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preparada. Sentei à minha mesa e não tinha nada para fazer. A secretária mais
velha falou que eu era uma gracinha, perguntou como consegui aquele emprego
sem experiência prévia. O estagiário puxa ferro, cabelo de menina em boate, papo
comigo, sorriso de deboche no rosto. E eu, sem nada para fazer no primeiro dia ,
segundo terceiro, e vê se chegou o fax do cliente; não; faz um clipping do que saiu
na imprensa, atende meu telefone e anota o recado enquanto eu estiver em reunião.
Vem cá me minha sala mais tarde, tranca a porta.
Eu beijava Augusto todas as terças à noite, entre quatro paredes, vida em
segredo, enquanto ele estava jogando futebol, tomando chope com os amigos,
trabalhando até tarde. Era meu chefe, numa terça de março, quentura de cortinas
fechadas de fim de verão, ele disse que iria se casar, e respondi que tudo bem,
estava cansada de ser a outra, enjoada daquela opressão de quarto de motel
barato, de sentir peso natimorto sobre mim, suas costas peludas, hálito azedo de
língua amarelada. Ele batia na minha bunda e ordenava: rebola putinha, e eu, que
nada sabia, sabia que depois viria um gozo rápido, mas apenas dele.
Eu voltava pra casa, nem acendia a Liz da sala e ia direto para a janela, atrás
da cortina. Olhava os vizinhos da frente durante a noite inteira, meu reality show
particular, antes de qualquer Big Brother, e os vizinhos eram velhos, gordos, e se
faziam carinhos e sorriam os vizinhos da frente tinham filhos, crianças, e a vizinha
acordava mais cedo e fazia o café para o mais velho antes de acordá-lo de manhã
para a escola. Despediam-se com beijo na bochecha, e depois ela virava para a
minha janela com sorriso ainda grudado no rosto. Amor, acho.
Eu sentia inveja, sentia inveja sozinha, porque inveja não bole com plural.
Em maio a menstruação atrasou, e essa foi a melhor notícia. A minha vida
seria ter aquele bebê; niná-lo, mimá-lo, escová-lo. O sentido era esse então, e não
aquela mesquinharia de afeto. Esperei que minha gravidez me legasse um grande e
orgulhoso barrigão, que desfilaria entre as vizinhas no elevador apertado, na calçada
da praia, tomando água-de-coco, é pra início do ano que vem, sorriria.
A menstruação veio um dia no metrô, ida para o trabalho. Eu sentada nos
bancos reservados para grávidas e idosos e a vergonha pingando do teto, suando
janelas de vermelho, ruborizando minhas bochechas, cheirando ao meu choro.
Doutor Carlos estranhou: - Como assim grávida? – Não transava há dois
meses, desde Augusto, mas, achei que podia, achei que gravidez demorava a
começar, não era assim automático, parar de menstruar logo no mês seguinte.
Doutor Carlos tinha envelhecido, quase sessenta anos, mas, os cabelos
continuavam mais vistosos, vermelho-acaju, e deu uma boa notícia: você pode
engravidar, mas para isso precisa... e trocou a toalha da mesa de exames e
começou a me tatear, dedos longos, sem luvas.
Cada rosto na rua um pai, beijo de língua sêmen, dia passado espera, mês
menstruado não. Nessa altura já conversava com a minha barriga, sonhava com os
olhos castanhos, ousava imaginar verdes, quem sabe. Esperava que ele berrasse
minha presença em choro todas as noites e o apertaria junto ao peito e lhe daria de
mamar coma certeza de que meu filho precisava de mim. De mim.
Acordei uma noite encharcada. Sonho, pesadelo, suor no pescoço, axilas,
entre as pernas, colo, uma filha. Filha não, filha não, e acendi duas velas, dessas de
apagão mesmo, nunca fui religiosa, e pedi numa reza inventada, num, por favor,
meu Senhor, meu Pai, filha não e te prometo isso, aquilo e tudo, mas, filha não, que
filha a gente coloca no mundo e não volta, se perde, como eu, em ladeiras, cinemas
e quarto fechados.