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Koye-riwë
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apresentou aos Yanomamɨ as sementes de milho, sua sogra, Popomari,
maravilhada com aquele novo grão e ávida por espigas maiores, adentrou ao roçado e se
transformou no pássaro popomari (Cocco 1972: 183-184). Em outro mito, Haxo-riwë
enlouqueceu de prazer depois de haver experimentado o tabaco que Tomï-riwe lhe ensinou
a plantar, e, dando grandes saltos, foi para a selva onde se transformou em jupará (ibid.:
308). Um mito yanomamɨ sobre a aquisição da pupunha no tempo dos ancestrais também
enseja a metamorfose dos protagonistas, a partir de relações inter-específicas conflituosas.
Ayakora-riwë, o pássaro Gaio-comum, e Haya-riwë, o Veado, eram vizinhos. O filho
do primeiro era casado com a filha de Haya-riwë e vivia junto da família de sua
esposa. Certa feita, Haya-riwë escuta seus vizinhos brincando e trabalhando na roça.
Estavam recolhendo pupunha. Haya-riwë então manda sua filha ir com seu esposo
buscar pupunha. “Andem a recolher pupunha da minha roça” – diz – “porque estes
vizinhos vão fazer reahu, sem me oferecer nada.” Ele lhes indica então aonde ir para
buscar as pupunhas mais saborosas. Ao chegar no local sugerido por Haya-riwë, o
jovem genro pergunta à sua esposa qual era a árvore, ao que ela indica uma palmeira
de “tucumã”. “Não” -lhe diz então – “isto é tucumã. Não é pupunha. Melhor irmos à
roça de meu pai, onde há muita pupunha, e pupunha de verdade. Isto é tucumã., fruta
do monte. Seu pai come tucumã, pensando que é pupunha. Ele não a conhece.”
Embora um pouco ofendida, a mulher acompanha seu marido até o roçado dos
Ayakora-riwë, onde recolhem da “verdadeira pupunha”. De volta ao xapono de
Haya-riwë, o genro lhe mostra o cesto cheio de pupunha dizendo: “aqui está, a
pupunha que nos mandou buscar.” O velho olha, porém não diz nada. Logo em
seguida, arregaçando a pele de seus braços e pernas para tê-los bem finos, se pôs a
correr para a floresta. E gritando “seee, seeeee”, se transformou em veado. Sua
esposa também se transformou, correndo mata adentro. A filha, também se ia, mas o
marido a segurou a tempo. A outra gente – de Ayakora-riwë – então se transformou
em gaio-comum e puseram-se a voar e cantar: aya, aya,aya. A filha, ficando sozinha
– pois o marido também saiu voando com outros Gaios, saiu correndo e
transformou-se em veada como seus pais (resumo a partir da versão em espanhol de
Cocco 1972: 363-364).
Nessas narrativas sobre a aquisição de novos bens culturais, chama atenção o fato
de que os bens culturais “adquiridos” já eram conhecidos – o que dá origem, nesses mitos,
a uma série de equívocos. Esses episódios, nos quais os protagonistas parecem tomar “gato
por lebre”, ou, melhor dizendo, tucumã por pupunha – ou ainda, ceiba por mandioca, como
em um outro mito, no qual uma esposa, farta de ralar raiz de ceiba para a fabricação de
beijus que o marido insistia em dizer que eram feitos de mandioca, apresenta-lhe a
verdadeira mandioca – são equívocos que poderíamos dizer característicos de uma
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A terminação -riwë, em yanomamɨ como o -ri, em yanomae, é um sufixo de intensidade e que também
marca os seres sobrenaturais (Lizot 2004; cf. tb Cocco 1972: 363 )