31
... em lugar de esperarmos que o conhecimento conceitual da gramática da
língua leve o aprendiz a dominar ou a aperfeiçoar as práticas de leitura e
produção, devemos pretender que essas práticas, uma vez convertidas em objeto
privilegiado do trabalho em sala de aula, permitam ao aluno intuir, a partir de
seqüências especialmente elaboradas, a gramática subjacente. Sem dúvida
ninguém poderá supor que essa intuição seja suficiente, por si só, para o aluno
compreender e descrever a língua, de que, no entanto se mostra, perfeitamente
capaz de servir-se. Portanto, a metalinguagem deverá, sim, ser explicitada e
sistematizada, mas paulatinamente, ao sabor das necessidades e demandas do
ensino das práticas de leitura, produção e oralidade. (RANGEL, op. cit., p. 11)
Com base no que foi discutido, é possível concluir que, para que o ensino-
aprendizado de produção de textos seja abordado como um processo de interlocução,
isto é, como uma atividade interacional, é preciso que seja adotada uma concepção de
língua como enunciação, como discurso, como forma de interlocução, que oriente o uso
da escrita no contexto escolar. Conforme Soares (1999, p. 61), a língua – tanto oral
como escrita – deve ser reconhecida como forma de interlocução, visto que quem fala
ou escreve é um sujeito que – em determinado contexto social e histórico e em
determinada situação pragmática – interage com um interlocutor, também um sujeito,
levado por um objetivo, por uma necessidade de interação.
A autora acrescenta que essa mudança de concepção de língua escrita é que leva
à distinção entre redação – o exercício de mostrar que se sabe ortografar, construir
frases e preencher um esquema – e produção de texto – o estabelecimento de
interlocução com um leitor (SOARES, op. cit., p. 61). Assim, podemos entender que a
prática de produzir redações é diferente da prática de produzir textos. A primeira limita
muito o aprendizado, visto que, de certa forma, impõe um modelo a ser seguido, sem
nortear o aluno. Já a segunda constitui um processo amplo, que implica uma interação
comunicativa.
A respeito dessa diferença quanto ao encaminhamento do ensino-aprendizado da
escrita na escola, Marcuschi e Cavalcante (2005, p. 241), ao comentarem o
posicionamento dos livros didáticos de língua portuguesa inscritos no PNLD 2004, com
relação ao ensino-aprendizado da escrita, afirmam que estes conduzem a escrita de
textos com base, principalmente, na indicação do tema – os quais também afirmam ser
bastante repetitivos – ou, eventualmente, na menção do tipo textual a ser considerado.
Dessa maneira, as autoras concluem que atividades de produção textual desse tipo
levam o aluno a elaborar redações que se configuram como um mero exercício de
escrita, o que é responsável pelo elevado nível de artificialidade da produção escrita. No