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do crítico a respeito da trajetória estética do amigo Portinari, onde é possível
perceber que o juízo estético que fazia era bastante positivo, deixando
absolutamente claro que esta opinião não foi partilhada por alguns.
Dentro da vasta obra, tão variada na aparência, do pintor brasileiro
Cândido Portinari, há uma íntima e profunda unidade. Esta unidade
pode resumir numa palavra: plástica.
Em princípio, uma afirmação destas parece redundância
inexpressiva, pois toda obra de pintura tem de ser necessariamente
plástica. Mas em verdade não é isto que se dá; em períodos
inquietos de pesquisa como o que atravessamos, assim como nas
fases de academização ou preciosismo requintado, não são pouco
numerosos os artistas e as doutrinas que fogem desse princípio
primeiros das artes, que é realizar a sua própria natureza.
Predisposto para a pintura, Cândido Portinari vem realizando o seu
destino de pintor com um entusiasmo que o honra sobremaneira.
Dele já se disse que respira, come e dorme pintura, e é certo que a
sua vida é um modelo do artista integralmente dedicado à sua arte e
que só ela busca, através de todas as omissões, glórias e
monotonias da vida. Nessa paixão pela pintura, com uma curiosidade
insaciável e uma inquietação que jamais desfalece, nem dorme sobre
as verdades adquiridas, Cândido Portinari se aplicou a desvendar
quaisquer segredos do problema plástico. Desta sua ambição
generosa, que o converte num eterno aprendiz, se originam as duas
características dominantes da sua personalidade: a enorme riqueza
técnica e a variedade expressional. Cândido Portinari é um
infatigável experimentador. Não é preciso lhe conhecer a vida, basta
seguir-lhe a obra em seus diversos estágios e manifestações es
transitórias para verificar que esse experimentalismo ansioso de
verdades é o mais significativo traço psicológico do artista. Na
técnica, tudo ele tem experimentado, todos os processos de pintar,
não só já no sentido superior da técnica, como no próprio artesanato.
Artista somado a artesão, os mistérios de preparação da tela, de
variar a natureza das tintas, da análise das areias com que irá
construir os seus afrescos lhe são tão familiares como a lei do corte
de ouro, a repartição dos claros e das sombras em Rubens, as
cadências de cor em Cézanne ou as doutrinas estéticas do
Abstracionismo contemporâneo [...]. Cândido Portinari aprendeu,
descobriu, redescobriu uma quantidade enorme de segredos
técnicos que lhe dão à fatura uma riqueza prodigiosa... E é de se
observar que a cada nova experiência técnica e cada nova fase que
lhe nasce oriunda de novos problemas estéticos a resolver, logo ele
ajunta um sentido possante, uma lógica viril de criação, um
significado poético muito intenso, que lhe derivam da sua vibrante
compreensão humana da vida. Principalmente do seu nacionalismo
[...]. Para ele não tem o menor interesse a originalidade só pelo gosto
de ser original. Antes, o inquieta sempre qualquer lição alheia,
porque pode sempre haver nela uma partícula que seja, da verdade.
E então Cândido Portinari refaz a experiência pressentida,
conformando-a aos elementos e caracteres que lhe são pessoais, à
essencialidade plástica, ao tradicionalismo, ao realismo, ao lirismo,