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Daniela Ortiz dos Santos
Pequeno vocabulário de Le Corbusier: 1928-1929
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Daniela Ortiz dos Santos
Pequeno vocabulário de Le Corbusier: 1928
Pequeno vocabulário de Le Corbusier: 1928 Pequeno vocabulário de Le Corbusier: 1928
Pequeno vocabulário de Le Corbusier: 1928
1929
19291929
1929
Dissertação de Mestrado em Urbanismo
Orientadora Prof. Dra Margareth da Silva Pereira
Universidade Federal do Rio de Janeiro
Faculdade de Arquitetura e Urbanismo
PROURB – Programa de Pós-Graduação em Urbanismo
Rio de Janeiro, 2009
4
S237
Santos, Daniela Ortiz dos,
Pequeno vocabulário de Le Corbusier: 1928-1929/ Daniela
Ortiz dos Santos. – Rio de Janeiro: UFRJ/FAU, 2009.
165f. Il.; 30 cm.
Orientador: Margareth Aparecida Campos da Silva Pereira.
Dissertação (Mestrado) – UFRJ/PROURB/Programa de Pós-
Graduação em Urbanismo, 2009.
Referências bibliográficas: p.135-141.
1. Arquitetura – História. 2. Le Corbusier, 1887-1965. I.
Pereira, Margareth Aparecida Campos da Silva. II.
Universidade Federal do Rio de Janeiro, Faculdade de
Arquitetura e Urbanismo, Programa de Pós-Graduação em
Urbanismo. III. Título.
CDD 720.9
5
Daniela Ortiz dos Santos
Pequeno vocabulário de Le Corbusier: 1928 – 1929
Aprovada por:
--------------------------------------------------------------------------------
Prof. Dra. Margareth da Silva Pereira
PROURB-FAU/UFRJ
--------------------------------------------------------------------------------
Prof. Dra. Beatriz Santos de Oliveira
PROARQ-FAU/UFRJ
--------------------------------------------------------------------------------
Prof. Dr. José Barki
PROURB-FAU/UFRJ
Rio de Janeiro, dezembro de 2009
6
7
Dedico este trabalho a todos que amam a vida
e acreditam que a paixão move-nos a cada dia.
A todos os que buscam experimentar e
conhecer novos horizontes.
8
9
Agradecimentos
O presente trabalho é fruto de uma pesquisa cujas reflexões iniciais tomaram
forma em 2005. Este consiste no período em que estive em Paris como bolsista da
Fundação Le Corbusier. Naquele momento, o estudo sobre Le Corbusier foi
literalmente uma imersão em suas obras. A experiência de pesquisar por quase
um ano na Maison Jeanneret-La Roche, bem como residir em uma das cellules
d’étudiants da Maison du Brésil, emociona.
As reflexões e discussões com Margareth da Silva Pereira já datavam desta
época. Sua orientação antecede o período em que estive cursando o mestrado no
PROURB. As curtas, porém , intensas conversas nos cafés de Paris, os encontros
em seu apartamento, as lições nas aulas de historiografia ainda como ouvinte, e,
mais adiante, os longos debates juntamente com os colegas do laboratório de
estudos urbanos, enfim, não faltam palavras para descrever seu carinho e
atenção. Por ontem, por hoje e pelo que virá, muito obrigada.
Esta pesquisa é, sobretudo, uma construção coletiva. Somente através dos
debates, considerações e reflexões de diversas mentes e vozes logramos
construir este trabalho.
Iniciarei meus agradecimentos a começar por aqueles que estiveram mais
recentemente presente nas discussões sobre o trabalho.
Agradeço assim, aos professores Beatriz Santos de Oliveira, José Barki e Roberto
Segre pela amizade, atenção e interesse em compartilhar reflexões sobre Le
Corbusier e arquitetura moderna, quando ainda aluna de graduação e jovem
pesquisadora de iniciação científica.
Agradeço igualmente aos meus colegas do laboratório de estudos urbanos (Leu-
PROURB) por participarem deste processo de construção pessoal e coletiva.
Gostaria de expressar minha gratidão ao grupo pelo carinho, cobrança e atenção
no esforço em tornar mais complexo o entendimento sobre a história do
pensamento urbanístico e das culturas. Em especial, agradeço a Mário Magalhães
e Priscilla Peixoto pelas reflexões que permitiram a construção de alguns trabalhos
conjuntos, a Denise Nunes (e também ao Mário) pelo apoio na interpretação dos
discursos dos atores de língua alemã, a Luisa Bogossian, pela essencial ajuda na
finalização da dissertação. Agradeço também a Isabela Gonzalez, Aline Couri,
Jorge Fleury, Célia Paes e Paula de Paoli pela presença nas nossas discussões.
Agradeço imensamente a Jean-Louis Cohen, Arthur Rüegg, Tim Benton, Caroline
Maniaque e Claude Prelorenzo que, ao longo de suas visitas ao Rio de Janeiro
nos últimos três anos, possibilitaram dedicar tempos preciosos a ouvir meus
questionamentos sobre o estudo de Le Corbusier. Suas considerações foram
fundamentais para este trabalho.
10
Gostaria de expressar meus agradecimentos aos professores, colegas e
funcionários do PROURB, pelos esforços em construir uma rede compartilhada
dos saberes no campo da arquitetura, da paisagem e do urbanismo. Em especial,
agradeço a Ana Lucia Britto, Carlos Murad, Cristóvão Duarte, Eliane Bessa, Flávio
Ferreira, Ivete Farah, Lilian Vaz, Sérgio Magalhães e Sonia Schultz, pelas
considerações em sala de aula, ao longo das disciplinas cursas durante o curso de
mestrado.
O sentimento de gratidão estende aos meus colegas do Docomomo-Rio.
Agradeço, em especial, a Gustavo Rocha Peixoto, Marlice Nazareth de Azevedo,
Renato Gama-Rosa, Maria Cristina Cabral, Maria Lobo, Ceça Guimaraens, Carlos
Feferman, Inês El-Jaick e Maria Helena Salomon pelo carinho e lutas em prol da
documentação e ampliação dos estudos sobre o movimento moderno.
Os debates travados com Tony Rizzuto, Maria Candela Suarez e Marta Sequeira,
em ocasião do encontro sobre Le Corbusier em Atlanta, bem como as conversas
com Paola Berenstein e Pasqualino Magnavita, durante o evento Corpocidade em
Salvador, foram capitais para o desenvolvimento deste trabalho.
Esta pesquisa não seria possível sem o apoio recebido da CAPES, que financiou
os meus estudos ao longo de todo o curso de mestrado no PROURB.
O apoio e o acolhimento da Fundação Le Corbusier, cujos documentos foram a
base deste trabalho, foi capital. Em especial, agradeço a atenção de Claude
Prelorenzo, Michel Richard, Arnaud Dercelles, Christine Mongin, Delphine Studer,
Isabelle Godineau e Paula de Sá Couto.
Agradeço a atenção de Daniel Weiss, dos arquivos do gta/ETH Zürich, sempre
prestativo, mesmo à distância.
Pelo carinho e acolhimento na Maison du Brésil, em Paris, agradeço à Inez Salim
e Denise Leitão.
Agradeço aos meus queridos vizinhos da Maison du Brésil. Em especial aos
amigos Andre Pietsch Lima, Annick Vandecappelle, Andréa Borde, Daniel Cunha,
Giselle de Faria e Maria Luiza Pires, pelo carinho e pelos debates preciosos no
período de pesquisa e estudos em Paris, anteriores ao mestrado, mas que me
incentivaram a ir mais longe.
Gostaria de expressar, por fim, minha imensa gratidão aos meus pais Suzana e
Ney, a minha irmã Fabíola e ao meu grande amor Meindert. Obrigada pelo
carinho, investimento, atenção, paciência e, principalmente por acreditar em mim.
11
Resumo
O presente trabalho visa realizar uma análise do discurso, escrito e iconográfico
de Le Corbusier durante 1928 e 1929, a fim de contribuir ao estudo de suas
expressões na arquitetura, pintura e na escrita. Pretende-se identificar e estudar,
portanto, um pequeno vocabulário de Le Corbusier, atento aos processos e à
construção de algumas das noções por ele compartilhadas, ao longo da década
de 1920, e que percorrem seu pensamento e obra nas décadas seguintes.
O recorte temporal foi estabelecido por levantarmos algumas considerações sobre
este período. Na verdade, durante os anos 1928 e 1929 existem vários nós que se
intensificam, mais que isso, ligam-se, desfazem-se e criam também novas
possibilidades de articulação. Este momento parece testemunhar reflexões,
permanências e rupturas nas mais diversas poéticas de Le Corbusier. Neste
período por ele considerado ‘maquinista’ aparecem novamente questões sobre a
cidade, natureza e os corpos, surgem igualmente as travessias: Arcachon,
Barcelona, Buenos Aires, Rio de Janeiro, Moscou e, logo em seguida, Argel.
Esforçamo-nos assim, a compreender um homem consciente de sua época que,
apesar de pertencer a uma era ‘da máquina’, na qual a produção do conhecimento
também passava por um processo de especificação e compartimentação do saber,
jamais externou seu conhecimento e sua reflexão sobre o mundo de forma
compartimentada. Através da leitura de suas impressões, interpretações poéticas
dos elementos da natureza e da própria sociedade mesma, assim como também
das suas expressões plástica, escrita e arquitetônica, apresentamos Le Corbusier
como um homem complexo, contraditório, sensível.
12
Abstract
The present work is the result of a study that focuses primarily upon Le Corbusier’s
discourse specifically during the years 1928 and 1929. It aims to identify, firstly, a
vocabulary written and iconographic of Le Corbusier, and then proceeds to
analyze it; considering his social and intellectual processes, as well as the
eventuality of ruptures with certain given concepts.
Throughout this decade in particular, Le Corbusier frequently worked on such
notions as the machine, geometry, the body, and nature. As a matter of fact, the
later years of the 1920’s were indeed dedicated to great voyages, discoveries and
in consequence to new attitudes on life. Arcachon, Barcelona, Moscow, Buenos
Aires, Rio de Janeiro, and Algiers were cities where Le Corbusier established in
effect fruitful relationships.
As an instrument of research, History arises within the role of an imminent method
whose approach concerns the study of the written, architectural and plastic work of
Le Corbusier. This research reveals, therefore, not only a new perspective
regarding the transformation of his concepts throughout these two years, but also
reflects the possible perpetuation and ruptures of his following discourses.
13
Résumé
Le petit vocabulaire de Le Corbusier est le résultat d’une étude dont l’attention se
penche sur les discours écrits et iconographiques de Le Corbusier pendant les
années 1928 et 1929. Cette approche envisage, à partir de l’Histoire, de contribuer
de manière plus attentive à l’étude de l’œuvre écrite, architecturale et plastique de
Le Corbusier, pendant un moment où certaines notions semblent être développées
ou refusées par l’architecte lui même.
Parmi ces questionnements, Le Corbusier s’interroge notamment sur le concept de
la machine, la géométrie, la nature et les corps. Cette période est, en vérité,
consacrée aux grands voyages et, par conséquence, aux nouvelles découvertes.
Arcachon, Barcelona, Buenos Aires, Rio de Janeiro, Moscou, puis Alger sont des
villes Le Corbusier va établir une féconde relation avec la Nature et,
notamment, avec sa propre pensée.
Nous réfléchissons donc non seulement sur ces notions présentes dans son
vocabulaire des années 1920, mais aussi sur les possibles permanences et
ruptures dans son discours ultérieur.
14
15
Sumário
19. Introdução
Le Corbusier : um acrobata de formas e palavras
21.
Entre o ‘homem e o mito’
27.
Pequeno vocabulário de Le Corbusier
29. Capítulo 1.
Acerca das noções de geometria e máquina
29.
A sedução pela máquina
29.
A estética da máquina e a arte na máquina
31.
A construção da noção de máquina em Le Corbusier
35.
A máquina e as noções de ‘padrão’
37.
A máquina em arquitetura: a máquina de morar
37.
A geometria, os deuses e o pitoresco
47. Capítulo 2.
1928: les noires années sont passées
49.
Charlotte Perriand no atelier da Rue de Sèvres
59.
Paul Otlet e os projetos para Genebra
65.
Sigfried Giedion e Le Corbusier: encontro em La Sarraz
73.
Conversas em Moscou : Le Corbusier e os construtivistas
85. Capítulo 3.
1929: aventuras e desventuras do homem moderno
89.
Acerca de uma estandardização em arquitetura ou reflexões sobre
a lei Loucheur
99.
Das neues Bauen ou Architecture Moderne: (des)encontros em
Frankfurt
105.
Vers le Sud: arquitetura em tudo, urbanismo em tudo... poesia em
tudo
109.
Revisitando o vocabulário da era da máquina
16
113.
Diário de viagem : breve reflexões sobre um pequeno vocabulário
113.
No transatlântico: um corpo que sente
115.
No Avião: olhos que veem
119.
Corpos humanos, corpos urbanos
123.
A arquitetura no intervalo entre corpo e natureza
127. Conclusões
Corpos à reação poética
135. Bibliografia
141.
Versão original dos textos em língua estrangeira
Anexos
150.
Cronologia de 1928
153.
Cronologia de 1929
163.
Tabela de desenhos de Le Corbusier – 1928-1929 (FLC)
Lista de principais abreviações utilizadas no texto
Arquivo J-L C: Arquivo Jean-Louis Cohen
CIAM: Congrès internacionaux d’architecture moderne (Congressos internacionais de arquitetura
moderna)
CIRPAC: Comité internationale pour la réalisation du problème architectural contemporain (Comitê
internacional para a solução do problema da arquitetura contemporânea)
Centrosojuz: Centralnyj sojuz potrebitel’skih obščestv (União central das cooperativas de consumação)
FAU / UFRJ : Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Federal do Rio de Janeiro
FLC: Fondation Le Corbusier
gta/ETH : Geschichte und Theorie der Architektur / Eidgenössiche technische Hochschule Zürich
(Departamento de História e Teoria da arquitetura / Escola Federal politécnica de Zurique)
HBM: Habitation à bon Marché (Moradia popular)
LC: Le Corbusier
LeU / PROURB / UFRJ: Laboratório de estudos Urbanos Programa de Pós-Graduação em Urbanismo
da Universidade Federal do Rio de Janeiro
PROURB / UFRJ: Programa de Pós-Graduação em Urbanismo da Universidade Federal do Rio
de Janeiro
Superior: texto em conferência à Buenos Aires, 1929
Acima: Desenho de Le Corbusier fei
(FLC)
Superior: texto em conferência à Buenos Aires, 1929
Acima: Desenho de Le Corbusier fei
Superior: texto em conferência à Buenos Aires, 1929
Acima: Desenho de Le Corbusier fei
to pelo professor Willi Baumeister, 1928
Superior: texto em conferência à Buenos Aires, 1929
to pelo professor Willi Baumeister, 1928
to pelo professor Willi Baumeister, 1928
to pelo professor Willi Baumeister, 1928
to pelo professor Willi Baumeister, 1928
- 1930.
17
18
Capa do livro
Vers une
architecture,1923.
Capa do livro
Urbanisme,1924.
Capa do livro L’art
décoratif d’aujourd’hui,
1925.
Capa do livro Almanach
d’architecture moderne,
1925
Capa do livro La peinture
moderne, 1925
Capa do livro Une
Maison – Un Paiais, 1928
19
Introdução
Le Corbusier: um acrobata de formas e palavras
Le Corbusier, assim como outros homens de seu tempo, foi alguém que
desestruturou uma forma de pensar e agir sobre a cidade e, consequentemente,
sobre a vida do homem em si. Uma figura polêmica, criticada, respeitada, enfim,
um homem que se esforçou em externar seu ponto de vista e atuar direta e
indiretamente na sociedade. Além de construir por volta de uma centena obras de
arquitetura e urbanismo, publicou 79 livros, produziu mais de 450 pinturas a óleo,
dezenas de esculturas, azulejos, e por volta de 6000 desenhos.
1
Na década de 1920, em especial, seus projetos e alguns de seus escritos como
Vers une Architecture e Urbanisme, rapidamente difundidos pelo meio artístico,
intelectual e político da época, contribuíram a tornar Le Corbusier um importante
ator no cenário internacional. Como consequência, as teorias e manifestos
presentes nestes escritos geraram ecos e polêmicas que acabaram por cristalizar
a obra Le Corbusier no espaço e tempo. Contudo, sua compreensão sobre a
noção de máquina em 1920, por exemplo, não necessariamente se manifesta de
forma homogênea na pintura, na arquitetura ou nos livros. Ela tampouco
permanece estanque no tempo. Pelo contrário, um estado de tensão que não
cessa. ‘Agir é movimentar-se, pegar, manipular, ver e olhar’
2
. Le Corbusier
observa, pensa e julga a todo instante. Desse modo, há um longo e constante
processo de sedimentação do saber que sofre rupturas e renovações. Cabe-nos
revisitar este momento a fim de estudar de modo mais fino a obra de Le Corbusier,
contemplando as suas expressões na arquitetura, pintura e na escrita.
‘Sempre terei em mim a certeza de que o homem é um ser ativo num mundo em
ação, e não um elemento passivo. O próprio faquir me confirma isso. Um ser ativo
tem um espírito de verdade que é seu juízo. Seu juízo é arbitrário, dirime a todo
minuto. É um imperativo que é, ao mesmo tempo que a força, a lucidez. Não
fórmula do espírito de verdade; não é encontrada nas farmácias. Esse espírito de
verdade é a força do homem’.
3
Esforçamo-nos assim, a compreender um homem consciente de sua época que,
apesar de pertencer a uma era ‘da máquina’, na qual a produção do conhecimento
também passava por um processo de especificação e compartimentação do saber,
jamais externou seu conhecimento e sua reflexão sobre o mundo de forma
compartimentada. Através da leitura de suas impressões, interpretações poéticas
dos elementos da natureza e da própria sociedade mesma, assim como também
das suas expressões plástica, escrita e arquitetônica, apresentamos Le Corbusier
como um homem complexo, contraditório, sensível.
1
Acervo da Fondation Le Corbusier
2
LE CORBUSIER. L’art décoratif d’aujourd’hui. Paris : Edition G. Crès et Cia, 1925. Versão em
português, São Paulo : Martins Fontes, 1996. p.45.
3
Idem, p.182 (publicação brasileira).
20
Desenho de Le Corbusier feito pelo professor
Willi Baumeister , 1928 - 1930. (FLC)
21
Para isso realizamos uma leitura dos escritos de Le Corbusier livros, artigos,
diários, carnets, cartas pessoais e correspondência oficial dos CIAM e do atelier
Rue de Sèvres –; das fontes iconográficas, dentre elas destacamos seus
desenhos, carnets, pinturas, croquis de viagem, fotografias e filmes; como também
das fontes externas à Le Corbusier, sejam estes atas de conferências, notas de
jornais ou livros de divulgação. Dito de outra forma, os documentos pessoais de Le
Corbusier compunham o corpo documental do trabalho.
O presente trabalho visa, assim, estudar o vocabulário de Le Corbusier, os
conceitos aos quais lança mão e que estruturam o seu discurso. Isto significa
realizar, a partir da História, uma análise de discurso, escrito e iconográfico de Le
Corbusier durante 1928 e 1929, a fim de contribuir de modo mais fino ao estudo
de seu pensamento e obra. Buscamos como objetivos gerais deslocar o modo
cristalizado que se estuda Le Corbusier, criar novas possibilidades de recortes
temporais e compreender as diversas temporalidades de suas práticas. O objeto
de estudo será o discurso de Le Corbusier compreendido a partir de suas práticas
e as suas redes sociais.
Entre o ‘homem e o mito’
Ao longo da década de 1920, e, em especial durante os anos de 1928 e 1929, Le
Corbusier apresenta reflexões que parecem marcar de modo fecundo o seu
pensamento, bem como suas expressões plásticas e arquitetônicas. Em
arquitetura, por exemplo, a década de 1930 é reconhecida pelo próprio Le
Corbusier como um novo momento de criação
4
. Em sua oeuvre complète, Le
Corbusier indica o uso deste recorte temporal para periodizar a produção como
urbanista de grands travaux.
Alguns autores como Stanislaus von Moos, Margareth Pereira e Jean-Louis Cohen
pontuam, graças à leitura fina que fizeram de Le Corbusier, uma mudança de
escala, um pensar sobre a cidade e sobre as questões urbanas em um período
que se inicia nas viagens ao sul da França, mas que se acentuar com as viagens
à URSS, ao Brasil e, logo em seguida à Argélia.
Stanislaus von Moos será um dos primeiros autores a levantar uma densa
documentação e a elucidar importantes reflexões sobre a vida e obra de Le
Corbusier, desde a formação do jovem Charles-Edouard Jeanneret até o seu
período mais maduro. A persistente e constante pesquisa de von Moos, no livro Le
Corbusier: Elemente einer Synthese, de 1968, até os mais recentes trabalhos
sobre o entendimento de Le Corbusier da ‘síntese das artes’, do ‘pitoresco’, bem
como a sua relação com o mediterrâneo, merecem atenção.
Juntamente com Arthur Rüegg, organizam a publicação Le Corbusier before Le
Corbusier. Applied arts, architecture, painting, photography, 1907-1922, cujo
esforço repousa no entendimento dos processos e sedimentação dos saberes de
Jeanneret
5
. Esta obra, publicada em 2002, vem a contribuir com os estudos sobre
a formação de Le Corbusier, realizados por Paul Turner na década de 1980. A
atenção aos cahiers, às anotações nos livros adquiridos, ou o levantamento das
leituras realizadas nas bibliotecas em La Chaux-de-Fonds ou em Paris,
testemunham o trabalho minucioso e fino, a fim de construir uma cronologia do
pensamento e obra de Le Corbusier deste momento.
4
Ao divulgar seus trabalhos na coleção Oeuvre complète, Le Corbusier reconhece este momento como
uma ruptura em sua obra. Os volumes foram assim divididos: 1910-1929; 1929- 1934;1934-1938;
1938-1946; 1946-1952; 1952-1957; 1957-1965.
5
LE CORBUSIER BEFORE LE CORBUSIER. APPLIED ARTS, ARCHITECTURE, PAINTING,
PHOTOGRAPHY, 1907-1922. Stanislaus von Moos, Arthur Rüegg (org.). New York: New Haven, 2002.
22
Fotografia de Le Corbusier e Yvonne de Galis, sua futura esposa,
final da década de 1920 (FLC)
23
Jean-Louis Cohen igualmente estará interessado nos processos, permanências e
rupturas durante os anos de épanouissement de Le Corbusier. Sua atenção,
sobretudo, às viagens de Le Corbusier à URSS, à Alemanha e aos países da
Europa do Leste contribui a tornar mais complexa as relações do arquiteto com os
atores sociais do período de grandes movimentos sociais, artísticos e intelectuais
das cidades soviéticas e de língua germânica. Em seu recente trabalho, Cohen
logra apresentar Le Corbusier na sua intimidade
6
. As angústias ou desejos,
revelados nas cartas aos pais ou em desenhos soltos, por exemplo, ajudam a
revelar um Le Corbusier mais carnal. Um homem contraditório, dúbio, mas ao
mesmo tempo sensível.
Ao considerar os primeiros estudos sobre a relação entre Le Corbusier e o Brasil,
Margareth Pereira vem estabelecendo ao longo de mais duas décadas novos
debates e contribuições sobre as noções compartilhadas entre Le Corbusier e os
arquitetos modernos brasileiros, em especial, Lucio Costa
7
. A vinda do arquiteto
ao Brasil, bem como as experiências de Le Corbusier, desde o ‘arou com os
corpos e a natureza tropical, levam Pereira a refletir sobre o entendimento de
‘moderno’ para Le Corbusier, bem como a sua relação com a História. Os esforços
de Carlos Martins em tornar mais complexo os debates travados neste período
entre os atores de vanguarda européia e brasileira merecem igualmente atenção
8
.
Assim como Pereira, o crítico italiano Giordani percebe por conta da viagem de
avião e também a experiência dos trópicos esta mudança na escala de
preocupações deste período
9
.
Um terceiro grupo de autores Arthur Rüegg, Tim Benton, Danièle Pauly etc
enfoca de maneira mais fina, a questão dos objetos à reação poética. Arthur
Rüegg também contribui ricamente com o estudo dos atores que participaram da
criação e da reflexão sobre a noção de ‘espaço’ da casa moderna e,
consequentemente, do mobiliário moderno e dos processos de industrialização do
equipamento doméstico no início do século XX. A atenção de Rüegg aos estudos
sobre a palheta de cores criada por Le Corbusier no início dos anos 1930 revela o
rigor metodológico de Le Corbusier, a aproximação de uma industrialização da
construção da arquitetura e, ao mesmo tempo, da sensibilidade do arquiteto na
reflexão sobre o espaço interior doméstico
10
.
As realizações e reflexões de Le Corbusier ao longo década de 1920 será o objeto
de estudo de Tim Benton. Sua atenção manifesta-se no rigoroso levantamento de
dados sobre as casas pensadas, projetadas e/ou construídas neste momento. Tim
Benton estará atento não somente aos estudos das casas em série, como também
das ‘villas’, atrelados à noções de ‘standard’ e ‘tipo’. Estas serão igualmente
abordadas por Benton ao examinar o modo como Le Corbusier constrói um
discurso teórico sobre estas noções e as apresenta em suas conferências
11
.
6
COHEN, J-L. Le Corbusier. Le Grand. London – New York: Phaidon, 2008.
7
Dentre os escritos de Margareth Pereira, destacamos os seguintes: Le Corbusier e o Brasil. São
Paulo: Tessela/Projeto Editora, 1987; Corpos escritos. Paisagem, memória e monumento : visões da
identidade carioca. In: Revista Arte & Ensaios. Rio de Janeiro: EBA-UFRJ, 2000. vol. Ano 7 n. 7, pp.
98-113.; Quadrados brancos: Le Corbusier e Lucio Costa. « Lucio Costa: um modo de ser moderno ».
São Paulo, Cosac & Naif, 2004. p.220-245.
8
MARTINS, C. Razón, ciudad y naturaleza. La génesis de los conceptos em El urbanismo de Le
Corbusier. Tese de doutorado. Escuela Técnica Superior de Arquitectura de Madrid. Madri, 1992.
9
GIORDANI, J-P. Visioni Geografiche. In Casabella, n. 531-2. Sep. 1987, pp. 18-33.
10
Sobre os escritos de Arthur Rüegg, destacamos: Autobiographical interiors: Le Corbusier at home,
pp. 117-161. In: Le Corbusier. The Art of Architecture. Alexander von Vegesack, Stanislaus von Moos,
Arthur Rüegg, Mateo Kries (org.). Weil am Rhein: Vitra Design Stiftung gGmbH, 2007; Polychromie
architectural. Farbenklaviaturen von 1931 und 1959/ color keyboards from 1931 and 1959. Arthur
Rüegg (org.) 2a edição. Boston: Birkhäuser, 2006.
11
Sobre os escritos de Tim Benton, destacamos: From Jeanneret to Le Corbusier: Rusting Iron, Bricks
and Coal and the modern utopia. In: Massilia, Annuaire d’études corbuséennes, 2003, pp. 28-39; The
Villas of Le Corbusier and Pierre Jeanneret. 1920-1930. Basel: Birkhäuser, 2007; Le Corbusier
conférencier. Paris : Moniteur, 2007.
24
Carnets de
Voyage,
1936. (FLC)
Estudo para
Deux figures
Rio’, 1936
(FLC 2992)
Deuz femmes
em buste,
1957 (FLC 41)
25
Em relação à pesquisa sobre o movimento Purisme e a relação entre Le Corbusier
e Ozenfant, destacamos as considerações de Danièle Pauly
12
e Françoise
Ducros
13
. As interpretações de Françoise de Franclieu sobre a pintura de Le
Corbusier
14
, bem como o estudo minucioso de Jean-Pierre e Näime Jornod
15
em
documentar e catalogar toda a obra plástica de Le Corbusier igualmente foram
essenciais para o presente trabalho.
Não podemos deixar de mencionar os esforços de Jacques Lucan ao organizar
uma enciclopédia de Le Corbusier
16
. Este trabalho logrou reunir inúmeras
reflexões sobre os mais diversos temas e conceitos estudados até o final da
década de 1980.
Em adição, indícios percebidos durante a atual pesquisa evidenciam igualmente a
prevalência de uma produção que durante os anos 1927-1936, enfatizava a
temática dos corpos na obra plástica de Le Corbusier; a presença de documentos
pessoais de Le Corbusier que indicam uma forte sensibilização a partir da
experiência nos trópicos
17
. Entretanto, poucos são os estudos sobre a sua obra
plástica realizados neste período e, ainda mais reduzidos são os trabalhos que
relacionam tais reflexões, presentes em arquitetura, em meio às demais poéticas
de Le Corbusier. Dentre as noções que mais fortemente marcaram este momento
para Le Corbusier: quais delas podemos dizer que sofreram permanências e
rupturas? Como percorreram os diversos campos de ação de Le Corbusier?
Manifestaram-se com a mesma intensidade? Quem são os atores que
contribuíram para tais questionamentos? Cabe retomar o estudo de Le Corbusier,
buscando compreender, através de um novo olhar mais comprometido com todas
as ações e relações deste ator inserido no seu tempo, um forte reconhecimento e
valor diante de suas reflexões sobre o próprio ser humano e, como conseqüência
sobre a cidade.
... Estou feliz, estou num carro, numa lancha, num avião; nado diante de meu
hotel, de ‘peignoir’ pego o elevador e volto ao meu quarto a trinta metros da água;
de noite perambulo a pé; faço amigos a cada instante...
Corolário Brasileiro. Conferência no Rio de Janeiro. 08-12-29
12
Dentre os escritos de Danièle Pauly, destacamos aqui a sua tese de doutoramento, intitulada Les
dessins de Le Corbusier. 1918-1928. Tese de doutorado, Université de Strasbourg UER des
Sciences Historiques, dirigé par A.E. Chatelet, 1985.
13
DUCROS, Françoise. La peinture puriste et L’Esprit Nouveau. Tese de doutorado 3o ciclo, Université
de Paris IV, Paris, 1986.
14
FRANCLIEU, Françoise. Peinture. In : Le Corbusier : une Encyclopédie. Paris : G. Pompidou, 1987.
15
JORNOD, J-P ; JORNOD, N. Le Corbusier : catalogue raisonné de l’œuvre peint. Milan : SKIRA,
2005.
16
LE CORBUSIER: UNE ENCYCLOPÉDIE. Jacques Lucan (org.) Paris : George Pompidou : 1987.
17
Nosso trabalho sobre os desenhos e a pintura de Le Corbusier no período entre as décadas de 1920
e 1930 teve início em 2005 ao participar do programa de jovens bolsistas da Fondation Le Corbusier,
cujas reflexões estão presentes nos seguintes escritos: Le Corbusier et le Brésil: les corps à réaction
poétique. Relatório de pesquisa à Fondation Le Corbusier, Paris, 2006 ; Le Corbusier and Rio de
Janeiro: Time Space and Poetry. In: Annual Dean’s Symposium Le Corbusier Revisited, 2009, Atlanta.
Annual Dean’s Symposium Le Corbusier Revisited, 2009.
26
Superior: rascunho do desenho gráfico do livro Urbanisme, publicado em 1924
Acima: Títuilo do recorte de jornal (1929), biblioteca pessoal de Le Corbusier (FLC)
27
Pequeno Vocabulário de Le Corbusier
Ao ler o título deste trabalho, o leitor poderia se perguntar os motivos pelos quais
não o organizamos segundo o próprio vocabulário de Le Corbusier. Por que
escolhemos o modo cronológico para apresentá-lo? Provavelmente seria mais
didático estruturar a dissertação segundo o seu vocabulário. Contudo,
consideramos que tal modo poderia ‘apagar’ o próprio processo da construção
metodológica do trabalho, visto que a escolha deste vocabulário não foi realizada
à priori. Isto é, os conceitos e noções apresentados foram resultados de um
estudo atento a própria historicidade de Le Corbusier. À medida que estudávamos
as suas ações, pudemos sublinhar como e quando algumas questões foram se
tornado um ‘tema’, ou melhor, uma questão para si. Ou ainda, quando elas
sofreram mudanças ou rupturas. Diante de um campo ainda frágil do estudo da
historiografia do pensamento arquitetônico e urbanístico no Brasil, o ‘apagamento’
deste processo metodológico não permitiria compartilhar de modo evidente
com o leitor neste momento, noções de processo e historicidade do próprio Le
Corbusier.
Deste modo, no primeiro capítulo, tratamos de abordar algumas noções que
aparecem de modo mais expressivo para Le Corbusier durante a década de 1920.
Debruçamo-nos, assim, sobre questões que giram em torno das noções de
geometria e máquina, presente em seus escritos da época. Igualmente
incorporamos estas noções nas demais poéticas de Le Corbusier desenhos,
pinturas e arquitetura. Não pretendemos apresentar de modo exaustivo as
reflexões de Le Corbusier durante este período. Nossa ambição é mais modesta
para o presente trabalho: compartilhar determinadas idéias que surgiram e foram
colocadas pelo arquiteto, através de suas obras, a fim de compreender de modo
mais fino e complexo os processos de ruptura e permanência ocorridos no final
desta década.
No segundo capítulo, estudamos o vocabulário de Le Corbusier de modo atento às
suas ações, movimentos e obra em 1928. Através da cronologia, tentamos
examinar as questões que mais fortemente marcaram-no neste momento. Estas
são apresentadas a partir das relações, do compartilhamento de idéias ou dos
debates, entre Le Corbusier e determinados atores sociais que contribuíram para o
pensamento ou para a obra de Le Corbusier. Em especial, destacamos as
relações com Charlotte Perriand, Paul Otlet, Sigfried Giedion e os arquitetos
soviéticos Aleksandr Vesnin e Moisei Ginzburg.
No terceiro capítulo, realizamos semelhante método de abordagem cronológica,
mas, neste momento para o ano de 1929. De fato, tratamos de apresentar as
reflexões e trabalhos de Le Corbusier através, sobretudo, do seu discurso escrito e
gráfico registrado ao longo deste ano. As considerações sobre a lei Loucheur e a
industrialização da arquitetura na França são questões que, por exemplo,
percorrem o discurso de Le Corbusier. Os debates sobre a noção da Wohnung für
Existenzminimum e da noção de Sachlichkeit com os colegas do CIAM levam Le
Corbusier a repensar o seu próprio entendimento sobre moderno. A viagem à
América do Sul, realizada no final deste ano, será uma nova descoberta e relação
com os corpos e a natureza.
O último capítulo contempla, por fim, as considerações finais acerca deste período
estudado, bem como, abre possíveis novas questões sobre o estudo da obra e do
vocabulário de Le Corbusier.
28
Capa do
Livro
Après le
cubisme, 1918
Fernand Léger.
Elément mécanique
sur fond rouge,
1924.
Huile sur toile Doação
Nadia Léger et Georges
Bauquier, 1969
Musée national Fernand
Léger, Biot.
29
Capítulo 1
Acerca das noções de geometria e máquina
A sedução pela máquina
Ponha em funcionamento a máquina. Todas as portas se abrem, tudo é confusão
na alegria. Convém mesmo lembrar que somos a primeira geração em milênios
que vê as máquinas, e devem-se perdoar tais admirações exacerbadas. ’
18
A estética da máquina
Estética Mecânica
Ninguém nega hoje a estética que surge das criações da indústria moderna. Cada
vez mais as construções industriais, as máquinas se estabelecem com
proporções, os jogos de volumes e matérias tais que muitas dentre elas são
verdadeiras obras de arte, porque comportam o número, ou seja, a ordem. O avião
e a limusine são puras criações que claramente caracterizam o espírito, o estilo de
nosso tempo. As Artes Contemporâneas devem igualmente assim proceder.
19
i
(L’Esprit Nouveau n.1, 1920)
O vocabulário da máquina e do período maquinista, presente nos escritos da
década de 1920, não é novo para Le Corbusier. Escritos anteriores, notadamente
a publicação Après le Cubisme
20
(3), confirmam a atenção pela máquina e a sua
relação com as artes e arquitetura. Contudo é, sobre tudo, nesta década que
Charles-Édouard Jeanneret explora de modo mais intenso e expressivo a sua
representação sobre a máquina. Neste momento atores como Amedée Ozenfant
21
(4) e Fernand Léger
22
estarão próximos de Jeanneret e contribuirão fortemente o
seu pensamento e obra. De fato, as noções compartilhadas entre Ozenfant e
Jeanneret neste período vão além das co-autorias em livros. É uma simbiose,
cujas leis estabelecidas a partir do movimento purista transcendem a relação
artística e profissional.
23
18
LE CORBUSIER. L’art décoratif d’aujourd’hui... p.114 (publicação brasileira)
19
OZENFANT ; JEANNERET. L’Esthétique Mécanique. In: L’Esprit Nouveau 1, Paris,1920.
20
Em 1918, Ozenfant e Jeanneret publicam em Paris o livro Après le Cubisme.
21
Amédée Ozenfant (1886-1966), pintor e teórico francês, conhece Charles Édouard Jeanneret através
de Auguste Perret, em 1918. Ao longo de quase uma década, a relação de Ozenfant e Charles
Édouard será intensa. Ambos constroem uma poética através das artes plásticas e a nomeam Purisme.
Escrevem juntos o livro Après le Cubisme, em 1918, e criam em 1920 a revista L’Esprit Nouveau. In:
ELIEL. C. ; DUCROS, F. L’Esprit Nouveau: Purism in Paris 1918-1925. Los Angeles - New York:
Abrams, 2001
22
Fernand Léger (1881-1955) nasce em Argentan, Normandia. Estuda na Ecole des Arts Décoratifs e
na Académie Julian. Em 1911 e torna-se membro do grupo Puteaux e compartilha as idéias do
movimento cubista na França. Aproxima-se das reflexões de Charles-Edouard Jeanneret e Ozenfant a
partir do final da década de 1910, dando início a uma intensa relação de amizade. Em 1925 expõe no
Pavilhão do Esprit Nouveau, projetado por Le Corbusier, Pierre Jeanneret e Charlotte Perriand.
Informações extraídas da biografia apresentada pelo Musée National Fernand Léger, França.
23
O período de maior proximidade e compartilhamento de idéias entre Ozenfant e Jeanneret será entre
1918 e 1925. Após esta data, Le Corbusier rompe a relação de busca e experimentação plástica com o
artista. Sobre a relação de Le Corbusier e Ozenfant, ver : DUCROS, F. La peinture puriste et L’Esprit
Nouveau. Tese de doutorado 3o ciclo, Université de Paris IV, Paris, 1986.
30
Jeanneret. Nature morte au violon rouge, 1920. Paris FLC.
31
‘Durante toda esta manhã de domingo trabalhei em minha pintura sem obter
resultados úteis. Contudo, acreditamos que estamos no caminho certo e, Ozenfant
avança forte e nós temos nossa estética que enlevará’.
ii
(Domingo, 16 de
novembro de 1919. FLC, R1-6-77)
A construção da noção de máquina em Le Corbusier
Turner relaciona as leituras de juventude de Jeanneret à construção da noção de
máquina apresentada por Le Corbusier nos anos 1920. Segundo Paul Turner, as
ideias e expressões de Henry Provensal
24
sobre a questão da arte e a ciência,
bem como o papel do artista face a um sentimento coletivo, são recolocadas por
Jeanneret e ‘ajustadas’ no contexto da nova era da Máquina
25
. Provensal afirma
que o artista tornar-se-á uma grande figura diretora, o ‘chefe iminente’ que
presidirá à elevação da alma ‘do homem em direção da vida toda harmoniosa’
26
.
A arte nova, iminente, reverterá uma expressão coletiva.
27
Em Après le Cubisme,
Jeanneret escreve que tal ‘sentimento coletivo substitui o antigo espírito do
artesão’ e que esta ‘transformação’ lhes parece um ‘progresso’, como um ‘fator
considerável da vida moderna’.
28
A máquina para o Jeanneret de Apès le Cubisme parece representar o mais belo
produto do homem moderno. O jovem suíço exalta as criações da indústria
moderna, pois nelas ele encontra pura ordem geométrica. Ao reconhecer o uso da
geometria nas coisas, sejam elas nas peças de uma máquina, sejam elas nas
partes componentes de um quadro ou de uma casa, Jeanneret considera escapar
do arbitrário. Para ele, o arbitrário conduz ao desperdício e distancia-se da
essência mais bela e pura nas coisas. Em Nature morte au violon rouge,
Jeanneret produz o jogo proporcional de volumes, luz e sombra. É uma
composição das partes relacionadas com o todo.
Carlos Martins considera que a máquina para Le Corbusier aparece em
determinados momentos como ‘metonímia’, ou seja, como ‘símbolo e expressão
do processo industrial’, mas também como ‘metáfora da realização da ordem’, seja
esta finalidade de ‘ordem das ‘necessidades materiais’ ou ‘espirituais’
29
.Martins
percebe uma tensão no discurso de Le Corbusier do início dos anos 1920, ainda
Jeanneret. Em suas palavras, esta tensão transita entre o entendimento da
máquina como um ‘instrumento’ e como um ‘contraponto humano à perfeição
funcional das criações da natureza’. A máquina é não somente uma extensão que
‘aperfeiçoa os membros do homem’ a fim de concretizar produtos com o
24
Henry Provensal, autor do livro L’Art de demain, nasce em 1868 e estuda na Ecole des Beaux-Arts
de 1887 à 1892. Diplomado em 1896, ele constrói um pavilhão para a Exposição Universal de Paris
em 1900. Nos anos 1890, expõe nos Salons dos projetos como L’Asyle du Rêve’, Fontaine arabe et
Minaret à Tunis’, ‘Tombeau du Poète’ e, em 1902, ‘Harmonie de l’espace’. In: TURNER, P. La formation
de Le Corbusier: idéalisme e mouvement moderne. Paris : Macula, 1987.
25
TURNER, P. La formation de Le Corbusier...p. 20-32
26
Idem.
27
Idem.
28
JEANNERET; OZENFANT. Après le Cubisme...p.26. In : Turner. La formation de Le Corbusier…
p.25.
29
MARTINS. C. Razón, ciudad y naturaleza..., pp. 30-31
32
Charles
-
Édouard Jeanneret (à direita),
seu irmão Albert e Amedée Ozenfant no
bureau da Revista L’Esprit Nouveaur,
por volta de 1920 (FLC)
33
mesmo rigor e precisão, mas também ‘potencializadora dos sentidos do homem’,
permitindo-o ‘ampliar seus conhecimentos sobre a própria natureza e ações sobre
a mesma’
30
. Através dos escritos mais íntimos de Jeanneret, o jovem arquiteto
expressa tais hesitações entre o elogio à matemática, e consequentemente à
máquina - ao seu puro, exato e belo jogo proporcional entre as partes e o todo - e
um sentimento arbitrário e perturbador da vida ordinária. O jovem artista parece,
assim, oscilar entre um estado de razão e paixão
31
, uma tensão que busca libertar
o espírito, mas ao mesmo tempo o controla. Em seus escritos íntimos, expõe este
tenso sentimento:
‘A vida tem sido dura. Ela torna-se cada vez mais dura. Não acreditem que eu
tenha me tornado insensível. Fui obrigado a escolher, pois os anos passam
tragicamente rápido e não se pode deixar que minha obra me escape.
Vocês não imaginam a luta que é em Paris. (...) Criam-se distâncias no campo do
entendimento e dos espíritos. Estas distâncias afastaram-me bastante dos meus
velhos amigos, por exemplo. Mas as falsas gentilezas sucumbem e permanecem a
estima e o afeto. Eis o que sinto bastante por aqui, onde estou pleno de coragem
e de certeza.’
iii
(Carta de 10 de novembro de 1920 aos seus pais FLC R1-6-93)
Em Urbanisme, Le Corbusier vai buscar esclarecer esta tensão entre a razão e
emoção ao definir a noção do ‘belo mecânico’. Neste momento, seu discurso
público apresenta já um Le Corbusier mais maduro onde sua tese agora defende a
beleza não como um simples efeito da pura matemática, mas como um sábio jogo
de juízos e valores estéticos, científicos com o sentimento de paixão:
Se pudéssemos admitir que o belo mecânico fosse de pura razão, a questão por
certo poderia ser dirimida claramente: a obra mecânica seria perecível. Qualquer
obra mecânica seria mais bela do que a que a precedeu, seria eclipsada pela
futura. Assim beleza efêmera, logo caída no ridículo. Ora, praticamente, não
acontece isso; a paixão intervém em pleno rigor de cálculo. (...) A máquina se põe
a viver, tem rosto e alma, seu fator de decadência diminui ao mesmo tempo que o
problema se estende para além do cálculo puro e simples.
32
(Urbanisme, 1924)
30
Idem.
31
Franclieu indica esta tensão, bem como compartilha esta reflexão com demais autores como von
Moos, Pauly, entre outros. In: FRANCLIEU, F. Panorama de l’oeuvre peint…p. 107.
32
LE CORBUSIER. Urbanisme. Paris: Edition G. Crès et Cia, 1924. p.46-47 (versão brasileira)
34
Fernand Leger ,
Actualités
.
in: Varietés, Bélgica, 15 de fevereiro de 1929.
35
A máquina e as noções de ‘padrão’
‘O automóvel é um objeto com uma função simples (rodar) e para fins complexos
(conforto, resistência, aspecto), que colocou a grande indústria diante da
necessidade imperiosa de padronizar. (...) O estabelecimento de um padrão
procede da organização de elementos racionais conforme uma linha de conduta
igualmente racional. A massa envolvente não é preconcebida, ela resulta. (...) O
padrão estava fixado. Veio o aperfeiçoamento’.
33
(Vers une Architecture, 1923)
‘Padrão em toda parte, uniformidade no detalhe. Tranquilidade do espírito. As
grandes ordenações podem, então, elevar seu canto. (...) Os elementos tenderão
à uniformização.
(nota: ocorreu um grande acontecimento: a aplicação universal do cimento
armado. Esse meio novo propõe ao inventor e ao artista plástico soluções novas
de importância decisiva)’.
34
(Urbanisme, 1924)
As palavras acima de Le Corbusier, escritas em 1923 e 1924, sugerem-nos que as
noções de ‘universal’ e ‘uniformidade’ caminham juntas frente ao período da
grande indústria. A uniformização dos elementos parece tender a uma
universalização da aplicação dos mesmos. A uniformização, ou melhor, a
padronização das coisas reforçaria o sentido de universalização dos usos das
mesmas. Em relação a estas noções, Le Corbusier parece assim, neste momento,
fundi-las. Uma importante consideração que François Jullien
35
faz sobre o
entendimento de universal na História é mostrar que nem sempre a noção de
universal esteve próxima à noção de uniformidade. Neste período do início do
século, Le Corbusier parece aproximá-las, mas como veremos mais adiante, tal
entendimento será posto em cheque nas décadas seguintes.
Fazer arquitetura segundo ‘padrões’
36
, reclamar uma ‘uniformidade no detalhe ao
fazer urbanismo’
37
, buscar ‘a escala humana definindo padrões humanos’
38
. Le
Corbusier está preocupado em agir segundo determinados padrões, pois
considera ser uma ação coerente e necessária face às questões da sociedade
moderna. É preciso agir segundo o ‘espírito de seu tempo’.
Se a dura vida maquinista, que é o nosso quinhão, impõe a nosso espírito uma
feição áspera e severa, é porque uma página foi virada; e está uma existência
nova, que não é muito amiga de brincadeiras. (...) Não espernear, mas participar
com alegria dessa magnífica corrente e organizar o curso de uma vida mais
ampla, empenhada no trabalho, visando a metas criativas, à qual se deve dar
descanso com a recreação do corpo e encher de alegria com as investigações da
mente. (...) Trata-se, portanto, sobretudo de uma questão de organização, de
mecânica interior.
39
(L’art décoratif d’aujourd’hui, 1925)
33
LE CORBUSIER. Vers une Architecture. Paris: Edition G. Crès et Cia, 1923. p.93 (versão brasileira)
34
LE CORBUSIER. Urbanisme... p.67 (versão brasileira)
35
JULLIEN, F. O diálogo entre as culturas. Rio de Janeiro: Zahar, 2009. Publicado originalmente em
francês um ano antes.
36
LE CORBUSIER. Vers une Architecture... p.99 (versão brasileira)
37
LE CORBUSIER. Urbanisme... p.69 (versão brasileira)
38
LE CORBUSIER. L’art décoratif d’aujourd’hui… p.67 (versão brasileira)
39
Idem, p.42-43-46
36
Charles-Édouard Jeanneret, Nature morte verticale, 1922, óleo sobre tela
(Kunstmuseum Basel).
Croquis preliminar de planta baixa para o projeto da Villa
La Roche/Jeanneret, Paris 1923-25. in: Von Moos, Art...pp81.
Artigos fabricados em
série, livro L’art décoratif
d’aujourd’hui, 1925
37
Com estas palavras, Le Corbusier convida o leitor a rever o seu comportamento
perante a nova realidade, pois seria através deste ‘bom caminho’ que se
alcançaria a harmonia e, portanto, a felicidade. O autor está consciente de que a
vida moderna trouxe uma nova ‘mecânica ao espírito’ e, isto não pode ser
ignorado. Novos temas e problemas surgem e devem assim ser debatidos. ‘A
grande indústria deve se ocupar da construção e estabelecer em série os
elementos da casa’
40
. A habitação em rie e, consequentemente da produção
em série do seu mobiliário são possibilidades de soluções face às questões
emergidas neste período maquinista. ‘É preciso criar o estado de espírito da série.
O estado de espírito de construir casas em série. O estado de espírito de residir
em casas em série. O estado de espírito de conceber casas em série’.
41
A máquina em arquitetura: a máquina de morar
‘As coisas atuais da arquitetura não respondem mais à nossas necessidades. No
entanto os padrões da habitação existem. A mecânica traz consigo o fator de
economia que seleciona. A casa é uma máquina de morar’.
42
(Vers une Architecture, 1923)
A casa para Le Corbusier será apresentada como tendo duas finalidades neste
momento. Ela será uma máquina, ou seja, um jogo cujas peças – mobiliário,
conforto, ventilação, iluminação, tecnologia construtiva articulam- se
harmoniosamente, destinadas a conferir ao homem moderno o suporte eficaz às
exigências do corpo. Todavia, é indispensável que a casa seja bela, o lugar que
acolhe o espírito e o conduz à meditação.
43
A geometria, os deuses e o pitoresco
‘A máquina é toda de geometria. A geometria é nossa grande criação e nos
enleva. (...) A máquina faz brilhar à nossa frente discos, esferas, cilindros de aço
polido, de aço talhado com uma precisão de teoria e uma acuidade que jamais nos
mostrou a natureza. Os sentidos ficam emocionados ao mesmo tempo que nossa
mente reencontra no estoque de nossas recordações os discos, as esferas dos
deuses do Egito e do Congo. Geometria e deuses pontificam juntos!’
44
(L’art décoratif d’aujourd’hui, 1925)
Durante a década de 1920, Le Corbusier revisita os autores estudados com
L’Eplattenier
45
em La Chaux-de-Fonds. Méthode de composition ornamentale,
d’Eugène Grasset, Grammar of Ornament d’Owen Jones, assim como várias obras
de Ruskin estarão presentes nas reflexões de Le Corbusier em livros como L’art
décoratif d’aujourd’hui, de 1925. Ao descrever as ‘influências’ de sua juventude, Le
Corbusier evoca Grasset como o ‘geômetra e algebrista das flores’, adicionando
que, ‘cumpria admirar com ele, até no âmago de sua estrutura, todas as flores,
40
LE CORBUSIER. Vers une Architecture... p.159 (versão brasileira)
41
Idem. Ibidem.
42
Idem, p. 69
43
LE CORBUSIER. Almanach d’architecture moderne. Paris: Edition G. Crès et Cia, 1926. In: Le
Corbusier, une encyclopédie. Jacques Lucan (org.). Paris : Centre Pompidou, 187. p.243.
44
LE CORBUSIER. L’art décoratif d’aujourd’hui… p.VIII (versão brasileira)
45
Charles L’Eplattenier (1874-1946) nasce em Neuchâtel, Suíça. Estuda na Ecole des Beaux- Arts de
Paris (1893) e torna-se professor de desenho (1898) e diretor (1903) na Ecole de La Chaux-de-Fonds,
Suíça. In: Turner. La formation de Le Corbusier..., p. 204; Von Moos. Le Corbusier, p. 13-14)
38
Citè Frugèes, Pessac França, 1924.
39
Citè Frugèes, Pessac França 1924 - Traçado regulador.
Jeanneret. Nature morte du
Pavillion de L’espirit nouveau,
1924. Paris FLC.
40
Immeuble-villas, 1922-25
Loteamentos fechados com
alvéolos - fachada.
Immeuble-villas, 1922-25.
Loteamentos fechados com
alvéolos - perspectiva e corte axonométrico.
41
amá-las tanto que era de rigor espalhá-las em todas as obras que gostaríamos de
empreender.
46
Le Corbusier admitia que, naquele momento, ‘apenas a natureza
poderia ser bela’ e, por isso, estaria condenado a tornar-se somente ‘imitador de
suas formas e de suas maravilhosas matérias’
47
. Com Owen Jones, The Grammar
of Ornament, Le Corbusier atribui uma influência mais importante no entendimento
entre natureza, homem e criação
48
.
Ah! Mas, é que encontrávamos lá muito mais o homem da natureza e, se a
natureza era onipresente, o homem estava lá inteiro com suas faculdades de
cristalização, com sua formação geométrica. Da natureza passávamos para o
homem. Da imitação para a criação. (...) Com aquele livro, sentíamos que se
formulava o problema: O homem cria uma obra que o emociona.
49
(L’art décoratif d’aujourd’hui, 1925)
Segundo Turner, o interesse de Le Corbusier pelos sistemas de proporções
atravessa os seus anos de juventude. O ‘ângulo reto, a matemática, a geometria, a
máquina têm um significado moral e espiritual’
50
. Pelas palavras, pela arquitetura
e pela pintura, Le Corbusier encarna este ‘espírito de verdade e moral’, permitindo-
se não mais imitar a natureza, porém criar, e, portanto, emocionar. Este
sentimento humano permite doravante libertar o Homem dos ‘caprichos e
incertezas da natureza’ e experimentar um novo patamar de criação, àquele junto
à abstração e ao ‘absoluto’
51
. A busca por uma formação clássica, bem como a
afirmação desta formação nos primeiros anos de 1920, parece tornar uma questão
central para Le Corbusier.
‘A obrigação da ordem. O traçado regulador é uma garantia contra o arbitrário.
Proporciona a satisfação do espírito. O traçado regulador é um meio; o é uma
receita. Sua escolha e suas modalidades de expressão fazem parte integrante da
criação arquitetural’
52
. (Por uma arquitetura, 1923)
A pureza das formas primárias e do sentido de ‘ordem’ seduz o arquiteto. Este
‘absoluto formal’ e a noção de ‘beleza ideal’, defendida por Provensal, ao referir-se
à estética em Platão, aparenta ser uma questão de grande prioridade no
pensamento de Le Corbusier neste momento. Turner menciona, por exemplo, a
crítica de Le Corbusier à obras de um teatro projetado por Auguste Perret
53
,
publicado em 1924, no Bulletin de la vie artistique, onde as considerações de
ordem prática parecem tornar-se secundárias se conflitadas com a expressão da
forma pura.
54
46
LE CORBUSIER. L’art décoratif d’aujourd’hui… p.134-135 (versão brasileira). In : TURNER. La
formation de Le Corbusier… p. 16.
47
LE CORBUSIER. L’art décoratif d’aujourd’hui… p.135 (versão brasileira).
48
TURNER. La formation de Le Corbusier… p. 16.
49
LE CORBUSIER. L’art décoratif d’aujourd’hui… p.135 (versão brasileira).
50
TURNER. La formation de Le Corbusier… p. 201.
51
Idem.
52
LE CORBUSIER. Vers une Architecture... p.41 (versão brasileira)
53
Auguste Perret (1874-1954) estuda na Ecola des Beaux-Arts, mas antes mesmo de terminar seus
estudos, ele colabora na empresa de construção de seu pai, juntamente com seus irmãos Gustave e
Claude. Sua obra é notória pelo pioneirismo em experimentar na França o concreto armado na
construção civil. Ao colaborar no escritório de Perret em Paris a partir de 1908, Jeanneret depara-se
aos novos processos técnicas construtivas no campo da arquitetura, marcando o seu pensamento e
obra doravante. In: TURNER. La formation de Le Corbusier... p. 57.
54
In: TURNER. La formation de Le Corbusier... p. 185-187.
42
Ozenfant e Jeanneret. Sur la plastique.
Revista de L’Espirit nouveau 1920
43
Le Corbusier jamais frequenta a École des Beaux-Arts. Contudo, a construção de
um pensamento baseado na formação clássica, segundo Stanislaus von Moos, é
resultado de ‘ações viscerais a partir de uma ativa busca pelos princípios de base
e fundação das artes’.
55
Dentre estes princípios, está a noção de ‘proporção’. Von
Moos indica uma tensão no entendimento desta noção para Le Corbusier. O
conceito de proporção, para o arquiteto, é construído segundo tensões de um
pensamento racional, mas, também ‘humanista (oposto a funcional ou utilitário)’.
56
‘A necessidade de ordem é a mais elevada das necessidades humanas. Ela é a
causa mesa da arte’
iv
. (Sur La Plastique, L’Esprit Nouveau n.1, 1920)
As formas geométricas primárias, em particular as formas cúbicas foram assim,
pouco a pouco, associadas ao pensamento e reflexão de Le Corbusier. Sua
defesa nos primeiros escritos públicos parece constar as contradições e lutas
internas que Le Corbusier tem consigo mesmo. São, nos momentos mais íntimos
,que podemos reconhecer um homem menos dogmático, confuso, errante.
‘Meus pensamentos de arte elevam-se em direção à plástica, uma forma, uma
linha cada vez mais esotérica. Meus ensaios são disformes, decepcionante. Toda
a minha imaginação trabalha. Quero uma clareza, uma polidez, uma lucidez que
tolere apenas o puro lápis, disciplina de ritmo, e moderação da cor. E eu pinto
lixos.
(...)
Instintivamente, vou para casa para escapar das amizades frívolas. Ou se me atiro
nos bulevares onde estão as moças, é para encontrar uma expressão da mais
ideal matemática a este sonho de beleza que meus pincéis esforçam- se a querer
criar (...) Tenho cada vez mais na pintura moderna, mais naquelas tantas
pessoas que como eu sonham, mas que realizam por serem melhor dotadas.
Como um homem está sozinho no mundo’.
v
(Cahier 12 maio, 1918. FLC)
Em seu artigo Art, Spectacle and Permanence: a rear-mirror view of the Synthesis
of the Arts, Von Moos , coloca em suspensão o problema da perseverança do
arquiteto ao explorar a ‘cultura do pitoresco’
57
. Segundo o historiador, um
esforço de Le Corbusier em situar a arquitetura na paisagem, bem como
incorporar a natureza na arquitetura e na pintura. A geometria seria o instrumento,
um caminho e, portanto, uma ‘linguagem’ do homem moderno.
58
Não é nosso
intuito aqui aprofundar as questões para Le Corbusier cujas reflexões estão
relacionadas àquelas tematizadas por autores de língua alemã do século XIX,
como, por exemplo, as noções de pitoresco e sublime. Nossa proposta é mais
modesta, a dizer, trazer a luz os possíveis momentos onde tornam-se mais
evidentes as tensões, ou melhor, as oscilações do seu pensamento, dito, ‘ora
racional’, ora ‘romântico’. Esse esforço permite deslocar um aparente
entendimento de um Le Corbusier apenas pragmático e positivista. Em seus
registros durante a viagem à América do Sul, Le Corbusier evidencia esta tensão
num profundo momento de experiência e reflexão sobre a vida.
‘E eis aqui o que pensava na floresta de S. Martinho, às doze horas de trem do
litoral, na direção do centro do Brasil: É preciso saber estar em estado de
55
VON MOOS, S. Art, Spectacle and Permanence: a rear-mirror view of the Synthesis of the Arts. In: Le
Corbusier. The Art of Architecture. Alexander von Vegesack, Stanislaus von Moos, Arthur Rüegg,
Mateo Kries (org.). Weil am Rhein: Vitra Design Stiftung gGmbH, 2007. p. 89
56
Idem, p. 90
57
VON MOOS, S. Art, Spectacle and Permanence… p. 90.
58
LE CORBUSIER. Vers une Architecture... p.44 (versão brasileira)
44
Le Corbusier em Paquetá, Rio de Janeiro, 1929. (FLC)
45
julgamento, sempre. Esteja você nos trópicos do Brasil, nos pampas argentinos,
em Assunção dos índios, etc. Saber vencer o cansaço ambiente e julgar por um
critério-padrão, em si, uma coisa que está em harmonia com tudo, e que,
consequentemente, não choca em nada. Salvo a terra muito vermelha e as
palmeiras, encontramo-nos na paisagem eterna de toda a parte: estepes ou
pampas não passam de pura extensão; floresta virgem ou bosque francês nada
mais são que ramificações. Compreender! Ver os negros, os mulatos, os índios na
massa humana de São Paulo!
Considerar o estilo de Buenos Aires! (...) A floresta virgem é como as outras;
cipós, entretanto; não podemos ignorá-los (...) A floresta é silenciosa, imóvel,
abafada, impenetrável ameaçadora, talvez. (...) Tudo está dentro da floresta
americana, mas não se nada. Esperar, espreitar, escutar, um, dois dias
seguidos, e a floresta falará.
Mas nunca se tem tempo! Do mesmo modo na vida! Saber estar em estado de
julgamento!’
59
Através da experiência sensível da imponência da natureza tropical e do esforço
humano a controlar esta própria natureza, Le Corbusier reflete sobre a própria
noção de sujeito e da relação deste com as coisas. ‘Saber estar em estado de
julgamento’, eis uma reflexão que Le Corbusier registra em seu caderno de
viagem, um gesto consciente e banhado no pensamento kantiano e de futuros
leitores de Kant, como por exemplo, Nietzsche.
De fato, os registros das viagens de Le Corbusier às Américas parecem
apresentar, pela primeira vez, de modo mais evidente – se tomarmos como
referência a sua obra anterior esta tensão, bem como, diálogo com alguns dos
autores do movimento romântico alemão.Cabe-nos, assim, analisar de modo mais
fino, seus escritos e obras, em relação ao meio social e cultural em que esteve
imerso durante este final da década de 1920.
59
Le Corbusier. Prólogo Americano. In : PEREIRA. Le Corbusier e o Brasil..., p. 80-81.
47
Capítulo 2
1928: les noires années sont passées
‘Minha querida mamãe,
Esta manhã, uma carta sua. Eu a esperava há muito (...)
Estou cheio de frenesi depois da minha pintura. A manhã
passa e, as noites ao desenho. E os dias passam, devoram.
Desde minha partida de Corseaux, o caso PdN*
segue uma trilha de cólera. A reação é forte por todos os
lados. Invectivas. Mas eu, jogando em terreno seguro,
tentei fazer outra coisa. E, talvez isso não seja nada mal.
(...) Tenho a impressão de que os ‘anos negros’ passaram.’
60vi
.
*Palácio das Nações
Noite de 20 de Janeiro de 1928. É inverno na cidade de Paris. Contudo, as horas
dedicadas à pintura animam Le Corbusier a escrever uma carta à sua mãe antes
do repouso. As palavras de ‘boas novas’ confirmam seus desejos e metas que
percorrerão todo o ano de 1928. ‘Les noires années sont passées’, ‘os anos
negros passaram’. De fato, o ano porvir trará luzes e marcará a vida do arquiteto.
Determinado a agir perante a indignação do resultado do concurso para a sede da
Sociedade das Nações em Genebra, Le Corbusier encabeçará lutas por
mudanças na arquitetura, no urbanismo, na vida do homem moderno.
O ano de 1928 será intenso para Le Corbusier: escritos que resultarão no livro
Une Maison Un Palais, conferências em novos lugares, viagens a um novo
mundo, projetos e pinturas com um novo patamar de cores. Se, em fevereiro Le
Corbusier concentra-se, juntamente com Pièrre Jeanneret e
Charlote Perriand, em projetos no atelier da Rue de Sèvres
61
para as Vilas La
Roche e Church; em julho, ele viaja à Suíça a participar do primeiro congresso
internacional de arquitetura moderna, no Château de La Sarraz
62
. Durante o
segundo semestre, seus passos vão ainda mais longe. Le Corbusier prepara-se
para a sua primeira viagem à Moscou, a ser realizada na primeira semana de
outubro. De fato, será um ano repleto de convites e compromissos. Contudo,
alguns deles trarão novos desafios a Le Corbusier, em especial, o convite do
jurista belga Paul Otlet a desenhar a sede de um Centro dos saberes mundiais e
universais para a cidade de Genebra, o Mundaneum
63
e, o convite para
60
Carta de Charles Edouard Jeanneret à sua mãe, em 20 de janeiro de 1928. In : Jean Jenger.
Le Corbusier – Choix de lettres, pp. 191, 192.
61
Rue de Sèvres, 35 foi o endereço em Paris do escritório de arquitetura de Le Corbusier e Pierre
Jeanneret por quase quatro décadas (1924-1965).
62
A Mansão em La Sarraz, na Suíça, será o lugar oferecido pela Senhora Madame Hélène de Mandrot
(1867–1948), patrona do Werkbund suíço, a sediar o primeiro encontro dos Congressos Internacionais
de Arquitetura Moderna em 1928.
63
A idealização do Mundaneum tem sua origem no final do século XIX. Criado por iniciativa de dois
juristas belgas, Paul Otlet (1868-1944) e Henri La Fontaine (1854 1943), ganhador do premio Nobel
da Paz, o projeto visava reunir o conjunto dos ‘saberes’ do mundo, bem como a classificação dos
mesmos segundo o sistema de Classificação decimal universal (CDU) desenvolvida pelos próprios
Otlet e La Fontaine. O Mundaneum foi concebido como um centro de documentação de caráter
universal, bem como uma ferramenta dos conhecimentos para a paz mundial. Um projeto mais
grandioso, em seguida, tomou forma: Cité Mondiale. O seu objetivo era reunir de forma global, as
principais instituições do trabalho intelectual: bibliotecas, museus e universidades. Otlet convida Le
Corbusier a realizar os projetos de arquitetura e urbanismo para o Mundaneum e, em seguida, para a
Cité Mondiale. Contudo, o projetos de Le Corbusier, pensados para Genebra jamais foram realizados.
48
LC, Perriand e
Jeanneret. Foto-
colagem no
Equipement intérieur
d’une
habitation,L’architectu
re vivante, verão de
1930.
Colar. Design de Charlotte
Perriand, 1927.
Le Corbusier e Charlotte
Perriand, 1928.
49
palestrar em Moscou e participar do concurso da sede da União Central de
Cooperativas de Consumação, o Centrosojuz.
Ao longo deste ano, alguns personagens contribuem ricamente ao pensamento e
a obra de Le Corbusier. Às vezes tais contribuições serão mais explícitas no
campo da criação, como é o caso da colaboração de Charlotte Perriand
64
no
atelier da Rue de Sèvres. Outras vezes elas manifestam-se na ampliação dos
conceitos, como será a relação com Otlet. Algumas relações tornam-se férteis
pelos debates travados e pela divergência no modo de agir e pensar sobre a
cidade. A relação de Le Corbusier com o grupo de arquitetos alemães e suíços
dos CIAM, por exemplo, será muitas vezes tensa e complexa. Não obstante, a
visita à Moscou será uma grande descoberta. Ao lado dos russos Moisei Ginzburg
65
, Aleksandr
Vesnin
66
e Andrej Burov
67
, Le Corbusier conhece fragmentos de uma sociedade
cuja lógica social, econômica e política é distante daquela compartilhada pela
sociedade ocidental. Por compreender que as palavras e o discurso de Le
Corbusier nesta época serão profundamente marcados pela relação com estes
atores, trataremos no presente capítulo de abordar a relação do arquiteto com
aqueles que provocaram, de certa forma, ecos mais fortes nos escritos e na
arquitetura de Le Corbusier.
Charlotte Perriand no atelier da Rue de Sèvres
‘ A mulher moderna cortou os cabelos. Nossos olhares
conheceram a forma de suas pernas. O espartilho deixou
de existir. ‘A etiqueta’ sumiu. A etiqueta nasceu na corte.
Nela, apenas algumas pessoas tinham o direito de sentar
e precisavam fazê-lo de uma certa maneira. Mais tarde,
no século XIX, o burguês tornou-se rei e encomendou
poltronas infinitamente mais esculpidas e douradas do
que aquelas de uso dos príncipes de sangue. As ‘boas
maneiras’ foram ensinadas no convento. Pois bem, hoje
tudo isto nos entedia! Uma pessoa distinta jamais perde
sua distinção, mesmo no carnaval. Quanto a isto estamos
64
Charlotte Perriand (1903-1999) nasce e estuda em Paris. De 1921 à 1925, cursa com uma bolsa a
Ecole de l’Union centrale des arts décoratifs, sob a direção de Henri Rapin. Ainda jovem, participa
diversas vezes do Salon des artistes décorateurs e inicia sua colaboração no atelier de Le Corbusier
em novembro de 1927. De 1940 à 1946 reside e trabalha no Japão, convidada pelo ministério do
Comércio e Indústria, como conselheira de arte industrial japonesa. Sobre a vida e obra de Perriand:
PERRIAND. C. Une vie de création. Paris : Odile Jacob, 1998.
65
Moisei Ginzburg (1892-1946) nasce em Minsk em meio de uma família cujo pai era arquiteto. Estuda
em Milão e, durante a 1ª guerra mundial retorna à Moscou. É membro fundador do grupo OSA
(Organização de arquitetos contemporâneos) e faz parte do movimento construtivista russo. Aproxima-
se das reflexões de Le Corbusier desde os escritos da revista L’Esprit Nouveau. Todavia, na década de
1930, sua relação com o arquiteto franco-suíça complexifica-se ao propor a noção de desurbanismo,
contestada por Le Corbusier. In: COHEN. Le Corbusier et la mystique…
66
Alexander Aleksandrovic Vesnin (1883-1959) graduou-se em engenharia e trabalhou junto com seus
irmãos Leonid e Viktor Vesnin. Participa ativamente do movimento construtivista russo. Suas idéias
aproximaram-se das reflexões de Le Corbusier, tornando-se um grande difusor das teorias e obras do
arquiteto franco-suíço na URSS.
67
Andrej Burov foi aluno de Vesnin. Durante a estadia de Le Corbusier na URSS, Burov é o cicerone,
mostrando-lhes as recentes construções moscovitas. Foi responsável por introduzir o arquiteto franco-
suíço ao cineasta Sergej Ejzenštejn. In: COHEN, J.L. Le Corbusier et la mystique de l’URSS. Théories
et projets pour Moscou 1928-1936. Paris : Pierre Mardaga, 1987. pp.73.
50
Le Corbusier, Pierre
Jeanneret e Charlotte
Perriand : fauteil pivotant,
1927-28 ; fauteil à dossier
basculant, 1928 ; fauteil
grand confort, 1928
51
tranquilos!
E, sobretudo agora nos sentamos melhor! E a casa
foi esvaziada de seus móveis. O espaço e a luz são abundantes.
Circula-se, age-se rapidamente’.
Conferência em 19 de outubro, 1929, Buenos Aires.
As palavras de Le Corbusier em sua décima conferência em Buenos Aires, no ano
de 1929 revelam algumas questões importantes para o arquiteto naquele
momento. Sua visão sobre a mulher moderna, bem como o comportamento dos
homens e mulheres modernos – dentro ou fora de casa – são questões que
percorrerão o pensamento mais íntimo, bem como o discurso público de Le
Corbusier. É nesse período que as ideias e as ações do arquiteto aproximam-se
àquelas da jovem Charlotte Perriand. A partir do último bimestre de 1927, a
presença e convívio diário de Charlotte no atelier da Rue de Sèvres trarão ricas
contribuições no pensar e agir de Le Corbusier.
De fato, Charlotte Perriand logrará concretizar nos projetos de arquitetura de
interiores noções presentes no discurso oral e escrito de Le Corbusier. Segundo
Tim Benton, Charlotte ‘pode consagrar seu tempo e senso do detalhe à ‘aventura
do mobiliário’, anunciada por Le Corbusier em suas conferências, mas que jamais
havia sido realizada’
68
. ‘Le métal est à l’agencement intérieur ce que le ciment a
été en architecture. C’est une révolution
69
. ‘O metal é para o design de interiores,
aquilo que o cimento foi para a arquitetura. É uma revolução’. Ao longo dos anos
de 1927, 1928 e 1929, o estudo e trabalho sobre o metal no mobiliário, a pré-
fabricação e o desenho de peças metálicas tubulares fará parte do discurso
defendido por Charlotte, antes mesmo de colaborar com Le Corbusier. De fato, tal
discurso moderno estenderá os limites do desenho de interiores.
O colar de bolas en cuivre chromé, os ‘cabelos curtos’ e o desejo em decidir vestir
livremente calças ou saias em lugares e situações diversas fazem parte da atitude
moderna de Charlotte. Certamente, a relação de Le Corbusier e Charlotte foi
tensa, marcada por posicionamentos diversos na vida social e política e,
possivelmente, marcada por ciúmes da relação mais íntima que Charlotte viria a
ter com Pierre Jeanneret.
70
Uma noite, por volta das 6 horas, Corbu me convida à
acompanhá-lo às obras do Pavilhão suíço. Jamais esquecerei
este dia, marcado de forte incompreensão mútua.
(...) Corbu pára em um dos quartos de estudante e, de
modo inesperado, me pergunta: ‘Como vive depois do seu
divórcio?’ Fiquei estupefata. Esta pergunta incongruente,
seria econômica? Afetiva? Por quê? ‘Bem’, respondi.
Diante do meu espanto, ele continua : ‘Ama as mulheres?
Posso entender. – ‘Certamente que não, que idéia !’
(…) ‘Devo dizer a você que no atelier há um nobre moço,
Pierre, que só pensa em você, pense nisso’. Fui tomada
de grande surpresa. (...) Era a eterna história de Adão e
Eva, e Eva era caçada no paraíso. Com Corbu, ofendido,
nada foi como antes’.
vii
68
BENTON, T. Charlotte Perriand: les années Le Corbusier. In : Charlotte Perriand. [org. Marie- Laure
Jousset]. Paris : Éditions du Centre Pompidou – Adago, 2005. p.14
69
Charlotte Perriand. Wood or Metal? A Reply to John Gloag’s Article in our January Issue. The Studio,
n.97, 1929, p. 278-279. In: BENTON, T. Charlotte Perriand: les années… p. 15.
70
BENTON, T. Charlotte Perriand: les années… p. 13.
52
Herman Louis de Koninck,
inventário de elementos de
cozinha Cubex, prospecto
da empresa Van der Ven,
Bruxelas, 1935, documento
de Arthur Rüegg.
Cozinha, Salon d’Automne. in
Oeuvre complète, 1929-1934.
Parede que divide a sala da
cozinha. Salon d’Automne. in
Oeuvre complète
, 1929
-
1934.
53
Todavia, tais momentos fizeram parte de um período de rica contribuição e
reflexão aos três arquitetos. Em arquitetura, por exemplo, Le Corbusier viria a
afirmar a construção um novo vocabulário que substituiria a noção de mobiliário: o
equipamento doméstico
71
. Ao longo dos primeiros anos de colaboração, Charlotte
logrou compartilhar os conceitos de Le Corbusier, presente em seus discursos
públicos sobre a máquina, a produção em série e um novo mobiliário moderno,
desenhado para o homem e a mulher moderna.
Os projetos da mesa extensible avec fauteil tournant, a chaise longue basculante,
ou o fauteil Grand Confort, bem como o projeto de interiores para as Vilas Church
e La Roche, na França, ou para os espaços apresentados no Salon d’automne de
1929, em Paris, são exemplos desta rica relação do trio Le Corbusier, Jeanneret e
Perriand.
Arthur Rüegg considera que o conceito de unidades modulares, presente no
‘movimento internacional de reforma da art ménager’, é entendida e praticada pelo
trio de arquitetos até nas pequenas divisões de ordenação dos espaços destas
unidades
72
. Dito de outra forma, tal modulação, racionalização e ordenação será
pensada inclusive nas pequenas divisões em casiers (caixas) metálicos standards
e justapostos das cozinhas, por exemplo.
‘Graças à diversificação de sua configuração interna, os mesmos elementos
poderiam acolher igualmente panelas, louça ou produtos alimentícios, bem como
servir de passa-prato’
73
. Para Rüegg, tal proposta torna-se uma tentativa de uma
‘análise científica’ do processo de preparação e cozimento da refeição, apoiadas
nas teorias desenvolvidas pela indústria do americano Frederick W. Taylor.
74
Não é possível afirmar que Charlotte Perriand colaborou em todos os projetos de
interior no escritório de Le Corbusier e Pierre Jeanneret entre os anos de 1927 e
1937.
75
Tensões e discordâncias no método de conceber o mobiliário eram
constantes. Tim Bentom e Arthur Rüegg mencionam o tema da mesa de jantar
como um ponto de divergências entre Charlotte e Le Corbusier.
76
‘Se, uma vez por
semana, eu recebo para jantar dez amigos por um período de três horas, devo
ficar desconfortável por toda a minha vida com esta mesa gigantesca que ocupa
toda a minha sala de jantar?’
77
,
71
Os estudos de Tim Benton e Arthur Rüegg consideram que as reflexões de Le Corbusier sobre a
questão do mobiliário serão ricamente contribuídas a partir da colaboração com Perriand. A noção de
equipamento doméstico é, sobretudo, uma construção coletiva. Ver: RÜEGG. A. Charlotte Perriand:
Livre de Bord. Basel Boston Berlin: Birkhäuser, 2004; RÜEGG. A. Les cellules vitales’ : cuisson et
sanitaire. In : Charlotte Perriand. [org. Marie-Laure Jousset]. Paris : Éditions du Centre Pompidou
Adago, 2005. p. 130-140 ; BENTON, T. Charlotte Perriand: les années Le Corbusier. In : Charlotte
Perriand. [org. Marie-Laure Jousset]. Paris : Éditions du Centre Pompidou – Adago, 2005. p.12-24.
72
RÜEGG. A. Les ‘cellules vitales’ … p. 131-132.
73
Idem. p.132
74
Idem.
75
BENTON, T. Charlotte Perriand: les années… p. 15.
76
Ver nota 13.
77
‘Si une fois par semaine, je reçois pendant trois heures dix amis à dîner, vais-je être encombré toute
ma vie d’une gigantesque table remplissant toute ma salle à manger? Citação de Le Corbusier em
L’Architecture Vivante. Printemps-été, 1928, p.33. In : BENTON, T. Charlotte Perriand: les années… p.
15. RÜEGG. A. Charlotte Perriand: Livre de Bord, op. cit. , p. 24-25. In : BENTON, T. Charlotte
Perriand: les années… p. 15.
54
Interior da residência de
Charlotte Perriand. Arquivo
Charlotte Perriand.
Le Corbusier, Pierre Jeanneret
e Charlotte Perriand;
perspectiva da sala de jantar
da Villa Church, 1928.(FLC)
55
questiona Le Corbusier. A solução do arquiteto é a criação de um conjunto de
mesas standards, justapostas, e de base em aço tubular. Charlotte Perriand
projeta uma mesa única, porém, extensível. A mesa é composta por duas peças
em madeira cobertas por uma camada de ‘borracha’ que desliza e amplia a
dimensão da mesa. Ela realiza um primeiro modelo para o seu apartamento em
1927 e, num segundo instante a fabrica em uma versão
‘luxo’ em 1930. Segundo Arthur Rüegg, Charlotte decide seguir a via ‘décorateur-
inventeur avant-gardiste’, enquanto que Le Corbusier prefere evitar mudanças
radicais na criação do mobiliário para resolver os problemas cujas soluções seriam
simples e apropriadas.
Tais divergências confirmam a personalidade forte em ambos os arquitetos, bem
como o respeito mútuo no campo da criação. Mesmo após deixar de trabalhar no
atelier Rue de Sèvres, Perriand é convidada por Le Corbusier a colaborar em
futuros projetos, como a Casa do Brasil na Cidade Internacional Universitária de
Paris, em 1959. Tais atitudes demonstram uma relação que foi, certamente, mais
além dos muros do atelier.
A partir do final dos anos 1920 e, principalmente ao longo de toda a década de
1930, ambos interessar-se-ão pelos objetos à reação poética. As experiências e
registros sobre a luz provocadas pelo gelo contra o sol; as formas e sombras de
conchas e coquillages nas areias das praias francesas; todo este ambiente é de
pura experimentação e lirismo. Charlotte compartilhava, sobretudo, a noção de
moderno compreendida por Le Corbusier. Assim como Pierre Jeanneret e Fernand
Léger, Charlotte e Le Corbusier concordavam que o espírito consciente, mas ao
mesmo tempo livre, poderia gerar novas poéticas ao ser humano moderno e
possibilitar assim, a sua felicidade.
Tais poéticas pronunciavam-se às vezes nos prazeres mais simples da vida: num
banho de mar, nas caminhadas nas montanhas, em casa...
‘E quem sabe sentiremos prazer em nos entregar a nossos
pensamentos nesta hora de repouso e relaxamento
em nossa casa? Eis o fundo da questão: pensar em algo.
Na harmonia das proporções, ou em algum poema da
mecânica, da vida dos povos modernos ou antigos, até
mesmo em um poema em versos, ou em alguma música,
ou em alguma escultura, algum quadro, em um gráfico,
ou em uma determinada fotografia de um fenômeno simples
ou sublime, fundamental ou excepcional. A vida nos
oferece muitas ocasiões de juntarmos bibelôs que sejam
objetos que nos levem a pensar: Este seixo do mar, esta
admirável pinha, estas borboletas, estes escaravelhos,
este elemento de aço polido retirado de uma máquina ou
este fragmento minério. Os deuses? É o espírito que os
forma com as coisas da Terra. E a aventura? Ah, sim, a
aventura do mobiliário? O acontecimento prossegue: a
noção de mobiliário desapareceu. Foi substituída por um
vocabulário novo: ‘o equipamento doméstico’. 10ª conferência,
19 de outubro: A aventura do mobiliário
56
57
Charlotte Perriand, Pierre
Jeanerret, «Pedaço de gelo».
Circa1936. Arquivo Charlotte
Perriand.
58
Projeto
Cité
Mondiale, 1928.
Projeto do
Mundaneum, 1928.
Le Corbusier, Paul
Otlet e Hélène
de Mandrot. Paris,
Arq. Ch. Perriand
59
Paul Otlet e os projetos para Genebra
‘Vejam então o promotor do Mundaneum, e as razões
pelas quais eu abracei a sua causa. Ele é um desses jovens
ardentes de cabelos brancos. Seu despertar intelectual
data de 1870; atravessando assim fenômenos sociais
e econômicos encontrados hoje entre nós, jovens, diante
das tarefas já formuladas. Estas, outras, que já esquecemos,
ele já as havia formulado. É um destes visionários,
líderes, suscitador de correntes magnéticas, captadores e
emissores de ondas. Há vinte anos que Paul Otlet havia
fundado a União das Associações Internacionais e redigido
o estatuto de uma Sociedade das Nações.
viii
‘Visionário’, ‘provocador’, um ‘jovem ardente de cabelos brancos’ cuja história
pessoal atravessou momentos de rupturas e permanências no mundo, passando
por guerras e novas reorganizações geográficas, políticas e do capital. Assim nos
é apresentado Paul Otlet por Le Corbusier. Suas palavras de admiração e respeito
à obra e vida deste jurista belga confirmam a atenção do arquiteto às idéias
defendidas por Otlet. De fato, os escritos de Paul Otlet, bem como daqueles que
compartilharam esta ‘nebulosa
78
intelectual, merecem maiores atenção entre nós
arquitetos e historiadores da arquitetura e do urbanismo.
Paul Otlet pensou, sobretudo, em criar possibilidades de compartilhamento dos
saberes, noção esta entendida como livre e universal.
79
Para isso, visualizou um
espaço físico que abrigasse estes centros de cultura e história. Apesar de não ser
arquiteto, sua mente ambiciona e projeta a construção de uma cidade aberta,
internacional e universal que contemplasse este lugar concentrado dos saberes
construídos pelos homens na História.
Algumas noções defendidas por Otlet, desde o final do século XIX e nas primeiras
décadas do século XX, serão compartilhadas por Le Corbusier e Pierre Jeanneret
e marcarão o pensamento e a obra dos arquitetos neste momento.
‘A tese de Paul Otlet é a seguinte : para gerir bem uma reformulação do mundo (já
que o maquinismo nos impõe isso sem pena), é indispensável conhecer o estado
comparado das nações, dos povos, das raças, das cidades que, hoje em dia,
participam do cenário mundial, onde: ‘edifício, continentes, Estado, Cidades’, isto
é, o urbanismo ou tudo aquilo que os homens reunidos em sociedade, em
povoações ou comunidades, realizaram sob a marca da cooperação, da
solidariedade. Então, precisamos que todas as tentativas de organização das
novas teses, as coalizões contra o egoísmo, as obras de colaboração humana
sejam conhecidas, que [tais] homens conheçam-se uns aos outros, participem
mutuamente em seus trabalhos e tenham uma sede comum condensadora,
receptora e centro de ação: daí, o ‘Edifício das Associações Internacionais’.
ix
78
Margareth Pereira introduz a noção de nebulosa no campo da historiografia do pensamento
urbanístico. Ver: PEREIRA, M. Las nebulosas. Conferência apresentada para o Seminário ‘Fuentes no
convencionales’ no Postgrado de Teoría e Historia y el Arte de la Facultad de Artes de la Universidad
Nacional de Colombia. Bogotá, Noviembre de 2005.
79
Sobre os estudos de Paul Otlet e a relação com Le Corbusier, ver: MATTEONI, D. Mundaneum ;
COURTIAU, C. Otlet (Paul). In : Le Corbusier : une encyclopédie. [org. Jacques Lucan]. Paris : Éditions
du Centre Pompidou, 1987. p. 261-263 e 278-279 ;
60
Croqui do Mundaneum realizado
durante oitava conferência,
Buenos Aires, 1929.
61
Otlet foi responsável pela criação em 1895 do Instituto Internacional de
bibliografia, juntamente com o ganhador do Prêmio Nobel da Paz, Henri la
Fontaine. Desde 1914, o belga contribuiu para a criação da Sociedade das
Nações em Genebra e, posteriormente, defenderá a construção de dois projetos: o
Mundaneum e a Cité Mondiale. O projeto do Mundaneum, menor, estaria contido
no programa do projeto para a cidade mundial. Amplos contemplariam uma
orientação de vocação cultural e intelectual que complementasse as organizações
já estabelecidas na cidade suíça.
Sobre o Mundaneum, Le Corbusier considera-o como uma obra ‘inspirada nas
diretivas da arquitetura moderna cuja economia repousa sobre a função interna
dos edifícios e não sobre uma decoração custosa e sobreposta’.
80
Le Corbusier
recebe em abril de 1928 o dossier de Otlet no qual apresenta o Mundaneum
81
. As
palavras do jurista referem-se à criação de um lugar que pudesse ser a ‘imagem
total do mundo, do lugar sagrado inspirador e coordenador de grandes idéias.
82
Ao estudar de modo mais atento ao projeto, Dario Matteoni destaca as palavras de
Otlet nas quais afirmam a necessidade do projeto contemplar ‘quatro funções
correspondendo às formas de organização que poderiam ser úteis ao trabalho
intelectual: uma documentação universal (biblioteca, instituto de bibliografia com
repertório bibliográfico universal e enciclopédico), uma universidade internacional,
um museu e as associações científicas internacionais’.
83
Nas palavras de
Matteoni, o Mundaneum apresenta-se como ‘um percurso de conhecimentos com
a representação da história, classificação e síntese do saber, e um guia científico
dos esforços da humanidade em favor da paz universal’.
84
O projeto pensado por Le Corbusier e Jeanneret, notadamente por sua forma e
dimensão, gera polêmica entre alguns colegas do milieu social pela ‘causa
moderna’. Em especial, destacamos a crítica do tcheco Karel Teige
85
, difusor da
arte e arquitetura moderna através das revistas RED e Stavba. As palavras de
Teige, expressas na revista Stavba em 1929, acusam ‘não haver arquitetura’ no
projeto de Le Corbusier
86
. Segundo Teige, a construção de edifícios que não
80
MATTEONI, D. Mundaneum. In : Le Corbusier : une encyclopédie. [org. Jacques Lucan].
Paris : Éditions du Centre Pompidou, 1987. p. 261-263
81
Carta de Otlet à Le Corbusier e Pierre Jeanneret, em dois de abril de 1928. (FLC). Nos arquivos
pessoais de Le Corbusier encontram-se as seguintes publicações : OTLET, Paul. – Le
Corbusier. Mundaneum. Bruxelles : Union des Ass. Internationnales, 1928. (FLC) ; OTLET. P. Cité
Mondiale. Geneva : World Civic Center : Mundaneum. Le Plan architectural de MM. Le Corbusier et
Jeanneret. Bruxelles : Union des Ass. Internantionnales, 1929. (FLC).
82
MATTEONI, D. Mundaneum. p. 261
83
Idem.
84
Idem.
85
Karel Teige (1900-1951) foi historiador e sociólogo nascido em Praga. Participa aos vinte anos da
fundação do Devětsil, movimento iconoclaste de jovens intelectuais tchecos. Seu interesse por cinema,
escultura, poesia e arquitetura, em especial pelas implicações sociais da arquitetura moderna,
conduzem-no a prestar atenção às reflexões e obras de Le Corbusier. Foi autor de diversos artigos na
revista Stavba e convidado por Hannes Meyer a lecionar na Bauhaus em Dessau. In: COHEN, J-L.
TEIGE (Karel). In : Le Corbusier : une encyclopédie. [org.
Jacques Lucan]. Paris : Éditions du Centre Pompidou, 1987. p. 401-402. Sobre a obra e vida de Teige :
DLUHOSCH, E.; SVĂCHA. R. Karel Teige (1900-1951): L’Enfant Terrible of the Czech Modernist
Avant-Garde. Cambridge: The MIT Press, 1999.
86
Palavras de Le Corbusier no artigo em resposta à Teige. LE CORBUSIER. Défense de
l’architecture… p. 13
62
Capa da revista RED, 1929 -31.
(Arquivo New York Public Library)
63
fossem ditados pela ‘necessidade social e pela economia’ não poderia ser um
projeto com um programa moderno. O crítico tcheco acusa Le Corbusier de
projetar edifícios como um Sarcrarium incondizente com os programas
necessários para a sua época em pleno coração da cidade e da Ciência
moderna.
87
Em resposta, Le Corbusier retoma seus conceitos sobre a noção de
moderno bem como confirma compartilhar tais noções defendidas por Otlet.
‘No ano passado, ao terminar os planos do Mundaneum (…) havia
em nosso atelier um sopro de revolta: a pirâmide, que é um dos
elementos do projeto, atormentava os jovens. (...) De repente,
o argumento categórico partiu de uma voz: ‘o que é útil é belo!’
Ao mesmo tempo, Alfred Roth (de temperamento impetuoso)
deu um pontapé na lixeira de papel [feita de] treliças metálicas que
se recusava a suportar a massa de velhos desenhos que [Roth]
destruía. Sob a pressão enérgica de Roth, a lixeira de curva
tecnicamente sachlich (expressão direta à trança de fios metálicos)
deforma-se e toma forma mostrada neste esboço. Todos riram. ‘É terrível !’
Disse Roth. ‘Desculpe, eu respondi, esta cesta de papéis contém agora muito
mais e é mais útil, portanto, é mais bela! Seja coerente com seus
princípios!’ Este exemplo é engraçado só porque as circunstâncias
que fizemos surgir foram oportunas. Logo em seguida restabeleci um
equilíbrio acrescentando: ‘a função beleza é independente da função utilidade’;
são duas coisas. O que é desagradável ao espírito, é o desperdício,
pois o desperdício é estúpido; é por isso que o útil
nos agrada. Mas o útil não é belo.’ Se deixamos de lado
o plano da plástica para investigar os efeitos da sachlichkeit,
em benefício do conforto, - na ocorrência, para
ver a que ponto nós estamos satisfeitos pelo progresso
do maquinismo - posso pensar assim: o luxo mecânico
não é uma função direta da felicidade. (...) No meu caso,
pessoalmente, estou privado de todo conforto. Mas, crio e
sou perfeitamente feliz. (...) Se a adaptação às vantagens
da máquina é automática, e, portanto, as alegrias que ela
traz, efêmeras, o caminho à felicidade espiritual é permanente
e particularmente, devemos isso à harmonia.
x
A lixeira de papel do ateliê da Rua de Sèvres, antes e depois do pontapé de Alfred
Roth, em «Défense de l’architecture».
87
(32) Idem. p. 15
64
Fotos CIA
M,
La Sarraz, 1928.
(Arquivo gta/ETH)
65
Ser moderno era ser livre para escolher. Mesmo que isto significasse pensar em
formas utilizadas em um passado, como a pirâmide, pois o gesto e o modo de
como pensar em conceber a arquitetura moderna seriam, estes sim, embebidos
pela técnica e ciência moderna. Assim como Otlet, Le Corbusier acredita em uma
universalidade nas coisas. Em arquitetura, o arquiteto entende que as formas
puras são universais e, desse modo, contemporâneas em todos os tempos. Neste
momento, aparenta-se não haver tensão no seu entendimento da noção de
universal. Serão necessárias novas descobertas, novas realidades, novos meios
sociais notadamente, a partir das grandes viagens realizadas a partir de outubro
de 1929 à América do Sul, seguidas pelas viagens à África e América do Norte
nos anos 1930 para que Le Corbusier desestabilize o seu entendimento sobre
universal. Todavia, Le Corbusier percebe que, apesar dos inúmeros escritos e
esforços, a sua noção não é igualmente compartilhada entre o seu meio social.
DEFENSE DE L’ARCHITECTURE é um esforço em compartilhar determinadas
questões e romper outras que, sob o olhar do arquiteto, enrijecem, estancam e
acomodam o pensar, o fazer e o criar em arquitetura e na cidade.
Sigfried Giedion e Le Corbusier: encontro em La Sarraz
Em Fevereiro de 1928, recebi uma carta de Madame Hélène
de Mandrot. Escreveu-me que viria visitar-me em Zurique.
Mesmo antes de deixarmos a plataforma em que
me apanhava, ela começou a explicar-me a finalidade
da sua visita. Queria convidar os principais arquitetos da
atualidade, em sua mansão em La Sarraz, localizada a
algumas milhas ao norte do Lago de Genebra, Vaud. [...]
Madame de Mandrot já havia falado com Le Corbusier e
outros amigos em Paris. O tempo parecia maduro para
isso. [...] Anteriormente, em 1927, por ocasião das atividades
em Weissenhof, Stuttgart, uma tentativa já havia
sido feita por arquitetos alemães em criar eine Vereinigung
(uma associação, um grupo), mas que não foi bem
sucedida.
88xi
As palavras de Sigfried Giedion
89
, apesar de publicadas apenas em 1942,
contribuem para a construção do cenário existente neste primeiro semestre de
1928. Die Zeit schien reif dafür, O tempo parecia maduro para isto. De fato, a frase
88
O texto de Giedion foi publicado como introdução do livro: Can our Cities Survive? Cambridge, 1942.
Em alemão foi publicado em: STEINMANN. M. CIAM: Dokumente 1928-1939. Basel – Stuttgart:
Birkhäuser, 1979. p. 9
89
Sigfried Giedion (1888-1968) nasceu em Praga, filho de um industrialista co-proprietário de um
negócio de fiação no cantão de Zug, Suíça. Estudou primeiramente engenharia mecânica na
Technische Hochschule em Viena, e completou seu doutorado em história da arte com Heinrich Wöllflin
em Munique. Giedion conhece Le Corbusier em Paris logo após a publicação de Vers une
Architecture’. In: MUMFORD. E. The Ciam Discourse ... p. 279.
66
Palácio
des Nations
, Genebra,
1927.
«A voz da academia». in: Une
maison - un palais, 1928.
67
de Giedion, secretário do CIAM durante quase três décadas, expõe com bastante
clareza os inúmeros acontecimentos nos quais levaram à criação dos CIAM. Les
Congrès Internationaux d’Architecture Moderne, ou internationale Kongresse für
neues Bauen
90
, foram criados sobre bases e esforços de diferentes atores da
vanguarda europeia. Seus interesses eram, sobretudo, compartilhar esforços e
ações em relação à arquitetura do início do século XX, inserida nas questões
sociais, econômicas e tecnológicas.
91
Apesar dos escritos publicados pelos membros dos CIAM, ao longo de três
décadas, gerarem ecos e repercussões globais como o esforço de um corpo
coeso e uníssono, inúmeros foram os debates travados e as divergências entre os
seus membros desde os primeiros encontros.
92
Segundo Eric Mumford, o primeiro CIAM foi resultado de esforços cujas origens
são diversas. Ele destaca a campanha internacional em favor do projeto de Le
Corbusier rejeitada no concurso do Palácio das Nações, bem como os encontros
em Weissenhof envolvendo membros do Ring, em Berlim, e do Werkbund suíço
em 1927.
93
Mumford considera igualmente os esforços anteriores de El Lissitzky,
bem como dos holandeses do De Stijl, em promover uma associação internacional
de arquitetos, cujas ações resultaram em diversos periódicos de vanguarda pela
Europa
94
.
A desqualificação do projeto de Le Corbusier e Pierre Jeanneret para o Palácio em
Genebra provocou críticas e posicionamentos diversos em prol da nova
arquitetura. Dentre eles, podemos destacar o seu amigo bruxelois Victor
Bourgeois, o professor Karl Moser, o holandês H. P. Berlage
95
ambos jurados
do concurso e à favor do projeto de Le Corbusier e o ainda jovem crítico de arte
e arquitetura, Sigfried Giedion. A partir do ano 1927 e, principalmente durante o
ano de 1928, com a criação dos CIAM, Le Corbusier estará próximo a
vanguardistas do meio intelectual europeu. O convívio mais regular, devido aos
encontros dos CIAM
96
e CIRPAC
97
, contribuirá aos debates, bem como a
aproximação daqueles onde há empatia cujas noções sobre a arquitetura e o
urbanismo são mais fortemente compartilhadas. É neste contexto em que Le
Corbusier vê Giedion como um forte aliado. Os escritos do crítico divulgarão,
dentre outras questões da arquitetura e arte moderna, a obra do arquiteto
98
. Em
especial, destacamos a publicação Space, Time, Architecture, uma organização
das reflexões e palestras de Giedion em Harvard.
90
Internationale Kongresse für Neues Bauen era o termo utilizado na época pelos atores cuja língua
era alemã. Havia um esforço em suprimir noção de Architektur (arquitetura) e substituí-la por Bauen
(construção).
91
Sobre os estudos dos CIAM ver: STEINMANN. M. CIAM: Dokumente 1928-1939. Basel Stuttgart:
Birkhäuser, 1979; MUMFORD. E. The Ciam Discourse on Urbanism, 1928-1960. Cambridge London:
The MIT Press, 2000.
92
Mumford considera que apenas são recentes as novas abordagens e objetos sobre a história dos
CIAM. As divergências e lutas internas começam doravante a tornar uma questão para os
pesquisadores na última década. In: MUMFORD. E. The Ciam Discourse… p. 9.
93
MUMFORD. E. The Ciam Discourse… p. 9-15.
94
Idem.
95
Victor Bourgeois (1897-1962); Karl Moser (1860 – 1936);Hendrik Petrus Berlage (1856 -1934)
96
CIAM: Congressos Internacionais de Arquitetura Moderna.
97
CIRPAC: Comité International pour la Réalisation des Problèmes d’Architecture Contemporaine
98
Giedion publica a viagem de Le Corbusier à Moscou em 1929. GIEDION. S. Le Corbusiers
‘Zentrosoyus’ in Moskau, in Neue Zürcher Zeitung, Zurich, 19 de julho de 1929.
68
Catálogo da exposição Kunsthaus, Zurich, 1938. Prefácio de Giedion.
69
‘É raro nesta nossa era da especialização, encontrar pintor
e arquiteto reunidos em uma única pessoa. Pela sua
natureza ‘leonardesca’, Le Corbusier foi uma exceção.
Em seu horário de trabalho diário, a manhã era consagrada
à pintura, a tarde à arquitetura. Não existiam dificuldades
com as criações em arquitetura, enquanto envolvido
às reais lutas com a pintura. A concepção do espaço é
a base de suas atividades. Assim, arquitetura e pintura
eram apenas dois meios diferentes de expressão para Le
Corbusier’.
99xii
Ainda são poucos os estudos mais finos sobre a relação que perdurou por quase
quatro décadas, interrompida pelo falecimento de Le Corbusier em 1965. Ao
contrário dos outros atores abordados neste capítulo Charlotte Perriand, Paul
Otlet e mais adiante Moisei Ginzburg não especificamente um estudo que
explique a relação do arquiteto com Giedion na obra Le Corbusier.
100
Todavia, as trocas de cartas por estas quase quatro décadas confirmam a relação
de amizade entre ‘Corbu’ e ‘Dr. Pep’
101
. Em uma carta escrita ao amigo em 19 de
setembro de 1951, Giedion afirma Le Corbusier ser o único a desenvolver como
arquiteto uma nova teoria para o emploi des proportions’, e, por isso, insiste no
‘interesse em apresentar [em Milão] suas ideias a pessoas de outras
disciplinas’.
102
Tanto Moser, quanto Berlage contribuirão – cada um a seu modo
103
– para a criação do primeiro encontro dos CIAM em 1928, contudo, será Giedion o
personagem chave neste momento. Seu relacionamento próximo à Mme de
Mandrot, à Le Corbusier e aos arquitetos alemães, suíços e holandeses será
fundamental não somente para a concretização do encontro em La Sarraz, mas
também às futuras decisões administrativas e políticas do próprio CIAM.
104
Para
Mumford, Giedion mesmo após reconhecer as dificuldades de Mies van der
Rohe nos encontros em Stuttgart visualizava a necessidade da criação de um
novo movimento, desta vez liderado por Gropius, Mies, Le Corbusier, J. P. Oud,
Van Eesteren, Mart Stam e Hans Schmidt.
Em uma carta escrita em novembro de 1927 à Oud, Giedion expõe a necessidade
do nascimento deste novo movimento moderno em resposta aos esforços de
Mies.
105
Apesar de divergências em relação às práticas e ao modo de pensar dos
arquitetos e intelectuais da neue Sachlichkeit, Le Corbusier reconhece os esforços
e a necessidade do encontro para trocar experiências e saberes. De fato, o
99
GIEDION. Espace, Temps, Architecture... p. 302.
100
Na publicação ‘Le Corbusier, une encyclopédie’ em homenagem ao centenário do arquiteto,
Jacques Lucan esforça-se em reunir em mais de 140 artigos, estudos sobre a vida, obra, momentos,
eventos e descobertas de Le Corbusier, bem como a relação com alguns importantes atores que
puderam influenciar de algum modo Charles-Edouard Jeanneret-Gris. Contudo, percebe-se a ausência
de estudos mais finos da relação de Le Corbusier e Giedion.
101
Nas correspondências entre Gropius, Neutra e Giedion, o modo carinhoso como este último era
chamado por seus colegas era ‘Dr. Pep’. Ainda não foram encontradas correspondências entre Le
Corbusier e Giedion cuja saudação mencione tal apelido. Em geral constavam amigáveis saudações
como ‘Cher Corbu’ ou ‘Cher Ami/Giedion’. De qualquer modo, estes gestos reforçam o vínculo de
amizade entre alguns dos delegados do CIAM. Arquivo gta-ETH Zurich.
102
Carta de Giedion à Le Corbusier em 19 de setembro de 1951. Arquivo gta-ETH Zurich.
103
Moser, como um respeitado professor em Zurich, oferece um apoio, sobretudo, institucional e de
legitimação ao movimento que se forma. Berlage, ao aceitar o convite de participar do evento em La
Sarraz, e fazer a conferência inicial, igualmente dá legitimidade ao grupo.
104
Giedion será o secretário geral dos CIAM.
105
Carta de Giedion à Oud em 17 de novembro de 1927, mencionado no artigo de Richard Pommer e
Christian Otto, Weissenhof 1927 and the Modern Movement in Architecture (Chicago, 1991), 272-273,
n.1 In: MUMFORD. E. The Ciam Discourse… p. 11.
70
Declaração de La Sarraz, 1928.
71
arquiteto suíço visualiza a possibilidade de divulgação e compartilhamento de
suas ideias no milieu vanguardista da arquitetura moderna.
Le Corbusier, assim, não somente aceita o convite de Mme de Mandrot, mas
contribui, juntamente com Giedion e Gabriel Guévrékian
106
, para os arranjos do
encontro em La Sarraz, realizado entre os dias 26 e 28 de junho de 1928.
107
Le Corbusier desenvolve em dois momentos, duas versões do ‘Programa de
Trabalho’ a serem discutidas nos eventos. Tanto no primeiro programa, quanto no
segundo (mais detalhado), Le Corbusier trata de temas nos quais percorrem todo
o seu questionamento neste momento. Eles são apresentados em seis tópicos: as
técnicas modernas em arquitetura; a estandardização; o urbanismo e as questões
sanitaristas; a educação doméstica e escolar e a relação entre o Estado e a
Arquitetura.
108
Apesar da Declaração de La Sarraz, estabelecida no final do evento, aparentar
uma expressão de um corpo coeso, divergências foram constantes nos debates
travados. Certos posicionamentos e diferenças tornaram-se mais evidentes como
os de Le Corbusier, Ernst May, Mart Stam, Hans Schmidt, Hannes Meyer e André
Lurçat.
109
Não obstante, o evento possibilitou encadear uma série de encontros e
debates cujos temas farão parte dos seguintes congressos. Eles não serão uma
exposição uníssona, pelo contrário, tais encontros serão, como afirma o próprio
Giedion, congressos baseados na cooperação: ‘Abordar os problemas que um
arquiteto não poderia resolver de modo isolado’: eis o objetivo do CIAM defendido
por Giedion.
110
xiii
106
Gabriel Guevrekian (1892-1970)
107
In: MUMFORD. E. The Ciam Discourse… p. 9-24.
108
STEINMANN. M. CIAM: Dokumente 1928-1939... p. 12-21.
109
In: MUMFORD. E. The Ciam Discourse… p. 19
110
O termo utilizado por Giedion foi: ‘Zusammenarbeit’ , o que significaria trabalho em conjunto. Em
alemão foi publicado em: STEINMANN. M. CIAM: Dokumente 1928-1939. Basel – Stuttgart: Birkhäuser,
1979. p. 9.
72
Croquis feitos sob o casaco
em Moscou, 1928. (FLC)
73
Conversas em Moscou: Le Corbusier e os construtivistas
Não há cafés em Moscou. É impossível sair e tomar algo.
As pessoas não riem. Entre eles, há um ar de ‘saber se
virar’. E em um clube! A grande idéia. (...) 1 clube = sala
de cinema, teatro (o palco abre-se para o interior e o exterior),
educação e cultura física, biblioteca, sala de trabalho
em comum! Voilà le type. (...) Visitei os armazéns Centrosoyuz,
formigueiro, onde todos trabalham. Nos corredores,
cartazes interessantes por seus múltiplos imaginários.
Luta contra o álcool, a luta contra a igreja = ignorância e
capital. A cada semana é exibido o jornal do Instituto, da
empresa (...) impresso em máquinas, aquarelados, teses,
propostas para os líderes, os debates para as tomadas de
decisões.
xiv
(Le Corbusier, Agenda VII, iniciada em 1o
de outubro de 1928, p.36-37-38, FLC In: Cohen p. 68)
No dia de outubro de 1928, Le Corbusier parte de Paris em direção à Moscou.
É a sua primeira visita à União Soviética. De fato, é a primeira visita de um
arquiteto francês ao país soviético
111
. Através de seus registros de viagem,
acompanhamos suas descobertas, experiências e julgamentos deste mundo que
não lhe é familiar. ‘Não cafés em Moscou’. O arquiteto e, ao mesmo tempo, um
estrangeiro na cidade, descobre a capital soviética.
Nesta viagem, há mais escritos que desenhos. Le Corbusier foi impedido de poder
desenhar livremente pela cidade, jamais chegou tal permissão. Mesmo assim,
desenhou às escondidas
112
. Com um lápis e pequeno caderno à mão, ele
desenha debaixo do casaco manteau, vestimenta necessária para suportar o frio
do outono russo. São croquis inacabados, com um traçado rápido, que registram
seu olhar sobre os monumentos e praças da cidade: o muro de Kremlin, a torre
Nikol’skaja, a praça vermelha, a catedral de Arcanjo Mihajl, o Instituto do
Marxismo-Leninismo
113
e o monumento à Revolução na praça Sovetskja .
114
Entretanto, Le Corbusier não viaja como turista. Foi convidado oficialmente pela
União central de cooperativas de consumação, Centrosojuz, a vir à Moscou. Os
objetivos principais da visita à URSS eram claros: apresentar pessoalmente o
projeto do Centrosojuz, encomendado durante o mês de maio de 1928, bem como
ouvir as modificações desejadas pelos soviéticos para o concurso
115
. De fato, sua
viagem foi inteiramente financiada pelo próprio Centrosojuz, malgrado a existência
de uma instituição específica aos assuntos culturais estrangeiros, a VOKS. Esta
última era encarregada desde 1925 pelos intercâmbios culturais com o exterior,
bem responsável pelos visitantes estrangeiros no país, do mais ilustre ao mais
modesto
116
.
111
COHEN. Le Corbusier et la mystique… p. 63
112
Idem. p. 74
113
Projeto construído por Sergel Cernysev em 1926.
114
Projeto construído por Dimitri Osipov e Nikolaj Andreev em 1918.
115
COHEN. Le Corbusier et la mystique… p. 63
116
Idem. p. 64
74
Aleksandr Vesnin,
cobertura de Stil’ i
epoha de Moisei
Ginzburg, 1924.
(Museu de
arquitetura Scusey,
Moscou).
Le Corbusier com
um grupo de
arquitetos
soviéticos, outubro
de 1928 (FLC)
In: COHEN, Le
Corbusier...pp 51,66.
75
A especificidade deste fomento evidencia os interesses estratégicos por parte dos
dirigentes soviéticos na recepção de um arquiteto cujas teorias e reflexões
estavam sendo compartilhadas e geraram ecos no meio arquitetônico, político e
intelectual soviético. A ‘autoridade de Le Corbusier em Paris’, bem como a
visibilidade de suas teorias no meio social e político europeu – e, inclusive no meio
moscovita são tais que os ‘dirigentes soviéticos não poderiam deixar de tomar
atenção e captar uma fração da energia na qual Le Corbusier radia por toda a
Europa a partir da metade dos anos 1920’.
117
Jean-Louis Cohen destaca assim, a atenção destes dirigentes soviéticos ao meio
cultural e intelectual francês, considerado como um importante campo de ação e
formação na Europa. Em adição, esta aproximação e abertura de portas acontece,
sobretudo, em um momento de desinteresse nas relações técnicas e culturais com
a Alemanha.
118
Segundo Cohen, Le Corbusier não era um desconhecido no meio intelectual
soviético. Seu trabalho e escritos difundidos principalmente pelas vozes de Moisei
Ginzburg e Aleksandrovic Vesnin chega à jovem geração de arquitetos e
igualmente aos atores dos mais altos cargos soviéticos.
Meus livros passaram o bloqueio. Eu sou muito conhecido,
muito popular. Minhas palestras são realizadas em uma
sala a transbordar .
xv
(Le Corbusier, Agenda VII, iniciada
em 1o de outubro de 1928, p.36, FLC. In: Cohen, p. 66)
117
Idem. p. 10
118
Idem. p. 10
Henri Hertz, «
Lénine», em
L’Espirit nouveau no 21, março de 1924
76
Centrosojuz
, perspectiva à
partir da Mjasnickaja, Moscou,
1928.(FLC)
Centrosojuz, perspectiva dos
pilotis, 1928. (FLC)
Centrosojuz
, perspectiva do
hall do térreo, 1928. (FLC)
Le Corbusier, Palais des
Soviets, 1931, 1932. Desenho
de sucessivas variantes do
grupo de salas, de 6/10 a
23/11, dezembro 1931. (FLC)
77
O auditório da sede da Associação pela Difusão dos Conhecimentos Políticos e
Científicos permanece repleto de jovens, ávidos por ouvir Le Corbusier e suas
noções sobre urbanismo, circulação, densidade, verdure, higiene e beleza.
A todo instante há concursos para fábricas, institutos,
clubes. (...) As associações são encarregadas pelo Estado
a estabelecer a concorrência e nomear o conselho
(...) Os arquitetos estão trabalhando constantemente (ao
contrário de nós). Qualidade individual? Veja! É uma outra forma,
mais coletiva, pois já existe efetivamente uma tendência
que une todos os jovens e que obriga até mesmo os
mais velhos. (...) O ensino da Faculdade de Arquitetura é
uma manifestação massiva de uma crença ‘do moderno’.
Aqui estão reconstruindo esse novo mundo, construído
como a mística, uma técnica pura. O Construtivismo é
uma bandeira que bate bem forte. (...) Alex Vesnine sorri
para a vida. (...) Fórmula categórica, gosto talvez. (...) Eles
constroem em toda parte clubes nos estilos mais modernos,
idem fábricas, fazendas, usinas hidráulicas. Eles
constroem grandes encomendas e têm 30 anos de idade.
xvi
(Le Corbusier, Agenda VII, iniciada em 1o de outubro de
1928, p.37-39-40, FLC. In Cohen. P. 70)
As ações, idéias e obras dos artistas e arquitetos soviéticos não eram
desconhecidas a Le Corbusier. De fato, o próprio Le Corbusier, juntamente com
Ozenfant, publica artigos e posiciona-se face ao construtivismo russo na Revista
L’Esprit Nouveau.
119
Em novembro de 1924, Ginzburg dedica-lhe um exemplar de
Stil’ i Epoha, um livro manifesto cujo formato e conteúdo, segundo Cohen,
aproximam-se fortemente aos artigos de Le Corbusier publicados na Revista
L’Esprit Nouveau e posteriormente organizados no livro Vers une Architecture, de
1923. O tema da arte russa na França será marcado notadamente com a presença
da URSS na Exposição de Arts Décoratifs et Industriels Modernes em Paris no
ano de 1925, onde recentes projetos de arquitetura, bem como expressões
artísticas soviéticas, estarão expostos no pavilhão construído por Konstantin
Mel’nikov.
Contudo, a visita à Moscou marca Le Corbusier. O contato mais próximo, tête à
tête, com estes personagens que compartilhavam os discursos do arquiteto suíço,
em especial sobre a questão da estética da máquina e das técnicas modernas
para uma sociedade moderna, sensibiliza
Le Corbusier e vínculos mais fortes são estabelecidos. o é por acaso, que Le
Corbusier escreverá ao presidente do CIAM Karl Moser, em 1929, recomendando
a organização de um grupo dos CIAM na URSS e, nomeando Aleksandr Vesnin
como presidente e Moisei Ginzburg como délégué no CIRPAC.
119
Ozenfant e Le Corbusier publicam em vários números textos sobre o construtivismo russo.
Podemos mencionar: La Tour de Tatline. In L’Esprit Nouveau, n.14, janeiro de 1922; Jean Epstein. Les
livres. In L’Esprit Nouveau, n.14, janeiro de 1922 ; Ozenfant, Ivan Pougni. In L’Esprit Nouveau, n.23,
maio de 1924; Ivan Pougni. Russie. In L’Esprit Nouveau, n.22, abril de 1924; Le Corbusier. Etude
construtivisme russe. In L’Esprit Nouveau, n.25, julho de 1924. Sobre os estudos de Le Corbusier e a
URSS ver: COHEN, J.L. Le Corbusier et la mystique de l’URSS. Théories et projets pour Moscou 1928-
1936. Paris : Pierre Mardaga, 1987.
78
Maison
-
commune
, perspectiva
da sala de refeições,
Moscou, 1929. (Arq. J-LC)
Projeto de foyer para 80-100
pessoas, axonométrica dos
apartamentos, Moscou 1929.
(Arq. J-LC)
Moisei Ginzburg, Ignatii
Milinis, Maison-commune du
Narkornfin, Moscou, 1928-29.
(Arq. J-LC)
79
Cohen considera tal proposta de Le Corbusier como uma estratégia a servir de
contrapeso face à influência dos alemães no CIAM, uma vez que a hegemonia do
grupo francês perdia força por discordâncias internas.
120
Os russos tem uma organização OCA*, muito forte, ativa,
com aproximados 100 membros e que publica uma grande
revista cujo comitê é formado por Vesnin, Ghinsbourg,
Léonidoff (excelente). Por uma razão de equilíbrio numérico,
100 russos não poderiam fazer parte do congresso,
não é mesmo? É necessário então pedi-los a formar um
grupo, provisório, para começar Vesnin como presidente,
Ghinsbourg como delegado no Cirpac... (Carta de Le Corbusier
à Moser, Paris, 4 de setembro de 1929, FLC. In : Cohen. p. 58)
xvii
*OCA: União dos arquitetos contemporâneos
É sob este olhar atento às redes de sociabilidade de Le Corbusier que
destacamos a relação do arquiteto com o professor Vesnin e o arquiteto Ginzburg.
Ambos Vesnin e Ginzburg participam do movimento construtivista e produzem,
nos anos 1920, escritos cujas noções sobre moderno e máquina, são
compartilhadas neste momento por Le Corbusier.
‘Digo então que o Construtivismo, cujo nome expressa
uma intenção revolucionária, é em realidade a titular de
uma lírica intensa, capaz mesmo de superação; ela trai
fervorosamente o entusiasmo futuro. Sinto que, no final
das contas, o que interessa a todos estes russos é uma
idéia poética’ .
xviii
As novas construções projetadas e teses defendidas tanto pelos irmãos Vesnin,
quanto por Ginzburg aproximam-se daquelas defendidas por Le Corbusier. Ambos
serão igualmente responsáveis pela difusão das teorias e trabalhos de Le
Corbusier na URSS, seja pelo ensino, no caso de Vesnin, seja pelas revistas e
livros, no caso de Ginzburg.
‘Único. Em suas obras, Le Corbusier-Saugnier alcançou
não somente revelar a inventividade própria ao seu caráter
nacional, como também dar uma forma nova e contemporânea.
Le Corbusier é, sobretudo, a própria figura do
homem novo, cheio de energia e de perseverança na propaganda
de suas idéias. No intervalo de dois-três anos,
ele conseguiu criar uma revista verdadeiramente contemporânea
(que infelizmente não durou [muito]), L’Esprit
Nouveau, escrever três livros, Vers une Architecture, Urbanisme
et L’Art Décoratif d’Aujourd’hui, repletos de luzes
deste espírito tão francês e lançados de precisas propagandas’.
xix
(Moisei Ginzburg. 1926.)
120
COHEN. Le Corbusier et la mystique… p. 156
80
Desenho oferecido por Le
Corbusier à Vesnin, s.d. (Arq.
J-L C)
Mihajl Barsc, Moisei Ginzburg,
Ville verte nos arredores
de Moscou, 1930, sistema
de ensinamento e transporte.
(Museu de arquitetura
Scusev, Moscou)
81
Certamente, a viagem à Moscou é assim um momento marcante para os três
atores. Será o início de um longo debate, concordâncias e discordâncias sobre
temas que percorrerão, sobretudo, Le Corbusier neste momento.
O arquiteto realizará três viagens anuais entre 1928 e 1930. As duas primeiras
consagram-se às modificações demandadas para dar sequência às etapas do
concurso da sede do Centrosojuz. Após ganhar o primeiro lugar, Le Corbusier
viaja em 1930 para dar início, enfim, às obras do projeto que finalizarão somente
em meados da mesma década.
Enquanto as relações de Le Corbusier e Vesnin, durante este triênio, parecem
permanecer constantes e sem grandes atribulações, a relação do arquiteto suíço
com Ginzburg será mais tensa e complexa. Cohen considera, por exemplo, que as
noções de coletividade e hôteliers na obra de Ginzburg contribuirão de modo
fecundo para a construção da noção de rue en l’air em Le Corbusier:
121
Moscou é uma fábrica de planos, a Terra Prometida dos
técnicos (sem Klondyke). O país está sendo equipado!
Um afluxo surpreendente de projetos: fábricas, represas,
unidades manufatureiras, moradias, cidades inteiras. Este
conjunto se coloca sob um único signo: tudo o que contribua
para o progresso. A arquitetura se infla, se agita, estremece,
dá à luz sob o sopro e a fecundação daqueles
que sabem algo e daqueles que simulam saber.
(…)
A Cidade Verde.
Eis de que se trata:
Na União Soviética foi suprimido o domingo, introduziu-se
o descanso do quinto dia. Este descanso se dá por
alternância: cada dia do ano, um quinta da população da
União Soviética descansa; amanhã é a vez do outro quinto
e assim por diante. O trabalho não pára. Comissões
de médicos estabeleceram a curva de intensidade produtiva
do trabalho. Esta curva se inflecte fortemente no fim
do quarto dia. (...) A medicina moderna, aliás, orienta-se
de acordo com um postulado novo: Não se cura homens
doentes, faz-se homens sadios. Férias anuais vêm tarde
demais. (...) Decidiu-se então pela criação das Cidades
Verdes, dedicadas ao descanso do quinto dia.
122
(Atmosfera Moscovita, p. 254-255-256)
Em adição, a proposta do conceito da Ville Verte desenvolvida pelos arquitetos
russos chamará a atenção de Le Corbusier. De fato, o arquiteto será convidado
em 1930 a examinar e redigir um relatório sobre o recente concurso da Cidade
Verde de Moscou. Todavia, o modo de pensar, construir a Cidade Verde, bem
como a relação desta com os centros urbanos como Moscou serão os pontos
divergentes entre os arquitetos. O tema em debate concentra-se na noção de
‘desurbanização’. Ginzburg defende a construção de cidades verdes em
detrimento da centralização dos grandes centros urbanos.
121
COHEN. Le Corbusier et la mystique… p. 154-158
122
Le Corbusier. Atmosfera Moscovita. Escrita em Moscou, em março de 1930 e publicada no livro
Précisions sur um état présent de l’architecture et de l’urbanisme em 1930. In: Martins. P. 254-255-256.
82
Le Corbusier, «un homme
dans une hutte de chaume ou
de branchages» «expressão
simbólica» da «desurbanização
», desenho publicado em
La ville radieuse, 1935. (Arq. J-L C)
83
Não obstante, Le Corbusier entende a noção de Cidade Verde como um
complemento vital das grandes concentrações urbanas. Desse modo, Le
Corbusier critica, sem perder a elegância, o projeto do amigo russo.
O homem sente a necessidade de agrupar-se – sempre,
em todos os países, em todos os climas. O agrupamento
proporciona-lhe a segurança da defesa, o prazer da companhia.
Mas, a partir do momento em que o clima se torna
hostil, o agrupamento provoca a atividade industrial, a
produção por meio da qual os homens vivem (vestemse,
buscam conforto). E a produção intelectual é filha do
trabalho dos homens reunidos.(...) Meu caro Ghinsbourg,
o arquiteto moderno tem precisamente por missão magnífica
organizar a vida das coletividades. Fui o primeiro
a proclamar que a cidade moderna deve ser um parque
imenso, uma cidade verde. Mas, para permitir-me esse
luxo aparente, quadrupliquei e densidade da população e
– em vez de estendê-la – diminui as distâncias. (...) Rogo,
portanto, que não vejo nenhuma atitude hostil em minha
afirmação serena e decidida: O homem tende à urbanização.
Aprecie este detalhe característico: um dos projetos
de desurbanização de Moscou propõe, entre outras
medidas, a construção de cabanas de palha na floresta
da Cidade Verde. Bravo, magnífico!... contanto que seja
para os fins de semana! Não digam, porém, que tendo
construído cabanas de palhas, agora poderão arrasar
Moscou.
(Atmosfera Moscovita, p. 259-260-261)
Para Cohen, as reações e os debates travados sobre a Ville Verte neste período
serão fecundos para a reflexão e origens da noção de Ville Radieuse para Le
Corbusier em 1930, onde será publicado o livro de mesmo nome cinco anos mais
tarde .
123
Certamente, o período de viagens à URSS, iniciado em 1928, foi um campo fértil
de reflexões para Le Corbusier. Ao deparar-se com outra realidade, social, política
e econômica, onde a jovem geração gera incessantemente novos produtos
direcionados para a mente e para o corpo do homem moderno, Le Corbusier
nesse primeiro instante uma possibilidade de suspiro, de crença na construção
real de um novo mundo. O que talvez lhe parecesse certo encontrar em Moscou
adversários próximos ao grupo germânico da Neue Sachlichkeit, deparou-se com
outra realidade: ‘pura poesia’. Tal surpresa possa ter motivado o arquiteto a
imergir neste universo, a ponto de olhar mais longe e suprimir em seus escritos
públicos as possíveis dificuldades impostas para a permanência deste novo
mundo que se constrói.
‘Não encontrei antagonismos espirituais, mas adeptos
fervorosos do que eu considero fundamental no trabalho
humano; a nobre intenção que eleva esta obra além das
simples funções do servir e que lhe confere o lirismo dos
mais puros’.
124
xx
(Le Corbusier. L’architecture à Moscou. 1928)
123
COHEN. Le Corbusier et la mystique… p. 163-203
124
Le Corbusier. L’architecture à Moscou. 1928. In: Cohen. p.279
84
Desenho de Le Corbusier feito pelo professor Willi Baumeister , 1928 - 1930. (FLC)
85
Capítulo 3
1929: aventuras e desventuras do homem moderno
‘Querido amigo, (…) estou muito feliz pela grande obra soviética. Meus sinceros
cumprimentos! Seu artigo contra os arquitetos secos da Alemanha está ótimo.
Saudações a você e ao seu primo, também da parte da minha esposa’.
125
As correspondências de Willi Baumeister
126
, enviadas ao longo do ano de 1929 a
Le Corbusier, oferecem em um tom bem humorado o posicionamento e o apoio do
professor alemão às realizações do amigo suíço neste período
127
. De fato, este
ano de 1929 será um momento de continuidades e rupturas em diversas
dimensões. As ‘lutas’ contra a academia permanecem. Os debates com os
arquitetos de vanguarda alemã nos CIAM são esforços em romper os conceitos
previamente estabelecidos pelos atores da neue Sachlichkeit.
A defesa de uma industrialização em arquitetura de modo atento às
necessidades econômicas e sociais, sem perder a poesia e o lirismo da arte de
viver ainda é uma constante no discurso escrito e oral do arquiteto. A viagem
aos trópicos amplia o horizonte poético do arquiteto e do artista. A experiência do
olhar humano desde o avião desperta em Le Corbusier novas reflexões sobre a
cidade e o urbanismo. Enfim, serão meses fecundos na ação e reflexão deste
homem que não cessa de olhar, sentir e criar.
Certamente a agenda do arquiteto é intensa em 1929. Ao longo do ano, Le
Corbusier escreve mais de uma dezena de artigos
128
apresentados em
congressos, periódicos e revistas e culmina com a publicação do livro
Précisions, sobre as conferências e experiências na viagem à América do Sul. As
viagens oficiais são igualmente numerosas. Em fevereiro, Le Corbusier viaja à
Basiléia para o encontro do CIRPAC
129
. Quatro meses depois, o arquiteto visita
125
Carta de Willi Baumeister à Le Corbusier, em 13 de junho de 1929.( Arquivo FLC)
126
Willi Baumeister (1889-1955) foi um artista plástico, designer e professor de arte. Nascido em
Stuttgart, cursou o Königlich Württembergische Akademie em 1905-1906. Ao prestar serviços militares
durante a 1a guerra mundial, Baumeister percorre a Europa e conhece importantes atores do meio
artístico, entre eles o pintor Oskar Kokoschka e o arquiteto Adolf Loos em Viena. Tornou-se membro do
movimento berlinense Novembergruppe e, em Stuttgart, funda o grupo Üecht. No início da década de
1920, inicia uma relação de amizade com Fernand Léger, Amédée Ozenfant, Paul Klee e Le Corbusier.
Em 1927 é convidado a lecionar na Escola de Artes Aplicadas em Frankfurt (Städel). Em 1930, recebe
o premio Württemberg State pela obra Line Figure. (Correspondências entre Le Corbusier à Willi
Baumeister nos arquivos da FLC: cartas de Baumeister de 13/06/29, 11/06/30; dois cartões postais de
5/0829 e s/d; três desenhos de Roth; carta de Le Corbusier à Baumeister de28/06/30).
127
Le Corbusier se naturalizará francês somente em 1930, ao casar-se com Yvonne de Gallis.em 18 de
dezembro.
128
Artigos escritos por Le Corbusier em 1929 (FLC) : Monsieur l’éditeur : interview sur publication d’un
ouvrage sur l’état actuel de l’architecture. Studio Londres, Londres, 01/1929; Réflexions sur la loi
Loucheur. In : Revue des Vivants, França, 2 séries printemps-été de 1929 ; La signification de la ci
jardin du Weissenhof à Stuttgart. In : La Città futurista, Italia, abril de 1929 ; Economie domestique et
construction économique. Artigo apresentado no IV Congrès international de l’organisation scientifique
tu travail : le Moniteur des travaux publiques. Paris : 19 a 23 de junho de 1929; L’avis de l’architecte…
la rue. l’Intransigeant, França, 20/05/1929 ; Defense de l’Architecture, texto datilografado, via Moscou, 8
juin 1929; Prologue Américain, texto escrito à o, a bordo do Lutétia, dezembro de 1929 (FLC);
Corollaire Brésilien, texto escrito à mão, conferência no Rio de Janeiro, dezembro de 1929 (FLC) ;
L’Esprit de la Sud-Amérique, texto escrito à mão, dezembro de 1929 (FLC).
129
Le Corbusier reúne-se com os outros membros délégués do CIRPAC, a fim de discutir e organizar
os preparativos do CIAM a ser realizado em outubro de 2009. Estiveram presentes Bourgeois,
Breuer, Le Corbusier, Josef Frank, Häring, Sartoris, Schmidt, e Stam; José Manuel Aizpúrua, da
Espanhan; e Szymn Syrkus da Polônia. In: Mumford, p.27
86
«Ville Savoye, esquisses:
le travail d’un architecte.».
(FLC)
87
Moscou para acompanhar as decisões do projeto Centrosojuz. Em setembro, a
viagem à América do Sul. Serão dois meses e meio de ausência do atelier na Rue
de Sèvres, em Paris. Em paralelo, as atividades do escritório não cessam. Durante
o ano, Le Corbusier e Pierre Jeanneret desenham novos projetos, executam
àqueles em andamento e recebem demandas de reformas de obras já finalizadas.
Neste momento, o grupo de arquitetos do atelier concentra-se nos projetos das
casas Savoye, La Roche, Le Lac, Planeix, Cook - na França - e do imóvel Wanner,
em Genebra. Trocam igualmente correspondências sobre os projetos Armée du
Salut e Pavilhão Suíço, ambos em Paris. Em adição, há ainda projetos não
realizados, mas que igualmente eram estudados, cujos programas eram os mais
variados: encomendas para a realização de casas, particulares ou em série, igreja,
hotel, de urbanização e inclusive, para a construção de uma cidade
130
. Não
podemos deixar de mencionar as metódicas horas dedicadas à pintura e ao
desenho, bem como àquelas dedicadas à leitura, à filosofia, à poesia e ao amor.
Não há dúvida de que são inúmeros os compromissos e os projetos de Le
Corbusier. São registros que testemunham a sua complexidade, bem como a sua
ambição. O momento é para agir. La vague est à la réaction. Pour moi, je crois à
une chose : construire. Et en peinture aussi. Para mim, creio em apenas uma
coisa: construir. E, na pintura também.
131
Fazer arquitetura para os homens e
dedicar-se à pintura. Eis o seu impulso que o leva mais alto e mais longe. Os voos
130
Projetos de Arquitetura realizados ao longo do ano de 1929 (arquivo FLC) :
Villa Savoye – France – Poissy - correspondências, trabalho no canteiro,
Villa Baizeau – Tunisie – Carthage – construção do edifício, pintura
Apartamento de Beistegui France Paris relação com os arquitetos, empreiteiros, grandes obras,
construção
Villa la Roche – France – Paris – correspondência para reforma
Villa Le Lac – Suisse – Corseaux (Vevey)
Villa Cook – France – Boulogne sur Seine – permissão de construir, esquadrias, grandes obras,
honorários, correspondências
Maison Planeix France Paris - permissão de construir, grandes obras, honorários,
correspondências
Amenagement de la rive droite – Suisse – Genève – programa do concurso, 29.
Immeuble Wanner – maison RUF – Suisse – Genève – correspondências
Centrosoyus URSS Moscou standards fabrication de portas, correspondências entre LC e o
ministério des Affaires Etrangères, contrart entre a União central de cooperativismo de consumação da
URSS e os arq. LC e Jeanneret
Villa Church – France Ville d’Avray – fornecedores
Pavillon Suisse – France – Paris – estudos de construção e correspondências (29 ate 33)
Armée du Salut Palais du Peuple France- Paris correspondências, A. Peyron, Vanderkam (28 e
29)
Armée du Salut – Cité de Refuge – Paris – obras, correspondências com Vanderkam (29-32)
Projetos não realizados :
Casa Para o Sr. A. Harvey – cartas 04-01-29
Casa para o Sr. Grimar – cartas 10-06-29, Bruxelles
Casa Para o Sr. A. Knopff Marlien, cartas 12-07-29, 19-08-29, Bruxelles
Projeto de urbanização carta Delia Del Careil, com brochura sobre o programa do concurso, Madrid,
1929
Casas e apartamentos do State Athletic Club, Oklahoma City, cartas com Sr. Easterday, 18-04- 29, 02-
01-30
Villa Jacquin, casas em série, Bois-Colombes, cartas com Albert Jacquin, 28-06-29
Casas metálicas, cartas da S.A da Cites-Jardins da Região Cannaise, 09-10-29, Cannes
Casa, Carta com A. Stirnemann, 31-05-29, 19-10-30 com desenhos, Colmar
Modernização local da redação e gráfica do petit dauphinois, cartas com Sr. Andry FArcy, 04-06- 29,
19-07-29, Grenoble Igreja, carta com o padre de Plant-Champigny, 26-04-29, 05-06-29, France, Le
Tremblay
Construção de uma cidade, Orgement, France, carta 10-04-29
American Hotels Corporation, carta com o presidente L. Kincaid, 17-07-29, Genebra
131
Carta de Le Corbusier à Willi Baumeister, em 28/06/1930. (FLC)
88
Perspectiva interna da Maison
Loucheur.1929 (FLC)
Perspectiva externa da Maison
Loucheur, ourubro de
1928. (FLC)
89
mais altos de Le Corbusier certamente ainda estão por vir
132
. Contudo, será
durante este momento em que o arquiteto refletirá sobre alguns conceitos
determinantes doravante no seu modo de pensar e agir. Alguns deles serão re-
estabelecidos, como por exemplo, os conceitos derivados do seu entendimento
sobre a máquina e o período maquinista. Outros conceitos serão deslocados e,
portanto, novamente criados. Como são as noções de corpo e matéria, universo e
indivíduo. Trataremos assim nas próximas páginas, de abordar tais noções,
presentes neste período não somente em seus escritos, mas também em seus
desenhos.
Acerca de uma estandardização em arquitetura ou reflexões sobre a
lei Loucheur
Em 15 de janeiro de 1929, o escritor francês Jean Prévost
133
introduz e questiona
um problema que também parece inquietar Le Corbusier ao longo de todo o ano
de 29: a industrialização na arquitetura e a formação dos arquitetos. Em seu artigo
publicado na revista francesa JAZZ
134
e intitulado Crise du ciment ou crise des
architectes, Prévost expõe de forma militante sua preocupação em um momento
cujos saberes científicos sobre as técnicas construtivas são dominados, por parte
sobretudo de um corpo de engenheiros, mas que não são ainda compartilhados
pela geração de arquitetos que se forma na École de Beaux Arts de Paris. É sob
este contexto que o escritor elogia as ações de arquitetos como Le Corbusier cuja
obra, escrita e construída, vem a confirmar a importância do papel do arquiteto
frente aos interesses, sobretudo econômicos, do empresário.
Este e inúmeros outros artigos arquivados por Le Corbusier, ao longo deste ano,
confirmam o interesse do arquiteto em reconhecer os posicionamentos de diversos
atores sociais (políticos, artistas, arquitetos, empresários e escritores) nos debates
travados sobre o problema da arquitetura e da grande indústria na época.
135
132
Será durante as décadas de 1940 e 1950 que Le Corbusier construirá projetos com alto grau de
maturidade e complexidade. Entre eles, podemos destacar os projetos de Marseille (1946- 1952) e La
Tourette (1957-1960), na França e Chandigard (1950-1965), na Índia.
133
Jean Prévost (1901-1944), nasceu em Saint-Pierre-lès-Nemours, França. Em 1919, ingressou na
Ecole Normale Supérieure. Foi jornalista, cronista (nos periódicos e revistas franceses e europeus),
ensaísta (Plaisirs des sports, 1925; Dix-huitème année, 1928), romancista (Les frères Bouquinquant,
1930; Le sel sur la Plaie, 1934 entre outros), historiador (Histoire de la France depuis la guerre, 1932),
sociólogo (La Terre est aux hommes, 1936 etc), crítico literário e de arte. Foi amigo de Saint-Exupéry,
entre outros personagens de vanguarda francesa.eur de la France. Villeneuve-d’Ascq : Presses
universitaires du Septentrion, 2000 (collection «Histoire et civilisations»).
134
PREVOST, J. Crise du ciment ou crise des architectes. In: JAZZ, França, 15/01/1929. Arquivo FLC.
135
Le Corbusier reunia não somente artigos cujas críticas mencionavam o seu nome ou obra, mas
também artigos de revistas ou periódicos sobre assuntos diversos e de origens diversas. No ano de
1929, podemos destacar os seguintes artigos presentes na FLC: DUFET, M. Le Home et la musique
mécanique. In: Revue de la femme, França, 01/01/1929 ; Léger, F. A l’Athénée. Le XXV concours
Diday et le problème de l’architecture moderne. In : La Suisse, Suisse, 19/01/1929;
MAGNAT, G. E. La standardisation en architecture. In : Gazette de Lausanne, Suisse, 25/02/1929 ;
BAUGNIET, M.L. L’architecture, art collectif. Cité-jardin à Los Angeles. In : Le Monde, France,
02/03/1929 ;CHARLES, G. Le plan Loucheur et les architectes. In : Le Monde, France,
30/03/1929 ; JENSEN, A. Auf dem Spuren alter Menschheitskultur. VI. Der moderne Neger in
Afrika. In: Freiburger Zeitung, Alemanha, 10/03/1929 ; FONDANE, B. Réflexions sur le spectacle.
In : Cahier de l’etoile, France, Março de 1929 ; RAMBOSSON, Y. La société des Nations n’appliquerait-
elle pas ses propres règlements? In : Comoedia, France, 02/06/1929 ; SIDIBE, K. La peinture nègre
inconnue. In : Lumière, France, 02/11/1929.
90
Planta baixa da
Maison
Loucheur, 1928 - 1929. (FLC)
Revue de l’habitation «Ma
petite maison», dezembro de
1929. (FLC)
91
Em plena vigência da recém aprovada lei Loucheur
136
, Le Corbusier se posiciona,
face às questões de produção em massa e da construção de casas populares em
série. Através de publicações em revistas e jornais da época, o arquiteto expõe
seu entendimento e modo de ‘fazer arquitetura’ em um período ‘mundial’ de
industrialização
137
. Em um artigo de La Revue des Vivants, igualmente publicado
no mês de janeiro de 1929, Le Corbusier registra o questionamento do délégué da
Comissão de Forges
138
sobre a necessidade de aumento na venda de aço para a
construção civil. Em resposta, ele escreve:
E se considero que a indústria do ferro é uma das maiores indústrias do país, que
a questão da habitação é um dos mais vastos programas do país e constitui um
dos maiores mercados do país, eu respondo ao delegado da Comissão de Forges:
é preciso construir a casa ‘à sec’ (pré-fabricadas, grifo do autor), na fábrica,
fornecida no local e montada por encarregados de colocar, no respectivo lugar, as
peças fabricadas. As casas não serão estandardizadas ou tipificadas, senão que
os elementos das mesmas, estes modulares e passíveis de serem estabelecidos
por acordos internacionais.
xxi
Le Corbusier. ‘Réflexions sur la loi Loucheur’. In : Revue des Vivants, França, 2
séries printemps-été de 1929. (Arquivo FLC)
Tal afirmação nos leva a considerar um Le Corbusier reflexivo sobre as noções
de standard, tipo e internacional. Esta última parece conter as duas noções
anteriores, contudo sua definição é ainda mais ampla. A internacionalização para
o arquiteto não se trata de uma uniformização dos modos de vida. De fato, neste
momento, reconhecemos um Le Corbusier consciente da noção de uniformidade
como produção de mercadorias em cadeia, passíveis de adaptação aos diferentes
modos de vida. Seu esforço não é racionalizar e uniformizar os modos de morar
do homem, mas creditar aos processos produtivos elementos que compõem a
casa. Isso evitaria o desperdício e economizaria os custos da construção:
‘Não significaria estandardizar casas pequenas, médias ou grandes; significaria
estandardizar um sistema de estrutura: digo que não é necessário trazer um
progresso industrial no plano de novas casas, mas um novo sistema de estrutura.
Este traria ricas conseqüências que poderiam determinar uma variedade infinita de
planos, dando respostas às múltiplas modalidades da vida e às diferentes
concepções de existências. Eis a criação de um sistema de estrutura que
responderia aos pequenos, médios ou grandes programas.
xxii
(Le Corbusier. La signification de la cité jardin du Weissenhof à Stuttgart. In : La
Cittàfuturista, Italia, abril de 1929 (Arquivo FLC)
136
Louis Albert Joseph Loucheur (1872-1931) foi um homem político francês da 3ª República Francesa.
Nasceu em Roubaix, França, e integrou a Ecole Polytechnique em 1890, tornando-se engenheiro e
iniciando a sua profissão no Chemins de fer du Nord. Em 1925, torna-se o ministro das Finanças e, em
1928, ministro do Trabalho e da Previdência Social. Os movimentos sociais e a crise da habitação
social no período do pós-guerra aceleram os processos para a criação da loi Loucheur, em julho de
1928, prevendo em um projeto quinquenário, a construção de 200 mil moradias populares e 60 mil
moradias para aluguel à classe média. O projeto da lei Loucheur é defendido por Le Corbusier e fará
parte dos seus discursos neste momento. Ver: CARLS, Stephen Douglas. Louis Loucheur, 1872-1931 :
ingénieur, homme d’État, modernisateur de la France. Villeneuve-d’Ascq : Presses universitaires du
Septentrion, 2000 (collection «Histoire et civilisations»).
137
Dentre estes textos, podemos mencionar : Réflexions sur la loi Loucheur. In : Revue des Vivants,
França, 2 séries printemps-été de 1929 ; La signification de la cité jardin du Weissenhof à Stuttgart. In :
La Città futurista, Italia, abril de 1929 ; Economie domestique et construction économique. Artigo
apresentado no IV Congrès international de l’organisation scientifique tu travail : le Moniteur des
travaux publiques. Paris : 19 a 23 de junho de 1929.
138
Organização patrona da siderurgia nacional francesa, cirada em 1864. Em 1940, foi substituída pelo
Comité d’organisation de la sidérurgie.
92
Weissenhof, Stuttgart,
1927. (FLC)
LC, Mies, outros,
Stuttgart,
1927. (FLC)
93
No trecho acima, intitulado La signification de la cité jardin du Weissenhof à
Stuttgart e publicado em abril de 1929 pela Citta Futurista, Le Corbusier considera
que as pesquisas de construção de casas, sob condições sociais e econômicas da
época, devem fixar-se não por uma ‘quimera planta-tipo, mas por um novo sistema
de estrutura concebido de tal maneira a autorizar as combinações imagináveis e
responder às necessidades destas numerosas categorias de indivíduos’. O
arquiteto reconhece assim, uma pluralidade dos homens e, considera tal
multiplicidade como um problema de categorias dos indivíduos ‘solteiro, casado,
com ou sem filhos’
139
.
A sua compreensão de tipo, ao recorrer os estudos da língua francesa, é definida
por como ‘dupla e controversa’. Segundo o arquiteto, ‘uma deformação do sentido
conduziu à equivalência no dito popular: um homem um tipo; e desde que o tipo
se tornou um homem, nós tomamos a possibilidade de uma extensão considerável
do tipo’. Se por um lado, existe ‘uma complexa forma de um tipo físico único, no
qual se pode aplicar uma estandardização suficiente’, por outro, existem os ‘tipos
morais diversos e, por consequência, padronizados somente por categorias’
140
.
Após uma longa descrição sobre os exemplos das casas em Stuttgart, bem
entendidas como uma ‘demonstração de liberdade proporcionada pela técnica’ e,
que possibilitou assim ‘criar casas segundo bases totalmente novas’
141
, Le
Corbusier deixa em aberto suas reflexões sobre o tema ao concluir ser um erro a
crença na casa tipo. Na verdade, tais questões percorrerão o pensamento de Le
Corbusier durante mais de duas décadas.
Serão necessárias lutas intelectuais e debates travados entre o próprio Le
Corbusier com os seus contemporâneos e a geração de arquitetos e críticos
seguinte, para que o arquiteto entenda que a recepção de suas ideias não
éhomogênea. Pelo contrário, seu discurso, divulgado por suas conferências ou
escritos, foi recebido por pessoas diferentes em momentos diferentes.
142
139
Idem.
140
Idem.
141
Idem.
142
Le Corbusier recebeu inúmeras solicitações para publicar seus livros em outras línguas. Algumas
publicações, como Vers une Architecture, de 1923, foi rapidamente traduzida em quatro línguas. O
meio intelectual de língua alemã é um dos primeiros a interessar-se pela tradução de diversos livros de
Le Corbusier. Ver: SMET, C. Vers une architecture du livre; Le Corbusier: édition et mise en pages
1912-1965. Baden, 2007. O discurso de Le Corbusier gerou ecos em cidades cujo meio intelectual
compartilhava ou interessava- se nas idéias do arquiteto e, acabavam por convidá-lo a realizar projetos
ou conferir palestras. Como veremos nos casos do meio intelectual e político soviético em 1928 e no
meio artístico argentino em 1928-1929, com a Sra Ocampo. No caso do Brasil, o arquiteto Gregori
Warchavchik foi um dos primeiros a publicar sobre os escritos de Le Corbusier e do primeiro encontros
dos Congressos Internacionais de Arquitetura Moderna. O círculo intelectual paulistano no qual
Warchavchik freqüentava, havia acolhido em São Paulo o escritor Blaise Cendrars, amigo de Le
Corbusier. Um dos poucos assinantes da revista L’Esprit Nouveau (1920-1925) no Brasil foi o
empresário Roberto Simonsen. A convite de Simonsen Warchavchik vem ao Brasil trabalhar em sua
firma, a Companhia Construtora de Santos, em 1923. Ver: PEREIRA, M. [et al.]. Le Corbusier e o
Brasil. São Paulo: Tessela/Projeto Editora, 1987; FALBEL, A. As vicissitudes de dois arquitetos
modernos. Revista Projeto, São Paulo, n. 346, pp.112-115, dezembro, 2008 ; LIRA, José Tavares
Correia de. Fraturas da vanguarda em Gregori Warchavchik. Tese de Livre Docência apresentada à
Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo, julho de 2008; SANTOS, D.,
MAGALHÃES, M., PEIXOTO, P. Cartas sobre cartas - a contribuição silenciosa brasileira na
construção dos primeiros Congressos Internacionais de Arquitetura Moderna. Artigo apresentado no
VIII Docomomo Brasil, Rio de Janeiro, setembro, 2009.
94
Casa em série 72m². in: LC. Vers une Architecture.
95
De fato, Le Corbusier percebe a necessidade de recolocar, bem como
esclarecer determinados conceitos apresentados no início da década de 1920
como, por exemplo, a noção da casa como une machine à habiter.
Durante IV Congrès de l’Organisation scientifique du travail, realizado entre os dias
19 e 23 de junho de 1929, Le Corbusier apresenta o texto Economie domestique
et constructions économique e reconhece o termo como internacionalmente
‘empregado como tanque para atacar a fortaleza da academia’
143
. Todavia, em
outro documento escrito em resposta à Karel Teige apenas onze dias antes do
evento acima mencionado, Le Corbusier sente a necessidade de reposicionar o
nascimento do termo da ‘casa: máquina de morar’ e, vai mais longe ao situar ao
crítico tcheco que o problema está no modo como devemos nela morar:
‘A ‘máquina de morar’ foi o termo lapidário no qual, em 1921, apostrofei as
academias. É ao Sr. Nénot que falo da ‘máquina de morar’; mas não é a mim que
você deve retornar esta injunção. Porque, deixando o caso acadêmico, para olhar
para trás em nós mesmos, eu imediatamente pergunto: ‘Para morar como?’ E não
coloco, aqui, nada mais que a questão da qualidade’.
xxiii
(Le Corbusier. Défense de l’architecture) Escrito datilografado do artigo a ser
publicado na Revista Stavba em 1929. P.7, Arquivo (FLC)
O trecho acima mencionado foi escrito durante a sua segunda viagem à Moscou.
Le Corbusier parte de Paris no dia 6 de junho em direção à capital da antiga
URSS a defender seus projetos para o Palácio de Centrosoyus. Seu impulso em
escrever o texto Defense de l’Architecture é, como mencionado anteriormente,
uma reação às críticas de Teige sobre recentes projetos, em especial, os projetos
para Moscou e os desenhos à Paul Otlet. No momento, tomaremos atenção às
palavras introdutórias de Le Corbusier dirigidas à Teige. Antes de reagir às críticas
do editor theco aos projetos Mundaneum e Cité Mondiale, Le Corbusier posiciona-
se face a certos conceitos trazidos dos debates com o grupo de arquitetos e
intelectuais cuja língua compartilhada é o alemão (holandeses, alemães, suíços do
cantão alemão, e, em parte os tchecoslováquios). Le Corbusier chama este grupo
de vanguardas da ‘neue Sachlichkeit’, cujas ações resultaram na morte das
palavras Baukunst e Kunst
144
e, na sua substituição por Bauen e Leben
145
:
‘Há em vocês o diletantismo do novo romantismo, aquele
da máquina. Para outros (os práticos) trata-se de uma
medida policial quiçá oportuna (...). E como aquilo que
conectava as massas com o passado – com a arquitetura,
com a arte – eram palavras, isto é, noções com um
fundamento sentimental, primeiro tenta-se fazer admitir
que a época maquinista suprimiu inevitavelmente a arte
e a arquitetura. Se você adota a atitude de condutor dos
143
Le Corbusier. Economie domestique et construction économique. Artigo apresentado no IV Congrès
international de l’organisation scientifique tu travail : le Moniteur des travaux publiques. Paris : 19 a 23
de junho de 1929. (Arquivo FLC)
144
Baukunst e Kunst foram entendidos por Le Corbusier como Arquitetura (architecture) e Arte (art). In:
Défense de l’architecture. P.1 (FLC)
145
Bauen e Leben foram entendidos por Le Corbusier como Construção (construire) e Vida (la vie). In:
Défense de l’architecture. P.1 (FLC)
96
Charles-Édouard Jeanneret
Vista do Paternon para Piraeus.
Atenas, 1911.(FLC)
97
povos, quiçá tenha razão em admitir também medidas de
lei marcial. Mas eu, que pretendo salvaguardar orgulhosamente
minha completa liberdade, meu espírito de artista
ou criador, pretendo manter-me em minha anarquia (com
relação a suas medidas policiais) e prosseguir dia após
dia uma busca apaixonante: aquela de uma harmonia.
xxiv
.
(Le Corbusier. Défense de l’architecture. Escrito datilografado
do artigo a ser publicado na Revista Stavba em 1929. (Arquivo FLC)
Não entraremos aqui em detalhes sobre a relação de Le Corbusier com o
movimento romântico alemão, iniciado no século XIX e presente no discurso de
um grupo de intelectuais, artistas e arquitetos de língua germânica ao longo da
primeira metade do século XX. Tal abordagem mereceria um estudo mais fino
sobre os discursos do próprio século XIX. Contudo, reconhecemos os anos de
1928 e 1929 como um período cujas relações e compartilhamento de ideias
intensificaram-se. Novos termos farão parte do vocabulário de Le Corbusier
doravante. O conceito de Sachlichkeit para Le Corbusier é ao mesmo tempo
preciso, objetivo e controverso. Ela implica igualmente ‘no espírito de seus
inventores um sentido inacabado’, onde se ‘quisermos ser Sachlich’, será
necessário dizer: ‘Isto funciona, mas, entendo que isto me agrada, me sacia, me
interessa, me faz cócegas, me excita, etc.
146
Eu lhe pergunto poeta, qual é o motivo que impede aos
homens de fazerem revolução, um alvoroço e depois,
morrer de fome em suas ruínas? É que somente podemos
e devemos considerar este instrumento como um liberador
que permite, em primeiro lugar, resistir à concorrência,
em seguida, ganhar tempo e, por fim permitir a cada um,
pôr em ordem as atividades cotidianas, pensar em algo
e sonhar alguma coisa. E você me concederá que esta
esperança de comer a cada dia seu alimento espiritual – por
mais frustrante que seja – é o que fará tolerar a dura vida
da Sachlichkeit e dará esperança de uma saída, o sentimento
de criar algo, de criar, de ter uma ideia. Aí está a reserva
de resistência dos homens, o orgulho humano... ou
a ilusão, se quiser ser cético.
xxv
(Le Corbusier. Défense de l’architecture.
Escrito datilografado do artigo a ser publicado na
Revista Stavba em 1929. p. 6-7 Arquivo FLC)
Sachlich para Le Corbusier é, sobretudo uma atitude, um instrumento necessário,
portanto, efêmero. O arquiteto aproxima-se deste movimento, pois o considera
‘honesto’ e que ‘protesta contra as mentiras dos acadêmicos e, que por outro lado,
os problemas urgentes da época são aqueles por construir casas, moradias
mínimas porque pouco dinheiro e, porque àquelas projetadas por acadêmicos
eram inabitáveis e custosas’.
147
xxvi
Certamente não é coincidência Le Corbusier
mencionar a questão da moradia mínima ao então colega e companheiro tcheco,
também atuante nos Congressos Internacionais de Arquitetura Moderna. Este
tema será aquele abordado não somente durante o encontro do CIRPAC,
preparatório para o segundo CIAM e realizado em fevereiro
146
Idem. P.6
147
Le Corbusier. Monsieur l’éditeur : interview sur publication d’un ouvrage sur l’état actuel de
l’architecture. Studio Londres, Londres, janeiro de 1929 . (Arquivo FLC, F3-1)
98
CIAM II, 1929. (gta/ETH)
99
de 1929
148
, como principalmente no próprio congresso em si, realizado em
Frankfurt entre os dias 24 e 26 de outubro de 1929. A própria decisão em sediar o
encontro na cidade alemã tampouco é aleatória.
Das neues Bauen ou Architecture Moderne: (des)encontros em
Frankfurt
Nos registros do segundo congresso, podemos confirmar a participação de Le
Corbusier conjuntamente com Pièrre Jeanneret com o trabalho: Analyse des
éléments fondamentaux du problème de la ‘maison minimum’.
149
Nele, Le
Corbusier retoma questões previamente estudadas como o conceito de
estandardização e a defesa de um sistema de estrutura na construção das casas.
Os exemplos e as experiências realizadas na França, graças ao ministro do
trabalho Louis Loucheur, são igualmente apresentadas.
150
Le Corbusier e
Jeanneret concordam que o problema arquitetônico poderia concentrar-se sobre
uma questão de equipamento na moradia, devendo ser construídas não de modo
isoladas. A defesa dos arquitetos na densificação do lote, ao construir edifícios
residenciais multifamiliares é clara.
A moradia mínima isolada, com ou sem jardim, é um
resíduo de séculos passados. Ela não se presta à aplicação
racional de novas técnicas – aquecimento, ventilação,
refrigeração e refrigeradores; ela deixa o problema inteiro
e insolúvel da domesticidade ou da relação doméstica; ela
não traz nenhuma solução à questão esportiva (...). A moradia
mínima isolada é, nos dias de hoje, uma profunda
causa de desperdício e de um antagonismo à sobre-guarda
[preservação] do corpo
xxvii
(Le Corbusier, 1929)
Salvo alguns dados estatísticos recentes do ano de 1928 ou 1929, bem como a
vigência da lei Loucheur desde 1928, o escrito de Le Corbusier não é de modo
algum novidade em seu discurso. Tampouco se difere de outros arquitetos e
críticos como Giedion, Gropius, Bourgeois entre outros.
151
Algumas ideias, por
exemplo, haviam sido apresentadas anteriormente desde a revista l’Esprit
Nouveau ou no recém publicado livro em 1928, Une Maison, un Palais.
O artigo de Bourgeois:
‘Os problemas essenciais da arquitetura moderna não podem
ser resolvidos nem por um arquiteto, nem mesmo
pela corporação de arquitetos; deve-se às experiências
unidas de numerosas técnicas, a fim de encontrar as melhores
soluções arquitetônicas. (...) Como um argumento
é eficaz na medida em que consente em limitar-se e à
simplificar-se, e que nos parece essencial estabelecer
148
Após o primeiro congresso em La Sarraz em junho de 1928, foi organizado um encontro mais
fechado em fevereiro de 1929 na Basiléia, Suíça, para discutir as bases e programas do congresso.
Nele, estava presente Le Corbusier, bem como os demais délégués do Comité International pour la
Réalisation des Problèmes d’Architecture Contemporaine, CIRPAC.
149
LE CORBUSIER, JEANNERET, P. Analyse des éléments fondamentaux du problème de la ‘maison
minimum’. In : Ma petite maison. Les maisons en acier à l’exposition de l’habitation. La Revue de
l’Habitation. França : dezembro de 1929 (Arquivo FLC). O artigo foi igualmente publicado em :
STEINMAN, M. CIAM. Dokumente 1928-1939. Basel und Stuttgart : Birkhäuser, 1979.
150
Steinman, p. 61.
151
Idem. P. 38-65
100
CIAM II, 1929. (gta/ETH)
Programa do CIAM II, 1929.
(gta/ ETH)
101
sem mais demoras algumas noções claras (...) pensamos
que seja útil haver provisoriamente um tipo internacional
de habitação urbana. Por um lado, a internacionalização
dos meios de vida não permitiria a elaboração de um programa
geral? Por outro, a industrialização do campo não
se aproxima aos modos de existência que parecem até
agora incompatíveis?’
xxviii
‘Mas a habitação para a existência mínima é também, sobre o outro ponto de
vista, ainda uma questão em aberto: enquanto a tarefa de edificar. A solução de
um problema no qual velhas concepções e velhos métodos fracassaram não fará
frutificar apenas todo o construir, senão, para além disto, aos homens, uma
interação recíproca.
xxix
(Giedion. Die Wohnung für das Existenzminimum, 1929).
A persistência e militância de Le Corbusier na criação de um encontro em 1928
que discutisse, sobretudo, direcionamentos e posições sobre a arquitetura e a vida
nas cidades, parecem não repercutirem no texto que foi apenas lido por Jeanneret
no dia 25 de outubro em Frankfurt. Le Corbusier, não esteve presente no encontro
na cidade alemã. Suas preocupações e prioridades naquele momento parecem
focar-se em novos projetos e aberturas, sobretudo, no continente americano.
Ao longo de todo o ano de 1929, Le Corbusier esteve presente nos preparativos
para a criação do CIAM II
152
, bem como foram constantes as correspondências
com os demais délégués e membros do CIRPAC. Tal presença demonstraria seu
interesse em decidir e julgar não somente quais temas deveriam ser abordados,
mas em qual cidade o encontro poderia acontecer. Contudo, os motivos pelos
quais levaram Le Corbusier a dar a voz ao seu amigo Jeanneret em seu lugar na
conferência ainda não podemos precisar. O que podemos é construir algumas
reflexões possíveis segundo os documentos persistentes ao tempo.
Se, por um lado, a criação dos CIAM teve início a partir de questionamentos
compartilhados por Le Corbusier e diversos arquitetos e críticos europeus face ao
resultado do concurso do Palácio das Nações de 1927 um projeto premiado e
considerado pelo arquiteto suíço como a ‘voz da academia’
153
por outro, a
constituição e o andamento dos próprios congressos foram revelando, pouco a
pouco, certa complexidade e diferenças nos modos de pensar e agir destes atores
sobre a cidade. O segundo encontro na Alemanha já confirma esta divergência.
Le Corbusier responde, assim, às críticas de Teige em junho de 1929
154
e, tal
decisão é justamente um esforço em tentar compartilhar determinados valores
comuns entre aqueles considerados pelo arquiteto como também ‘revolucionários’.
Ao saber das lutas e ações de alguns intelectuais tchecos, dentre eles o próprio
Karel Teige criando e divulgando revistas, manifestos, poemas e projetos sobre
os atuais problemas da arte e da arquitetura Le Corbusier esforça-se em tornar
mais complexo seu diálogo com o escritor por entender que os dois poderiam
caminhar, senão juntos, pelo menos na mesma direção.
152
Ver nota 148.
153
Le Corbusier. Une Maison, un Palais. Paris : Les éditions G. Crès, 1928. P. 172.
154
O próprio Le Corbusier admite não ser comum responder às críticas que recebe. In: Défense de
l’Architecture. P.1.
102
Capa da revista Das Neue
Frankfurt 10, 1929. (gta/ETH)
103
Em 1929, os alemães certamente estavam mais preparados e organizados para
sediar o encontro.
155
Na Alemanha, havia um campo estabelecido para discutir
tais problemas de habitação. Haviam exemplos de construções populares, onde
Gropius e May lograram obter subsídio federal para desenvolver loteamentos
habitacionais para estudar e aplicar os modelos de estandardização e
racionalização.
156
O próprio Ernst May já havia criado a revista Das Neue Frankfurt
cujas informações tratavam das inovações tecnológicas para a construção de
casas em série e dos equipamentos internos.
Le Corbusier reconhece tal organização de May e seus colaboradores, apesar das
restrições quanto às atitudes Sachlich dos alemães. Sua ausência no segundo
congresso, bem como a opção em escrever um texto basicamente informativo e
sem atribulações, venha a ser o modo encontrado para não enfrentar os seus
colegas délégués. Assim, a decisão em aceitar os convites para viajar à América
do Sul no segundo semestre, onde poderia divulgar e criar terreno para futuras
trocas intelectuais e de projeto, seria a atitude mais conveniente e polida face às
inquietações do arquiteto.
155
Sobre os estudos dos CIAM, ver : STEINMAN, M. CIAM. Dokumente 1928-1939. Basel und Stuttgart
: Birkhäuser, 1979; MUMFORD, E. The CIAM Discourse on Urbanism, 1928-1960. Cambridge – Londo:
The MIT Press, 2000.
156
Mumford, p. 27-44.
104
Croquis de Le Corbusier.
Década de 1930. (FLC)
105
Vers le Sud: arquitetura em tudo, urbanismo em tudo... poesia em
tudo
Deve-se fugir do pesadelo do caos das cidades que materializam
esta etapa da época maquinista, cujo primeiro ato
já foi encenado e sobre o qual cai a cortina atualmente.
Deve-se representar o novo ato. Levantar as cortinas sobre
um outro empreendimento, sobre diretrizes que provenham
de uma digestão, de uma assimilação, de uma conclusão.
Crepúsculo, talvez, de Nova York.
Aurora, certamente, na América do Sul.
Latinos, eis aqui a voz do seu destino: Sorridente, claro,
belo.
157
Os escritos e os desenhos de Le Corbusier durante a viagem à América do Sul,
bem como aqueles concebidos imediatamente depois da viagem impressionam.
Eles causam impressão em número e emocionam pela poesia em palavras ou em
desenho.
Foram muitas e intensas as experiências: pelo mar, como a visão da esplêndida
Baía de Guanabara desde o transatlântico Massília
158
; pelo ar, do alto do avião
Latécoère, atento às ‘gigantescas’ terras e pequenos povoados argentinos e
paraguaios a 1.200 metros de altitude
159
; ou ainda a pé, nas trilhas de terra
vermelha da fazenda São Martinho no interior do estado paulista.
160
Em apenas dois meses de viagem, Le Corbusier visitou capitais, cidades médias e
pequenas, ilha, fazenda, mata... Não havia tempo para registrar tudo. O olho e a
mente eram mais rápidos que a mão e o lápis:
... tudo é conforme as escrituras: a floresta virgem, os
Pampas. A Terra é verde, no verão, em toda parte. (...)
Há onças; mataram uma há oito dias. Mas não se vê nada.
Fica-se à espreita dentro da floresta virgem. Espera-se ¼
de hora: Nada.(...) Tudo isto está na floresta, na América,
mas não vemos nada. Esperar, espreitar, escutar, um ou
dois dias, e a floresta falará. Nunca temos tempo.
161
É um momento de intensa exploração. Novos mares, novas luzes, novos corpos.
Le Corbusier deixa Paris por completo, sua alma e razão estão inteiramente
obcecados pelo novo mundo dos trópicos. Em uma carta enviada por sua noiva
Yvonne, clamando por notícias, ‘Corbu’ parece estar longe.
157
Le Corbusier. O Espírito Sulamericano (1929). In : PEREIRA, M. [et al.]. Le Corbusier e o Brasil. São
Paulo: Tessela/Projeto Editora, 1987. P. 68-69.
158
Le Corbusier chega parte de Bordeaux no início de setembro e cruza o oceano Atlântico pelo
transatlântico Massília. No final de novembro, o arquiteto retornar de Buenos Aires em direção à
Montevidéu, Santos e, em seguida ao Rio, à bordo do Giulio Cesare, juntamente com Joséphine Baker.
Em 27 de novembro, Joséphine Baker realiza o espetáculo Baby em São Paulo. Em 3 de dezembro, Le
Corbusier chega à capital federal. Em 9 de dezembro, Le Corbusier retorna à França à bordo do navio
Lutétia.
159
Le Corbusier. Prólogo Americano. A bordo do Lutetia, dezembro de 1929. In: PEREIRA, M. [et al.].
Le Corbusier e o Brasil. São Paulo: Tessela/Projeto Editora, 1987. P. 72-86.
160
Carnet de Voyage B4. (FLC)
161
Texto escrito na Fazenda S. Martinho utilizado com ligeiras modificações no “Prólogo Americano”.
In: PEREIRA, M. [et al.]. Le Corbusier e o Brasil. São Paulo: Tessela/Projeto Editora, 1987. p. 49.
106
Le Corbusier e Pierre
Jeanneret.
Oeuvre complète
1910 – 1929 / 1929-1934.
Le Corbusier, desenho para
desenvolvimento urbano do
Rio de Janeiro. Publicado em
Précisions sur un état présent
de l’architecture et de
l’urbanisme, 1930. (FLC)
107
E você meu querido Corbu, a esta hora você paira ainda
sobre o Atlântico, (...) você gosta do mar. Não tenho novidades
suas, pois ao retornar encontro a casa vazia, Yvonne’.
xxx
(Carta de Yvonne à Le Corbusier em 22 de setembro
de 1929. FLC E2-13-105)
Através de seus desenhos e escritos percebemos que a viagem marcou o
arquiteto de diversas formas. Ainda na França, antes de embarcar no
transatlântico Massilia em setembro de 1929, pareciam-lhe claras as atividades e
interesses: palestrar em Buenos Aires – divulgando seu pensamento sobre a
arquitetura e urbanismo segundo o ‘espírito da época’ – e, visitar o
Rio de Janeiro e São Paulo conhecendo assim os atores sociais envolvidos no
projeto da construção da ‘cidade de um milhão de almas: Planaltina’
162
. Durante o
primeiro semestre de 1929, as correspondências entre Le Corbusier e os seus
anfitriões, notadamente Paulo Prado
163
no Brasil e Sra Ocampo
164
em Buenos
Aires, confirmaram a viagem, bem como precisavam detalhes. As palestras a
serem conferidas em Buenos Aires começavam a ser esboçadas já durante o mês
de julho.
165
Contudo, se, num primeiro instante, tais interesses, ditos ‘práticos’
para a profissão do arquiteto, pareciam precisos a Le Corbusier, num segundo
instante, ao longo destes dois meses de viagem, novas experiências renderam
reflexões e criações em outras poéticas: nas Artes, na Comunicação ou na própria
Arquitetura.
Certamente, não seria coincidência a sua decisão em optar pelo ano de 1929
como o momento de divisão na apresentação de seus trabalhos em sua Oeuvre
Complète. Na verdade, tal série seria mais uma confirmação deste momento de
grandes permanências e rupturas em seu pensamento e prática. Este ano de
1929, culminado com a viagem à América do Sul, seria um período de extrema
complexidade na vida e obra de Le Corbusier.
166
‘Em 1930 inaugurava-se uma etapa de novas preocupações: as grande obras (les
grands travaux), os grandes eventos da arquitetura e do urbanismo, a era
prodigiosa do equipamento de uma nova civilização maquinista.
Tendo redigido o livro, ‘Précisions’, a bordo do navio que me levava de Buenos
Aires à Bordeaux, terminava meu manuscrito assim: ‘Não falarei mais da
revolução em arquitetura que realizou-se. É a era das grandes obras que
começam, é o urbanismo que se torna a preocupação dominante’. Assim foi, em
nosso atelier, uma série
162
Documento dossiê nominativo Cendrars (FLC). In : Pereira. P.34.
163
Paulo Prado foi um mecenas de arte, personalidade pública e intelectual, patrocinando a vinda de
Blaise Cendrars e Le Corbusier ao Brasil. ‘A própria família Prado será também responsável pela
introdução de Le Corbusier no meio artístico e intelectual carioca’. In: Pereira, p.33-35.
164
Victoria Ocampo (1891-1962), argentina, foi mecenas de arte e patrocinou a vinda de Le Corbusier à
Argentina. Encomendou o projeto de sua casa ao arquiteto em 1928.
165
Em carta ao amigo Cendrars, Le Corbusier confirma sua decisão em ir à Buenos Aires, bem como o
desejo de ir à São Paulo realizar um série de conferências. O arquiteto compartilha os temas de suas
possíveis palestras. Correspondência escrita em sete de maio de 1929 (FLC). In: Pereira, p. 43.
166
Os estudos de Stanislaus von Moos, Margareth Pereira, Carlos Martins, Jean-Louis Cohen e Tim
Benton, igualmente confirmam este momento de grandes reflexões e descobertas em Le Corbusier,
notadamente no que se refere aos projetos de urbanismo.
108
Projeto para Buenos Aires,
desenhos preparatórios para
a nona conferência. (FLC)
109
ininterrupta de grandes estudos: a urbanização das grandes cidades existentes ou
a serem criadas; a urbanização do campo – a reorganização agrária’.
xxxi
(Oeuvre Complète, 1929-1934)
Em urbanismo, será um período, segundo o próprio Le Corbusier, dedicado aos
grands travaux.
167
Contudo, este momento ainda é pouco estudado em relação às
suas demais poéticas, entre elas o desenho e a arte de palestrar
168
(54); Em
relação às suas conferências, por exemplo, o ciclo de dez palestras em Buenos
Aires foi uma descoberta neste ‘ofício de conferencista’ onde viveu ‘no decorrer
das conferências, momentos agudos de lucidez, cristalização do pensamento’.
169
Segundo as próprias palavras de Le Corbusier:
Nunca tivera a ocasião de exprimir-me tão abundantemente.
Estava feliz de poder apresentar fatos precisos e,
entretanto, em cada uma de minhas conferências, a hora
me perseguia: teria podido fazer cem conferências!
170
Pretendemos assim abordar nas próximas páginas reflexões sobre este pequeno
vocabulário, escrito e iconográfico, que foi ‘empregado’, modificado, solidificado ou
construído por Le Corbusier nos diversos momentos, íntimos ou públicos, de sua
viagem à América do Sul.
Revisitando o vocabulário da era da máquina
O mundo está em plena perturbação. Algo de novo aconteceu:
o maquinismo. (...)
Adotamos novos costumes, aspiramos a uma nova técnica,
procuramos uma nova estética, e, para tudo isto, que
espécie de autoridade?
Resta-nos uma constante: o homem, com sua razão e
suas paixões, seu espírito e seu coração e, nesta questão
da arquitetura, o homem com suas dimensões.
171
Logo em sua primeira conferência em Buenos Aires, Le Corbusier nos chama a
atenção ao período da máquina. Esta noção não é nova nem ao público, nem ao
próprio Le Corbusier, mas o arquiteto considera importante expô-la como um
problema dos homens de sua época. Não é necessário repudiar a máquina,
tampouco venerá-la, mas reconhecer a sua existência e força a fim de ‘sanar a
arquitetura’ e ‘salvar a grande cidade’. É nesta ação em busca de uma liberdade
do indivíduo e, consequentemente do coletivo, que a máquina pode ser ‘poesia’ e
‘lirismo’, segundo o discurso de Le Corbusier em 1929.
Ao estudar de modo mais atento a relação de Charles-Edouard Jeanneret com a
noção de máquina, percebemos que esta percorrerá de modos diversos os seus
167
Os estudos de von Moos, Cohen e Pereira trazem à luz reflexões sobre este período considerado
marcante e de novas reflexões no campo do urbanismo.
168
Sobre as conferências de Le Corbusier, ver : BENTON, T. Le Corbusier conférencier. Paris: Éditions
du Moniteur, 2007.
169
Le Corbusier. Prólogo Americano. A bordo do Lutetia, dezembro de 1929. In: PEREIRA. P. 86.
170
Idem.
171
Le Corbusier. Précisions sur un état présent de l’architecture et de l’urbanisme. Paris : Les éditions
G. Crès, 1930. 1a Conferência realizada em 3 de outubro de 1929.
110
Composition à la lanterne et à
la guitare, 1919.
Kunstmuseum, Basel.
Figure rouge. 1929.
Coleção Heidi Weber.
111
diferentes campos de ação, sobretudo, a partir do período em que está próximo de
Ozenfant.
172
Conforme apresentado anteriormente, tal relação, muitas vezes
complexa, será recorrente ao longo de toda a década de 1920. Ora a máquina
será um objeto de extrema pesquisa e objeto plástico, cuja paixão e prisão estarão
presentes nas telas puristas ou no próprio comportamento mecânico de Jeanneret
ao lado de Ozenfant; ora será o motor para a ‘liberdade’ e ‘cura’ do homem
moderno.
Concordamos com Carlos Martins, ao afirmar que ‘este tema recorrente nos
permite acompanhar os avatares de uma relação [de Le Corbusier] atormentada
com a máquina metonímia do mundo da técnica’
173
e que vai marcar o seu
pensamento ao longo dos anos 1920. De fato, tal relação, muitas vezes
contraditória, vai percorrer de modo profundo o discurso plástico e,
consequentemente o comportamento de Jeanneret desde a publicação ‘Depois do
Cubismo’, em 1918, até o período de sua viagem às Américas. Durante esta
década, o entendimento sobre a máquina parece não apresentar grandes
mudanças e rupturas em seu discurso oral e escrito. Todavia, sua expressão
plástica parece deixar marcas de um novo vocabulário.
Em figure rouge, Le Corbusier explora novos patamares de cores e objetos, em
especial a presença de corpos.
Permanências:
‘Hoje em dia, precisamos reconhecer: o trabalho em série
imposto pela máquina vela mais ou menos ao trabalha
dor os resultados de seus esforços. Contudo, os produtos
fabricados,graças ao programa rigoroso da fábrica moderna,
são de uma tal perfeição que produzem às equipes
de operários um sentimento de orgulho coletivo. (...)
A evolução atual do trabalho caminha desde o ‘utiliário’ à
síntese e à ordem. Definimos como ‘taylorismo’, sem uma
conotação pejorativa. Na verdade, isto não seria outra coisa
senão a exploração inteligente das descobertas científicas.
(...) Já as máquinas, devido ao seu condicionamento
pelo número, evoluiu mais rapidamente, atingindo hoje
um apuramento notável.
Este criou em nós um sentimento novo, um novo prazer,
cuja importância leva-nos a refletir; ele é um novo fator no
conceito moderno da arte.
xxxii
(Fragmentos do livro Après le Cubisme, 1918)
Em 1929, Le Corbusier escreve:
O maquinismo perturbou tudo: comunicações, interpenetração,
aniquilamento das culturas regionais, mobilidade
súbita, ruptura brutal com os costumes seculares, modos
de pensar.
174
172
Amédée Ozenfant (1886-1966), pintor e teórico francês, conhece Charles Édouard Jeanneret
através de Auguste Perret, em 1918. Ao longo de quase uma década, a relação de Ozenfant e Charles
Édouard será intensa. Ambos constroem uma poética através das artes plásticas e a nomeam Purisme.
Escrevem juntos o livro Après le Cubisme, em 1918, e criam em 1920 a revista L’Esprit Nouveau. In:
ELIEL. C. ; DUCROS, F. L’Esprit Nouveau: Purism in Paris 1918-1925. Los Angeles - New York:
Abrams, 2001
173
Carlos Martins. Uma Leitura Crítica. Posfácio da versão em português do livro Précisões. P. 273.
174
Fragmento da 1ª Conferência em Buenos Aires, 03/10/29. In: Précisions.
112
Carnet de Voyage, Rio de Janeiro, 1929. (FLC)
Croquis realizado na conferência em Buenos Aires e publicado em Précisions
sur un état présent de l’architecture et de l’urbanisme, 1930.
113
‘Padronização, industrialização, taylorização.
Três fenômenos consecutivos que geram sem piedade a
atividade contemporânea, que não são nem cruéis, nem
atrozes, mas que, ao contrário, conduzem à ordem, à perfeição,
à pureza, à liberdade’. Trecho da 2ª Conferência
em Buenos Aires, 05/10/29.
Diário de viagem: breves reflexões sobre um pequeno vocabulário
No transatlântico: um corpo que sente
Sob este elogio e admiração pelas criações humanas possíveis através do
engenho da máquina, está o navio transatlântico. Ao lado do avião, o
transatlântico é a grande obra que fará parte do discurso escrito e iconográfico de
Le Corbusier durante a sua viagem à América do Sul. É através dele, que o
arquiteto cruza os mares e chega ao ‘outro mundo’. São duas semanas nesta
‘grande casa’, por ele chamada:
‘Existem de 2.000 a 2.500 pessoas neste navio. É uma
grande casa. Ali não reina a menor confusão, mas uma
disciplina perfeita. Nele se come, se dorme, se dança, se
medita, se passeia. Todos nós que estamos em terra, sem
exceção, sentimos uma admiração profunda pelo navio.
Estamos diante de um novo dimensionamento da casa’.
175
Le Corbusier experimenta o navio. Desenha-o por fora, por dentro; corta-o
lateralmente, transversalmente; descreve-o como um todo, em detalhes; filma-o.
Sua obsessão e admiração não têm limites, seu pensamento voa enquanto
esquece o ‘tumulto continental’
176
e acalma-se na ‘solidão das águas’. Seu
coração bate mais forte ao navegar nesta grande máquina por águas atlânticas a
conhecer este ‘outro mundo’. É a bordo do navio Lutétia, desde o ‘ponto mais
calmo’
177
que o próprio Le Corbusier consegue ‘levar a cabo a redação dessas
dez conferências de Buenos Aires que foram improvisadas, faladas e desenhadas’
178
. Assim, o discurso sobre o transatlântico para Le Corbusier, construído e
sedimentado desde os textos apresentados na revista L’Esprit Nouveau, vem a ser
reafirmado neste momento, não somente como uma obra mestra da engenharia
moderna, mas, sobretudo como uma metáfora da nova casa do homem moderno:
útil, precisa, ordenada e, por fim, bela.
175
Le Corbusier. Précisions. 2a conferência realizada em Buenos Aires em 5 de outubro de 1929.
176
Le Corbusier. O Espírito Sulamericano. In : Pereira, p. 68.
177
Le Corbusier. Prólogo Americano. In : Pereira, p. 72.
178
Idem.
114
Ilustração do livro Aircraft, 1935.
115
No Avião: olhos que veem
Em paralelo ao navio, Le Corbusier enaltece outro produto da engenharia humana:
o avião. Este igualmente faz parte de seu vocabulário desde os primeiros escritos
da L’Esprit Nouveau
179
, mas, suas experiências ao sobrevoar cidades, pampas,
florestas e costas brasileiras, argentinas, uruguaias e paraguaias irão marcar
doravante Le Corbusier.
‘Este país da América [Argentina] é dimensionado pelo
avião. Parece-me que a rede aérea haverá de se tornar
seu sistema nervoso eficaz. Observem o mapa: tudo é
gigantesco e de tempos em tempos surge um povoado,
uma cidadezinha.
Tinha em mente o problema das casas baratas de nossa
Europa, envenenada pelos príncipes da Renascença, os
papas ou o Sr. Nénot, e minha eterna conclusão, após
tantos países percorridos há mais de vinte anos, torna-se
cada dia mais precisa: é o conceito de vida o que se tem
de mudar, é a noção de felicidade o que se deve resgatar.
A reforma está nisso, o resto é apenas conseqüência’.
180
(Prólogo Americano, 1929)
Desde o avião Le Corbusier emociona-se, homem e natureza parecem um só.
‘Contemplation of the earth from above conduces to meditation’
181
. Tudo parece
calmo e tranquilo para os olhos humanos e, por isso, Le Corbusier definirá que a
escala do avião é, sobretudo, uma escala humana, uma escala do corpo.
182
‘A 500 ou 1000 metros de altitude e a 180 ou 200 km/h a
visão que se tem do avião é a mais calma, regular e definida
que se possa desejar. (...) Tudo adquire a precisão
de uma épura. O espetáculo não é apressado, mas muito
lento, sem rupturas. Com exceção do avião, somente um
transatlântico e os pés do caminhante na estrada permitem
o que se poderia chamar de visões humanas: contempla-se
e o olho transmite calmamente, enquanto denomino
desumanas ou infernais as visões oferecidas de um trem,
de um automóvel, até mesmo de uma bicicleta. Só existo
na vida com a condição de ver’.
183
(Prólogo Americano, 1929)
Aqui, Le Corbusier nos eleva a uma reflexão que somente poderia ser escrita por
alguém consciente às temporalidades humanas, àquelas curtas, necessárias a
contemplar o sublime da vida e apreciar o presente mais imediato, a encontrar
poesia no instante dos tempos que o olho humano capta com a luz no espaço. Ver
e sentir, eis aqui as condições para viver e, portanto, criar. Em passagem ao Rio
179
A série de artigos publicados por Charles-Edouard Jeanneret ao longo das primeiras edições da
Revista L’Esprit Nouveau, criada em 1920, resultou no livro Vers une Architecture, 1923.
180
Le Corbusier. Prólogo Americano. In : Pereira, p. 73.
181
LE CORBUSIER. Aircraft. Londres : The Studio Ltd, 1935. P. 113 (título do capítulo 13).
182
Carlos Martins considera que ‘a visão do caminhante e do navegante correspondem, ainda à escala
do corpo. A experiência do vôo significou para Le Corbusier, a conquista da vue d’oiseau, da visão à
‘escala do espírito’. In: Uma leitura crítica. Posfácio da versão brasileira de Précisions. P.281.
183
Le Corbusier. Prólogo Americano. In : Pereira, p. 77.
Carnets de voyage, 1929. (FLC)
Carnets de voyage, 1929. (FLC)
Carnets de voyage, 1929. (FLC)
116
117
de Janeiro, a bordo mais uma vez de um pequeno avião, Le Corbusier sente-se
penetrar neste ‘corpo, movimentado e complexo’ que é a cidade carioca. O
urbanista, ‘sensível às magnificências naturais e um espírito ávido por conhecer o
destino de uma cidade’, não hesita exprimir com liberdade os primeiros traços
urbanos que acompanham a topografia dos morros cariocas. Após os estudos
mais cartesianos das cidades de Montevidéu e São Paulo, Le Corbusier
reconhece a imponência da paisagem carioca e a valoriza:
‘Mas quando no Rio tudo está em festa, pois tudo é tão sublime
e magnífico, quando voou-se longamente de avião
como pássaros planadores sobre a cidade, as idéias nos
invadem.
..
No avião, peguei meu bloco de desenhos e desenhei à
medida que tudo me parecia claro. Exprimi as idéias de
urbanismo moderno’.
184
Se por um lado, tais ideias do urbanismo moderno, de acordo Le Corbusier, foram
expressas segundo uma sensibilidade humana desde um avião estimulada pelo
sentido, sobretudo, o olhar por outro lado, a própria noção de moderno para o
arquiteto foi amadurecida pela sua atenção a outras sensibilidades, em especial
àquela percebida pelo homem a pé. Em outras palavras, a noção de moderno em
Le Corbusier é uma construção de sensibilidades do corpo em diversas
dimensões. Margareth Pereira
185
, em 1987 e, posteriormente Carlos Martins
186
em 2004, indicam esta relação de Le Corbusier com os ‘corpos dos índios’ em
Assunção ou dos negros nos morros do Rio, como uma experiência da diferença,
do exótico, ingênua e ao mesmo tempo cósmica.
Neste momento, ele encanta-se pelas máquinas e, por isso, sente a necessidade
de tornar público tal encantamento. Como um sujeito consciente de suas práticas,
Le Corbusier age conforme o ‘espírito de sua época’.
Contudo, sua construção de moderno é mais complexa, tensa e, transita por
dimensões do sensível e do sublime. Percorrer a cidade, vagar pelas ruas e
perder-se, são atos de liberdade de espírito e, por conseqüência, modernos para
Le Corbusier. Mas, neste momento, ele não torna público este sentimento.
Ele não precisa torná-lo, pois este não é seu ‘campo de batalha’. São experiências
íntimas que o engrandecem como pessoa, que o ‘enlevam’. Seus croquis não
publicados, seus carnets de voyage guardados para si, revelam esta tensão que
vai percorrer doravante a vida de Le Corbusier.
A pé, o arquiteto sente a cidade com outras partes sensíveis do corpo.
Em meio aos morros das favelas, ou à praia da Glória, Le Corbusier, olha, ouve,
cheira e toca fragmentos da cidade carioca. Olha as moças bonitas que passam
ao perambular pela noite boêmia nas ‘ruas destinadas aos marinheiros’
187
, ouve o
samba no dos morros das favelas
188
, cheira o aroma da brisa que bate à sua
janela no Hotel Glória
189
, sente em sua pele a umidade do verão
184
Le Corbusier. Corolário Brasileiro. In : Pereira, p. 89.
185
PEREIRA, M. [et al.]. Le Corbusier e o Brasil. São Paulo: Tessela/Projeto Editora, 1987.
186
MARTINS, C. Uma Leitura Crítica. Posfácio do livro Précisions, de Le Corbusier. São Paulo:
Cosac&Naif, 2004.
187
Le Corbusier. Corolário Brasileiro. In : Pereira, p. 87-88.
188
Idem. P. 87
189
Idem. Ibidem
118
Trois musiciennes, 1936 (FLC 2321)
Trois musiciennes, 1936. (Colec. particular)
Deux musiciennes (FLC 706)
119
carioca e o prazer em tomar um banho de mar
190
. Quase a totalidade de seus
desenhos realizados na viagem evidencia este sentimento encarnado sobre a
cidade, os homens e à natureza, os olhares próximos e distantes.
Corpos humanos, corpos urbanos
A experiência de Charles-Édouard Jeanneret com os corpos esteve sempre
presente em sua vida, às vezes de forma menos expressiva, às vezes revelava-se
de modo mais evidente. Os anos ao lado de Ozenfant, por exemplo, fizeram parte
de um período único onde Jeanneret não representou em nenhum momento a
figura humana em seu trabalho plástico.
191
Aos seus pais ele escreve:
‘Eu mudei, não sou mais comunicativo. Vivendo uma vida muito dura, que vocês
não compreenderam, e seguindo as metas audaciosas e elevadas, eu me volto
sob mim mesmo e não sei mais me interessar aos detalhes e não
sei mais ser um homem de companhia’.
192
O interesse pelo corpo e, em especial pelo corpo feminino, é demonstrado
novamente, com grande expressividade, na segunda metade dos anos vinte, em
paralelo ao seu rompimento com Ozenfant. Entre 1925 e 1929, Le Corbusier viaja
às praias de Arcachon, Barcelona, Rio de Janeiro e, em 1930 à Argel. Françoise
de Franclieu precisa este momento do resgate da figura humana e dos objetos à
reação poética, considerando que eles são ‘o ponto de partida de uma série
extremamente rica na sua diversidade’
193
, onde linhas e volumes se
complementam. A partir do ensaio de Antoine Pace
194
, compreendemos que Le
Corbusier havia dado início às transformações dos principais elementos da sua
pesquisa plástica. Segundo Pace, entre os anos de 1928 e 1939, Le Corbusier
terá pintado mais de cem telas sob as quais o corpo era sujeito e objeto
evidenciado em seu trabalho. O aparecimento do estudo dos corpos em seus
carnets de voyage à América do Sul vem a confirmar esse período de exploração
de um mundo novo. Seu olhar nesse momento é de um homem que deseja
‘controlar’ a natureza e os corpos. Ele sente-se livre para experimentar.
‘Então, no Rio de Janeiro, cidade que parece desafiar radiosamente
toda colaboração humana com sua beleza
universalmente proclamada, somos acometidos por um
desejo violento, quem sabe louco, de tentar também aqui
uma aventura humana – o desejo de jogar uma partida a
dois, uma partida ‘afirmação-homem’ contra ou com ‘presença-
natureza’.
195
190
Idem. Ibidem
191
SANTOS, D. Le Corbusier et le Brésil: les corps à réaction poétique. Relatório de pesquisa à
Fondation Le Corbusier, Paris, 2006.
192
Carta de Charles-Edouard a seus pais em 10 de novembro de 1920. (Arquivo FLC, R1-6- 93)
193
FRANCLIEU, F. Peinture. In : Le Corbusier : une Encyclopédie. Paris : G. Pompidou, 1987. P. 295.
194
PACE. A. Évolution de la peinture chez Le Corbusier et les rapports à son architecture. Escrito
realizado em setembro de 1985, Paris. (FLC)
195
Existem mais de 6000 desenhos de Le Corbusier nos arquivos da Fondation Le Corbusier. Sobre o
estudo e a catalogação dos desenhos que contemplam o corpo, ver: Daniela Ortiz dos Santos. Le
Corbusier et le Brésil: les corps à réaction poétique. Relatório de pesquisa à Fondation Le Corbusier,
Paris, 2006.
120
LC. Desenho, 1929. (FLC 4522)
Carnets de voyage, 1929. (FLC)
121
Le Corbusier concebeu ao longo de sua vida mais de 6.000 desenhos. Estes
concernem não somente à arquitetura, mas às vezes às coisas que fazem
simplesmente parte da sua vida, tal como as plantas, os barcos, as mulheres, os
músicos etc, nos quais 3.000 desenhos são consagrados à representação do
corpo. Quase a metade de todos os seus desenhos concebidos ao longo de sua
vida.
A pesquisa sobre técnicas e cores neste momento em Le Corbusier, vem a
representar sua mudança na palheta de cores anteriormente estabelecida no início
dos anos 20 ao lado de Ozenfant. A partir das viagens à Arcachon, às cidades na
península Ibérica, à Argel e ao Rio de Janeiro, Le Corbusier usa cores mais fortes,
há mais contrastes. Seu registro acumula uma
‘herança visual’ adquirida nas suas relações com outras naturezas.
196
Em
passagem ao Rio de Janeiro, Le Corbusier desenha em aquarela, em lápis de cor,
guache. O arquiteto consagra seu tempo à pintura e à exploração de diferentes
técnicas no esforço de registrar as curvas, as sombras e as cores vivas da
natureza e dos corpos, como se buscasse objetivar a natureza.
196
COLLI, M. Vers une polychromie architecturale. Article de l’ouvrage « LE CORBUSIER : UNE
ENCYCLOPEDIE », publié à l’occasion de l’exposition « L’aventure de Le Corbusier » produit par le
Centre de Création Industrielle et presentée l’octobre 1987 à janvier 1988, dans le Grand Galerie du
Centre National d‘Art et de Culture George Pompidou à Paris, pp. 104-110.
122
Vistas do Rio de Janeiro. Fotogramas da filmagem de Le Corbusier, 1929. (FLC)
123
A arquitetura no intervalo entre corpo e natureza
Algumas questões apresentadas por Le Corbusier durante a viagem ao Brasil, não
somente persistirão, como também amadurecerão ao longo dos anos 1930. Em
1936, Le Corbusier retorna ao Rio de Janeiro, sob outros aspectos sóciopolíticos.
Sua atenção, todavia, às questões sobre o corpo e a plástica dos os objetos à
reação poética permanecem. O estudo dos corpos ‘volumosos’, desviantes da
noção de corpo ‘tipo’, vem a confirmar um período de exploração ao longo de mais
de duas décadas. Seu sentimento é de um homem que busca ‘controlar’ o instante
presente desta natureza e corpos através da experiência carnal e do registro
escrito e gráfico. A carta que escreve desde o Hotel Glória, o mesmo hospedado
em sua viagem em 1929, é um manifesto consciente de suas experiências e
reflexões:
‘Amiga (...) Fim de jornada de duro trabalho, o barraco aí
na sua casa é na beira da praia, assim como o meu daqui
da minha “Gloria”. Que coisa engraçada este fenômeno
de harmonia que às vezes se manifesta entre dois elementos.
Em arquitetura, ... eu não estou nem aí. Já entre
dois seres. Voilà ! Eu não consigo compreender como
pude dormir com estas negras. Aqui elas são loucas, são
belas. Tanto faz. (...) Toutou, brave toutou! Eu não faço
amor desde 13 de dezembro. É idiota. É sobretudo idiota
revelar o fato de parecer e ver aquilo que seja. Nos deparamos
com estas observações de pequenos fatos que são
perfeitamente inexplicáveis. Além da aritmética, nada se
explica. Nadamos no incompreensível’.
197
Tais palavras acima escritas à amiga Margueritte Tjader-Harris, íntimas por
excelência, apresentam um Le Corbusier menos dogmático e exposto às
intempéries da vida carnal. Neste instante, para ele, os corpos das negras eram a
cidade do Rio de Janeiro. O fenômeno de harmonia é a experiência do corpo com
a natureza. E nesta relação, não controle de sentimento. A aritmética é uma
prática que se controla, o resto é dúbio. A arquitetura encontra-se assim neste
intervalo entre controle e descontrole, entre aquilo que se explica e não se explica,
entre ações e recepções, entre o corpo e a natureza.
Isto significaria considerar um movimento se não contraditório, pelo menos tenso,
na forma de Le Corbusier pensar a própria noção de homem tipo neste momento.
Poderia-se dizer então, que em seus escritos e em suas obras plásticas deste
período constatamos uma tendência que pende pensar o indivíduo como um
‘Homem, um ser de carne e osso’.
198
Contudo, em seus projetos de escala urbana
tal tendência aparenta ainda não existir. Seria um problema de escala que
justificaria certo distanciamento aparente da noção de indivíduo como um homem
encarnado? Este gesto no traço em escala urbana, que não suprime tal noção de
indivíduo encarnado, já seria para Le Corbusier uma questão neste momento?
197
Carta de Le Corbusier à amiga Tjader-Harris, em 1936. (Arquivo FLC, E3-10)
198
Através das suas viagens às Américas, África, Europa Central, do Leste e Mediterrânea inclusive ao
Oriente, Le Corbusier foi um homem extremamente sensível e aberto a experimentar de forma intensa
as diversas trocas e relações com outros povos e culturas, sejam elas intelectuais, amorosas ou
apenas visuais.
124
Projeto de Urbanismo, Rio de Janeiro, 1929 (FLC)
Trois femmes debout de dos, 1933 (FLC)
125
Através dos registros encontrados e as reflexões até hoje nos indicam que um
processo de sedimentação dos saberes em Le Corbusier, bem como de uma
busca de experimentação das coisas que será manifestada de modo contraditório
e irregular e, em tempos diversos. Através de estudo mais fino e atento aos
processos e temporalidades, interpretamos tal movimento assim, como uma
tensão em Le Corbusier, inerente ao processo de reflexão, complexidade e
maturação de seu pensamento e obra.
Jacques Sbriglio
199
, assim como diversos autores, considera que o período de
maior maturidade na obra de Le Corbusier acontece no período de pós-guerra.
Contudo, acreditamos que a expressão plástica e escrita parece atingir, neste
momento, um patamar de reflexão mais complexo e maduro se, comparado aos
seus projetos de arquitetura. A riqueza poética presente nas palavras de L’Esprit
de la Sud-Amérique ou em Quand les cathédrales étaint blanches, bem como o
jogo cores e corpos em seus croquis da década de 1930, são testemunhos deste
momento fecundo nos campos da escrita e pintura. Neste instante, Le Corbusier,
sob com um gesto consciente de liberdade poética e controle geométrico, logra
transmitir um sentimento vers le sublime que nos enleva, nos enriquece. Pura
harmonia.
199
Sbriglio realiza um profundo estudo sobre a Unité d’habitation em Marseille. Em sua recente
passagem ao Brasil, acompanhando como curador do circuito da exposição ‘Le Corbusier, entre dois
mundos’, tive a oportunidade de discutir rapidamente a sua tese sobre a obra de Le Corbusier. Ele
defende que o período de pós-guerra seria aquele mais maduro para Le Corbusier, logrando conceber
obras com um grande grau de complexidade e maturidade. De fato, em arquitetura, pude concordar
plenamente com Sbriglio. Contudo, reconsiderei que, em relação à pintura e aos seus escritos, a
década de 1930 anuncia um período de grande reflexão e ação madura para Le Corbusier.
Arquitetura, urbanismo, pintura, desenho e escrita não manifestaram-se de modos iguais e constantes.
Algumas lograram atingir um grau de maturidade antes de outras.
126
Croquis des
de o avião,
Rio de Janeiro, 1929 (FLC)
Croquis no carnet de voyages, 1929 (FLC)
127
Conclusões
Corpos à reação poética
Em alto mar ou em pleno ar, nas cidades ou nos corpos, Le Corbusier sente,
pensa, cria. A partir destas experiências sensíveis, manifestadas, sobretudo, nos
escritos, desenhos e pinturas do final da década de 1920, percebemos que Le
Corbusier não somente revisita algumas noções previamente concebidas, como
também reflete sobre novos conceitos que percorrerão doravante o seu
pensamento e obra.
Seu entendimento sobre a máquina, por exemplo, parece tornar-se doravante
menos dogmático. O discurso sobre a ‘era maquinista, manifestado em Vers une
Architecture, Urbanisme e L’art décoratif d’aujourd’hui, bem como os esforços para
a constituição de um grupo uníssono em prol da ‘causa moderna’, merecem um
novo julgamento. Le Corbusier parece, assim romper com o entendimento da
arquitetura como um problema apenas das massas ou voltadas para um homem-
padrão.
Os debates e conflitos entre o grupo da Neue Sachlichkeit, as reflexões a partir
das viagens às cidades como Moscou, Rio e, logo em seguida à Argel, contribuem
Le Corbusier a repensar duas noções. A primeira repousaria sobre o seu
entendimento da noção de ‘rua’. Caminhar pelas ruas do Rio, observar as relações
dos negros nos morros cariocas ou sentir as experiências construídas pelos
arquitetos russos para a jovem nação soviética, enfim todo este mundo novo
parece provocar em Le Corbusier um julgamento novo sobre o seu próprio
entendimento de ‘rua’. Este tenso movimento percorre o pensamento de Le
Corbusier às vezes de modo mais íntimo, como as reflexões desde as viagens de
juventude, bem como a atenção dos trabalhos de Benoît-Lévy
200
, Camillo Sitte
201
e Tony Garnier
202
; às vezes de modo mais evidente, como a criação das sete vias
para Chandigard, a partir de 1945.
203
Permanências e rupturas, sentimentos de
grande emoção. Este sentimento que move Le Corbusier ao defender a morte da
‘rua-corredor’, no livro Urbanisme, parece desconstruir-se ao sentir a emoção dos
jogos dos corpos nas danças carnavalescas de rua, no antigo tecido carioca.
Aquela rua carioca, a pequena rua dos morros, provocava naquele momento um
sentimento nobre, verdadeiro. Pura alegria, pura poesia.
Modernidade e espírito do tempo.
‘Quando escalamos as ‘Favelas’ dos negros, os morros
altos e inclinados onde prendem suas casas de madeira
e taipa pintadas com cores vivas, pregadas como os mariscos
nos rochedos do porto (...); não há nem rua, nem
caminhos – tudo é muito inclinado – mas veredas que são
ao mesmo tempo enxurrada e esgoto; desenvolvem-se ali
cenas de vida popular animadas por uma tão magistral
dignidade (...); do alto das ‘Favelas’ vê-se sempre o mar,
a bacia, os portos, as ilhas, o oceano, as montanhas, os
200
TURNER. La formation de Le Corbusier… p. 129, 140-150, 165, 219.
201
Idem, p. 81, 133 ; COHEN. Le Corbusier. Le Grand. Londo – New York : Phaidon, 2008.
202
Idem, p. 31, 60, 182, 211.
203
Em Manière de penser l’Urbanisme, em 1946, Le Corbusier coloca a noção de rua no estudo das
‘unidades de circulação’, bem como apresenta reflexões sobre a noção de ‘cidade linear’ e ‘cidade
industrial’.
128
Le Corbusier, Nature morte à
la racine et au cordage jaune,
óleo sobre tela, 1930, Paris,
FLC Photogrammes de Le Corbusier,
década de 30 (FLC) Le Corbusier, ‘Étude de deux os’, 1954. Grafite sobre papel (FLC)
129
estuários (...) há uma altivez no olho do negro que vê tudo
isso; o olho do homem que vê vastos horizontes é mais
altivo, os vastos horizontes conferem dignidade; esta é
uma reflexão de urbanista.’
204
(Prólogo Americano, 1929)
Uma segunda reflexão sobre as recentes experiências nos últimos anos de 1920
seria o deslocamento, em Le Corbusier, da noção de homem-tipo e, por tanto, a
noção de universalismo nas coisas. A atenção às diferenças e à experiência
pessoal aproxima Le Corbusier a um mundo sensível e carnal, menos abstrato e
passado por um processo empírico. Um problema que anteriormente era colocado
como ‘problema-padrão’ será doravante posto em cheque, pois não será
possível pensar somente em necessidades padrões e, por tanto, soluções-
padrões. A noção de ‘universal’, para Le Corbusier, parece não mais fundir-se
ao conceito de uniformidade. De fato, este primeiro conceito amplia-se, transcende
as questões baseadas segundo a lógica absoluta da mecânica e do cálculo. A
relação com a natureza e com os objetos à reação poética são testemunhos desta
nova meditação. As descobertas compartilhadas com Fernand Léger, Charlotte
Perriand e Pierre Jeanneret marcam este período de intensa busca e
experimentação dos objetos à reação poética.
‘A natureza pode, por sua vez, criar um contingente maravilhosamente sensível.
Testemunhos qualificados de objetos à reação poética e que, pela sua forma,
dimensão, matéria, possibilidade de conservação, são capazes de ocupar nosso
espaço doméstico. (...) Através deles, as características enunciam-se: masculino e
feminino, o vegetal e o mineral, a gema e a fruta (...), todas as nuances
(...). E nós, homens e mulheres colocados na vida e reagindo às nossas
sensibilidades rudes, temperadas, afiadas, criando em nosso espírito coisas do
nosso espírito, sendo agitadas ou não, menos passivas ou desatentas; agitando e,
por consequência: participando. Participando, mensurando, apreciando. Felizes
neste curso ‘em sintonia’ com a Natureza que nos fala de força, pureza, unidade e
diversidade. E eu chamo vocês a verem desenhos a partir de seus lápis estes
eventos plásticos, testemunhos de vida orgânica, manifestações bem eloquentes
sob volume aqui restrito às leis e regras naturais e cósmicas: pedras, cristais,
plantas ou seus rudimentos, a lição que prorroga até as nuvens com a chuva, até
às erosões ao seio da realidade geológica, e até estes espetáculos decisivos,
descobertas desde o avião (...), onde a natureza nosso asilo é apenas o
incessante campo de batalha dos elementos em luta. Isto substituiria estes
superficiais estudos dos antigos gessos que mancharam a consideração que nós
adquirimos assim dos gregos e romanos, bem como o catecismo havia deflorado a
nós a glória das Escrituras’
xxxiii
.
(Le Corbusier. Entretien avec les étudiants des écoles d’architecture, 1943)
Todavia, esta reflexão e, portanto, a reconstrução do conceito de universal não
será imediata, tampouco linear. Em relação à sua obra plástica, por exemplo, esta
tensão torna-se neste momento mais evidente. Ao estudar de modo mais fino os
desenhos realizados a partir do final da década de 1920, percebemos a repetição
de algumas composições formais ao longo de duas ou três décadas.
205
Estas
parecem estar relacionadas não somente a fotografias, cartões e observações de
204
Le Corbusier. Prólogo americano, 1929. In : Pereira. Le Corbusier e o Brasil... p. 88.
205
SANTOS. D. O. Le Corbusier et le Brésil… p. 16-42
130
Femmes, Nova York, 1947. (FLC)
Desenho para o quadro «Les
deux amies» ou « Deux femmes
sur une plage». (FLC 410)
131
Le Corbusier ao longo da década de 1930, mas também a diversos desenhos
concebidos décadas posteriores. Uma espécie de ‘composição comum’ poderia
ser estabelecida entre tais desenhos, cuja técnica contemplaria, sobretudo, o uso
da geometria. Para Le Corbusier, os traçados reguladores, num primeiro
momento, e o modulor
,
num segundo, eram certamente uma maneira de impedir o
‘aleatório’. Em 1929, sobre os traçados reguladores ele escreve:
‘O traçado regulador é um meio geométrico e aritmético que permite dar a uma
composição plástica (arquitetural, pictórica ou escultural), uma precisão quase que
absoluta na proporção. Não há mística, nem mistério; simplesmente uma
retificação, uma apuração das intenções que o artista plástico emprega em sua
obra’.
Tracés Regulateurs, 1929 (FLC, A3-2 – 108)
‘[O modulor] é uma medida harmoniosa, concebida de maneira simples, pelo
cálculo dos números e da estatura humana em seus três pontos essenciais (... Em
suma, é uma linguagem de proporções. Vejam os números aqui presentes neste
papel: eles são o resultado daquilo obtido e com os quais eu criei esta medida que
representa, em última análise, um gama de proporções que facilitam o meu próprio
trabalho e de meus colaboradores. Eu mesmo apliquei esta proporção nos
desenhos e pinturas que vemos aqui’
xxxiv
(Le Corbusier, década de 1950)
Esta obsessão pela forma e proporção não aparenta ser somente uma retomada
temática, mas, uma nova reflexão sobre o rigor de Le Corbusier no método
compositivo e sobre o seu entendimento das artes e da arquitetura. Em outras
palavras, o fecundo trabalho de Le Corbusier poderia estar principalmente no seu
próprio processo criador, onde os corpos, nesse instante, seriam os sujeitos ditos
‘objetivados’. Seus objetos de pesquisa à reação poética seriam matéria orgânica
e viva, ou seja, seriam ‘corpos à reação poética’.
206
A tensão de Le Corbusier
entre corpos e objetos parece apresentar-se como uma busca incessante a uma
essência ou atributos essenciais e, portanto, universais nas coisas e corpos.
Camadas de espaço e tempo sobrepõem-se sem limite a fim de alcançar uma
essência da forma: Poesia da Forma. Por mais de três décadas Le Corbusier
sente os corpos, estuda-os, ‘objetualiza’-os. Ao longo de sua maturidade, Le
Corbusier parece atingir uma abstração formal que transcende a materialidade do
próprio corpus. Em arquitetura ou nas artes, tais sentimentos universais que o
moveram a criar novos espaços, comovem-nos, gera-nos experiências íntimas, um
sentimento nobre. Uma atitude de Le Corbusier, poderíamos assim dizer,
sobretudo, sachlich, mas, que será fecunda para o seu entendimento da
arquitetura, da noção de espaço e do sentimento de sublime.
206
Compartilhamos o pensamento de Franclieu ao afirmar que “diversas telas terminadas
posteriormente se referem à momentos de execução diferentes. Ela considera também a existência de
um “caminho interior” que prolongaria a concretização de suas obras, fazendo parte de uma evolução
vital onde a essência estaria não somente na meta final, mas principalmente em seu processo. In:
FRANCLIEU. F. Peinture. Article de l’ouvrage :LE CORBUSIER: UNE ENCYCLOPÉDIE, publié à
l’occasion de l’exposition “L’aventure de Le Corbusier” produit par Le Centre de Création Industrielle et
présentée l’octobre 1987 à janvier 1988, dans la Grande Galerie du Centre National d’Art et de Culture
Georges Pompidou à Paris. p. 295.
132
133
Projeto para o Rio de Janeiro,
1929 e croqui de mulheres e
arquitetura, carnets de voyage,
Rio de Janeiro. (FLC)
Abaixo, projeto para Argel,
1931 e croqui de mulher, carnets
de voyage, Argel. (FLC)
134
135
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Versão original dos textos em língua estrangeira
i
Versão original em francês: ‘Nul ne nie aujourd’hui l’esthétique qui se
dégage des constructions de l’industrie moderne. De plus en plus les
constructions industrielles, les machines s’établissent avec des proportions,
des jeux de volumes et de matières tels que beaucoup d’entre elles sont de
véritables oeuvres d’art, car elles comportent le nombre, c’est-à-dire l’ordre.
(…) L’avion et la limousine sont des créations pures qui caractérisent
nettement l’esprit, le style de notre époque. Les Arts contemporains doivent
également en procéder’. OZENFANT ; JEANNERET. L’Esthétique
Mécanique. In: L’Esprit Nouveau 1, Paris,1920.
ii
Versão original em francês : ‘Je travaillé toute cette journée de dimanche
à ma peinture sans résultat utile. Toutefois, on se sent dans la bonne voie
et Ozenfant lui, avance fort et nous avons notre esthétique qui aboutira’
(Domingo, 16 de novembro de 1919. FLC, R1-6-77)
iii
Versão original em francês : ‘La vie m’a été dure. Elle devient de plus en
plus. Ne croyez pas que je deviens insensible. Je suis obligé de choisir, car
les années passent tragiquement vite et il ne faut pas que mon œuvre
m’échappe. Vous n’imaginez pas ce qu’est la lutte à Paris. (…) Il se crée
des distances qui sont celles de l’esprit et de la compréhension. Ces
distances ont par exemple éloigné beaucoup de mes anciens amis. Mais
les fausses gentillesses tombent et il reste l’estime et l’affection. Ce que je
ressens ici très fort, où je suis plein de courage et de certitude’. (Carta de
10 de novembro de 1920 aos seus pais, FLC R1-6-93)
iv
Versão original em francês : Le besoin d’ordre est le plus élevé des
besoins humains ; il est la cause même de l’art’. In : LE CORBUSIER ;
OZENFANT. Sur La Plastique. L’Esprit Nouveau n.1, Paris, 1920.
142
v
Versão original em francês: ‘Mes pensées d’art s’élèvent vers la plastique,
une forme, une ligne toujours plus ésotérique. Mes essais sont difformes,
décevants. Toute mon imagination travaille. Je veux une clarté, un poli, une
netteté qui ne tolèrent que pur crayon, discipline de rythme, et modération
de couleur. Et je peins des ordures. (…)D’instinct je rentre chez moi pour
fuir les camaraderies futiles. Ou si je vais vers l’attirance des boulevards où
sont les femmes, c’est pour trouver une expression de la plus idéale
mathématique à ce rêve de beauté que mes pinceaux s’ingénient à vouloir
créer. (…) J’ai toujours plus foi dans la peinture moderne, plus foi dans
ceux si nombreux qui comme moi rêvent, mais qui mieux doués réalisent.
Comme un homme est seul au monde’. In : Cahier 12 de maio de 1918, p.
91. FLC.
vi
Carta de Charles Edouard Jeanneret à sua mãe, em 20 de janeiro de
1928. In : Jean Jenger.
Le Corbusier Choix de lettres, pp. 191, 192. Versão original em francês:
“Ma chère petite maman, Ce matin ta lettre. Je l’attendais depuis
longtemps (…). Je suis pris de frénésie après ma peinture. Le matin y
passe et les soirs au dessin. Et les jours passent, dévorants. Depuis mon
départ de Corseaux, l’affaire PdN suit une marche hors des sentiers de la
colère. La réaction est forte partout. Les invectives. Mais mois, j’ai tenté de
faire autre chose, en jouant sur terrain sûr.
Et il se peut que cela n’aille pas mal. Il se peut que le Maréchal Lyautey
(fort épris de mes initiatives) accepte d’être en tête du mouvement. (…) Au
Redressement Français le patron Mercier, est venu exprès pour me dire
tout ce qu’il pensait de mon rapport : ‘je désirai voi l’homme qui a fait ce
rapport’. (…) J’ai l’impression que les noires années sont passées. Ma
petite maman bonne nuit et affection de ton Edouard”.
vii
Versão original em francês : Un soir vers 6 heures, Corbu m’invita à
l’accompagner sur le chantier du Pavillon suisse. Je ne suis pas prête
d’oublier ce jour, marqué de beaucoup d’incompréhension mutuelle […].
Corbu s’arrêta dans une des chambres d’étudiant et, contre toute attente,
me demanda : Comment vivez-vous depuis votre divorce?’ J’étais sidérée.
Cette question incongrue, était-elle économique? affective? pourquoi?
‘Bien’, répondis-je. Devant mon air étonné, Il précisa: ‘Aimez-vous les
femmes? Je pourrais le comprendre’. –‘Certes non, quelle idée !’ […] ‘Je
dois vous dire qu’à l’atelier un grand garçon, Pierre, ne rêve qu’à vous,
réfléchissez’. La foudre tombait à mes pieds. […] C’était l’éternelle histoire
d’Adam et Ève, et Ève était chassée du paradis. Avec Corbu, rien ne fut
plus comme avant, je l’avais blessé. C. Perriand. Une vie de création. Paris
: Odile Jacob, 1998. P. 54. In : BENTON, T. Charlotte Perriand: les
années… p. 13.
viii
Versão original em francês : ‘Voyons donc le promoteur du Mundaneum,
et pourquoi j’ai pu faire cause commune avec lui. Il est un de ces jeunes
ardentes aux cheveux tout blancs. Son éveil intellectuel date de 1870 ;
ainsi a-t-il traversé des phénomènes sociaux et économiques entiers qui
nous trouvent nous, les jeunes, devant des tâches déjà formulés. Ces
tâches, d’autres, que nous oublions déjà, les avaient formulées. Ce sont les
visionnaires, les manieurs d’esprits, les susciteurs de courants
143
magnétiques, les capteurs et les émetteurs d’ondes. Il y a vingt ans déjà,
Paul Otlet avait fondé l’Union des Associations Internationales et rédigé les
status d’une Société des Nations’. Le CORBUSIER. Défense de
L’Architecture. Texto datilografado. 8 de junho de 1929, via Moscou. p. 15,
(Arquivo FLC).
ix
Versão original em francês : ‘La thèse de Paul Otlet est la suivante : pour
gérer bien un monde en refonte (tel que le machinisme nous l’impose sans
merci) il est indispensable de connaître l’état comparé des nations, des
peuples, des races, des villes qui participent aujourd’hui au concert
mondial, d’où : ‘bâtiment, des Continents, Etat, Villes’, c’est-à-dire
l’urbanisme, c’est-à dire tout ce que les hommes réunis en société, en
peuples ou en communes, ont réalisé sous le signe de la coopération, de la
solidarité. Puis, il faut que toutes les tentatives d’organisation les thèses
nouvelles, les coalitions contre l’égoïsme, les oeuvres de collaboration
humaine soient connues, se connaissent les unes les autres, participent
mutuellement à leurs travaux et aient un siège commun condensateur,
réceptacle et centre d’action : de là, le Bâtiment des Associations
Internationales’. Le CORBUSIER. Défense de L’Architecture. Texto
datilografado. 8 de junho de 1929, via Moscou. p. 16-17, (Arquivo FLC).
x
Versão original em francês : ‘L’an dernier, à la terminaison des plans de
ce Mundaneum […] il y avait dans notre atelier des phirs de révolte : la
pyramide, qui est l’un des élément du projet, tracassait les jeunes. […] Tout
à coup, l’argument péremptoire sortit d’une des bouches : ‘ce qui est utile
est beau !’. Au même instant, Alfred Roth (tempérament fougueux) envoyait
un grand coup de pied dans une corbeille à papier sen treillis métallique qui
se refusait à engloutir la masse de vieux dessins qu’il était occupé à
détruire. Sous la pression énergique de Roth, la corbeille d’un galbe
techniquement sachlich (expression directe du tressage des fils) se
déforma et prit l’allure que montre ce croquis. Tout le monde s’esclaffa.
‘C’est affreux !’ dit Roth. ‘Pardon, lui répondis-je, cette corbeille contient
maintenant bien davantage ; elle est plus utile, donc elle est plus belle !
soyez conforme à vos principes !’. Cet exemple n’est amusant qu’à cause
des circonstances qui l’ont fait surgir si opportunément. J’ai de suite rétabli
une balance équitable en ajoutant : ‘la fonction beauté est indépendante de
la fonction utilité ; ce sont deux choses. Ce qui est déplaisant à l’esprit,
c’est le gaspillage ; car le gaspillage est bête ; c’est pour cela que l’utile
nous plait. Mais l’utile n’est pas le beau’. Si nous quittons le plan plastique
pour rechercher les effets de la sachlichkeit, dans les bienfaits du confort, -
en l’occurrence, pour voir à quel degré nous sommes satisfaits par le
progrès du machinisme je puis raisonner ainsi : le luxe mécanique n’est
pas fonction directe du bonheur. […] En ce qui me concerne, je suis
personnellement privé de tout confort. Mais je crée et je suis parfaitement
heureux. J’apprécie d’autant ce bonheur et suis d’autant moins tenté par
tout autre que, charrié par la vie pendant bien longtemps, j’en ai été
durement privé. Si l’adaptation aux bienfaits de la machine est
automatique, et, par là, les joies qu’elle procure, éphémères, l’accession
aux bonheurs spirituels est permanente et particulièrement ceux que nous
144
devons à l’harmonie’. In : Le Corbusier. fense de l’architecture… p. 10-
11-12
xi
Versão original em alemão : ‘Im Februar 1928 erhielt ich einen Brief von
Madame Hélène de Mandrot, die mir schrieb, sie werde mich in Zürich
besuchen. Noch bevor wir den Bahnsteig verliessen, auf dem ich sie
abholte, begann sie mir den Zweck ihres Kommens auseinanderzusetzen.
Sie wollte die wichtigsten Architekten der Gegenwart einladen, sich in
ihrem Schloss in La Sarraz, einige Kilometer nördlich des Genfersees, im
Waadtland, zu treffen. (...)Madame de Mandrot hatte in Paris schon mit Le
Corbusier und anderen Freunden gesprochen. Die Zeit schien reif dafür,
[dass die Protagonisten der verschiedenen Bestrebungen in Frankreich,
Belgien, Holland, Deutschland, Österreich, der Schweiz, Italien und
Spanien an einem zentral gelegenen Ort zusammenkamen]. Ein früherer,
1927 anlässlich der Weissenhof-Woche in Stuttgart von deutschen
Architekten unternommener Versuch, eine Vereinigung zustande zu
bringen, war erfolglos geblieben’. O texto de Giedion foi publicado como
introdução do livro: Can our Cities Survive? Cambridge, 1942. Em alemão
foi publicado em: STEINMANN. M. CIAM: Dokumente 1928-1939. Basel
Stuttgart: Birkhäuser, 1979. p. 9
xii
Versão original em francês : Il est rare, à notre époque de spécialisation,
de trouver réunis en une seule personne la peintre et l’architecte. Par sa
nature léonardesque, Le Corbusier faisait partie de l’exception. Dans son
horaire de travail quotidien, la matinée était consacrée à la peinture,
l’après-midi à l’architecture. Il n’y avait aucune difficulavec les créations
architecturales alors qu’il engageait de véritables luttes avec la peinture. La
conception de l’espace est à la base de ces deux activités. Ainsi,
l’architecture et la peinture n’étaient pour Le Corbusier que des moyens
d’expression différents. In : GIEDION. Espace, Temps, Architecture... p.
302).
xiii
Versão original em alemão: ‚Die Vereinigung, die wir damals bildeten,
wurde Congrès Internationaux d’Architecture Moderne abgekürzt CIAM
genannt. Das Wort wurde in seinem eigentlichen Sinn verwendet: Es sind
Kongresse, die auf Zusammenarbeit beruhen, nicht Kongresse, and denen
die einzelnen nur ihren Spezialgebieten berichten wie im 19. Jahrhundert’.
Este fragmento faz parte do texto de Giedion publicado como introdução
do livro: Can our Cities Survive? Cambridge, 1942. Em alemão foi
publicado em: STEINMANN. M. CIAM: Dokumente 1928-1939. Basel
Stuttgart: Birkhäuser, 1979. p. 9.
xiv
Versão original em francês : La conséquence de la journée finissant à
3h, c’est la fondation des clubs. Les clubs commencent avec le principe
des écoles du soir complémentaires. (…) Il n’y a pas de cafés à Moscou.
Impossible d’aller boire un verre. Le monde ne rigole pas. Chez eux, ils ont
l’air de savoir s’arranger. Et dans un club ! La grande idée. (…) 1 club =
salle de cinéma, théâtre (la scène ouvre dedans et en plein air), culture
physique, bibliothèque, salle de travail en commun ! Voilà le type. (…) J’ai
visité les entrepôts du Centrosoyuz, fourmillière tout le monde travaille.
Dans les vestibules, des affiches intéressantes par leur multiple imaginaire.
Lutte contre l’alcool, lutte contre l’église = ignorance et capital. Est affiché
145
chaque semaine le ‘journal’ de l’Institut, de la firme (…) tapé à la machine,
aquarellé, exposés de thèses, propositions aux chefs, les discussions des
mesures à prendre. (Le Corbusier, Agenda VII, commencé le 1er octobre
1928, p.36-37-38, FLC. In : Cohen p. 68)
xv
Versão original em francês : ‘Mes livres ont passes le blocus. Je suis très
connu, très populaire. Mes conférences sont dans une salle débordante’.
Le Corbusier, Agenda VII, commencé le 1er octobre 1928, p.36, FLC. In :
Cohen, p. 66
xvi
Versão original em francês : ‘A tout instante des concours pour une
usine, un institut, un club. (…) Les associations sont chargés par l’Etat
d’établir le concours et de nommer le jury (…) Les architectes collaborent
constamment (contrairement à nous). Qualité individuelle? Voire! C’est une
autre forme plus collective, car il y a déjà effectivement une unité de
tendance qui unit tous jeunes et qui oblige même les vieux. (…)
L’enseighement à l’Ecole Supérieure d’Architecture est une massive
manifestation d’un credo moderne. Ici se rebâtit ce monde nouveau,
construit comme la mystique qui fait une technique pure. (Le)
Constructivisme est un drapeau qui claque bien. La foule écrasante des
étudiants avec toujours nurie vestimentaire. On s’écrase, on s’étouffe.
Alex Vesnine sourit à perpétuité. (…) Formule catégorique, goût parfois.
(…) Ils font partout des clubs en styles les plus modernes, des usines idem,
des métairies, des usines hydrauliques. Ils bâtissent d’énormes
commandes et ils ont 30 ans’. (Le Corbusier, Agenda VII, commencé le 1er
octobre 1928, p.37-39-40, FLC. In : Cohen, p.70)
xvii
Versão original em francês : Les Russes ont une organisation OCA*,
très forte, active, qui publie une grande revue avec, au comité Vesnin,
Ghinsbourg, Léonidoff (excellent) et qui comprend environ 100 membres.
Par raison d’équilibre numérique, 100 Russes ne peuvent faire partie des
Congrès, n’est-ce pas ? Il faut donc leur demander de former une union,
provisoirement, pour commencer, Vesnin président, Ghinsbourg délégué à
Cirpac (Carta de Le Corbusier à Moser, Paris, 4 de setembro de 1929,
FLC. In : Cohen. p. 58)
xviii
Versão original em francês : ‘Je dis donc que le Construtivisme, dont la
dénomination exprime une intention révolutionnaire, est en réalité le porteur
d’une lyrique intense, capable même d’outrepassement ; il trahit avec
ferveur l’exaltation du futur. J’ai le sentiment que ce qui intéresse tous ces
Russes, c’est en fin de compte une idée poétique’. Le Corbusier.
L’architecture à Moscou. 1928. In: Cohen. p.281
xix
Versão original em francês : ‘Seul, Le Corbusier-Saugnier est parvenu
dans ses oeuvres, non seulement à révéler l’inventitivé propre à son
caractère national, mais à lui donner une forme nouvelle et contemporaine.
Le Corbusier est surtout la figure même de l’homme nouveau, plein
d’énergie et de persévérance dans la propagande pour ses idées. En
l’espace de deux-trois ans, il a réussi à créer une revue réellement
contemporaine (et qui, malheureusement, n’a pas duré), L’Esprit Nouveau,
à écrire trois livres, Vers une Architecture, Urbanisme et L’Art Décoratif
d’Aujourd’hui, pleins des éclairs de cet esprit si français et de slogans
146
lancés avec précision’. Moisei Ginzburg. Meždunarodnyj front sovremennoj
arhitektury. In Sovremennaja Arhitektura, n.2, 1926. P.37 In: Cohen. p.52
xx
Versão original em francês : ‘Or, je trouvai pas des antagonismes
spirituels, mais des adhérents fervents à ce que je considère comme
fondamental dans l’oeuvre humaine ; l’intention élevé qui soulève cette
oeuvre au-dessus des simples fonctions de servir et qui lui confère le
lyrisme qui nous caractérisées, si possible, les plus pures’. Le Corbusier.
L’architecture à Moscou. 1928. In: Cohen. p.279
xxi
Versão original em francês: Et si je considère que l’industrie du fer est
l’une des plus grandes industries du pays ; que la question de l’habitation
est un des plus vastes programmes du pays constituant l’un des plus
grands marchés du pays, je réponds au délégué du Comité des Forges : Il
faut construire la Maison à sec, en usine, expédiée sur place et montée par
des monteurs. Les maisons ne seront pas standardisées ou typifiées, mais
bien les éléments de la maison et cela suivant des modules qu’il est
possible d’établir par des accords internationaux. Le Corbusier. ‘Réflexions
sur la loi Loucheur’. In : Revue des Vivants, França, 2 séries printemps-été
de 1929. (Arquivo FLC)
xxii
Versão original em francês: Il s’agit surtout d’avoir une conception exacte
du champ d’activité de ce programme et voici l’affirmation que je me
permets de soumettre à votre jugement : il ne s’agit pas de standardiser
des maisons, de petites maison, de plus grandes maison ou de très
grandes maisons ; il s’agit de standardiser un système de structure : Je dis
donc qu’il ne faut pas chercher a apporter un progrès industriel au plan de
nouvelles maisons, mais un système nouveau de structure assez riche de
conséquences pour qu’il puisse déterminer une variété infinie de plans,
répondre à des modalités multiples de vie, répondre à des conceptions de
l’existence fort différentes, répondre à des programmes petits, moyens ou
grands : créer un système de structure. Le Corbusier. La signification de la
cité jardin du Weissenhof à Stuttgart. In : La Città futurista, Italia, abril de
1929 (Arquivo FLC) Le Corbusier. La signification de la cité jardin du
Weissenhof à Stuttgart. In : La Città futurista, Italia, abril de 1929 (Arquivo
FLC)
xxiii
Versão original em francês : La « machine à habiter » fut le terme
lapidaire dont, en 1921, j’apostrophai les académies. C’est à M. Nénot que
je parle de « machine à habiter » ; mais ce n’est pas à moi que vous devez
retourner cette injonction. Car, quittant le cas académique pour me
retourner sur nous-mêmes, je me suis immédiatement posé la question. «
Pour habiter comment?» Et Je ne pose, ici, rien d’autre que la question de
qualité’. Le Corbusier. Défense de l’architecture. Escrito datilografado do
artigo a ser publicado na Revista Stavba em 1929. P.7, Arquivo FLC)
xxiv
Versão original em francês : ‘Chez vous, c’est le dilettantisme d’un
romantisme nouveau, celui de la machine. Chez les autres, (les praticiens)
c’est une mesure policière peut-être opportune (…). Et comme des mots, à
vrai dire des notions à fondement sentimental rattachaient cette masse au
passé l’architecture, l’art on va d’abord essayer de leur faire admettre
que l’époque machiniste a supprimé inéluctablement l’art et l’architecture.
Si vous adoptez l’attitude de conducteur de peuples, peut-être avez-vous
147
raison d’admettre aussi des mesures de loi martiales. Mais moi, que
prétends sauvegarder farouchement mon entière liberté, mon esprit
d’artiste ou de créateur, j’entends rester dans mon anarchie (par rapport à
vos mesures policières) et poursuivre jour après jour une recherche
passionnante : celle d’une harmonie. Je vous dirais donc, sans plus tarder,
qu’à mon avis, l’esthétique est une fonction fondamentale humaine. Le
Corbusier. Défense de l’architecture. Escrito datilografado do artigo a ser
publicado na Revista Stavba em 1929. (Arquivo FLC)
xxv
Versão original em francês: Car, poète, je vous le demande : quel est le
mobile qui empêche les hommes de se mettre en révolution, de tout
saccager et de mourir ensuite de faim sur leurs ruines? C’est qu’on ne peut
et qu’on ne doit considérer l’outil que comme un libérateur qui permet
d’abord de tenir tête à la concurrence, ensuite de gagner du temps, et enfin
qui permet à chacun, par la mise en ordre des activités quotidiennes, de
penser à quelque chose et de rêver à quelque chose. Et vous concéderez
que c’est cet espoir de manger chaque jour sa nourriture spirituelle si
fruste soit-elle qui fait tolérer la dure vie de la sachlichkeit et qui donne
l’espoir d’une issue, le sentiment de créer quelque chose, de créer, d’avoir
une idée. est la réserve de résistance des hommes, la fierté humaine…
ou l’illusion si vous voulez être sceptique. Le Corbusier. Défense de
l’architecture. Escrito datilografado do artigo a ser publicado na Revista
Stavba em 1929. P. 6-7 Arquivo FLC)
xxvi
Versão original : A entendre ces théoriciens, il n’est autre chose au
monde que des fonctions matérielles : produire, dormir, manger etc ; Un
spectateur étranges constate pourtant que ce purs de la théorie sont de
fois architectes, ingénieurs, plasticiens, artistes, et que derrière leurs mots,
il y a une passion : faire de la belle architecture. L’explication de cette
contradiction se trouve dans ceci c’est que ces gens honnêtes. Protestent
contre le mensonge des académies et que d’autre part les problèmes
urgents de l’époque sont de construire des maisons, des maisons minimum
parce qu’on a peu d’argent, et bien agencés, par ce qu’in s’est aperçus que
les maisons faites par les académiciens étaient inhabitables et couteuses.
In : Le Corbusier. Monsieur l’éditeur : interview sur publication d’un ouvrage
sur l’état actuel de l’architecture. Studio Londres, Londres, janeiro de 1929
. (Arquivo FLC, F3-1)
xxvii
Versão original em francês: La Maison minimum isolée, avec ou sans
jardin, est un résidu des siècles passés. Elle ne se prête pas à l’application
rationnelle des nouvelles techniques chauffage, aération, frigorifiques et
frigorifères ; elle laisse entier le problème insoluble de la domisticité ou de
l’entretien domestique ; elle n’apporte aucune solution à la question
sportive (…). La maison minimum isolée est, à l’époque actuelle, une
profonde cause de gaspillage et un antagoniste à la sauvegarde du corps.
In : STEINMAN, M. CIAM. Dokumente 1928-1939. Basel und Stuttgart :
Birkhäuser, 1979. P.63
xxviii
Original em francês : Les problèmes essentiels de l’architecture
moderne ne peuvent être résolus ni par un architecte, ni même par la
corporation des architectes ; il appartient aux expériences unies de
nombreuses techniques de trouver les meilleurs solutions architecturales.
148
(…) Comme une argumentation est efficace dans la mesure elle
consent à se limiter et à se simplifier, et qu’il nous paraît essentiel d’établir
sans retard quelques notions claires (…) nous pensons qu’il est utile de
nous en tenir provisoirement à un type international d’habitation urbaine.
D’une part, l’internationalisation des façons de vivre ne permet-elle
l’élaboration d’un programme général? D’autre part, l’industrialisation des
campagnes ne rapproche-t-elle pas des modes d’existences qui semblaient
jusqu’ici incompatible? BOURGEOIS, V. Le programme de l’habitation
minimum. STEINMAN, M. CIAM. Dokumente 1928-1939. Basel und
Stuttgart : Birkhäuser, 1979. P.50-54.
xxix
Original em alemão: Aber die Wohnung für das Existenzminimum ist
auch in anderer Hinsicht noch ungelöst: als Bauaufgabe. (...) Das Haus r
das Existenzminimum muss zugleich eine neue Wohnform werden. (...)Die
Lösung eines Problems, an dem alte Anschauungen und alte Methoden
versagt haben, wird nicht nur das ganze Bauen befruchten, sondern
darüber hinaus den Menschen. Wechselwirkung. (GIEDION. S. Die
Wohnung für das Existenzminimum. In: STEINMAN, M. CIAM. Dokumente
1928-1939. Basel und Stuttgart : Birkhäuser, 1979. P.38-39)
xxx
Versão original em francês: ‘Et toi mon cher Corbu, dire que à cette
heure tu flottes encore sur l’Atlantique, (…) tu n’as pas le mal de mer. Je
n’ai pas tes dernières nouvelles car mon retour j’ai trouvé la maison vide,
Yvonne’. (Carta de Yvonne à Le Corbusier em 22 de setembro de 1929.
FLC E2-13-105).
xxxi
Versão original em francês: ‘1930 inaugurait une étape de
préoccupations nouvelles : les grands travaux, les grands événements de
l’architecture et de l’urbanisme, l’ère prodigieuse de l’équipement d’une
nouvelle civilisation machiniste. Ayant rédigé, sur le bateau qui me
ramenait de Buenos-Ayres à Bordeaux, le livre : ‘Précisions’, j’achevais
mon manuscrit par ceci, à peu près : ‘Je ne parlerai dorénavant plus de la
révolution architecturale qui est accomplie. C’est l’ère des grands travaux
qui commence, c’est l’urbanisme qui devient la préoccupation dominante’.
Alors ce fut, dans notre atelier, une série ininterrompue de fortes études :
l’urbanisation de grandes villes existantes ou à créer ; l’urbanisation des
campagnes le réorganisation agraire’. (œuvre Complète, 1929-1934. P.
11-14.
xxxii
Versão original em francês: ‘Aujourd’hui il faut le reconnaître, le travail
en série imposé par la machine voile plus ou moins à l’ouvrier
l’aboutissement de ses efforts. Pourtant, grâce au programme rigoureux de
l’usine moderne, les produits fabriqués sont d’une telle perfection qu’ils
donnent aux équipes ouvrières une fierté collective. (…) L’évolution
actuelle du travail conduit par l’utile à la synthèse et à l’ordre. On l’a définie
‘taylorisme’, et cela dans un sens péjoratif. A vrai dire, il n’était question
d’autre chose que d’exploiter intelligemment les découvertes scientifiques.
(…) Déjà les machines, à cause même de leur conditionnement par le
nombre, avaient évolué plus rapidement, atteignant aujourd’hui un
épurement remarquable. Cet épurement crée en nous une sensation
nouvelle, une délectation nouvelle, dont l’importance donne à réfléchir ; elle
est un nouveau facteur dans le concept moderne de l’art’. LE CORBUSIER;
149
OZENFANT. Après le Cubisme. Paris : Altamira, 1999. (1a versão
publicada em Paris, 1918).
xxxiii
Versão original em francês : ‘La nature peut, à son tour, ajouter un
contingent merveilleusement sensible. Témoins qualifiés d’objets à réaction
poétique et qui, par leur forme, leur dimensions, leurs matières, leurs
possibilités de conservation, sont capables d’occuper notre espace
domestique. (…) Et nous, hommes et femmes placés dans la vie et
réagissant de nos sensibilités aguerries, affûtées, aiguisées, créant dans
notre esprit des choses de notre esprit, étant agissants ou non moins
passifs ou inattentifs ; agissants et, par conséquent : participant.
Participant, mesurant, appréciant. Heureux dans cette course ‘en prise
directe’ avec la Nature qui nous parle force, pureté, unité et diversité. Et je
tiendrais à vous voir dessiner de vos crayons ces événements plastiques,
ces témoins de vie organique, ces manifestations si éloquentes sous leur
volume ici restreint des lois et gles naturelles et cosmiques : cailloux,
cristaux, plantes ou leurs rudiments, prolongeant leur leçon jusqu’aux
nuages avec leurs pluies, et jusqu’à l’érosion au sein des réalités
géologiques, et jusqu’à ces spectacles décisifs, découverts d’avion (…),
la nature notre asile n’est autre que l’incessant champ de bataille des
éléments en bagarre. Ceci remplacerait ces plates études de plâtres
antiques qui ont terni la considération que nous acquérions ainsi des Grecs
et des Romains, au même titre que le catéchisme avait défloré pour nous
l’éclat des Ecritures’. Le Corbusier. Entretien avec les étudiants des écoles
d’architecture. Paris : Denöel, 1943. In: JENGER, J. Le Corbusier.
L’architecture pour émouvoir. Paris: Gallimard, 1993. p. 121
xxxiv
Versão original em francês : ‘[Le modulor] est une mesure harmonique,
faite de manière très scientifique, pour le calcul des chiffres et de la stature
humaine dans ses trois points essentiels (…) En somme, est un langage de
proportions. Voyez le chiffres qui sont là, dans ce papier : ils sont le résultat
de ce que j’ai obtenu, et avec lesquels j’ai crée cette mesure qui
représente, en dernière analyse, un gamma de proportions qui facilite le
travail de mes collaborateurs et de moi moi-même. Cette mesure, je l’ai
appliquée moi-même dans les dessins des mes peintures qu’on voit ci-
dessous’. In : Conversa com Le Corbusier após sua volta das Indias.
Article d’un journal brésilien des années cinquante. Archive Recherche Le
Corbusier et le Brésil, PROURB, Rio de Janeiro, Brésil.
150
Anexo
Cronologia
1928
Colaboração de Charlotte Perriand: trabalha com LC de 1927 à 1937.
Viagens:
Primeiro CIAM – viagem à La Sarraz em junho
Evento CIAM 1 : 26/06/1928-28/06/1928, La Sarraz
Em direção à URSS – viagem em outubro
Parte de Paris em 1º de outubro de 1928
Terceira vistia de LC à Praga na primeira semana de outubro de 1928
1ª visita à Moscou, chega no dia 10 de outubro e permanece por 3
semanas.
Arquitetura :
Villa Baizeau Sainte Monique - Carthage (Tunisie)
Centrosoyus Rue Miasnitzkaya N 35/41 - Moscou (Russie)
Villa Savoye 82, Chemin de Villiers - 78300 Poissy (Autoroute A13 depuis
Paris) Tél : 01 39 65 01 06
Projets :
Villa Ocampo - Buenos Aires (Argentine) Immeuble Wanner - Genève
(Suisse)
1928
Appartement type Weissenhof - Paris (France) – 1928
176
Arrault, logements ouvriers - Tours (France) - 1928
Baizeau, villa - Carthage (Tunisie) - 1928
Bonnet, logements pour le personnel - Suresnes (France) - 1928
Centrale - Bobriki (U.R.S.S.) - 1928
Centrosoyus - Moscou (U.R.S.S.) – 1928
Church, villa - Ville-d’Avray (France) – 1928
Cité ouvrière - Suresnes (France) – 1928
Concours d’habitation - Leipzig (Allemagne) - 1928
Dargouge, établissements - Langeais (France) – 1928
Duplessis Faunié, villa - - Biarritz (France) – 1928
Gaunier, maison pour enfants (sans lieu) - 1928
Immeubles-villas - Boulogne-sur-Seine (France) - 1928
Knyff de, villa (France) - 1928
La Casinière de, maison - Bernheim (France) - 1928
Marquise de Villevigia, villa - Biarritz (France) - 1928
Nestlé, pavillon - Paris (France) – 1928
Ocampo, villa - Buenos Aires (Argentine) – 1928
Sanjurgo d’Arellano, bioplastic institute (sans lieu) - 1928
Thorin, maison - Cherbourg (France) - 1928
Wanner, immeuble - Genève (Suisse) – 1928
151
Winter docteur, hôpital (sans lieu) - 1928
Escritos :
- Une Maison, un Palais / Le Corbusier. - Paris : Crès, 1928.
- «Architecture et urbanisme» Cahiers de l’Etoile - 02/1928
- Relatório endereçado à Société des Nations / Le Corbusier e Pierre
Jeanneret. - Paris : Imprimerie Union, 1928.
- Edição «MUNDANEUM» publicada em 1928, em colaboração com
PAUL OTLET (FLC A3-14)
- «L’aménagement intérieur de nos maisons du Weissenhof à Stut177
tgart» - manuscrit – 1928 (FLC)
- «Architecture à Moscou», l’Intransigeant - 1928 (FLC)
- Relatório sobre «la ville future» de L.C.
- «Conferência no Museu politécnico, sobre arquitetura e urbanismo»
Moscou, 26/10/1928
Correspondências :
Cartas à sua mãe:
1928 (não está precisado o mês) (livro Le Corbusier Choix de lettres, p
188)
Carta de 20 de janeiro (livro Le Corbusier Choix de lettres, p 191)
Carta de 7 de fevereiro (livro Le Corbusier Choix de lettres, p 193)
Carta de 15 de janeiro de 28 à Piero Bottoni, arquiteto italiano. (livro Le
Corbusier
Choix de lettres, p 189)
BAUCHANT, ANDRE
Bauchant / L.C. - 04/01/1928 - 07/12/1928
BAYLON, GASTON
Gaston Baylon actionnaire de l’Esprit Nouveau / L.C., Mazamet : différend
à
propos de la société l’Esprit Nouveau - 28/12/1928
REDRESSEMENT FRANÇAIS
Sommaire du Redressement Français 01/05/1927
Correspondance avec L.C. 15/11/1927 - 01/12/1927
Rapport de L.C. pour le Redressement Français : «Vers le Paris de
l’époque
machiniste»
ALLENDY, DOCTEUR
Lettre à L.C. - 03/02/1928
AUDOUIN, A - HOTELIER A VILLEDOMER (INDRE ET LOIRE)
178
Lettre relative à une toile de L.C. - 18/10/1928
Lettre 29/11/1928
Lettre relative à la vente d’un tableau - 05/12/1928
BOTTONI, PIERO
Bottoni architecte-ingénieur/L.C., Milan - 05/1927 et 12/12/1927
L.C./Bottoni : réflexions sur la polychromie architecturale - 15/01/1928
BUDRY, JEAN
152
Jean Budry éditeur/L.C., Paris : relative à la publication d’un ouvrage
d’Ozenfant
sur l’art et demande de photographies - 25/06/1928
Note L.C.
BACKLUND, SVEN
Lettre du 08/02/1928
BUDRY, PAUL
L.C./P. Budry - 07/07/1928 - 24/03/1945
CLERC-RENAUD, J.M.
J.M. Clerc-Renaud/L.C. - 03/09/1928
L.C./J.M. Clerc-Renaud - 24/09/1928
DE LOS CAMPOS
Carte postale L.C. 1927 – 1928
ETCHELLS, FRÉDÉRICK - LONDRES
Lettre à L.C 03/07/1928
ECOLE DES ARTS INDUSTRIELS PRAGUE (UMELECKO -
PRUMYSLOVA
SKOLA PRAHA)
Lettre à L.C 05/10/1928
179
FEDERATION INTERNATIONALE DES UNIONS INTELLECTUELLES
Lettre à L.C : invitation congrès Prague 04/10/1928, Vienne 18/06/1928
Lettre à L.C : aide mémoire pour congrès Prague, Vienne 06/1928
GIEDION, SIGFRIED - ARCHITECTE
Lettres de L.C 02/04/1927 - 18/05/1928
IKEDA, HIDEO
Correspondance Ikéda / L.C. 17/01/1928 - 10/02/1928
KLEMM, THÉODOR
Lettre à L.C. 10/12/1928
LAPERSONNE, B.
Lettre à L.C. 19/07/1928
MANDROT, HÉLÈNE de
Télégramme à L.C. 30/06/1928
MERCIER, ERNEST
Lettre à L.C. 21/01/1928
Lettre à L.C. 10/02/1928
MOSER, G. - PHOTOGRAPHE
Correspondance avec L.C. 11/05/1928
OTLET
Carta de Otlet à Le Corbusier e Pierre Jeanneret, em dois de abril de 1928.
(FLC). Nos arquivos pessoais de Le Corbusier encontram-se as seguintes
publicações : OTLET, Paul. – Le Corbusier. Mundaneum. Bruxelles : Union
des Ass. Internationnales, 1928. (FLC) ; OTLET. P. Cité Mondiale. Geneva
:
180
World Civic Center : Mundaneum. Le Plan architectural de MM. Le
Corbusier
et Jeanneret. Bruxelles : Union des Ass. Internantionnales, 1929. (FLC).
153
OZENFANT
- 24/05/1928
PRUDHOMME, ANDRE
Lettre à L.C. 27/11/1928
REVERDY, JEAN
Carte de visite
Lettre à L.C. 18/04/1928
ROBERT
Lettre à L.C. 27/11/1928 - 02/12/1928
ROSENBERG, EUGÈNE
Lettres de L.C. 12/11/1928
ROTH, ALFRED
Correspondance avec L.C. 24/11/1928
CORRESPONDANCE LE CORBUSIER / RITTER - 1928
Lettre 16/12/1928
LA SARRAZ CORRESPONDANCE L.C. - 1928/1929
Giedion - Argus - Gubler - Michelin - Thomas - Budry - Mies Van der Rohe -
Oud - Fontaine - Moser - Farkas Molnar - Badovici - Otlet - Mercadal -
Berlage
- Devinat - Teige - Florentin
Guevrekian - Le journal - Société des Nations - Magnat - Budry - Devinat -
Institut International d’Organisation Scientifique du Travail - Lurçat -
Städtis181
ches Hochbauamt Frankfurt am Main - Das neue Frankfurt - Sartoris
Giedion
- Rava - Haring - Huisman - Florentin - Gubler - Ecole de Broderie de la
Sarraz
- De Mandrot -
Giedion/L.C. : 18/01/1928 au 03/05/1929
Madame de Mandrot/L.C. 1928
Pr. Moser/L.C.
Walter Gropius/L.C.
Guevrekian
Schwab
1929
Correspondências:
LC e BAUCHANT, ANDRE
Bauchant / L.C., Azouer - 06/06/1929 - 07/09/1929 - 08/10/1929 -
10/11/1929 -
12/11/1929 - 14/11/1929 - 15/11/1929 - 17/11/1929 -21/11/1929 -
26/12/1929
BAUMEISTER, WILLI
Willi Baumeister / L.C. Francfort - 13/06/1929
Willi Baumeister / L.C., Francfort - 11/06/1930
Lettre L.C. / Baumeister, Paris - 28/06/1930
154
BAYLON, GASTON
Gaston Baylon actionnaire de l’Esprit Nouveau / L.C., Mazamet : différend
à
propos de la société l’Esprit Nouveau - 05/01/1929 -15/01/1929
182
BIERBAUER, VIRGIL
Lettre Virgil Bierbauer/L.C., Ascona - 18/05/1929
BOUCHER ET BEAURAIN
L.C./Boucher et Beaurain gérant rue Jacob, Paris : travaux de plomberie :
20/11/1929.
FUJI - TRADUCTEUR
Lettre à L.C : traduction en japonais de (Vers une architecture(, 25/06/1929
FREY, ALBERT - ETATS - UNIS
Lettre à L.C. 25/09/1929
GUILLOT MUNOZ, A.
Lettre à L.C. 03/12/1929
JEANNERET-AUGSPURGER - MICHIGAN
Correspondance L.C. / Jeanneret Augspurger 02/10/1929
JOURDAIN, FRANTZ
Correspondance L.C. / Jourdain 20/10/1929 - 10/12/1929
R1-12
CORRESPONDANCE YVONNE - L.C
Cartes postales L.C. / Yvonne 29/09/1929
MASAMI, MAKINO
Lettre à L.C. 25/05/1929
NEUFERT, E. - STAATLICHE HOCHSCHULE FÜR HANDWERK UND
BAUKUNST
WEIMAR
Lettre à L.C. 10/10/1929
PAULO PRADO
Lettre Albert Jeanneret pour Le Corbusier / Paul Prado 09/07/1929
PILZER, LÉOPOLD - VIENNE
Lettre à L.C. 28/09/1929
ROSENTHAL, LÉONARD
Correspondance avec L.C. 12/07/1929 - 27/05/1930
REDRESSEMENT FRANÇAIS
183
Sommaire du Redressement Français 01/05/1927
Correspondance avec L.C. 15/11/1927 - 01/12/1927
RLARAKI - STRASBOURG
Lettres à L.C. 08/06/1920 - 04/03/1929
SCHNIEWIND
Correspondance avec L.C. 07/08/1929
SIMMONDS, E. HAYTER
Correspondance avec L.C. 11/07/1929 - 16/07/1929
SUTER
Lettre de L.C. 19/03/1929
VAUTHIER - COLONEL
155
Correspondance avec L.C. 22/12/1929
WYBO, GEORGES
Lettre à L.C. 30/01/1929
SCHWOB, LUCIEN
Menu dédicacé 16/11/1929
SERT, JOSÉ - LUIS
Correspondance 1929
SIMMONDS, E. HAYTER
Correspondance avec L.C. 11/07/1929 - 16/07/1929
Projetos de Arquitetura:
Villa Savoye – France – Poissy - correspondências, trabalho no canteiro,
Villa Baizeau – Tunisie – Carthage – construção do edifício, pintura
Appartement de Beistegui – France – Paris – relação com os arquitetos,
empreiteiros,
grandes obras, construção
Cité Fruges – France – Pessac – encontro com arquitetos, problemas
jurídicos,
correspondências, esquadrias, colloques, congres, medias, syndicat de
defense du quartier du monteil
184
Villa la Roche – France – Paris – correspondências
Villa Le Lac – Suisse – Corseaux (Vevey) – diversos
Villa Cook – France – Boulogne sur Seine – permissão de construir,
esquadrias,
grandes obras, honorários, correspondências
Maison Planeix – France – Paris - permissão de construir, grandes obras,
honorários, correspondências
Amenagement de la rive droite – Suisse – Genève – programa do
concurso,
29.
Immeuble Wanner – maison RUF – Suisse – Genève – correspondências
Centrosoyus – URSS – Moscou – standards fabrication de portes,
correspondências
entre LC e o ministério des Affaires Etrangères, contrart entre
a União central de cooperativismo de consumação da URSS e os arq. LC e
Jeanneret
Villa Church – France Ville d’Avray – fornecedores
Projetos não realizados – Yougoslavie – Zagreb – M. Ivo Stern
Pavillon Suisse – France – Paris – estudos de construção e
correspondências
(29 ate 33)
Armée du Salut – Palais du Peuple – France- Paris – correspondências, A.
Peyron, Vanderkam (28 e 29)
Armée du Salut – Cité de Refuge – Paris – obras, correspondências com
Vanderkam (29-32)
Correspondências com José Luis Sert, 29-45
Demandes de photos (T1-1) – jan. à juin 29, Juillet à décembre 29
156
Projetos não realizados
Casa Para o Sr. A. Harvey – cartas 04-01-29
Para o Sr. Grimar – cartas 10-06-29, Bruxelles
Casa Para o Sr. A. Knopff Marlien, cartas 12-07-29, 19-08-29, Bruxelles
Projeto de urbanização – carta Delia Del Careil, com brochura sobre o
programa
do concurso, Madrid, 1929
Casas e apartamentos do State Athletic Club, Oklahoma City, cartas com
Sr.
Easterday, 18-04-29, 02-01-30
Villa Jacquin, casas em série, Bois-Colombes, cartas com Albert Jacquin,
28-
185
06-29
Casas metálicas, cartas da S.A da Cites-Jardins da Região Cannaise, 09-
10-
29, Cannes
Casa, Carta com A. Stirnemann, 31-05-29, 19-10-30 com desenhos,
Colmar
Modernização local da redação e gráfica do petit dauphinois, cartas com
Sr.
Andry FArcy, 04-06-29, 19-07-29, Grenoble
Igreja, carta com o padre de Plant-Champigny, 26-04-29, 05-06-29,
France,
Le Tremblay
Construção de uma cidade, Orgement, France, carta 10-04-29
American Hotels Corporation, carta com o presidente L. Kincaid, 17-07-29,
Genebra
Informações levantadas mês à mês
Janeiro
«Monsieur l’éditeur...» : Interview sur publication d’un ouvrage sur l’état
actuel
de l’architecture - Studio Londres - 01/1929 (FLC F3-1)
Mundaneum – Musée Mondial – relatório feito pela Union des associations
internationales mémoire : Genève, centre cité internationale - 01-1929
Message
du monde au monde commémoration de 10 années de paix (FLC F1-
15)
La Revue des Vivants (France) “ Reflexions sur la loi Loucheur” Autor :LC
numero de agosto (FLC A3-2)
Revue de la Femme (France) : Le home et la musique mécanique. Michel
Dufet. 1er Janeiro de 1929.
Revue JAZZ (France) : Crise du ciment ou crise des architectes. Jean
Prevost.
15 de janeiro de 1929
La Suisse (Suisse) : A l’Athénée. Le XXV concours Diday et le problème
de l’architecture modnerne ». L.F. (Fernand Leger) 19 de janeiro de 1929.
157
(FLC)
186
Publicado no jornal Depeche Algerienne. Le problème des espaces libres.
Jardins publics, terrains de jeux et de sports. Autor : Pasquier-Bronde. 26
janeiro de 1929. (FLC)
Correspondências com : Légation de Suisse, A. Hoechel (architecte),
Légation
de la république Tchécoslovaque, Wanner, Trottet, H. Baumgartner, Jackh,
Osusky, Loucher, Benès, Ambassade du Japon, Bate, Fontaine, Thomas
Fevereiro
Encontro do CIRPAC: 2 de fevereiro em Basel. Estavam no encontro os
délégués:
Bourgeois, Breuer, Le Corbusier, Josef Frank, Häring, Sartoris, Schmidt,
and Stam; José Manuel Aizpúrua (1904-36), of Spain; and Szymn Syrkus
of Poland.
Projetos não realizados – correspondências E. May, Aktiengesellschaft für
Haus – U.G. rundbesitz
Gazette de Lausanne (Suisse): La standardisation en architecture. Autor :
G.E.Magnat, 25 février 1929.
Varietes (Belgique). Actualités. Fernand Léger. 15 de fevereiro de 1929.
Salut Public (France). « La cité future et les gratte-ciel » 25 de fevereiro de
1929
Coupure de presse en allemand sur une construction à Leipzig «Stein Holz
Eisen», Frankfort - 28/02/1929
Março
Correspondance L.C / L’Intransigeant
L.C / Les Carnets de la semaine 26/03/1929
Publicada na seção Março-Abril no Cahier de l’etoile o artigo guardado por
LC
: Réflexions sur le spetacle, de Benjamin Fondane (FLC X8 ou 9 -08)
Le Monde (France) : Le plan Loucheur et les architectes. Autor : Géo
Charles.
30 Mars 1929.
187
Freiburger Zeitung (Alemanha): Auf dem Spuren alter Menschheitskultur.
VI.
Der moderne Neger in Afrika. Autor: Adolf Jensen. 10 Março 1929.
Le Monde (France) : L’architecture, art collectif. Cité-jardin à Los Angeles.
Autor : M.L. Baugniet. 2 Março 1929
Abril
Journal (France). Problèmes à résoudre. 20 abril 1929
La Citta Futurista (Italie). La signification de la cité jardin du Weissenhof à
Stuttgart. Autor : LC. Abril 1929. (FLC A3- 2)
Correspondências sobre Palais de la Societe des Nations –Genève 11-
0128
158
et 04-0429 com P. Jeanneret
Artigo « Disposition optimistes » para Badovici, abril 29 (FLC U3-5)
Coupure de presse en allemand Bäder-Blatt der Frankfurter Zeitung,
14/04/1929
Artigo La signification de la cité jardin du Weissenhof à Stuttgart. In : La
Città
futurista, Italia, abril de 1929
Maio
Carta de LC à Cendrars em 07 de maio 29, confirmando ida à Buenos
Aires
e desejo de parar no Brasil.
Invitation «L’Urbanisme Moderne» Conférence L.C. à l’Athénée Municipal -
Bordeaux - 23/05/1929 (C3- artigos)
Artigo : La Rue 1929 (B3-5) - La Rue : texte manuscrit pour l’Intransigeant
20/05/1929 L’intransigeant (France). L’avis de l’architecte… la rue. Le
Corbusier.
20 maio 1929.
Carte de Blaise e resposta de LC em 07-05-29 (sobre viagem)
Artigo na Chaiers d’art. “Maison du Centrosoyus de Moscou”, Autor : LC .
Maio de 1929
Artigo na Chaiers d’art. “Maison de l’union des cooperatives de l’URSSS à
188
Moscou », Autor : LC
L’avis de l’architecte… la rue. l’Intransigeant, França, 20/05/1929 ;
Em carta ao amigo Cendrars, Le Corbusier confirma sua decisão em ir à
Buenos Aires, bem como o desejo de ir à São Paulo realizar um série de
conferências. O arquiteto compartilha os temas de suas possíveis
palestras.
Correspondência escrita em sete de maio de 1929 (FLC). In: Pereira, p. 43.
Junho
LC parte em 6 de junho de 1929 à Moscou (informação retirada na carta de
LC à Mme de Salle - FLC U2-9)
LC retorna no dia 29 de junho de Moscou
Artigo. Defense de l’Architecture – 8 juin 1929. Autor: LC. Escrito
datilografado
no acervo da FLC, publicado apenas em 1933 pela revista Stavba, Praga.
Comoedia (France). ‘La société des Nations n’appiquerait-elle pas ses
propres
règlements?’ Autor : Yvanhoé Rambosson. 2 Junho 1929
Déclaration L.C. 1er CIAM – La Sarraz 06/29 (saiu na Architecture Vivante
primavera-verão 29) (A3-2)
Économie domestique et construction économique - Congrès de
l’Organisation
scientifique du travail. « Economie domestique et constructions
économique
159
». Comunicação de LC. Paris – 19 a 23 de Junho de 1929 (FLC X1-10-
152)
Texto de outro autor no IV Congrès International de l’organisation
scientifique
du travail. Paris 1929. Les standards du bâtiment en Bulgarie. Autor : M.
Trendafil
K. Trendafiloff. (architecte et Ingénieur)
Mundaneum – Musée Mondial – rapports - union des associations
internationales
communiqué : 05-29 (F1-15)
Carta de Willi Baumeister à Le Corbusier, em 13 de junho de 1929
Julho
189
Projetos não realizados – Zurique – correspondência com Ternet et
Chopard
– Dufresne 29-07-1929, 17-09-1929 sobre Galeries Lafayette
Carta de LC a Paulo Prado em 28 de julho de 29, fixando bases para a sua
viagem ao Brasil. Escrita na casa do Mr Vidal, Le Picquey, Gironde
.
Agosto
Mundaneum – Musée Mondial – rapports - union des associations
internationales
réunion : 23 -08-29 (F1-15)
L’Architecture vivante (France) Tracés régulateurs AV pr.- éte 29 (A3-2)
(A3-
7)
Circulaire du CIAM - Programme du Congrès du 21/08/1929
Setembro
Jornais e artigos :
Recortes de jornais sobre Palais de la societe des nations- Genève 08-09-
1929
Paris-Times (France)Artigo: The book of the Day. The City of To-morrow
and
its planning. Autor: LC., 30-09-29
LC parte para a América do Sul pelo transatlântico Massília.
15 de setembro, L.C. chega a Lisboa a bordo do Massília (informação pela
carta de LC à Easterday)
O navio Massília aporta no Rio (LC está de passagem)
O navio Massília aporta em Santos (LC está de passagem)
Outubro
Temporada em Buenos Aires
Neste período realiza duas visitas à Montevidéo: avião e barco
190
Conferências em Buenos Aires
Textos manuscritos “Se délivrer de tout esprit académique – conferência
160
1, Buenos Aires dia 3-10-29 Les Amis des Arts – In : Précisions (C3-7)
« Urbanisme en tut, architecture en tout » conferência 3, dia 8-10-29,
Faculté
des sciences exactes – In : Précisions
« Le plan de la Maison Moderne » conferência 5, dia 11-10-29, Les Amis
des
Arts – In : Précisions (C3-7)
« Un homme : une cellule – des cellueles – la ville – une ville
contemporaine
de trois millions d’habitants Buenos Aires est-elle une ville moderne ?”
conferência
6, dia 14-10-29 Amigos de la Ciudad, In : Précisions
« Une maison, un palais – le palais de la société des Nations à Genève »
conferência 7, dia 15-10-29, Fac. Sc. Exactes, In : Précisions
« La Cité Mondiale » et considération peut-être inopportunes , conferência
8,
dia 17-10- 29, Fac. Sc. Exactes, In : Précisions
« L’aventure du mobilier », conferência 10, dia 19-10-29, Les Amis des Arts
In : Précisions (C3-7)
24 a 29 de outubro de 1929, Crise de 1929: queda da bolsa de Nova York
24 a 26 de outubro: CIAM II – Frankfurt
No CIAM II, Pierre apresenta o texto de autoria dele com o LC: Analyse
des
éléments fondamentaux du problème de la maison minimum
Carta de 29 de outubro de LC à sua mãe. (livro Le Corbusier Choix de
lettres,
p 188)
Novembro
Inaugurado o Salon d’automne no dia 3 de novembro de 1929.
Viagem de avião partindo de Buenos Aires: passa por Assunção. Chega
em
Santos
Le Corbusier chega a São Paulo em novembro, e faz duas conferências:
uma
sobre arquitetura e outra sobre urbanismo.
Viagem à fazenda S. Martinho, de propriedade de Paulo Prado.
Artigos e jornais :
Annales (France). Les expositions – Le prix Dru. André Warnod. 1º
novembro
1929.
191
Lumière. (France). La peinture nègre inconnue. Kalifala Sidibé. 2 novembro
1929.
Diário Popular (Brasil, São Paulo). Falla-nos o urbanista francez Le
Corbusier.
20 novembro 1929
Diário Popular (Brasil, São Paulo). Urbanismo e Architectura. 21 novembro
161
1929
Diário Popular (Brasil, São Paulo). A conferencia de Le Corbusier. 27
novembro
1929
La Suisse (Suisse). Le deuxième congrès d’architecture moderne à
Francfort.
24-26 octobre 1929. Novembro de 1929. F.G.
27 de novembro, espetáculo Baby de J. Baker em SP. Le Corbu esteve
presente
(In: précisions)
Dezembro
Viaja de Santos ao Rio pelo navio Giulio Cesare, junto com Joséphine
Baker.
Chega ao Rio no dia 03 de dezembro.
A família Prado será também responsável pela introdução de LC no meio
artístico e intelectual carioca. O próprio prefeito Antonio Prado Junior, já
comprometido
com Agache, mostra a cidade a seu hóspede
Conferência no Rio de Janeiro 8 de dezembro de 1929, Associação dos
Arquitetos
Embarque no Lutética em 9 de dezembro.
Prólogo Americano escrito em 10 de dezembro de 1929, a bordo do Lutétia
Artigos e jornais:
Vient de Paraitre (France). Une exposition de livres et de tableaux des
Editions
Crès. Raymond Cogniac. 1o dezembro de 1929.
Diário Popular (Brasil, São Paulo). Le Corbusier na Capital Federal. 3
dezembro
1929
La revue de l’habitation. (France?). Ma petite Maison. Les maisons en acier
192
à l’exposition de l’habitation. Le Corbusier et Pierre Jeanneret. Dezembro
de
1929.
Retorno à França, foto tirada de LC e Baker em ocasião das “Fêtes de la
ligne” (passage de l’Equateur) à bord du Lutetia, Rio de Janeiro –
Bordeaux.
Josephine et Corbu obtiennent le premier prix de travestis décerné par lês
voyageurs eux-mêmes.
Parte do Rio à bordo do Lutétia em direção à Bordeaux: 09 de dezembro
Carton de compagnie de navigation Sud Atlantique
«L’Atlantique Sud» 20/12/1929 (FLC)
Chegada em Bordeaux: 21 de dezembro
Corollaire Brésilien, texto escrito à mão, conferência no Rio de Janeiro,
dezembro
de 1929 (FLC)
Prologue Américain, texto escrito à mão, a bordo do Lutétia, dezembro de
162
1929 (FLC);
Le Corbusier. Prólogo Americano. A bordo do Lutetia, dezembro de 1929.
In:
PEREIRA. P. 86.
193
163
Tabela de desenhos de Le Corbusier
19281929 (FLC)
164
165
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