
Em primeiro lugar, há os historiadores que analisaram o panegírico a partir de seu
contexto de produção: uma oração feita por um orador gaulês, construída a partir de
categorias e esquemas simbólicos inteligíveis para sua audiência.
O segundo grupo de historiadores, por sua vez, analisou estas questões em uma
perspectiva mais global relacionando a mensagem do panegírico a outras documentações –
principalmente as moedas ao Sol Invicto –, e às disputas políticas em torno da legitimação de
Constantino.
Embora os autores que analisaram o Panegírico de 310 tenham enfatizado sua raiz
gaulesa – principalmente o aspecto curativo de Apolo, relacionado às fontes de águas –, eles
acabaram por se fechar numa análise do contexto local, desprezando as demais
documentações, o que empobrece a interpretação da dinâmica figuracional que se processava
naquele momento. Pois, ao analisarmos o Panegírico de 310 cotejando-o com a
documentação de cultura material é inegável a associação entre Apolo e o Sol Invicto que foi
aventada pelos autores da segunda tendência historiográfica que apresentamos.
A partir de meados de 310, inicia-se a cunhagem de uma grande quantidade de moedas
com a efígie do Sol Invicto
104
nas três Casas de Cunhagem dos domínios de Constantino
(Trier
105
, Lyon
106
e Londres
107
), movimento que se seguiu de forma ascendente até o ano de
313, e que foi ininterrupto até finais daquela década. Este movimento é bastante acentuado
nas oficinas localizadas em Londres, e em Trier, sendo de escala mais reduzida em Lyon
108
.
Este aumento acentuado de emissões monetárias com esta tipologia, juntamente com
as representações da imagem de Constantino apresentadas pelo autor do Panegírico de 310 –
que anuncia a identificação existente entre o imperador e Apolo
109
–, nos leva a concluir a
existência de uma associação entre as imagens de Constantino e do Sol Invicto – identificado
no panegírico como o deus Apolo –, o seu “acompanhante divino”, em latim comes.
104
Para um exemplar desta tipologia, ver as Moedas 5 e 10, constantes do Anexo.
105
RIC VI Trier 865(S), 866a(S), 867(S), 868(S), 869(C), 870(C
2
), 871(C), 872(C), 873(C
2
), 874(C), 875(S),
876(S), 886(R), 887(R), 888(R), 889(R), 890(C
2
), 891(S), 892(S), 893(C
2
), 894(S), 895(R), 898(S), 899(S),
900(R).
106
RIC VI Lyon 307(C), 308(S), 309(R), 310(C), 311(R).
107
RIC VI Londres 116(R), 120(R), 121a(C
2
), 122(S), 123(R), 124(C), 125(S), 126(S), 127(R), 128(R
2
),
132(R
2
), 150(R), 151(R), 152(R), 153(C
2
), 154(R), 155(R), 156(R), 157(R), 158(R), 159(R), 160(R), 161(R),
162(R), 163(S), 164(S), 165(R), 165A(R), 166(S), 167(R), 168(R), 169(S), 170(R), 171(R), 172(R), 173(R),
174(S), 175(R), 176(R), 177(S), 178(R), 179(R), 180(R), 181(R), 182(R), 183(S), 184(S), 185(S), 186(S),
187(S), 188(R), 189(R), 190(R), 191(S), 192(R), 193(R
2
), 234(S), 235(R), 236(R), 237(S), 238(R), 239(R),
240(R).
108
No período entre meados de 310 e fins de 312, as oficinas de cunhagem de Lyon encontravam-se fechadas.
109
Pan. Lat. VII (6) 21, 5-6: “
5(
...)Tu viste o deus e te reconheceste sob os traços daquele a quem os cantos
divinos dos poetas predisseram que estava destinado o império de todo o mundo.
6
Estimo que este reino chegou
agora, posto que tu és, imperador, igual a ele, jovem, alegre, saudável e belíssimo”.