
56
ao passo que, no esquecimento de n° 2, o sujeito tem a ilusão de ser a fonte do seu sentido, a
ilusão de que é “dono” do seu dizer.
O esquecimento 2 abre espaço para o processo parafrástico. Aqui precisamos
chamar a atenção para a paráfrase discursiva que é diferente da paráfrase lingüística. Tomando
como exemplo de paráfrase lingüística as seqüências (a) “PC
31
onerou os cofres públicos” e (b)
“PC gastou o dinheiro dos cofres públicos”, observamos que há uma substituição sinonímica, de
forma que um elemento é mutável por outro com a manutenção do sentido. Já, na paráfrase
discursiva, ocorre um processo de ressonâncias interdiscursivas, um processo de identificação de
sentidos antagônicos ou contraditórios que são colocados como equivalentes, sendo apagadas as
evidências de saberes nas diferentes formações discursivas. Podemos dizer ainda que se trata de
um fenômeno de produção de sentido múltiplo que abarca discursos antagônicos. Por exemplo,
na seqüência discursiva “Vamos unir capital e trabalho” (Lula
32
, 2002), a paráfrase esconde a
aliança entre discursos antagônicos (o discurso liberal e o de esquerda), cujo ponto de encontro
são diferentes discursos e que encontram contingência histórica para se propagar. Por um lado, a
ferocidade liberal é amenizada pelo medo diante das massas, do seu crescimento organizacional
ameaçador; por outro, a vontade política de militantes da esquerda é substituída pelo fascínio por
um poder possível de acordo com cálculos estratégicos de quem toma a dianteira no processo de
aliança. Ocorre o apagamento de saberes que não são endereçados às massas populares – aqueles
que estão numa situação, muitas vezes, de miserabilidade por causa da exploração promovida
justamente por sujeitos que representam e detêm o capital. A propagação e aceitação de tal
discurso de aliança entre interesses antagônicos pelas massas encontram repercussão em
determinados momentos históricos – podemos dizer que são vários os elementos de ordem
econômica, social, cultural (...) responsáveis por esta propagação e, simultaneamente, por uma
“aparente” fragilização ou vulnerabilidade do movimento operário. Pensando a paráfrase
discursiva, dizemos que estão em jogo, portanto, nos discursos de aliança, as formas de
31
PC, Paulo Cezar Farias, foi o tesoureiro da campanha política de Fernando Collor de Melo para presidência da
República, em 1989, e protagonista de um grande escândalo de corrupção nacional que resultou, em 1992, na
cassação (impeachtment) do mandato do então presidente Fernando Collor de Melo. Na história brasileira, PC
representou e continua representando um símbolo de apropriação imoral e indevida dos recursos dos cofres públicos.
32
Lula é Luís Inácio Lula da Silva, operário metalúrgico que disputou, pelo Partido dos Trabalhadores, pela quarta
vez em 2002, a presidência da República do Brasil, sendo vitorioso, neste pleito. Após a demarcação acentuada de
confronto de saberes, durante a campanha eleitoral de 1989, o PT (e o candidato Lula) optou, nos pleitos eleitorais de
1994 e 1998, por uma progressiva “suavização” no discurso do candidato, fazendo ecoar, em 2002, um entendimento
de aproximação entre capital e trabalho, isto é, entre patrões e trabalhadores.