Download PDF
ads:
UNIVERSIDADECATÓLICADOSALVADOR
PROGRAMADEPÓSGRADUAÇÃOEMCIÊNCIASDAFAMÍLIA
MESTRADOEMPOLÍTICASSOCIAISECIDADANIA
MILTONJORDÃODEFREITASPINHEIROGOMES
PRISÃOERESSOCIALIZAÇÃO:
UMESTUDOSOBREOSISTEMAPENITENCIÁRIODABAHIA.
Salvador
2009
ads:
Livros Grátis
http://www.livrosgratis.com.br
Milhares de livros grátis para download.
i
MILTONJORDÃODEFREITASPINHEIROGOMES
PRISÃOERESSOCIALIZAÇÃO:
UMESTUDOSOBREOSISTEMAPENITENCIÁRIODABAHIA.
Dissertação apresentada ao Mestrado
em Políticas Sociais e Cidadania da
Universidade Católica do Salvador,
comorequisitoparcialparaaobtenção
doGraudeMestre.
Orientador: Ângela Maria Carvalho
Borges, Doutora em Ciências Sociais
pelaUniversidadeFederaldaBahia.
Salvador
2009
ads:
ii
UCSal.SistemadeBibliotecas.
SetordeCadastramento.
G633p Gomes,MiltonJordãodeFreitasPinheiro.
Prisãoeressocialização:umestudosobreosistemapenitenciáriodaBahia/ Milton
JordãoPinheiroGomes.Salvador:UCSal:ProgramadePósGraduaçãoemCiênciasda
Família.MestradoemPolíticasSociaiseCidadania,2009.
163f.
DissertaçãoapresentadaaoMestradoemPolíticasSociaiseCidadaniadaUniversidade
CatólicadoSalvador,comorequisitoparcialparaaobtençãodoGraudeMestre.
Orientadora:ProfªDrªÂngelaMariaCarvalhoBorges
1.SistemaPenitenciárioBahia.2.PrisãoRessocialização.3.PrisãoPenaCódigo
PenalBrasileiro(CPB).4.CárcereBrasilBahia.5.SistemapenalJustificação.6.Crimina
lidadeEnfrentamentoPolíticapública.7.Dissertação.II.UniversidadeCatólicadoSalva
do..MestradoemPolíticasSociaiseCidadania.III.T.
CDU343.811(813.8)P(043.3)
iii
iv
Dedicoesteestudo:
Aminhafamília:Jane,Milton,Rita,TiagoeAna
v
AGRADECIMENTOS
Todaobraindividualésempreatribuídaaumúnicoautor,porém,mefurtoa
estalógica,poistenhoaconvicçãoquenenhumaobraéindividual.Nóssomosum
pouco de cada um que nos rodeia, além disso, as etapas de construção do
pensamento são repletas de interseções que nos marcam, às vezes até o
crepúsculodavida.
E,nestaperspectiva,teçoaquidiminutosagradecimentosque,sem
estaspessoas,nadadoqueexistenestadissertaçãoseriapossível.
Primeiramente,todahonraeglóriaaDeus,queapesardeminha
distância,temestendidoasuamãosobremim,dandomebenções,sendo
exemplomaiordeamorqueconsigoconceber.
ÀJane,amelhordefiniçãohumanadeamorqueconho.Agradeçoo
incentivo,ainsistênciaaasfériasperdidaspormim.Estetrabalhotemsua
participaçãodireta.
ÀprofessoraÂngelaBorges,quecomsuacanduraesutileza,fizeram
comqueenxergassealémdasfronteirasdojurídico.
Àminhafamília,MiltonSousaGomes,RitaIzabelGomes,
TiagoJordãoGomeseAnaIzabelJordãoGomes,peladevoçãoeamor,que
desdeosremotostemposdeminhavida,mepermitiramalçarosvôos
necessáriosparahojerealizarestetrabalho.
ÀSelmaSantanaporconfiarsempreemmeupotencialeacreditarem
mim,inclusive,emalgumasoportunidades,maisdoqueeumesmo.
Aoscolegasdeescritório,MaurícioVasconcelos,
FabianoVasconcelos,FabianaMuellereWandaPimentel,quecomseu
companheirismorenovamaminhafénaamizade.
ÀCarlaAlonsoetodosdaSecretariadeJustiça,CidadaniaeDireitos
Humanos,assimcomoaIsidórioOrgeetodosnoComplexoPenitenciário
LemosBritopelaatençãoeauxílioprestadonestapesquisa.
Porfim,nãopoderiaesquecer,sobpenadaeternamáculada
ingratidão,deagradeceraKleberLeitãoeaoPoetaBirão,porter,emtempos
primitivosdemeupensamento,haversidopeçasimportantespara
desenvolveridéiasaquiesposadas.
vi
“Propomonosafazersaberoqueéaprisão:quementrenela,comoeporquese
vaipararnela,oquesepassaali,oqueéavidadosprisioneiros,eigualmente,ado
pessoaldevigilância,oquesãoosprédios,aalimentação,ahigiene,como
funcionam,sesaidelaeoqueé,emnossasociedade,serumdaquelesquesaiu.
(ManifestodoGrupodeInformaçõessobreaPrisão–JM.Domenach,M.Foucalt,
P.VidalNequet,Paris,8.2.1971)
vii
RESUMO
Prisão e capitalismo nutrem entre si laços antigos e sólidos. Desde os primeiros
esboçosdoencarceramentohumano como substituiçãoàspuniçõescorporais,um
doselementosdeconferiram aocárcere opleno desenvolvimentoea suafixação
como penarainha foi o modelo econômico que vigia à época: o capitalismo.
Analisar,portanto,asrelaçõesentreprisãoecapitalismo,permeandooestudocom
incursão sobre o mito ressocialização do condenado é a meta principal desta
Dissertação.
Inaugurase o presente debate, por um viés histórico, partindo do nascimento do
cárcere até a sua sedimentação na legislação e cultura ocidental. Desnudase as
relações entre prisão e capitalismo (do mercantilismo à acumulação flexível),
demonstrandoqueaolongodostemposumdependeudooutroparaatingirmetas
pretendidas. Culminase o enfrentamento do tema com uma análise empírica,
especialmente documental, sobre atualidades do sistema carcerário baiano,
incrementando o questionamento quanto a validade desta forma de punir ante as
suasmetasdeclaradas.
Palavraschave:Penitenciário;Prisão;Cárcere;Ressocialização;Pena.
viii
ABSTRACT
Prison and capitalism have nourished longlasting ties. Since the first outlines of
humanimprisonmentasasubstitutiontocorporalpunishments,oneoftheelements
to confer prison the full development and its attachment as mainpenalty was the
economicmodelthenexistent:capitalism.Therefore,analyzingtherelationsbetween
imprisonmentandcapitalism,bypervadingthestudywithanincursionoverthemyth
of resocialization of the condemned individual is the main purpose of this
Dissertation.
The presentdebateisinauguratedby ahistoricalbypass,startingfromthebirthof
thejailuptoitssedimentationwithinoccidentallegislationandculture.Therelations
between imprisonment and capitalism are then denuded (from the mercantilism to
theflexible accumulation),whichdemonstratesthatall alonghistoryonedepended
upontheotheroneinordertoreachtheintendedgoals.Theapproachofthetheme
isnowinaparticularlydocumental,empiricalanalysis,overtheactualrealityofthe
prison system in Bahia, by arousing the questions on the validity of this form of
punishment,facetothealreadydeclaredgoals.
Keywords:Penitentiary;Prison;Jail;Resocialization;Penalty.
ix
LISTADETABELAS
Tabela1–OrçamentodoMinistériodaJustiça,20042008................................................. 33
Tabela2–Brasil:estabelecimentosprisionaisestaduais,20042007................................ 101
Tabela3–EvoluçãodaPopulaçãoCarceráriadaBahia(20032007) ............................... 103
Tabela4 PopulaçãocarceráriatotaldaBahia(PresosDefinitivoseProvisórios)........... 105
Tabela5–FluxodesaídadepresosdosistemapenitenciáriodoEstadodaBahia,2006
2007 ................................................................................................................ 107
Tabela6–FaixaEtáriadaPopulaçãoCarceráriadaBahia(20052007)........................... 109
Tabela7–GraudeInstruçãodaPopulaçãoCarcerária(20052007) ................................ 110
Tabela8–PopulaçãoEconomicamenteAtiva(PEA),Desocupadosetaxadedesocupação,
RMS,2006....................................................................................................... 111
Tabela9–PopulaçãoTaxadeDesocupaçãodapopulaçãoresidenteemdomicílioscom
rendapercapitadeaté1SM........................................................................... 112
Tabela10–PopulaçãoCarceráriadaBahiasegundoaCordepele/etnia,2007............... 113
Tabela10–TempodePenaasercumpridanoSistemaPenitenciárioBaiano ................. 114
Tabela12–TiposPenaisePopulaçãoCarcerária ............................................................ 116
Tabela13–Reingressonosistemapenitenciáriobaiano .................................................. 120
Tabela14–PresosPrimáriosCondenadoseReincidentesnosistemaprisionalbaiano
(2005–2007) .................................................................................................. 122
Tabela15–Laborterapia:TrabalhoExterno...................................................................... 125
Tabela16–Laborterapia:TrabalhoInterno....................................................................... 126
Tabela17– OTrabalhonaPenitenciáriaLemosBrito(2007–2008) ............................... 132
x
LISTADEABREVIATURA
CP–CódigoPenal
DEPEN–DepartamentoPenitenciárioNacional
LEP–LeideExecuçãoPenal
MJ–MinistériodaJustiça
PLB–PenitenciáriaLemosBrito
PRONASCI–ProgramaNacionaldeSegurançacomCidadania
RDD–RegimeDisciplinarDiferenciado
SECSecretariadeEducaçãoeCultura
SENACServiçoNacionaldeAprendizagemComercial
SENAIServiçoNacionaldeAprendizagemIndustrial
SJCDH–SecretariadeJustiça,CidadaniaeDireitosHumanos
SSP–SecretariadeSegurançaPública
SUDESBSuperintendênciadeDesportodaBahia
UED–UnidadeEspecialDisciplinar
xi
SUMÁRIO
1. INTRODUÇÃO.............................................................................................................. 13
2. DIREITODEPUNIRDOESTADO:DASPENASCRUÉISÀPRISÃO........................ 22
2.1 ODIREITODEPUNIREESTRUTURASOCIAL ................................................... 22
2.2 PRISÃO:ANTECEDENTESHISTÓRICOSEATUALIDADES. .............................. 24
2.3 ACRIMINALIDADEESUASFORMASDECONTENÇÃO .................................... 32
3. DISCURSOSLEGITIMADORESEDESLEGITIMADORESDAPRISÃO..................... 37
3.1 DIREITOPENALELEGITIMAÇÃODAPENADEPRISÃO................................... 37
3.1.1TeoriasRetribucionistas(Absolutas)............................................................... 39
3.1.2TeoriasPrevencionistas(Relativas) ................................................................. 43
3.1.3TeoriasUnificadoras(EcléticasouMistas)...................................................... 49
3.2TEORIASDESLEGITIMADORASDAPENADEPRISÃO.......................................... 52
3.3RESSOCIALIZAÇÃO:DICOTOMIAENTREODISCURSOEAREALIDADE............ 56
4. PRISÃOECAPITALISMO:DOMERCANTILISMOÀACUMULAÇÃOFLEXÍVEL. .... 64
4.1 ONASCIMENTOEEVOLUÇÃODAPRISÃONASOCIEDADECAPITALISTA. ... 64
4.2 NOVOSTEMPOS:DOFORDISMOÀACUMULAÇÃOFLEXÍVEL.REFLEXOSNO
SISTEMAPENAL................................................................................................... 76
4.3 ONASCIMENTODOCÁRCERE:BRASILEBAHIA.............................................. 86
4.4 APENADEPRISÃONOCÓDIGOPENALBRASILEIRO(CPB)ENALEIDE
EXECUÇÃOPENAL(LEP). ................................................................................... 93
5. POLÍTICASEPROGRAMASPÚBLICOSDESTINADOSAOSISTEMA
PENITENCIÁRIO(CONDENADOSEEGRESSOS)..................................................... 98
5.1 OAPRISIONAMENTOCOMOPOLÍTICAPÚBLICADEENFRENTAMENTODA
CRIMINALIDADE. .................................................................................................. 98
5.2 SISTEMAPENITENCIÁRIOBAIANO:REALIDADEDESCORTINADAATRAVÉS
DENÚMEROS..................................................................................................... 102
5.2.1Populaçãocarcerária,vagas,defictefluxodesaídadosistema
penitenciário.................................................................................................... 103
5.2.2Graudeinstruçãoefaixaetária...................................................................... 109
5.2.3Cordepele/etnia.............................................................................................. 113
5.2.4Tempodepenaetipospenaismaisfrequentes. ........................................... 114
5.2.5Reingressonosistemapenitenciário(fugas,abandonosenovas
condenões)................................................................................................... 119
5.2.6Laborterapia(trabalhoexternoeinterno) ...................................................... 124
xii
5.3 PROGRAMASPÚBLICOSDERESINSERÇÃOSOCIALNOCOMPLEXO
PENITENCIÁRIOLEMOSBRITO. ....................................................................... 128
5.3.1Pontodevistadoscondenadossobrecárcere,trabalho,liberdadee
ressocialização. ............................................................................................... 138
5.4 AONDADEPRIVATIZAÇÃOEOSISTEMACARCERÁRIOBAIANO. ............... 143
6. CONCLUSÕES........................................................................................................... 146
REFERÊNCIAS ................................................................................................................. 153
13
1. INTRODUÇÃO
A contenção da criminalidade e violência é uma máxima na sociedade
brasileira. Ultimamente, periódicos nacionais estampam em suas manchetes
inúmerasnotícias decrimesque causam,noseiosocial, mescla deconsternação,
ódio e medo generalizados. Tais sentimentos impulsionaram os temas segurança
pública e sistema penitenciário a assumirem papéis centrais nas discussões mais
recentes.Nosgrandescentrosurbanosestarealidadeémaisevidente,facemaior
aglomeraçãopopulacionalediferençaseconômicasabissais.
Por certo, a questão social tornase central na discussão da criminalidade.
Nunca houve porparte dos sucessivos governos nacionais qualquer preocupação
em adentrar no cerne da questão, pois sempre se enfrentou a criminalidade,
manifesta na violência do crime, por meio da violência policial, às vezes nos
estreitoslimitesdalegalidade,noutrasoportunidades(amaioria),aoarrepiodalei
1
.
Nestaúltimahipótese,especialmente,contandocomaleniênciaetácitaaceitação
dasociedade.Sobreestetópico,emparticular,asseveraBastosNeto(2006,p.153):
A contenção da pobreza e seus ‘desvios’, através do uso sistemático e
corriqueiro da violência física, da repressão de qualquer forma de
descontentamento,ouatémesmorebelião,setornoualgotãonatural,que
ainda hoje, boa parte da população defende a violência policial contra o
criminosopobre.
O Brasil, por meio de códigos e leis penais, centrou como forma
institucionalizadaderepressãoaocrimepuniçãopormeiodaprivaçãodaliberdade.
ODireitoPenalsetornou,comisso,omaishabitualinstrumentodecontrolesocial
institucionalizadoanteaescaladadosíndicesdecriminalidade,ou,comodizCosta
(2005, p.107), é “alçado como único instrumento de controle social capaz de
solucionar os problemas da criminalidade hodierna”. Por conseguinte, a solução
encontrada pelo Estado resultou no incremento e reforço do aparato policial e
penitenciário, semeando uma cultura de encarceramento, que sempre tem
questionadasuaeficáciaquandoobservadososresultados.
1
ZaffaronieBatista(2003,p.6970)denominamestaspráticascomosendofrutodeumsistema
penalsubterrâneoouparalelo.
14
Apesar desta exponencial evolução da política de aprisionamento, a
infraestrutura carcerária (número de penitenciárias, presídios e cadeias públicas)
nunca foi e nem é suficiente para abrigar o número de presos, embora os
investimentos dos governos estadual e federal tenham sido significativos,
promovendograndecrescimentodosistemapenitenciário.Quiçá,omaisgravede
toda a expansão da prisãosão as condições degradantes que a maioria dos
encarcerados se veem submetidos, pouco importando a diretriz constitucional do
respeitoàhumanidade
2
,afinal,opresoconservao
status
decidadão(art.5°,incisos
III,V,XeLXIV).
As prisões brasileiras sempre foram tidas como locais tridos em que
reinavam as mais diversas violações aos direitos humanos. Frequentemente se
noticiam rebeliões e motins pugnando por melhores condições e respeito à
dignidadehumana.OdesleixoedesrespeitodoEstadoanteestarealidadesempre
foireinante,ocasionando,porexemplo, situaçõescomoo massacre doCarandiru,
em1992.Sempresetratouocárcerecomoalgodistante,isolado esemqualquer
comunicaçãocomasociedade,aspessoaseramlançadasalieapreocupaçãoda
comunidade existia somente quando estas findavam as penas, ou seja, o dilema
seriaseregressariamparaavida docrime ouseenquadrariamnosseusditames
secularesdasociedade.
Noentanto,aquestãocarceráriaedesegurançablicatêmsidoalçadasa
temasdeprimeiraordem.Talobsessãoporleispenaiserediscussãoconstanteda
prisãofoiimpulsionada,inclusive,recentemente,nosanosde2005e2006,quando
ratificadaaineficáciadomodelo desistemapenitenciárioeasuainteraçãocoma
sociedade livre. Eventos ocorridos em São Paulo e Rio de Janeiro, envolvendo
organizações criminosas, denominadas Primeiro Comando da Capital (PCC) e
Comando Vermelho (CV), respectivamente, em que seus líderes
de dentro dos
cárceres
comandaramataquesapoliciais,delegaciaseatémesmoumacadeiade
2
MORAES(2003,p.128129)assimconceituatalprincípio:“adignidadedapessoahumanaéum
valorespiritualinerenteapessoa,quesemanifestasingularmentenaautodeterminaçãoe
responsáveldaprópriavidaequetrazconsigoapretensãoaorespeitoporpartedasdemais
pessoas,constituindoseemummínimoinvulnerávelquetodoestatutojurídicodeveassegurar,de
modoqueapenasexcepcionalmentepossamserfeitaslimitaçõesaoexercíciodosdireitos
fundamentais,massempresemmenosprezaranecessáriaestimaquemerecetodasaspessoas
enquantosereshumanos”.Emadendo,LUISI(1991,p.31)afirmasobreoreferidoprincípioque
“consistenoreconhecimentodocondenadocomopessoahumana,equecomotaldevesertratado”.
15
rebeliõesempresídiosfatosantesinacreditáveisprovocaramcaosemedonestas
duasgrandesmetrópolese,porconseguinte,noBrasil,queassistiu atônitoatudo
issopelatelevisão.
Vivese,atualmente,tempoderevisãodeconceitoebuscadesoluçõespara
tão preocupante dilema: como punir e obter êxito para com aquele que sofre a
sanção. Investir em políticas públicas que não sejam, exclusivamente, de matriz
repressiva. Reconhecer as mazelas do sistema e os erros das administrações
anteriores é uma realidadequevem sendotratada peloMinistério da Justiça eos
governosestaduais.
Otemadestadissertaçãoseinserenestedebatequetangenciadiscursosdo
DireitoPenal,daSociologiaedaCriminologia,se prendendoàanálisedosistema
penitenciário somente. A discussão em torno do instituto da prisãopena, assim
como a investigação do seu objetivo declarado  a
ressocialização
– se revela
oportuna,principalmente,emtemposemqueaprivaçãodaliberdadefoieleitacomo
amaisimportantepolíticadeEstadoparaoenfrentamentodocrimeecontençãoda
criminalidadenoBrasil.
Antes,porém,édebomalvitreesclareceroconceitode
ressocialização
.Por
seropresenteestudointerdisciplinar,nasuaformulaçãocontemplamsepontosde
interseçãoentresaberesdistintos(porexemplo:oDireitoeaSociologia),quelhes
conferem diversas conceituações e interpretações. Portanto, nada melhor do que
delimitaresteconceito.
Aideiaderessocializaçãoestáintimamente vinculadaà pena.Nemsempre
osseusdefensoresaviamdamesmamaneira.Cuidase,seguramente,deconceito
vago e impreciso para o Direito Penal. Talvez o seu êxito se deva a estas
características,afinal,qualquerumpoderámanejaroconceitoderessocializaçãode
acordocom asuaideologiapessoal,comobemdizMUÑOZCONDE(1991,p.91).
16
Os clássicos
3
discutiram a necessidade de emenda do condenado para
regressaràsociedade.Noentantonuncafoiobjetocentralnoqueconcerneàpena
criminal. O tema em comento, no período setecentista, foi deveras explorado por
JohnHoward,
sheriff
deBedford,naInglaterra,quepreocupadocomascondições
carcerárias, empreendeu interessante estudo empírico por cárceres ingleses,
visando comprovar a necessidade de reforma do sistema penitenciário, numa
perspectivamaishumanitária(BITENCOURT,2009,p.4243).
Nãosemrazão,aressocializaçãoganhamaiordestaquenoderradeiroquartel
do século XIX
4
, com os cultores da Escola Positiva
5
, que preconizavam esteideal
marcadamente pelaótica médica (ideologiado tratamento), ou seja, transformar o
criminoso
emcidadãoaptoàconvivênciasocial.Ressalvese,nãotodoequalquer
criminoso, somente aquele tido readaptável à vida social, como concebeu Enrico
Ferri(1996,p.342)
6
.
Noentanto,adotarseáoidealressocializadornaperspectivadareintegração
social, livre da metodologia e conceituação positivistas que via no criminoso um
anátemaquemereciaserobjetodetratamentoparafinscurativos,senãocombate,
comoseinimigofosse.Ademais,todooideáriopositivistadeuazoàconcepçãode
tiposdecriminosos,resultandonacriminalizaçãodepessoasnãopeloquefizeram,
maspeloquesão.
3
AdotaseaquianomenclaturaqueosestudiososdoDireitoPenalconferemaosprimeiros
doutrinadores,apósBeccaria,quesefiliaramaosideaisiluministas,chamadadeEscolaClássica,
entreeles:FrancescoCarrara(Itália),PelegrinoRossi(Itália),KarlBinding(Alemanha),PaulAnselm
vonFeuerbach(Alemanha),dentreoutros.
4
Adoutrinaentendequeestamudançadeparadigmanoenfrentamentodaquestãocriminalsedeu
apósapublicaçãodolivro
L’uomodelinqüente,
em1876,deautoriadomédicopsiquiatraCesare
Lombroso.
5
“AcorrentepositivistapretendeuaplicaraoDireitoosmesmosmétodosdeobservaçãoe
investigaçãoqueseutilizavamemoutrasdisciplinas(Biologia,Antropologia,etc).Tevecomocorifeus
CesareLombroso,EnricoFerrieRafaeleGarófolo.Estacorrentedepolíticacriminalinfluenciou
deverasomundo(inclusiveoBrasil)comsuasideiassobreocrimeeocriminoso.Reverberouo
sentimentodeumasociedademovidapelocientificismo,transformandooDireitoPenalemseuobjeto
dedeleite,nascendodaíoutrosramosdoestudocomoaAntropologiaCriminal,SociologiaCriminal,
GenéticaCriminal,etc.
6
Ferri(1996,p.251268)estabeleceucincotiposdecriminosos:natoouinstintivoouportendência
congênita;louco;habitual;ocasional;epassional.Destes,reconheciacomomaispróximosdaboa
readaptaçãosocial,oquartoequintotipos.
17
Temse,portanto,aressocializaçãonaperspectivadomodelopolíticocriminal
construídopela Nova Defesa Social(ARAÚJOJÚNIOR,1991,p.6570),que teve
grande difusão e influência na doutrina penal pátria, em meados da cada de
oitenta.NesteperíodoforamconcebidasasleisfederaisdaReformadaParteGeral
do Código Penal (Lei n° 7.209/84) e de Execução Penal (Lei n°7.210). Nesta
perspectiva, cunhouse que a atividade ressocializadoraa serexercida através do
regimepenitenciário,demandacolocação,àdisposiçãodocondenado,demeiose
condições que permitam, voluntariamente, não mais voltar a delinquir (ARAÚJO
JÚNIOR, 1991, p. 70). Pretende ver apartado deste conceito o ideal meramente
retributivoerepressivouesemprepermeouodiscursojurídicopenalsejaclássico,
sejapositivista.Ressocializarimplicaria narevisão conceitual e estrutural da pena
dentrodoordenamentojurídicoenapráxis,sevalendodainterdisciplinaridadepara
servir de reforço a esta tarefa. Contudo, um dos primados deste pensamento é o
respeitoàindividualidade,ouseja,àhumanidadedocondenado.
Assim, portanto, esta Dissertação consiste na análiseteórica e empíricado
institutodaprisão,seuobjetivodeclaradoedaspolíticasouprogramasqueoEstado
reservouaoscondenadoseegressos,paravercumpridasuameta,tomandocomo
exemploocasodosistemapenitenciáriodoEstadodaBahia,nosanosde2005até
2007 e o primeiro quadrimestre de 2008. Tal estudo se pautará nas relações
incongruentesentrearealidadeeodiscursolegal,ouseja,afunçãodeclaradade
ressocializaçãoeaqueloutrasocultas:
seletividade
e
estigmatização
.
Nelabuscaseinvestigaraprisão–doseunascimentoàascensãoaprincipal
puniçãonosistemacapitalista–easuafunçãodeclaradaderessocializaçãoàluz
das abordagens formuladas, em suma, pela Criminologia Crítica, pautadas pelo
interacionismo simbólico e, principalmente, pelo materialismo histórico marxista. A
análisedestascorrentesdopensamentohumanofarseáatravésdeumpanorama
daevoluçãododireitopenalnoBrasiledopapelatribuídoàprisão.
Outrossim, observarseá a evolução e características do sistema
penitenciário do Estado da Bahia, tomado como universo à pesquisa de campo.
Foramanalisadosaspolíticaseosprogramaspenitenciários,quesãodesenvolvidos
nesteEstado,noperíododereferênciadapesquisaparaidentificaraeficáciadestas
18
políticas ou programas, mantidos pelas agências estatais (Ministério da Justiça,
Secretarias de Justiça, dentre outras), assim como a efetiva manifestação da
pretendidaressocialização.
Noqueserefereàmetodologiaempregada,parasetraçaroperfildocliente”
e eficiência do regime imposto no sistema penitenciário, a pesquisa de campo se
dirigiu à colheita de estatísticas oficiais do Ministério da Justiça e Secretaria de
Justiça, Cidadania e Direitos Humanos do Estado da Bahia, obtidas junto ao
Infopen
7
,relativasaoperíodode2005a2007eoprimeiroquadrimestrede2008.
Realizaramse, também, entrevistas semiestruturadas com condenados
cumprindo pena emregime fechado eregimesemiaberto,na Penitenciária Lemos
Brito, em Salvador/BA. Nesta incursão empírica, buscouse manter contato
reservado, dentro do próprio cárcere, longe da supervisão dos agentes públicos.
Objetivouse, assim, dialogar com tais pessoas com maior grau de liberdade. As
entrevistasrealizadasnãopuderamsergravadasporqueaDireçãoentendeuhaver
riscoàsegurança,havendosidofeitasobservaçõesemdiáriodecampo.
Não se pretendeu, através de tais contatos, definir um papel ou perfil do
homemencarcerado, afinal, aamostra colhidaoé significativa osuficientepara
tanto. Outrossim, a forma como foram expostas as entrevistas, sem a transcrição
textualdoqueaquelescondenadosfalaram,nãoobjetivapodarsualivreexpressão,
adequandoaaoqueoinvestigadorargumentateoricamente.Foifeitaumasíntese
decadaumadasentrevistas,que,aomáximo,édescritiva,semqualquervaloração.
Somentenãofoipossívelsevalerdemeiosquepossibilitassematranscriçãoexata
do que fora dito pelos informantes, em virtude da proibição do estabelecimento
penitenciário–quealegou
questãodesegurança
.
O terceiro e quarto pilares dainvestigaçãopromovida constituíramemuma
pesquisadocumentalsobreasaçõesdaSecretariadeJustiça,CidadaniaeDireitos
Humanos doGovernodoEstadodaBahia eementrevistassemiestruturadascom
informantesqualificados,funcionários destaSecretaria,parasubsidiar a discussão
7
SistemadoMinistériodaJustiça(MJ)quereúneasinformaçõesestatísticasdetodosos
estabelecimentospenitenciáriosdoBrasil(disponívelnosítiooficialdoMJ<www.mj.gov.br>).
19
daspolíticaseprogramaspúblicospenitenciáriosfomentadosedesenvolvidospelo
referidoórgãoestatal.
Comoseverá,aanálisedetaispolíticaseprogramaspúblicospenitenciários
dirigidosàressocialização,intraeextramuros,constituiseemimportanteelemento
naargumentaçãoteóricasobreasfunçõesocultasdeseletividadeeestigmatização
do cárcere. Assim, portanto, com este estudo, almejase desnudar nuances do
instituto da prisão que, propositalmente, são encobertas pelo manto da quimérica
ressocializaçãodohomem.
Ademais, na esteira de argumentos teóricos sugeridos pela Criminologia
Críticaedosdadosoficiais colhidosjuntoaoMinistériodaJustiçae Secretariade
Justiça e Direitos Humanos do Estado da Bahia, pretendese enfrentar e apontar
queaprisãoconsistenumbraçodoEstadonapromoçãoemanutençãodosistema
capitalista e que o seu entorno (sejam políticas e programas públicos para os
encarceradoseegressos)secontaminaporestasfunçõesocultas.
Ao longo dos catulos vindouros, enfrentamse estes objetivos. No
primeiro momento, debatese a ppria legitimidade da prisão, enquanto pena
criminal,nadoutrinapenal.Asideiasretribucionistas,partindodeHegeleKant;o
utilitarismo de Bentham, Beccaria; a coação psicológica de Feuerbach; a
ideologia preventiva de tratamento de Lisz a prevenção geral de Jakobs e a
teoriaunificadoradialéticadeRoxin.
Emcontraposiçãoatodoodiscursodelegitimaçãodocárcere,deacordocom
aspremissasoriundasdaCriminologiaCrítica,domaterialismohistóricodeMarxe
correntesdepensamentosociológico,trouxesecomoreferencialteóricodacríticaà
prisãoautorescomoPausukanis,Rusche,Kirchheirmer,Melossi,Pavarini,Zaffaroni,
Baratta,Foucault,JuarezCirinodosSantos,CláudioGuimarães eVeraReginade
Andrade.
Abordouse, também, como aspecto relevante da pesquisa, o
aprofundamento da relação existente entre cárcere e capitalismo, observando a
evolução deste e sua atualidade, da estabilidade do trabalho assalariado à
20
precarização, pautandose, neste particular, nas discussões trazidas por Marx,
Polaniy, Hobsbawn, Harvey, Castel, Braveman, Bauman, Borges e Ponchman.
Especialmente, sobre as atualidades da relação mercado de trabalho x cárcere,
observouseosestudosdeWacquanteJinkings.
Nesteponto,merecesalientarquenãoseestáadizerseraprisãoexclusiva
do modelo capitalista, até porque, os
gulags
soviéticos são deveras conhecidos.
Ocorre que o fenômeno da prisionização no socialismo tinha matriz a ideologia
política,distintamentedocapitalismo,ondehá,conformedemonstradoalhures,uma
seletividade da clientela carcerária. Outrossim, não se imputa ao capitalismo a
gênese de todo o homem em conflito com a lei penal, situações em que as
causasparaadelinquênciaresidemnoutroâmbitodavida.Nãosedesconhecetal
hipótese,porém,demonstrarseáseucaráterresidual.
No que concerne à discussão empírica, colheuse, principalmente, na
produção científica de Julita Lemgruber, Nilo Batista AugustoAlvino de Sá, Milton
JúliodeCarvalhoFilhoeZygmutBauman.
Aanálisefeita aqui visa reavivar temasque frequentama literaturapenale
sociológica,semoapegoaomaterialismohistóricoqueinfluenciou,principalmente,
aCriminologiaCrítica;mas buscarcompreenderopapeldaprisãoemtempospós
modernos,emsociedadespósindustriais.
A dissertação apresenta a seguinte estrutura: esta introdução, quatro
capítulos e conclusões. No primeiro capítulo, será preciso, inicialmente, discorrer
sobre o histórico da pena privativa de liberdade desde os primórdios até tempos
mais recentes, assim como a sua contextualização ante o discurso repressor e a
crescentecriminalidade.
No segundo capítulo, serão abordadas as teorias que o direito concebeu
para justificaraexistênciadocárcerecomosançãoideal,bemcomoaqueloutras,
forjadas no materialismo histórico marxista, que o combatem firmemente. Nesta
linha,adiscussãosobreaefetividadedoprincípiodaressocializaçãofrenteatais
21
teoriasseráenfrentada.Igualmente,acompreensãodatransformaçãodohomem
emcriminoso.
O terceiro capítulo discute as reaisrelaçõesentre o capitalismo e a prisão,
desdeassuasorigensatéopresente.Procuraseoentrelaçamentoentrecárceree
interessecapitalista,desdeosprimórdiosdaeramercantilista,passandopeloauge
do fordismo, no
Welfare
S
tate
, até a vigente acumulação flexível, configurada no
capitalismodeespeculaçãofinanceira.Istoé,percebercomoaprisãofoi,éeserá
útil a este modelo econômico é imprescindível para compreensão do objeto da
pesquisa.
Noquartoeúltimocapítulodedesenvolvimento dotema,sãoanalisadasas
entrevistas feitas com condenados; os dados, indicadores e documentação
referentesaosistemapenitenciáriodoEstadodaBahiaeaosprogramasdeaçãoda
SJCDHparaoscondenadosegressos.
Porfim,serãoexpandidasasconclusõesdestadissertação,construídanuma
perspectiva históricocrítica da criação da prisão enquanto pena criminal e sua
relaçãocomomodelocapitalistadeprodução,visandotrazeraodebateasverdades
efantasiasdafunçãoressocializadoradocárcere.
22
2. DIREITODEPUNIRDOESTADO:DASPENASCRUÉISÀ
PRISÃO.
2.1ODIREITODEPUNIREESTRUTURASOCIAL
Acondutadesvianteconvivenasestruturassociaismuitotempo.Aliás,o
estabelecimentodepadrõesdecomportamentosãomarcasindeléveisdequalquer
agrupamento humano. Fixar o limite entre o “certo” e o errado”, “permitido” e
“proibido” é consequência da vida humana em comum. Enfim, toda sociedade
produzirá, formal ou informalmente, regras para o convívio entre os seus
componentes. Logicamente que tais ofensas à vontade da maioria (ou dos mais
fortes) significará ato passível de repreensão. Assim, à luz deste quadro,nasce o
questionamento sobre o direito de punir, que, nas palavras de Barreto (2004, p.
165), constituía“umanecessidadeimpostapeloorganismo socialporforçadoseu
própriodesenvolvimento”.
A princípio, cabe asseverar que as aludidas condutas desviantes, em
longínquostempos,significavamofensasaospostuladosdivinosoutotêmicos,mais
adiante,acintesàvontadedosoberano,e,modernamente,contrariedadeaoDireito,
havendoaevoluçãodesuaclassificação,depecadoàinfraçãopenal.
Em resumo, todo o direito penal positivo atravessa regularmente os
seguintesestágios:primeiro,dominaoprincípioda
vindicta
privada,acujo
lado também se faz valer, conforme o caráter nacional, ou etnológico, a
expiação religiosa; depois, como fase transitória, aparece a
compositio
, a
acomodaçãodaquelavingançapormeiodamultapecuniária;elogoapós,
umsistemadedireitopenalpúblicoeprivado;finalmente,vemodoniodo
direito social de punir, estabelecese o princípio da punição pública.
(BARRETO,2004,p.178).
Ahistóriaregistrainúmerasformasdepuniçãodestinadasàquelesqueagiam
contrariamenteàsnormascriadaspeloseugruposocial.Oenfrentamentododesvio
atualmente este fenômeno é nominado de criminalidade é mais complexo do que
nos tempos de Hamurabi
8
, bem como a forma de punição não é semelhante
8
Veritem2.2,p.24.
23
(BRUNO, 1963, p. 6790; FRAGOSO, 1995, p.2532; GARCIA, 1967, p. 1219;
OLIVEIRA,2000,p.3545;MIOTTO,1975,p.1322).
Defato,comoasseverouBarreto(2004,p.171):
Oqueéverdadedodireitoemgeral,acentuasecommaiorpesoquantoao
direitodepunir,cujo
processus
históricotemsidomaisrápidoemaischeio
detransformações,trazendo,contudo,aindahojenafacesinaisevidentes
de sua origem bárbara e traços que recordam a sua velha mãe: a
necessidadebrutaleintransigente.
O discurso oficial do Direito requer, atualmente, que o infrator legal tenha
oportunidadedetornarse“sociável”novamente.Contudo,nemsempreseconstatou
estedesideratonaspuniçõesdaAntiguidadeoudoMedievo.Emsuma,asformas
de se punir estavam sempre atreladas à violação da incolumidade física ou
extermínio da vida, tinham como tônica externar o desgosto do ofendido ante a
conduta infamante perpetrada pelo agressor, ou seja, mera retribuição, sem
pretensãodeatingirqualquerfinalidadesenãopagaromalinjustodocrimecomo
maljustodapena.
Aideiadeseprivaraliberdadedoinfratorcriminal,aparentemente,surgecom
o iluminismo, quando se desenvolve um ideal de humanidade, exigindose do
Estadorespeitoaosdireitosfundamentaisdocidadão.
Amudançanotratamentodaquestãocriminal,quandoaoinvésdepensarno
extermíniodohomemoudainfliçãodesofrimentocomoformaidealeadequadade
se promover a Justiça, melhor dizendo, como aparato da Justiça Penal,
necessariamente, não se deveu a uma mudança paradigmática da filosofia dos
Estadosremodeladospelasnovasluzes.Entrementesnotasequeumdosmaiores
impulsos, a aceitação da privação da liberdade como forma de punir se deveu à
necessidadeadvindacomapromoçãoedesenvolvimentodomodelocapitalistade
produção.
NãoédemaiscitartalconstataçãofeitaporMelossiePavarini(2006,p,21):
24
Numsistemadeproduçãoprécapitalista,ocárcerecomopenanãoexiste.
Essa afirmaçãoéhistoricamenteverificável, advertindose quearealidade
feudalnãoignorapropriamenteocárcerecomoinstituição,massimapena
dointernamentocomoprivaçãodeliberdade.
Aprisionar alguém, como se pode perceber, era somente um meio de se
acautelarumasentençacondenatória,oerapenaemsi. Entrementes,umavez
recepcionada como punição mais humana e mais afeita ao modelo econômico
vigente,ainstituiçãoprisãodifundiuseportodooglobo,ganhandoespaçonamente
e coração dos homens, entronizada e (quase) eternizada nos Códigos e Leis
vigentes.
Comefeito,asegregaçãodaliberdadepessoalésempredolorosa,poispriva
o homem do convívio com os seus e traz outras consequências sociais para sua
vidafutura.Atéosdiasdehojeestasquestõessãodebatidas,noentanto,semque
setenhaextraídoqualquersoluçãoparadirimílasoumesmoparasubstituiraprisão
poroutraformadesepunir.
Defato,existeumagrandeecrescentepreocupaçãocomosefeitosdequase
duzentos e cinquenta anos de prisão como penarainha, pois seus efeitos são
sentidosemtodaaextensãodasociedade.OEstadoeasociedadeciviltêmvoltado
osolhosparasoluções;nãosemrazão,buscase,hodiernamente,aimplementação
depolíticasblicasparaocondenadoeegresso,postoqueasfórmulasatéentão
utilizadas foramineficazesereforçam ainda mais oinsucesso seculardo cárcere,
queétidocomoum
malnecessário
.
2.2 PRISÃO:ANTECEDENTESHISTÓRICOSEATUALIDADES.
Controlar o indivíduo sempre foi preocupação perene na mente dos líderes
dos mais diversosgrupamentos humanos, dos mais simples aos mais complexos.
Impedirqueodesvianteexercesseseusanseiosdeformalivre,especialmenteem
contraposiçãoaosdesígniosdamaioriaéumarealidadequeseenfrentahámuito.O
direitopenalnasceudaí.Aspenastambém.
25
Punir, então, sempre foi conduta típica entre os homens. Todo ato que
desagradeumamaioriaproduzconsequências,gravesouleves.Comisso,advéma
necessidadede se definir os limites da liberdade humana, até onde se pode agir,
quaisasfronteirasdolivreproceder.Enfim,devem,portanto,serfixadososdireitos
eaclaradasaspuniçõesporsuaviolação,comodisseLiszt(2003,p.74),oponto
de partida história da pena coincide com o ponto de partida da história da
humanidade”.
Novamente,Liszt(2003,p.75)relata quenascomunidadesmaisprimitivas,o
direitodepunir
nascecomopróprioeexclusivodavítimaoudeseusfamiliares,mais
tarde sendoassociadoaosideaisreligiososdecadapovo:
Nassociedadesde
estruturafamilial
queprecederamafundaçãodoEstado
(comunidadesquetêmosangueporbase)encontramosduasespéciesde
pena,ambasigualmenteprimitivas:1°apuniçãodo
membrodatribo
quena
suaintimidadesefezculpadoparacomelaoucomoscompanheiros;2°a
puniçãodo
estranho
queveiodeforainvadirocírculodopoderdavontade
da sociedade ou de algum de seus membros. No primeiro caso, a pena
aparecenosprincipalmentecomo
privaçãodapazsocial
sobtodasassuas
diversas formas, como proscrição. No segundo caso, aparecenos
principalmentecomolutacontraoestrangeiroetodasuaraça,comovindita
ou vingança do sangue (blutrache),
exercida de tribo a tribo até que
sucumbaumadaspartescontendorasoualutacesseporesgotamentodas
forças de ambas. Em um e outro caso, a pena revela traços
acentuadamentereligiosos(carátersacrocomoapazestásobaproteção
dosdeuses,avingançatemoseufundamentonopreceitodivino.
Emadesão,leiase,tamm,Carrara(2002,p.5354):
O sentimento inato de
vingança privada
foi elevado, nas sociedades
primitivas,desuanaturezadedesejoàalturadeumdireito:direitoexivel,
direitohereditário,direitoresgatávelaoarbítriodoofendido,direitoquepor
váriosséculosfoiconsideradocomo
exclusivodoofendido
edesuafamília.
(...)Depois,civilizandoseoshomensporobradareligião,assumiuestaa
direção universal de seus sentimentos. Daí a ideia de que os sacerdotes
deviam ser os
reguladores
da vingança privada. Por isso, uma vez
introduzida na penalidade a concepção religiosa, e levados os juízos à
forma teocrática ou semiteocrática, o conceito de
vingança divina
se foi
substituindoaodavingança
privada
.
Neste período da história humana, a pena, enquanto castigo, “era aplicada
por delegação divina, pelos sacerdotes, como penas cruéis, desumanas,
degradantes,cujafinalidademaioreraaintimidação”(BITENCOURT,2004,p.26),
devendosesomarumapretensafinalidadedepurificaçãodoqueviolouavontade
26
dosdeuses.EstetraçoépeculiarnaslegislaçõesdoOriente,taiscomo:Códigode
Manu(Índia),CincoLivros(Egito),LivrodasCincoPenas(China),Avesta(Pérsia),
Pentateuco(Israel).
Com o desenvolvimento organizacional das sociedades humanas em
Estados, a
vingança divina
passa a ser mediada por este, antes de se tornar
monopólio,culminandonadenominada
vingançapública
.
Nestafase,oobjetivodarepresocriminaléasegurançadosoberanoou
monarcapelasançãopenal,quemantémascaracterísticasdacrueldadeeda
severidade,comomesmoobjetivointimidatório(BITENCOURT:2004,p.27).
UmdosprimeirosmarcosdelegislaçãopenaléencontradonaMesopotâmia,
precisamente, na Babilônia, do Rei Khammurabi, no 18º século A.C., que ficou
conhecidocomooCódigodeHamurabi.Estecorpoderegrasjurídicas,escritoem
pedras de basalto, estabelece condutas humanas criminosas, cominando sempre
penas duras, que, como assevera Bruno (1967, p. 75), visavam unicamente a
“vingançablica, cujamedidaé geralmente o talião, eporessa medida chega a
muitas vezes excessos que repugnariam, por absurdos e iníquos, à nossa
consciênciajurídica”.
EmRoma,porexemplo,háevidenteevolução–nãoobstanteafinalidadeda
penasejaamesmadeoutrora,comolecionaPrado(2006,p.6667):
Dentre as principais características do Direito Penal romano, devemse
ressaltarasseguintes:a)aafirmaçãodocaráterpúblicoesocialdoDireito
Pena(...)g)apenaentendidacomoumareaçãopúblicacorrespondendo
ao Estado a sua aplicação; h) a distinção entre
crimina publica, delicta
privada
eapreviodos
delictaextraordinária
.
TaisfatossãocomprovadosnaLei dasXIITábuas,promulgada em 45351
A.C.,duranteaRepública,frutodapelejaentreplebeusepatrícios,que,aofim,fixou
limitesàvindita privada, adotouprincípios talionais, prescreveuformas depunição
alternativas às penas de morte e corporais (
v.g.
:
compositio
). No Império,
gradualmente, houve o fortalecimento do poder público, tomando para si o
monopóliodaadministraçãodajustiçaeaplicaçãodapenacriminal.
27
Na Grécia não houve considerável inovação. Assim como os romanos, eles
não tinham um código penal ou sistema penal mais sofisticado, ainda persistiam
puniçõescorporaiseamorte.Noentanto,alinasceramimportantesquestionamentos
que,nofuturo,deramazoamudançasquantoàspenas.Discutiusedeverassobrea
naturezadodireitodepunireasuafinalidade,porexemplo,encontraseemSócrates
asistematizaçãodateoriaretributiva,emAristóteles,comezinhaideiadeumafunção
de prevenção geral, e em Platão, o debate da pena como instrumento de defesa
social(BRUNO,1967,p.7879;OLIVEIRA,1998,p.4445).
Assim,portanto,aspenasnaAntiguidade,emsuamaioria,visavamatingiro
corpo do condenado, não obstante a grandiosidade do Império Romano e o
desenvolvimentoquealiteveo Direito,oumesmo,os inúmerospensadoresquea
Grécia ofertou ao mundo ocidental. Porém, estas civilizações são importantes por
estabelecer, de fato, que a questão criminal é matéria de ordem pública, sua
aplicaçãoéexclusivadoEstado.
ComodeclíniodoImpérioRomano,omundoocidentalingressanumanova
fase,aIdadeMédia,que,tamm,descortinaafacemaisfriaecrueldodireitode
punir. A punição calcada na extremada violência ao corpo, atentando,
majoritariamente, contra a vida do infrator, foi marca indelével das leis e dos
costumesmedievais–esteperíodoéretratadonosmanuaiscomosendoododireito
penaldoterror.ComobemdescreveBruno(1967,8889):
Nesselongoesombrioperíododahistóriapenal,oabsolutismodopoder
público, com a preocupação da defesa do príncipe e da religião, cujos
interessesseconfundiam,equeintroduziuocritériodarazãodeEstadode
Direito Penal, o arbítrio judiciário, praticamente sem limites, o só na
determinaçãodapena,comoainda,muitasvezes,nadefiniçãodoscrimes,
criavam em volta da justiça punitiva uma atmosfera de incerteza,
insegurançaejustificadoterror.Justificadoporesseregimeinjustoecruel,
assente sobre a iníqua com a pena capital aplicada com monstruosa
frequência e executada por meios brutais e atrozes, como a forca, a
fogueira, a roda, o afogamento, a estrangulação, o arrastamento, o
arrancamentodasvísceras,oenterramentoemvida,oesquartejamento;as
torturas,em queaimaginaçãoseexercitavanainvençãodosmeiosmais
engenhosos de fazer sofrer, multiplicar e prolongar o sofrimento; as
mutilações, como as de pés, mãos, nguas, lábios, nariz, orelhas,
castração;osaçoites.
28
Com o advento do Iluminismo e a consolidação do Capitalismo, a ideia de
cuidar da questão penal através da prisão tornase central, como disse Foucault
(1998b,p.14),“aspráticaspunitivassetornarampudicas”.Poisestaatendia,com
plenitude, os objetivos pretendidos pela filosofia do novo modelo político e
econômicodoEstadoBurguês,inaugurandoassimtemposcontemporâneos:
Aacumulaçãodecapitaleranecesriaparaaexpanodocomércioeda
manufatura, mas estava sendo obstacularizada pela resistência que as
novas condições permitiam. Os capitalistas foram obrigados a apelar ao
Estadoparagarantir a redução dos salários e a produtividade do capital.
(RUSCHEeKIRCHHEIMER,2004,p.47)
AtémeadosdoséculoXVIIaprisãooeratidacomopenaprincipal,como
seinferedoqueforaditoantes,usavasesomentecomomeiodereteroacusado
atéomomentoemquefossejulgado.Eravigenteobrocardolatino:
Carcerenimad
hominesnonaedpuniendoshaberidebet
9
.
Somese que muitos foram os reclames contra as punições corporais,.
Ademais, onovo modeloeconômico impunha aosgovernantesnecessidadespara
seuplenoeperfeitofuncionamento.
Prender o indivíduo éuma prática que remonta às origens da sociedade.
Contudo,apenasnosúltimostrezentosecinquentaanosaproximadamente,
acustódiasurgecomoumimportanteinstrumentodoEstadoparalidarcom
osdelinquentes.Noinício,adetençãofoiumperíodonebuloso,umestágio
em direção ao processo legal, onde o suspeito aguardava o carrasco.
Jousse,juristafrancêssustentouque,nofinalde1771,adetençãonãoera
ummétodopunitivo,masummeiodedeterosuspeitoantesdojulgamento.
ApenasnoséculoXIXadetençãoatingiuaatualeminênciacomosanção
penal principal (SELLIN, 1932
apud
SYKES, 1958). (GOMES e
CHAMOUND,2006)
Concomitantementeaosreclamesdeordempolíticapugnandopormudanças
nomodelopunitivo,interessesdenaturezaeconômicaparadefinitivaconsagração
docapitalismo,convergiramemtornodaprisão.
Como se empreendeu, no século XVII, medidas que expurgavam homens,
mulheresecriançasdocampo,tirandolhesomínimosustentoquetinham,criouse,
9
Asprisõesexistemapenasparaprenderoshomensenãoparapunilos.
29
assim,umaturbatotalmentedesfiliadadarededesociabilidade.Portanto,tornando
os“vagabundos”.
Entretanto,édebomalvitreexplanarquenemtodovagabundoderivoudetal
fato, a maior parte deles vem da plebe quando as circunstâncias sociais e
individuaisjogamnosnasestradas”(CASTEL,2005,p.133),poroutrolado,outros
optampordesfiliarsede
persi
.Estafigurapeculiardarealidadeeuropéia,desdea
IdadeMédia,édefinidaporCastel(2005,128)nosseguintestermos:
Mas, realmente, quem são os vagabundos? Perigosos, predadores que
vagueiampelasmargensdaordemsocial,vivendoderouboseameaçando
benseasegurançadaspessoas?Éassimquesãoapresentadoseistoé
que justifica um tratamento fora do comum: romperam o pacto social –
trabalho,família,moralidade,religião–esãoinimigosdaordempública.
Anteestarealidade,osEstadosEuropeus,optaramportratardestaquestão
por meio de políticas repressivas, visando moldar o caráter humano desta turba,
fazendocrerserotrabalhoomeiomaisenobrecedorvigente.Maisumavez,invoca
seoescóliodeCastel(2005,p.136137):
A condenação do vagabundo é o caminho mais curto entre a
impossibilidadedesuportarumasituaçãoeaimpossibilidadedetransformá
la profundamente. Nas sociedades préindustriais, a questão social
levantadapelaindigênciaválidaemóvelnãopodesertratadasenãocomo
questãodepolícia.
Mas,nãoforamsomenteos“vagabundos”aseremalvododireitopenalsob
égidedocapitalismo,comoasseveramMelossiePavarini(2006,p.55):
Ospobres,osjovens,asmulheresprostitutasenchem,noculoXVII,as
casasdecorreção.Sãoelesascategoriassociaisquedevemsereducadas
oureeducadasna laboriosavida burguesa, nos bons costumes. Elesnão
devemaprender,massimserconvencidos.
Na Inglaterra, nasceu a
house of correction
, um misto de prisão e
reformatório,eradestinadoacriminososevagabundos.Viviase,naquelemomento
histórico, o florescer do modelo capitalista, e se fazia preciso combater o ócio,
criandoumaclasseparapoderatenderànovademanda.Vejase,comoilustração
disto,adescriçãodeBitencourt(1993,p.24)sobreasreferidasinstituiçõesinglesas:
30
A suposta finalidade da instituição, dirigidacom mão de ferro, consistia a
reformadosdelinquentespormeio dotrabalho edadisciplina.O sistema
orientavase pela convicção, como todas as ideias que inspiraram o
penitenciarismo clássico, de que o trabalho e a férrea disciplina são um
meioindiscutívelparareformadorecluso.Ademais,pretendiadesestimular
aoutrosavadiagemeaociosidade.(...).Otrabalhoquesedesenvolviaera
doramotêxtil,talcomoaépocaexigia.Estaexperiênciadeveteralcançado
notável êxito, já que em pouco tempo surgiram em vários lugares da
Inglaterra
houses of correction
ou
bidwells
, tal como eram denominadas,
indistintamente.
Frisese que este novo modelo punitivo se dissemina por todo território
europeu,emcadanaçãoadotandoseumainstituiçãosimilar,porexemplo:
Criaramse em Amsterdam, no ano de 1596, casas de correção para
homens(
Rasphius
),em1597,outraprisão,a
Spinhis
,paramulheres,eem
1600umaseçãoespecialparajovens.(BITENCOURT,1993,p.25)
Porseuturno,naItálianasceuo
HospíciodeSanFelipeNéri
,em1667,que,
inicialmente, era dedicado à reforma de infantes. Em França, foram criados os
HôpitausGénéraux
,comosmesmosfundamentoseobjetivos.
As
houseofcorrection,workhouses,Rasphius,Spinhis,HôpitausGénéraux,
bemcomoosdemaisestabelecimentossimilares,tinhamumafunção,queconsistia
em domesticar o homem para servir ao novel modelo econômico. Criavase uma
cultura, e este aparelho repressivo vinha consagrar este rito de passagem, do
bucolismo feudal ao frenético ritmo do capital. Leiase o que revelam Melossi e
Pavarini(2006,p.45):
Assim,ficaclaroomotivopeloqual,quandosetratadecolocaroproblema
dagestãodeumsetordaforçadetrabalho,queénecessáriodisciplinare
inserir compulsoriamente no mundo da manufatura, tendese a escolher
aquele processo produtivo que tornava o operário mais cil e menos
munidode um saber ede umahabilidadepróprios quelhes fornecessem
meiosderesistência.
Seguemaindaossupracitadosautoresitalianos:
Oqueimportaéqueacasadetrabalhoestavadestinadaaotipocriminológico’,
característicodesseperíodo,quenasceaomesmotempoqueocapitalismo,e
que tende a se desenvolver simultaneamente com ele. O trabalho era
consideradoparticularmente adequadopara os ociosos eos preguosos(os
quais,comoconsequênciadessaatividade,àsvezesliteralmentequebravama
espinhadorsal).Eraessetambémomotivocomoqualsejustificavaaescolha
dométododetrabalhomaiscansativo.(2006,p.43)
31
Melossi, ao prefaciar o livro “Miséria Governada pelo Sistema Penal”, de
Alessandro Gregori (2006, p. 13), encerra, com firmeza, este quadro evolutivo da
prisão,assim:
Os cárceres tiveram antepassado a “casa de trabalho”, espécie de
manufaturareservadaàsmassasque,expulsasdoscampos,afluírampara
ascidades,dandolugarafenômenosquepreocupavamaselitesmercantis
(eprotocapitalistas)daépoca:banditismo,mendicância,pequenosfurtose,
last but not least
, recuso a trabalhar nas condições impostas por essas
elites.A casadetrabalho–um“protocárcere”  queseriadepoistomado
comomodelo da formamoderna do cárcere no período iluminista,isto é,
quando ocorreu a verdadeira “invenção penitenciária” – não parecia ser
outracoisasenãoumainstituiçãodeadestramentoforçadodasmassasao
mododeproduçãocapitalista;afinal,paraelas,essemododeproduçãoera
uma absoluta novidade (e nesse sentido, a casa de trabalho era uma
instituição“subalterna”àfábrica).
A concepção da prisão como pena criminal foi marcada por interesses
humanitárioseeconômicos(estesdeformamaispreponderantes,citese).Apartir
daí, o cárcere foi adotado por quase que a totalidade das legislações penais das
naçõeseuropéias,emseguida,difundiuseportodooglobo.
Hodiernamente,asfunçõesdocárceresãoamplamentequestionadas,afinal,
o resultado o que se vê o é nada alentador. Um dos maiores problemas
consistenasuperpopulaçãocarcerária,quesetornaumentraveaodesenvolvimento
dosideaismaisprimitivos,queimpulsionaramaprisãodeacessórioaprincipalnas
legislaçõespenaismundoafora.
Talvez,sepodeargumentarqueoincrementodapolíticadeencarceramento
das massas se deva ao aumento da criminalidade, ou, no mínimo, da prática de
crimesmaisviolentos.Entretanto,issonãopodeprosperar.Estemesmofenômeno
ocorreranadécadadenoventaemmuitospaísesdaEuropaenosEstadosUnidos
daAmérica.
Ofatodeapopulaçãocarcerária terquadruplicadoemduas cadasnão
se explicapeloaumentodacriminalidadeviolenta,massimpelaextensão
do recurso ao aprisionamento para uma gama de crimes e delitos a
começar por infrações menores na legislação dos entorpecentes e pelos
atentadosàordempública.(WACQUANT,2003,p.21)
32
Destaforma,exigese,pelomenos,queseprocedaaumprofundoreexame
da utilização indiscriminada do cárcere (para tudo e contra todos), minimamente,
devendo se avaliar os seus práticos resultados – se brecou a crescente
criminalidade,restabeleceuapazblica,regenerouosencarcerados,
etc
.Porém,
nadadissotemsidorelevanteparaonovomodelodeEstadoPenal,quesurgeno
século XX, onde o que importa é “punir com eficia e intransigência”
(WACQUANT,2001,p.50).
2.3ACRIMINALIDADEESUASFORMASDECONTENÇÃO
A violência urbana é tema de última hora, sempre está a frequentar as
manchetesdejornaisetelejornais,assimcomoéobjetodeaudiênciasblicasdos
Poderes Executivo e Legislativo, seminários, palestras, simsios. Enfim, sem
qualquerdúvida,éumgraveproblematantoparaoleigocomoparaoacadêmico.
Naturalmente,comofrutodestapreocupaçãodasociedade,buscasesempre
umasoluçãoimediata,quefaçacomqueaviolênciadesmedida,bemcomoataxa
decriminalidadedesapareçamcomumavelocidadeincomum.
Aalteraçãodoarsenallegislativoésempreaprimeiraopção.Pensaseque
mudando uma lei, tornandoa draconiana, suprimindo garantias, estabelecendo
limitesentre“beme“mal”poderásereduziraproduçãodeviolênciaedelitos.
Nesta perspectiva, no Brasil, as políticas criminais repressivas, oriundas do
MovimentodeLeieOrdem
10
,surgemcomosaídaimediataerespostavigorosapara
tais mazelas da sociedade moderna. Nisso, a prisão surge como punição ideal,
afinal,apenacapital(morte)ferepostuladofundamentaldaConstituiçãoFederal:o
idealdehumanidade.
10
SegundoAraújoJúnior(1991,p.7074),osmovimentosdeleieordemsãoreflexodemedidas
repressivasquevisamconterecombateracriminalidadeatravésdorecrudescimentodaspenasedo
aparatopolicial.
33
Vivese,nosdiasatuais,umaesquizofreniaconstante,temsemedodetudoe
todos.Asleispenaistêmsemultiplicado;juntocomasforçaspoliciaismilitarecivil,
seencontramasguardasmunicipais.Acadaanoasegurançapúblicaganhaespaço
nos debates das casas legislativas, havendo, inclusive, reclame insistente de
acréscimosdeverbasnosorçamentosgovernamentais.
Vejase que o Fundo Penitenciário Nacional
11
(FPN), que é gerido pelo
MinistériodaJustiça,investiuemmodernizaçãodosistemapenitenciário,noperíodo
de 2004 a 2006, R$ 649.623.017,00
12
. Apesar deste considerável investimento,
existemgravesproblemasetemsequenadaestáresolvido.
Salientese,também,queadotaçãoorçamentáriaqueoCongressoNacional
temdestinadoaoMinistériodaJustiça,desde2004,temsidobemimpressionante,
conformesecomprovadosrelatóriosdeexecuçãoorçamentária
13
:
Tabela1–OrçamentodoMinistériodaJustiça,20042008
Ano Orçamento(R$)
2004 1.384.389.716,00
2005 1.870.582.002,00
2006 1.620.253.540,00
2007 2.096.793.945,00
2008 3.780.092.323,00
Fonte:ElaboraçãoprópriacombasenosrelatóriosdeexecuçãoorçamentáriadoMinistériodaJustiça.
Talorçamento,logicamente,nãoé exclusivo de melhorias e/ou construções
de novos estabelecimentos penitenciários, mas tamm é destinado a todo o
aparatodasegurançapública,(
v.g.
: políciafederal,polícia rodoviária federal,
etc
),
11
ConformedefiniçãodoMinistériodaJustiça:“OFundoPenitenciárioNacionalfoicriadopelaLei
Complementarnº79,de7dejaneirode1994,comafinalidadedeproporcionarrecursosemeios
parafinanciareapoiarasatividadesdemodernizaçãoeaprimoramentodoSistemaPenitenciário
Brasileiro.OFunpenencontraregulamentaçãonoDecretonº1.093,de3demarçode1994”.
Disponívelem:<
http://www.mj.gov.br/data/Pages/MJC0BE0432ITEMID962415EA0D314F48ACAFD9ED8FB27E6EPT
BRIE.htm>Acessadoem13.07.08
12
InformaçõescolhidasnosítiooficialdoMinistériodaJustiça<www.mj.gov.br>.
13
FundoPenitenciárioNacional.Disponívelem:<
http://www.mj.gov.br/data/Pages/MJ5F415D03ITEMIDA7399733ADB9444790A20E74472A98EBPTB
RIE.htm>Acessadoem13.7.08.
34
modernização do judiciário, despesas com pessoal e outros programas de
competênciadoMinistériodaJustiça.Porém,desteúltimoorçamento,porexemplo,
algo em torno de 20%, que significam R$ 600 milhões, são exclusivamente
destinadosaoProgramaNacionaldeSegurançaPúblicaeaosistemapenitenciário.
Noentanto,nãose deveesquecerqueagestãodasunidadesprisionaisno
Brasil é feita pelos Estados Federados, ou seja, há contingente de verbas dos
própriosEstadosparaestefim.Estepapelsomentefoiincorporadonoorçamentoda
União recentemente, com a construção de presídios e penitenciárias federais.
Obviamente,oGovernoFederalsempreauxiliouaosEstados,sejacomacriaçãode
programase/ouprojetosemparceriacomosEstados.
Em 2007, os Governadores de São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais e
Espírito Santo se reuniram visando criar o denominado “Gabinete de Gestão
Integrada de Segurança Pública”, tamm para pressionar o Governo Federal
promover acréscimos nas verbas destinadas às políticas de segurança pública e
penitenciária,conformenoticiouoValorEconômico
14
.
NoParaná,porexemplo,oorçamentode2008seráR$1,2Bilhão,odobro,
quandocomparadocomagestãoanterior,em2003
15
,quesomavaR$623milhões.
OSecretáriodeSegurançaPúblicaLuizFernandoDelazari,comentaque
estámais
que comprovada a prioridade que este governo estabeleceu para a segurança
pública.Multiplicamosemseisvezesonossoorçamento,tudoparadaràpopulação
doParanáumapolíciapreparada,bemequipadaebempaga
”.
A realidade tamm não é diferente no Estado da Bahia. Os temas
Segurança Pública e Sistema Penitenciário passam a integrar a agenda dos
sucessivosgovernos,sendoacadaano,acrescidoovolumedeinvestimentosneste
setor.De2003a2006,osrepassesfederaisdeverbadestinadasàsegurançaforam
14
ValorEconômico.Disponívelem:
<http://www.valoronline.com.br/valoronline/Geral/brasil/Governadores+do+Sudeste+pedem+aumento
+de+verbas+federais+para+seguranca+publica,,,5,4095367.html>Acessadoem08.07.2008.
15
Disponívelem:<http://www.agenciadenoticias.pr.gov.br/modules/news/article.php?storyid=36845>
Acessadoem8.7.2008.
35
em torno de R$ 48,7 milhões
16
, voltados para a qualificação e valorização dos
funcionários da segurança pública, investimentos na construção e reforma de
presídiosepenitenciárias,aquisiçãodeviaturaseaparelhosdealtatecnologia.
O Departamento Penitenciário Nacional do Ministério da Justiça
(DEPEN/MJ) publicou dados consolidados do sistema penitenciário dos Estados
brasileiroseinfereseoaumentodosinvestimentosnaBahia,aoconstatarqueem
2006 existiam16 unidades penitenciárias, contemplando 6.762 vagas, passando,
no ano seguinte, para 21 unidades penitenciárias e 7.104 vagas. Ou seja, um
crescimentoassazconsiderável.
Maisrecentemente,nofinal domêsdejunhode2008, oGovernodaBahia
recebeu R$ 35 milhões do Programa Nacional de Segurança com Cidadania
(PRONASCI),ereceberáaindamaisR$36milhõesaserempercebidosdoGoverno
Federalatéofinaldoano
17
.
Alémdanecessidadedemaioresgastos,osgovernos,estadualefederal,têm
enfrentado inúmeros problemas para gerir a segurança pública e o sistema
penitenciário. Seja por que os grupos criminosos se organizaram sobremaneira,
alguns,inclusive,seinfiltraram nas estruturasdo Estadoeantea ausênciadeste,
passaramaatuarmaislivreedestemidamente.
Defato,asoluçãonãoperpassapormerasaçõespoliciaisouconstruçãode
presídios e penitenciárias,maspor reformas nas políticasde Estado,em diversas
áreas,especialmente,asocial,faceo
defict
queexistehojenopaís.
Em nosso País, por exemplo, muitas leis penais puramente repressivas
estão a todo o momento sendo sancionadas, como as leis de crimes
hediondos,aprisãotemporária,acriminalizaçãodoportedearma,aleide
combateaocrimeorganizado,etc,sempreparasatisfazeraopiniãopública
(previamentemanipuladapelosmeiosdecomunicação),semqueseatente
paraaboatécnicalegislativae,oqueépior,paraasuaconstitucionalidade.
E,mais:oencarceramentocomobaseparaarepreso.(MOREIRA,2008)
16
JornalLocal.Disponívelem:<http://www.jornalocal.com.br/noticias/?id=895>Acessadoem13.7.08.
17
PRONASCI.Dispovelem:
<http://www.correiodabahia.com.br/aquisalvador/noticia.asp?codigo=156409>Acessadoem8.7.2008.
36
Nesse sentido, o Ministério da Justiça tem fomentado a diversificação das
puniçõescriminais.Oupormeiodepenasalternativas,comoformadecontornaro
problemadoexcessopopulacionaldocárcere,queresultaemmaiordegradaçãodo
condenadoeretornoaomundodocrime”.ComoasseveraoGomes
apud
Moreira
(2008)estaespéciedepuniçãotemasseguintesmetas:
1) Diminuir a superlotação dos presídios, sem perder de vista a eficácia
preventiva geral e especial da pena; 2) Reduzir os custos do sistema
penitenciário; 3) Favorecer a ressocialização do autor do fato pelas vias
alternativas, evitandose o pernicioso contato carcerário, bem como a
decorrenteestigmatização;4)Reduzirareincidência;5)Preservar,sempre
quepossível,osinteressesdavítima.
Na Bahia, por exemplo, foi aprovada a Lei Estadual n° 11.042/2008, que
instituiu dez novas centrais de acompanhamento e fiscalização às penas
alternativas, quetemcomofunçãointeriorizaredifundiraaplicaçãodestaespécie
menosaflitivadepunição.
Apesardetodosestesesforçosdecontençãodacriminalidade,aprisãoainda
temsidoaarmamaisutilizada,principalmente,paracombaterogrossodoscrimes
quesãocometidos.
Assim, portanto, novas formas de contenção do fenômeno da criminalidade
devem ser contempladas, inclusive, como maneira lúcida de frear o excessivo
encarceramento que o Poder Judiciário – na maioria das vezes, a pedido do
Ministério Público  tem promovido, sem observar, cautelosamente, as
consequênciasfuturas.
Conformesedemonstrará,autilizaçãoquasequeexclusivadaprisão,assim
comoaescassezdeprogramasepolíticaspúblicasparacondenadoseegressos,é
ineficazparaconterosíndicesdecriminalidade,aorevés,servecomoinstrumento
desuareprodução.
37
3. DISCURSOSLEGITIMADORESEDESLEGITIMADORESDA
PRISÃO
3.1 DIREITOPENALELEGITIMAÇÃODAPENADEPRISÃO.
A pena privativa de liberdade se constitui uma realidade nas legislações
penais, desdeo séculoXVIII.Noentanto, antes de se encetar debatesobresuas
funções declaradas e as que, propositalmente, são ocultadas, conforme se infere
dosdiscursosoficiaisdePolíticaCriminal,mistersefazexporalgumasteoriasque
servemcomoesteioaesteinstitutododireitopenalsimbólico
18
.
A pena de prisão nasce do chamado direito de punir (
ius puniedi
), assim,
portanto,énecessário compreenderas transformações que esta faculdade estatal
sofreu,especialmente,napassagem daIdadeModernaparaaContemporânea.
A punição, na Antiguidade, sempre foi atribuída ao divino ou sobrenatural,
tamm era direito exclusivo da vítima ou dos seus familiares. Com o
desenvolvimentodascivilizações,oarsenalpunitivopassouaservistocomomeio
decontroledasociedade, trasladando ofundamento dodireitodepunir(divino ou
sobrenatural)eatitularidadeparaosinteressesdoEstado.
Assim, aperfeiçoandose as leis, lançavase ali o embrião do Direito Penal.
Logicamente,comasdefiniçõesdecondutasproibidas(crimesoudelitos)existiaum
castigo(pena),que,emsuma,visavaatingirocorpodohomem,sejapormeiode
mutilações,torturasouatémesmoaprópriamorte.
Exatamente no período Absolutista, quando a Europa se via dividida em
monarquiasetodoopodereradevidoao monarca,o direitopenaltevefunçãode
manterestepoder,servindo,defato,como“braçoarmado”doEstado.
18
EstadenominaçãotemorigemnasalteraçõesiluministassobreoDireitoPenaldoséculoXVIII,que
perduramatéosdiasdehoje.
38
Agravidadedossuplíciosemnome davingançapública,sefez sentir em
váriospaíses.ComorelataJoãoBernardinoGonzaga,naItália‘chegousea
criarumaformadeexecuçãoqueduravaonúmerosimbólicodequarenta
dias.Diasapósdia,tudometiculosamenteestudado,cortavaseumpedaço
do corpo do paciente, demodo a que somente no quadragésimo dia ele
afinal expirasse. Asexecuções sefaziam em praçapública, aos olhos do
povo.Paralátransportavaseosentenciadoemcarroça,oqueconstituía,
tradicionalmente, sinal de ignonia. Era proclamado ao blico o crime
cometido e, a seguir, passavase à longa imposição de tormentos’.
(MARQUES,2000,p.47)
Apunição,nesteperíodo,émarcadamenteuma demonstração depoderdo
monarca.Elanãosefundavaemnenhumpostuladocientífico,consistiatãosomente
numa exposição pública das partes do corpo do condenado e retratava a força
absoluta dopoder,comoobjetivoodeincutirtemornapopulação(cf. MARQUES,
2000,p.48).
NofinaldoséculoXVIII,oclamorpormudançaslegislativaseraaindacontido,
quandoCesardeBonesa,MarquêsdeBeccaria,publica“Dosdelitosedaspenas”,
uma crítica iluminista franca e direta às penas cruéis e de morte. Este livro foi
editadoemmomentopropício,quandonãomaissepoderiamanteropoderúnicoe
exclusivo das monarquias, especialmente, na seara punitiva, marcada por
severidade e terror. Assim sendo, serviu de esteio para as novas legislações
européias da Ibéria ao Império Prussiano, inaugurando uma fase que os autores
denominavam de“DireitoPenalModernoouSimbólico”.
EstamudançafoiassimidentificadaporFoucault(1998,p.12):
Apuniçãopoucoapoucodeixoudeserumacena.Etudooquepudesse
implicar em espetáculo desde então terá um cunho negativo; e como as
funções da cerimônia penal deixavam pouco a pouco de ser
compreendidas, ficou a suspeita de que tal rito que dava um “fecho” ao
crime mantinha com ele afinidades espúrias: igualandoo, ou mesmo
ultrapassandoo em selvageria, acostumando os espectadores a uma
ferocidade ou que todos queriam vêlos afastados, mostrandolhes a
frequênciadoscrimes,fazendodocarrascoseparecercomcriminosos,os
juízesaosassassinos,invertendonoúltimomomentoospapéis,fazendodo
suplicadoumobjetodepiedadeeadmiração.
Nessediapasão,podesedizerquetodaaEuropainauguraessanovafase.
Umagamadegarantiaspassaafazerpartedoscódigos,emespecial,avedaçãode
puniçõescruéis,infamantesedemorte.Destamaneira,aprivaçãodeliberdade,por
39
exclusão,seriaamelhorhipóteseparareprimirosditoscriminosos,respeitandoos
seusmaisfundamentaisdireitos(àdignidade,incolumidadefísicaevida):
O corpo encontrase ai em posição de instrumento ou de intermediário;
qualquer intervenção sobre ele pelo enclausuramento, pelo trabalho
obrigatóriovisaprivaroindivíduodesualiberdadeconsideradaaomesmo
tempocomoumdireitoecomoumbem.(...)Osofrimentosico,adordo
corponãosãomaisoselementosconstitutivosdapena.Ocastigopassou
de uma arte das sensações insuportáveis a uma economia dos direitos
suspensos.(FOUCAULT,1998,p.14)
Aprisãonecessitavadefundamentaçãoteórica,faceaorigorcientíficoquese
apoderava da Europa, principalmente devido às contribuições iluministas.
Naturalmente, o que se quis foi legitimar o instituto da prisão, por um discurso
científico (filosófico e jurídico), tanto que a cada mudança social (e do aparato
jurídico)surgeumateoriaparalegitimála.
Assim, portanto, mse, hodiernamente, três correntes teóricas:
absoluta
,
tammdenominadaretribucionista,vinculadasàexpiaçã
relativas
,quesedivide
emprevençãogeraleespecial;e,finalmente,as
ecléticas
ouunificadorasdapena.
3.1.1TeoriasRetribucionistas(Absolutas)
As teorias retribucionistas se arrimam na compensação ao crime cometido
atravésdapenaimpostaàquelequeocometeu. Atravésdelas,sustentasequea
penaseriaumaexpiaçãododelitoperpetrado.Deformasintéticaesimples:
apena
éomaljustoaomalinjustoqueéocrime
.
A retribuição embora presente nas sociedades, desde a Antiguidade
(BRUNO,1984,p.36/37)obtevegrandeexpressãonoEstadoAbsolutista,oque
se infere das espetaculosas execuções e maneira como eram administradas as
punições.Naqueleperíodo,salientese,ajustificativadapenaresidianavontadedo
monarcaenaexpressãodavontadedeDeus:
40
As características mais significativas do Estado Absolutista eram a
identidadeentreosoberanoeoEstado,aunidademoraleoDireito,entreo
Estado e a religião, além da metafísica afirmação de que o poder do
soberano eralhe concedido diretamente por Deus. (...) A ideia de que
entãosetinhadapenaeraadeserumcastigocomooqualseexpiavao
mal(pecado)cometido.Decertaforma, no regimedo Estadoabsolutista,
impunhase uma pena a quem, agindo contra o soberano, rebelavase
também, em sentido mais que figurado, contra o próprio Deus.
(BITENCOURT,2004,p.73)
Embora o retribucionismo tenha raízes no período do Absolutismo, com o
advento do capitalismo e do iluminismo, esta teoria servia como esteio da nova
pena(aprisão).Entretanto,acrescendooesteiojusfilosófico,marcadaépocadas
Luzes,afinal,
comestaconcepçãoliberaldeEstado,apenaopodecontinuar
mantendo seu fundamento baseado na já dissolvida identidade entre Deus e o
soberano,religiãoeEstado
”(BITENCOURT,2004,p.74).
Inferese,enfim,destateoriaque,defato,nãopretensãoalémdaprópria
compensação do mal injusto pelo mal justo, ou seja, a pena esgotase em si
mesma
19
.Nesseparticular,vejaseoquediziaBettiol(2003,p.150):
Ohomemdeveserpunido,porquesuanaturezamoralpostulauma
puniçãopelocrime,paraalémdequalquerconsideraçãoutilitarística
ou finalística. A ideia retributiva não pode ser minimizada, ou
violentadana medidaemqueéaexpressãodeumdever ser que
nãoadmitecompromissosdequalidade.
Puniturquiapeccatum
éa
expressãoqueaindasintetizacomperfeãoanecessidadedequea
pena–comovalorencontreemsimesmaasuarazãodeser.
Comefeito,oretribucionismopreconizaoidealdeproporcionalidadeentreo
delito e a pena, muito embora, nem sempre, em algumas situações, este
fundamento seja o mais adequado para melhor solução. Na verdade, a pena
retributivaaoseencerraremsimesma,serevelacomooprópriofim,inexisteoutro
objetivocomsuaaplicação,senãosancionaralguémporhavervioladoouferidoa
Lei.ComoasseveraQueiroz(2001,p.4546),
19
ComoasseveraFigueredoDias(1999:p.91):“Nãosedesconhececomo,paraogrupodeteorias
agoraemconsideração,aessênciadapenacriminalresidena
retribuição,expiação,reparação
ou
compensaçãodomaldocrime
enestaessênciaseesgota”
41
a pena não serve para nada, pois sua legitimação decorre do
simplesfatodehaver sido cometidoum delito.A penase justifica,
assim,
quiapeccatumest
(puneseporquepecou),nistoesgotandoo
seuconteúdo.
Dentre muitas correntes defensoras deste pensar, destacamse duas: a
kantiana
ea
hegeliana
.Aprimeiradelaséextraídadaconstruçãoteóricadafilosofia
deImmanuelKant(17241804),que concebiaapenacomoimperativocategórico,
formaúnicadesematerializarajustiça.Paraofilósofoalemão,oDireitoPenalse
prestava a estabelecer um rol de condutas proibidas, que significavam limites ao
exercíciodaliberdadedohomememsociedade.Assim,seporventura,algumdos
cidadãosprovocasseaofensaaumdestespostuladoslegais,somenteatravésda
imposição da pena a Justiça se faria. Contudo, inadmitia Kant que houvesse
exceção à regra sob pena de ver toda a sociedade contaminada pela mácula da
injustiça,materializadanoperdãoounanãoaplicaçãodadevidasanção.Convém
reproduzirasíntesedePuig(2007,p.59)sobreopensamentokantiano:
É bastante expressivo o famoso exemplo de Kant de uma ilha cuja
populaçãodecidissedissolverseedispersarsepelomundo,enaqualse
formulasse a questão de se deveria manter a punição pendente dos
delinquentes, questão esta a que o autor alemão responde da seguinte
forma:aindaqueresultassedetodoinútilparatalsociedade–postoquea
mesmadeixariadeexistir–deverseiaexecutaratéoúltimoassassinoque
seencontrassenaprisão,unicamente,‘paraquetodoscompreendessemo
valordeseusatos’.Vêseaquiclaramenteumaconsequênciafundamental
daconcepçãoretributiva:segundoamesma,apena
deveserimpostaao
delitocometido,aindaqueresultedesnecessária
paraobemdasociedade.
Emreforço,concluiassimBitencourt(2004,p.77):
A pena jurídica,
poena forensis
,  afirma Kant – não pode nunca ser
aplicadacomoumsimplesmeiodeprocuraroutrobem,nemembenefício
doculpadooudasociedade;masdevesempresercontraoculpadopela
simplesrazãodehaverdelinquido.
Aoutracorrente,representadaporHegel(17701831),inauguraa chamada
retribuiçãojurídica,que:
Consideraocrimecomonegaçãododireitoeapenanegaçãodanegação,
como ‘anulação do crime, que de outro modo continuaria a valer’ e, por
isso, como ‘restabelecimento do direito’. E acrescenta que inquinar esta
consideração absoluta da pena com quaisquer fins de prevenção seria
como‘levantarpaucontraumcãoetrataroserhumanonãosegundosua
honraeliberdade,mascomoumcão(DIAS:1999,p.92).
42
ConformeafirmaPessina(2006,p.171):
Ofim últimodapenaé
negaro delito
,nãono significadovulgardefazer
algo que o tenha sido realizado, (...) mas no sentido de anular a
desordem contidana aparição do delito, reafirmando soberania doDireito
sobreoindivíduo.
Portanto, aorevés de Kant, Hegel pretender imprimir na pena retributiva a
ideiadeque,aoinvésdeummal,imporseájustiçaatravésdapena,queestaria,
assim,afastandosedaformairracionalqueserevelanavingança,característicada
retribuição.Paraomencionadofilósofo,aliberdadeearacionalidadesãoabasedo
Direito, que é a vontade geral. Assim, o crime, enquanto vontade irracional e
particular, precisa ser neutralizado pela vontade geral racional. No dizer de
RaymondPolin
apud
Marques(2000,p.62):
Oessencialnapenanãoéseuelodeligaçãocomapessoalesada,mas
suarelaçãológicacomaJustiça.Ocrime,comoexpressãodaviolaçãodo
direito, na qual se inclui a do próprio criminoso. Por isso, a vontade
manifestadanocrimeécontraditóriaemsimesma.Comapunição,então,
visasesuprimiraexistênciaempíricadocrime,reafirmando,dessaforma,
oDireito.
A pena em Hegel carrega, também, conteúdo talional. Exigese que a
reprimendasejanamedidadalesãocausada,portanto,“o
quantum
ouaintensidade
da negação do Direito, assim também será o
quantum
ou intensidade da nova
negaçãoqueéapena”(BUSATO,2003,p.208;PESSINA,2006,p.173174).
De maneira similar ao pensamento kantiano, a pena em Hegel não trazia
nenhuma finalidade, porque “se degrada a personalidade de quem a recebe”
(BUSATO,2003,p.208).
Estas são as duas correntes mais influentes das Teorias Retribucionistas,
muitoemboraexistissemoutrosautores,taiscomoCarrara(
apenaéconsequência
dodesejodereaçãofaceaviolaçãododireito
),Binding(
penacomoretribuiçãodo
mal por outro mal
), Mezger (
irrogaçãode mal quese adapta à gravidade do fato
cometido contra a ordem jurídica
), Welzel (
retribuição justa ao valor dos atos
praticados,emqueseafirmaumjuízoéticosocial,sendotoleradacomoexpiação
43
justa de um ato injusto
), que, não obstantes ilustres para o Direito Penal, neste
particular,nãolograramêxitodesuperarospostuladosKantouHegel.
Emmuitosdoscitadosautores,notaseumarevisãodasideiascentraisdas
principaiscorrentesassinaladasretribucionistas,sem,contudo,haverinovaçãoque
lhesdistanciasse.Outrossim,édematizretribucionistaaantigaéticacristã,ondea
puniçãodopecadosefundanocastigo,havendo,assim,asuaexpiação(COSTA,
2007,p.4546;BUSATO,2003,p.209210;BITENCOURT,2004,p.80).
3.1.2TeoriasPrevencionistas(Relativas)
Asteoriasprevencionistas,ourelativas,nascemdedissensoemrelaçãoao
pensamento estrito do retribucionismo, onde a pena serviria, de forma exclusiva,
parasatisfaçãodoDireitooudaJustiça
20
,sendovazianoquetangeaosentidoou
fimatribuídoàpunição.
Buscase,então, com aprevenção conferiràpenaumsentido,umfim,um
desiderato.Esteescopodevesertercomometadeutilidadeàsociedade,ouseja,o
criminosodevesersubmetidoaumapenaquelheorienteapermitirreingressono
seiosocial.ComoasseveraPuig(2007,6364):
Tratase de uma função utilitária, que não se funda em postulados
religiosos,moraisoumesmoidealistas,masnaconsideraçãodequeapena
é
necessária
para a manutenção de determinados bens sociais (grifo
original).
Eprossegue:
Apenanãosejustificariacomomerocastigopelomal,comopuraresposta
retributivaperanteodelito(já)cometido,senãocomoinstrumentodirigidoà
prevenção de futuros crimes.
Enquanto a retribuição visa o passado, a
prevençãovisa ofuturo
.Naterminologiaclássica(quedesdeProtágoras,
passando por Platão e Sêneca, chega até Grocio) não se pune
quia
peccatumest,sednepeccetur
.(grifosdoautor)
20
Nomodelokantiano,justiçadeveserinterpretadaàluzdamoral.
44
Um dos arautos do prevencionismo contemporâneo foi Cesare Bonsena,
Marquês deBeccaria, que, conforme dito antes, comseu livro “Dos delitosedas
penas”,inaugurounovafasenapolíticacriminaleuropéia(talvez,mundial).Entendia
elequeaspenasdeveriamsermoderadas,nãoporcompaixãoaocondenado,mas,
porforçadoracionalismoiluminista:
Osberrosdeumdesgraçadonastorturaspoderãotirardoseiodopassado,
que o retorna mais, uma açãojá praticada? o. Os castigos têm por
finalidade única obstar o culpado de tornarse futuramente prejudicial à
sociedade e afastar os seus patrícios do caminho do crime (BECCARIA,
1983,p.43)
Inclusive, interessante notar a reflexão que Beccaria (1983, p. 4647) faz
sobre afuncionalidadedapenacapital,quandocomparadacomaprisão,calcada
naprevenção:
O espetáculo atroz, porémmomentâneo, damorte de um criminoso, é
freiomenospoderosoparaocrime,doqueoexemplodeumhomema
quemsetiraasualiberdade,queficaatécertopontocomoumabesta
de carga e que paga com trabalhos penosos o prejuízo que causou à
sociedade. Essa íntima reflexão do espectador: Se eu praticasse um
delito, estaria toda a minha existência condenada a essa miserável
condão – essa ideia trica causaria mais assombro aos espíritos de
que o temor da morte, que se entrevê apenas um momento numa
obscuradistânciaquediminuioseuhorror.
Outroexpoente,contemporâneodeBeccaria(17381794),foiJeremyBetham
(17481832),que,tamm,aderiuaospostuladosprevencionistas.Ressalteseque
Benthamétidocomoumdosmaioresdefensoresdoutilitarismo,tantoquededicou
boa parcela da sua vida ao desenvolvimento da Penalogia, sempre à procura de
modelos punitivos que harmonizassem a dignidade humana (leiase, proteção a
incolumidade física) com vigilância, controle e reforma do condenado
21
. No seu
“TratadodasPenasLegais”,Benthamdiziadeverserofimdaspenas:
Omodogeraldepreveniroscrimesédeclararapenaquelhecorresponde,
e fazêla executar, na acepção geral e verdadeira serve de exemplo. O
castigo em que o réu padece é um painel que todo homem pode ver o
retrato do que lheteria acontecido, se infelizmente incorresse no mesmo
crime. Este é o fim principal das penas, é o escudo com que elas se
defendem.Considerandoodelitoquepassounarazãodeumfatoisolado,
quenãotornaaaparecer,apenateriasidoinútil; seriaajuntarummala
outro mal; mas quando se observa que um delito impune deixaria o
21
OpróprioJeremyBenthamdesenvolveuumaestruturaprisionalqueprimavapelaplenavigilância,
denomindadepanóptico.
45
caminholivrenãosóaoréu,masatodososmaisquetivessemosmesmos
motivoseocasiõesparaseabalançaremaocrime,logoseconhecequea
penaaplicadaaumindiduoéomododeconservarotodo.(BENTHAM,
2002,p.234)
Não poderia deixar de somar aos excertos citados, o que asseverou Liszt
(2005,p.39):
A pena correta, isto é, justa, é a pena necessária. A Justiça, no direito
penal, significa atendersea umamedidade penanecessária segundo a
ideiadavontade.
(...)Oabsolutovínculodapotestadepunitivaà
ideia do
escopo
éoidealdajustiça.
Odiscursodateoriadaprevençãoobjetivasevalerdapenacomoformade
controlarosindivíduosqueserãopunidoseaquelesquecompõemasociedade.
Assim, portanto, fica evidente que a teoria prevencionista se distancia da
retribucionista porque seu objetivo vai além da própria pena, ademais, visa ainda
corrigir o criminoso. Muito embora, a pena ainda seja considerada como mal
necessário,igualmenteparaosretribucionistas(BITENCOURT,2004,p.81).
Convémressaltarqueosideaisdeprevençãosedividememduasvertentes:
prevenção geral
e
especial
, que, em tópicos próprios, serão devidamente
analisadas.
3.1.2.1prevençãogeral.
Esta corrente é firmada na função preventiva que a punição imposta aos
delitos, devido ao princípio da legalidade
22
, exerceria sobre a comunidade,
pretendendoobtersuafidelidadeemrelaçãoaocumprimentodasleis.
Aprevençãogeraltemsuasraízesfincadasna“teoriadacoaçãopsicológica”
de Paul Johann Anselm Ritter Von Feuerbach (17751833), que é considerado o
fundadordomodernodireitopenalalemão.Emsíntese,consistenaintimidaçãodo
22
Podeserassimresumido:“Nãohácrimesemleianteriorqueodefina,nempenasemprévia
cominaçãolegal”(videartigos1º,CódigoPenal,e5°,incisoXXXIX,CF/88).
46
potencial criminoso através da imposição de penas severas. Noutros termos, o
prazerdesecometeroilícito,advindodofundamentopsicológicodasensualidade
queéínsitaneste,seriaobstadopelacertezadepunição(dor,aflição)porummal
maior:apena(ROXIN,2006,p.8990).ComoexemplificaDIAS(1999,p.99100):
A alma do criminoso potencial seria assim arena onde se digladiam as
motivações conducentes ao crime e as contramotivações derivadas do
conhecimentodomaldapena,emdefinitivoimportandoqueestasúltimas
sejamsuficientementepoderosasparavencerasprimeirase,destemodo,
contribuiremeficazmenteparaaprevenção.
Aideiadecoaçãopsicológicafuncionacomoumaconstanteameaça,feita
através da edição de leis penais duras. Porém, para surtir o efeito almejado,
deverá sempre contar com o efetivo cumprimento. Extraise, enfim, que a sua
única finalidade termina por ser a própria intimação, sem que possa se atribuir
qualquer outro fim à pena. Por tais razões, denominase esta doutrina de
prevençãogeralnegativa.
Por outro lado, a prevenção geral tem uma vertente chamada de positiva.
Estecorrentepartedapremissadefuncionalidadedodireitopenal(porconseguinte,
da pena, também) ao sistema social. Hodiernamente, Günter Jakobs é quem
representa e sustenta esta finalidade à pena criminal. Não se deve deixar de
recordar que o discurso de Hans Welzel (1997, p. 16) sobre juízo éticosocial e
Direito Penal é um dos pilares deste modelo punitivo ora defendido por Jakobs,
emboraaquelesefilieaosretribucionistasmodernos
23
.
A pena tem a missão de manter a norma como modelo de orientação às
pessoas,nãomaiscomomeiodissuasóriodecomportamentosproibidos,expurga
seocarátercogentedesuafunção,ouseja,distanciasedasideiasdeFeuerbach.
Emsíntese:
A reação punitiva (a pena) tem como função principal restabelecer a
confiança e reparar ou prevenir os efetivos negativos que a violação da
norma(seudescumprimento)produzparaaestabilidadedosistemaepara
aintegraçãosocial.(QUEIROZ,2006,p.89)
23
Nesteparticular,interessaapontarqueZaffaronieBatista(2003,p.116),entendemqueWelzel
seriaíconedumacorrentedeprevençãogeralpositiva,porelesdenominadade
eticizante
,
distinguindodeJakobs,queintegrariaoutrachamadade
sistêmica
.
47
Trabalhase com a fidelidade do homem à norma, afinal, deverá ponderar
racionalmente sobre prós e contras em violála. A função do Direito Penal (e da
pena) seráa dedevolver ao sistemasocial conspurcadocom o delito, que é tido
comoofensaàleiinstituída,anormalidade.
Assim,naprevençãogeralpositivaemJakobs,àguisadeconclusão,apena:
Serve precisamente para que as expectativas normativamente fundadas
não fiquem anuladas por sua defraudação, no caso concreto; para sua
manutenção “contrafática”, isto é, para sua manutenção, apesar da
definição como defeituosadaconduta do autor, e nãoda expectativa de
queestesecomportasseconformeanorma.Apena,portanto,consisteem
uma contradição da violação da norma que se executa a custa de seu
autor.(RAMOS,2003,p.89)
Inclusive, devese dizer, que para Mir Puig
apud
Mayrink (2007, p. 55), a
prevençãogeral,naperspectivadeJakobs,seriaumaremodelagemdaretribuição.
3.1.2.2PrevençãoEspecial.
A prevenção especial, ao contrário da geral, que se volta para a
coletividade,éconcebidaexclusivamente paradeterminadapessoaque cometeu
um delito (PUIG, 2007, p. 66). Assim, previnese que o delinquente volte,
novamente, a cometer futuros crimes. A finalidade da pena é de conter este
ímpetonapessoadocriminoso.
Como informa Bitencourt (2004, p. 86) muitas são as correntes que a
defendem,desdeaEscolaPositiva(positivismocriminológico)deFerri,Lombrosoe
Garófalo, na Itália do fim do século XIX; a Escola Correcionalista da Espanha,
lideradaporDoradoMonteiro;aEscolaModernaAlemãdeFranzVonLiszt,quefoi
embriãodaUniãoInternacionaldoDireitoPenal(UIDP);emaisrecentementecom
MarcAnceleaNovaDefesaSocial,quefoiummovimentodeproporçõesglobais.
Destes,registrese,osmaisinfluentesforamosdoisúltimos.
48
Emsuma,aprevençãoespecialsecalcaránumaintervençãopenalquevise
a ressocialização do homem, para tanto, moldando a aplicação às suas
peculiaridades.Naóticadeseuscultores,afunçãodapenaéservirdeinstrumento
dedefesasocial,ouseja,deveráseincumbirapenadeprotegerasociedade,para
tanto,servindodemeiodecontençãodaquelesqueofendemasleispenais.Apena
se transmuta de castigo e passa a ser tratamento, que objetiva promover a
adaptaçãosocialdocriminoso(URZÚA,2005,p.6869).
A teoriada prevenção especial parte daconsideração que oautorde um
delito é portador de um desvio social que demanda uma correção. A
correçãoquecompeteàpenacomofunçãoestárelacionadaàsdiferentes
característicaspessoaisdossujeitos.Haverá,então,distintosmomentosde
reagir.(BUSATO,2003,p.221)
Talqualaprevençãogeral,aespecialpodesernegativaoupositiva.Dizse
negativa quando a missão da punição criminal reside na profilaxia social, o
criminoso passa a ser visto como um anátema, um inimigo de toda a sociedade,
assimpassandoaseadministraremseudesfavormedidasquevisemaexclusiva
segregação por tempo indeterminado, até mesmo em definitivo, nalguns casos,
propondoasuaexecução.
O delinquente é considerado um doente,pelo que seu estudo deve estar
submetidoacritériosclínicos.Apena,portanto,deconotaçõesretributivas
deve ceder passo às medidas de segurança que se relacionam com a
periculosidadedo sujeito, masnãocom a gravidadedo delito. (BUSATO,
2003,p.222)
Emmuitosmodelosdesistemascriadoscomesteionaprevençãoespecial,
erigiuse um arcabouço ideológico voltado para a chamada defesa social,
substituindo,poucoa pouco, penas por medidasindeterminadas, sob o manto de
que as tendências criminais(internas) não podem ser combatidas por penas com
tempo préfixado. Ou seja, pretendeuse a relativização de princípios e valores
jurídicopenais no que tange àqueles rotulados de “incorrigíveis”, “não
readaptáveis”, até se regressar a um conceito – absurdo – de criminoso nato
(QUEIROZ,2006,p.93).
Aprevençãoespecialpositivasefundanoprincípiodaressocialização,sendo
que a execução da pena deveria ser feita com marcante interdisciplinaridade,
49
visando a recuperação do condenado. Muito embora, a matriz seja idêntica à
negativa,nestaexiste maior respeito ao princípio da dignidade humana, por mais
quesetenhaocriminoso/condenadocomosendoum
perigoso
.NãosemrazãoDias
(1999,p.104)afirmarserestatammprevençãodesocialização.
3.1.3TeoriasUnificadoras(EcléticasouMistas).
Atualmente, as teorias ecléticas serevelamcomoa alternativa de correção
de equívocosdas teorias absolutas e relativas, sendo, inclusive,deverasadotada
pelaslegislaçõespenais
24
.ComoapontaQueiroz(2006,p.96):
Ajustificaçãodapenadepende,háumtempo,dajustiçadeseuspreceitos
edasuanecessidadeparaapreservaçãodascondiçõesessenciaisdavida
emsociedade(proteçãodebensjurídicos).Buscase,assim,unira
justiça
e
utilidade,
razão pela qual a pena somente será legítima àmedida que
sejacontemporaneamente
justa
e
útil
.Porconseguinte,apenaaindaque
justa, não será legítima se for desnecessária (inútil), tanto quanto se,
embora necessária (útil), não for justa. Semelhante perspectiva se
caracteriza,pois,porumconceitopluridimensionaldapenaque,apesarde
orientadopelaideiaderetribuição,aelanãoselimita.
Consoante se infere do trecho acima reproduzido, objetivam as teorias
unitárias simplificar os postuladosdas outrasduas matizes teóricas, congregando
pontos positivos de cada uma delas, embora, a princípio soe inconsistente tal
proposição,afinal,oretribucionismoéoopostodoprevencionismo.Assim,poder
seia,indagarcomoconciliardistintosvaloresefinalidadequeseconferemàpena
criminal.Quiçá,comoresposta,Molina
apud
Busato(2003,p.239)afirma:
Reclamam uma pena proporcionada à culpabilidade, no marco da
culpabilidade,sebemquedentrodesteâmbitoadmitemquepossamoperar
osprincípiospreventivos;oqueaefeitosdagraduaçãodapenasignifica:a
penaajustadaaumfim,massónomarcoqueoferecea‘retribuiçãojusta’;
apenajustaouditadeoutromodo:aretribuiçãoseráo‘limitemáximo’da
prevenção.
24
OBrasil,porexemplo,inseriunoart.59,CódigoPenal,funçãounificadoraàpena(repressãoe
prevenção)
50
Aconstruçãodeumateoriadosfinsdapenaecléticaimplicanaadmissãode
umadoutrinadiacrônica:aameaçaabstrata(leipenal)émanifestaçãodaprevenção
geral; após, no instante em que o Poder Judiciário fosse impor a pena,
fundamentado na culpabilidade do agente, atribuirseia efeito retributivo; por fim,
quando da execução, orientandose por valores políticocriminais de
ressocialização,aprevençãoespecial(DIAS,1999,p.109).
ZaffaronieBatista(2003,p.140141)afirmamquetaisteoriasmistas,além
deincoerentesdoplanodaconstruçãoteórica,serevelammaisautoritáriasqueas
própriasteoriaspuraseconfigurama“entregadodireitopenalàarbitrariedadee
consequente renúncia à sua fuão mais importante” (a solução do conflito
jurídicopenal).
Dentreasváriascorrentesdeteóricosquereafirmamasteoriasmistascomo
sendo a solução para as mazelas da retribuição e prevenção, destacase o
pensamentodeClausRoxin,atravésdadenominada“TeoriaDialéticaUnificadora”,
consoanteapontaQueiroz(2006,p.97)
25
,queassevera:
Para Roxin, a finalidade básica do direito penal é a prevenção geral
subsidiária de delitos (positivanegativa).
Prevenção geral
porque fim da
normapenal é, essencialmente,dissuadiraspessoasdocometimentode
delitos e, consequentemente, atuarem conforme o direito;
subsidiária
porque o direito penal somente deve ter lugar quando fracassem outras
formasdeprevençãoecontroles sociais(...).Masoapenas prevenção
negativa,pois,segundoRoxin,cabeaodireitopenaltambémf
ortalecera
consciênciajurídicadacomunidade
,intervindo,assim,positivamente.
Arremata Queiroz (2006, p. 97), dizendo que, para Roxin,
a prevenção
especialéoúltimofimdapena,nosentidodeintimidarocondenadoanãoreincidir
.
Opróprioautoralemãofundamentaasuateoriaunificadora,nosseguintestermos:
Asteoriasmonistas,queratendamàculpabilidade[retribuição],àprevenção
geralouàespecial,sãonecessariamentefalsas,porquequandosetratada
25
Nesteparticular,nadoutrinapenalbrasileira,hádivergênciaquantoàclassificação,poisem
BITENCOURT(2004,p.90),percebesequeoautorfazcríticasàsteoriasmistas,sevalendodo
textodeRoxin.Alémdisso,orotulacomosendodefensordeumateoriadaprevençãogeral,que,
inclusive,adicionaotermo
limitadora
(BITENCOURT,2004,p.94).Nestetrabalho,entendesequeo
referidoautornãoandabem,semdesmerecersuaautoridade,aodivergirdosdemais,
especialmente,porqueopróprioClausRoxin(2006,p.103),emseumanual,sustentaqueateoria
daspenasdevecongregarvalorespreventivosgeraiseespeciais,oque,enseja,naadoçãoduma
teoriadecarizmisto.
51
relaçãodoparticularcomacomunidadeecomoEstado,arealizaçãoestrita
de um só princípio ordenador tem forçosamente como consequência a
arbitrariedade e a falta de verdade.(...) Vimos, de início, quais os seus
resultadosnasteoriasdaspenas:aintimidaçãounilateral,otratamentodo
delinquente sem restrições e no sentido da adaptação social e a ampla
retribuição da culpabilidade obedecendo a um mandado metafísico,
convertemodireitopenalemumlugardeforçaprotetoraeconstritiva,num
instrumentodeopressãoqueescravizaamentalidade.Ahistóriadodireito
penal,éderesto,claramenteilustrativaaesterespeito.(1998,4344)
Também,opretendeoautoralemãofazerumaadiçãodetodasasteorias
legitimadorasexistentescomosoluçãoa estesecularproblema dofimdaspenas.
Pugnase por uma teoria que se aproxime da realidade social, não permaneça
somente num mundo de abstração, mas que possa ser utilizada como forma de
resolver a inidoneidade daquele que violou as normas de convivência da
comunidade,equeestapessoapossasersubmetidaaotratamentomaisadequado
sem que sua intimidade seja conspurcada, afinal, é integrante desta mesma
comunidade.
Destacase,ainda,queapuniçãosomenteviráaterefeitosenecessáriaao
sistema social. Reconhecese que esta aproximação entre ideia do homem e
realidade é o maior ponto de conflito, por isso adotase a prevenção geral, que
primará por fixar padrões mínimos de condutas proibidas, sempre vinculada aos
preceitosconstitucionaisdeumacomunidade.
Por conseguinte,em sede de aplicação prática do Direito Penal, a punição
iriaserreguladapelosinteressesdosistemasocial,ouseja,aprevençãoespecial
estaria voltada para um ideal de ressocialização, pautada em parâmetros
constitucionais, que impediriam abusos e exageros no tratamento do condenado.
Interessante,tamm,desteconceitoroxinianoéqueotratamentopenal(punição)
deve estar limitado, sem ver ou ter o desviante (criminoso) como inimigo a ser
vencido,pois,étãointeressanteparaelecomoparaacomunidadequeapenaaser
impostanãoofira.E,principalmente,preserveosideaisdehumanidade,entreeles,
a intimidade, posto que servirá de elemento impulsionador da recuperação da
idoneidadedomesmo.
52
Mas,enfim,podesedizerqueomaiorméritodateoriaunificadoradialética
deRoxin,segundoadoutrinabrasileira,resideemafastardoseuconceitoecléticoa
ideiaderetribuição
26
.Ouseja,somentecombinaasespéciesdeprevenção(gerale
especial),oque,tambémédefendidoporDias(1999,p.111e135),inclusivecomo
modeloidealaserseguidoemPortugal.
3.2 TEORIASDESLEGITIMADORASDAPENADEPRISÃO.
AsugestãodeBeccariadeseadotaroencarceramentodaspessoascomo
formageneralizadadesepunirecoouportodooglobo,comojáassinaladoantes;
porém,éverdadequeoéumaunanimidade.Desdea décadadesessenta,no
séculoXX, alguns pensadores reveemo aprisionamento humano, desnudandoas
suasnegativasrepercussõesparaavidadopresoedasociedade.Cadavezmais
sepercebeadistânciaentreodiscursoearealidade.
Nesse sentido, a Criminologia Crítica
27 28
reúne pensadores de distintas
vertentes, origens profissionais e nacionalidades, propondo a ruptura com o
modelo punitivo vigente. Concluíram que o Estado não é ente legitimado para
poderusurparadordavítimaeimpor aoindivíduoinfratorosofrimento(castigo)
que ele (Estado) acha e entende como necessário. Em síntese, as práticas
26
Emsentidocontrário,anotaSelmaPereiradeSantana(2006,p.325),citandoAnabelaRodrigues,
queRoxin,emboraafasteoprincípiodacompensaçãodeculpaeaoestabeleceraculpacomolimite
máximodapena,nãoconsegueverselivredecticasdasuateoriadofimdaspenassertidacomo
versãomodernizadadaretribuição.
27
ÉdignoregistrarseouValeressaltarqueécomumqueseadotemnomenclaturasdiversas:
criminologiaradical,novacriminologia,criminologiadereaçãosocial,políticacriminalalternativa,
etc
.
Naverdade,ospensadoresqueintegramacorrentecriminológica,necessariamente,nãoformamum
grupovoltadoparatalobjeto;contudo,asimilitudedeideaiseconvergênciadeideias–oquenão
excluidivergênciaspontuais–éamarcadestavertentecríticaao
establishment
.Leiase:ARAÚJO,
JoãoMarcelo(org.).Sistemapenalparaoterceiromilênio–AtosdocolóquioMarcAncel.Riode
Janeiro:EditoraRevan,1991.
28
ImportantecontribuiçãoàteoriacriminológicadapenaseencontranaconstruçãodeHoward
Beckerdo
labellingapproach
(teoriadoetiquetamento),frutodointeracionismosimbólicodaEscola
deChicago,queconstróiummundoapartirdapercepçãodorotulado,analisandoasregrassociaise
aplicaçãopráticadestasregras(SANTOS,1981,p.1314),vertammtópico
infra
.
53
punitivasestataissãoseletivasereproduzemacriminalidadequesearvoroudeter
(QUEIROZ,2001,p.60)
29
.
Asprincipaiscríticasàpenacriminalsemanifestam,segundoSantos(2005,
p. 14), em duas vertentes distintas: a
teoria negativa ou agnóstica da pena
,
elaboradapor Eugênio RaúlZaffaroni, e Nilo Batista; ena
teoriamaterialística ou
dialética da pena
, representada, principalmente, por Pausukanis, Rusche,
Krichheimer, Melossi, Pavarini, Baratta; no Brasil, por Juarez Cirino dosSantos e
Vera Regina Pereira de Andrade. Embora estas teorias divirjam quanto aos
métodos,têmumpropósitocomumemdesconstruiroideáriopunitivoatual.
Ateorianegativaouagnósticadapenasepautaemsecontraporaoavanço
do Estado de polícia, inserto nas estruturas do Estado democrático de direito,
comprovado no fracasso das teorias positivas das penas. Portanto, pretendese,
com a negação de tais teorias, fixar horizontes ao direito penal por meio de
agênciasjudiciaisquesirvamdereduçãodopoderpunitivoestatal.
Dizem os defensores desta teoria que “a pena é uma coerção, que ime
umaprivaçãodedireitosouumador,masnãorepara,nemrestitui,nemtampouco
detémaslesõesemcursoouneutralizaperigosiminentes”(ZAFFARONI,2003,p.
99).Extraiseoseuconceitoporexclusão:apenaconstituiexercíciodepoder.
Tratase de
umconceitodepenaqueé negativo
porduas razões:a)não
concedequalquerfunçãopositivaàpena;b)éobtidoporexclusão(tratase
de coerção estatal que não entra no modelo reparador nem no
administrativodireto).
Éagnóstico
quantoàsuafunção,poisconfessao
conhecêla.Essateorianegativaeagnósticadapenapermiteincorporaras
leis penais latentes e eventuais ao horizonte do direito penal e, por
conseguinte,fazerdelassuamatéria,assimcomo
desautorizaoselementos
discursivos negativos do direito penal dominante
. (grifos dos autores)
(ZAFFARONI,2003,p.99100)
29
Nãointeressa,nestapesquisa,incursionarsobreascorrentesabolicionistas,quenegam
legitimidadedosistemaecomungamdosmesmosvaloresdospostuladoscríticosdacriminologia.
Noentanto,radicalizamquantoànecessidadedaexistênciadodireitoesistemapenal,propondo,em
suma,atotalextinçãodeambos,substituindoosporoutrasinstânciasdesoluçãodeconflitos.Neste
tópico,somentelimitarseáadiscussãosobreapena,especialmente,aprisão.Paramaior
aprofundamentosobreoabolicionismo:ZAFFARONI,EugênioRaúl.Embuscadaspenasperdidas:
aperdadalegitimidadedosistemapenal.TraduçãodeVâniaRomanoPedrosaeAmirLopesda
Conceição.RiodeJaneiro:EditoraRevan,1991;PASSETTI,Edson(org.).Cursolivrede
abolicionismopenal.RiodeJaneiro:EditoraRevan,2004;PASSETTI,Edson.Anarquismose
sociedadecontrole.SãoPaulo:Cortez,2003.
54
Com este pensar, Nilo Batista e Eugênio Raúl Zaffaroni declaram
francamente a falácia das teorias positivas da pena, porque se revelam como
incapazes de cumprir suas promessas e ofertar soluções adequadas ao modelo
democrático assumido pela maioria dos Estados modernos, afinal, a punição tem
fundamento político. Portanto, apesar de existirem as leis penais, a sua
interpretação e aplicação justa são pontos eficazes na contenção da excessiva
seleçãoecriminalizaçãodeclassessociaisvulneráveis(ZAFFARONI,2003,p.108).
A construção desta teoria é bem próxima da realidade ou por meio dela,
propõese a desconstrução do sistema de injustiças e abusos às classes
vulneráveis sem que requeiram mudanças estruturais do sistema penal
30
ou da
legislaçãovigente.Pugnase,paratanto,aconstruçãodeumnovoDireitoPenal:
Apartirdeumateorianegativadetodafunçãomanifestadopoderpunitivoe
agnóstica a respeito de sua função latente: a pena (a e todo o poder
punitivo)éumfatodepoderqueopoderdosjuristaspodelimitareconter,
masnãoeliminar.Umateoriadodireitopenalqueoprogrameparalimitare
reduzir o poder punitivo até o limite do poder das agências jurídicas é
racional porque se orienta para o único objetivo possível dentro de seu
âmbitodecisórioprogramável.Nãosepretendelegitimaropoderdeoutros,
mas
legitimareampliaropoderjurídico
,oúnicocujoexercícioécapazde
verse orientado, tendo em vista que as agências jurídicas não dispõem
diretamentedequalqueroutro.(ZAFFARONI,2003,p.109110)
Notesequena construçãodestateoriaosautoresnãoinvestigamaprisão,
especificamente, que, por certo, lhes renderia outra série de argumentos em
desfavor do modelo vigente. O referencial adotado é distinto da orientação
materialista, pois o se pretende mudar o sistema, somente conter os excessos,
emborasereconheçaqueestesaindasefarãopresentes
31
.Ressalvesequeestes
semprenegamlegitimidadeaodireitodepunirdoEstado,somenteadmitemasua
existênciaevigênciaeconstroemasuateoriadentrodestaperspectiva.
O discurso de origem marxista, concebido na crítica materialista à pena
criminal,objetivaporanalisarasrepercussõesdoDireitoPenalforjadopelaideologia
30
Leiase:asagênciasestataisquecuidamdavigilânciaeaplicaçãodaleipenal(polícia,ministério
público,instituiçõestotais)
31
Santos(2005,p.18)tececríticasaoabandonodeimportantesreferenciaisdaCriminologiaCrítica
pelosautoresparaconfecçãodateorianegativaouagnósticadapena.
55
capitalista. E nisso, a pena, como consequência jurídica do crime, é ferramenta
essencialdecontrolesocialdoshomens.
RuscheeKirhheimer(2004,p.20)jádiziamque“todosistemadeprodução
tende a descobrir formas punitivas que correspondem às suas relações de
produção”. E o capitalismo, como sistema produtivo não fugiu à regra. Adotouse
como padrão, o encarceramento dos homens. O pagamento do crime se dariana
usurpaçãodotempolivre.SegundoSantos(2005,p.19),seriaapenadeprisãoa
formaderetribuiçãoequivalentedevido:
Aosseusfundamentos
materiaiseideológicos
dassociedadesfundadasna
relação
capital/trabalho assalariado
, porque existe como
forma de
equivalência’
jurídica fundada nas
relações de trabalho
das sociedades
capitalistascontemporâneas.
Ou,ainda,comopontuouPausukanis(1989,p.158):
A privação da liberdade, ditada pela sentença do tribunal, por um certo
períododetempoéaformaespecíficapelaqualodireitopenalmoderno,
burguêscapitalista,realizaoprincípiodareparaçãoequivalente.Essaforma
estáinconscientemente,emboraprofundamente,ligadaàrepresentaçãodo
homemabstrato edotrabalhohumanoabstratoavaliadosem tempo.Não
foi por acaso que esta modalidade de apenamento foi implantada e tida
comonaturalprecisamentenoséculoXIX,ouseja,emumaépocanaquala
burguesiapôdedesenvolvereaprimorartodasassuascaracterísticas.(...)
Paraqueaideiadepossibilidadederepararodelitocomaprivaçãodeum
quantum
deliberdadepudessenascerfoinecessário quetodas asformas
concretasderiquezassocialestivessemreduzidasàformamaisabstratae
simples–otrabalhohumanomedidoemtempo.
E, apesar de haver escrito sua obra na década de vinte, retrata hipótese
similaraosdiasdehojesobreapena,delinquenteeressocialização:
Asquestõessobreareformapenitenciáriasóinteressamaumpequeno
grupodeespecialistas.Aocontrário,aquestãoque,paraopúblico,seo
encontra no centro de suas ateões é a de saber se a sentea
correspondeounãoàgravidadedodelito.Paraaopiniãopública,desde
queotribunaltenhadeterminadocorretamenteoequivalente,tudoestá
regulamentado,eodestinoulteriordodelinquenteointeressaquasea
ninguém.
A despeito disto, a escolha pela prisão devese à adoção de política de
controlesocialatravésdaviolência,ademais,osefeitosdestaespéciedepenasão
56
antagônicos àqueles que declarados pelo sistema penal, conforme adverte
Guimarães(2007,p.7071):
Assim, ao invés de combaterse a injustiça social, pedra de arrimo da
violência estrutural – essencial aocapitalismo – e causa de grandeparte
das mazelas sociais, combatese através do sistema penal sua
consequência, qual seja, a crescente e incontrolável onda de violência
criminal, haja vista que seria, no nimo, um paradoxo, que o poder
combatesse algo que é pressuposto de sua existência. (...) Ademais, é
exatamentenocárcere,emrazãodosefeitosproduzidosseremcontrários
aos oficialmente almejados – prevenção geral e especial – que se
consolidam as carreiras criminosas, vez que há a introjeção da cultura
delinquencial, ou seja, os detentos e reclusos em razão do longo tempo
expostos aos malefícios imanentes à privação da liberdade acabam por
assumiratitudes,modelosdecomportamentosevalorescaracterísticosda
subculturacarcerária.
Finalmente,temseemBaratta(1997,p.190)aperfeitaconclusãodacrítica
materialistaaestaproblemática:
Em suma, é impossível enfrentar o problema da marginalização criminal
sem incidirnaestruturadasociedade capitalista,que tem necessidadede
desempregados, que tem necessidade por motivos ideológicos e
econômicos,deumamarginalizaçãocriminal.
Seguramente, “a pena como
retribuição equivalente
representa forma de
punição específica e característica da sociedade capitalista, que deve perdurar
enquantosubsistira sociedadedeprodutoresdemercadorias”(SANTOS,2005,p.
24),oquerevelapredicadosdeseletividadeedesigualdadeinerentesaodireitoeao
sistemapenal.
3.3 RESSOCIALIZAÇÃO:DICOTOMIAENTREODISCURSOEAREALIDADE.
De acordo com o exposto, extraise que o ideal reinante, inclusive na
ConstituiçãoFederalde1988,édequepenaprivativadeliberdadepossapromover
aressocializaçãodocriminosojácondenado.
57
Comefeito,oidealderessocializaçãoconstituiumaquimera.Ohistóricoda
prisão credencia que se decrete a sua falência. Aliás, declarase este ideal, no
entanto,ocultamseoutrosmaisperversos,queimplicam nooposto.
Paracompreenderqueodiscursodosquedefendemaprisãoéfalso,porque
irrealizável,éprecisofazeralgumasdigressõesparachegaràconclusãodequeo
cárcere serve como forma de se estigmatizar pessoas, que foram previamente
selecionadaspelosistemapunitivo.
Todaestruturasocialmodernaédivididaemclasseseconômicas.Osistema
deproduçãocapitalistavigenteterminaporcriarlacunascadavezmaioresentre
elas, implicando em uma grande diferença sócioeconômica e cultural. Devido a
esteschoquesdeinteressesentreas classes, háevidenteproscriçãodecondutas
comunsacertosgrupossociais(independendodeseremdeclassesdominantesou
dominadas, contudo, as diferenças revelamse mais entre as segundas). Tais
condutaspassamaserrepudiadas(punidas)pelogruposocialmaisforte,porserem
contráriasaoseupadrãoeinteresses;portanto,nascea“condutadesviante”(DIAS
EANDRADE,1997,p.4852;CUÑARO,1992,p.2730).
Esta, necessariamente, não tem natureza delitiva, embora algumas delas
integremasleispenais.Noinstanteemquedeterminadacondutahumanapassaa
ser tida como nociva ao tecido social, utilizase a produção de leis criminais para
poder segregar os infratores e tentar assim se evitar a repetição do indesejável.
Acionase assim o Sistema Penal (SP). Complementa Andrade (2003, p. 423)
conceituandooeapontandoseuslimites:
Osistemapenalnãosereduzaocomplexoestáticodenormaspenais,mas
éconcebidocomoprocessoarticuladoedinâmicodecriminalizaçãoaoqual
concorremtodasasagênciasdocontrolesocialformal,desdeoLegislador
(criminalização primária), passando pela Polícia, Ministério Público e a
Justiça (criminalização secundária) até o sistema penitenciário e os
mecanismos de controle social informal (família, escola, mercado de
trabalho,mídia).
Acondutapassaráaserumrótuloparaaquelesqueapraticamalgoqueos
discernirá dos normais” (nos padrões estabelecidos em sociedade); caso esta
condutacomponhaogrupointegrantedasleispenais,osujeitoestáselecionadoa
58
integrálo (BISSOLI FILHO, 1998, p.180). Surge a rotulação e seleção de
determinados grupos (frisese, que, em regra, sempre são os mais débeis)
32
.
Ressalvesequeavulnerabilidadedestesnãoénecessariamenteporcausadalei,
afinal,vivesesobaégidedopostuladocapitalistadaigualdadejurídica;contudo,a
rupturadestaisonomiadásenadistribuiçãoeaplicaçãodajustiçacriminal
Consoante exposto, passará o selecionado a sofrer uma criminalização
primária (prática de ato tido como crime), então, ele será submetido a um outro
processo:ocontatocomasagênciasdecontroleevigilância:aPolícia,oMinistério
Público,oPoderJudiciárioeosEstabelecimentosPenitenciários(BISSOLIFILHO,
1998,p.181182).
Comosepercebe,amarcadecriminosofazpartedaquelesubmetidoaestes
processos, pois a integração social primária é de repúdio pela sua conduta,
seguindodeexposiçãoesegregação,conduzindoosujeitoaumaaceitaçãodesua
realidadenova(PAVARINI,1995,p.118).
Semdúvida,orotuladopassaa severcomofoiidentificadopelasociedade
umdelinquente,comofoitratadopelasagênciasdecontrolesocialformal.Ademais,
os ritos da polícia judiciária
33
, do sumário de culpa (processo penal) e o trato na
prisão(pelosdetentosefuncionários)levamaestaadoçãodacarreiracriminal.
32
AssimdizAndrade(2003,p.41):“Umacondutanãoécriminal‘emsi’(qualidadenegativaou
nocividadeinerente)nemseuautorumcriminosoporconcretostraçosdesuapersonalidadeou
influênciasdomeioambiente.Acriminalidadeserevela,principalmente,comoum
status
atribuídoa
determinadosindivíduosmedianteumduploprocesso:a‘definição’legaldecrime,queatribuiàconduta
ocatercriminal,ea‘seleção’queetiquetaeestigmatizaumautorcomocriminosoentretodosaqueles
quepraticamtaiscondutas.(...)Porisso,maisapropriadoquefalardacriminalização(e do
criminalizado),eestaéumadasváriasmaneirasdeconstruirarealidadesocial”.Eprossegue:“Esta
tese,daqualprovémsuaprópriadenominação(‘etiquetamento’,‘rotulação’),seencontra
definitivamenteformuladanaobradeBecker(1971,p.19),nosseguintestermos:‘osgrupossociais
criamodesvioaofazerasregrascujainfraçãoconstituiodesvioeaplicarditasregrasacertaspessoas
emparticularequalificálasdemarginais(estranhos).Desdeessepontodevista,odesviooéuma
qualidadedoatocometidopelapessoa,senãoumaconsequênciadaaplicaçãoqueosoutrosfazem
dasregrasesançõesparaum‘ofensor’.Odesvianteéumapessoaaquemsepodeaplicarcomêxito
ditaqualificação(etiqueta);acondutadesvianteéacondutaassimchamadapelagente’.
33
PolíciaJudiciáriaseriaasPolíciasCivileFederal,instituiçõesconstitucionalmenteencarregadasde
investigardelitos,cumprirmandadosjudiciais,instaurarinquéritospoliciais,efetuarregistrosde
criminosos,
etc
.
59
Goffman (1992, p.23, 69) já tratava deste assunto ao analisar a vida em
prisãoeinstituiçõestotais.Orótuloviraestigma.Opresonuncamaisévistocomo
um cidadão comum; distintamente da vida extramuros, às normas a que é
submetido,olentoprocessopenalensejaaumaausênciadeescolhaseaceitação
tácitadestanovarealidade.
Símbolosdeestigma
,ouseja,signosquesãoespecialmenteefetivospara
despertaraatençãosobreumadegradantediscrepânciadeidentidadeque
quebraoquepoderia,deoutraforma,serumretratoglobalcoerente,com
umareduçãoconsequenteemnossavalorizaçãodoindivíduo.(GOFFMAN,
1988,p.53)
A prisão é um estigma que persiste e provoca menoscabo da imagem do
condenado ou do egresso. Qualquer deste terá sempre a desconfiança alheia
pensandosobresi,se,porventura,aindaéumcriminoso,agoramelhorpreparado,
inclusive, ou, se, por absurdo (uma exceção), foi ressocializado. Como afirma
Mayrink(2007,p.49),
amacrossociedadetemequeoliberado
[egressodocárcere]
reincidaenãoacreditaemsuamudançadeposturacríticaemrelaçãoaela.
Há no inconsciente coletivo a ideia de que a prisão não ressocializa,
entretanto, conscientemente, ela é sustentada por quem lhe censura
inconscientemente. Um paradoxo. Semelhante à ideia de
re
socializar alguém,
privandolheaoportunidadederelacionarsecomoutrossereshumanos.
É possível se indagar se o sistema punitivo na prisão é a decisão mais
acertada.Assim como,se a reclusãode alguém seria, verdadeiramente, a melhor
formadese“ressocializar”.Arespostaparecesernegativa.Cervini(1991,p.30)diz
que é praticamente impossível educar alguém a ser livre prendendoo.Éum fato.
Uma verdade. Salientese que, aliado ao grave quadro revelado, o tratamento
carcerárioéextremamenteprejudicialaoidealdereinserçãosocial.Ou,comodisse
Baratta(1997,p.186)tecendocomentáriossobrearelaçãoentresociedadeepreso:
Antesdetudo,estarelaçãoéumarelaçãoentrequemexclui(sociedade)e
queméexcluído(preso).Todatécnicapedagógicadereinserçãododetido
chocacontraamesmanaturezadestarelaçãodeexclusão. Nãosepode,
aomesmotempo,excluireincluir.
60
AvidaintramurosimpõeumanovarealidadeaocondenadoExistemregras
deconvivênciaprópriasentreospresosedospresosparacomocorpodiretivo.Há,
porcerto,uma culturadoencarceramento,queafastadeverasalguém davidaem
liberdade (MUÑOZCONDE, 1999,p. 97102). Naperspectiva deSantos(2005,p.
28),
a prisão só ensina a viver na prisão
. E prossegue asseverando que ela
prisionaliza
o preso que, depois de aprender a viver na prisão, retorna para as
mesmas condições sociais adversas que determinaram a criminalização anterior”
(SANTOS,2005,p.28).
Temse visto que é quase impossível se valer da prisão como forma de
ressocializaroureintegrar.Cabe,ainda,apontarquetaismetas,tãoanunciadasnas
legislações criminais de várias nações, contudo, são falsas premissas. O sistema
penitenciário não é concebido para tal fim. Aliás, com perspicácia, afirma Muñoz
Conde(1999,p.91)que“otermoressocializaçãoseconverteuemumapalavrada
modaquetodomundoemprega,semqueninguémsaibamuitobemoqueé,quese
querdizercomela”.
Conforme dito anteriormente, o homem selecionado ao ser preso e
processado passa por um processo de criminalização,nascendo dali um estigma,
elepassaaservistopelosdemaismembrosdasociedadecomoumcelerado,um
marginal, o verdadeiro “criminoso nato”. Este primeiro processo, ganha contornos
mais definidos com uma eventual condenação, configurandose, assim, a
criminalizaçãosecundária.Poderseiadizerqueasentençacriminalcondenatóriaé
acertidãodenascimentodoselecionadoeestigmatizado.
Aquele“criminoso”,queainda–formalmentetinhaaseufavoroprincípioda
inocência, passa a ser a confirmação do que todos previam: o inimigo social, o
anátema. Inclusive, esta perspectiva não é somente da sociedade para o
condenando,masécompartilhada,poisoprópriocondenadoassumeopapelquea
sociedadelheatribuidecriminoso.
Assim, a exclusão e seleção que o Direito Penal faz utilizando a prisão,
direcionado,emsumamaioria,àspopulaçõesmaisdebilitadaseconomicamente–ou
comoafirmamZaffaronieBatista(2005,p.47)osmais
vulneráveisaosistemapenal
–
61
criamentre estes grupos a marginalização. E mais, o estigma permanece, mesmo
apósdecumprida a pena. Taisfunções do cárcere são“reproduçõesdasrelações
sociaisemanutençãodaestruturaverticaldasociedade”(Baratta,1997,p.175).
Portanto,restaesclarecidoqueaverdadedocárcereémaisduradopoderia
parecer.Oscondenadosenfrentampreconceitosque,emmuitoscasos,osimpedem
devoltarasentiremsecidadãos,optando,porvezes,pelacarreiracriminosa.
Alessandro Baratta (1997) sustenta que deve ser implementada uma maior
integraçãocárceresociedade,assimcomoadespenalizaçãodealgumascondutas,
acriaçãoeproposiçãodenovasformasdesepunir,sem,contudo,feriradignidade
humana. Assim ensinava o professor italiano que
parece importante insistir no
princípio político da abertura do cárcere para a sociedade e, reciprocamente, da
aberturadasociedadeaocárcere
”(BARATTA,1991,p.254).
Apenadeprisãotemseprestado,namaioriadasvezes,paraservirdelocal
ondedevemserenviadososcelerados;porém,estaaparentedesídiaésubstitutada
raivaeódio.Benevistes
apud
Messuti(2003,p.19)“assinalaqueaorigemdotermo
emgregoera
poine
,quecorrespondiaexatamenteaosignificadodevingança,ódio:
a retribuição destinadaa compensar umcrime, a expiação desangue”.Ou, como
reclamavaErnestVonBeling(2007,p.8384),jánoliminarséculoXX:
Penaétextualmenteretribuição(éretribuição
inmalampartem
,assimcomo
“prêmio” o é
inbonampartem
).A ideia de retribuição imprime suamarca
nosdireitospenaisexistentes.Quandonahistóriajurídicauniversalapena
substituiuavingança,nãosurgiuemlugardaretribuiçãoalgodiferente,mas
apenas em lugar da retribuição instintiva, ilimitada e apaixonada, nasceu
umaretribuiçãoaperfeiçoada(“objetivada”).
Pretendesemanterocárcerecomoeleé,porquenãosequer“ressocializar”
ou “reintegrar”. Estes são verbos empregados num discurso falso, que se
demonstrouvazioporqueédivergentedarealidade.
Concluise, portanto, que a função da pena tem sido retributiva, como era
desdeosprimórdiosdahistóriahumana.Ouseja,osentimentodevingança,nasua
essência, não mudou. Qualquer avanço somente será possível se houver um
62
rompimentocomaperversarealidadedaprisão,naesteiradoqueensinouBaratta
(1997),seinovarnotratamentodaquestãocriminalepenitenciária.
Outro ponto que merece enfoque nesta discussão sobre a ressocialização
residenoslimitesqueteráoEstadoparaimporoprogramadestinadoatalescopo,
umavezqueasnaçõesadotaramomodelodoEstadoDemocráticodeDireito,oque
implicaemassunçãoirrestritadoprincípiodadignidadedapessoahumana.
A Constituição Federal do Brasil traz, no seu art. 1°, inciso III, o dever de
propalaredefendersempreahumanidade
34
.Oconceitoderessocializaçãoéainda
algodeverasabstratoquenãosedefiniucomclarezanecessária,podendoesbarrar
nestepostuladoconstitucional.
O que, portanto, deve ser tido por ressocializar? Quais seriam as suas
fronteiras? Tais questões devem ser respondidas levandose sempre em
consideração que se vive numa democracia, onde é lícito se adotar posturas
internassemqueissoimpliqueemeventualofensaàsnormaseleisinstituídaspelo
próprioEstado.Indagaseisto,poishouve,háehaverásempreinteresseemseter
o criminoso encarcerado como marionete” do sistema penal, afinal, o seu
afastamento do meio social deveuse, por assim dizer, a uma falta para com os
valorespetrificadosemnormaspenais.
Então, temse, no senso comum, que ele somente poderá retornar ao
convíviosocialsedevidamentesubmetidoaumapuniçãoque,preferencialmente,o
“ressocialize”, o
docilze
, como diria Foucault, torneo “bonzinho” de novo, façao
acreditar,convictamente,queerrouesearrependedomalporeleprovocado.
Até onde poderá, num Estado Democrático de Direito, se submeter,
compulsoriamente, aquele que cometeu um delito à alteração da própria
personalidade? Assevera Nuvolone (1981, p. 266) ao discutir esta questão na
esferadoDireitoPenalitalianoque:
34
Talvezsejaomaiorlegadodoiluminismodepoisdaracionalidade.
63
Ocastigopelocrimeélegítimo,masamodificaçãodeumapersonalidade
não doente, para “normalizála”, segundo as linhas vetoras da maioria,
poderianãoserlegítima,porquantoincidirianodireitoquecadaumtemde
seroqueé.
Somese, ainda, a este impasse os meios que se imporiam para atingir tal
meta,que,seguramente,ofenderiamadignidadedapessoahumana,emespecial,o
direitoàintimidadeeaoprincípiodalesividadeouofensividade
35
.
Portanto, temseevidenciadoqueoidealderessocializaçãoé umaquimera
desejada pelos cultores da prisão enquanto pena, sonhada pelos idealistas deste
modelo vigente, porém, algo nunca atingido como fruto da punição pelo
encarceramento,muitoembora,sejapossívelsecolherimpressõeseexemplosde
alguns poucos que, após determinado período de encarceramento, regressaram
devidamente“ressocializados”.Noentanto,estesintegramaexceção,enãoaregra.
35
ComoconceituaQueiroz(2006,p.59):“Somentepodemsererigidosàcategoriadecriminosos
comportamentoslesivosdebemjurídicoalheio(porissotammconhecidocomoprincípiode
exclusivaproteçãodebensjurídicos),públicoouparticular,entendendosecomotalospressupostos
existenciaiseinstrumentaisdequeapessoanecessitaparaasuaautorrealizaçãonavidasocial,não
comportandoacriminalizaçãodecondutasquenãoofenda,seriamente,bemjurídicodeterminadoou
querepresentemmádisposiçãodeinteressepróprio(...)”.
64
4. PRISÃOECAPITALISMO:DOMERCANTILISMOÀ
ACUMULAÇÃOFLEXÍVEL.
4.1 ONASCIMENTOEEVOLUÇÃODAPRISÃONASOCIEDADE
CAPITALISTA.
Aadoçãododireitopenalcomoformainstitucionalizadadecontrolesocialse
consolidoudesdeaformaçãodosestadosnacionaiseuropeus.Apresençadasleis
jásefaziasentir,poucoapouco,comoalgorelevantenaquelassociedades,apesar
deseviversobasupremaciadavontadedosoberano,oabsolutismo.
Noentanto,comoseudeclínioeaascensãodosburguesesaopoder,oque
implicou numa mudança de rumo do modelo econômico vigente, se impuseram
mudanças de costumes, pensamento e até mesmo comportamentos. Assim, o
descortinardestenovelperíodoinauguroutransformaçõesprofundaseintensasnas
sociedadeseuropéiase,porrepercussão,emtodoogloboterrestre.
Consoante anunciado ao longo desta dissertação, não poderiam mais se
manter as práticas punitivas que atravessaram os séculos: as sanções corporais,
cruéis e a capital. Exigiase uma nova forma que contemplasse o respeito aos
direitosmaiscomezinhosdoserhumano.E,naprisão,achousealgoalémdisso.
As raízes do cárcere estão fincadas muito tempo antes da sua existência
propriamente dita, enquanto instituição exclusivamente destinada aos condenados
dajustiçacriminal.Noprimeiromomento,aprisãoestevediretamenteaserviçodo
modeloeconômicocapitalistaembrionário,poisfoialavancaparamoldarasmentes
comovalordeque,apartirdali,otrabalhoseriaoelodohomemàsociedade,o
maisaterra.
Ohomempassariaaservistocomofontedetrabalhoeasuaúnicaformade
sobreviveràmisériaeafomeseriapormeiodamercanciadestaenergiaemtroca
dedinheiro.
65
Os séculos XVI, XVII e XVIII serviram como período preparatório para o
ingresso definitivo do capitalismo como modelo econômico reitor dos Estados.
Conviveuse nestes trezentos anos com as mais diversas realidades, países que
conseguiramimporlimiteaopoderdosseusreiserainhaseoutrosquetiveramque
convivercomisto.
De fato, o que se pode constatar como elemento incomum das nações
européiaseraqueamaioriadapopulaçãoviviadaterra,ouseja,aforçaprodutiva
estavanocampo,comoexpôsHobsbawm(2004,p.28):
Omundoem1789eraessencialmenteruraleéimpossívelentendêlosem
assimilarestefatofundamental.(...)Defato,foraalgumasáreascomerciais
e industriais bastante desenvolvidas, seria difícil encontrar um grande
Estado europeu no qual ao menos quatro de cada cinco habitantes não
fossem camponeses. E até mesmo na Inglaterra, a população urbana só
veioaultrapassarapopulaçãoruralpelaprimeiravezem1851.
Na última cada do século XVIII somente duas cidades européias se
destacavam, Londres, com uma população em torno de um milhão de pessoas e
Paris, com a metade (HOBSBAWN, 2004, p. 28). Por certo, alguns traços do
feudalismo permaneciam em regiões do continente europeu, no que concerne ao
desenvolvimentodaeconomiaagrícola.
Na Inglaterra, este pensamento foi superado rapidamente, pois ainda este
período se destacara pelo desenvolvimento de uma agricultura puramente
capitalista
36
. Além disso, com o controle das colônias norteamericanas, que
exportavammatériaprimacompreçodecustomaisbaratoeemgrandequantidade.
Importantes rotas econômicas foram criadas, sendo cruciais para a difusão
destes produtos por toda a Europa, incrementando e integrando os mercados.
Concomitantemente, em reforço, desenvolviase o pensamento científico, o
iluminismo,quesevoltou,emgrandeparte,aosinteressescomerciaiseindustriais
(HOBSBAWM,2004,p.40).
36
Polanyi(2000,p.52)revelaque,naInglaterra,jánoséculoXV,ocapitalismotinhasemeadassuas
raízes:AindústriacaseirajásedifundianasegundametadedoséculoXV,eumséculomaistarde
elajáeraumaspectomarcantenocampo.
66
Nãoobstanteesteambienteseconstruíaemproldosistemacapitalista,que
mais adiante seria projetado na Revolução Industrial em 1848. As economias
européiasseencaminhavamparaumanovasociedade,regidapelosmercados,de
formalivreeautorregulável,emboraissofossecontidohámaisdeduzentosanos:
A partir do século XVI, os mercados passaram a ser mais numerosos e
importantes. Na verdade, sob o sistema mercantil, eles se tornaram a
preocupação principal dos governos. Entretanto, não havia aindasinal de
queosmercadospassariamacontrolarasociedadehumana.
O mercantilismo, que preconizava o máximo acúmulo de riqueza possível,
estimulouocomércioeuropeucomadescobertadasAméricaseamaiorexploração
comercial da África e Ásia. A cada dia chegavam aos portos produtos até então
desconhecidos,quepassaramacomporodiaadiadapopulaçãoeuropéia,comoo
açúcar,porexemplo.Digasequeocrescimentodomercantilismo,nosséculosXVe
XVI, foi fundamental para mitigar as barreiras protecionistas que eram praxe das
municipalidades,desdeaIdadeMedieval.Começaaserestimuladaacriaçãodeum
mercadonacionalenãomaislocal.
Naquele momento, onde havia rígido controle das atividades econômicas,
marcadas pelos monopólios das atividades comerciais, se valorizava bastante o
comérciolocalentreosdistritosmaispróximos.Nãohaviaintegraçãodestecomo
delongadistância.Inferese,portanto,destequadropósmedievoqueosmercados
eramisoladose contidosporregrasprovinciais.Coubeànova formataçãoqueos
Estados assumissem estimular a integração dos mercados locais, ainda
permanecendoforteproteção,agora,destafeita,aonovomercadonacional.
Desta maneira, ao se promover o crescimento da atividade comercial,
buscouse ofertar alternativa às economias essencialmente agrárias da Europa.
Portanto,ascondiçõesbásicasparaodesenvolvimentodocapitalismoestavambem
calcadasnaestruturadosEstadoseuropeus(POLANYI,2000).
Restava somenteadequara mentalidadedohomem àsociedade doporvir: o
capitalismo.Omendigoeocamponêsnãoseencaixavamnoperfilidealparaafutura
realidade.Foiprecisoadotarmedidasdurascontraestasfigurasparatalharoprolerio.
67
DesdeoséculoXIV,asociedadeeuropéiaconvivecomafigurado
mendigo
,
quesimbolizouaquelequeestavaforadarededeproteçãosocialdaIdadeMédia,
sendoqueesteviviasemrumocerto,dependentedacaridadealheia,emespecial,
daIgrejaCatólica.
Amisériavistacomoumproblemasocialpassa,tamm,aseradministrada
pelasautoridadeslegais,alémdaseclesiásticas(CASTEL,2005,p.72).Noentanto,
uma distinção passa a ser fundamental para gozar da caridade cristã da Igreja e
sociedadecivil:autilidadedomendigo,poissepudessetrabalharperdiaasimpatia
daqueles,sendo,definitivamente,expulsodestarededeproteçãosocial.
As inúmeras crises econômicas, aliadas ao crescimento populacional
forçaramquesebuscassepôrtermoàmendicância,buscandoassimareformados
capazesdetrabalharedosjovens,restandosomenteosenfermoseinválidoscomo
sujeitos às benesses da caridade cristã. A partir daí, deflagrase por todo o
continente uma verdadeira luta contra a mendicância, que passa a se chamar,
vagabundagem
, impondose uma política de encerramento. Esta política, afirma
Castel(2005,p.75),visavaresgataroidealdepertencimentocomunitário,vistoque
os mendigos representavam povo independente, desconhecedor das leis, religião,
autoridade,enfim,dosvaloresdacomunidade.
Dentreaspolíticaspúblicasqueforamadotadasparaaceleraroavançorumo
ao capitalismo,a principal delas ocorreu na Inglaterra, comaexpulsão de grande
massa de camponeses com o processo de cercamento dos campos e a
transformaçãodestesempastosparacaprinos.Simultaneamente,comoestímuloda
nova cultura econômica, optouse por uma rígida legislação contra a vadiagem,
comoassinalaMarx(1973,p.179):
Todososhomensassimprivadosdeseusmeiosdevidanãopoderiamser
absorvidos pela manufatura nascente tão prontamente quanto ficavam
disponíveis.Deoutraparte,bruscamente,arrancadosdeseugênerodevida
habitual, o se podiam ajustar da noite para o dia à disciplina da nova
situação.Muitosdentreelessefizeremlades,bandidos,vagabundos,uns
por tendência natural, outros – os mais numerosos – por força das
circunstâncias.Éporissoque,pelofimdoséculoXVedurantetodooculo
XVIhouveemtodaaEuropaocidentalumalegislaçãosanguináriacontraa
vadiagem.Osavósdosoperáriosatuaisforamprimeiramentepunidosporse
68
deixarem transformar em vagabundos e miseráveis. A legislação os tratou
como criminosos voluntários, supondo que dependia unicamente de suas
boasvontadescontinuaratrabalharnascondiçõesquenãoexistiammais.
Castel (2005) expõe o vagabundo como um parasita social, alguém sem
pertencimento comunitário, semtrabalho, que, pouco a pouco foi combatido como
criminoso, principalmente, após os progressos iluministas. Relata ainda que a
primeira medidadecombateaovagabundoeraobanimento.Porém,constatouse
que esta era uma fantasiosa e ineficaz forma de se enfrentálos, pois somente
trasladavaseoproblema.
Na França, registra a história que, desde 1556, existem decretos reais
impondo pena de morte contra aqueles tidos como vagabundos, até mesmo o
Código Penal Napoleônico reprimiu esta figura da sociedade européia. Algumas
sanções, como trabalhos forçados em obras públicas, condenações às galeras e
internações nos chamados hospitais gerais compunham o arsenal punitivo do
Estado francês contra o vagabundo. Sobre esta última espécie de punição, que,
claramente, é um antecedente da prisão, assevera Castel (2005, p. 126) que o
trabalho em instituições fechadas sempre foi um fiasco. O hospital geral não
ressocializoua‘naçãolibertinaepreguiçosa’dosindigentesválidos”.
A Inglaterra do século XIV contemplava severo combate à vagabundagem,
principalmentepormeiodeéditosreaisqueimpunhamdesançõescorporaisatéa
escravidão. Porém, foi através do isolamento de vagabundos e criminosos de
pequena monta para submissão a trabalhosforçados, que,em meados do século
XVI,nasceuainstituiçãoquedeuorigemàmodernaprisão,precisamente,em1555,
nacidadedeLondressurgiaa
Birdwell
:
Por solicitação de alguns expoentes do clero inglês, alarmados com as
proporçõesalcançadaspelamendicânciaemLondres,oreiautorizououso
docastelodeBirdwellparaacolhervagabundos,osociosos,osladrõeseos
autoresdedelitosdemenorimportância.Oobjetivodainstituição,queera
dirigida com mão de ferro, era reformar os internos através do trabalho
obrigatórioedisciplina.Alémdisso,eladeveriadesencorajaroutraspessoas
aseguiremocaminhodavagabundagemedoócio,easseguraropróprio
autossustentoatravésdotrabalho,asuaprincipalmeta.(...)Aexperiência
deve ter sido coroada com sucesso, pois, em pouco tempo,
house of
correction
, chamadas indistintamente de
birdwells
, sugiram em diversas
partesdaInglaterra(MELOSSI,2006,p.36).
69
Esta inovação se encaixava com perfeição nos interesses dos capitalistas,
porqueserviucomocoerçãoparafabricarfileiradehomensquesesubmeteriama
quaisquercondiçõesdetrabalho,desdequeestivessem emliberdade.
Omercadolivredetrabalho,àépoca,praticavaaltossalários,afinal,amão
deobradisponívelequalificadaparaotrabalhoeradiminuta,aexceçãodaprópria
Inglaterra, quecomsuapolíticadecercamentodoscampos,criouoexcedente da
mãodeobra.
Assim,portanto,comoamáximacapitalistaresidenaobtençãodemaisvalia,
era preciso se desenvolver algum mecanismo capaz de influir na realidade,
provocando um aumento da oferta da força de trabalho, o que, naturalmente,
acarretariadiminuiçãodossalários.
Desta maneira, como diziam Rusche e Kirchheimer (2004, p. 47), “os
capitalistasforamobrigadosaapelaraoEstadoparagarantirareduçãodossalários
e produtividade do capital”. A forma encontrada foi por meio de incremento das
puniçõescontraos vagabundos,especialmente, através dascasas decorreção,o
queacarretounacriaçãodeumexércitodereserva.
Ouseja,aquelesqueeramsubmetidosàscondiçõesdegradantesdascasas
de correção preferiam trabalhar livremente com salários irrisórios a cumprir novo
período de reclusão novamente. Esta seria uma das suas principais funções. O
objetivodoincremento doreforçopunitivoeracontrolaraforçadotrabalho,enfim,
domesticála.
Omelhorexemplodestasformasprimitivasdocárcere,tammdenominadas
de‘casasdetrabalho’,sedetectounaHolanda,queno séculoXVII,se destacava
como país que mais desenvolvia o capitalismo. Ali foram criados dois
estabelecimentos,umparahomens(
rasphius
)eoutroparamulheres(
sphinhaus
).
Ambos congregavam ideais que nortearam casas de assistência aos pobres,
oficinasdetrabalhoseinstituiçõesdecaráterpenal.
70
Ameta asercumprida eraa “reciclagem”daforçainútilde trabalhoem útil
aos interesses sociais do capitalismo holandês. Pretendiase que aqueles
submetidos a determinado tempo de trabalhos forçados, pudessem, ao sair,
motivaremseaprocurarporumespaçonomercadodetrabalho.
O
modusoperandi
consistiaemimporumasériedetrabalhospesados.Aliás,
eramarcaregistradadestascasasdetrabalhoaadoçãodetécnicasultrapassadas,
que primavam por exigir dos trabalhadores grande dispêndio de força física, que
alémdesoaremmaisperversas,promoviamaltoslucros,combaixoscustos.
Frisesequeoobjetivodascasasdecorreçãoresidiatambémnaproduçãode
dividendosparaoEstado,oque,emalgumasoportunidades,causouembatescom
comerciantes,quepugnavamsuaextinçãoporserconcorrênciaprejudicial.
A instituição tinha base celular, porém, em cada cela conviviam diversos
detentos. O trabalho era praticado na cela ou no grande pátio central,
segundo a estação do ano. Tratavase de uma aplicação do modelo
produtivoentãodominante:a
manufatura
.Acasadetrabalhoholandesaera
conhecida por toda parte pelo termo
Rasphius
, porque a atividade de
trabalhofundamentalquealisedesenvolviaconsistiaemraspar,comuma
serradeváriaslâminas,umcertotipodemadeiraatétransformálaempó,
doqualostintureirosretiravamopigmentousadoparatingirosfios.Esse
processodepulverizaçãodamadeirapodiaserfeito,basicamente,dedois
modos:comumapedrademoinho,eesteeraométodocomumenteusado
porquemempregavaestetrabalholivre,ou,namaneirajádescrita,nacasa
de trabalho. A duríssima madeira, importada da América do Sul, (Pau
Brasil) era colocada sobre um cavalete e dois trabalhadores internos a
pulverizavam, manejando as duas extremidades de uma serra muito
pesada. O trabalho era considerado particularmente adequado para os
ociososeospreguiçosos(osquais,comoconsequênciadessaatividade,às
vezesliteralmentequebravamaespinhadorsal).Eraessetambémomotivo
comoqualsejustificavaaescolhadométododetrabalhomaiscansativo.É
interessantenotarqueaquelesquecompravamopódemadeirada
Rasp
hius
reclamavamdasuamáqualidadesecomparadacomopóproduzido
nomoinho.(MELOSSI,2006,p.43)
Ascasasdetrabalhoholandesastinhamumpúblicoalvocompostoporvadios
e mendigos aptos (saudáveis), desempregados, prostitutas, ladrões, inclusive, à
medidaqueganhavamcredibilidade,algunscidadãoschegaramainternarassuas
própriascrianças(RUSCHE,2004,p.69).
Aexperiênciaholandesaterminaporimpulsionarosurgimentodessascasas
emoutrospaíses,comoAlemanha(
Zuchthaus
e
Spinnhaus
,Bremen,1609),França
71
(HospitalGeraldeParis,1656),Itália(HospíciodeSanFilipoNeri,Florença,1667).
Muitos desses novos institutos copiaram os regulamentos e até mesmo o projeto
arquitetônicooriginaldosPaísesBaixos.
Notase que tanto ocapitalismo quanto a prisão, ambos em fases
embrionárias,seentrelaçavam,cresciamjuntamente:
O desenvolvimento do regime de produção capitalista e do cárcere,
enquantoprincipal forma decontrole social daquele,não se afasta dessa
característicageral,trazendo,istosim, umaoutra característicade crucial
importância:aconcomitânciaemquetaisinstituiçõesforamseexpandindo,
o que pode ser considerado mesmo como uma interdependência
existencial.(...)Umadasquestõescruciaisparaocorretoentendimentodo
aparecimento e desenvolvimento concomitante da pena privativa de
liberdade e da sociedade capitalista em seu primeiro momento, o
mercantilismo,passa,necessariamente,pelamudançadeconcepçãosobre
anecessidadedetrabalhodaquelesque seconfiguravam comosuaforça
produtora.(GUIMARÃES,2007,p.116117)
Oencarceramentodemassas,simbolizadanaconversãodosvagabundosem
trabalhador, foi a saída encontrada para promover considerável redução salarial,
através de criação do excedente de mãodeobra, bem como para domesticar os
novos trabalhadores, disciplinandoos sob os férreos termos capitalistas.
Naturalmente que este não foi fato isolado, contou com importante reforço da
religião, em especial, o protestantismo, que exortava o trabalho e a produção do
lucro, sendo o primeiro mandamento dirigido aos proletários e o outro aos
capitalistas(WEBER,2002).
Nos países católicos, o aprisionamento era oriundo do direito canônico,
despido dos interesses burgueses; mas, concessões e reformas teóricas no
catolicismodefendidoatéentãoforamnecessáriasparaajustálosànovarealidade.
SintetizamRuscheeKirchheimer(2004,p.62)estamudançanosseguintestermos:
Ofatodeambasasdoutrinasreligiosas,avelhaeanova,colaborarempara
odesenvolvimentodanovainstituiçãoprovaquepontosdevistapuramente
ideológicos ocuparam lugar secundário em relação às motivações
econômicasenquantoforçamotrizdetodoomovimento.
EstemomentodograndesaltodocapitalismoéassimrelatadoporBauman
(2003,p.30):
72
Omodernoarranjo–capitalista–doconvíviohumanotinhaformadeJano:
umafaceeraemancipatória,aoutracoercitiva,cadaumavoltadaparaum
setordiferentedasociedade.(...)Paradizêlodemaneiracurtaegrossa:a
emancipaçãodealgunsexigiaasupressãodeoutros.Efoiissoexatamente
queaconteceu:esseacontecimentoentrouparaahistóriacomonomeum
tanto eufemístico de ‘revoluçãoindustrial’. As ‘massas’tiradasda velha e
rígidarotina(arededeinteraçãocomunitáriagovernadapelohábito)para
seremespremidasnanovagidarotina(ochãodafábricagovernadopelo
desempenhodetarefas),quandosuasupressãoserviriamelhoràcausada
emancipaçãodosseussupressores.
Portanto, a inserção da prisão como pena definitiva era mera questão de
tempo. Por longos anos, impunhamse punições como as galés
37
e deportações
para colônias
38
; mas, estas, à medida que o mundo se tornava mais avançado,
enfim,“menor”,perdiamsuafunção,tornavamsevazias.
Nessesentido,aconstruçãodeprisões,locaisprópriosparacriminosos,seria
a saída para solucionar este impasse, afinal, os trabalhadores estavam
domesticadoseosvaloreshumanistas/iluministas,queforamalimentonaderrubada
doAntigoRegime,vedavamaplicaçãodepenasaflitivas.
A sociedade capitalista o poderia mais abrir mão de ter ao seu lado o
cárcere,eleserviacomoelementoinconscientequeprendiaohomemaosvalores
dotrabalhoassalariado.ComoresumeJinkings(2007,p.7):
Éestedirecionamentoqueguia aadministraçãocarceráriaatéos dias de
hoje:odetentodevetercondiçõesdeexistênciabastanteinferioresaomais
pobretrabalhadorlivreparaque‘ocrimenãocompense’.
37
Oscondenadosserviamcomoremadoresdenavios.Estetrabalhopassouaseraplicadoaos
criminososjácondenadosporqueoshomenslivresnãotinhaminteresse,poiseraextremamente
arriscado,principalmente,numperíododeintensasguerrasmarítimas.Amotivaçãodestapunição
eraexclusivamentedecunhoeconômico(RUSCHE,2004,p.85).
38
EstaformadepunireramuitocomumaospaísesIbéricos,principalmente,noséculoXV.A
Inglaterratambémseutilizoudadeportaçãoparapoderpromoveracolonizaçãodesuascolônias
ultramar,porqueascolôniasprecisaramdemãodeobra,vezquenãoobtiveramêxitocoma
escravizaçãodosnativos,queporvezesfugiamoumorriamemvirtudedeguerrasedoenças.A
deportaçãodehomensdeixadeservantajosaàscolôniascomachegadadosescravosnegros.A
partirdaímedidasforamsendoimplementadasparaencerrarcomoenviodecriminosos,oque,
efetivamente,tevetermocomaRevoluçãoeIndependênciadosEstadosUnidosdaAmérica
(RUSCHE,2004,p.9094).
73
AscasasdecorreçãonãoavançarammuitoalémdoséculoXVIII,passaram
por uma transformação crucial, a partir daquele momento, o isolamento era
exclusivodoscriminosos.
Comaformaçãodeummercadodetrabalhopropícioaocapital,produzindo
se uma cultura direcionada ao trabalho, alimentada por um sedento excedente
populacional, extinguiase a necessidade de casas de correção, tanto que o seu
declíniodeveuseprincipalmenteadoisfatores.concorrênciacommercadolivrede
trabalhadores e alto
defict
por força da evolução tecnológica daindústria, quefez
sucumbiramanufatura.
O modelo de instituição carcerária que marcou a contemporaneidade surge
oficialmentenosEstadosUnidosdaAmérica,comorevelaJinkings(2007,p.8):
DooutroladodoOceanoAtlântico,nosEUAdofinaldoséculoXVIII,foram
fundadas prisões que se tornariam, rapidamente, modelos a serem
seguidos. A prio de confinamento solitário, gerida pelos
quakers
, tinha
comobaseoisolamentocelular,comotrabalhosolitárionacelaeareligião
para buscar a transformaçãodo detentoem trabalhador honesto, aqui os
internosnãotinhamcontatoentresi.Estesistemadiminuiusobremaneiraos
custos comvigilância,mas,poroutrolado,nãopermitiaaorganizaçãode
trabalhocoletivoentreosdetentos.Noisolamentototal,aideiaédequeo
trabalho não precisa ser produtivo, mas um instrumento para educar e
transformar os detentos em pessoas submissas à disciplina do trabalho,
qualquer que seja este, realizado numa fábrica ou numa penitenciária. O
cárcere do tipo confinamento solitário é a materialização do sonho
benthamiano de arquitetura da instituição penal. Este sistema se mostra
como modelo das relações sociais burguesas: o isolamento do detento
explicitaodesejoburguêsdooperárionãoorganizado,adisciplinaeafalta
de concorrência oferecem ao empresário uma situação ideal de
disponibilidadedeforçadetrabalho,aeducaçãodointernadoestávoltadaà
suasujeiçãoàautoridadeeàdependênciaemrelaçãoaoproprietário.
Aprincípio,quatrofatoresforamosalicercesdaprisãomoderna:
isolamento
(a separação do corpo social era visto como predicado de correção),
trabalho
(métodoeficientedecorreção,poiscriaohábitoregular),
religião
(areconciliaçãodo
pecadorcomDeuseraocaminhoparaareconciliaçãocomasociedade),
educação
(ensinamentodosvaloressociaisemoraisvigentesparaopreso).
Ahistóriadapena/prisãoéconturbada,pois,desdeasuaadoção,afalência
da meta que se dispôs cumprir fora declarada como impossível; assim, a
segregaçãohumanaparafinsdecorreçãoouressocializaçãoéumapremissafalsa.
74
Porém, odebateencetadoaolongodosculos sobreapuniçãosempre
gira ao redor da prisão, nunca houve a sua superação. Buscouse reformála
sempre. A sua reinvençãonuncadeixoude contemplar os mesmos valores que
informamasuacriação.
Destaforma,servirásempreocárcereaoseumestre - ocapital,eproduzirá
idênticoresultadoàquelequesequismudaratravésdasuareforma.Comoaponta
Sozzo(2007,p.93),referindoseaoinstitutocarcerário:
Aperpétuaeonipresente‘reformapenitenciária’queaolongodotempoe
espaço tem gestado mutações no projeto
normalizador/disciplinante/correcional, modificando certos aspectos de
discursos e práticas que a compõe, agregando outros, mas sem gerar
nenhumarupturaarespeitodeseusprincípiosfundacionais.
Aliás, Michel Foucalt (p. 131132), na cada de setenta, sustentava
estaposição:
Minha hipótese é que a prisão esteve, desde sua origem, ligada a um
projetodetransformaçãodos indivíduos.Habitualmente seacreditaque a
prisão era uma espécie de depósito de criminosos, depósito cujos
inconvenientesse teriam constatadopor seu funcionamento,de talforma
que se teria dito ser necessário reformar as prisões, fazer delas um
instrumentodetransformaçãodosindiduos.Istonãoéverdade:ostextos,
osprogramas,asdeclaraçõesdeintençãoestão aíparamostrar.Desdeo
começo, a prisão devia ser um instrumento tão aperfeiçoado quanto à
escola,àcaserna,ouohospital,eagircomprecisãosobreosindivíduos.
Desde1820,seconstataqueaprisão,longedetransformaroscriminosos
em gente honesta, serve apenas para fabricar novos criminosos ou para
afundálosaindamaisnacriminalidade.Foientãoquehouve,comosempre
nos mecanismosdepoder,umautilizaçãoestratégicadaquilo queeraum
incoveniente.Aprisãofabricadelinquentes,masosdelinquentesoúteis
tantonodomínioeconômicocomonopolítico.Osdelinquentesservempara
algumacoisa.
Em síntese, se demonstra que a maior função do rcere é a de servir aos
anseiosdosistemacapitalista,consoanteasseveraAlessandrodeGiorgi(2006,p.44):
Do ponto de vista da economia política da pena, a contribuição das
instituições e das tecnologias da pena foi, nesse sentido, fundamental: a
penitenciárianasceeseconsolidacomoinstituiçãosubalternaàfábrica,e
comomecanismoprontoa atenderasexigênciasdonascentesistemade
produçãoindustrial.Aestruturapenitenciária,soboperfiltantoorganizativo
quantoideológico,nãopode sercompreendidase, paralelamente, nãofor
observadaaestruturadoslocaisdeprodução;éoconceitode
disciplinado
trabalho
quedeveserpropostoaquicomotermoquefazamediaçãoentre
cárcereefábrica.
75
Portanto, assim nasceu a prisão; da soma de reclames dos pensadores
iluministas contra as penas cruéis e corporais, e, principalmente, pelas escolhas
políticasdoEstadoemfavordasnecessidadescapitalistasdesecriarummercado
detrabalhoquepossibilitasseobtençãodemaiorlucratividade.Então,adocilização
daforçadetrabalhoecriaçãodoexércitodereservaforjaramasfunçõesreaisdo
encarceramento:
As necessidades disciplinantes do tempo são as próprias vinculadas à
formaçãodaforçadetrabalho,oumelhor,daproduçãodotrabalhocomo
mercadoria.Estanecessidadeobrigaapensarnapráticainstitucionalcomo
aquela em que, nos estreitos espaços de exclusão, seja possível educar
coercitivamenteaquelefator deproduçãoqueé o trabalhoàdisciplinado
capital.(PAVARINI,1995,p.27)
Ou,ainda,comodiriaBauman(1999,p.117):
Fossem quais fossem seus outros propósitos imediatos, as casas
papticas de confinamento eram antes e acima de tudo
fábricas de
trabalho disciplinado
. O mais comum era serem também solões
instantâneas para aquela tarefa suprema – colocavam os internos
imediatamenteparatrabalhareemespecialnostiposdetrabalhomenos
desejado pelos ‘trabalhadores livres’ e que era menos provável
executarem por livre e espontânea vontade, por mais atraentes que
fossem as recompensas prometidas. Fosse qual fosse o seu prosito
declaradoalongoprazo,asinstituiçõeseram,francamente,namaioria,
casasdetrabalho.
Este foi o primeiro momento, pois assim que o mercado de trabalho se
revelouautossuficienteparaproduzirmãodeobra,olaborintramurosdeixadeser
metadaprisão,comopontuouJinkings(2007,p.10):
Portanto,onexohistóricoentrecárcereefábricailustracomooprimeirofoi
fundamental na ‘domesticação’, como proletários, de uma massa de
camponesesindóceisrecémexpulsadoscampos.Nessesentido,ocárcere
produziu um setor de marginalizados úteis em situações de
superexploração de força de trabalho carcerária. Ao mesmo tempo, o
cárcere deixa de ser local de trabalho, principalmente, porque também
numaconjunturadedesemprego,ostrabalhadoresnãoqueremmaisessa
competição.
Deveservirdealertaqueaprisãoéumaarmautilizada talcomoumdiafoia
pena de morte, a sua real função dependerá dos rumos que indiquem o sistema
econômico vigente. Nas primeiras fases do capitalismo ela se prestou, conforme
detalhadoanteriormente,àpromoção deummelhorambiente de desenvolvimento
76
do capitalismo. Não sem razão, a prisão serviu como instrumento de disciplina e
docilização de corpos, especialmente, por meio das regras internas da vida
intramuros. Esta cultura de conformismo, que servia como mordaça, se impunha
tantoàquelecustodiado,quantoaohomemlivre,sendoqueesteépressionadopara
nãosevernacondiçãodaquele(SOZZO,2007,p.91).
Portanto,qualquermutaçãonocapitalismo,porcerto,promoverásignificativa
alteração nas funções reais do cárcere, o obstante, cinicamente, se proponha
sempreàressocializaçãohumanaatravésdele.
4.2 NOVOSTEMPOS:DOFORDISMOÀACUMULAÇÃOFLEXÍVEL.
REFLEXOSNOSISTEMAPENAL.
Conforme se tem esboçado, o capitalismo se consagrou como modelo
econômicovigenteedesdeasuaconsolidaçãovempassandoportransformações
constantes.
Como leciona Braveman (1987, p. 54), “a produção capitalista exige
intercâmbioderelações,mercadoriasedinheiro,massua
diferença específica
é a
compraevendadaforçadetrabalho”.
Arelaçãopatrão
versus
empregadosemprefoieseráconflitante,afinal,este
desejaavalorizaçãodesuaforçadetrabalho,enquantoaquelelutarápordiminuição
decustoseamais
valia
.Esta,comefeito,é alógicadocapitalismo.Como dizem
MarxeEngels(1978,p.64):
Ooperárioabandonaocapitalistaaoqualsealuga,tãologooqueira,eo
capitalistaodespedequandolheapraz,desdequedelenãomaisdeextraia
nenhum tipo de lucro ou não obtenha o lucro almejado. Mas, o operário,
cujoúnicorecursoéavendadesuaforçadetrabalhonãopodeabandonar
toda a classe dos compradores, isto é, a classe capitalista, sem
renunciaràvida.(grifosoriginais).
77
Ocapitalista,detentordosmeiosdeprodução,alugaaforçadetrabalhodo
proletário, que se valoriza de acordo com a demanda do mercado, ou seja, se
houvercarênciaelaencarece,sehouverexcesso,édesvalorizada.
Atualmente,podeseafirmarqueomercadodetrabalhoécompetitivonoque
concerneàshabilidadespessoaisdostrabalhadores,bemcomono preço cobrado
porsuaforça,poisexistemaismãodeobradoquedemandadepostosdetrabalho.
Portanto, venceaquele queformais habilitado e cujo valoro extrapolea
larga margem de lucro do capitalista. O trabalhador deve ser produtivo, o que
implicaránasuaalienaçãonoprocessodeprodução,eleestará“cego”parapoder
cumprir as metas, batêlas, ultrapassálas, tudo para que não venha a ser
substituídoporoutronasmesmascondiçõesqueele.
MarxeEngels(1978,p.80)alertavamsobreaalienação,aduzindoosriscos
advindosdela:
Oresultadoéquequantomaistrabalha,menosrecebedesalário,pela
simples razãodequeàmedidaqueconcorrecom seus companheiros de
trabalho faz deles seus concorrentes, que se vendem em condições tão
másquantoas deles;detalformaque,emúltimaanálise,éasi próprio
que ele faz concorrência, como membro que é da classe operária.
(grifosoriginais).
Destamaneira,comoasseveraBraveman(1987,p.59),tornouse:
Fundamentalparaocapitalistaqueocontrolesobreoprocessodetrabalho
passe das mãos do trabalhador para as suas próprias. Esta transição
apresentase na história como a
alienação progressiva de produção
do
trabalhador;paraocapitalista,apresentasecomooproblemade
gerência
.
(grifosdoautor)
Naturalmente,anteestequadropercebesequeostrabalhadores estãoem
desvantagem, pois por não disporem dos meios de produção, são forçados a
vendera únicacoisaquem:a suaforça detrabalho.E,estando sozinhos, são
presasmaisciesparaosinteressesdocapitalista.Atentoaestefator,oembate
daquele que detém os meios de produção consiste na desmobilização da classe
trabalhadora, o incentivo ao individualismo, o acirramento da competição como
meio de impedir uma coesão em prol dos interesses comuns dos trabalhadores
78
(
v.g.
: pagamento de horasextras, diminuição da jornada de trabalho, melhor
saláriomínimo,
etc.
).
Jánãoénovidadeque“osinteressesdocapitaleosinteressesdotrabalho
assalariado sãodiametralmente opostos” (MARXe ENGELS,1978, p. 75). Assim,
portanto, o capitalismo passa a ganhar espaço através da compra de força de
trabalho voltada para produção de mercadorias que haveriam de circular no
mercado,produzindoariquezaparaocapitalista.
NolimiardoséculoXX,apósasrevoluçõesindustriais,oavançotecnológico
permitiuquenascesseasociedadedemassas.Oprincipalagentededifusãodesta
nova cultura foi Henry Ford, pensando num novo modelo capitalista, onde o
trabalhador pudesse ter poder de consumo daquilo que produzia. Um estilo de
vida, isso era o fordismo. Não era simplesmente uma maneira diferente de se
promover o capitalismo, pom, significava profunda mudança cultural. Como
ensinaHarvey(1993,p.131):
Ofordismodopósguerratemdeservistomenoscomoummerosistema
deproduçãodemassadoquecomoummododevidatotal”.Produçãoem
massa significava padronização do produto e consumo em massa, o que
implicavatodauma nova estética emercadificaçãoda cultura que muitos
neoconservadorescomoDanielBellmaistardeconsiderariamprejudicialà
preservaçãodeéticadotrabalhoedeoutrassupostasvirtudescapitalistas.
Ofordismofoiimplantadocomoumprojetoque“dependiadaassunçãopela
nação  Estado de um papel muito especial no sistema geral de regulamentação
social”(HARVEY,1993,p.130).
Nos países desenvolvidos, as políticas públicas visavam atingir a todos os
cidadãos,principalmente, no que concerneaos empregos. Havia a meta do pleno
emprego, oíndice dedesempregoeramínimo,quasezero.Em outras palavras,o
mundodotrabalhoabarcavaquasequetodososcidadãos,portanto,todosestavam
incluídosnossistemasdeproteçãosocial,eramtemposdo
welfarestate
ouestado
debemestarsocial(HARVEY,1993,p.125).
79
Contudo,estemodelo,nascidonocomeçodoséculopassado,atingiuoápice
no pósguerra, durando somente até meados da década de setenta, quando é
substituídoporumcapitalismodemercadodecapitais.
Muitosacontecimentosensejaramamudançadofordismoporummodelode
acumulaçãoflexível.Foi,podesedizer,umaconjunturadefatoresqueensejouesta
viradanaformadesefazerocapitalismo:
Haviaproblemas com arigidez dosinvestimentos decapitalfixo de larga
escalaelongoprazoemsistemadeproduçãoemmassaqueimpediama
flexibilidade de planejamento e presumiam crescimento esvel em
mercados de consumo invariantes. Havia problemas de rigidez nos
mercados, na alocação e nos contratos de trabalho (especialmente no
chamadosetor“monopolista”).Etodatentativadesuperaressesproblemas
de rigidez encontrava a força aparentemente invencível do poder
profundamente entrincheirado da classe trabalhadora (...). A rigidez do
compromisso do Estado foi se intensificandoàmedida que programasde
assistência(seguridadesocial,direitosdepensão,etc.)aumentavamsoba
pressão para manter a legitimidade num momento em que a rigidez na
produção restringia expansões da base fiscal para gastos públicos.
(HARVEY,1993,p.135136).
O quadro descrito acima traduz a tensão que permeou a mudança do
sistema fordista para a acumulação flexível, inaugurando uma forma de se fazer
capitalismoqueremontaàsorigens,devoltaaoliberalismo.Ocapitalistaquebrou
osgrilhõesquelheprendiamaoEstado.Bauman(1998,p,50)sintetizaomomento
vividoassim:
Atualmente, racionalizar significa
cortar
e não criar empregos, e o
progresso tecnológico e administrativo é avaliado pelo ‘emagrecimento’
daforçadetrabalho,
fechamento
dediviese
redução
defuncionários.
Modernizar amaneira como a empresa é dirigida consiste em tornar o
trabalhomaisflexível’–desfazersedemãodeobraeabandonarlinhas
e locais de prodão de uma hora para outra, sempre que uma relva
mais verde se divise em outra parte, sempre possibilidades comerciais
mais lucrativas, ou mãodeobra mais submissa e menos dispendiosa,
acenemaolonge.
Arremata,logoemseguida,osociólogopolonês(1998,p.51):
Poucos de nós lembram hoje de que o estado de bemestar foi,
originalmente,concebidocomouminstrumentomanejadopeloEstadoafim
dereabilitaros
temporariamente
inaptoseestimularosqueestavamaptosa
seempenharemmais,protegendoosdomedodeperderaaptidãonomeio
doprocesso(...).Issoeraverdade
oupoderiaaser
–naépocaemquea
indústria
proporcionava trabalho, subsistência e segurança à maioria da
população.Oestadodebemestartinhadearcarcomoscustosmarginais
80
dacorridadocapitalpelolucro,etornaramãodeobradeixadaparatrás
empregável novamente – um esforço que o próprio capital não
empreenderia ou nãopoderiaempreender.Hoje, com umcrescente setor
dapopulação que provavelmente nuncareingressará naprodução eque,
portanto,nãoapresentariainteressepresenteoufuturoparaosquedirigem
aeconomia,a‘margem’jáoémarginal e ocolapso dasvantagensdo
capital aindaofaz parecermenosmarginal–maior,maisinconveniente e
embaraçoso – do que o é. A nova perspectiva se expressa na frase da
moda:‘Estadodebemestar?Jánãopodemoscusteálo.
Borges(2000,p.182183)resumeodilemaaquidebatido:
Soberano, o capital livrase de todas as amarras e limites sociais
construídos nos últimos séculos e, principalmente, no pósguerra, e
assume,semdisfarces,asuaverdadeiraíndole:conquistador,saqueador,
sem controles institucionais ou sociais. Na sua reprodução, leva partes
inteiras da economia a caírem no que, há poucas décadas atrás, era
chamadodeeconomiaclandestina,deeconomiasubmersa.Enãosetrata
deapenasatividadesmarginais,nemdeatividadestangenciaisaocrime,ou
socialmente assim reconhecidas. È o coração mesmo do processo de
acumulação contemporâneoquesetorna opaco, ilegível,incomensurável,
intransparente: hoje controlase tão pouco o capital financeiro quanto o
tráficodedrogasouarmas.
Ocenárioquesetemtraçadoapontaumarealidademundial:oaltoíndicede
desemprego. Esta realidade não é casual, adveio de políticas macroeconômicas
neoliberais que visavam a “desvalorização dos custos de contratação,
desregulamentação do mercado de trabalho e a flexibilização das normas de
relacionamentoentrecapitaletrabalho”(POCHMANN,2001,p.85).
Não obstante isto há que se adicionar a relevância da globalização para
engrossar as fileiras dos desempregados, afinal, como a economia dos Estados
nacionaisnãotêmmaisfronteiras,facilitaqueasgrandesempresas,tendoemvista
melhorescondições(digase,menorescustos),deixemumpaísemdireçãoaoutro,
criando de uma hora para outra uma nova população de desempregados.
Outrossim, a tecnologia tem auxiliado no sentido de cada vez mais tornar o
trabalhadorfiguraprescindíveldentrodaslinhasdeprodução.
Destaforma,anteumaepidemiadedesemprego,oresultadonaturalseráa
exclusãodomercadodetrabalhoerededeproteçãosocial.Afaltaderendacriaum
abismo,quecrescequandoestaaumenta.Osistemacapitalistaexigequeparase
81
teracessoàeducação,saúde,lazer,
etc
.,qualquercidadãodeverápossuirdinheiro.
Casoestenãotenhacomoobterrenda,seráexcluído:
Airrevogabilidadedaexclusãoéumaconsequênciadireta,emboraprevista,
da decomposição do Estado social – como uma rede de instituições
estabelecidas, mas talvez mais significativamente como um ideal e um
projeto segundo os quais as realidades o avaliadas e as ações
estimuladas.(...)Emvezdeseracondiçãodeestar‘desempregado’(termo
queimplicaumafastamentodanormaqueé‘estarempregado’,umaaflição
temporáriaquepodeedevesercurada),estarsemempregoparececada
vezmaisumestadode‘redundância’–serrejeitado,rotuladodesupérfluo,
inútil,nãoempregáveledestinadoapermanecer‘economicamenteinativo’.
Estar sem emprego implica ser descartável, talvez até ser descartado de
uma vez por todas, destinado ao lixo do ‘progresso econômico’ – essa
mudança que se reduz, em última instância, a fazer omesmo trabalho e
obter os mesmos resultados econômicos, porém, como uma força de
trabalhomaisreduzidae com ‘custosdemãodeobra’menores queantes
(BAUMAN,p.75)
A exclusão da rede de proteção social e do mercado de trabalho afasta o
cidadão, colocandoo à margem da vida em sociedade. Apesar de integrála
formalmente, perde a voz, sobre si pairam as trevas. Hoje, estar trabalhando é
produzir,poderconsumir,éestarinseridonocontextosocial,époderusufruir,com
plenitude,dacidadania,oque,novamente,constataBauman(2005,p.67):
Asinstituiçõesdo‘Estadodebemestar’sãodesmanteladasaospoucose
ficam defasadas, enquanto restrições antes impostas às atividades
comerciaiseaolivrejogodacompetiçãodomercadoesuasconsequências
removidas. As funções protetoras doEstadosereduzemparaatingir uma
pequenaminoriatendaaserdosnãoempregáveisedosinválidos,embora
atémesmoessaminoriatendaaserreclassificadaepassardeassuntodo
serviço social para uma questão de lei e ordem – a incapacidade de
participardomercadotendeasercadavezmaiscriminalizada.O Estado
lavaasmãosàvulnerabilidadeeàincertezaprovenientesdalógica(ouda
ilogicidade) do mercado livre, agora redefinida como assunto privado,
questão que os indivíduos devem tratar e enfrentar com os recursos de
suaspossesparticulares.
O desemprego, no capitalismo, não tem solução. No máximo, podese
minorálo,poralgumtempo.Oseucombateimplicaemchoquediretocomalgumas
políticasquesustentamomodelodeacumulaçãoflexível.Émisterumincentivoao
crescimento econômico visando a criação de novos postos de trabalho,
desconcentração de renda para que surjam mais consumidores, a realização de
reformaagráriaparaconteroêxodorural,e,porfim,oretornodoestadodebem
estar(principalmente,educação).Adicioneseaindacomosoluçãoumareformano
82
direitodotrabalho,paraqueseeviteaprecarizaçãoeaflexibilizaçãodasnormasda
relaçãopatrão
versus
empregado(CASTEL,2004,p.62).
Nosdiasatuais,ohiatoentrericosepobresensejaamantençadeste
status
quo
. Inexistem chances reais de ascensão social, uma vez que há pouca
oportunidade de emprego ou trabalho, tornandose mais árdua a possibilidade de
alguém emergir da base da pirâmide social para o seu vértice. À medida que o
tempopassa,aumentaonúmerodepessoasqueseencontramnestasituação.
OffeeHinrich(1989,p.43)asseveramqueascriseseconômicassedefinem
por provocarem o desemprego e o subemprego como fenômeno de massas”.
Aduzem ainda os autores que este fenômeno o ocorreu ao acaso, ele é
estruturado, pois limitará o acesso de determinados grupos de pessoas ao tão
sonhado mercado de trabalho. Aqueles que forem excluídos sobreviverão de
subempregos, no mundo da informalidade econômica, quando não forem
despejados como mãodeobra para acriminalidade.Geralmente, estes grupos de
excluídos o os mais vulneráveis nas sociedades, os “grupos vulneráveis” (
v.g.
:
mulheres,jovens,negros,imigrantes,homossexuais,dentreoutros).
Talpolíticadesegregaçãoéchamadapelosreferidosautoresdefechamento
social”,pautadaexclusivamenteempadrõesde
status
criadosnoseiodasociedade.
Necessariamente,nãoprecisadeapoioinstitucionaldoEstado,éalgoquenasceno
própriomercadodetrabalho(OFFEeHINRICH,1989,p.63).
Esta seleção do mercado de trabalho nunca deixará de existir, pois este
nunca absorverá a demanda existente. Contudo, criticamse os parâmetros
estabelecidos,quesepautamemvaloresdistintosdosnecessáriosparaseformar
umbomprofissional.
Àguisadeconclusão,épertinentereproduziraargutaobservaçãofeitapor
Borges(2002,p.7)sobreosefeitosdavulnerabilidadesocial,frutodaprecarização
e desestruturação do trabalho no Brasil, porém, que podem servir também para
outrasrealidades:
83
O acesso a um emprego – e a qualidade desse emprego – tornaramse
cruciais paraadeterminaçãodograudeintegraçãosocial,dascondições
devidaedoacessoabenseserviçosdamaioriadapopulação,ondeos
efeitosdesagregadoresdaausência–ouperda–doempregonãopodem
maissereficazmente atenuados por outrasesferas davidasociale onde
uma maior precarização dos empregos se traduz, imediatamente, na
elevaçãodograudevulnerabilidadesocial.
Além disso, como consequência lógica congelase uma maior ascensão
social, tornandose privilégio de poucos. Mas, a regra passa a ser a mobilidade
descendenteporpartedosgrupos maisatingidospelas mudançasdo mercado de
trabalho(BORGES,2002,p.8).
Restou evidenciado que a transformação que o capital financeiro produziu
sobre o mercado de trabalho tem reflexos em todo o tecido social, causando
naquelesqueforameaindasãoabarcadospelasmudançasainequívocaexclusão
(darededeproteçãosocial).
Amudançaquepassouocapitalismoremodelaasestruturasideológicasda
prisão. Até aqui, ficou demonstrado que a segregação é fruto direto das
necessidades políticas do modelo econômico recémadotado. Toda estrutura
carceráriasearrimanosinteressesdocapitalismo.Destarte,seestemudaderumo,
naturalmente aquela tamm se inclinará noutro sentido. Não sem razão afirma
Jinkings(2007,10):
Recentemente,poroutrolado,com aformação deumagrandemassa de
pessoas excluídas, a função educativa do cárcere estará talvez
definitivamente superada. Não há mais necessidade de transformar o
homem e produzir o trabalhador. Bastará limitar essas massas a guetos
controlados policialmente para disciplinálas. Assim, a crescente
substituição,apartirdemeadosdadécadade1970,depolíticasdecontrole
como aliberdadevigiada, aliberdade condicional eo regime semiaberto,
por um regime de encarceramento, se explica pelo fim do mito do pleno
empregokeynesiano,peloconsequentecrescimentodosubempregoe do
desemprego causados pela “racionalização”dos meios de produção,pela
elevaçãodosíndicesdeprodutividadedasempresas,comousodemenos
força de trabalho, e pela consequente geração de uma massa
marginalizadaquenecessitasercontrolada.Talregimedecontrolebaseado
noencarceramentosematerializanocrescimentocontínuo,desdeametade
da década de 1970 até os dias de hoje, da população encarcerada no
mundo,especialmente,nosEUA.
Foiditoantesqueosguerrarevelouaomundoumasociedade moderna
queobjetivouainclusãodoscidadãos,atravésda aquisiçãodo
status
decidadão,
84
conceitoestequeconjugadireitosindividuais(liberdadedeirevir,deexpressão,de
profissão,defé),políticosesociais.Viase,portodaaEuropa,ummundoemque
quase a totalidade do corpo social estava empregada. Havia uma sólida rede de
assistênciasocial.Omododeproduçãoeraofordismo,quepreconizavaoestímulo
ao consumo através de boa remuneração dos trabalhadores, políticas
governamentais corporativas e, principalmente, estabilidade no emprego. Era o
tempodo
WelfareState
.
Contudo, após a década de setenta, houve uma mudança nos rumos do
capitalismo.Aquelasociedadeinclusivadeuvazãoàexclusão.Oavançotecnológico
eacrescenteglobalização,aaberturadenovosmercados,significaramreduçãode
mãodeobra,queimplicaemincrementonomerodedesempregados.Alieseà
mudançacultural,quecriticavaospadrõesmodernistas,comoobjetivodeunificaro
pensamento. A meta, agora, é a diversidade, o hedonismo desenfreado e
autorrealização.ComobemexpõeYoung(2002,p.28):
A vida urbana estava mudando, movida numa corrente de consumismo
dirigida pelo mercado: a sociedade consumo emergente, com sua
multiplicidadedeescolhas, prometianãoapenasa satisfaçãodosdesejos
imediatos,mastammageraçãodeumaexpressãocaracterísticadofinal
doséculoXX–
estilosdevida
.
Nisso formamse dois grandes grupos: incluídos e excluídos (da rede de
proteção). E, entres estes existem várias divisões; seja por etnia, às vezes lugar
ondesemora,comoseveste,oquese ouve,etc.Emreforço,concluinovamente
Young(2002,p.31)que:
A dialética da exclusão está em curso, uma amplificação do desvio que
acentua progressivamente à marginalidade, num processo empírico que
envolve tanto a sociedade mais ampla como, crucialmente, seus próprios
autores,osquais,namelhorhipótese,semetemnaarmadilhadeumasérie
deempregossemnenhumaperspectiva,ou,napior,deumasubclassede
ociosidadeedesespero.
Atentoaestasmudanças,ésalutarreproduzirovaticíniodeBauman(1998,
p.26)enfocandoanovaóticapunitivadasociedadeexcludente:
Abuscadapurezamodernaexpressousediariamentecomaação
punitiva contra as classes perigosas; a busca da pureza pós
moderna expressase diariamente com a ação punitiva contra os
85
moradores das ruas pobres e das áreas urbanas proibidas, os
vagabundos, osindolentes.
Oconceitodedesvioestarácalcadoemdoisprismas:umnaprópriaexclusão
emsi,outronatentativa degruposempromoverainclusãoeseviremnumaluta
contra outrosque seopõem. A mudança de paradigma traz reflexosimediatosno
sistemapenal,nascausasdacriminalidadeenaformadecontroledodesvio.Háum
incrementono uso do encarceramento como meio de se promovero controle dos
excluídos, incidindo, basicamente, naqueles mais vulneráveis à violência
institucionalizada.
Aprisãoqueantesserviadeformadedifusãodaculturacapitalista mudao
rumo,sendomeroelementodesegregaçãodaquelesqueoascendemaogrupo
dos incluídos. Esvaziase qualquer função de ressocialização oureeducação que,
porventura,sequisimpornopassado.
Conforme dito e ressaltado, tamm, por Bauman (1998, p. 55), a
criminalidade crescente é produto da sociedade de consumidores. Vejase que o
frequente estímulo ao consumo é indistinto, atinge e conquista a todos, havendo,
portanto, uma necessidade de se consumir. Como existem grandes distorções
econômicas, alguns grupos serão privados da satisfação deste anseio incutido,
sendo,porvezes,conduzidosaodesvio.
Caberá, nesta nova fase, à prisão servir de reforço à excluo destes
criminosos, dos que desviam, ou como bem adjetiva o professor polos, os
consumidores falhos. Temse, neste novo peodo, a ideia de classes de
criminosos,nãomaisoidealdeclassesperigosas,punesepeloqueapessoaé,
enãopeloquefez.
A falta de políticas públicas para intervir no mercado de trabalho, para dar
freios aos impulsos do capitalista, ou mesmo, para oportunizar chances reais
àqueles quesãoexcluídostemsidosuprida porpolíticasinspiradasnomovimento
deleieordem.Otemadomomentoéasegurança.Omedodesairdecasaenão
86
voltaraumenta ainda mais o hiato entre ricose pobres, o estigma de marginalse
encaixaperfeitamenteneste.
Nisso, a prisão reafirmase como solução para tais percalços. O
encarceramento das populações pobres é usado como política de Estado para
resolverosimpassesadvindosdodesempregoeexclusãosocial.Wacqüant(2001,
p.76)asseveraque:
AmãoinvisíveldomercadoeopunhodeferrodoEstado,combinandosee
complementandose, fazem as classes baixas aceitarem o trabalho
assalariadodessocializadoeainstabilidadesocialqueeletrazemseubojo.
Comisso,apósumlongoeclipse,aprisãoretornouaopelotãodefrentedas
instituiçõesresponsáveispelamanutençãodaordemsocial.
Oscaminhosabertospelaacumulaçãoflexívelpromoverammbioemtodos
ossetoresdasociedade,alterandoaestruturaseculardaprisão,quehoje,otem
como meta preparar o “soldado de reserva”, função, hodiernamente, do próprio
mercado,comorevelaBauman(1999,p.123):
O que sugere a acentuada aceleração da punição através do
encarceramento,emoutraspalavras,équehánovoseamplossetoresda
população visados por uma razão ou outra como uma ameaça à ordem
socialequesuaexpulsãoforçadadointercâmbiosocialatravésdaprisãoé
vista como um método eficiente de neutralizar a ameaça ou acalmar a
ansiedadepúblicaprovocadaporessaameaça.
O cárcere se revela. É o ponto máximo da exclusão da rede de
proteção.Tornase a certificação institucional de que o homem está à margem da
sociedade produtiva. Seu retorno ou sua redenção, que cada vez se torna mais
difícildeocorrer,nãoestáprevistanonovoprojetocapitalista.
4.3ONASCIMENTODOCÁRCERE:BRASILEBAHIA.
Desenvolveuse, neste capítulo, uma análise da pena de prisão que
perpassavapelaenumeraçãodefatoshistóricosquederamcontadasuaafirmação
na sociedade capitalista contemporânea. Naturalmente, o mesmo deverá ser feito
87
emrelaçãoàrealidadebrasileira.NoBrasil
39
,ocárcereéerigidoàpenaprincipalno
CódigoPenaldoImpério,sancionadoem16dedezembrode1830,muitoemrazão
da forte influência do Iluminismo, como se aduz das “Annotações Theoricas e
PráticasaoCódigoCriminal”,deAlvesJúnior(1864,p.8586):
A tortura, as mutilações e as mãos cortadas foram banidas. Ainda, é
verdade, resta a prisão como meio de impedir o homem de commeter o
crime;masoquealcançaahumanidadecomprivarseporcertotempodo
homem,parasempretalvez,nocasodeprisãopertétua?Na1ªhypothese,
ficalivreporalgumtempodoautordecertosmales,masnãocrêqueelles
se não reproduzão logo que cesse o impedimento physico. Na 2ª
hypothese,emlugardeganharoestadoumcidadão,operdeparasempre,
enoentanto,amisodoestadoé,nãoaniquilaroshomens,esimtornar
melhores e aproveitalos.(...) É preciso que a prisão não faça murchar o
futurodohomem,esimohabiliteagozálo,notrilhooppostoaoqueaté
entãotinhaseguido.
No trechoreproduzido,apesarderedigidoem 1864, a grande preocupação
deAlvesJúnior(1864)édequeohomempossaseremendado,ouseja,“setorne
melhordoquequandoentrou”:oidealderessocialização,derivadadopensamento
utilitarista benthamiano
40
. Aliás, o Código Criminal do Império foi marcado por
influências iluministas
41
, contemplando avanços como a adoção dos princípios da
legalidade
42
eculpabilidade
43
;emboraosescravosfossemseveramentepunidosea
penademortenãofosseproscrita,somenteosseusacessórioscruéiseinfamantes.
Uma das primeiras prisões brasileiras somente foi construída em 1850,
denominada de Casa de Correição da Corte
44
, inspirada no projeto auburniano.
Previa o silêncio absoluto e utilizavase do trabalho como forma de extrair dos
corpos dos condenados o máximo de seu tempo e forças, obrigandoos a bons
39
Nesteestudo,somenteseráanalisadaalegislaçãoreferenteapenadeprisãoapartirda
independênciadoBrasil,em1822.
40
BernardoVasconcelos,autordoprojetodoCódigoCriminalde1830,erainfluenciadopelasideias
deBentham,pois,segundoZaffaronieBatista(2003,432),ele“leuBenthamevaleuseintensamente
dasopiniõesdeleemseuprojeto;muitasdelasforamteraocódigoimperial”.
41
Discutese,hoje,asinfluênciasqueteveoCódigoCriminalbrasileiro,apontamZaffaronieBatista
(2003,p.430433)queasprincipaisforamosCódigosNaopleônicoeBávaro,asideiasdeJeremy
Bentham,EduardoLivingstoneMelloFreire.
42
Exigequetodoocrimeepenasejampreviamenteprevistosemlei.
43
Vedavaacondenaçãosemaresponsabilizaçãosubjetivadoagente.
44
Atualmente,chamasedeComplexoFreiCaneca,noRiodeJaneiro(RJ).
88
hábitos”(PORTO,2008,p.14).Inclusive,eracompulsóriaatosadecabelos,ouso
deroupaslistradas,açoiteseacorrentamentos.
A Casa de Correição tem projeto arquitetônico inspirado no
panóptico
de
JeremyBentham,comoretrataPorto(2008,p.15):
Nessesistema,ascelaspossuemduasjanelas,umavoltadaparaointerior
eaoutraparaoexterior,permitindoquealuzatravesseoambientedelado
alado.Aarquiteturadessacomposiçãoémarcadapelaformaçãodeanéis
nas extremidades, em que ficam as celas, e por uma torre central, com
visãoampladoambiente.
OCódigoPenalde1890,oprimeiroeditadonavigênciadarepública,tamm
contemplou, no seu art. 43, sete espécies de penas, sendo que quatro delas são
privativasdeliberdade.Conservouse,ainda,obanimento,amulta,ainterdiçãode
direito e suspensãoeperdade emprego público.Vedouseaexistênciade penas
infamantes,estabelecendocomolimitemáximoàspenasdeprisão30anos(art.44).
Como anotou Silva (2004, p. 30), “a liberdade é o bem jurídico preferido para
incidênciaeorganizaçãodaspenas”.
A pena de prisão e trabalho forçado era destinada aos mendigos vadios,
infratoreseaoscapoeiras
45
reincidentes(art.393,400e403,doCódigoPenalde
1890). Ou seja, o Brasil tentou criar regras similares àquelas já referidas neste
estudosobreascasasdecorreçãodoséculoXVIIeXVIII,queeclodiramportodaa
Europa.Odecreton°145,de12dejulhode1893,autorizouosEstados,àspróprias
expensas, construírem colônias correcionais agrícolas, onde seriam montadas
fábricasouoficinaspararealizaçãodostrabalhosforçadosdoscondenados.
OgovernodeSãoPaulo,atrasdelein°844,de10deoutubrode1902,
fundouumacolôniacorrecionalnaIlhadosPorcos,que,em1914,foitransferida
paraTauba,passandoadenominarsedeInstitutoCorrecional.Alein°947,de
24dedezembrode1902,autorizouaUniãoacriarcolôniasnoDistritoFederal,
com as finalidades acima assinaladas. Foi assim que em 1908, aprovado o
45
Otermoeraatribuídopejorativamenteaospraticantesdacapoeira,espéciedelutacriadapor
negrosescravos,quefoicriminalizadaem1890.Somenteem1937houveadescriminalizaçãoeem
1972,oConselhoNacionaldoDesportoareconhececomoumesporte.
89
decreto n° 6.994, inaugurouse a Colônia Correcional de Dois Rios, no Rio de
Janeiro(SILVA,2004,p.119120).
Curiosonotarque,apesardapenadeprisãoetrabalhoforçadoexistirnalei
penaldesde1830,estanuncapôde,defato,sertestada,poisoBrasilnãodispunha
deunidadespenitenciáriasapropriadasparatalfim.Somenteem,noEstadodeo
Paulo,foiconstruídaumacapazdeseaplicar“maisoumenos”areferidapena.Em
síntese, “nunca foi possível avaliar, praticamente, o merecimento deste sistema”
(SILVA,2004,p.80).
Oportuna análise sobre o mesmo problema fez Soares (2004, p. 144), nos
seuscomentáriosaoCódigo:
Não temos penitenciárias preparadas para o regime penitenciário do
Código. As existentes nos Estados e no Distrito Federal, construídas no
tempo do Império, obedecem ao sistema de Auburn, em voga naquela
época, passando por mais adiantado em ciência penitenciária e
aconselhadopelacomissãonomeadaparaoestudodoassunto.EmNiterói,
háconstruído,noFonseca,umraioqueobedeceaumplanodeconstrução
panópticadeumapenitenciáriaauburniana.Eficounisto.Aspenitenciárias
dePernambuco,Bahia,SãoPaulo,aCasadeCorreçãodaCapitalFederal,
todas auburnianas, não se prestam à prática do regime progressivo
idealizadopeloCódigo.Concluímos,portanto,queareformapenitenciáriaé
questãodeatualidadequeimpõeseaonossolegislador.
Nãoobstantea existênciadepenaprivativadeliberdadeetrabalhoforçado
que era destinadaà determinadas pessoas,o art. 53,do Código, estabelecia que
“ao condenado será dado, nos estabelecimentos onde tiver de cumprir a pena,
trabalhoadaptadoàssuashabilitaçõeseprecedentesocupações”.
Inferese que a lei penal brasileira, no que concerne às penas, estava
intimamentevinculadaàmassificaçãodocapitalismo,osseusdispositivospunitivos
eramvoltadosparaa docilizaçãodasmassasdeencarceradosdentrodosmoldes
doreferidomodeloeconômico.Interessantereproduziralgunsconceitosesboçados
porSilva(2004,p.167168):
O trabalhocarcerário– problema dosmaisgravesno domínio da ciência
penitenciária – deve ser organizado de modo que o sentenciado, ao ser
restituído à liberdade, se ache habilitado a prover, honestamente, pelo
exercíciodeumofícioouprofissãoàprópriasubsistência.(...)Quantomaior
foraadaptação,maiorseráaeficáciadotrabalhocomomeiocorretivo.
90
E,arremataaquestão,assumindoovínculoaosinteressesdeimplementação
docapitalismo,pontuandoque“comotodotrabalho,tammocarcerárioprecisaser
recompensado.EstáissonoprópriointeressedoEstado”(SILVA,p.173).
OCódigoPenalde1890foiconcebidoàspressasparaatenderatransiçãoda
monarquiapararepública.Em virtudedestefato,anovaleipenalapresentouuma
sériedefalhaselacunas,queforam,poucoapouco,sendoretificadasesupridas,
respectivamente,porleisesparsas. Poucotempodepois,haviareclamespor mais
umareformanalegislação.
ComaascensãodeGetúlioVargas,nadécadadetrinta,instituiusecomissão
paraconceberumnovoCódigoPenal,oqueveioaocorrernofinalde1940.Este
novo diploma simplificou a aplicação da pena de prisão, ao invés de quatro
espécies,eramduas(reclusãoedetenção),cujadistinçãoresidiasomenteemrazão
da gravidade do delito e perda de alguns direitos (por exemplo: dizia o parágrafo
únicodo art. 31queo condenadoàpenade detençãopoderia escolherotipode
trabalho,nasconformidadesdesuasaptidõeseocupaçõesanteriores).Porém,não
desapareceuaobrigaçãodocondenadosersubmetidoaotrabalho,nãoodecaráter
forçado,ouseja,apuniçãoferiasomentealiberdade,nãomaisseimpunhaolabor
compulsório,comonasprimeirasexperiênciaspenitenciáriaspátrias.
Nesteperíodo,emtermos deprisão,estavamdeverasemvogaascolônias
agrícolas ou fabris, espelhandose no exemplo do Presídio de Witzwill, na Suíça,
que desenvolvia atividades comerciais e se mantinha, com saúde financeira,
segundorelataGarcia(p.434).
Adoutrinapenitenciáriaexultavaa“nova”maravilha,otrabalhoprisional:
Otrabalho é umaimperiosa necessidade no cárcere. Um provérbio em
ngua inglesa judiciosamente informa que a mente desocupada é o
doniododemônio.Paraserpossívelaregeneraçãododelinquente,é
indispensável que se entregue a atividades úteis, que lhe constituam
meiodecura,tolhendoodevoltaraosseusantigosmauspensamentos,
às suas perversas maquinões, e que lhe favoreçam a obteão de
meios para viver honestamente depois que saiu do cárcere. (...) O
trabalho penal visando a regeneração do delinquente, deve também
colimar a sua ressocializão, no sentido de que lhe torne acessível
mais tarde viver como elementos prestantes, integrado à comuno
social.(GARCIA,p.441442)
91
Mais recentemente, em 1977, o Código Penal de 1940 sofreu mudanças
específicas sobre às penas e sua execução. Entrementes, a reforma de 1984,
alteroutodapartegeraldoCódigo,atravésda Lein° 7.209e seinstituiua Leide
ExecuçãoPenal,sobn°7.210.
Anovapartegeral,aindavigente,consagracomopenarainhaaprivaçãode
liberdade.Emsededeexecução,otrabalhoprisionalémantidocomoummistode
direito e dever do condenado. Mantémse intocável a máxima de ressocialização
atravésdocárcere,embora,autoresmodernoscomoMayrink(2007,p.84)assimse
manifestempublicamente:
Convencimedequenossocaminho,noterceiromilênio,seránosentidode
aumentaroespectrodaspenasemedidasformaisalternativasàpena de
prisão, ao lado de uma política social realística e eficiente de inclusão
social,poisomaldaprisãoéaprópriaprisão.
(grifosdoautor)
Feita a evolução do instituto da prisão no Brasil, parece de bom alvitre
recordarumpoucodahistóriapenitenciáriadaBahia.ComaediçãodaLeide1°de
outubrode1828,nasciaa“CasadePrisãocomTrabalho”,quesomenteveioaser
construídatrêsanosdepois,em1831.
Cuidavasedeestabelecimentodestinandoaservircomoumapenitenciária.
Contudo, demonstram os parcos registros históricos existentes, que a “Casa de
Prisão com Trabalho” tinha outra função, a de retirar de circulação pessoas
indesejáveis, que tiravam o bonito colorido da capital baiana (vadios, mendigos,
escravos).Suapopulaçãomajoritáriaeracompostadenegrosemulatos.
Embora a unidade prisional contemplasse em sua estrutura física cinco
oficinasdetrabalho,umadascaracterísticasmarcantesdesteestabelecimentoeraa
insalubridadeeasdegradantescondiçõesdecustódia,contrariandoflagrantemente
os ideaisque nortearam o Legislador quandoda ediçãodo Código do Império de
1830(SANTANA,2006, p. 89).Somente em1902, mudouse onome do referido
estabelecimentoparaPenitenciáriadaBahia,sendoqueduranteoperíodode sua
existênciaregistrouseaproximadamentecincomilpessoasqueporalipassaram.
92
No fim do século XIX, a partir do Decreto Lei n° 115, de 16 de agosto de
1895, foram criadas as Secretarias de Segurança Pública e Justiça, bem como
instituídooSistemaPenitenciáriodaBahia.
APenitenciáriaJoséGabrielLemosBrito
46
foiconstruídanaantigaFeirado
Curtume,atual bairro daBaixado Fiscal, onde funciona o Hospital deCustódia e
Tratamento. Em 1951, o estabelecimento foi transferido para uma nova área,
distante do centro de Salvador  o bairro da Mata Escura , e ampliada
consideravelmente. O seu principal pavilhão foi concebido com base nas linhas
arquitetônicasdopanópticodeJeremyBentham
47
,sendoquehodiernamente,este
prédio foi desativado, ante a falência da proposta benthamiana – assim como as
suasssimascondiçõesdeutilização,afinal,desdeadécadadesetentaqueo
sefaznenhumareformaimportantenasestruturasfísicasdocomplexo.
O conjunto arquitetônico da Penitenciária Lemos Brito tem seu projeto
original concebidosobainfluênciadas realizações panópticas,concepção
esta de J. Bentham que, no final do século XVIII, publica o célebre
panopticon,
no qual descreve a figura arquitetônica ideal para permitir a
aplicaçãodedoisnovosmodelosde“tratamento”:ograndefechamentode
umlado,aboareeducaçãodeoutro.
Na década de setenta, somente exista a Penitenciária Lemos Brito, com
capacidadede600vagas,eaCasadeDetenção,sediadanumantigoForte,Largo
doSantoAntônio,quetinha200vagas.Aindacompunhamosistemapenitenciário
daquela época, o Presídio de Mulheres (localizado no mesmo Forte da Casa de
Detenção)eoManicômioJudiciário.Dezanosmaistarde,sãoconstruídosaCasa
deAlbergadoeEgressos,aPenitenciáriaFeminina,oPresídioSãoSalvador–que
substituiuaCasadeDetenção,inicialmente,contandocom540vagas,eoPresídio
RegionaldeFeiradeSantana.Adécadadenoventaémarcadapeloplanejamento
deinteriorizaçãodosistemapenitenciáriobaiano(AGUIAR,2001).
Atualmente,aBahiatem22(vinteedois)estabelecimentospenitenciários
entreeles;penitenciária
48
,presídio
49
,hospitaisdecustódiaetratamento
50
,central
46
Em1939,passouadenominarsesomentedePenitenciáriaLemosBrito.
47
VideCapítulo4,
supra
.
48
Localdestinadoaospresosdefinitivos,quesãoaquelescujacondenaçãotransitouemjulgado.Ou
seja,éolocaladequadoparacumprimentodepena.
93
médicapenitenciária
51
,sendoque 9(nove) desteso sediadosem Salvador e
13 (treze) no interior do Estado: Feira de Santana (01), Jequié (01), Teixeira de
Freitas (01), Ilus (01), Vitória da Conquista (01), Esplanada (01), Simões Filho
(01),PauloAfonso(01),Valença(01),Juazeiro(01),Serrinha(01),Itabuna(01)e
LaurodeFreitas(01).
OComplexoPenitenciárioLemosBritoéomaioremaisimportante,temsede
nacapitalbaiana,contacomaPenitenciáriaLemosBrito(PLB),formadaporcinco
pavilhões;oPresídioFeminino–queocasionalmentefuncionacomopenitenciária;o
Presídio São Salvador (Casa de Detenção); o Centro de Observações Penais
(COP);CentralMédicaPenitenciária(CMP);eaUnidadeEspecialDisciplinar(UED).
Compõe tamm o complexo, a Casa de Albergado e Egressos, onde são
cumpridasaspenasemregimeaberto.Ainda,emSalvador,estásediada,nobairro
deCasteloBranco,aColôniaLafayeteCoutinho,antigoReformatórioPenalAgrícola
dePedraPreta
52
,ondesãocumpridasaspenasdoregimesemiaberto.
4.4 APENADEPRISÃONOCÓDIGOPENALBRASILEIRO(CPB)ENALEIDE
EXECUÇÃOPENAL(LEP).
OlegisladorbrasileirodaReformade1984apesardehaverocorridosoba
égide do derradeiro governo militar  trouxe importantes mudanças para o
ordenamento jurídico nacional, porque não se revelou como um diploma
essencialmentedraconiano.
No entanto, tanto a Nova Parte Geral do Código Penal, quanto a Lei de
Execução Penal foram inspiradas na necessidade de reduzir índices de
49
Localdestinadoaospresosprovisórios,queoaquelesqueaindarespondemaumaaçãopenal.
50
Localdestinadoaosinimputáveis,quesãopessoasquecometeramatosilícitos,contudo,são
enfermosmentaisoutêmdistúrbiosmentais.
51
Estabelecimentodesaúdedestinadoàpopulaçãocarcerária.
52
Noperíododaditaduramilitarestaunidadefoiutilizadacomopalcosdetorturaseprisões
arbitrárias.
94
criminalidadeerevero tratamentopenitenciárioaocondenado,conformese infere
daExposiçãodeMotivosdaLein°7.209/84(AlteraçãodoCódigoPenal):
Apesar desses inegáveis aperfeiçoamentos [referese às leis que
antecederam a reforma], a legislação penal continua inadequada às
exigênciasdasociedadebrasileira.Apressãodosíndicesdecriminalidade
esuasnovasespécies,aconstânciadamedidarepressivacomoresposta
básica ao delito, a rejeição social dos apenados e seus reflexos no
incremento da reincidência, a sofisticação tecnológica, que altera a
fisionomia da criminalidade contemporânea, são fatores que exigem o
aprimoramentodosinstrumentosjurídicosdecontençãodocrime,ainda,os
mesmosconcebidospelosjuristasnaprimeirametadedoséculo[XX].
Resta evidente que os argumentos que sedimentaram a reforma da lei
criminal,emmeadosdadécadadeoitenta,sãosemelhantesaodiscursovigente.No
que concerne à prisão, foilhe outorgada papel de principal pena a ser imposta
53
,
muitoembora,oquantolançadonaExposiçãodeMotivosdoCódigoPenalindique
queapolíticacriminalbrasileiraadotariarumooposto,inspiradanospostuladosda
NovaDefesaSocial.
Nesse sentido, criouse a pena restritiva de direitos
54

55
(também
denominadas de substitutivas ou alternativas), pena de multa
56
, a suspensão
condicionaldapena(
sursis
)
57
,olivramentocondicional
58
eareabilitação
59
.
53
Dizseissocomarrimonoart.32,incisoI,CP,queestabeleceasespéciesdepenaetrazaprio
comoaprimeiradelas.Ademais,alertesequeapenaprivativadeliberdadeéaplicadaàimensa
maioriadostipospenaistrazidostantonaparteespecialdoCódigocomodasleisespeciaispenais.
Ouseja,nãoobstantediscursarsecontraaprisão(pontos2629,daExposiçãodeMotivos),ela,
seguramente,éabasedomodelopunitivobrasileiro.
54
Videartigos43
48.
55
Énecessáriopontuarqueaspenasrestritivasdedireitosãosubstitutivasdapenadeprisão.
Portanto,nãoexistemisoladamente,eparasuaaplicação,dependemdaconstataçãodaexistência
dedeterminadosrequisitos(art.44,CP).Areformade1984fixouqueasubstituiçãosomenteteria
efeitoaosdelitoscujaspenasimpostasnãofossemmaioresdoque1(um)ano.Porém,como
adventodaLei9.714/98,quealterouoquantodispostosobreestaspenasnoCódigoPenal,este
patamarfoielevadopara4(quatro)anos,sendoquenãoseaplicaaoscrimescometidoscom
violênciaougraveameaçaàpessoa.Atualmente,oMinistériodaJustiçatemincentivado,
verdadeiramente,comoumapolíticacriminaldeEstado,aaplicaçãodaspenasrestritivasdedireito.
Inclusive,comoformadecombateaousoindiscriminadodocárcere.Podesedizerqueos
resultados,analisandosedezanosapósavigênciadamencionada(da?)lein°9.714/98,são
satisfatórios.Paramaioresdetalhes,recomendaseconsultarGomes(2008).
56
Videartigos4952.
57
Videartigos77
82.
58
Videartigos83
90.
59
Videartigos93
95.
95
ALein° 7.210/84(Leide Execução Penal),além destes institutos,trouxe a
permissão de saída
60
e as saídas temporárias
61
. Somemse, tamm, outros
dispositivosquepermitemaocondenadoareduçãodotempodepena(remição
62
)e
severidade do regime de privação da liberdade (progressão de regime penal
63
).
Este mesmo diploma, em seus primeiros artigos, desfila uma série de direitos do
condenado,reforçandooidealderessocializaçãocomometaaseratingidapormeio
dotratamentopenitenciário
64
.
Utilizouse, assim como nos outros códigos que o antecederam, o
trabalho
como elemento capaz de promover o elo com os valores sociais supostamente
perdidoscomocometimentodocrime:
32.Otrabalho,amparadopelaPrevidênciaSocial,seráobrigatórioemtodos
os regimes e se desenvolverá segundo as aptidões ou ofício anterior do
preso,nostermosdasexigênciasestabelecidas.(ExposiçãodeMotivosda
NovaParteGeraldoCódigoPenal)
Dessumese,portanto,que,apesardeseproclamarnãoserapenaprivativa
de liberdade melhor resposta ao delito, conforme dito acima, no seu entorno
desenvolveuse uma série de institutos que visavam reduzir, gradativamente, o
malefício que provoca àquele que é submetido ao encarceramento. Ou seja, as
alteraçõeslegaisde1984otinhamporescoposuperaraprisão,contudo,buscar
mitigarsuaaplicaçãoeretificarosequívocosprovadosaolongodotempo,pormeio
dasexperiênciasempíricasdeestudospenitenciários:
26.Umapolíticacriminalorientadanosentidodeprotegerasociedadeterá
de restringir a pena privativa da liberdade aos casos de reconhecida
necessidade, como meio eficaz de impedir a ação criminógena cada vez
maior do cárcere.Estafilosofiaimportaobviamentenabusca de sanções
outrasparadelinquentessempericulosidadeoucrimesmenosgraves.Não
se trata de combater ou condenar a pena privativa da liberdade como
respostapenal básica ao delito. Tal como no Brasil, a pena de prio se
encontranoâmagodossistemaspenaisdetodoomundo.Oquepororase
discuteéasualimitaçãoaoscasosdereconhecidanecessidade.
60Videartigos120121.
61Videartigos122125.
62Videartigos126130.
63Videartigo112.
64Videartigos1026
96
27.Ascríticasfeitas atodosospaísesqueempregamàpenaprivativada
liberdade fundamentamse em fatos de crescente importância social, tais
como o tipo de tratamento penal frequentemente inadequado e quase
sempre pernicioso, a inutilidade dos métodos até agora empregados no
tratamento de delinquentes habituais e multirreincidentes, os elevados
custos da construção e manutenção dos estabelecimentos penais, as
consequências maléficas para os infratores primários, ocasionais ou
responsáveispordelitosdepequenasignificação,sujeitos,naintimidadedo
cárcere,asevícias,corrupçãoeperdapaulatinadaaptidãoparaotrabalho.
Assim, portanto, denotase que a prisão ainda é paradigma da punição no
Brasil.Aleiinstituídadefinequeprivaçãodaliberdadepoderásermediantereclusão
ou detenção
65
e que a execução poderá ocorrer em três regimes: fechado,
semiabertoouaberto.
O regime fechado é o mais severo que existe. Os estabelecimentos
reservados são aqueles de segurança máxima e média, sendo que o condenado
deverá cumprir a pena intramuros (art. 34,Código Penal). O semiaberto promove
uma maior interação entre o condenado e a sociedade, tanto que o art. 35, do
CódigoPenal,estabelecequedeveserexecutadaapenaemcolôniasagrícolasou
industriais.Oregimeabertoéomaisbrando,pugnaaautorresponsabilidadeentreo
Estado e o condenado, pois, nesta hipótese, a pena será cumprida na Casa de
Albergado, onde este ficará livre durante o dia e regressará ao estabelecimento
penitenciárioparapernoitareficarofimdesemana(art.36,CódigoPenal).
Aliás,oseuincrementoénotório,especialmente,pelodesenvolvimentoduma
novaformadeseaprisionar,inseridaatravésdaLein°10.792/2003,quealteroua
LeideExecuçãoPenal,criandooRegimeDisciplinarDiferenciado
66
(RDD).ORDD
consistena máxima forma de isolamento do preso. Este somente temdireito as
suasvisitassemanais,porduashoras,excluindose apresençadecrianças;duas
horasdiáriasdesol,apósorecolhimentoàcela.Onovoregimepoderáseraplicado
aospresosdefinitivoseprovisórios,nostermosdosparágrafos2°e3°,doart.52,da
65
Aspenasdereclusãoedetençãosãoespéciesdaprivaçãodaliberdade.Apesardehaverintenso
reclamedaunificação,aReformadaParteGeraldoCPem1984nãoatendeuataisapelos.Hásim
distinçãoformalentrereclusãoedetenção,sendoaprimeiraéreservadaaosdelitosmaisgravese
poderáseraplicadaemquaisquerdosregimespenais.Quantoadetenção,étidacomopuniçãomais
adequadaaoscrimesmenosgravesepoderáserimpostasomenteaosregimessemiabertoeaberto,
emregrageral(BITENCOURT,2008,p.451).
66
Videartigo52,daLeideExecuçãoPenal.
97
Lei de Execução Penal. Na Bahia, segundo informações oficiais da Secretaria de
Justiça Cidadania e Direitos Humanos, existe somente uma unidade prisional que
atendeàsespecificidadesdesdenovomodelodeprisão,aUED
67
,emSalvador.
Com efeito, evidente que a legislação penal tria revela incongruências
políticocriminais, ora retrocede ao recrudescer o sistema punitivo, ora avança ao
conceber alternativas à prisão. Não há, seguramente, uma lógica que direcione a
criaçãoe/ourevogaçãodeleis;nãohádiretrizesfirmesdaatividadeparlamentarque
orientem a política criminal nacional num rumo, o que, por certo, traz prejuízos
àquelesquesãoselecionadospelosistemapenal.
67
UED.Dispovelem:
<http://www.sjcdh.ba.gov.br/sap/unidades_prisionais.htm#UNIDADE_ESEPCIAL_DISCIPLINAR___(N
OVO)>Acessadoem27.07.08
98
5. POLÍTICASEPROGRAMASPÚBLICOSDESTINADOSAO
SISTEMAPENITENCIÁRIO(CONDENADOSEEGRESSOS).
5.1 OAPRISIONAMENTOCOMOPOLÍTICAPÚBLICADEENFRENTAMENTO
DACRIMINALIDADE.
No primeiro capítulo deste estudo, assinalouse quão relevante os temas
“segurançapública”e“sistemapenitenciário”têmsetornadonasociedadebrasileira.
Não sem razão, os orçamentos públicos do governo federal e da maioria dos
estaduaistêmsedirecionadoparaestessetores,cadavezmaisvertendomilhõesde
reaisparaaquisiçãodearmas,viaturas,construçãodenovasprisões,contrataçãoe
treinamento de novos policiais. Enfim, responder à altura dos índices de
criminalidade figura como um dos objetivos principais de qualquer governante
brasileiro,atualmente.
Apesar de se falar na prisão como sendo o último recurso criminal contra
quem ofende às regras do Estado, a realidade revelase de maneira distinta.
Macaulay(2006,p.22)afirmaqueosistemaprisionaltemtrêsobjetivos:protegero
público - incapacitando os criminosos, punilos e reabilitálos. Entretanto, estes
objetivos o estão sendo cumpridos, principalmente, por conta do cárcere trazer
consigo,alémdaprivaçãodaliberdade,“formascruéis,desumanasedegradantes
de punição e tratamento, desde torturas, surras, comida estragada, negação de
cuidadosmédicosefaltadeacessoàassistênciajurídica”(MACAULAY,2006,p.23).
Oque,seguramente,seapresentacomoaperversãodoqueseriaapenajusta.
O endurecimento do tratamento penal é uma máxima capitaneada pelos
Estados Unidos da América, que mantém, aproximadamente, dois milhões de
pessoasencarceradas
68
.Odebatesobreoacertodestapolíticagiraemtornodeser
68
Podesedestacarcomoexemplosdesseendurecimento:amanutençãodapenademortena
maioriadosEstados,aleidos
thressstkies
(aplicaçãodepenaperpétuanahipótesedetrês
condenaçõescriminais),
trhutsentencing
(obrigaçãodecumprimentode,pelomenos,85%dapena
impostaemsentença)e
mandatoryminimums
(obrigaçãolegaldaaplicaçãodepenasseverase
elevadasadeterminadoscrimes).
99
costeffective
para o Estado, noutros termos, boa relação custobenefício. As
vultosas somas investidas nas prisões seriam justificadas por melhora de índices
sociaisereduçãodacriminalidade.
Contudo, pesquisas apontam o contrário. Entre 1991 e 1998, os Estados
americanos que mais investiram nesta política de encarceramento em massa,
chegando a um aumento de 72% da população carcerária, apresentou somente
decréscimode 13% nas taxas decriminalidade. Enquanto que outrosque tiveram
aumento de 30% da população carcerária obtiveram declínio de 17% na taxa de
criminalidade(LEMGRUBER,2002,p.164).
Portanto,incrementarpolíticaspúblicasvoltadasparaoencarceramentonão
significaqueasegurançapúblicaserárestaurada.Entrementes,écertoquehaverá
considerávelaumentonoorçamentopúblicodestinadoaestesetor.
Macaulay(2006,p.23)aoanalisarosistemaprisionalesuaefetividadee
eficáciadestacaoutrasformasdepenacriminalquepoderiamserincrementadas
noBrasil:
Há diferentes formas de os criminosos ‘quitarem sua dívida com a
sociedade’eéaltamentequestionávelseessavidadeveserpaga
em uma economia de dor e degradação ou por outras formas de
reparaçãocomoamulta,oserviçoàcomunidadeouaindapormeio
de recentes inovações como a justiça restaurativa, na qual, o
criminoso deve reparar o dano causado à vítima por meio de
pagamentodosdanosoupedidodedesculpas.
Noentanto,segundomatériapublicadanojornalEstadodeSãoPaulo
69
,em
24dejulhode2008,noanode2007haviam423.737pessoascustodiadasnoBrasil
eoutras422.522cumpriamaschamadaspenasalternativas,ratificandoaprioridade
atribuídaaoencarceramento.
69
CidadesGeral.Disponívelem:http://www.estadao.com.br/geral/not_ger211167,0.htm>Acessado
em27.07.08
100
Entretanto,informaoperiódicopaulistaque,deacordocomasprojeçõesdo
MinistériodaJustiçaapósdezanosdeintensapromoçãodaaplicaçãodaspenas
alternativasporesteórgão–,em2008,ocorreuainversãodoquadro:
Pela primeira vez, o mero de pessoas cumprindo penas e medidas
alternativas no Brasil disparou em relação aos presos. Os dados, não
consolidadosoficialmente,foramobtidospelojornalOEstadodeS.Paulo
comexclusividadeesereferemaoprimeirosemestredesteano.Até30de
junho, 498.729 pessoas cumpriam pena ou medida em liberdade (PMA),
13,4% a mais dos que os 439.737 encarcerados, segundo dados do
Infopen, sistema de estatísticas do Departamento Penitenciário Nacional
(Depen).
Salientesequeestaformaalternativadepuniçãosecircunscreve,emregra,
aostipos penais cujaspenasosejamsuperioresaquatroanos,aexceçãodos
crimesconsideradosculpososquenãotêmlimitesparaasuaaplicação,eoscrimes
dolosos que não promovam violência ou grave ameaça à pessoa. Também, o
reincidente em delito doloso somente fará jus à substituição da prisão pela pena
alternativasenãoforespecífico(ouseja,nãotenhacometidoomesmodelito)enos
outros casos, se a medida se mostrar socialmente recomendável(artigo 44, § 3°,
CódigoPenal).
Categoricamente,dizMacaulay(2006,p.25)queo“desencarceramento,isto
é, a redução deliberada do número de criminosos mantidos em custódia tem
ocorridodeformalentanoBrasil”.Econcluipontuandoassim:
Um sistema prisional em permanente expansão não é a solução mais
efetiva para o problema da criminalidade e violência social no Brasil. O
número crescente de presídios não irá necessariamente possibilitar ao
Estadoretomarocontroledosestabelecimentosprisionais.OqueoBrasil
precisaédeumconjuntodereformasemdiferentes
fronts,
desdeoCódigo
PenaledeProcessoPenalpassandopelodebatepúblicosobrerespostas
efetivase pelamaiorintegraçãodos sistemasde segurançapública, para
que o sistema prisional não seja visto como um depósito de mazelas
sociais,massimcomoumconjuntoderespostaspossíveisàcriminalidade
e como um sistema que deveria ser usado com mais atenção e
discernimento(MACAULAY,2006,p.28).
Lemgruber (2002, p. 179) endossa a assertiva anterior, sugerindo uma via
alternativaàprisãoesuautilizaçãoexcepcional:
Se,emoutrospaíses,nãoseconseguedemonstrarqueoencarceramento
éjustificávelemtermosdecustobenefício,hámuitopoucorealismoemse
101
suporque,noBrasil,ameramultiplicaçãodeprisõesedepresos,comum
gigantescoaumentodegastos,poderiaproduzirresultadoscompensadores
no controle da criminalidade. Mais realista é investir na diversificação de
formasedosrecursospunitivosàdisposiçãodajustiça,reservandoapena
privativa de liberdade para aqueles que, efetivamente, precisam ser
afastadosdoconvíviosocial.
NoBrasil,aprisãoaindaéapolíticablicadecombateacriminalidadeque
oEstadoseutilizacommaiorfrequência.Atítulodeexemplo,observesequenos
anos de 2004 a 2007, o Departamento Penitenciário Nacional (DEPEN)
70
,
apresentou os seguintes dados consolidados de todos os estabelecimentos
prisionaisestaduaisnoBrasil:
Tabela2–Brasil:estabelecimentosprisionaisestaduais,20042007
Especificação 2004 2005 2006 2007
TotaldeEstabelecimentos  1.006 1.051 1.094
PopulaçãodoSistema
Penitenciário
262.710 296.919 339.580 366.576
VagasdoSistema
Penitenciário
200.417 206.559 236.148 249.515
SecretariadeSegurança
Pública
73.648 64.483 61.656 56.014
PopulaçãoPrisionaldo
Estado
336.358 361.402 401.236 422.590
Fonte:DEPEN–CensoPenitenciário.
Háumapolíticadeencarceramentosendoamplamenteaplicada.Noanode
2004,ataxadecidadãosencarceradosacadacemmilhabitanteserade183,8
71
,
numcurtoperíododetrêsanos,elevouseaopatamarde229,57
72
.
Nos próximositens, farseáanálise desta realidade,pautadaem incursões
empíricas, feitas através da coleta dos dados mais recentes do sistema
penitenciário baiano; da exposição das experiências de programas que envolvem
trabalho e estudo
intra
e
extramuros
já desenvolvidas e em desenvolvimento no
Estado da Bahia; e, da análise das informações obtidas em entrevistas com
70
Disponívelem:<http://www.mj.gov.br/Depen/sistema/consolidado%202007.pdf>Acessoem
09.072007.
71
URVIO:RevistaLatinoamericanadeSeguridadCiudadana.Quito:FLACSOEcuador,2007,p.51.
72
MINISTÉRIODAJUSTIÇA.DadosConsolidados
102
funcionáriosdaSecretariadeJustiça,CidadaniaeDireitosHumanosdoEstadoda
Bahiaecomcondenadosquecumprempenaemregimesfechadoesemiaberto.
5.2 SISTEMAPENITENCIÁRIOBAIANO:REALIDADEDESCORTINADA
ATRAVÉSDENÚMEROS.
Nopresentepicoserãoenfrentadososdadosestatísticoscolhidosjuntoao
MinistériodaJustiça(MJ)eSecretariadeJustiça,CidadaniaeDireitosHumanosdo
EstadodaBahia(SJCDH),referentesaosistemapenitenciáriobaiano.
Ressalteseque,poriniciativadoMJ,apartirde2005,osdadosoriundosdas
unidades prisionais brasileiras, que detalham o perfil do condenado, vêm sendo
coletados com muito mais rigor, o que auxilia qualquer estudo sobre o cárcere e
políticaspúblicasaserem definidaspeloEstado.
NosúltimosanosaBahiatemexibidouma crescentepopulaçãocarcerária.
Segundo dados do Ministério da Justiça (LEMGRUBER, 2002, p. 175), a taxade
encarceramento, em 2001, era de 37,2 presos a cada 100 mil habitantes, sendo
esta terceira menor taxa do Brasil. Seis anos depois, em 2007, constatase um
aumento de 165%, ou seja, este mero foi de 98,85 presos a cada 100 mil
habitantes,sendoestaaquintamenortaxadopaís(DEPEN,2008).
Noanode2000,haviam,noestadodaBahia,14(catorze)estabelecimentos
penitenciários,disponibilizando3.968vagasecomumapopulaçãode4.528presos.
Em2007,elevaramsepara21(vinteeum)osestabelecimentos
73
,com7.104vagas
epopulaçãode8.260segregados.Estesnúmerosapontamque,aolongodesete
anos,aumentouseem50%onúmerodeunidadesprisionais,enquantoregistrouse
umcrescimentode79%nonúmerodevagasehouveumacréscimoaindamaiorda
massacarcerária(82%).
73
Em2008,foiconstruídaaColôniadeSimõesFilhos,somandose,agora,22estabelecimentos
prisionaisnaBahia.
103
Ressaltesequeestesdadossomentecuidamdocontingentedepresossob
a guarda da Secretaria de Justiça, Cidadania e Direitos Humanos (SJCDH).
Excluemse, portanto, aqueles custodiados em delegacias, sob vigilância da
Secretaria de Segurança Pública, que, por exemplo, em 2007, totalizaram 5.659
presos,equivalentesa40,6%dototaldepresosnoEstadodaBahia.
Antesdeseadentrarnainvestigaçãoempírica,deveserditoqueapesquisa
ocorrenummomentoemquehouveumamudançadeordempolíticadoEstadoda
Bahia.Em2006,oPartidodosTrabalhadores(PT)assumiuocomandodogoverno
estadual após dezesseis anos de comando do Partido da Frente Liberal (PFL) –
hodiernamente, denominado de Democratas (DEM), na verdade. No plano do
debatepolítico,cuidamsedeagremiaçõesdeideaisepropostasopostas,dizemse
de esquerda e direita, respectivamente. Resta somente perceber se a mudança
ocorreuunicamentenoplanopolíticoouseasformasepráticasquantoaosistema
carcerárioforammodificadas.
5.2.1 Populãocarcerária,vagas,defictefluxodesaídadosistema
penitenciário.
Notese que houve sensível aumento na população carcerária baiana, nos
últimosseisanos.Emborahouvessemsidofeitosinvestimentos,o
defict
devagas
paraosistemapenitenciárioéumaconstante.
Tabela3–EvoluçãodaPopulãoCarceráriadaBahia(20032007)
Ano Populão
Incremento
relativo
Vagas
Incremento
relativo
Defict
devagas
Deficit
%
2003 5.317  4.364  953 21,8
2004 5.883 10,6 4.726 8,3 1.157 24,5
2005 7.244 23,1 5.256 11,2 1.988 37,8
2006 7.743 6,9 6.762 28,7 981 14,5
2007 8.260 6,7 7.104 5,1 1.156 16,3
20032007 2.943 55,4 2.740 62,8 203 7,4
Fonte:MinistériodaJustiça(DadosConsolidados20042007)
104
Atabela4demonstraquehouvecrescimentode62,8%nasvagasnosistema
penitenciário da Bahia, de 2003 a 2007. Ao se estabelecer comparativo entre o
quadro nacional que, no mesmo período, cresceu apenas 39%, inferese o firme
direcionamentodoGovernoEstadualePoderJudiciáriobaianos,desseperíodo,no
sentido da consolidaçãodeuma política pública, na esfera criminal, destinada ao
encarceramentoàspessoas.
Observandose os dados do primeiro quadrimestre de 2008, inferese que
houve sensível crescimento de 7% da população carcerária doEstado, embora o
númerodevagastenhapermanecidoomesmoqueoanoanterior.
Deveseapontarqueatéoano2005,quandofoiregistradoomaior
defict
de
vagas do sistema, existiam 16 unidades prisionais no estado da Bahia. No ano
seguinte, duas novas unidades passaram a funcionar, diminuindo
consideravelmente,de37,8%para13%(conferir:14,5%em2006).
Entretanto,o
defict
novamentecresceupara16,3%,em2007,nãoobstanteo
considerávelacréscimodeestabelecimentospenitenciários,de18para21,alémdo
aumento de 5% no mero de vagas. Os números do primeiro quadrimestre de
2008indicamqueeste
defict
continuaacrescer(24,4%),revelandoumpermanente
descompassoentreonúmerodepresoseasvagasexistentesnosistema.
Aconsequênciadistoseráasuperpopulaçãocarcerária,queinviabilizaêxito
deaçõespedagógicas sobreospresos,transformandoocárcere emumdepósito
degente,comosealiestivessesendolançadooexcessosemutilidadesocial,como
seinferedareflexãodeBauman(2005,p.107):
Osistemapenalforneceessescontênieres.Nosucintoeprecisoresumode
David Garland sobre a transformação atual, as prisões, que na era da
reciclagem, ‘funcionavam como a extremidade do setor correcional’, hoje
o ‘concebidas de modo muito mais explícito como um mecanismo de
exclusãoecontrole’.Sãoosmuros,enãooqueacontecedentrodeles,que
‘agorasãovistoscomooelementomaisimportanteevaliosodainstituição’.
Namelhordashipóteses,aintençãode‘reabilitar’,‘reformar’,‘reeducar’e
devolver a ovelha desgarrada ao rebanho é ocasionalmente louvada da
boca para fora – e, quando isso acontece, se contrapõe ao coro raivoso
clamandoporsangue,comosprincipaistablóidesnopapeldemaestrosea
liderança políticafazendo todosos solos. De formaexplícita oprincipal e
105
talvez único propósito das prisões não é ser apenas um depósito de lixo
qualquer,masodepósitofinal,definitivo.
Este excedente populacional é prejudicial à instalação e execução de
programas públicos que visem a reinserção social do condenado, porque,
naturalmente, traduzirseá na criação de condenados que nunca poderão ser
atingidosporestesprogramas,comoseprovaráemtópico
infra
.
Observese ainda que, na Bahia, a prisão, ao contrário do que seria sua
lógica,nãoéusadasomentecomopenadefinitiva.MuitosevaleoPoderJudiciário
dasprisõesprovisórias(
v.g.
:flagrante,preventiva,temporárias,
etc
),comoseinfere
databelaaseguir:
Tabela4 –PopulãocarceráriatotaldaBahia(PresosDefinitivoseProvisórios)
Ano
PresosSJCDH
(definitivo)
PresosSJCDH
(provisório)
PresosSSP
(provisório)
Totalprovisório Total
2004 2.930 2.953 4.601 7.554 10.434
2005 3.622 3.622 ... 7.244
2006 3.897 3.846 5.252 9.098 12.995
2007 4.594 3.666 5.659 9.325 13.919
Fonte:ElaboraçãoprópriacombasenosDadosConsolidadosdoDEPENde2004eRelatóriode2008.
Talrealidadesedesnudacomoalarmantequandoseconstataqueháuma
antecipaçãodaimposiçãodapenadeprisão,pormeiodasegregaçãocautelar
74
.
Em 2004, a Secretaria de Segurança blica (SSP) informou ao Minisrio da
Justiça
75
,queaBahiatinha28%depresosdefinitivos;28%depresosprovisórios
custodiados pela SJCD e expressivos 44% de presos provisórios em
repartiçõesdaSSP.
Em2005, comosomente a SJCDH prestouas informações devidas, não é
possívelavaliaropercentualdepresosprovisórios,mas,em2006,oscondenados
74
Namaioriadoscasos,cuidasedeprisãoemflagranteepreventiva.
75
SegundoplanilhadosDadosConsolidadosde2004,nãoseinformouonúmerodemulheressob
custódiadaSSP.
106
emdefinitivoeramapenas30%dapopulaçãodepresosdoEstadodaBahia;29,6%
delaeraformadaporpresosprovisóriosmantidosemestabelecimentosdaSJCDHe
40,4%dedetentosemdelegaciasecadeiaspúblicasdaSSP.
Noanoseguinte(2007),houveumpequenoacréscimonomerodepresos
provisórios,sendoqueaquelesmantidospelaSJCDHsignificavam26,3%eosda
SSP, 40,7%; por fim, os presos definitivos atingiram o patamar de 33%. Esse
quadro se mantém em 2008: até abril, registrouse que 26,8% são presos
provisórios sob vigilância da SJCDH, enquanto38,7% pela SSP; restando, enfim,
34,5%,decustodiadosem definitivo.Oquetraçaumquadro preocupantedeque
doisterçosdoscustodiadosnãoforamaindajulgadospeloPoderJudiciário.
ÉevidentequeoPoderJudiciáriotemsevalidodeverasdasváriasespécies
deprisãoprovisória,apesardosúltimosnúmerosregistraremumareduçãode6,5%
depresosprovisórios,tambémchamadosdepresossemcondenação,noperíodo
de2004a2008.Comoestaaindaéumareduçãorecenteediminuta,aindaoé
possívelavaliarseelaindicaumatendênciadaJustiçaCriminalàdiminuiçãodouso
daprisãoprocessual.
Por certo, múltiplos sãoos fatores que podem influir paraodecréscimo da
populaçãocarceráriadepresosprovisórios.Oprópriofomentoàspenasalternativas
eainteriorizaçãodascentraisquefiscalizamo seucumprimentoéumahipótese,
entrementes,apresentepesquisanãoobjetivouincursionarsobreestedado.
Depreendesedaleituradestesdados,portanto,quenoperíodode2004ao
primeiroquadrimestrede2008houveumsensívelcrescimento(6,5%)nonúmerode
presosdefinitivosnoEstado,masqueaindaassimpermaneceousoindiscriminado
das medidas acautelatórias, bem como a morosidade da máquina judiciária em
promover apreciação das ações penais. Além disso, apesar do expressivo
acréscimo de vagas no sistema penitenciário baiano no mesmo lapso (54,4%), a
SJCDHnãoconseguiuabsorvergrandeparceladospresossobcustódianaSSP.
Salientese, ainda, que nos dois últimos anos, como se vê na Tabela 5, o
fluxodesaídadosistemaéinsuficiente(11,5%,em2006e17%,em2007)quando
107
somandoaoingressodenovoscondenados(6,5%,em2006e6%,em2007)ecom
o
defict
devagas.Reforçaseonaturalcolapsodosistemapenitenciáriobaiano,o
quesóreafirmaumafirmepolíticadeencarceramento,especialmente,pormedidas
acautelatórias.
Tabela5–FluxodesaídadepresosdosistemapenitenciáriodoEstadodaBahia,20062007
Motivodesaída merodePresos
2006 2007
LivramentoCondicional 334 898
IndultoNatal 38 27
AlvarádeSoltura 594 666
ExtinçãodePena 37 71
Total 1.006 1.662
Fonte:Elaboraçãoprópria,combasenosRelatóriosdaSJCDH.
Oencarceramentoprovisórioé um graveproblemaidentificadopormeio da
análise das tabelas acima reproduzidas. Afinal, cuidase de pessoas que são
submetidas ao confinamento, sem que, necessariamente, façam jus a tal medida
repressiva estatal. Há uma ruptura de laços familiares, sociais, laborais, enfim,
antecipaseaculpa,senãojurídica,asocial.Nãohácomofugirdestarealidade,o
lançamentodoacusadonaprisão,mesmoatítuloprovisório,causatremendoefeito
emsuavida.
AsseveraFerrajoli(2006,p.511),que
todaprisãosemjulgamentoofendeo
sentimento comum de justiça, sendo entendido como um ato de força e arbítrio.
Traduzaaceitaçãoedifusãodaprisãoprovisóriaumdescompassoentrerealidade
judiciária e o modelo de processo penal adotado (acusatório), sem mencionar o
abusoconstanteàsgarantiasconstitucionaisdocidadão.
A prisão provisória é um dos primeiros passos para a consolidação da
criminalização do homem, pois, embora inexista ainda a condenação, padece o
custodiadodosmalefíciosqueaprisãoprovoca.Ademais,dignodenotaquenãose
pode, nesta hipótese, se falar sequer em tratamento penitenciário, afinal, a
segregaçãocautelarvisaatingirosescoposdoprocesso,nadaalém.
108
Tal qual afirma ANDRADE (2003, p. 54), a clientela do sistema penal é
formada por pessoas pobres (desvalidas economicamente), não por razões
científicas(
criminososnatos
),masporquetemmaioreschanceseoportunidadesde
seremcriminalizados.Comousoindiscriminadodaprisãoprovisóriacomomeiode
contençãodosíndicesdecriminalidade,naturalmente,oscárceressãopreenchidos
por estas pessoas. Além do que, persiste forte estigma, porque uma vez preso,
reverberanesteaimagemdecriminoso,queévistoassimporsuafamília,vizinhos,
comunidade local, o ambiente de trabalho. Enfim, a custódia cautelar é meio
eficiente na produçãoda futura massacarcerária, sejapelo fato quedeu causa à
prisão,senão,porassociaçãopelos agentesdecontrole formal(Polícia, Ministério
PúblicoeJuízes)pelosimplesfatodestehomemjáhaver“
passadopelosistema
”.
Nessesentido,impressionaainferênciadeANDRADE(2003,p.53)sobrea
formadeseleçãodosistemapenal:
Isto significa, enfim, que impunidade e criminalização, em vez de serem
condicionadas pelas variáveis que formalmente vinculam a tomada de
decisões (os códigos legais e instrumental dogmático) dos agentes do
controlesocialformal(Polícia,MinistérioPúblicoeJuízes)equedeveriam
reenviar à conduta praticada, são condicionadas por variáveis latentes e
não legalmente reconhecidas que reenviam à “pessoa” do autor (e da
vítima). Assim, a regularidade a que obedece a distribuição seletiva da
criminalidadetemsidoatribuídaàsleisdeumcódigosocial(
secondcode,
basicrules
)latenteintegradopormecanismosdeseleçãodentreosquais
tem se destacado a importância central dos “estereótipos” de autores e
vítimas além da “teoria de todos os dias” (teorias do senso comum) dos
quais o portadores os agentes do controle social formal e informal (a
opiniãopública)alémdeprocessosderivadosdaestruturaorganizacionale
comunicativadosistemapenal.
Os índices trazidos a lume merecem atenção, principalmente, por parte do
Poder Judiciário, que, por meio de decisões, tem alimentado o sistema penal,
antecipandoacriminalizaçãodeacusados,pormeiodasuaprisãoprovisória.Não
sem lógica, o acréscimo de unidades prisionais no interior do Estado se deu em
virtudedestademandadevagasparapresosprovisórios.
Cada vez mais, ano após ano, o número de cidadãos com passagem pelo
cárcereaumenta.Estespassamacarregarconsigooestigmade
preso–
queparao
inconsciente coletivo está associado a condenado e a bandido, criminoso  nos
registros junto ao Poder Judiciário, às demais agências de controle formal
109
(principalmente, a Polícia), bem como perante a sua comunidade, sem que se
vislumbreumcâmbiodestequadro.
5.2.2Graudeinstruçãoefaixaetária.
Constatase,na tabela abaixo, que o cárcereé destinado aos mais jovens.
Inferese esta conclusão ao se observar que os dados fornecidos pela SJCDH
indicamcomosendobaseda massacarceráriahomense mulheresqueestãona
faixa etária de 18 a 35 anos  ao longo dos três anos estudados, notase que
significam quase dois terços dos presos provisórios e definitivos. Estas faixas
etárias(18a24e25a35anos)são,também,basedapopulaçãoeconomicamente
ativa, o que é relevante no que tange à inserção destes futuros egressos no
mercadodetrabalho.
Tabela6–FaixaEtáriadaPopulãoCarceráriadaBahia(20052007)
FaixaEtária(Anos) PresosSJCDH(%)
2005 2006[1] 2007
1824 28,6 28,2 30,6
2534 30,8 46,4 44,8
3560 9,9 23,9 23,5
Maiorde60 1,0 1,0 0,9
NãoInformado 29,5 0,5 0,3
Total 100,0 100,0 100,0
[1]OMinistériodaJustiçaconstouquesomente17unidadesprisionaisinformaramestesdados,ou
seja.94%dototal,significandoumapopulaçãode7743pessoas.
Fonte:Elaboraçãoprópria,combasenosRelatóriosdoMinistériodaJustiça.
No período de janeiro a abril de 2008, a realidade permanece quase a
mesma, 0,4%dosencarceradossãotidoscomojovens
76
(18a24anos),enquanto
orestantedocontingentepopulacionalseencontranaidadeadulta,sendo44,6%na
76
AdotaseoconceitodaUNESCO,quedefinecomosendojovemoserhumanocom15a24anos
deidade.
110
faixaetáriade25a34anos(adultosjovens);24,9%de35a60anoseapenas0,9%
depessoasmaioresde60anos.
O recente perfil da população carcerária baiana, de acordo com dados da
SJCDH,demonstraqueaprisãocontemplaentreosseuseleitos,majoritariamente,
pessoasmuitojovensecombaixoníveldeinstruçãoescolar.Deveseobservarque
78%nãoconcluíramoensinofundamental.
Tabela7–GraudeInstruçãodaPopulãoCarcerária(20052007)
GraudeInstrução PresosSJCDH(%)
2005 2006[1] 2007
Analfabeto 8,8 16,4 15,8
Alfabetizado 12,2 17,4 19,0
EnsinoFundamentalIncompleto 30,8 46,7 43,2
EnsinoFundamentalCompleto 6,5 7,3 8,4
EnsinoMédioIncompleto 6,9 6,2 7,1
EnsinoMédioCompleto 7,2 4,7 5,2
EnsinoSuperiorIncompleto 1,5 0,4 0,5
EnsinoSuperiorCompleto 1,5 0,3 0,3
Pósgraduado(completo/incompleto) 0,0 0,0 0,0
NãoInformado 24,7 0,6 0,4
Total 100,0 100,0 100,0
[1]OMinistériodaJustiçaconstouquesomente17unidadesprisionaisinformaramestesdados,ou
seja.94%dototal,significandoumapopulaçãode7743pessoas.
Fonte:Elaboraçãoprópria,combasenosRelatóriosdoMinistériodaJustiça.
Os dados do primeiro quadrimestre de 2008 também realçam a mesma
realidade dos períodos anteriores analisados: 77,8% da massa carcerária é
integrada, majoritariamente, por homens e mulheres que não chegaram sequer a
concluiroensinofundamental.Porcerto,eisevidenteóbiceaoidealdereinserção
social desses indivíduos, haja vista a contínua elevação da escolaridade da
população ocupada na Bahia (e, em especial, na Região Metropolitana de
Salvador), as crescentes exigências dos empregadores e, também, a crescente
dificuldade de inserção tamm dos mais escolarizados, acompanhada da
precarizaçãodosempregosexistentes.
Atualmente, na Região Metropolitana de Salvador (RMS), com um
contingenteexpressivodejovenscomcurso médiocompleto ecomgrandeoferta
de vagas nos cursos de nível superior, já há em profusão pessoas deveras
111
qualificadasqueseencontramdesempregadas. Estefenômeno,quesedesenrola
desde a década de noventa, termina por diminuir os postos de trabalho(s) para
aqueles que são menos qualificados, pois, os desempregados portadores de
diplomadenívelsuperioracabamemcompetircomosportadoresdenívelmédioe,
mesmo,dofundamental(BORGES,2006).
Nadiscussãosobreaschancesdeinserçãonomercadodetrabalhodesses
presosapósocumprimentodapenaéimportanteestabelecerumcomparativoentre
esteperfiletárioedebaixaescolaridadeeosrecentesdadosdoIBGEsobreataxa
dedesocupaçãonaRMS:
Tabela8–PopulãoEconomicamenteAtiva(PEA),Desocupadosetaxadedesocupão,
RMS,2006
RMS–2006 PEA DESOC TXDESOC
De18a24anos 380.159 125.842 33,1
De25a29anos 302.137 50.214 16,6
De30a34anos 251.476 28.904 11,5
Fonte:IBGE/PNAD
Observesequeentreosjovens(1824anos),33,1%sãodesocupadoseque
osencarceradosnãoforamcontabilizadosparafinsdestapesquisadoIBGE.Assim,
portanto,maisumavez,deveseponderarsobreaoportunidadedereinserçãodos
jovensegressosfrenteaumquadrotãodesfavorávelatémesmoparaaquelesque
seencontramemliberdadeesemqualquerhistóricodecondenaçãocriminal.
Analisandose, ainda na mesma pesquisa, os dados relativos às pessoas
residentesemdomicílioscomrenda
percapita
deatéumsaláriomínimo,constata
se que nas classes mais depauperadas – de onde se origina grande parte dos
presos,ataxadedesocupaçãoentrejovensémaiordoqueamédiageral,comose
vênaTabela9.
112
Tabela9–PopulãoTaxadeDesocupãodapopulãoresidenteemdomicílios
comrendapercapitadeaté1SM
Classesdeidade PEA DESOC TXDESOC
De18a24anos 223.003 93.452 41,9
De25a29anos 144.343 37.394 25,9
De30a34anos 127.147 23.255 18,3
Fonte:IBGE/PNAD
Inclusive,consoantedizJinkings(2007,p.17),similarmenteaosEUA,ataxa
dedesempregodoBrasilprovavelmenteseriaacrescidaseapopulaçãocarcerária
fossecontabilizada
77
.
As tabelas 6 e 7 apenas corroboram o quanto delineado ao longo desta
dissertação:aprisãoéformadaporpobrese,majoritariamente,jovens.Épossível,
pormeiodesualeitura,concluirqueogrossodamassacarceráriasequerterminou
o nível médio do ensino regular, um óbice natural à colocação no mercado de
trabalho.Outrossim,aoseestabelecercomparativodatabela7comasdemeros
8e9,ratificasequecadavezmaisseráárduoreposicionamentonalgumpostode
trabalho, afinal, há grande contingente de jovens de baixa renda – que não têm
passagempelosistema
–emsituaçãodedesemprego.
Caso não haja desenvolvimento de programas ou políticas públicas
destinados aos egressos, sua chance de verse reinserido na rotina veloz da
sociedade (ou seja, no mercado de trabalho) é quase nula. Em condições de
igualdade, este homem ou mulher estigmatizado será sempre preterido, nem
tanto pela associação à figura do criminoso, e sim pelo seu despreparo –
notadamente, a falta de qualificação educacional para lidar com a intensa
competitividadedomercado.
77
Jinkings,Isabella.
Obcit
,p.17:Nessesentido,podemserelacionarasbaixastaxasde
desempregonorteamericanasnasdécadasde1980e1990comocrescimentodesproporcionaldo
encarceramento.Obaixoíndicededesempregoteriasidoresultadonãosomentedaspolíticasde
flexibilizaçãodomercadodetrabalho,masdoencarceramento(eóbvioocultamentonastaxasde
desemprego)departesignificativadapopulaçãopobrenorteamericana.Ataxadedesempregodos
EUAseria,pelomenos,doispontospercentuaismaisaltaseincluísseapopulaçãocarcerária.No
casodosnegros,sobretudo,ataxadedesempregooficialestariasubestimadaemumterço.Assim,
nosEUA,“agestãododesempregoedaprecariedadesocialpareceterpassado,emsuma,do
universodaspolíticassociaisparaodapolíticacriminal.”(DEGIORGI,2006,p.53)Alémdisso,é
interessantelembrarqueocontingentedetrabalhadoresempregadosnaindústriadasegurança
tambéméumnúmerobastanteconsiderável.
113
Portanto, àluz dos dados oficiais, temse como falsa a premissa de que o
cárcereservecomoambienteparaqueocondenadopossasermantidopara,anos
após, retornar ao convívio em sociedade
ressocializado
. É uma quimera querer
emprestartãonobrefunçãoàprisão,que,nasuaprópriaconcepção(asegregação),
é antagônica à lógica de interação numa sociedade que, constantemente, se
transmuta.
5.2.3Cordepele/etnia.
Háumclichêqueserepeteconstantemente,emqueseasseveraseraprio
reservadaaoschamadostrês“pês”(
pretos
,
pobres
e
prostitutas
).Naturalmente,que
naBahia,especialmenteemSalvador,areservaaoprimeiro“pêtenderáasermaior,
afinal, a história descreve maciça presençade escravos negros africanos, desdeo
século XVI e, hoje, negros e mestiços representam quase 80% da população da
Região Metropolitana, proporção que é ainda
maiselevadaentreossegmentosmaispobres.
Por oportuno, registrese que ao
contráriodoqueocorrenaspesquisasdoIBGE,
ondeacoréautodeclarada,nosdadosabaixo,
oriundos dos registros administrativos do
Ministério da Justiça, a atribuição de cor da
pele, geralmente, é feita por funcionários da
administração penitenciária, sendo portanto,
incomparáveiscomosprimeiros.
Os dadosde 2007 mostramque a maioria dos custodiados onegros e
pardos(estesoutrorachamadosdemulatos),representando,emdia,80%,da
população carcerária, quadro semelhante ao encontrado na primeira prisão
constrda na Bahia, segundo registros históricos do século XIX, conforme
exposto
supra
(4.3).
Tabela10–PopulãoCarceráriada
BahiasegundoaCorde
pele/etnia,2007
CordePele 2007
Branca 12,6
Negra 17,4
Parda 68,0
Indígena 0,0
Amarela 0,1
Outras 1,9
NãoInformado 0,0
Total 100,0
Fonte:Elaboraçãoprópria,combasenos
RelatóriosdoMinistériodaJustiça.
114
Noconjunto,osdadosapresentadospermiteminferirqueaprisãoseleciona
pessoasdebaixarendaejovens,emsuamaioria,umexércitodenegrosepardos,
noEstadodaBahia
78
,especialmentedevidoàformaçãohistóricadopovobaiano.
Tendoemvistaqueapesquisaempreendidanãopretendeuincursionarnos
debates sobre raça ou etnia, este tópico somente tem como função retratar esta
realidade,sempromovermaioresanálisessobreexistênciaounãodediscriminação
ouseleçãopréviadenegrospelosistemaprisional.
5.2.4Tempodepenaetipospenaismaisfrequentes.
Importante aspecto a ser analisado, no que concerne à pena de prisão.
Resultanaobservaçãodaquantidadedetempoimpostacomopunição.
Tabela11–TempodePenaasercumpridanoSistemaPenitenciárioBaiano
TempodePena PorcentagemdaPopulãoSJCDH(%)
2005 2006[1] 2007
Até4anos 16,8 15,9 19,8
Maisde4até8anos 31,4 28,2 34,7
Maisde8até15anos 21,8 26,7 21,8
Maisde15até20anos 12,1 13,3 12,6
Maisde20até30anos 8,2 7,3 7,7
Mais30até50anos 2,9 2,8 3,1
Maisde50até100anos 0,1 0,1 0,3
NãoInformado 6,7 5,7 0,0
Total 100,0 100,00 100,00
[1]OMinistériodaJustiçaconstouquesomente17unidadesprisionaisinformaramestesdados,ou
seja,94%dototal,significandoumapopulaçãode7743pessoas.
Fonte:Elaboraçãoprópria,combasenosRelatóriosdoMinistériodaJustiça.
78
Anteriormentefoicomentadosobreoclichêdostrês“pês”,porém,nemsempreserápossível
constatálo,afinal,comoofizeramGomeseChamon(2007)aoinvestigararealidadedeum
estabelecimentopenitenciárionoValedoParaíba,oPaulo,ondesedetectouque62%dasua
populãoeradebrancos.NapesquisacoordenadapeloDr.EdsonJoséBiondi,emquefoi
analisado,porcincoanos,operfildapopulaçãocarceráriadoEstadodoRiodeJaneiro,
constatousemaioriadebrancos(46,6%dosexomasculino,42,6%,sexofeminino)(RIODE
JANEIRO,2006,p.30).
115
Percebese que, em média, a maioria das condenações o ultrapassa 8
anos, significando, ao longodo períodoanalisado, mais dametade da população
carcerária.Destaporcentagem,umterçocumprepenaemtempoinferiora4anos,
quepoderiaserabreviado,vistoqueosefeitosdoaprisionamentosãomaisefetivos
edeletériosjuntoàquelessubmetidosàprivaçãodaliberdadeporcurtoperíodo
79
.
Registresequenospróximosanospoderáhaversubstancialcrescimentoda
populaçãocompenasmaioresdoque4até8anos,porqueaNovaLeiAntidrogas
80
,
queentrouemvigoremsetembrode2006promoveuoaumentodapuniçãomínima
paraotráficodedrogas(art.33),de3para5cincoanosevedouqualquerhipótese
de substituição para penas restritivas de direito (alternativas), como vinha sendo
sedimentado pela jurisprudência dos Tribunais Superiores (art. 44, Lei
n°11.343/2006).
É preocupação antiga, no discurso da Criminologia Crítica
81
, a política de
repressãoaoconsumoevendadesubstânciasentorpecentes,consideradascomo
drogasilícitas
.OBrasil,recentemente,editou noveldiplomalegalendurecendoas
penas e definindo a prisão como pena única para a punição daqueles que
cometeremdelitodetráficoe/oucondutasassemelhadas.Tendoemvistaquealei
data de 2006, há perspectiva de que nos anos vindouros os delitos patrimoniais
percamoprimeiropostoentreoscrimesmaiscometidos,oupelomenosodividam
comoscondenadossobtimbredanovaLeiAntidrogas.
Ressalvese, ainda, que, abstratamente, se admite punição por meio da
prisão à penas inferiores a dois anos, o que é contraproducente para fins de
ressocialização
,fatoestepercebidodesdeoséculoXIX,porFranzvonListz
82
.
79
Aprivaçãodaliberdadesignificaumarupturaradicalcomaliberdade,comoslaçossociais,
profissionaisefamiliares.Assimsendo,asuaaplicaçãoàquelesporcurtoperíododetempoprovoca
muitomaisefeitosnocivosdoqueaosdemaiscujaspenasomaisseveras.Inclusive,aindano
culoXIX,FranzVonLiszt(2003,p.153)criticavaaexistênciadepequenaspenasdeprisão,
asseverandoque“elasnãocorrigem,nãointimidam,nempõeodelinquenteforadoestadode
prejudicar,aocontrário,muitasvezesencaminhamdefinitivamenteparaocrimeodelinquentenovel”.
80
Lein°11.343/2006.
81
Ver:OLMO,Rosadel.LasDrogasysusdiscursos.
In
:PIERANGELI,JoséHenrique(org.).Direito
Criminal,volume5.BeloHorizonte:DelRey,2004.
82
SegundoBitencourt(2009,p.63),umadascaracterísticasdopensamentodeLiszt,noquetange
àspenas,residianalutapela“eliminaçãoousubstituiçãodaspenasprivativasdeliberdadedecurta
116
Também devem ser analisados, cuidadosamente, os tipos penais que têm
sidoobjetodeprisõesprovisóriasedefinitivasporpartedoPoderJudiciárioparase
apreender a necessidade ou não da custódia, considerandose os efeitos do
encarceramentonohomemeametaressocializadoradosistema.Noqueconcerne
aestes,farseádivisãodeacordocomoobjetodeproteçãodanormapenal:
a) Vida(art.121até128,CPeGenocídio);
b) Incolumidadefísica(art.129,§§1°,2°e3°,CP,LeideTortura);
c) Liberdade(art.148,CP)
d) Propriedadesemviolênciaouameaçaàpessoa(art.155,171,180CP);
e) Propriedadecomviolênciaeameaçaàpessoa(art.157,158e159);
f) Tráficodedrogas;
g) Crimessexuais(art.213,214,218,CP);
h) Coletividade(EstatutodeDesarmamento,art.288e273,CP);
i) FéPública(art.297a334,CP);
j) AdministraçãoPública(art.312a337ª,CP);
k) Outroscrimes.
Tabela12–TiposPenaisePopulãoCarcerária
TiposPenais PorcentagemdaPopulãoSJCDH(%)
2005 2006[1] 2007
GrupoA 20,60 20,00 18,06
GrupoB 0,01 0,04 0,07
GrupoC 0,33 0,20 0,24
GrupoD 9,25 8,60 11,08
GrupoE 26,46 34,00 34,28
GrupoF 13,05 17,00 16,80
GrupoG 2,50 8,00 9,60
GrupoH 4,15 3,70 5,20
GrupoI 0,25 0,60 0,40
GrupoJ 0,20 0,14 0,17
GrupoK 4,30 7,00 4,10
NãoInformado 19,80 0,71 0,00
Total 100,00 100,00 100,00
[1]OMinistériodaJustiçaconstouquesomente17unidadesprisionaisinformaramestesdados,
ouseja,94%dototal,significandoumapopulaçãode7743pessoas.
Fonte:Elaboraçãoprópria,combasenosRelatóriosdoMinistériodaJustiça.
duração”,oque,digase,“representaoiníciodeumabuscaincessantedealternativasàspenas
privativasdeliberdadedecurtaduração,começandoefetivamenteadesenvolverumaverdadeira
políticacriminalliberal”.
Nãosemrazão,oCódigoPenalcontemplaahipóteselegaldasuspensãocondicionaldapena(art.
77ess.),paracondenaçãonãosuperioresadoisanos.
117
Fica evidente que quatro grandes grupos se destacam: os crimes contra a
vida (A), os crimes contra o patrimônio sem (D) e com (E) violência ou grave
ameaçaàpessoaeotráficodedrogas(F),quesomadosrepresentamemtornode
80%detodapopulaçãocarceráriacustodiadapelaSJCDH.
Frisese que os crimes que formam os Grupos D, H, I, J, que totalizam
uma dia de20%dosistemapenitenciário baiano,admitemasubstituiçãode
penadeprisãoporrestritivadedireito(alternativas),o que,seguramente,pode
servir como medida mais propensa à reinserção para criminosos de pequena
monta e, principalmente, diminuição considerável da populão carceria, pois
estepercentualésuperiorao
deficit
devagasdosistemacarceráriobaiano,que
foide16,3%.
Inclusive, merece registro que, em se tratando de crimes patrimoniais
cometidoscomviolência,aquelequemaissedestacaéoroubo(art.157,
caput
,§
1° e § 2°, do CódigoPenal), e não outrosque revelem maior “periculosidade” do
agente, considerados como hediondos
83
,
v.g.
: o latrocínio (7,00%), extorsão
mediantesequestro(0,33%)eaextorsãoseguidademorte(0%),dadosde2007.
Afirmouse algures que o sistema penal é seletivo, volta o seu arsenal
punitivoparaasclassesmaisdebilitadaseconomicamente.Isso secomprova,por
meiodaleituradosnúmerossobretipospenais,queháumaseletividade.
O sistema penal é apresentado como igualitário, atingindo igualmente as
pessoas em função de suas condutas, quando na verdade seu
funcionamento é seletivo, atingindo apenas determinadas pessoas,
integrantes de determinados grupos sociais, a pretexto de suas condutas
(as exceções, além de confirmarem a regra, são aparatosamente usadas
paraareafirmaçãodocaráterigualitário).(BATISTA,2002,p.2526
Sobreomesmoaspecto,Wacquant(2001,p.119)compreendequeapolítica
penal severa, muito defendida atualmente, é consectária da falência das políticas
sociais e modelo de estadoprovidência.Ante esta novel realidade, a seletividade
queeradirecionadaparaosmaispobres,tornouseexclusiva:
83
Videart.1º,Lein°8.072/90.
118
Otratamentocarceráriodamiria(re)produzsemcessarascondiçõesde
sua própria extensão: quanto mais se encarceram pobres, mais estes
permanecem pobres, mais estes têm certeza, se não ocorrer nenhum
imprevisto, de permanecerem pobres por bastante tempo e, por
conseguinte,maisoferecemumalvocômodoàpolíticadecriminalizaçãoda
miséria. A gestão penal da insegurança social alimentase assim de seu
própriofracassoprogramado.(WACQUANT,2001,p.145)
ZaffaronieBatista(2003,p.48)apontamqueacriminalizaçãodealguémé
frutodapréviaexistênciadeleispenais,porém,temmaioraplicaçãojuntoaosque
têmmaiorgraudevulnerabilidade,ouseja,sãomenosfavorecidos.Emboraexistam
crimes que tangenciam condutas mais comuns às classes mais abastadas, como
dos delitos de “colarinho branco”, as agências estatais (polícia, ministério público)
ocupadas com a fiscalização do cumprimento de leis são impotentes na sua
persecução, o que, salientese, não quer dizer que não ocorram prisões e
condenações por estes crimes. Entretanto, o aparato punitivo é inclinado para
determinadas figuras sociais que preenchem o estereótipo criminal, segundo os
mencionadosautores,configuradasnas:
Pessoasemposiçãosocialdesvantajosae,porconseguinte,comeducação
primitiva,cujoseventuaisdelitos,emgeral,apenaspodemserobrastoscas,
o que só faz reforçar ainda mais os preconceitos racistas e de classe, à
medidaqueacomunicaçãoocultaorestodosilícitoscometidosporoutras
pessoas de maneira menos grosseira e
mostra as obras toscas como os
únicosdelitos
.
E arrematam, extraindo concluo que ao se comparar com os índices e
números do sistema penitenciário baiano atestama efetiva seleção de pessoas
oradebatida:
Isto leva à conclusão pública de que a delinquência se restringe aos
segmentos subalternos da sociedade, e este conceito acaba sendo
assumidoporequivocadospensamentoshumanistasqueafirmamserema
pobreza,aeducaçãodeficiente,etc,ascausasdodelito(...)(ZAFFARONIe
BATISTA,2003,p.48).
119
5.2.5Reingressonosistemapenitenciário(fugas,abandonosenovas
condenões).
Todo o discurso da legitimidade do sistema prisional é assentado na
perspectiva de mudança daquele que é submetido ao cárcere poder voltar ao
convíviosocialereintegrarse.Assim,naturalmente,merecemespecialatençãoos
índicesdereingressonosistema.NoâmbitodaSJCDHcontabilizaseunicamenteo
registroderetorno,sem,contudo,apontararazão,seja,porexemplo,porrecaptura
ounovacondenação.
Apopulaçãocarcerária,caracterizaseemsuma,porpessoasquetêmuma
experiência prisional anterior. Os números colhidos junto aos órgãos oficiais
demonstramestepreocupantedado,quelança porterraa funçãodereintegração
social. Por exemplo, no período de três anos, temse a taxa de reingresso em
26,5%,quesepodedizercomoalta,levandoseemconsideraçãoosprincípiosque
norteiamainstituiçãodaprisão.Contudo,facilmentecompreensívelaoseconstatar
comasverdadeirasfunçõesdocárcereanteriormenteexpostas.
Estemeroquerdizerquedeintegralidadepopulacionalumquartotermina
sempreretornando,sejapornovosdelitosourecapturas.Muitoembora,nestecaso,
mereça destaque que, dentro do sistema penitenciário controlado pela SJCDH,o
número de fugas é bem diminuto, o que demonstra que o aprisionamento nos
moldesestatuídosnãodeveseromeiomaishábildepromoçãodaressocialização.
Atabelaabaixotrazonúmeromensaldepresosadmitidosequetêmprévia
passagempelosestabelecimentospenitenciáriosnaBahia(parainternosprovisórios
e definitivos), nos anos de 2005 a 2007. Inferese que há frequência na carreira
criminal,poisaolongodosanoshátendênciaderetornodepessoasqueestiveram
encarceradaspreviamente,ouseja,jámarcadaspelosistema.
120
Tabela13–Reingressonosistemapenitenciáriobaiano
Meses merodePresos
2005 2006 2007
Janeiro  538 746
Fevereiro 21 561 682
Março 536 581 1186
Abril 432 604 1142
Maio 479 590 1112
Junho 397 563 1086
Julho 428 591 1076
Agosto 437 604 1081
Setembro 472 600 1149
Outubro 438 606 1149
Novembro 454 687 1099
Dezembro 460 624 1105
Fonte:Elaboraçãoprópria,combasenosRelatóriosdaSJCDH.
Vejaseque,nofinalde2007,dapopulaçãocarceráriatotal
84
,13%foifruto
dereingresso,representando,assim,umaestatísticaelevadaàluzdosvaloresde
recuperaçãoereintegraçãodointerno.Em2006,estenúmeroerade8%,enquanto
noanoanterior,eraaproximadamentede6,4%,apontando,portanto,evoluçãoda
taxadecriminalidadeemaiorexpansãodoaparatodecontrolepenal.
ATabeladereingressoémuitoinfluenciadapelospresosprovisóriosquetêm
maior mero de entrada e saída ao longo do ano. Não obstante, tal aspecto
chamaaatençãodograndecontingentepopulacionalqueémarcadopelosistema
penitenciárioque,porcerto,provocaefeitosimediatosnasvidasdestespresos,seja
dentroouforadosmurosdaprisão.
Outro fator que deve ser analisado mais detidamente dentro do sistema
penitenciário baiano, temse estampado nas informações da Tabela 14, abaixo
transcrita.Aliseexpõeoíndicedereiteraçãodaatividadecriminosa,configuradana
reincidênciapenaloumúltiplascondenações,outraformacomumdereingresso.
Antes de se enfrentar analiticamente os dados da tabela supramencionada,
importaestabelecerosconceitosdeprimariedadeouportadordebonsantecedentes,
reincidênciaeportadordemausantecedentes,dentrodatécnicajurídica.
84
VerTabela6,p.104.
121
Dizse primário ou portador de bons antecedentes, quele condenado que
nuncatevecontrasiimpostaoutracondenação,mesmoque,existaminquéritosou
processos criminais em curso. Ou seja, é considerada primariedade pela
inexistênciadeantecedentes(nostermosdoart.59,CP),condenaçõescomtrânsito
emjulgadoquesejamanteriores.Nestesentidofluiajurisprudênciamaiscríticado
Supremo Tribunal Federal
85
. Descartase, para este fim, a consideração de
processos ou procedimento em curso, faceo princípio constitucional dainocência
(art.5°,incisoLVII,CF/88).
Poresseturno,oconceitodereincidênciaestágrafadonosartigos63e64do
CódigoPenal
86
,queconsistenacomissãodenoveldelitoapóshavertransitadoem
julgadosentençacondenatóriaporcrimeanterior.Querdizer,oagentecometeuum
crimeeporelefoicondenado.Nocursodocumprimentodestapenaoudentrode
cinco anos após a sua extinção, ele infringe, mais uma vez, a lei penal. Assim
sendo, quando da apreciação judicial deste novo fato, deverá ser considerado
quantum
deacréscimoàpenaemvirtudedarecidiva
87
.
85
EMENTA:HABEASCORPUSINJUSTIFICADAEXACERBAÇÃODAPENACOMBASENA
MERAEXISTÊNCIADEINQUÉRITOSOUDEPROCESSOSPENAISAINDAEMCURSO
AUSÊNCIADECONDENAÇÃOPENALIRRECORRÍVELPRINCÍPIOCONSTITUCIONALDANÃO
CULPABILIDADE(CF,ART.5º,LVII)PEDIDODEFERIDO,EMPARTE.Oprincípioconstitucional
danãoculpabilidade,inscritonoart.5º,LVII,daCartaPolíticanãopermitequeseformule,contrao
réu,juízonegativodemausantecedentes,fundadonamerainstauraçãodeinquéritospoliciaisem
andamento,ounaexistênciadeprocessospenaisemcurso,ou,atémesmo,naocorrênciade
condenaçõescriminaisaindasujeitasarecurso,revelandosearbitráriaaexacerbaçãodapena,
quandoapoiadaemsituaçõesprocessuaisindefinidas,poissomentetítulospenaiscondenatórios,
revestidosdaautoridadedacoisajulgada,podemlegitimartratamentojurídicodesfavorávelao
sentenciado.Doutrina.Precedentes.
86
Art.63Verificaseareincidênciaquandooagentecometenovocrime,depoisdetransitarem
julgadoasentençaque,noPaísounoestrangeiro,otenhacondenadoporcrimeanterior.
Art.64Paraefeitodereincidência:
Inãoprevaleceacondenaçãoanterior,seentreadatadocumprimentoouextinçãodapenaea
infraçãoposteriortiverdecorridopeododetemposuperiora5(cinco)anos,computadooperíodode
provadasuspensãooudolivramentocondicional,senãoocorrerrevogação;
IInãoseconsideramoscrimesmilitaresprópriosepolíticos.
87
Oinstitutopenaldareincidência,desdemuito,éobjetodecríticaporpartedesetoresmaisliberais
dopensamentopenalbrasileiro.ParaSANTOS(2005,p.120121)“oreconhecimentooficialda‘ação
criminógena’(EM,n.26),demonstradapelapesquisacriminológicauniversal,exigeredefiniçãodo
conceitode
reincidênciacriminal
,excluindoahipóteseformalirrelevanteda
reincidênciaficta,
incapaz
deindicaraindefinível
presunçãodepericulosidade
,edefinindoasituaçãoconcretarelevanteda
reincidênciareal
comoprodutodaaçãocriminógenadapena(edoprocessodecriminalização)sobre
ocondenado,porfalhadoprojetotécnicocorretivodaprio.(...)Emconclusão,nenhumadas
hipótesesde
reincidênciareal
oude
reincidênciaficta
indicasituaçãode
rebeldia
contraaordem
socialgarantidapeloDireitoPenal:a
reincidênciareal
deveriasercircunstânciaatenuanteea
reincidênciaficta
é,defato,umindiferentepenal”.TrazaindaSANTOS(2005,p.121)aofensaao
122
Noquetangeaosportadoresdemausantecedentes - éumconceitoobtido
porexclusão,qualseja,sãoaquelesquetêmcontrasidecisãojudicialtransitadaem
julgado,quenãosecoadunanoconceitolegaldereincidência
88
.
Tabela14–PresosPrimáriosCondenadoseReincidentesnosistemaprisionalbaiano
(2005–2007)
Status
merodePresos
2005 2006 2007
PresosPrimárioscomUmacondenaçãoanterior 1.100 990 3.629
PresosPrimárioscomMaisdeumacondenaçãoanterior 248 220 305
PresosReincidentes 460 684 1.105
Fonte:Elaboraçãoprópria,combasenosRelatóriosdoMinistériodaJustiça.
Resta,portanto,evidenciadoqueotratamentoprisionaléineficazparaconter
a reincidência criminal, segundo os números apresentados pelo Ministério da
Justiça.Àguisa de exemplo, em 2007, dentro do universode 8.620 custodiados,
5.039 foram condenados em outra oportunidade, configurando assim 61% da
população.Destes,1.410játiveramanteriorpassagempelocárcere.Portanto,dos
presosdefinitivos(4.954),28,5%reincidiramapóshavercumpridonopassado.Fora
de qualquer dúvida, uma alta taxa, que demonstra existirem imperfeições nesta
formadepunição.
ComoasseveraGomes(2008,p.194)aocomentarosíndicesdereincidência
dosistemapenitenciáriodoBrasilapresentadopeloGovernoFederal,variávelentre
70%e85%:
princípioconstitucionaldo
nobisinidem
comosendoumdosargumentoshábeisadesconstituira
reincidêncianoordenamentojurídicopenal.Nesteparticular,a5ªCâmaraCriminaldoTribunalde
JustiçadoRioGrandedoSultemfirmeposicionamentoemdefesadainconstitucionalidadeda
reincidênciafaceestaargumentação.Porém,osTribunaisSuperioresafastamestepensarao
reconheceraconstitucionalidadedesteinstituto.
88
OSuperiorTribunaldeJustiçaeditousúmulaexigindoquenãofosseconfundidopelosjuízese
tribunaisosconceitosdereincidênciaemausantecedentes.Vejase:STJSúmulanº241
(23/08/2000DJ15.09.2000):
ReincidênciaCircunstânciaAgravanteCircunstânciaJudicial.A
reincidênciapenalnãopodeserconsideradacomocircunstânciaagravantee,simultaneamente,
comocircunstânciajudicial
.
123
Dessa forma,fica patente que a utilização da prisãonão tem cumpridoa
sua função preventiva especial reclamada pela pena que, embora o
possasermedidaúnicaeexclusivamentepormeiodeíndicesderetornoao
crimeporpartedaquelesegressosdosistemacarcerário,tem,nesteponto
nevlgico,umfortíssimoindicativodestefracasso.
Ouseja,ocárcerecomomedidaprincipaldecombateàcriminalidadeserve
como instrumento de replicar infratores, novos e velhos, ou como diria Foucault
(1998b, p. 221), as prisões não diminuem a taxa de criminalidade: podese
aumentálas,multiplicálasoutransformálas,aquantidadedecrimesecriminosos
permaneceestável,ou,aindapior,aumenta.”
Sentencia Thompson (2007, p. 99) sobre a reincidência e as funções
declaradasdaprisão:
A recidiva implica a prova incontestável de que a instituição falhou no
objetivo regeneração (assim como na meta intimidação): submetido ao
tratamento,com frequênciaporvários,muitosanos, oindivíduocontinuou
tãocriminosocomoantes.
Aolongodesteperíodo(20052007),registraramseaindaaocorrênciade62
fugas dos três regimes, 45 abandonos de cumprimento de pena em regime
semiabertoeabertoe62reinclusõesnosistema
89
.Osdadosde2008,emboranão
sejamaindadefinitivos,sedemonstramgraves,indicam166fugase93abandonos
em apenas quatro meses, ambos do regime semiaberto, sendo que somente se
conseguiufazer35reinclusões.
As informações acima confirmam, portanto, que a detenção provoca
reincidência;depoisdesairdaprisão,setêmmaischancequeantesdevoltarpara
ela,oscondenadossãoemproporçãoconsiderável,antigosdetentos”(FOUCAULT,
1998b,p.221).
89
Areinclusãosignificaarecapturadofugitivooudequemabandonouocumprimentodapena.
124
5.2.6Laborterapia(trabalhoexternoeinterno)
A vida intramuros reserva poucas atividades ao preso, a principal delas é o
trabalho,quealémdeservircomomeiodereduzirapena–pormeiodoinstitutoda
remição
90
, serve como uma redeão do condenado para retornar aos moldes
vigentesnasociedade.OtrabalhonaLeideExecãoPenalé“deversocialecondição
dedignidadehumana. Tefinalidadeeducativaeprodutiva”(videartigo28).
Como diz Bitencourt (2009, p. 503), é a melhor forma de ocupar o tempo
ociosodocondenadoediminuirosefeitoscriminógenosdaprisão,eadespeitode
serobrigatório,éum
direitodever
doapenado”.Ademais,énítidaapersistenteideia
de que ele redime. Enfim, de que é o caminho mais rápido para a almejada
ressocialização.
Não obstante o labor carcerário tenha suma importância, tanto no sistema
baiano,comonorestantedopaís,há,ainda,insuficiênciadepostos.Ouseja,nem
todo custodiado tem efetivamente direito ao trabalho. Este tema, inclusive, foi
adredemente explorado no Relatório Situação do Sistema Carcerário Brasileiro”,
realizadopelaComissãodeDireitosHumanoseMinorias - CâmaradosDeputados
em parceria com a Pastoral Carcerária – CNBB, em julho de 2006, sendo
formuladas,sobreestetema,asseguintespropostas:
QueoEstadoestabeleçaconvênioscomoSistema“S”–SESC,SENAI,
SENATparaprofissionalizaçãodosinternos.Criaçãodeprogramassociais
que possibilitem ao egresso real integração na sociedade com
acompanhamento médico, psicológico e econômico.  Criação de
programasquepossibilitemaformaçãodeumapopulaçãocarceráriaútile
produtivaparaasociedade.
90
Aremiçãoéinstitutoconcebidoemsededeexecuçãopenalqueestabelecequeacadatrêsdias
trabalhados,seráabatidoumdiadepena,parafinsdelivramentocondicional(art.126130,LEP).No
entanto,ajurisprudêncianacionalpacificouentendimentoquearemiçãopodesertambémutilizada
paraprogressãoderegime.Recentemente,oSuperiorTribunaldeJustiçaeditouasúmula341,que
estendeosbenefíciosdaremiçãoaosqueestudam.
125
A Pastoral Carceria fez um relatório próprio e qualificou a realidade
baianaassim:
DA FALTA DE ATIVIDADES LABORATIVAS PARA OS PRESOS 
RESSOCIALIZAÇÃO:ComexceçãodoConjuntoPenaldeJequié,ondeum
número maior de presos trabalha, na maioria das unidades da Bahia,
pouquíssimospresostêmacessoaotrabalho.Atividadesderessocialização
dospresosaindasãoumsonhonaBahia.(PASTORALCARCERÁRIADA
BAHIA,2007)
As recentes estatísticas do sistema carcerário comprovam a lacuna
identificadapelosparlamentareseclérigos.Nomodelovigenteotrabalhosedivide
em externo e interno; o primeiro mais afeto aos presos que cumprem pena no
regimesemiabertoeabertoe,excepcionalmente(c.f.art.36,LEP),paraaquelesdo
regimefechado.
Atualmente, o trabalho prisional é explorado, basicamente, por empresas
privadas,embora,nopassado,opróprio Estadotenhaabrigado,naadministração
diretae indireta,alguns condenados. Esta forma se revela como importante, pois
propiciaaocondenadomaiorcontatoeinteraçãocomasociedadelivre.
Tabela15–Laborterapia:TrabalhoExterno.
Trabalhoexterno
merodePresos
2005 2006[1] 2007
EmpresaPrivada 190 12 177
AdministraçãoDireta 3 9 0
AdministraçãoIndireta 24 0 0
Total 216 21 177
[1]OMinistériodaJustiçaconstouquesomente17unidadesprisionaisinformaramestesdados,
ouseja,94%dototal,significandoumapopulaçãode7743pessoas.
Fonte:Elaboraçãoprópria,combasenosRelatóriosdoMinistériodaJustiça.
O trabalho interno se verifica entre os presos submetidos ao regime
fechado e semiaberto, sendo comum a profusão de artesanato e apoio ao
estabelecimentopenal”–queconsisteemrealizartarefasdelimpezaepequenos
consertosnasunidades.
126
Tabela16–Laborterapia:TrabalhoInterno.
Trabalhointerno
merodePresos
2005 2006[1] 2007
Artesanato 504 778 1.077
ApoioaoEstabelecimentoPenal 442 608 542
AtividadeRural 37 265 35
Outros 80 1.385 796
Total 1.063 3.036 2.450
[1]OMinistériodaJustiçaconstouquesomente17unidadesprisionaisinformaramestesdados,
ouseja,94%dototal,significandoumapopulaçãode7743pessoas.
Fonte:Elaboraçãoprópria,combasenosRelatóriosdoMinistériodaJustiça.
Merece registro o fato de que o trabalho carcerário se destina,
majoritariamente, aos que cumprem pena em definitivo, embora existam presos
provisóriosqueexerçamatividadelaboral.
De todo o contingentepopulacional, percebese que houveum crescimento
do número de envolvidos nestas atividades de 2005 para 2006, de 17,7% para
39,5%. Porém, de 2006 para 2007, houve considerável decréscimo de postos de
trabalhoexternoeinterno,umaquedade7,7%.Osprimeirosíndicesde2008(jan
abr) demonstram retomada de novas frentes de trabalho, especialmente as
remuneradas,que,aproximadamente,quintuplicaram,de177para883pessoas.Em
relação ao ano anterior, também se confirma aumento de 4,6% da população
carceráriaqueexerceatividadelaboral.
Esta oscilação do número de presos com atividades laborais revela que o
trabalhodospresosaindanãoestáestruturalmenteincorporadoaosistema,nãose
constituindo,portanto,emcomponentedeumapolíticapúblicavoltadaparaviabilizar
e assegurar a ressocialização, apregoada como uma das metas do sistema
penitenciário.
Destacase deveras o aumento da iniciativaprivadana exploração da mão
deobra carcerária, preferencialmente, àqueles que cumprem pena em regime
fechado.Explicaseesteinteresseporalgumasrazões, - aparceriaentreEstadoe
empresaébenéficaaestaporqueoscustosdeproduçãosãobemdiminuídos,pois
aquele lhe cede o local para funcionamento da produção e energia semqualquer
ônus;arelaçãoentrepresoeempresaocriavínculotrabalhista,alémdisso,
127
umtetomínimoderemuneraçãofixadoemtrêsquartosdosaláriomínimovigente,
sendosomenteoempresáriocompelidoarecolherascontribuiçõesprevidenciárias,
ateordoart.29e30,daLein°7.210/84.
Amãodeobraprisionalvêotrabalhocomoumaocupaçãoquelhetrazboa
estima perante o corpo funcional e a Justiça de Execução Penal; também, pode
diminuirsuapenaatravésdaremição
91
;earemuneraçãolheservecomoformade
sustentarafamíliaeasipróprio,duranteoperíododeencarceramento.
Por outro lado, há constante decréscimo de utilização da força de trabalho
dospresosemapoioaoestabelecimentoprisional(prestaçãodepequenosreparos,
serviçosdelimpeza,serviçosgerais,
etc
).Entendeseestefenômenoumainversão
na administração penitenciária brasileira, que sempre se serviu dos custodiados
parataisafazerescomoumaconsequênciadacrescenteterceirizaçãodosserviços
decompetênciadoEstado
92
.
O quadro tico é grave, pois se cobra do encarcerado a disposição e o
trabalho,porém,dificilmenteseconseguirácriarnovospostosefrentesdetrabalho.
Arealidadedosistemaprisionalbrasileiro(ebaiano)édeescassasoportunidades
deincorporaçãodospresosàatividadeprodutiva,dentroouforadaspenitenciárias.
Outra crítica a ser feita reside no tipo de atividades exploradas, nenhuma
delas, ou quase nenhuma, tem aplicabilidade na vida futura de um egresso. São
passageiras e inúteis para a vida extramuros. Não há empresas de tecnologia ou
serviçoquepossibilitemmelhorinserçãonomercadodetrabalhoexterno.Conclui
se,assim,queomercadodetrabalhoprisionalécompostoporempresasqueoptam
poruma reduçãodecusto,marcadamente,pela admissãode mãodeobramenos
qualificada e desenvolvimento de atividade mais braçal e menor relevância
econômica.Isso,comefeito,édesvantagemqueoegressolevaconsigoquandodo
seuretornoàsociedade.
91
Videnotaderodapén°91.
92
Doanode2006,quando608presosexerciamestasatividadescaiuestenúmeropara542,em
2007,eatéomêsdeabril/2008,415.
128
5.3 PROGRAMASPÚBLICOSDERESINSERÇÃOSOCIALNOCOMPLEXO
PENITENCIÁRIOLEMOSBRITO.
Conformeexpostoanteriormente,umadasfunçõesdeclaradasdocárcereéa
ressocialização, que, no modelo penitenciário vigente, é simbolizada pelo
incrementoereforçodacorreçãopormeiodotrabalhoeeducação.Nessesentido,
aLei deExecuçãoPenal (LEP)garanteaopresoalgunsdireitos,queinspiramas
frentesdetrabalhoparaospresos:
Art. 10  A assistência ao preso e ao internado é dever do Estado,
objetivando prevenir o crime e orientar o retorno à convivência em
sociedade.ParágrafoúnicoAassistênciaestendeseaoegresso.
Art.11Aassistênciaserá:Imaterial;Ilàsaúde;III jurídica;IV
educacional;Vsocial;VIreligiosa.
Art.13Oestabelecimentodisporádeinstalaçõeseserviçosqueatendam
aos presos nas suasnecessidadespessoais,além delocaisdestinados à
venda de produtos e objetos permitidos e não fornecidos pela
Administração.
Art. 14  A assistência à saúde do preso e do internado, de caráter
preventivo e curativo, compreenderá atendimento médico, farmacêutico e
odontológico.
Art.17Aassistênciaeducacionalcompreenderáainstruçãoescolarea
formaçãoprofissionaldopresoedointernado.
Art.22Aassistênciasocialtemporfinalidadeampararopresoeo
internado e preparálos para o retorno à liberdade: V  promover a
orientação do assistido, na fase final do cumprimento da pena, e do
liberando,demodoafacilitaroseuretornoàliberdade
Aideologiaderessocializarpormeiodotrabalhoérealidadenacional,como
sevênaprópriaLeideExecuçãoPenal,noentanto,nãoháumapolíticapública
do Estado brasileiro para o sistema penitenciário. Na verdade, cada unidade da
federação desenvolve suas próprias políticas (ou programas ou projetos)
destinadas ao sistema carcerário, de forma independente e desarticulada.
Provavelmente,portalquebrantamentoinexista,defato,umapolíticadeEstadoe,
somente,programasisolados.
Na Bahia,amaioria dos programas existentestem comoobjetivo estimular
desenvolvimentos de atividades ligadas ao trabalho, afinal, este é o elo do preso
com a sociedade. O outro pilar é a educação, - embora somente se verifiquem
cursos de ensino fundamental e médio. A SJCDH, responsável por zelar pela
129
administraçãopenitenciária,teminvestidoemprogramasparadesenvolvimentode
atividadeslaboraiseeducacionais.
Cumpreregistrarqueháânsiadeseestimularmaisprogramasquesevoltem
aoidealderessocialização.Ementrevistafeitajuntoàcoordenaçãodelaborterapia
da SJCDH, informouse que este órgão blico enfrentava uma mudança de
mentalidade. Inicialmente, para se poder discutir e desenvolver estratégias de
ressocialização foi preciso promover a qualificação daqueles que trabalham em
contatodiretocomoscondenados:osagentespenitenciários.Paratanto,criousea
Escola Penitenciária, quetem como metarequalificar o corpo técnico provocando
suaconstantevalorizaçãoeenfrentandotemasconflitantesdestaatividade.
Em 2007, foram firmados convênios com o Serviço Nacional de
AprendizagemComercial(SENAC)eServiçoNacionaldeAprendizagemIndustrial
(SENAI)pararealizaçãode78cursosprofissionalizantes.Noentanto,esteesforço
conseguirá, no máximo, atender a um blico estimado de 1305 custodiados, o
equivalenteaapenas15,8%dapopulaçãocarceráriadaqueleano.
A maioria dos cursos do SENAI cingese àconstrução civil (assentador de
piso,pedreiropolivalente,eletricistapredial,pinturaemmadeira)
93
,enquantoosdo
SENACsãoafetosaserviços(barbeiro,manicure,
megahair
,preparaçãodeabará
eacarajé,garçomerelaçõeshumanas,higieneemanipulaçãodealimentos)eartes
(pinturaemtela,esculturaemporcelana,velasartesanais).
Carvalho Filho (2004) já reclamava ações como estas, que por meio do
empreendedorismopromovemmaiorcapacitaçãodofuturoegressopararealocação
nummercadodetrabalhoextremamentecompetitivo:
É importantequehaja umamaior reflexão sobre o quesignificacapacitar
para o trabalho, no momento em que a economia mundial reduz
drasticamenteospostosformaisdetrabalho.Acapacitaçãoparaotrabalho
autônomo, empreendedoresustenvelémuitomaiseficaznosentidode
oportunizarageraçãomaisimediatadeocupaçãoeconsequentementede
renda.
93
Alémdestessãooferecidos:fabricaçãodebrinquedos,pinturaemtecido,jardinagem,costura
industrial,panificaçãoemecânicodemotor.Esteúltimo,inclusive,nãoserámaisrealizado,antea
faltadeequipamentoseestrutura adequados.
130
Além destes, funcionam nas dependências da Penitenciária Lemos Brito
(PLB) 8 oficinas de trabalho (Vasourart, Ducarro, Salomon, Requinte Móveis,
Premoldart, Himalaia, Renascer e Frastec), fruto de parceria entre o Estado e a
iniciativaparticular,queempregaram,atéjunhode2008,apenas70internos.
Uma conhecida marca de equipamentos esportivos explorava o trabalho
prisional na Bahia. Em 2007, foram computados 122 costuradores de bola. No
entanto,asatividadesdaempresanaPLB(eoutrosestabelecimentospenitenciários
daBahia)foramencerradasem2008.Asuasaídapaulatinadosistemacarcerário
baianoocasionou uma queda considerável nos postos de trabalho disponíveis no
sistema - nacapitaleinterior,umavezqueelaeraresponsável,sozinha,pornada
menosque34,4%das vagas do“mercadodetrabalhocarcerário”.Assim,apenas
noprimeirosemestrede2008,registrouseum
defict
de38%devagasoferecidase
preenchidas,quandocomparadoaomêsdejaneirodomesmoano.
Conforme dito alhures, é patente, portanto, que a integração do homem
condenado ao trabalho prisional tenha sido feita pela participação ativa da
iniciativa privada, que, dos aproximados 160 empregadores, se encontram
empresas, pessoas sicas, igrejas,
etc.
Noano anterior, somente três entidades
faziampartedo Estado - os Correios,que admitiuvinte eseiscondenadoseas
Secretarias municipais de Agricultura e Saúde de Ilhéus, que juntas absorveram
quatro. Ou seja, 3% de toda a população carcerária empregada. As empresas
privadas que m em seus quadros condenados, em maioria, são afetas aos
terceirosetorprestaçãodeserviços.
Naturalmente, não se pode esperar que o Estado abrace a todos que
cumprem penas; porém, é evidente a necessidade de um maior incentivo e
participação naabertura de frentes de trabalho, para cumprir metas que o ele se
obrigouvisandoaressocialização.
Salientese, ainda, que a obtenção de trabalho por um condenado não
significa que ele será devidamente realocado no mercado de trabalho após a
obtenção da liberdade, pois o interesse maior de sua contratação devese às
facilidadesemenorcustodoqueotrabalhadorlivre.Assim,findooseutempode
131
pena, principalmente para oscondenadosao regime fechado, perdesea vaga, e
voltaseàestacazero:odesemprego.
Nãosemrazão,crescenteestímuloporpartedaSJCDHaodenominado
empreendedorismo, haja vista os cursos profissionalizantes ofertados. O trabalho
intramuros reverbera a realidade externa, onde a flexibilização conduziu ao
incrementodaprecarizaçãodolaborassalariadoeaodesemprego.Aalternativado
empreendedorismotemsidocolocadacomoalternativaparaosquenãoconseguem
umainserçãonomercadodetrabalho.
Nocasodoegresso,alémdasdificuldadesdereingressoaomercadoformal
de trabalho que padece um desempregado, ele enfrenta ainda o rótulo de
ex
presidiário
, muito associado à imagem de criminoso nato, sempre marginalizado.
Logicamente,exceçõesexistirão.
Com efeito, há insuficiência de vagas, quando comparado ao mero de
pessoas que integram o sistema carcerário baiano (item 5.1.6
supra
). Inclusive,
algumas alternativas têm sido utilizadas para dar vazão a esta realidade -
atividades comoa limpezada própria cela, de áreas comuns,enfim, manutenção
dasunidades,têmservidocomopostosdetrabalho.Emboranãoseremunerepor
isso,operasearemição,alémdeservircomoprovade“boacondutacarcerária”,o
queocolocamaispróximodefuturavaganotrabalhoremunerado.
Segundo dados oficiais da administração da Penitenciária Lemos Brito, no
primeiro semestre de 2008, 35% dos seus internos estavam exercendo atividade
laboral,semoucomremuneração.Noentanto,esteaparenteresultadoexitosoao
ser comparado com o ano anterior, revelase como decepcionante, pois houve
decréscimode 30,5% emtodas asespéciesde postos detrabalho e aumento da
populaçãocarcerária.
132
Tabela17– OTrabalhonaPenitenciáriaLemosBrito(2007–2008)
TipodeTrabalho
merodePresosquetrabalham
2007 2008
94
Artesanato 514 438
ManutençãodaUnidade 33 28
EmpresaPrivada(Remunerada) 258 93
Total 805 559
Fonte:Elaboraçãoprópria,combasenosnasinformaçõesfornecidaspelaSJCDH.
AnalisandoosdadosdolaborprisionalnaPenitenciáriaLemos Brito(PLB),
noanode2007,observase,dejaneiroadezembro,aumentode25%deinternos
em atividades laborais remuneradas. Nos seis meses iniciais de 2008, a mesma
realidadenãosereflete,mas,umaquedaacentuadade55%.Dasnoveempresas
parceiras,comoficinasnaPLB,setepromoveramreduçãodepessoaleumadelas
–amaior–comofoidito,passouanãomaisexploraramãodeobracarcerária.
Este é um dado preocupante,afinal, se constata uma crescente população
carcerária.Dedez/2007atéabril/2008foide8,1%,comumataxadesaídadiminuta
de2,6%,oquecausaexcessodeingressonosistema,alargandoogrande
defict
de
vagasepostosdetrabalhoexistentes–oquecontrariaosideaisdetransformação
dohomemcriminosoemsociável,preconizadosnaLeideExecuçãoPenal.
Investese, também, em programas que promovam a educação, já que
grande parcela dos internos nem mesmo completou o ensino médio. A maior
dificuldade encontrada reside na ausênciadelocais apropriadosparaservir como
salasdeaulaoubibliotecas,porestarazãomuitasunidadesnãoconseguemmanter
frequêncianecessáriaàsescolasdentrodasunidadespenitenciárias
95
.
Deacordocomdadosfornecidospelasunidadesprisionais,em2007,11,6%
da população carcerária da Bahia foi atendida como aluna nas diversas escolas
existentes intramuros. Em média, as taxas de evasão foram pontuais, como nos
conjuntos penais de Feira de Santana, Jequié, Juazeiro e na Colônia Lafayete
94
Osdadosreferentesa2008sãosomentereferentesaosmesesdejaneiroatéjunho.
95
Asescolaspenitenciárias,noâmbitodoestabelecimentoprisional,sãocriadaspelaSJCDH,que
contrataprofessoresparalecionaraosinternos.
133
Coutinho,enosdemaishouvegrandeadesão.NaPLBocrescimentoaolongodo
anofoide39%.
Porcerto,atendênciaserádeevoluçãodocontingentedealunoseescolas,
principalmente,comaediçãodaSúmula341doSTJ
96
,queadmitearemiçãopor
meiodeestudo
97
.Umsimplesexemplotemsenacolheitadedadosde2008,antes
das férias escolares, no mês de março, que aponta existirem 1267 alunos
matriculados;20,8%amaisquenomesmoperíododoanoanterior.
Os menores índices de alunos matriculados se constata nasunidadesque
custodiampresos provisórios,enquanto nasque têmpresosdefinitivos osíndices
sãomaiores. Nocontextoglobal, oscondenadosmatriculados constituem 12%da
populaçãocarceráriatotal.Citeseque,noprimeirosemestrede2008,haviaregistro
de 60 professores contratados, embora em nove unidades nenhum delesatuasse
porpornãohaversidoinstaladaaescola.
Recentemente, algumas iniciativas pontuais vêm sendo implementadas, a
partir de 2007, no sistema penitenciário baiano. No Conjunto Penal de Itabuna,
desenvolveseumaoficinademúsicacom20internos;oCentroCulturalItabunense
temumprojetoqueobjetivamontarumcursoparamaestro;aSuperintendênciade
Desporto da Bahia (SUDESB) tem um projeto que visa implantar a prática de
atividades desportivas nas diversas unidades do Estado. Há, ainda, convênio da
SJCDHcomaSecretariadeEducaçãoeCultura(SEC)parapromoverainstalação
dePontosdeLeitura”,queseriammontadosnopátiodecadaunidadeprisionale
serviriamtantoparaosinternoscomoparaosagentespenitenciários.
O Ministério da Justiça em parceria com as Secretarias de Justiça dos
Estadosdesenvolveramumprojetoque mesclaeducaçãoe trabalho,denominado
“Arca das Letras”. Esta iniciativa nasce de ação interministerial (Ministérios da
Cultura,JustiçaeMeioambiente),visandoainstalaçãodepequenasbibliotecasem
96
Verbete:"A frequênciaàcursodeensinoformalécausaderemiçãodepartedotempode
execuçãodepenasobregimefechadoousemiaberto".
97
NoEstadodaBahia,segundoinformaçõesdaSJCDH,temsefixadoqueacadadozehorasde
estudo,abaterseáumdiadepena.
134
comunidades rurais.Caberá aoscustodiados, escolhidos medianteaptidão parao
serviço e interesse, a confecção das arcas, onde serão colocados os livros. Na
Bahia,esteprogramafuncionacomumgrupode21pessoas,sendoqueumadelas
seráocoordenador.Todootrabalhodesenvolvidonesteprogramaéremunerado
98
.
Quase a totalidade dosprogramas e projetosdesenvolvidos pela SJCDH é
direcionada para aqueles que ainda cumprem a pena e são pautados pelas
conhecidas regras de labor e educação. Entretanto, a maior dificuldade de quem
passa pelo cárcere é o retorno ao convívio social, pois, geralmente, o re
enquadramento é árduo, pela própria escassez de emprego no mercado livre de
trabalho, e a ruptura doslaços familiares,profissionais e sociais,que, na maioria
doscasos,éabruptaeprolongadapelarotulaçãodeexpresidiárioou,ainda,que
faz parte do “mundo do crime” - uma qualidade negativa vista como inerente ao
egresso.Enfim,múltiplosfatorespodemservircomopercalçoàreinserçãosocial.
OGovernodoEstadodaBahia, desde2003,busca construirumprograma
que possa servir parapreencherestalacuna,queéfacilmente identificada. Ainda
naqueleano,foiconcebidoo“Menospresos,maiscidadãos”,quecontemplavaem
uma de suasvertentes osegressos. Basicamente, consistia nocadastramento de
empresas que empregassem recémliberados, seja por livramento condicional ou
cumprimento da pena, arcando com parte da remuneração (até R$ 200,00 –
duzentosreais)desteporumano.
Com a mudança na pula da SJCDH, o antigo projeto foi remodelado. A
primeira mudança foi o nome, passando a ser denominado: Liberdade e
Cidadania”. O programa se arrima no cultivo da responsabilidade social do setor
privado, que consiste num modelo gerencial que pretende obter e manter a
sustentabilidade econômica, qualificando eticamente a empresa e a sociedade.
Pretendese construir um conceito de cidadania empresarial, ou seja, promover a
maiorinteraçãoentreempresariadoeprojetodenaturezasocial,umcompromisso
com melhor e maior qualidade da vida em sociedade. O programa já está em
andamento,havendoiniciadoocursodeformaçãodosfuturosegressos.
98
OcoordenadorperceberáR$622,00(seiscentosevinteedoisreais),enquantoosdemaisa
metade.
135
ParaaexecuçãodesteprogramaaSJCHfirmouconvêniocomaFundação
DomAvelarBrandãoVilela,entidadedaArquidiocesedeSãoSalvadorBahia,ea
Pastoral Carcerária. Existem dois eixos de ações para promoção do acesso dos
egressosaomercadodetrabalho:incentivoaoempregoformal;implementaçãode
projetosdegeraçãodeocupaçãoerenda(empreendedorismo).
O Liberdade e Cidadania” tem como públicoalvo os egressos, que
cumpriram a pena ou estejam em livramento condicional, e condenados que têm
direito ao trabalho externo. O objetivo do programa é promover a reintegração
produtiva do egresso, direcionada e acompanhada, por meio de sua inserção no
mercadodetrabalho.OEstadoincentivaasempresasprivadasaparticiparem deste
programa arcandocom50%dosvencimentosdosegressos,limitadoaR$320,00
(trezentosevintereais),porumperíodomáximodeumano.
Os egressos serão escolhidos as consultas ao Serviço Social do
Conselho Penitenciário, Vara de Execuções Penais, SOS Presídios, Agente da
PastoralCarceráriaouPatronatodePresoseEgressos.Emseguida,submetido
a atendimento por equipe multidisciplinar para refinar o grupo ideal para
participardoprograma.
Assim,portanto,definidoogrupo,osegressosserãosubmetidosaumcurso,
ondelhesseráapresentadooprojeto,expondoseusobjetivosemetas.Após,serão
realizadas sessões para verificação de habilidadesinterpessoais, visando resgate
dobomconvíviofamiliar,socialeprofissional.
O curso é chamado de “Preparando para a Liberdade” e conta com
profissionaisdaáreajurídica,sociológica,epsicológica.Enfrentatemasrecorrentes
paraosegressoseservedeacomodaçãoaofuturo
status
.Outrafunçãodocursoé
traçar perfil psicológico e profissional do egresso, para, no momento posterior,
preparálo para os desafios do mercado de trabalho, por meio de dinâmicas e
oficinas,simulandosituaçõesvindourascomoaberturadenegócio,planejamentode
ações,apresentação,dentreoutras.
136
Oprogramaaindacontempladuasfases,ainserçãodoegressonomercado
detrabalho,quepoderáocorrerpormeiodeempresasqueaderiram,eprospecção
de atividade empreendedora. Uma vez que o egresso obtiver a colocação
profissional, a coordenação irá manter acompanhamento, avaliação de seu
desempenho e, ao final,prestar contas, encerrandose, assim, o papel do Estado
para com aquele homem. Esta interação entre Estado, representado na
coordenação do programa, é deveras importante como ação preventiva defutura
recidiva,afinal,apontaSá(1987,p.26):
Assimédecrucialimportânciaofatodoegressoterfamíliaqueoacolhaou
não, e a forma como se dá essa acolhida; a aceitação junto aos seus
gruposdeamizadeedetrabalho;aconfiançaoudesconfiançacomqueé
acolhido;asoportunidadesdeemprego,deautossustentação.
O “Liberdade e Cidadania” é um programa que ainda tem reduzida
abrangêncianocontingentepopulacionaldosistemapenitenciáriobaiano(somente
vinte vagas), por isso o se poder tecer maior análise, vez que não existem
resultados de sua primeira edição. Apesar disso, os seus postulados e a forma
como foi construído, indicam uma transição da segregação à liberdade, que
possibilita ao egresso o autoconhecimento, a conscientização sobre seu papel, e
apoioparaenfretamentodoestigmaquepairasobresiedadisputanomercadode
trabalho.
Outrossim, está em discussão, e, futuramente, poderá ser ferramenta útil
junto a este programa, o Projeto de Lei Estadual n°16.851/2007, de autoria do
Deputado Estadual Fernando Torres, que pretende obrigar as empresas
tercerizadas,quemantémcontratocomoGovernodoEstadodaBahia,areservar,
nomínimo,1%dasuamãodeobraparaegressos(aquelesquecumprirampenaou
estãoemlivramentocondicional).
PireseGatti(2006)anotamexperiênciasimilarnoprojetoReciclandoPapéis
e Vidas, envolvendo egressos da Penitenciária de Brasília, que, num primeiro
momentoeramdescrentescomaempreitada,porém,aofinal,osresultadosforam
compensadores. Entretanto, o maior entrave para a reinserção social reside na
137
“recuperaçãodaautoestima,dosvínculosfamiliaresquesetêm,dasuperaçãodas
‘regrasdacadeia’erecuperaçãodaconfiança”(PIRESeGATTI,2006,p.64).
Implicitamente, a discussão sobre a vida em liberdade auxilia vencer um
grave equívoco alimentado pelo sistema penitenciário: o bom preso será bom
cidadão.A mudançadomundosemliberdadeparaomundodaliberdaderequer
este período deadaptação, pois “o mundo da prisão é completamente diferente,
em muitos pontos antagônicos, daquele existente extramuros” (THOMPSON,
1980,p.12).
Comoafirma,categoricamente,AugustoThompson(1980,p.1314):
Gostaria deanotarque, se adaptaçãoà prio não significa adaptação à
vida livre, há fortes indícios de que adaptação à prisão implica em
desadaptação à vida livre. Dostoieviski, através da dolorosa experiência
como prisioneiro, extraiu a conclusão de que o convicto ‘regenerado’ é
apenas uma múmia ressequida e meio louca. E Papillon atribuiu seu
sucessodeadaptaçãoà vidalivreexatamenteàcircunstânciadetersido
sempre,oinversodeum‘bom’preso.
O sucesso do programa “Liberdade e Cidadania” consistirá em fazer os
futuros egressos desaprenderem tudo que até ali criam ser o modelo
comportamentalparaaliberdade,poiso“bompreso”sóéútildentrodaprisão.
Na esteira do que dizia Alessandro Baratta (1991), assegura Sá (2007, p.
117) que a reintegração social do preso se viabilizará na medida em que se
promoverumaaproximaçãoentreeleeasociedade”.Destemodo,esteprograma
podeserumaferramentaútilparaquepossa“ocárcereseabrirparaasociedadee
estaseabrirparaocárcere”(SÁ,2007,p.117),masnoatualestágionadapodeser
ditoquantoaosseusresultadosefetivos,nemsobreoenvolvimentodeempresase
sociedadecivil.
OEstadodaBahia, talqualo Brasil,ose ocupaemtratara questãodo
condenadoeegressopormeiodepolíticas–enãomerosprogramasouprojetos–
públicas de reinserção social. Há resistência em se instituir planejamento
direcionado a suprir as mazelas e lacunas desnudadas por meio da análise das
estatísticasoficiaisdosistemapenitenciário.
138
5.3.1Pontodevistadoscondenadossobrecárcere,trabalho,liberdadee
ressocialização.
Nos tópicos anteriores foram explorados os dados de todo o sistema e os
programas que são desenvolvidos pela SJCDH. Naturalmente, além das
investigações documentais, para se comprovar a eficiência e eficácia do modelo
punitivoadotado,devese ouvirquem padeceoencarceramento.E,desta imensa
massa carcerária, buscouse o acesso àqueles que se encontram engajados no
“mercadodetrabalhocarcerário”ouintegradosàescola,simbolizandoospilaresda
prisãotransformadora.
Explicase tal opção porque tanto o labor como a educação são as duas
vertentesescolhidascomoformasderessocialização(ediminuiçãodepena).Foram
colhidasasimpressõesdelesemrelaçãoaosistemapenitenciário,ajustiçacriminal,
avidaintramuroseaotrabalhoprisional.
Noentanto,perdeapresentepesquisaum poucodapujançaqueteria,em
virtude de não haver sido possível reprodução das palavras dos condenados
entrevistados,porquantovedadooingressointramuroscomgravador.
E.M.S.cumprepenaemregimefechado.Foicondenadoa23anospelocrime
de homicídio e roubo. É pai de dois filhos, estudou até a série, e antes do
cárcere percebia em torno de um saláriomínimo. Ao dialogar sobre a sua
condenação, em nenhum momento se disse injustiçado. Atribui seu ingresso no
“mundodocrime”pornecessidadeeconômica,edevidoaousodedrogasroubou
parasustentarovício.
Elecumprepenahá8anosedesde2004trabalhanocárcere.Iniciouatravés
do artesanato, e em seguida obteve vaga na oficina Ducarro. Neste interregno
participoudedoiscursos:umdefabricaçãodebrinquedoseoutrodeassentamento
depiso.Asseveraqueoscursoslheforamdeverasúteis,poissinalizamperspectiva
de obter rendimentos no mundo externo. Se sente qualificado para enfrentar o
mercadodetrabalho,pormeiodopróprionegócio.
139
Muito embora se entenda como “ressocializado”, E.M.S se sente
envergonhadoperante seusentespróximos e diz ser do seu desejoreverter este
quadroabandonandoqualquervínculofuturocomocrimeededicandoseaolabore
aoestudo.
J.R.S.C.foicondenadopordoisroubos,totalizandoumapenade12anose5
meses,estandocustodiadodesdeoanode2000.Antesdeserpresoeratécnicode
dedetizaçãonumaempresaprivada.Percebiaemtornodedoissaláriosmínimose
meio,écasadoetemcincofilhos.Aotempododelitoerausuáriodedrogas.
A história de vida no cárcere de J.R.S.C. é, no mínimo, curiosa. Ele foi
condenadoaumdosroubos –oqual admitehavercometido,sendolhe imposta
pena em regime semiaberto. Naquele estabelecimento, fez um curso e iniciou a
trabalhar.Posteriormente,foicontratadoporumaempresaechegoua percebero
equivalenteatrêssaláriosmínimos.Informaquenaqueleambientedetrabalhonão
percebeuqualquerdiscriminaçãoporsuacondiçãodecondenado,inclusive,revela
queosseuspatrõestinhammuitaconfiançaemsi.
Ocorrequeeleterminaporseenvolvercomalguémquelheimputapráticade
novoroubo–elenegaperemptoriamenteestedelitoesenteseinjustiçado.Como
fruto destanovacondenação,regride deregime, do semiabertoparao fechado–
onde,hoje,cumprepena.
Num primeiro instante, a sua família o relegou, porém, com o passar do
tempo,asvisitasforamsetornandoregulares.Atualmente,encontraresistênciapor
partedafamíliadesuaesposa.Pensa,aosairdocárcere,abrirumnegóciopróprio
valendosedosensinamentosqueobtevenoscursosqueparticipou.
J.R.S.C.afirma,categoricamente,queaprisãoparaeleéumabarreiraque
foi vencida, se arrepende e envergonha doprimeiro crime (o único que assume),
porém,nãosesentediminuídoporisso,sedizcientedequeoexpresidiáriosofre
restrições,masesperanãoencontrálas,comoocorrianoseuantigotrabalho.
140
J.C.S.énaturaldacidadedeEntreRios,interiordaBahia.Cumprepenade8
anos por roubo, foi preso em 2003 e estudou até a 4ª série. Nunca tinha usado
drogas, e ganhava, antes de ser preso, em torno de dois salários
mínimos.Trabalhava com perfuração de poços de petróleo para uma empresa
terceirizadadaPetrobrás.
Informa que desde que se viu encarcerado começou a trabalhar no
artesanato.Atéhojenãofeznenhumcurso,somenteparticipadaescola.Paraele,
sua prisão foi fruto de injustiça, porém, destaca que, apesar das suas graves
mazelas(citandoagestãodesaúde),tevealiboasoportunidades.
Dizquesuafamílianãovemlhevisitaremvirtudedascondiçõeseconômicas
precárias e que, quando obteve direito à saída temporária, foi bem recebido por
todos eles em sua cidade natal. Contudo, assegura que embora deseje voltar a
residiremEntreRios,nãotrabalharáláesimemcidadescircunvizinhas,poisteme
ser visto como criminoso”, uma pessoa sempre vista com reservas pelos outros.
Reclama J.C.S. que a justiça” não dá oportunidade às pessoas de demonstrar
quem elas são e que, após a condenação, ela as esquece e humilha. Indagado
sobreosignificadodoqueéprisão,dissequeeraumsubmundo,umaescolapara
coisasboaseruins.
E.S.sofreuumacondenaçãode9anos,porroubo.ÉnaturaldePojuca/BA.
Inicioudizendoserasuacondenaçãoinjusta,quehaviasidopresoantes,em1997,
poroutrofato,sugerindoqueasuanovaprisãomotivousenaanteriorpassagem
pelaPolícia.Exerciaafunçãodeoperadordejatodeareia,emempresaterceirizada
daPetrobrás,percebendonãomaisdoqueumsaláriomínimoemeio.
A nova condenação ocorreu em 2005 e desde que chegou ao cárcere
encontrou como trabalho prisional, o artesanato. Porém, não crê que lhe será
deveras útil uma vez livre. A prisão foi marco negativo para ele, pois perdeu o
emprego, sua companheira com poucos meses o abandonou, levando consigo o
filhodocasal,esuafamílianãotemcomovisitarlhe,porrazõesfinanceiras.
141
A expectativa de E.S. é de reaver a liberdade, mas não cogita voltar a
Pojuca/BA,poissesenteperseguido porservistocomoalguémligadoaatividades
criminosas.Dizquepretendeafastarsedequalquercoisaqueovinculeaocrime,
paramostrarparasipróprio,devidoaoshorroresqueenfrentou,queécapazdisso.
Para ele, aprisãoésubmundo, masque temcomose regenerar,pois“você tem
queverseulado”.
Oangolano A.I.C.E.foicondenadoportráficointernacionaldedrogase se
encontra preso desde 2006. Disse que era residente em o Paulo, porém, se
encontravairregularnoBrasil.Épaideumacriança,cujaeébrasileira.Antes
deserpresofazia artesanatonas ruasdacapitalpaulista.Dizqueo crime,para
ele,ovaleu apenaequea prisão noBrasilera muitodura,aindaassim quer
ficarnopaís.
J.R.A.,naturaldeIlhéus/BA,foicondenadoaumapenade5anose4meses,
porhaverpraticadoroubo.Informouquetrabalhavacomocabeleireiro,ganhavaem
torno de um salário mínino e havia estudado até a série. Assim que foi
recambiado de Ilhéus para Salvador, iniciou a trabalhar no artesanato e como
cabeleireiro.Entendequeasuacondenaçãofoijustaequereavaliaacondutacomo
equivocada, porém, o se sente envergonhado. Os laços familiares, a princípio,
foramabalados,noentanto,comopassardotempo,sesentemaptosarecebêlos
devolta.Porém,achaqueasociedadenuncaoaceitará.
Afirmaqueaprisãoemsuavidafoialgonecessário,uma“obradivina”.Hoje,
convertido,pensa,apóssair,tornarsecantor
gospel
.Dizcontarcomapoiodosseus
pares,membrosdaigrejaevangélicaquefazparte.
E.C.S.foicondenadoa7anose9meses,acusadoderoubo.Paraele,queé
naturaldeGuanambi/BA,acondenaçãofoijustaeoquelheservedealimentoéa
esperança. Segundo afirma, as pessoas acham que o cárcere não regenera.
Mesmoassim, quervoltara residirnasuacidadenatal, coma suafamília,queo
temrecebidobememsuassaídastemporárias,emboraaindasesintaabatidocom
a própria condenação. Disse, também, que assim que ingressou no cárcere
participou de atividades laborais, não obstante nada lhe acrescentou, pois já tem
142
profissão definida (mecânico). Fez constar que existe proposta de emprego para
ele,oquereforçariasuaesperançanumregressomenosárduo.
Asexperiênciaspessoaisacimareportadas,àexceçãodasduasprimeiras,
foramcolhidasdeinternosquecumprempenaemregimesemiabertoque,pouco
a pouco, se descortina à liberdade. Os discursos se entrelaçam no medo do
porvir, uma possível repulsa social, especialmente para aqueles que vivem em
cidadesdointerior.
Avidaintramuros,paraamaioria,é umaterrívelexperiênciaem queopera
uma transformação no ser humano. A partir dali, eles devem ser irrepreensíveis,
extremamentecorretos,sobpenadesemprerecairnomundodocrime”.Notese,
outrossim,queotrabalhonemsempreévistocomoformadequalificaçãopessoal
oumeiodese realocarnomercadodetrabalhoexterno(livre);porém,comouma
formadeestarocupadoeobterdireitos,como àreduçãodapena.
Os entrevistados que estavam submetidos ao regime semiaberto estavam
somentematriculadosnaescola,nãolheoportunizaramqualqueropçãodetrabalho,
salvooartesanato;oquecontrariaamáximadosistemaondequemestarporsair
deveriatergraumaisacentuadode“socialização”.
A prisão é vista como um submundo, uma nova realidade que tem regras
próprias e também porque ali é, de fato, escola para o crime. O alegado
“esquecimento” da Justiça e as péssimas condições de habitação, saúde e
alimentaçãoreiteramparaocondenadoummenoscaboporsuaprópriaimageme
pessoa, assim como reforçam sentimentos de raiva e ódio por não serem vistos
comosereshumanos.
Muitosdosentrevistadosdeixaramevidentequeocárcereserveàqueleque
pretendeviversobasregrasvigentesdasociedade(insertosnalegalidade)eaos
demais que pretendem incursionar pelo mundo do crime” (à margem da
legalidade).Estaéumaopçãodelicada,quecadacondenadoenfrentaráaopassar
a conviver sob as regras da prisão. O que poderia ser construído, para melhor
assessorálos nesta escolha seria a promoção de esperança de sucesso na vida
143
secular(dentrodoslimitesdalegalidade),quepassarápormaiorgraudeinteração
entreexterno(sociedade)einterno(presos).
Caso contrário, se permanecer o afastamento e a falsa crença de que por
meiodasegregação,nosmoldesvigentes,aprendeseaseexerceraliberdade,as
chances de reversão dos efeitos negativos da prisão sobre homem e, por
conseguinte,asociedadesãoassazexíguas,paraquenãosediga,nenhuma.
É necessária mudança de paradigma no que concerne à pena criminal;
reconheceraausência defunçãopositivada prisãosobreohomeme sociedade,
paraapartirdaí,buscarseumaformamaissinceraemenosviolentadesanção.
5.4 AONDADEPRIVATIZAÇÃOEOSISTEMACARCERÁRIOBAIANO.
Os Estados Unidos da América, na década de noventa, iniciaram um
programa de privatização de prisões, que chamou a atenção de outros países,
dentreeles,oBrasil.OtãopropaladofracassodotratamentoprisionalpeloEstado
tamminspirougovernosapensaremqueaalternativamaisadequada,inclusive,
parafinsdeeconomiadecustosfosseaentregadasprisõesaoparticular.
Entrementesdescortinaseaverdadeiraintençãocomestanovapolíticapara
ocárcere,aoseconstatarque“omodelodeparceriaprevalecentenosEUAéoda
remuneraçãodasempresascombasenosnúmerosdepresoscustodiados.Cadeias
superlotadas propiciam taxas de retorno mais generosas a seus administradores”
(MINHOTO,2008).Assim,nosistemacapitalista,oparticularnãoinvestirásemque
hajaoretornodevidoparaoinvestimento.
Experiênciasnegativas,comoomassacredoCarandiru,servemdeesteioao
discursoprivatista,aliadoàalegadaineficiênciablicaparapodercumprircomas
metas e funções que se destinaria ao cárcere, alémde supostocusto maisbaixo
(RODRIGUES,1995,p.2531).
144
Porém,esteúltimoargumentoérefutadoporLemgruber(2002),queinforma
que os empresários m buscado a redução de custos para que as prisões
terceirizadas sejam mais lucrativas, o que promove queda de qualidade,
principalmente,damãodeobraespecializada.
Adverte Lemgruber (2002, p. 174) que “privatizar prisões é permitir que o
dinheiro dos impostos encha o bolso de aventureiros e que nosso já combalido
sistemadejustiçacriminalsetornerefémdeinteressesdequemlucracomocrime”.
A privatização soou no Brasil como o futuro das prisões, no entanto, a
realidade tem demonstrado que pouco se mudou. Não obstante, como revela Sá
(2003),asprisõesprivatizadassemostraram,aprincípio,mais“humanizadas”,seja
pela arquitetura, conservação do espaço e corpo funcional mais propenso às
práticas de ressocialização. A obtenção do lucro com o encarceramento tem
demonstradoaverdadeirafacedonegócioqueéaprivatizaçãodaprisão.
Na Bahia, existem, atualmente, as unidades prisionais de Valença (01),
Juazeiro (01), Serrinha (01), Itabuna (01) e Lauro de Freitas (01). Funcionam em
regimedecogestãocomumaempresaparticular, tendooEstadoaobrigaçãode
construir a estrutura física, sendo que compete à empresa a sua administração e
exploração.Aexceçãododiretorgeral,diretoradjuntoeochefedesegurançaque
são funcionários públicos, todos os demais funcionários que integram são da
iniciativaprivada,cujacontrataçãocabeàempresagestora.
SegundoaSJCDH,estasunidadesabrigam1.789presos,sendoocustode
cadaumdelesestimadoemR$1.500,00(hummilequinhentosreais).Todasestas
unidades têm mero definido de custodiados, não podendo haver superlotação,
sob pena de configurar quebra contratual, o que implica em maior dispêndio de
verbaspúblicas.
Podese dizer que a experiência baiana apresenta pontos positivos e
negativos.Os númerosdemonstram que a maioria destas unidades emcogestão
tem altos índices de presos envolvidos em atividades laborais e educacionais;
145
uma rede de serviços (médico, psicológico e assistência jurídica) úteis ao
custodiado,quenãosãotãocomunsnasprisõespúblicas.
Contudo,amaioriadelastemumapopulaçãosempreaquémdoseulimitee
carecemsempredeinvestimentosestruturaisedepessoal,oqueimplicaemcustos
adicionais e incremento dos efeitos negativos da prisionização sobre os
condenados.Notese, também,que o custo de manutenção das unidades emco
gestão é deveras alto, pois em média um preso detido em prisões públicas, no
Brasil, sai aos cofres públicos entre R$ 600,00 (seiscentos reais) e R$ 1.000,00
(hummilreais)(GOMES,2008,p.200201).
A solução do modelo carcerário adotado pelo Brasil não perpassa pela
entregadaschavesàiniciativaprivada;mas,aumamudançadecultura,autilização
emmenorescaladaprisãoeasuamaiorinteraçãocomasociedadelivre.
146
6. CONCLUSÕES.
O epílogo é um momento importante em qualquer trabalho acadêmico, as
conclusões são ápice do labor empreendido. No entanto, nem sempre significam
esgotamento do temaobjeto do estudo ou que as hipóteses alçadas tenham sido
comprovadas. Napresentedissertação,as inferênciasexpendidastraduzemqueo
debate sobre Prisão e Ressocialização não se encerrará, pelo menos, até que
aquelasejasuperadaeque,apesardosmaisdeduzentosanosdesuaexistência,
revelasesemprecomoassuntocandente.Aoinvésdeassertivas,quedefiniriamos
destinos da pesquisa como fronteiras, nasceram indagações, estímulos a uma
constanterevisãoereleituradodebateencetado.
Aprisão,longedequalquerdúvida,éareaçãojurídicaaodelitoqueoBrasil
adotou como principal. Quase que à totalidade das penas criminais  sejam elas
fixadasnoCódigoPenalouemleisespeciaiscominaseàprivaçãodeliberdade.O
Estado ao adotála cuidou de promover a sua legitimação jurídica, por meio do
reconhecimentonaConstituiçãoFederalenalegislaçãofederalvigente.Eofez,sob
argumentaçãopolíticatributáriadoiluminismo,seraprivaçãodeliberdademaneira
racionalemaishumanadesepunir.ODireitoPenalseincumbiudeconstruirteorias
quealicerçaramaprisãoservindocomobaseteóricadesualegitimidade.
O atual Código Penal, no artigo 59, estabelece que a pena criminal deverá
atender aos critérios de repressão e prevenção. Com isso, impõese à prisão o
deverderessocializaçãodocondenado.
OsrecentesíndicesdecriminalidadetêmimpulsionadooEstadoarediscutiro
tema Segurança Pública e, também, abordar o sistema penitenciário com mais
contumácia. Omedo e aincerteza compõem um quadro que revitalizaopapelda
prisãocomoinstrumentodecombateaocriminosoeaocrime.
Todo o discurso que se erige ante este novo quadro é marcado por uma
irracional ânsia por soluções pidas e eficazes a problemas antigos da realidade
147
brasileira, que emergem com mais pujança e visibilidade. Tratamse questões de
ordemsocialpormeiodarepressãopolicial.SubstituiuseoEstadoSocialpeloPenal.
Neste combate, propositalmente concebido sob prisma maniqueísta (“bem
versus
“mal),seutilizaoEstadodoDireitoPenalcomoaformadecontrolesocial
institucionalizadamaisefetiva.Esteramodasciênciasjurídicas,porsuanatureza,é
seletivo,poisacriminalizaçãoprimária(descriçãodecondutaproibidaemlei)jáse
constitui como meio de definir aqueles que simbolizam o mal”: os criminosos.
Evidenciase, então, que a cominação legal de condutas proibidas pode ser
associadaadeterminadosgrupos.
O Estado define, por meio de lei, quem são os delinqüentes. Eles não
nascem,sãoforjados,politicamente,deacordocomosinteressespreponderantes
paraacriaçãodalegislaçãocriminal.E,aestes,namaioriadoscasos,destinase
aprisão.Naturalmente,falasedogrossodaquelesquecometemcrimes.Existem,
por certo, uns e outros que movidos por emoções ou outros sentimentos
enveredamporestecaminho,sempassarempelaseleçãoaquiexposta.Inclusive
estes, havendo
passado pelo sistema penal
”, se igualam àqueles selecionados,
sobumúnicoestigma.
A privação de liberdade é utilizada, de forma indiscriminada, como solução
frenteàescalada dosníveisdecriminalidade.Pensasequea suacontençãodar
seá por meio de incremento das formas de repressão e punição, entrementes, a
realidadenãocondizcomestalógica.Cadavezmais,àmedidaqueseinvestenesta
política repressiva, marcada pelo encarceramento em massa, os resultados
apresentadosnãojustificamasuamanutenção.Ocorre,emmuitoscasos,oinverso.
Ademais, o cárcere ao invés de promover ressocialização, função que se declara
comosua,terminaporreproduziraprópriacriminalidade.
Aconcepçãodeprisãocomoambienteinóspitosetraduznarupturadavida
emliberdade,comaquebradelaçosdevínculosocial,comofamíliaeemprego;na
mortificação da individualidade (a adequação obrigatória aos padrões
standart,
o
“bom preso”); nos excessos praticados em nome da disciplina pela administração
(surraseabusosdepoder);asssimascondiçõesdesalubridadeeacomodações
148
desagradáveis;enfim,todoumconjuntodepráticasquesãodiametralmenteopostas
aoquesetemporviveremliberdade.
Assim,pensase,levianamente,emtransformarohomemquedelinqueemser
humanoútilàsociedade.Mas,a soma destesfatorespotencializaaespecialização
noscaminhosdadelinquência.Aquelesqueseafastamtornamseexceções.
Oprojetoprisionalnasce,noséculoXVIII,comascasasdecorreçãoinglesas,
que objetivavam desenvolver naquela sociedade a cultura do trabalho. O
encarceramento era dirigido a vagabundos, pequenos criminosos e delinquentes
juvenis.Ouseja,acustódiaserviriacomoformadesecompelirestessujeitos,que
aindanãoseencaixavamnosinteressesgeraisdocapitalismoincipiente,adesejar”
viver para o trabalho.Servia,tamm, parainfligir temor àquelesquemesmo não
querendosesubmeteraotrabalholivreoptavamporelecomoformadeesquivarse
doencarceramentoetrabalhoforçado.
Uma vez que se havia transformado a antiga população campesina em
industrialeurbana,restouàprisãoafunçãodecustodiaroscriminosos.Porém,não
sedesgarroudesuavinculaçãocomomodeloeconômicoquemotivaraaexistência
daancestralcasadecorreção.
O cárcere passa a servir aos interesses capitalistas, no liberalismo como
sinônimoderepressãoaosanarquistasesindicalistas,no
welfarestate
cuidandoda
produção do exército de reserva e, hodiernamente, servindo de depósito de
pessoas,umaterrodesereshumanosdescartáveis.
A relação entre cárcere e capitalismo se evidencia até o presente e,
dificilmente, aquele se desvencilhará deste. Necessário, tamm, salientar que a
prisãofoiutilizadanassociedadescomunistascomopena.Noentantoofomentoera
distinto: político, em suma maioria. Porém, com a queda do Muro de Berlim e do
regimesoviéticopodesedizer(excepcionandoseCuba,ChinaeCoréiadoNorte)
queomundoécapitalista.E,foinestemodeloeconômico,queocárcereseamoldou
ecriousólidasraízes.
149
Curiosamente,aliadoaodiscursopunitivodemassificaçãodaprisão,temse
insistido que é possível obterse a ressocialização do criminoso. Desde a sua
primitiva formatação, atribuise à prisão pecha de pena mais humanitária. Talvez,
adotadacomoreferencialasseverassançõesdaantiguidadeoumedievo.Nãosem
razão, cunhouse o ideal de ressocialização por meio da prisão. Quer dizer, o
criminoso éalguémquesedesvioudospadrõescomportamentaisvigenteseque,
por isso sofrerá o castigo tido como justo. A punição deverá ser marcada pela
transformaçãocompulsóriadocriminosoquefoicondenado,ametaétêlocomoútil
àsociedade.
Abase desteconceitoderessocializaçãoécentrada,basicamente,emdois
pilares: educação e trabalho. A maioria dos sistemas penitenciários tem
desenvolvido projetos que envolvam um ou outro. Na Bahia, existe uma série de
programasvoltadosparafomentodotrabalhoeestudointramuros.
A quimera ressocializadora cruzou séculos sendo presente em qualquer
discurso oficial sobre a prisão. Dizse, inclusive, que esta é um mal necessário.
Sabesequeestafunçãodificilmentesepromoverá;porém,crêse,comleviandade,
comopossível.
Noentanto,foiprecisoqueteóricosdaCriminologiaCríticarompessemcom
esteparadigma,diagnosticandoocárcerecomoeleé: seletivo eestigmatizante.A
realidadedotratamentopenitenciáriorevelaque,nasatuaiscondições(digase,que
não se distanciam muito das primitivas), indica que em raros casos darseá a
almejada ressocialização. É um conceito irrealizável. Seja porque as condições
existentesnãobastamouporquenãosepodeimpornovasocializaçãoaninguém.
Poderseiaindagarseestariaemcriseosistemapenitenciário.Arespostaa
estequestionamentoénegativa.Osistemapenitenciáriofoiconcebidoparaservirao
capitalismo,nãoaoshomensqueaelesãosubmetidos.Nãohácrise.Nemcolapso.
A prisão é um estigma sobre o homem. Tratase de marca invivel,
pom, vista por toda a sociedade e por ele próprio, ao ponto de não se crer
como possível o seu afastamento do “mundo do crime. Ou seja, apesar de se
150
proclamar os fins do modelo punitivo com a ressocialização, os meios
empregadosapontamemsentidodiverso.
Com efeito, demonstrouse que tudo o que se aponta como mazela da
prisãoécondiçãoínsitaàsuaexistência.Ouseja,odebate,parasepoderevoluir,
deve ser conduzido no sentido da superação do cárcere enquanto pena criminal.
Quiçá, esta etapa soe assaz radical. Assim, portanto, como recomenda Barata
(1991), o caminho mais próximo seja propiciar maior interação entre a prisão e a
sociedade.Oobjetivodacustódiaéqueocondenadoregresseaoconvíviosocial.
Desta forma, somente se pode ensinar alguém preso a viver em liberdade se as
zonasdeintersecçãosetornemmaiores.
A colheita dos dados oficiais do sistema penitenciário baiano ratifica as
observaçõesexpendidasacercadasfunçõesocultasdoinstitutoprisão.Seleciona
seumperfilde“cliente”,queconformeseextraidaleituracríticadetaisíndices,o
escolhido é um homem ou mulher; em suma, jovem, com baixa escolaridade,
geralmentenegrooupardoedebaixarenda.Arespostaofertadapeloscondenados
entrevistadosdemonstrae expõeasegundafunçãoocultadocárcere,consistindo
na preocupação que estes têm em relação ao estigma de criminoso que lhes é
atribuídopelasociedade.
Não há uma política blica de Estado para enfrentar a questão de frente.
Existem experiências e programas que vão artesanalmente se prestando ao
combate dos males que advém do cárcere, tanto para o egresso, como para a
sociedade.Amaioriadosprogramasblicosdestinadosaocárcere,queincentivao
laborprisionaleoestímuloàeducação,revelaseincapazdeatingiratotalidadedos
aprisionados. O trabalho intramuros, para a maioria dos condenados, não tem
utilidadefutura;comoexemplooartesanatoeo“apoioaoestabelecimento”servem
comoocupaçãodotempoociosoeoabatimentodapenapormeiodaremição.As
atividadeslaboraisquesãoremuneradassomenteservemaocondenadoduranteo
seu tempo de clausura, pois as empresas que exploram o trabalho prisional não
absorvemosegressos.
151
Recentemente, a SJCDH revitalizou um programa dirigido aos futuros
egressos(denominado“LiberdadeeCidadania”),quetemporescopopreparálose
acompanhálosnosprimeirospassosnavidaextramuros.Oobjetivoédepromover
um retorno menos tortuoso à sociedade, contando com uma assessoria que lhe
possibilite sentirse amparado e não tão sozinho. Soa, a princípio, como uma
evoluçãoante os tradicionais programas desenvolvidos, muito embora, ainda, não
se possa tecer maiores ponderações sobre os resultados práticos, em virtude da
primeiraediçãodoprogramahaversidolançadonesteano.
Osprojetoseprogramasquetêmaeducaçãocomoobjetocentralpadecem
porfaltadeprofissionaisdoensinoeestruturafísicaparaabrigar(as?)àsescolas
primáriasecursosdealfabetização.
Asaídadaprisãoésemprerepletadedúvidasetemores,principalmenteporque
pairasobreofuturoegressooestigmadeseralguémligadoao“mundodocrime”.
Vencerestabarreiraéumalutaárduaenecessáriaparaaefetivareinserção
social,pois“representaoresultadodapedagogiadaociosidade,daimprodutividade,
doterror,eda contraditoriedade, empregadanosistemapenitenciáriobrasileiro.A
saída desses homens e mulheres da prisão dáse sem nenhum planejamento
prévio”(CARVALHOFILHO,2004).
Os moldes atuais do sistema penitenciário baiano somente reforçam a já
conhecidahistóriadefracasso”daprisão.Asuperlotaçãodasunidades,opaulatino
crescimento populacional carcerário, o alto índice de reincidência, a falta de
perspectiva futura para a imensa maioria dos condenados são ingredientes deste
preocupantequadro.
Outrossim, nem mesmo a onda de privatização de estabelecimentos
carcerários, importada dos Estados Unidos da América e Europa, se demonstra
como soluçãoideal parafinsderessocializaçãodocondenado.E, nem mesmo, é
menoscustosaaoscofrespúblicos.
152
O projeto capitalistada prisão prevê todasestas mazelas transcritas,assim
comonomundolivretemsecomoprevisívelagrandemassadedesempregadose
diferençassociais.Ocárcereéhojeremodeladoparaservircomograndedepósito
deindesejáveis.Geralmente,aquelesexpurgadosdarededeproteçãosocialedo
mundo do trabalho. O que conduz Carvalho Filho (2004) a concluir que a
improdutividade do sistema penitenciário é produtiva! Produz sujeitos objetiva e
subjetivamente sequelados e por isso de alguma forma produz a reincidência
criminaleassimampliaosíndicesdeviolênciaurbana”.
Romper com este conceito é mister para se empreender no cárcere um
câmbio de metas e de realidade. Devemse reconhecer as funções ocultas como
latentesaseleçãoeestigmatização–eosefeitosnegativosdoaprisionamentona
vidahumana.Nessaperspectiva,aconstruçãodepolíticaspúblicaspenitenciárias,
quepossibilitemrealengajamentoeenvolvimentodocondenadocomasociedade,
sefaznecessáriasparapoderdiminuirasdificuldadesqueesteencontraránoporvir.
Nemsempreoepílogosignificaoexaurimentodotema.Nopresenteestudo
sobre Prisão e Ressocialização, pautado no sistema penitenciário baiano,
constatamseastãoanunciadaslacunasefalhasdaprisãoeabresemaisumavia
para se discutir as alterações no modelo punitivo, para que a prisão deixe ser
apenastomandoporempréstimopalavrasdeDostoieviskia“casadosmortos”.
153
REFERÊNCIAS
AGUIAR,UbirajaraBatistade. Osistemapenitenciáriobaiano:aressocialização
easpráticasorganizacionais. 2001. Dissertação(MestradoProfissionalem
Administração)–EscoladeAdministração,UniversidadeFederaldaBahia,
Salvador,2001.
______. Osistemapenitenciárioeosdireitoshumanos:aressocializaçãoeas
práticasorganizacionais. BahiaAnálise&Dados,Salvador,v.14,n.1,jun.,2004.
Disponívelem:
<http://www.sei.ba.gov.br/publicacoes/publicacoes_sei/bahia_analise/analise_dados/
pdf/direitos_humanos/18_ubirajara_aquiar.pdf>Acessoem:28jul.2008.
ALVESJÚNIOR,Tomas. Annotõestheoricasepráticasaocódigocriminal,
RiodeJaneiro:F.L.Pinto,18641883.v.1
ANDRADE,VeraReginaPereirade. Ailusãodesegurançajurídica:docontrole
daviolênciaàviolênciadocontrolepenal. PortoAlegre:LivrariadoAdvogado,1997.
______. Sistemapenalmáximoxcidadaniamínima:códigosdaviolêncianaera
daglobalização. PortoAlegre:LivrariadoAdvogado,2003.
ARAÚJO,JoãoMarcelo(Org.). Sistemapenalparaoterceiromilênio:atosdo
colóquioMarcAncel. RiodeJaneiro:Revan,1991.
ARON,Raymond. Asetapasdopensamentosociológico. TraduçãodeSérgio
Bath. 4.ed. SãoPaulo:MartinsFontes,1993.
BAHIA.SecretariadaJustiça,CidadaniaeDireitosHumanos. PlanoDiretordo
SistemaPenitenciáriodoEstadodaBahia. Salvador,[2006].
BARATTA,Alessandro.Resocializaciónocontrolsocial:porumconceptocríticode
“reintegracíonsocial”delcondenado. In:ARAUJOJÚNIOR,JoãoMarcelode(Org.).
Sistemapenalparaoterceiromilênio:atosdocolóquioMarcAncel. Riode
Janeiro:Revan,1991.
154
BARATTA,Alessandro. Criminologiacríticaecríticadodireitopenal:introdução
àsociologiadodireitopenal. TraduçãodeJuarezCirinodosSantos. Riode
Janeiro:Revan,1997.
BARRETO,Tobias. Estudosdedireito;obrafacsimilar.PrefáciodeJosé
ArnaldodaFonseca.Brasília:SenadoFederal,2004. (Históriadodireitobrasileiro.
Direitopenal;5)
BASTOSNETO,Osvaldo. Introduçãoàsegurançapúblicacomosegurança
social:umahermenêuticadocrime.Salvador:Dimica,2006.
BATISTA,Nilo. Introduçãocríticaaodireitopenalbrasileiro. RiodeJaneiro:
Revan,1990.
BAUMAN,Zygmunt. Comunidade:abuscaporsegurançanomundoatual.
TraduçãodePlínioDentsien.RiodeJaneiro:JorgeZahar,2003.
______.Globalização:asconseqüênciashumanas.TraduçãodeMarcusPenchel.
RiodeJaneiro:JorgeZahar,1999.
______. Omalestardapósmodernidade.TraduçãodeMauroGama,Cláudia
MartinelliGama.RiodeJaneiro:JorgeZahar,1998.
______.Temposlíquidos.TraduçãodeCarlosAlbertoMedeiros. RiodeJaneiro:
JorgeZahar,2007.
______.Vidasdesperdiçadas.TraduçãodeCarlosAlbertoMedeiros.Riode
Janeiro:JorgeZahar,2005.
BECCARIA,Cesare. Dosdelitosedaspenas.TraduçãodeTorrieriGuimarães.
SãoPaulo:Hemus,1983.
BELING,ErnestVon. Aaçãopuníveleapena.TraduçãodeMariaCarbajal.São
Paulo:Rideel,2007.
BENTHAM,Jeremy.Tratadodaspenaslegaisetratadodossofismaspolíticos.
Leme,SP:Edijur,2002.
155
BETTIOL,Guiseppe. Oproblemapenal.TraduçãoenotasdeRicardoRodrigues
Gama. Campinas:LZNEditora,2003.
BERGALLI,Roberto.CriminologiaemAméricaLatina:cambiosocial:normatividad
ycomportamientosdesviados.BuenosAires:EdicionesPannedille,1972.
BISSOLIFILHO,Francisco. Estigmasdacriminalização:dosantecedentesà
reincidênciacriminal
.
Florianópolis:ObraJurídica,1998.
BITENCOURT,CezarRoberto. Falênciadapenadeprisão:causasealternativas.
SãoPaulo:RevistadosTribunais,1993.
______. Tratadodedireitopenal:partegeral,volume1. 9.ed.SãoPaulo:
Saraiva,2004.
______. Tratadodedireitopenal:partegeral,volume1. 13.ed. SãoPaulo:
Saraiva,2008.
BORGES,Ângela. Ocapitaleamãoinvisíveldotrabalho:notasdebatessobrea
centralidadedotrabalhonocapitalismocontemporâneo. CadernoCRH,Salvador,
n.33,p.179196,jul./dez.2000.
______. Mercadodetrabalhoevulnerabilidadesocial.Trabalhoapresentadono
SEMINÁRIO“TRABALHOEVULNERABILIDADE”,2002,Salvador.Fórum
PermanentedeDiscussãoSociedadeBrasileira:ProcessosdeVulnerabilidadeede
ExtensãoSocial.EscoladeServiçoSocialdaUCSal,Salvador/Bahia.
______.Educaçãoemercadodetrabalho:elementosparadiscutirodesempregoe
aprecarizaçãodostrabalhadoresescolarizados. GestãoemAção,Salvador:
ProgramadePósgraduaçãodaFaculdadedeEducaçãodaUFBA,v.9,n.1,p.85
102,jan./abr.,2006.
BRASIL.(Constituição). ConstituiçãodaRepublicaFederativadoBrasil,1988.
promulgadaem5deoutubrode1988.4.ed.SãoPaulo:Saraiva,1990.168p.(Série
LegislaçãoBrasileira).
______. DecretoLeinº2.848,de7dedezembrode1940.CódigoPenal.
______. DecretoLeinº3.689,de3deoutubrode1941.CódigodeProcessoPenal.
156
______. Leinº7.210,de11dejulhode1984.InstituiaLeideExecuçãoPenal.
BRAVEMAN,Harry. Trabalhoeforçadotrabalho.RiodeJaneiro:Guanabara,1987.
BRUNO,Aníbal. Direitopenal. 3.ed. RiodeJaneiro:Forense,1967.t.1
______.Direitopenal. 4.ed. RiodeJaneiro:Forense,1984.t.3
BUSATO,PauloCésar;HUAPAYA,SandroMontes. Introduçãoaodireitopenal:
fundamentosparaumsistemapenaldemocrático.RiodeJaneiro:LumenJúris,2003.
CARRARA,Francesco. Programadocursodedireitocriminal,partegeral.
TraduçãodeRicardoRodriguesGama. Campinas:LZNEditora,2002.v.2
CARVALHOFILHO,MiltonJúliode. Tepreparaparasair:sínteseanalíticasobrea
situaçãodosegressosdosistemapenitenciáriobrasileiro.[2004] Disponívelem:
<www.carceraria.org.br/pub/publicacoes/33604d3f75bcb544d130f191f30e7c2c.doc>
Acessoem:09jul.2008.
CASTEL,Robert. Lastrampasdeexclusión. BuenosAires:Topia,2004.
______. Asmetamorfosesdaquestãosocial:umacrônicadosalário.5.ed.
TraduçãodeIraciD.Poleti.Petrópolis:Vozes,2005.
______. Ainsegurançasocial:oqueéserprotegido? Tradução:LúciaM.Endlich
Orth.Petrópolis:Vozes,2005.
CAVALCANTI,EduardoMedeiros. Crimeesociedadecomplexa:umaabordagem
interdisciplinarsobreoprocessodecriminalização. Campinas:LZNEditora,2005.
CERVINI,Raul. Losprocesosdedecriminalizacion. 2.ed.Montevidéu:Editorial
Universidad,1993.
CHIES,LuisAntônioBogo;VARELA,AdrianaBatista. Aambigüidadedotrabalho
prisionalnumcontextodeencarceramentofeminino:ocírculoviciosoda
exclusão. 2007. TrabalhoapresentadonoXIIICongressoBrasileirodeSociologia,
29demaioa01dejunhode2007,Recife,Pernambuco.
157
COSTA,ÁlvaroMayrinkda. Direitopenal,volume3:partegeral:conseqüências
jurídicasdoinjusto. 7.ed.RiodeJaneiro:Forense,2007.
COSTA,YasmimMariaRodriguesMadeirada. Osignificadoideológicodo
sistemapunitivobrasileiro. RiodeJaneiro:Revan,2006.
CUÑARO,MiguelLangon. Criminologiasociológica. Montevidéu:Fundaciónde
CulturaUniversitária,1992.
DEGIORGI,Alessandro. Amisériagovernadaatravésdosistemapenal.
TraduçãodeSérgioLamarão. RiodeJaneiro:InstitutoCariocadeCriminologia:
Revan,2006.(Pensamentocriminológico;12)
DIAS,JorgedeFigueiredo. Questõesfundamentaisdodireitopenalrevisitadas.
SãoPaulo:RevistadosTribunais,1999.
______;ANDRADE,ManoelCosta. Criminologia:ohomemdelinqüenteea
sociedadecriminógena.2.ed.Coimbra:CoimbraEditora,1997.
FOUCAULT,Michel. Microfísicadopoder. 13.ed. TraduçãodeRoberto
Machado.RiodeJaneiro:Graal,1998a.
______. Vigiarepunir:históriadaviolêncianasprisões. 17.ed. Traduçãode
RaquelRamalhete. Petrópolis:Vozes,1998b.
FRAGOSO,HelenoC. Liçõesdedireitopenal:partegeral. 15.ed. Riode
Janeiro:Forense,1995.
GARCIA,Basileu. Instituiçõesdedireitopenal. 3.ed. SãoPaulo:MaxLimonad,
1956.v.1
GIDDENS,Anthony.Asconseqüênciasdamodernidade.SãoPaulo:UNESP,1994.
GOFFMAN,Erwing.Estigma:notassobreamanipulaçãodeidentidadedeteriorada.
TraduçãodeMárciaBandeiradeMelloLeiteNunes.RiodeJaneiro:LTC,1988.
_____.Manicômios,prisõeseconventos.TraduçãodeDanteMoreiraLeite.São
Paulo:Percpectiva,1999.
158
GOMES,GederLuizRocha.Asubstituiçãodaprisão:alternativaspenais:
legitimidadeeadequação.Salvador:JusPODIVM,2008.
GOMES,JeanGmack;CHAMOM,EdnaMariaQueridodeOliveira.Resocialização
apartirdaóticadeseusatores.CONGRESSOBRASILEIRODESOCIOLOGIA,13.,
2007,Recife. Anais...Recife:[S.n.],2007.
GUIMARÃES,CláudioAlbertoGabriel.Funçõesdapenaprivativadeliberdadeno
sistemapenalcapitalista.RiodeJaneiro:Revan,2007.
HARVEY,David.Acondiçãopósmoderna:umapesquisasobreasorigensda
mudançacultural.SãoPaulo:Loyola,1993.
HOBSBAWM,EricJ.Aeradasrevoluções:Europa17891848.18.ed.Traduçãode
MariaTerezaLopesTeixeiraeMarcosPenchel.RiodeJaneiro:PazeTerra,2004.
LISZT,Franzvon.Tratadodedireitopenalallemão:obrafacsimilar. Tradução
deJoséHyginsDuartePereira.Campinas:Russel,2003.v.1
______.Ateoriafinalistanodireitopenal.2.ed.TraduçãodeRolandoMariada
Luz.Campinas,SP:LZNEditora,2005.
LUISI,Luiz. Osprincípiosconstitucionaispenais. PortoAlegre:Safe,1991.
LYRA,RaphaelaBarbosaNeves. Trabalhoprisional:mãodeobraexploradax
políticapúblicaprotetiva. EstudodoTrabalho,AnoI,n.2,p.120,maio,2008.
Disponívelem:<http://www.estudosdotrabalho.org/PDFs_rret2/Artigo9_2.pdf>
Acessoem:28jul.2008.
KRAYCHETE,ElsaSousa;BORGES,ÂngelaMaria. Mercadodetrabalho,
desigualdadeepobreza. 2007. TrabalhoapresentadonoXIIICongressoBrasileiro
deSociologia,29demaioa01dejunhode2007,Recife,Pernambuco.
MARX,Karl;ENGELS,Friedrich. KarlMarxeFriedrichEngels. SãoPaulo:
EdiçõesSociais,1978.
MARX,Karl. Ocapital:ediçãoresumidaporJulianBorchardt.3.ed.Traduçãode
RonaldoAlvesSchmidt.RiodeJaneiro:Zahar,1973.
159
MARSHALL,T.H. Cidadania,classesociale
status.
TraduçãodeMetonPorto
Gadelha.RiodeJaneiro:Zahar,1967.
MARQUES,OswaldoHenriqueDuek. Fundamentosdapena. SãoPaulo:J.de
Oliveira,2000.
MELOSSI,Dario;PAVARINI,Massimo. Cárcereefábrica:asorigensdosistema
penitenciário:séculosXVIXIX. TraduçãodeSérgioLamarão.RiodeJaneiro:
InstitutoCariocadeCriminologia;Revan,2006.
MESUTTI,Ana. Otempocomopena.TraduçãodeTadeuAntônioDixSilvae
MariaClaraVeronesideToledo.SãoPaulo:RevistadosTribunais,2003.
MINHOTO,Laurindo. Onegóciodasprisões. EstadodeSãoPaulo,SãoPaulo,9
maio2008.
MIRABETE,JúlioFabrini. Execuçãopenal:comentáriosàLein°7.210,e117
1984. 11.ed.SãoPaulo:Atlas,2004.
MIOTTO,ArmindaBergami.Cursodedireitopenitenciário.oPaulo:Saraiva,1975.
MORAES,Alexandrede.ConstituiçãodoBrasilinterpretadaelegislão
constitucional.2ªed.SãoPaulo:Ed.Atlas,2003.
MOREIRA,Rômulo.Penasalternativas.Disponívelem:
<http://br.monografias.com/trabalhos/penasalternativasjusticacriminal
bahia/penasalternativasjusticacriminalbahia2.shtml#_Toc141393789>.Acesso
em:8jul.2008.
MUÑOZCONDE,Francisco.Derechopenalycontrolsocial.2.ed.SantaFéde
Bogotá:EditorialTemis,1999.
NERY,DéaCarlaPereira. Teoriadapenaesuafinalidadenodireitopenal
brasileiro.Disponívelem:<
http://www.direitonet.com.br/textos/x/12/87/1287/DN_Teorias_da_pena_e_sua_finali
dade_no_Direito_Penal_Brasileiro.doc>.Acessoem:13jul.2008.
NUCCI,GuilhermedeSouza.Códigopenalcomentado.7.ed.SãoPaulo:Revista
dosTribunais,2007.
160
NUVOLONE,Pietro.Osistemadodireitopenal.TraduçãodeAdaPellegrini
GrinoverenotasdeRenéArielDotti.SãoPaulo:RevistadosTribunais,1981.
OFFE,Claus;HINRICH,Karl. Economiasocialdomercadodetrabalho:diferencial
primárioesecundáriodepoder. In:______(Org.). Trabalhoesociedade:
problemasestruturaiseperspectivasparaofuturoda“sociedadedotrabalho”.
TraduçãodeGustavoBayer. RiodeJaneiro:TempoBrasileiro,1989. Biblioteca
Tempouniversitário;85.SerieEstudosalemães)
OLIVEIRA,Edmundo.Comentáriosaocódigopenal:partegeral.2.ed.Riode
Janeiro:Forense,1998.
PASSETTI,Edson.Anarquismosesociedadecontrole.SãoPaulo:Cortez,2003.
______(Org.).Cursolivredeabolicionismopenal.RiodeJaneiro:Revan,2004.
PAUSUKANIS,EugenyBronislanovich.Ateoriageraldodireitoeomarxismo.
TraduçãodePauloBessa.RiodeJaneiro:Renovar,1989.
PAVARINI,Massimo.Losconfinesdelacárcel.Montevideo:CarlosAlvarez
Editor,1995.
PASTORALCARCERÁRIADABAHIA. Relatóriosobresistemacarcerárioda
Bahia.2007.Disponívelem:
<http://www.carceraria.org.br/pub/publicacoes/538356da2d831aa7caca3939a14f314
d.pdf>.Acessoem:04ago.2008.
PESSINA,Enrico. Teoriadodelitoedapena.TraduçãodeFernandaLobo.São
Paulo:Rideel,2006.
PIRES,ArmandodeAzevedoCaldeira;GATTI,ThéresèHoffman. Areinserção
socialeosegressosdosistemaprisionalpormeiodepolíticaspúblicas,da
educação,dotrabalhoedacomunidade. InclusãoSocial,Brasília,v.1,n.2,p.58
65,abr./set.,2006.
POCHMANN,Márcio. Oempregonaglobalização:anovadivisãointernacionaldo
trabalhoeoscaminhosqueoBrasilescolheu. SãoPaulo:Boitempo,2001.
161
POLANYI,Karl.Agrandetransformão:asorigensdenossaépoca.11.ed.
TraduçãodeFannyWrobel.RiodeJaneiro:Elsevier,2000.
PORTO,Roberto. Ocrimeorganizadoesistemaprisional. oPaulo:Atlas,2008.
PUIG,SantiagoMir. Direitopenal:fundamentoseteoriadodelito. Traduçãode
CláudiaVianaGarciaeJoséCarlosNobrePorciúncula.SãoPaulo:Revistados
Tribunais,2007.
QUEIROZ,PaulodeSouza. Direitopenal:introduçãocrítica.SãoPaulo:
Saraiva,2001.
______. Direitopenal:partegeral
.
2.ed.SãoPaulo:Saraiva,2004.
RAMOS,EnriquePeñaranda;GONZALEZ,CarlosSuarez;MELIÁ,ManuelCancio.
Umnovosistemadodireitopenal:consideraçõessobreateoriadeGünther
Jakobs. TraduçãodeAndréLuísCallegarieNereuJoséGiacomolli.Barueri,SP:
Manoel,2003.
RIODEJANEIRO.SecretariadeEstadoeAdministraçãoPenitenciária. Perfil
biopsicossocialdaspessoascondenadasqueingressaramnosistema
penitenciáriodoEstadodoRiodeJaneiro:umestudodecincoanos.
SuperintendênciadeSaúde;colaboraçãoUniversidadedoEstadodoRiodeJaneiro,
RiodeJaneiro:CNPCP/DEPEN/MJ,2006.
RODRIGUES,GeisadeAssis.Privatizaçãodeprisões:umdebatenecessário. In:
ARAUJOJÚNIOR,JoãoMarcelode(Org). Privatizaçãodasprisões. SãoPaulo:
RevistadosTribunais,1995.
ROXIN,Claus. Derechopenal:partegeneral,tomoI:fundamentos.Laestructura
delateoriadeldelito. TraduçãoDiegoManuelLuzónPeña,MiguelDiazyGarcia
ConlledoeJavierdeVicenteRemesal. 2.ed.alemana.Madrid:CIVITAS,2006.
______. Problemasfundamentaisdedireitopenal. 3.ed.TraduçãodeAna
PauladosSantosNatscheradetz,MariaFernandaPalma,AnaIsabeldeFigueredo.
Coimbra:Vega,1998.
RUSCHE,Georg;KIRCHHEIMER,Otto. Puniçãoeestruturasocial. Tradução
GizleneNeder. RiodeJaneiro:Revan,ICC,2004.
162
SÁ,AlvinoAugustode. Reincidênciacriminal:sobenfoquedapsicologiaclínica
preventiva.SãoPaulo:EditoraPedagógicaeUniversitária,1987.
______. A“ressocialização”depresoseaterceirizaçãodepresídios:impressões
colhidasporumpsicólogoemvisitaadoispresídiosterceirizados. Revistada
FundãoEscolaSuperiordoMinistérioPúblicodoDistritoFederale
Territórios,Brasília,Ano11,v.21,p.1323,jan./jun.,2003.
______. Criminologiaclínicaepsicologiacriminal. SãoPaulo:Revistados
Tribunais,2007.
SANTANA,GilsonCarlosdaSilva. Aexplosãodemográficanoscárceresde
Salvador:umanegaçãododireitoàressocialização?. Disponívelem:
<http://www.frb.br/ciente/2006_2/DIR/DIR._Gilton_Santana__Rev._Denise_02.01.07
_.pdf>Acessoem:09jul.2007.
SANTANA,SelmaPereirade.Areparãocomoconseqüênciajurídicopenal
autônomadodelito.DissertaçãoparaDoutoramentoemCiênciasJurídico
criminais,FaculdadedeDireitodaUniversidadeCoimbra,Coimbra,2006.
SANTOS,JuarezCirinodos. Acriminologiadarepressão:umacríticaao
positivismoemcriminologia. RiodeJaneiro:Forense,1979.
______. Acriminologiaradical. RiodeJaneiro:Forense,1981.
SANTOS,JuarezCirinodos. Teoriadapena:fundamentospolíticoseaplicação
judicial.Curitiba:ICPC;LumenJúris,2005.
SILVA,AntônioJosédaCostae. digopenaldosEstadosUnidosdoBrasil
commentado:obrafacsimilar.Brasília:SenadoFederal:SuperiorTribunalde
Justiça,2004.v.2 (Históriadodireitobrasileiro.Direitopenal;7)
SOARES,OscardeMacedo. digopenaldaRepúblicadosEstadosUnidosdo
Brasil:obrafacsimilar. Brasília:SenadoFederal,2004.
SOZZO,Máximo. Metamorfosisdelaprisión?Proyectonormalizador,populismo
punitivoy“prisióndepósito”enArgentina. URVIO:revistalatinoamericanade
seguridadciudadana,Quito,n.1,p.88116, mayo,2007.Disponívelem:
<http://www.flacso.org.ec/docs/urvio1.pdf>Acessoem:12jun.2008.
THOMPSON,Augusto.Aquestãopenitenciária.2.ed.RiodeJaneiro:Forense,1980.
163
______. Quemsãooscriminosos? ocrimeeocriminoso:entespolíticos.2.ed.
RiodeJaneiro:LumenJúris,2007.
URZÚA,EnriqueCury. Derechopenal,partegeneral.8.ed.Santiago:Ediciones
UniversidadCatólicadeChile,2005.
WACQUANT,Löic. Apenalizaçãodamisériaeoavançodoneoliberalismo.In:
SANTANA,MarcoAurélio;RAMALHO,JoséRamalho(Org.). Alémdafábrica:
trabalhadores,sindicatoseanovaquestãosocial. SãoPaulo:Boitempo,2003.
WACQUANT,Löic. Asprisõesdamiséria. TraduçãodeAndréTelles. Riode
Janeiro:JorgeZahar,2001.
WACQUANT,Löic.Punirospobres:anovagestãodamisérianosEstadosUnidos.
2.ed.TraduçãodeElianaAguiar. RiodeJaneiro:Revan,2003.
WEBER,Max. Aéticaprotestanteeoespíritodocapitalismo. Traduçãode
PietroNassetti.SãoPaulo:MartinsClaret,2002.
WELZEL,Hans. Derechopenalalemán. TraduçãodeJuanBustoRamíreze
SérgioYañezPérez. 11.ed.SantiagodoChile:EditorialJurídicadoChile,1997.
WESTERN,Bruce;BECKETT,Katherine;HARDING,David. Sistemapenale
mercadodetrabalhonosEstadosUnidos. DiscursosSediciosos:crime,direitoe
sociedade,RiodeJaneiro,v.7,n.11,p.4152,2003.
YOUNG,Jock. Asociedadeexcludente: exclusãosocial,criminalidadeediferençana
modernidaderecente.TraduçãodeRenatoAguiar.RiodeJaneiro:Revan,ICC,2002.
ZAFFARONI,EugênioRaúl. Embuscadaspenasperdidas:aperdada
legitimidadedosistemapenal.TraduçãodeVâniaRomanoPedrosaeAmirLopes
daConceição.RiodeJaneiro:Revan,1991
______;BATISTA,Nilo;ALAGIA,Alejandro;SLOKAR,Alejandro. Direitopenal
brasileiro: primeirovolume:teoriageraldodireitopenal
.
RiodeJaneiro:Revan,2003.
______. ElsistemapenalemlospaisesdeAméricaLatina. ARAUJOJUNIOR,
JoãoMarcelode(Org.). Sistemapenalparaoterceiromilênio:atosdocolóquio
MarcAncel. RiodeJaneiro:Revan,1991.
Livros Grátis
( http://www.livrosgratis.com.br )
Milhares de Livros para Download:
Baixar livros de Administração
Baixar livros de Agronomia
Baixar livros de Arquitetura
Baixar livros de Artes
Baixar livros de Astronomia
Baixar livros de Biologia Geral
Baixar livros de Ciência da Computação
Baixar livros de Ciência da Informação
Baixar livros de Ciência Política
Baixar livros de Ciências da Saúde
Baixar livros de Comunicação
Baixar livros do Conselho Nacional de Educação - CNE
Baixar livros de Defesa civil
Baixar livros de Direito
Baixar livros de Direitos humanos
Baixar livros de Economia
Baixar livros de Economia Doméstica
Baixar livros de Educação
Baixar livros de Educação - Trânsito
Baixar livros de Educação Física
Baixar livros de Engenharia Aeroespacial
Baixar livros de Farmácia
Baixar livros de Filosofia
Baixar livros de Física
Baixar livros de Geociências
Baixar livros de Geografia
Baixar livros de História
Baixar livros de Línguas
Baixar livros de Literatura
Baixar livros de Literatura de Cordel
Baixar livros de Literatura Infantil
Baixar livros de Matemática
Baixar livros de Medicina
Baixar livros de Medicina Veterinária
Baixar livros de Meio Ambiente
Baixar livros de Meteorologia
Baixar Monografias e TCC
Baixar livros Multidisciplinar
Baixar livros de Música
Baixar livros de Psicologia
Baixar livros de Química
Baixar livros de Saúde Coletiva
Baixar livros de Serviço Social
Baixar livros de Sociologia
Baixar livros de Teologia
Baixar livros de Trabalho
Baixar livros de Turismo