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UNIVERSIDADE ESTADUAL DE CAMPINAS
FACULDADE DE EDUCAÇÃO
DISSERTAÇÃO DE MESTRADO
RELAÇÃO ENTRE FUNÇÃO VISUAL E CAPACIDADE
FUNCIONAL NA VELHICE
SHEILA DE MELO BORGES
2006
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ii
UNIVERSIDADE ESTADUAL DE CAMPINAS
FACULDADE DE EDUCAÇÃO
DISSERTAÇÃO DE MESTRADO
RELAÇÃO ENTRE FUNÇÃO VISUAL E CAPACIDADE
FUNCIONAL NA VELHICE
Autor: Sheila de Melo Borges
Orientador: Profª. Drª. Fernanda Aparecida Cintra
Este exemplar corresponde à redação final da
da Dissertação defendida por Sheila de Melo
Borges e aprovada pela Comissão Julgadora.
Data:
Assinatura: ___________________________
Orientador
COMISSÃO JULGADORA:
____________________________________
____________________________________
____________________________________
2006
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iii
© by Sheila de Melo Borges, 2006.
Ficha catalográfica elaborada pela biblioteca
da Faculdade de Educação/UNICAMP
Título em inglês : Relation between visual function and functional capacity in the old age.
Keywords: Visual function ; Visual acuity, Functional capacity, Ageing.
Área de concentração : Gerontologia
Titulação: Mestre em Gerontologia
Banca examinadora: Profa. Dra. Fernanda Aparecida Cintra (Orientadora)
Prof. Dr. Toshio Chiba
Profa. Dra. Maria Elizabete Rodrigues Freire Gasparetto
Profa. Dra. Rita de Cássia Ietto Montilha
Profa. Dra. Maria José D’Elboux Diogo
Data da defesa : 15/12/2006
Programa de pós-graduação: Gerontologia
E -mail: sheila_ge[email protected]
Borges, Sheila de Melo
B644r Relação entre função visual e capacidade funcional na velhice / Sheila de
Melo Borges. -- Campinas, SP: [s.n.], 2006.
Orientador : Fernanda Aparecida Cintra.
Dissertação (mestrado) – Universidade Estadual de Campinas, Faculdade
de Educação. Programa de Pós-Graduação em Gerontologia.
1. Função visual. 2. Acuidade visual. 3.Capacidade funcional.
4.Envelhecimento. I. Cintra, Fernanda Aparecida. II. Universidade Estadual de
Campinas. Faculdade Educação. III. Título.
06-728-BFE
iv
Dedico este trabalho com todo o carinho e admiração
aos meus pais José e Isabel, que foram, são e sempre serão
os meus eternos mestres na arte do viver.
v
AGRADECIMENTOS
________________________________________________________
À Professora FERNANDA APARECIDA CINTRA por ter me proporcionado
oportunidades de crescimento científico, me orientando, aconselhando e
conduzindo os meus passos para o caminho do conhecimento e do meu
aperfeiçoamento intelectual.
À Professora MARIA JOSÉ D’ÉLBOULX DIOGO por acreditar no meu potencial
acadêmico desde o processo seletivo do mestrado.
À Professora ANITA LIBERALESSO NERI por ter me ensinado muito sobre a
Gerontologia durante esses anos de mestrado, por sempre me atender
prontamente com muito carinho e atenção quando necessitava de alguma
explicação, orientação e aconselhamento acadêmico.
Às amigas de mestrado NATÁLIA RICCI, DANIELE FIGUEIREDO e BEATRIZ DE
OLIVEIRA, e especialmente a querida amiga ANA CAROLINA BELLINI por ter
dividido momentos agradáveis durante os anos do mestrado, pela oportunidade de
convivência e apoio constante.
Aos idosos que participaram do projeto temático e consequentemente da minha
dissertação, sem eles não seria viável o desenvolvimento e conclusão da minha
trajetória rumo ao aperfeiçoamento profissional e acadêmico em Gerontologia.
À equipe do Projeto Temático (ANA CAROLINA BELLINI, GLAUCE ESTEFANI,
EFIGÊNIA MANTOVANI, JOÃO DE PAULA, DÉBORA SIGNORETTI, MÁRCIA
NAKANO, e LÍLIAN BERTA) pela troca de experiências, ajuda e companheirismo
durante a coleta.
Aos funcionários da Faculdade de Educação da UNICAMP, em especial à
secretária da Pós-graduação em Gerontologia Nadir Camacho, pela dedicação e
carinho que sempre me atenderam.
Aos meus queridos professores desde a pré-escola até o mestrado que foram e
são responsáveis pela minha formação como ser humano e como profissional.
Aos meus queridos mestres e amigos do Hospital das Clínicas de São Paulo,
HELENA IZZO, TOSHIO CHIBA, ANGÉLICA YAMAGUCHI, IVONE BIANCHINI e
LETÍCIA ANDRADE que auxiliaram o meu desenvolvimento, aperfeiçoamento e
crescimento na área da Gerontologia.
Aos meus pais JOSÉ e ISABEL, por serem a minha fortaleza, o meu alicerce, a
minha base sólida e principalmente, por acreditarem em mim, por me apoiarem
em todas as decisões e escolhas que fiz durante a minha vida.
vi
À minha irGREICE por me ajudar desde a época da faculdade até os dias de
hoje, seja nas provas de anatomia, me ajudando a estudar a origem e a inserção
dos músculos, seja me ajudando a conferir alguns dados da minha dissertação.
Ao meu namorado JOSÉ FRANCISCO pela ajuda, apoio, dedicação e
compreensão que desprendeu a mim na fase final do desenvolvimento deste
gratificante trabalho.
À colaboração preciosa de tantos outros colaboradores da minha dissertação, do
meu desenvolvimento pessoal e profissional que ficam no anonimato, mas nem
por isso são menos importantes.
E por fim e sem dúvida o agradecimento mais importante, agradeço a DEUS por
me proteger, iluminar, governar e abençoar sempre.
vii
RESUMO
________________________________________________________
BORGES, S. M. (2006). Relação entre função visual e capacidade funcional
na velhice. 99 p. Campinas, SP: 2006. Dissertação de Mestrado em Gerontologia,
Faculdade de Educação da UNICAMP, Campinas, 2006.
A prevalência da deficiência visual na população idosa é alta. A acuidade visual
diminuída tem repercussões importantes na função visual e na capacidade
funcional dos idosos. Objetivo - O objetivo do trabalho foi a avaliar a relação entre
função visual e capacidade funcional em idosos em seguimento ambulatorial.
Método - Foram entrevistados, por meio de instrumento próprio, 64 idosos em
seguimento ambulatorial num hospital universitário. Os sujeitos foram divididos em
dois grupos, conforme os valores obtidos na medida da AV: o grupo I composto
pelos idosos com visão normal ou próxima do normal, e o grupo II formado por
aqueles com baixa visão. Os dados foram submetidos à análise univariada,
buscando-se as tendências da distribuição das diversas variáveis e os valores de
posição e de dispersão de cada variável. Foram realizadas correlações bivariadas
entre as variáveis, a fim de identificar as seguintes relações: 1. Entre os grupos (I
e II) e os indicadores da condição visual (questões extraídas do instrumento NEI
VFQ-25); 2. Entre os grupos (I e II) e a capacidade funcional (Medida da
Independência Funcional MIF; Atividades Instrumentais de Vida Diária - AIVDs;
Atividades Expandidas de Vida Diária AEVDs); 3. Entre indicadores da condição
visual e a capacidade funcional. Na análise de covariância multivariada buscou-se
verificar a influência das variáveis da função visual sobre as variáveis da
capacidade funcional nos idosos. Resultados - Foram observadas diferenças
significativas entre os idosos com visão normal ou próxima do normal (grupo I) e
aqueles com baixa visão (grupo II), com respeito às variáveis: escolaridade (menor
escolaridade no grupo II), indicadores da condição visual (menor auto percepção
da visão, maior frustração, insegurança, limitação e dependência no grupo II), e
AIVDs (menor escore ou maior dependência no grupo II). Observou-se, ainda,
influência entre as variáveis da função visual (AV com os indicadores da condição
viii
visual), e entre AV com as AIVDs, sendo esta a única relação significativamente
observada entre AV e os instrumentos de capacidade funcional utilizados nesse
estudo. Conclusão houve influência da função visual na capacidade funcional
nos idosos pesquisados.
Palavras-chave: função visual, acuidade visual, capacidade funcional,
envelhecimento.
ix
ABSTRACT
________________________________________________________
BORGES, S.M. (2006). Relationship between visual function and functional
capacity in the old age. 99 p. Campinas, SP: 2006. Dissertação de Mestrado em
Gerontologia, Faculdade de Educação da UNICAMP, Campinas, 2006.
The prevalence of visual deficiency in elderly people is high. The visual acuity
reduced (VA) has important repercussions in the visual function and the functional
capacity of the elderly. Objective - the objective is to evaluate the relation between
the visual function and the functional capacity of the elderly in clinical segment.
Method through own instruments, sixty-four elderly men and women were
interviewed in clinical segment at an academic hospital. They were then divided
into two groups in accordance to the values that were obtained through the
measure of the VA: the first group consisted of elderly people with normal vision or
close to the normal, and the second group was formed of those with low vision.
The data were sent to the univariate analysis, looking for the tendencies of
distribution of the diverse variables and the values of the position and dispersion of
each variable. Bivariate correlations were made between the variables in order to
identify the following relations: among the groups (I and II) and the indicators of
visual condition (questions extracted from the NEI VFQ-25 instrument); among the
groups (I and II) and the functional capacity (Functional Independence Measure
FIM; Instrumental Activities of the Daily Life - IADL; Expanded Activities of Daily
Life– EADL); among the indicators of the visual condition and the functional
capacity. In the co-variance multivaried analysis to verify the influence of the
variables of the visual function above the functional capacity of the elderly. Results
significant differences between the elderly with normal vision or close to the
normal (group I) and those with low vision (group II) were found: 1.educational
level (lower in the second group); 2.indicators of the visual condition (lower auto-
perception of the vision, higher frustration, insecurity, limitation and dependence in
the second group); 3.and IADL (lower score or higher dependence in the second
x
group) It was also noticed the influence among the variables of the visual function
(VA with the indicators of the visual condition), and between VA with the IADL,
being this the only relation significantly observed between VA and the instruments
of functional capacity utilized in this study. Conclusion the visual function has
influence on the functional capacity of the elderly examined.
Key-words: visual function, visual acuity, functional capacity, aging.
xi
LISTA DE FIGURAS
________________________________________________________
Figura 1. Aspectos da perda da visão conforme órgão de manifestação e
a pessoa afetada segundo o esquema da CIF _____________________ 30
Figura 2. O universo do bem estar da vida humana _________________ 35
Figura 3. Distribuição dos idosos nos grupos de acuidade visual ______ 50
Figura 4. Relação entre acuidade visual e domínio emocional dos
indicadores da condição visual _________________________________ 61
Figura 5. Relação entre acuidade visual e domínio físico dos indicadores
da condição visual ___________________________________________ 61
Figura 6. Esquema para a interpretação de gráficos de caixas tipo “box
plots” _____________________________________________________ 62
Figura 7. Relação entre acuidade visual e Atividades Instrumentais de
Vida Diária _________________________________________________ 65
xii
LISTA DE TABELAS
________________________________________________________
Tabela 1. Freqüência relativa da auto percepção da visão pelos idosos
entrevistados _________________________________________________ 51
Tabela 2. Freqüência relativa dos indicadores da condição visual dos
idosos, segundo os domínios correspondentes ______________________ 52
Tabela 3. Freqüência relativa da Medida de Independência Funcional nos
idosos ______________________________________________________ 53
Tabela 4. Distribuição relativa do desempenho dos idosos nas Atividades
Instrumentais de Vida Diária _____________________________________ 54
Tabela 5. Distribuição relativa do desempenho dos idosos nas Atividades
Expandidas de Vida Diária ______________________________________ 55
Tabela 6. Análise da consistência interna dos instrumentos de avaliação __ 56
Tabela 7. Descrição sociodemográfica dos idosos conforme os grupos de
acuidade visual _______________________________________________ 57
Tabela 8. Freqüência relativa da auto percepção da visão pelos idosos
conforme os grupos de acuidade visual ____________________________ 58
Tabela 9. Freqüência relativa dos indicadores da condição visual dos
idosos conforme os domínios e grupos de acuidade visual _____________ 59
Tabela 10. Comparação das variáveis numéricas entre os grupos de
acuidade visual e os indicadores da condição visual __________________ 60
Tabela 11. Comparação das variáveis numéricas entre os grupos de
acuidade visual e a Medida de Independência Funcional dos idosos _____ 63
Tabela 12. Comparação entre as variáveis numéricas dos grupos de
acuidade visual e as Atividades Instrumentais de Vida Diária ___________ 64
Tabela 13. Comparação entre as variáveis numéricas dos grupos de
acuidade visual e as Atividades Expandidas de Vida Diária _____________ 66
Tabela 14. Correlação entre os escores dos indicadores da condição visual
e os instrumentos de capacidade funcional _________________________ 67
xiii
Tabela 15. Efeito das variáveis da função visual sobre as variáveis de
capacidade funcional conjuntamente nos idosos entrevistados__________ 68
Tabela 16. Efeito das variáveis da função visual sobre as variáveis de
capacidade funcional separadamente segundo os domínios da Medida de
Independência Funcional, o escore total das Atividades Instrumentais de
Vida Diária e os domínios das Atividades Expandidas de Vida Diária _____ 68
xiv
LISTA DE SIGLAS E ABREVIAÇÕES
________________________________________________________
AV - Acuidade Visual
ABVDs – Atividades Básicas de Vida Diária
AIVDs – Atividades Instrumentais de Vida Diária
AEVDs – Atividades Expandidas de Vida Diária
CIF – Classificação Internacional de Funcionalidade, Incapacidade e Saúde
MIF – Medida de Independência Funcional
NEI-VFQ – National Eye Institute - Vision Function Questionnarie
OMS – Organização Mundial da Saúde
UNICAMP – Universidade Estadual de Campinas
xv
SUMÁRIO
________________________________________________________
I. INTRODUÇÃO E JUSTIFICATIVA ____________________________ 18
II. CAPACIDADE FUNCIONAL ________________________________ 21
2.1 Instrumentos de avaliação de capacidade funcional ______________ 26
III. FUNÇÃO VISUAL NA VELHICE _____________________________ 29
IV. OBJETIVOS ____________________________________________ 39
V. MATERIAL E MÉTODO ____________________________________ 41
5.1 Delineamento o estudo ____________________________________ 42
5.2 Local __________________________________________________ 42
5.3 População e amostra ______________________________________ 42
5.4 Desenvolvimento da pesquisa _______________________________ 43
5.5 Análise dos dados ________________________________________ 47
5.6 Aspectos éticos __________________________________________ 48
VI. RESULTADOS __________________________________________ 49
6.1 Análise descritiva da função visual e capacidade funcional ________ 50
6.1.1 Acuidade visual ______________________________________ 50
6.1.2 Indicadores da condição visual auto-relatada pelos idosos _____ 51
6.1.3 Medida de Independência Funcional ______________________ 52
6.1.4 Atividades Instrumentais de Vida Diária de Lawton ___________ 54
6.1.5 Atividades Expandidas de Vida Diária _____________________ 54
6.2 Análise de consistência interna dos instrumentos ________________ 55
6.3 Análise comparativa entre as variáveis em estudo _______________ 56
xvi
6.3.1 Descrição da amostra conforme os grupos de acuidade visual __
56
6.3.2 Análise comparativa entre acuidade visual e os indicadores da
condição visual _____________________________________________
58
6.3.3 Comparação entre os grupos de acuidade visual e capacidade
funcional __________________________________________________
63
6.3.4 Análise comparativa entre os indicadores da condição visual e
capacidade funcional _________________________________________
66
6.4 Análise multivariada entre a função visual e a capacidade funcional _
67
VII. DISCUSSÃO ____________________________________________ 70
7.1 Sobre a analise descritiva da amostra com respeito aos instrumentos
de função visual e capacidade funcional __________________________ 71
7.2 Sobre a análise de consistência interna dos instrumentos _________ 72
7.3 Sobre a análise comparativa entre as variáveis em estudo ________ 73
7.3.1 Análise comparativa entre os grupos de acuidade visual _______ 73
7.3.2 Análise comparativa entre acuidade visual e os indicadores de
condição visual _____________________________________________ 74
7.3.3 Sobre análise comparativa entre acuidade visual e capacidade
funcional __________________________________________________ 75
7.3.4 Sobre a análise comparativa entre indicadores de condição visual
e capacidade funcional _______________________________________ 77
7.4 Sobre a análise multivariada entre função visual e capacidade
funcional __________________________________________________ 77
VIII. CONCLUSÃO __________________________________________ 79
IX . REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS _________________________ 81
xvii
X. ANEXOS _______________________________________________ 93
Anexo 1. Função visual _______________________________________
94
Anexo 2. Medida de Independência Funcional _____________________ 95
Anexo 3. Atividades Instrumentais de Vida Diária de Lawton _________
96
Anexo 4. Aprovação do comitê de ética __________________________
97
XI. APÊNDICES ____________________________________________ 98
Apêndice 1. Termo de consentimento livre e esclarecido _____________
99
Apêndice 2. Variáveis sócio-demográficas ________________________
100
Apêndice 3. Atividades Expandidas de Vida Diária _________________
101
18
I. INTRODUÇÃO E JUSTIFICATIVA
____________________________________________
19
Nas últimas décadas a expectativa de vida da população mundial vem
aumentando gradativamente. O Brasil está perdendo a característica de um país
populacionalmente jovem e emergindo para a condição de uma nação
envelhecida.
Frente a essa nova realidade, o principal desafio que a longevidade impõe
aos idosos é a preservação da qualidade de vida, mesmo na presença de
ameaças a restrições da autonomia e da independência causadas pela
deterioração da saúde e pelo empobrecimento da vida social. Pensar em
independência e autonomia na velhice implica também em considerar os
pequenos eventos do cotidiano (YUASO, 2003). Mais anos vividos pode
representar anos de sofrimento para esses indivíduos e suas famílias; anos
marcados por doenças, seqüelas, declínio funcional, aumento da dependência,
perda da autonomia, isolamento social e depressão. No entanto, se os indivíduos
envelhecerem com autonomia e independência, com boa saúde física,
desempenhando papéis sociais, permanecendo ativos e desfrutando de senso de
significado pessoal, a qualidade de vida desses sujeitos pode ser satisfatória
(PASCHOAL, 2002a).
A freqüência das doenças crônicas e a longevidade atual dos brasileiros
são as duas principais causas do crescimento das taxas de idosos portadores de
incapacidades (ROSA et al., 2003). O avanço da idade está associado ao
aumento da chance de ocorrência de doenças e de prejuízos à funcionalidade
física, psíquica e social. Contudo, para portadores de doenças crônicas, a cura
não deve ser o principal objetivo a ser buscado; aqui, interessa a manutenção de
uma boa qualidade de vida (PASCHOAL, 2002a).
Segundo West et al. (1997), uma prioridade para as pesquisas sobre o
envelhecimento é determinar as ligações entre doenças relacionadas à idade e os
domínios qualidade de vida e preservação da independência.
Nesse sentido, uma das alterações que chama a atenção na velhice, pela
perspectiva de piora da qualidade de vida e redução da independência, é a baixa
visão. Salive et al. (1994) apontam que a perda da visão comumente associa-se à
dependência e à progressão de incapacidades. Dessa forma, um declínio na visão
20
ou em outros parâmetros relacionados à acuidade visual (AV) pode levar à
incapacidade funcional (DARGENT-MOLINA, HAYS, BRÉART, 1996; REUBEN et
al., 1999; DiNUZZO et al., 2001), além da diminuição da qualidade de vida
(BRANCH, HOROWITZ, CARR, 1989; SCOTT et al., 1994; BROWN, 1999;
BROMAN et al., 2002). Esses dados são reforçados por Broman et al. (2002) que
associam a queda da AV à dificuldade auto-relatada na função física, estresse
emocional e baixa socialização todos os domínios considerados parte integrante
da qualidade de vida.
Sabe-se que doenças oculares crônicas causam um déficit visual
permanente e irreversível, afetando a qualidade de vida do paciente. Lidar com
estes aspectos, segundo Veitzman (2000), é parte integrante da medicina, e
diferentemente da prevenção ou tratamento clínico ou cirúrgico das doenças, o
principal objetivo é reduzir o impacto que a doença causa no desempenho geral
do paciente, mantendo a sua independência.
Embora a relação entre função visual e capacidade funcional na velhice
seja conhecida como indicador importante da qualidade de vida nesta população
(SALIVE et al., 1994), a avaliação desta relação ainda é pouco realizada,
especialmente nos serviços de atendimento geronto-geriátrico. Assim, justifica-se
a realização deste estudo em idosos em seguimento ambulatorial especializado no
Brasil.
21
II. CAPACIDADE FUNCIONAL
____________________________________________
22
Uma das alterações funcionais freqüentes que ocorre com o
envelhecimento é a perda para executar determinadas ações (SANTOS, 2003).
Segundo Gomes e Diogo (2004), no que se refere ao idoso, a Organização
Mundial de Saúde (OMS) realça a capacidade e a sua independência como
fatores preponderantes para o diagnóstico de saúde física e mental dessa
população. A presença de doenças crônicas, potencializadas pela perda da função
de órgãos e sistemas biológicos, pode gerar limitações funcionais que levam a
incapacidade, tornando muitas vezes o idoso dependente para a realização das
suas atividades (RAMOS, SIMÕES, ALBERT, 2001).
Em estudos na população idosa, a capacidade funcional (CF) é geralmente
dimensionada em termos da habilidade e independência para realizar
determinadas atividades do cotidiano (COSTA, BARRETO, GIATTI, 2003). A
definição operacional de capacidade funcional diz respeito justamente ao grau de
preservação da capacidade de realizar atividades básicas de vida diária ou de
auto cuidado (ABVDs) e ao grau de capacidade para desempenhar atividades
instrumentais de vida diária (AIVDs) apresentados pelo indivíduo (NERI, 2001b). A
capacidade funcional surge como um novo indicador de saúde, particularmente
relevante para o idoso. Saúde, dentro dessa nova perspectiva, passa a ser
resultante da interação multidimensional entre saúde física, saúde mental,
independência na vida diária, integração social, suporte familiar e independência
econômica. Qualquer uma dessas dimensões, se comprometida, pode afetar a
capacidade funcional global de um idoso (RAMOS, 2003). Por outro lado, o estudo
da incapacidade funcional em idosos é também importante para o entendimento
de como as pessoas vivem os anos adicionais de vida ganhos com o aumento da
longevidade (PARAHYBA, VERAS, MELZER, 2005).
Na literatura também utiliza-se o termo desempenho funcional, para
expressar a capacidade de um indivíduo vivenciar as atividades do cotidiano sem
necessidade de auxílio. Segundo Baltes e Silvenberg (1995),
este desempenho
mostra-se mais significativo na vida dos idosos do que a presença de doenças.
23
Independente dos termos utilizados para avaliar os idosos nas atividades do
cotidiano, em Gerontologia a principal meta no cuidado é a manutenção da
independência e autonomia do idoso (GOMES, DIOGO, 2004).
Enquanto que o conceito de independência está relacionado à capacidade
de realizar algo com seus próprios meios (PASCHOAL, 2002b), o de dependência
refere-se à incapacidade da pessoa funcionar satisfatoriamente sem a ajuda de
um semelhante ou de equipamentos que lhe permitam adaptação (PAVARINI,
NERI, 2000). Na avaliação do grau de independência do idoso, o termo função
refere-se ao conjunto de capacidades para o desempenho que permite ao
indivíduo cuidar de si, responder por si próprio e sobreviver na comunidade
(KEMP, MITCHELL, 1992). o idoso dependente, segundo Perracini, Najas e
Bilton (2002), é aquele que necessita de ajuda para sobreviver ou para se manter
em seu dia-a-dia, bem como apresenta alterações nas múltiplas dimensões da
vida e necessita ser assistido regularmente por um cuidador familiar ou formal.
Segundo Baltes e Silverberg (1995), a dependência na velhice é resultado
de mudanças ocorridas ao longo do curso da vida e engloba desde mudanças
biológicas até as transformações exigidas pelo meio social. As autoras descrevem
três níveis de dependência: a dependência estruturada, resultante da
circunstância cultural que atribui valor ao homem em função do que ele produz; a
dependência física, que decorre da incapacidade funcional, ou seja, pela falta de
condições para realizar as atividades do cotidiano; e a dependência
comportamental, socialmente induzida, pois advém do julgamento e das ações
dos outros, assim alguém assume a função de fazer a ação em seu lugar, mesmo
sem necessidade ou desejo da própria pessoa.
A dependência ou incapacidade funcional pode ser definida como a
dificuldade para realizar atividades típicas e pessoalmente desejadas na
sociedade.
É mais um indicador da conseqüência de um processo de doença do
que uma medida de incapacidade ou de morbidade específica. Este conceito vem
tornando-se particularmente útil para avaliar o estado de saúde dos idosos, uma
vez que muitos apresentam múltiplas doenças simultaneamente, que variam em
24
severidade e causam diferentes impactos na vida cotidiana (PARAHYBA, VERAS,
MELZER, 2005).
Atualmente a Classificação Internacional de Funcionalidade, Incapacidade e
Saúde (CIF) define algumas dimensões importantes de incapacidade. Segundo
Crews (1999) uma variedade de fatores de risco (ambiente, biológico e estilo
de vida) para a incapacidade. Ainda segundo Crews (1999), a incapacidade ocorre
nos níveis: do organismo, pessoal, e pessoa na sociedade, conforme a
classificação da CIF.
A autonomia, por sua vez, é a capacidade de decisão e comando sobre
suas ações, de estabelecer e seguir suas próprias regras. A autonomia é mais
abrangente do que a independência, visto que o indivíduo pode ser independente
e não ser autônomo, e pode ser autônomo sem ser independente (GOMES,
DIOGO, 2004). Baltes e Silverberg (1995) adotam um posicionamento crítico
diante da tendência de associar a dependência física com a perda de autonomia.
Autonomia e independência como vimos, têm significados diferentes.
A capacidade funcional sofre influência de fatores externos, ambientais,
físicos ou mesmo culturais, interferindo na independência de um indivíduo
(KAWASAKI, DIOGO, 2005). Sendo assim, a capacidade funcional pode ser
influenciada por fatores demográficos, socioeconômicos, culturais e psicossociais
(MOR et al., 1989; STUCK et al., 1999; RAUTIO, HEIKKINEN, HEIKKINEN, 2001;
ROSA et al., 2003). Stuck et al. (1999) concluem que baixos níveis de saúde
percebida, sintomas físicos e limitação funcional são os principais fatores de risco
que contribuem para o declínio do estado funcional em idosos.
Quando se deseja avaliar o estado funcional no idoso, com freqüência
realiza-se a avaliação funcional deste indivíduo. Segundo Lawton e Brody (1969),
a avaliação funcional é uma tentativa sistematizada de mensurar, objetivamente,
os níveis nos quais uma pessoa está funcionando numa variedade de áreas
(integridade física, qualidade da auto manutenção dos papéis, estado intelectual,
atividades sociais, atitudes em relação a si mesmo e ao estado emocional).
25
Granger e Gresham (1984) definem a avaliação funcional como um método para
descrever as habilidades e atividades a fim de mensurar a forma de realização
individual de uma rie de habilidades incluídas no desempenho de tarefas
necessárias na vida diária, nos compromissos vocacionais, nas interações sociais,
de lazer e outros comportamentos requeridos nas atividades do cotidiano. Gomes
e Diogo (2004), por sua vez, consideram que a avaliação funcional tem uma
relação estreita com a capacidade funcional.
A capacidade funcional tem sido definida como o grau de preservação do
indivíduo na capacidade de realizar as seguintes atividades (LAWTON,
BRODY,1969; NERI, 2001a; PAIXÃO JR, REICHENHEIM, 2005):
1) Atividades Básicas de Vida Diária (ABVDs), as quais referem-se às
funções de sobrevivência, tais como: alimentar-se, banhar-se, transferir-se e outras
funções; e,
2) Atividades Instrumentais de Vida diária (AIVDs), que estendem o conceito
acima e envolvem problemas um pouco mais complexos da vida cotidiana: utilizar
o telefone, sair só, fazer compras, entre outros.
Apesar da capacidade funcional ser representada principalmente pelas
ABVDs e AIVDs, as Atividades Avançadas de Vida Diária (AAVDs), ou Atividades
Expandidas de Vida Diária (AEVDs), também estão relacionadas à capacidade
funcional. As AEVDs incluem as atividades voluntárias, sociais, ocupacionais e de
recreação (PAIXÃO JR, REICHENHEIM, 2005).
Perracini, Najas e Bilton (2002) destacam que a participação em atividades
sociais e de lazer não devem ser negligenciadas. No envelhecimento
acompanhado de limitações, a diminuição no desempenho de atividades da vida
cotidiana geralmente acarreta isolamento social e restrições nas atividades.
Spirduso (1995) identifica cinco categorias hierárquicas que detectam os
diferentes níveis de capacidade funcional em idosos:
a) fisicamente dependentes: pessoas que não podem executar as ABVDs e
dependem de outros para suprir as necessidades diárias;
26
b) fisicamente frágeis: indivíduos que conseguem executar as ABVDs, mas
parcialmente as AIVDs;
c) fisicamente independentes: aqueles que podem realizar todas as ABVDs
e AIVDs, mas são sedentários;
d) fisicamente ativos: os que realizam exercícios regularmente e aparentam
ser mais jovens que a sua idade cronológica;
e) atletas: categoria que inclui pequena porcentagem da população,
pessoas engajadas em atividades competitivas.
2.1) Instrumentos de avaliação da capacidade funcional
O estado funcional é a dimensão-base para a avaliação geriátrica. Os
métodos habitualmente usados na avaliação funcional estruturada consistem na
observação direta (testes de desempenho) e emprego de questionários auto-
aplicados ou concebidos por entrevistas face a face, sistematizados por meio de
escalas que aferem os principais componentes da dimensão. Tais escalas
compõem o que se tem denominado “instrumentos de avaliação funcional”
(RUBENSTEIN et al., 1989).
A capacidade funcional na população idosa tem sido mundialmente
estudada principalmente por meio de instrumentos de avaliação das ABVDs e das
AIVDs (BACKMAN, HENTINEN, 2001; PARAHYBA, VERAS, MELZER, 2005). Na
maioria das escalas de ABVDs e AIVDs, o relato do desempenho é calculado para
cada atividade realizada.
Conforme indica Duarte (2003), a avaliação da capacidade funcional resulta
em uma classificação na qual o idoso aparecerá como independente ou
dependente (em maior ou menor grau). É, necessariamente, o grau de
dependência que determinará os tipos de cuidados que serão necessários, e
“como” e “por quem” os mesmos poderão ser mais apropriadamente realizados.
Vários instrumentos foram desenvolvidos para a mensuração das ABVDs,
dentre eles destacam-se: o Índice de Barthel, o Perfil de Pulses, o Índice de Katz e
o Índice de independência para ABVDs de Lawton. Mais recentemente, a Medida
27
de Independência Funcional (MIF) foi criada com o objetivo de avaliar a quantidade
de ajuda que os pacientes necessitam para realizar os cuidados pessoais, sendo
útil na reabilitação, inclusive na população idosa, visto que é abrangente e muito
informativa (GRANGER, HAMILTON, KEITH, 1986; CHRISTIANSEN,
OTTENBACKER, 2002; SAURON, OLIVEIRA, 2003).
Martínez e Collado (2003) referem que a MIF é o método de avaliação de
atividades de vida diária que deveria ser mais utilizado, uma vez que melhor
demonstra o grau de limitação do entrevistado, facilitando a compreensão da
equipe multidisciplinar sobre o estado atual do mesmo, além da grande aceitação
na literatura internacional (NYEIN, McMICHAEL, TURNER-STORNES, 1999; VAN
DER PUTTEN et al., 1999; RIBERTO et al., 2001).
A MIF é um questionário amplo, de grande utilidade clínica e abrangente,
tendo em vista que avalia os aspectos motores, cognitivos e sociais do indivíduo e,
principalmente, destaca-se pelas propriedades científicas (validade, confiabilidade
e sensibilidade) (KIDD et al., 1995; CHRISTIANSEN, OTTENBACKER, 2002;
MARTÍNEZ, COLLADO, 2003; SAURON, OLIVEIRA, 2003). Os dados obtidos a
partir do instrumento MIF consistem em 18 itens organizados sob cinco dimensões
que incluem: auto cuidado, controle de esfíncteres, mobilidade (transferências e
locomoção), comunicação e cognição social. Cada dimensão é analisada pela
soma de suas categorias referentes: quanto menor a pontuação, maior é o grau de
dependência (RICCI, KUBOTA, CORDEIRO, 2005). Os pacientes são avaliados
em cada item por meio de uma escala de sete pontos variando de independência
à dependência completa (KIDD et al.,1995; DAVING et al., 2001; RIBERTO et al.,
2001).
Na população idosa a reprodutibilidade da MIF foi estudada e publicada por
Ottenbacher et al. em 1994. Pollak, Rheault e Stoecker em 1996, demonstraram a
validade e a confiabilidade da MIF em idosos com mais de 80 anos de idade, e
classificada por eles como um instrumento útil na avaliação funcional nesta
população. Os autores mostraram que o componente motor da MIF é um bom
preditor de níveis de assistência nesta população (POLLAK, RHEAULT,
STOECKER, 1996). Nagano (2002) observa, ainda, que a MIF é o instrumento
28
mais adequado para avaliar mudanças nas atividades de vida diária em idosos da
comunidade.
No Brasil, a MIF teve a sua tradução e reprodutibilidade em 2001
(RIBERTO et al., 2001) e sua validação em 2004 por Riberto e colaboradores
(RIBERTO et al., 2004).
Em relação às AIVDs, os seus instrumentos de avaliação devem ser
breves, simples e de fácil aplicação, para que atinjam o seu principal objetivo - o
de servir como instrumento rápido de avaliação, triagem e estratificação de risco -
para que possam ser aplicados por múltiplas formações profissionais e em
qualquer Unidade Básica de Saúde (COSTA et al. 2001).
Lawton e Brody, em 1969, desenvolveram um instrumento para a avaliação
das AIVDs em idosos no qual as tarefas podem ser divididas nas atividades
realizadas dentro de casa: preparar comida; serviço doméstico; lavar e passar
roupa; trabalho manual; manuseio da medicação; telefone e dinheiro; e naquelas
realizadas fora de casa, como fazer compras e usar meios de transporte
(LAWTON et al., 1982).
Com respeito às AEVDs, ainda não existe na literatura uma escala
específica para avaliar tais atividades, contudo, conforme é recomendado para os
instrumentos de capacidade funcional, os instrumentos para essa finalidade
devem ser breves, simples e de fácil aplicação.
29
III. FUNÇÃO VISUAL NA VELHICE
____________________________________________
30
A perda da visão, uma das causas mais incapacitantes do ser humano,
mantém relação muito estreita com a senilidade. As estruturas oculares sofrem
através dos anos e de forma acumulativa os inúmeros danos metabólicos e
ambientais. Com isto, as formas mais comuns de doenças oculares são mais
freqüentes e mais debilitantes nos idosos (Romani, 2005).
Segundo Colembrander (2000), os vários aspectos da perda da visão e o
seu tratamento são melhor compreendidos pelo uso dos conceitos de Deficiência,
Incapacidade e Desvantagem, como definido na Classificação Internacional de
Funcionalidade, Incapacidade e Saúde (CIF) da OMS. Estes conceitos se aplicam
a qualquer tipo de perda funcional, inclusive na perda da visão (Figura 1).
Figura 1. Aspectos da perda da visão conforme órgão de manifestação e a
pessoa afetada segundo o esquema da CIF.
ÓRGÃO
PESSOA
Dano ou lesão Deficiência
(Mudanças anatômicas) (Mudanças na função do órgão)
Incapacidade
Desvantagem
(Perda de habilidades individuais) (Conseqüências sociais)
“Funções visuais” medidas
quantitativamente
Ex :Catarata, Ex: acuidade visual
Retinopatia, etc. campo visual, etc.
“Funções visuais” medidas
qualitativamente
Ex: Realização das Ex: necessidade extra
ABVDs, leitura, etc. de esforço, perda da
independência, etc.
Fonte: Colembrander (2000).
Os termos “Dano ou Lesão” e “Deficiência” descrevem a condição do órgão;
o dano ou lesão refere-se às mudanças anatômicas (como a catarata, por
exemplo), a deficiência refere-se às conseqüências funcionais (como a perda da
acuidade visual, por exemplo). Os termos “Incapacidade” e “Desvantagem”
descrevem a condição da pessoa. É possível desenvolver deficiência de um olho,
mas é impossível manifestar incapacidade em um olho. A incapacidade refere-se
à perda ou à falta de habilidades e destrezas, a desvantagem refere-se às
conseqüências sociais e econômicas (COLEMBRANDER, 2000).
O declínio biológico é inevitável durante o processo de envelhecimento,
uma vez que todos os sistemas do corpo sofrem perdas tanto nos aspectos
31
estruturais como funcionais (RIBEIRO et al., 2004). Com a função visual não é
diferente. Vários estudos populacionais internacionais relacionados aos problemas
oftalmológicos no idoso se destacam em publicações nessa área: Beaver Dam
Eye Study, Australian Blue Mountain Eye Study, The Blue Mountains Eye Study,
Melbourne Visual Impairment Project, National Diet and Nutrition Wide Samples of
British e Project SEE. Alguns destes estudos fornecem dados sobre a prevalência
e a severidade da perda da visão em todo o mundo (ATTEBO, MITCHELL,
SMITH, 1996; KLAVER et al., 1998; VAN der POLS et al., 2000; WEIH et al., 2000;
KLEIN et al., 2001). Estes dados mostram um aumento significativo na prevalência
da deficiência visual com o aumento da idade, especialmente naqueles com 75
anos ou mais. Entre os idosos, a deficiência visual e a cegueira podem ser
avaliadas como um importante problema de saúde pelo aumento de sua
prevalência (TSAI et al., 2005).
É importante destacar que a deficiência visual compreende a cegueira
funcional
1
e a baixa visão. A baixa visão corresponde a um comprometimento
importante da função visual, porém, o equivale à cegueira, termo que deveria
ser
empregado apenas em situação de ausência total da visão. A deficiência visual
corresponde a diminuição da visão mesmo após o tratamento clínico e/ou cirúrgico
e uso de lentes convencionais. O termo baixa visão substituiu oficialmente a
expressão visão subnormal em 1976, durante uma assembléia da OMS
(VEITZMAN, 2000).
O reconhecimento tardio do termo baixa visão está relacionado ao uso da
“cegueira legal” para denotar a perda grave da visão. Colembrander (2000)
considera que esta expressão deveria ser evitada por todos que trabalham com
pacientes com baixa visão. Chamar uma pessoa com perda severa da visão de
“legalmente cego” é o impróprio quanto chamar uma pessoa com uma doença
grave de “legalmente morta”. As instituições especializadas estão modificando a
1
A cegueira funcional é caracterizada pela AV menor que 20/200 no melhor olho (SALIVE et al.,
1992).
32
terminologia, substituindo a palavra cegueira e mencionando deficientes visuais ou
com desvantagens visuais.
O declínio da função visual no envelhecer é bem conhecido e configura-se
causa de preocupação tanto para população idosa (RAMRATTAN et al., 2001)
quanto para os profissionais de saúde, visto que alguns estudos mostram uma
associação entre função e mortalidade (WANG et al., 1999).
A função visual é avaliada por meio da obtenção e da interpretação de
vários parâmetros, como a medida da acuidade visual (AV), a percepção de cores,
o campo visual (periférico e central), a sensibilidade à luz e o reflexo pupilar
fotomotor. A avaliação da função visual é complexa pela relação que mantém com
mecanismos aferentes, eferentes e cognitivos, bem como com fatores externos à
pessoa examinada (BICAS, 2002).
A medida da AV é um exame subjetivo, uma vez que depende das
respostas do paciente, e revela informações importantes para a avaliação da visão
(DIOGO, PASCHOAL, CINTRA, 2000). Trata-se de um teste freqüentemente
utilizado para avaliar a função visual durante o exame oftalmológico (SALIVE et
al., 1994; ATTEBO, MITCHELL, SMITH, 1996). A medida da AV avalia a visão
central, a qual é feita pela área macular da retina responsável pela visão de
detalhes, discriminação de formas e contrastes (BICAS, 2002).
Por convenção, a medida da AV é feita para os objetos situados a uma
distância de seis metros (20 pés) (CRUZ, SAKUMA, 1992), também denominada
“para longe”, e para objetos situados a uma distância de 35,56 centímetros (14
polegadas), comumente denominada “para perto”. Para a medida da AV “para
longe” utiliza-se a Tabela de Snellen, e para medida “para perto” a Tabela de
Jaeger (DIOGO, PASCHOAL, CINTRA, 2000).
Visto que os valores de acuidade visual podem variar amplamente, a
discussão pode ser facilitada pela subdivisão da escala de acuidade visual em um
número de classes. Em um extremo da escala estão aqueles com visão normal, e
no outro extremo os que possuem cegueira legal, ou seja, aqueles sem percepção
luminosa. Entre os extremos estão os que perderam parte da visão também
chamado como baixa visão. Outras subdivisões dentro deste grupo podem ser
33
feitas para distinguir os que perderam pouco dos que perderam muito
(COLEMBRANDER, 2000).
Veitzman (2000) relata que a classificação da baixa visão sofreu muitas
modificações. A autora adota o critério estabelecido pela OMS para fins
epidemiológicos pela determinação de valores de acuidade visual no melhor olho,
com a melhor correção óptica. A baixa visão leve está compreendida entre 20/60 e
20/80, a moderada entre 20/80 e 20/160, a severa entre 20/200 e 20/400, e a
profunda entre 20/500 e 20/1000. A cegueira, para fins epidemiológicos, está na
faixa de AV inferior a 20/400.
Para a Sociedade Brasileira de Visão Subnormal, uma visão próxima do
normal é aquela cuja AV varia entre 20/30 e 20/60 no melhor olho. Considera,
ainda, uma pessoa com visão normal aquela cuja AV varia entre 20/12 e 20/25 no
melhor olho (LEAL, 2001).
No idoso, a queda na AV tende a ser progressiva e decorrente de doenças
oculares crônicas (RIBEIRO et al., 2004). As causas mais comuns são: catarata,
glaucoma, degenerações maculares e alterações vasculares do fundo do olho
(CUNHA, ALVES, 2000; DIOGO, PASCHOAL, CINTRA, 2000). A alta incidência
da diminuição da AV provêm de uma alta freqüência de catarata e maculopatia
relacionada com a idade, principalmente em idosos com 75 anos ou mais (WEIH
et al., 2000; KLEIN et al., 2001; KLEIN et al., 2003). Segundo Bonatti (2006),
oitenta por cento dos casos de baixa visão referem-se a pessoas com mais de 60
anos.
Dentre as perdas sensoriais, a queda da visão tem sido associada com a
incapacidade física (SALIVE et al., 1994) e corresponde à terceira causa de
incapacidade funcional nos idosos, depois dos problemas relacionados ao
aparelho locomotor e os de origem cardiovascular (SWAGERTY, 1995).
Bergman, Bergstron e Sjostrand (1999) reforçam a importância da visão
para a independência funcional, tendo em vista que mecanismos sensoriais,
principalmente os visuais, resultam em declínio na habilidade para desempenhar
tarefas rotineiras essenciais para os indivíduos viverem diariamente. Esta
associação entre AV e capacidade funcional em estudo realizado por West et al.
34
(1997) mostra que os idosos que reportam mais dificuldade nas tarefas de ABVDs
e AIVDs têm duas vezes mais chances de baixa visão.
DiNuzzo et al. (2001), na avaliação de cegueira funcional (também
chamada de cegueira legal pela OMS) e deficiência visual em idosos, encontraram
que os sujeitos com cegueira funcional apresentaram altas taxas de incapacidade
nas ABVDs e AIVDs, comparadas com sujeitos portadores de deficiência visual ou
visão normal. Este estudo mostra que quanto pior a visão nos idosos, mais
dificuldades são relatadas por eles para realizar as ABVDs e AIVDs. Resultados
semelhantes foram obtidos por West et al. (1997) que observaram forte
associação entre deficiência visual e para tarefas de ABVDs e AIVDs. Estes
autores verificaram ainda, que quando a idade é ajustada por gênero, raça e
status da deficiência visual, ela mostra-se um fraco preditor de dificuldades
funcionais.
A função visual também mostra estreita relação com a mobilidade (HILL,
1965). Durante a locomoção, a visão é necessária para monitorar e analisar a
localização e o movimento do corpo, bem como as condições ambientais para as
quais o sistema motor deveria responder (SAKARI-RANTALA et al., 1998).
Branch, Horowitz e Carr (1989) consideram que o declínio visual tem sido
associado não apenas com a diminuição da mobilidade, mas também com a
necessidade de fazer compras em mercados, preparo de refeições, andar fora de
casa e cuidar das finanças. Esta associação nem sempre é linear e facilmente
compreendida, conforme relatam Dargent-Molina, Hays e Bréart (1996). Para
estes autores, a relação entre deficiências sensoriais e dependência nas AIVDs
pode ser indireta e complexa.
Admite-se que a deficiência visual torna-se mais prevalente com o aumento
da idade e pode interferir no desempenho tanto nas ABVDs quanto nas AIVDs. As
AEVDs também podem ser influenciadas pela deficiência visual em idosos, uma
vez que a queda da visão corresponde a um dos mais importantes preditores para
limitação de atividades sociais e religiosas, e tendem a isolar os idosos da família,
dos amigos e do ambiente (SCOTT et al., 1994; WEST et al., 1997; CREWS,
2005).
35
Para Salive et al. (1994), a deficiência visual pode levar de forma direta à
incapacidade. Entretanto, Bergman, Bergstron e Sjostrand (1999) na avaliação da
AV e da capacidade funcional em idosos entre 70 e 88 anos num estudo
longitudinal concluem que a queda da AV não significa necessariamente
mudanças negativas na capacidade funcional. Isto enfatiza a importância de
relacionar variáveis objetivas e subjetivas de deficiência visual com a capacidade
funcional em idosos com idade avançada. De acordo com Wilkin (1990), pessoas
com queda da AV podem apresentar incapacidades, sem necessariamente
manifestar dependência, mesmo na presença de limitação funcional.
Segundo Guralnik (1999), a perda da independência é um evento bastante
temido em idosos. A deterioração da visão ameaça não apenas a independência,
mas também um estilo de vida ativo satisfatório, com conseqüência em várias
capacidades e no bem estar (BROMAN et al., 2002), incluindo a qualidade de vida
(BROWN, 1999).
A expressão “bem estar” engloba o universo dos domínios da vida humana,
e inclui os aspectos físicos, mentais e sociais. Os domínios da saúde são um
subconjunto dos domínios que compõem o universo total da vida humana. Esta
relação é apresentada no seguinte diagrama que representa o bem estar (Figura
2).
Figura 2: O universo do bem estar da vida humana.
Fonte: Classificação Internacional de Funcionalidade, Incapacidade e Saúde - CIF (OMS), 2004.
36
Na figura acima, a visão está dentro dos domínios de saúde e de bem estar.
Segundo a CIF, a funcionalidade de um indivíduo em um domínio específico
compreende uma interação ou relação complexa entre estado de saúde e fatores
contextuais (i.e. fatores ambientais e pessoais). Ou seja, na avaliação de um
problema relacionado à saúde como, por exemplo, a que da visão, é possível
notar como esse problema influencia não apenas a funcionalidade desse
indivíduo, como também nas questões relacionadas ao seu bem estar e, portanto,
na sua qualidade de vida (CIF, 2004).
Com o aumento na ênfase sobre resultados funcionais na área da
Oftalmologia, alguns serviços voltaram a sua atenção para o desenvolvimento e
uso de questionários de função visual. Desde 1980, vários instrumentos de auto
avaliação da função visual foram desenvolvidos (MASSOF, RUBIN, 2001).
Nos pacientes com problemas visuais, a adaptação de questionários de
qualidade de vida relacionados especificamente as doenças oculares permite
tanto a exploração dos impactos da deficiência visual, como a comparação da
qualidade de vida desses sujeitos com os portadores de outros problemas
(SCOTT et al., 1994). Dentre a diversidade de instrumentos de avaliação de
qualidade de vida - genéricos e específicos - propostos na literatura, os que se
destacam na avaliação de pacientes com doenças oculares são: "Activities of daily
vision scale" (ADVS) e "Vision Function Questionnaire" (VFQ). O VFQ é um
questionário desenvolvido a partir do "Vision Activities Questionnaire" (VAQ), que
avalia tanto a qualidade de vida quanto a função visual (FERRAZ et al., 2002).
Para Brémond-Gignac et al. (2002), as escalas específicas parecem ser
mais sensíveis do que as genéricas com respeito aos problemas oftalmológicos,
porém elas fornecem menos informações sobre o estado geral do paciente, exceto
o National Eye Institute Vision Function Questionnarie (NEI VFQ). Uma das
grandes críticas positivas em relação ao NEI VFQ é a sua capacidade de avaliar a
visão e o impacto dos problemas visuais sobre a qualidade de vida dos pacientes,
independente de uma doença oftalmológica. Segundo Cinoto et al. (2006), os
37
questionários são capazes de revelar informações que nem sempre são
percebidas pela medida da AV ou por outros testes clínicos.
O NEI VFQ foi projetado para medir as áreas de funcionamento e de bem-
estar identificadas como importantes pelos sujeitos com doenças oculares
(CLEMONS et al., 2003). A incapacidade especifica da visão é definida em termos
de escores subjetivos pelo NEI VFQ (BRODY et al., 2001). A versão simplificada
do NEI VFQ possui 25 questões agrupadas em 13 subdomínios (saúde geral,
visão, dor ocular, atividades para perto, atividades para longe, aspectos sociais,
saúde mental, atividades da vida diária, dependência, capacidade para dirigir
automóvel, visão de cores e visão periférica) com uma ou mais questões em cada
subdomínio (MANGIONE et al., 2001; FERRAZ et al., 2002). O NEI VFQ-25 foi
adaptado culturalmente para a língua portuguesa do Brasil por Fonseca (2006).
Este instrumento mostrou-se aplicável em idosos com baixa visão adquirida, pela
excelente confiabilidade demonstrada estatisticamente, com valores de Alpha de
Crombach 0,86 e 0,91, sem o Apêndice Opcional e com o Apêndice Opcional,
respectivamente (FONSECA, 2006). Owen et al. (2006) também verificaram a
utilidade do NEI VFQ - 25 para medir as dificuldades visuais em idosos.
Estudos mostram que o NEI VFQ-25 é uma medida adequada para avaliar
qualidade de vida em pacientes com degeneração macular, catarata ou redução
da acuidade visual (MANGIONE et al., 1998; CLEMONS et al., 2003). De acordo
com Broman, Munoz e West (2001), o NEI VFQ-25 não é apenas influenciado pela
função visual, mas também por fatores sócio-demográficos, tais como: idade,
gênero, nível cultural, renda mensal, nível educacional e moradia.
Embora a função visual contemple vários parâmetros de natureza objetiva e
subjetiva, no presente estudo serão utilizados os valores obtidos na medida da AV
e as questões do NEI VFQ 25 mais pertinentes para avaliar a relação entre
função visual e capacidade funcional. Sabe-se que uma adequada função visual e
física tem um papel importante na manutenção da independência de idosos
(SALIVE et al., 1994).
Considerando a existência de poucos estudos que examinam a associação
da visão com limitações físicas e incapacidades nos idosos (KLEIN et al., 2003) o
38
presente estudo pretende analisar a influência da função visual na capacidade
funcional em idosos em seguimento ambulatorial.
39
IV. OBJETIVOS
____________________________________________
40
4.1 Objetivo Geral
Analisar a relação entre função visual e capacidade funcional em idosos em
seguimento ambulatorial.
4.2 Objetivos Específicos
Descrever as variáveis função visual (acuidade visual e indicadores da
condição visual) e capacidade funcional (avaliada pela Medida de
Independência Funcional, Atividades Instrumentais de Vida Diária e
Atividades Expandidas de Vida Diária);
Analisar comparativamente a acuidade visual com os indicadores da
condição visual auto-relatado pelos idosos.
Analisar comparativamente a acuidade visual com a capacidade funcional;
Analisar comparativamente os indicadores da condição visual com a
capacidade funcional;
Identificar relações entre acuidade visual, indicadores da condição visual e
capacidade funcional.
41
V. MATERIAL E MÉTODO
____________________________________________
42
5.1 Delineamento do estudo
Trata-se de um estudo transversal integrante do Projeto Temático intitulado
“Qualidade de vida em idosos fragilizados: indicadores de saúde e de bem-estar
subjetivo”, o qual tem por objetivo geral identificar e analisar os fatores de predição
e discriminação de fragilidade e bem-estar subjetivo em idosos residentes no
município de Campinas e região, considerando o impacto destas variáveis sobre a
qualidade de vida destas pessoas. Este Projeto é coordenado por docentes do
Curso de Pós-Graduação em Gerontologia da Faculdade de Educação da
Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP), Campinas, São Paulo.
5.2 Local
O estudo tem como campo de pesquisa o Ambulatório de Geriatria do
Hospital das Clínicas da UNICAMP. Esta unidade recebe pacientes encaminhados
de Unidades sicas de Saúde e de outras especialidades médicas do próprio
serviço, em sua grande maioria.
5.3 População e Amostra
Os sujeitos do Projeto Temático são idosos com 65 anos e mais, de ambos
os sexos, que vivem na comunidade e são portadores de doenças somáticas. A
amostra do Projeto Temático contou com 102 sujeitos selecionados por estratos,
de acordo com sua presença no respectivo ambulatório. Os dados foram
coletados no período de outubro de 2005 a julho de 2006.
Os critérios para a participação deste estudo foram:
- Inclusão: aceite em participar da pesquisa com a assinatura do Termo
de Consentimento Livre e Esclarecido (Apêndice 1);
- Exclusão: presença de déficit cognitivo que dificultasse a compreensão
e resposta do instrumento; diagnóstico de doenças neurológicas (ex:
Acidente vascular encefálico, Doença de Parkinson, Lesão medular e
poliomielite) que pudessem modificar a funcionalidade do indivíduo
devido à seqüela da doença.
43
A avaliação do déficit cognitivo foi realizada por meio do Mini-Exame de
Estado Mental (MEEM) e adotada a nota de corte recomendada por Bertolucci et
al. (1994): pontuação inferior a 13 pontos para analfabetos, 18 pontos para
alfabetizados no período entre um e sete anos de escolaridade, e 26 pontos para
aqueles com oito anos ou mais de escolaridade.
Participaram neste estudo 64 idosos com idade entre 65 e 92 anos
[Média=76,33 (+6,86)]. Predominou o sexo feminino (56,25%) e a cor branca
(82,81%); em menor proporção encontravam-se os pardos (10,94%) e negros
(6,25%). Com respeito ao estado conjugal, 50% dos idosos eram casados, 42,19%
viúvos, 3,13% divorciados e 4,69% solteiros. Grande parcela dos idosos
freqüentou apenas o ensino fundamental (62,50%), 9,38% o ensino médio, e uma
proporção significativa (28,13%) revelou nenhuma escolaridade. A renda familiar
mensal informada variou entre zero e R$ 1.200, 00 (mediana = R$ 300,00 reais)
2
.
5.4 Desenvolvimento da pesquisa
A coleta de dados do Projeto Temático foi efetuada por uma equipe
treinada, da qual participou a autora do presente estudo. Nesta coleta foi utilizado
um instrumento elaborado para este Projeto, que contém perguntas fechadas e
escalas de avaliação. Este instrumento está dividido nas seguintes seções:
I. Identificação pessoal;
II. Dados sociodemográficos;
III. Saúde física;
IV. Antropometria;
V. Mobilidade e flexibilidade;
VI. Hábitos de vida;
VII. Atividade física;
VIII. Saúde bucal;
IX. Aspectos funcionais e de satisfação com a alimentação;
X. Quedas;
2
Salário mínimo vigente igual a R$ 350,00.
44
XI. Estado cognitivo;
XII. Fluência verbal;
XIII. Estado depressivo;
XIV. Bem-estar subjetivo;
XV. Medida de independência funcional;
XVI. Atividades instrumentais de vida diária;
XVII. Atividades expandidas de vida diária.
Para a elaboração do instrumento foram realizadas várias reuniões com os
responsáveis do Projeto Temático, visando a eleição das escalas de avaliação e
das questões mais apropriadas para a identificação dos fatores de predição,
fragilidade e bem-estar subjetivo na população idosa atendida no Ambulatório de
Geriatria do Hospital das Clínicas da UNICAMP.
Foi realizado um estudo piloto a fim de verificar a adequação dos
instrumentos. Algumas alterações foram necessárias e efetuadas, originando a
versão final utilizada para a coleta de dados do Projeto Temático.
As entrevistas foram individuais, realizadas em sessão única e em ambiente
reservado, no dia da primeira consulta ou do retorno dos idosos no referido serviço
de atendimento ambulatorial.
Para o presente estudo, foram utilizados os seguintes dados das seções:
a) Seção I: Número de identificação do sujeito (Apêndice 2);
b) Seção II: Dados sociodemográficos: gênero, idade, cor, estado
conjugal, escolaridade e rendimento (Apêndice 2);
c) Seção III: Medida de acuidade visual (AV) obtida pela Tabela de
Snellen, e sete questões do instrumento NEI VFQ 25 denominadas
"indicadores da condição visual" (Anexo 1);
d) Seção XI: Pontuação do Mini-Exame de Estado Mental (MEEM);
e) Seção XV: Medida de Independência Funcional (MIF) (Anexo 2);
f) Seção XVI: Atividades Instrumentais de Vida Diária (AIVDs) (Anexo 3);
45
g) Seção XVII: Atividades Expandidas de Vida Diária (AEVDs)
relacionadas à participação em eventos sociais, atividades física e
religiosa (Apêndice 3).
Todos os dados foram extraídos do banco de dados do Projeto Temático.
Os participantes deste estudo (n = 64) foram divididos em dois grupos,
conforme os valores obtidos da AV (FERRAZ et al., 2002; ZACHARIAS et al.,
2002):
Grupo I: AV 20/60 em ambos os olhos (AO) ou AV 20/60 no melhor
olho, com correção óptica se fizer uso;
Grupo II: AV < 20/60 AO, com correção óptica se fizer uso.
Para facilitar a análise e a discussão consideramos a AV do grupo I como
“normal” ou “próxima do normal” (LEAL, 2001) e a do grupo II como “baixa visão”
(VEITZMAN, 2000).
Com respeito ao instrumento NEI VFQ 25, foram extraídas as questões
que melhor expressavam a influência da visão na capacidade funcional dos
idosos.
Da mesma forma adotada para a AV, para a análise estatística agrupamos
as sete questões do NEI VFQ - 25 da seguinte forma: uma questão isolada
relacionada à auto percepção da visão e as demais questões em dois domínios:
emocional e físico. Adotamos o termo "indicadores da condição visual" para nos
referirmos a estas questões. No domínio de auto percepção da visão apresenta
uma questão isolada sobre como o paciente refere que está a sua visão. No
domínio emocional agrupamos as questões relacionadas à preocupação,
frustração e insegurança decorrentes da visão; nos Indicadores da condição visual
- domínio físico elencamos as questões relacionadas à limitação para o trabalho
ou outras atividades, permanência em casa por tempo prolongado e necessidade
de ajuda de outras pessoas. Para cada questão foi estabelecida uma pontuação
que variou de um a três: para a questão relacionada a auto percepção da visão
utilizamos a pontuação um para os idosos que avaliaram a própria visão como
“ruim”, dois para os que consideraram a visão como “regular” e três para a visão
“boa”. Com respeito aos domínios emocional e físico, a seguinte pontuação foi
46
utilizada: um ponto para aqueles que responderam “o tempo todo”, dois para
“algumas vezes” e três pontos para a resposta “nunca”. Sendo assim, na questão
relacionada à auto percepção da visão, a pontuação variou de um a três, e nos
domínios emocional e físico a pontuação total variou entre três e 18 pontos em
cada domínio. Originalmente o instrumento NEI VFQ -25 possui cinco opções de
respostas, as quais no presente estudo foram reduzidas para três opções.
Em relação à MIF, os pacientes são avaliados por 18 itens. Em cada item
recebe entre um e sete pontos, variando de dependência completa à
independência, respectivamente. O escore total da MIF é derivado da
classificação dos 18 itens. Dessa forma, a soma dos pontos das dimensões da
MIF (auto cuidado, controle de esfíncteres, mobilidade, comunicação e cognição
social) resulta num escore total mínimo de 18 e máximo de 126 pontos (KIDD et
al.,1995; DAVING et al., 2001; RIBERTO, 2001). Para este trabalho utilizamos o
escore total da MIF, a fim de avaliar a independência funcional do idoso de forma
global, e elegemos duas dimensões da MIF que melhor representam as ABVDs:
as dimensões auto cuidado e mobilidade (transferência e locomoção).
Na escala da AIVDs, a pontuação varia entre nove e 27 pontos, o que
corresponde a dependência máxima e independência máxima, respectivamente.
Para cada questão são atribuídos três pontos para a tarefa realizada de forma
“independente”, dois pontos para “dependência parcial” e um ponto para a
“dependência total”. Nesse trabalho avaliamos a pontuação obtida em cada tarefa
e o escore total do instrumento.
Com respeito às AEVDs, destacamos cinco das 20 questões do instrumento
de AEVDs do Projeto Temático e agrupamos algumas questões nos seguintes
domínios: 1. atividades sociais (passeio pela cidade e/ou bairro; reuniões, festas
ou bailes; e, visita a amigos e/ou parentes); 2. atividade religiosa (freqüentar
igrejas/templos para cultos, missas, rezas); e, 3. atividade física (prática de
alguma atividade física). Neste instrumento estabelecemos uma pontuação que
variou de um a três pontos para cada atividade: no domínio “atividades sociais” a
pontuação variou de três a nove pontos; e nos domínios “atividade religiosa” e
“atividade física” a pontuação variou entre um e três pontos. A pontuação total do
47
instrumento variou de cinco a quinze pontos. Utilizamos nesse estudo a pontuação
total e a pontuação referente aos domínios das AEVDs.
5.5 Análise dos dados
Os dados coletados foram inseridos no programa estatístico SPSS versão
8.0 System for Windowns e realizadas as seguintes análises:
Descritiva: para descrever o perfil da amostra segundo as variáveis
de interesse, ou seja, função visual ( acuidade visual e indicadores
da condição visual) e capacidade funcional (Medida de
Independência Funcional - MIF, Atividades Instrumentais de Vida
Diária - AIVDs e Atividades Expandidas de Vida Diária - AEVDs).
Foram confeccionadas tabelas de freqüência, medidas de posição
(média, mediana, mínima e máxima) e de dispersão (desvio-padrão);
Consistência interna: para a análise de consistência interna foi
calculado o coeficiente alfa de Cronbach. Valores de alfa maiores
que 0,70 indicam alta consistência (STREINER, NORMAN, 1995);
De comparação: para comparar as variáveis categóricas entre os
grupos empregou-se o teste Qui-Quadrado (Q
2
) ou, quando
necessário, o teste exato de Fisher (presença de valores esperados
menores que 5). Para comparar as variáveis numéricas entre os
grupos foram utilizados os testes de Mann-Whitney (2 grupos) e de
Kruskal-Wallis (3 grupos). A análise da relação entre as variáveis
numéricas foi obtida pelo cálculo do coeficiente de correlação de
Spearman (CONOVER, 1971; FLEISS, 1981).
Análise de relação conjunta: para analisar a relação conjunta entre
a função visual e os escores da capacidade funcional foi utilizada a
Análise de Covariância Multivariada (Multivariate Analysis of
Covariance MANOCOVA) e a Análise de Covariância univariada
(Univariate Analysis of Covariance ANOCOVA). Utilizou-se as
variáveis sexo e idade como covariáveis. As variáveis sem
48
distribuição Normal foram transformadas em logaritmo (log
10
) para os
testes estatísticos (TABACHNICK, FIDELL, 2001).
5.6 Aspectos Éticos
O Projeto Temático no qual este estudo está integrado foi aprovado pelo
Comitê de Ética da Faculdade de Ciências Médicas da UNICAMP, parecer
240/2003 (Anexo 4). Os pacientes foram orientados sobre o anonimato e a
liberdade em desistir a qualquer momento da pesquisa ao assinarem o Termo de
Consentimento Livre e Esclarecido, conforme Resolução 196/96 do Conselho
Nacional de Saúde (Apêndice 1).
49
VI. RESULTADOS
____________________________________________
50
Inicialmente será apresentada a análise descritiva (freqüência relativa) dos
instrumentos de auto-relato utilizados nesse trabalho, com respeito à função visual
e a capacidade funcional. A seguir serão mostrados os resultados da consistência
interna dos indicadores da condição visual (domínio emocional e físico); domínios
de auto-cuidado e mobilidade da MIF, bem como do seu escore total, AIVDs
escore total; e AEVDs escore total e os domínios das AEVDs . Posteriormente
serão discutidos os valores obtidos das análises de correlação bivariada para as
variáveis acuidade visual e indicadores da condição visual, acuidade visual e
todos os instrumentos de capacidade funcional (MIF, AIVDs e AEVDs), e
indicadores da condição visual e todos os instrumentos utilizados para avaliar a
capacidade funcional (MIF, AIVDs e AEVDs). Finalmente serão apresentados os
resultados da análise multivariada com ajuste das covariáveis sexo e idade,
traçando-se os perfis do grupo com todas as variáveis do estudo.
6.1
Análise descritiva da função visual e capacidade funcional
6.1.1 Acuidade visual
Na Figura 3 verificamos que dentre os 64 idosos estudados, o grupo I foi
representado por 64% (n=41) enquanto o grupo II foi representado por 36% (n=23)
desta amostra.
Figura 3. Distribuição dos idosos nos grupos de acuidade visual (n=64).
CAMPINAS, 2006.
64%
36%
Grupo I Grupo II
* Grupo I : visão normal ou próxima do normal
** Grupo II : baixa visão
51
6.1.2 Indicadores da condição visual auto-relatada pelos idosos
Ao serem solicitados a avaliar a própria visão, uma proporção significativa
(48,44%) dos idosos considerou a sua visão como regular, enquanto os demais
apresentaram distribuição equilibrada entre visão ruim e boa (Tabela 1). Apesar
desta avaliação, mais da metade (53,13%) relatou que se preocupa algumas
vezes com a visão, e 51,56% nunca sentiu-se frustrado. Metade (50%) dos idosos
entrevistados respondeu que nunca sentiu-se inseguro nas coisas que faz, uma
proporção significativa (42,19%) nunca sentiu-se limitado para o trabalho e outras
atividades, e a maioria (70,31%) relatou que nunca permaneceu longos períodos
em casa ou necessitou de ajuda de outras pessoas em decorrência da visão
(65,63%) (Tabela 2).
Tabela 1. Freqüência relativa da auto percepção da visão pelos idosos
entrevistados (n=64). CAMPINAS, 2006.
* com óculos, se utiliza-os.
Variável Questão Visão ruim (%) Visão regular (%) Boa visão (%)
Auto percepção da
visão
Como diria que
está a visão*
28,13
48,44
23,44
52
Tabela 2. Freqüência relativa aos indicadores da condição visual dos idosos,
segundo os domínios correspondentes (n=64). CAMPINAS, 2006.
Domínio Questão Tempo todo
(%)
Algumas vezes
(%)
Nunca
(%)
Com que freqüência se
preocupa com a visão
32,81
53,13
14,06
Emocional
Com que freqüência se sente
frustrado*
18,75 29,69
51,56
Com que freqüência se sente
inseguro nas coisas que faz*
25,00 25,00
50,00
Com que freqüência se sente
limitado para o trabalho e
outras atividades*
26,56 31,25
42,19
Físico
Com que freqüência
permanece longos períodos em
casa*
21,88 7,81
70,31
Com que freqüência necessita
de ajuda dos outros*
7,81 26,56
65,63
* “por causa da sua visão”.
6.1.3 Medida de Independência Funcional (MIF)
Em relação à MIF, a Tabela 3 demonstra que os idosos relataram
apresentar independência funcional ou completa em todas as tarefas: alimentação
(87,50%); higiene pessoal (90,63%); banho (73,44%); vestir-se da cintura para
cima (87,50%); vestir-se da cintura para baixo (53,13%); uso do vaso sanitário
(85,94%); controle de urina (54,69%); controle de fezes (65,63%); transferência do
leito e cadeira (64,06%); transferência do vaso sanitário (71,88%); transferência da
banheira ou chuveiro (65,63%); marcha (57,81%); compreensão (62,50%);
expressão (75,00%); interação social (75,00%) e resolução de problemas
(53,13%). Apenas no domínio mobilidade, especialmente no uso de escada, mais
da metade (53,13%) dos idosos relatou independência modificada, e no domínio
cognição social referente à memória os idosos relataram, de forma equilibrada,
independência completa (37,50%) e modificada (37,50%).
53
Tabela 3. Freqüência relativa da Medida de Independência Funcional nos idosos
(n=64). CAMPINAS, 2006.
Domínio
da
MIF
Tarefas
Independ.
Completa
(%)
Independ.
Modificada
(%)
Supervisão
(%)
Dep.
Mínima
(%)
Dep.
Moderada
(%)
Dep.
Máxima
(%)
Dep.
Total
(%)
Alimentação 87,50
9,38 1,56 - - - 1,56
Higiene
Pessoal
90,63
7,81 - - 1,56 - -
Banho 73,44
17,19 1,56 4,69 3,13 - -
Ventir-se da
cintura para
cima
87,50
7,81 1,56 1,56 1,56 - -
Ventir-se da
cintura para
baixo
53,13
35,94 3,13 4,69 3,13 - -
Auto -
cuidado
Uso do vaso
sanitário
85,94
10,94 3,13 - - - -
Controle de
urina
54,69
18,75 1,56 4,69 6,25 14,06 -
Controle
de
esfíncteres
Controle de
fezes
65,63
29,69 - 1,56 1,56 1,56 -
Transf. do
leito e cadeira
64,06
32,81 1,56 1,56 - - -
Transf. do
vaso sanitário
71,88
26,56 - 1,56 - - -
Transf. da
banheira ou
chuveiro
65,63
32,81 - 1,56 - - -
Marcha 57,81
21,88 17,19 3,13 - - -
Mobilidade
Escada
14,06
53,13
17,19 6,25 3,13 4,69 1,56
Compreensão 62,50
20,31 15,63 - 1,56 - -
Comunicação
Expressão 75,00
14,06 9,38 1,56 - - -
Interação
social
75,00
12,50 7,81 3,13 1,56 - -
Resolução de
problemas
53,13
15,63 14,06 6,25 3,13 - 7,81
Cognição
social
Memória 37,50 37,50
14,06 3,13 7,81 - -
54
6.1.4 Atividades Instrumentais de Vida Diária de Lawton (AIVDs)
De forma semelhante à observada na MIF, os idosos informaram realizar a
maioria das tarefas das AIVDs sem ajuda, correspondendo a seis das sete tarefas
do respectivo instrumento, exceto no deslocamento para locais distantes sem
necessidade de planejamento especial, mostrando que uma proporção
significativa (45,31%) de idosos necessitava de ajuda parcial para esta tarefa.
Destacam-se o preparo de refeições (75,00%); uso do telefone (70,31%); e, cuidar
das finanças (65,63%). A tabela 4 mostra esta distribuição.
Tabela 4. Distribuição relativa do desempenho dos idosos nas Atividades
Instrumentais de Vida Diária (n=64). CAMPINAS, 2006.
Tarefas Sem ajuda (%) Ajuda parcial (%) Não consegue (%)
Usar o telefone 70,31
18,75 10,94
Deslocamento para locais distantes
sem planejamento especial
40,63
45,31
14,06
Fazer compras 50,00
31,25 18,75
Preparo de refeições 75,00
10,94 14,06
Arrumar a casa 56,25
21,88 21,88
Trabalhos manuais 59,38
15,63 25
Lavar e passar roupas 51,56
10,94 37,50
Tomar remédios corretamente 59,38
28,13 12,50
Cuidar das finanças 65,63
18,75 15,63
6.1.5 Atividades Expandidas de Vida Diária (AEVDs)
Com respeito às AEVDs, a maioria dos idosos (71,88%) relatou nunca
praticar atividade física e 64,06% nunca participar de reuniões, festas e bailes.
Uma proporção significativa (48,44%) informou passear pela cidade e/ou bairro
“de vez em quando”, mais da metade (53,13%) visitam amigos e/ou parentes “de
55
vez em quando” e 43,75% relataram ir à igreja, cultos ou rezas nesta mesma
freqüência (Tabela 5).
Tabela 5. Distribuição relativa do desempenho dos idosos nas Atividades
Expandidas de Vida Diária (n=64). CAMPINAS, 2006.
Domínios
das
AEVDs
Atividades
Sempre
(%)
De vez em quando
(%)
Nunca (%)
Passeios
14,06
48,44
37,50
Atividade social
Reuniões, festas
ou bailes
7,81 28,13
64,06
Visita a amigos
e/ou parentes
12,50
53,13
34,38
Atividade religiosa
Igreja, cultos ou
rezas
39,06
43,75
17,19
Atividade física
Prática de
alguma atividade
física
9,38 18,75
71,88
6.2 Análise de consistência interna dos instrumentos
A confiabilidade dos indicadores da condição visual (domínios emocional e
físico), da MIF (escore total e os domínios auto-cuidado, mobilidade), das AIVDs
(escore total) e das AEVDs (o escore total e o domínio Atividade social) foi
avaliada pela consistência interna, pelo cálculo do coeficiente Alfa de Cronbach
(α). Valores de alfa igual ou acima de 0,70 indicam alta consistência (STREINER,
NORMAN, 1995; LOBIONDO-WOOD, HABES, 2001). É possível observar na
Tabela 6 valores elevados de consistência interna nos domínios emocional (α
0,758) e físico (α 0,823) dos indicadores da condição visual, na MIF relacionada o
auto-cuidado (α 0,819), mobilidade (α 0,898) e no escore total (α 0,882); e o
escore total das AIVDs (α 0,840). Por outro lado, nas AEVDs o coeficiente (α
0,411) mostrou baixa consistência mesmo após a retirada dos itens de menor
56
consistência (prática de atividade física e participação em reuniões, festas ou
bailes).
Tabela 6. Análise da consistência interna dos instrumentos de avaliação (n=64).
CAMPINAS, 2006.
Escalas / Domínios
N
o
de
Itens
Coeficientes
*
Itens com menor
consistência
Correlação
com o total**
Coeficiente*
(após retirada
dos itens)
Indicadores da
condição visual
/
Emocional
3
0.758 ---
---
---
Indicadores da
condição visual
/
Físico
3
0.823 ---
---
---
MIF /Auto-Cuidado
6
0.819 ---
---
---
MIF /Mobilidade
5
0.898 ---
---
---
MIF / Escore total
18
0.882 ---
---
---
AIVDs / Escore total
9
0.840 ---
---
---
Atividade Física 0.025 0.490
AEVDs / Escore total
5 0.411 Reuniões, festas ou
bailes
0.143
0.544
AEVDs / Atividade
Social
3 0.442
Reuniões, festas ou
bailes
0.126
0.587
* Coeficiente alfa de Cronbach para escalas.
** Correlação do item com o total do respectivo domínio, sem considerar o item no escore total.
6.3
Análise comparativa entre as variáveis em estudo
6.3.1 Descrição da amostra conforme os grupos de acuidade visual
A descrição das variáveis sociodemográficas nos dois grupos de AV é
apresentada na Tabela 7. O grupo I foi composto principalmente por idosos do
sexo feminino (60,98%), com idade entre 70 e 79 anos (53,66%), de cor branca
(87,80%), que freqüentaram o ensino fundamental (73,17%), vivem com
companheiro (53,66%) e possuem renda mensal entre zero e um salário mínimo
(68,29%). Em contrapartida, no grupo II predominou os idosos do sexo masculino
57
(52,17%), com 80 e mais anos (43,48%), de cor branca (73,91%), analfabetos
(47,83%), que vivem sem companheiro (56,52%), e com renda mensal entre zero
e um salário mínimo (69,57%). Somente a escolaridade mostrou diferença
estatisticamente significante (p=0,025) entre os grupos.
Tabela 7. Descrição sociodemográfica dos idosos conforme os grupos de
acuidade visual (n=64). CAMPINAS, 2006.
Variável
Grupo I *
(%)
Grupo II **
(%)
p-valor ***
Sexo
M
39,02
52,17
0,309
F 60,98
47,83
Idade
65-69 anos
24,39 17,39
70-79 anos 53,66
39,13 0,195
80 e + anos
21,95
43,48
Cor
Branca
87,80 73,91
0,182
Não branca
12,20 26,09
Escolaridade
Analfabetos
17,07
47,83
Fundamental 73,17
43,48
0,025
Ensino médio
9,76 8,70
Estado conjugal
c/ companheiro (a)
53,66
43,48 0,435
s/ companheiro (a)
46,34
56,52
Renda mensal em SM****
Entre zero salário e um SM
68,29 69,57
Aproximadamente dois SM
19,51 26,09
0,598
Entre três e quatro SM
12,20 4,35
* Grupo I : visão normal ou próxima do normal.
** Grupo II: baixa visão.
*** p-valor referente ao teste de Qui-quadrado.
**** SM: salário mínimo, valor vigente R$ 350,00.
58
6.3.2 Análise comparativa entre acuidade visual e os indicadores da
condição visual.
A avaliação dos idosos com respeito à percepção da própria visão mostrou
relação com os grupos de acuidade visual. No grupo I cuja visão era normal ou
próxima do normal, a maior parcela de idosos considerou a visão como regular
(53,66%), seguida de boa (34,15%) e ruim (12,20%). No grupo II, composto por
aqueles com baixa visão, a maioria dos idosos avaliou a visão como ruim
(56,52%), seguida de regular (39,13%) e boa (4,35%) (Tabela 8).
Tabela 8. Freqüência relativa da auto percepção da visão pelos idosos conforme
os grupos de acuidade visual (n=64). CAMPINAS, 2006.
GRUPO I * GRUPO II **
Variável Questão
Visão boa
(%)
Visão
regular
(%)
Visão
ruim
(%)
Visão
boa
(%)
Visão
Regular
(%)
Visão
ruim
(%)
***
p - valor
Auto
percepção
da visão
Como está a
visão
34,15 53,66
12,20 4,35 39,13
56,52
< 0,001
* Grupo I : visão normal ou próxima do normal.
** Grupo II : baixa visão.
*** p-valor referente ao teste de Qui-quadrado.
No que diz respeito aos domínios emocional e físico dos indicadores da
condição visual, a avaliação dos idosos também apresentou relação com os
grupos de AV. No grupo I a maioria dos idosos (68,29%) relatou nunca sentir-se
frustrado, inseguro (65,85%), dependente (80,49%), bem como permaneceu
longos períodos em casa (85,37%) em decorrência da visão; além disso, mais da
metade (53,66%) dos idosos relatou nunca sentir-se limitado pela visão. Por outro
lado, no grupo II a maior proporção de idosos revelou, o tempo todo ou algumas
vezes, sentir-se frustrado (78,26%), inseguro (78,16%), limitado para o trabalho e
outras atividades (78,26%). Além disso, uma parcela relativa de idosos (47,83%)
relatou permanecer o tempo todo em casa por causa da visão e 43,48% afirmou
necessitar de ajuda de outras pessoas (Tabela 9).
59
Tabela 9. Freqüência relativa dos indicadores da condição visual dos idosos
conforme os domínios e grupos de acuidade visual (n=64). CAMPINAS, 2006.
* Grupo I : visão normal ou próxima do normal.
** Grupo II : baixa visão.
***por causa da sua visão.
**** p-valor referente ao teste de Qui-quadrado.
Na análise comparativa das variáveis numéricas entre os grupos de AV e os
indicadores da condição visual (auto percepção da visão, domínios emocional e
físico) observamos, conforme mostra a Tabela 10, que no grupo II a média e
GRUPO I * GRUPO II **
Domínio Questões
Tempo
todo
(%)
Algumas
vezes
(%)
Nunca
(%)
Tempo
todo
(%)
Algumas
vezes
(%)
Nunca
(%)
****
p –valor
Com que freqüência
se preocupa com a
visão
26,83 53,66 19,51 43,48 52,17 4,35 0,160
Com que freqüência
se sente
frustrado***
12,20 19,51
68,29 30,43 47,83
21,74
0,002
Emocional
Com que freqüência
se sente inseguro
nas coisas que
faz***
19,51 14,63
65,85 34,78 43,48
21,74
0,003
Com que freqüência
se sente limitado
para o trabalho e
outras atividades***
17,07 29,27
53,66 43,48 34,78
21,74
0,023
Com que freqüência
permanece longos
períodos em casa***
7,32 7,32
85,37 47,83
8,70 43,48
< 0,001
Físico
Com que freqüência
necessita de ajuda
dos outros***
2,44 17,07
80,49 17,39 43,48
39,13
0,002
60
mediana foram inferiores ao grupo I. Em outras palavras, a avaliação da própria
visão pelos idosos com baixa acuidade visual mostrou-se pior, comparada com
àqueles com visão normal ou próxima do normal. Além disso, os indicadores da
condição visual nos domínios emocional e físico apresentaram-se mais reduzidos
nos idosos com baixa visão.
Tabela 10. Comparação das variáveis numéricas entre os grupos de acuidade
visual e os indicadores da condição visual (n=64). CAMPINAS, 2006.
Grupo I * Grupo II **
Indicadores
da condição
visual
Média
Desvio
padrão
Mediana
Variação
observada
Média
Desvio
padrão
Mediana
Variação
observada
Variação
possível
***
p-valor
Auto
percepção
da visão
2,22 0,65 2 1 a 3
1,48
0,59 1 1 a 3 1 a 3
< 0,001
Domínio
Emocional
6,95 1,70 8 3 a 9
5,39
1,78 6 3 a 9 3 a 9
0,001
Domínio
Físico
7,93 1,52 9 4 a 9
5,96
5,96 6 3 a 9 3 a 9
< 0,001
* Grupo I : visão normal ou próxima do normal.
** Grupo II : baixa visão.
*** p-valor referente ao teste de Mann-Whitney .
A Figura 4 mostra a diferença entre os grupos AV em relação ao domínio
emocional. Os grupos são diferentes quando observamos as caixas em relação às
suas características: a caixa do grupo II mostra maior dispersão, ambos os grupos
mostram observação discrepante. No grupo I verificamos observações menores, e
no grupo II observações maiores que as demais dentro do grupo. Ainda nessa
figura, as medianas e as caudas o se sobrepõem. Assim, os grupos podem ser
considerados diferentes, como indicado na análise estatística que apontou
diferença estatisticamente significante entre eles (p = 0,001).
61
Figura 4. Relação entre acuidade visual e domínio emocional dos indicadores da
condição visual. CAMPINAS, 2006.
* Grupo I: visão normal ou próxima do normal.
** Grupo II: baixa visão.
Na Figura 5, verificamos que nem as caixas ou caudas se sobrepõem;
também houve uma maior dispersão no grupo II; no domínio físico as observações
discrepantes aparecem apenas no grupo I, com respeito ao valor mínimo. O teste
de Mann-Whitney revelou diferença significante entre os dois grupos (p< 0,001)
.
Figura 5. Relação entre acuidade visual e domínio físico dos indicadores da
condição visual. CAMPINAS, 2006.
* Grupo I : visão normal ou próxima do normal.
** Grupo II : baixa visão
62
A interpretação das caixas do tipo caixa (box plots) deve ser feita
segundo os seguintes critérios aplicados ao modelo que aparece a seguir:
Figura 6. Esquema para a interpretação de gráficos de caixas tipo “box plots”.
CAMPINAS, 2006.
A mediana (traço do interior da caixa) e a média (quadradinho) são medidas
de tendência central, ou seja, resumem em apenas um valor o centro do
conjunto de dados, mostrando como os dados se distribuem ao redor desse
valor, para um determinado tratamento.
Os Quartis 1 e 3 (extremos da caixa) mostram a dispersão dos valores ao
redor da mediana (ou do centro do conjunto de dados). Quanto maior a
caixa, maior a dispersão. As caudas, além da caixa, também indicam a
variabilidade dos valores para aquele determinado tratamento. Quanto
maiores as caudas, maior a dispersão no conjunto de dados.
Os asteriscos inferior e superior indicam, respectivamente, os valores
mínimo e máximo para aquele tratamento. Se os asteriscos caírem em cima
da cauda, não serão considerados como observações discrepantes.
Entretanto, se a posição dos asteriscos for distante, indicam que as
observações são bem menores ou maiores que as demais dentro do seu
grupo.
63
Para comparar os valores de um grupo com os demais, verifica-se
inicialmente o local onde está a mediana e, em seguida, analisa-se a
sobreposição das caixas e das caudas entre os grupos. Geralmente, mas
não necessariamente, se dois grupos forem diferentes, as suas caixas ou
caudas não estarão sobrepostas, ou seja, não estarão na mesma posição.
6.3.3 Comparação entre os grupos de acuidade visual e capacidade
funcional
A Tabela 11 mostra os valores obtidos pelos grupos I e II da AV nos
domínios auto cuidado e mobilidade (transferência e locomoção) e no escore total
da MIF. Nenhuma correlação foi observada entre as variáveis; apenas uma
tendência não significativa (p = 0,092) apareceu entre os escores total da MIF e os
respectivos grupos.
Tabela 11. Comparação das variáveis numéricas entre os grupos de acuidade
visual e a Medida de Independência Funcional dos idosos (n=64). CAMPINAS,
2006.
Grupo I * Grupo II **
Domínios
da
MIF
Média
Desvio
padrão
Variação
observada
Média
Desvio
padrão
Variação
observada
Variação
possível
***
p – valor
Auto cuidado
40,20 4,46 14 a 42 39,39 4,08 26 a 42 6 a 42 0,577
Mobilidade
32,05 2,66 25 a 35 31,13 4,16 17 a 35 5 a 35 0,540
Transferência
19,95 1,32 18 a 21 19,78 2,15 12 a 21 3 a 21 0,698
Locomoção
12,10 1,69 7 a 14 11,35 2,33 5 a 14 2 a 14 0,200
Escore total
116,93 8,70 78 a 126 112,00 11,39 83 a 125 18 a 126 0,092
* Grupo I: visão normal ou próxima do normal.
**Grupo II: baixa visão.
***p-valor referente ao teste de Mann-Whitney .
64
Com respeito às AIVDs, verificamos correlação estatisticamente
significativa (p = 0,003) entre os grupos I e II e o escore total do instrumento, bem
como nas seguintes tarefas: uso do telefone (p = 0,013), preparo de refeições (p =
0,007), trabalhos manuais (p = 0,002), lavar e passar roupa (p = 0,004) e tomar
corretamente os remédios p = 0,021). Em todas as tarefas, as médias e medianas
do grupo II foram inferiores às do grupo I, o que representa maior limitação dos
idosos com baixa visão para o desempenho das AIVDs (Tabela 12).
Tabela 12. Comparação entre as variáveis numéricas dos grupos de acuidade
visual e as Atividades Instrumentais de Vida Diária (n=64). CAMPINAS, 2006.
Grupo I * Grupo II **
Tarefas
das
AIVDS
Média
Desvio
padrão
mediana
Variação
observada
Média
Desvio
padrão
mediana
Variação
observada
Variação
possível
***
p-valor
Uso do
telefone
2,76 0,54 3 1 a 3
2,30
0,82 3 1 a 3 1 a 3
0,013
Deslocamento
para locais
distantes sem
planejamento
especial
2,37 0,70 2 1 a 3 2,09 0,67 2 1 a 3 1 a 3
0,105
Fazer compras
2,39 0,74 3 1 a 3 2,17 0,83 2 1 a 3 1 a 3
0,317
Preparar
refeições
2,80 0,51 3 1 a 3
2,26
0,92 3 1 a 3 1 a 3
0,007
Arrumar a
casa
2,46 0,78 3 1 a 3 2,13 0,87 2 1 a 3 1 a 3
0,116
Trabalhos
manuais
2,59 0,74 3 1 a 3
1,91
0,90 2 1 a 3 1 a 3
0,002
Lavar e passar
roupa
2,39 0,89 3 1 a 3
1,70
0,88 1 1 a 3 1 a 3
0,004
Tomar
remédios
corretamente
2,61 0,67 3 1 a 3
2,22
0,74
2
1 a 3 1 a 3
0,021
Cuidar das
finanças
2,59 0,71 3 1 a 3 2,35 0,83 3 1 a 3 1 a 3
0,234
Escore total
22,90 4,12 24 13 a 27
19,13
4,72 18 11 a 27 9 a 27
0,003
* Grupo I: visão normal ou próxima do normal.
**Grupo II: baixa visão.
*** p-valor referente ao teste de Mann-Whitney.
65
Na Figura 7 observamos diferença entre os grupos de AV em relação às
AIVDs. Os grupos são diferentes quando observamos as caixas em relação às
suas características: maior dispersão na caixa do grupo II, observação discrepante
em ambos os grupos (o grupo I mostra observações menores e o grupo II
verificamos observações menores e maiores que as demais dentro do grupo). As
medianas e as caudas não se sobrepõem o que revela diferença entre os dois
grupos. O teste de Mann-Whitney revelou diferença significante entre os dois
grupos (p = 0,003).
Figura 7. Relação entre acuidade visual e Atividades Instrumentais de Vida Diária.
CAMPINAS, 2006.
* Grupo I: visão normal ou próxima do normal.
** Grupo II: baixa visão.
Em relação às AEVDs, notamos na Tabela 13 que não houve nenhuma
correlação estatisticamente significativa entre os grupos de AV e as AEVDs.
66
Tabela 13. Comparação entre as variáveis numéricas dos grupos de AV e as
Atividades Expandidas de Vida Diária (n=64). CAMPINAS, 2006.
Grupo I * Grupo II **
Domínios
das
AEVDs
Média
Desvio
padrão
Variação
observada
Média
Desvio
padrão
Variação
observada
Variação
possível
***
p – valor
Atividade
social
5,02 1,35 3 a 8 4,91 1,41 3 a 7 3 a 9 0,807
Atividade
religiosa
2,27 0,71 1 a 3 2,13 0,76 1 a 3 1 a 3 0,488
Atividade
física
1,44 0,67 1 a 3 1,26 0,62 1 a 3 1 a 3 0,203
Escore
total
8,73 1,75 5,12 8,30 2,01 5 a 12 5 a 15 0,427
* Grupo I: visão normal ou próxima do normal.
**Grupo II: baixa visão.
*** p-valor referente ao teste de Mann-Whitney.
6.3.4 Análise comparativa entre os indicadores da condição visual e
capacidade funcional
A Tabela 14 mostra que não houve nenhuma correlação significativa entre
os indicadores da condição visual auto-relatada pelos idosos (auto-percepção da
visão e os domínios emocional e físico) com a capacidade funcional. O coeficiente
de correlação de Spearman ( r ) foi empregado a fim de verificar a correlação entre
esses domínios e os escores dos instrumentos de capacidade funcional.
Considerou-se “correlação fraca’ r = 0,2; “moderada correlação” r entre 0,3 e 0,5; e
“forte correlação” r >0,5 (AJZEN, FISHBEIN, 1980).
67
Tabela 14. Correlação entre os escores dos indicadores da condição visual e os
instrumentos de capacidade funcional (n=64). CAMPINAS, 2006.
Domínio Emocional Domínio Físico Domínio auto
percepção da visão
Instrumentos de capacidade
funcional / domínios
r * p ** r * p ** r * p **
MIF / auto cuidado
0,14181 0,2637 0,14181 0,2637 0,13535 0,862
MIF / transferência
0,00364 0,9772 0,00364 0,9772 0,01193 0,255
MIF / locomoção
0,11026 0,3858 0,11026 0,3858 0,15140 0,2324
MIF / mobilidade
0,10232 0,4211 0,10232 0,4211 0,2119 0,3401
MIF / escore total
0,19258 0,1274 0,19258 0,1274 0,22660 0,0718
AIVDs / escore total
0,19406 0,1244 0,19406 0,1244 0,19028 0,1320
AEVDs / escore total
- 0,00756 0,9527 - 0,00756 0,9527 0,17357 0,1702
AEVDs / social
- 0,06057 0,6345 - 0,06057 0,6345 0,18373 0,1461
AEVDs / religiosa
0,05863 0,6454 0,05863 0,6454 0,07726 0,5440
AEVDs / física
0,07581 0,5516 0,07581 0,5516 0,06040 0,6354
* r=coeficiente de correlação de Spearman.
** p=p-valor.
6.4 Análise multivariada entre a função visual e a capacidade funcional
Na análise multivariada entre a função visual e a capacidade funcional, com
ajuste das covariáveis sexo e idade, verificamos que a única relação significativa
(p = 0,032) ocorreu entre os grupos de AV e as AIVDs confirmando os resultados
apresentados anteriormente. Observamos também que houve um efeito mais forte
da análise da AV isoladamente, ou seja, com os domínios da MIF, escore total das
AIVDs e os domínios das AEVDs (p = 0,032), do que da análise desta variável
(AV) em conjunto, ou seja, com o escore total destes instrumentos (p = 0,160). As
tabelas 15 e 16 demonstram os valores obtidos da análise.
68
Tabela 15. Efeito das variáveis da função visual sobre as variáveis de capacidade
funcional de forma conjunta nos idosos entrevistados (n=64). CAMPINAS, 2006.
Variáveis
MIF
Escore
total*
AIVDs
Escore total*
AEVDs
Escore total*
P-valor
*
Acuidade Visual 0.263
0.019
0.707 0.160
Indicadores da condição visual /
Auto percepção da visão
0.272 0.958 0.251 0.298
Indicadores da condição visual /
Domínio Emocional*
0.282 0.464 0.534 0.105
Indicadores da condição visual /
Domínio Físico*
0.166 0.658 0.889 0.105
* p-valor referente às Análises de Covariância para cada um dos escores de capacidade funcional.
Variáveis sem distribuição Normal foram transformadas em logaritmo (log
10
) para as análises.
Análises ajustadas para covariáveis Sexo e Idade.
Tabela 16. Efeito das variáveis da função visual sobre as variáveis de capacidade
funcional separadamente segundo os domínios da Medida de Independência
Funcional, o escore total das Atividades Instrumentais de Vida Diária e os
domínios das Atividades Expandidas de Vida Diária (n=64). CAMPINAS, 2006.
Variáveis
MIF
Auto
cuidado
MIF
Transf.
MIF
Locom.
AIVDs
Total*
AEVDs
Social*
AEVDs
Relig
AEVDs
Física
p-valor
*
Acuidade Visual 0.734 0.484 0.294
0.019
0.141 0.418
0.266
0.032
Indicadores da condição
visual / Auto percepção
da visão
0.726 0.433 0.484
0.958
0.113 0.466
0.480
0.683
Indicadores da condição
visual / Domínio Emocional*
0.736 0.766 0.645
0.464
0.488 0.443
0.426
0.595
Indicadores da condição
visual / Domínio Físico*
0.712 0.097 0.767
0.658
0.755 0.191
0.428
0.114
* p-valor referente às Análises de Covariância para cada um dos escores de capacidade funcional.
Variáveis sem distribuição Normal foram transformadas em logaritmo (log
10
) para as análises.
Análises ajustadas para covariáveis Sexo e Idade.
69
Em síntese, a análise revela influência da função visual na capacidade
funcional: os idosos com baixa visão apresentam maior dependência para o
desempenho das AIVDs, em detrimento da MIF e das AEVDs, comparados aos
idosos com visão normal ou próxima do normal.
70
VII. DISCUSSÃO
____________________________________________
71
Neste capítulo, considerando-se o volume e a riqueza dos dados obtidos, a
discussão será feita em tópicos, seguindo a apresentação no capítulo anterior.
Espera-se assim, facilitar a leitura e a compreensão dos dados analisados frente a
riqueza de trabalhos disponíveis na literatura.
7.1 Sobre a análise descritiva da função visual e capacidade funcional
Com respeito aos dados apresentados, observamos que uma proporção
significativa dos idosos referiu visão regular. Grande parcela da amostra relatou
preocupar-se algumas vezes com a visão, além de nunca sentirem-se frustrados,
inseguros, limitados, dependentes e isolados em decorrência da visão.
Em relação à capacidade funcional, os idosos mostraram-se independentes
tanto na MIF quanto nas AIVDs. Por outro lado, a pouca freqüência ou até mesmo
a ausência de AEVDs indica um perfil de idosos sedentários, com regular
participação na vida social e religiosa.
Pela classificação da capacidade funcional adotada por Spirduso (1995),
esses idosos seriam considerados como “fisicamente independentes”, uma vez
que são capazes de realizar todas as ABVDs e AIVDs, embora sejam sedentários.
Nas atividades relacionadas às AEVDs, parece que as atividades física e
social as quais envolvem a participação em reuniões, bailes e festas não integram
o dia-a-dia dos idosos entrevistados. Em contrapartida, aproximadamente metade
dos idosos informou passear, visitar amigos e/ou parentes, freqüentar igrejas,
participarem de cultos ou rezas “de vez em quando”.
Em relação à MIF, os idosos relataram independência completa na maioria
das tarefas, exceto na mobilidade na tarefa usar escada com predomínio de
independência modificada, e na memória que mostrou a mesma concentração
com independência completa e modificada. Resultados obtidos por Ramos et al.
(1993) apontam que mais da metade da população idosa estudada (53%) referia
necessidade de ajuda parcial ou total para realizar pelo menos uma das atividades
da vida diária, enquanto 29% necessitava de ajuda parcial ou total para o
desempenho de até três dessas atividades e 17% de ajuda para realizar quatro ou
mais ABVDs. Freedman, Martin e Schoeni (2002) afirmam que uma das atividades
72
relevante no declínio da incapacidade nos idosos é a tarefa subir escadas. Esta
limitação pode levar a outro declínio na capacidade funcional, relacionada às
AIVDs, que corresponde ao uso de transporte coletivo dado que o usuário
necessita subir os degraus para utilizar esse transporte a fim de locomover-se pela
cidade e/ou ir a locais distantes. Dessa forma, frente à dificuldade para subir
escadas, o prejuízo na tarefa “ir a locais distantes sem necessidade de
planejamento especial” acaba sendo inevitável. Duarte, Lebrão e Lima (2005)
observam que o uso de transportes coletivos mostrou ser uma das atividades mais
comprometida na amostra estudada, com respeito às AIVDs.
7.2 Sobre a análise de consistência interna dos instrumentos
Três dos quatro instrumentos de auto-relato utilizados neste trabalho
apresentaram alta consistência interna, o que representa a confiabilidade dos
mesmos.
Com respeito aos domínios emocional e físico, criados a partir das questões
extraídas do instrumento NEI VFQ 25, ambos obtiveram alta consistência
interna. Chama a atenção que o agrupamento de apenas seis das 25 questões do
NEI VFQ -25, nos respectivos domínios, não interferiu na homogeneidade dos
itens avaliados.
O mesmo não foi observado nas AEVDs, cujos valores da consistência
interna estiveram abaixo do recomendável na literatura. Possivelmente isto se
deve à falta de validação do instrumento, e remete à necessidade do
desenvolvimento de escalas de avaliação destas atividades na população idosa,
tendo em vista a ausência de literatura sobre esta temática.
Em relação à MIF (escore total e domínios), os coeficientes Alpha de
Crombach foram elevados e coerentes com a literatura (DODDS et al., 1993; KIDD
et al., 1995; STANLEY et al., 2003; KAWASAKI, DIOGO, 2005).
O instrumento que avalia as AIVDs utilizado nesse trabalho também
mostrou alta consistência interna, embora não tenha sido encontrado registro de
validação do mesmo na literatura.
73
7.3 Sobre a análise comparativa entre as variáveis em estudo
7.3.1 Análise comparativa entre os grupos de acuidade visual
Como visto no capítulo anterior, a maioria dos idosos representou o grupo
com visão “normal” ou “próxima do normal” (grupo I). Neste grupo houve
predomínio das mulheres, idade inferior e escolaridade superior ao do grupo II
(baixa visão).
Essa relação entre gênero e baixa visão não é confirmada na literatura, que
indica o sexo feminino como um dos preditores de incapacidade visual (BROMAN
et al., 2002; TSAI et al., 2005).
O baixo status econômico apontado na literatura como outro fator relevante
para a deficiência visual (NICOLOSI et al., 1994; SINGH et al., 1997; ROMANI,
2005) também não foi observado nos nossos achados, uma vez que ambos os
grupos (I e II) apresentaram maior proporção de idosos com renda mensal inferior
a um salário mínimo. Este baixo rendimento entre os sujeitos pode estar
relacionado às características da população estudada a qual, pelas precárias
condições socioeconômicas em que se encontram, utilizam os serviços públicos
de saúde como único recurso. Assim, estudos populacionais que avaliem na
população brasileira a relação entre nível socioeconômico e baixa visão poderão
ser úteis para melhor compreensão e futuras intervenções em nosso país.
A escolaridade mostrou diferença significativa entre os grupos de AV,
concentrando os idosos com menor escolaridade entre aqueles com baixa visão.
Segundo Martín e Ramírez (2003), inteligência, educação e as atitudes
emocionais desempenham um papel decisivo na conquista de eficiência visual.
Estudo populacional na China revela que existe relação entre baixo nível de
acuidade visual e de escolaridade (XU et al., 2005).
Dinuzzo et al., (2001) e Salive
et al., (1992) também observaram esta relação entre deficiência visual e idosos
com baixo nível educacional. Para West et al., (1997), o nível educacional e a
deficiência visual são preditores consistentes no desempenho da maioria dos
testes da capacidade funcional realizados em casa, incluindo as ABVDs e AIVDs.
74
7.3.2 Análise comparativa entre acuidade visual e indicadores de condição
visual
Entre os idosos com visão “normal” ou “próxima do normal” (grupo I) e
aqueles com baixa visão (grupo II) obtivemos diferenças significativas em relação
aos indicadores de condição visual (auto percepção da visão, preocupação,
frustração, insegurança, limitação, isolamento e dependência).
Scott et al. (1994) e Knudtson et al. (2005) observaram que a função visual
diminuída, independente da causa, está associada com qualidade de vida e
atividades funcionais diminuídas. BROMAN et al. (2002), por sua vez,
estabeleceram relação direta entre pior AV e pior qualidade de vida referida pelos
idosos. Em contra partida Bazargan, Baker e Bazargan (2001) revelam que a
visão reduzida está independentemente associada com o baixo nível de bem-estar
entre idosos.
Em estudo com idosos vivendo na comunidade, Fitzmaurice, Osborne e
Kendig (1999) encontraram dentre os que reportaram auto percepção da visão
positiva que a maioria apresentava AV 20/60.
Em nosso estudo, a maioria dos idosos (87,81%) com AV 20/60 (grupo I)
avaliou a visão entre regular e boa, corroborando os achados da literatura. Por
outro lado, nos idosos com baixa visão (grupo II) grande parcela considerou a
visão como ruim, o que poderia estar associada a uma insatisfação com a visão. A
esse respeito, Cinoto et al. (2006) consideram que a auto avaliação da visão pode
nos dar informações mais valiosas sobre a qualidade de vida do paciente, do que
a medida da AV.
É sabido que o envelhecimento é um processo de vida dinâmico no qual
novos papéis e metas são identificados, antecipados e expandidos. Mas
envelhecer com deficiência visual pode proporcionar condições de isolamento,
perturbação, resignação, regressão e perda de saúde, status e dignidade (SAM
NEGRIN, 1983). Para Schainholz (1999), sofrimento e frustração associados com
incapacidade são duas experiências inevitáveis e comuns no envelhecimento em
pessoas com baixa visão.
75
No presente trabalho os achados aproximam-se da literatura, na medida em
que os idosos com baixa visão revelaram sentir-se mais frustrados do que os com
visão normal ou próxima do normal (KUPFER, 1999; SCHAINHOLZ, 1999;
FLETCHER, COLENBRANDER, 2000).
Outro aspecto relevante nos indicadores de condição visual diz respeito à
insegurança dos idosos para realizar atividades. Aqueles com baixa visão
verbalizaram mais insegurança para realizar atividades, comparados aos de visão
normal ou próxima do normal. Segundo Kupfer (1999), a percepção do ambiente
pode estar prejudicada pela AV diminuída, o que tende a levar os idosos a
manifestar insegurança para determinadas atividades.
Além da insegurança, o grupo II (baixa visão) também relatou permanecer
por mais tempo em casa comparado ao grupo I. Isto pode nos indicar uma relação
entre impacto da queda da AV na função visual: os idosos com baixa visão
parecem manter-se mais isolados do que aqueles com visão normal ou próxima
do normal. Alguns autores como Branch, Horowitz e Carr (1989); Carabellese et
al. (1993); Luey (1994) afirmam que o isolamento está associado à deficiência
visual. Este isolamento tende a incluir até mesmo familiares e amigos (CREWS,
2005).
A prevalência da deficiência visual na população geriátrica é alta, entretanto
muitos pacientes não se preocupam com a deficiência adquirida (DONATI,
CHRISTIAEN, 2006). A esse respeito, em nossa pesquisa, a questão relacionada
à preocupação com a visão, foi a única que não apresentou relação significativa
entre os grupos de AV (I e II). È possível que esta avaliação esteja relacionada à
crença de que a perda da visão seja inevitável no envelhecimento (LAU et al.,
2004).
7.3.3 Sobre análise comparativa entre acuidade visual e capacidade
funcional
Segundo Kupfer (1999), a queda na visão afeta a interação social e pode
levar à perda da independência. Para os idosos com baixa visão segundo
Leinhaas e Hedstrom (1994), a frustração e o estresse decorrentes da queda
76
visual dificultam a realização das atividades do cotidiano. Os pacientes podem
sentir perda da independência ou do controle, além de baixa auto-estima. Em
nosso estudo os idosos com baixa visão relataram maior dependência em relação
àqueles com visão normal ou próxima do normal, o que confere com a literatura.
Uma questão importante que preocupa tanto os idosos como os
profissionais de saúde em relação à capacidade funcional, diz respeito à
independência para realizar as atividades do cotidiano, considerada um dos
requisitos básicos para uma pessoa viver com qualidade de vida e integrada à
comunidade.
A acuidade visual diminuída afetou significativamente as AIVDs na nossa
amostra, que mostrou menor escore ou maior dependência para os idosos com
baixa visão. West et al. em 1997 observaram que a deficiência visual foi altamente
associada com dificuldades relatadas para realizar as tarefas tanto de ABVDS
quanto de AIVDs. Bergman, Bergstron e Sjostrand (1999) na avaliação da AV e da
capacidade funcional em idosos entre 70 e 88 anos, num estudo longitudinal
concluem que a queda da AV não significa necessariamente mudanças negativas
na capacidade funcional. De fato, em nosso estudo, nem todas as atividades
relacionadas à capacidade funcional foram afetadas pela AV diminuída.
Essa dependência dos idosos com baixa visão para as AIVDs pode ser
explicada pela relação hierárquica de perda das habilidades funcionais descrita
por Lebrão e Laurenti (2005). Segundo estes autores, existe uma conhecida
relação hierárquica de perda de habilidades funcionais, manifestada de forma
fisiológica no envelhecimento, na qual observa-se inicialmente a perda das
habilidades para as AIVDs e posteriormente para as ABVDs. Isto ocorre devido à
diferença de complexidade entre tais atividades: as AIVDs são, na maioria das
vezes, mais complexas do que as ABVDs (TERESI, CRASS, GOLDEN, 1984). As
AIVDs englobam as atividades funcionais necessárias para um indivíduo viver de
forma independente na comunidade, na qual a presença de dificuldades implica
mais em uma redistribuição de tarefas entre os membros familiares (como alguém
para ir fazer compras ou auxiliar nas tarefas domésticas) e menos em cuidado
direto (LEBRÃO, LAURENTI, 2005). Conforme é apontado por Costa et al. (2001),
77
as AIVDs compreendem a habilidade dos idosos para administrar o ambiente onde
vive.
Para Freedman, Martin e Schoeni (2002), o declínio na incapacidade em
idosos está concentrado principalmente nas limitações nas AIVDs, tais como nas
tarefas domésticas, para realizar compras, sair de casa e administração de
medicamentos. Estas atividades também foram as mais comprometidas no grupo
com baixa visão, o que é coerente com Branch, Horowitz e Carr (1989), que
associaram o declínio visual à necessidade para fazer compras em mercado,
preparo de refeições, andar fora de casa e cuidar das finanças.
7.3.4 Sobre a análise comparativa entre indicadores de condição visual e
capacidade funcional
Nessa análise não encontramos nenhuma correlação entre indicadores de
condição visual (auto-percepção da visão, domínios emocional e físico) e nenhum
instrumento de capacidade funcional (MIF, AIVDs e AEVDs). Nem mesmo as
AIVDs (a única atividade da capacidade funcional influenciada pela AV diminuída)
teve correlação com os indicadores da condição visual.
Pavarini e Neri (2000) consideram que a dependência o é uma condição
que atinge de modo uniforme todos os domínios do funcionamento dos idosos.
Assim, a incapacidade para o desempenho de atividades relacionadas à
capacidade funcional, ou mesmo incapacidades resultantes de um
comprometimento mais grave da locomoção, não significam necessariamente
incapacidade em todos os outros domínios, como o cognitivo e o emocional.
7.4 Sobre a análise multivariada entre função visual e capacidade funcional
Na análise entre a função visual e a capacidade funcional, a AV
(relacionada à função visual) e as AIVDs (relacionada à capacidade funcional)
foram as únicas variáveis que mostraram relação significativa.
É preciso destacar que no presente estudo os idosos foram avaliados em
apenas dois grupos de acuidade visual: visão normal ou próxima do normal (grupo
I - AV 20/60) e baixa visão (grupo II - AV < 20/60). Esse agrupamento
78
impossibilitou a análise da AV entre os idosos de um mesmo grupo. Isto mostra-se
importante especialmente no grupo II, no qual a baixa visão pode variar segundo
Veitzman (2000) entre leve (AV entre 20/60 e 20/80), moderada (AV entre 20/80 e
20/160), severa (AV entre 20/200 e 20/400) e profunda (AV entre 20/500 e
20/1000). Dessa forma, poderíamos encontrar diferenças no desempenho motor
dos idosos nas ABVDs e AIVDs dentre os idosos do grupo de baixa visão (grupo
II). Salive et al. (1994) mostra a associação entre perda visual e dificuldade nas
tarefas das ABVD e o declínio dessas tarefas com componente visual. Os autores
observam que os idosos com AV < 20/40 foram 50 a 60% menos prováveis de
recuperar mobilidade do que aqueles com AV 20/40.
A literatura revela que a AV reduzida é fator de risco significante para a
incapacidade funcional auto-relatada (RUBIN et al., 1994; KINGTON, et al.,1997;
WEST et al., 2002). Conforme DiNuzzo et al. (2001) as pessoas com deficiência
visual severa em sua maioria relatam altas taxas de incapacidades para realizar
as ABVDs e AIVDs do que pessoas com deficiência visual leve ou moderada ou
com visão normal. O nível de incapacidade entre pessoas com uma deficiência
visual severa pode ter implicações clínicas entre idosos, requerendo intervenções
e estratégias adaptativas para diminuir o impacto negativo da perda da
independência.
Sloan et al. (2005) destacam que anos adicionais com avaliação regular da
visão estão relacionados com melhor saúde visual e função visual auto-relatada,
ambos reduzindo o declínio na visão e melhorando a capacidade funcional,
especialmente nas AIVDs. IEZZONI et al. (2003) por sua vez apontam que
pessoas com incapacidades física e sensorial necessitam de alta qualidade de
serviço de saúde.
O estudo da relação entre deficiência visual e capacidade funcional vem
crescendo nos últimos anos. Acreditamos que o estudo longitudinal dessa relação
seja importante para avaliar o impacto da função visual na capacidade funcional
nos idosos em seguimento ambulatorial. Assim, será possível desenvolver e
propor estratégias para a melhor convivência dos idosos com uma função visual
diminuída, seja em programas educacionais ou até mesmo de reabilitação.
79
VIII. CONCLUSÃO
____________________________________________
80
Os idosos com baixa visão apresentaram: menor percepção da visão, maior
frustração, insegurança, limitação e dependência nas AIVDs quando comparado
ao grupo de visão normal ou próxima do normal.
Desta maneira, podemos concluir que houve influência na capacidade
funcional nos idosos pesquisados.
81
IX. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
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93
X. ANEXO
____________________________________________
94
ANEXO1: FUNÇÃO VISUAL
Avaliação da acuidade visual para longe
Indicadores da condição visual auto relatada
Auto percepção da visão
No momento, como diria que está a sua visão (com óculos, se os usa)?
( ) Boa ( ) Regular ( ) Ruim
Domínio emocional
O tempo
todo
Algumas
vezes
Nunca
Com que freqüência o senhor se preocupa com
sua visão?
( )
( ) ( )
Você se sente frustrado por causa da sua visão?
( )
( ) ( )
Por causa da sua visão, você se sente inseguro
nas coisas que faz?
( )
( ) ( )
Domínio físico
Por causa da sua visão, o senhor se acha limitado
para trabalhar ou realizar outras atividades?
( ) ( ) ( )
Você fica muito tempo em casa por causa da sua
visão?
( ) ( ) ( )
Você precisa da ajuda dos outros por causa da sua
visão?
( ) ( ) ( )
OD ( ) 20/60
( ) < 20/60
OE
( ) 20/60
( ) < 20/60
95
ANEXO 2: MEDIDA DE INDEPENDÊNCIA FUNCIONAL (MIF)
7 - Independência completa (em segurança, em tempo normal)
6 - Independência modificada (ajuda técnica)
SEM AJUDA
N
Í
V
E
I
S
Dependência modificada
5 – Supervisão
4 - Dependência mínima (indivíduo >=75%).
3 - Dependência moderada (indivíduo >=50%)
Dependência Completa
2 – Dependência máxima (indivíduo >=25%).
1 – Dependência total (indivíduo >=0%).
AJUDA
Auto cuidado
Alimentação
Higiene pessoal
Banho (lavar o corpo)
Vestir-se da cintura para cima
Vestir-se da cintura para baixo
Uso do vaso sanitário
Controle de Esfíncteres
Controle de urina
Controle de fezes
Mobilidade
Transferências
Leito, cadeira, cadeira de rodas.
Vaso sanitário
Banheira ou chuveiro
Locomoção
Marcha/cadeira de rodas
m
c
-
Escadas
Comunicação
Compreensão
a
v
-
Expressão
n
v
-
Cognição social
Interação social
Resolução de problemas
Memória
Total
Nota: Não deixe nenhum item em branco; se não for possível de ser testado, marque 1.
96
ANEXO 3: ATIVIDADES INSTRUMENTAIS DE VIDA DIÁRIA DE LAWTON
(AIVDs)
PONTUAÇÃO: Sem ajuda ( 3 ) Com ajuda parcial ( 2 ) Não consegue ( 1 )
P
ONTO
O(a) Sr(a).consegue usar o telefone?
O(a) Sr(a). consegue ir a locais distantes ,usando algum
transporte, sem necessidade de planejamentos especiais?
O(a) Sr(a). consegue fazer compras?
O(a) Sr(a). consegue preparar suas próprias refeições?
O(a) Sr(a). consegue arrumar a casa?
O(a) Sr(a). consegue fazer trabalhos manuais domésticos,como
pequenos reparos?
O(a) Sr(a). consegue lavar e passar sua roupa?
O(a) Sr(a). consegue tomar seus remédios na dose certa e no horário
correto?
O(a) Sr(a). consegue cuidar de suas finanças?
Score Total
97
ANEXO 4: APROVAÇÃO DO COMITÊ DE ÉTICA
98
XI. APÊNDICE
____________________________________________
99
ANDICE 1: TERMO DE CONSENTIMENTO LIVRE E ESCLARECIDO
CONSENTIMENTO LIVRE E ESCLARECIDO
(Resolução 196/96 do Conselho Nacional de Saúde)
Eu, ........................................................................................................................................,
concordo em participar da pesquisa intitulada Qualidade de vida em idosos fragilizados:
indicadores de saúde e de bem-estar subjetivo, de responsabilidade da Profª Drª Maria
José D’Elboux Diogo, que tem por principal objetivo traçar perfis de qualidade de vida na
velhice, no que diz respeito à indicadores de fragilidade (saúde, capacidade funcional e
envolvimento na vida) e indicadores de bem-estar subjetivo (satisfação com a vida,
estados emocionais, conceito de boa velhice, medos). Este trabalho trará importantes
contribuições tanto para a assistência, quanto para a qualidade de vida dos idosos
fragilizados (doentes). Tenho ciência que a minha participação neste estudo não trará
qualquer risco ou transtorno para a minha saúde e nem para o meu tratamento no
ambulatório do HC/UNICAMP. Estará garantido o sigilo e anonimanto das informações e
poderei deixar de participar da pesquisa a qualquer tempo, sem prejuízo do atendimento,
cuidado e tratamento pela equipe. O presente estudo não acarretará em gastos adicionais
para a minha pessoa.
Nome completo do paciente:
Idade:
Endereço:
RG. HC.
Assinatura :
Responsável pela pesquisa: Maria José D’Elboux Diogo
Telefone: 3788-8838/8820
Comitê de Ética em Pesquisa do HC/UNICAMP : 3788-8936
Assinatura:
Responsável pela pesquisa: Sheila de Melo Borges
Telefone:
Comitê de Ética em Pesquisa do HC/UNICAMP : 3788-8936
Assinatura:
100
ANDICE 2: VARIÁVEIS SÓCIO-DEMOGRÁFICAS
Gênero: Masculino
( )
Feminino
( )
Idade:______anos Data de nascimento __ / __ / ____
Cor: Branca
( )
Preta
( )
Amarela
( )
Parda
( )
Estado conjugal: Casado
( )
Viúvo
( )
Divorciado/desquitado/separado
( )
Solteiro
( )
Escolaridade: Freqüentou escola? Sim
( )
Até que ano/série e grau? _______
Não
( )
Qual seu rendimento individual mensal (quanto ganha por mês)? R$ ______
101
ANDICE 3: ATIVIDADES EXPANDIDAS DE VIDA DIÁRIA (AEVDs)
Atividades sociais
Sempre De vez em
quando
Nunca
Passeios na cidade/no bairro ( ) ( ) ( )
Reuniões, festas ou bailes ( ) ( ) ( )
Visita amigos ou parentes ( ) ( ) ( )
Atividade religiosa
Vai à igreja / templo para cultos, missas,
rezas.
( ) ( ) ( )
Atividade física
Pratica alguma atividade física ( ) ( ) ( )
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