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neural, segundo o qual eles tendem a descarregar a maior quantidade de energia
circulante, a fim de manter a excitação ao nível mais baixo possível, funcionamento
análogo ao arco reflexo. A consciência ocorreria na passagem da quantidade da
energia, considerada de ordem física, para o da qualidade, de caráter psíquico. A
sensação consciente seria produzida quando as quantidades pudessem ser
escoadas ao máximo, pois uma estimulação excessiva diminuiria a capacidade de
distinguir e diferenciar as qualidades.
William James, em seu Principles of Psychology (1890), no capítulo
sobre o “fluxo do pensamento” enfatizou que, para aquele que a
possui, a consciência parece sempre ser contínua, “sem brecha,
ruptura ou divisão”, jamais “recortada em pedaços”. O conteúdo da
consciência pode mudar continuamente, mas avançamos
suavemente de um pensamento para outro, de uma percepção para
outra, sem interrupções ou quebras. Para James o pensamento flui e
foi por isso que ele introduziu o termo “fluxo de consciência”. Mas se
perguntou: “será que a consciência é realmente descontínua (...) ou
será que apenas parece ser contínua diante de si mesma, em razão
de uma ilusão análoga à do zootrópio?” Antes de 1830 não existia
maneira de fazer representações ou imagens que tivessem
movimento. Como poderiam imagens transmitir movimento, se elas
próprias não possuíam movimento? A própria idéia era paradoxal,
uma contradição. Mas o zootrópio comprovou que imagens
individuais podem, sim, ser fundidas dentro do cérebro de modo a
criar uma ilusão de movimento contínuo. Apreendemos o movimento,
assim como apreendemos a cor ou a profundidade, como uma
experiência qualitativa única que é vital para nossa consciência
visual. Alguma coisa que está além de nossa compreensão ocorre na
gênese das qualia, a transformação de uma computação cerebral
objetiva em experiência subjetiva. (SACKS, 2004, p. 05)
Depois deste parêntese que achei por bem intercalar aqui por se assemelhar
à idéia freudiana, retomo a descrição do suceder psíquico no Projeto.
O princípio da inércia, segundo o qual os neurônios tendem à descarga, e que
explica a sua divisão em duas classes, motrizes e sensitivos, como um dispositivo
destinado a balancear as quantidades de energia, constitui a função primária do
sistema neural; a função secundária é a fuga dos estímulos. Este princípio é desde o
início inviabilizado por outra condição, na medida em que aumenta a complexidade
dos organismos, os neurônios passam a receber estímulos somáticos dando origem
às necessidades fisiológicas; o organismo, então pressionado pelas exigências
vitais, não consegue sustentar o princípio da inércia e precisa aprender a suportar o