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suporte, e exploram as possibilidades plásticas depois da pintura – ou as possibilidades
poéticas depois da poesia. Compõem um mesmo texto, pois são variantes das superposições
e das montagens entre o que se exibe disjunto, junto
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.
traduziu a versão de Douglas, ilustrada por Aubrey Beardsley (In: Complete works of Oscar Wilde. Methuen,
Londres, 1908), conservando essas ilustrações na edição espanhola. No texto de apresentação, Darío recontrói
a série, até Wilde: “El tema de Salomé no era nuevo, ponía en escena la conocida historia de la decapitación
de Juan el Bautista por Herodes Antipas, el tretarca de Judea, a instigación de su hijastra Salomé (Mateo 14,
1-2, Marcos 6, 14-29 y Lucas 9, 7-9). Según los críticos, debemos buscar los antecedentes de la obra en la
prosa refinada de Flaubert em Herodías y la concepción trágica de Maeterlinck en Las siete princesas, pero
también en Pierre Louis y Huysmans, e incluso en Gustav Moreau y su pintura simbolista.” Ver WILDE,
Oscar y BEARDSLEY, Aubrey. Salomé y Bajo el monte. Trad. Rubén Darío. Barcelona: Ed. Abraxas, 2000.
No Brasil, Nelson Araujo traduziu a peça diretamente do francês, juntamente com o prefácio “In Memoriam”,
escrito por André Gide, amigo de Wilde. Ver WILDE, Oscar. Salomé. Trad. Nelson Araujo. Bahia, Salvador:
Livraria Progresso Editora, 1958. Uma deriva brasileira e modernista do mito é o romance Salomé, de Menotti
del Picchia, admirado por Mário de Andrade, conforme a nota introdutória: “considero Salomé o melhor, o
mais completo dos livros do grande escritor, sua maior contribuição para a novelística nacional”. Por outro
lado, em nota à primeira edição, de 1939, del Picchia explica: “o ambiente e os personagens do livro referem-
se a momentos sociais e tipos humanos que sintetizam o lapso de tempo que vai de 1928 a 1936. Nenhum
personagem é retrato da vida real. São eles resultantes de observações tiradas de múltiplos tipos. Quanto à
trama central, é inspirado diretamente na Bíblia (S. Marcos, cap. VI, 21 a 28)” Considero importante destacar
este período de gestação do romance, que vai de 1928, ano de lançamento da Revista de antropofagia, cujo
primeiro número estampou o famoso “Manifesto antropófago”, assinado por Oswald de Andrade, até 1936,
quando aparecem os primeiros romances regionalistas e tendem a arrefecer os impulsos guerreiros dos
primeiros anos, ou seja, vai do auge do modernismo até os primeiros sinais de seu esgotamento. No contexto
político, acompanha a imposição do Estado Novo (1930/1937) e, no ano de lançamento do romance, já está
em curso a ditadura de Getulio Vargas que fecha o Congresso Nacional, modifica a constituição e dissolve os
partidos políticos. Minha hipótese é a de que a Salomé brasileira, de Menotti del Picchia, é filha do
modernismo e enteada da ditadura.
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Sobre as fronteiras entre a poesia e a pintura, que na arte contemporânea tendem a se manifestar em uma
configuração ambígua, destaco o esforço de Lessing, no século XVIII, em analisar o grupo escultórico grego,
que exibe o personagem Laocoonte e seus filhos sendo atacados por uma enorme serpente, enviada por
Apolo, e fundamentar, na poesia e na pintura, as diferenças entre as artes. Lessing parte da questão do
paragone – termo italiano que significa “competição” – entre as modalidades artísticas, e que havia marcado a
teoria das artes até então com uma relação de dependência da pintura à poesia, que só será contestada por
Leonardo da Vinci, ao tentar inverter esta relação, priorizando a pintura. Cf. LESSING, Gotthold Ephraim.
Laocoonte ou sobre as fronteiras da pintura e da poesia. Trad. Márcio Seligman-Silva. São Paulo:
Iluminuras, 1998. Esta reflexão tem como pano de fundo o discurso de Horácio, a partir da doutrina do ut
pictura poesis: “Poesia é como pintura; uma te cativa mais, se te deténs mais perto; outra, se te pões mais
longe; esta prefere a penumbra; aquela quererá ser contemplada em plena luz, porque não teme o olhar
penetrante do crítico; essa agradou uma vez; essa outra, dez vezes repetida, agradará sempre.” (Ars poética,
361-365. Trad. port. Jaime Bruna. In. Aristóteles, Horácio, Longino. A poética clássica. São Paulo: Cultrix,
1988, p.65.) e ainda invade a modernidade. Está no pensamento de Clement Greemberg, por exemplo, do alto
modernismo, cuja preocupação é com a autonomia formal de cada arte. (Cf. ensaio “Rumo a um mais novo
Laocoonte”. In: .FERREIRA, Gloria e COTRIM DE MELLO, Cecília (orgs.). Clement Greemberg e o debate
crítico. Trad. Maria Luiza Borges. Rio de janeiro: Funarte / Jorge Zahar, 1997, pp.45-60.). É preciso
esclarecer que esta vertente, formalista e racionalista, antagoniza com aquela que toma como referência as
postulações barrocas, que estão na base das produções analisadas neste trabalho. Reforço, portanto, que a
disjunção à qual me refiro inclui a divisão elaborada por Lessing, mas tomando-a como uma divisão no
exterior dos campos, fundadora de disciplinas. No presente, a disjunção aparece como elemento constitutivo
do próprio trabalho artístico e, a partir daí, questiona as fronteiras. Por exemplo, um poeta como Duda
Machado elabora uma “impureza” de linguagem, e, simultaneamente, deixa explícita a articulação monstruosa
entre as fronteiras imagéticas, a poética e a visual, com as quais trabalha, o que não significa que entenda a