Ulomma: a casa da beleza e outros contos. 2. ed. São Paulo:
Paulinas, 2005. (Coleção árvore falante).
182
THOMPSON, John B. Ideologia e cultura moderna: teoria social crítica na era dos meios de
comunicação de massa. 6. ed. Rio de Janeiro: Vozes, 2002.
TURCHI, Maria Zaira. O estético e o ético na literatura infantil. In: CECCANTINI, João Luís
C. T.. (Org.). Leitura e literatura infanto-juvenil: memória de Gramado. São Paulo: Cultura
Acadêmica; Assis: ANEP, 2004. p. 38-44.
VAL, Maria da Graça Costa. O que é ser alfabetizado e letrado? In: CARVALHO, Maria
Angélica Freire de; MENDONÇA, Rosa Helena. (Orgs). Práticas de leitura e escrita.
Brasília: Ministério da Educação, 2006. p. 18-23.
VALENTE, Ana Lúcia. Ação afirmativa, relações raciais e educação básica. In: Revista
Brasileira de Educação, n. 28, jan./fev./mar./abr. 2005. p. 68-76.
VAN DIJK, Teun A. Racismo y discurso de las elites. Barcelona: Editorial Gedisa, 2003.
______. Racismo y análisis crítico de los medios. Barcelona: Paidós Comunicación, 1997.
______. Discurso e poder. São Paulo: Contexto, 2008a.
______. Introdução. In: ______. (Org.) Racismo y discurso na América Latina. São Paulo:
Contexto, 2008b. p. 11-24.
VENÂNCIO, Ana Carolina Lopes. Literatura infanto-juvenil e diversidade. Dissertação
(Mestrado em Educação). Curitiba: Universidade Federal do Paraná, 2009.
WARE, Vron. O poder duradouro da branquidade: ‘um problema a solucionar’. In ______.
(Org.). Branquidade: identidade branca e multiculturalismo. Rio de Janeiro: Garamond,
2004. p. 7-40.
YUNES, Eliana. De leitor para leitores: políticas públicas e programas de incentivo à leitura.
In: ABREU, Márcia. (Org.). Leituras no Brasil: antologia comemorativa pelo 10º Cole. p.
123-160. Campinas: Mercado das Letras, 1995.
ZILBERMAN, Regina. A literatura infantil na escola. 6. ed. São Paulo: Global, 1987.
(Teses; 1).
______. A leitura e o ensino de literatura. 2. ed. São Paulo: Contexto, 1991. (Coleção
Contexto Jovem).
______. De leitor para leitores: políticas públicas e programas de incentivo à leitura. In:
ABREU, Márcia. (Org.). Leituras no Brasil: antologia comemorativa pelo 10º Cole. p. 123-
160. Campinas: Mercado das Letras, 1995.
183
ANEXOS
ANEXO 1 – LIVROS ÉTNICO-RACIAIS ENVIADOS PARA TODAS AS
BIBLIOTECAS
OBRA AUTOR EDITORA
ABC do continente africano Rogério Andrade Barbosa SM
A África, meu pequeno chaka Marie Sellier CIA das letrinhas
Benjamin o filho da felicidade Heloisa Pires Lima FTD
Boizinho brioso e outros bois Anna Flora Salamandra
Cadê você, Jamela ? Nick Daly SM
Canto Negro Solano Trindade Nova Alexandria
O chamado de Sosu Meshack Asare SM
Chico Rei Graça Lima Pallas
Chuva de Manga James Rumford Brinque-Book
Contos africanos para crianças brasileiras Rogério Andrade Barbosa Editora Paulinas
Contos da lua e da beleza perdida Sunny Paulinas
Contos e lendas afro-brasileiras: a criação do
mundo (professor)
Reginaldo Prandi Cia das Letras
De alfaias a zabumbas Raquel Nader Paulinas
De grão em grão, o sucesso vem na mão Katie Smith Milway Melhoramentos
Eleguá Carolina Cunha SM
Falando banto Eneida Duarte Gaspar Pallas
Gosto de África - histórias de lá e daqui Joel Rufino dos Santos Global
Lendas de Exu Adilson Martins Pallas
Mãe África mitos, lendas, fábulas e contos Reconto de Celso Cisto Paulus
A mbira da beira do rio Zambeze Décio Gioielli Salamandra
Menino Parafuso Olívia de Melo Franco Autêntica
*Minhas contas Luiz Antonio Cosacnaify
O navegante negro e a chibata - a revolta dos
marinheiros de 1910
Agnaldo Kupper e Paulo André
Chenso
FTD
O negro em versos Luiz Carlos dos Santos, Maria
Glas e Ulisses Tavares
Salamandra
O negro no Brasil de hoje (professor) Kabengele Munanga Global
Olhar a África e ver o Brasil - A vida em
sociedade
Nacional
Olhar a África e ver o Brasil - Crianças Nacional
Olhar a África e ver o Brasil - Influências Nacional
Olhar a África e ver o Brasil - O mundo do
trabalho
Nacional
Outros contos africanos para crianças
brasileiras
Rogério Andrade Barbosa Paulinas
Os reizinhos de Congo Edimilson de Almeida Pereira Paulinas
Saruê, Zambi! Luiz Galdino FTD
A semente que veio da África Heloisa Pires Lima Salamandra
Os sete novelos - um conto de Kwanzaa Angela Shelf Medearis Cosacnaify
Sua majestade, o elefante – contos africanos Luciana Savaget Editora Paulinas
Ulomma - a casa da Beleza e outros contos Sunny Paulinas
*Yemanjá Carolina Cunha SM
Zumbi Joel Rufino dos Santos Global
FONTE: SECRETARIA MUNICIPAL DE EDUCAÇÃO DE CURITIBA
184
ANEXO 2 – TRANSCRIÇÃO DO DIA 05/06/2009
ESCOLA B – 4ª B
LEGENDA
AS = várias crianças falando ao mesmo tempo
G = garoto
M = menina
P = professora
Pq = pesquisadora
( ) = algo inaudível
/ = pausa curta
// = pausa longa
[ = fala sobreposta
01 P: O trabalho da semana passada, fizeram? Lembra que a professora Charlote veio e contou /
02 pra vocês a história da Ulomma, né? / Aí o que que ela havia pedido: um desenho e uma
03 frase explicativa sobre o conto. / Trouxeram?
04 AS: ( ). Ela ia pedir de novo hoje.
05 P: Pois é, mas ela comentou com vocês que era pra fazer uma frase reflexiva, não era? Do
06 que vocês haviam achado do conto? Não comentou isso?
07 AS: Não.
08 P: Comentou sim. /Eu quero saber quem é que fez. / Que na verdade a frase reflexiva é
09 um comentário sobre o conto, né, sobre o que vocês acharam sobre do conto da Ulomma.
10 / Alguém quer fazer alguma colocação? / Do que achou do conto? / Vocês lembram do
11 conto?
12 AS: Sim.
13 G¹: Uma mulher que, uma mulher que não nunca teve filho aí tinha que que o homem só
14 queria filho homem e daí ela nunca teve filho, daí o homem ( ).
15 G²: E ela não sabia que era mulher dele.
16 G¹: Todas as mulher dele só teve filha, aí quando ele deu pa, como que é o nome mesmo?
17 Daí o cachorro levou o caroço pra ela lá, ela pegou e engoliu aí ela pegou e teve o filho
18 dela.
19 P: Hum-hum. / E o que vocês acharam desse conto?
20 AS: Legal!
21 P: Legal? Por que legal?
22 G²: Legal, legal, legal!
23 P: Só legal, só gostei não...
24 G²: [Gostei muito, foi muito legal.
25 AS: [( ).
26 M¹: ( ) que ela teve um filho como o rei queria.
27 P: E o que vocês [acham disso?
28 G²: [Professora, eu achei legal, muito interessante.
29 P: Tá, mas por quê?
30 G²: Porque é uma história...
31 P: Uma história?
32 G²: Legal! (risos)
33 P: Tem que ter um porquê.
34 G²: Uma história muito...
35 M²: Diferente.
36 G²: Diferente de todas.
37 P: Diferente? / E o que mais?
38 AS: Emocionante,
39 G²: Emocionante...
40 P: As atitudes, as atitudes é... Me digam um pouquinho sobre as atitudes é... das... das
41 outras, das outras esposas: o que vocês acharam das atitude que ela teve, que elas
185
42 tiveram, né, mas da primeira esposa quando a Ulomma teve seu filho? / O que vocês
43 acharam da atitude das outras esposas?
44 G³: Horrorosa.
45 M³: Horrorosa.
46 P: [Por quê?
47 G4: [Horrorosa,cara?
48 M³: Porque elas... porque elas não queriam que ( ).
49 P: E por que elas agiram assim, Tracy?
50 TRACY: Porque só a Ulomma que tinha engravidado de um menino.
51 AS: ( ).
52 P: Teve um desprezo, né, ela foi muito desprezada, coitada / né?
53 G³: [Porque ela teve um filho,
54 G
4
: [Ela teve um filho que ele queria, [coisa que ele queria.
55 G³: [Daí chegou as mulher e pegaram o filho e jogaram dentro ( ).
56 AS: [( ).
57 P: Então olha só, nós vamos fazer uma produção sobre um outro conto e como então
58 aquele já passou um pouquinho talvez até é... não fique tão vivo na nossa memória. / Mas
59 eu vou contar hoje pra vocês
60 G
4
: Dos Irmãos Green.
61 P: Não, não é sobre os Irmãos Green. É... é... eu vou contar um outro conto, tá, e eu quero
62 daí saber bem como é a opinião sobre esse conto. Ele é bem interessante. / Não mexa.
63 G
4
: Que que é isso, professora?
64 P: É da professora Débora.
65 G
4
: Ah.
66 P: O material dela. / Deve tá gravando tudo que nós fazemos.
67 G
4
: Que ( ). (Risos)
68 AS: É o mesmo da Ulomma?
69 P: Hã?
70 AS: É o da Ulomma?
71 P: Não, lembram que a professora Ana falou que neste livro haviam vários contos?
72 AS: Tem um desse na biblioteca!
73 G
n
: Professora!
74 P: É esse.
75 G
n
: A professora pegou?
76 G
n
: Professora! / Que que qual mais livro tinha mesmo?
77 AS: ( ).
78 P: Então olha só, eu vou contar a história o conto sobre a Okpija. Então olha só, a Okpija
79 é essa moça,
80 G
n
: Horrível! (Risos)
81 P: Tá? Lembram que a... professora Charlote havia comentado com vocês / sobre a questão
82 dos costumes, né? / Porque nós estamos falando de tribos africanas / né, que nem nessa
83 tribo,
84 P: Essa é a Ulomma, [o costume é, até pelo sinal de nobreza, era /
85 G
n
: [Ui!
86 M
n
: [Deixa eu ver, professora.
87 AS: [( ).
88 G
n
: [Todas careca!
89 G
n
: [Ô professora, acho que essas mulher tá tudo sem ( ).
90 P: Manter a cabeça raspada.
91 AS: ( ).
92 P: E agora, olha só, neste outro nesse outro conto / já, a gente não percebe mais que é um
93 sinal de nobreza estar com a cabeça raspada. Então
94 G
n
: ( ).
95 P: Então provavelmente aqui é uma outra tribo, né, e é... os enfeites já são diferentes. Né,
96 ela tem adornos no cabelo, / ela tem os colares, ela tem pinturas no [corpo // né?
186
97 G
n
: [Professora, é implante, num é cabelo não, né?
98 P: Não, não é implante de cabelo. São os cabelos dela mesmo. / Então essa história
99 começa assim: havia uma moça de extraordinária beleza chamada Okpija. / Sua pele era
100 tão macia quanto a lã, / seus olhos brilhavam como dois diamantes. Era tão bonita que as
101 deusas africanas a invejavam / pois ela recebia muitos elogios e era galanteada por todos
102 os homens. / Havia aqueles que nem conseguiam falar diante de tanta formosura. A moça
103 ciente de sua dádiva tornou-se orgulhosa e se aproveitava dessa situação. Quando atingiu
104 a idade de casar, a sua maior virtude transformou-se em uma maior maldição. Por quê?
105 Por se achar a mulher mais bonita do mundo, não havia pretendentes que estivem a sua
106 altura. Jamais aceitou um pedido de casamento. / Mesmo tão orgulhosa e prepotente os
107 homens a desejavam como fosse e pagariam qualquer dote para se casar com ela. / Os
108 cantores compunham canções em sua homenagem, reis de todos os cantos da África
109 vinham conhecê-la e tentar a sorte. Recebia muitos pre muitos presentes deles mas jamais
110 houve um que a agradasse. / E todos voltavam para as suas terras sem a esposa sonhada.
111 Muitos anos se passaram. Um dia, alguns pescadores lançavam suas redes ao mar
112 enquanto entoavam canções que falavam de Okpija e do modo como ela rejeitava todos
113 os homens / só por se achar muito bonita. Os peixes ouviram as cantigas e três deles
114 resolveram tentar a sorte / Mas, como não tinham forma humana, decidiram pedir a Deus
115 que lhes concedesse um corpo por alguns dias. Em agradecimento eles iram limpar a água
116 do mar. / Deus atendeu-os. Os peixes, transformados em homens, partiram para a cidade
117 onde morava Okpija. / Ao chegarem, apresentaram-se à moça oferecendo pérolas trazidas
118 do fundo do mar. Okpija gostou deles e também dos presentes. / Curiosa ela perguntou de
119 onde vinham e quem eram. Responderam-lhe que eram irmãos. Vindos de uma terra bem
120 distante para propor-lhe casamento. / Okpija gostou dos três e não conseguia decidir com
121 qual se casaria. / Então, resolveu casar-se com os três.
122 AS: Nossa!
123 P: Alguns dias depois o casamento foi realizado / e todos compareceram para finalmente
124 ver a bela moça dizer sim, não para um marido mas para três. / Foi uma grande festa.
125 G
n
: Professora, não tem imagem?
126 P: Tem, depois eu mostro. / Terminada a festa de núpcias os maridos precisavam voltar
127 para casa, o mar! Porém não podiam levar a jovem e bela esposa junto. Inventaram uma
128 viagem mas Okpija insistiu em acompanhá-los. Tentavam a todo o custo dissuadi-la de
129 sua idéia deixando que o caminho dizendo que o caminho era longo e inóspito. Porém,
130 nada do que diziam surtiam efeitos. / Okpija estava firme em seu propósito. Assim eles
131 partiram: a jovem moça e os três maridos. Escolheram o caminho mais difícil e longo no
132 intento de que a moça se cansasse e desistisse da viagem. Após três dias de caminhada
133 finalmente chegaram ao mar. Nenhum deles tinha a menor idéia do que dizer a Okpija
134 como consolo e que ela descobrisse dele. Um dos maridos pediu licença para se ausentar
135 e correu em direção ao mar enquanto seu corpo voltava à forma de peixe. O segundo fez a
136 mesma coisa. Surpresa, Okpija pediu explicações ao terceiro marido marido, o único que
137 restara. / Ele decidiu contar-lhe toda a verdade. Enquanto falava, seu corpo retornava à
138 forma de peixe e em dois pulos entrou no mar.
139 AS: ( ).
140 P: Okpija isolada e sozinha não acreditava no que estava acontecendo: havia rejeitado
141 tantos homens para no final casar-se com peixes? E agora? Nem os peixes ela tinha!
142 Chorou muito por remorso. / A tarde chegou e Okpija decidiu que não voltaria para a
143 aldeia pois ninguém acreditaria na sua história. Além de tudo, sentia-se envergonhada.
144 Então, resolveu seguir seus maridos: pulou no mar. Seu corpo chegou até o fundo do
145 oceano e foi acolhido pelos três peixes que compadecidos da moça pediram a Deus que a
146 deixasse morrer, desculpe, não a deixasse morrer. Deus atendeu o pedido mas Okpija foi
147 transformada em peixe e ali viveu para sempre em paz com seus três maridos. / Até hoje
148 nesta costa da África existe uma espécie de peixe que dizem ser descendente de Okpija,
149 pois possuem características parecidas com a de seres humanos como dentes e glândulas
150 que lembram o formato dos seios.
(A professora começa a mostrar as ilustrações)
187
151 AS: ( ).
152 P: Gente, olha só, pensando na outra história e nesse conto,
153 G
n
: Legal!
154 P: é... o que que a gente consegue perceber que aconteceu aqui?
155 AS: [( ).
156 G
n
: [Que ela ( ) se transformou em peixe pra viver com os três maridos.
157 P: O que que a gente percebe do comportamento da Okpija, gente? // O que que a gente
158 pode perceber? // Por que que ela não se casou cedo?
159 G
n
: Porque ela sempre rejeitava os maridos.
160 P: Mas por quê?
161 AS: Porque ela se achava bonita.
162 P: Ela se achava bonita.
163 GEORGE: Mas num era bonita.
164 P: Ela era bonita. Todos achavam ela muito bonita. E realmente era muito bonita. / Só
165 que ela tinha um pequeno problema, né, ela tinha uma vaidade muito grande. Será que é
166 legal, né, a gente ter essa vaidade, achar que é melhor do que os outros?
167 AS: Não.
168 P: Não, né? Então a gente percebe ali no conto que apesar né, de de ela ter toda essa, essa
169 essa vaidade, de ser toda orgulha, né, as pessoas às vezes ficavam muito tristes, porque os
170 pretendentes chegavam com toda a boa vontade, né, ofereciam os melhores presentes, /
171 né, faziam assim as suas melhores ofertas, né, prometiam amor / e ela
172 G
n
: Rejeitava.
173 P: Rejeitava, menosprezava, né, dizendo que não tinha ninguém a sua altura. / Será que a
174 gente pode ter um, um pensamento assim?
175 AS: Não.
176 P: De achar que a gente é melhor do que qualquer outra pessoa?
177 AS: Não.
178 M
n
:[Tem gente aqui na sala
179 G
n
: [Tem gente que é melhor.
180 P: Na verdade não tem o que é melhor, tem o que completa, né? Porque todas as pessoas
181 da da sua da sua maneira de ser, uma completa a outra, / né? Até por isso existem os
182 casamentos, as amizades, né, [porque uma pessoa completa a outra, / né?
183 RYAN: [( ).
184 P: O que às vezes eu tenho né, Ryan? / Quem se acha mais que os outros, Ryan?
185 AS: ( ).
186 P: Conta pra nós.
187 AS: Eu sei.
188 M¹: O Henry e o Kirk podem ficar passeando na sala e a gente não pode e eles se acham
189 melhor que a gente.
190 AS: [( ).
191 P: [E me diga uma coisa, é...
192 AS: [( ). (Uma discussão formou-se).
193 P: [Aqui na sala, existe alguém melhor que o outro?
194 AS: [( ).
195 P: Não, né? Até porque a quarta B é o que é / pela colaboração que cada um dá na sua
196 maneira de ser dentro da sala, / né? Então a gente não vem pra um lugar pra ser um
197 melhor que o outro, a gente vem pra ser melhor, mas não melhor que o outro. Eu não
198 venho pra ser melhor que a professora L., eu não venho pra ser melhor que a
199 professora M., eu venho pra dar o meu melhor. A mesma coisa com vocês. Diga,
200 Gordon?
201 GORDON: Professora, é... isso é quando uh, é... quando o Marvin, quando ele fica atentando
202 o outro, daí quando é... a gente conta pra professora ele, ele faz a gente pagar o pato.
203 AS: É verdade! ( ).
204 P: E nem melhor que os meninos, / né? Porque é questão de respeito. A gente tem que ter
205 respeito pelas pessoas.
188
206 GORDON: E a Angel também faz isso quando ela chega perto de mim.
207 P: Então olha só, então agora vocês sabem, / né, que / a gente não é melhor que o outro e
208 que nós vimos isso no conto.
209 MARVIN: E ela ta me xingando aqui.
210 P: Ana, / por favor?
211 ANGEL: Eu nem falei com ele ( ) fica mostrando ( ) pra mim.
212 MARVIN, ANGEL, AS: [( ).
213 G
n
: [Professora, ele nem fiz nada, professora! Faz horas que eu to olhando pro Marvin e
214 ele tá assim, ó.
215 P: [O problema, o problema é que às vezes a gente acostuma que sempre é a mesma
216 pessoa que faz determinada, que tem determinada atitude, às vezes ela nem faz nada e a
217 gente diz “ah foi fulano”. // Por quê? Porque o fulano fez tanto que sempre sobra pra ele. /
218 E daí até quando não faz ainda sobra. / Então por isso a gente tem mudar um pouquinho.
219 E me diga uma coisa: é... ela se achava, né e realmente ela era muito bonita, / né? É... e aí
220 você, daí alguns disseram: “ah professora mas ela não era bonita não ela era feia”. Por
221 que ela era feia? Por que vocês acham que ela era feia?
222 M¹: Eu não sei.
223 G¹: Eu não falei nada.
224 P: Acho que foi você, Ryan?
225 AS: Foi.
226 P: George, por que que você acha, não, a gente tá conversando. Não to dizendo se tá certo
227 ou tá errado, quero saber a opinião. Por que você acha que ela era feia? Vou mostrar de
228 novo pra você olhar bem pra ela pra não... pra [não
229 GEORGE: [Ah, por causa do rosto dela, professora, cheio de enfeite.
230 P: Por causa do [rosto.
231 G²: [O rosto não tem nada de enfeite.
232 GEORGE: Tem sim, tem umas bolinhas.
233 P: Tem, ela tem alguns desenhos no rosto.
234 G²: Ah.
235 AS: [( ).
236 GEORGE: ( ) que ela é indiana.
237 P: E me diga uma coisa, e aquelas pessoas que usam piercing, põem piercing aqui na
238 sobrancelha,
239 GEORGE: [Nossa eu acho ridículo, horrível!
240 G²: [No nariz.
241 P: [No nariz?
242 G²: [Na língua.
243 GEORGE: Nossa eu acho ridículo!
244 P: Elas também, elas também têm ( ), Elas são feias?
245 AS: [Sim.
246 AS: [Não. ( ).
247 G³: O professora, professora, meu primo tá assim, ó: ele coloca uma bola assim, ó.
248 P: E me diga uma coisa, e aqueles meninos que fazem topete, passam gel no cabelo pra
249 ficar arrepiadinho, eles são feios?
250 AS: [Sim.
251 AS: [Não.
252 P: [É uma maneira de se arrumar.
253 AS: Eu uso assim, professora.
254 P: É? / E aquelas meninas que fazem os frufruzinhos, põem as presilhinhas, arrumam
255 [maria-chiquinhas,
256 G
n
: [Ridículas! Acho elas ridículas!
257 P: Elas também são feias?
258 AS: [Sim.
259 AS: [Não.
260 P: Olha só, em todas as perguntas que eu fiz eu ouvi sim e não
189
261 AS: ( ).
262 P: Uma parte sim e uma parte não. Então olha só, gente, na verdade, / é bem o caso lá da
263 Ulomma, né, que a professora Charlote contou semana passada. / É... não existe o feio.
264 G
n
: A Ulomma é feia porque ela é careca.
265 P: Mas ela não é feia, sabe por que? Porque lá na tribo onde ela mora, é... [ter
266 G
n
: [Tudo careca.
267 P: [A cabeça raspada é um sinal de nobreza e um sinal de beleza.
268 M¹: E se a gente raspasse a cabeça?
269 AS: [( ) (Risos).
270 P: [Pra nós ia ser normal?
271 AS: ( ). Pinduca!
272 P: Pois é, olha lá. O Marvin tem a cabeça raspada, vocês é... deram risada.
273 AS: É a maneira [( ).
274 P: [Por que o que acontece? / É uma coisa normal?
275 AS: [Não.
276 AS: [É.
277 P: Pra nós é normal?
278 AS: [É.
279 P: [É normal ( )? Por que normal?
280 AS: [Não é normal.
281 P: [( ). Né? / Então, o que que [acontece,
282 G
n
: É a Pinduca!
283 P: Hã?
284 G
n
: A farinha, a marca da farinha.
285 P: Quem é a marca da farinha?
286 G
n
: [Pinduca!
287 P: [Aqui quem tem a marca da farinha Pinduca?
288 G
n
: [Porque ele é careca!
289 G
n
: [Ele é o Pinduca!
290 P: Ah...
291 G
n
: Professora eu raspo o cabelo e ninguém me chama de Pinduca.
292 AS: ( ).
293 M²: Porque sua cabeça é gordinha e ( ).
294 P, AS: ( ). (Risos)
295 P: Então [olha só,
296 AS: [( ).
297 P: Vamos voltar aqui um pouquinho, meninos. Vamos voltar aqui um pouquinho aqui. //
298 Então olha só, / como disse o George, né, ela é feia porque ela tem uns desenhos, né? Então
299 veja ( ), qualquer pessoa que tenha algo ( ) vai se tornar feia?
300 AS: Não.
301 P: Não. Até porque lembram que nós estamos vendo contos africanos. / Então, assim
302 como vocês estão vendo na novela / do Caminho das Índias,
303 G
n
: É massa.
304 P: Então o que que acontece? Aquela parte do mundo, né, na Ásia e na África, as pessoas
305 têm por é... tradição,
306 M³: Aquele carinha careca, lá que tem aqueles negocinhos...
307 P: Isso! Eles têm por por símbolos, né, por por maneiras, [por costumes,
308 G
n
: ( ) é um Dalit.
309 AS: ( ).
310 P: Então olha só, eles têm, por tradição esses costumes, / né, e a gente pode pensar, bem
311 aquilo, né, é feio pra mim, mas pruma outra pessoa é bonito. O George de topetinho e gel
312 pode ser feio, mas para uma outra pessoa pode ser bonito, né? A... Grace, de touquinha
313 na cabeça aqui pode estar feia para alguns, pra alguns ela pode estar bonita. / [A Megan,
314 com o cabelinho preso, pra alguns pode estar feia, pra outros pode estar bonita.
315 AS: [( ).
190
316 P: Então, é... a gente vai... /
317 G
n
: Professora, o Billy com o cabelo arrepiado!
318 P: O Billy com todo o cabelo arrepiado ( ).
319 AS: (Risos) ( ).
320 P: Olha só, então o que que acontece? Às vezes o cabelo da gente ele realmente é
321 arrepiadinho, a gente pode até tentar [( ).
322 G¹: [O meu cabelo é arrepiado, professora só que eu passo gel daí ele fica arrepiado
323 P: [Por conta
324 G¹: [( ) fica normal.
325 P: [Por conta que a gente tem os redemoinhos na cabeça e eles deixam os cabelos
326 oriçadinhos mesmo. / Alguns podem achar feio, alguns podem achar bonito. De repente
327 alguém vai achar: nossa, Billy, você fez um penteado novo? // [Né?
328 G
n
: [Ê, professora, a Cheryl nem penteou [o cabelo ( ).
329 P: [Às vezes tem, quan quantas pessoas saem com o cabelo sem pentear só fazem assim,
330 ó: pegam, passam os dedos assim, “ai tá bom, pronto!”
331 AS: [( ).
332 G²: Meu irmão é um destes, só faz assim, ó.
333 P: [Então, é uma maneira de viver.
334 G³: [Seu irmão tem o cabelo liso também, né?
335 G²: [Só que ele usa boné, por isso ele fica assim.
336 AS, P: [( ).
337 P: [É, daí tem que arrumar o cabelo. // Então olha só, o que nós vamos fazer
338 AS: [( ).
339 P: Então olha só o que nós vamos fazer / Roland, / é, quando se usa touca acontece isso, a
340 gente ( ).
341 AS: [( ).
342 G
n
: Ê, Roland, tira a touca aí pra nóis ver.
343 AS: Nossa!!!! (Risos)
344 P: Então olha lá, / então olha lá, pronto? / Pronto essa parte de, de brincar um pouquinho,
345 né? / Então agora
346 G
n
: Agora acabou.
347 P: Agora acabou. // Então olha só,
348 AS: ( ).
349 P: Vocês pedem eu tenho que fazer e eu peço e vocês não fazem?
350 G
n
: É mesmo, gente, vamos colaborar!
351 G
n
: O que que a professora quer?
352 P: Então olha só, que que eu quero que vocês façam agora? / Vocês vão fazer uma
353 ilustração sobre o conto, tá? E agora eu quero uma frase já! Não tem nada de levar pra
354 casa! Primeira coisa que vocês vão fazer: pensar, /na atitude que ela teve, foi correta?
355 Não foi? Por quê? Se foi correta a atitude que ela teve de ser vaidosa,
356 G
n
: Igual a Marie.
357 P: De casar ( ) de casar, de recusar os pedidos de casamento, / de repente casar com três
358 maridos
359 G¹: Que se chamam peixes!
360 P: A atitude que ela teve de ser sempre vaidosa, / se foi por quê? Se não foi, por quê?
361 G¹: Porque não.
362 P: Tá? Primeiro a frase, bem bonita, uma frase bem jóia / e uma ilustração sobre o conto.
363 AS: ( ).
364 P: São nove e treze. Vou passar no quadro. Vocês têm nove minutos pra fazer.
365 AS: Nossa!
366 P: Então vamos lá!
367 P: Tá acompanhando bem o meu encaminhamento? Foi mais ou menos o que ela deixou
368 Pq: Fica à vontade, tá bem legal!
369 P: Aí ela disse: Sally, eu não venho,
191
370 Pq: Eu liguei pra ela ontem e ela falou que não vinha.
371 P: Né, Adri, eu não venho, daí veja, eu deixei o encaminhamento ( ).
372 Pq: Não... é assim mesmo. / E pros próximos a ideia é que eu fique algum tempo. Então
373 pode ficar à vontade, escolha as obras que você quiser. O que eu tinha pedido pra Charlote é
374 que fossem do acervo.
375 P: Ahã.
376 Pq: Então num importa.
377 P: E... até porque depois eles possam, né, tanto que tenham o interesse de ir na biblioteca
378 e pegar, / [né?
379 Pq: [Viu que legal? Não, é bom é bom variar, né? Isso que é o legal!
380 P: É.
381 Pq: Mas você fica à vontade porque em qualquer momento de leitura eles vão fazer
382 comentários da forma que eu que eu acho que vão, então não se preocupe.
383 P: Que ótimo! (Risos) Porque as vezes até / até tem umas viagens que vão até... né? E...
384 eu sei que a parte da Secretaria que tem o... a... o pessoal que faz parte da da... comissão
385 étnico-racial, né?
386 Pq: Isso.
387 P: Então, eu não faço, então eu não sei que pé está realmente
388 Pq: Não, mas é... na verdade, assim, o que eu vejo, né, porque eu não sou também da do
389 município, eu sou do estado, tá engatinhando, tá começando agora ( ) e o suporte que a
390 prefeitura dá é a vinda de livros, né?
391 P: Ahã.
392 Pq: Então os livros tão aí, e eu acho que é isso mesmo, [a gente tem
393 P: Até porque, assim, a Charlote ( ) com ilustração. Eu gosto de pedir até pra ver o que vai
394 vir na ilustração. Que de repente a gente, xi, xi, xi, por favor! Até porque na ilustração é...
395 é... aquilo que a gente tem, eu tenho feito um curso de História e a... a nossa professora
396 trabalha, né, tem a questão da...
397 G
n
: Professora, mas ( ).
398 P: Não, porque que contei pra vocês a história e pra gente imaginar a situação e mostrei
399 as ilustrações. / É... ela até comenta sobre a questão da da formação, né?
400 Pq: Hum-hum.
401 P: Da miscigenação que é hoje, né, mais a cidade, né, porque a gente ( ) de Curitiba.
402 Pq: Hum-hum.
403 P: A miscigenação e o que que acontece? Daí ela fez até pediu pra que a gente fizesse um
404 auto-retrato pra gente se conhecer. Então o que que acontece? Tem crianças que às vezes
405 fazem os desenhos e colocam lá o cabelinho loirinho, né?
406 Pq: Porque é a idéia que a criança quer se representar, né?
407 P: É.
408 Pq: Ela quer ser vista daquela forma.
409 P: É. / Então eu até, a Charlote não tinha falado que queria desenho não, mas eu acho legal
410 ilustrar porque eu quero ver até que ponto eles registram.
411 Pq: Sim. Como eles vão ilustrar uma personagem de pele escura, né?
412 P: É. Porque não se tem não se tem contos assim, né?
413 Pq: Hum-hum.
414 P: Então... até daí como ela falou que você viria eu tava fazendo com eles, quero ver se
415 faço com o primeiro ciclo, eu contei pro primeiro ciclo o mesmo conto, né?
416 MARVIN: ( ).
417 P: Legal, gostei da frase, Marvin, muito bem! / É... até porque daí se você também quiser
418 algum material registrado, eles têm.
419 Pq: É legal porque depois eu posso scanear, né?
420 P: Isso.
421 Pq: É ótimo! Me ajudaria bastante.
422 P: Então até por isso que eu to pedindo pra que eles registrem.
423 Pq: Que bom!
424 P: É... enquanto literatura não é o certo, né, fazer o conto e pedir pra que eles registrem.
192
425 A professora fica possessa com a gente com isso, né? Eu to fazendo um curso de
426 literatura também e ela acha que quebra toda a, eu acho que quebra e não quebra.
427 Pq: Depende, acho que depende da leitura também, né? Depende do momento,
428 P: É, então.
429 Pq: Acho que aqui ficaria bem legal, acho que aqui é o melhor encaminhamento mesmo.
430 P: Né, e e daí ela... eu quero ver como é que eles fazem essa questão do retrato, a questão
431 de se colocar ali, / né, / que eu acho interessante.
432 Pq: E daí você fez no primeiro ciclo a leitura?
433 P: E daí então, no primeiro ciclo eu quero ver se faço, então eu comecei eu comecei eu
434 fiz com eles dois contos Green, né?
435 Pq: Hum-hum.
436 P: Contos europeus. Aí fiz a Ulomma essa semana. Vou fazer a Okpija. E vou pegar
437 contos chineses.
438 Pq: [Ah, que legal!
439 P: [Então, e tem os contos indianos. / Então eu quero fazer a... aí vários contos de vários
440 de vários [países.
441 Pq: [De várias culturas diferentes.
442 P: De várias culturas, exatamente, né, pra montar uma atividade neste sentido, né?
443 Pq: Ah, é uma idéia...
444 P: Porque quando começou eu falei “Meu Deus” e agora eu acho que eles tendo o ( ),
445 que a gente trabalha também, e como eu sei que tem o acervo porque no curso de História
446 a professora disse: Olha, ( ) contos chineses que chegaram ( ) materiais pra escola,
447 então aproveitem! / Então, daí eu quero ver se eu faço, à medida que eu for trabalhando
448 com eles eu vou trabalhando com o primeiro ciclo também.
449 P: Gente, nós vamos utilizar os desenhos de vocês pra três momentos diferentes. No
450 primeiro momento vai pro portal; no segundo momento é... a professora Débora vai estar
451 utilizando também algumas ilustrações no trabalho dela; e no terceiro momento nós
452 temos uma atividade que nós temos que terminar em novembro. Mas pra não deixar para
453 novembro, nós já vamos nos mexer agora. Então, essas ilustrações também vão servir pra
454 novembro. // “Ah, professora, mas até meu caderno vai estar detonado”. Não tem
455 problema, a gente fotografa o caderno, a gente scaneia o caderno antes de novembro, tá?
456 Então as melhores vão ser selecionadas juntamente com as melhores frases pra gente estar
457 desenvolvendo estes três trabalhos, tá?
Livros Grátis
( http://www.livrosgratis.com.br )
Milhares de Livros para Download:
Baixar livros de Administração
Baixar livros de Agronomia
Baixar livros de Arquitetura
Baixar livros de Artes
Baixar livros de Astronomia
Baixar livros de Biologia Geral
Baixar livros de Ciência da Computação
Baixar livros de Ciência da Informação
Baixar livros de Ciência Política
Baixar livros de Ciências da Saúde
Baixar livros de Comunicação
Baixar livros do Conselho Nacional de Educação - CNE
Baixar livros de Defesa civil
Baixar livros de Direito
Baixar livros de Direitos humanos
Baixar livros de Economia
Baixar livros de Economia Doméstica
Baixar livros de Educação
Baixar livros de Educação - Trânsito
Baixar livros de Educação Física
Baixar livros de Engenharia Aeroespacial
Baixar livros de Farmácia
Baixar livros de Filosofia
Baixar livros de Física
Baixar livros de Geociências
Baixar livros de Geografia
Baixar livros de História
Baixar livros de Línguas
Baixar livros de Literatura
Baixar livros de Literatura de Cordel
Baixar livros de Literatura Infantil
Baixar livros de Matemática
Baixar livros de Medicina
Baixar livros de Medicina Veterinária
Baixar livros de Meio Ambiente
Baixar livros de Meteorologia
Baixar Monografias e TCC
Baixar livros Multidisciplinar
Baixar livros de Música
Baixar livros de Psicologia
Baixar livros de Química
Baixar livros de Saúde Coletiva
Baixar livros de Serviço Social
Baixar livros de Sociologia
Baixar livros de Teologia
Baixar livros de Trabalho
Baixar livros de Turismo