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município de São Paulo, região de grandes contrastes sociais. Esse habitat social exige dos
empresários um confronto constante com os pobres e, assim, são levados a observar e a
conviver com as desigualdades sociais na sua janela, ou melhor, no “seu quintal”.
O Instituto de Cidadania Empresarial (ICE) é uma associação civil sem fins
econômicos, sediada em São Paulo, criada em 1999 por um grupo de empresários
paulistas a partir da constatação de que poderiam e deveriam participar mais
ativamente na busca de soluções para o agravamento das desigualdades sociais no
Brasil.
Favelas não-urbanizadas, prédios populares e condomínios de alto padrão
convivendo lado a lado: esta é a região do Morumbi, um retrato fiel de um país de
contrastes sociais como o Brasil. Por um lado, o Morumbi, onde se situa o bairro do
Real Parque, é conhecido pelo perfil sofisticado de seus moradores. Segundo o
Censo 2000, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), a região do
Morumbi tem a maior renda média da cidade de São Paulo – o chefe de família
ganha, em média, R$ 6.498,82 por mês.
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Não era “agradável” conviver com tal visão. Eis que, então, os empresários resolveram
agir por meio de táticas mais eficientes disponíveis: os projetos sociais. Desta maneira,
podemos dizer que a motivação dos empresários em investir em um projeto de filantropia
empresarial está na sua capacidade de resolver vários problemas. Primeiro, por se tratar de uma
“questão doméstica”, já que os ricos não podem exterminar os pobres da sua vista, pois isso não
seria condizente com o discurso humanitário moderno, têm que domesticá-los, acalmá-los, e os
projetos sociais resolvem bem isso. Segundo, por tornar a efetivação do projeto mais rápida,
pois não é necessário passar pelas instâncias de controle social do Estado nem por seus entraves
burocráticos. Terceiro, porque quem passa a determinar como e onde será gasto o recurso são os
próprios empresários, uma vez que os projetos são financiados e realizados pela iniciativa
privada, a forma como será usado o recurso não requer o crivo do Estado e dos seus
mecanismos de controle social, no caso os conselhos deliberativos etc. Quarto, porque além de
resolver o problema de vizinhança, a filantropia empresarial ainda pode gerar lucro, pois,
instituições como o ICE descobriram que essa função que “sobrava” para o Estado pode ser
bastante interessante, com retornos financeiros e sociais consideráveis; esse lucro é possível
devido às novas técnicas de venda que produzem a idéia de consumo responsável e sustentável
e a criação da noção de responsabilidade social das empresas. E quinto, pelo fato de o projeto
social tornar-se instrumento de barganha política
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, um “palanque” que pode ser utilizado por
políticos em troca de favores e outras concessões do governo.
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RELATÓRIO de Atividades - Instituto de Cidadania Empresarial, 2004. p. 5. Disponível em: <http://
www.projetocasulo.org.br>. Acesso em: 23 jun. 2007.
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Entre os resultados de suas ações de 2004 do ICE está a presença da prefeita de São Paulo à época (Marta
Suplicy) e do ministro de Estado da Cultura Gilberto Gil em um evento de inauguração de um projeto do
Instituto. O que mostra a potência política e econômica que esse tipo de iniciativa alcança.