
peculiar, de vida simples, vivendo apenas com aquilo que a natureza podia lhe oferecer, sem
que desprendessem esforço. Capistrano de Abreu (1998 p.133), assim enuncia o modus
vivendi dos primeiros ocupantes do sertão.
Os primeiros ocupantes do sertão passaram a vida bem apertada; não eram os donos
das sesmarias, mas escravos ou prepostos. Carne e leite havia em abundância, mas
isto apenas. A farinha, único alimento em que o povo tem confiança, faltou-lhes a
princípio por julgarem imprópria a terra à plantação da mandioca, não por defeito
do solo, pela falta de chuva durante a maior parte do ano. O milho, a não ser verde,
afugentava pelo penoso do preparo do monjolo. As frutas mais silvestres, as
qualidades de mel menos saborosas eram devoradas com avidez.
O autor destaca a importância do ofício do vaqueiro na labuta cotidiana com o gado e
expressa o modo como era pago pelo desempenho de suas atividades, que iniciava logo que
era adquirida a terra para uma fazenda. O primeiro passo era acostumar o gado ao novo pasto,
o que exigia algum tempo e bastante gente. Depois ficava tudo entregue ao vaqueiro. A este
cabia amansar e ferrar os bezerros, curá-los de bicheiras, queimar os campos alternadamente
na estação apropriada, eliminar animais que punham em risco a gadaria. Para cumprir bem
com o seu ofício vaqueiral, deixa poucas noites de dormir nos campos. Especialmente no
inverno, porque nesta ocasião costuma nascer maior parte dos bezerros.
Era costume marcar as vacas que estão próximas a dar crias e trazê-las para os currais,
para que, parindo, não escondam os bezerros de forma que fiquem bravos ou que sejam
acometidos de algumas chagas. Sobre o ritual para ferrar as reses, realizados pelos
proprietários de fazenda como pelos vaqueiros, escreveu Soares Feitosa.
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Ao dono, indelegável, personalíssimo, o direito de ferras. Algo solene, quase
místico, manhãzinha, que de tarde o sol, a poeira e a fadiga do gado seriam por
demais. O proprietário, tomando nas mãos o ferro-quente – um cabo bem comprido,
com uma madeira na ponta ou um sabugo de milho a protegê-lo. O ferro em ponto
de brasa, marcava, de próspero, as reses recentes: as de compra e as de nascido.
O vaqueiro, no quinhão que lhe tocava (de cada cinco bezerros nascidos e criados,
um para si; ou um em cada quatro; a variar, condições da terra), havia de ferrar, ele
mesmo, com as mãos dele, a sorte dele. E com sua própria marca. Mas, de marca
comum, no outro lado da rês, da banda esquerda, ferravam-nas, proprietário e
vaqueiro, com a marca do santo, dita também da freguesia.
Reparava meninote, na perna esquerda dos bois. Se um A ali, era de Anastácio,
santo, padroeira, cidade do mesmo nome, vizinhança. Um S? Espere aí, meu caro,
este boi é “meu” – Sebastião naturalmente, São Sebastião, <<O mártir de Cristo, /ó
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Ver A arte dos ferros. Texto retirado da Internet – Ferro e partilha do gado com o vaqueiro.