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PUC
SP
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2009
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P
ONTIFÍCIA
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NIVERSIDADE
C
ATÓLICA DE
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AULO
PUC
SP
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ROGRAMA DE
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STUDOS
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ARIA
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NGÉLICA
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IBEIRO
Dissertação apresentada à Banca Examinadora da
Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC
SP), como exigência parcial para a obtenção do título de
MESTRE em Comunicação e Semiótica.
Linha de Pesquisa: Análise das Mídias, sob orientação
da Professora Doutora MARIA LUCIA SANTAELLA
BRAGA.
S
ÃO
P
AULO
2009
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RIBEIRO, Maria, 1979 -
Outro(s) Lugar(es) de Enunciação: A Emergência do Dialogismo em Ambientes
Hipermidiáticos / Maria Ribeiro
São Paulo, 2009
Tese de Mestrado – Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, PUC – SP.
Comunicação e Semiótica.
Orientadora: Professora Doutora Maria Lucia Santaella Braga
1. Peirce 2. Dialogismo 3. Hipermídia
B
ANCA
E
XAMINADORA
_________________________________________
_________________________________________
_________________________________________
A
UTORIZO REPRODUÇÃO
,
PARCIAL OU TOTAL
,
COM FINS EXCLUSIVAMENTE ACADÊMICOS E CIENTÍFICOS
,
DESDE QUE CITADA A FONTE
.
________________________________
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IBEIRO
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AULO
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ETEMBRO DE
2009.
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A
CAPES
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CNP
Q PELO SUPORTE FINANCEIRO
.
1. R
ESUMO
A
lógica hipertextual, orientada por nexos associativos não-lineares, favorece certa
cartografia de navegação menos ocupada com mapas e representações que com desvios
inopinados e estados de deriva. Na mão inversa, o pensamento ocidental inaugurou a ordem como
ágnus-dei do século XIX, desde Descartes (e o nascimento da filosofia moderna) ao binarismo e à
atividade meramente especulativa do espírito científico. o dialogismo permite entrever na relação
entre termos, aparentemente antagônicos, vetores de complementaridade. As noções de abertura
dialógica e complicação de binaridades (idéia de força bruta, em Peirce), quando trasladadas para o
interior de ambientes hipermidiáticos (quais sejam territórios experimentais de linguagem),
favorecem uma abordagem fenomenológica do objeto de pesquisa. Beneficia, sobretudo, o campo
da comunicação ele próprio como objeto a ser examinado. O que implica, de modo abreviado,
em interligar o não-relacional da descoberta científica (programa do signo artístico aplicado às
competências epistêmicas) e as estruturas externas (de origem sistêmica ou o entorno como híbrido
de linguagens: imagens, sons, vídeos, verbo escrito), deixando visíveis as suturas e arremates.
P
ALAVRAS
-C
HAVE
:
Dialogismo, hipermídia, Peirce, semiótica.
ABSTRACT
H
ipertextual logic, oriented by non-linear associative reasoning, favors a certain kind of
navigational cartography; one that is less concerned with maps and representations than with
random detours and states of wandering. Western thought, however, has placed order as the agnus
dei of the 19th century, going from Descartes (and the birth of modern philosophy) to binarism and
the speculative activity of scientific spirit. Dialogism allows a glimpse at the relation between terms, at
first sight antagonistic, which reveals vectors of complementarity. The notions of dialogical openness
and complexity of binarities (Peirce´s concept of brute force), when applied to hypermedia
environments (territories of experimental language), enable a phenomenological approach to the
research object at hand. It benefits, furthermore, the academic field of communication a research
object in itself. This implies, succinctly, relating what is non-relational about scientific discovery
(artistic sign applied to epistemic capacities) to external structures (of systemic origin, or media
surroundings as hybrid language: images, sounds, videos, written text), making visible its sutures and
endings.
K
EYWORDS
:
Dialogism, hypermedia, Peirce, semiotic.
P
RELÚDIO
no primeiro excerto das suas As Palavras e as Coisas, Foucault - o logo encerra a
referência àquela taxionomia translumbrada de Borges
1
– lança-se à seguinte meditação: que coisa,
pois, é impossível pensar, e de que impossibilidade se trata? Ainda como que pasmado pela
enumeração borgiana, assevera: o impossível não é a vizinhança das coisas, é o lugar mesmo onde
elas poderiam avizinhar-se. E tendo auscultado a admiração de Foucault e seu veredicto, em igual
medida, admirável, apropriei-me fraudulentamente da dúvida, e dediquei muitas horas o à
resposta. Mas, ao desdobrar infinitesimal da suspeita, até que ela se revelasse tão somente um
lugar pensável.
1
Esse texto cita ‘uma certa enciclopédia chinesa’ onde está escrito que ‘os animais se dividem em: a)
pertencentes ao imperador, b) embalsamados, c) domesticados, d) leitões, e) sereias, f) fabulosos, g) cães, h)
incluídos na presente classificação, i) que se agitam como loucos, j) inumeráveis, k) desenhados com um
pincel muito fino de pêlo de camelo, l) et cetera, m) que acabam de quebrar a bilha, n) que de longe parecem
moscas, apud Foucault (1992: IX)
S
UMÁRIO
I
NTRODUÇÃO
_________________________________________________________________________12
1. H
IPER
-
HIATOS
:
A
CONSTRUÇÃO DO
S
ENTIDO POR
M
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I
NTERVALAR
____________22
P
ARTE
I.
C
OMPENDIAR
1.1. P
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-
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______________________________________________22
P
ARTE
II.
E
SPACEJAR
2.1.
S
UPERFÍCIES
-M
ANDALA
:
DIALÓGOS ENTRE O ESPAÇO E O IMAGINÁRIO
_____________26
2.2.
I
NTERLÚDIO
_____________________________________________________________________33
P
ARTE
III.
H
IPERMEDIAR
3.1.
P
AUSA DE
S
EMIBREVE
:
O
F
RÊMITO DA
D
ESCOBERTA
_______________________________37
3.2.
N
O PRINCÍPIO ERA O VERBO
.
E
O VERBO SE FEZ CARNE E HABITOU ENTRE NÓS
_______38
2. L
INGUAGEM E
C
O
-A
FETAÇÃO
:
SEMIÓTICA E A RAZÃO
O
RGÂNICA
___________________
42
P
ARTE
Ú
NICA
:
O
RGANIZAR AS
N
UVENS
2.1.
E
SCANCARAR AS
J
ANELAS DO
E
SPÍRITO
___________________________________________42
2.2.
B
REVÍSSIMAS
C
ARACTERÍSTICAS
U
NIVERSAIS DA
E
XPERIÊNCIA
_____________________51
2.2.1.
U
M
P
RIMEIRO
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IVRE
,
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M
S
EGUNDO
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HOQUE
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ERCEIRO
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_______________51
2.3.
A
L
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V
IVO
:
S
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_________________________________________________55
2.4.
C
URTA
D
IGRESSÃO
B
IOSSEMIÓTICA
:
N
O
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OMÍNIO DO
O
RGÂNICO
_________________63
2.5.
P
ENSAMENTO
:
S
IGNO
____________________________________________________________64
2.6.
P
ENSAMENTO
-G
ALÁXIA
:
N
OOSFERA
______________________________________________66
3. S
UPERFÍCIES DE
I
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:
O
E
NSAIO DE
V
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S
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M
OTION
______________73
3.1. (N
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T
ÃO
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C
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D
IGRESSÃO
:
A
V
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E
STRUTURA DE
F
ICÇÃO
_______83
3.2. T
ÁBUA DE
T
RABALHO
:
O
C
ASO DOS
V
ALETES
__________________________________93
3.2.1. E
XEMPLO PELO AVESSO
:
A
C
ALCULADORA
_____________________________________96
3.2.2. E
XEMPLO PELO REVERSO
:
O
D
UPLO
C
ALABOUÇO
_______________________________96
C
ONSIDERAÇÕES
F
INAIS
______________________________________________________________98
B
IBLIOGRAFIA
_______________________________________________________________________104
I
NTRODUÇÃO
S
IM
,
EIS O QUE OS MEUS SENTIDOS APRENDERAM SOZINHOS
:
-
A
S COUSAS NÃO TÊM SIGNIFICAÇÃO
:
TEM EXISTÊNCIA
.
A
S COUSAS SÃO O ÚNICO SENTIDO OCULTO DAS COUSAS
.
F
ERNANDO
P
ESSOA
Tudo teve início com a leitura não prevenida das Texturas Sonoras: áudio na hipermídia, obra
organizada e conduzida pelos colóquios entre Sérgio Bairon (2005) e seus pares
2
. Lembro-me de ter
encontrado naquelas páginas a resposta para certa pergunta, dirigida ao então crítico de teatro do
jornal A Folha de São Paulo, Sérgio Sálvia Coelho, 4 anos passados.
Antes, e quando convoco a observância de um espetáculo teatral, tenho em mente duas
operações. A primeira delas: registrar um incômodo original. Depois, porque é preciso citar a leitura,
nos idos de 2003, da obra A Análise dos Espetáculos: teatro, mímica, dança, dança-teatro e cinema
(2003), autoria do francês Patrice Pavis. Ocupado em recuperar a materialidade viva do espetáculo
(ibidem:6), Pavis põe sinal: trata-se (um tipo de análise, a análise-reconstituição) de uma
especialidade do Ocidente inclinado a conservar e estocar documentos ou a fazer a manutenção de
momentos históricos. Ela vai ao encontro, nesse sentido, das reconstituições históricas das
encenações do passado. Sempre efetuada post festum
3
, ela coleciona os indícios, as relíquias ou os
documentos de representação. Do mesmo modo, sobreveio-me, a orientação reta dispensada ao
conhecimento científico, sempre a dialogar não com a natureza pura mas com um determinado
2
Entre eles, Lucia Santaella, Arnaldo Antunes, Olgária Matos e Izidoro Blikstein.
3
Perguntei-me de que modo apareceria o post festum (e sempre será post festum ou, como quer Peirce, um
fait accompli) a partir do registro de certo sentimento razoável. A partir não da universalidade da teoria, mas,
da afinidade intelectual que nasce no torpor da fruição estética (Pignatari, 1979:39).
estado da relação entre a natureza e a cultura, definível pelo período da história no qual ele [o
cientista] vive (...), pelos meios materiais de que dispõe (Lévi-Strauss, 1989).
Minha inquietação nascera com o monólogo A Poltrona Escura, série de 3 novelas (Pés na
Grama, O Carrinho de Mão e O Sopro) do italiano Luigi Pirandello (1867 – 1936), direção de Roberto
Bacci e performance do ator Cacá Carvalho (na época, laureado com o prêmio Shell 2003 de Melhor
Ator):
É possível que uma obra teatral peque por excesso? Que texto e interpretação
sejam forças, brutalmente, concorrentes? Que eu, como espectadora, não saiba onde
ancorar minha atenção: se na prosódia ou no vocabulário de músculos e expressões
faciais?
4
Não houve réplica
4
Em Peirce (Houser, 1992:282), assim apareceu-me, muito mais tarde: language is in the main representation
by the force of association; it involves the analysis of whatever is to be conveyed (on the part of the hearer as
well as on the part of the author) and the separate expression of abstract points. Voice, on the other hand,
awakes attention, directs it to particular channels, calls up feelings (…). Pantonime may it self be divided (…)
into three varietes ; artistic pantonime which merely exhibits the man, his general disposition and what there is
uppermost in him at the moment, and is to be contemplated without analysis; dynamical pantonime, as where
one points with finger or shakes or holds up the finger to impress what one is saying (…); and sign-language,
mostly (owing to the peculiar nature of pantonime) of an imitative kind but yet involving analysis and being
really rather language than pantonime proper.
Para efeito, e na impossibilidade da experiência sica, segue explicação sobre o gesto, quando da primeira
cena, ato II de O Avarento. Diz Harpagon para Valère e mestre Jacques: vamos precisar dessas coisas que
ninguém come, e que primeiro estufam: um desses feijões bem gordos, com um pote de patê de castanhas.
Pronto, que isso abunde. Harpagon mima a cena, reduzindo-a à representação do comedor, retomando em
onomatopéias sonoras e faciais os termos dos cardápio. As bochechas infladas, a repetição dos p (“potes de
patê”) como consoante que empanturra é um mimodrama, um “faciodrama”, mas também um psicodrama
para o Avarento que imagina o empanturramento de seus convivas ao reatuá-lo (Pavis, 2003:73).
Foi quando nos diálogos
5
, que pontuam as descobertas em torno do quase-tátil das texturas
sonoras de Bairon, descobri um ponto de amparo: o intervalo entre os deslocamentos de sentido (i-
locucionário
6
) como instante performático. Ocupada com a construção de holofrases, que pudessem
dar conta tanto do verbo falado quanto do corpo-escrita, rematei o feixe de espraiamento estético.
Holofrases que me vieram, tempos esquecidos, pelas linhas de Barthes
7
(1989:98), guiado por
Lacan. E, quase agora, pelo crítico Araripe Jr (apud Pignatari, 1979:66) flexionando O Ateneu, de
Raul Pompéia, com certo poema, no qual se supõe dar uma explicação órfica do universo. O poema
é de Mallarmé, em seu Coup de dés. Considerado por alguns, quando do lançamento, um fracasso
olímpico. Lá, diz Araripe:
a palavra deixou de ser o que é na realidade uma função que todos os dias se
diferença, sob a dupla influência do ambiente e das crescentes necessidades lógicas do
espírito, para converter-se nessa entidade viva, nervosa, que, com a psique da poética
clássica, vem dar força ao cadáver humano e ligá-lo ao universo pela magia do
harmonion. A holófrase consciente; sempre a holófrase primitiva.
5
Os Diálogos abrem cada uma das tramas sonoras e são marcados por um alguém que diz (a poesia,
filosofia, semiótica, psicanálise, senso comum, etc.) e um outro alguém (ou o mesmo) que digo. Assim, menos
para servir como ilustração que para aromar a pesquisa:
22 – o belo consiste na grandeza e na ordem?
Diálogos
Diz a poesia (Martin Heidegger) como filosofia: os sapatos abandonam seu estado de ocultação e revelam a
sua essência: o ser útil.
Digo: Para Heidegger, podemos ver no quadro de Van Gogh, “Os Sapatos”, todas as características
anunciadas acima. Ou seja, o cóisico da coisa, o útil do útil e a obra da obra. “A obra de arte nos fez saber o
que é em verdade o sapato”. Na busca da realidade da obra de arte, para se encontrar de fato com a arte em
seu elemento cóisico, invertendo o caminho clássico da interpretação da arte, devemos ir da obra à coisa.
Nosso compartilhamento ontológico com a obra de arte está situado essencialmente no fato de pertencermos
ao mesmo mundo. (Bairon, 2005:106)
6
O silêncio é, também, Gestalt.
Ou fragmentos de frases que assumem sua condição de incompletude significante (...). Sua estrutura é a do
jogo sígnico, e seu sentido não se completa na sonoridade de suas manifestações, mas sim em sua condição
existencial de corte (como entalhadura e como cortejo, diria a autora), de ruptura e de irrupção (Bairon,
2006:5).
7
Eu-te-amo não é uma frase: não trasmite um sentido, mas se prende em uma situação limite: “aquela que o
sujeito está suspenso numa ligação especular com o outro”. É uma holofrase.
Todo o dito quando Pignatari (ibidem) acendeu-me o candeeiro, com anotação ao da gina.
Araripe Jr chama de hólofrase ao verso e ao poema mallarmaicos: de muitos vocábulos refazer um
vocábulo total, novo e estranho à língua. A holófrase não é senão o simbólico (verbal) levado ao
ícone (não-verbal). A experiência mallarmeana é a da latência, presente não-manifesto: a palavra é
exposta orgânica - sem reparos ou emendas. Para Augusto de Campos (1991:187), Un Coup de
Dés é um sistema de relações coeso, inscrito em futuros hipotéticos: cette conjonction suprême avec
la probabilité. É deixada ovo-potência, na dimensão da página estilaçada, desaforo tipográfico:
neutralidade idêntica do abismo
8
.
Na Poltrona Escura e diante da aparente ambivalência - entre os vetores do discurso e aqueles
do gesto encenado - encerrei a experiência estética num único compartimento. Que fosse o mesmo
e que estivesse ordenado: reflexo daquele efeito supernova, descrito e aplicado por Décio Pignatari.
Diz o autor (1979:53), em respeito às decorrências da Revolução Industrial: a explosão de uma
supernova, esvaziando-a de sua energia nuclear e conferindo-lhe magnitude considerável, pode
estender-se por centenas de anos. Decerto, o estouro do pensamento esclarecido, iluminado - que
põe a prumo o progresso das coisas da vida reverbera ainda hoje. O discurso científico, acena
Zizek (2008:222), refestela-se na descrição da pura facticidade. Quando tal facticidade, do apenas é
como é, só pode ser secretamente sustentada por uma vontade divina arbitrária. E continua:
É por isso que Descartes é a figura fundadora da ciência moderna: exatamente
porque tornou até os fatos matemáticos mais elementares como 2 + 2 = 4 dependentes
da vontade divina arbitrária. Dois mais dois são quatro porque Deus quis assim, sem
nenhuma cadeia de razões obscura e oculta por trás. Até na matemática percebe-se
esse voluntarismo incondicional em seu caráter axiomático: começa-se a postular de
maneira arbitrária uma série de axiomas, dos quais se supõe que tudo mais venha a
seguir.
8
Trecho de Un coup de dés jamais n’abolira le hasard (in:Grünewald, 1991:104).
E o francês Paul Virilio (2002:106) antecipou citação, nos idos de 1994, da assertiva
comprobatória de Baudelaire: a embriaguez é um número
9
. A embriaguez estatística, emenda Virilio,
a infectar tanto o horizonte do ver quanto o do saber.
Mikhail Bakhtin (apud Plaza, 2000:24) afirmara que todo signo resulta de um consenso entre
indivíduos socialmente organizados no decorrer de um processo de interação (....) que não deve ser
dissociado de sua realidade material, das formas concretas da comunicação social (grifo nosso). Diz
assim, para dizer que preservar a realidade material do signo, naquilo que concerne ao registro da
experiência científica
10
, implica lidar com uma fissura original: a ilusão lógica a ilusão da
contiguidade (Pignatari, 1979:105). No parágrafo de abertura do seu Os gêneros do discurso, o
russo (2003:261) sinaliza: todos os diversos campos da atividade humana estão ligados ao uso da
linguagem. Compreende-se perfeitamente que o caráter e as formas desse uso sejam tão
multiformes quanto os campos da atividade humana, o que é claro, não contradiz a unidade nacional
de uma língua. A rigor, toda língua é um código sujeito aos deslocamentos próprios do real.
Constatação medular: a sobreposição de contextos de sentido (na mão inversa da noção de ruptura,
o que implicaria em períodos históricos sucedâneos, isolados uns dos outros) é o nosso pré-texto
para a experimentação de conceitos científicos em ambientes hipermidiáticos.
9
No seu O Spleen de Paris – XXXIII, Embriaga-te sugere melhor o poeta (Baudelaire, 1991:67): deve-se estar
sempre bêbado. Esta tudo aí: é a única questão. A fim de o se sentir o fardo horrível do Tempo que parte
tuas espáduas e te dobra sobre a terra, é preciso te embriagares sem trégua. / Mas de quê? De vinho, de
poesia ou de virtude, a teu gosto. Mas, embriaga-te (...).
Aqui e lá, a embriaguez é o reverso da ordem; quando a ordem é, ela própria, o reverso, quando se
transformou a Terra em masmorra úmida (Spleen – LXXVIII, ibidem:63).
10
Salto que assume a autora, ancorada nas próprias construções hipotéticas. Ou deve a experiência científica
partir, antes, do fenômeno (um sempre particular, único). Ou é a ciência mero coligir de códigos saturados, de
assinaturas (no sentido atribuído por Derrida, sd: 349-373) não autorizadas (que prescindem do signatário).
Porque nunca o objeto corresponderá a ars egóica do conhecimento classificatório, ser o
aprendizado por meio (na sua acepção ecológica) da hipermídia um lugar privilegiado. Já em Peirce,
um conceito é a influência viva sobre nós de um diagrama, ou ícone, com cujas várias partes entram
em conexão, no pensamento, um número igual de sentimentos ou idéias (apud Campos, 1977:87).
François Cheng (in: Campos, ibidem) convoca divisa entre o signo-utensílio e o signo-presença.
Nós, igualmente.
O Ocidente, ancorado o epíteto numa espécie de fundamentalismo do código alfabético,
teria privilegiado as associações por contiguidade
11
:
As palavras são formadas por permutações combinatórias, isto é,
sintagmaticamente, e ligam-se umas às outras conforme o princípio de predicação
(especialmente quando o verbo ser é empregado: “tal coisa é tal coisa”), o padrão lógico,
por excelência. As unidades predicativas, por sua vez, são articuladas por elementos de
ligação, as conjunções. (...) Da predicação às sentenças ou proposições e destas aos
conceitos ou Argumentos de Peirce, temos a cadeia completa (...) (ibidem)
Associações por contiguidade, linhas gerais, correspondem a uma espécie de pensamento
abiogenético, ancorado no princípio aristotélico de matéria pura
12
, logocêntrico (quando a palavra é
noç ão-chave para qualquer raciocínio) e que nos compele a acreditar que todos os signos
adquirem “sentido” quando traduzidos em “palavrês”, em código verbal (ibidem).
11
O contínuo (...) é definido como algo cujas possibilidades de determinação nenhuma quantidade de
individuais pode exaurir (CP 6.169-170). Uma forma rudimentar de continuidade é a generalidade, visto que a
continuidade não é outra coisa senão a generalidade perfeita de uma lei de relação (CP 6.172).
Em Santaella (1991): a noção de signo é a continuidade em sua forma mais rudimentar.
12
A matéria pura é informada no que toca aos elementos do sensível (quente, frio, seco, úmido), aos
aspectos quantitativos e qualitativos que determinam sua forma no lugar (alto, baixo, pequeno, grande, perto,
longe, pesado, leve, liso, rugoso, etc.) e àqueles que determinam sua forma no quando (novo, velho, aqui,
agora, depois). Os indivíduos têm origem numa matéria segunda ou na matéria pura qualificada e
quantificada (Chauí, 1994:284). A matéria pura, causa material dos seres (aquilo de que a coisa é feita), é
totalmente desprovida de qualidades ou propriedades ou atributos, totalmente indeterminada e da qual nada
podemos dizer (ibidem). Por onde é explicada nossa aproximação.
Daí ser o ícone, lado oriental do signo (ibidem), o grande escândalo da razão ocidental.
Nada autorizado a participar do anúncio de achados científicos por destroncar aquelas articulações
previstas na cartilha das ciências duras (Machado, 2008:3). Cabe-nos, como pesquisadores,
experimentar o instante quando. Quando o conhecimento revela-se anti-matrice (ali, do latim ou
aqui, matricida, como recusa ao monogenismo). Quando não corresponde ao exclusivo da origem.
Quando é anti-atômica, ainda que tratada, a descoberta, como cântaro
13
inamovível. Haroldo de
Campos (1992:17), em menção a uma categoria de crítica execrada por Ezra Pound, empresta-nos
a definição que aqui falta. À guisa do poeta e crítico norte-americano, e a reboque da sua
advertência contra certo fordismo mental, passamos ao largo da neutra relojoaria de conceitos,
incapaz de discriminações qualitativas (...). Nossas picadas empenhadas, tão somente, em abrir
clareiras no denso terreno do pensamento autorizado.
Mais tarde, vieram Roland Barthes e Amálio Pinheiro (o primeiro com O Prazer do Texto e o
segundo com as apresentações dos escritores Severo Sarduy e Alejo Carpentier). Ambas as
parelhas alcançaram o imo do problema, condensado no excerto de Barthes (1973:14). A respeito
de Sarduy, diz o francês: em Cobra”, de Severo Sarduy (...) a alternância é a de dois prazeres em
estado de sobrelanço (...). A língua se reconstrói alhures pelo fluxo apressado de todos os prazeres
da linguagem. Redundância, sobejo, momento em que por seu excesso o prazer verbal sufoca e
oscila na fruição (ibidem). Assim, como faz Carpentier
14
:
13
Em Borges (2008: 10): sonhei, insuportavelmente, com um labirinto exíguo e nítido: no centro havia um
cântaro; minhas mãos quase o tocavam, meus olhos o viam, mas tão intrincadas e perplexas eram as curvas,
que eu sabia que ia morrer antes de alcançá-lo.
14
Na obra Concerto Barroco. Tradução de Josely Vianna Baptista. São Paulo, Companhia das Letras, 2008.
Experiência comparável aparece em Haroldo de Campos (apud Cesarotto:2001, 190), com seu passatempos
e matatempos. Embora, para a rapsódia, tenha efeito mais apropriado a noção de palavra portmanteau,
ideada por Lewis Carroll (apud Eisenstein, 1990:15): o encanto do efeito portmanteau é construído com base
na sensação de dualidade que existe na palavra formada arbitrariamente.
(...) tinha estourado o carnaval, o grande carnaval da Epifania, em amarelo-laranja
e amarelo tangerina, em amarelo-canário e em verde rã, em vermelho-romã, vermelho
de pisco-de-peito-ruivo, vermelho de caixas chinesas, trajes axadrezados em anil, e
açafrão, laços e rosetas, listras de pirulito e de pau de barbearia, bicórnios e plumagens,
furta-cor de sedas metido em turbamulta de cetins e fitas, turquices e mamarrachos, com
tal estridor de címbalos e matracas, de tambores, pandeiros e cornetas, que todas as
pombas da cidade, num só vôo que por segundos enegreceu o firmamento, debandaram
para margens distantes.
De todo o dito, desconcerta-me a abrupta efervescência de heterogeneidades simultâneas e
contíguas, não dependentes diretamente de um centro ou substância unidirecionais (Pinheiro, 2004).
As experiências hipermidiáticas, num pronto, surgem como suporte para a irradiação de
subjetividades, na medida em que operam com relações dialógicas iminentes, com sempre-
germinativos. O campo da vida da linguagem, sob a perspectiva de Bakhtin, é sua existência
concreta e viva. Existência, por fim, que só adquire unidade de sentido no ser humano responsável
15
(Bakhtin, 2003:XXXIII).
Ao fim e ao cabo, a semiótica peirceana surge menos como arremate que como diapasão.
Sua arquitetura filosófica conta, antes, de (re) conciliar certa maneira de ver o mundo, clivada
desde o bojo ou a começar pela promoção do pensamento cartesiano. Por que foi quando uma
infantaria saltou das mais diversas agências de pensamento, com a ficha antropométrica do homem
em riste. Nietzsche matou Deus e, automaticamente, nos despejou para fora da abóbada-casa
celeste. Morin se recusou a exilar o que havia de complexo no mundo. E se contávamos com um
Daí, diz trecho de Haroldo: passatempos e matatempos eu mentoscuro pervago por este minuscoleante
instante de minutos instando alguém e instado além para contecontear uma estória scherezada scherezada
uma estória milnoitescontada então o miniminino adentrou turlumbando a noitrévia forresta e um drago
dragoneou-lhe a turgimano com setifauces furnávidas (...).
15
Arte e vida não são a mesma coisa, mas devem tornar-se algo singular em mim, na unidade da minha
responsabilidade (Bakhtin, 2003, XXXIV).
fardo sem tamanho, descobrimo-nos o centro do universo, mas, a maneira do torto (e não do direito),
como corpo nuclear do conflito.
Tudo o que aqui se apresenta é um grande ensaio, à moda de transitoriedades,
fragmentações e devires. O que explica, certa maneira, o número de notas derramadas ao longo das
páginas. Grande parte sobreviveu à última revisão em tributo ao raciocínio distraído, as costuras
inopinadas, ao caldeamento das idéias. São, em vasta medida, consequência daquilo que Genette
(2006) chama também - de intertextualidade ou a notação dos diálogos principiados com outros
autores. É, por fim, o espaço particular para onde possíveis urdiduras são encaminhadas. O leitor
com mais vocação (por ser mais talentoso ou mais empenhado) poderá pesquisar relações não
desdobradas no corpo central da pesquisa, conforme uma ou outra amarra despertar-lhe a simpatia.
No capítulo 1, Hiper-hiatos: a construção do sentido por meio do intervalar, assistimos ao
assentamento do cientificismo classificatório, apofântico e sua tradução material, física no território
alemão de Colônia.
No capítulo 2, Linguagem e co-afetação: semiótica e razão orgânica, avaliamos a natureza
viva do pensamento, sua inaptidão para o dobrar-se diante do saber compartimentado; além do
comportamento sígnico visto pelo seu tronco comum: a noosfera. Investigamos, ainda, a
fenomenologia peirceana como ausculta comprometida com o objeto, método de observação
ancorado na experiência, antevisão para qualquer forma de conhecimento.
Por fim, no capítulo 3, Superfícies de Inscrição: A experiência de Valetes em Slow Motion,
lançamos mão da aventura literária para nos aproximar de estados nos quais a cadeia lógica do
pensamento crepita. Quando, então, partimos para o trabalho do videoartista Kiko Goifman e
avaliamos a possibilidade de irrupção do icônico na consciência esclarecida da ciência propositiva.
1.
H
IPER
-
HIATOS
:
A CONSTRUÇÃO DE SENTIDO
POR MEIO DO INTERVALAR
P
ARTE
I:
C
OMPENDIAR
1.1.
PENSAR NÃO É UM AUTO
-
DE
-
A
RELATIVIDADE DO TEMPO DE
E
INSTEIN É UMA REFORMA NA
S
EMÂNTICA
,
E NÃO NA
M
ETAFÍSICA
.
P
HILIPP
F
RANK
N
a década de 1960, o filósofo e sociólogo americano, Theodor Nelson teria cunhado, pela
primeira vez, o termo hipertexto. Anunciara, profético, certa feita: as idéias não precisam ser
separadas nunca mais (...) Assim, eu defino o termo hipertexto simplesmente como escritas
associadas não seqüenciais, conexões possíveis de seguir, oportunidades de leitura em diferentes
direções (Nelson apud Leão, 2005:21).
Plano diverso havia sido arquitetado por Ele, milênios antes, quando nos puniu passado o
Dilúvio – com a pluralidade de línguas. Por que os povos da Terra quiseram dominar o que não lhes
era de direito, os céus, Deus deu por bem confundir-nos o idioma adâmico. Assim estaríamos
impedidos de trabalhar em concerto, de modo que o multiplicaríamos nossos poderes (Manguel,
2006:25).
De fato, se compartilhantes do mesmo código lingüístico, por extensão, haveríamos de
supor o universo como unidade cosmogônica. E, num raciocínio lógico sem grande custo, o chão
batido nos pertencendo, da mesma forma, o dossel celeste. O monoglotismo daria em um monólito
espacial indiviso. O que não deixa de ser tradução interessante, em que pese a justaposição de um
sistema sígnico verbal sobre dada extensão física. Voltaremos ao tema, oportunamente, quando
em 2008 - duas torres de 157 metros impedem que muçulmanos prestem honras a Maomé.
Outra narrativa que nos reserva a história, conta sobre a biblioteca de Alexandria, obra dos
reis ptolemaicos, construída no século III a.C. Sua origem é, em si, matéria para nota. Em Carta de
Aristeas, documento datado do século II a.C., o rei Ptolomeu I teria redigido “a todos os soberanos e
governantes da Terra” solicitando a remessa de todo tipo de livro de todo tipo de autor, “poetas e
prosadores, retóricos e sofistas, doutores e advinhos, historiadores e todos os outros também”
(Manguel, idem:27). Alexandria é o sonho da Babel pré-diluviana, arranjo unissonante das coisas do
mundo.
O Instituto Internacional de Bibliografia, fundado nos anos 1930 por Paul Otlet e Henri de La
Fontaine, mantinha em vista à criação de um repertório bibliográfico universal, catalogando todas as
obras de todos os tempos, de todos os países, abrangendo todos os domínios, separados por
autores e assunto (Santaella, 2007:302). A fim de ordenar aquelas coisas do mundo, Otlet e La
Fontaine, aprimoraram o método de classificação decimal, ideado pelo americano Melvin Dewey.
Dewey, inclusive, nada obstante o capítulo tratar de nexos associativos, merece breve desvio,
conquanto seja parte indissociável do trajeto.
Em 1873, aos 22 anos, e insatisfeito com os métodos arbitrários de classificação, Dewey viu
nos decimais uma alternativa ao arranjo alfabético (de exemplares fiéis ao abecedário, sucedidos em
prateleiras) “sem nenhuma atenção aos temas”. A vantagem do método
16
, segundo Manguel
(2006:58), consiste no fato de que cada divisão pode ser submetida a incontáveis divisões ulteriores.
O próprio Deus pode ser subdividido em seus atributos e avatares, e cada atributo ou avatar pode
sofrer outras fragmentações.
Então, Ele, que o tem nome, ainda assim foi convertido em frações litúrgicas, todas elas
expositoras da Sua nova raia espectral. Uma vez auferida certidão de nascimento ao Uno, uma vez
apontado o Panóptico, o ser do / no pensamento pode restabelecer o vínculo entre o gozo íntimo e a
imensidão intraduzível. Na sua Poética, Aristóteles (1999:40) a esclarecer: o aprendizado apraz
não só os filósofos, mas também aos demais homens, embora a estes ele (o prazer) seja menor. Se
olhar as imagens proporciona deleite, é porque a quem contempla sucede aprender e identificar
cada uma delas; dirão, ao vê-la, “esse é Fulano”.
Esse é Fulano, qual seja, um pronome demonstrativo (o que indica proximidade), um verbo
(classe gramatical designadora de ação e, por ora, também constituinte de elemento predicativo) e
Um Sujeito (Indeterminado, sim, ainda que Não-Oculto). Esse é Fulano que encana a torrente
sígnica que nos atravessa. Esse é Fulano, inscrita na vulgata gramatical, sentença relativamente
coesa e coerente de signos linguísticos (Santaella, 2007:285), dada à duplicação tanto quanto ao
armazenamento e, portanto, às operações da memória. Ou, para falar como Benjamin Lee Whorf
(apud Hayakawa, 1977:263), lingüista americano, a operação segue da seguinte maneira: um fluxo
caleidoscópico de impressões nos oferece à vista a Natureza (aqui como conjunto de coisas
presentes no mundo) e é organizado segundo os códigos que regem nossa língua vernácula.
16
Sobre a classificação decimal de Melvin Dewey, Braga (apud Santaella, 2007:303) informa: o universo das
coisas é dividido em dez classes principais numeradas de 0 a 9 e cada um deles é subdividido em outras dez
e assim sucessivamente, tanto quanto a precisão do assunto exija.
No artigo Cidade: imaginário de mil imagens, Ferrara (2000:37) adensa o tema: o
pensamento se constrói na construção da linguagem. Nosso exercício de conhecimento está ligado
às linguagens de que dispomos para o jogo reflexivo da razão (...). Portanto, tão abreviado o sistema
de signos que operam as mediações entre o eu e o outro (a Natureza), o restrita a capacidade
para tracejar novos mapas cognitivos. Incorpora-se ao exame, por ocasião da resenha The Works of
George Berkeley: A Edição de Fraser, autoria de Peirce (2005:329), em idos de 1901, o excerto:
nada que podemos conhecer ou mesmo pensar pode existir fora da mente
17
.
De modo que, a fim de desafiar a percepção receptiva é preciso fazer habitar - no
pensamento – mecanismos de desmontagem referencial (Ferrara, idem:41). O dentro como prolonga
do fora. Quando Cortázar (2006) diz, escrever é desenhar minha mandala e ao mesmo tempo
percorrê-la; Deleuze (1992:106) exclama, a lógica de um pensamento é o conjunto das crises que
ele atravessa, assemelha-se mais a uma cadeia vulcânica do que a um sistema tranquilo e próximo
do equilíbrio. Entre um e outro o inesgotável campo de significações abrigado nas possibilidades da
experiência, e sua incompatibilidade com o caráter das formas ideais e exatas da representação
(Basbaum, 2005:281).
Abordar ambientes hipermidiáticos por meio da palavra escrita requer cautela de maior
grandeza. O exame crítico e ponderado cuida para que o vigor investido não intente reproduzir o
quimérico de caracteres enlaçados, qual seja o cárcere do objeto no interior de um único signo
17
Ainda sobre o tema, Peirce (2005:45) considera como científica aquela inteligência cuja apreensão do
conhecimento nasce da experiência.
correspondente. Ocorre que a matriz verbal da escrita
18
, como grande representação do
pensamento analítico (Bairon, 2006:1), certo modo, opera como um sólido e inequívoco que se
encontra com o fluído e ambíguo, apenas para se despedir. A identidade impiedosamente rígida que
fixa um objeto (Adorno, 2003:48), representada simbolicamente por alguma uniformidade fastidiosa,
não esgota a natureza. Um amálgama de matrizes, ao contrário, favorece o conluio entre inequívoco
e ambíguo, ao oferecer a experiência, antes, com o objeto que com o conceito.
P
ARTE
II:
E
SPACEJAR
2.1.S
UPERFÍCIES
M
ANDALA
:
D
IÁLOGOS ENTRE O
E
SPAÇO E O
I
MAGINÁRIO
De acordo com Leão (2005:33), a topologia estuda as propriedades que permanecem
inalteradas quando as formas se modificam ao serem submetidas a torções, dilatações ou
compressões. Santaella (2007:157) relembra que a palavra grega topos, a denotar área, província
ou lugar ocupado por algum objeto, entre outras acepções, figura entre as mais antigas do Ocidente.
Certa altura do seu A Sociedade em Rede, Castells (1999:435) pergunta-se: o que é espaço? Sem
demora, lança mão do best-seller David Harvey, quando do seu brilhante A Condição Pós-Moderna:
sob uma perspectiva materialista, podemos argumentar que concepções temporais e espaciais
objetivas são necessariamente criadas por meio de práticas e processos materiais que servem para
reproduzir a vida social... Um axioma fundamental de minha investigação é que o tempo e o espaço
não podem ser entendidos independentes da ação social. Daquele modo, conclui Castells: do ponto
de vista da teoria social, o espaço é o suporte material de práticas sociais de tempo compartilhado.
18
O caso se aplica, fundamentalmente, às línguas escritas alfabéticas. Já escrita ideogramática, por exemplo,
guarda relação distinta entre representação e objeto representado. Há uma espécie inacabamento original no
que toca aos grafes do sistema ideográfico. Ao caráter pictográfico deve-se uma forma particular de
organização do mundo que, por sua substância diagramática, recupera a dimensão icônica do objeto a que se
refere. Sobre o tema ver Campos, 2000.
Note-se que uma variedade de pontos implicados no parágrafo acima, todos eles de
grande valia para a nossa análise. Cumpre registrar que entre a aparição do termo hebraico makon
no Gênesis, a significar espaço, e o sentido atribuído por Castells, permanece um amplo campo de
outros sentidos e aplicações
19
. Por ora, fundearemos a atenção no uso feito por Castells/Harvey,
com o propósito de examinar a submissão de certa extensão física ao raciocínio monocórdico. Agora
mesmo, recordando Bolter (1997:105): a escrita é sempre espacial
20
. A lógica do hipertexto força o
autor a redefinir o texto em duas ordens de significação distintas. Primeira delas, intrínseca e
aludindo ao encadeamento dos elementos visíveis na tela. A segunda, extrínseca e atenta a
preservação das possibilidades de sentido para aquele que lê. Dizemos, então, que o hipertexto
quando obriga a desmontagem do modo habitual de entendimento da informação (Landow, 1995:3)
– coopera para a compreensão de arranjos sígnicos (sócio-culturais, inclusive) singulares. Não
ignoremos que o hipertexto é, ainda, a radical reduction to a schematic visual code of what was
originally a complex physical and intellectual experience engaging 5 senses (ibidem). O que se quer
é iluminar ambientes hipermidiáticos como espaços de reintegração sensória e submeter o
entendimento à potência que lhe natural.
Edição de 24 de setembro de 2008, seção Internacional da revista Isto é, assim, em caixa-
alta: TEMPLO DA DISCÓRDIA. No lead, lia-se: embora 12% da população de Colônia, na
Alemanha, seja muçulmana, construção de mesquita acirra manifestações de intolerância.
19
Ver Santaella, 2007.
20
Consideremos, em acordo com Bolter (ibidem), pensar o hipertexto as a method for exploring the visual and
conceptual writing space presented to us by computer technology.
128 anos, uma catedral gótica, cuja construção ocupou mais de seis séculos do
calendário alemão, ostenta duas torres de 157 metros de altura no horizonte da cidadela de nome
Colônia. Já dois minaretes de 55 metros, 3 quilômetros distantes da catedral, assistiram a 3 anos de
manifestações a favor e contra, desde que o Conselho da cidade decidisse aprovar a obra.
A contenda alinhou, em laçadas fronteiras, os líderes do movimento Pró-Colônia (que no
estandarte exibiu o letreiro Conferência Antiislamização) e os religiosos da Ditib (União Islâmica
Turca). Os primeiros consideraram a edificação da mesquita um gesto de “humilhante islamização
da Europa”. Os segundos, por sua vez, redargüiram: “os muçulmanos estão em Colônia mais de
40 anos e ainda rezam nos fundos de suas casas” (Villaméa, 2008:96-97).
A grande extensão de terra, tornada propriedade religiosa, assinala um processo de
antinaturalização do espaço físico, previsto desde o Gênesis
21
. O terreno culturalmente habitado deu
origem a discursos dissonantes: lá, entre o homem e Deus e aqui, entre um e outro de filiação
simbólica distinta. O tema, em que pese o vastíssimo rol de abordagens possíveis
22
,desemboca em
águas de todo turvas e margeia nossas discussões sobre fluxo da informação
23
versus códice
24
.
21
O episódio da Torre de Babel é encontrado no capítulo 11 do Gênesis, livro integrante do Antigo
Testamento.
22
Os estudos de Lótman (1922 - 1993), sobretudo os desdobramentos do seu conceito de semiosfera, dão a
ver uma série de perspectivas de análise. No artigo As Esferas da Interculturalidade, Mohammed Elhajji (in:
Machado, 2007:205), medita sobre a questão da interculturalidade enquanto interseção (harmoniosa ou
conflituosa) de referenciais e sistemas simbólicos distintos e seu compartilhamento (conjuntural, voluntário,
espontâneo ou imposto por meio de estratégias ideológicas e discursivas) por grupos sociais humanos e
diferenciados; a luz de conceitos concomitantes e aparentados de noosfera e semiosfera.
23
A maneira de Amálio Pinheiro, com a qual se ajusta a autora: abrupta efervecência de heterogeneidades
simultâneas e contíguas, não dependentes diretamente de um centro ou substância unidirecionais (Pinheiro,
2004).
24
Texto, como no livro, mantido na sua natureza monosemiótica (Santaella, 2007:287)
De que maneira?
As circunstâncias que envolvem a cidade de Colônia nos ajudarão a pensar a hipermídia
como um lugar onde relações lógicas e formais são entremeadas por contextos estéticos. O que
de partilhável entre o território alemão e o ambiente hipermidiático não é evidente. O entre um e
outro, sobre o qual nos debruçaremos, corresponde à noção de espaço. Não passarei ao largo da
advertência que indica a semiótica da cultura como diapasão mais apropriado para o exame de
interseções, evidentemente, culturais.
A manobra que se pretende aqui, todavia, é comparável aquela operada pela transdução, no
campo da biologia: transferência de material genético entre bactérias. Co-afetação entre abordagens
intradisciplinares, com vistas à dobra de padrões interpretativos habituais. Os prognósticos, todos
eles endógenos (por que nascidos das exigências internas do objeto), ocuparão o papel de vigilância
epistemológica: assertivas, produtos de contágio entre idéias e autores, estarão sempre
acompanhadas de salvaguarda teórica.
Por ora, basta que se acorde a atenção para o veio fenomenológico do exercício: abrir os
olhos do espírito, olhar bem os fenômenos e dizer quais suas características, quer o fenômeno
pertença a um sonho, ou uma idéia geral e abstrata da ciência (Peirce, 1980:17). Adianta-se que a
fenomenologia, quando levada para dentro do ciberespaço (e,especialmente, para o interior de
ambientes hipermidiáticos), sofre complicações sui generis (não a abordagem ser custosa por
natureza). Allucquère Rosanne Stone (1991), no seu artigo Will the real body please stand up,
antecipa:
Penetrating the screen involves a state change from the physical biological space of
the embodied viewer to the symbolic, metaphorical “consensual hallucination” of
cyberspace; a space that is a locus of intense desire for refigured embodiment.
Na esteira das discussões sobre o agenciamento homem e máquina, interessa-nos o
específico da mudança perceptiva, tornada possível pelo hibridismo do humano com algo,
maquínico-informático, que estende o humano para além de si (Santaella, 2007:38). É, pois, na
relação interator e hipermídia que a cadeia de sentido não se prefigurada; via inversa, privilegia a
conglutinação de diferentes matrizes da linguagem, abrandando ao fim e ao cabo as
particularidades que as caracterizam.
À perspectiva ocidental deveu-se a concepção do espaço como lugar mensurável, herança
renascentista
25
, dado ao cálculo inequívoco da razão humana. Toda superfície, portanto, deixaria
entrever o traçado euclidiano
26
, determinado por pontos, retas, ângulos e outras definições da
geometria plana elementar. Onde quer que o olho humano assente há de descobrir seu duplo (em
bosquejos de profundidade e volume), feito decalque imaginário, sobre o conjunto de limites físicos
determinados.
A geometrização do espaço, empreendida pelo Renascimento, permite a antevisão de, pelo
menos, dois decursos. Em primeiro, ao matematizar a dimensão espacial, ela deixa de responder
por simples continente ou idéia inata (Ferrara, 2007:11) e passa a constituir representação. Em
segundo, sendo representação, é recorte do objeto (Ferrara, ibidem), produto de uma seleção,
25
O Renascimento (e a representação do espaço por meio de linhas e pontos) não só assinala a emergência
do espaço como experiência sensível, mas, sobretudo estabelece sua dimensão representativa através do
desenho como matriz gráfica. (Ferrara, 2007:12).
26
O tratado Os Elementos, autoria de Euclides de Alexandria, cuja datação provável é 300 a.C., consiste
numa das obras mais examinadas (por matemáticos e filósofos), no que diz respeito ao estudo elementar da
geometria.
parcialidade. A articulação triangular entre arte, tecnologias digitais e ciência ocidental pretende que
aquela condição pseudomimética (Uno) seja substituída pelo conceito de lacuna: a mesma que
separa o Um de si mesmo pela palavra paralaxe (Zizek, 2008:18).
De acordo com o crítico e historiador da arte, Erwin Panofisky (apud Okano, 2007:205), a
perspectiva pensaria o espaço como estrutura infinita, homogênea e imutável, qual seja a tradução
do espaço psicofisiológico em matemático, ou ainda, objetivação do subjetivo. Em linhas gerais, o
exercício de abstração espacial foi entornado para dentro do espaço concreto, de maneira a
tornarem-se tal qual, para além da experiência fenomenológica. Bachelard (1996:7), aliás,
contemporâneo de Panofisky, nas primeiras do seu A Formação do Espírito Científico, assinalou a
arremetida (do real ao simbólico), quando traçando exame acerca do geométrico da representação e
suas conseqüências sobre o conhecimento científico:
O pensamento científico é (...) levado para construções” mais metafóricas que
reais, para “espaços de configuração”, dos quais o espaço sensível não passa, no fundo,
de um pobre exemplo. O papel da matemática na física contemporânea supera, pois, de
modo singular, a simples descrição geométrica.
O matematismo já não é descritivo e sim formador. A ciência da realidade já não se
contenta com o como fenomenológico; ela procura o porquê matemático. (grifo
nosso)
Aos espaços de configuração coube a tarefa de advogar o destino do avatar deífico
maometano. O prefeito da cidade de Colônia, Fritz Schramma, votou pela construção da mesquita,
mas, não antes de dar a ouvir opinião singular: é evidente que os muçulmanos precisam de um lugar
atraente para rezar. Por outro lado, me incomoda o fato de pessoas viverem aqui décadas e não
falarem uma única palavra em alemão (Villaméa, ibidem).
O testemunho, como discurso, entrelaça duas visões de mundo distintas, ainda que o
isoláveis, por que subordinadas uma a outra pelo caráter condicional. Se parece evidente e
necessária, primeira vista, a criação de um espaço (1) para as preces maometanas, no espaço (2)
da cidade alemã; breve exame posterior revela que, para tanto, seria apropriado que em espaço (2)
territorial germânico, muçulmanos adotassem código lingüístico vernáculo, embaraçando
sobremaneira – ambos os espaços (1 e 2), tornados um, qual seja, homogêneo e imutável.
Quando, para fora da ortogonalidade renascentista, pensamos o espaço
27
na sua dimensão
fenomenológica (signo, portanto, dado à representação), nos deparamos com uma estrutura de
caráter palimpsestual (que não subordina o tempo à regência verbal), polissêmica, formada por
miríades de possibilidades e ancorada na lógica da imanência (versus lógica da inerência), qual uma
invariável complicação de binaridades
28
. uma figura como a do livro natimudo
29
, em Pound,
desvela a substância simbolóide
30
da escrita alfabética, pondo a nu seu corpo tabular, cuja natureza
de códice repousa entorpecida entre capas e atacas. Em Genette (2006), para não deixarmos
escapar a lembrança, o palimpsesto figura como sinônimo do hipertexto. Recupera o autor, ainda, o
27
De acordo com Ferrara (2007:12): conhece-se através de representações e o espaço é conhecido através
das construtibilidades que o representam, desse modo, proporção compositiva, construção e reprodução
constituem representações do espaço que, embora parciais, constituem possibilidades de apreendê-lo
enquanto experiência fenomênica passível de operação cognitiva.
28
Peirce (2005:23) chama complicação de binaridades ao conjunto de experiências passadas que
determinam a razão. Todo fato que se apresenta ao pensamento humano é um fait accompli, ou seja, um
pretérito que determina a esteira de pensamentos. Força bruta que supõe não apenas dois objetos
relacionados, mas dois objetos que podem ser pensados juntos, de tal forma que nenhum deles poderia
ser removido sem destruir o fato que se supõe ser verdadeiro quanto ao outro.
29
Fragmento do poema Envoi (1919), cujo verso diz assim, segundo tradução de Augusto de Campos: Vai,
livro natimudo, / E diz a ela /Que um dia me cantou essa canção de Lawes: / Houvesse em nós / Mais canção,
menos temas, / Então se acabariam minhas penas, / Meus defeitos sanados em poemas / Para fazê-la eterna
em minha voz (...).
30
Tendo deslocado a questão para o campo da semiótica, recupera-se terminologia de Peirce, a fim de
designar a função homologatória da escrita... (apud Campos, 1977:40).
bricoleur de Lévi-Strauss (1989) para determinar o domínio daquele outro tipo de transtextualidade
31
ou a prática de fazer o novo com o velho. Textualmente, a definição do antropólogo diz assim:
(...) seu universo [o do bricoleur] instrumental é fechado, e a regra de seu jogo é
sempre arranjar-se com os meios-limites”, isto é, um conjunto sempre finito de
utensílios e de materiais bastante heteróclitos, porque a composição do conjunto não
está em relação com o projeto do momento nem com nenhum projeto particular mas é o
resultado contingente de todas as oportunidades que se apresentaram para renovar e
enriquecer o estoque ou para mantê-lo com os resíduos de construções e destruições
anteriores.
Assim, todo o universo do bricoleur está ancorado em uma coleção já constituída (de
matérias-primas e ferramentas, por exemplo): o seu tesouro. A nova organização, qual seja, o seu
não-projeto, dependerá – antes – de um inventário das qualidades secundárias (second hand,
segundo notação do próprio autor): ele cria estruturas a partir de fatos. O hipertexto, como
concatenação transitória de um estado de coisas não-hierárquico, corresponde bem à forma que
contorno ao bricolage. De outro ângulo, que não aquele recortado por Genette, destacamos a
comparação que Lévi-Strauss estabelece entre o bricoleur e o cientista: o pensamento mítico, esse
bricoleuse, elabora estruturas organizando os fatos ou os resíduos dos fatos, ao passo que a
ciência, “em marcha” a partir de sua própria instauração, cria seus meios e seus resultados sob a
forma de fatos, graças às estruturas que fabrica sem cessar e que são suas hipóteses e teorias
(grifos nossos).
2.2. I
NTERLÚDIO
Em meados de 2003, por indicação de Sérgio Sálvia Coelho, então crítico teatral do
periódico Folha de São Paulo, fui assistir ao monólogo A Poltrona Escura. O espetáculo, composto
por três novelas de autoria do italiano Luigi Pirandello, contou com exímia atuação de Cacá Carvalho
31
São cinco os tipos de transtextualidade ou tudo o que o coloca [o texto] em relação, manifesta ou secreta
com outros textos, segundo Genette (2006:7): intertexto, paratexto, metatexto, hipertexto e arquitexto.
e direção sem redundâncias de Roberto Bacci. Diante da experiência, dias passados, voltei ao
crítico com a seguinte indagação, já antecipada nos nossos preâmbulos: seria possível que a
materialidade do texto declamado concorresse com a experiência, igualmente, concreta do corpo
cênico?
Por qualquer razão não houve revide. Lembro-me, com o proveito de nunca ter esquecido, de
que sequer a dúvida foi considerada relevante. E a suspeita permaneceu quatro anos a descoberto.
Diria Silvio Ferraz (apud Bairon, idem:14), no segundo prefácio
32
da obra: um solfejo não nasce
da partitura, das escalas musicais, mas da imaginação de escalas de sons. Meu impulso
classificatório: herança da obsessão gramatical, exterminados dicionário feito crucifixo - todos os
solecismos. Então, desacerto, falso juízo, engano, erro. Segundo notação lexicográfica, desvio em
relação a variedade padrão de uma língua. Pondo a nu o que diz o dicionarista, a idéia de incorreção
pode ser medida pela escolha de um vocábulo, por exemplo, que habite o fora de certo conjunto
oficial de outros vocábulos; estes sancionados pelos dignatários da ortofonia. Quando, não raras
vezes, é preciso transcorrer qualquer coisa que diga a voz, que insinue o desenho do corpo no ar, o
diagrama etéreo que o sentido força contra a nossa percepção.
O que dizer dos deslocamentos metonímicos de Haroldo de Campos, todos eles excedidos para
além da linha, grafemas imbricados, folgança ruidosa de fonemas mal-costurados às fibras do papel.
Apresenta o trecho, do mesmo modo, o autor. Vou lê-lo, ou melhor, vou dá-lo, de seu escrito, a
ouvir:
32
O primeiro tem autoria de Olgária Matos.
(...) passatempos e matatempos eu mentoscuro pervago por este minuscoleante
instante de minutos instando alguém e instado além para contecontear uma estória
scherezada minha fada quantos fados em cada nuga meada noves fora fada
scherezada scherezada um história milnoitescontada(...)
As palavras portmanteau
33
de Campos não participam do nosso estado de consciência
esclarecido (...), caracterizado por conceitos gerais (Adorno, 2003:48). Via inversa, fazem crepitar a
cadeia lógica do pensamento. Aqui está o ponto nevrálgico do capítulo: perquirir, no interior de
ambientes hipermidiáticos, lugares de congeneridade entre sujeito e o objeto do conhecimento.
Congeneridade, aqui, cumpre função particular e evoca sobremaneira a relação entre Signo
e Objeto
34
. De acordo com Peirce (2005:47): todo Signo tem, real ou virtualmente, um Preceito de
explicação segundo o qual ele deve ser entendido como uma espécie de emanação, por assim dizer,
de seu objeto. Ora, se todo Signo carrega consigo um conjugado de significados possíveis (que,
para o Signo, na relação consigo mesmo, implica em sua totalidade), logo, todo Objeto está contido
no Signo que o representa
35
. Daí, buscar qualidades de congênere entre o sujeito da experiência e o
objeto é, simplesmente, auscultar a máxima peirceana: signo é algo A, que denota algum fato ou
objeto B, para algum pensamento interpretante C (apud Santaella, 2008:78).
A prática, como exercício da sentença logo acima, me parece possível por ordem da irradiação
de campos de possibilidades, modalidade do signo estético, monádico e desimpedido de prestar
33
O termo, criação do escritor Lewis Carroll (apud Eisenstein, 1990:15), tem em vista dois significados
colocados em uma palavra, como se a palavra fosse uma mala portmanteau. Segue Carroll: pegue duas
palavras, “terrível”e “horrível”. Decida que dirá as duas palavras, mas não decida qual dirá primeiro. Agora
abra a boca e fale. (...) se você tem o mais raro dos dons, uma mente perfeitamente equilibrada dirá “torrível”.
34
Para efeito didático, a cada Signo corresponderá um único Objeto. (Peirce, 2005:47).
35
Se um signo representa um objeto, então, necessariamente, ele (o signo) afeta uma mente (Peirce apud
Santaella, 1983:58).
referência direta a algo externo (Santaella, 1994:178). Ao fim e ao cabo, nos ocupamos em carregar
o ícone para dentro da articulação sígnica do constructo científico: reconciliação entre o homme de
lettres e o artista, mediada pela única certeza de não haver palavra que se baste a si mesma
36
.
Urdiduras comunicacionais multimidiáticas reivindicam novas aventuras do pensamento
37
.
De sorte que quando a cadeia lógica da razão, antes catequizada pela matriz verbal, subtraídos
seus velhos algoritmos, deixa forçosamente - florescer outras formas de inteligibilidade. Os meios
de comunicação, quase duas décadas (ou desde o advento da World Wide Web
38
, em 1991),
inauguram experiências dialógicas inéditas, que atravessam de maneira fundamental uma nova
relação entre a imagem e a linguagem (Queáu apud Parente, 2001:91). Ambientes hipermidiáticos
convidam a Comunicação, como disciplina e como objeto de estudo, a por em cena certa releitura
teórica do conhecimento científico (Bairon, 2006:2) através de vetores de sentido não-lineares.
36
(...) sempre lidar com a insuficiência das palavras, como na formulação de Claudel: “há um azul do céu que
é tão azul que só o sangue é mais vermelho. Olgária Matos apud Bairon, idem:11).
37
Em Rosenstiehl (apud Leão, idem:46), o labirinto (metáfora usual que da conta da hipermídia como forma
de navegação cujo trajeto e intrincado) não e uma arquitetura, uma rede no sentido de quem o projeta e o
concebe, mas o espaço que se desdobra diante do viajante que progride, sem mapa na própria rede.
38
WWW representa a associação entre a Internet (nascida em 1969) e os arranjos hipertextuais (Leão,
idem:23).
P
ARTE
III:
H
IPERMEDIAR
3.1.
P
AUSA DE
S
EMIBREVE
:
O
F
RÊMITO DA
D
ESCOBERTA
P
OIS O ACONTECIMENTO SINGULAR NÃO É SIMPLESMENTE UMA TEIMOSA RESISTÊNCIA CONTRA A ABRANGENTE UNIVERSALIDADE DO PENSAMENTO
,
MAS TAMBÉM O MAIS ÍNTIMO ANSEIO DO PENSAMENTO
,
A FORMA LÓGICA DE UMA EFETIVIDADE NÃO MAIS CERCEADA PELA DOMINAÇÃO SOCIAL E
PELO PENSAMENTO CLASSIFICADOR QUE NELA SE BASEIA
:
A RECONCILIAÇÃO DO CONCEITO COM SEU OBJETO
.
Adorno
O vaticínio de Theodor Nelson, a Babel do Gênesis, os inextrincáveis meandros de
Alexandria, o Mundaneun de Otlet... Tudo parece conforme as considerações de O Método IV. Diz
Morin (1991:95): renasce constantemente, na história do pensamento, a concepção do mundo
sobre-real da Idéia ou do Número, que determina e guia nossa realidade. Se quando todo
conhecimento impresso é senão uma maneira de organizar o real e não o próprio real.
Quando e por que da vontade de ordenação humana subordinar, rédeas tão curtas, o real
do qual se alimenta. Ou quase
39
como quer Maffesoli (2007:36), ao meditar sobre certo acidente na
mecânica humana, nessa espantosa inversão que faz com que as coisas passem a dominar aqueles
que deveriam ser seus possuidores. Quando e como, via inversa, do homem genérico ao
hipercomplexo
40
e, a reboque, do verbo escrito à lógica hipertextual. Daremos cabo de um diminuto
quinhão do nosso empreendimento.
De modo oblíquo, um esboço da noção de hipertexto.
39
O advérbio quer fazer recordar a noção de fato, em Peirce, como fait accompli. De modo que todo nosso
conhecimento futuro parece, de alguma maneira, já determinado por modos de significação contidos no signo.
Daí, o homem não possuir as coisas, por ser o senhorio irrealizável.
40
As idéias de homem genérico e hipercomplexidade foram partilhadas da obra O Enigma do Homem: Para
uma Nova Antropologia, Morin, 1975.
3.2.
N
O
P
RINCÍPIO ERA O
V
ERBO
.
E O
V
ERBO SE FEZ
C
ARNE E
H
ABITOU ENTRE NÓS
Q
UE QUIMERA SERÁ
,
ENTÃO
,
O HOMEM
?
Q
UE NOVIDADE
,
QUE MONSTRO
,
QUE CAOS
,
QUE TEMA DE CONTRADIÇÃO
,
QUE PRODÍGIO
!
J
UIZ DE TODAS AS COISAS
,
IMBECIL MINHOCA
;
DEPOSITÁRIO DE VERDADE
,
CLOACA DE INCERTEZA E DE ERRO
;
GLÓRIA E REFUGO DO UNIVERSO
.
Q
UEM DESLINDARÁ ESSA EMBRULHADA
?
P
ASCAL
Em seu livro 62 Modelo para armar, o escritor Julio Cortazar adverte: o silêncio é uma
cabine de conferências. A hipermídia, em igual monta, opera seus espaços vazios como Gestalt
41
ou
unidades de percepção (Plaza, 2000:27). O intervalo ou o entre é a realização de temporalidades.
Não por que o entreato seja, necessariamente, semântico (como lugar de um sentido unívoco). Mas,
por que é, necessariamente, semantizante (ou resultado de deslocamentos de sentido operados
pelo interator). Sobre o tema, e tantas vezes a arte prediz a ciência, Pollock anuncia o verso (ou o
certo) da sua condição ontológica: eu não pinto a natureza, eu sou a natureza.
Um ambiente hipermidiático é, grosso modo, a combinação entre a lógica do hipertexto e a
trama de formatos multimidiáticos (quais sejam, textos, imagens, sons, vídeos, entre outros).
Caracteriza-se, sobretudo, pela hibridização de linguagens. Pode ser (e aqui eu uso o condicional
por que aparatos tecnológicos não têm ontologia. Dependem, ainda, de um sujeito interator. O termo
interação é muitíssimo controverso. Interagir envolve ação mútua. O que nos remete,
imediatamente, às questões sobre intersujetividade. E a intersubjetividade, por sua vez, foi um
problema para Sartre, Husserl, Merleau-Ponty, Heidegger e, igualmente, para nós no interior da
discussão sobre novas mídias. O intersubjetivo, por ordem da hipermídia, poderá se pensado em
41
Pode-se reunir à noção de Gestalt os estudos de Eisenstein sobre a montagem cinematográfica. Diz o
russo: a representação A e a representação B devem ser selecionadas entre os muitos possíveis aspectos do
tema em desenvolvimento, devem ser procuradas de modo que a justaposição (grifo nosso) isto é, a
justaposição destes precisos elementos e não de elementos alternativos - suscite na percepção e nos
sentidos do espectador a mais completa imagem deste tema preciso. (Eisenstein, 1990:49)
outra ocasião - como alternativa à relação funcionário-aparelho inscrita na Filosofia da Caixa Preta,
série de ensaios de Vilèm Flusser).
Retomando. Um ambiente hipermidiático pode ser um lugar onde relações lógicas e formais
são convertidas em contextos estéticos. Exemplo notório (e anterior à interpretação tecnológica do
conceito, ante-sala para o raciocínio paratático) são as Esferas, trilogia assinada pelo filósofo
alemão Peter Sloterdijk (2003, 2004). Curioso notar como as escolhas do autor proscrevem a mera
coordenação de letras no papel, ainda que transmitidas pela escrita alfabética. São diversos os
recursos que poderiam ser apanhados ao longo da obra: abordagem diacrônica (quando Bosch e
Cindy Sherman acenam para questões análogas, nada obstante o despenhadeiro cronológico),
construções metafóricas (as espumas como habitação do sujeito contemporâneo), observações
irônicas (e Gaston Bachelard no papel de topófilo)
42
...
Como descorporificar um conceito científico?
O corpo do conceito é pensado na sua dimensão de letra. O sistema verbal adestra-nos a
identificar (e na falta, reclamar) uma ordem hierárquica, em que o complemento é precedido pelo
predicado e este, pelo sujeito. Trata-se da instituição de um modo de pensar, certa maneira de fazer
enxergar o entorno, na diacronia de uma régua datada. Como visualidade, a ambiência
hipermidiática é uma forma de inteligibilidade e de representação do conhecimento. Como
visibilidade, e a partir da perspectiva do cientificismo ocidental, é lugar de duplicação da
subjetividade (na medida em que convoca o repertório do sujeito que navega), logo, espaço de
tensão entre signo e sintaxe.
42
A repetir: el espacio, el gran espacio, es el amigo del ser... (apud Sloterdijk, 2003:29).
O objeto da comunicação anda indomesticável! Não se aquieta diante do flash que pretende
(i) maculá-lo para a eternidade. Bourdieu, citado por Ferrara (2008:2) alertou:
Como é possível que a actividade científica, uma actividade histórica, inscrita na
História, produza verdades trans-históricas, independentes da História, fora de qualquer
relação com o lugar e o momento, portanto eterna e universalmente válidas?
Teorias nascem e morrem a fim de apaziguar as inquietações de determinada época. O
vazio, entretanto, sempre foi compelido a falar. Nunca pôde ser vazio, simplesmente. Por quê? Por
que a palavra é hierática. Ela salva. Ela nome. Identifica, classifica e arquiva. Bibliotecômanos,
seguimos inventando um mundo que possa caber em prateleiras, a fim de consultá-lo
oportunamente.
Assim, nossa impossibilidade de pensar um algo pode estar na inapetência para pensar sem
palavras. O lugar onde as coisas todas poderiam avizinhar-se é, hoje, para nós, um sítio sintático
inventado. Ele (o sítio) não está lá, propriamente. Mas, o fizemos miragem, um efeito óptico com
potência suficiente para preencher o vão. É, invariavelmente, um espaço deveras minguado para
tamanha vontade de abastança, própria do mundo.
O que sugere a hipermídia, ainda que timidamente, é pensar o mundo como metáfora. Que
nosso mapa para apreensão dos sentidos, portanto, considere o esforço que a metáfora faz para
gravitar sobre as informações imediatas. Nossa expedição não quer tocar o cântaro. Quer levar em
conta, também em Borges, que cada ato (e cada pensamento) é o eco de outros que no passado o
antecederam, sem princípio visível, ou o fiel presságio de outros que no futuro o repetirão até a
vertigem. Portanto, não pode ser deificado. O que implica não em procurar restabelecer a imagem
que se desfaz nas águas do espelho d’água, mas partir da imagem agitada, embaciada, como
provável esboço de uma nova condição
43
.
43
Está em Morin (1975:199) melhor afirmado: aquilo que hoje morre não é a noção de homem, mas sim uma
noção insular do homem, retirado da natureza e da sua própria natureza; aquilo que deve morrer é a auto-
idolatria do homem, admirando-se na imagem pomposa de sua própria racionalidade.
2.
L
INGUAGEM E CO
-
AFETAÇÃO
:
S
EMIÓTICA E A
R
AZÃO
O
RGÂNICA
P
ARTE
Ú
NICA
:
O
RGANIZAR AS
N
UVENS
48.
C
ABE SUSTENTAR ESSE DIÁLOGO VIVO COM O PRESENTE
,
QUE MANTÉM A TENSÃO DAS FRONTEIRAS LÍQUIDAS E ATÓPICAS DE UM TERRITÓRIO
INOBJETIFICÁVEL
(8’00’’)
67.
A
TÉCNICA É A PERCEPÇÃO DO
O
CIDENTE
.
N
OSSO MODO DE OLHAR AS COISAS
:
ENQUADRAR
,
FOCAR
,
SEPARAR
,
CONTROLAR
(11’10’’)
S
ÉRGIO
B
ASBAUM
,
90/15:
A OBRA DE ARTE NA ERA DO MUNDO SEM RUÍDO
2.1. E
SCANCARAR AS
J
ANELAS DO
E
SPÍRITO
E
xatos duzentos e sessenta anos separam a publicação da obra Discurso do Método
(1637), assinada pelo francês René Descartes (1596 1650), daquela declaração do filósofo e
matemático, Charles Sanders Peirce (1839 - 1914), quando teria constatado passadas três
décadas de semeadura - o tempo da colheita
44
. É no interior dessa fenda sináptica (grifo da autora),
marcada por mais de dois séculos, que acomodaremos algumas das questões preciptadas ao longo
da pesquisa.
Não nos ocuparemos, tanto quanto esclarecido durante a introdução, da reunião do
pensamento cartesiano, à maneira enciclopédica de apresentar o conhecimento. Em igual monta, as
contribuições científicas da arquitetura filosófica peirceana não serão aqui descritas miudamente.
Para ambas as empresas, considerável bibliografia encontra-se ao alcance dos interessados e, parte
das indicações de leitura, recenseada ao final do presente trabalho. Um e outro autor se
44
Em 1897, Peirce declarou: o desenvolvimento de minhas idéias tem sido o resultado de um labor de trinta
anos. Não sabia se um dia chegaria a publicá-las. Seu amadurecimento parecia tão vagaroso. Mas o tempo
da colheita chegou, afinal, e, para mim, esta colheita parece turbulenta, embora não seja eu quem possa
julgá-la. Nem tampouco você, leitor individual, mas sim a experiência e a história.(Santaella, 1992: 59).
convocado ao debate de acordo com as necessidades acenadas pelo nosso problema, qual seja, o
conjunto de relações dialógicas pronunciadas em ambientes hipermidiáticos.
Cabe notar que os mecanismos implicados em certos documentos digitais, ou aqueles
orientados pela gica hipertextual
45
aliada a recursos multimidiáticos, (des)favorecem um per se ou
qualquer razão auto-evidente. A rotatividade sígnica, as transições imprevistas entre um e outro
ambiente (rudimento do acidente), a manipulação de imagens, o silêncio significante, as nódoas
sonoras (cacos e ruídos), a perspectiva dialógica (Bairon, 2006)... Tudo aqui nos coloca diante de
pelo menos duas questões fundamentais: a construção de novas cadeias significativas
(conjuntivas e disjuntivas) e a experiência estética (como convulsão do simbólico). Mais adiante,
quando nos depararmos com o trabalho Valetes em slow motion, autoria de Kiko Goifman (1998),
avaliaremos a pertinência daquilo que – agora – encarna problema elementar. A propósito de
acompanharem todos os fluxos (e refluxos, sobretudo) do raciocínio, impus-me a exibição de alguns
conceitos fundamentais; não obstante estejam aqui e ali, diluídos, misturados. O caso, em todo
caso, é o ocaso do texto medíocre ou regressivo (Campos, 1992, 17), exatamente aquele que
demonstra - tão somente - bom entendimento da cátedra institucional.
46
Originalmente publicado no Atlantic Journal, nos idos de 1945, o artigo As we may think
inscreveu seu autor nas bibliografias de estudos sobre hipermídia. O físico e matemático Vannevar
45
A questão elementar, traço distintivo do hipertexto, segundo Landow (apud Leão, 2005:29): o texto
apresenta-se fragmentado, atomizado em seus elementos constitutivos (em lexias ou blocos de texto), e
essas unidades legíveis passam a ter vida própria ao se tornarem menos dependentes do que vem antes ou
depois na sucessão linear.
46
Assim soavam as conversas de Charles aos ouvidos de Emma: sem relevo como uma calçada e as idéias
de todo mundo nela desfilavam com seu traje comum. Em Madame Bovary, ramal da narrativa de
incondicional paciência, clássico de Gustave Flaubert.
Bush presumiu a combinação entre novas tecnologias; todas elas destinadas à melhoria dos
sistemas de indexação, organização e troca de informações (Leão, 2005:19). Ocupado com a
transmissão e armazenamento do conhecimento, escreveu: the summation of human experience is
being expanded at a prodigious rate, and the means we use for threading through the consequent
maze to the momentarily important item is the same as was used in the days of square-rigged ships
(Bush, 1945).
Do incômodo, nasceu o Memex (Memory Extension), máquina anterior ao computador,
mistura de microfilme e célula fotoelétrica (Leão, ibidem) e de funcionamento correlato no
propósito inicial ao modo como opera a mente humana, qual seja, via associações. O projeto,
nunca saído do papel, previa um dispositivo por meio do qual o usuário pudesse consultar com
rapidez e flexibilidade - todo material previamente arquivado: books, records, and communications
(...). It is an enlarged intimate supplement to his memory (Bush, ibidem). Bush (1890 1974) não
viveu para assistir ao nascimento da World Wide Web (1991) e à extraordinária trama autopoiética
encenada pela rede. Seu invento, todavia, figura como prelúdio do hipertexto
47
.
O que de curioso no projeto de Bush é o benefício do humano como medida para as
operações maquínicas. O hipertexto possibilita associações entre rios tópicos de informação de
acordo com o ritmo natural do pensamento humano, ou seja, as leis da mente: associações por
contigüidade e similaridade (Plaza, 2000:35). Entendido que propriedades físicas do homem são
conduzidas para dentro de estruturas artificiais, a fim de torná-las antropomorfas. Eis o primeiro
47
Bush considerava a não-linearidade, decorrente da trilha marcada pelo próprio usuário, um problema: as
visões de Bush se endereçavam claramente ao pesquisador acadêmico, aquele que necessita ordenar uma
série de informações (Leão, 2005:20).
pergaminho de um processo em palimpsesto, desdobrado no ciberespaço e que, aqui, fica como
notação. As demais camadas têm início com o termo ciborgue (junção de cibernético e organismo)
48
,
atravessam as interzonas entrevistas pelo escritor americano Michael Bruce Sterling (apud
Santaella, 2007:35), anunciadas em 1986, e culminam com os filosofemas pós-humanistas (Felinto,
2006:111), sem que o embate deixe entrever sinais de esgotamento. Em Sterling (Santaella, ibidem),
há rudimentos da antecipatória herança crítica legada pelo pós-humanismo:
A tecnologia dos anos 1980 cola-se à pele, responde ao toque: o computador
pessoal, o walkman, o telefone portátil, as lentes de contato. Alguns temas centrais
emergem repetidamente no ciberpunk. O tema da invasão dos corpos: membros
prostéticos, circuito implantado, cirurgia plástica, alteração genética. O tema ainda mais
poderoso da invasão da mente: interfaces cérebro-computador, inteligência artificial,
neuroquímica – técnicas que radicalmente redefinem a natureza da humanidade, a
natureza do eu... Sendo híbridos eles mesmos, os ciberpunks são fascinados pelas
interzonas.
A comunhão entre o maquínico e o biológico aponta para uma versão informacional da
biosfera ou, em menor escala, para o exame detido das antinomias mente/corpo,
organismo/máquina, natureza/cultura (ibidem). As extensões protéticas (visíveis ou não), os
implantes, a engenharia genética, a nanotecnologia: todos os procedimentos identificados com um
modelo biônico do humano; quando não aprimorado, levado ao seu paroxismo (Felinto, 2006:111).
Daí, pulularem na rede desvarios transcendentais que anunciam a bancarrota do corpo biológico e a
ascendência do novo demiurgo humano (Sibila apud Santaella, 2007:46).
Quem quer que ampare a contenda, deve cuidar para não aprofundar o fosso entre aquelas
falsas antinomias. As mesmas que, vistas de perto, acentuam a desagregação entre sujeito e objeto.
De Tienne (2004:3), ancorado na fenomenologia peirceana, replica: (…) within the phaneron subject
and object are utterly conflated. There is no mind seeing, nor any object being seen; all there is, is
48
Ver Santaella, 2007.
seeming, period. Zizek (2008) faz sobressair, por obra da sua A visão em paralaxe (título que, de
saída, indica tema-revide), a nima diferença entre as parelhas. Lá, acompanha a sorte do
romance Suave é a noite, autoria do americano F. Scott Fitzgerald. Para efeito, e apoderados do
impasse, aqui estenderemos o conceito sobre as coisas do mundo. Mínima diferença ou lacuna
irredutível ancorada na verdade de ambos: não como resolver a tensão, como encontrar uma
solução “adequada” (ibidem, 35). De qualquer modo, qual seria a solução adequada? Fosse qual
fosse, como não ser uma espécie de esclarecimento (?) abstraído da história, imanência pleiteada
entre o sujeito e uma coleção de noções abstratas (e estacionárias) ocupadas em subsumir o real do
qual se alimentam? Zizek (ibidem:23) acena com a não-coincidência do Um consigo mesmo. O
esloveno dá à vista a assertiva. E o alemão, indica exercício para levá-la a cabo:
Cualquier mirada a la fábrica terrestre y a los espacios extraterrestres basta para
acrecentar la evidencia de que el ser humano es sobrepasado por todos los lados por
exterioridades monstruosas que exhalan hacia él frío estelar y complejidad extrahumana.
Desde el inicio de la edad moderna el mundo humano tiene que aprender en cada siglo,
en cada año, cada a a aceptar e integrar verdades siempre nuevas sobre un exterior
que no concierne al ser humano (Sloterdijk, 2003:30).
Ocorreu-me uma passagem de O Enigma de Kaspar Hauser, obra-prima do cineasta alemão
Werner Herzog (1974). No trecho, três personagens estão no jardim. O tutor de Kaspar,
acompanhado pelo reverendo, deixa cair uma maçã e faz menção de recuperá-la. Kaspar intercede:
“Deixem as maçãs repousarem. Estão cansadas e querem dormir”. O tutor replica: “Kaspar, a maçã
não fica cansada, não tem vida própria. faz aquilo que queremos. Veja, vou jogá-la. E, onde ela
cair, ficará parada. Essa é a nossa vontade (grifo da autora).” A maçã escapa para um apanhado
espesso de plantas. Kaspar esclarece: “A maçã não ficou parada. Ela se escondeu no mato”. A
verdade da maçã anímica é a não-verdade do Impessoal. A verdade da maçã não é a nossa
vontade. A verdade da maçã é a maçã inscrita no olhar de Kaspar.
Lacan (apud Zizek, 2008:32), assimilado por Zizek, diz: o olhar do sujeito é sempre-já
inscrito no objeto percebido em si, sob disfarce de seu ‘ponto cego’, que está ‘no objeto mais que o
objeto em si’, ponto do qual o próprio objeto devolve o olhar. Quando Hegel (ibidem) teria
antecipado, nas palavras do mesmo Zizek: sujeito e objeto são inerentemente ‘mediados’, de modo
que uma mudança ‘epistemológica’ do ponto de vista do sujeito sempre reflete a mudança
‘ontológica’ do próprio objeto. E Peirce (2005:179), antes e por fim, teria notado que nada é mais
dispensável a uma epistemologia sólida do que uma distinção cristalina entre o Objeto e o
Interpretante do conhecimento, da mesma forma como nada é mais indispensável para sólidas
noções de geografia do que uma distinção cristalina entre latitude norte e latitude sul; e uma destas
distinções não é mais rudimentar que a outra.
Para apreendermos o problema aqui deitado, haveremos de circunscrever a natureza
epistemológica
49
do atual estudo. Nossas escolhas teóricas, em qualquer tempo, orientam as noções
que construímos a volta do objeto. Daí, a necessidade de expô-las e, quando menos, torná-las
evidentes. Se aqui falaremos em epistemologia semiótica, o nos esquivaremos dos entraves que
acercam a proposição. Tenhamos em conta que o projeto filosófico de Peirce é precedido, em tudo,
pela fenomenologia. Quase-ciência cuja relevância será descortinada a seguir. Por ora, e antes de
nos preciptarmos para dentro do essencial peirceano, cabe dar nossa reposta àquela controvérsia
deixada a cargo de Hegel, Zizek e Lacan. Concluindo, assim, de súbito: (...) todo objeto é
49
Epistéme opõe-se a empeiría. O verbo epístamai, da mesma família de epistéme, significa: saber, ser apto
ou capaz, ser versado em (portanto, inicialmente, este verbo não distinguia nem separava epistéme e
empeiría, mas referia-se a todo conhecimento obtido pela prática ou pela inteligência, referia-se à habilidade).
A seguir, passa a significar: conhecimento pelo pensamento, ter um conhecimento por raciocínio e, com
Aristóteles, investigar cientificamente (Chauí, 1994:348).
Do grego episteme, conhecimento, e logos, explicação, a epistemologia é o estudo da natureza do
conhecimento e da justificação, especificamente, o estudo dos traços definidores, das condições substantivas
do conhecimento e da justificação (Santaella, 2008:17).
necessariamente objeto do signo. Se a realidade é mediada por signos, se até mesmo na percepção
chegamos aos objetos por meio de signos, o que a mediação nega é a ilusão epistemológica da
possibilidade de uma relação face-a-face entre sujeito e objeto (Santaella, 2008:64).
O real peirceano é, portanto, um depositário de relações mediadas. O que implica, outra vez,
no enlace triádico: objeto, signo e mente interpretante
50
. Em última medida, vemos formar uma
cadeia gnica, dialógica, cujo fim não se avista. Quando compreendido (antes representado,
portanto), o objeto está sob domínio do real. Que é um terceiro. Sua existência concreta, a
experiência daquele individual com outros individuais (ego e não-ego), é um segundo. Quando mera
possibilidade, inexpressável, um primeiro (Santaella, 2008:64). Apresentam-se, sem demora, as
chamadas categorias cenopitagóricas
51
, universais e presentes as três - em todos os fenômenos:
primeiridade, secundidade e terceiridade. Peirce não extraiu suas categorias da língua, nem da
lógica, mas do retorno à experiência, no sentido de qualquer coisa que se força sobre nossas
mentes. Assim ele introduziu um novo método, baseado na análise fenomenológica, ou seja na
análise do fenômeno, significando por fenômeno o reconhecimento geral daquilo que está contido na
atenção (Santaella, 2006:162). Aqui antecipados conceitos desnovelados já no parágrafo seguinte.
50
Alguns dos conceitos expostos serão esclarecidos no corpo do trabalho. Cumpre lembrar que o resumo
oferecido está aquém das noções elementares desejadas. Para introdução melhor orientada ver Santaella,
2008.
51
Todos os elementos da experiência pertencem a três classes; como elas podem melhor ser definidas em
termos de números, são denominadas categorias cenopitagóricas. (Peirce apud Pignatari,1979:22).
Por ordem da sua Sinopse Parcial de uma Proposta para um Trabalho sobre Lógica
(2005:21), ocupado em aclarar - para as mentes menos afeitas ao raciocínio matemático
52
- a
natureza das idéias pré-lógicas, preambula:
Tento uma análise do que aparece no mundo (...). Portanto, não perguntamos o
que realmente existe, apenas o que aparece a cada um de nós em todos os momentos
das nossas vidas (...). Lembre-se (...) mais uma vez e de uma vez por todas, que não
pretendemos significar a natureza secreta do fato mas, simplesmente, aquilo que
pensamos que ela é.
O excerto nos a ver o inextrincável da conduta fenomenológica
53
peirceana ou seja a
observância de tudo aquilo que está presente ao espírito, constituído (o tudo) apenas pelos
elementos logicamente indecomponíveis, ou indecomponíveis na inspeção direta (Peirce,
1974:91)
54
. E porque está, durante a pesquisa acadêmica, aceso o raciocínio, pergunto-me, em
52
De acordo com Peirce, a matemática figura como a mais abstrata e genérica das ciências. É a única ciência
puramente hipotética, indiferente quanto a suas premissas expressarem fatos imaginados ou observados. É a
ciência das conclusões exatas a respeito de estado de coisas meramente hipotético. Fundada em premissas
não assertivas, não requer nenhum suporte experimental além das criações da imaginação (Santaella,
2005:34).
53
O apropriado seria adotarmos o termo Ideoscopia ao invés de fenomenologia, conforme notação de Peirce
(1974:119) em carta a Lady Welby, semanticista inglesa ocupada com o verbete significs, por ocaisão da
Encyclopaedia Britannica (Pignatari, 1979:22).
Diz o autor: não sei se o estudo daquilo que chamo Ideoscopia pode ser chamado idéia nova, mas a palavra
fenomenologia é usada em sentido diferente. Ideoscopia consiste em descrever e classificar idéias que
pertencem à experiência corrente ou derivam da vida cotidiana, sem levar em conta o serem válidas ou não,
ou sua psicologia. Jaz aqui, ainda, novo contudo. Peirce (idem:91) previne: os filósofos ingleses atribuíram à
palavra idea uma significação aproximada daquilo que entendo por faneron. Por motivos vários, restringiram o
âmbito da palavra, e deram-lhe uma conotação psicologista que desejo evitar (...). De maneira que, diante da
ciranda teorética, o melhor seria chamá-la Faneroscopia; em respeito a noção de phaneron.
Conquanto a extensão da nota, indico visita ao artigo Is phaneroscopy as a pre-semiotc science possible? em
que André de Tienne (2004) adensa a investigação: Peirce did not call the science of the phaneron by the
name of “phanero-logy” (except in one fleeting instance), but by that of ”phanero-scopy,” is certainly significant.
The suffix -scopy introduces the idea of observation, while the suffix -logy introduces the idea of discourse, a
corpus of systematized arguments. This distinction is crucial to understand the rôle of phaneroscopy, and is
found in many different guises throughout the writings.
Santaella (2005:35) assinala o caráter observacional da fenomenologia.
54
Eisenstein (1990:50), em 1942, ocupado com certa natureza dos fenômenos audiovisuais... Primeiro,
conclui, sem demora, que o Homem é a mais rica fonte de experiência. Daí abaliza: devemos ter plena
seguida: como assegurar que a chamada inspeção direta preserve os tais indecomponíveis
elementos lógicos? Andre De Tienne (2004) faz pergunta análoga em artigo intitulado Is
phaneroscopy as a pre-semiotic science possible?. Então, tão logo entendemos que o universo está
impregnado de signos, somos assim conduzidos a imaginar um instante em que inexiste mediação
e, portanto, não há atividade sígnica. De Tienne (ibidem:5), mais uma vez:
Phaneroscopy is a work of observation: it “studies” what seems but does not “state” what
appears, does not make assertions. Assertions are judgments about” something, and
they usually attribute to that something different qualities, such as reality or unreality, and
truth or falsity. The phaneroscopist refrains from making such judgments. He only
acknowledges the manifest qua manifest. The auxiliary verb of his assertions is not to be
but to seem.
O de que modo se semelhante estudo - isentado de asserções ou julgamentos quaisquer
- daquilo que aparece, será abordado no capítulo seguinte, quando nos dedicarmos aos ícones
degenerados, em especial, às representações diagramáticas. Diante da tarefa anunciada,
consideramos fundamental observar a natureza viva do signo, sua composição orgânica. Para efeito
do exercício, consideremos antes e de maneira abreviada a seguinte assertiva, emprestada do
próprio autor (apud Santaella, 1983:33):
A fenomenologia ou doutrina das categorias tem por função desenredar a
emaranhada meada daquilo que, em qualquer sentido aparece, ou seja, fazer análise de
todas as experiências é a primeira tarefa a que a filosofia tem que se submeter. Ela é a
mais difícil de suas tarefas, exigindo poderes de pensamento muito peculiares, a
habilidade de agarrar nuvens, vastas e intangíveis, organizá-las em disposição
ordenada, recolocá-las em processo.
Retrocedo no anúncio da atividade planejada, coisa para a qual voltaremos oportunamente.
Logo, advertiu-me Peirce, por ocasião de seu A Ética da Terminologia (2005:41): a primeira regra de
consciência dos meios e dos elementos através dos quais a imagem se forma em nossa mente. Nossas
primeiras e mais espontâneas percepções são frequentemente nossas percepções mais valiosas, porque
estas impressões intensas, frescas, vivas, invariavelmente derivam dos campos mais amplamente
variados (grifo do autor).
bom gosto ao escrever é usar palavras cujos significados não serão mal interpretados; e se um leitor
não conhece o significado das palavras, é infinitamente melhor que ele saiba que não os conhece.
Recobremos. São três as categorias postuladas pela fenomenologia peirceana. primeiridade,
secundidade e terceiridade. São três, universais (constitutivas de toda e qualquer experiência) e
definidas da seguinte maneira:
(…) firstness is the monadic element of experience usually identified
with feeling, secondness is the dyadic element identified with the sense of action and reaction, and
thirdness is the triadic element identified with the sense of learning or mediation as in thought or
semiosis. (Houser, 1992:xxxi).
E, em linha menos gerais, assim.
2.2. B
REVÍSSIMAS
C
ARACTERÍSTICAS
U
NIVERSAIS DA
E
XPERIÊNCIA
2.2.1. U
M
P
RIMEIRO
-L
IVRE
,
U
M
S
EGUNDO
-C
HOQUE
,
UM
T
ERCEIRO
-L
EI
Um primeiro é um elementar, um não–precedido e, sobretudo, uma entidade indivisível,
indeterminada (Peirce, 2005:12). Ao que Peirce chamou de firstness, batizamos de primeiridade.
Que é mônada. Um instante de tempo (antes do deslocamento), espasmódico
55
, ainda que estado
(imediato) de consciência: nenhuma outra coisa senão pura qualidade de ser e de sentir (Santaella,
1983:43).
55
Dizer espasmódico é não dizer algo. Em Peirce (2005:15): (...) não existe nenhuma semelhança entre a
memória e a sensação, porque, em primeiro lugar, nada pode assemelhar-se a um sentimento imediato, pois
a semelhança pressupõe um desdobramento e recomposição que são totalmente estranhos ao imediato (...).
Em Cortázar (2006:9): (...) mas, no fundo sei que tudo é falso, que estou longe do que acaba de me
acontecer e que como tantas outras vezes se resolve neste inútil desejo de compreender, desconsiderando
talvez o chamamento ou o sinal escuro da própria coisa, a inquietação em que me deixa, a exibição
instantânea de uma outra ordem na qual irrompem lembranças, potências e sinais para formar uma
fulgurante unidade que se desfaz no próprio instante em que me arrasa e me arranca de mim mesmo
(grifo nosso).
Um segundo é um existente, corpóreo, material, consciência de uma interrupção no campo
da consciência, sentido de resistência, de um fato externo ou outra coisa (Peirce, 2005:14). Do berço
vernáculo: secondness. Secundidade. Díada que é o justo ajuste entre dois colocados em um, ação
despropositada, bruta, cega.
Um terceiro nome ao que Peirce (2005:23) denominou consciência de síntese. Por não
ser imediato, não é primeiro. Por não ser o instante exato em que dois são mera complicação de
binaridades (Peirce, ibidem), não é segundo. Por ser, finalmente, três, é tradução infinita: fenômeno,
signo, percepção. A terceiridade (do original, thirdness) é o próprio signo. Como signo é mediação,
interpretação e contiguidade. Diz (apud Santaella, 1983:58) o autor, de modo abreviado e altamente
esclarecedor:
Um signo intenta representar, em parte pelo menos, um objeto que é, portanto,
num certo sentido, a causa ou determinação do signo, mesmo se o signo representar
seu objeto falsamente. Mas dizer que ele representa seu objeto implica que ele afete
uma mente, de tal modo que, de certa maneira, determine naquela mente algo que é
mediatamente devido ao objeto. Essa determinação da qual a causa imediata ou
determinante é o signo, e da qual a causa mediata é o objeto, pode ser chamada o
Interpretante.
Então, um signo é algo que ocupa o lugar de um objeto. O nome Maria, por exemplo, é signo
de um objeto ou de certa Maria-existente (dimensão física). O nome Maria não é a Maria-existente.
O nome Maria é o signo que acesso à Maria-existente. Dizer “Maria” é dar à mente interpretante
uma relação muitíssimo frágil que é – em igual monta – um novo signo
56
.
56
Santaella (1983:59) aclara: (…) o significado de um signo é outro signo seja este uma imagem mental ou
palpável, uma ação ou mera reação gestual, uma palavra ou mero sentimento de alegria, raiva... uma idéia,
ou seja o que for porque esse seja o que for, que é criado na mente pelo signo, é um outro signo
(tradução do primeiro).
Quando considerado em si mesmo (1), o signo é classificado como quali-signo (uma
qualidade ou primeiro), sin-signo (um existente ou segundo) e legi-signo (uma lei ou terceiro).
Quando considerado na relação com o seu objeto (2), o signo pode ser um ícone (e guardar
semelhança com o objeto que representa), um índice (e ser afetado pelo objeto) e um símbolo (e ser
uma convenção, generalização ou lei
57
). Por fim
58
, quando considerado na relação com seu
interpretante (3), o signo é um rema (hipótese ou conjectura), um dicente (conexão física) e um
argumento (sequência lógica de premissas e conclusão
59
). Por ora, nossa escavação será rasa (mal
alcançaremos a terceira tricotomia) e – adianto – extremamente trabalhosa.
Se quisermos ver no que a hipermídia como lugar de expansão estética do conceito
científico, haveremos de nos debruçar logo sobre o ícone, signo regido pela indeterminação e por
certa abertura (overtness), propriedade distintiva que nos interessa de antemão: todo ícone participa
do caráter mais ou menos manifesto, aberto do seu objeto. Cada um e todos eles partilham da mais
aberta das características de todas as mentiras e decepções – a sua (delas) ABERTURA. No
entanto, eles têm mais a ver com o caráter vivo da verdade que os Símbolos ou os Índices (Peirce
apud Pignatari, 1979:33). Ao exame do ícone não se veêm obliteradas as considerações de caráter
indicial e simbólico. Tão melhor correrá o processo de semiose, ou de ão do signo, quantas forem
57
Para efeito didático e, por fim, os símbolos - que carregam ou ícone e um índice – operam como signos não
em virtude de um caráter que lhes pertence como coisas, nem em virtude de uma conexão real com seus
objetos, mas simplesmente em virtude de serem representados como signos (Peirce apud Santaella,
2005:263).
58
O que aqui trazemos são as primeiras três tricotomias. As classificações triádicas desdobram-se, inclusive,
para além daquelas que o autor se dispôs a desenvolver: (...) foram estabelecidas 10 tricotomias, isto é 10
divisões triádicas do signo, de cuja combinatória resultam 64 classes de signos e a possibilidade lógica de
59.049 tipos de signos (ibidem:62).
59
Itálicos do parágrafo referem-se à Santaella, 2005:51.
as misturas dos ingredientes icônicos, indiciais e simbólicos em igualdade de condições (Santaella,
2005:56).
Nova advertência não dispensável, cumpre lembrar - tantas vezes - que o apontamento da
hipermídia como sítio de favorecimento do icônico nada quer com o engaste do livro num tempo
longínquo ou com a prevalência de um prefixo ex machina sobre a cultura da palavra escrita. O
caso, aqui, não é aquele da lógica binária, do ou isto ou aquilo
60
. Toda representação é parcialidade,
esquina do objeto, recorte mais ou menos arbitrário (dado que, a priori, sempre poderia ser outro).
Toda representação está para certa mente afetada. Assertiva que projeta o objeto, em proporções
galácticas. Toda representação é, invariavelmente, uma combinatória entre três indissolúveis: mais
uma vez, o signo, no lugar de um objeto, para um interpretante.
De modo breve, à maneira de Houser (1992:xxxvi): the sign relation is fundamentally triadic.
Eliminate either the object or the interpretant and you annihilate the sign. Não por acaso, e para
remate da contenda, Mallarmè diria que nomear um objeto é suprimir três quartas partes do gozo de
um poema (apud Plaza, 2000:24). Assim para o verbo escrito, assim para a hipermídia. Machado
(2008:6), curvada sobre os cânones que cercam o registro do conhecimento científico, contribui para
a (re)união entre simbólico e icônico:
de um lado situam-se o tema, a descrição, a explicação, a demonstração, a
comprovação e a resposta; de outro, a pergunta, a relação, a explicitação, a
interpretação, a análise sempre formuladora de novas perguntas. Não se trata de
eliminar nem substituir procedimentos, mas de configurar a dimensão dialógica sem a
60
Comungamos com Deleuze (1992:109) quando anuncia: não possuíamos (Deleuze e Foucault) o gosto
pelas abstrações, o Uno, o Todo, a Razão, o Sujeito. (...) É nos agenciamentos que encontraríamos focos de
unificação, nós de totalização, processos de subjetivação, sempre relativos, a serem sempre desfeitos a fim
de seguirmos ainda mais longe uma linha agitada.
qual nenhuma linguagem tem sentido. Daí a necessidade de considerar a semiose, isto
é, a interação entre diferentes códigos, como plenivalentes quanto à capacidade de
explicitar a linguagem da ciência e os discursos sobre seus objetos (grifos nossos).
De resto, concordamos com Manguel (2006:264) quando afirma que o advento da web
apenas conferiu uma espécie de intangibilidade tangível à nossa velha sensação de infinitude
inspirada pelas bibliotecas antigas. Quem quer que reconheça no autor
61
o mérito da obra, de
considerar o debate muitíssimo pertinente, ainda que deslocado do nosso vetor de análise.
Apresentadas as categorias, observemos como se comportam quando trasladadas para
dentro de um ambiente com características hipermidiáticas. Cuidadosos, antes, para que o exame
não incorra em abreviações ou preciptações de qualquer gênero. A aplicação, aqui, é o exercício do
conceito.
61
O advento das redes, dos coletivos, da remixagem - para citar pouco - põem à mesa, mais uma vez (desde
Mallarmè, Foucault e Barthes), a questão da autoria para o Ocidente. Landow (apud Plaza, 2000:36) assiste,
por ocasião da hipermídia, a erosão do autor, na justa medida em que o poder seria, assim, transferido para o
leitor. Nas palavras de Joyce (ibidem): os textos eletrônicos se apresentam por intermédio de suas
dissoluções. Eles são lidos, onde são escritos e são escritos ao serem lidos.
Pela extensão do problema, entretanto, não nos deteremos sobre ele.
2.3. A
L
ÓGICA DO
V
IVO
:
S
EMIOSFERA
(...)
Eu jamais soube ler: meu olhar
de errata a penas deslinda as feias
fauces dos grifos e se refrata:
onde se lê leia-se.
Eu não sou quem escreve,
mas sim o que escrevo:
Algures Alguém
são ecos do enlevo.
(...)
Décio Pignatari, trecho de Eupoema (1951)
O nome que identifica o tópico foi emprestado do livro O Enigma do Homem, uma dentre
tantas contribuições luminosas de Edgar Morin ao conhecimento científico. No contexto, A Lógica do
Vivo abre o capítulo A “Revolução Biológica”, assim, entre aspas. Tal transformação, deflagrada pela
cibernética (e a aplicação de noções como código e informação à ordem celular) e pela teoria da
informação
62
, haveria de favorecer veios comunicantes entre os três nichos
63
: homem-cultura, vida-
natureza, física-química (Morin, 1975:23), tomados por realidades apartadas e sobretudo
ausentadas umas das outras.
Como consequência daquelas misturas (e a semiótica peirceana é o lugar mesmo dos
incomensuráveis arranjos sígnicos
64
), emergiu no campo do conhecimento, e não sem esforço, uma
62
Sobre o tema, diz C. E. Shannon, no ano de 1948, em artigo seminal: the fundamental problem of
communication is that of reproducing at one point either exactly or approximately a message selected at
another point (grifo nosso).
63
Aqui, no sentido quase estritamente biológico, querendo significar habitat.
64
Está em Pignatari (1979:27): (...) uma das descobertas fundamentais de Peirce é a de que o significado de
um signo é sempre outro signo (um dicionário é o exemplo que ocorre imediatamente); portanto o significado
é um processo significante que se desenvolve por relações triádicas e o Interpretante é o signo-resultado
contínuo que resulta desse processo.
lógica na qual intervêm a indeterminação, a desordem e o acaso como fatores de organização
superior ou de auto-organização
65
. Esta é a lógica do vivo (idem:28). Será necessário, por ora,
examinar as bases materiais do reino em que moram os signos, a saber, a semiosfera. Pensar as
bases materiais, não passemos ao largo, é refletir sobre as condições não-metafóricas (Noth,
2007:83) daquele espaço onde a idéia - cuja dimensão é orgânica - vive.
A filogênese do signo, sua filiação taxionômica, é uma espécie de não pertencimento. Por
escapar, por ser um não-isolável, o signo
66
traspassa fronteiras quando, antes, conferes-lhe forma.
Não cabe nem mesmo no interior do grande prodigioso O Cérebro apesar dos seus 1.500 cm
3
,
10 bilhões de neurônios e 10
14
sinapses (idem:119) . Mesma região anatômica que, por uso capião,
pertence ao cogito cartesiano; em Peirce (apud Santaella, 2007:114), é destituída de soberania.
Aponta o autor, o pensamento não está necessariamente ligado a um cérebro. Surge no trabalho
das abelhas, dos cristais e por todo o mundo puramente físico; e não se pode negar que ele
realmente ali está, assim como não se pode negar que as cores, as formas etc. dos objetos ali
realmente estão. A notícia é a de que o universo está permeado de signos, se é que ele não seja
composto exclusivamente de signos (Peirce apud Santaella, 2007: 114).
Uma fina camada sígnica recobre todas as coisas do mundo. Barthes (1989:1) põe à
disposição exemplo literário. Informa o autor que as figuras, frações do discurso amoroso, devem ser
apreendidas naquilo que guardam de ginástico ou coreográfico. Ocorre-nos que o signo replica tal
comportamento elástico: toca a mente interpretante e retorna, em pirouettes, ao seu cleo de pura
65
Rimbaud acena: je finis par trouver sacré le désordre de mon esprit.
66
Informalmente (e a maneira de Borges): qualquer pintura, diagrama, grito natural, dedo apontado,
piscadela, mancha em nosso lenço, memória, sonho, imaginação, conceito indicação, ocorrência, sintoma,
letra, numeral, palavra, sentença, capítulo, livro biblioteca (Peirce apud Santaella, 2005:39).
possibilidade. O pensamento é, a qualquer tempo, espécie de mínima eficiência significante ou
tradução positiva de um nunca exaurível. Gosto de crer que outro exemplo, resgatado dos cadernos
de cinema, dá substância ao que dissemos até agora. Nos idos de 1791, o teólogo e filósofo, Karl
von Eckartshausen (apud Eisenstein, 1990:59), desenvolve a música ocular, criada, em 1763, por
Perè Castel: muito tento determinar a harmonia de todas as impressões sensoriais, para torná-la
evidente e perceptível.(...) Construí esta máquina com toda a perfeição, de modo que todos os
acordes de cor possam ser produzidos, exatamente como acordes tonais. Eis a descrição deste
instrumento.
Então, descreve uma estrutura formada por vidros cilíndricos - preenchidos com líquidos
coloridos - acoplados a um cravo. Às teclas, portanto, cada nota, corresponde uma cor. Placas de
metal sobem e descem, ao comando dos dedos, revelando pigmentos iluminados por velas de cera:
a beleza das cores é indescritível, avalia von Eckartshausen (ibidem), superando as mais
esplêndidas jóias. Nem se pode expressar a impressão visual despertada pelos vários acordes de
cor... Logo, Rimbaud (1991:154), com suasVoyelles, outra perspectiva, enxergou nas letras
manifestações luminosas: A noir, E blanc, I rouge, U vert, O bleu: voyelles... Em ambos os casos,
não há acidente. Senão, a procura por relações audiovisuais ou um outro código que encerre, em si,
diferentes registros (as texturas de Bairon 2005:14
67
, por exemplo): o todo orgânico com o qual nos
acena a semiose.
Sloterdijk (2003:245) reserva ligeiro intervalo, apelidado de Excurso I: Transmisión de
pensamientos, aos visitantes da sua microesferologia. Não sem razão, abre a breve jornada com
67
Silvio Ferraz, prefacia: nas Texturas de Bairon não temos propriamente o ícone como desenho, mas como
sonoridade. (...) São texturas no sentido em que valem a pena pela sensação sonora quase tátil que
disparam e não mais pelo significado ou regra de construção (grifo nosso).
frase atribuída ao otorrinolaringologista americano, Alfred Tomatis: hablar significa jugar com el
cuerpo del otro. Certa altura, conclui que cerebros son medios de lo que otros cerebros hacen y han
hecho. Sólo de otra inteligencia recibe la inteligencia los incentivos clave para su propia actividad.
Como el lenguaje y la emoción, la inteligencia no es sujeto, sino milieu y círculo de resonancia.
Quais implicações têm a inteligência como fenômeno acústico, meio, ambiência? Não ser o cérebro
uma caixa preta e, portanto, não vê-lo inscrito no domínio do privado (ibidem). E os pensamentos,
tornados livres, podem, enfim, gozar dos estados de co-afetação, promiscuidade, contaminação,
mistura.
Tudo o que aqui se deita tem o objetivo de edificar os platôs sobre o qual aproximaremos o
não-relacional da descoberta científica (a introdução do acaso como brecha
68
) e os lugares
hipermidiáticos (onde o acaso
69
é, senão, constituinte elementar). Antecipo, de modo mais ou menos
arbitrário, o letreiro fincado no limítrofe entre o pensamento metacientífico
70
(noção-chave, ocupada
com princípios gerais base para todas as ciências) e a hipermídia. Antecipo, assim, com a
colaboração do arqueólogo e historiador, Paul Veyne (1984), no prefácio de Acreditavam os gregos
em seus mitos?:
68
Brecha como substantivo e, sobretudo, da maneira como aplica Morin (1975:24): foram abertas brechas
(quando da chamada “Revolução Biológica”, ver página 24) no seio de cada paradigma fechado, brechas
essas que são, ao mesmo tempo, abertas para outros campos até então proibidos e através das quais se
operam as primeiras conexões e novas emergências teóricas (grifo nosso). Por fim, brecha como
prenúncio do sinequismo (ou tendência à continuidade, cuja forma elementar é o signo) em Peirce, muito
embora sua noção – de brecha - seja ulterior àquela do semioticista.
69
Acaso deve ser tomado, aqui, como estado em que as leis gerais que regem a natureza das coisas são
infringidas. O que por dentro é sentimento, por fora é acaso (Santaella, 2001).
70
À Metaciência compete, pelo menos, três domínios: área específica de atuação do cientista, conhecimentos
fundamentais de Lógica, Epistemologia e Metodologia; além de Psicologia e Sociologia do Cientista. Sobre os
dois últimos registros disciplinares, pergunta o autor: qual é o papel, na produção científica, dos aspectos
psicológicos de um ser humano enquanto cientista e sua atuação como ser social em relação à comunidade
de cientistas? (Vieira, 2006:40)
Foi necessário reconhecer que em vez de falarmos de crenças, deveríamos
simplesmente falar de verdades. E que as próprias verdades eram imaginações. Não
estamos fazendo uma idéia falsa das coisas: é a verdade das coisas que, através dos
séculos, é estranhamente constituída.
É exercício ideado oferecer à prática científica a possibilidade de refletir acerca do conjunto
de estatutos disciplinares sobre o qual ela deita as imaginações do conhecimento (e que, por serem
imaginações
71
, estão muitíssimo mais próximas do real). Se nos escapa revisão cronológica data a
data, resgatemos da história eventos-refresco isolados. Entre os romanos, não nos esqueçamos, as
idéias consoladoras sobre o além derivavam do desejo de crer e não da autoridade de uma religião
estabelecida. Ariès (1997:214) cita, ainda, as chamadas seitas filosóficas, caso do epicurismo e do
estoicismo, acenando ambas com promessas de felicidade individual por meio do (absoluto) domínio
intelectual e autocontrole. E, aquele que não pudesse consigo, estava autorizado a dar cabo da
própria vida: o suicídio, em certos casos, remédio autorizado ou até mesmo recomendado (ibidem).
Lévi-Strauss (s.d.:243) sugere que se estabeleça divisa entre a história progressiva, de caráter
aquisitivo, e a história outra, ativa, onde faltaria o dom sintético que é privilégio da primeira.
Todo o dito para que tenhamos em conta a observação de Maupassant (1996), em seu O
Horla: como é fraca a nossa cabeça, como se atrapalha quando se deixa impressionar por qualquer
coisinha incompreensível. Em vez de encerrar tudo por estas simples palavras: “eu não compreendo
o efeito porque a causa me escapa”, a gente logo imagina mistérios terríveis e poderes
sobrenaturais. Quando submeter o abrupto da vida (e seus pormenores que não se deixam
negligenciar) à alfândega das idéias, para falar a maneira de Balzac (2004:11), pode dar na mesma
relação fantasmática com o mundo. Nada a nada, e sobretudo!, Vernant (1989:34), diz assim,
quando registra o aparecimento da polis :
71
Quando, por ricochete, o mimético (pretensa representação ipsis litteris) daria lugar ao diegético (força do
contágio, da bricolagem)?
O que implica o sistema da polis é primeiramente uma extraordinária preemência da palavra sobre outros
instrumentos do poder. Torna-se o instrumento político por excelência, a chave de toda autoridade no Estado,
o meio comando e o meio domínio sobre outrem. Esse poder da palavra – de que os gregos farão uma
divindade: Peithó, a força da persuasão (...).
A palavra não é mais o termo ritual, a fórmula justa,mas o debate contraditório, a discussão, a argumentação.
A palavra não é mais o termo ritual quando já outros instrumentos
72
capazes concorrem para
o papel de divindade. o se possa considerar que todos estejam em de igualdade, pelo menos,
que os considerem inscritos na peleja. Já dito que ninguém aprende o ofício de conhecedor ou de
diagnosticador limitando-se por em prática regras preexistentes. Nesse tipo de conhecimento entram
em jogo (diz-se normalmente) elementos imponderáveis: faro, golpe de vista, intuição (Ginzburg,
2003:179). Por fim, sempre que quisermos falar em origens ou raízes devemos nos ocupar, antes,
com a vida material e no processo concreto de onde emergem das relações humanas.
Descartes (1999:53), em 1637, ensina que não é suficiente, antes de dar início à
reconstrução da casa onde residimos, demoli-la, ou munir-nos de materiais e contratar arquitetos, ou
habilitar-nos na arquitetura, nem, além disso termos efetuado com esmero o seu projeto, é preciso
também havermos providenciado outra onde possamos nos acomodar confortavelmente (...).
Maffesoli (2007:11), precisos 367
73
anos mais tarde, localiza a salvaguarda no pars destruens, par
construens. Quando o escritor francês, Joseph Delteil (apud Maffesoli, ibidem:23), intercede com
pendores inaugurais: sempre achei que cada geração deveria enterrar-se completamente na areia,
com suas obras, sua filosofia e mesmo suas manias (...) Assim, pelo menos, os jovens realmente
recomeçariam do zero.
72
Para citar: o desenho, a pintura e a gravura nas telas, o texto e as imagens gráficas no papel, a fotografia e
o filme na película química, o som e o vídeo na fita magnética. E todos, digitalizados, reunidos em ambientes
hipermidiáticos e potencializados por programas informáticos aliados às telecomunicações (telefones,
satélites, cabo) das redes eletrônicas (Santaella, 2005:390).
73
A edição brasileira é de 2007 e a original, Le rythme de la vie, de 2004. O cálculo considera edição
francesa.
Bem distantes do canteiro-de-obras, da moral provisória cartesiana, da filosofia indócil de
Maffesoli ou da Babel reloaded de Delteil, deixaremos o percurso do conhecimento sob tutela da
semiose ou semiosfera ou tecido lógico capaz de integrar as distintas substâncias do físico, do
ecobiológico, do tecnológico e do antropológico (Santaella, 2007:122). Perspectiva pansemiótica do
universo por ordem da qual signo e semiose o ubíquos (Noth, 2007:85). Daí dizer que a produção
de sentido não se dobra às rupturas paradigmáticas
74
anunciadas cada estação. No contrapasso, a
co-presenca radical, simultaneidade como contemporaneidade, o que pode ser conseguido
abandonando a concepção linear de tempo (Santos, 2007:21).
Acrescente-se ao debate, caso curioso. Diz certa tradição européia que a verdade não pode
ser anunciada por meio da fala. Y menos aún por la escritura, sino sólo por el canto, aunque la
mayoría de las veces por la comida. En este concepto de verdad no se trata de presentación o
representación de una cosa en otro medio, sino de la incorporación o integración de una cosa en
otra (Sloterdijk, 2003:469). Então, dizemos que a verdade é a do sujeito na experiência
75
.
74
Como resultante, um algo muito próximo ao pensamento abissal elaborado por Boaventura de Sousa
Santos (2007:3). Segundo o autor, o pensamento moderno ocidental consiste num sistema de distinções
visíveis e invisíveis, sendo que as invisíveis fundamentam as visíveis. As distinções invisíveis são
estabelecidas através de linhas radicais que dividem a realidade social em dois universos distintos: o universo
“deste lado da linha” e o universo “do outro lado da linha”. A divisão é tal que o outro lado da linha”
desaparece enquanto realidade, torna-se inexistente, e é mesmo produzido como inexistente. Inexistência
significa não existir sob qualquer forma de ser relevante ou compreensível. Tudo aquilo que é produzido como
inexistente é excluído de forma radical porque permanece exterior ao universo que a própria concepção
aceite de inclusão considera como sendo o Outro. A característica fundamental do pensamento abissal é
a impossibilidade da co-presença dos dois lados da linha. (grifo nosso)
75
Muito embora o escritor austríaco, Robert Musil (apud Sloterdijk, 2003:16), tenha dito melhor do que eu: ya
no hay un ser humano entero frente a un mundo entero, sino un algo humano que se mueve en un líquido
nutricio universal.
Por outra via, a da semiótica peirceana. Quando o interpretante é convidado à integrar a tríade circunscrita
pela noção de signo, Peirce indica que todo pensamento é, to some degree a matter of interpretation (Houser,
1992:xl).
Senão por tudo aquilo que, de antemão, escapa à nossa observância, cabe cingirmos o
que põe em perspectiva os trechos. A dimensão que enlaça os autores é uma espécie de retorno à
dispersão anônima, indefinida, mas nunca negligente, num espaço sem lugar, num tempo sem
engendramento (Pelbart, 2002:288). A verdade, para Veyne, é a cru o exercício da crença. O
que reclama, imediatamente, revisão metodológica
76
. Dispensados ainda que em tempo algum
distraídos - estamos, é verdade, da tarefa. Que Verdade não é ocupação da semiótica peirceana na
vasta medida em que no lugar propõe o conceito de representação. Já a palavra representação,
e seus desdobramentos de sentido, mereceria um capítulo inteiro e caminhada partindo da
escolástica medieval à ciência cognitiva, de Tomás de Aquino a Mario Bunge (Santaella,1998:19).
Percurso que não faremos. Nada impedidos, entretanto, de perseguir as vizinhanças do termo.
Em Peirce (apud Santaella, 1998:17), a representação é uma modalidade de funcionamento
do signo. Determina o autor: eu restrinjo a palavra representação à operação do signo ou sua
relação com o objeto para o intérprete da representação. E aclara com o exemplo: uma palavra
representa algo para a concepção na mente do ouvinte, um retrato representa a pessoa para quem
ele dirige a concepção de reconhecimento, um catavento representa a direção do vento para a
concepção daquele que o entende, um advogado representa seu cliente para o juiz e júri que ele
influencia (ibidem). E a representação, por pertencer à categoria do terceiro, reúne um primeiro e
um segundo.
76
Ao pensamento cartesiano, tal revisão exige maior retidão de espírito. Escreve Descartes (apud Chauí,
1997: 158) nas suas Regras para a direção do espírito: por método, entendo regras certas e fáceis, graças
às quais todos os que as observem exatamente jamais tomarão como verdadeiro aquilo que é falso e
chegarão, sem se cansar com esforços inúteis e aumentando progressivamente sua ciência, ao
conhecimento verdadeiro de tudo o que lhes é possível esperar (grifo nosso).
2.4.
C
URTA
D
IGRESSÃO
B
IOSSEMIÓTICA
:
N
O
D
OMÍNIO DO
O
RGÂNICO
No artigo A semiosfera como síntese entre a fisio, bio, eco e tecnosferas, Santaella (2001)
noticia o nascimento de uma nova interdisciplina: a biossemiótica. Desde quando um húngaro de
nome Thomas Sebeok (1920 2001) avistou, nos anos 60, rastros de semiose na origem da vida, a
semiótica e a biologia foram – irremediavelmente – imbricadas.
Narrativa semiótica de origem. No princípio, não era nem mesmo o pó. Mas, o nada, como
coisa nenhuma: completely undetermined and
dimensionless
potentiality
77
. Portanto, uma espécie de
nada prenhe, cheio de vida e variedade (Peirce, 2005:12). Primeiro deslocamento evolutivo,
determinação daquele indeterminado, obra da pura espontaneidade e que por sua vez encerrou
entre o pavimento e a abóbada um mundo de possibilidades eternas. We have moved, Peirce says,
from a state of absolute nothingness to a state of chaos (Houser, 1992:xxxiii). Segundo
deslocamento: somehow, the possibility or potentiality of the chaos is self-actualizing. A secundidade
é a trama dos tantos eventos que atualizam as qualidades. Do terceiro deslocamento, finalmente,
resulta certa tendência geral à aquisição de hábitos.
2.5. P
ENSAMENTO
:
S
IGNO
O termo semiosfera
78
tem origem nos trabalhos do semioticista russo Iúri Lótman (1922
1993) quando, em 1984, empregou-o para designar o habitat e a vida dos signos no universo cultural
77
O nada como aquilo que inspira a parede de Campos de Carvalho, quando da sua A Lua vem da Ásia:
(...)
de resto, a noite não é tão triste assim, e eu bem posso, querendo, sentar-me à beira da cama, colocar as
duas mãos na fronte como o faria qualquer sujeito de bom senso, e distrair-me assim com o espetáculo da
parede sempre branca e sempre imóvel, a dois palmos do meu nariz (...).
78
Semio é signo.
(Machado, 2007:16). Partiremos da noção de semiosfera, nascida dos trabalhos de Lótman,
conscientes do caráter dualista (ver Noth, 2007) que oferece suporte ao conceito. Considera o autor
a existência de espaços semióticos e espaços não-semióticos; assim como atesta o fragmento:
devemos falar de semiosfera, que podemos definir como o espaço semiótico necessário à existência
e funcionamento das linguagens, e não a soma total das diferentes linguagens; (...) fora da
semiosfera não pode haver comunicação nem linguagem (apud Santaella, 2007:121). Visão,
obviamente, antípoda ao gérmen pansemiótico indicado nos escritos de Peirce.
A ciranda teorética, aquela que alinhava conceitos por ordem de seu parentesco histórico,
filosófico, ideológico e pragmático, aponta para a noção de biosfera, desenvolvida pelo geoquímico
Vladímir Ivánovich Vernádski (1863 1945). Entre um e outro, ainda a noosfera, tematizada
por Pierre Auger (no ano de 1966), Teilhard de Chardin (em 1965) e Jacques Monod (1970); e que,
por sua vez, foi-me apresentada por Morin (mesmo caminho percorrido, anos antes, por Santaella,
2007:113), nas páginas do seu O Método IV. As idéias: a sua natureza, vida, habitat e organização:
Vivemos, vale lembrar, num universo de signos, símbolos, mensagens, figurações,
imagens, idéias, que nos designam coisas, situações, fenômenos, problemas, mas que,
por isso mesmo, são os mediadores necessários nas relações dos homens entre si, com
a sociedade, com o mundo. Nesse sentido, a noosfera está presente em toda visão,
concepção, transação em cada sujeito humano com o mundo exterior, com os outros
sujeitos humanos e, enfim, consigo mesmo. A noosfera tem certamente uma entrada
subjetiva, uma função intersubjetiva, uma missão transubjetiva, mas é um elemento
objetivo da realidade humana (grifo nosso).
Pois, para alcançar o reino dos signos, em Peirce, à luz de certa ecologia das idéias,
subiremos ainda que saltos largos a árvore genealógica na qual se vê pendurado o conceito de
semiosfera. Das investigações científicas empreendidas por Auger, Chardin, Monod e Morin,
interessa-nos o tumulto das idéias
79
(grifo nosso) registrado por um e outro. E, de modo
fundamental, o bulício do raciocínio captado pelos diferentes autores, no intervalo de 95 anos
80
. A
propósito de um compacto dos conceitos, sugiro visita aos originais. Nada a justificar minha
garatuja, apreensão manca e emergencial, quando se pode ir ao figural das obras citadas, àquele
acontecimento libidinal irredutível à linguagem (Pavis, 2003:80).
2.6. P
ENSAMENTO
-G
ALÁXIA
:
A
N
OOSFERA
O clérigo, geólogo e paleontólogo, Pierre Teilhard de Chardin, viveu entre os anos de 1881 e
1955; período em que a metafísica sofreu importantes transformações. Bastaria dizer, grosso modo,
que – ao privilégio da consciência reflexiva (de Husserl, à moda de Kant) - sucedeu o nascimento da
ontologia de Heidegger e a possibilidade de superação da contenda realismo versus idealismo
(Chauí, 1997:206-244). A 1ª. edição da sua obra mais fecunda, O Fenômeno Humano, data de 1965
e antecipa, no prólogo, visão elíptica (ou apócrifa?) amesmo para o pequeno clã
81
científico do
79
Tumulto que é próprio da racionalidade. Da racionalidade que não tem nunca a pretensão de esgotar num
sistema lógico a totalidade do real, mas tem vontade de dialogar com o que lhe resiste (Morin, 1990:84).
Subscreve-me, ainda, Merleau-Ponty (apud Pavis, 2003:25): pensar é tentar, operar, transformar, sob a única
reserva de um controle experimental no qual intervenham apenas fenômenos altamente “trabalhados”, e que
nossos aparelhos produzem mais do que registram (grifo nosso).
Assim, remata Picasso (apud Pignatari, 1979:15), olímpico: je ne cherche, je trouve.
80
O período corresponde à criação do termo biosfera, obra do geólogo Eduard Suess (Vernadsky apud
Machado, 2007:273) e os estudos em torno da noosfera, aqui condensados por Morin (Santaella, 2007:113).
81
Referência ao francês Marcel Proust (1871- 1922) e seu Um amor de Swan, parte integrante do
monumental Em busca do tempo perdido. E tantas vezes a arte precede a ciência. Assim, como me faço
recordar ao ler Peter Pál Pelbart (2002:288), citando Françoise Collin que, pensando em Maurice Blanchot,
teria dito com outras palavras: para Blanchot a linguagem poética nos remete não àquilo que reúne, mas ao
que dispersa, não aquilo que junta, mas ao que disjunta, não à obra, mas à inoperância... Conduzindo-nos em
direção àquilo que tudo desvia e que se desvia de nós, de modo que aquele ponto central em que, ao
escrever, parece-nos que nos encontramos, não passa de ausência de centro, falta de origem.
A recherche do pensamento é o estatuto da exterioridade.
século XXI: para um observador, é simplesmente banal, e até constrangedor, transportar consigo,
para onde quer que vá, o centro da paisagem que atravessa
82
.
Em que pese o plano de estabelecer em volta do Homem, escolhido como centro, uma
ordem coerente (Chardin,1970:1), instruir o olhar para certa acuidade positivíssima
83
e o convite
para dentro das suas inflexões repletas de acentos teatrais
84
... Em que pese todo o dito, Chardin,
imbuído como estava da tarefa de desvelar o auto-engodo que escrevemos sob a epígrafe de
Ciência (embora flexione, em seu lugar, a comunhão entre razão e crença
85
) favorece o contágio
entre aqueles três nichos - homem-cultura, vida-natureza, física-química - assinalados por Morin
86
.
Dá-se, daí, uma nova antropomorfia que põe a misturar categorias como o biológico, o tecnológico, o
natural, o artificial e o humano (Santaella, 2001).
82
Companheiro de sacerdócio, igualmente padre e professor de teologia, N.M. Wildiers, assinala no prefácio
(in Chardin,1970:X):pode ser que certos investigadores, prisioneiros de métodos de trabalho positivistas e
estranhos às necessidades superiores do espírito humano, considerem semelhantes tentativas (de sair dos
estreitos limites do seu próprio campo de trabalho) com certo desdém, sob o pretexto de que elas saem dos
limites da ciência propriamente dita. (...) É, todavia, indispensável que o homem confronte sem cessar a sua
concepção geral da vida com as descobertas da ciência e que, se possível, a enriqueça e aprofunde mediante
novas contribuições (...).
83
No prólogo (Chardin, 1970:5): (...) procurar ver mais e melhor não é, pois, uma fantasia, uma curiosidade,
um luxo. Ver ou perecer.
84
De uma ou de outra maneira, resta-nos que, mesmo aos olhos do simples Biólogo, nada se parece mais
com uma Via-Sacra como a epopéia humana! (Chardin, 1970:348).
85
Após quase dois séculos de lutas apaixonadas, nem a Ciência nem a Fé conseguiram apoucar-se uma à
outra; mas, muito pelo contrário, torna-se evidente que não poderiam desenvolver-se normalmente uma sem
a outra: e isto pela simples razão de que uma mesma vida as anima a ambas (ibidem:313).
86
Assim como aparece nas primeiras linhas do presente capítulo.
Sua noção de noosfera corresponde a um reino dominado pelo pensamento, membrana que
recobre todas as demais esferas
87
(barisfera, litosfera, hidrosfera, atmosfera e biosfera). Reino na
sua acepção biológica, como faixa que rodeia a superfície terrestre, região marcada por
particularidades inerentes aos organismos vivos. O prefixo noos, em tempo, do grego, noûs (ou
nóos): faculdade de pensar, inteligência (...) intelecto, reflexão, intenção racional, pensamento
(Chauí, 1994:355).
Escreve Chardin (ibidem:190), sobre a membrana telúrica, incandescência que envolve todo
o planeta:
É verdadeiramente uma camada nova, a “camada pensante”, exactamente tão
extensiva, mas muito mais coerente ainda, como veremos, do que todas as camadas
precedentes, que, após ter germinado no Terciário declinante, se expande desde então
por cima do mundo das Plantas e dos Animais: fora e acima da Biosfera, uma Noosfera.
Note-se, a propósito, que o espraiamento da noosfera, para além da biosfera (o próprio
tecido das relações genéticas que, uma vez desdobrado e erguido, desenha a Árvore da Vida
88
),
catapulta-nos de volta para as contribuições de Peirce e sobretudo para dentro do universo da
terceiridade. Terceiridade que é categoria da generalidade, continuidade, tempo, mudança e
evolução, ou melhor, semiose (Santaella, 2004:172). Terceiro que é signo, ele próprio atada à noção
de vida.
87
À menção das esferas não escapa trilogia homônima (Esferas I: Burbujas. Microsferológia, Esferas II:
Globos. Macrosferológia e Esferas III: Espumas. Esferológia Pluralista), autoria do filósofo alemão Peter
Sloterdijk (2003:37): la esfera es la redondez con espesor interior, abierta e repartida, que habitan los seres
humanos en la medida en que consiguen convertirse en tales. Como habitar significa siempre ya formar
esferas, tanto en lo pequeño como en lo grande, los seres humanos son los seres que erigen mundos
redondos y cuja mirada se mueve dentro de horizontes. Vivir en esferas significa generar la dimensión que
pueda contener seres humanos. Esferas son creaciones espaciales, sistémico-inmunológicamente efectivas,
para seres estáticos en los que opera el exterior.
88
Ibidem:190.
No ano de 1970, O acaso e a necessidade: ensaio sobre a filosofia natural da biologia
moderna, obra do francês Jacques Monod (1910 1976), abre a década com sua versão biologista
da noosfera. Às idéias, dotadas de caracteres orgânicos (o mesmo em Auger e Chardin
89
), são
atribuídos – por exemplo - valores de performance e poder de invasão. Dispensados de vasculhar as
filigranas de um e outro conceito
90
, bastaria dizer que ambos desempenham papel fundamental no
comportamento humano: modificam as estruturas preexistentes no espírito do indivíduo e garantem
taxas suplementares (aumento da coesão e do poder de expansão) ao arranjo humano que as adota
(Monod, 1989:184). As idéias funcionam, por um lado, como cordilheiras que protegem os
agrupamentos contra as vicissitudes da evolução. Por outro, são o preço que o homem teve de
pagar para sobreviver enquanto animal social, sem se dobrar a um puro automatismo (ibidem:186).
A visão sistêmica bosquejada por Monod, a mesma que dá a explicar o processo evolutivo
da espécie, guarda correspondências curiosas com outra obra francófona, 76 anos mais antiga.
Introduction à la Méthode de Léonard Da Vinci, datada de 1894, tem autoria de um precoce Paul
Valéry (apud Pignatari, 1979:16), que, aos 23 anos de idade, teria prenunciado:
(...) nove vezes em dez, toda grande novidade numa ordem (de coisas) é obtida
pela intrusão de meios e noções que ali não estavam previstos; tendo atribuído esse
progresso à formação de imagens e, depois, de linguagens, não podemos escapar à
89
Muito embora Monod (ibidem:44) considere as colocações de Chardin desprovidas de rigor e de
austeridade intelectual. Observa que a aliança animista com a natureza (aquela que reúne, num mesmo nó,
homem e biosfera) divulgada pelo padre não encerra descoberta alguma. De acordo com Monod, a teoria
universal, segundo a qual a evolução da biosfera até o homem seria contínua, sem ruptura da própria
evolução cósmica, é o gérmen do progressismo cientista do século XIX (já em Spencer, Marx e Engels).
90
Eles próprios quase nebulosos para o autor: o poder de invasão, em si, é bem mais difícil (que o valor de
performance) de analisar. Digamos que ele depende das estruturas preexistentes do espírito, entre as quais
as idéias veiculadas pela cultura, e também, sem dúvida, certas estruturas inatas que para nós é muito
difícil identificar (Monod, 1989:185).
consequência de que a quantidade dessas linguagens que um homem possui influi
singularmente no número de oportunidades que pode ter no sentido de encontrar novas.
E Monod (1979:138):
Temos (...) uma idéia bastante clara, outrora ignorada, que nos permite
compreender, bem melhor do que antes, que toda “novidade”, sob forma de uma
alteração da estrutura de uma proteína, será antes de tudo testada por sua
compatibilidade com o conjunto e um sistema ligado por inumeráveis submissões, as
quais comandam a execução do projeto do organismo. Portanto, as únicas mutações
aceitáveis são aquelas que, em todo caso, não reduzem a coerência do aparelho
teleonômico
91
, mas antes o reforçam ainda na orientação adotada ou, sem dúvida
muito mais raramente, o enriquecem com possibilidades novas.
O parentesco entre os fragmentos, flagrante ou forjado exercício analógico
92
, de qualquer
maneira nos abre três perspectivas - mais ou menos - patentes. Primeira, a novidade, em ambos os
casos, depende de certa abertura (overtness) que a permita entrar. O que parece óbvio, conquanto
não seja. Segunda, a novidade introduz informações imprevistas. E, por fim, a novidade sugere, em
algum grau, reconfiguração do sistema que a recebe. Ali, gerando novas oportunidades. Aqui, como
modificação da estrutura proteica, resultando em mutações no projeto teleonômico. Para efeito,
podemos afirmar que a noção de teleonomia é compatível àquela de causação final ou ação
inteligente, dado que a causação final é inerente a qualquer atividade direcionada para um fim
(Santaella, 2001).
91
Por teleonomia o autor entende projeto, propósito. Diz Monod (1979:21) todo artefato é um produto da
atividade de um ser vivo que exprime, assim, e de modo particularmente evidente, uma das propriedades
fundamentais que caracterizam todos os seres vivos sem exceção: a de serem dotados de um projeto que ao
mesmo tempo eles representam em suas estruturas e realizam por suas performances (...).
92
Valéry (apud Pignatari, ibidem), ele mesmo: pois a analogia, precisamente, é senão a faculdade de variar
as imagens, de combiná-las, de fazer coexistir a parte de uma com a parte de outra, e de perceber,
voluntariamente ou não, a ligação de suas estruturas.
Uma imagem pode ser uma previsão em relação à outra.
Mensuradas e reservadas as proporções, num comentário pioneiro do volume (Eureka, de Edgar Allan Poe),
Valéry assinalou as relações surpreendentes que se estabelecem entre as formulações de Poe e certas idéias
que acabariam posteriormente se firmando no âmbito da Física.
É o que confirma Roland Campos, quando
nos informa que há ecos de Eureka na teoria relativista (Motta, 2007:85).
Partilharemos a definição do cientista russo A.I. Ueymov (apud Vieira, 2006:41): um sistema
é um conjunto ou agregado de elementos relacionados o suficiente para que haja a partilha de
propriedades. Tomaremos os chamados elementos relacionados por partes de um todo, desde
caracteres sicos às luminescências puramente mentais, submetidas a um conjunto de condições
(estacionário ou transitório) que as vincula ou as põe em associação. São características
elementares de um sistema: Permanência (tendência que todas as coisas têm em permanecer no
tempo), Meio Ambiente (o sistema que envolve o sistema de referência) e Autonomia (todos os
“estoques”, de energia ou matéria em todas as suas formas, logo de informação, que permitem ao
sistema a exploração necessária à permanência no tempo). Nada longe deduzir que, diante das
particularidades sistêmicas apresentadas, estamos diante de uma unidade global (Morin apud Vieira,
2006:41) aberta. Estruturalmente aberta, na medida em que seus processos de elaboração não
prescindem da introdução de informações inopinadas.
A semiosfera é um sistema aberto. Um ambiente hipermidiático é um sistema aberto.
Diremos que permanência o é conservação retesada, mas, continuidade, fluxo: a intransitividade
radical
93
de Roland Barthes, apropriada por Foucault em As palavras e as coisas, distraída com o
privilégio da não-significância. Meio Ambiente é o entorno na forma relações dialógicas iminentes
(Bairon, 2006:3), lugar de elisão da experiência dialética drive-thru
94
, do cogito como substância
93
Nas palavras de Machado
(1)
(2001:110): a intransitividade radical da linguagem literária, no sentido de ser
ela uma operação reflexiva, de existir perpetuamente voltada sobre si mesma, inteiramente referida ao ato
puro de escrever, que quer apenas afirmar sua existência, dizendo apenas o que é, cintilando no brilho de seu
ser.
94
A dialética de Hegel é aqui pensada como anteposição e não oposição. Para falar como Zizek (2008:18), lá
sobre o materialismo dialético: a luta dos contrários foi colonizada/ofuscada pela noção de polaridade dos
opostos da Nova Era (yin-yang e assim por diante). O primeiro passo fundamental é substituir essa questão
da polaridade dos opostos pelo conceito de “tensão” (...) não-coincidência, inerente ao próprio Um.
Assumimos a lacuna como leitmotiv do pensamento. Tese, antítese, síntese, tese, antítese, síntese, a l’infini.
privada
95
. As esferas de Sloterdijk (2003:14): no un espacio neutro, sino uno animado y vivido; un
receptáculo en el que estamos inmersos. E, a qualquer tempo: Autonomia, cuja função, no interior
do nosso sistema, é negativa; a frágil membrana que nos separa do espaço comum. E que, ao nos
separar, nos determina a extensão. La coexistencia precede a la existencia y de que vivir significa
dejarse implicar en las pasiones y obsesiones de esa coexistencia (ibidem).
95
Em Descartes (1999:49), a vontade, antes, de assepsia cognitiva para, mais tarde, balizar opiniões capazes
de dirigi-lo: nunca aceitar algo como verdadeiro que eu não conhecesse como tal; ou seja, evitar
cuidadosamente a pressa e a prevenção, e de nada fazer constar de meus juízos que não se apresentasse
tão clara e distintamente a meu espírito que eu não tivesse motivo algum para duvidar dele.
3. S
UPERFÍCIES DE
I
NSCRIÇÃO
:
O
E
NSAIO DE
V
ALETES
EM
S
LOW
M
OTION
Absorto, centrado no nó das trigonometrias, meditando múltiplos quadriláteros, centrado ele mesmo no quadrado
do quarto, as superfícies de cal, os triângulos de acrílico, suspensos no espaço por uns fios finos os polígonos, Isaiah
o matemático, sobrolho peluginoso, inquietou-se quando descobriu o porco. Escuro, mole, seu liso, nas coxas
diminutos enrugados, existindo aos roncos, e em curtas corridas gordas, desajeitadas, o ser do porco estava ali.
(....)
Hilda Hilst, trecho do conto Gestalt
E
m entrevista ao Libération, nos primeiros de setembro de 1986, Deleuze (1992:109)
respondia: sim, é uma linda fórmula. A observação fora antecedida pela pergunta do jornalista e
filósofo, Robert Maggiori: vo gosta da fórmula de Valéry? Sim, é uma linda rmula. O mais
profundo é a pele. Houve ainda tempo para que continuasse o interpelado:
A filosofia como dermatologia geral, ou arte das superfícies (...). As novas imagens
realçam o problema. Precisamente em Foucault, a superfície torna-se essencialmente
superfície de inscrição: é todo o tema do enunciado “ao mesmo tempo não visível e não
oculto”. A arqueologia é a constituição de uma superfície de inscrição, o não-oculto
permanecerá não-visível. A superfície não se opõe à profundidade (voltamos à
superfície), mas à interpretação. O método de Foucault sempre se contrapôs aos
métodos de interpretação.
Jamais interprete, experimente... (...)
Então, para nós, a escrita alfabética a ver sua superfície de inscrição como redundância,
em que os elementos previsíveis, substituíveis, podem ser reconstituídos por outra forma. De novo,
Valéry (apud Pignatari, 1979:108) - certa altura da célebre reflexão endereçada a Da Vinci - escreve:
pensar profundamente é pensar o mais longe possível do automatismo verbal. Antes, contudo, breve
recuo. Por superfície de inscrição não apenas um recorte anatomista do objeto ocupado com sua
dimensão fisiológica, orgânica, experimental mas toda área em que sejam consideradas notações
(de qualquer ordem) visíveis ou não. Nada apressado recuperar a imagem do palimpsesto a fim de
ilustrar o conceito foucaultiano, ele mesmo, por si, figurado. Ainda que impossibilitados de revelar
integralmente - o conteúdo da inscrição primeira, desgastada e subescrita, afirmamos sua presença
física
96
. Gérard Genette (2006), em seus Palimpsestos: a literatura de segunda mão, amplia,
sobremaneira, nossa reflexão:
(...) vemos, sobre o mesmo pergaminho, um texto se sobrepor a outro que ele não
dissimula completamente, mas deixa ver por transparência. (...) é o que se deve
entender mais genericamente de todo hipertexto, como dizia Borges sobre a relação
entre o texto e seus textos preliminares. O hipertexto nos convida a uma leitura
relacional cujo sabor, tão perverso quanto queiramos, se condensa muito bem neste
adjetivo inédito que Philippe Lejeune inventou recentemente: leitura palimpsestuosa.
Logo recuperaremos Genette. Sem demora, à discussão preliminar. O códigos, no caso
daquela escritura alfabética, são formados por sinais, com características digitais e metonímicas.
São simbólicos
97
, não-simultâneos, hierárquicos, convencionais. Por pertencerem ao sistema de
uma língua, as palavras são interpretadas como representando aquilo que representam por força
das leis desse sistema (Santaella, 2005:262). A cadeia sígnica reporta-se, de maneira patente, a
certo sistema de idéias que não nos causa estranhamento (Pignatari, 1979:36). Não esteja claro e o
crítico canadense Northrop Frye (1973:77) virá, definitivamente, em resgate: o símbolo verbal “gato”
é um grupo de sinais pretos numa página, representando uma sequência de sons, que representam
96
E, talvez aqui já um tanto preciptados, dizer que – mesmo para o conhecimento científico – o não
formalizável, o não logicizável, o não teoremizável (Morin, 1988:259), qualquer circunstância, continuará a
existir. Ou, para falar como Spinoza (apud Maffesoli, 2007:7): uma coisa não deixa de ser verdadeira por não
ser aceita por muitos homens.
97
O símbolo, não nos esqueçamos, é – antes uma ilocução. É realizável, de modo único, se o interpretante
reconhecer a réplica ao qual se refere o signo. Considerado em si mesmo, é, enquanto terceiridade, um
legissigno. É um tipo geral, não um objeto particular. É um protótipo, diríamos em termos de design que
se manifesta e se significa por corporificações concretas, chamadas réplicas (Pignatari, 1979:28).
uma imagem ou lembrança, que representa uma experiência sensitiva, que representa um animal
que faz miau.
Pertinente introduzirmos o processo de associação por contiguidade, melhor definido como
conexão experencial, sem controle. Os animais inferiores raciocinam assim. Um cão, ao ouvir a voz
do dono, corre esperando vê-lo e, se não o encontra, manifesta surpresa ou, de alguma forma,
perplexidade (Peirce apud Pignatari, idem:106). Significa, grosso modo, que uma cadeia de idéias
vem a reboque daquela primeira familiar. Vizinhas, em determinando sistema, arrastam-se as idéias
umas às outras para onde quer que se locomovam. Solicitemos trecho do conto Comunidade,
autoria de Franz Kafka, a fim de notar o caráter arbitrário das expressões de uma língua e, amiúde,
das sugestões associativas por contiguidade. De modo análogo à formação dos signos numa
superfície de predominância simbolóide, a configuração de um pequeno agrupamento humano:
Somos cinco amigos; uma vez saímos um atrás do outro de uma casa; primeiro
veio um e pôs-se junto à entrada, depois veio, ou melhor dito, deslizou-se tão
ligeiramente como se desliza uma bolinha de mercúrio, o segundo e se pôs não distante
do primeiro, depois o terceiro, depois o quarto, depois o quinto. Finalmente estávamos
todos de , em uma linha. A gente fixou-se em nós e assinalamo-nos, dizia: os cinco
acabam de sair dessa casa. A partir dessa época vivemos juntos, e teríamos uma
existência pacífica se um sexto não viesse sempre intrometer-se.
É, assim, com a expressão
98
a aranha tece a teia, obediente à lei
99
de predicação do sujeito
(grifo nosso) e a outros códigos prescritos, de caráter geral. Em tempo, tanto o fragmento de
98
Expression is a kind of representation or signification. (…) If the thirdness is undegenerate, the relation of
the sign to the thing signified is one which only subsists by virtue of the relation of the sign to the mind
adressed; that is to say, the sign is related to its object by virtue of mental association.
99
Recorda-nos Santaella que a noção de lei, em Peirce, é bastante original. Não corresponde ao conjunto
tácito (e que não se pode demover), de normas prescritas por qualquer autoridade. A lei funciona, portanto,
como uma força que será atualizada, dadas certas condições. Por isso mesmo, a lei não tem a rigidez de uma
necessidade, podendo ela própria evoluir, transformar-se (Santaella, 2005, 262).
Kafka
100
, quanto os esquemas que regem a linguagem, são modos de ordenação volitivos e não
congênitos ou naturais. De maneira que, como dissemos linhas passadas, a priori, nada nos impede
de criar novos arranjos. Há sempre, em Foucault (1992:XV), um lampejo:
Um sistema dos elementos” uma definição dos segmentos sobre os quais poderão
aparecer as semelhanças e as diferenças, os tipos de variação de que esses segmentos
poderão ser afetados, o limiar, enfim, acima do qual haverá diferença e abaixo do qual
haverá similitude é indispensável para o estabelecimento da mais simples ordem. A
ordem é ao mesmo tempo aquilo que se oferece nas coisas como sua lei interior; a rede
secreta segundo a qual elas se olham de algum modo umas às outras e aquilo que
existe através do crivo de um olhar, de uma atenção, de uma linguagem (...).
Sim, dizíamos, a aranha tece a teia. Informação
101
documentária, por sua vez e nas palavras
de Max Bense, reprodutora de uma situação observável. A aranha tece a teia encerra fato
convencional entre nós, subordinado às leis da natureza, cuja ocorrência consta dos manuais
zoocientíficos mais elementares. Mas, o quando dizer a aranha tece a teia é uma proposição
verdadeira invoca outra categoria de informação, aqui, semântica. Àquilo que alçanca os olhos
soma-se um não-observável como, por exemplo, o conceito de falso ou verdadeiro. E se João
Cabral de Melo Neto escreve:
A aranha passa a vida
tecendo cortinados
com o fio que fia
do seu cuspe privado
100
Continua lúcido o escritor tcheco: (...) Nós cinco tampouco nos conhecíamos antes e, se quer, tampouco
nos conhecemos agora, mas aquilo que entre nós cinco é possível e tolerado, o é possível nem tolerado
em respeito aquele sexto.
Além do mais somos cinco e não queremos ser seis. E que sentido, sobretudo, pode ter essa convivência
permanente, se entre nós cinco tampouco tem sentido, mas nós estamos já juntos e continuamos juntos, mas
não queremos uma nova união, exatamente em razão das nossas experiências. (...)
101
O filósofo e crítico, Max Bense, toma por informação todo processo de signos que exibe um grau de
ordem. Estabelece, entretanto, diferenças entre três tipos (informação documentária, informação semântica e
informação), conforme observaremos (apud Campos, 1992:32). Os exemplos aracnídeos são um
oferecimento de Haroldo de Campos (ibidem).
Encontramos, acima, entre o signo e o objeto de representação um despenhadeiro tão mais
profundo quanto as possibilidades de experimentação. Dizemos que a informação estética guarda
versões de si sobre as quais nossa vontade individual de significação alcança, com esforço, uma
míngua. Se a aranha faz a teia ou a teia é tecida pela aranha ou a teia é uma secreção da aranha
(Campos, 1992:33), qualquer uma das escolhas, não há prejuízo em relação ao núcleo duro do
signo: o arco de correspondência entre o propósito de representação e objeto é, em todos os casos,
preservado. Todavia, nenhum rearranjo dos códigos de Melo Neto é permitido sem que sobre a
partitura poética incorram contratempos com a afinação.
Pignatari (1979:107), alumiado por Valéry, abrevia: resumir uma tese significa reter sua
essência, resumir um poema significa perder sua essência. Quando a tese é engendramento
hierárquico de caracteres e registro sintático linear. Quando a estética da poesia é um tipo de
metalinguagem cujo valor real se pode aferir em relação à linguagem-objeto (Campos,
ibidem:46). Nas equivalências entre uma e outra, infinitas costuras sígnicas. Se a tese afiança o
silogístico e o contíguo, tanto mais o poema implode
102
em agenciamentos analógicos
103
(Santaella,
2005:297). Mal imitando os concretistas, assim: a frase-frásica, auto-referente, deixa a frase-
relojoaria apodrecer insepulta. Para o ensaísta Albercht Fabri (apud ibidem:31) a linguagem literária
aninha sentenças absolutas cuja característica elementar seria não ser outra coisa senão o seu
102
Implosão como movimento centrípeto, auto-referente, teofugidio: en la concepción metafísica del mundo
los únicos candidatos a una excentricidad así son Satán y los grandes pecadores de su séquito (Sloterdijk,
2004: 110). O incomparável Foucault, nas palavras do mesmo Sloterdijk (ibidem:118): mundo como esfera, eu
como círculo, Deus como centro: eis o triplo bloqueio do pensar-acontecimento.
103
Notícias da noosfera concreta de Campos (1956):
o poeta concreto a palavra em si mesma - campo
magnético de possibilidades - como um objeto dinâmico, uma célula viva, um organismo completo, com
propriedades psicofisicoquímicas tacto antenas circulação coraação: viva.
próprio instrumento
.
Embora em Barthes (1989:98), de maneira irreprimível, no corpo do verbete eu-
te-amo:
(...) a mínima alteração sintática desfaz esse bloco; ele está por assim dizer fora da
sintaxe e não se presta a nenhuma transformação estrutural; ele não equivale em nada
aos seus substitutos, cuja combinação poderia no entanto produzir o mesmo sentido.(...)
Eu-te-amo não tem nuances. Dispensa as explicações, as organizações, os graus, os
escrúpulos. De uma certa forma – paradoxo exorbitante da linguagem -, dizer eu-te-amo
é fazer como se não existisse nenhum teatro da fala, e é uma palavra sempre verdadeira
(não tem outro referente a não ser seu proferimento: é um perfomativo).
Existiria, assim, certa determinação tautológica, por natureza, inseparavelmente ligada à
obra de arte. Observação que nos lança de volta ao início do capítulo. Então, para nós, nem toda
escrita alfabética oferece superfície de inscrição como redundância ou põe em movimento uma série
de idéias gerais, regularidades associativas ou conexões habituais entre o signo e o objeto denotado
(Santaella, 2005:266). O das trigonometrias e os múltiplos quadriláteros não impedem o porco
epigrafado, escuro e mole, de existir aos roncos. O avultado porco, sexto intrometido de Kafka, é
uma rama de qualidades imediatas, frescas, novas, iniciantes, originais, espontâneas, livres, vívidas,
evanescentes, in totum (Santaella, 1983:45). O porco é a notícia da descoberta.
Ao mesmo tempo, a predominância simbólica nas construções documentárias ou
semânticas favoreceria o isolamento da informação; para além
104
do instrumento (como organização
104
Ou aquém? Não estou certa sobre ser o sentido superior à estrutura da língua, se vice-versa ou, ainda, se
é irrelevante (e binária!) a rinha entre forma e conteúdo. Melhor, e em tempo, se forma é conteúdo. Seja como
for, tendo a crer naquilo que me parece mais claro. A estrutura verbal (que é sintática e, logo, diagramática),
quando à serviço do símbolo, cuidaria para que o signo correspondesse – de modo preciso - ao fenômeno. É
uma constatação. E, sendo o verbo, antes, diagrama, operação anti-natural.
De outra forma, se imagem, diagrama ou metáfora, a estrutura verbal favoreceria a contemplação ou aquilo
ao que Peirce chama de insight (introvisão racional, na acepção de Pignatari, 1979:32). É um juízo impreciso.
Desobrigada, a linguagem literária, da justa amarra entre representação e objeto da representação. Imagem
desativada no plano da página cujo poder de abalo é extraordinário e virtual. É o que nos faz recrutar - na
frasal) que a coloca em curso. Sob legislação semiótica, diríamos que tal isolamento é possível por
ordem do caráter geral e abstrato do signo simbólico:
a palavra não é uma coisa. Ela consiste na regra geral realmente operacional de
que esses três traços (a palavra “man”) vista por uma pessoa que saiba inglês afetará
sua conduta e pensamentos de acordo com uma regra. (...) O ser de um símbolo
consiste no fato real de que algo será seguramente experienciado se certas condições
forem satisfeitas (Peirce apud Santaella, 2005:265)
.
Dentro em pouco trataremos da distinção entre um rema, um dicente e um argumento.
Qualquer modo anteciparemos, em proveito, o terceiro: um legi-signo simbólico será interpretado
como um argumento, princípio de sequência que segue das premissas até uma conclusão
(ibidem:261). Um argumento é um geral, parece-nos bem entendido, e não um singular. A palavra
animal não designa a aranha tecelã ou o porco indolente, mas, vacas, golfinhos, mutuns, dragões,
seres humanos, aranhas tecelãs, porcos indolentes e demais espécimes vivas, pluricelulares,
heterotróficas, existentes ou fantásticas.
Não há, exatamente, novidade quanto ao ícone despontar heróico nos tratados semióticos
sobre estética. Para Peirce, diz Pignatari (1979:34), o ícone é o signo da descoberta, o signo
heurístico por excelência (...):
À primeira vista, chamar de ícone a uma expressão algébrica parece uma
classificação arbitrária; ela poderia muito bem, ou melhormente ser tida como um signo
composto convencional. Mas não é isto o que se dá. Pois uma das grandes
propriedades distintivas do ícone é a de que, ao seu exame direto, outras verdades
concernentes ao seu objeto podem ser descobertas, além daquelas suficientes para a
determinação de sua construção. É assim que, por meio de duas fotografias, podemos
traçar um mapa, etc. Dado um signo convencional ou geral de um objeto, para que
possamos deduzir qualquer verdade que ele não signifique explicitamente,
memória - instantes análogos quando do episódio proustiano da madeleine. Não por acaso, tantas vezes
citado. E, sendo o verbo, antes, diagrama, operação tautológica.
necessário se faz, em qualquer caso, substituir aquele signo por um ícone. A
utilidade de uma fórmula algébrica consiste precisamente na sua capacidade de revelar
uma verdade inesperada – e é por isso que nela prevalece o caráter icônico (grifo
nosso).
Da capacidade de revelar uma verdade inesperada, o ícone passa - em visita à obra literária
- a desconcertar aquelas certezas presumidas, sete-chaves guardadas no conjunto de leis que põe
em fila indiana as palavras de uma língua
105
. Se consideradas as tríades sígnicas, edificadas pela
filosofia peirceana - e a relação do signo com seu interpretante mais apropriado será o uso do
termo rema para as manifestações icônicas ou quase-nada que preenche tudo (Pignatari, 1979:44).
Dicente para o índice. Quando, já revisado, argumento para o símbolo.
nas primeiras do capítulo anterior, sob condição de resgate oportuno, deixamos à deriva
o como fenomenológico. Conservamos o exame para tempo melhor, quando já pudéssemos ter com
a idéia do diáfano, da habilidade [para] agarrar nuvens vastas e inatingíveis (Peirce apud Santaella,
1983:33), da possibilidade de qualquer materialidade aparentemente - não substancial. Em 1929,
Sigmund Freud, concluía o primeiro capítulo do seu Das Unbehagen in der Kultur, entre nós, O Mal-
Estar na Civilização. O trabalho, contudo, é aberto com notas sobre sua obra anterior, O Futuro de
105
Em Bakhtin (2003:261): o emprego de uma língua efetua-se na forma de enunciados (orais e escritos)
concretos e únicos, proferidos pelos integrantes desse ou daquele campo de atividade humana. Esses
enunciados refletem as condições específicas e as finalidades de cada referido campo não só por seu
conteúdo (temático) e pelo estilo da linguagem, ou seja, pela seleção dos recursos lexicais, fraseológicos e
gramaticais da língua, mas, acima de tudo, por sua construção composicional.
Referimo-nos, assim, àquela escrita alfabética de filiação greco-latina, sistema convencional arbitrário.
Consiste da tradução visual em grafemas dos sons da fala (Santaella, 2005:258). Aos grafes chineses, por
exemplo, é reservada análise atenta à origem pictográfica, ao privilégio da malha de traços dispostos no
espaço, entre outros elementos particulares ao sistema ideográfico. Sobre o tema ver Campos, 1977.
Uma Ilusão (1927), crítica contundente às doutrinas religiosas
106
. Conta-nos Freud (1980:81), da
maneira como se segue:
(...)
Enviei-lhe [para Romain Rolland, biógrafo, músico e novelista francês] o meu
pequeno livro que trata a religião como sendo uma ilusão, e ele me respondeu que
concordava inteiramente com esse meu juízo, lamentando porém, que eu não tivesse
apreciado corretamente a verdadeira fonte da religiosidade. Esta, diz ele, consiste num
sentimento peculiar (...) que ele gostaria de designar como uma sensação de
‘eternidade’, um sentimento de algo ilimitado, sem fronteiras – ‘oceânico.
Segue hesitante, mal sabendo enunciar a o pequena dificuldade que o teria acometido
diante do comentário de Rolland. Isso equivale a dizer, medita Freud, que se trata do sentimento de
um vínculo indissolúvel, de ser uno com o mundo externo como um todo. É durante a investigação
do sentimento, cujos sinais fisiológicos seriam os únicos dados à descrição científica, que o
psicanalista esbarra num algo da natureza de uma percepção intelectual, que, na verdade, pode vir
acompanhada de um tom de sentimento. (ibidem:82). Ao exame das considerações do novelista,
restitui, sem demora, o ego, anunciou que linhas claras e nítidas
107
o separam do objeto e carimbou
a idéia toda como estranha e mal ajustada ao contexto da nossa psicologia.
Não nos apressemos, aqui, em considerar que em Freud (1856 1939) um naco de
Peirce (1839 – 1914), e vice-versa, sob o risco de reduzirmos dois grandes pensadores a um quase-
terceiro medíocre. É possível circular vizinhanças entre obras e pensamentos. E, igual medida,
106
Diz Freud (idem:50), numa passagem: a religião (...) dominou a sociedade humana por muitos milhares de
anos e teve tempo para demonstrar o que pode alcançar. Se houvesse conseguido tornar feliz a maioria da
humanidade, confortá-la, reconciliá-la com a vida, e transformá-la em veículo de civilização, ninguém sonharia
em alterar as condições existentes.
107
A não ser em duas situações:
1.
quando do enamora-se e pode o homem borrar, por assim dizer, a
fronteira entre o eu e o tu (Freud, idem:83) e
2.
em estados fronteiriços patológicos diversos. Por exemplo,
casos em que a pessoa atribui ao mundo externo coisas que claramente se originam em seu próprio ego e
que por este deveriam ser reconhecidas (ibidem:84).
determinar limites incorruptíveis. O sentimento oceânico de Romain Rolland traz notícias das esferas
de Sloterdijk. Da esfera, no singular, a mais antiga, o kósmos o cielo omniextensivo (2004:32). La
esfera es el receptáculo de todo (...), es recuerdo, previsión y presencia de espíritu a la vez: una
alabanza en la que se manifiesta el presentimiento de la idea de espíritu del mundo. Esfera que é
religiosa e científica: podendo ser uma, outra ou ambas - simultaneamente
108
dado que qualquer
substância singular é idêntica a si mesma. O ego é, rememoremos, um originário tudo
109
. Avança
Freud (idem:86), em direção curiosa: nosso presente sentimento do ego não passa, portanto, de
apenas um mirrado resíduo de um sentimento muito inclusivo – na verdade, totalmente abrangente -,
que corresponde a um vínculo mais íntimo entre o ego e o mundo que o cerca. Ao vínculo com um
ego primário, caracterizado por sua ilimitabilidade, Freud teria podido compreender aquele
sentimento oceânico; apesar da declarada dificuldade em trabalhar com essas quantidades quase
intangíveis (ibidem:90).
Justamente, dizíamos, um faneroscopista deveria descrever o fenômeno observado.
Descrição livre de predicações substantivas, interjeições, suposições, juízos críticos ou quaisquer
108
Sloterdijk (idem: 52) observa que a teoria das esferas é a primeira análise sobre o poder. E resume: (...)
tan pronto como en la Antigüedad la figura de la esfera pudo construirse en abstracción geométrica y mirarse
en contemplación cosmológica, se abrió paso irremisiblemente la cuestión de quién había de ser el señor de
la esfera representada y construida. En las imágens más antiguas colocaron su pie sobre la esfera las diosas
de la victoria, las fortunas, los emperadores y, mas tarde, los misioneros de Cristo; los científicos se
arremolinaron con su instrumental en torno a ella, dibujaron meridianos y paralelos y trazaron el ecuador
sobre ella; pronto la Iglesia católica plantó la cruz sobre la esfera e proclamó Cristo cosmocrátor de todas las
esferas; en el siglo XX, finalmente, la bola del mundo ha sido integrada en los logotipos y propaganda de
incontables empresas de ámbito internacional.
109
E separado ego do mundo externo apenas na vida adulta:
(...) o sentimento do ego adulto não pode ter
sido o mesmo desde o início. Deve ter passado por um processo de desenvolvimento, que, se não pode ser
demonstrado, pode ser construído com um razoável grau de credibilidade. Uma criança recém-nascida ainda
não distingue o seu ego do mundo externo como fonte das sensações que fluem sobre ela (Freud, ibidem:94).
traços de diligência racional. Descrição imediatamente imediata
110
, asígnica. Peirce, de acordo com
De Tienne (2004:5), teria apontado para o diagrama como modo singular de representação
fenomênica.
Diagrams not only display forms, but in so doing they actually help bring out
features of these forms that were not observable before.
(…)
This diagrammatic revelation is brought about not by simply looking passively at the
diagram, but by making it work, putting it “through its exercises”. This is done by
transforming the diagram, i.e., by subjecting some of its forms to a number of rule-
governed operations, such as subtraction, insertion, iteration, displacement, and then by
comparing the result with previous states of the diagram, and detecting the invariant
properties that emerge from these transformations.
De certo, o hipoícone, localizado entre a imagem e a metáfora, conta dos caracteres
formais daquilo que aparece à consciência. Apenas as propriedades invariáveis do fenômeno
resistem às operações comparativas. O substancial é, portanto, um universal.
3.1.
(N
ÃO
T
ÃO
)
C
URTA
D
IGRESSÃO
:
A
V
ERDADE TEM
E
STRUTURA DE
F
ICÇÃO
Um argumento é, sim, um terceiro. Signo que, para seu Interpretante, é Signo de lei. É
regulamentar, pragmático, arbitrário e geral. Princípio de sequência que segue das premissas até
uma conclusão. Ali quando um rema é provisão, um argumento é economia positiva: representa seu
objeto por ordem de um hábito.
Um dicente ou dicissigno é da ordem de um segundo. Signo que, para seu Interpretante, é
um Signo de existência real (Peirce, 2005:53). É semântico, conjunto de dados comunicado acerca
do objeto. A única informação que pode propiciar é sobre um fato concreto. E continua, mais
adiante: a prova característica mais à mão que mostra se um signo é um Dicissigno ou não, é que
110
E o pleonasmo é legítimo: senão ênfase, condição sine qua non.
um Dicissigno ou é verdadeiro, ou falso, não fornecendo, contudo, as razões de ser desta ou
daquela maneira (ibidem:55). O signo dicente é uma proposição, secundidade concreta, constatação
da existência real de um objeto.
Um rema corresponde a um primeiro. Signo, para o seu Interpretante, de uma possibilidade
qualitativa (ibidem:53). É sintático, conjectural, hipotético e heurístico. Provisão sortida de juízos
infinitos. Os aforismos lacanianos, por exemplo, são manifestações remáticas
111
. De chofre,
impedem nossos esforços imediatos de circundar-lhes o significado
112
. Não o deslocamento, mas, a
suspensão: todo rema propiciará, talvez, uma informação, mas não é interpretado nesse sentido
(ibidem).
A impertinência da inversão, aventura da lei ao idílio, parafraseando Motta (in Kristeva,
1988:12), para encerrar com análise da frase que abre a seção. Já aqui pondo a girar a fragmentária
historiografia do como (a maneira de), inventada por Haroldo de Campos (1992:147), ali atirada
sobre as aventuras textuais no espaço literário brasileiro (idem:148). Opõe-se a nova ao princípio
aristotélico da identidade e da não-contradição, oferecendo guarida ao terceiro incluído
113
. O como,
enquanto conjunção adverbial comparativa, sem gaguejo, aciona operações lógicas por similitude,
111
Interessante notar que, para Samira Chalhub (in Cesarotto, 2001:17), o aforismo lacaniano contêm (...)
outros significantes que fervilham em busca de outros significantes, no contínuo da cadeia sintagmática,
sugerindo um cruzamento vertical-sincrônico. Chamamos a isto de palimpsesto, figura poética: por sobre a
pele do texto mais visível, delineia-se outro olhar, campo escópico de outros possíveis sentidos.
112
Não ignoro que tendo igualmente - a reconhecer, com Pignatari, o logocentrismo lacaniano embora sua
linguagem poética seja seu único caminho para alcançar e tentar apreender o transverbal, o icônico
(idem:111).
113
Quando uma coisa pode deixar de ser igual a si mesma para incorporar o outro, a diferença, desde que
postulada uma relação de similaridade (Campos, 1992:49).
arremesando-nos de volta à experiência, ao exercício das relações, ao esforço do (re)conhecimento,
ao contrapelo do nome próprio (Derrida apud Campos, ibidem:151).
Porventura, quando nada parece bem servir como veste à ciência, reconhecemos aqui que
se cobre o mais novo com a roupa do primogênito
114
. A linguagem literária goza do privilégio de ser
um singular cuja realização é o próprio registro. Sua mecânica é a da similaridade: o que compele o
intérprete a combinar as unidades linguísticas selecionadas [pelo poeta, por exemplo] em unidades
de complexidade crescente (Eugen Bär apud Pignatari, 1979:110). Eis o instante-parataxe: ao
mesmo tempo presentidade diagramática (frase no papel) e imprevisibilidade associativa (Bairon,
2008). Machado (2008), ocupada com as formas de apresentação do conhecimento científico,
antecipa: a comunicação cria possibilidades de elaboração de linguagem para além do signo verbal,
sobretudo porque, para a construção da ciência, concorrem diferentes classes de signos e, portanto,
diferentes semioses nos sistemas culturais. Um ambiente hipermidiático é, senão, o espaço onde
coisa nenhuma é determinada (definida, precisada) ao exame direto: há sempre outras tantas
possibilidades inscritas ali quando o objeto parece esgotado. Então, dizemos que diferentes classes
de signos - o verbovocovisual dos concretistas - produzem diferentes estados de coisas. A
hipermídia é a paranomásia [que] rompe o discurso (hipotaxe), tornando-o espacial (parataxe),
criando uma sintaxe não-linear, uma sintaxe analógico-topológica (Pignatari, 1979:113). Rosalind
Krauss (apud Petry, 2007:6), voltando a vista para a Fonte (1917) de Duchamp, anotou:
O trabalho [Fonte] deixara de ser um objeto comum, pois sofrera uma transposição.
Levara um tombo ou sofrera uma inversão de modo a ficar apoiado em um pedestal, o
que equivale a dizer que fora reposicionado, e tal reposicionamento sico representava
uma transformação que deve ser lida em um nível metafísico. Este ato de inversão
compreende um momento em que o observador é obrigado a perceber que um ato de
114
E a arte, mais uma vez e tantas vezes, epigrafa a ciência.
transferência teve lugar um ato em que o objeto foi transplantado do mundo comum
para o domínio da arte. Tal momento de percepção é o momento em que o objeto se
torna ‘transparente’ a seu significado. E esse significado nada mais é que a
curiosidade da produção o enigma do como e do por que isso aconteceu (grifos
nossos).
O mesmo para a hipermídia como espaço de representação ontologicamente infinito (Winck
apud Santaella, 2005:391). Quando ato de transferência, deslocamento, transporte. E convidamos,
mais uma vez, a metáfora ou a figura de linguagem em que a referência – função de verdade - existe
como concorrência de significados: o signo tornado transliteral em relação ao objeto da
representação
115
. Sem demora, Haroldo de Campos (1992:152), com a sua historiografia do “como”
e o irromper da possibilidade aleatória do “como” descritivo-epifânico na assertividade apofântica
das narrações de estados e ações – advérbio no verbo (...). Por fim, a dialética do limite, em
Sloterdijk (2004:188):
(...) una función primaria de la “imagen de mundo” es hacer expresamente visible y
perceptible el cerco del todo.
(...) tan pronto como se representa una línea-borde manifiesta, se instala la dialéctica del
límite, en la que la permanencia en la línea entra en competencia con el impulso de
sobrepasarla. Todo límite o frontera dice a la vez “alto” y “siegue”, incluso aquella que se
presenta como la última. Para los seres humanos, en tanto que nacidos como seres de
experiencia del límite en ese doble sentido, con cada borde-límite que alcanzan
comienza de nuevo el drama de su espacio interior.
115
Herbert Read (1969:42) sublinha a diferença entre o ingenium e a fantasia.
Ingenium como capacidade para perceber ou descobrir semelhanças entre dois objetos, de outra forma
desiguais (...). O ingenium é, portanto, a definição elementar de metáfora.
Fantasia como atividade comparativa ou capacidade que o indivíduo desenvolve para enxergar similitude
entre termos, absolutamente, arbitrários (como dizer, por exemplo, aquele homem é frio como um pepino). A
combinação entre ingenium e fantasia daria naquilo que Sérguei Eisenstein (1969:100), quando ocupado com
a segunda categoria de hieróglifos, chamou de copulativos. Na escrita ideogramática, eles seriam aquela
combinação entre dois sinais descritivos que dá em um terceiro graficamente indescritível. As costuras
ideogramáticas são pontos de saída reveladores para o estudo da metáfora. Sobre o tema, ver Campos
(1977), Eisenstein (1990).
Sobrepassar a linha
116
.
Toda obra dialoga de forma intensa com o seu tempo e o carrega para dentro de si. O
dadaísmo, porque agora me ocorre, teve como pano de fundo a I Guerra Mundial e potencializou,
pelo viés artístico, o projeto de fragmentação da substância física humana. Principiaram negando o
verbo, a palavra como código apreendido. Dada não significa nada. É cavalo, por acaso. Como
poderia ter nascido vassoura ou pia. Ancorados na (asmática) identidade das coisas, crentes de que
a escritura é a divisa da verdade... Contra o que dialogamos?
Ocorreu-me Quéau (2001:97), mesmo no duvidoso uso que faz de Marx, posto isto-e-aquilo-
do-fascínio-e-simulacros, ao deliberar resoluto
117
: não dúvida de que o virtual venha a tornar-se
então um novo ópio do povo
118
. Antes e para que não se tenha a impressão de patrulha
desqualificada, justifiquemos a desconfiança, apresentada como chiste. Embora rebentem
esclarecimentos de valor pedagógico
119
, sobrenadam correspondências entre o pensamento do
autor e o de Aristóteles (1999:63). Como ilustração, a problemática da metáfora. Na Poética, a
116
No caminho de Swann, escrevera Proust: pois se a pessoa tem a sensação de estar sempre rodeada de
sua alma, não é como se estivesse numa prisão imóvel; antes, é como se fosse arrebatada com ela num
perpétuo impulso de ultrapassá-la, para atingir o exterior, com uma espécie de desânimo, ouvindo sempre em
torno de si essa sonoridade idêntica, que não é eco do exterior mas ressonância de uma vibração interna.
117
E temerário do perigo que ronda nossa faculdade de discernimento: a fronteira entre o verdadeiro e o falso
torna-se cada vez mais impalpável, e as balizas que permitem distinguir os diversos níveis de verdade das
representações e de avaliar a sua credibilidade tornado-se cada vez mais difíceis de controlar.
118
A assertiva, citação-slogan, consta da Introdução à crítica da filosofia do direito de Hegel, e remonta ao
ano de 1843.
119
Como apontamento e ilustração: uma imagem de síntese não é, então, simplesmente a imagem de algo,
uma espécie de cópia estática e enrijecida de uma entidade preliminar. (...) As imagens infográficas podem
imitar a natureza, traduzir teorias em formas sensíveis ou mergulhar-nos fisicamente em mundos com
propriedades desconcertantes (Queáu, ibidem:92).
metáfora oscila entre duas manifestações distintas. A primeira, decorre do seu bom uso. Confere
nobreza à linguagem ao minar expressões vulgares e usuais. A segunda - quando do excesso de
termos metafóricos - conduz a barbarismos e enigmas, controvertendo máxima basilar: a maior
qualidade da linguagem consiste na clareza (Aristóteles, ibidem:65). Derrida (apud Campos,
1992:151), atento a ambiguidade aristotélica, escreveu:
[a metáfora] arrisca interromper a plenitude semântica à qual ela deveria pertencer
(...) marcando o momento da virada ou do desvio, durante o qual o sentido pode
aparentar aventurar-se por conta própria, desligado da coisa mesma a que no entanto
visa, da verdade que o harmoniza com seu referente, a metáfora abre, assim, a errância
do semântico.(...) por seu poder de deslocamento metafórico, a significação ficará numa
espécie de disponibilidade, entre o não-senso precedente à linguagem (a qual tem um
senso) e a verdade da linguagem, que dirá a coisa tal qual ela é nela mesma, em
ato, apropriadamente (grifo nosso).
É possível notar, nas colocações de Queáu, um levantar a guarda contra a irrupção do
analógico no lógico, do “como” no é” (Campos, ibidem:152). A imagem de síntese
120
, nova escrita
que modificará profundamente nossos métodos de representação (Queáu, 2001:91), está
finalmente - livre da metáfora e da capacidade manca de representação com a qual a figura de
linguagem acena. Para o autor, assim, ad hoc: esta arbitrariedade [a da metáfora] não deixa de ter
um certo valor heurístico mas é também, a ocasião de derivas infelizes e esbarra em limites
intrínsecos. Não se pode, por exemplo, “explorar sistematicamente” uma metáfora como um modelo
científico. O modelo, ao contrário, dá um caráter mais concreto, mais experimental a uma teoria, sem
perda da substância abstrata que compõe a sua ossatura (grifo nosso). Kristeva (1988:305)
sublinha a incerteza da referência e vê no como da transferência metafórica função que probabiliza a
120
Imagens de síntese são as imagens digitais. Seriam, um tempo, de natureza numérica e simbólica:
estas imagens, ao contrário entretanto das imagens fotográficas ou videográficas que nasceram da
interação da luz real com as superfícies fotossensíveis não são inicialmente imagens e sim linguagem.
Encarnam-se abstratamente, poderíamos dizer, em modelos matemáticos e em programas informáticos.
Apenas em um segundo momento, e de modo sempre incompleto, elas podem apresentar-se também sob a
forma de “imagens” (ibidem:91).
identidade dos signos. Esteja ela certa e Queáu, idem. A metáfora, em Kristeva, é gravitação sobre o
sentido imediato (e sempre provisório) das coisas. Gravitação que pertence à ordem da abertura
dialógica e designa um desvio em direção a possibilidades imprevistas. Em Bakhtin (2003:272)
temos que toda compreensão plena real é ativamente responsiva e não é senão a fase inicial
preparatória da resposta (seja qual for a forma em que ela se dê). Em Queáu (ibidem), o mesmo,
conquanto não esteja o autor interessado em tantos estados de suspensão, mas em equivalências:
imagens perfeitamente “realistas”, indiscerníveis das fotografias ou das tomadas reais.
De acordo com a reflexão comandada por Queáu, seria preciso que a interação entre
diversos códigos, ainda assim, resultasse no funcionamento meramente pragmático da linguagem.
Ou, dito de outra maneira, que representações sensíveis resvalassem para dentro de formalismos,
podendo, enfim, ser traduzidas em axiomas e proposições conclusivas. Curioso pensar que, tanto o
autor insiste no caráter edificante da imagem e na sua faculdade eminentemente concreta de tocar
os sentidos do espectador e criar uma impressão física, forte, envolvente... Sim, tanto insiste e é,
justamente, a imagem o hipoícone mais próximo do ícone: signo das associações formais ou da
organização paratática, com bem pontua Décio Pignatari, em trecho de A ilusão da contiguidade
121
.
Nesse caso [quando o signo é uma qualidade], a segurança quanto à verdade, exatidão, eficácia, ou
seja o que for, da interpretação só pode ser dada pelo instinto ou sentimento (Santaella,
2004a:208).
121
Por décadas e décadas, até nossos dias e a despeito dos esforços de Lacan analistas, ensaístas e
semiologistas vêm falando de “associação de idéias”. Em termos estritamente semióticos, não existe tal coisa,
mas somente associações de formas: o significado de um signo é um outro signo e esta função significante é
exercida pelo interpretante que, por sua vez, é icônico por natureza – um super ou meta-signo, continuamente
estabelecendo diagramas significantes... (1979:115)
Eisenstein (1990:14) transcreve trecho da fábula A Viúva Inconsolável, autoria do americano
Ambrose Bierce. O excerto iluminaria dada operação automática do pensamento, uma síntese
dedutiva definitiva e óbvia quando quaisquer objetos isolados são colocados à nossa frente lado a
lado. Escrevera Bierce (apud Eisenstein, ibidem):
uma Mulher de luto chorava sobre um túmulo. “Acalme-se, minha senhora”, disse
um Estranho Compassivo. “A misericórdia divina é infinita. Em algum lugar um outro
homem, além do seu marido, com quem ainda poderá ser feliz”.“Havia”, ela soluçou
“havia, mas este é o seu túmulo”.
Isolemos duas passagens constantes do fragmento. Na primeira delas, o Estranho,
deparando-se com a Mulher enlutada, infere que a esposa (x) sofre pelo marido morto (y). Na
segunda, indica que a felicidade da Mulher vem a reboque de um novo enlace (x + y). Quando a
Mulher, de fato, soluçava pelo amante [w (x+y)]. Note-se que nem era a Mulher esposa do morto
e, logo, nem era o morto marido da enlutada. O leitmotiv da tristeza úmida era, simplesmente, o
amante. E o amante é, em qualquer caso (!), um possível: o urinol no museu francês, a palavra
concretista como célula viva, a metáfora como transporte sem pouso, nuvens apanhadas, o
(i)locucionário e o vazio como gestalt
122
, a maçã anímica de Kaspar Hauser, o sentimento oceânico
como memória do não organicamente vivido... Ou do, noutra ordem, organicamente vivido: a
noosfera.
A verdade tem estrutura de ficção é uma antífrase. Lacan teria bebido nos escritos do
filósofo e jurista, Jeremy Bentham, que, na sua teoria das ficções, estabeleceu divisas entre
122
Acena Morin (1998:147) quando da natureza espiritual das idéias: lembremos que a própria matéria é
muito pouco material, pois um átomo tem 99% de vazio, e as partículas que o constituem tem uma
materialidade ambígua.
entidades reais e entidades fictícias como categorias de linguagem. Por entidade real, deve-se
entender uma substância: um objeto cuja existência se a conhecer por um ou mais dos nossos
sentidos. Por entidade fictícia, um objeto cuja existência é fingida pela imaginação fingida com o
propósito de um discurso e da qual, uma vez formulado se fala como um objeto real (Ogden apud
Wajnberg, 2001:157). É a linguagem, assim a letra - que faz habitar no mundo o cosmo ficcional.
Universo verbal privado de referencialidade imediata (ibidem).
Não nos sobrarão recursos para perquirir a dimensão psicanalítica do aforismo lacaniano.
Importa dizer, de modo abreviado, que, lá, a verdade é aquela inconsciente
123
: quando o sujeito se
(re)conhece na palavra falada, na sua exterioridade íntima (Chalub, 2001:21). Observemos,
entretanto, que, aqui, a verdade nasce do/no discurso; subtraída a fatalidade do fato tal qual,
apontável no tempo e no espaço. Kristeva (2002:15) entrevê o despontar de uma outra nosografia.
Novas psicoses andam a desorganizar a vida psíquica do homem moderno, surgidas da
impossibilidade de simbolização traumática: em que pese às diferenças dessas novas
sintomatologias, há, unindo-as, um denominador comum a dificuldade de representar. E faz a
autora pergunta análoga à nossa (ibidem:16): renovar a gramática e a retórica, complexificar o estilo
daquele ou daquela que nos quis falar [o paciente, o corpo falante], porque não aguenta mais não
dizer e não ser entendido não é esse renascimento, essa nova psique que a psicanálise propõe
descobrir?
123
Nos Escritos de Lacan (apud Wajnberg, 2001:158), o inconsciente é esse capítulo da minha história que é
marcado por um branco ou ocupado por uma mentira: é o capítulo censurado. Mas a verdade pode ser
reencontrada; o mais das vezes ela já está escrita em algum lugar.
Conta-nos a psicanalista (ibidem:17-35) sobre Didier. Ator profissional, pintor rarefeito,
paciente de erudição ensimesmada, escafandrista hermético, impotente erótico (nenhum objeto,
nenhum sujeito), levado à análise por dificuldades de ordem relacional, desmamado tardiamente,
quase-sadomasoquista, incrustado no isolamento de atividades intelectuais e masturbatórias; em
cujos relatos escritos a palavra aparece fria, técnica, desinvestida de afetos, operatória. Antes, para
falar como Wittgenstein (apud Zizek, 2008:221), a palavra é o seu uso
124
. Nas cartas trocadas,
Kristeva apercebe-se de certa ambiguidade inscrita na relação entre analista e paciente: toda
intervenção psicanalítica era logo assimilada como claro, é o que eu ia dizer, exato, foi o que pensei.
E continuava [o paciente] seu mergulho submarino, sem se deixar atingir (...). Foi quando notou
Kristeva que
os únicos momentos que pareciam extrair Didier de sua “neutralidade” (...) eram
aqueles em que ele me falava de sua pintura. (...) Didier “significava” de outra forma.
Substitutos das representações de coisas (seus quadros) tomavam o lugar da relação
entre representações de coisas e representações de vocábulos (...).
Ele me trouxe fotos de suas obras, comentando-as uma a uma. (...) Sentia-me
impressionada pela violência desse discurso pictórico que rompia ainda mais com a
neutralidade, a extrema cortesia e a abstração do discurso que ele me havia dirigido até
então.
A realização da verdade ficcional
125
, em Didier, é não-verbalizável. A exterioridade íntima do
paciente tem dupla valência. É palavra esvaziada (1), solilóquio construído com termos eruditos e
124
Zizek (ibidem) ilustra:
com relação ao (pseudo) problema filosófico de como ter certeza de que o sentido
das palavras se refere a objetos e processos na realidade, essa questão, em si, não faz sentido, já que o
sentido de uma expressão é o modo como ela se refere à realidade e a relata pelos seus usuários no mundo
vivido.
125
Por verdade ficcional, transladada para o interior da psicanálise, sugerimos o conjunto de doenças que
afetam o aparelho psíquico. Kristeva (2002:27) enxerga em Didier certa pulsão sádica. Relevante transcrever
o significado do termo pulsão. Em Freud (in: Laplanche, 1992:394), da seguinte maneira: processo dinâmico
que consiste numa pressão ou força (carga energética, fator de motricidade) que faz o organismo tender para
um objetivo. Segundo Freud, uma pulsão tem a sua fonte numa excitação corporal (estado de tensão); o seu
objetivo ou meta é suprimir o estado de tensão que reina na fonte pulsional; é no objeto ou graças a ele que a
pulsão pode atingir a sua meta.
Quando a pulsão é fator de motricidade, então, ela é existente, choque, díada. Em igual monta, para o sujeito,
a verdade ficcional.
polidos. É diagramática (2): figuras femininas desfiguradas, fraturadas, oferecidas aos pedaços, tinta
e colagens sobre papel. Seu discurso é pictórico e reproduz - em pinceladas e goma - formações
imaginárias perversas.
Encerrado o tratamento, quando Didier passa a nomear suas representações, diz a
psicanalista, o paciente cria acesso ao próprio psiquismo. Antes, entretanto, atenção escópica
126
, em
que o sujeito dá a ver aquilo que enxerga em si. E que, portanto, é sua entidade real: percebida pela
visão, pela mão no pincel, pelo corpo mudo. Dizemos, então, que nem redime a palavra (conjunção
conjuntiva), nem a pintura (conjunção disjuntiva)
127
. A Resposta, queiram ainda, está num vácuo
infrequentável, descontextualizando Kristeva (ibidem:19), em que todos os códigos semióticos
procuram abrigo.
3.2.
T
ÁBUA DE
T
RABALHO
:
O
C
ASO DOS
V
ALETES
J
Á OUVIU FALAR
,
LADRÃO É A IMAGEM DO CÃO
?!
E
LE INVENTA TUDO
,
NÃO TEM NADA PRA FAZER
!
L
ÓGICO
!
L
ADRÃO QUE NÃO TEM O QUE FAZER
MORDE ATÉ O DEDO PRA VER SANGUE CAIR
,
LÓGICO
,
PASSAR HORA DE CADEIA
.
P
RESO DA
P
ENITENCIÁRIA
1
DE
C
AMPINAS
/SP
V
ÍDEO
T
EREZA
126
Do grego skopein, examinar, observar.
127
Por conjunção conjuntiva, entendemos termo que se apresenta com a intenção de reunir signos e,
sobretudo, preservar a estrutura diagramática que propõe (tenhamos em conta que letras vazadas no papel
são, antes, um diagrama). Por conjunção disjuntiva, termo que – considerada a maneira como reúne signos
explode a estrutura diagramática. Explosão como movimento centrífugo, lançado os signos em tantas
direções quanto as suas possibilidades significativas. Como não há, aqui, embasamento teórico; considere-se
o parágrafo como notação da autora. A escritura mallarmeana é pura explosão.
De acordo com Kiko Goifman
128
, Valetes em Slow Motion: A Morte do Tempo na Prisão
(1998) tem a natureza de objeto sócio-antropológico. De origem acadêmica, o trabalho descende da
interlocução entabulada entre o autor e pesquisadores como Sérgio Adorno, Alba Zaluar, Vinícius
Caldeira Brant, David J. Rothman, Massimo Pavarini, Michel Foucault e outros nomes. Logo o título-
súmula, metafórico, a explicar. Valetes é expressão-código, criada no interior dos muros
prisionais, a significar dormir em valetes (homens juntos a outros, em posição invertida). Slow Motion
é um efeito videográfico, cuja função é literal: inscrever movimentos de câmera em um tempo
moroso, arrastado. Valetes em Slow Motion desdobra as discussões em torno do espaço e do
tempo, sob a perspectiva do encarcerado. Espaço e tempo são (re)significados até o paroxismo:
existem, tão somente, como intervalo inabitável. Foram três as instituições carcerárias visitadas: o
Centro Reeducacional de Neves (MG), 5º. Distrito Policial de Campinas (SP) e Penitenciária 1 de
Campinas (SP). Valetes em Slow Motion ganhou, no mesmo ano de estréia, o 7º. Grand Prix Möbius
e foi adquirido como obra de arte pelo Centro Georges Pompidou, em Paris.
Um objeto sócio-antropológico exibido no Pompidou é, senão, exercício de paralaxe. Ou
isso, ou o elementar do gesto é a atribuição de características inéditas ao ato pensar, ao produto de
uma reflexão teórica, à obra de arte, à forma de apresentação do conhecimento científico. Posto
que, Valetes é um anfíbio, ali, (mal) formado entre a ciência e a arte. O impossível não é a
vizinhança das coisas, é o lugar mesmo onde elas poderiam avizinhar-se (Foucault, 1992:XI).
Cremos que os arrabaldes, as fronteiras, os espaços de mistura dão mais a ver que os lugares onde
128
Kiko Goifman nasceu em Belo Horizonte, em 1968. É antropólogo pela UFMG e mestre em multimeios
pela Unicamp. É o autor de Valetes em Slow Motion. Fonte: Enciclopédia Itaú Cultural.
as coisas estão, falsamente, imaculadas. No domínio da hipermídia, chamaremos as baias limítrofes
de textos de segunda mão ou hipertextos. Em Genette (2006:12):
Entendo por hipertextualidade toda relação que une um texto B (que chamarei
hipertexto) a um texto anterior A (que, naturalmente, chamarei hipotexto) do qual ele
brota, de uma forma que não é a do comentário. (...)
Esta derivação pode ser de ordem descritiva e intelectual, em que um metatexto (por
exemplo, uma página da Poética de Aristóteles) “fala” de um texto (Édipo Rei). Ela pode
ser de uma outra ordem, em que B não fale nada de A, no entanto não poderia existir
daquela forma sem A, do qual ele resulta, ao fim de uma operação que qualificarei,
provisoriamente ainda, de transformação, e que, portanto, ele evoca mais ou menos
manifestadamente, sem necessariamente falar dele ou citá-lo.
Podendo assumir diversas naturezas (indireta ou matricial, por exemplo), a rubrica hipertexto
estende-se às leituras e escrituras comuns ao sujeito inscrito na cibercultura. As misturas decorrem
da nova possibilidade (novidade cujo caráter é tecnológico) de carregar consigo diferentes contextos
de sentido e deixá-los impregnar uns pelos outros. Se é verdade o que acabamos de dizer, então, os
Valetes de Goifman, simplesmente (e isso é tanto), transportam para dentro da máquina um
conjunto de textos que nascem atravessados, contraditados, em que os blocos semânticos estão
comprometidos pela arquitetura sintática.
A observância da tela inicial dos Valetes aponta para o afluxo de relações icônicas. O
diagnóstico, entretanto, pode ser concluído quando considerada a experiência navegação, dado
que os hyperlinks (ou, tecnicamente, remissões de blocos de informação organizadas segundo
cadeia associativa particular e não de caráter) revelam vínculo específico, para além do
agrupamento de interpretações
formais. O que nos leva a
perguntar quantos discursos
podem caber num único enunciado?
129
Nos parágrafos seguintes, nos ocuparemos da figura acima e, sobre ela, deitaremos alguns
conceitos da semiótica peirceana. Importante dizer que a superfície congelada não conta dos
pontos luminosos atravessados durante a navegação: radiação nascida, exatamente, da confluência
sígnica (citações de filósofos, depoimentos em áudio, ruídos, deos, etc.). Dizemos que, aqui, se
apresenta o trabalho de copidesque, bem conformando a imagem com os conceitos teóricos que
lhes oferecem suporte.
3.2.1.
E
XEMPLO
P
ELO
A
VESSO
:
A
C
ALCULADORA
Ao desenvolver a seguinte cadeia de comandos indiciais: Iniciar / Todos os Programas /
Acessórios / Calculadora, a fim de (e com a intenção dirigida), realizar um cálculo matemático,
haverei de chegar a um símbolo capaz estabelecer mediação entre a necessidade de operação
algébrica e a ferramenta (seja uma calculadora digital, seja um punhado de feijões ou palitinhos),
desde que assinalem a junção entre duas porções de experiência (Peirce, 1999:67).
129
Bakhtin (2003) estabelece diferença entre fala e enunciação. Enquanto à noção de fala recai vagueza e
indefinição; o termo enunciação significa toda unidade de comunicação discursiva ou toda manifestação
comunicativa que reproduz relações semânticas entre os seus constituintes.
01. Tela de abertura
Valetes em Slow Motion
, Goifman
(1998)
No caso geral da hipermídia, e em particular na obra de Goifman, as imagens abrigadas na tela
inicial (mãos penduradas no teto, câmera de segurança, vaso sanitário, etc.) sugerem
predominância icônica, qual seja, uma relação não designativa e de caráter diagramático; por
sublinhar certa operação analógica entre os pares (hyperlink e conteúdo oculto) e não indicações
literais (a imagem de uma lixeira, sobre a legenda Lixeira, a designar o local para onde devem ir
arquivos descartáveis).
3.2.2.
E
XEMPLO
P
ELO
R
EVERSO
:
D
UPLO
C
ALABOUÇO
Um habitante de Marte
130
que fosse posto diante da interface daria com um rosto boiando no
canto inferior direito da tela. Tendo ele passado por todas as experiências de primeiridade (e sido
assaltado por toda sorte de lampejos), estaria – ainda assim - desabilitado a estabelecer uma
relação de contigüidade entre o hyperlink e o conteúdo secreto.
Ponto importante: as imagens, icônicas, no que respeita signo X preceito do signo, dão para obras
de arte (o rosto-bóia, por exemplo, leva ao trabalho do videoartista Lucas Bambozzi) quais sejam,
continentes de atributos. Requisitam a dominância do interpretante emocional, dado que articulam a
rispidez de sons metálicos/ininterruptos e fotogramas perturbadores, adiando nossa fuga
contemplativa para o categórico do símbolo.
Apenas com um caráter ilustrativo, consideremos o semblante/imagem do psicótico, que nos
encaminha para a obra Clausura, de Bambozzi. Somos imediatamente recepcionados por uma trilha
130
Bem notou Santaella (2007:118-119) que a figura do marciano, como observador extraterreno, aparece
tanto em Teilhard de Chardin como em Jacques Monod. Para Chardin, ao visitante inusitado - para além do
azul dos mares ou o verde das nossas florestas - não escaparia o fosforescente do pensamento. Monod, o
mesmo, de outra maneira: sem dúvida deveria reconhecer [o marciano] que o desenvolvimento da
performance específica do homem, a linguagem simbólica, acontecimento único na biosfera, abria caminho
para uma outra evolução criadora de um novo reino, o da cultura, das idéias, do conhecimento.
em meandros, cheia de volteios, distorcida. rostos de detentos-psicopatas enfileirados, sobre as
correspondentes fichas antropométricas. O retrato vivo de uma série de duplos calabouços (mente
encarcerada na loucura e corpo doente enclausurado na cela) chega a ser obsceno (no sentido de
uma existência trágica): constrange o olhar e obriga nossa cadeia associativa a correr para o
conforto da assertiva: isto é assim, por que assim é!
Por fim, experimente passar para o lado de fora da cela, seu desktop. Não saída visível.
Pare para pensar. E o agudo de uma sirene o lembrará de que o raciocínio não é aceito como senha
para a porta de saída. O código carcerário é a inscrição de outro encadeamento sígnico: todo
movimento, antes símbolo de liberdade, é, a partir de agora, gesto suspeito.
C
ONSIDERAÇÕES
F
INAIS
O
S VÂNDALOS
,
HÁ MUITO
,
JÁ CRUZARAM AS FRONTEIRAS E TUMULTUAM O SENADO E A ÁGORA
,
COMO PRENUNCIADO NO POEMA DE
K
AVÁFIS
.
Q
UE
OS ESCRITORES LOGOCÊNTRICOS
,
QUE SE IMAGINAVAM USUFRUTUÁRIOS PRIVILEGIADOS DE UMA ORGULHOSA KOINÉ DE MÃO ÚNICA
,
PREPAREM
-
SE
PARA A TAREFA CADA VEZ MAIS URGENTE DE RECONHECER E REDEVORAR O TUTANO DIFERENCIAL DOS NOVOS BÁRBAROS DA POLITÓPICA E
POLIFÔNICA CIVILIZAÇÃO PLANETÁRIA
.
(...)
Escolhemos abrir o epílogo com arremate de Haroldo de Campos quando, no seu Da razão
antropofágica: diálogo e diferença na cultura brasileira, diz o que disse. Do artigo de Campos
(1992:231), sublinhamos a divisa entre o nacionalismo ontológico e o nacionalismo modal. Noções
sequestradas do contexto, a fim de irradiar luz sobre idéias até aqui expostas. No primeiro, o modelo
organicista-biológico da evolução de uma planta
131
, ocupado com a metafísica ocidental da
presença. No segundo, o nacionalismo como movimento dialógico da diferença, a historiografia
como gráfico sísmico da fragmentação eversiva. De saída, trouxemos um problema duplamente
doméstico, na medida em que nos afeta, os ocidentais, e, a reboque, o campo da comunicação.
Está em Pignatari (1979:119): todo o chamado pensamento ocidental não parece inscrever-
se em outro horizonte que não o da tradução da realidade icônica, que é a physis produtora de
signos, para a realidade simbólica. As urdiduras e injunções da linguagem científica afetam, direta e
absolutamente, o objeto sobre o qual se inclinam. Ou, dito de outra maneira, a linguagem tem função
estrutural na medida em que é, ela própria, o corpo da descoberta (Machado, 2008:66). Daí que o
rigor não corresponde, ipsis litteris, à predicação, à lógica da inerência, autarquia daquilo que É: o
índio não tem verbo ser observara Oswald Andrade, em seu Manifesto antropofágico; por isso,
131
Ao que Lévi-Strauss (s.d.:238) chamaria de falso evolucionismo (quando transladada a noção de evolução
biológica para dentro da evolução social ou cultural): preso entre a dupla tentação de condenar experiências
que chocam efetivamente e de negar diferenças que ele não compreende intelectualmente, o homem
moderno abandonou-se a um sem-número de especulações filosóficas e sociológicas a fim de estabelecer
compromissos inúteis entre esses pólos contraditórios, e dar-se conta da diversidade das culturas,
procurando suprimir o que ela conserva de escandaloso e de chocante a seus olhos.
para ele, todo problema ontológico se resolvia em em termos odontológicos... (Pignatari,
ibidem:120). Quando nada que atravesse juízos perceptivos (tessituras arbitrárias) É categórico e
definitivo. Já aqui recuperemos Peirce e a consideração da Semiótica como quase-necessária
doutrina dos signos. O advérbio, relativo, proporcional, reporta-se as verdades que devem
permanecer válidas quanto a todos os signos utilizados por uma inteligência científica. E continua o
autor, [a Semiótica] constitui uma ciência da observação, como qualquer outra ciência positiva, não
obstante seu acentuado contraste com todas as ciências especiais que surge de sua intenção de
descobrir o que deve ser e não simplesmente o que é no mundo real (Peirce, 2005:46).
Nosso gesto de origem foi o diálogo, involuntário, entre a comunicação, a semiótica e as
artes (em especial, a literatura e o cinema). Quando dizemos involuntário, lembramos que, na mesa
de trabalho, a filosofia peirceana, o pensamento ruidoso de Sloterdijk, o poema fílmico de Herzog, a
biosfera de Vernádski, a sintaxe implosiva de Mallarmé (como quer Augusto de Campos) e o
pensamento metacientífico – para citar alguns poucos recusaram-se a permanecer nos seus
nichos e travar entendimento, exclusivamente, com seus pares.
Oferecemos, capítulo a capítulo, espaços de acolhimento para as experiências de
entrecruzamento sígnico
132
. Assim, nos apresentamos como aqueles vândalos que cruzam fronteiras
a escandalizar os escritores logocêntricos. E não o fazemos por obstinação ou vontade de
insurreição, esteja claro. O caso é o ocaso e é inescapável. Foucault (1992: XVI) escreveu que os
códigos fundamentais de uma cultura aqueles que regem sua linguagem, seus esquemas
perceptivos, suas trocas, suas técnicas, seus valores, a hierarquia de suas práticas fixam logo de
132
Restituindo a Valéry o que lhe é de direito, estivemos à cata dos traços das próprias coisas (apud
Pignatari, ibidem:15)
entrada, para cada homem, as ordens empíricas com as quais terá que lidar e nas quais se de
encontrar. Lidamos, pois sim, com tais ordens empíricas. Mas, não nos escusamos daquilo que o
mesmo Foucault chama de condições de possibilidade ou modos de ser das coisas: perspectiva do
não-inscrito na falsa reta que parte do Renascimento e nos vem atravessar nos dias de hoje.
Não se viu compilado, ao longo da pesquisa, um decálogo, à moda de cartilhas faça você
mesmo. A construção de ambientes hipermidiáticos, da maneira como aqui propusemos, não
prescinde da reflexão científica e do juízo crítico
133
. Via inversa depende, organicamente, da ação do
pensamento transitório, afeito às contaminações de sentido e às zonas de co-afetação
134
, avesso
aos cinturões disciplinares
135
. Interessou-nos oferecer à prática científica a possibilidade de refletir
acerca do conjunto de estatutos disciplinares sobre o qual ela deita as descobertas do
conhecimento. A ciência oficial anda ocupada com a manutenção da ordem e com a circulação
fiscalizada de idéias (Bourdieu apud Immacolata, 2001) e, nós, com a garantia da pergunta.
No capítulo 1, resgatamos nosso histórico compilatório, apoiado em um suposto consensus
gentium, empenhado em fazer curvar fenômenos particulares diante de tendências gerais
imaginadas (não denominador comum entre o que é naturalmente únivoco e seu modo de
representação). Da torre de Babel ao século XXI, a complexidade do humano tem sido -
133
Ezra Pound (apud Campos, 1992:17) advertiu: a excelência de um crítico se mede não por sua
argumentação, mas pela qualidade de sua escolha.
134
Ou ao que Morin (1990:107) chamaria, textualmente, de princípio dialógico. O princípio dialógico permite-
nos manter a dualidade no seio da unidade. Associa dois termos ao mesmo tempo complementares e
antagônicos.
135
Quando, por certo, um pesquisador, ao justificar que precisa aprender do outro o que não pode conseguir
no seu próprio grau de análise (...) e que um “outro” conhecimento, portanto, lhe é pertinente (...) tende a
reafirmar e não embaralhar os dois conhecimentos (Immacolata, 2001:53).
forçosamente constrangida e substituída por esquemas gerais. O programa monosemiótico do
códice foi eleito como método oficioso de apresentação do conhecimento científico. Sobre as demais
matrizes da linguagem pesou o epíteto de realidade subjacente e sua capacidade de decalque do
real fora, de modo sumário, confiscada pelos agenciadores do pensamento. Atravessamos o caso
da cidadela alemã de Colônia, nosso objeto topológico, em cujo território físico pareceu descer o
monoglotismo do Gênesis. Por fim, prenunciamos a hipermídia como espaço em que as costuras
entre os hiperlinks deixa entrever relações conceituais imprevistas.
No capítulo 2, recorremos à fenomenologia peirceana para a justa observância das
possibilidades prenunciadas na hipermídia. Está em Bachelard (2006:23) e nos parágrafos que
costuramos com irresistível tendência refratária ao encerramento doutrinário: todas as objeções da
razão são pretextos para a experiência. Atravessamos, assim, sua tríade elementar e universal,
conscientes do imenso exercício auto-imputado. A tarefa nos prepararia para a identificação de
instantes de tempo (primeiridade), sentido de resistência (secundidade) e consciência sintética
(terceiridade) no interior de ambientes em que a aventura da linguagem é superlativa (para além do
aparato técnico que ela requisita). Apoiados na premissa do conceito a posteriori, sucedâneo à
experiência, ocupamos nosso exame com a (in)distinção entre o objeto e o interpretante do objeto.
Se o sujeito cartesiano se vê alijado das coisas do mundo, o sujeito da semiose inscrito na
semiosfera não enxerga signos outros que não aqueles que o constituem. E todos os signos,
indistintamente, transverberam o homem. Abrimos picadas nos domínios biológico e cultural,
desvelando dessa maneira correspondências entre o universo biótico e o comportamento das
idéias, por sua vez, materiais e cosmo-bio-antropomorfas
136
. Descobrimos, não sem demora, que o
136
Versus entidades logomorfas: doutrinas, filosofias, conceitos, etc., como quer Morin, 1998.
anacronismo interno aos objetos é preservado na hipermídia. A exuberância e a complexidade das
representações (colagens, distorções sonoras, intervenções, recortes, randomismo, entre outras
possibilidades)
137
arruinam o discurso unívoco, transcorrido em linha reta.
O capítulo 3 corresponde àquele gráfico sísmico apresentado por Haroldo de Campos no
início das nossas considerações finais. Congrega uma série de experiências aparentemente -
centrífugas (literária, fílmica, psicanalítica), explodidas nas páginas, empenhadas em imprimir um
enredo inaudito. Tem início com a análise da escrita alfabética, cadeia de traços arbitrários e
convencionais, dada à apreensão por ordem de um hábito adquirido. Parte em direção à escritura
estética, monádica, não-relacional, em que se notam vínculos indissolúveis com as inúmeras
possibilidades interpretativas. Deixa, na acepção cênica, para a abertura dialógica avessa a
exauribilidade semântico-objetal do enunciado, amparada pela alternância dos sujeitos do discurso
(Bakhtin, 2003:275); cujo volume de reações responsivas é compatível ao grau de interação. A
historiografia do como” (conjunção adverbial comparativa), ideada pelo mesmo Haroldo de Campos
(1992), deu vigor ao pólo metafórico (versus equação retórica) onde inscrevemos nossas linhas.
Assim é como pode tomar corpo o pensamento analítico reflexivo com vistas à construção de
constructos hipermidiáticos. A análise dos Valetes em Slow Motion é a subpartitura da navegação
ou, dito de outra maneira, o residual da experiência multisígnica sofrida pela autora. Entendido que é
tanto mais simples (embora imensamente complexa) a passagem da experiência ao conceito
estético que o caminho quase inverso, do conceito estético ao relato da experiência. De modo que a
análise cumpriu função, iminentemente, ilustrativa.
137
Sobre o tema ver Santaella, 2005 e Bairon 2005, 2006 e 2008.
Um modo particular de registro do conhecimento espera o (re)conhecimento do leitor.
Particular quando a língua, distinta e lustrada, quis eludir o sentido imediatizado das coisas. Existe
em Rimbaud, de acordo com Valéry, o poder da incoerência harmônica. O que prepara a hipermídia
é a desestrutura semântica num horizonte probabilístico. O que preparamos, aqui, é o copião de um
raciocínio muitas vezes desdobrado sobre si mesmo e que preserva as possíveis lacunas como
berçários de novos juízos.
B
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