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1848 que a burguesia vive seu período de crise decisiva. A partir desse momento o
conservadorismo apresenta uma alteração de função e de significado:
Se, originalmente, o pensamento conservador é, como vimos, restaurador e anti-burguês,
na reviravolta referida por Lukács este caráter se transforma: o que tende a se
desenvolver no seu interior, mais que aqueles dois traços, é o seu eixo contra-
revolucionário. Nos primeiros conservadores, a recusa da revolução expressava um
repúdio à revolução burguesa (...); nos conservadores que trabalham nas condições pós-
48, com a evidência da inviabilidade da restauração, o conservadorismo passa a
expressar o repúdio a qualquer revolução – ou seja, o pensamento conservador passa a se
definir explicitamente como contra-revolucionário. É assim que ele tem
substantivamente mudada a sua função social: de instrumento ideal de luta antiburguesa,
converte-se em subsidiário da defesa burguesa contra o novo protagonista
revolucionário, o proletariado. Porém, a mudança da sua funcionalidade sócio-política
afetará, como veremos, a sua própria estrutura teórica (Machado, 1997, p. 57).
Essa mudança ocorre no período compreendido entre 1830/ 1848. Machado cita dois
autores - Comte e Tocqueville - como expressão de tal mudança do conservadorismo antiburgues
e do conservadorismo antiproletário. Não cabe neste trabalho esmiuçar a obra de tais autores, mas
vale destacar que em Comte o positivismo passa a garantir a estabilidade social. Tocqueville
atingiu a forma imperialista precocemente, sem ter ocorrido uma revolução democrática. Por outro lado, o
capitalismo alemão se expressou como potência européia. A cultura alemã se desenvolveu no século XX de forma
expressiva através de um combate entre racionalistas e irracionalistas. Havia uma tendência que objetivava
compreender os processos histórico-sociais e uma tendência que percebia os processos histórico-sociais como um
confronto. Machado (1997) destaca que Lukács analisa a obra de Hegel como a mais expressiva do programa da
modernidade. Assim, Machado sinaliza que o pensamento anti-revolucionário, na Alemanha, se desenvolverá como
uma negação ao pensamento de Hegel e irá se desenvolver como “negação irracionalista da dialética” (Machado,
1997, p. 199). Sobre as determinações do irracionalismo, Lukács irá tratar do conceito de decadência ideológica.
Ambos os conceitos estarão compatíveis com o período da decadência pós-1848. “Com efeito, Lukács reconhece
uma espécie de profunda afinidade entre o romantismo e o irracionalismo; mais exatamente, é da síntese entre reação
romântica e irracionalismo que redundará na filosofia irracionalista burguesa, própria do período da decadência na
Alemanha, cuja primeira expressão será A. Schopenhauer e cujo corifeu será F. Nietzche, um dos precursores do
fascimo” (Machado, 1997, pag. 203). Após 1848 a crítica romântica torna-se reacionária. O período da decadência
expressa uma apologia simples e direta do capitalismo e uma apologia indireta de origem romântica e irracionalista.
Lukács reconstrói o processo do irracionalismo alemão. Ele demonstra a filosofia que sintetiza o anticapitalismo
romântico e o irracionalismo associado a rebeldia e a insatisfação contra o movimento socialista revolucionário. “A
abordagem lukacsiana diz respeito exatamente ao processo do conservadorismo clássico na particularidade histórica
alemã; aqui, a evolução do conservadorismo foi abertamente no sentido da contra-revolução – a extrema ‘pureza’ da
reação romântica ao Iluminismo e à Revolução conduziu ao extremo reacionarismo que, nas condições da unidade
nacional pela ‘via prussiana’, derivou no fascismo”. (Machado, 1997, p. 206). Vale destacar uma nota na qual
Machado afirma que Lukács reconhece que o irracionalismo é uma tendência do período da decadência ideológica.
Lukács se preocupou com a análise da sociologia e em demonstrar que ela passou por um processo de destruição da
razão. A sociologia se constitui na base de um movimento de deseconomização e buscou seus fundamentos nas
ciências naturais. A sociologia surge como ciência comprometida com a apologética burguesa. No período da
decadência suas pretensões universalistas se debilitam; pois tende a se desenvolver como ciência especializada.