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indivíduo. Peter Brown considera que a introspecção e a busca da verdade, deixavam
de ser patrimônio de uma classe privilegiada, para ocupar outros nichos sociais(1997:
38,39). A identidade cristã engendra conteúdos simbólicos, mas também sociais, pois
recebe real significância à medida que o pertencimento do novo crente é verificado sob
os parâmetros de suas comunidades, no seu interior e de seus líderes. Pressupunha por
sua vez, a relação do indivíduo além do plano vertical, com a potência divina, o plano
horizontal, com os demais seres humanos. Orígenes traz esta consideração quando
descreve o sentido social que o cristianismo avulta(I, 63, 64, 67; III,9; VIII, 50), pois
sua doutrina estabelece um modelo de conduta para os mais indignos homens, dos mais
infâmes e padrões de maldade(da multidão/plh/qoj), e os ensina a viver
bem(tw/| eu zh/n), os converte (epistrofh,- ação de voltar,
desviar, mudar), os corrige(epanorqo,w) - sentidos que se dispersam em sua
obra. Percebemos que a admissão da pessoa na comunidade religiosa cristã a partir da
conversão, incluía o aspecto moral, à medida em que acreditava-se na
utilidade(lusitele.j) conferida a todo o processo de identificação aos seus
dogmas. Reivindicava para si uma autoridade autônoma e exclusiva: “que outra
doutrina será mais eficaz para converter a natureza humana e a conduzir para viver
bem?
107
” – constitui a ênfase persuasiva de Orígenes no discurso.
Comparativamente, ele acrescenta que se houvesse outra doutrina, este alguém
deveria “apresentar outro caminho para converter e melhorar, nem um ou dois
indivíduos somente mas, no possível as mais grandes multidões”
108
. Da comparação
dos dois caminhos, o escritor, com o uso freqüente das partículas “wvj”,
“para,tesij”, “paraba,llw”,“anfote,rwn” que
indicam: pôr em relação, ou a ação de comparar, justapor, entre os ambos os modos ou
representações, nascem as construções lingüísticas, retóricas, de convencimento ao
leitor, nas quais o escritor acredita sobressair aquela doutrina que disporá à vida
virtuosa. Conseqüentemente, é excluída, recusada, sem mais questionamentos, a outra
107
“kai. ti,j a'n a'lloj lo,goj epistrefe,steron p
rosa,goi th.n anqropi,nhn fu,sin tw/| eu/ zh|
/n). Contra Celso, IV, 53.
108
“parabale,tw ga.r o` boulo,menoj a;llhn o`do,
n epistre,fousan a[ma kai. deu,teron avll’ o[
sh du,namij
kai. plei,stouj o[souj”(IV, 53).