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PONTIFÍCIA UNIVERSIDADE CATÓLICA DE SÃO PAULO
PUC-SP
Melina Serra
Qualidade de vida e disfunção sexual:
vaginismo
MESTRADO EM PSICOLOGIA CLÍNICA
São Paulo
2009
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PONTIFÍCIA UNIVERSIDADE CATÓLICA DE SÃO PAULO
PUC-SP
Melina Serra
Qualidade de vida e disfunção sexual:
vaginismo
Dissertação apresentada à Banca Examinadora da
Pontifícia Universidade Católica de São Paulo,
como exigência parcial para obtenção do título de
MESTRE em Psicologia Clínica, pelo Programa de
Estudos Pós Graduados em Psicologia Clínica da
PUC/SP, Núcleo de Psicossomática e Psicologia
Hospitalar,sob a orientação da Profª Drª Marlise
Aparecida Bassani.
São Paulo
2009
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Banca Examinadora
_______________________________
_______________________________
_______________________________
Os limites da minha capacidade coincidem com os limites de
minha abertura ao mundo; eles são idênticos em cada
momento, mas, estão sempre mudando de acordo com minhas
novas experiências e a amplitude ou restrição com as quais eu
as vivencio.
Yolanda Forghieri
Esse trabalho é fruto do amor e incentivo de duas pessoas:
Mainha, minha companheira de sonhos, pelo exemplo de
coragem, perseverança e caráter, pela força nos momentos
mais difíceis e pelos esforços sem medida. Quando eu penso
na importância de ser professora, a senhora é, e sempre será,
a inspiração para me transformar no melhor que posso ser.
Toni, meu marido, que com paciência e muito amor me fez
perceber a importância de confiar em mim mesma e em minhas
potencialidades. Na sinceridade dos teus sentimentos e na
cumplicidade de nossa relação, eu encontro todos os motivos
para acreditar numa vida plena e feliz
Mais do que a mim, é a vocês que pertence essa conquista.
AGRADECIMENTOS
A Deus, por me trazer paz de espírito e força para lutar pelos meus
sonhos. Por me tornar merecedora de tantas alegrias, e principalmente, por me dar,
a cada dia, a sabedoria necessária para entender o sentido de tudo que acontece na
minha vida.
À minha Mãe, pelo incansável incentivo, por me encorajar nos momentos
de angústia, pelos sacrifícios, pelos melhores conselhos. Mãe, tudo quanto eu puder
conquistar, será dedicado a você.
Ao meu marido Toni, por compartilhar e incentivar todos os meus sonhos.
Durante esse desafio, foi em você, e no seu amor, que eu encontrei a segurança
que acalmou minhas angústias e a coragem para enfrentar meus medos.
À minha irmã Emilana, por estar sempre ao meu lado, apoiando e
incentivando minhas decisões. Obrigada por ter compreendido com tanta
tranqüilidade que, para a realização desse sonho, eu precisaria me ausentar. Ao
meu cunhado Luiz Fernando, pelo exemplo de profissional competente e dedicado.
À minha irmã Ana, por todo carinho e dedicação, não com minha mãe, mas com
toda nossa família.
Às minhas sobrinhas e afilhadas, Ana Luiza e Ana Carolina, expressão de
amor puro e verdadeiro, pelos sorrisos mais sinceros, pelos abraços mais
aconchegantes cada vez que voltava para casa.
Aos meus avós, Carlos e Galiana (in memorian), que com muita sabedoria
conseguiram perpetuar, ao longo de tantos anos, os valores que me ensinaram a
importância da união familiar. À minha Família Serra, meus tios e primos, meu maior
agradecimento.
À minha orientadora Profª Drª Marlise, por ter segurado a minha mão
durante toda essa caminhada. Que com paciência e carinho de mãe, soube respeitar
meus limites, enaltecer minhas qualidades e aceitar minhas opiniões. Esse trabalho
não teria sido escrito, se você não acreditasse tanto em mim.
À minha grande amiga Érika, pela presença constante em minha vida, por
me acolher nos momentos mais difíceis, por se alegrar com as minhas vitórias e por
me ensinar a riqueza de uma amizade sincera. O teu apoio foi essencial para essa
conquista.
Os meus sinceros agradecimentos ao CNPq, pela bolsa de estudos que
possibilitou e incentivou a conclusão desta pesquisa. Este apoio é muito mais que
um auxílio financeiro, é um reconhecimento relevante deste trabalho.
À Profª Drª Ângela Maggio da Fonseca e à Profª Drª Ida Kublikowski,
pelas preciosas sugestões, fornecidas no Exame de Qualificação, que foram
extremamente significativas para o direcionamento desta pesquisa.
À Drª Glene, o anjo que atenciosamente possibilitou a coleta dos dados.
Obrigada por me ensinar, através dos relatos de suas pacientes, a importância de
respeitar e auxiliar as mulheres que sofrem de alguma disfunção sexual.
À Ana Rosa, que tanto me apoiou desde o início dessa caminhada, ao
Marquinhos e Viny, minha “família paulista”, por todo apoio e amizade. À Ana Eliza e
Marina, flores que perfumaram os momentos finais dessa conquista. Ao Sr.
Severino, pelo carinho e por estar sempre disponível para ajudar, sempre que
precisei. À Joseana, pelo carinho com que me ajudou na formatação final.
Às amigas que fiz durante o Mestrado, Raquel e Larissa, que em meio a
tantos sorrisos, me acompanharam nessa jornada. À Lilian, por me ensinar o poder
da sincronicidade e pelo auxílio em vários momentos. Aos colegas, em especial,
Eduardo, Carol, Fabiana, Celso, Yara, Renata, Ligia, risson, Patrícia, Maura, por
dividirem comigo as descobertas deste percurso e pelas trocas, tão importantes para
minha formação.
Em especial, às participantes, pela riqueza dos relatos, que tanto
engrandeceram este trabalho. Por terem me acolhido e confiado suas histórias de
vida, seus sofrimentos, suas alegrias e suas esperanças.
SERRA, Melina. Qualidade de vida e disfunção sexual: vaginismo. São Paulo,
2009.
Orientadora: Profª Drª Marlise Aparecida Bassani.
RESUMO
O vaginismo é caracterizado pela CID-10 (1993) como um espasmo dos músculos
que circundam a vagina, causando oclusão da abertura vaginal, tornando a
penetração do pênis impossível ou dolorosa. Desde 1990, a Organização Mundial de
Saúde ressalta o sexo como um dos pilares para garantia de qualidade de vida. O
presente estudo buscou compreender, a partir de um olhar fenomenológico, como
mulheres moradoras no Estado de São Paulo e diagnosticadas com vaginismo,
vivenciam a qualidade de vida em seu dia-a-dia. Participaram quatro mulheres, entre
34 e 43 anos. Os instrumentos utilizados foram: Questionário de Qualidade de Vida
(WHOQOL-bref), Instrumento de Auto-Percepção de Qualidade de Vida (Serra e
Bassani) e entrevista aberta. Os dados foram analisados a partir das características
do existir humano ser-no-mundo, temporalizar, espacializar e escolher (Forghieri,
2004). Os dados obtidos ressaltam que a disfunção sexual afeta o existir das
participantes. O vaginismo parece permear o ser-no-mundo dessas mulheres, seja
nas relações com o ambiente, com outras pessoas ou consigo mesmas. A maioria
das participantes consegue vivenciar com sintonia suas experiências, expandindo o
temporalizar. Alternam as maneiras de existir, com prevalência das preocupada e
sintonizada; Informações sobre a disfunção sexual e opções de tratamento
proporcionam uma melhor compreensão do vaginismo, facilitando a realização de
escolhas. Este estudo indica que: 1) O vaginismo afetou todos os âmbitos da vida
das participantes, com mais intensidade os de saúde, sexual e emocional. 2) Os
âmbitos que influenciaram diretamente a avaliação geral de qualidade de vida
variaram para cada participante, destacam-se os âmbitos: saúde, sexual, familiar e
social. 3) Obter informações, compreender a disfunção e ter a possibilidade de fazer
tratamento, favorecem o bem-estar das participantes. 4) A resolução da queixa de
vaginismo influencia na melhoria e na avaliação da qualidade de vida.
Palavras-chaves: sexualidade, disfunção sexual feminina, vaginismo, qualidade de
vida, fenomenologia.
SERRA, Melina. Quality of life and sexual dysfunction: the vaginismus. São
Paulo, 2009.
Oriented by Professor Doctor Marlise Aparecida Bassani.
ABSTRACT
The vaginismus is characterized by ICD-10 (1993) as a spasm of muscles
surrounding the vagina, causing occlusion of the vaginal opening, making possible
the penetration of the penis or painful. Since 1990, the World Health Organization
says the sex as one of the pillars for ensuring the quality of life. This study sought to
understand how women, with vaginismus diagnoses and living in the city of São
Paulo experience quality of life, from Psychology phenomenological approach. Four
women participated in this research, aging between 34 and 43 years. The
instruments used were: WHOQOL-bref, Instrument of Self-Perceived Quality of Life
(Serra and Bassani) and open interview. Data were analyzed from the features of
human existence - being in the world, temporalizing, and choose spatialization
(Forghieri, 2004). The data indicated that sexual disorders affect any of the
participants. The vaginismus seems to underline the world of these women, in their
relationships with the environment, with others or with themselves. Most of the
participants can live with keeping their experiences, expanding their temporalizing.
They reported having lived alternatives ways of existence, with a prevalence of
concerned and focused; information about sexual disorders and treatment options
can provide a better understanding of the vaginismus, in order to facilitate the
achievement of choices. This study indicates that: 1) the vaginismus affects all areas
of life of these participants, with more intensity: health, sexual and emotional ones. 2)
Health, sexual, family and social affairs, are the areas most directly affected on the
overall assessment of quality of life. 3) getting information, understanding of the
disorder and being able to attend to properly treatment, can promote the welfare of
participants. 4) The resolution of the complaint of vaginismus influences the
improvement and new meanings for quality of life.
Keywords: sexuality; female sexual dysfunction; vaginismus; quality of life;
phenomenology approach.
SUMÁRIO
I. INTRODUÇÃO .................................................................................................... 13
1 - Trajetória Pessoal ...................................................................................... 13
2 - Questão de Estudo .................................................................................... 16
3 - Fenomenologia: alguns referenciais para o trabalho ................................. 16
4 - Disfunção sexual e qualidade de vida: revisão bibliográfica ...................... 21
4.1 - Sexualidade feminina ........................................................................ 22
4.2 - Disfunção sexual feminina ................................................................ 26
4.3 - Vaginismo ......................................................................................... 34
4.3.1 - Conceituação, etiologia e classificação .................................... 34
4.3.2 - A mulher com vaginismo ........................................................... 37
4.3.3 - O casal com vaginismo ............................................................. 39
4.3.4 - Incidência, diagnóstico e intervenções ........................................ 41
4.4 - Qualidade de vida ............................................................................. 47
4.4.1 - Qualidade de vida e sexualidade .............................................. 51
II. MÉTODO ............................................................................................................... 55
1 - Considerações metodológicas .................................................................. 55
2 - Participantes .............................................................................................. 56
3 - Local da Pesquisa ..................................................................................... 58
4 - Instrumentos .............................................................................................. 58
4.1 - Questionário de Qualidade de Vida WHOQOL-bref .......................... 58
4.2 - Instrumento de Auto-Percepção de Qualidade de Vida ................... 59
4.3 – Entrevista Aberta .............................................................................. 60
5 - Cuidados Éticos......................................................................................... 60
6 - Procedimentos de Coleta .......................................................................... 61
III. RESULTADOS E ANÁLISE ................................................................................. 62
1 - Apresentação dos resultados e procedimento de análise ......................... 62
2 - Resultados Questionário de Qualidade de Vida (WHOQOL-bref) ............. 63
3 - Resultados Instrumento de Auto-Percepção de Qualidade de Vida .......... 64
3.1 - Participante 1 .................................................................................... 64
3.1.1 - Representação gráfica .................................................................... 64
3.1.2 - Critérios de definição dos âmbitos pelas participantes ............. 65
3.2 - Participante 2 .................................................................................. 67
3.2.1 - Representação gráfica .................................................................... 67
3.2.2 - Critérios de definição dos âmbitos pelas participantes ............. 67
3.3 - Participante 3 .................................................................................... 68
3.3.1 - Representação gráfica .............................................................. 68
3.3.2 - Critérios de definição dos âmbitos pelas participantes ............. 69
3.4 - Participante 4 .................................................................................... 70
3.4.1 - Representação gráfica .............................................................. 70
3.4.2 - Critérios de definição dos âmbitos pelas participantes .............. 70
4 - Resultados Entrevista ................................................................................ 72
4.1 - Diagnóstico de Vaginismo ................................................................. 72
4.1.1 - Participante 1 .................................................................................... 72
4.1.2 - Participante 2 ............................................................................ 72
4.1.3 - Participante 3 .................................................................................... 72
4.1.4 - Participante 4 ............................................................................ 72
4.2 - Qualidade de Vida ............................................................................. 73
4.2.1 - Participante 1 .................................................................................... 73
4.2.2 - Participante 2 ............................................................................ 73
4.2.3 - Participante 3 .................................................................................... 74
4.2.4 - Participante 4 ............................................................................ 74
5 - Análise ....................................................................................................... 75
5.1 - Participante 1 .................................................................................... 75
5.1.1 - Ser-no-mundo
...........................................................................................
75
5.1.2 - Temporalizar ............................................................................. 78
5.1.3 - Espacializar ....................................................................................... 79
5.1.4 - Escolher .................................................................................... 79
5.1.5 - Considerações sobre os Instrumentos e a QV ......................... 79
5.2 - Participante 2 .................................................................................... 80
5.2.1 - Ser-no-mundo ................................................................................... 80
5.2.2 - Temporalizar ............................................................................. 81
5.2.3 - Espacializar ....................................................................................... 82
5.2.4 - Escolher .................................................................................... 82
5.2.5 - Considerações sobre os Instrumentos e a Qualidade de Vida . 83
5.3 - Participante 3 .................................................................................... 83
5.3.1 - Ser-no-mundo ................................................................................... 83
5.3.2 - Temporalizar ............................................................................. 85
5.3.3 - Espacializar ....................................................................................... 86
5.3.4 - Escolher .................................................................................... 87
5.3.5 - Considerações sobre os Instrumentos e a Qualidade de Vida 87
5.4 - Participante 4 .................................................................................... 88
5.4.1 - Ser-no-mundo ................................................................................... 88
5.4.2 - Temporalizar ............................................................................. 91
5.4.3 - Espacializar ....................................................................................... 91
5.4.4 - Escolher .................................................................................... 92
5.4.5 - Considerações sobre os Instrumentos e a Qualidade de Vida 92
IV. DISCUSSÃO ........................................................................................................ 94
V. CONCLUSÃO ..................................................................................................... 103
VI. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ................................................................... 104
APÊNDICE A: Questionário de Qualidade de Vida (WHOQOL-bref)
APÊNDICE B: Instrumento de Auto-Avaliação de Qualidade de Vida
APÊNDICE C: Instrumento de Auto-Percepção de Qualidade de Vida
ANEXO 1: Parecer do Comitê de Ética da PUC/SP
ANEXO 2: Termo de Consentimento Livre e Esclarecido
LISTA DE ILUSTRAÇÕES
Quadro 1 - Caracterização das Participantes ............................................................ 57
Tabela 1 - Resultados do Questionário de Qualidade de Vida (WHOQOL-bref)
por participante e domínio ...................................................................... 63
Figura 1 - Reprodução da representação gráfica da participante 1 ........................... 64
Figura 2 - Reprodução da representação gráfica da participante 2 ........................... 67
Figura 3 - Reprodução da representação gráfica da participante 3 ........................... 68
Figura 4 - Reprodução da representação gráfica da participante 4 ........................... 70
13
I. INTRODUÇÃO
1 - Trajetória Pessoal
Durante muito tempo a sexualidade feminina esteve ligada somente à
procriação e o papel da mulher à maternidade e aos serviços domésticos, com o
passar do tempo a mulher foi conseguindo um espaço importante no mercado de
trabalho e na sociedade. De acordo com Loureiro (2007), estamos vivendo um
momento de resgate dos valores femininos, em decorrência do esgotamento do
modelo patriarcal de valorização do masculino, o que possibilita um equilíbrio, que
vem da integração de valores masculinos e femininos. Segundo a autora, essa
revalorização do Feminino relaciona-se aos estilos de vida e papéis desempenhados
pelas mulheres.
Mesmo com as mudanças comportamentais e a disseminação dos
conhecimentos em relação à sexualidade, a mulher ainda é vítima de repressão e
discriminação por parte da sociedade, inclusive no que diz respeito à sua
sexualidade.
Meu interesse pelo campo da sexualidade, em especial a sexualidade
feminina, surgiu ainda na graduação em Psicologia, através de leituras sobre o tema
e após algumas participações em reuniões científicas, reafirmando a relevância que
a sexualidade tem na vida das pessoas. Durante o curso de Psicologia não foi
possível aprofundar meu interesse na área da sexualidade, devido às poucas
situações em que o assunto foi abordado nas disciplinas e inclusive nas
oportunidades de estágio durante a graduação.
Após a graduação surgiu a oportunidade de retomar meus estudos sobre
sexualidade durante o mestrado. As leituras sobre o tema foram intensificadas, a
possibilidade de realizar uma pesquisa sobre sexualidade feminina me deixou
extremamente feliz, mas precisava retomar de forma intensa meus estudos sobre
sexualidade. As leituras fizeram surgir um interesse pelas disfunções sexuais
femininas, em especial o vaginismo que apesar de acometer um considerável
número de mulheres, ainda é pouco abordado em estudos da área de saúde.
Segundo Nery (1984) 17% das mulheres, atendidas em clínicas por psicólogos entre
1979 e 1981 no estado de São Paulo, apresentaram queixas de vaginismo. Uma
década após este estudo, pode-se observar a persistência da problemática apesar
14
da diminuição da incidência dos casos de vaginismo, Abdo (2001) relata que
segundo dados do Projeto Sexualidade (PROSEX) da Faculdade de Medicina da
Universidade de São Paulo, entre 1993 e 1998, 3,1% dos casos de disfunção sexual
feminina atendidos, eram de vaginismo. Os dados de incidência do vaginismo serão
aprofundados no capítulo de revisão bibliográfica.
O vaginismo traz inúmeras implicações à vida da mulher, não no que
diz respeito à atividade sexual em si, mas também nas relações pessoais, visto que
essa disfunção é pouco conhecida pelo senso comum. A maioria das mulheres que
sofre de vaginismo demora um tempo considerável para procurar ajuda, tanto
afetiva quanto profissional, o que ocorre na maioria das vezes devido à escassez de
informação sobre essa dificuldade sexual. Em muitos casos o diagnóstico de
vaginismo é prejudicado tanto pela falta de informação da população em geral,
quanto pela falta de manejo dos médicos em lidar com esse tipo de disfunção. O
interesse inicial da presente pesquisa relacionado à sexualidade precisava ser
delimitado, de modo que meu interesse especial pelo vaginismo foi se
transformando em foco de pesquisa.
Na década de 1990, a Organização Mundial de Saúde (OMS) revelou que
o sexo é um dos quatro principais pilares que garantem ao indivíduo, em qualquer
idade, a qualidade de vida, juntamente com o lazer, prazer no trabalho e harmonia
familiar. “A saúde sexual é a experiência de contínuo bem-estar físico, psíquico e
sócio-cultural relacionado à sexualidade” (OMS, 2002)
1
.
Considerando que a OMS (2002), ao enfocar qualidade de vida, enfatiza
a importância da sexualidade humana e, tendo em vista as implicações que o
vaginismo acarreta na vida da mulher, pareceu-me relevante investigar a qualidade
de vida de mulheres que sofrem de vaginismo. Após muita reflexão a respeito, meu
foco de pesquisa estava, enfim, definido.
Muitas pesquisas em diversas áreas de atuação como a Medicina e a
Fisioterapia (Abdo e Fleury, 2006; Etienne e Waitman, 2006;)
2
, têm dado atenção
aos assuntos ligados à sexualidade, em especial as disfunções sexuais. São muitos
os progressos alcançados no que diz respeito à classificação, incidência e
tratamento dessas disfunções. O levantamento de literatura realizado buscou
1
Estas definições são oferecidas como uma contribuição à compreensão avançada no campo da saúde sexual,
não representam necessariamente posição oficial da OMS. Disponível em http://www.who.int/reproductive-
health/publications/sexualhealth/defining_sh.pdf
2
As pesquisas estão disponíveis no capítulo de revisão bibliográfica.
15
estudos relacionados ao vaginismo, e a partir do mesmo, observou-se uma lacuna
de pesquisas realizadas na área de Psicologia.
Em meio à dificuldade para encontrar pesquisas relacionadas ao
vaginismo e meus questionamentos sobre a relevância de realizar uma pesquisa
sobre essa disfunção sexual vi-me surpresa em encontrar um trabalho de conclusão
de curso, da Faculdade de Psicologia da PUC-SP, de Zampieri (2003), sobre o
vaginismo e a importância da comunicação na construção das vivências sexuais
femininas. Nesta pesquisa, a autora buscou entender o vaginismo por meio da
história individual, buscando ampliar a visão sobre o fenômeno, levando em
consideração fatores biológicos, culturais, históricos e familiares.
A relevância desse estudo me indicou uma direção e orientação para os
primeiros passos que poderiam ser dados na presente pesquisa, abrindo a
possibilidade para a continuidade de um estudo, além de reafirmar minha confiança
em relação ao tema e a importância da pesquisa.
A escassez de pesquisas e a necessidade de dar mais atenção ao tema
fizeram surgir o interesse em estudar a qualidade de vida de mulheres com
vaginismo. A questão de estudo que permeia essa pesquisa busca compreender, a
partir de um olhar fenomenológico, como mulheres moradoras no Estado de o
Paulo e diagnosticadas com vaginismo, significam qualidade de vida em seu dia-a-
dia. um objetivo secundário da presente pesquisa em contribuir para os estudos
sobre o tema, possibilitando a construção de novos conhecimentos, em especial na
área de Psicologia, podendo auxiliar os profissionais de saúde que atuam na área da
sexualidade, como também as mulheres que sofrem de vaginismo.
Este estudo será composto pelos seguintes capítulos: Questão de estudo,
onde será colocada a questão que permeia a pesquisa; Fenomenologia: alguns
referenciais para o trabalho, em que serão discutidas as concepções de autores
fenomenólogos que orientam a análise dos dados; Disfunção sexual e qualidade de
vida: revisão bibliográfica, no qual será apresentada a revisão de literatura sobre
sexualidade feminina, disfunção sexual feminina, vaginismo e qualidade de vida. Em
seguida será apresentado o método adotado, os resultados obtidos e a análise e
discussão dos mesmos, seguida das considerações finais e referências
bibliográficas.
16
2 - Questão de Estudo
O presente estudo centra-se no olhar fenomenológico existencial que
busca, através da pesquisa, compreender o fenômeno que se revela, procurando
captar o sentido ou o significado da vivência para a pessoa em determinadas
situações.
Segundo Boemer (1989), em pesquisa fenomenológica não problema,
o pesquisador não tem problema para pesquisar, ele tem dúvidas sobre alguma
coisa e quando dúvidas, ele interroga, portanto, está interrogando um fenômeno
e não procurando solução para um problema. A pesquisa qualitativa em
fenomenologia precisa de início situar um fenômeno. O que está em foco para o
pesquisador é o fenômeno e não o fato. O pesquisador em fenomenologia não vai
ter princípios explicativos, teorias ou qualquer indicação que define o fenômeno. A
pesquisa fenomenológica, portanto, diz respeito a um interrogar não fatos, mas
fenômenos.
Como mulheres moradoras no Estado de São Paulo diagnosticadas com
vaginismo significam qualidade de vida em seu cotidiano?
Como referências teóricas para melhor compreensão da questão de
estudo e para o desenvolvimento da presente pesquisa, bem como a análise dos
dados obtidos, optou-se por alguns autores da fenomenologia: Edmund Husserl e
suas contribuições como o “retorno às coisas mesmas”, intencionalidade e redução
fenomenológica; a compreensão de doença de Medard Boss segundo Cardinalli
(2001); e a compreensão da Psicologia Fenomenológica de Yolanda Forghieri
(2004).
3 - Fenomenologia: alguns referenciais para o trabalho
A fenomenologia nasceu no início do Século XX com a obra de Edmund
Husserl, Investigação Lógicas. Husserl buscou um novo modelo de apreensão da
realidade, formulado a partir da crítica do paradigma metafísico vigente na época.
Para Husserl é preciso conhecer o que as coisas são para que se possa
falar delas. Ele propõe o “retorno às coisas mesmas”, ao fenômeno tal como se
torna presente e aparece à consciência. Husserl supera a separação entre “sujeito”
17
e “objeto”, para ele o objeto será apreendido à medida que a consciência do
observador capta sua existência.
O método fenomenológico busca perceber o fenômeno tal qual ele se
revela. Para ele, todo fenômeno tem uma essência, que não se reduz ao fato. A
essência é tudo aquilo que é si mesmo em qualquer circunstância, e é isso que
significa o “retorno às coisas mesmas”, que é o retorno à essência das coisas para
poder compreender os fenômenos na forma como se mostram. Chegar à essência
do fenômeno é perceber como ele se mostra, sem mistérios. Para isso é preciso
partir “do zero”, sem pressuposições. A redução fenomenológica é o método básico
da investigação fenomenológica, implica “suspensão do julgamento”, colocar “entre
parênteses” todo e qualquer pressuposto sobre o fenômeno observado.
Forghieri (2004) comenta que a “coisa mesmaé entendida por Husserl
não como realidade que existe em si, e sim como fenômeno, e esta é a única coisa à
qual podemos ter acesso imediato e intuição originária. O fenômeno integra
consciência e objeto, que estão unidos no próprio ato de significação. a
intencionalidade é o ato de atribuir um sentido, a intencionalidade unifica a
consciência e o objeto, o sujeito e o mundo.
De acordo com Husserl (1980), a consciência é sempre intencional, ela
está sempre voltada para um objeto e este é sempre objeto para uma consciência.
Para ele, não consciência desvinculada de um mundo para ser percebido e nem
mundo sem uma consciência para percebê-lo. Dessa forma, o homem é um ser
de possibilidades infinitas e é concebido numa perspectiva dialética, mundo e
homem não existem separadamente e esta união é concebida pela intencionalidade.
Segundo Moreira (2002) a partir da suspensão a consciência
fenomenológica pode ater-se ao fenômeno como tal e descrevê-lo em sua pureza,
suspender o conhecimento que se tem a respeito de um fenômeno é a única forma
de percebê-lo tal como é.
A concepção de doença de Boss a partir da visão de Cardinalli (2001) é
também fonte de contribuição para a presente pesquisa.
Segundo Boss (1979) a doença pode ser entendida como uma privação
da realização das possibilidades existenciais constitutivas dos modos de ser do
existir humano. Para ele, as doenças sempre mostram alguma restrição nas
possibilidades do homem de realizar o seu existir. Uma das características do estar
doente é o prejuízo na habilidade de realização das possibilidades. A essência de
18
todos os sofrimentos humanos fundamenta-se no fato de que a pessoa perdeu a
capacidade de se abrir e de se decidir livremente acerca de suas possibilidades de
comportamento normal.
A partir dessa concepção é possível perceber as inúmeras implicações
que a doença acarreta na vida do ser humano, suas possibilidades de existir estão
limitadas, conseqüentemente o mesmo acontece com sua qualidade de vida.
De acordo com Cardinalli, (2001) o entendimento da natureza básica da
doença humana como uma redução da habilidade de existir pode ser aplicado para
o entendimento das pessoas doentes. Nos diferentes modos de existir doentios
uma perda ou uma restrição da liberdade de realização de possibilidades efetivas. A
doença humana é compreendida como perda da liberdade e uma limitação do viver
do homem em sua totalidade.
Segundo Cardinalli (2004) para Boss (1976) os sintomas patológicos são
privações, reduções de possibilidades de entender uma coisa em toda a sua
amplitude. Para o autor, o mais importante para a Medicina e a Psicologia não é o
entendimento das doenças, mas sim do homem, do ser humano que está doente. E
este ser humano deve ser compreendido independente da doença, pois nos
diferentes modos doentios de existir há perda ou restrição da liberdade de realização
das possibilidades efetivas.
A autora salienta ainda que para Boss (1979, p. 112) as patologias, sejam
físicas ou psíquicas, devem ser compreendidas como maneiras de realizar o existir e
cada uma delas revelam alguma perturbação nesta realização, “a patologia é
caracterizada conforme o âmbito que prioritariamente está afetado, mas sempre se
considerando que a totalidade do existir está prejudicada”.
Forghieri (2004, p. 53) fala que a relação da pessoa doente consigo
mesma e com o mundo encontra-se consideravelmente restringida, mas a existência
de conflitos e restrições não é suficiente para que a pessoa se torne
existencialmente doente, pois esses acontecimentos fazem parte da vida. Para a
autora “o adoecimento existencial acontece quando as limitações e conflitos não
são reconhecidos e enfrentados pela pessoa, à luz de suas múltiplas possibilidades,
passando, então, a se tornar exageradamente ampliados e dominantes em sua
vida”.
A autora oferece o seguinte exemplo: a pessoa pode adoecer fisicamente
e devido às intensas dores e restrições ela pode não aceitá-las e não consegue dar-
19
lhes um significado em sua existência. Isso a impede de abrir-se a outras
possibilidades, pois fica revoltada com seu sofrimento, sente-se aflita e insatisfeita
consigo mesma. As restrições e o sofrimento tornam-se então predominantes na
vida dessa pessoa e ela fica existencialmente enferma. Porém, as situações
adversas podem transformar-se num estímulo para descobrir possibilidades que até
então ele não havia percebido que possuía, ou simplesmente não as havia
valorizado. A pessoa necessita aceitar as situações de sofrimento para compreendê-
las e ter condições de se abrir às suas possibilidades de existir. É importante que ela
reconheça suas limitações, só assim poderá superá-las.
Outro ponto importante para a presente pesquisa são as contribuições de
Yolanda Forghieri para o campo da Fenomenologia, em especial a Psicologia
Fenomenológica. Segundo Forghieri (2004) a Fenomenologia encontra-se
intimamente relacionada à Psicologia. O estudo da vivência efetuado pela Psicologia
pode proporcionar a descoberta das essências dado que o conhecimento dos fatos
implica em uma visão da essência. A Psicologia Fenomenológica deve ser uma
ciência basicamente descritiva. O psicólogo na atitude natural considera os
acontecimentos como fatos, estabelecendo relações entre eles, e deles com outros
fatos, no intuito de explicar o psiquismo humano. Em atitude fenomenológica, o
psicólogo pode refletir, tanto em nível superior da universalidade quanto de acordo
com o que é essencial. Assim, os fatos e explicações são colocados entre
parênteses ou fora de ação, o que permite a reflexão, chegando ao que é essencial.
Segundo Forghieri (2004), a Fenomenologia de Husserl contribuiu para a
possibilidade de estabelecimento de relações entre a Filosofia e a Psicologia.
Embora ele tenha considerado a Psicologia e a Fenomenologia ciências distintas
considerou a possibilidade de relação entre ambas, dando prioridade à
Fenomenologia, considerando, pois, que a Psicologia encaminha-se para a
Fenomenologia. Husserl deixou transparecer uma relação de reciprocidade entre
ambas as ciências. As formulações de Husserl levam a uma consideração mais
ampla da Psicologia, como ciência cujo conhecimento é peculiar e paradoxal, “o
conhecimento psicológico é reflexão e ao mesmo tempo vivência; é conhecimento
que pretende descobrir a significação, no contato efetivo do psicólogo com sua
própria vivência e com a de seus semelhantes”.
20
Forghieri (2004) ao elaborar o enfoque fenomenológico da personalidade,
denominou as várias características da personalidade do existir humano: ser-no-
mundo, temporalizar, espacializar e escolher.
O termo personalidade é aqui tomado como um conjunto de características
do existir humano, consideradas e descritas de acordo com o modo como
são percebidas e compreendidas, pela pessoa, no decorrer da vivência
cotidiana imediata e tendo como fundamento os seus aspectos
fenomenológicos primordiais (FORGHIERI, 2004, p. 26).
O ser-no-mundo constitui a estrutura originária do existir humano. A
experiência cotidiana é o cenário dentro do qual decorre a nossa vida e o ser-no-
mundo é a sua estrutura fundamental. Segundo a autora, podemos evidenciar o
quanto estamos implicados no mundo a partir dos acontecimentos diários, pois a
identidade está relacionada aos acontecimentos que vivenciamos no mundo,
portanto, para sabermos quem somos precisamos saber onde estamos. Ser-no-
mundo é uma estrutura originária e sempre total.
O “mundo” é o conjunto de relações significativas dentro do qual a pessoa
existe; apresenta-se ao homem sob três aspectos simultâneos: o circundante, o
humano e o próprio. O mundo circundante diz respeito ao relacionamento da pessoa
com o ambiente e abarca tudo aquilo que está concretamente presente nas
situações vividas pela pessoa em seu contato com o mundo. O mundo humano diz
respeito ao encontro e à convivência do homem com os seus semelhantes, a autora
salienta que a relação do homem com outras pessoas é fundamental em sua
existência, pois o existir é originariamente ser-com o outro; o ser humano sabe
quem é como ser humano convivendo com seus semelhantes. O mundo próprio
consiste na relação que o homem estabelece consigo, no ser-si-mesmo, na
consciência de si e no autoconhecimento, a pessoa vai descobrindo quem é a partir
das situações que vai vivendo, a partir das relações com o mundo e com as outras
pessoas.
três maneiras de existir, a maneira preocupada, a maneira sintonizada
e a racional. A primeira maneira de existir consiste em um sentimento global de
preocupação, que varia de um vago sentimento de intranqüilidade a uma profunda
sensação de angústia, a qual chega a dominá-lo por completo, e isto está
fundamentado no próprio ser-no-mundo, do ser humano. A maneira sintonizada de
existir é caracterizada pela capacidade de vivenciar momentos de sintonia e
21
tranqüilidade, consiste numa vivência de completa harmonia de nosso existir no
mundo. A maneira racional de existir diz respeito à necessidade que os seres
humanos têm de analisar sua vivência cotidiana para conceituá-la e estabelecer
relações entre as experiências. As três maneiras de existir estão articulas e
relacionadas na vivência do homem.
Temporalizar significa experienciar o tempo, e esta vivência é a que mais
se aproxima do nosso existir. “Existir e transcender têm o mesmo significado, lançar-
se para fora, ultrapassar a situação imediata, que também quer dizer temporalizar”
(FORGHIERI, 2004, p. 42). A existência humana caracteriza-se por estar
continuamente saindo de si mesma, transcendendo a situação imediata para
completar-se.
Espacializar consiste no modo como vivenciamos o espaço em nossa
existência. Significa nos situar concretamente em nosso ambiente e vivenciar o
nosso existir no mundo, o que pode ser feito com “elevação”, amplitude,
proximidade, familiaridade, “rebaixamento”, distancia e estranheza. A intensidade da
vivência pode variar, pois está relacionada às oscilações da maneira de existir do
homem.
Existir é estar aberto à percepção e à compreensão de tudo que se
apresenta à existência, portanto escolher está relacionado à abertura do ser humano
à percepção e compreensão de sua vivência no mundo. Quanto maior a percepção,
maior a liberdade de escolha.
4 - Disfunção sexual e qualidade de vida: revisão bibliográfica
O material coletado constitui-se de livros que tratam do tema vaginismo,
artigos nacionais e internacionais publicados em periódicos da área de saúde e
artigos de publicações nacionais e regionais não indexadas, além de teses e
dissertações. As buscas para a revisão bibliográfica foram feitas em bases de dados
que fazem a indexação dos artigos científicos. As pesquisas foram feitas em
acessos aos sites de periódicos utilizando palavras-chaves previamente definidas.
As palavras-chave utilizadas nas pesquisas em bases de dados foram: sexualidade,
qualidade de vida, disfunções sexuais femininas, vaginismo, fenomenologia.
Inicialmente foram feitas buscas com cada palavra-chave individualmente
e posteriormente essas palavras-chaves foram cruzadas em grupos de duas ou três
22
palavras em uma mesma busca. Durante o levantamento de literatura realizado
foram encontradas diversas pesquisas relacionadas à sexualidade feminina e às
disfunções sexuais femininas, em sua maioria nas áreas de Medicina e
Enfermagem. Na área de Psicologia além dos artigos encontrados nas buscas em
periódicos eletrônicos, foram incluídos artigos selecionados em publicações não
indexadas e capítulos de livros, teses e dissertações. Os trabalhos incluídos, não
são necessariamente de orientação fenomenológica.
Neste capítulo, primeiramente será abordada a sexualidade feminina
onde serão citados algumas características e aspectos históricos e culturais que
permeiam a sexualidade feminina. Em seguida, serão feitas breves considerações
acerca das disfunções sexuais femininas e a interdisciplinaridade no tratamento das
mesmas. Serão discutidos assuntos relacionados à conceituação, incidência,
etiologia, classificação, diagnóstico e tratamento do vaginismo, bem como
considerações sobre a mulher portadora de vaginismo e a dinâmica relacional do
casal quando existe essa disfunção. Serão apresentadas definições de qualidade de
vida e suas relações com a sexualidade. Os parágrafos foram organizados a partir
da evolução dos conceitos, independente da ordem cronológica das referências
utilizadas.
4.1 - Sexualidade Feminina
Segundo a Organização Mundial de Saúde (2002):
A sexualidade humana forma parte integral da personalidade de cada um.
É uma necessidade básica e um aspecto do ser humano que não pode ser
separado dos outros aspectos da vida. A sexualidade não é sinônimo de
coito e não se limita à presença ou não de orgasmo. Sexualidade é muito
mais que isso. É energia que motiva a encontrar o amor, contato e
intimidade, e se expressa na forma de sentir, nos movimentos das pessoas
e como estas tocam e são tocadas. A sexualidade influencia pensamentos,
sentimentos, noções e integrações, portanto, a saúde física e mental. Se
saúde é um direito humano fundamental, a saúde sexual também deve ser
considerada como direito humano básico. A saúde sexual é a integração
dos aspectos sociais, somáticos, intelectuais e emocionais de maneira tal
que influenciam positivamente a personalidade, a capacidade de
comunicação com outras pessoas e o amor (OMS, 2002).
Etienne e Waitman (2006) ressaltam que o desenvolvimento sexual
resulta da combinação de fatores genéticos, hormonais e neurológicos, somados ao
23
desenvolvimento sexual psicológico e a interação com o meio sociocultural, desde o
nascimento e por toda a vida. A sexualidade é ampla, busca satisfação do desejo e
do prazer físicos, como também a necessidade emocional de proximidade e
pertinência nos contatos humanos.
Para Phillips (2000), a sexualidade é mais do que uma mera função
biológica reprodutiva, é uma fundamental experiência humana que engloba o prazer,
identidade sexual, afetividade, intimidade e experiências físicas, socioculturais,
emocionais e cognitivas.
De acordo com Vieira (2005) quando o indivíduo nasce começa um longo
processo social de construção de identidade, cujos efeitos sobre cada pessoa são
imprevisíveis. Mesmo que os elementos culturais referentes a sexo ou à
nacionalidade não sejam inatos, a sua influência na construção da identidade
começa cedo na vida do sujeito. O determinismo histórico-cultural constrói os papeis
sexuais.
Segundo Fregonese e Bruscato (2007) o senso de identidade pessoal
constrói-se no processo do desenvolvimento psicológico, através da elaboração de
experiências cognitivas, afetivas e emocionais, desde o nascimento. A identidade
sexual é peça central nessa construção, visto que “na essência da identidade total
está o conceito de si mesmo como homem e mulher” (p.27). A sexualidade é uma
marca humana, que envolve processos culturais e plurais e é vivenciada a partir de
aquisições afetivas, psicossociais e históricas.
Seixas (1998) ressalta que a sexualidade é algo construído, produzido e
arbitrário, pois o homem é um ser biológico e social. A cultura tem um grande
domínio sobre a expressão do sexo, apesar de sua base ser biológica. A cultura filtra
a influência biológica da sexualidade, desta maneira, torna os aspectos naturais e
sociais inseparáveis. Conceição (2007) pontua que a relação sexual não é um
fenômeno físico isolado, pois dele participam, com igual importância, o aspecto
psicológico e sociocultural.
Segundo Aldana (1992), a sexualidade tem um valor próprio, mas a vida e
as pessoas dão a ela um valor diferente, transformando-a, fazendo-a adquirir
inumeráveis significados e significantes. A sexualidade desperta medos, sentimentos
e sensações infantis, do passado, de nossa própria história. A construção da
sexualidade e a constituição do gênero feminino sofrem forte influencia dos fatores
históricos, culturais e familiares. Esses condicionantes ambientais não afetam da
24
mesma forma todos os indivíduos, que o comportamento sexual das pessoas
varia mesmo em condições históricas, sociais e familiares parecidas.
Para Fregonese e Bruscato (2007) nas mulheres, a motivação sexual
representa, geralmente, um determinante maior que o impulso sexual, visto que para
elas essa motivação está vinculada a elementos culturais como moral, religião,
decência, lealdade, constância e segurança. De acordo com Abdo (2001), os fatores
culturais exercem influência sobre a sexualidade feminina, principalmente no período
de iniciação, já que a adaptação ao parceiro e a realização sexual costumam ocorrer
de maneira progressiva.
De acordo com Conceição (2007) a educação sexual feminina é marcada
pela valorização da constituição da família e pela desvalorização do prazer sexual,
no processo de desenvolvimento emocional, a mulher é condicionada a encontrar
prazer e realização pessoal na maternidade, o que reforça a valorização da atividade
sexual como meio de alcançar a maternidade e não como uma atividade da natureza
humana que proporciona prazer.
Segundo Seixas (1998), na história da humanidade a desigualdade entre
o homem e a mulher foi estabelecida pela distinção dos papéis sexuais. O status das
mulheres foi definido pelos homens, a mulher foi reduzida a um ser inferior e
submisso, aos papéis de esposa, mãe e dona de casa, mas ocupando sempre um
lugar central na família.
No processo de conscientização, a mulher foi percebendo a situação de
inferioridade em que se encontrava e as razões pelas quais aceitou essa
posição. Começou, então, a questionar e contestar seus papéis
tradicionais. No movimento feminista, reivindicou igualdade de condições e
direito de desempenhar os papéis considerados próprios do sexo oposto
(SEIXAS, 1998, p.178).
De acordo com Fregonese e Bruscato (2007) a sexualidade feminina
sempre foi marcada pela valorização da função reprodutiva e da maternidade e,
somente no Século XX, a partir das mudanças sociais que ocasionaram grandes
transformações, a mulher passou a lidar mais diretamente com sua sexualidade,
encarando suas dificuldades e potencialidades.
Segundo Aldana (1992) a mulher é ensinada a exercer um domínio sobre
seu desejo sexual e o controle de sua expressão. A violência, a humilhação e as
agressões vivenciadas pela mulher em seu cotidiano têm como conseqüência a
restrição e a diminuição dos prazeres, privando-se assim da aceitação e exploração
de seu corpo, da sensualidade e do contato com o outro.
25
De acordo com Zampieri (2004) as mulheres são mantidas na ignorância
delas mesmas, na vergonha de seus genitais e no aparente perigo da sexualidade,
por esse motivo elas acabam não se conhecendo. Ao invés de aprenderem a
realizar seus desejos, as mulheres aprendem a como realizar os desejos dos outros.
A falta de conhecimento é um dos mecanismos mais eficazes de repressão sexual
feminina, principalmente nas mulheres pertencentes às classes sociais com menos
acesso a informações.
A autora salienta que as normas, regulamentações e as formações de
expectativas irreais quanto à sexualidade constituem um desrespeito à condição
humana, pois eliminam ou impedem que o ser humano conheça profundamente
seus desejos, interesses e criatividades. Um dos motivos para a falta de
conhecimento sobre a sexualidade pode estar relacionado à forma como as
mulheres aprendem sexualidade com os pais, que ainda são na maioria das vezes
passivos na socialização sexual, tomam poucas iniciativas no que diz respeito à
sexualidade. Quando transmitem ensinamentos, passam a impressão de que a
sexualidade, o desejo e o prazer não fazem parte de suas vidas.
Segundo França e Baptista (2007) a sexualidade foi deixando de ser
relacionada à reprodução a partir da década de 60, época em que o movimento
feminista ganhou impulso, o que fez com que as idéias sobre casamento
monogâmico ruíssem e a liberdade sexual se estabelecesse. A pílula contraceptiva
veio reforçar esse movimento, o que possibilitou, às mulheres, o arbítrio sobre o
próprio corpo e o acesso a uma sexualidade não reprodutiva. Portanto, o Movimento
Feminista galgou uma abertura sem precedentes na historicidade da relação entre
os sexos assegurando, às mulheres, o direito de fazer escolhas, questionar
situações e decidir sobre o que, na ordem social, é melhor para si.
Lipovetsky (2000) fala que somente no Século XX a mulher conseguiu se
libertar da condição de “escrava” da procriação conquistando assim a possibilidade
de conduzir sua sexualidade. Segundo Zampieri (2004), o senso de independência
sexual marca um dos aspectos revolucionários da libertação das mulheres.
Sobre as mudanças no que diz respeito à repressão sexual Vieira (2005)
acrescenta que, frente às questões sexuais do passado, a repressão e a anulação
da mulher foram substituídas pela liberação e pela independência dos dias atuais.
Assim, a mulher contemporânea, com base em novas redes de poder, impõe-se na
sociedade em diferentes áreas, inclusive na sexual, tendo espaço para preferências
26
e vontade em assuntos que antes não podiam sequer ser mencionados em discurso
privado, quanto mais ser objeto de discurso público.
Macedo (2007) contribui para a discussão ao abordar a questão de
gênero. Segundo a autora as Ciências Sociais desenvolveram o conceito de gênero
com o objetivo de fugir dos mitos da feminilidade e da masculinidade; e também
para tratar as questões da relação homem-mulher sem se prender às expectativas
estereotipadas de comportamento, estabelecidas através dos tempos.
Gênero é uma categoria que envolve um conjunto de práticas, valores,
símbolos, representações e normas que as sociedades elaboram a partir
das diferenças sexuais anátomo-fisiológicas e que dão sentido à satisfação
dos impulsos sexuais e ao relacionamento entre pessoas (MACEDO, 2007,
p. 23).
A autora ressalta ainda que, ao se trabalhar com questões relacionadas à
sexualidade, o profissional deve ter uma posição clara a respeito da concepção de
gênero.
É possível perceber no decorrer dos anos os progressos alcançados
pelas mulheres em diversas áreas, entretanto, é perigoso afirmar que vivemos uma
época de liberação e independência, são muitos os avanços e, a cada dia, a mulher
conquista seu espaço na sociedade, mas ainda muito caminho a percorrer até
que se possa falar em igualdade de gênero.
Segundo Aldana (1992), a característica primordial da sexualidade é sua
complexidade e a magnitude que tem sobre nossas personalidades, sentimentos,
sensações, limites e conexões. A mulher precisa conhecer mais a sua sexualidade,
sua historia, localizar o que é prazer, se apropriar dela, aproximá-la de sua vida e
praticar essa conquista.
4.2 - Disfunção Sexual Feminina
De acordo com Abdo e Fleury (2006), a partir dos estudos populacionais
de Kinsey foi reconhecida a multiplicidade das manifestações sexuais, o que
proporcionou a definição de critérios que diferenciavam o que seria ou não
patológico. A partir dessas diferenciações e da associação entre os modelos de ciclo
de resposta sexual de Masters e Johnson (1979) e de Kaplan (1977) estabeleceram-
se os critérios diagnósticos para os transtornos da sexualidade.
27
O modelo do ciclo de resposta sexual desenvolvido por Masters e
Johnson (1979) é composto por quatro fases: excitação, platô, orgasmo e resolução.
Este ciclo é comum aos dois gêneros. Posteriormente, a Associação Psiquiátrica
Americana (APA), acrescenta a fase de desejo ao modelo proposto por Masters e
Johnson, definindo o ciclo de resposta sexual em cinco etapas: desejo, excitação,
platô, orgasmo e resolução.
Segundo Basson (2004) a expressão da sexualidade feminina se
caracteriza pela sedução e entrega, e o desejo sexual é o ponto principal da
resposta sexual. Baseados nesses pressupostos, a autora e seus colaboradores
propuseram um novo modelo de resposta sexual feminina, que ilustra a posição
adotada no presente estudo, em que a mulher inicia a relação com ou sem desejo,
em resposta a um estímulo erótico que desencadeia uma excitação subjetiva com
resposta física, ou decorrência de uma excitação subjetiva que desencadeia a
consciência do desejo. A mulher pode se sentir satisfeita física e emocionalmente
mesmo não atingindo o orgasmo, a satisfação a torna receptiva às próximas
relações sexuais.
Abdo e Fleury (2006) salientam que “a disfunção sexual implica alguma
alteração, em uma ou mais das fases do ciclo de resposta sexual, ou dor associada
ao ato, o que se manifesta de forma persistente ou recorrente”
3
.
Segundo Conceição (2007) o aspecto físico da resposta sexual humana
depende da integridade dos órgãos sexuais, da vascularização desses órgãos e das
conexões dos sistemas nervoso central e periférico, mas as condições emocionais e
culturais do individuo tem estreita ligação com a resposta física. As causas das
alterações no desempenho da resposta sexual não são determinadas somente pelos
órgãos genitais, pela vascularização e pelas conexões nervosas. As causas podem
estar nos problemas emocionais ou nas questões sócio-culturais.
Quanto mais precocemente incidir o comprometimento do ciclo de
resposta sexual, mais prejuízos sofrerá a resposta sexual, o que pode tornar o
quadro clínico, o prognóstico e o tratamento mais complexos.
3
ABDO, Carmita H. N.; FLEURY, Heloisa. J. Aspectos diagnósticos e terapêuticos das disfunções
sexuais femininas .
Disponível em: <http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0101-
60832006000300006&lng=pt&nrm=iso>. Acesso em: 02 Maio 2007. Pré-publicação.
28
De acordo com a Classificação Internacional de Doenças (CID-10), da
OMS (1993),
a disfunção sexual cobre os vários modos nos quais um indivíduo é incapaz
de participar de um relacionamento sexual como ele desejaria. Pode haver
falta de interesse, falta de prazer ou falha das respostas fisiológicas
necessárias para a interação sexual efetiva ou incapacidade de controlar ou
experimentar orgasmo (p. 188).
Segundo Lopes et al (2003) do ponto de vista cronológico as disfunções
sexuais podem ser primárias (quando ocorrem desde o inicio da vida sexual) e
secundárias (quando o comprometimento ocorre após um período de vida sexual
satisfatória). As disfunções sexuais podem ser globais (quando ocorrem em todas as
situações/estímulos sexuais) e situacionais (quando a perturbação acontece apenas
em determinada situação). Toda disfunção sexual deve ser considerada mista
causas orgânicas e causas psicogênicas com predominância de algum desses
fatores. Freqüentemente as disfunções são comórbidas, como por exemplo, as de
desejo e de excitação.
Para Aliaga, Ahumada e Villagrán, Ahumada e Villagrán (2000), os fatores
psicológicos, orgânicos e culturais estão em permanente interação, todo problema a
nível orgânico tem um sentido a nível psicológico e todo conflito a nível psicológico
pode se expressar a nível somático, sendo a cultura o fator determinante do que é
saudável/prejudicial e do que é permitido/proibido.
No referencial consultado e utilizado neste trabalho, uma constante
separação, entre o físico e o psíquico, entre o orgânico e o psicológico, que será
encontrada ao longo do capítulo de revisão bibliográfica. Tal separação não
apresenta, necessariamente, a postura da presente pesquisa, mas, contudo, a
proposta do capítulo é apresentar uma revisão bibliográfica sobre os assuntos aqui
tratados e na literatura foram encontradas essas divisões.
Para Conceição (2007) o exercício da sexualidade é o resultado da
interação dos aspectos físicos, emocionais e culturais. A falha na funcionalidade da
resposta sexual humana pode ter sua origem no orgânico, psicológico ou
sociocultural. As causas orgânicas têm ação direta ou indireta sobre a resposta
sexual, determinando assim a disfunção. Dentre as causas que agem diretamente
sobre a resposta sexual estão as anomalias genéticas ou congênitas, doenças
crônicas, endócrinas ou agudas, as doenças do sistema nervoso central e alguns
29
medicamentos. Em relação às causas emocionais das disfunções sexuais a autora
ressalta que:
A sexualidade desenvolve-se desde o nascimento, ocorrendo por fases que
acompanham o desenvolvimento emocional global. O desenvolvimento da
estrutura emocional faz-se sob a influência das relações afetivas da criança
com os pais, irmãos e adultos significativos da sua vida. A vivência das
fases do desenvolvimento da sexualidade determina as características do
comportamento sexual do futuro adulto. O comportamento de valorização,
indiferença, ansiedade, alegria ou desagrado dos pais, diante das
necessidades da criança, determina a base da formação para o exercício da
sexualidade (CONCEIÇÃO, 2007, p.135).
Como causas emocionais das disfunções sexuais, segundo Conceição
(2007) estão a violência sexual, o incesto, traição do parceiro, abandono, agressão
física ou moral, ressaltando que os mecanismos psicológicos para o
estabelecimento da disfunção são específicos para cada mulher, um acontecimento
pode provocar em algumas mulheres danos profundos e definitivos, enquanto que
em outras mulheres pode provocar apenas uma interferência na atividade sexual,
isso porque as repercussões dos acontecimentos sobre a sexualidade vão depender
muito mais do perfil emocional de cada mulher do que da situação em si.
Segundo Aliaga, Ahumada e Villagrán (2000) algumas situações
traumáticas associadas aos órgãos genitais durante a infância podem ocasionar
disfunções sexuais, pois as mulheres que vivenciam esse tipo de situação associam
suas sensações genitais à dor. Para Fleury (2006), quando o comprometimento
ocorre em umas das etapas do desenvolvimento emocional, a vivência posterior da
sexualidade pode sofrer conseqüências. O comprometimento no desenvolvimento
psicossexual da mulher caracteriza-se pela dificuldade em vivenciar a intimidade,
não com o parceiro, mas consigo mesma, o que impede a experiência de uma
entrega confortável.
Anastasiadis et al (2002) acreditam que a falta de conhecimento sobre a
própria sexualidade, desinformação sobre a fisiologia da resposta sexual, lutas pelo
poder e, acima de tudo, os conflitos conjugais podem desencadear sérios problemas
emocionais nas mulheres, alterando sua resposta sexual. A vigência de mitos e
tabus em relação à sexualidade e algumas crenças religiosas que punem
irracionalmente a mulher também podem afetar de maneira significativa a sua
sexualidade.
Os autores salientam, ainda, que as causas socioculturais que interferem
no desenvolvimento da sexualidade são marcadas pela influência da família, da
30
sociedade e da cultura, pois esses elementos são responsáveis pela transmissão
das regras para o convívio em grupo. Algumas situações estabelecem profundas
marcas de repressão no exercício da sexualidade, enquanto outras, possivelmente
mais dramáticas, não deixam nenhum registro no individuo. Quando a criança ou o
adolescente percebem que decepcionaram o adulto com algum comportamento
ligado à sexualidade, podem vir a desenvolver sentimentos de culpa e medo de
serem rejeitados.
Segundo Aliaga, Ahumada e Villagrán (2000) à complexidade do
diagnóstico individual deve-se acrescentar a complexidade do relacionamento do
casal, pois a sexualidade é um fenômeno que se desenvolve e acontece entre duas
pessoas, o que faz necessário prestar sempre atenção a cada uma das partes dessa
relação e ao tipo de dinâmica que eles estabelecem.
De acordo com Bastos (2003) a disfunção sexual torna o vínculo conjugal
fragilizado. O vaginismo, em particular, afeta a mulher em diversos segmentos da
vida, como nas suas relações interpessoais, sua auto-estima, auto-imagem e
principalmente no relacionamento com seu parceiro. O marido se sente rejeitado,
mas pode se adaptar e ambos podem chegar ao orgasmo sem penetração. O
homem pode vir a desenvolver um quadro de disfunção sexual, como disfunção
erétil ou ejaculação precoce.
Abdo (2004), em estudo sobre a vida sexual do brasileiro, com amostra
de mais de 7000 pessoas, levantou dados que afirmam que 50,9% das mulheres
têm alguma dificuldade sexual.
Segundo Abdo e Oliveira Junior (2002) apesar das disfunções sexuais
serem comuns em mulheres ao longo da vida, há uma deficiência na detecção
dessas disfunções, um dos motivos pode ser o fato de que tanto o dico quanto a
paciente desconhecem, na maioria das vezes, a natureza dessas disfunções ou não
se sentem à vontade para abordar esse assunto. O interesse das mulheres em sua
qualidade de vida sexual vem crescendo a cada dia, assim como a disponibilidade
de novos recursos terapêuticos efetivos, confortáveis e de baixo risco para o
tratamento das disfunções sexuais.
De acordo com Abdo (2004) 32,4% das mulheres não levam suas queixas
sexuais ao médico. Para Scanavino (2006), uma parcela muito significativa de casos
de disfunções sexuais femininas deixa de ser diagnosticada, ocorrendo um
comprometimento da satisfação afetivo-sexual dessas mulheres. Segundo Junqueira
31
et al (2005), geralmente as mulheres procuram o ginecologista para sanar vidas
em relação à sexualidade. Aliaga, Ahumada e Villagrán (2000) acrescentam que o
ginecologista e/ou obstetra é visto pelas pacientes como o profissional mais
apropriado para discutir assuntos ligados à sexualidade.
De acordo com Aliaga, Ahumada e Villagrán (2000), embora haja
consenso nas especialidades médicas que a história sexual é parte integrante de
uma completa avaliação médica, muitos profissionais preferem pular perguntas
sobre esta área, o que dificulta a investigação de problemas sexuais. Dada a
multicausalidade das disfunções sexuais, é necessário um trabalho em equipe
interdisciplinar, onde haja um permanente contato e intercambio entre os
profissionais.
Segundo Fleury (2006) os profissionais da área de saúde que não têm o
hábito de lidar com a sexualidade dificultam a abordagem desse aspecto da vida de
suas pacientes. Os profissionais menos experientes referem ansiedade em relação
ao modo de ouvir e lidar com o que as pacientes dizem. Relatam, também, um
desconforto em trocar idéias com os colegas sobre os desafios próprios dessa área.
Abdo e Oliveira Junior (2002), em estudo recente realizado com 4.753
ginecologistas de todo o Brasil, verificaram que 44,4% dos ginecologistas
entrevistados sempre investigam a saúde sexual de suas pacientes e 49% não se
sentem seguros para abordar questões relacionadas à sexualidade; 83,7% desses
médicos acreditam que as dificuldades sexuais de suas pacientes aparecem
encobertas por queixas relacionadas a outras doenças, o que sugere que um
numero significativo de disfunções sexuais não diagnosticadas e conseqüentemente
não tratadas. Os resultados da pesquisa evidenciam que quanto mais inseguro está
o médico para abordar questões relativas à sexualidade e as disfunções sexuais
menor é a possibilidade de ele investigar esses aspectos. Os ginecologistas
deparam-se e tratam as disfunções sexuais femininas em consultório, independente
de se sentirem seguros ou não, no entanto, aqueles que se sentem “seguros”
investigam espontaneamente, duas vezes mais que os “não seguros”. Os autores
discutem que esse dado aponta para a necessidade de maior esclarecimento
médico e das pacientes sobre as disfunções sexuais.
Para Junqueira et al (2005), as dificuldades dos médicos no manejo da
sexualidade demonstram a deficiência das escolas médicas. Gonçalves (2006)
pontua que a graduação na escola de medicina em pleno terceiro milênio não inclui
32
um estudo mais amplo da sexualidade, tendo esta despertado o interesse da área
médica pouco tempo. As mudanças sociais e as influencias culturais impuseram
essa questão central da vida humana, portanto, é preciso conhecer e atender à
demanda.
De acordo com Ferreira e Souza (2007a) vários fatores colaboram para a
relevância dos transtornos da sexualidade feminina: as mudanças nas expectativas
sexuais das mulheres, maior liberação sexual feminina atestada nos dias atuais e
informações constantemente veiculadas pela mídia sobre o tema. Os avanços
progressivos da indústria farmacêutica, a crescente sensibilidade de alguns
profissionais de saúde quanto à sexualidade feminina e, acima de tudo, a alta
prevalência das disfunções sexuais femininas (ABDO, 2004) são importantes fatores
que indicam a importância do tema.
Um aspecto que chama atenção, a partir da literatura consultada, é o
crescente interesse das diversas áreas pela sexualidade e os problemas ligados a
ela. Cada vez mais, a especialidades se unem com o intuito de contribuir para o
tratamento das disfunções sexuais. A interdisciplinaridade pressupõe que os
profissionais tenham suficiente conhecimento das especialidades afins e que
possam exercer uma interação. Significa uma interface entre diversas disciplinas,
que se comunicam e se articulam. A terapia conduzida por uma equipe que interage
e se comunica produz maior adesão da paciente ao tratamento, além de aumentar
as possibilidades de o resultado final ser satisfatório.
Segundo Fleury (2006) no atendimento da mulher com disfunção sexual a
avaliação psicológica deve abranger um referencial ampliado, que inclui aspectos
orgânicos, psicológicos, sociais, culturais e relacionais para que seja possível
contextualizar a experiência sexual e os possíveis fatores envolvidos na disfunção.
Ao utilizar tal modelo ampliado de saúde sexual, a Psicologia traz subsídios para o
atendimento interdisciplinar, sendo capaz de identificar fatores importantes que
podem ser abordados na avaliação da mulher com disfunção. Esses fatores podem
ser divididos em dimensões psicológicas, psicossocial, sociocultural e relacional.
Sobre a atuação do fisioterapeuta no tratamento das disfunções sexuais,
Etienne e Waitman (2006) salientam que, embora recente, a atuação da fisioterapia
na área da ginecologia vem promovendo benefícios à saúde da mulher com queixas
sexuais. O fisioterapeuta deve analisar e avaliar o conjunto do organismo do
paciente, levando em consideração toda a biomecânica e bitos do cotidiano, além
33
de aspectos psíquicos e emocionais de cada paciente. A fisioterapia pode
possibilitar à paciente reconhecer as sensações de seu corpo, fazendo-a perceber a
diferença entre desejo miccional e desejo sexual, o que pode promover, em alguns
casos, o aumento da libido.
As autoras ressaltam ainda que o fisioterapeuta deve estar atento e
informado para poder esclarecer questões relativas à sexualidade e encaminhar
para consultas médicas e acompanhamento psicoterápico sempre que necessário.
Ele pode também exercer o papel de “controlador”, no bom sentido, verificando
quando preciso, se a paciente está seguindo as orientações médicas.
O ginecologista também possui um papel central no tratamento das
disfunções sexuais, segundo Gonçalves (2006) as queixas sexuais no consultório
médico são incontáveis, muitas vezes elas podem ser ocultas, mas dependendo do
manejo do ginecologista elas podem tornar-se evidentes. A abordagem da
sexualidade feminina pelo ginecologista ainda é pobre, difícil e praticamente
“impraticável”. O ginecologista, na prática clínica, não pode deixar de abordar
questões freqüentes relacionadas às dificuldades sexuais, como: desinformações e
preocupações sexuais; falsas concepções sobre a sexualidade; ansiedade; perda ou
diminuição da auto-estima; deterioração do relacionamento do casal e inadequações
sexuais. O ginecologista deve abster-se de analisar e tratar, pelo fato de não estar
preparado ou habilitado para conduzir, casos de desvios sexuais, aversão sexual,
disfunções sexuais de longa duração ou com causa psicogênica.
Segundo Auge (2006) cabe ao ginecologista avaliar fisicamente a
paciente, a integridade do ambiente hormonal e sua repercussão sobre o organismo,
a fim de possibilitar o restabelecimento funcional. A história médica, sexual e
psicológica deve ser feita detalhadamente, além de exames físicos, laboratoriais
específicos para uma completa avaliação da disfunção sexual.
Para Gonçalves (2006) a sexualidade deve constituir uma parte rotineira
da consulta ginecológica. O ginecologista deve diagnosticar e tratar as causas
orgânicas e dar um suporte terapêutico breve, não esquecendo que a queixa deve
ser entendida a partir do contexto existencial de cada paciente, pois para
compreender o indivíduo é preciso observá-lo na dinâmica de sua época, sua cultura
e seu círculo familiar e social.
Sobre a clínica urológica, Oliveira (2006) salienta que o urologista está
habituado a tratar disfunções sexuais masculinas, mas é fundamental que ele
34
conheça os fatores causadores das disfunções sexuais femininas, que muitas
vezes ele se depara com um paciente com disfunção erétil ou ejaculação precoce,
cuja causa principal seja uma disfunção sexual de sua parceira, que são
freqüentes problemas sexuais comuns ao casal. uma alta incidência de
disfunções nos parceiros de mulheres disfuncionais, o que aponta para a
necessidade da avaliação do casal, sempre que se pretende tratar uma disfunção
sexual.
4.3 - Vaginismo
4.3.1 - Conceituação, etiologia e classificação
O vaginismo não constitui uma alteração específica da resposta sexual
humana, mas dificulta ou impede o funcionamento do mesmo.
De acordo com a Classificação Internacional de Doenças (CID-10)
proposta pela OMS (1993):
F52.5. Vaginismo não-orgânico – espasmo dos músculos que circundam a
vagina, causando oclusão da abertura vaginal. A penetração do pênis é
impossível ou dolorosa. Vaginismo pode ser uma reação secundária a
alguma causa local de dor (OMS, 1993, p. 190).
A Associação Psiquiátrica Americana (2005, p. 486), inclui o vaginismo
nos transtornos sexuais dolorosos e o classifica da seguinte forma:
306.51 Vaginismo contração involuntária, recorrente ou persistente, dos
músculos do períneo adjacentes ao terço inferior da vagina, quando é
tentada a penetração vaginal com pênis, dedo, tampão ou especulo.
Segundo Valins (1994) o vaginismo tornou-se relevante como uma
condição identificável e tratável a partir dos estudos de Masters e Johnson, na
década de 50.
De acordo com Masters e Johnson (1979) o vaginismo é uma síndrome
psicofisiológica que afeta a liberdade de reação sexual da mulher pelo impedimento
sério, ou total, da função do coito. A contração espasmódica da abertura vaginal é
um reflexo completamente involuntário estimulado por tentativas imaginadas,
antecipadas ou reais, de penetração vaginal.
Quanto à etiologia, Kaplan (1977) afirma que o vaginismo pode ser
associado à inibição social geral e a inibição orgásmica e deve ser diferenciado da
35
simples atitude fóbica de evitar a penetração e das condições físicas que impedem a
entrada da vagina.
O vaginismo é uma resposta condicionada, que provavelmente resulta da
associação de dor e medo das tentativas de penetração vaginal ou mesmo
de fantasias dessa penetração. O estímulo original nocivo pode ser a dor
física ou a angústia psicológica (KAPLAN, 1977, p. 393).
A autora salienta ainda que dentre as causas físicas, as patologias dos
órgãos pélvicos que causem dor podem deixar a base para o desenvolvimento de
uma resposta de vaginismo. Geralmente as condições físicas não afetam a entrada
da vagina, mas como causam dor na penetração ou durante a relação sexual,
podem desencadear contingências negativas que podem dar origem ao vaginismo.
Kaplan (1977) fala de um conceito multicausal de vaginismo, onde
qualquer estímulo adverso que esteja associado à relação sexual ou com a
penetração pode ser responsável pela aquisição da resposta de vaginismo, não
importa se esta contingência é real ou fantasiosa, ou se é do conhecimento da
paciente.
Segundo Valins (1994), o vaginismo não é uma doença ou disfunção
física, é uma condição emocional, com causas psicológicas, que se manifestam
através de uma reação física. Pode resultar de uma diversidade de conflitos, cujas
origens podem variar de psicológicas a sociais. O vaginismo não está relacionado à
sexualidade em si, mas ao significado da intimidade, aos conflitos ligados à
dependência, confiança da mulher. O vaginismo tem a ver com a relação da mulher
com a auto-estima, a capacidade de dar, receber e desejar.
A autora ressalta ainda que algumas origens do vaginismo podem ser
associadas a algum distúrbio no relacionamento parental. Quando os pais sentem-
se à vontade com sua própria sexualidade, podem transmitir para os filhos
mensagens positivas sobre sexo, o resultado dessa comunicação pode promover
um crescimento saudável em relação ao sexo.
Para Masters e Johnson (1979), o vaginismo pode ser causado por uma
variedade de fatores psicológicos e sociais, como educação religiosa castradora,
impotência do marido, vivências de violação relacionadas à sexualidade.
De acordo com Cavalcante (2007), as causas mais freqüentes o as
educacionais, com informações distorcidas sobre sexo, essas informações
36
geralmente são impregnadas de valores religiosos que associam o sexo a pecado,
algo perigoso e nojento.
Segundo Rosseto et al (2006) a religião faz parte da compreensão do
humano. Ela é inserida no momento de compreensão do mundo. Durante a história
da humanidade a religião estabeleceu regras relacionadas à sexualidade, o que
associou o sexo à reprodução. Para o Cristianismo, por exemplo, o sexo só deve ser
praticado no casamento. Para muitas religiões o prazer é responsável por distanciar
o ser humano das coisas de Deus.
Para Lopes et al (2003), o vaginismo é quase puramente de fundo
psicossocial, a não ser quando decorre, secundariamente, de uma dispareunia
orgânica o-tratada. Os fatores psicossociais estão geralmente ligados a educação
sexual castradora, punitiva e/ou religiosa e a vivências sexuais traumáticas.
De acordo com Ferreira e Souza (2007a) a etiologia do vaginismo ainda
não está bem estabelecida, porém várias condições médicas, bem como fatores
psicológicos e interpessoais, podem causar o aparecimento dessa disfunção sexual.
Para Leiblun e Pervin (1980) a etiologia do vaginismo não tem nenhum
padrão único que se destaca como definitivo. Os autores acreditam que diversos
fatores podem ocasionar o desenvolvimento do vaginismo. Para eles há bastante
heterogeneidade nas mulheres que sofrem dessa disfunção sexual, essas
diferenças estão presentes nas características pessoais, sociais e familiares dessas
mulheres como também nas suas relações com a sexualidade.
Em pesquisa realizada no Brasil, Zampieri (2003) ressalta a importância
de ampliar a visão sobre o vaginismo, considerando, além de fatores biológicos,
sociais e culturais, a história de vida individual de cada mulher, esta concepção
ilustra a posição deste estudo acerca do vaginismo:
O vaginismo desenvolve-se na intercomunicação de fatores biológicos,
sociais, culturais com uma história individual em um determinado lugar e
tempo histórico, expressando-se em espasmos involuntários dos músculos
que circundam a vagina. As explicações relativas ao vaginismo seriam,
portanto, inscritas em histórias de vida individuais, que ao serem
abordadas, expõem regularidades por contextos sociais partilhados e
negociados, que dão significado à experiência. (ZAMPIERI, 2003, p.21)
Quanto à classificação, Valins (1994) ressalta que o vaginismo pode ser
seletivo, quando acontece com um parceiro específico; ou não seletivo, quando a
dificuldade acontece com qualquer parceiro.
37
Cavalcanti e Cavalcanti (2006) classificam o vaginismo como: primário e
secundário. No vaginismo primário, a dificuldade sexual está presente desde a
primeira tentativa de penetração. No vaginismo secundário ela é decorrente de
algum trauma, e acomete mulheres que antes tinham uma vida sexual normal. O
vaginismo primário freqüentemente tem sua origem em causas psicossociológicas.
4.3.2 - A mulher com vaginismo
Falar sobre os traços de personalidade de mulheres com vaginismo
depõe contra o referencial adotado na presente pesquisa, que a Fenomenologia
faz uma crítica ao modelo causal, entretanto o capítulo propõe-se a realizar uma
revisão de literatura sobre o vaginismo e optou-se por incluir as informações sobre o
tema, encontradas no material consultado.
Segundo Real (2005) as mulheres com vaginismo têm características
próprias que favorecem a manutenção da disfunção sexual. Elas geralmente são
muito determinadas e decididas, gostam de ter nas mãos o comando da relação,
não costumam falar com facilidade sobre suas dificuldades, e muitas vezes o
percebem seus medos e receios. Elas não permitem a penetração do pênis em sua
vagina da mesma forma como “se fecham” para toda e qualquer coisa que possa
invadir sua vida. Elas apresentam uma grande dificuldade interpessoal e um medo
intenso de sofrer. As mulheres com vaginismo protegem-se intensamente e
constantemente da dor.
Segundo Masters e Johnson (1979), todas as mulheres tratadas de
vaginismo em sua Fundação tinham como característica uma falta de informação
sobre expectativas sexuais, nenhuma tinha noção dos níveis naturais de reação
sexual e educação para compreender os aspectos fisiológicos de sua disfunção.
Na pesquisa realizada por Bastos (2003), das 15 mulheres entrevistadas,
90% desconheciam a sua anatomia, a sua queixa (vaginismo) e questões sobre o
orgasmo. Todas elas relataram muita angustia e questionamentos.
Kaplan (1977) fala que o medo de homens, a ignorância sobre o sexo, a
vivência em lares onde a rigidez evoca sentimentos de culpa e ansiedade em
relação à sexualidade podem ocasionar o vaginismo.
Segundo Valins (1994) apesar da semelhança dos sinais psicológicos,
não se pode afirmar que um determinado tipo de personalidade ou desordem
38
psicológica predisponha ao vaginismo, entretanto, evidências clínicas apontam que
mulheres ansiosas e fóbicas estão mais presentes entre as mulheres vagínicas.
Friedmann, citado por Cavalcanti e Cavalcanti (2006), descreve três tipos
de personalidade de mulheres vagínicas:
“Walkiria” conflito entre o amor e a agressividade. As mulheres
vagínicas autoritárias e agressivas dificilmente se submetem ao
parceiro masculino.
“Bela Adormecida” a delicadeza dessas mulheres encobre uma vida
de mimos e chantagens emocionais, somada a uma educação
sexualmente castradora. A sexualidade nessas mulheres está
dormindo, está reprimida.
“Abelha rainha” conflito entre ser mulher e ser mãe, os homens são
apenas reprodutores. Essas mulheres não estão interessadas no ato
sexual em si, o que importa é a gravidez.
De acordo com Dolto (1982), a mulher com vaginismo tem geralmente a
aparência bem feminina, é incapaz de ser agressiva e trata o homem que ama com
carinho e ternura.
Wolfromm (1965) acredita que o vaginismo parece ser mais comum em
pacientes portadoras de dois tipos de personalidade: autoritárias e excessivamente
frágeis e delicadas, sendo que o medo também é uma marca da personalidade
dessas mulheres. As mulheres vagínicas autoritárias dificilmente se submetem ao
parceiro masculino, elas não se deixam conquistar pelo amor, para não sentirem-se
inferiorizadas. A relação é marcada pela luta em busca do poder conjugal.
No estudo realizado por Bastos (2003), no que diz respeito à auto-
imagem, as mulheres se descrevem como: medrosas, inseguras, inferiores,
ansiosas, impacientes, nervosas, depressivas, complicadas, frustradas e
angustiadas.
Segundo Kaplan (1977) a vagínica pode não ter problemas de desejo,
excitação e orgasmo. Ela pode ser responsiva sexualmente, ter lubrificação e
considerar a atividade sexual sem penetração muito gratificante. De acordo com
Bastos (2003) o vaginismo é uma disfunção sexual na qual um comprometimento
da capacidade de relaxamento da musculatura circunvaginal, a mulher com
vaginismo consegue ter um relacionamento sexual prazeroso, com a garantia que
não haja penetração.
39
Serra (2008) numa revisão de literatura sobre a prevalência de traços de
personalidade em mulheres com vaginismo, a partir de artigos e livros sobre o tema,
concluiu que: o medo e a ansiedade são as características mais freqüentes dessas
mulheres, além de sintomas depressivos, baixa auto-estima e personalidade
infantilizada. Estes traços podem constituir-se como preditores do vaginismo,
favorecendo o desenvolvimento da disfunção, pois influenciam diretamente na
resposta física de evitar a penetração.
As mulheres com vaginismo apresentam emoções negativas que as
impede de buscar orientações e tratamento. A dificuldade para procurar ajuda vem
do medo de serem ridicularizadas e de perder o auto-respeito. Para muitas delas,
revelar um problema sexual significa admitir um fracasso.
4.3.3 - O casal com vaginismo
Segundo Gomes (2005) o vaginismo apresenta muitas razões
inconscientes que se somam à história de desenvolvimento psicossexual da mulher,
com raízes em conflitos vividos ao longo do desenvolvimento, estes conflitos que
não são devidamente elaborados acabam se expressando na manifestação do
problema. Mas, para que o vaginismo se manifeste existe um contexto de uma
mulher com uma sexualidade “fragilizada” e um homem que traz a mesma vivência,
devido às identificações inconscientes das historias de vida e de desenvolvimento
sexual.
A autora ressalta ainda que as mulheres com problemas de disfunção
sexual escolhem inconscientemente homens que também apresentam problemas
parecidos. O encontro entre eles e a busca pelo ato sexual, que tende a falhar, não
é coincidência ou acaso. A mulher com vaginismo se nega a enfrentar o conflito em
sua relação familiar parental que repercutiu em seu desenvolvimento sexual até a
vida adulta, ela precisa então escolher um parceiro que ajude a manter um sexo
vaginal dificultado. Então ela busca a nível inconsciente um homem capaz de
preservá-la da penetração e geralmente esse homem também tem uma sexualidade
prejudicada por algum evento traumático da infância. Os homens dessas mulheres
não estão dispostos a forçá-las à penetração.
Sobre a escolha da parceria, Real (2005, p.58) fala que:
40
A escolha da parceria conjugal está presente nas relações interpessoais e é
movida por necessidades inconscientes que marcam a vida de mulheres e
homens desde seus primeiros vínculos, influenciando o desenvolvimento da
sexualidade nas diferentes etapas da vida. O ambiente aonde mulheres e
homens vivem e foram criados, bem como as informações que receberam, o
diálogo que estabeleceram facilita e também pode dificultar o processo
saudável ou doentio dos relacionamentos afetivos e sexuais.
Quando escolhem os parceiros, os medos inconscientes das vagínicas
influenciam muito, geralmente elas escolhem parceiros dóceis e educados, que são
amigos incansáveis, que sempre valorizam as decisões da mulher em detrimento
das suas. Provavelmente esses homens foram educados sem falar sobre
sexualidade.
Para Wolfromm (1965), o vaginismo é uma doença que nasce de um
encontro sutil de duas personalidades peculiares, pares equilibrados. Em alguns
casos os parceiros contribuem para a manutenção do vaginismo na mulher, devido a
seus medos e ansiedades não resolvidas sobre sexo.
De acordo com Bastos (2003) independente das causas, o vaginismo se
apresenta como um processo de condicionamento, o que o mantém é a esquiva
bem sucedida, esses sintomas são “mantidos” também através da tolerância e
insegurança dos maridos. Os parceiros das mulheres vagínicas são em geral
bonzinhos e tolerantes. Mesmo na situação de vaginismo, é possível o casal manter
um bom relacionamento sexual. As relações sexuais prazerosas, sem penetração
podem retardar a busca de tratamento.
Segundo Real (2005) quanto mais tempo passa, mais dificuldades o casal
tem. A mulher vai ficando hostil e intensificando sua raiva. O homem fica cada vez
mais inseguro, podendo apresentar problemas sexuais, como perda de ereção e
ejaculação rápida, já que não tem momentos de aprendizagem para conseguir
controlar a ejaculação. Devido a essas contingências o desejo vai se tornando
escasso e até as trocas de carícias vão diminuindo. O sexo então vai se tornando
distante e não é prioridade. Ambos não têm insight e quando se dão conta do que
esta acontecendo serve apenas para justificar os problemas e não para modificar os
comportamentos. Eles têm medo das mudanças e instabilidades.
Este casal mantém-se equilibrado em suas disfunções sexuais. Os
vínculos que os sustentam o mecanismos de proteção ao que não conseguem
tolerar. Eles se beneficiam da doença. Os relacionamentos nos casos de vaginismo
são longos porque o casal necessita preservar essa disfunção.
41
No estudo realizado por Bastos (2003), a maioria das quinze mulheres
entrevistadas elogiou o parceiro e a relação a dois, mas com a evolução do
tratamento começaram a surgir as questões do casal que de alguma forma pareciam
estar escondidas atrás do sintoma, com o decorrer do tratamento, cinco mulheres
caracterizaram como bom o relacionamento sexual com o parceiro e sete como ruim.
Sobre este aspecto a autora salienta:
Parece que um pacto entre o casal, em torno do sintoma que os
mantinha unidos, pois ao final do tratamento quando é possível manter
relações sexuais com penetração, partes dos casais tratados e
entrevistados apresentaram graves conflitos no relacionamento, culminando
em sérias crises e até mesmo em separação. Quando a mulher não tem
mais o impedimento à relação sexual com penetração, parece então surgir
uma discórdia conjugal, pois será evidenciada a insegurança e ansiedade
do parceiro (BASTOS, 2003, p. 87).
A autora pontua que tanto o homem quanto a mulher estão fragilizados,
pois são anos de disfunção sexual e conflitos internos, chamando atenção para a
importância de considerar a dinâmica conjugal e existencial do casal durante o
tratamento de vaginismo. O terapeuta deve trabalhar os primeiros sinais de discórdia
a partir da melhora da mulher.
4.3.4 - Incidência, diagnóstico e intervenções
Nery (1984), numa pesquisa sobre incidência e tratamento das disfunções
sexuais levantou que 17% das mulheres, atendidas em clinicas por psicólogos entre
1979 e 1981 no estado de São Paulo, apresentaram queixas de vaginismo.
Num estudo realizado com 182 mulheres atendidas pelo Departamento de
Obstetrícia e Ginecologia do Hospital Clinico da Universidade do Chile, Aliaga,
Ahumada e Villagrán (2000) descrevem que num período de oito anos entre 1990 e
1998, 16,5% das mulheres atendidas na Unidade de Sexualidade Humana referiram
vaginismo e/ou dispareunia.
Segundo dados do Projeto Sexualidade da Faculdade de Medicina da
Universidade de o Paulo (PROSEX), entre 1993 e 1998, 3,1% dos casos de
disfunção sexual feminina atendidos no PROSEX eram de vaginismo (Abdo, 2001).
Astolfi (2002) citado por Zampieri (2003) atesta que 20% das consultas
realizadas em Buenos Aires com mulheres entre 17 e 66 anos referiam dispareunia,
vaginismo e matrimônio não consumado por vaginismo.
42
Junqueira et al (2005) realizaram um levantamento dos casos de terapia
sexual atendidos no Setor de Reprodução Humana do Hospital das Clinicas da
Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto entre janeiro e outubro de 2004. Foram
atendidas 57 mulheres, das quais oito (14%) apresentaram queixa de vaginismo.
Ferreira et al (2007b) realizaram um estudo entre abril e maio de 2004 no
Ambulatório de Planejamento Familiar do Centro de Atenção à Mulher (CAM) de
Recife. Das 100 mulheres atendidas, 1% referiu vaginismo.
São poucas as pesquisas que fornecem dados relacionados à incidência
do vaginismo no Brasil, há uma grande deficiência de registros estatísticos, o que
impossibilita uma definição do exato percentual de freqüência.
Segundo Ferreira et al (2007b) embora tenha acontecido nos últimos dez
anos um crescente aumento de estudos epidemiológicos sobre as disfunções
sexuais femininas, parece não ter havido avanços na abordagem empregada para
avaliar o problema, dificultando a comparabilidade dos resultados. Os estudos não
são baseados num sistema de classificação comum que possibilite comparações
entre os resultados encontrados. As grandes variações e discrepâncias na
prevalência das disfunções sexuais femininas nos diferentes estudos podem dever-
se à falta de utilização de critérios diagnósticos explícitos.
Sobre isso, Ferreira et al (2007ª, p. 694) pontuam que:
apesar da alta prevalência das disfunções sexuais femininas, a sua
compreensão ainda não está suficientemente estabelecida. Novos estudos
precisam ser realizados para refinar o entendimento sobre as taxas de
incidência das disfunções sexuais femininas, usando amostras
populacionais estratificadas e representativas e critérios diagnósticos
claros, acurados e de consenso.
Em relação ao diagnóstico, Masters e Johnson (1979) ressaltam que o
mesmo pode ser estabelecido através da realização de um exame pélvico direto.
O exame ginecológico, além de evidenciar a disfunção pode também indicar a
intensidade do vaginismo.
Segundo Lopes et al (2003) o exame ginecológico é necessário em
mulheres com vaginismo, pois leva ao diagnóstico definitivo pela observação de
contrações espasmódicas da musculatura vaginal e perineal durante o toque (de
modo involuntário). O vaginismo poderá ser total, não permitindo o toque, ou parcial,
com a possível introdução do dedo do ginecologista, que, somando-se à percepção
43
das contrações da musculatura do terço externo da vagina, contribui para o
diagnóstico.
Lopes et al (2003) ressaltam que não ligação entre o vaginismo e o
ciclo da resposta sexual, pois muitas mulheres com essa disfunção podem
apresentar desejo, excitação e orgasmo preservados. A mulher com vaginismo,
quando procura ajuda médica, geralmente ainda tem desejo, excitação e alcança
orgasmo, por esse motivo o resultado do tratamento psicossexológico para
vaginismo de causa psicológica é muito favorável quando efetuado por profissional
com treinamento em sexologia clínica. As dilatações cirúrgicas (himenotomia ou
perineotomia) são inadequadas e podem levar a conseqüências desastrosas
(frustrações enormes de expectativa favorável, cicatrizes etc.), assim como a
simples (e única) orientação de um lubrificante vaginal, relaxante muscular ou
ansiolítico.
Para Zampieri (2003), o tratamento de vaginismo deve incluir a família,
investigando como são estabelecidas as interações e os padrões de comunicação
entre os membros. Para que a mulher consiga reconstruir a vida sexual é preciso
compreender o processo de desenvolvimento do vaginismo através de histórias
particulares. Deve-se dar destaque ao padrão de comunicação familiar, aos
contextos social e histórico nos quais elas se desenvolveram como também às
experiências sexuais vividas por esta mulher.
A seguir serão apresentadas algumas técnicas e exercícios utilizados no
tratamento do vaginismo.
• Dessensibilização Sistemática
É aplicada com o objetivo de expor a paciente progressivamente em
situações que causam ansiedade. A cada passo a paciente vai dessensibilizando,
até que consiga eliminar sua ansiedade nas situações que antes a deixavam
ansiosa. Para determinadas pacientes a dessensibilização é cil, mas para outras é
um processo difícil, por isso é necessário fazer algumas alterações para adequar a
técnica a cada paciente.
Segundo Oliveira (2001) as cnicas de dessensibilização sistemática
devem ser empregadas depois que a paciente tiver controle corporal suficiente para
conseguir um bom resultado de relaxamento. Esses procedimentos visam eliminar
44
as emoções negativas dessas mulheres em relação ao coito e à penetração, para
que seja possível conter a contração dos músculos perivaginais.
Rosseto et al (2006), num trabalho que buscou entender a contribuição da
terapia sexual na situação de vaginismo a partir da compreensão da influência e das
implicações da religião na construção e resolução da queixa, concluíram que a
forma como os valores religiosos são incorporados podem dificultar a terapia sexual
e a execução de exercícios devido a significados negativos que a paciente pode ter
atribuído a essas técnicas. Portanto, não se pode evoluir na introdução de cnicas
sem antes abordar o significado desses exercícios para a paciente, quais
pensamentos, sentimentos e atitudes surgem ao pensar na realização das técnicas.
Exercícios de Kegel (1948)
Surgiram na década de 50 com o intuito de tratar mulheres com
incontinência urinária devida à tensão. Os exercícios de Kegel podem ser de
contração, de palpitação ou tremulação, de sucção e de expulsão. Nos exercícios a
mulher contrai e relaxa a musculatura da vagina, um movimento parecido com o que
se tenta parar o fluxo da urina.
• Exercícios Sexuais (Kaplan, 1977)
Prescrição de experiências eróticas específicas para cada tipo de
disfunção sexual. O objetivo é melhorar o funcionamento sexual e a interação entre
o casal, podendo assim alterar padrões de comportamentos que levaram a
ansiedades sexualmente destrutivas. Kaplan instruía seus pacientes através de
desenhos, pois achava que a descrição verbal poderia limitar a compreensão dos
exercícios.
• Foco Sensorial (Masters e Johnson, 1979)
Esta técnica busca enriquecer a relação do casal, enaltecendo a troca de
sensações eróticas, a sensualidade, os sentidos em geral e a verbalização, a fim de
descobrirem as preferências de cada um.
45
• Exercícios fisioterápicos (Etienne e Waitman, 2007)
Cinesioterapia exercícios para a normalização do tônus muscular
através de relaxamento dos músculos do assoalho pélvico e dos músculos
acessórios (adutores da coxa, obturadores interno e externo, piriformes, glúteos,
abdominais e lombares). O relaxamento pode ser realizado através de
alongamentos e exercícios respiratórios, obedecendo a necessidade de cada caso.
Biofeedback é toda e qualquer abordagem que a fisioterapia utiliza para
conscientizar a paciente de seu corpo e suas funções.
Eletroestimulação recurso capaz de recrutar as fibras musculares de
forma mais rápida. Nos casos de vaginismo a eletroestimulação tem como objetivo
principal o alívio da dor e o relaxamento dos músculos do assoalho pélvico.
Cones vaginais são empregados para o fortalecimento contra
resistência dos músculos do assoalho pélvico. Quando esses músculos estão
enfraquecidos, a sensação de prazer pode diminuir comprometendo o desejo, a
excitação e o orgasmo. são recomendados para o vaginismo depois de
tratamento terapêutico.
Técnicas de Dessensibilização e Massagem Perineal exercícios para
relaxar os músculos do assoalho pélvico para facilitar a penetração em função das
contrações involuntárias apresentadas pelas mulheres com vaginismo, elas
precisam reconhecer esses movimentos para corrigir a ação muscular. Essa técnica
também deve ser desenvolvida em conjunto com o acompanhamento terapêutico.
As autoras atentam para o fato de que os exercícios e cnicas sexuais
devem ser aplicados por profissionais especializados, para que a utilização dos
mesmos não venha a trazer efeitos desastrosos para os pacientes. Aliado às
técnicas e exercícios deve ser feita uma correção dos hábitos cotidianos como
alimentação e postura. Devem ser dadas orientações sobre a resposta sexual, sobre
a anatomia e fisiologia dos genitais internos e externos a fim de desmistificar
conceitos e crendices que contribuem para a manutenção da disfunção sexual. É
importante considerar os tabus e repressões sexuais existentes que possam
dificultar o tratamento da disfunção. O fisioterapeuta deve ser cauteloso ao propor os
recursos, para não agredir os valores da paciente.
De acordo com Protti e Rodrigues Jr (2008) o tempo de reversão do
quadro de vaginismo varia de acordo com a adesão do casal ao tratamento.
46
Salientam ainda que, após a remoção dos espasmos a partir das técnicas utilizadas,
deve-se prosseguir o tratamento psicoterapêutico onde devem ser trabalhadas as
fantasias, tabus sexuais e distorções sobre as questões relacionadas à sexualidade.
Segundo os autores, todas as técnicas, se bem empregadas, apresentam bons
resultados e cabe ao terapeuta perceber o momento adequado para a aplicação das
mesmas levando em consideração a resposta de cada paciente, pois os resultados
podem depender de características individuais.
De acordo com Valins (1994) ainda mais que a terapia, o terapeuta tem
participação importante nos rumos do tratamento, devendo adequar seu método a
cada indivíduo, colocando sempre as necessidades da mulher em primeiro plano.
Segundo Kaplan (1977, p. 397) o sucesso da terapia depende da
habilidade do clínico em lidar com o elemento fóbico, a autora salienta ainda que “o
tratamento envolve a elucidação e a solução dos conflitos inconscientes que jazem
sob os medos da paciente”.
De acordo com Zampieri (2003) o tratamento deve incluir a família e o
terapeuta deve investigar como são estabelecidas as interações e os padrões de
comunicação entre os membros.
Cavalcante (2007) fala da possibilidade de criar novas propostas de
tratamento, onde se pode trabalhar: o desenho como técnica projetiva; o retrato do
corpo e da mente diante da queixa; as percepções sobre a vagina; o trabalho
corporal; a dilatação vaginal; a inclusão do parceiro e o trabalho em grupo. As
etapas devem ter um intervalo de uma semana.
A terapia sexual deve ter uma proposta inovadora e rica em
procedimentos terapêuticos, alem de se basear numa fundamentação teórica bem
alicerçada. O terapeuta deve dar esclarecimentos à paciente acerca dos
procedimentos que serão realizados, mostrando sempre a importância da
participação do parceiro na terapia.
Segundo Cavalcanti e Cavalcanti (2006), o vaginismo talvez seja a mais
benigna de todas as disfunções sexuais e seu tratamento geralmente tem alto
percentual de êxito.
47
4.4 - Qualidade de Vida
De acordo com Fleck et al (2000) o interesse em conceitos como “padrão
de vida” e “qualidade de vida” foi inicialmente partilhado por cientistas sociais,
filósofos e políticos. A preocupação com o conceito de qualidade de vida está
relacionada a um movimento dentro das ciências humanas e biológicas com o
intuito de valorizar parâmetros mais amplos que o controle de sintomas, o aumento
da expectativa de vida ou a diminuição da mortalidade.
Segundo Minayo et al (2000), o termo qualidade de vida aparece sempre
com sentido bastante genérico e é discutido sob os mais diferentes olhares tanto na
ciência quanto no senso comum, seja no ponto de vista objetivo ou subjetivo, seja
em abordagens individuais ou coletivas. O patamar material mínimo e universal para
se falar em qualidade de vida está relacionado à satisfação das necessidades mais
elementares da vida humana: alimentação, acesso a água potável, habitação,
trabalho, educação, saúde e lazer; elementos materiais que têm como referência
noções relativas de conforto, bem-estar e realização individual e coletiva.
Fleck (2008) acredita que na ultima década houve um crescimento na
produção científica sobre qualidade de vida, apesar de algumas questões
psicométricas e conceituais ainda não terem sido resolvidas, o aumento das
pesquisas confirma o interesse nessa área.
Para Rocha (2000) conceituar qualidade de vida tem se mostrado um
desafio contínuo e medi-la assume contornos de pretensões maiores.
Fleck (2008) revisou alguns dos principais problemas conceituais em
qualidade de vida e concluiu que a busca pela operacionalização da qualidade de
vida e pelo desenvolvimento de instrumentos capazes de medi-la exige um empenho
a nível conceitual, metodológico, psicométrico e estatístico que tem ocasionado um
avanço importante em novas tecnologias de desenvolvimento de instrumentos no
aprimoramento dos modelos teóricos e a consciência da relevância dos aspectos
sociais e transculturais.
O autor cita seis grandes vertentes que convergiram para o
desenvolvimento do conceito de qualidade de vida: os estudos de base
epidemiológica sobre a felicidade e o bem-estar; a busca de indicadores sociais; a
insuficiência das medidas objetivas de desfecho em saúde; a psicologia positiva; a
satisfação do cliente e o movimento de humanização da medicina. Para ele o
48
conceito de qualidade de vida trouxe uma enorme contribuição para a saúde, devido
a sua natureza abrangente e sua ligação com o que o próprio indivíduo sente e
percebe. O conceito de qualidade de vida está relacionado a um dos anseios
básicos do ser humano, viver bem e sentir-se bem.
Ainda sobre a introdução do conceito de qualidade de vida na área da
saúde, o autor fala que o conceito encontrou outros construtos afins, que se
desenvolveram de forma independente e cujos limites não são claros. Uma parte
desses construtos é distorcida pela visão eminentemente biológica e funcional
(como por exemplo, status de saúde, status funcional e incapacidade/deficiência).
Uma outra parte tem uma visão social e psicológica (bem-estar, satisfação e
felicidade), e um outro grupo com origem econômica, baseia-se na teoria da
preferência (utility):
A qualidade de vida apresenta intersecções com vários desses conceitos,
mas seu aspecto mais genérico (a saúde é apenas um de seus domínios)
tem sido apontado como o seu grande diferencial e sua particular
importância (FLECK, 2008, p. 21).
A conceituação da qualidade de vida ainda apresenta um campo de
debate. Alguns autores reconhecem a complexidade de conceituá-la de forma
adequada. Para o grupo WHOQOL da Organização Mundial de Saúde, qualidade de
vida é: A percepção do indivíduo de sua posição na vida, no contexto da cultura e
sistemas de valores nos quais ele vive e em relação aos seus objetivos,
expectativas, padrões e preocupações” (FLECK, 2008, p. 21).
Para Fleck (2008) a definição proposta pela OMS é a que melhor traduz a
abrangência do conceito de qualidade de vida, pois considera o conceito como
bastante amplo, que incorpora a saúde física, o estado psicológico, o nível de
independência, as relações sociais, as crenças pessoais e a relação com os
aspectos significativos do meio ambiente. No conceito do grupo WHOQOL estão
implícitos os três aspectos fundamentais sobre qualidade de vida: a subjetividade
(que leva em consideração a perspectiva do individuo, a realidade objetiva existe
a partir da percepção do indivíduo); a multidimensionalidade (que aponta para as
várias dimensões da qualidade de vida, aspecto que chama a atenção para a
importância dos instrumentos que mensurem a qualidade de vida tenham vários
domínios); e por fim, a presença de dimensões positivas e negativas (para uma
“boa” qualidade de vida é necessário a presença e a ausência de alguns elementos).
49
O autor fala ainda sobre a possibilidade de agrupar os modelos teóricos
de qualidade de vida em dois grandes grupos:
1. O modelo da satisfação a qualidade de vida está diretamente
relacionada à satisfação com os vários domínios da vida, definidos
como importantes pelo próprio individuo.
2. O modelo funcionalista para ter uma boa qualidade de vida é
necessário estar “funcionando” bem, ou seja, desempenhando seu
papel social e as funções que valoriza de forma satisfatória. Existem
várias críticas a esse modelo e questionamentos no que diz respeito à
sua adequação para avaliar a qualidade de vida, já que a doença
torna-se então um problema na medida em que interfere no
desempenho dos papéis do indivíduo.
Segundo Chatterji e Bickenbach (2008) são várias as definições de
qualidade de vida e o que elas têm em comum é que o domínio da saúde é
considerado um componente da qualidade de vida, um domínio do bem-estar
humano. Quase ninguém discorda que a saúde, a percepção da saúde ou a
satisfação com a mesma seja o fator mais importante para o bem-estar do indivíduo,
“no domínio da saúde, repensar a qualidade de vida é essencial para embasar o
argumento de que a melhora da saúde contribui para a melhora da qualidade de
vida ou para o bem-estar”. O conceito de qualidade de vida deve se restringir à
avaliação ou à satisfação subjetivas com um conjunto de domínios específicos tidos
pelas pessoas como mais importantes, como por exemplo, saúde, relações
pessoais, capacidade de realizar tarefas diárias, condições de vida, a vida em geral
e em particular. É importante avaliar os estados positivos dos indivíduos, bem como
centrar-se na experiência pessoal, tentando compreender a natureza das
experiências afetivas e sua duração.
Os autores salientam que para que o conceito de qualidade de vida seja
útil para a área de saúde, é necessário que ele seja separado da mensuração do
estado de saúde em si, assim como dos determinantes desse estado, sendo o
indivíduo o centro da avaliação, pois o objetivo é referir-se à experiência de vida e
não às condições de vida.
Rogerson (1995) desenvolveu dois modelos conceituais sobre qualidade
de vida: um relacionado à saúde e sua recuperação e outro relacionado às questões
ambientais. O enfoque na saúde envolve o processo de sobrevida ou pós-trauma
50
dos indivíduos que recuperam sua saúde. Para ele, é na condição de recuperação
da saúde após um evento de doença ou agravo que pode ocorrer a experimentação
de qualidade de vida, ou seja, o quanto se pode extraí-la da vida dado que
circunstâncias adversas se manifestam.
Na área da saúde, quando visto no sentido ampliado, o termo qualidade
de vida se apóia na compreensão das necessidades humanas fundamentais,
materiais e espirituais. Seu foco mais relevante esta no conceito de promoção da
saúde. Quando visto de forma mais focalizada, o termo qualidade de vida em saúde
tem como foco central a capacidade de viver sem doenças ou de superar as
dificuldades dos estados ou condições de morbidade.
Qualidade de vida é uma noção eminentemente humana, que tem sido
aproximada ao grau de satisfação encontrado na vida familiar, amorosa,
social e ambiental e à própria estética existencial. Pressupõe a
capacidade de efetuar uma síntese cultural de todos os elementos que
determinada sociedade considera seu padrão de conforto e bem-estar. O
termo abrange muitos significados, que refletem conhecimentos,
experiências e valores de indivíduos e coletividades que a ele se
reportam em variadas épocas, espaços e histórias diferentes, sendo,
portanto uma construção social com a marca da relatividade cultural
(MINAYO et al, 2000, p, 8).
Para Fernández-Ríos e García-Fernández (1999), a prevenção de
doenças e a promoção da qualidade de vida, tanto em nível individual quanto em
nível coletivo, constituem um dos principais temas da psicologia da saúde e da
psicologia preventiva. Segundo Correa (2006), no campo da saúde,
especificadamente na Psicologia, novas estratégias vêm sendo adotadas no que diz
respeito à definição e avaliação da qualidade de vida.
De acordo com Seidl e Zannon (2004), o interesse em estudar qualidade
de vida é recente na área da saúde, a melhoria da qualidade de vida passou a ser
um dos resultados esperados das práticas assistenciais nos campos de promoção
de saúde e prevenção de doenças. Existe uma preocupação em avaliar o impacto
físico e psicossocial que as enfermidades, incapacidades ou disfunções acarretam
para as pessoas por elas acometidas, o que proporciona um melhor conhecimento
do paciente e de sua adaptação à sua condição.
Há um interesse crescente pela avaliação da qualidade de vida nas áreas
de saúde coletiva, práticas assistenciais e políticas públicas. A tradução e a
validação de questionários de qualidade de vida para a língua portuguesa
estimularam a realização de pesquisas sobre o tema. O acentuado crescimento de
51
instrumentos relacionados à qualidade de vida nas últimas duas décadas “atesta os
esforços voltados para o amadurecimento conceitual e metodológico do uso do
termo na linguagem científica”.
De acordo com Conde et al (2006), os questionários para avaliação da
qualidade de vida podem ser divididos em:
1. Genéricos avaliam de forma global aspectos relacionados à
qualidade de vida (físico, social, psicológico, emocional e sexual).
2. Específicos avaliam de forma específica alguns aspectos da
qualidade de vida.
Segundo Patrick (2008), duas avaliações de qualidade de vida não
podem ser iguais, pois cada avaliação mostra uma experiência individual que pode
ser limitada não pelo ambiente particular do indivíduo, como também pelo
momento especifico. Todos os indivíduos têm identidades separadas fisicamente,
emocionalmente e espiritualmente. A qualidade de vida inclui aspectos que podem
ser ou não afetados pela saúde ou pela saúde percebida. A qualidade de vida pode
ser inerentemente subjetiva, apesar de propostas de definições que incluem
padrões mais objetivos. A qualidade de vida pode ser usada como um descritor,
uma asserção avaliadora ou uma asserção normativa ou prescritiva. Quando a
avaliação é feita segundo a perspectiva do indivíduo o progresso é alcançado com
maior rapidez.
Segundo Fernández-Ríos e García-Fernández (1999), a teoria e
investigação de qualidade de vida são confusas, porque não existe acordo sobre o
conceito de qualidade de vida; e é também dispersa, talvez por tentar incluir muitos
aspectos e dimensões da vida humana. Entretanto, a problemática de como definir a
qualidade de vida é possível tentar resolver chegando a uma definição consensual,
o problema da multidimensionalidade dos instrumentos parece ser positivo que
a tarefa diária do ser humano é inerentemente diversa e pluridimensional,
conseqüentemente, todo instrumento que tentar avaliar a qualidade de vida terá que
considerar estas peculiaridades.
4.4.1 - Qualidade de Vida e Sexualidade
52
Em 2002, após um encontro sobre saúde sexual em Genebra, a OMS
4
disponibilizou o relatório “Definindo a Saúde Sexual”, cujas definições são
oferecidas como uma contribuição à compreensão avançada no campo da saúde
sexual, mas não representam necessariamente posição oficial da OMS.
De acordo com o relatório, a sexualidade é um aspecto central do ser
humano durante toda sua vida e abrange o sexo, as identidades e os papéis de
gênero, orientação sexual, erotismo, prazer, intimidade e reprodução.
A sexualidade é vivenciada e expressada nos pensamentos, fantasias,
desejos, nas opiniões, nas atitudes, nos valores, nos comportamentos, nas práticas,
nos papéis e nos relacionamentos e é influenciada pela interação de fatores
biológicos, psicológicos, sociais, econômicos, políticos, culturais, éticos, históricos,
religiosos e espirituais.
Segundo a OMS o sexo faz parte dos pilares de sustentação da
qualidade de vida. O relatório de 2002 define saúde sexual como “a experiência de
contínuo bem-estar físico, psíquico e sócio-cultural relacionado à sexualidade; não é
meramente a ausência de uma doença, disfunção ou enfermidade”. A saúde sexual
está relacionada à possibilidade de ter experiências sexuais prazerosas e seguras,
livres de coerção, discriminação e violência.
A seguir serão apresentados alguns estudos encontrados na literatura
que abordam sexualidade e qualidade de vida, os estudos citados na presente
pesquisa enfocam a sexualidade de mulheres climatéricas, de mulheres
mastectomizadas, de idosos, e homens com hiperplasia prostática.
Malaquias (2008, p.14) faz uma diferenciação entre a vida sexual e a
sexualidade, sendo a primeira alcançada por todos os animais sexuados, diferente
da segunda, que está relacionada à manutenção de fatores biopsicossociais que
possibilitam a existência humana. “Por conseguinte, sendo a sexualidade própria ao
ser humano, pode-se considerá-la um meio fundamental para se obter qualidade de
vida”.
Segundo Favarato (2000) há uma diminuição significativa do desejo
sexual na pós-menopausa, muitas mulheres relatam insatisfação com a freqüência e
a qualidade da vida sexual. Del Nero (2006) ressalta que atualmente as mulheres
4
http://www.who.int/reproductive-health/publications/sexualhealth/defining_sh.pdf
53
têm exigido dos médicos, em especial os ginecologistas, abordagens sobre a
sexualidade e a função sexual, além das questões relacionadas à reprodução, pois
estes temas fazem parte da saúde e do bem-estar geral. Várias pesquisas mostram
que apesar da diminuição do desejo nessa fase da vida, as mulheres dão muita
importância à sexualidade, elas, como os homens, sentem-se valorizadas quando
seu desejo está em atividade.
Numa pesquisa que buscou identificar os fatores associados à qualidade
de vida em um grupo de 323 mulheres menopausadas, Lorenzi et al (2006)
obtiveram dados que demonstram que 60,7% das mulheres que participaram da
pesquisa têm uma vida sexual ativa. Os autores concluíram que a confirmação de
atividade sexual implicou em maior qualidade de vida. Dentre os fatores associados
à qualidade de vida neste estudo estão: escolaridade, freqüência da atividade
sexual e atividade física.
Manganiello (2008) em estudo recente sobre a sexualidade e a qualidade
de vida, realizado com mulheres mastectomizadas concluiu que quanto maior a
capacidade funcional da mulher, sua vitalidade e saúde mental melhor a sua
satisfação e desempenho sexual e quanto maior a limitação por aspectos
emocionais, pior a saúde sexual da mulher.
Moraes e Souza (2005) realizaram um estudo sobre os fatores
associados ao envelhecimento bem sucedido de idosos socialmente ativos e
concluíram que a sexualidade é um dos fatores preditivos de envelhecimento bem
sucedido para as mulheres.
De La Cal et al (2001) realizou uma pesquisa com 93 participantes
maiores de 60 anos com o intuito de abordar aspectos importantes sobre a
sexualidade e observou que a sexualidade é um elemento fundamental para uma
boa qualidade de vida. O autor chama atenção à necessidade de se dar mais
atenção à sexualidade e saúde nessa etapa da vida das pessoas, com o objetivo de
melhorar a qualidade de vida a partir de um enfoque amplo de critérios e ações.
Segundo O’Leary (2001), os sintomas, a qualidade de vida e a
sexualidade são componentes chaves na avaliação do homem com hiperplasia
prostática, e devem ser considerados durante o tratamento. Na perspectiva do
paciente, a qualidade de vida inclui a função sexual e as duas são fatores
importantes que devem ser considerados durante o tratamento.
54
Após tais considerações sobre qualidade de vida, cumpre ressaltar que a
presente pesquisa se insere em um projeto maior (Bassani, 2004) sobre Psicologia
Ambiental, desenvolvimento sustentável e saúde, cujo objetivo principal é a
produção de conhecimento para políticas públicas de saúde, visando
desenvolvimento de cidades sustentáveis.
O referido projeto surgiu a partir de proposta internacional à autora, em
1997, para instalação e desenvolvimento de um centro de estudos em Psicologia
Ambiental em São Paulo. Tendo a autora sua área de atuação e produção
concernente a intervenção, prevenção e promoção de saúde, o projeto foi iniciado
com a proposição de estudos visando Qualidade de Vida e Controle de Estresse,
abordando o estresse como processo, analisando os estressores ambientais
urbanos, físicos e sociais, e propondo nova maneira de intervenção no manejo de
estresse. Tal concepção levou à análise e proposição de um Instrumento de Auto-
Avaliação de Qualidade de Vida (Bassani, Correa e Einsenstadt, 2002), que levasse
em consideração os principais âmbitos indicadores de Qualidade de Vida apontados
na literatura da época e que, ao mesmo tempo, possibilitasse à pessoa uma
representação gráfica e a identificação de referenciais vividos por ela, que
definissem critérios para a auto-avaliação. O instrumento mostrou-se eficaz em sua
tarefa, porém exigia um tempo razoável para que fosse preenchido em sua íntegra.
(ver Apêndice B)
Este instrumento foi replicado por Bassani em atividades de aulas, sendo
que em 2007, com a proposta do presente estudo de compreender a qualidade de
vida de mulheres com diagnóstico de vaginismo, em uma perspectiva
fenomenológica, analisou-se a adaptação do instrumento de modo a que fosse mais
coerente com a questão deste estudo (Serra e Bassani). A concepção de qualidade
de vida como conceito complexo, que envolve vários indicadores, e que devem ser
definidos e contextualizados em um período de tempo delimitado pela própria
pessoa que o utiliza foi mantida, bem como a proposta de representação gráfica dos
âmbitos propostos como indicativos de qualidade de vida. Tais reformulações serão
apresentadas no capítulo Método, a seguir.
55
II. MÉTODO
1 - Considerações Metodológicas
O método fenomenológico é adequado sempre que se queira dar
destaque à experiência das pessoas. Segundo Moreira (2002) o objetivo da
Fenomenologia é a apreensão, análise e descrição do fenômeno.
Segundo Bruns e Holanda (2003, p. 69) a fenomenologia possibilitou à
psicologia uma nova postura para inquirir os fenômenos psicológicos:
A de não se ater somente ao estudo de comportamentos observáveis e
controláveis, mas procura interrogar as experiências vividas e significados
que o sujeito lhes atribui, ou seja, de não priorizar o objeto e/ou sujeito, mas
centrar-se na relação sujeito-objeto-mundo.
Para Martins e Bicudo (1989), o sujeito é um atribuidor de significados e
não um repetidor de idéias mecanicamente adquiridas. O alvo da investigação é
chegar aos significados atribuídos pelos sujeitos à situação que está sendo
pesquisada.
Segundo Forghieri (2004, p.59), em Psicologia o método fenomenológico
é um recurso apropriado para pesquisar a vivência. As situações que a pessoa
vivencia possuem vários significados, elas adquirem um sentido para quem as
experiência, este sentido esta relacionado à maneira própria de existir dessa
pessoa, é uma experiência íntima que geralmente escapa à observação do
psicólogo. Para que seja possível desvendar a experiência o pesquisador precisa
que a pessoa lhe forneça informações a esse respeito. Quando se faz a
transposição do método fenomenológico, do campo da Filosofia para o campo da
Psicologia, o “objetivo inicial de chegar à essência do próprio conhecimento passa a
ser o de procurar captar o sentido ou o significado da vivência para a pessoa em
determinas situações”.
Heidegger (1988, p.65) descreveu a Fenomenologia como:
(...) deixar e fazer ver por si mesmo aquilo que se mostra, tal como se
mostra a partir de si mesmo. É este o sentido formal da pesquisa que traz
o nome de fenomenologia. Com isso, porém, não se faz outra coisa do
que exprimir a máxima formulada anteriormente “para as coisas elas
mesmas!”.
56
A coleta e a análise dos dados da pesquisa serão feitas à luz da
abordagem fenomenológica, sendo que a análise dos dados seguirá referencial
metodológico proposto por Forghieri (2004)
5
.
2 - Participantes
Participaram da presente pesquisa, 4 (quatro) mulheres brasileiras
(Quadro 1), diagnosticadas com vaginismo, de acordo com os critérios descritos pela
CID-10. O acesso às participantes deu-se por intermédio de uma médica
ginecologista.
Os critérios de seleção da amostra foram o de serem mulheres
diagnosticadas com vaginismo; que se encontrassem em tratamento dico e com
parceiro fixo pelo menos seis meses. Foram excluídas as mulheres com idade
superior a 45 anos e portadoras de anomalias genéticas ou congênitas, doenças
crônicas, endócrinas ou agudas, doenças do sistema nervoso central e usuárias de
medicamentos que influenciam na resposta sexual. No levantamento de
participantes, sete mulheres atenderam aos critérios de inclusão, mas duas
recusaram-se a participar da pesquisa e com uma terceira não foi possível fazer
contato. Restaram, então, quatro mulheres que aceitaram participar da pesquisa. O
acesso às pacientes deu-se através de encontros no consultório da médica
ginecologista, onde foi realizada a coleta dos dados.
5
O procedimento de análise será descrito no capítulo Resultados e Análise.
57
Participante 1 2 3 4
Idade 43 anos 39 anos 38 anos 34 anos
Profissão
Técnica de
enfermagem
Copeira
Auxiliar de
escritório
Artesã
Estado civil e
tempo de
parceria
Casada
23 anos
Casada
3 anos
Casada
8 anos
Solteira
1 ano de
parceria
Filhos 2 Não Não Não
Data 26.06.2008 21.08.2008 11.09.2008 11.09.2008
Classificação
do vaginismo
Primário
(desde o início
da vida
sexual)
Primário
(desde o início
da vida sexual)
Primário (desde
o início da vida
sexual)
Primário
(desde o
início da vida
sexual)
Diagnóstico de
vaginismo (ano)
1997
Agosto de
2008 (duas
semanas
antes da
coleta dos
dados)
2005
2000
Início do
tratamento
2007 Agosto 2008
Abandonou o
primeiro
tratamento
iniciado em
2005; retorno
em 2007
2008
Comorbidades
associadas
Não Não Não
Não
Quadro 1. Caracterização das Participantes
58
3 - Local da pesquisa
A pesquisa foi realizada na cidade de São Paulo no consultório de uma
médica ginecologista que indicou as pacientes para a pesquisa. Toda a coleta foi
realizada no referido consultório, devido à disponibilidade das pacientes em dia de
consulta.
4 - Instrumentos
Os instrumentos utilizados na pesquisa foram selecionados a partir das
lacunas dos dados obtidos na literatura sobre qualidade de vida e disfunções
sexuais femininas, especificamente, o vaginismo.
Ainda que a abordagem fenomenológica-existencial prescinda de
instrumentos padronizados para o estudo da questão proposta, decidiu-se pela
utilização de um instrumento de qualidade de vida padronizado no Brasil, o
“Questionário de Qualidade de Vida”, proposto pela Organização Mundial de Saúde
(WHOQOL-bref), de modo a poder complementar as informações sobre a
experiência de mulheres com vaginismo, limitando um período curto de tempo (duas
ultimas semanas).
O segundo instrumento propõe-se a expor, por representação gráfica, a
classificação que cada participante faz dos diferentes âmbitos relacionados à
qualidade de vida nas últimas quatro semanas, a partir de trabalho desenvolvido por
Bassani, Correa e Eisenstadt (2002) sobre controle de estresse e qualidade de vida.
Optou-se, também, por realizar uma entrevista aberta, de modo que os
sujeitos pudessem expressar verbalmente com a pesquisadora suas próprias
concepções de qualidade de vida.
A seguir serão apresentados os instrumentos.
4.1 - Questionário de Qualidade de Vida (WHOQOL-bref)
O questionário WHOQOL-bref (Apêndice A) é um instrumento destinado a
avaliar a qualidade de vida e que derivou da versão ampliada do WHOQOL-100. A
busca de um instrumento que avaliasse qualidade de vida dentro de uma
59
perspectiva genuinamente internacional fez com que a Organização Mundial de
Saúde organizasse um projeto colaborativo multicêntrico.
O resultado de tal projeto foi o desenvolvimento do WHOQOL-100,
composto por 100 itens, que avaliam a qualidade de vida. Por tratar-se de
instrumento longo, surgiu a necessidade de instrumentos mais simples e com
características psicométricas satisfatórias, desta forma o Grupo de Qualidade de
Vida da OMS, desenvolveu em 1998 a versão abreviada, o WHOQOL-bref, que é
composta por 26 questões divididas em quatro domínios: físico, psicológico, social e
meio ambiente.
Segundo Loureiro (2007), por tratar-se de um questionário de saúde, e
este agrupar dimensões físicas, psíquicas e sociais, não compromete nenhuma
abordagem teórica, permitindo flexibilidade na interpretação dos dados coletados.
4.2 - Instrumento de Auto-Percepção de Qualidade de Vida
O instrumento de Auto-Percepção de qualidade de vida utilizado nesta
pesquisa é uma adaptação do “Instrumento de Auto-Avaliação de qualidade de vida”
desenvolvido nas “Oficinas de Qualidade de Vida e Controle de Estresse”, propostas
e coordenadas por Bassani (2000-2001) na Clínica Psicológica “Ana Maria
Poppovic” da Faculdade de Psicologia da PUC-SP.
O referido instrumento foi publicado por Bassani, Correa e Eisenstadt
(2002), conforme Apêndice B. Bassani (2007), ao analisar as aplicações sucessivas
do instrumento, inclusive em alunos de Pós-graduação da PUC-SP, avaliou que o
tempo de aplicação das duas fases que o compunham era muito longo. A segunda
parte (folha 2), especialmente, requeria instruções adicionais ou, pela extensão,
acarretava em não preenchimento total do material.
Assim sendo, a autora principal do trabalho (Bassani, 2007) propunha a
aplicação somente da página 1 do instrumento original, garantindo a representação
gráfica, muito eficaz para que tanto o profissional (psicólogo ou médico) e/ou o
pesquisador, quanto o cliente/sujeito tivessem um panorama rápido e visual de
indicativos de Auto-Percepção dos âmbitos de qualidade de vida considerados no
instrumento.
60
A partir de toda avaliação e análise feita pela autora principal, foi proposto
para a presente pesquisa uma versão intermediária entre a original (Bassani, Correa
e Eisenstadt, 2002) e a analisada por Bassani (2007).
Conforme apresentado no Apêndice C, utilizou-se a página 1, de acordo
com o original, e somente foram selecionados para maior explicitação pelos sujeitos,
os âmbitos identificados na literatura que poderiam relacionar-se mais diretamente à
qualidade de vida e disfunção sexual feminina, e especificamente, ao vaginismo.
Assim, selecionaram-se os seguintes âmbitos para a composição da folha
2: saúde; sexual; familiar; emocional; social. Para distinção do instrumento original e
de modo a ser mais coerente com os propósitos da adaptação realizada, foi alterada
a denominação para Instrumento de Auto-Percepção de Qualidade de Vida (Serra e
Bassani, 2009), que será objeto de considerações na análise e discussão dos
resultados obtidos.
4.3 - Entrevista Aberta
Optou-se por realizar entrevista aberta, a fim de levantar os significados
atribuídos pelos sujeitos à qualidade de vida, a partir da seguinte instrução: “Fale-me
sobre qualidade de vida em seu dia-a-dia”.
A pesquisadora poderia atentar no decorrer da entrevista para os
seguintes assuntos: concepção de qualidade de vida, aspectos relacionados ou
priorizados, relacionamento afetivo sexual, condição atual da disfunção e tratamento
do vaginismo. A partir do que foi trazido, estes assuntos foram aprofundados.
5 - Cuidados Éticos
O projeto de pesquisa foi aprovado pelo Comitê de Ética em pesquisa da
PUCSP em 3 de março de 2008, Protocolo nº 003/2008 (Anexo 1).
No início da coleta de dados as participantes consentiram e assinaram o
“Termo de Consentimento Informado” (Anexo 2), baseado na Resolução CFP
nº16/2000 que dispõe sobre a realização de pesquisa em Psicologia com seres
humanos.
Após a conclusão da pesquisa, as participantes serão contatadas para
devolutiva, a fim de serem apresentados os resultados e conclusões.
61
6 - Procedimentos de Coleta
Tendo aceitado participar da pesquisa, após a apresentação da mesma,
as participantes preencheram e assinaram o Termo de Consentimento Informado.
Em seguida era aplicado o “Questionário de Qualidade de Vida (WHOQOL-bref)”,
seguido pela aplicação do “Instrumento de Auto-Percepção de Qualidade de Vida” e
por fim era realizada a entrevista.
Foi realizado um pré-teste, a fim de avaliar a adequação dos instrumentos
escolhidos. A entrevista do pré-teste mostrou-se consistente no que diz respeito aos
dados obtidos, portanto, foi incorporada à análise deste trabalho.
62
III. RESULTADOS E ANÁLISE
1 - Apresentação dos resultados e procedimentos de análise
Os resultados e análise serão apresentados de acordo com a seqüência
de aplicação dos instrumentos na coleta de dados. Primeiramente, serão
apresentados os resultados do WHOQOL-bref (Tabela 1) de todas as participantes
da pesquisa, seguidos por uma análise comparativa das quatro participantes, na
qual foram levados em consideração os resultados dos domínios investigados pelo
questionário e os resultados referentes ao total sobre qualidade de vida de cada
participante.
Em seguida, serão apresentados os resultados de cada participantes
referentes ao “Instrumento de Auto-Percepção de Qualidade de Vida”, por âmbito
previsto no Instrumento. Os dados referentes a esse Instrumento são apresentados
em: 1) Representação gráfica, em figuras que reproduzem o preenchimento feito
pelas participantes; 2) A íntegra dos dados escritos na folha 2 do Instrumento e a
transcrição dos comentários gravados.
Por último, serão apresentados os resultados da entrevista aberta,
incluindo as informações sobre o diagnóstico de vaginismo de cada participante,
que, a princípio, compreendiam um item da caracterização. A inclusão justifica-se
pela quantidade e qualidade de informações dadas pelas participantes quando do
questionamento a respeito da data do diagnóstico do vaginismo. Posteriormente,
serão reproduzidos os relatos das concepções das participantes sobre qualidade de
vida.
A análise retomará a questão de estudo e enfocará as características do
existir humano, conforme proposta de Forghieri (2004), a saber: ser-no-mundo,
temporalizar, espacializar e escolher. Tais características do existir humano,
incluindo os relatos sobre diagnóstico do vaginismo, procurarão desvelar os
parâmetros subjetivos relacionados à qualidade de vida das participantes. A análise
enfocará tanto os resultados gráficos quanto os critérios de definição dos âmbitos
utilizados (escritos) pelas participantes, (dados estes que compõem a folha 2 do
Instrumento de Auto-Percepção), bem como os relatos sobre o diagnóstico do
vaginismo e a qualidade de vida.
63
2 - Resultados Questionário de Qualidade de Vida (WHOQOL-bref)
A Tabela 1, a seguir, apresenta os resultados por participante e domínio,
do Questionário de Qualidade de Vida, bem como a avaliação total de qualidade de
vida.
Tabela 1. Resultados do Questionário de Qualidade de vida (WHOQOL-bref) por participante e
domínio.
Físico Psicológico
Social Ambiental
Qualidade
de Vida
1 67,86% 58,33% 50% 50% 50%
2 42,86% 37,5% 25% 46,43% 62,5%
3 57,14% 70,83% 50% 46,43% 87,5%
4 32,14% 54,17% 58,33% 10,71% 75%
No domínio físico o maior valor obtido foi 67,86% (participante 1) e o
menor valor 32,14% (participante 4). Os valores intermediários foram 42,86%
(participante 2) e 57,14 (participante 3). No domínio psicológico o maior valor obtido
foi 70,83% (participante 3) e o menor valor 37,5% (participante 2). Os valores
intermediários foram os da participante 4 (54,17%) e os da participante 1 (58,33%).
No domínio social a participante 4 obteve o escore mais alto (58,33%) e a
participante 2 obteve o escore mais baixo (25%). As participantes 1 e 3 obtiveram o
mesmo valor (50%). No domínio ambiental o maior valor obtido foi 50% (participante
1) e o menor valor foi 10% (participante 4). Os valores intermediários foram 46,33%
(participantes 2 e 3).
No que se refere aos quatro domínios avaliados pelo questionário,
enquanto que para a participante 1 os escores mais baixos foram os dos domínios
social e ambiental (50%), para a participante 2 o domínio que obteve o escore mais
baixo foi o social (25%). As participantes 3 e 4, por sua vez, tiveram o domínio
ambiental como o de escore mais baixo, (46,43%) e (10,71%), respectivamente.
Para a participante 1 o escore mais alto foi obtido no domínio físico
(67,86%), a participante 2 obteve o maior escore no domínio ambiental (46,43%).
As participantes 3 e 4 obtiveram os maiores escores nos domínios psicológico e
social, (70,83%) e (58,33%), respectivamente.
64
No que se refere à pontuação da qualidade de vida, nenhuma das
participantes pontuou 100%. A participante 3 foi a que melhor pontuou (87,5%),
seguido pelos resultados da participante 4 (75%) e da participante 2 (62,5%). A
participante 1 foi a que obteve a menor pontuação (50%). .
3 - Resultados Instrumento Auto-Percepção de Qualidade de Vida
Primeiramente, serão apresentados os resultados da representação
gráfica. Em seguida, serão apresentados os resultados por âmbito de cada
participante. Os âmbitos enfocados foram: saúde, sexual, familiar, social e
emocional.
3.1 - Participante 1
3.1.1 - Representação gráfica
Figura 1: Reprodução da representação gráfica da participante 1.
– muito insatisfeita;
Linha 2 – insatisfeita;
Linha 3 – regular;
Linha 4 – satisfeita;
Linha 5 – muito satisfeita.
65
3.1.2 - Critérios de definição dos âmbitos pelas participantes
Saúde - Muito insatisfeito
a - Resposta escrita: “Tudo o que eu penso em saúde me sinto triste”.
b - Comentários: “Eu estou com 43 anos e eu tenho [começa a chorar] eu
choro, não tem jeito. Eu tenho um filho que vai fazer 28 anos e um que fez 9 anos e
eu nunca me realizei como mulher, isso é muito duro, meu marido não entende isso
[que é difícil para ela], pra ele está bom, mas pra mim não está, pra ele está tudo
bem, ele fica falando que eu fico procurando obstáculos, porque antes eu não ligava
tanto, mas agora eu precisei fazer uma cirurgia pra tirar o útero, aí mudou tudo, tudo,
tudo sabe? Minha cabeça mudou tudo, antes pra mim estava bom, antes de eu
conhecer a Doutora, antes estava tudo bem, o meu médico começou a falar
comigo, conversar, me explicar, disse que eu tinha que pensar em mim, aí eu vim
aqui pra tentar melhorar minha saúde”.
Sexual - Muito insatisfeito
a - Resposta escrita: “Tudo de ruim, estou péssima”.
b - Comentários: “É por causa do meu problema. Eu tinha 21 anos
quando eu percebi que eu tinha isso, eu estava casada pela segunda vez e
tinha o meu filho mais velho. Eu casei com 14 anos a primeira vez, eu engravidei
antes de casar, que eu não tinha feito nada, na minha cabeça eu não tinha feito
nada, por que a barriga estava crescendo? quando minha mãe me levou no
médico ela disse que eu tinha feito alguma coisa, eu disse: ‘Não fiz mãe, eu juro que
eu não fiz’, eu não tinha feito, que naquela época não era liberal igual hoje, eu
converso com o meu filho igual uma irmã. Naquela época o que você falasse pra sua
mãe, pelo amor de Deus, “era couro”. eu casei com o pai do meu filho, que o
casamento durou 4 anos, porque eu não deixava ele penetrar. s ficamos
juntos mesmo assim, ele tinha paciência comigo, que eu falava assim, como ele
era acostumado eu não queria estragar a vida dele, eu pedi a separação,
quando eu tinha 18 anos eu pedi a separação. depois de 2 anos eu casei de
novo, daí demorou 18 anos pra eu ter meu filho de 9 anos. Daí foi a mesma coisa:
porque sempre foi do meu jeito, eu fui a primeira mulher dele, nós já estamos
morando juntos 23 anos. A minha primeira gravidez foi assim, o Doutor falou que
eu tava fértil e ele se aproximou muito, não teve penetração, ele falou pra minha
66
mãe que isso acontecia de 1 vez em 100, é muito difícil. Da segunda foi a mesma
coisa, não teve penetração, assim, eu parei de tomar pílula, porque eu não tinha
relação (sexual) mesmo... eu engravidei depois de 18 anos, eu não estava nem
esperando”.
Familiar - Satisfeito
a - Resposta escrita: “Com os meus filhos tudo ótimo”.
b - Comentários: “Eu me dou bem com os meus filhos”.
Social - Regular
a - Resposta escrita: “Mais ou menos. Tem pessoas que não entendem o
meu problema, daí vira deboche”.
b - Comentários: “No meu trabalho todo mundo sabe, tipo assim, até a
minha chefe, quando chega o dia de eu vir (consulta), aí nos comentários, assim, sai
o papo né? Aquelas coisas: ‘Cadê a fulana?’ ‘Foi para São Paulo cuidar do
vaginismo’. vira um deboche sabe? Não é perto de mim, mas os outros contam
pra mim, é complicado. Eu me sinto super mal, aí tem uma hora que eu falo
assim: ‘Eu vou parar tudo’, aí depois eu falo: ‘Não, não vou parar’. o vou parar
porque eu demorei muito tempo para vir atrás, eu parei minha vida nisso, agora eu
não quero mais, por isso”.
Emocional - Muito insatisfeito
a - Resposta escrita: “Tudo o que penso é difícil dar certo, parece que tem
uma placa atrapalhando que trava tudo, meu caminho, minha vontade de seguir a
luta”.
b - Comentários: “Tudo o que penso, assim, eu não consigo, é uma coisa
que me trava, trava minha vontade de tudo, até de sair da minha casa, de trabalhar,
de tudo, de parar tudo. Outro dia eu falei pro meu filho: ‘Eu vou pedir minhas contas
do trabalho e vou terminar minha casa e vou embora pra [cita cidade ao noroeste do
Estado de São Paulo] com as minhas coisas’, ele disse: ‘Não mãe, não é assim,
depois a senhora vai gastar todo o dinheiro e vai ficar reclamando’”.
67
3.2 - Participante 2
3.2.1 - Representação gráfica
Figura 2: Reprodução da representação gráfica da participante 2.
3.2.2 - Critérios de definição dos âmbitos pelas participantes
Saúde “Regular”
a - Resposta escrita: “Que eu não estou bem”.
b - Comentários: “Na saúde? Sei lá... eu estou... na saúde eu marquei
regular! Eu não estou me sentindo bem nessas ultimas semanas”.
Sexual – “Regular”
a - Resposta escrita: “Não estou bem”.
b - Comentários: “Sexo? No sexo eu não estou legal. Não, não estou
bem, por isso que eu estou aqui. Não estou bem”.
Familiar – “Satisfeita”
– muito insatisfeita;
Linha 2 – insatisfeita;
Linha 3 – regular;
Linha 4 – satisfeita;
Linha 5 – muito satisfeita.
68
a - Resposta escrita: “Eu estou muito bem”.
b - Comentários: “Eu estou muito bem com a minha família. Tudo bem”.
Social – “Satisfeita”
a - Resposta escrita: “Eu estou muito bem”.
b - Comentários: “Eu estou bem, no social eu estou bem”.
Emocional “Regular” (primeiramente marcou “muito satisfeita, depois
mudou para “regular”)
a - Resposta escrita: “Eu não estou bem”.
b - Comentários: “A minha emoção? Eu marquei muito satisfeita? Eu vou
mudar, eu vou colocar regular, ali foi uma mentira, não era isso, eu vou mudar,
pode? Não estou me sentindo bem”.
3.3 - Participante 3
3.3.1 - Representação gráfica
Figura 3: Reprodução da representação gráfica da participante 3.
– muito insatisfeita;
Linha 2 – insatisfeita;
Linha 3 – regular;
Linha 4 – satisfeita;
Linha 5 – muito satisfeita.
69
3.3.2 - Critérios de definição dos âmbitos pelas participantes
Saúde Muito satisfeita”
a - Resposta escrita: “Eu pensei que sou sadia, não tenho doenças”.
b - Comentários: “Apesar de tudo eu estou bem, eu não tenho nenhuma
doença, eu sou sadia, tem tanta gente doente por aí”.
Sexual - “Insatisfeita”
a - Resposta escrita: “Eu não sou realizada”.
b - Comentários: “A primeira vez que tentei penetração foi na lua-de-mel,
até então nunca tinha tentado, nunca tive nenhuma tentativa por causa da minha
religião e também por opção de querer casar virgem, eu quis isso pra mim, eu quis
casar virgem. na lua-de-mel eu não consegui (penetração), meu marido tentava,
mas não conseguia, eu fiquei muito frustrada, me sentia muito mal, era muita dor, no
casamento a base é isso (sexo), aí quando chega na lua-de-mel acontece uma coisa
dessas...”.
Familiar – “Muito satisfeita”
a - Resposta escrita: “Minha família é uma benção”.
b - Comentários: “Minha família é muito boa, maravilhosa, eles me
apóiam”.
Social – “Regular”
a - Resposta escrita: “Não tenho problema com ninguém”.
b - Comentários: “Não tenho muitos amigos, mas não tenho dificuldades
com ninguém, eu sou uma pessoa tranqüila, sempre está tudo bem”.
Emocional – “Satisfeita”
a - Resposta escrita: “Estou ótima”.
b - Comentários: “É como eu disse, apesar de tudo, eu estou bem, está
tudo bem, eu vou seguindo em frente, está tudo ótimo, eu estou me sentindo bem”.
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3.4 – Participante 4
3.4.1 - Representação gráfica
Figura 4: Reprodução da representação gráfica da participante 4.
3.4.2 - Critérios de definição dos âmbitos pelas participantes
Saúde “Satisfeita”
a - Resposta escrita: “Porque eu estou me sentindo bem”.
b - Comentários: “Na saúde eu estou satisfeita né, é estou satisfeita.
Estou fazendo o tratamento, estou melhorando, estou satisfeita com a minha saúde,
mas tem que melhorar né?!”.
Sexual – “Satisfeita”
a - Resposta escrita: “Praticamente estou me sentindo realizada”.
b - Comentários: “Bom, no sexual a vista de como eu cheguei aqui , eu
estou bem melhor, pela primeira vez a semana passada eu consegui ter relação com
penetração. O meu problema é não relaxar, esse negócio de relaxar eu não consigo
– muito insatisfeita;
Linha 2 – insatisfeita;
Linha 3 – regular;
Linha 4 – satisfeita;
Linha 5 – muito satisfeita.
71
de jeito nenhum, aí essa semana passada eu consegui, eu nunca tinha conseguido,
foi com esse rapaz que eu saio sempre, ele não é meu namorado, como se diz... a
gente sempre fica junto, sempre se vê, já estamos nisso há um ano, eu o conheci no
ano passado. Aí eu vinha fazendo os exercícios em casa, do jeito que a doutora
mandou, todos os dias, foi por isso que eu consegui a penetração, eu senti uma dor,
um desconforto, uma ‘coisinha’, mas o importante é que eu consegui a penetração,
por isso eu estou satisfeita, o tratamento está dando certo, eu vejo colegas minhas
aqui que tem um ano fazendo e nunca conseguiram e comigo está dando certo, eu
estou muito feliz, muito satisfeita, muito mesmo. Sabe uma coisa que você fica
esperando muito tempo e aí acontece? Eu estou muito feliz”.
Familiar – “Regular”
a - Resposta escrita: “Por falta de contato, de união”.
b - Comentários: “É assim, sabe, é... com a família, assim... a gente não
se bem, a gente não tem assim aquela união sabe? Não tem união entre os
irmãos, eu não tenho isso na minha família. A gente não tem contato, falta isso, falta
união, porque assim, não tem alguém que você pode contar lá, eu conto mais com
as outras pessoas”.
Social – “Satisfeita”
a - Resposta escrita: “Tenho muitos amigos”.
b - Comentários: “É, o social, assim... digamos assim... com as pessoas...
eu tenho muitos amigos entendeu? Eu posso dividir meus problemas com os meus
amigos, eles me escutam, me apóiam, me dão força pra superar. Quando eu
trabalho estou sempre rodeada de gente, estou sempre conversando, eu vou
aprendendo a ouvir também e vou desabafando os meus problemas, conversar faz
bem”.
Emocional – “Satisfeita”
a - Resposta escrita: “Procuro pensar mais positivo”.
b - Comentários: “Eu no momento, eu estou bem, antes eu pensava muito
negativo, mas ultimamente eu tento pensar positivo, isso traz coisas boas pra
mim, isso me deixa mais alegre, mais satisfeita, mais feliz”.
72
4 - Resultados Entrevista
4.1 - Diagnóstico de Vaginismo
4.1.1 – Participante 1: “Foi em [cidade 2: região do Estado de São
Paulo], eu morei lá, daí eu fui fazer um exame papanicolau daí ele mandou colocar a
camisola, ah! Eu deitei naquela cama lá, deu um nervoso. Eu nunca fiz um exame,
nem quando eu tive as crianças, eu o fiz exame de toque, porque eu travei a
perna. Daí toda vez que eu marcava ginecologista dava aquele nervoso, eu não
consegui fazer. Então foi em [cidade 2: região do Estado de São Paulo], em 1997.
Esse tratamento com a Doutora eu comecei em agosto de 2007, nunca tinha feito
nenhum tratamento”.
4.1.2 - Participante 2: “Foi 2 semanas, foi dia 9 de agosto, tem pouco
tempo, eu vim aqui procurar tratamento, tem poucos dias isso”.
4.1.3 Participante 3: “Eu sempre fui aos Postos de Saúde perto da
minha casa, 8 anos (2000) depois da minha lua-de-mel eu procurei um médico,
ele pediu um exame, que eu não deixava fazer, então eu desisti, preferi pensar
que ia passar com o tempo. Depois eu descobri que era vaginismo num posto perto
da minha casa, em 2005, eu vim procurar tratamento com a doutora. mas eu
desisti de novo, fugi do problema, às vezes é mais fácil fugir . Em 2007 eu voltei
pra cá, eu vim porque eu queria engravidar, mas hoje a gravidez não é mais a minha
prioridade, gravidez agora é opção pra mim, desisti, o quero mais, eu conversei
com o meu marido, ele também não quer mais. O que eu quero agora é resolver o
meu problema, melhorar, eu quero resolver. O meu marido sempre falava pra eu
procurar ajuda, mas ele é um homem muito bom, ele não é daqueles homens que
pressionam, que cobram, aí eu fui deixando passar”.
4.1.4 – Participante 4: “Olha... nossa! Meu diagnóstico, tem anos, olha eu
me tratei nas Clinicas com uma psicóloga, foi isso, foi nas Clínicas que eu descobri
que tinha vaginismo, deixa ver quando foi...foi assim que eu me separei do meu
marido...eu vou chegar lá...foi em 2000, foi quando eu separei dele, e eu me separei
por causa desse problema. eu fui nas Clínicas procurar tratamento, eu fiz, mas
não foi como aqui...aqui com a doutora é bem mais intenso, lá só era com a
psicóloga, aqui tem os exercícios, me ajudou, abriu um pouco a minha mente,
entendeu?”.
73
4.2 – Qualidade de Vida
4.2.1 Participante 1: “É bom. É bom porque eu trabalho um dia sim e
outro não, eu espaireço a cabeça. Daí agora meu marido começou a trabalhar em
outra cidade e vem no fim de semana. Daí não tem tempo pra eu ficar pensando
que ele é muito ‘barzeiro’, ele vai no bar dez horas, da manhã! Ele sai do bar, sai
‘chumbado’. O meu dia é assim: trabalhar, quando eu posso sair com meus filhos eu
saio, quando eu posso ir no pagode é o dia que ele está porque depois os outros
falam, porque é fácil falar, . Então eu me sinto melhor quando ele está longe de
mim, eu fico diferente, assim, leve, eu saio, fico com as minhas colegas, saio com
as minhas colegas, saio com os meus filhos. Tem domingo que tem samba nesse
bar que ele vai, o bar é das minhas primas, se eu chego danço um pouquinho e
que algum colega dele chega e chama, pronto, acabou. Minha sogra falava assim
pra ele: ‘Quem usa, cuida! Porque ele fica com essa ciumeira de você, porque se
você ficar dentro de casa 24 horas está bom’, mas eu não fico, eu não sou aquela
mulher de ficar em casa pra trabalhar, eu não fico, eu não sei fazer isso. Às vezes
eu sumo, vou pra casa das minhas colegas, pego o meu pequeno e sumo, porque o
meu mais velho também mora comigo, ele fica cuidando da casa e eu sumo. É
bom quando ele (marido) está longe, eu me sinto bem porque assim não tem tempo
de encrenca, de brigar, de picuinha, eu não me chateio.
A minha qualidade de vida... é uma coisa boa, então, bom pra mim é
assim. Você tem que tratar a sua cabeça e tratar o seu corpo.
4.2.2 - Participante 2: “Está muito bem, acho que podia ser melhor,
podia melhorar mais, muito mais. Mas ultimamente não está muito legal por causa
desse meu problema, ele está mexendo muito com a minha emoção, isso tudo do
jeito que está… está mexendo muito com a minha cabeça, demais mesmo. que
quero que resolva logo e isso parece que vai prolongar, então é isso, é o que eu
posso falar, não está bem. Nem eu sei se eu tenho qualidade de vida... antes de
saber desse diagnóstico... oxe, se isso é vida! Mas tem né? Todo mundo tem né! Ah,
a minha vida é rotina, uma rotina muito... do trabalho pra casa, de casa pro trabalho,
eu não tenho tempo pra nada, um tempinho que eu tenho é porque eu peguei
minhas férias, eu estou em período de férias, senão eu nem estaria aqui, estaria no
meu serviço... então a minha qualidade de vida, o que eu posso falar? Nossa, como
74
eu sou ruim nessas coisas de falar. Minha qualidade de vida, o que eu estou
sentindo nesse momento... eu estou péssima, pode acreditar estou péssima, minha
qualidade de vida enquanto eu não resolver o meu problema nada está bom, está
péssima, eu posso comprar um sapato...não está bom, uma calça...não está bom...
nada está bom!”.
4.2.3 Participante 3: “Hoje eu sinto muita melhora na minha vida,
depois desse tempo que eu estou aqui, a minha mente esbem melhor, a gente
chega aqui sem saber nada e vai aprendendo, eu não sabia nada do meu corpo, não
conhecia o meu corpo, agora eu sei, conheço, se eu não sabia nada como eu
podia cobrar, querer que ele funcionasse? Nem eu sabia como ele era.
A minha vida não escompleta ainda, eu ainda não tenho minha casa,
eu trabalho numa empresa que eu não estou satisfeita, tem muita coisa ainda pra
melhorar, tem o meu problema que eu quero resolver, não está ainda do jeito que eu
quero. Uma coisa que me ajuda e me faz bem é minha crença em Deus, eu creio
muito em Deus e eu sei que na hora certa ele vai me dar tudo que eu quero. Essa
parte do sexo eu sei que é mais de mim, depende mais de mim, eu tenho
consciência disso.
Mas a minha vida está boa. Eu não saio muito, eu vou mais à igreja, eu
sei que preciso sair mais, senão vira rotina o casamento, eu sei, mas eu adoro sair,
acontece que às vezes a gente se acomoda. Meu marido não gosta de sair, ele
gosta de ficar em casa, mas eu vou chamar ele pra gente sair mais, não é preciso
sair todo fim de semana, mas cada um pode ceder uma vez, eu posso ficar em casa
um fim de semana e no outro ele pode querer sair, vou conversar com ele sobre
isso, o negocio é que a gente se acomoda, mas eu vou mudar isso
Minha qualidade de vida está boa, mas tem que melhorar, ainda não está
do jeito que eu quero, mas eu sei que vai melhorar, na hora certa acontece, eu estou
buscando isso”.
4.2.4 Participante 4: “Assim, a minha vida é meu trabalho, eu trabalho
na rua como camelô, vendendo as coisas que eu faço, trabalho por conta própria, aí
assim, é lógico que eu sonhava, que eu queria ter uma coisa melhor, mas às vezes,
assim...no meu pensar, se Deus não me deu né, se eu não consegui aagora, às
vezes é isso que eu mereço, mas eu corro atrás, eu corro, estou sempre
75
buscando, mas eu penso assim no momento, eu não vou me desesperar, então eu
estou satisfeita com o que eu faço, e isso me faz bem
A minha qualidade de vida é boa, eu gosto do que eu faço, é boa, assim...
eu vou trabalhar, eu tenho as minhas amigas, o pessoal gosta muito de mim, eu
sinto que eu sou muito querida e isso me faz bem, entendeu? Na minha família não
tem aquela união entre irmãos, então eu me apóio nas minhas amigas, com elas eu
posso conversar, eu fico mais tranqüila, quando isso acontece eu me sinto
melhor, levanta a minha auto-estima, eu converso, eu dou risada, eu nem ligo assim
pra parte financeira, esse negócio de dinheiro, eu nem ligo tanto, eu valorizo mais a
amizade, essas coisas entendeu? Por isso eu me sinto bem.
Então a minha qualidade de vida na minha opinião é boa, vir procurar
ajuda pro meu problema me ajudou a melhorar como pessoa, eu me sinto bem, eu
me acho bonita, eu me sinto bem, sabe? Eu gosto do que eu faço, as pessoas me
elogiam ‘Nossa como você é ótima artesã, parabéns!’, e isso faz bem pra mim, tenho
minhas amizades, esse rapaz também que eu estou com ele me muito apoio, a
mais do que o meu marido, o meu marido me deixou, me abandonou por causa do
meu problema, ele não, ele ta junto comigo, então eu estou satisfeita com a minha
vida, eu estou nesse tratamento 7 meses e melhorei muito, então eu posso
dizer que está bom, minha vida está boa”.
76
5 - Análise
5.1 - Participante 1
5.1.1 - Ser-no-mundo
Mundo circundante – Os resultados do Questionário de Qualidade de Vida
(WHOQOL-bref), levando em consideração o domínio ambiental, indicam que a
relação da participante 1 com o ambiente encontra-se comprometida (50%). No que
diz respeito ao relacionamento com seu corpo, o resultado do domínio físico
(67,86%) foi o maior escore obtido pela participante 1, em comparação aos outros
domínios.
Os dados obtidos através do Instrumento de Auto-Percepção apontam
para uma relação com o corpo comprometida, visto que nos âmbitos saúde e sexual
o sujeito percebe-se “muito insatisfeita”. Em seus comentários escritos e verbais a
esse respeito, a participante 1 enfocou a cirurgia de retirada do útero, que é
percebida como um momento de mudança no que diz respeito à saúde, pois a partir
desse evento buscou tratamento para o vaginismo. Mas, apesar de encontrar-se em
tratamento um ano, é possível perceber que a disfunção sexual ainda
compromete consideravelmente a satisfação da participante 1 em relação à sua
saúde. Nos comentários do âmbito sexual, a participante aponta a gravidez aos 14
anos, a descoberta do vaginismo pontuando as dificuldades encontradas durante a
gravidez, os preconceitos e a pressão familiar e social decorrentes de uma gravidez
na adolescência e antes do casamento, bem como a falta de informação sobre a
disfunção sexual.
Apesar de se perceber muito insatisfeita nos âmbitos relacionados ao
corpo, a participante 1 relata uma postura de respeito e cuidado com seu corpo, pois
reconhece suas limitações. Apesar das dificuldades encontradas e dos pensamentos
de desistência do tratamento, a participante 1 consegue perceber o quanto foi
prejudicada, durante muito tempo de sua vida, pelo vaginismo. A participante 1
reconhece a importância de continuar o tratamento na busca da resolução da
queixa. Isso fica claro, durante esta passagem da entrevista: “Você tem que tratar a
sua cabeça e tratar o seu corpo”. É possível perceber que o tratamento é tido como
referência de qualidade de vida para a participante 1, já que ela reconhece a
77
importância do tratamento e por esse motivo não cede às pressões do marido e até
mesmo da sociedade no que diz respeito à procura e continuação do tratamento.
Mundo humano - O escore obtido pela participante 1 no domínio social do
Questionário de Qualidade de Vida foi 50%. No Instrumento de Auto-Percepção os
âmbitos associados à relação da participante 1 com as outras pessoas (familiar,
social, cultural, profissional e lazer) o os que apontam para uma percepção mais
satisfatória, em comparação aos outros âmbitos abordados pelo Instrumento, em
nenhum destes âmbitos a participante 1 percebe-se “muito insatisfeita”. O âmbito
familiar é o único em que a participante percebe-se “satisfeita”. Podemos notar que a
participante 1 tem como concepção de família os 2 filhos. Para a participante 1,
família se resume aos filhos, portanto, relata estar satisfeita com o âmbito familiar,
devido ao bom relacionamento que mantém com os 2 filhos.
O âmbito social é percebido pelo participante como “regular”, nos
comentários, fala dos preconceitos enfrentados no trabalho, relata ser vítima de
“deboche” (sic) devido ao fato de todos os colegas saberem que ela é portadora de
vaginismo, o mesmo acontece com os amigos, vizinhos, familiares. Cabe, então, um
questionamento: Por que a participante 1 comenta com todas as pessoas sobre sua
disfunção sexual, mesmo sabendo das dificuldades e até discriminações que pode
vir a enfrentar? Talvez, de alguma forma, a participante 1 queira testar se houveram
mudanças no que diz respeito ao conhecimento e aceitação das pessoas em relação
ao vaginismo.
É possível salientar que a relação com o marido é complicada, devido aos
problemas com a bebida pelo fato de ele não entender e não apoiar o tratamento da
participante 1 para o vaginismo, o sujeito diz sentir alívio e demonstra ficar satisfeita
quando o marido está fora de casa.
Outra relação importante a ser mencionada é a estabelecida com o
médico responsável pela cirurgia de retirada do útero e a médica responsável pelo
tratamento de vaginismo, a bom relacionamento com os médicos favoreceu a
procura e posterior adesão ao tratamento, já que foram fornecidas informações
referentes ao vaginismo e as possibilidades de tratamento, que foram prontamente
acatadas pela participante 1.
Durante a entrevista o sujeito relata ter uma boa relação com os amigos e
colegas, com quem compartilha os momentos difíceis e os momentos de lazer.
78
Mundo próprio - No domínio psicológico o escore obtido pela participante
1 foi 58,33%. No Instrumento os âmbitos associados à relação da participante 1
consigo mesma foram identificados como sendo: o educacional, espiritual e
emocional. Nos âmbitos educacional e emocional a participante 1 percebe-se “muito
insatisfeita” e no espiritual “insatisfeita”.
Em relação ao âmbito emocional, a participante 1 parece transpor
características da disfunção sexual para este âmbito da sua vida, o que fica claro em
relatos como: “Tudo o que penso, assim, eu não consigo, é uma coisa que me trava,
trava minha vontade de tudo, até de sair da minha casa, de trabalhar, de tudo, de
parar tudo”. Esta passagem está relacionada ao fato de que a maioria das mulheres
portadoras de vaginismo relatam a sensação de uma parede, placa, que impede a
penetração. A participante 1 acaba generalizando essa dificuldade para todas as
ações e decisões de sua vida. É possível identificar que mais um âmbito da vida da
participante 1 encontra-se bastante afetado pelo vaginismo.
A partir de comentários feitos pela participante 1 em outros âmbitos é
possível perceber como sua relação consigo mesma encontra-se comprometida, em
um desses comentários a participante 1 fala: “Eu nunca me realizei como mulher”.
A sensação de culpa por ser portadora de vaginismo está presente em
muitas falas da participante 1. Percebe-se uma constante repetição por parte da
participante 1, ao pontuar o vaginismo como sendo um problema somente seu. A
participante 1 exclui qualquer responsabilidade do parceiro, tomando sozinha a
responsabilidade e até se culpando por ser portadora de vaginismo. Essa culpa
aparece também no momento em que a participante 1 termina o primeiro
casamento, por achar que “estragaria a vida do marido”.
5.1.2 - Temporalizar
Durante os comentários feitos no Instrumento de Auto-Percepção e na
entrevista a participante 1 aponta diversos eventos de temporalidade que permeiam
sua vida, como a primeira e segunda gravidez, a descoberta do vaginismo, a
cirurgia, a busca pelo tratamento. Nota-se em muitos momentos que a participante 1
parece acreditar que sua vida é marcada pelo vaginismo, e por esse motivo sempre
acaba ressaltando os momentos de sua vida a partir da disfunção sexual.
79
Nota-se também que a participante 1 consegue experienciar o tempo e
identificar as restrições que os acontecimentos trouxeram para sua vida permitindo
assim o surgimento de novas possibilidades. Os eventos tristes do passado
acarretaram em muitas dificuldades que resultaram em restrições, é possível
perceber durante a passagem em que fala do vaginismo: “Eu parei minha vida
nisso”. Mas o passado que durante muito tempo limitou, agora permite a abertura de
novas possibilidades: “Antes eu não ligava tanto, mas agora eu precisei fazer uma
cirurgia pra tirar o útero, aí mudou tudo, tudo, tudo sabe? Minha cabeça mudou tudo,
antes pra mim estava bom, antes de eu conhecer a Doutora, antes estava tudo bem,
aí o meu médico começou a falar comigo, conversar, me explicar, disse que eu tinha
que pensar em mim, aí eu vim aqui pra tentar melhorar minha saúde”.
5.1.3 - Espacializar
Maneiras de existir pode-se identificar as três maneiras de existir no
mundo, percebemos a maneira preocupada nos momentos em que a participante 1
transpõe as características do vaginismo para os outros aspectos da sua vida, que
não o sexual, apresentando angústia e culpa. A maneira sintonizada é percebida no
relacionamento com os filhos, amigos e nos momentos em que consegue se divertir.
Podemos identificar a maneira racional nos momentos em que a participante
entende o quanto já foi prejudicada pelo vaginismo e resolve buscar tratamento, não
cedendo às pressões para abandonar o mesmo.
5.1.4 - Escolher
Antes da cirurgia para a retirada do útero a participante 1 não conseguia
perceber e compreender as limitações que o vaginismo acarretava em sua vida, por
não ter essa compreensão não foi capaz de buscar ajuda e escolher tratar a
disfunção sexual, para escolher é preciso conhecer.
A partir do momento que recebe informações sobre sua disfunção sexual
e os possíveis tratamentos a participante 1 tem, então, a possibilidade de escolher
se cuidar e assume sozinha a responsabilidade por sua escolha, apesar das
dificuldades que ela traz para sua vida, como a falta de apoio do marido e dos
colegas de trabalho.
80
A partir da escolha vem a ação, a participante 1 não apenas escolhe
buscar o tratamento como também age de modo a fazer com que o mesmo possa
ter resultados positivos.
5.1.5 - Considerações sobre os Instrumentos e a Qualidade de Vida
Levando em consideração os dados obtidos através do WHOQOL-bref
percebeu-se que a qualidade de vida da participante 1 (50%) encontra-se
comprometida. Os dados do Instrumento de Auto-Percepção de Qualidade de Vida
também apontam uma relação entre o comprometimento da qualidade de vida e as
características do vaginismo, visto que dentre os cinco âmbitos aprofundados pelo
Instrumento a participante 1 encontra-se ‘muito insatisfeita’ em três âmbitos (saúde,
sexual e emocional) e pode-se identificar nos comentários na folha 2 do Instrumento,
uma associação dos âmbitos com a disfunção sexual. O sujeito percebe-se
“satisfeita” apenas no âmbito familiar, definido como o relacionamento que mantém
com os filhos, e percebe como regular o âmbito social.
A relação com o marido, a não resolução da queixa e problemas no
trabalho podem estar comprometendo a avaliação de qualidade de vida. Apesar de
os instrumentos apontarem comprometimento na qualidade de vida, foi destacado
durante a entrevista, que sua avaliação geral de qualidade de vida é “boa”, dado ter
considerado a importância de sua dedicação ao tratamento como possibilidade de
promoção de melhora em sua vida sexual.
5.2 - Participante 2
5.2.1 - Ser-no-mundo
Mundo circundante Os resultados do domínio ambiental (46,43%)
obtidos pela participante 2 no WHOQOL-bref indicam uma relação com o ambiente
comprometida, mas em comparação aos outros domínios esse foi o maior escore
obtido pela participante. No domínio físico o escore obtido pela participante 2 foi
(42,86%).
81
Os dados obtidos através do Instrumento de Auto-Percepção de
Qualidade de Vida demonstram que a participante avalia como “regular” sua saúde e
relata que nas últimas semanas não tem se sentido bem.
A participante 2 também percebe como “regular” o âmbito sexual,
demonstrando em seus comentários o quanto a disfunção sexual afetou sua vida,
pontuando que por esse motivo procurou o tratamento.
Mundo humano – O escore obtido pela participante 2 no domínio social do
WHOQOL-bref foi 25%, esse foi o menor escore obtido pela participante em
comparação aos outros domínios.
Os resultados do Instrumento de Auto-Percepção associados à relação da
participante 2 com as outras pessoas (familiar, social, cultural, profissional e lazer)
contradizem os dados do WHOQOL-bref, visto que na maioria dos âmbitos a
participante 2 percebe-se “satisfeita”, apenas o âmbito cultural a participante 2 avalia
como “regular”. Nos comentários refere um bom relacionamento com a família e nos
comentários relacionados ao âmbito social limitou-se a dizer: “Eu estou bem, no
social eu estou bem”.
Em relação ao trabalho, embora a participante 2 perceba-se “satisfeita”,
demonstra chateação ao falar sobre a falta de tempo, diz que não tem tempo pra
nada, pois sua vida é “do trabalho pra casa, de casa pro trabalho”.
Mundo próprio No WHOQOL-bref, no domínio psicológico, o escore
obtido pela participante 2 foi 37,5%. Os âmbitos do Instrumento de Auto-Percepção
associados a relação da participante 2 consigo mesma (educacional, espiritual,
emocional) foram percebidos pela participante como “regular”. Ao preencher o
âmbito emocional na figura, inicialmente a participante 2 marcou “muito satisfeita”,
mas em um segundo momento, durante os comentários da folha 2 do Instrumento, a
participante optou por mudar e marcar “regular”, nos comentários ressaltou
novamente que não estava se sentindo bem: “A minha emoção? Eu marquei muito
satisfeita? Eu vou mudar, eu vou colocar regular, ali foi uma mentira, o era isso,
eu vou mudar… não estou me sentindo bem”.
Comparando os escores obtidos através do WHOQOL-bref e os dados do
Instrumento de Auto-Percepção de Qualidade de Vida, é possível notar que o mundo
próprio da participante 2 encontra-se bastante afetado pelo recente diagnóstico da
disfunção sexual. Durante a coleta de dados a participante mostrou-se bastante
ansiosa e angustiada, em comparação às outras participantes, foi a que mais tempo
82
demorou para responder o WHOQOL-bref e o Instrumento de Auto-Percepção, além
de se limitar a poucos comentários durante a aplicação da folha 2 do Instrumento.
A participante várias vezes refere estar se sentindo muito mal devido à
descoberta do vaginismo, e diz que enquanto não resolver esse problema, nada vai
estar bom pra ela.
5.2.2 - Temporalizar
O WHOQOL-bref e o Instrumento de Auto-Percepção de Qualidade de
Vida propõem-se a avaliar um determinado período de tempo, no primeiro a
participante respondeu às perguntas levando em consideração as duas últimas
semanas, no Instrumento de Auto-Percepção as participantes levaram em
consideração as quatro últimas semanas.
A participante 2 recebeu o diagnóstico de vaginismo 2 semanas antes da
coleta de dados e estava ainda bastante sensibilizada com o fato de ser portadora
do vaginismo, é possível notar que o diagnóstico recente teve bastante influência
nas respostas e nos comentários durante a coleta de dados.
A participante pontua durante os comentários sobre sua qualidade de vida
que o “seu problema” tem “mexido com sua cabeça” e comentou que neste
momento se sente péssima. Ao falar de qualidade de vida a participante demonstra
o quanto o diagnóstico afetou sua vida: “Nem eu sei se eu tenho qualidade de vida…
antes de saber desse diagnósticooxe, se isso é vida! Mas tem ? Todo mundo
tem né?”.
É possível identificar também, que apesar da angústia por causa do
diagnóstico do tratamento, a participante 2 conseguiu perceber a importância de
buscar logo o tratamento.
5.2.3 – Espacializar
Maneiras de existir – Identificou-se uma forte prevalência da maneira
preocupada de existir na participante 2, que nas últimas semanas tem influenciado
seu espacializar, nota-se que os últimos acontecimentos têm sido vivenciados com
estranheza e restrição, mas apesar disso, a participante 2 resolve procurar o
tratamento e consegue ver aí uma possibilidade de melhora.
83
A participante 2 demonstra certo desânimo em relação ao futuro do
tratamento, supondo que o mesmo será demorado e ressalta que enquanto não
resolver nada vai estar bom pra ela.
5.2.4 - Escolher
A maneira preocupada de existir tem influencia na percepção da
participante 2 em relação às possibilidades do seu existir. Ao escolher procurar um
tratamento, apesar da angústia do recente diagnóstico, a participante 2 demonstra
que consegue perceber e compreender o momento que está vivendo, como as
restrições que a disfunção trouxe e as melhorias que o tratamento pode lhe
proporcionar. Essa compreensão favorece as escolhas, apesar dos momentos
difíceis desde a descoberta da disfunção sexual.
5.2.5 - Considerações sobre os Instrumentos e a Qualidade de Vida
O escore de qualidade de vida (62,5%) da participante 2, obtido através
do WHOQOL-bref, apontam para uma qualidade de vida levemente comprometida.
Os resultados do Instrumento de Auto-Percepção de Qualidade de Vida demonstram
que a participante 2 tem uma “boa” percepção de sua qualidade de vida, visto que
dos dez âmbitos avaliados pelo Instrumento, seis ela percebe como “regular” e
quatro como “satisfeita”.
Contudo, apesar de o Instrumento apontar uma percepção favorável de
Qualidade de Vida, durante a entrevista a participante 2 relatou que sua qualidade
de vida é péssima e que “poderia melhorar mais, muito mais”.
Essa contradição nos resultados talvez se deva ao fato de a participante 2
ter recebido o diagnóstico de vaginismo há apenas duas semanas, como foi
pontuado anteriormente, a paciente ainda encontrava-se, durante a coleta de dados,
bastante sensibilizada, muitas vezes mostrando-se confusa e desnorteada devido à
descoberta da disfunção sexual.
É possível identificar mais uma vez a influência da disfunção sexual na
qualidade de vida, o que fica claro durante alguns comentários da participante 2:
“Ultimamente não está legal, por causa do meu problema, ele está mexendo muito
com a minha emoção” e “Minha qualidade de vida, o que eu estou sentindo nesse
84
momento… eu estou péssima, minha qualidade de vida enquanto eu não resolver o
meu problema nada está bom, está péssima”.
5.3 - Participante 3
5.3.1 - Ser-no-mundo
Mundo circundante O resultado do domínio ambiental (46,43%) do
WHOQOL-bref aponta para uma relação prejudicada com o ambiente. Já no domínio
físico o escore obtido (57,14%) pela participante 3 indica uma melhor relação com o
corpo, em comparação com o ambiente.
Os dados do Instrumento de Auto-Percepção de Qualidade de Vida
demonstram que no âmbito saúde a participante 3 percebe-se “muito satisfeita”, em
seus comentários ressalta que não se considera doente: “Sou sadia, não tenho
doenças”, é possível notar através da fala da participante 3 que a mesma não
considera o vaginismo uma doença, ela o como uma disfunção sexual, que afeta
sua vida sexual, mas o sua saúde, o que pode ser comprovado pelo fato de a
participante perceber-se “muito satisfeita” no âmbito saúde e “insatisfeita” no âmbito
sexual. A participante 3 ressalta: “Não sou realizada” referindo-se ao fato de não
conseguir manter relações sexuais com penetração e relata também a dor e a
frustração que sentiu por não conseguir ser penetrada pelo marido na lua-de-mel:
“Meu marido tentava, mas não conseguia, eu fiquei muito frustrada, me sentia muito
mal, era muita dor, no casamento a base é isso (sexo)”.
A partir desses comentários é possível identificar a importância que a
participante 4 atribui ao sexo, para o bom relacionamento com o marido e o quanto o
vaginismo afeta sua vida e a incomoda, apesar de o marido não fazer tantas
cobranças.
Nos comentários sobre a qualidade de vida a participante 4 fala sobre a
relação com seu corpo e a importância do tratamento para a melhora dessa relação:
“A gente chega aqui sem saber nada e vai aprendendo, eu não sabia nada do meu
corpo, não conhecia o meu corpo, agora eu sei, conheço, se eu não sabia nada
como eu podia cobrar, querer que ele funcionasse? Nem eu sabia como ele era”.
Mundo humano
– O escore obtido pela participante 3 no domínio social foi
50%. No Instrumento de Auto-Percepção, nos âmbitos associados à relação da
85
participante 3 com as outras pessoas (familiar, social, cultural, profissional e lazer)
os dados obtidos demonstram que apenas no âmbito familiar a participante 3
percebe-se “muito satisfeita”, relatando o bom relacionamento que mantém com a
família e o quanto pode contar com o apoio que eles lhe dão, notou-se que ao falar
da família a participante 3 demonstrou entusiasmo.
O âmbito social a participante 3 percebe como “regular”, apesar de
comentar que não tem problemas com ninguém relata ter poucos amigos. Em seus
comentários sobe o diagnóstico de vaginismo a participante 3 ressalta a boa relação
que tem com o marido, e o apoio que ele lhe em relação à disfunção sexual,
encorajando-a muitas vezes a procurar ajuda, mas sem pressioná-la e sem cobrá-la.
Nos âmbitos cultural, profissional e lazer a participante 3 percebe-se,
respectivamente, “satisfeita”, “insatisfeita” e “regular”. Sobre o trabalho, comenta que
não está satisfeita com a empresa na qual trabalha atualmente. A participante relata
também que não sai muito de casa, apesar de gostar de se divertir, e que seu único
divertimento é ir à Igreja, durante esses comentários a participante 3 percebe a
importância de se divertir para ter uma vida mais satisfatória e para que o
casamento não vire rotina e ressalta que vai tentar se divertir mais com o marido.
Mundo próprio No domínio psicológico do WHOQOL-bref o escore
obtido pela participante 3 foi 70,83%, o maior escore obtido pela participante, em
comparação aos escores obtidos nos outros domínios avaliados pelo Questionário.
Já no Instrumento de Auto-Percepção, nos domínios associados à relação
da participante 3 consigo mesma (educacional, espiritual e emocional) uma
avaliação satisfatória por parte da participante, que se percebe “satisfeita” no âmbito
emocional e “muito satisfeita” no âmbito espiritual.
Em seus comentários em relação ao âmbito emocional a participante
ressalta que se sente bem, “apesar de tudo” e que vai “seguindo em frente”, nos
comentários relacionados à qualidade de vida a participante relata que o tratamento
do vaginismo melhorou bastante sua mente: “Depois desse tempo que eu estou aqui
a minha mente está bem melhor, a gente chega aqui sem saber de nada e vai
aprendendo”. Na maioria de suas falas, a participante toma para si a
responsabilidade da disfunção sexual, referindo-se ao vaginismo como “meu
problema”.
A partir dos comentários em outros âmbitos é possível notar quão forte é
a crença da participante 3 na sua religião, a ponto de a posição da Igreja influenciar
86
sua escolha de permanecer virgem até o casamento, sem nenhuma tentativa de
manter relações antes da lua-de-mel. Nos comentários sobre qualidade de vida, a
participante também fala sobre a importância da religião em sua vida: “Uma coisa
que me ajuda e me faz bem é minha crença em Deus, eu creio muito em Deus”
A participante relata em uma de suas falas que se percebe como uma
“pessoa tranqüila” e que para ela “sempre está tudo bem”.
5.3.2 - Temporalizar
A participante 3, em seus comentários, traz alguns eventos de
temporalidade, o primeiro deles diz respeito à lua-de-mel, quando tentou pela
primeira vez manter relações sexuais com o marido, mas que devido à disfunção
sexual não conseguiu. A frustração que sentiu nesse momento a fez buscar ajuda
com um médico, mas a impossibilidade de realizar o exame ginecológico solicitado a
fez desistir de descobrir o que havia acontecido: “Eu desisti, preferi pensar que ia
passar com o tempo”.
A participante 3 traz também o momento em que recebeu o diagnóstico
de vaginismo, em 2005, num posto de saúde próximo à sua casa, nessa época
procurou tratamento, mas acabou desistindo novamente: “Eu desisti de novo, fugi do
problema, às vezes é mais fácil fugir né?”.
Aponta outra passagem, em 2007, quando novamente buscou tratamento
para o vaginismo, desta vez porque estava disposta a engravidar, a participante faz
um contraponto com o momento atual, ressaltando que sua vontade não é mais
engravidar e sim “resolver o meu problema”.
A participante também consegue perceber as melhoras que vem
alcançando durante o tempo que está em tratamento e o quanto esses avanços a
fazem sentir melhor.
5.3.3 – Espacializar
Maneiras de existir Em alguns momentos da vida da participante
uma prevalência da maneira preocupada de existir, como nos momentos em que
desiste do tratamento por não conseguir perceber as possibilidades de melhora que
poderia obter, também é possível identificar a maneira preocupada de existir no
87
momento que a participante 3 busca o tratamento apenas porque quer engravidar.
Nesses momentos identificamos novamente a maneira de existir prejudicando a
visão das possibilidades e o existir da participante.
No decorrer do tratamento fica evidente a maneira sintonizada de existir
nos momentos em que a participante percebe que mais importante que apenas
engravidar é tratar o vaginismo, a participante consegue perceber as possibilidades
à sua volta com proximidade e familiaridade, podendo assim vivenciar seu existir e
perceber o que realmente é importante para ela. Isso fica claro durante a coleta de
dados, quando também percebe a importância de se divertir mais.
A maneira racional é identificada quando a participante 3 ressalta que
apesar de sua crença em Deus, sabe que o sucesso do tratamento também
depende dela e não apenas da vontade de Deus: “Essa parte do sexo eu sei que
depende mais de mim, eu tenho consciência disso”. A maneira racional permite que
a participante consiga perceber o quanto ela é responsável pelo seu tratamento, o
que favorece a adesão e a continuação do mesmo.
5.3.4 - Escolher
A maneira sintonizada de existir favorece uma visão mais ampla das
possibilidades, nesse caso, quanto maior a percepção maior a liberdade de escolha,
a participante 3 à medida que foi entendendo sobre o vaginismo pode também se
abrir para conhecer mais seu corpo, sua mente, compreendendo melhor o que
estava acontecendo. Quando não tinha essa compreensão a participante 3 não
conseguia levar suas escolhas adiante, desistindo várias vezes do tratamento a
perceber que queria tratar a disfunção sexual e não apenas engravidar, a
participante consegue entender que apesar das dificuldades precisa seguir em
frente, para conseguir o que deseja.
É possível notar que me alguns momentos as escolhas da participante
são influenciadas hora pela Igreja, hora pelo marido, o que fica claro quando a
participante resolve casar virgem por causa da Igreja e também quando a falta de
cobrança do marido de certa forma a faz ficar acomodada, não indo procurar
tratamento para o vaginismo.
Durante a entrevista fica evidente que hoje a participante 3 está aberta às
possibilidades, o que é ilustrado pelo momento em que percebe, durante a coleta de
88
dados, a importância de se divertir mais e resolve então tentar fazer um acordo com
o marido, no qual em determinados fins de semana ela fica em casa com ele e em
outros ele sai com ela.
5.3.5 - Considerações sobre os Instrumentos e a Qualidade de Vida
Tomando como base os dados obtidos através do WHOQOL-bref, nota-se
que a qualidade de vida da participante 3 (87,5%) é boa, dentre todas as
participantes essa foi a maior pontuação de qualidade de vida obtida.
Os resultados do Instrumento de Auto-Percepção de Qualidade de Vida
também apontam para uma qualidade de vida satisfatória, visto que em 3 âmbitos
(saúde, familiar e espiritual) a participante percebe-se “muito satisfeita”, nos
âmbitos cultural e emocional percebe-se “satisfeita”, apenas 2 âmbitos (social e
lazer) a participante avalia como “regular” e em nenhum dos âmbitos percebe-se
“muito insatisfeita”.
Um dos âmbitos em que a participante percebe-se “insatisfeita” é o
sexual, indicando mais uma vez a relação do vaginismo com o comprometimento da
qualidade de vida: “A minha vida não está completa ainda, eu ainda não tenho
minha casa… tem meu problema que eu quero resolver”, aqui a participante
demonstra a importância da conclusão do tratamento para a melhoria da qualidade
de vida e os benefícios que as melhoras alcançadas já lhe trouxeram: “Depois desse
tempo que eu estou aqui (em tratamento), a minha mente já está bem melhor”.
Outro ponto bastante significativo na percepção da qualidade de vida é a
influência da espiritualidade na vida da participante 3, sobre esse fato a participante
comenta: “Uma coisa que me ajuda e me faz bem é minha crença em Deus”.
Durante a entrevista a participante 3 avaliou como “boa” sua qualidade de vida, mas
pontuou que ainda pode melhorar e que está fazendo o que pode para que isso
aconteça.
Os resultados dos três instrumentos podem indicar que a qualidade de
vida satisfatória da participante 3 está diretamente associada à espiritualidade e à
busca pela cura da disfunção sexual.
89
5.4 - Participante 4
5.4.1 - Ser-no-mundo
Mundo circundante – Os resultados do Questionário de Qualidade de Vida
(WHOQOL-bref), levando em consideração o domínio ambiental (10,71%), indicam
que a relação da participante 4 com o ambiente encontra-se extremamente
prejudicada, esse foi o menor escore obtido em um domínio, comparado aos
escores das outras participantes. No que diz respeito à relação com seu corpo, o
resultado do domínio físico (32,14%) também aponta comprometimento.
Os dados obtidos através do Instrumento de Auto-Percepção de
Qualidade de Vida contradizem os dados do WHOQOL-bref, pois nos dois âmbitos
ligados ao relacionamento com o corpo (saúde e sexual) a participante 4 percebe-se
“satisfeita”. Nos escritos verbais relacionados ao âmbito saúde a participante 4
ressalta que está satisfeita com sua saúde porque está fazendo o tratamento e
percebe os resultados, mas que ainda tem que melhorar. Nos escritos verbais e nos
comentários relacionados ao âmbito sexual a participante relata que: “Praticamente
estou me sentindo realizada… pela primeira vez semana passada eu consegui ter
relação com penetração”, a participante fala dos benefícios que tratamento lhe
trouxe, da alegria que sentiu por ter conseguido ter relação com penetração e da
satisfação em perceber que o tratamento está dando resultado. O empenho no
tratamento também indica que a participante 4 tem uma relação de respeito com seu
corpo, pois executou todos os exercícios propostos pela médica: “Eu vinha fazendo
os exercícios em casa, do jeito que a doutora mandou, todos os dias, foi por isso
que eu consegui a penetração”.
Mundo humano – O escore obtido pela participante 4 no domínio social foi
58,33%, dentre todas as participantes, esse foi o maior valor obtido no domínio
social.
No Instrumento de Auto-Percepção, os âmbitos associados à relação da
participante 4 com as outras pessoas (familiar, social, cultural, profissional e lazer)
indicam que a participante 4 percebe-se “satisfeita” nos âmbitos social, cultural e
profissional. nos âmbitos familiar e lazer, a participante 4 percebe-se “regular” e
“insatisfeita”, respectivamente.
90
Em seus comentários sobre o âmbito familiar, a participante 4 relata que
não tem muito contato com a família, que não união entre eles e por esse motivo
não pode contar com a família quando enfrenta alguma dificuldade.
Em relação ao âmbito social a participante 4 deixa claro em vários
comentários a boa relação que tem com os amigos e como isto lhe proporciona bem
estar: “Eu tenho muitos amigos, eu posso dividir meus problemas, eles me escutam,
me apóiam, me dão força pra superar”, a participante relata ainda que se sente
muito querida pelos amigos e que isso lhe faz muito bem. O apoio que a participante
não encontra na família é suprido pelos amigos: “Eu me apóio nas minhas amigas,
com elas eu posso conversar, eu fico mais tranqüila, levanta minha auto-estima,
eu dou risada”. A participante comenta ainda sobre a relação com o companheiro,
com o qual conseguiu a primeira relação sexual com penetração, relata que não são
namorados, mas estão juntos um ano e recebe dele muito apoio, ao contrário do
ex-marido, que a abandonou por causa do vaginismo. Outro relacionamento
importante é mantido com a médica responsável pelo tratamento, a participante
acata todas as recomendações relacionadas aos exercícios propostos, o que
demonstra a boa relação estabelecida com a médica, o que influencia no resultado
do tratamento. A partir desses comentários fica claro que o convívio social tem
grande influência na qualidade de vida da participante.
Assim como no âmbito social, a participante 4 também comenta com
bastante entusiasmo o âmbito profissional, relata que sente prazer no trabalho, pois
está sempre rodeada de pessoas e durante as conversas aproveita pra desabafar e
ouvir, nota-se a importância do trabalho na vida, e conseqüentemente na qualidade
de vida, da participante 4 durante os comentários: “A minha vida é meu trabalho, eu
estou satisfeita com o que eu faço e isso me faz bemeu gosto do que eu faço, as
pessoas me elogiam e isso faz bem pra mim.
Mundo próprio No domínio psicológico o escore obtido pela participante
4 foi 54,17%.
No Instrumento de Auto-Percepção os âmbitos associados à relação da
participante 4 consigo mesma (educacional, espiritual e emocional) indicam uma
avaliação satisfatória, que nos âmbitos educacional e emocional a participante 4
percebe-se “satisfeita” e no âmbito espiritual “muito satisfeita”.
Em relação ao âmbito emocional, em seus comentários a participante 4
relata que: “Procuro sempre pensar positivo” e que isso lhe traz coisas boas,
91
deixando-a mais alegre e mais satisfeita. A participante durante a coleta de dados
mostrou-se bastante inquieta, essa parece ser uma característica sua, pois nos
comentários feitos em outros âmbitos a participante 4 ressaltou que é muito ansiosa,
tendo dificuldade para relaxar. A participante relata ainda que o tratamento do
vaginismo “abriu a minha mente”, e diz que está se sentindo feliz com os resultados
do tratamento: “Eu estou muito feliz, muito satisfeita, muito mesmo. Sabe uma coisa
que você fica esperando muito tempo e aí acontece?” comenta, referindo-se à
primeira relação sexual com penetração. A influência dos resultados do tratamento
em sua relação consigo mesma e na sua qualidade de vida fica clara durante o
comentário: “Vir procurar ajuda pro meu problema me ajudou a melhorar como
pessoa, eu me sinto bem, me acho bonita”.
Não muitos comentários relacionados ao âmbito espiritual, mas fica
claro em algumas falas da participante 4, que a crença em Deus tem papel
significativo em sua vida. Dentre todos os âmbitos abordados pelo Instrumento de
Auto-Percepção de Qualidade de Vida, o âmbito espiritual é o único que a
participante 4 percebe-se “muito satisfeita”.
5.4.2 – Temporalizar
O tempo do tratamento e os avanços alcançados são alguns dos eventos
de temporalidade trazidos pela participante 4: “Eu estou nesse tratamento há 7
meses e já melhorei muito”, ela aponta ainda a descoberta do vaginismo e a primeira
relação sexual com penetração: “No sexual, a vista de como eu cheguei aqui, eu
estou bem melhor, pela primeira vez a semana passada eu consegui a penetração”.
A participante aponta ainda a goa de ter sido abandonada pelo ex-
marido assim que descobriu que tinha vaginismo, são dois eventos que a marcaram
bastante, mas que de certa forma a fizeram perceber a importância de buscar o
tratamento e contribuir para o andamento do mesmo, comenta também que antes
tinha muitos pensamentos negativos e agora consegue perceber que pensar positivo
lhe faz sentir melhor.
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5.4.3 – Espacializar
Maneiras de existir Em muitos momentos uma predominância da
maneira preocupada de existir, o que fica claro nos momentos em que a participante
4 relata ser muito ansiosa e ter dificuldade parar relaxar, reconhecendo os
problemas que enfrenta por causa disso, mas também características da maneira
racional de existir, nos momentos em que a participante 4 percebe a importância de
buscar o tratamento e contribuir para que possa obter bons resultados, ela
reconhece que sua participação é de fundamental importância para o tratamento. A
maneira sintonizada de existir está bastante presente nos momentos em que as
relações sociais e profissionais da participante 4 influenciam em sua auto-estima e
seu bem-estar.
5.4.4 - Escolher
A participante 4 demonstra estar sempre aberta a entender o que
acontece em sua vida, o que favorece suas escolhas, e a participante demonstra
estar bem resolvida com as escolhas que faz, isso fica claro quando busca o
tratamento e resolve abandoná-lo por achar que o atual pode lhe render melhores
resultados, ela decide também se empenhar, fazendo sua parte, executando os
exercícios em casa, procurando pensar positivo e procurando entender o momento
certo das coisas acontecerem, sempre buscando o que acredita ser melhor pra ela,
já que em sua opinião, sua qualidade de vida ainda tem que melhorar.
5.4.5 - Considerações sobre os Instrumentos e a Qualidade de Vida
Levando em consideração os dados obtidos pela participante 4 (75%) no
WHOQOL-bref, nota-se que a qualidade de vida da participante 4 é satisfatória, em
comparação com as outras participantes, essa foi a segunda melhor pontuação de
qualidade de vida obtida.
Os dados do Instrumento de Auto-Percepção de Qualidade de Vida
também demonstram que a participante 4 tem uma ótima percepção de sua
qualidade de vida, visto que dos 10 âmbitos abordados pelo Instrumento, a
participante percebe-se “satisfeita” em sete (saúde, sexual, educacional, social,
93
cultural, profissional, emocional) e em apenas 1 âmbito (lazer) percebe-se
“insatisfeita”.
A percepção satisfatória dos âmbitos sexual e saúde indicam a
importância do tratamento do vaginismo na qualidade de vida da participante 4:
“Procurar ajuda pro meu problema me ajudou a melhorar como pessoa”. Outro ponto
importante é o apoio do companheiro e o bom relacionamento com sua médica. A
satisfação com o trabalho também se constitui como um fator importante para a
qualidade de vida satisfatória da participante 4, pois a mesma demonstra estar feliz
e realizada com sua profissão. O mesmo acontece com seu relacionamento com o
companheiro e com os amigos.
A participante 4 aponta o trabalho, a vida social e o tratamento como
pontos importantes para seu bem-estar e avalia sua qualidade de vida da seguinte
maneira: “A minha qualidade de vida é boa, eu gosto do que eu faço, eu vou
trabalhar, eu tenho minhas amigas, o pessoal gosta muito de mim”.
É possível notar que para a participante 4 o trabalho, o tratamento e a
vida social estão diretamente ligados à sua percepção de qualidade de vida.
94
IV. DISCUSSÃO
A questão de estudo que permeou esta pesquisa buscou compreender
como mulheres moradoras no Estado de São Paulo, significam qualidade de vida em
seu dia-a-dia através de um olhar fenomenológico. A partir das características do
existir humano (Forghieri, 2004) tentou-se compreender como cada uma dessas
mulheres vivencia a qualidade de vida em seu dia-a-dia.
Os resultados apresentados indicam que são muitos os impactos que o
vaginismo causa na vida de cada participante, afetando, conseqüentemente, sua
qualidade de vida. Segundo Boss (1979) a doença pode ser entendida como uma
privação da realização de possibilidades existenciais, o estar doente caracteriza-se
pelo prejuízo na habilidade de realização das possibilidades.
A análise dos dados, em que se destacam as características do existir
humano propostas por Yolanda Forghieri (2004) ser-no-mundo, temporalizar,
espacializar e escolher – relacionam os resultados nos três métodos de coleta
utilizados. A discussão retomará a qualidade de vida analisada em cada uma dessas
características do existir humano.
O ser-no-mundo constitui a estrutura originária do existir humano, nossa
identidade está relacionada aos acontecimentos que vivenciamos, desta maneira,
para saber quem somos precisamos saber onde estamos. O mundo é um conjunto
de relações significativas e apresenta-se ao homem sob três aspectos simultâneos:
mundo circundante (relacionamento da pessoa com o ambiente e seu próprio corpo),
mundo humano (está relacionado à convivência da pessoa com os seus
semelhantes) e mundo próprio (relação que o indivíduo estabelece consigo mesmo).
A análise do ser-no-mundo das quatro participantes indica que um dos
âmbitos mais comprometidos é a relação com o ambiente (mundo circundante).
Nenhuma das participantes obteve um escore maior que 50% no domínio ambiental
do WHOQOL-bref. Comparando-se aos escores do domínio ambiental, as
participantes obtiveram melhores escores no domínio físico. Apenas a participante 2
obteve um escore menor no domínio físico (42,68%) em comparação ao ambiental
(46,43%). Os dados do Instrumento de Auto-Percepção de Qualidade de Vida
complementam essas informações ao enfocar os âmbitos saúde e sexual. Levando
em consideração o âmbito saúde, as participantes 3 e 4 indicaram uma percepção
satisfatória. No caso da participante 3 uma visão do vaginismo como uma
95
disfunção sexual e não como uma doença, o que pode explicar a percepção
satisfatória da participante 3 em relação a sua saúde, ainda que se considere
insatisfeita quanto ao âmbito sexual. A participante 4 ressaltou que o fato de estar
fazendo o tratamento e perceber melhoras a deixa satisfeita com sua saúde; dentre
todas, esta foi a única participante que se percebeu satisfeita no âmbito sexual e
também a única que durante o tratamento conseguiu manter relação sexual com
penetração.
Para as quatro participantes o âmbito social (mundo humano) é marcado
pelas relações com a família, amigos, trabalho e lazer. Para a participante 1, as
relações mais marcantes são: com os filhos, os amigos e a médica responsável pelo
tratamento; conflitos com o marido e os colegas de trabalho, por não entenderem
sua disfunção. Os dados da participante 2 referem o quanto o diagnóstico recente do
vaginismo afetou esse âmbito de sua vida; pontua positivamente apenas o bom
relacionamento com a família, apesar de perceber-se satisfeita na maioria dos
âmbitos relacionados à área social (contudo, o escore obtido por ela no domínio
social do WHOQOL-bref foi 25%). A partir dos dados da participante 3 foi possível
notar que os âmbitos de maior importância na área social são: familiar, profissional e
lazer. A participante pontua o quanto recebe o apoio da família e do marido em
relação à superação da disfunção sexual, destacando ainda insatisfação com o
trabalho e a necessidade de vivenciar mais momentos de lazer. Dentre todos os
âmbitos avaliados, o social e o profissional são o de maior importância para a
participante 4; a relação com o companheiro e com os amigos é marcada pelo apoio,
o que não acontece com a família, causando sofrimento; o trabalho, por outro lado, é
apresentado como fonte de prazer e satisfação. Para todas as participantes o apoio
da família e do companheiro é de fundamental importância, assim como o trabalho e
as possibilidades de lazer, que podem influenciar negativa ou positivamente na
percepção de qualidade de vida.
Nota-se que o mundo próprio das participantes foi o mais afetado pela
disfunção sexual. De acordo com Forghieri (2004) em uma situação de doença, a
relação da pessoa doente consigo mesma e com o mundo encontra-se
consideravelmente restringida. Bastos (2003) ressalta que o vaginismo, em
particular, afeta a mulher em diversos segmentos da vida: nas relações
interpessoais, sua auto-estima, auto-imagem e no relacionamento com o parceiro. A
participante 1, por exemplo, transpõe muitas características do vaginismo para este
96
âmbito ao considerar sua relação consigo mesma. O sentimento de não se sentir
realizada como mulher, é dividido por todas as participantes, assim como a
percepção do vaginismo como um problema somente delas, excluindo qualquer
responsabilidade do companheiro, o que gera um sentimento de culpa comum às
quatro mulheres. Observa-se uma melhor percepção do mundo próprio nas
participantes 3 e 4, que pontuam em seus comentários o quanto o tratamento trouxe
melhorias para suas vidas: ambas relatam que o tratamento melhorou a “mente e o
corpo” (sic), outro ponto comum a essas duas participantes é a influência da
espiritualidade em seu bem-estar e na compreensão da disfunção sexual. Segundo
Forghieri (2004), a partir do autoconhecimento, à medida que o indivíduo vai
percebendo quem é, consegue visualizar de um modo peculiar as situações que
vivencia no mundo. As situações adversas, como as doenças, podem transformar-se
num estímulo para descobrir possibilidades. Para compreender o sofrimento, o ser
humano precisa aceitá-lo e, reconhecendo suas limitações, é possível superá-las.
Os dados indicam que para todas as participantes, seja nas relações com
o ambiente, com as outras pessoas ou consigo mesmas, uma forte influência da
disfunção sexual: o vaginismo parece estar sempre permeando as relações, sejam
elas conflitivas ou não. Desta maneira, nota-se que o ser-no-mundo de todas as
participantes foi visivelmente afetado por esta disfunção sexual.
Os instrumentos utilizados (WHOQOL-Bref) e Instrumento de Auto-
Percepção de Qualidade de Vida) propõem um resgate de momentos diferentes da
vida das participantes, sendo que o Questionário avalia um período de quatro
semanas e o Instrumento um período de duas semanas. Segundo Forghieri (2004),
temporalizar significa experienciar o tempo, estende-se em relação ao passado e em
direção ao futuro, com amplitude ou restrição. Apesar de levarem em consideração o
tempo determinado pelos instrumentos, as participantes voltaram ao passado.
Ressaltaram momentos marcantes de suas vidas, a maioria deles relacionados ao
vaginismo, visto que durante a entrevista elas foram questionadas acerca do
momento em que receberam o diagnóstico. A participante 2 foi a que mais ressaltou
a influência do vaginismo na vivência do tempo, uma vez que se encontrava
bastante mobilizada com o recente diagnóstico, o conseguindo entender o
processo que se iniciou no momento da descoberta do vaginismo, nota-se aqui tal
preocupação da participante 2 restringe o seu temporalizar. Exceção à participante
2, as demais participantes conseguem vivenciar o tempo desde o diagnóstico, a
97
busca pelo tratamento chegando a os dias atuais, conseguindo perceber, cada
uma a seu tempo, a importância de buscar o tratamento e reconhecer os resultados
alcançados: conseguem vivenciar com sintonia as experiências, expandindo o
temporalizar.
Espacializar significa nos situar concretamente no ambiente e vivenciar o
existir no mundo. A intensidade dessa vivência varia de acordo com as maneiras de
existir do homem (Forghieri, 2004). No decorrer da análise dos dados foi possível
identificar as maneiras de existir predominantes de cada participante. No momento
avaliado, a participante 1 alterna as três maneiras de existir; a participante 2
demonstra que a maneira preocupada tem influenciado seu existir nas últimas
semanas, impossibilitando-a de visualizar as possibilidades. Segundo Forghieri
(2004) a maneira preocupada de existir pode variar de um vago sentimento de
intranqüilidade a uma profunda sensação de angústia. As participantes 3 e 4
também alternam as três maneiras de existir, mas com prevalência da maneira
sintonizada, dado que essas participantes parecem perceber com mais clareza as
restrições que a disfunção lhes trouxe e as possibilidades de melhora, além da
importância de contribuírem para o sucesso do tratamento. Forghieri (2004) ressalta,
sobre as maneiras de existir: “as três maneiras de existir costumam ocorrer em
nossa vivência, continuamente articuladas e relacionadas, havendo apenas a
predominância maior ou menor, ora de uma, ora de outra” (p.41).
As maneiras de existir podem favorecer ou dificultar as escolhas. De
acordo com Forghieri (2004) para escolher o ser humano precisa estar aberto à
percepção e compreensão de sua vivência no mundo. As participantes, apesar de
alternarem momentos de prevalência da maneira preocupada de existir, conseguem
compreender suas dificuldades e se abrir para novas possibilidades, o que é, de
certa forma, facilitado pelo acolhimento que recebem da médica responsável por
seus tratamentos. As informações sobre a disfunção sexual e opções de tratamento
proporcionam uma melhor compreensão do que as participantes estão vivendo,
possibilitando assim a realização das escolhas. A revisão de literatura apontou que a
maioria das mulheres que sofrem de vaginismo demora um tempo considerável para
procurar ajuda e iniciar um tratamento, devido à escassez de informação sobre essa
disfunção. Segundo Anastasiadis et al (2002) a falta de conhecimento sobre a
própria sexualidade e a desinformação sobre a fisiologia da resposta sexual podem
desencadear problemas emocionais que alteram a resposta sexual da mulher.
98
Todas as participantes, antes e logo após o diagnóstico de vaginismo, passaram por
momentos de restrição de possibilidades; a falta de informações, o sofrimento
enfrentado, a descrença dos médicos são alguns dos fatores que impossibilitam a
compreensão da disfunção sexual e a busca pelo tratamento.
Três participantes (1,3 e 4) demoraram um tempo considerável para
receber o diagnóstico correto e ter a possibilidade de realizar um tratamento
adequado. Segundo Aliaga, Ahumada e Villagrán (2000) apesar de as
especialidades médicas reconhecerem que a história sexual é parte integrante de
uma completa avaliação médica, muitos profissionais preferem não fazer perguntas
relacionadas à sexualidade, o que dificulta a investigação dos problemas sexuais.
De acordo com Gonçalves (2006), muitas vezes a mulher oculta as queixas sexuais
e dependendo do manejo do ginecologista essas queixas podem tornar-se
evidentes. Em estudo realizado com ginecologistas brasileiros, Abdo e Oliveira
(2002) verificaram que 49% dos ginecologistas entrevistados não se sentem seguros
para abordar questões relacionadas à sexualidade. Segundo Junqueira et al (2005)
as dificuldades dos médicos no manejo da sexualidade deve-se às deficiências nas
escolas de medicina.
alguns estudos acerca da prevalência de traços de personalidade em
mulheres com vaginismo. Durante a coleta dos dados e posteriormente, na análise
dos resultados foi possível perceber que se torna arriscado atribuir características
comuns às mulheres com vaginismo, visto que a situação de “doença” que essas
mulheres vivenciam pode desencadear características que em outros momentos não
se manifestam. As implicações e restrições que o vaginismo traz para a vida da
mulher, a freqüente demora para receber o diagnóstico e iniciar um tratamento,
resultam levá-las a situações de medo, insegurança, ansiedade, baixa auto-estima,
entre outras características. Isto não quer dizer necessariamente que a
personalidade daquelas mulheres é marcada por essas características. Cada mulher
vivencia os acontecimentos de sua vida à sua maneira. Foi possível notar nas quatro
participantes, vivências distintas de acontecimentos semelhantes, a saber: falta de
diagnóstico; descaso ao se expor a profissionais; sentir-se diferente e sendo o
problema; escassez de informações sobre tratamentos existentes; relacionamento
com o parceiro; dificuldades no trabalho.
Todas as participantes da pesquisa percebem o vaginismo como sendo
um “problema” somente delas e deixam de considerar qualquer tipo de influência do
99
parceiro no desenvolvimento ou na manutenção da disfunção. Segundo Gomes
(2005) muitas vezes o vaginismo se desenvolve em um contexto onde há uma
mulher com a sexualidade “fragilizada” e um homem que traz a mesma vivência,
devido às identificações inconscientes das histórias de vida e de desenvolvimento
sexual. Retomando os primeiros estudos sobre vaginismo, realizados por Wolfromm
(1965), que destaca a existência de casos em que os parceiros contribuem para a
manutenção do vaginismo. A participante 3, durante muitos momentos evitou o
tratamento, recebendo o apoio do marido, segundo ela o parceiro não lhe fazia
cobranças quanto à resolução da disfunção, o que de certa forma contribuiu para o
adiamento da decisão de se tratar.
Para Bastos (2003) a evolução do tratamento pode fazer surgir questões
do casal que de alguma forma poderiam estar escondidas atrás do sintoma. Os
conflitos existentes entre a participante 1 e seu parceiro parecem ter sido
intensificados com o início do tratamento, pois o marido não apóia a decisão da
participante em procurar o tratamento: “meu marido não entende isso [que é difícil
para ela], pra ele está bom, mas pra mim não está, pra ele está tudo bem. Após um
período de tratamento surgem questões que fazem com que a participante 1 se sinta
incomodada com a presença do marido. A partir dos dados da participante 4 foi
possível identificar que somente após a separação do marido ela consegue
prosseguir com o tratamento.
Retomando a concepção de Boss (1979) ao ressaltar que a doença
acarreta inúmeras implicações na vida do ser humano, limitando suas possibilidades
de existir, pode-se compreender como as limitações vividas pelas participantes
afetam de forma direta sua qualidade de vida.
A Organização Mundial de Saúde (OMS) revelou na década de 1990 que
o sexo é um dos quatro principais pilares que garantem ao indivíduo, em qualquer
idade, a qualidade de vida. Alguns dos estudos consultados, sobre qualidade de vida
em diferentes populações (De La Cal et al, 2001; De Lorenzi et al, 2006; Malaquias,
2008; Manganiello, 2008) reafirmam a posição da presente pesquisa de que a
sexualidade é um elemento fundamental para uma boa qualidade de vida.
Os dados obtidos na presente pesquisa indicam que:
O vaginismo afeta todos os âmbitos da vida das participantes, uns
com mais intensidade, outros com menos aqui observamos o exemplo da
participante 2 que se encontrava, durante a coleta de dados, extremamente
100
sensibilizada e confusa acerca dos rumos do tratamento, o diagnóstico influencia
diretamente sua avaliação de qualidade de vida: “Eu nem sei se eu tenho qualidade
de vida… antes desse diagnóstico… oxe se isso é vida!”.
Os âmbitos que influenciam diretamente a avaliação geral de
qualidade de vida variam para cada participante Segundo Patrick (2008), duas
avaliações de qualidade de vida não podem ser iguais, pois cada avaliação mostra
uma experiência individual que pode ser limitada não pelo ambiente particular,
como também pelo momento específico. De acordo com os dados foi possível notar
que para a participante 1 os âmbitos que influenciam diretamente na avaliação de
qualidade de vida são: familiar, amigos, lazer e saúde (tratamento); enquanto que
para a participante 3, os âmbitos são: familiar, espiritualidade, saúde e sexual
(tratamento); os âmbitos mais marcantes para a participante 4 são: trabalho, social
(amigos), saúde e sexual (tratamento). Os dados da participante 2 apontam que os
âmbitos saúde e sexual influenciam negativamente na sua avaliação de qualidade
de vida.
Para todas as participantes, obter informações, compreender a
disfunção e, principalmente, ter a possibilidade de fazer o tratamento são
ações que favorecem o bem-estar e a auto-estima Os dados da participante 1
indicam que para ela a qualidade de vida está relacionada à possibilidade de “tratar
a cabeça e o corpo”. A participante 3 relata suas impressões sobre o tratamento:
“Hoje eu sinto muita melhora na minha vida, a minha mente está bem melhor,
eu não sabia nada do meu corpo, agora eu sei”. A participante 4 relata: “Vir
procurar ajuda pro meu problema me ajudou muito a melhorar como pessoa, eu me
sinto bem, me acho bonita, eu me sinto bem sabe?”. Segundo Chatterji e
Bickenbach (2008) o que as diferentes definições de qualidade de vida têm em
comum é o fato de perceberem o domínio saúde como sendo um componente da
qualidade de vida. A saúde, a percepção da saúde ou a satisfação com a mesma é o
fator mais importante para o bem-estar do indivíduo.
A resolução da queixa influencia na melhoria da qualidade de vida
as participantes 2, 3 e 4 relatam a importância da resolução da queixa para que a
qualidade de vida melhore, o que fica claro em alguns relatos como: “Minha
qualidade de vida enquanto eu não resolver o meu problema está péssima, nada ta
bom” (Participante 2); “A minha vida não está completa ainda… tem meu problema
que eu quero resolver… minha qualidade de vida está boa, mas tem que melhorar,
101
ainda não ta do jeito que eu quero” (Participante 3); “Eu to satisfeita com a minha
vida, eu estou nesse tratamento 7 meses e melhorei muito, então posso
dizer que está bom, minha vida está boa (Participante 4). Vale ressaltar que a
Participante 4 foi a única dentre as participantes que durante o tratamento
conseguiu manter relação sexual com penetração. De acordo com Chatterji e
Bickenbach (2008), a melhora da saúde contribui para a melhora da qualidade de
vida, ou para o bem-estar. Segundo Rogerson (1995) é na condição de recuperação
da saúde, após um evento de doença ou agravo, que pode ocorrer a
experimentação de qualidade de vida.
De acordo com Fleck (2008) a conceituação de qualidade de vida ainda
apresenta um campo de debate, para alguns autores ainda é complexo conceituá-la
de forma adequada. Segundo Fernández-Ríos e García-Fernández (1999) a teoria e
investigação da qualidade de vida é confusa, porque não existe acordo sobre o
conceito de qualidade de vida.
Malaquias (2008) apontou algumas limitações no instrumento da OMS no
que diz respeito à atenção à sexualidade, como o numero reduzido de questões
(apenas quatro) que envolvem a sexualidade em comparação aos outros pilares de
sustentação da qualidade de vida; o caráter reducionista expresso nas perguntas
que visam avaliar apenas o desempenho sexual; e também a ambigüidade dos
termos “necessidades sexuais” e “vida sexual”, que muitas vezes podem ser
compreendidos como sinônimos, “verificar se a conquista de maior satisfação sexual
entendida estreitamente na sua dimensão biológica sugere uma melhor
qualidade de vida, revela-se uma avaliação superficial e inconclusa”.
O autor sugere um viés subjetivo não na elaboração das perguntas,
mas também na forma de interpretação das respostas, com o intuito de auxiliar a
avaliação da qualidade de vida e o alcance da saúde. O autor abre, então, um
questionamento sobre a possibilidade de se considerar a sexualidade como um
novo campo, mais complexo e subjetivo para se avaliar a qualidade de vida.
Segundo Patrick (2008) quando a avaliação de qualidade de vida é feita
segundo a perspectiva do indivíduo, o progresso é alcançado com maior rapidez.
Durante a coleta de dados foi possível observar que o Instrumento de Auto-
Percepção de Qualidade de Vida facilitou o contato com as participantes. Os
âmbitos que foram aprofundados contribuíram para que elas pudessem refletir sobre
diversos aspectos de suas vidas, como: vivência familiar e social, espiritualidade,
102
saúde, sexualidade, disfunção sexual e principalmente, as concepções sobre sua
qualidade de vida.
103
V. CONCLUSÃO
A partir de um olhar fenomenológico, a presente pesquisa buscou
compreender como mulheres diagnosticadas com vaginismo, moradoras no Estado
de São Paulo, vivenciam qualidade de vida em seu dia-a-dia.
Participaram deste estudo quatro mulheres portadoras de vaginismo
primário, no qual a dificuldade sexual está presente desde a primeira tentativa de
penetração, cujas vivencias apontam que:
1) O vaginismo afetou todos os âmbitos da vida das participantes, uns
com mais intensidade.
2) Os âmbitos que influenciaram diretamente a avaliação geral de
qualidade de vida variaram para cada participante.
3) Obter informações, compreender a disfunção e, principalmente, ter a
possibilidade de fazer o tratamento são ações que favorecem o bem-
estar e a auto-estima das participantes.
4) A resolução da queixa de vaginismo influencia na melhoria e na
avaliação de qualidade de vida.
Os dados da presente pesquisa indicam a possibilidade e a necessidade
de novos estudos referentes a: sexualidade feminina; o vaginismo, bem como a
relação do casal nessa situação; a abordagem da sexualidade por profissionais da
saúde; a influência da sexualidade na qualidade de vida; os impactos das disfunções
sexuais na avaliação de qualidade de vida.
Os resultados apontam para: A) a importância da revisão dos
instrumentos padronizados para avaliação de qualidade de vida para este tipo de
população, referente ao âmbito sexual; B) a realização de estudos psicológicos e
interdisciplinares relacionados a disfunções sexuais femininas, especialmente o
vaginismo, para uma visão mais contextualizada sobre a sexualidade e a qualidade
de vida; C) a elaboração de instrumentos específicos, que avaliem a relação entre
sexualidade e qualidade de vida; D) o enfrentamento da questão do vaginismo como
um problema de gênero e não de disfunção exclusivamente feminina.
104
VI. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
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APÊNDICE A – Questionário de Qualidade de Vida (WHOQOL-bref)
APÊNDICE B – Instrumento de Auto-Avaliação de Qualidade de Vida.
Instrumento de Auto-avaliação de Qualidade de Vida
Bassani, Eisenstadt e Correa (2002)
Nome: data de nascimento:
sexo: estado civil:
profissão: data:
Tempo - início:________________ h término: h
Oficina nº ______ Grupo:
Este é um instrumento de auto-percepção de qualidade de vida, composto por uma Figura e
um Quadro. Na Figura encontram-se dez âmbitos da nossa vida. A direita da figura você tem
três critérios para avaliar a sua vida no período correspondente as quatro últimas semanas.
São eles: 1 – muito insatisfeito; 2 – insatisfeito; 3 – regular; 4 – satisfeito; 5 – muito
satisfeito.
Você deverá preencher o cririo considerado por você em cada âmbito. Exemplo: você
começou pelo âmbito social, e considera estar satisfeito nestas últimas quatro semanas: pinte o
espaço correspondente até a linha azul onde está escrito “social” (do centro às extremidades).
Após pintar todos os âmbitos na Figura, passe para o Quadro. Para cada âmbito mencionado,
escreva o que considerou para avaliar cada um deles. Exemplo:
Social: “tenho amigos que me valorizam e eu gosto deles.”.
Se você quiser acrescentar algo ou fazer comentários escreva-os no item Observações.
FIGURA
Lazer
Profissional
Cultural
Social
Espiritual
Educacional
Familiar
Sexual
Saúde
Emocional
1
2
3
4
5
Lazer
Emocional
Social
Familiar
Profissional
Espiritual
Sexual
Cultural
Educacional
Saúde
O que você levou em consideração em cada âmbito?
QUADRO
Observações:
APÊNDICE C - Instrumento de Auto-Percepção de Qualidade de Vida.
Instrumento de Auto-percepção de Qualidade de Vida
Serra e Bassani (2008)
Nome: data de nascimento:
sexo: estado civil:
profissão: data:
Tempo - início:________________ h término: h
Este é um instrumento de auto-percepção de qualidade de vida, composto por uma Figura e
um Quadro. Na Figura encontram-se dez âmbitos da nossa vida. A direita da figura você tem
três critérios para avaliar a sua vida no período correspondente as quatro últimas semanas.
São eles: 1 – muito insatisfeito; 2 – insatisfeito; 3 – regular; 4 – satisfeito; 5 – muito
satisfeito.
Você deverá preencher o critério considerado por você em cada âmbito. Exemplo: você
começou pelo âmbito social, e considera estar satisfeito nestas últimas quatro semanas: pinte o
espaço correspondente até a linha azul onde está escrito “social” (do centro às extremidades).
Após pintar todos os âmbitos na Figura, passe para o Quadro. Para cada âmbito mencionado,
escreva o que considerou para avaliar cada um deles. Exemplo:
Social: “tenho amigos que me valorizam e eu gosto deles.”.
Se você quiser acrescentar algo ou fazer comentários escreva-os no item Observações.
FIGURA
Lazer
Profissional
Cultural
Social
Espiritual
Educacional
Familiar
Sexual
Saúde
Emocional
1
2
3
4
5
Emocional
Social
Familiar
Sexual
Saúde
O que você pensou e/ou sentiu ao responder os seguintes âmbitos:
QUADRO
Observações:
ANEXO 1 – Parecer do Comitê de Ética em Pesquisa da PUC-SP
ANEXO 2 – Termo de Consentimento Livre e Esclarecido
TERMO DE CONSENTIMENTO LIVRE E ESCLARECIDO
I – DADOS DE IDENTIFICAÇÃO DO SUJEITO DA PESQUISA
NOME: _________________________________________________________
DOCUMENTO DE IDENTIDADE N°: __________________________________
DATA DE NASCIMENTO: ____/____/______
ENDEREÇO: _____________________________________________N°_____
APTO: ______ BAIRRO____________________________ CEP____________
CIDADE___________________________
TELEFONES (___)_____________/(___)_______________
II – DADOS SOBRE A PESQUISA CIENTÍFICA
1. Título provisório do protocolo de pesquisa: “Qualidade de vida e Disfunção Sexual
Feminina: Vaginismo”.
2. Pesquisadora Responsável: Melina Serra Pereira
Cargo/Função: Psicóloga responsável pela pesquisa.
Inscrição no Conselho Regional: N° CRP 87959
3. Instituição: PUC-SP, Programa de Pós-Graduação em Psicologia Clínica, Núcleo
de Psicossomática e Psicologia Hospitalar, Nível Mestrado.
4. Orientadora: Profª Drª Marlise Aparecida Bassani
5. Avaliação do risco da pesquisa: A probabilidade de que o indivíduo sofra algum
dano como conseqüência imediata ou tardia desta pesquisa é de risco baixo.
6. Duração da pesquisa: 1 ano
7. Publicação da pesquisa: As informações e os materiais produzidos ao longo da
pesquisa serão publicados no meio científico, sendo preservados os dados de
identificação do participante.
III – REGISTRO DAS EXPLICAÇÕES DA PESQUISADORA AO PARTICIPANTE
SOBRE A PESQUISA
Esta pesquisa está sendo realizada para investigar a qualidade de vida de mulheres
com vaginismo. Será investigado como mulheres moradoras do Estado de São
Paulo diagnosticadas com vaginismo significam qualidade de vida em seu cotidiano.
Para a coleta dos dados, serão aplicados o Questionário de Qualidade de Vida da
OMS (WHOQOL-bref) e o Instrumento de Auto-Percepção de qualidade de vida
(Serra e Bassani, 2008) e por último será realizada uma entrevista aberta. Durante a
coleta de dados será utilizado um gravador de áudio.
Os resultados da pesquisa serão utilizados na elaboração de uma dissertação como
parte dos requisitos para obtenção do título de Mestre em Psicologia Clínica pela
pesquisadora; e para possível publicação futura. Não haverá, no entanto, a
identificação das pacientes participantes.
IV – ESCLARECIMENTOS DADOS PELA PESQUISADORA SOBRE GARANTIAS
DO SUJEITO DA PESQUISA CONSIGNANDO:
1. A participante da pesquisa pode ter acesso, sempre que desejar, às informações
sobre procedimentos, riscos e benefícios relacionados à pesquisa;
2. A participante da pesquisa tem liberdade para retirar seu consentimento a
qualquer momento e o sujeito deixa de participar da pesquisa;
3. A participante da pesquisa tem a garantia de que serão salvaguardados sua
confidencialidade, seu sigilo e sua privacidade;
4. A participante receberá uma devolutiva de sua participação na presente pesquisa.
V – INFORMAÇÕES DA RESPONSÁVEL PELO ACOMPANHAMENTO DA
PESQUISA PARA CONTATO, CASO NECESSITE:
Melina Serra Pereira
Rua Monte Alegre, 957 Apto. 93, Perdizes
CEP 05014-001 – São Paulo - SP.
Fone: (11) 8583-3706
VI – CONSENTIMENTO PÓS-ESCLARECIDO:
Declaro que, após ter sido convenientemente esclarecido pela pesquisadora e ter
entendido o que foi explicado, consinto em participar da presente pesquisa.
São Paulo, _____ de _______________ de 2008.
____________________________ ___________________________
Assinatura da participante Assinatura da pesquisadora
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