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UNIVERSIDADE FEDERAL DE GOIÁS
FACULDADE DE CIÊNCIAS SOCIAIS
PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM SOCIOLOGIA
MESTRADO EM SOCIOLOGIA
O mundo imaginado, mas nem tanto, de Carmo
Bernardes.
Autora: Miryam Moreira Mastrella de Arjo
Orientadora: Dra. Custódia Selma Sena do Amaral
GOIÂNIA
2009
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MIRYAM MOREIRA MASTRELLA DE ARAÚJO
O mundo imaginado, mas nem tanto, de Carmo
Bernardes.
GOIÂNIA
2009
Dissertação de Mestrado apresentada ao Programa de Pós-
Graduação em Sociologia da Faculdade de Ciências Sociais, da
Universidade Federal de Goiás, como um dos requisitos para
obtenção do título de Mestre em Sociologia, sob orientação da
Dra. Custódia Selma Sena do Amaral.
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MIRYAM MOREIRA MASTRELLA DE ARAÚJO
O mundo imaginado, mas nem tanto, de Carmo
Bernardes.
Dissertação defendida e aprovada em _______ de _________________ de 2009, pela banca
examinadora constituída pelos professores:
______________________________________________
Custódia Selma Sena do Amaral/UFG
Presidente da Banca
______________________________________________
Maria Sueli Kofes/ UNICAMP
______________________________________________
Albertina Vicentini Assumpção/UCG
4
Agradecimentos
À minha família, sobretudo à minha mãe, Soraya, e ao meu irmão, Frederico, pelo
incentivo, proteção, aconchego, confiança e amor incondicionais. Obrigada pelo exemplo de
perseverança, por segurarem as pontas e não me deixarem desistir ao longo destes 30 meses
de trabalho.
À minha querida orientadora, Selma Sena, pela paciência, amizade, fidúcia, pelas
valiosíssimas correções e contribuições e também pelo crédito e apoio. Obrigada por me fazer
persistir e prosseguir.
Ao meu companheiro de todas as horas, Pedro, pela compreensão, pelas palavras de
encorajamento, pelas horas de colo nos momentos difíceis, pelo carinho e amor em todas as
circunstâncias, por me escutar e me fazer confiar em mim mesma. Obrigada pela pronta e
valiosa ajuda em relação ao abstract.
Às professoras Albertina Vicentini e Maria Luiza Rodrigues Souza pelas valiosas
contribuições e apontamentos durante o exame de qualificação, que me fizeram seguir um
caminho de pesquisa diferente, no qual consegui me encontrar.
Aos professores Jézus Ataídes e rcia Santos por terem respondido aos meus e-
mails, indicando leituras e fazendo esclarecimentos sobre a questão indígena e sobre a vida de
Carmo Bernardes, respectivamente.
Às professoras Sueli Kofes e Albertina Vicentini por terem aceitado o convite para
compor a banca de defesa desta dissertação.
Aos amigos e companheiros de batalha: Najla, Marcelo, Rogério, Alessandra, Nara,
pelos bons momentos compartilhados ao longo do mestrado e também por dividirmos
algumas angústias e incertezas, tornando as dificuldades mais leves.
Às amigas pelas quais tenho grande afeição: Carolina, Tâmara, Ana Júlia, Ana Cecília,
Juliana de Pina, Juliana Faria, Fátima, Morgana, Moema. Obrigada, meninas, pela torcida.
E a tantos outros amigos, familiares, alunos, colegas de trabalho que ao longo deste
percurso mentalizaram as mais positivas energias para que eu conseguisse chegar até aqui.
Muito obrigada a todas e todos! Sem o amparo de vocês este trabalho não teria sido
possível!
5
Resumo
Como manifestação cultural, a literatura é também forma de conhecimento da vida
social; se ela não nos dá respostas, pode, entretanto, ampliar o campo das investigações
sociais, deixando emergir como são percebidas algumas questões num determinado grupo,
num determinado momento. Este estudo pretende discutir a emergência de certas questões
sociais em duas obras do escritor mineiro-goiano Carmo Bernardes: Perpetinha: um drama
nos babaçuais (1991) e Santa Rita (1995). Buscamos verificar como estão transfigurados
alguns aspectos da realidade nas duas obras, como, por exemplo, as relações entre homens e
mulheres, e outras mais. A partir da forma como a literatura plasma estes temas, procuramos
examinar como os mesmo são tratados pela teoria social (sociologia, antropologia e
historiografia). O sertão, nos dois romances, aparece como local de fala contra-hegemônica,
pois não se restringe a uma vitrine de signos, isto é, um mero levantamento de costumes,
paisagens e tipos humanos que correriam o risco de desaparecer em decorrência do processo
de inserção da região à gica capitalista, ou seja, em virtude da perda de materialidade que o
sertão vem sofrendo ao longo das últimas décadas. Estas descrições servem como pano de
fundo, como cenário para o desenvolvimento de outros temas, como as desigualdades, as
injustiças, os preconceitos e a opressão dos trabalhadores.
Palavras-Chave: Literatura regionalista-sertanista, relações e identidades de gênero,
desigualdades sociais.
6
Abstract
As a cultural event, literature is also a form of knowledge of social life; if it doesn't
provide us with answers, it may, however, enlarge the field of social research, making it
possible for some issues to emerge as they're seen in a particular group at a given moment.
This study intends to discuss the emergency of certain social issues as they appear in two
works by the writer from Minas Gerais-Goiás, Carmo Bernardes: Perpetinha: um drama nos
babaçuais (1991) and Santa Rita (1995). We intend to verify how some aspects of reality are
transfigured in both works, such as relations between men and women, and others. From the
way literature shapes these issues, we want to examine how they are treated by social theory
(sociology, anthropology and historiography). The sertão, in the two novels, appears as a
place of counter-hegemonic speech, because it is not restricted to a display of signs, that is,
mere descriptions of customs, landscapes and human types who would be at risk of
disappearing due to the area's insertion process to the capitalist logic, i.e., because of the
materiality loss the sertão has undergone over the last decades. These descriptions serve as
background, as scene for the development of other themes, such as inequalities, injustices,
prejudice and oppression of workers.
Key Words: Regionalist-sertanista literature, relations and identities of gender, social
inequalities.
7
Obras de Carmo Bernardes em ordem cronogica:
Vida Mundo 1966 (contos ambientados no sertão, de edição esgotada bastante
tempo);
Rememórias 1968 (crônicas nas quais o escritor narra suas memórias em Goiânia,
durante a década de 1960, quando morava na casinha verde da Macambira);
Rememórias Dois 1969 (continuação de suas crônicas, com acontecimentos mais
recentes, como o nascimento do neto);
Jurubatuba 1972 (romance passado na fazenda Jurubatuba, cujo enredo trata da
questão da organização fundiária, conflitos pessoais, interpessoais e sociais, os
episódios religiosos e culturais, as relações de trabalho, os amores, no caso o triângulo
amoroso entre Ramiro, Ermira e seo-Simeão);
Reçaga – 1972 (contos sertanejos);
Areia Branca – 1976 (contos sertanejos);
Idas e Vindas – 1977 (contos e causos sertanejos);
Força da nova 1981 (relembranças do escritor, onde resgata acontecimentos de sua
infância);
Nunila 1984 (romance no qual, em meio ao amor de Annio Lima da Costa e
Nunila, ocorre um levante contra a invasão das agropecuárias modernas);
Memórias do vento 1986 (romance passado em Goiânia, no qual Manelino, que
escreve crônicas para um jornal, se envolve com Vaninha, uma mulher casada e Maria
Inez, uma estudante);
Quarto Crescente 1986 (relembranças do escritor que vão da infância à fase
adulta,resgatando vivências familiares e o convívio em sociedade);
Perpetinha: um drama nos babaçuais 1991 (romance que conta a história de
Armantino, um dentista que vai para o extremo norte de Goiás, Boa Vista, e se
apaixona por Lindalva, uma quebradeira de coco babaçu);
Jângala: complexo Araguaia 1995 (na qual o escritor destaca a importância de se
preservar o meio ambiente, através da descrição das terras, dos vazanes, varjões, das
frutas e animais e também da devastação que assolava o rio Araguaia, focalizando a
Ilha do Bananal);
8
Santa Rita 1995 (romance passado na cidade de Santa Rita, na qual a história de
Estevo é mesclada à hisria do arraial);
Quadra da cheia: textos de Goiás 1995 (crônicas e contos nos quais a temática
principal é a desigualdade social);
A ressurreição de um caçador de gatos 1997 (contos que falam de caçadas e
pescaria);
Selva: bichos e gente 2001 (publicado após a morte do escritor, consiste numa
espécie de glossário no qual o autor fala sobre os animais em seu habitat, sobre a
relação entre o homem sertanejo e estes animais, sobre a caça aos bichos, sobre a
cozinha sertaneja);
Xambioá: paz e guerra 2005 (romance publicado, por recomendações do escritor,
após seu falecimento, que o livro fala da Ilha do Bananal à época do governo
militar, fazendo, através da ficção, denúncias sobre as injustiças e mazelas sociais,
com base em relatos de participantes da Guerrilha do Araguaia);
Duas obras listadas na capa de Rememórias não foram encontradas, nem em livrarias,
nem em bibliotecas de Goiânia: Diciorio de Expressões Populares, em colaboração
com Nelly Alves de Almeida e Contando com os bichos selvagens monólogo de um
vivente solitário.
9
Sumário
Introdução ............................................................................................................................ 10
1. Pelos (des) caminhos do ouro: a formação da capitania de Goiás ...................................... 25
1.1 Pelos babaçuais de Perpetinha: percorrendo a história de Boa Vista ............................... 28
1.2 “O índio é um vivente muito simplório” [!] .................................................................... 52
1.3 Quem chegou primeiro foi a mulher do padre ................................................................ 63
1.4 O drama nos babaçuais: o desaparecimento de Perpetinha .............................................. 68
2. Reinventando o real, realizando o imaginado: o arraial de Santa Rita .............................. 70
2.1 A estória de Estevo......................................................................................................... 72
2.2 “Essa gente não respeita os cabelos brancos do homem” ................................................ 76
2.3 A chegada do automóvel: virtudes do progresso [?] ........................................................ 78
2.4 A inconstância de Estevo................................................................................................ 79
2.5 O futebol: “brinquedo muito apreciado” ......................................................................... 80
2.6 “Homem com homem é nojeira”: a discriminação sexual ............................................... 83
2.7 O livro de Chernoviz: a prática da medicina popular ...................................................... 88
2.8 “Êêh! Chão parado! ...................................................................................................... 89
2.9 Conselho dos Noveis X Sociedade de Lavradores ....................................................... 98
3. Pelas veredas de Santa Rita e Perpetinha ....................................................................... 110
3.1 Feminismos e os estudos de nero: alguns esclarecimentos ......................................... 110
3.2 Resgatando os papéis e identidades de gênero em Perpetinha....................................... 119
3.3 Recuperando os papéis e identidades de gênero em Santa Rita ..................................... 128
3.4 Explorando as continuidades nas relações de gênero nas duas obras ............................. 132
3. 5 Algumas considerações sobre literatura, região e sertão ............................................... 138
Considerações Finais.......................................................................................................... 151
Bibliografia ........................................................................................................................ 162
10
Introdução
A arte é muitas coisas. Uma das coisas que a arte é, parece, é uma
transformação simbólica do mundo. Quer dizer: o artista cria um mundo
outro [...] por cima da realidade imediata. [...] Naturalmente, esse mundo que
o artista cria ou inventa nasce de sua cultura, de sua experiência de vida, das
idéias que ele tem na cabeça, enfim, de sua visão de mundo, que tanto pode
ser erudita como ingênua. Se é ingênua, diz-se que o pintor é primitivo. Mas
que é cultura ingênua? [...] Seria, em termos genéricos, o que se chama de
cultura popular (Gullar, 2006, pp. 105-106)
A linguagem é o material da literatura, tal como a pedra ou o bronze o são da
escultura, as tintas da pintura, os sons da música. Mas importa ter presente
que a linguagem o é uma matéria meramente inerte como a pedra, mas já
em si própria uma criação do homem e, como tal, pejada da herança cultural
de um grupo lingüístico (Wellek e Warren, 1976, p. 24).
Através das citações acima buscamos definir, de forma bastante sumária, o que é arte e
o que é literatura, para situar nosso leitor ao longo deste trabalho. Sumariamente porque nossa
abordagem será feita sob o prisma das teorias sociais (sociologia, antropologia,
historiografia), percebendo na arte uma forma de ampliar o campo das investigações sociais.
Independente do tipo da manifestação artística, o artista busca possibilidades de transfigurar a
realidade, moldando-a de acordo com suas convicções, ideais e vivências, ou seja,
potencializando uma maneira própria de ler o mundo e/ ou dando corpo a uma outra verdade
(Nicola, 1998).
São rios os tipos de manifestações artísticas presentes em uma sociedade, como
música, pintura, escultura, literatura, teatro, arquitetura, etc., que se diferenciam de acordo
com a matéria-prima escolhida pelo artista para se expressar. Desta forma, o artista literário
(escritor, poeta) busca se expressar por meio das palavras, dando ênfase à mensagem, quer
através da seleção e combinação das palavras, quer pela estrutura que compõe a mensagem.
Ou seja, pelo exercício da fuão poética da linguagem, cujo objetivo do autor é manifestar
seus sentimentos e opiniões.
E, justamente por ser manifestação cultural, a literatura é também forma de
conhecimento da vida social. Até o século XX, no Brasil, mais do que as ciências humanas e a
filosofia e diferentemente de outros países a literatura foi o elemento central da vida do
espírito (Candido, 1976). Durante o século XIX, depois da Independência, contribuiu para a
11
formação de uma consciência nacional e para a pesquisa sobre a vida e os problemas
especificamente brasileiros. Até a primeira metade do século XX, imaginação e observação
científica combinavam-se no ensaio. Depois dos anos de 1950, entretanto, a literatura passa a
privilegiar sua função estética enquanto as ciências sociais buscam seguir os critérios
positivistas de objetividade, verdade e utilidade, rompendo, então, com a linguagem literária.
Desde o século XVI, são verificadas no Brasil manifestações literárias, embora fossem
ralas, dispersas e sem ressonância, o que não exclui a presença de obras importantes. No
século XVII estas manifestações se ampliam, mas somente no século XVIII é que chegam a
configurar um sistema articulado de obras ligadas por denominadores comuns, processo que
atinge seu ápice no início do século XIX, com o Romantismo e a Independência do país. Tais
denominadores são resultado do trinômio autor-obra-público, que estão em dinâmica
interação e que garantem a continuidade literária (Candido, 1997a).
Assim, durante o final do Arcadismo no Brasil os escritores neoclássicos, em sua
maioria, buscavam constituir uma literatura que comprovasse que os brasileiros eram tão
aptos quanto os europeus: mesmo quando expunham uma realidade puramente individual,
seguindo os moldes universalistas do período, visavam este aspecto; e mesmo os residentes e
incorporados à vida em Portugal faziam questão de se definir como brasileiros.
Com a Independência, esse esforço se acentuou e a atividade literária pôde ser
interpretada como empenho na construção do país livre, cumprindo um programa que buscava
a diferenciação e particularização de temas e maneiras de exprimi-los. O que corresponde à
tomada de consciência dos autores quanto ao seu papel: escrever para a sua terra, encarnando,
deste modo, o espírito nacional. Destarte, a literatura assume sentido histórico e extraordinário
poder comunicativo, tornando-se “língua geral duma sociedade à busca de autoconhecimento
(Candido, 1997a, p.27).
Portanto, a literatura pode ser definida, de acordo com este prisma, como:
[...] um sistema de obras ligadas por denominadores comuns, que permitem
reconhecer as notas dominantes numa fase. Estes denominadores são, além
das características internas, (língua, temas, imagens), certos elementos de
natureza social e psíquica, embora literariamente organizados, que se
manifestam historicamente e fazem da literatura aspecto orgânico da
civilização. Entre eles se distinguem: a existência de um conjunto de
produtores literários, mais ou menos conscientes do seu papel; um conjunto
de receptores, formando os diferentes tipos de público, sem os quais a obra
não vive; um mecanismo transmissor, (de modo geral, uma linguagem,
traduzida em estilos), que liga uns a outros. O conjunto dos três elementos
lugar a um tipo de comunicação inter-humana, a literatura, que aparece sob
este ângulo como sistema simbólico, por meio do qual as veleidades mais
12
profundas do indivíduo se transformam em elemento de contacto entre os
homens, e de interpretação das diferentes esferas da realidade (Candido,
1997a, p. 23).
O sentimento de missão, ou nacionalismo infuso, e o peso que trazia consigo, fez com
que os escritores se sentissem no dever de descrever a realidade imediata ou então de exprimir
determinados sentimentos de alcance geral, gerando certa renúncia à imaginação ou levando à
incapacidade de aplicá-la devidamente à representação do real (Candido, 1997a). Mas, antes
de mais nada, a literatura é uma forma artística, por isso sua relevância o deve ser buscada
na medida pela qual capta a realidade. Mesmo quando as representações de tipos humanos e
paisagísticos são muito próximas dos modelos reais, não podem ser encaradas como retratos
da realidade. Ainda que a pretensão seja documental, aparentemente dotada de maior
objetividade, no ato literário liberdade para se enveredar pelos caminhos da fantasia: para
tornar o mundo mais expressivo é necessário, às vezes, modificar a sua ordem. Mesmo
quando o trabalho artístico busca observar e reproduzir fielmente o mundo real,
deformação e arbitrariedade, pois “a mimese
1
é sempre uma forma de poiese
2
(Candido,
1976, p. 12).
A literatura é sempre transfiguração da realidade: “a realidade quotidiana se
metamorfoseia em favor daquilo que poderíamos chamar de variações imaginativas que a
literatura opera sobre o real” (Ricoeur, 1977, p. 57).
Contudo, também não podemos concebê-la como uma esfera autônoma, dissociada da
dimensão da produção material da vida. Concebemos a literatura neste estudo seguindo as
sugeses de Antonio Candido (1976): como uma produção artística que não pode ser
compreendida sem considerar a interpenetração dialética entre as obras e o meio social, isto é,
entre texto e contexto. Como sistema simbólico de comunicação inter-humana, a arte
ultrapassa a questão das vivências particulares do artista, tornando-se, assim, objeto de
investigação sociológica. Como forma de expressão artística, também não podemos separar
feitura e repercussão de uma obra, que, para ser considerada acabada, esta precisa atuar e
repercutir num determinado meio social. Por conseqüência, os fatores autor, obra e público
mantêm uma relação inextrivel: o “público sentido e realidade à obra, e sem ele o autor
não se realiza, pois ele é de certo modo o espelho que reflete a sua imagem enquanto criador”.
O público liga o autor à sua obra. Esta, por sua vez, vincula o autor ao público, pois o
1
Imitação, cópia.
2
Criação.
13
interesse deste é inicialmente por ela, se estendendo à personalidade que a produziu depois
de estabelecido aquele contacto indispensável” (Candido, 1976, p. 38).
Podemos situar a análise de obras literárias sob ângulos diversos, analisando
separadamente as condições sociais, ou as biografias, ou a estrutura interna, de acordo com o
objetivo de um estudo e o domínio de um determinado arcabouço teórico. Aqui, devido à falta
de perícia na área dos estudos e da crítica literária, a abordagem será pautada pelos aspectos
sociais e culturais que permeiam a literatura, observando em que medida, e de que forma, são
plasmados. Como sistema cultural, a literatura, também reflete a organização e controle das
coletividades, através da posse dos signos de poder, por parte de um determinado grupo
(Geertz, 1989). Através da literatura podemos perceber como a realidade é internalizada pelo
escritor, através da sensibilidade e visão de mundo que lhe são peculiares.
Mas, antes de prosseguir, deixemos claro que a corrente literária sobre a qual se detém
nossa abordagem é a literatura regionalista-sertanista, que tem a sua denominão a partir da
matéria sobre a qual escreve – a região e o sertão, temas delimitados geográfica, paisagística e
socialmente. Para a nossa análise foram escolhidas duas obras do escritor goiano-mineiro
Carmo Bernardes: Perpetinha: um drama nos babaçuais (1991) e Santa Rita (1995), que tem
o sertão como locus, como local de fala contra-hegemônica, pois o sertão não se constitui
como mera vitrine de signos, como um levantamento de costumes, paisagens e tipos humanos,
como uma categoria identitária prestes a desaparecer em decorrência do processo de inserção
da região à lógica capitalista. Ao lado destas descrições são abordados outros temas, como as
desigualdades, as injustiças, os preconceitos e a opressão dos trabalhadores, de maneira crítica
(Vicentini, 1998).
Inicialmente, nosso estudo pretendia abordar as relações de gênero e a construção da
personagem feminina em quatro obras de Carmo Bernardes: Rememórias (1968), Memórias
do Vento (1986), Perpetinha (1991) e Santa Rita (1995). Mas, após o exame de qualificação,
percebemos que o foco e o material sobre o qual se almejava debruçar o estudo não eram tão
viáveis. Expliquemos: para uma dissertação de mestrado, cujo tema foi mudado já no meio do
caminho
3
, verificamos que o tempo e o espaço eram escassos para a análise de quatro obras.
Refletindo sobre menos obras, poderíamos ampliar a discussão, extrapolando a questão da
opressão de um gênero por outro. A partir de pontos presentes nos dois romances, fomos atrás
de referenciais teóricos que dessem suporte à nossa argumentação. Destarte, as relações de
3
Para a seleção do Programa de s-Graduação em Sociologia da Universidade Federal de Goiás foi
apresentado um projeto no qual nos propúnhamos analisar os papéis e identidades de nero num circuito
musical denominado underground. No entanto, em 2008 o tema foi abandonado.
14
gênero emergem apenas como uma das variáveis que refletem a opressão e as desigualdades
presentes num determinado grupo social.
Depois de mudar de temática de pesquisa para a redação da dissertação, surgiu a
vontade de se trabalhar com a literatura, mas ainda não sabíamos que corrente seguir. Relendo
alguns materiais da disciplina Pensamento Social no Brasil, na qual vimos como a literatura
foi utilizada na formação da nação, bem como a construção das categorias nação, região e
sertão, tivemos certeza de que queríamos seguir as veredas da reflexão sobre o sertão, que
Guimarães Rosa (1978) abordou de maneira tão admirável:
O senhor tolere, isto é o sertão. Uns querem que o seja: que situado o
sertão é por os campos-gerais a fora a dentro, eles dizem, fim de rumo, terras
altas, demais do Urucúia. Toleima. Para os de Corinto e do Curvelo, então, o
aqui não é dito sertão? Ah, que tem maior! Lugar sertão se divulga: é onde
os pastos carecem de fechos; onde um pode torar dez, quinze léguas, sem
topar com casa de morador; e onde criminoso vive seu cristo-jesus, arredado
do arrocho de autoridade. O Urucúia vem dos montões oestes. Mas, hoje,
que na beira dele, tudo dá – fazendões de fazendas, almargem de vargens de
bom render, as vazantes; culturas que vão de mata em mata, madeiras de
grossura, até ainda virgens dessas lá há. O gerais corre em volta. Esses gerais
são sem tamanho. Enfim, cada um o que quer aprova, o senhor sabe: pão ou
es, é questão de opiniães... O sertão está em toda a parte (p. 09).
Lemos praticamente a obra completa de Carmo Bernardes, escolhido por ser um
importante escritor regionalista, mas muito pouco conhecido. E verificamos que o sertão está,
realmente, em todo lugar: aqui e acolá, nas cidades do interior, mas também na capital de
Goiás, Goiânia. As descrões atuam muito mais no sentido de situar o leitor no ambiente em
que se passam as narrativas. Alguns personagens revelam espírito crítico diante das coisas que
se passam à sua volta, questionando-as. Por isso podemos afirmar que o sertão emerge, assim
como em Guimarães Rosa, como um local de fala contra-hegemônica. Como ressaltou
Vicentini (1998): a boa literatura regionalista e sertanista acontece quando um autor consegue
ir além das características que fixam uma obra na corrente regionalista. Ou seja, as descrições
dos cenários, dos costumes, dos personagens ocorrem num plano secundário, servindo de
base, apenas, para o tratamento de questões mais amplas que atuam no sentido de renovar esta
corrente literária.
Perpetinha e Santa Rita foram selecionadas com base em critérios pessoais de gosto.
Após a leitura da obra de Bernardes, foram as duas que despertaram mais interesse para uma
abordagem pautada por aspectos sócio-culturais, inclusive das relações de gênero. Outro fator
que motivou nossa escolha foi o fato de que Perpetinha e Santa Rita são romances que
15
guardam muitas semelhanças, embora sejam consideráveis algumas transformações no
tratamento de certos temas. A definição de alguns papéis de gênero, por exemplo, se dá de
maneira diversa nos dois livros, mas, no entanto, os papéis mais tradicionais acabam sendo
ratificados.
Falemos um pouco de Carmo Bernardes, antes de prosseguirmos com nossa
explanação. Bernardes
4
, autor importante na literatura regionalista de Goiás, nasceu em Patos
de Minas (MG), em 1915, e veio para o Estado com a família, em 1920. Seus livros retratam
costumes, causos, lembranças e memórias, todos coloridos pela linguagem própria da região,
do sero, na qual coloquial e erudito se mesclam de maneira peculiar. Filho de Luiz
Bernardes da Costa e de Ana Carolina da Costa, recebeu seu nome em homenagem à Nossa
Senhora do Carmo: quando grávida, Ana Carolina, ou Dona Sinhana, passava muito tempo
admirando a beleza desta santa, estampada numa das paredes da sala da sogra, Dona
Celestina. Propôs então ao marido que, se fosse menino a criança se chamaria Carmo, e se
fosse menina se chamaria Maria do Carmo.
Nasceu no Areado, fazenda de seu avô paterno, Joaquim Bernardes da Costa. Por
conta do escrivão, seu registro civil teve duas modificações: a data de nascimento, que, ao
invés de dia 02, foi registrada dia 12 de dezembro; e o sobrenome, que ficou mais curto, não
herdando o da Costa, o que, segundo o autor, nunca o prejudicou. Quando veio para Goiás
com a família, foi morar na fazenda do tio Pedro Azevedo, no município de Formosa. O pai,
que não se sujeitava a trabalhar de agregado, foi admitido como capataz e, na ausência do
dono, era ele quem dava as ordens. Constantemente “tocava empreitadas fora”, se
embrenhando pelo vale do Paranã, para comprar bois. Vez ou outra Carmo o acompanhava,
“todo lorde, calçado de botas e com um chapéu embarbelado”, montado no lombo de um
burrinho (Bernardes, 1969, pp. 13; 15).
Aprendeu a escrever depois de ver um vizinho, Daniel, lendo e escrevendo. A primeira
palavra que ele aprendeu a copiar foi bobo, e a escrevia pela casa toda: “nas folhas das portas,
nos esteios do tear, por todas as quinze bandas da casa, até que minha mãe perdeu a
paciência” e passou a lhe ensinar as primeiras lições. Certa vez, mestre Frederico, que
conversava com seu Luiz, ficou impressionado ao ver que o menino sabia ler e sugeriu que
ele fosse mandado para a escola. O pai era contrário, mas a mãe, depois de tanto bater o pé,
4
A biografia do escritor, bem como informações importantes sobre suas obras aparecem nos prefácio e orelhas
de vários de seus livros, em sites como:
http://www.academiagoianiense.org.br/bio/biografia-carmobernardes.aspx;
http://www.oeco.com.br/reportagens/37-reportagens/907-oeco_10976; e também nos trabalhos de Márcia Pereira
dos Santos (2005, 2007).
16
conseguiu que o filho fosse para a escola. Mas logo a empolgação do garoto passou: as
palavras que aprendia eram muito diferentes das que falava no dia a dia, a linguagem era
muito difícil. Por isso o autor, depois dos tempos de escola, passou a mesclar as regras
ensinadas por mestre Frederico às “palavras e as formas que trago na massa do sangue”
(Bernardes, 1969, pp. 16; 20).
Carmo Bernardes está inscrito no período modernista da produção literária goiana.
Depois de exercer diversas profissões, assentou-se como jornalista e funcionário da
Universidade Federal de Goiás (UFG). Seus contos e romances fixam com simplicidade
personagens e cenas, utilizando a linguagem popular para descrever as situações. Além dos
causos que revelam os costumes, lendas e prorbios bastante comuns em Goiás, os livros de
Bernardes também retratam as mudanças que atingem o campo, o crescimento urbano, a
dificuldade trazida pelas crises econômicas, a mudança de hábitos (cada vez mais
sofisticados), o processo do êxodo rural. Alguns são ficcionais, mas assim como aqueles
outros que retratam as memórias e relembranças do autor, possuem temáticas e episódios
bastante parecidos. A linguagem é muito próxima à oralidade, como é próprio da literatura
regionalista.
Em 1935, com vinte anos, casou-se com Maria Nicolina de Jesus, com quem teve as
filhas Aimeé, Anita, Ana Maria, Maria Ana e Eneida. Em 1940, aos vinte e cinco anos,
tornou-se agente recenseador do distrito de Santo Antônio do Capoeirão. Em 1945 passou a
residir em Anápolis, vinculando-se ao jornal A Luta, de Antonino Gomes Pinto, no qual atuou
como redator, compositor, impressor e distribuidor. Realizou em São Paulo, em 1949, com 34
anos, um curso de prótese dentária, retornando ao distrito anapolino de Matão, como dentista
prático, mudando-se, posteriormente, para Rubiataba, município do interior goiano.
Em 1953, retornou a Anápolis, passando a trabalhar no jornal A Imprensa. Depois de
passar por Brasília, como chefe de almoxarifado da firma Juber Resende, veio para Goiânia,
em 1959, passando a trabalhar na Secretaria de Viação e Obras Públicas. Logo a seguir e até
1965, trabalhou nas Centrais Elétricas de Gos (CELG). O escritor, em 1965, passa a ser
redator, em Goiânia, do jornal Cinco de Março, onde publicava diariamente suas crônicas,
além de atuar em algumas rádios da cidade. Morava na Macambira, atual setor Pedro
Ludovico. Freqüentava o Café Central, na Rua 07, no Centro de Goiânia, onde vários
intelectuais locais se reuniam. Ainda em 1965 foi convocado, pela ditadura militar, sob a
acusação de ser subversivo, a depor na cidade de Juiz de Fora, Minas Gerais.
Em 1966 torna-se redator da Universidade Federal de Goiás. Em 1967 foge da capital
para a Ilha do Bananal, onde permanece por mais de um ano, devido à perseguição da
17
ditadura militar em Goiás, e contrai malária. Em 1972 passa a trabalhar na Assessoria do
Governador Otávio Lage. Em 1973 foi eleito para a Academia Goiana de Letras, tomando
posse na Cadeira 10, no dia 22 de março de 1974. Entre as diversas premiações que recebeu,
destaca-se o Prêmio Cubano Casa De Las Americas. Articulista de diferentes jornais e
revistas e após ter editado muitos outros livros, faleceu em Goiânia, no dia 25 de abril de
1996, aos 81 anos de idade.
Antes de passarmos à literatura regionalista-sertanista, é preciso fazer algumas
ressalvas. A literatura brasileira, até a década de 1950, era marcada pelo compromisso com a
vida nacional no seu conjunto, ou seja, voltava-se para a construção duma cultura válida no
país, por isso a definição da nossa literatura como eminentemente interessada. Ela se forma
como síntese de tendências universalistas e particularistas, ora com o predomínio de uma, ora
com o predomínio da outra. No Brasil, durante o Romantismo (1836 a 1881), como
assinalado anteriormente, a literatura era vista como dever patriótico, com os escritores
cantando a sua terra e considerando suas obras como contribuição ao progresso. Nesta tarefa
integravam-se elementos locais e universais: a abordagem de temas tidos como nacionais
seguia os padrões literários europeus.
Um destes temas nacionais foi o indianismo que, entre 1840 e 1860, alcançou seu
apogeu, como em Gonçalves Dias e José de Alencar. Entretanto, a partir de 1860 os escritores
passaram a se convencer de que o índio, como personificação máxima de brasilidade, não era
a figura mais fidedigna. Em literatura, sobretudo no romance, que se consolidava, ser
nacionalista significava descrever da maneira mais verossímil possível os lugares, os
costumes, as cenas, os fatos e os tipos humanos do Brasil. E sob esta perspectiva é que foi
edificado o regionalismo literário, uma forma de exaltar a terra e os feitos das figuras
heroicamente construídas.
Mas nossa colonização se deu em núcleos separados, praticamente isolados entre si, o
que gerou diferenças econômicas, políticas, sociais entre as regiões. Assim, o
desenvolvimento econômico e social de cada uma ocorreu de forma bastante peculiar,
implicando, também, em particularidades culturais. O Nordeste, por exemplo, durante muito
tempo teve grande destaque na história, na geografia e na cultura brasileira, gozando de
autonomia e destaque. Desta autonomia derivou, desde cedo, um sentimento regionalista, cuja
expressão típica foi a Confederação do Equador
5
: tentativa de dar expressão política a esta
diversidade e, se falhou no terreno político, persistiu no plano das idéias (Candido, 1997b).
5
Movimento revolucionário de caráter emancipatório, organizado as a outorga da Constituição de 1824, por
Dom Pedro I. Dela faziam parte os Estado de Pernambuco, Rio Grande do Norte, Ceará e Paraíba, que buscavam
18
No final do século XIX este gênero ganha prestígio e se difunde para outras regiões,
ao mesmo tempo em que a primazia do Nordeste entra em declínio, dando espo à
supremacia política do Sul. Candido (1997b) diz que, desde o início, nosso romance nasceu
“regionalista e de costumes; ou melhor, pendeu desde cedo para a descrição dos tipos
humanos e formas de vida social nas cidades e nos campos” (p. 101). Mas, em sua fase
embrionária, ou seja, durante o Romantismo, o regionalismo aparece de forma artificial,
que os problemas e questões sociais brasileiras são analisados seguindo os padrões europeus.
De maneira geral, podemos dizer que a literatura regionalista historicamente, e com
ela a identidade regional, inicia-se no final do século XVIII e meados do XIX, com as
primeiras manifestações do sertanismo árcade, presente em alguns sonetos de Cláudio Manoel
da Costa, e do sertanismo romântico, perceptíveis em Jode Alencar, Bernardo Guimarães,
Franklin Távora e Alfredo de Taunay. Mas
[...] define-se de fato como corrente sistemática a partir do final do século
XIX, com o mineiro Afonso Arinos, entrando século XX adentro com o
gaúcho Simões Lopes Neto, os paulistas Valdomiro Silveira e Monteiro
Lobato e o goiano Hugo de Carvalho Ramos no início do século até os anos
20; com o grupo nordestino de Graciliano Ramos, José Lins do Rego e Jorge
Amado pelos anos 30; com o mineiro Guimarães Rosa e os goianos
Bernardo Élis e Eli Brasiliense pelos anos 50; com, no caso da literatura
goiana, José Godoi Garcia, Carmo Bernardes e Bariani Ortencio pelos anos
70 [...] (Vicentini, 2007, p. 188).
Inicialmente a região foi tematizada pela literatura, já que somente em 1939 é que
surge um livro propriamente sociológico: Assimilação e populações marginais no Brasil, de
Emílio Willems. Antes disso, a sociologia era mais um ponto de vista do que uma forma de
pesquisa objetiva da realidade presente. Da junção entre literatura e tendência sociológica
nasce o ensaio, gênero bem brasileiro de investigação e descoberta do Brasil, no qual se
combinam imaginação e observação, ciência e arte (Candido, 1976).
Mas, desde o início de nossa literatura, buscava-se definir alguns espaços como
origem ou centro da nação, da civilização, como o litoral, o sul. Em contrapartida, os espos
periféricos, em decadência, passaram a ser classificados pelas narrativas como região, espaços
a serem totalizados pela nação. Deste modo percebemos a subordinação da região a “uma
totalidade que a contém, seja uma área geográfica, uma área cultural, um território nacional
ou um modo de produção” (Sena, 2003, p. 114).
criar uma constituição de caráter republicano e liberal. No entanto, o movimento foi duramente reprimido pelo
governo imperial (Nadai e Neves, 1995).
19
Através do regionalismo literário é que são constituídas as regiões. A literatura dos
viajantes europeus que estiveram percorrendo o país durante o século XIX foi integrada ao
imaginário brasileiro. Desta forma é que o narrador de ficção é representado por “um viajante
pelo interior do país, dedicado à historicização da paisagem, ao relato lendário ou à crônica
das províncias, ao levantamento de tipos, usos e costumes locais e aos casos regionais” (Sena,
2003, p. 118), o que leva à procura, tanto por historiadores como por cientistas sociais
estudiosos da região, das bases do processo de diferenciação regional nas obras dos viajantes,
como August de Saint-Hilire, Johann Emanuel Pohl, Johan Baptist von Spix e Karl Friedrich
Philip von Martius, Henry Koster, Louis François de Tollenare, James Henderson, Johan
Moritz Rugendas, Richard Francis Burton, entre outros
6
.
O romance romântico, a partir da década de 1840 até 1930, pode ser percebido como
uma via de definição da consciência local. Nesta época, o conto sertanejo populariza o
homem rural, através da estereotipia e da relação dicomica campo X cidade. A partir de
1930 tem-se a tomada de consciência do subdesenvolvimento, com o regionalismo
funcionando como “presciência e consciência catastrófica do atraso, motivando o
documentário e o empenho político” (Sena, 2003, p. 114). Nos anos de 1930 e 1940 temos
Graciliano Ramos, José Lins do Rego e Jorge Amado dando ênfase a questões sociais
regionais, como a seca, as relações de trabalho, o coronelismo, etc., ao invés da proeminência
de personagens e costumes típicos. De 1950 em diante, quando a literatura passa a privilegiar
sua função estética, temos a fase super-regionalista, estreada com a publicação de O tronco,
de Bernardo Élis, em 1956, e Grande sertão: veredas, de Guimarães Rosa, em 1957. Esta fase
é caracterizada pelo refinamento cnico, pela transfiguração estética do regional e pela
desconstrução dos aspectos pitorescos, inaugurando a universalidade da região (Candido,
1987).
Bourdieu (2000) destaca que a constituição da região, no discurso literário, científico,
político e dos movimentos sociais, implica na disputa pelo conhecimento e reconhecimento de
um fato social que é, antes de mais nada, uma forma de representação. Ou seja, a região não é
um dado natural, mas um construto que assinala a concorrência pelo monopólio da divisão
legítima. Assim, a definição da identidade regional passa pela luta constante
[...] pelo monopólio de fazer ver e fazer crer, de dar a conhecer e fazer
reconhecer, de impor a definição legítima das divisões do mundo social e por
6
Informações disponíveis no site da Fundação Joaquim Nabuco:
http://www.fundaj.gov.br/notitia/servlet/newstorm.ns.presentation.NavigationServlet?publicationCode=16&page
Code=320&textCode=2689&date=currentDate.
20
meio deste fazer e desfazer os grupos. Com efeito, o que nelas está em jogo é
o poder de impor uma visão do mundo social através dos princípios de di-
visão que, quando se impõem ao conjunto do grupo, realizam o sentido e o
consenso sobre o sentido e, em particular, sobre a identidade e a unidade do
grupo, que fazem a realidade da unidade e da identidade do grupo (Bourdieu,
2000, p. 113).
Justamente por revelar as disputas de poder entre grupos, a idéia de região não está
livre de preconceitos e estigmatizações. À abordagem geográfica, através da qual a região é
definida como um espaço físico, com nítidos pontos de separação (as fronteiras), alia-se a
abordagem econômica pela qual o centro, local de fala e representação dos grupos
dominantes, espaço desenvolvido e civilizado, ao redor do qual gravitam o interior, a
periferia, áreas que precisariam ser integradas e dinamizadas. A partir destas definições
científicas os grupos hegemônicos buscam assegurar sua supremacia.
A reivindicação regionalista, por muito longínqua que para deste
nacionalismo sem território, é também uma resposta à estigmatização que
produz o território de que, aparentemente, ela é produto. E, de facto, se a
região não existisse como espaço estigmatizado, como “província” definida
pela distância económica e social (e não geográfica) em relação ao “centro”,
quer dizer, pela privação do capital (material e simbólico) que a capital
concentra, não teria que reivindicar a existência: é porque existe como
unidade negativamente definida pela dominação simbólica e económica que
alguns dos que nela participam podem ser levados a lutar (e com
probabilidades objectivas de sucesso e ganho) para alterarem a sua definição,
para inverterem o sentido e o valor das características estigmatizadas, e que a
revolta contra a dominação em todos os seus aspectos até mesmo
económicosassume a forma de reivindicação regionalista (Bourdieu, 2000,
pp. 126-127).
E é desta perspectiva que compreendemos o que seria um local de fala contra-
hegemônica nas obras de Carmo Bernardes: rejeitando os estereótipos aposto à região Centro-
Oeste e buscando denunciar os desequilíbrios e diferenças regionais. Percebemos que a
construção da região e do sertão, em Perpetinha e Santa Rita representam a possibilidade de
fala da periferia para o centro, uma fala que desconsidera valores impostos de cima para
baixo, definidos como naturais e que não opõe a modernização ao atraso local. Este local de
fala é assumido por um nativo, um sertanejo, que se posiciona criticamente diante do mundo à
sua volta.
Da mesma forma que a idéia de região, a categoria sertão, ao longo dos séculos, foi
encarnada em conotações depreciativas, para expressar o isolamento e o atraso das cidades
interioranas, predominantemente rurais, chamadas popularmente de currutelas. Foi
21
empregada, inicialmente, pelos portugueses para designar o interior da África e do Brasil,
apontando para o desconhecido, o distante, o vazio, o inferior, em oposição ao litoral que
correspondia à área de civilização, de desenvolvimento, vista por homens letrados, que
enxergavam a totalidade que deviam colonizar, impondo suas “realidades”, e não serem
colonizados.
Geograficamente, o sertão engloba os Estados do Piauí, Ceará, Rio Grande do Norte,
Paraíba, Pernambuco, Alagoas, Sergipe, Bahia, parte de Minas Gerais, Goiás, Tocantins,
Mato Grosso do Sul e Mato Grosso. Mas a categoria remete a outros sentidos que extrapolam
o sentido espacial: político, econômico, social, histórico, antropológico e do imaginário,
utilizadas, geralmente, para ilustrar o atraso das regiões cortadas pelo sertão. A partir do início
do século XX é que passa a assumir uma dimensão positiva pela incorporação da fronteira
como expansão econômica capitalista.
Além das considerações de Antonio Candido (1976) de ponderar a interpenetração
dialética entre texto e contexto, isto é, entre as obras e o seu contexto cio-histórico, nos
pautamos também nas contribuições de Geertz (1989) e Ricoeur (1977) para fazer uma análise
interpretativa de Perpetinha (1991) e Santa Rita (1995). Como manifestação artística, logo
cultural, podemos observar na literatura disputas de poder em prol de um local de fala e,
conseqüentemente, de legitimidade, conforme esboçamos anteriormente, ao nos referirmos à
literatura regional-sertanista. A arte, como uma das formas de expressão cultural, revela a
forma de organização e de controle das coletividades, isto é, as disputas de poder num
determinado grupo, em determinada época.
A cultura, portanto, pode ser interpretada como um “padrão de significados
transmitidos historicamente, incorporado em símbolos, um sistema de concepções herdadas
expressas em formas simbólicas por meio das quais os homens se comunicam, perpetuam e
desenvolvem seu conhecimento e suas atividades em relação à vida” (Geertz, 1989, p. 103).
Assim, para estudar de maneira satisfatória uma determinada cultura, ou um determinado
aspecto cultural, aqui a literatura, devemos realizar uma descrição densa, que vai muito além
da simples exposição minuciosa de aspectos da realidade que se pretende analisar.
É necessário, então, que o pesquisador interprete os acontecimentos sociais, os
comportamentos, as instituições, os processos em dlogo com os nativos, com aqueles a
quem se pretende estudar. É preciso construir uma leitura do que acontece: do que pessoas
específicas dizem, o que elas fazem, o que é feito a elas. Para a interpretação do fato descrito
é indispensável que se procure suas motivações e seus objetivos, seus significados. Geertz
estava se referindo ao trabalho do antropólogo, cujo resultado é a etnografia que seria, nada
22
mais, que a leitura do pesquisador da leitura que os próprios nativos fazem de sua própria
cultura: a chamada descrição densa. Essa postura aproxima o empreendimento do etnógrafo
ao de um crítico literário, pois ambos lidam com ficções: algo construído, algo modelado.
Nesse sentido somam-se as contribuições de Ricoeur (1977) sobre a interpretação.
Compreender um texto, que é toda experiência humana objetificada, exteriorizada, é
apropriar-se do sentido do texto, é interpretar, buscar uma explicação através da forma como
são lidas determinadas mensagens. Assim, os problemas teóricos da interpretação são
estudados pela hermenêutica, encarada como o processo de decifrar o sentido dos textos. E a
leitura não pode deixar de abarcar o posicionamento do leitor, ou seja, a questão subjetiva,
que cada um faz uma determinada leitura de um texto, com base nas suas próprias visões de
mundo.
A interpretação
[...] consiste em reconhecer qual a mensagem relativamente unívoca que o
locutor construiu apoiado na base polissêmica do léxico comum. Produzir
um discurso
7
relativamente unívoco com palavras polissêmicas, identificar
essa intenção de univocidade na recepção das mensagens, eis o primeiro e o
mais elementar trabalho da interpretação (Ricoeur, 1977, p. 19).
A análise hermenêutica de um texto, portanto, deve levar em conta a contextualização
do autor, do texto, e do leitor, responsável por imprimir à leitura seus pressupostos culturais e
pessoais. Assim, a leitura não provém dos aspectos que o texto ordena, mas sim o que revela
através da interpretação. Buscamos estudar as duas obras de Carmo Bernardes com base na
interpretação das questões suscitadas pelos próprios romances, selecionadas devido ao nosso
local de fala: as ciências sociais.
No primeiro capítulo nos deteremos na análise de questões apresentadas no romance
Perpetinha (1991): a mineração em Goiás; a formação histórica da cidade de Boa Vista, atual
Tocantinópolis; o poder dos coronéis; a intolerância e violência em relação aos índios;
famílias constituídas por padres, ao lado da história de Armantino, personagem principal do
romance. Como referencial teórico utilizamos para analisar a questão da mineração e do
povoamento de Goiás: Palacín (1976, 1990), Palacín, Garcia e Amado (2001), Chaul (1997).
Para analisar a formação de Boa Vista, utilizamos Palacín (1990). Para o estudo da violência
em relação aos índios utilizamos Toral (1998), Díaz (1998), Ataídes (1998), Palacín (1976),
7
Para Ricoeur o discurso refere-se a um mundo que pretende descrever, exprimir ou representar. [...] a língua
o é senão condição prévia da comunicação, à qual ela fornece seus códigos, é no discurso que todas as
mensagens são trocadas. Neste sentido, só o discurso possui, não somente um mundo, mas o outro, outra pessoa,
um interlocutor ao qual se dirige” (1977, p. 46).
23
Palacín, Garcia e Amado (2001). Freyre (1975), Palacín (1990) e Silva (2003) foram
escolhidos para abordarmos a formação de famílias por clérigos.
No segundo capítulo nos deteremos ao estudo de Santa Rita (1995). Através da
narrativa de Estevo, narrador personagem, vários pontos são apontados. Para estudar o
envelhecimento e o choque entre gerações, buscamos suporte teórico nos estudos de Veloz,
Nascimento-Schulze e Camargo (1999), Cardoso (2006), Rifiotis (1995), Wachholz e
Fiamoncini (2006) e Barros (1998). Para analisar a chegada do automóvel e a construção da
estrada de asfalto buscamos suporte nos estudos de Palacín (1990), Galli (2007), Gandara
(2008). Para o futebol como atividade de lazer, buscamos apoio nos estudos de Elias e
Dunning (1995), Starepravo e Nunes (2004), Capraro et al (2005a e 2005b), Nascimento
(2007), Bonin (2008), Borges (2008). Para pensarmos sobre a discriminação sexual,
contamos com as contribuições de Parker (1991), Mott (2002, 2006a, 2006b), Shinmon,
Guerra e Tassigny (2008). Para tratarmos da medicina popular, utilizamos como parâmetro
Ortencio (1997), Guimarães (2005), Santos (2008). Em relação às festas promovidas em Santa
Rita, fizemos o contraponto das discussões de Durkheim (2001), Amaral (2000), Mauss
(1974), Matta (1991, 1997). a questão do campesinato foi pensada a partir dos estudos de
Candido (1977), Brandão e Ramalho (1986).
No terceiro capítulo abordaremos a questão dos feminismos e estudos de gênero para,
então, passarmos para as relações entre homens e mulheres nos dois romances, buscando
perceber como personagens femininos e masculinos o construídos e como ganham, ou não,
fala ao longo das narrativas. Nos auxiliaram, em especial, as discussões de Cancian (s.d.), Del
Priori (1997), Aureliano (2008), Matos (1999), Narvaz e Koller (2006), Mead (2000), Grossi
(2000), Faria e Nobre (1997), Mott (2006a), Scott (1995), Rago (2003), Zolin (1997), Araújo
(1997), Bastos (2002), Hahner (1981), Alves (2002), (2005), Jablonski e Carneiro (2002),
Freitas (2002), Kosminksy e Santana (2006), Marin (2006), Rêgo e Andrade (2006), Freyre
(2002), Giffin (1994), Engelmann (1996), Abreu (2003), Whitaker (2002). Depois passamos a
uma reflexão sobre os conceitos de sertão, região, literatura regionalista, literatura sertanista,
literatura como reflexo com base, sobretudo, nas argumentações de Velloso (1988), Candido
(1976, 1997a), Lucas (1970), Rodrigues (2006), Vicentini (1998, 2007), Sena (1998, 2003).
Nas considerações finais fizemos um retrospecto dos pontos abordados ao longo do
estudo, discutindo, de forma mais detida, a questão das desigualdades sociais, que são a tônica
dos dois livros. Para isso, nos valeremos de algumas considerações de Marx, Weber e
Bourdieu. Salientamos, mais uma vez, que a análise dos dados foi interpretativa, tentado
chegar à chamada boa interpretação (Ricoeur, 1977), a uma descrição densa (Geertz, 1989),
24
a uma análise pautada pela relação dialética entre texto e contexto (Candido, 1976), buscando
apreender as conexões entre autor-obra-público (Candido, 1997a). Como toda interpretação,
toda forma de se compreender um texto, é permeada pelo posicionamento do leitor,
destacamos que nas páginas que se seguem as queses abordadas são apenas uma das várias
possibilidades de leitura e reflexão sobre Perpetinha (1991) e Santa Rita (1995).
25
1. Pelos (des) caminhos do ouro: a formação da capitania de Goiás
A sociedade goiana, durante muito tempo, foi interpretada com base em dois
conceitos: o de decadência (usado nos séculos XVIII e XIX) e o de atraso (século XX); idéias
que atravessam o período de transição da mineração para a agropecuária, chegando à época da
construção de Goiânia (Chaul, 1997). Efetiva e oficialmente, o território goiano passa a ser
povoado durante o século XVIII, embora desde o século XVI várias bandeiras, em busca de
mão-de-obra indígena e de ouro, tenham percorrido a região (Palacín, Garcia e Amado, 2001;
Chaul, op. cit.). No século XVI, partindo das Capitanias da costa, saiam expedições com
destino ao interior em busca da descoberta de riquezas minerais; no culo XVII partiam
com certa regularidade dos centros de colonização, como Bahia, Pernambuco e Rio de
Janeiro, grupos armados em busca de índios para as fazendas, que os índios do litoral
tinham sido dizimados. Esta busca por mão-de-obra indígena era chamada, na época, de
“descida” (Palacín, Garcia e Amado, op. cit.).
No entanto, foi em o Paulo que tal busca se tornou a principal base da economia, ao
longo do século XVII, provavelmente pelos seguintes fatores: relativa escassez da agricultura
na Capitania deo Vicente, de clima menos oportuno ao cultivo de artigos tropicais, situada
fora das rotas comerciais européias, mas, por outro lado, com situação geográfica favorável ao
acesso ao interior e ao Planalto Central através dos rios formadores da Bacia do Prata. Assim,
a figura do bandeirante como um “destemido desbravador dos seres e cruel escravizador dos
índios” é recorrente nos documentos historiográficos do período colonial (Palacín, Garcia e
Amado, 2001, p. 17). A figura heróica do bandeirante ultrapassa os relatos hisricos,
ajudando a compor uma tradição sobre a formação do Estado, perceptível em praças, ruas,
monumentos, escolas, murais, no Hino do Estado de Goiás e também na bandeira de Goiânia
(Quadros, 2007).
Em 1722, parte de São Paulo a bandeira liderada por Bartolomeu Bueno da Silva rumo
a Goiás, com o objetivo de encontrar ouro, prata e outros metais preciosos (Gaioso, 2003).
Por três anos os bandeirantes ficaram à procura do local onde, décadas antes, Bartolomeu
estivera com seu pai
8
. Em 1725 o grupo, reduzido por conta de mortes e deserções, retorna a
8
Este também se chamava Bartolomeu Bueno da Silva. Pai e filho também tinham a mesma alcunha:
Anhangüera, que em tupi significa “diabo velho” (Dicionário Aurélio). É polêmico o recebimento desta
26
São Paulo com a notícia de ter encontrado minas de ouro. Em 1726 Bartolomeu retorna à
região das minas de Goyazes, iniciando a exploração das minas e fundando em 1727, às
margens do Rio Vermelho, o Arraial de Sant’Anna, mais tarde Vila Boa, capital da futura
Capitania de Goiás. No mesmo ano também foi fundado o Arraial da Barra, local no qual
Bartolomeu se estabeleceu para a exploração de ouro antes de Santana, atual Buenolândia.
Vale ressaltar que a noção de “descobrimento de Goiás”, presente em documentos do
século XVIII é anacnico, pois, ao final do século XVII, a região de Goiás já era conhecida
pelos paulistas. Desta forma, a bandeira liderada por Bartolomeu Bueno (1722 1725) seria o
marco da ocupação e do povoamento “branco e mestiço no território goiano” (Palacín, Garcia
e Amado, 2001, p. 20).
Assim como Vila Boa, vários arraiais foram erigidos às margens de rios favoráveis à
mineração. Os primeiros arraiais goianos têm em comum o fato de uma existência tumultuosa
e efêmera, como os arraiais de Ferreiro, Anta, Ouro Fino, Santa Rita e outros.
Junto ao Rio das Almas, na região dos Pireneus, foi fundado em 1731 o Arraial da
Meia Ponte, após a descoberta de ouro por Manoel Rodrigues Tomás. O arraial de Crixás,
fundado em 1734, foi edificado entre os Rios Crixás-Açu e Crixás-Mirim. Os arraiais de
Traíras (posteriormente distrito de Tupiraçaba) e São José do Tocantins (posteriormente
município de Niquelândia), próximos aos rios Maranhão, Tocantizinho (ambos formam o Rio
Tocantins), Traíra e Bagagem, foram fundados em 1735. Córrego do Jaraguá, 1737, também
banhado pelo Rio das Almas, foi edificado próximo a um córrego caudaloso, mais tarde
chamado de Rio Pari.
A partir de 1734, são fundados povoamentos entre o rio Tocantins e o sertão da Bahia.
O Arraial de Natividade (1734) foi fundado por moradores do Paraná que migraram para a
região. São Félix, 1736, fundado por Carlos Marinho, foi erguido próximo ao Rio do Sono
(hoje pertence ao Estado do Tocantins; São Félix do Tocantins e é um dos oito municípios
que compõe a região do Jalapão). Pontal (1738) foi fundado devido à existência de garimpos
no rio Tocantins. Porto Real (1805), criado para refugiar os sobreviventes da invasão de
índios Xerente ao garimpo de Bom Jesus do Pontal, devido à exploração a que eram
designação: para alguns historiadores o termo seria decorrente do episódio no qual Bartolomeu, pai, para forçar
os índios Goyá a sinalizar onde encontravam o ouro com o qual as mulheres da aldeia se adornavam, ateou fogo
a uma vasilha com aguardente, ameaçando fazer o mesmo com os rios, caso os índios se recusassem. Outros
historiadores acreditam que o apelido teria sido dado pelos próprios paulistas ou por índios do litoral, que o
termo é de origem guarani, e os índios Goyá não teriam conhecimento desta ngua. Uma terceira corrente
defende que, devido à expulsão dos índios do litoral para o interior do país pelos primeiros colonizadores, alguns
grupos indígenas, além de seu dialeto também falariam guarani. (Gaioso, 2003).
27
submetidos os indígenas. Os Arraiais de Arraias e Cavalcante foram fundados em 1740
também devido ao ouro encontrado nas proximidades.
Na década de 1740 foram erigidos os três últimos povoamentos significativos do ouro:
em 1746 foi erguido o arraial de Santa Luzia (atual Luziânia) depois da descoberta de ouro no
Rio Vermelho. Em 1747, foi criado por Manuel de Sousa Ferreira o Arraial de Carmo da
Natividade. Em 1749 foi criado Cocal, por Diogo de Gouveia e Castro.
Bartolomeu Bueno, capitão-mor até 1734, foi o primeiro a administrar a região que,
em 1744, se tornaria a Capitania de Goiás. Cinco anos depois o primeiro governador, dom
Marcos de Noronha, o Conde dos Arcos, se estabeleceria no local. O povoamento, bem como
a mineração, tem seu ápice na década de 1750. Após este período, há um declínio da atividade
mineradora e também o retraimento de alguns núcleos de povoamento. Para historiadores
como Chaul (1997) este fato não pode ser interpretado como a decadência da sociedade
goiana, pois o pleno desenvolvimento e urbanização trazidos pela mineração eram suposições
feitas por aqueles que encaravam a agropecuária como retrocesso ao desenvolvimento urbano
e ao sistema capitalista. A própria mineração, em Goiás, não teve a mesma produtividade e
duração que em Minas Gerais, o que também leva a repensar sobre o conceito de decadência.
O povoamento de tipo urbano durante a época colonial foi decorrente da mineração,
que, durante os séculos XVI e XVII, as Capitanias da costa brasileira eram povoadas em
função da empresa agrícola. Os centros urbanos eram poucos e, com exceção da relevância
política, que reuniam os órgãos de poder, eram prolongamentos das fazendas e sítios do
interior, nos quais estava dispersa a população. Com a mineração, ocorreu o oposto: os
povoamentos urbanos aglutinaram a maior parte da população e o interior passou a ser um
prolongamento econômico das zonas mineradoras:
A valorização do “mineiro” e a desvalorização do “roceiro” (o atual
fazendeiro), então ocorridas, expressam o fato.
Décadas mais tarde, a decadência da mineração gerou uma ruralização
progressiva da economia e dos costumes e, de forma mais lenta, das
mentalidades (Palacín, Garcia e Amado, 2001, p.33).
Percebe-se que esta inversão de povoamento, seguida, mais tarde, pela inversão dos
tipos humanos valorizados não deixa de ser surpreendente, pois em Goiás, diferentemente da
produção mineradora em Minas Gerais, as proporções eram mais moderadas, além da sua fase
áurea ter durado menos de três décadas.
“Em Goiás, o campo esligado à idéia de sertão, de roça, de lugar deserto, carente de
urbanização, distante, no fim do mundo’, alheio ao tempo e à prosperidade” (Chaul, 1997, p.
28
17). Durante muito tempo, esta idéia foi recorrente em análises sobre o Estado e sua
população, esta tida como preguiçosa, indolente. Ainda hoje é possível perceber esta
representação em alguns textos, programas de TV, em piadas feitas por pessoas de outros
Estados: “roça asfaltada”, “sotaque caipira”, “povo provinciano”, “reduto das duplas
sertanejas”, “Goiânia, a capital country do Brasil”. Em programas de humor, os personagens
goianos são sempre provenientes da zona rural e estereotipados: camisa xadrez, chapéu de
palha, botinas, fala mansa e cheia de erres.
Veremos, mais adiante, que nas obras de Carmo Bernardes o sertão aparece como
sinônimo de cidades pequenas do interior de Goiás, também chamadas popularmente de
currutelas. Suas obras, no geral, abordam a vida e os problemas enfrentados pelas cidades do
interior do Estado, com exceção de Memórias do Vento (1986), romance ficcional passado em
Goiânia, e dos livros de crônicas, Rememórias (1968) e Rememórias Dois (1969), nos quais a
capital goiana também é descrita.
Perpetinha: um drama nos babaçuais (1991) é um romance passado na cidade de Boa
Vista, atual Tocantinópolis, uma das cidades que compunham o extremo norte goiano, sendo
que em 1988, por determinação da Constituição, as partes norte e central de Goiás passam a
compor o novo Estado da Federação: o Tocantins. No entanto, desde o século XIX a região já
buscava constituir um governo autônomo em relação à cidade de Goiás (Palacín, 1990). Santa
Rita (1995), de acordo com as coordenadas oferecidas pelo narrador, era uma das cidades sob
a jurisdição da Comarca de Meia Ponte, situada no atual norte goiano.
1.1 Pelos babaçuais de Perpetinha: percorrendo a história de Boa Vista
Boa Vista foi um dos núcleos de povoamento erguidos no território que compunha o
chamado extremo norte goiano e que, a partir de 1988, passou a fazer parte do Estado do
Tocantins. A partir de 1943, Boa Vista foi renomeada, recebeu novo nome: Tocantinópolis,
mas ainda fazia parte do Estado de Goiás. Por volta de 1818, além da presença de jesuítas
para catequizar os índios, bandeirantes também começaram a chegar à região. De Pastos
Bons, Maranhão, partiu uma bandeira que buscava mão-de-obra indígena e terras para
explorar. Desta bandeira, dois integrantes (Antônio Faustino e Venâncio) se desligaram para
29
se fixar no local devido às suas potencialidades: mananciais de água, madeira em abundância,
e a presença dos babaçuais.
Fixaram-se na margem esquerda do rio Tocantins, acima do rio Taury, local propício à
atividade agrícola. A altitude do lugar favorecia uma boa visão do Tocantins, por isso o
povoado recebeu o nome de Boa Vista. Por volta de 1825, Pedro José Cipriano (apelidado de
Pedro Cinzas), chega à povoação depois de ter fugido de trabalhos forçados na abertura de um
canal no rio Tocantins. Logo a notícia da existência e provável prosperidade se espalham,
levando muitas pessoas a migrar para o local
9
. Mais adiante veremos o relato do narrador
sobre este episódio. Em 1858 Boa Vista foi elevada à categoria de cidade.
Em Perpetinha: um drama nos babaçuais (1991)
10
, Carmo Bernardes, na verdade,
utiliza-se da história do personagem principal, Armantino da Costa Negri, para mostrar as
condições de vida da cidade de Boa Vista. O romance é ficcional, conduzido por um narrador
observador, através do qual Bernardes retrata a sociedade sertaneja goiana
11
. Através da
caracterizão e da formação social de uma cidade específica, o autor busca destacar aquilo
que considera típico de Goiás. Para isso, descreve a fauna e flora do lugar com bastante
detalhamento, caracterizando também tipos como o bugre, o caboclo (sertanejo), o migrante
(paulista, mineiro, baiano, pernambucano), bem como os costumes, as lutas de classe, as
desigualdades sociais. E estas são a tônica do romance. Armantino conta a sua história,
mesclando-a à história de Boa Vista e à de outros personagens.
O romance inicia-se com a ida de Armantino, dentista vindo do sul (neste caso, sul do
Estado de Goiás), para a cidade de Boa Vista, considerada pelo narrador uma cidade
agradável, que nunca foi atingida pelas cheias do rio Tocantins, devido à presença do
babaçual
12
: “onde dá essa palmeira a água não toma”. A população é pacífica e mantém boa
convivência com as pessoas vindas de fora, mas bastante marcada pelas distinções que
separam “os graúdos” e “a pobreza” (PE, pp. 09; 13).
De acordo com o narrador, a dificuldade da vida no sul do Estado acaba forçando
Armantino a se embrenhar pelo sertão, em busca de terras de mundo mais aberto, onde
esperava que a vida fosse mais tranqüila” (PE, p. 14). Certa vez, num hotel em Goiânia,
Armantino teve seus serviços, supostamente, contratados por um senhor de nome Raimundo
Nonato Menezes que assegurou dar toda assistência ao doutor, que fora seduzido também
9
Informações obtidas no site da Prefeitura de Tocantinópolis: www.tocantinopolis.to.gov.br/.
10
Utilizaremos, a partir de agora, a abreviatura PE quando fizermos citações desta obra, destacando que se trata
da publicação feita pela CEGRAF – UFG, em 1991.
11
Que, de acordo com a caracterização do autor, seria a sociedade do interior de Goiás.
12
Espécie de bosque formado pelo babaçu, palmeira de grande importância econômica, já que dela o
aproveitados os frutos, as folhas e o madeiro (Dicionário Michaelis Digital).
30
pelas histórias de pescaria e caçadas que o lugar ofereceria. No entanto, depois de chegar à
Boa Vista, Armantino descobre que Raimundo não mora na cidade e que há muitoo bota os
pés por lá.
A viagem, feita pelo rio Tocantins a bordo do barco Dom João, começa na cidade de
Carolina, Maranhão, e dura muitos dias. Armantino leva bastante bagagem. Devido à
paisagem homogênea, o narrador diz que a viagem acaba sendo monótona: babual nas duas
margens, com a presença esparsa de outras árvores, como o jatobá, o ipê amarelo, o pau
d’óleo da mata. No barco, a comida é carne seca cozida com fava
13
e servida com farinha de
puba
14
, bem diferente do arroz com feijão, “sustento principal do povo do sul”, mas, devido
aos efeitos anestesiantes da aguardente, consumida durante todo o dia, o viajante não se
incomoda com a alteração. Durante o dia e a noite, a tripulação é assolada por uma variedade
de mosquitos: muriçoca, polvinha, maruim, pium, que atacam, principalmente, o forasteiro,
“uma criatura de pele fina” (PE, pp. 19; 21).
Logo no início, Armantino percebe as diferenças de classe, pois o comandante e o
dono do barco quase o dialogam e não se misturam com o cozinheiro (Antônio Saracura
15
),
o bombeiro (Jurupa
16
) e o maquinista (Raimundo Seriema
17
), chamados de porcos d’água;
nenhum dos três teria mais de trinta anos; eram de altura mediana, “cara de broa,
achamboados, cabelo miúdo, testa estreita” (PE, pp. 20; 26).
O patrão (seo
18
-Mário de Sousa Lima; seo-Lima), ou chefe, ou ainda comandante
(dono da embarcação) era representante da parte mais “arremediada” da população local, que
era formada por comerciantes ou então por criadores de gado tradicionais; no caso, seo-Lima,
além de ser um dos comerciantes mais importantes da cidade de Boa Vista, era proprietário de
terras e de criações de gado. Aparentava ter cinqüenta anos e, nas observações do narrador,
destoava do tipo físico comum aos homens remediados, em geral grandes e bem-nutridos.
Seo-Lima era pequeno, de “testa redonda e lisa, tirado para mulato, cabelo pouco e
encaracolado”; por ter uma perna mais curta que a outra, mancava ao andar; passava a maior
13
Planta da família das leguminosas que produz vagens grandes, dentro das quais se formam grãos parecidos aos
do feijão (Dicionário Michaelis Digital).
14
O mesmo que farinha d’água: a mandioca é deixada de molho por mais ou menos três dias, para fermentar.
Depois é ralada, espremida (para retirar a água) e peneirada. Informações disponíveis em:
http://www.brasilsabor.com.br/por/roteiros/artigo/47.
15
Ave de patas alongadas e bico levemente curvo; vive em brejos ou próximo a cursos d’água; costuma se
esconder no meio da vegetação; se alimentam de insetos, crustáceos e peixes pequenos (Dicionário Aurélio).
16
O narrador indica que o nome é a abreviação de jurupensem: “peixe liso das águas do norte” (PE, p. 26).
17
Conhecida popularmente como sariema, ave grande, de pernas longas, que vive em regiões descampadas, se
alimenta de lagartos, insetos e pequenos roedores. Seu canto “jovial e bem modulado” acaba com o silêncio,
sendo “uma plangência inspiradora para poetas sertanejos” (Bernardes, 2001, pp. 93-94).
18
Seo e sea são as formas coloquiais da região que substituem, respectivamente, senhor e senhora.
31
parte do tempo examinando os papéis que levava consigo: Aquele homem empafiado,
manco, deixa que eu chuto, a carregar o rei no bucho, era a média da sociedade na qual o
passageiro ia entrar no dia seguinte” (PE, pp. 27-28).
O piloto (Tuvira
19
), “é irmão de classe dos outros trabalhadores do rio. Proletário com
mania de grandeza. É um sujeito da testa estreita, o nariz morcegueiro, bacoco das pernas
finas, um montão de orgulho e empáfia(PE, p. 30). Devido às atribuições do ofício (locais e
horários das paradas, regular a direção do barco), se sentia superior aos seus irmãos de classe,
dando, com prazer, várias ordens aos outros porcos d’água. A presença do patrão fazia
sombra à sua autoridade, pois impedia que ele dominasse a tripulação e a guiasse da sua
forma.
Armantino, “de classe média, é um revoltado com as safadezas e mesquinharias dos
dominantes”. Não se importava em dividir com os porcos d’água, “laia mais miserável da
tripulação”, os alimentos e bebidas. Gostava muito de caçar, tanto que se deixou levar pelas
histórias contadas por Raimundo.o simpatizou com o comandante e, no decorrer da
viagem, a incompatibilidade entre eles ficava cada vez mais evidente. Armantino era “uma
criatura sensível, integrado emocionalmente na natureza, poeta, romântico, alma cismadora”
e, por isso, não teria como se relacionar cordialmente com seo-Lima, “elemento duro, desses
viventes que concebem a vida no sentido prático. Uma personalidade marcada pela
ganância a que a exploração do semelhante é muito natural” (PE, pp. 28-29).
Assim, o barco transportava indivíduos com modos de pensar e agir bastante distintos,
que “se repelem envenenados pelo ódio de classe” (PE, p. 27). O narrador destaca que entre
as populações sertanejas é costume arraigado não se lembrar ou não se querer saber o nome
legítimo das pessoas pobres. Isto justificaria os apelidos que remetem a bichos do sertão,
peixes, mamíferos, aves, bem como o fato de apenas o comandante ser tratado por seu nome
ou sobrenome, dependendo do grau de intimidade.
A primeira amizade que Armantino faz em Boa Vista foi com Jurupa, o bombeiro do
barco, que o ajuda a encontrar uma casa para alugar e vai apresentando o viajante às pessoas
da cidade. A primeira delas foi dona Emerenciana, mais tarde tratada pelo personagem por
dona Merência. O narrador observa que, para entrar numa sociedade e se dar bem nela, é
preciso conhecer alguma coisa da história do lugar, assim como o nome de alguns moradores:
“Voindo conversar com uma pessoa chamando ela pelo nome, pode contar que cativa essa
pessoa. O mesmo é o estranho mostrar que conhece a história do lugar (PE, p. 53). E
19
Nome de um peixe “baboso, nojento” (PE, p. 30).
32
Armantino, ainda em Carolina (MA), conheceu alguns trechos da história de Boa Vista
através do professor Pedro de Cássea Maranhão, ou Mestre Pedro de Cássea: cidadão
instruído e que, por tradição, sabia várias coisas, as quais, por gostar de conversar, passava
adiante.
Era costume de todos na cidade, ricos e pobres, logo de manhã, ir para o rio, para
tomar banho e também para “obrar”, coisa que causou espanto e incômodo em Armantino. As
mulheres também iam ao rio lavar roupa, por isso havia dois portos: um dos homens e outro
das mulheres. No rio, os meninos da pobreza pescam os peixes do almoço e também peixes
que vendem aos comerciantes locais. A divisão entre ricos e pobres é bastante perceptível na
apropriação social das paisagens, extremamente desigual. Os pobres, além de morarem bem
mais distantes da rua (Bernardes utiliza este termo para se referir aos locais mais centrais de
Boa Vista), também ficavam com a parte mais baixa do rio.
Este, na verdade, estava dividido em quatro partes: a mais alta era destinada às
mulheres ricas, que iam tomar banho e obrar. Mais abaixo vinha a parte destinada às
mulheres pobres que, além de tomar banho e fazer suas necessidades, lavavam roupa e
utensílios no rio. Na parte mais inferior do rio ficava o porto destinado aos homens, sendo que
a parte mais alta estava destinada aos ricos e a mais baixa, e mais suja, aos homens e meninos
da pobreza. E era nesta parte do rio que os garotos pescavam os peixes que, depois, seriam
vendidos a alguns comerciantes da cidade.
Sobre a história de Boa Vista, Palacín (1990) afirma que, para compreendê-la o se
pode deixar de lado a história do extremo norte goiano e a história do padre João, que as
três estão intimamente ligadas. Para este autor, o norte, tradicionalmente, não define apenas
um referente geográfico: carrega também o significado de oposição política. Esta animosidade
entre norte e sul teria tido seu início nos primeiros anos da atividade mineradora: as minas do
norte, denominadas minas do Tocantins, em 1735 protestaram contra o aumento da taxa
cobrada por escravo (capitação), taxa superior àquela cobrada sobre as minas do sul. Em
março de 1736, com a chegada de um intendente enviado para o cumprimento da lei, os
chefes e os moradores dos arraiais se negaram a receber tais ordens, depois de terem, na
madrugada anterior, invadido a residência do intendente para protestar contra sua missão.
Esta foi a primeira ameaça de segregação por parte das minas do norte. A segunda
veio quando o governo do Maranhão reclamou os “‘descobertos
20
’ mais setentrionais de
Carlos Marinho e Natividade” (Palacín, 1990, p.10). Esta situação de disputa era percebida
20
Minas descobertas nos arraiais de Carlos Marinho e Natividade. Nota-se o destaque por Palacín do adjetivo
para salientar que o ouro encontrado não seria nenhuma novidade.
33
através da nomeação das autoridades dos arraiais mais recentes: ao mesmo tempo em que o
governo real nomeava juízes, tabeliões, etc., o governador do Maranhão também fazia as
nomeações. Por isso, o Conselho Ultramarino
21
determinou que as minas do norte deveriam
pertencer, todas, a Goiás e não ao Maranhão. No entanto, não foram fixados os limites entre
as duas Capitanias. Isso facilitou a migração de pessoas, de uma Capitania para outra, em
especial nos momentos de crise. Os arraiais do norte de Goiás deveriam repassar à Vila Boa a
metade da arrecadação dos impostos municipais, o que desagradava à população, pois, além
das grandes distâncias entre Vila Boa e o norte do Estado, o retorno das contribuições era
praticamente nulo.
Na tentativa de corrigir esta situação, em 1804 foi criada a comarca do norte e
instalada a vila de São João da Palma. Mas não foi suficiente para solucionar os
descontentamentos: em setembro de 1821, devido às “convulsões administrativas, que
precederam à Independência, o norte constituiu um governo independente separado da cidade
de Goiás” (Palacín, 1990, p. 11). Solicitaram do Imperador e do Congresso a consolidação
deste governo autônomo: mas o Imperador não reconheceu a separação e os arraiais
dissidentes foram reintegrados um a um.
A análise de Palacín sobre o Estado de Goiás durante o século XVIII e XIX é pautada
pela idéia de atraso e de decadência, conseqüências do declínio da atividade mineradora.
[...] A fuga de brancos e diminuição da população ativa, a retração e até
desaparecimento do comércio, a falta de capitais e a escassez de moeda
circulante, a contração da produção agrícola em veis de puro consumo, a
ruralização da vida e o abandono das cidades, expressões da decadência em
Goiás todo, afetaram muito mais profundamente o norte. Aqui, os ataques
dos índios, o clima e as epidemias, a aridez do solo, as distâncias e falta de
vias de comunicação reforçavam as causas gerais da decadência (1990, p.
11).
O autor coloca que durante o século XIX o norte continuou na mesma situação, e que,
no início do século XX, continuava “um vazio demográfico e econômico. A arrecadação
fiscal no norte também era reduzida, acirrando os ânimos na oposição entre norte e sul: “o
norte acusava o governo do sul de completo abandono, e o governo acusava o norte de não
cobrir nem sequer os gastos com o funcionalismo” (Palacín, 1990, pp. 12-13).
21
Órgão de administração colonial criado por D. João IV, regulamentado em 1642, para centralizar as decisões
referentes às colônias portuguesas, retirando a autonomia das Câmaras Municipais, que, a partir de então,
estariam subordinadas às determinações reais (Caetano, 1967).
34
No entanto, esta concepção centrada na idéia de decadência, como anunciado
anteriormente, será abandonada em prol da análise pautada pelo relativismo cultural e
histórico, conforme proposto por Chaul (1997). Não se pode analisar um período hisrico,
bem como seus aspectos culturais, sob a ótica contemporânea, que isto nos leva a
estereotipias e também a interpretações equivocadas.
A situação de descaso em relação ao norte do Estado foi utilizada como tema da
propaganda da Revolução de 1930 em Goiás: seria o primeiro governo goiano a buscar
promover o desenvolvimento da região e Pedro Ludovico Teixeira seria o responsável por
esta inversão. a questão da comunicação entre norte e sul sofreu modificações mais
substanciais durante a década de 1960, com a construção da Belém-Brasília.
Na época em que foi elevada à cidade, Boa Vista era um povoamento muito pequeno:
“[...] não passava de um alinhamento de choças de barro cobertas de palha, com uma
pequeníssima capela já ruinosa dedicada à SS. Trindade”. no início do século XX,
poucas eram as casas cuja cobertura era feita de telhas. O número de habitantes no século XIX
também devia ser, segundo Palacín, reduzido, bem como o movimento comercial, a
preocupação com escolas e com a saúde pública. Grande parte da população vivia de
atividades agrícolas e extrativas, como beneficiamento da castanha e do coco de babaçu “[...]
que passou a significar a partir de 30 a tábua de salvação para todos os empobrecidos
definitivamente” (Palacín, 1990, pp. 22; 29).
No entanto, o núcleo urbano, por menor que fosse, possibilitava uma nova forma de
diferenciação social: “Nestas trezentas casas de terra e palha, na sua maior parte, é traçada
uma linha divisória invisível, mas inviolável, entre a sociedade’ e a pobreza”. Esta
diferenciação fica perceptível no romance de Carmo Bernardes, no qual cada uma das classes
sociais tem suas festas, seu lugar na igreja, seu lugar de banho no rio. A esse respeito, Palacín
observa que os nomes e as festas seguiam a diferencião: quando o aniversariante era rico, a
comemoração era feita por um baile; quando o aniversariante era pobre, ocorria um pipiral
22
:
“Juntas em espaço tão reduzido, mas sem misturar-se como o óleo e a água as festas da
‘sociedade’ e as festas dos gipiras
23
”.
Entretanto, o autor prossegue
22
De acordo com o Dicionário Aurélio: reunião de pipiras, ou seja, reunião de pássaros pequenos e médios que
fazem bastante barulho quando juntos.
23
Termo usado para designar os pobres da região, recorrente no nordeste goiano no fim do século XIX e início
do XX (Palacín, 1990, p. 29).
35
Se não revelasse uma das vertentes mais sombrias do proceder humano, esta
divisão dicomica da sociedade entre ricos e pobres, num meio o
primitivo, poderia aparecer ao historiador como uma simplificação grotesca.
Na realidade, por comparação com outras situações contemporâneas, o que
existia naquele norte remoto não era riqueza e pobreza, mas diversos graus
de pobreza. Os dados do censo são bem significativos a esse respeito.
O censo de 1920, com efeito, pôs em evidência uma espécie de paradoxo
fundamental com respeito a Goiás: numa sociedade integralmente rural, cujo
bem fundamental e quase único, por conseguinte, era a terra, e esta carecia
de valor. De fato, Goiás era o estado da federação onde o preço da terra era
mais baixo (Palacín, 1990, pp. 29-30).
Em relação à agropecuária, o mais comum era a exploração familiar da terra,
reservando espaço para uma pequena roça, na qual a produção era, fundamentalmente, voltada
para o consumo e a criação de algumas cabeças de gado. As fazendas que se voltavam para a
criação de gado em maior escala eram muito poucas, talvez em decorrência do baixo preço
que alcançava os rebanhos. Além disso, até 1950, o gado era criado solto, sem cuidados com
melhoramento genético, o que mantinha a baixa produtividade da pecuária.
Em Perpetinha temos traçada desde o início a diferenciação, e a conseqüente
segregação, entre ricos e pobres. Se para Palacín (1990) a sociedade da época em Boa Vista
era marcada por diferentes graus de pobreza, sendo uns mais ou menos pobres que os demais,
para Carmo Bernardes a questão passa pelas disputas pelo poder: quem tinha mais terras, mais
posses, participava das decisões político-administrativas da cidade. Geralmente eram pessoas
com maior acesso aos estudos e à saúde, ou seja, os detentores do poder simbólico naquela
localidade (Bourdieu, 2000).
Logo mais adiante, Palacín chama a atenção para o fato de que em Boa Vista, entre o
fim do século XIX e início do XX, não se verificava situação de fome endêmica, o que ajuda
a perpetuar a oposão entre sertão e paraíso: “[...] se trata de um paraíso não de abundância,
mas da frugalidade, não da cultura e de seus refinamentos, mas da vida natural” (Palacín,
1990, pp. 33-34). Estas duas formas de se conceber a mesma região são provenientes, além do
aspecto subjetivo que pautam as escolhas de escritores e historiadores, de anacronismos e de
parâmetros que não resguardam as diferenças entre o norte e o sul de Goiás, bem como pela
divergência de certas concepções, que, ao longo das décadas, foram ficando ultrapassadas. No
caso de Carmo Bernardes a narração é pautada, sobretudo, pela posição política do autor de
denunciar injustiças sociais, preconceitos e abusos. Isso nos leva a afirmar que a ficção de
Bernardes possui caráter social, no sentido proposto por Lucas (1970):
36
A perspectiva social será apanhada tôda vez que a personagem ou grupo de
personagens tiver seu destino ligado ao da sociedade global de que faz parte,
sob o impulso das fôrças fundamentais que conferem historicidade às
tensões entre indivíduos ou grupos (p. 50).
Ou seja, a obra de Carmo Bernardes vai além da narração de acontecimentos, da descrição de
lugares e tipos humanos; o narrador ajuda a situar o posicionamento crítico do autor sobre as
questões sociais.
Boa Vista era uma cidade em que a agitação social e os confrontos políticos eram
recorrentes: no fim do século XIX e durante a primeira metade do XX, em menos de sessenta
anos, foram três os casos de conflito armado, conhecidos como as três revoluções de Boa
Vista. A diferença entre a cidade e o restante da Província, além da diferença econômica em
relação ao sul de Goiás (onde a economia de mercado, se comparada ao norte, estaria mais
bem implementada) passava pelo aspecto político: como foi povoada, quase que
primordialmente, por famílias vindas do sul e do centro do Maranhão (Carolina, outrora
pertencente à Capitania de Goiás, Grajaú, Barra do Corda, entre outras), durante todo o século
XIX, Boa Vista foi marcada pelas rivalidades políticas que permeavam o interior maranhense.
Na tentativa de corrigir os abusos e desavenças, foi nomeado um juiz, Dr. Hermeto,
mas devido aos desdobramentos trazidos pela proclamação da República, isso não foi
suficiente para evitar que ocorresse a primeira revolução de Boa Vista. Devido à possibilidade
da ecloo de particularismos, em decorrência da maior autonomia política e administrativa
dos Estados, Palacín destaca que a disputa pelos poderes locais atuou no sentido de consolidar
a figura e atuação dos coronéis, sendo que em Estados política e economicamente menos
desenvolvidos, como Goiás, o coronelismo, por não haver partidos estruturados, foi pautado
na tirania de algumas famílias e de alguns personagens.
Palacín prossegue afirmando que a formação dos primeiros partidos políticos em
Goiás se dava muito mais em função da afirmação de uma política local do que da adoção de
uma corrente ideológica: desta forma, os Bulhões, fundadores e diretores do partido liberal
durante trinta anos, mais ou menos, buscavam a autonomia provincial como forma de
afirmação no governo local e também de participação no Congresso Nacional. Como
desdobramentos deste aspecto, podemos citar o pragmatismo e o personalismo, que durante
um bom tempo caracterizaram a política goiana, através dos quais as ambições e
compatibilidades, ou incompatibilidades, sobressaíam sobre o próprio programa político. Foi
o que ocorreu em Boa Vista: o coronel Carlos Gomes Leitão, ou simplesmente coronel Leitão
- devido ao apoio prestado a Leopoldo de Bules (cujos votos para deputado conseguidos em
37
Boa Vista foram obtidos por meios fraudulentos) - teve dele e do partido liberal apoio integral
para as suas realizações no extremo norte goiano.
O coronel Leitão deve ter chegado a Boa Vista pouco antes de 1880, mas antes disso,
no Maranhão, disputou, à frente do partido liberal, o poder com os conservadores
24
. Em Boa
Vista contava com o apoio de familiares, como o avô Francisco Germano da Silva que, em
1862, tomou o poder político do município, depondo o juiz Manuel Curado de Miranda.
Mesmo incorporado à política de Boa Vista, Carlos Leitão não se desligou das questões
maranhenses, atuando em vários conflitos naquele Estado.
Logo depois de seu surgimento, o partido liberal em Goiás rachou em duas vertentes:
de um lado estavam os Bulhões, liderando o partido liberal clubista, de outro estavam os
Fleury, comandando o partido liberal histórico. Em relação à República, a bancada goiana
também estava dividida nas eleições para o primeiro presidente: os Bulhões apoiavam
Prudente de Morais, enquanto Deodoro era a opção dos Fleury, contando também com o
apoio do Partido Católico (desta união surge o Partido Republicano Federal em 1891). Após a
eleição de Deodoro, no entanto, a assembléia continuava dominada pelos Bulhões, o que
gerou pressões e disputas até que o partido liderado pelos Fleury dominasse a situação
política
25
.
Durante o período da Primeira República em Goiás, assim como no quadro nacional, a
política era dominada pelas oligarquias. Nesse sentido, pode-se dividir a época em quatro
fases:
24
Com a abdicação de Dom Pedro I, em 1831, e devido à menoridade de Pedro de Alcântara iniciou-se o período
regencial, no qual progressistas (que defendiam a autonomia das províncias) e regressistas (que defendiam a
centralização do poder) se alternaram no governo. Por volta de 1836 os regressistas formam o Partido
Conservador e os progressistas, o Partido Liberal. Em 1840, ocorre o golpe da maioridade, através do qual Dom
Pedro II, ainda com quinze anos incompletos, apoiado pelos liberais assume o poder, dando início ao Segundo
Reinado. No entanto, liberais e conservadores no início do Segundo Reinado pouco se diferenciavam do ponto
de vista ideológico, que ambos neutralizavam os ideais republicanos e democráticos e deixavam de fora a
participação das camadas populares no jogo político. Ambos representavam grupos dominantes: os primeiros
defendiam os interesses dos grupos urbanos e comerciais da época e os segundos defendiam a dominação
política das elites escravocratas rurais, adotando, muitas vezes, atitudes contrárias aos princípios políticos, de
acordo com a situação. Em 1862, membros descontentes do partido conservador, contado com o apoio de liberais
descontentes com o domínio deste partido, fundam a Liga Progressista, ou Partido Liberal Progressista,
dissolvido, em 1868, pelo poder moderador de Dom Pedro II. A partir de então, os membros da Liga se associam
ao partido liberal, causando insatisfações, o que leva, em 1870, os liberais exaltados, contrários a essa união, a
fundarem o Partido Republicano que, em 1889, seria responsável pelo golpe da proclamação da República pelo
Marechal Deodoro da Fonseca (Nadai e Neves, 1995).
25
Em 1890, os Bulhões e seus coligados formam o Centro Republicano, também conhecido como Partido
Republicano de Goiás. Em 1892, mesmo tendo sido eleito presidente do Estado sem concorrência da chapa dos
Feury-católicos, Leopoldo de Bulhões não assume o o almejado cargo, desde a época do Império, que as
rias comissões no Congresso Nacional exigiam sua presença. Assim, Antônio José Caiado, seu vice, assume a
presidência do Estado. Enquanto os Bulhões se afirmavam no panorama político nacional, os Caiado, aos
poucos, iam conquistando seus lugares na esfera estadual. No entanto, os Bulhões procuraram alianças políticas
que pudessem lhes garantir o prestígio no âmbito estadual, ainda que entre forças heterogêneas, deixando claro
que as disputas eram fundadas nas ambições de poder, e não por questões ideológicas (Chaul, 1997).
38
(a) de 1891 até 1900 - Leopoldo de Bulhões e seus aliados controlam a
política estadual em todos os níveis; (b) de 1901 até 1909 - José Xavier de
Almeida, utilizando-se dos mecanismos de Bulhões, de quem fora aliado,
impõe seu controle à potica e à administração goianas; (c) de 1909 até 1917
- define-se como um período de transição: tem início com uma articulação
política que depõe pelas armas Xavier de Almeida e seus aliados; a partir de
1912, e os Caiado-Castro-Jardim começam a estabelecer seu controle no
Estado, afirmando-se após o Acordo de 1916; e, (d) de 1917 até 1930 -
quando, sob a forte liderança de Antônio Ramos (Totó) Caiado, a política
goiana é submetida ao domínio do grupo Caiado-Castro-Jardim (Campos e
Duarte, 1996, p. 24).
Desta forma, os políticos goianos, no primeiro momento do novo regime, estavam
organizados no Partido Republicano, também designado de Centro Republicano. Com os
desentendimentos, a aliança se rompe, levando à formação de outros partidos, como o Partido
Calico, liderado pelo cônego Ignácio Xavier da Silva, e o Partido Republicano Federal,
liderado por Sebastião Fleury Curado. Em 1909, os Bulhões, insatisfeitos com a perda de
prestígio em esfera estadual, se articulam a membros descontentes do grupo situacionista,
liderado por Xavier de Almeida, e fundam o Partido Democrata. Em 1912, os Bulhões
reorganizam o Partido Republicano, que passa a ser oposição. Em 1916, o Partido Democrata,
liderado pela aliança Caiado-Castro-Jardim domina a política regional, sendo que, em 1921, o
Partido Republicano quase desaparece.
Em 1933, o interventor Pedro Ludovico Teixeira conclama as chefias políticas
municipais a participarem do Partido Social Republicano, enquanto os membros
oposicionistas ao movimento de 1930 se organizam em torno do Partido Democrata. Em 1934
disputam as eleições para composição da Câmara dos Deputados (Federal) e para as
Constituintes estaduais três partidos: o Partido Social Republicano - PSR, liderado por Pedro
Ludovico Teixeira, o Partido Democrata, liderado pelos Caiado e aliados, e o Partido
Libertador, organizado pelo deputado Domingos Velasco, que havia participado do
movimento tenentista e que, em 1947, ajudaria a fundar o Partido Socialista Brasileiro.
Voltando à situação política em Boa Vista, Palacín (1990) evidencia que a disputa se
dava entre o partido republicano federal, dirigido pelo tenente coronel Perna e o partido
republicano democrata, liderado por Leitão, sendo que, com a viria de Perna, em 1891,
Leitão cai no ostracismo. Por isso, este último tenta, por meio de um golpe malogrado,
retornar ao poder. As desaveas também se agravaram em decorrência da intervenção de Dr.
Hermeto. Quando chega a Boa Vista, decide analisar e julgar os processos pendentes, entre
eles o caso de Cláudio Gouveia, preso supostamente por ter assassinado a esposa, viúva de
39
seu antigo patrão, para ficar com a herança. No entanto, ele havia sido excluído da partilha
dos bens e, como Leitão encontrava-se em situação de prestígio, arrematou um dos bens
leiloados: a fazenda Cordilheiras, uma das maiores da comarca. O juiz Hermeto, então, marca
a sessão do júri para rever o caso, em fevereiro de 1892, momento em que Leitão já estava em
situação política desfavorável, pois Bulhões, que lhe dava apoio incondicional, havia sido
afastado do cenário político. O réu foi então absolvido, fato que levou à revisão da partilha
dos bens. Ou seja, a venda da fazenda Cordilheiras foi anulada e Leitão teve que devolvê-la.
Outro personagem que aumentou o descontentamento de Leitão foi Frei Gil Vilanova,
enviado juntamente com Dom Domingos Carrerot, para atuar nas missões. Chegaram à cidade
em março de 1892, num momento de agitações sociais. Com a proclamação da República, o
Estado se separa da Igreja e há uma disseminação das idéias positivistas. Isto fez com que
alguns líderes católicos se posicionassem contra a nova forma de governo. Em Boa Vista o
partido católico apoiava o tenente coronel Perna, o que levou Leitão a apontar a chegada dos
religiosos como uma afronta ao governo republicano.
Leitão parte para Pedro Afonso para buscar reforços para o golpe político que
pretendia dar. No entanto, não obteve êxito e saiu de Boa Vista, com seus homens, sob a
proteção de Frei Gil, que os acompanhou até o porto, onde um bote que os levaria aa barra
do Mombuca os aguardava. Entretanto, o cenário político nacional sofre uma reviravolta:
Floriano decide intervir em Goiás, nomeando pessoas de sua confiança para os cargos
administrativos, e os Bulhões e seu partido retornam ao poder local. Isso fez com que Leio
revertesse a situação e passasse à condição de vítima, e Frei Gil, e o partido católico, à
condição de agressor. Com essas declarações e o apoio do parido dos Bulhões, logo o governo
interveio, mandando para o norte um batalhão de polícia.
Após o inquérito, procedido pelo Capitão Augusto Alves de Castro, houve a tentativa
de persuadir o grupo de Leitão a se dispersar, mas o contrário aconteceu: mais jagunços a ele
se aliaram, iniciando uma fase de banditismo, na qual vários assaltos, roubos, assassinatos e
torturas foram cometidos. Sobre estes episódios de violência, Palacín (1990) pondera que,
para aqueles que vêem o sertanejo como um tipo humano moderado, “Sem ambição, sem
inquietude, frugal ao extremo na comida e na habitação, com um sentido de honra inato, e
uma religiosidade natural e profunda [...], o sertanejo parece ser a antítese do desordeiro ou do
revolucionário” (p. 63). Entretanto, as bandeiras e descidas”, durante séculos
institucionalizaram no Brasil uma mentalidade e uma prática bélicas pximas às incursões
predatórias nômades e às várias formas de pirataria e banditismo.
40
Destarte, Goiás seria uma terra violenta desde suas origens, “como todo povoamento
devido ao descobrimento de ouro”, sendo que nas primeiras décadas de fundação
predominariam a violência urbana nos arraiais auríferos e a guerra de extermínio dos índios.
na zona rural, os episódios de violência estariam diretamente ligados ao coronelismo, com
os jagunços de um coronel saqueando fazendas e matando pessoas por conta de alguma
vingança. para as autoridades goianas, chefe de polícia e governador
26
, a violência que
ocorria no norte e nordeste de Goiás era induzida por elementos provenientes dos Estados
vizinhos, pois “[...] o povo goiano, de índole pacata e ordeira, era sempre vítima e nunca
agente desses atos de vandalismo” (Palacín, 1990, pp. 64; 66). Fato que não se sustenta, visto
que Gregório Acácio, Francisco Acácio, Honorato de Almeida, que cometeram furtos, saques
e assassinatos, eram da própria cidade.
O governo da Capital envia tropas ao local no intuito de restabelecer a ordem, o que
não aconteceu. Alguns soldados do regimento enviado da Capital passaram para o lado dos
saqueadores, se unindo aos jagunços e aos políticos derrotados do partido de Leitão. No
trajeto até Boa Vista, o grupo assaltou várias fazendas, parando em Sobradinho, à espera de
reforços que Estevão Tavares traria de Filadélfia, cidade fronteiriça com Carolina, MA.
Entretanto, foram surpreendidos por moradores e soldados boa-vistenses que, em duas horas,
derrotaram o grupo de Leitão. Mais uma vez parecia ter-se encerrado o incidente.
Foi neste momento que ocorreu a intervenção federal, modificando o cenário de Boa
Vista: as autoridades locais foram depostas, e os homens de Leitão assumiram o comando.
Isto levou à revolta da população contra a intervenção federal e o Governo do Estado,
permitindo o aparecimento de um novo líder, JoDias Ribeiro, que logo outorgaria a si
mesmo o título de general do sertão, que apoiara, desde o início, o coronel Perna. Além da
nova liderança, emerge um novo tipo de recrutamento: ao percorrer as fazendas, chefes e
emissários além da colaboração econômica exigiam homens para lutar. Tanto os efetivos de
José Dias como os de Estevão foram ampliados desta forma.
Diversos conflitos foram travados entre pernistas e os homens de Leitão. Em maio de
1893, Estevão Tavares foi assassinado em Carolina, que até então se mantinha neutra na
disputa, apesar da predileção pelo coronel Perna, servindo de cidade asilo para os combatentes
de ambos os lados. O fato levou a um sentimento de revanche e vingança, por isso Leitão não
defendia uma solução pacífica.
26
Que também praticavam violência em favor ou contra algum coronel e sempre contra os movimentos
messiânicos e milenaristas.
41
Em 1894 chega à Boa Vista o juiz de Porto Nacional, Dr. César Quirino para proceder
a uma sindicância, na tentativa de acalmar os ânimos. Garantiu que Dias permanecesse vivo,
mas a fuga deste da prisão acabou mais uma vez em luta armada, mas, desta vez, adquiriu um
caráter mais violento: “Os inimigos eram procurados nas suas fazendas, trucidados em massa
e seus bens considerados saque de guerra”, ficando conhecida como a guerra de extermínio
(janeiro a julho de 1894) (Palacín, 1990, p. 76). Muitas pessoas foram mortas neste período,
tornando José Dias cada vez mais conhecido. Em agosto chegava à cidade mais uma vez,
assumindo o poder, depondo as autoridades locais e prendendo os homens de Leitão.
Em novembro de 1894, foi nomeado o Dr. Coriolano Augusto de Loiola, à época
ministro do Supremo Tribunal de Justiça, para apurar a responsabilidade dos crimes ocorridos
em Boa Vista e punir os culpados. O relatório foi concluído em abril de 1895, dirigido ao
Presidente do Estado, Coronel (e cônego) JoIgnácio Xavier de Brito, no qual se constatava
impossível a punição de todos os culpados e, por isso, aconselhava uma anistia geral a todos
os envolvidos, bem como a nomeação de “pessoas estranhas à Comarca para os cargos
remunerados” e a mudança ou extinção da comarca (Palacín, op. cit., p. 80). Contudo, José
Ignácio não tomou nenhuma decisão e o processo foi arquivado em outubro. Por um decreto,
informado por meio de um telegrama de Coriolano, o Congresso Nacional concedeu anistia a
todas as pessoas envolvidas, direta e indiretamente, nos conflitos de Boa Vista.
Estava, desta forma, terminada a primeira revolução de Boa Vista, cujos efeitos podem
ser abreviados em três: destruição de fazendas e rebanhos, êxodo maciço da população, e o
sentimento de vingança por parte dos ex-combatentes. Ainda em 1895, Carlos Leitão deixa
Boa Vista e vai para Belém, onde, com ajuda do Estado, fundou e dirigiu um burgo agrícola
em Itacaiúnas, até o início da exploração de borracha na região. Fundou a cidade de Marabá,
Pará, juntamente com outros seringueiros. Morreu de malária, sendo sepultado nesta cidade.
Apesar da anistia concedida aos envolvidos na primeira revolução, os chefes acabaram
se exilando: Perna foi para o interior do Maranhão, Leitão para a região de fronteira com o
Pará, e José Dias para a Ilha do Bananal, que na época pertencia ao território de Goiás,
próximo à divisa com o Mato-Grosso. Alguns anos depois, já no século XX, Dias foi levado
pela professora Leolinda Daltro
27
para o Rio de Janeiro onde acabou morrendo de varíola.
27
Indigenista e feminista trabalhou com grupos indígenas em Goiás e Mato-Grosso, buscando a criação de uma
colônia que reunisse os diversos grupos indígenas e promovesse, através de uma educação laica, a integração dos
índios à sociedade brasileira. Depois de ter seu pedido de alistamento eleitoral negado pela Justiça, fundou, em
dezembro de 1910, no Rio de Janeiro, o Partido Republicano Feminino, que defendia os direitos plenos da
mulher. Também foi a responsável pela mobilização, em novembro de 1917, que reuniu quase cem mulheres, em
marcha pelas ruas do Rio de Janeiro pelo direito ao voto. Ela foi a primeira feminista candidata às eleições
municipais, em 1919. Entretanto, teve o seu registro negado (Grigório, 2008; Corrêa, 2003; Soihet, 2000).
42
a chamada segunda revolução da Boa Vista foi o confronto entre duas figuras: padre
João de Souza Lima e Leão Tolstoi de Arruda Leda. O padre João, nascido em Boa Vista,
retornou à cidade em 1897, catorze anos depois de ter deixado a cidade para seguir a carreira
eclesiástica. Palacín (1990) enfatiza que a história oral, fonte de grande parte de biografias
sobre os personagens deste período, contém uma tendência mitificadora sobre as origens dos
heróis, além da cesura dos aspectos negativos, fato que acabou acontecendo também com o
clérigo.
Uma das biógrafas do padre João, a professora Aldenora Alves Correia, anota que o
pároco nasceu em 03 de setembro de 1869, filho de José Francisco de Araújo e Nazaré Lisboa
de Souza Lima, vivendo até os 10 anos junto com os pais. Depois de um inndio no cartório
da cidade, as únicas certidões conservadas foram aquelas apresentadas pelo padre para a sua
ordenação e conservadas na diocese de Porto Nacional. Na certidão de batismo, por exemplo,
o vigário que batizara João Lima, Ignácio Joaquim Cortes, escreve que o batismo foi dia 04 de
março de 1868 e que a criança nascera em 03 de setembro de 1867, sendo filho natural de
Nazária Lisboa dos Santos.
De acordo com Palacín (1990), a expressão “filho natural” e a omissão do nome do pai
poderiam indicar que se tratava de um filho de mãe solteira, mas não era este o caso do padre
João: seus pais não eram casados legalmente, ou seja, não haviam se casado no religioso,
que, nesta época, não existia o casamento civil. Com mais ou menos 15 anos de idade foi
levado ao seminário pelo bispo da diocese, D. Cláudio José Gonçalves Ponce de Leão, que
estava em visitas pastorais pelo Estado. O bispo não chegou a regularizar a união dos pais de
João Lima, por isso, quando chegou o momento de sua ordenação, teve que requerer do bispo
a dispensa de irregularidade ex defectu natalium (defeito de nascença, neste caso em virtude
de ser filho de uma união ilegítima). Foi ordenado em maio de 1893, permanecendo em Santa
Luzia, atual Luziânia, até 1897.
Sobre a volta do padre à Boa Vista, a história oral conserva a versão de que os
habitantes da cidade teriam enviado um abaixo assinado ao bispo, pedindo que o clérigo
retornasse. Inclusive é esta a versão contada pelo narrador de Perpetinha. O padre José Klaus,
que conhecera o padre João nos últimos anos de sua vida, substituindo-o como vigário após
sua morte, apresentou uma versão diversa: João Lima teria pedido uma licença para o bispo
de Porto Nacional, D. Alano, a quem conhecia desde 1935, para ir visitar sua falia. No
entanto, o padre acabou permanecendo na cidade até 1947, ano de seu falecimento. Foi
suspenso do exercício ministerial em 1902, devido ao seu envolvimento nas questões políticas
43
e devido ao descumprimento da ordem do bispo D. Eduardo Duarte Silva de deixar a cidade.
Em 1914 recebeu licença para pregar e administrar sacramentos.
Como será dito mais adiante, a transgressão do celibato era algo comum entre o clero
no Brasil.
Das três tentações bíblicas, enraizadas na condição humana, a da carne, a das
riquezas, e a do poder, as duas primeiras tinham sido a pedra de escândalo
para o clero em Goiás desde os primeiros dias do povoamento das minas.
A violação sistemática da lei do celibato eclesiástico, e a acusação de cobiça
e até de simonia o os lugares-comuns nos pecados do clero tão difundidos
que se tornaria difícil de dizer, tendo em vista o costume estabelecido, qual a
norma e qual a transgressão (Palacín, 1990, p. 106)
Mas em relação ao padre João, a ameaça de perdição não provinha nem da carne, nem
do dinheiro, mas sim da busca de poder. As intrigas com o nome do sacerdote praticamente
não evocavam os seus casos amorosos, reduzido a apenas um episódio, ocorrido nos
primeiros anos da chegada do padre à Boa Vista, quando manteve um caso com a viúva
Januária Gonçalves Neves, com quem teria tido um filho. Mas tendo o pároco escrito
inúmeros artigos sobre os desregramentos sexuais de figuras políticas importante, publicados
nos jornais locais, era de se esperar que seus inimigos mencionassem o fato, criticando a
conduta moral do pároco, o que não ocorreu. Como o padre se afastou de dona Januária e não
manteve nenhum outro caso, logo o episódio caiu em esquecimento.
Leão Leda, outra figura que ganhou destaque em Boa Vista, chegou com a família à
cidade no período em que padre João se firmava como líder. Leda saiu fugido de Grajaú,
Maranhão, para permanecer vivo. Instalou-se em Boa Vista devido à proximidade entre as
cidades, pretendendo retornar à sua cidade assim que possível. Durante o Império, a família
Leda protagonizou uma das lutas mais violentas e duradouras no sertão maranhense: a guerra
entre o partido liberal, apoiado pelos Leda, e o partido conservador. Como a situação em
Grajaú passou a ficar insustentável para os liberais, em 1900 a família se instala em Boa
Vista.
Bernardes, através do narrador de Perpetinha, nos coloca que a cidade, na época da
chegada de Leão Leda, estava se desenvolvendo, com a construção das primeiras casas de
telha pelos habitantes mais remediados:
Esse homem tinha sido derrotado numas eleições, na terra dele. E os
adversários botaram-no pra fora do lugar [Grajaú, Maranhão]. De forma que
ele chegou na Boa Vista escorraçado, trazendo todos os parente e aderentes.
44
Nesse tempo quem ganhava a política num lugar montava calçado de esporas
no que perdia. Adversário era considerado inimigo jurado.
Primeiro esse senhor Arruda Leda foi para Carolina. Ficou por uns dias
observando o lugar [...]. Viu que ali o tinha condições dele entrar. Sua
inclinação era a criação de gado e, pra isso, os campos melhores estavam
todos tomados. Deliberou a andar mais, e desceu o Tocantins. Chega em
Boa Vista, que o lugar tem futuro. Ainda havia disponíveis muitos
campos abertos, e na cidade tinham poucos moradores [...]. Chegou esse
homem, entrou na sombra de um Juiz, o Dr. Tito Ferreira de Brito, e logo
tomou posse de uma grande gleba de varjões e campos de criar [...].
Comprou umas criações, ganhou outras, fez um ranchão lá [...] (PE, p. 108).
Tanto Bernardes como Palacín colocam que Leda, depois de ter a permissão do juiz da
cidade, Dr. Tito Pereira Brito, para fixar residência em Boa Vista, manteve boa convivência
com os vizinhos, mostrando-se um homem trabalhador. Fez amizade com pessoas importantes
na cidade, casou uma de suas filhas com Tomaz Moreira, da família Moreira, formada por
fazendeiros abastados e comerciantes das redondezas. Logo Leda conquistou prestígio e
respeito.
Palacín (1990) indica que, entre duas personagens tão marcantes, num meio político
reduzido, aliado ao histórico de lutas violentas dos Leda no Grajaú e às conseqüências da
primeira revolução de Boa Vista, o confronto era inevitável
28
. Salienta também que a segunda
revolução foi quase uma reedição da primeira:
Um líder maranhense recém-chegado, ontem Leitão, agora Leão Leda, com
o prestígio de um nome, e a bagagem de uma experiência política e de uma
cultura, consegue o apoio do governo do Estado. Mas a maioria local,
heterogênea em sua composição, supera suas diferenças para unir-se contra
ele. Com marcado desdém para com este povaréu inculto, e sentido-se forte
com o apoio do governo, decide instaurar definitivamente seu domínio
mediante um golpe de força (Palacín, 1990, p. 126).
Na narração de Bernardes (1991), Leão Leda teria chegado antes do padre Lima à Boa
Vista. E os dois teriam travado amizade, virando “carne com as unhas”, porque
Eram da mesma política, iam à casa um do outro. Se um cheirasse torrado o
outro espirrava. Iam assim aos beijos e aos abraços até que as ambições dos
dois começaram a o dar muito certo. Leão Leda pegou a pisar nos
pintinhos das galinhas de Padre João, e foram ficando abespinhados um com
o outro. Leão atrapalha os interesses do Padre, a gente de boas famílias
queixava que a cabroeira dele estava passando o pé adiante da mão [...] Era
chegado o ponto de o ter mais condições de suportar. Aí, usando de uma
das armas mais eficazes, Padre João desceu o pau. Em todo sermão que dizia
28
“O ditado é que quem nasce para ser pequeno não pode crescer que passa a pisar nos outros. [...] Assim fez o
senhor Leão Leda. Arrumou um pé de vida, agora queria mando, com ambição de poderoso” (PE, p. 109).
45
jogava indiretas denunciando os desmando dos cabras de Leão Leda. E Leão
Leda já não estava achando nada bom aquilo. Até que toparam e discutiram.
Andaram dizendo liberdades duras no pau da venta um do outro (PE, pp.
110-111).
Nos relatos historiográficos fornecidos por Palacín (1990), não nenhuma menção a
uma possível amizade entre os dois personagens, pelo contrário: logo de início Leda se
deparou com a ascensão política do padre, que representava um sério obstáculo às suas
pretenes políticas. No entanto, a obra de Carmo Bernardes não tem a pretensão
historiográfica, e sim literária, mesclando, desta forma, realidade e ficção. Antes de iniciar o
romance, o autor dedica algumas linhas à sua advertência, na qual escreve: “Estes escritos,
assim como os nomes dos lugares, os nomes das pessoas, os acontecimentos e tudo o mais
que eles contêm, são da pura inventividade do autor. o se devem misturar as aparências
com o real”, mas, como destaca Ecléa Ferreira no prefácio da obra, nesta ficção e realidade
se misturam, [...] ficção e realidade se fundem, pois mostra o acontecido com a beleza do
imaginado e o imaginado com a verdade da própria vida” (PE, pp. 04-05).
Palacín (1990) ressalta que em setembro de 1907 seriam disputadas eleições
municipais. Honório Fernandes, um dos concorrentes, fez um acordo com os Leda, no qual
estes assumiam ter minoria eleitoral, embora tivessem mais habilidade política. No entanto,
depois da apuração dos votos, os Leda obtiveram maioria e Honório Fernandes foi
assassinado. Padre João e seus aliados enviaram à Capital um advogado, Aníbal Lopes, com o
objetivo de anular as eleições, que teriam sido fraudadas. Entretanto, o governo respondeu
que, de acordo com as provas fornecidas, não era possível afirmar a fraude e que as
autoridades eleitas deveriam permanecer nos devidos cargos.
Padre João reagiu e em 1907 iniciam-se os vários confrontos, com o pároco fugindo
para o Marano, com medo de ser morto. Contudo, continuava controlando seus homens,
mesmo de longe. Várias expedições militares federais, e também do Estado do Maranhão,
foram enviadas à Boa Vista para controlar a ação dos revolucionários (padre João e
companheiros, major João José, Pedro Sarmento de Paiva, também chamado de Maquinista,
Aníbal Lopes, entre outros). No entanto, não lograram êxito, pois, além das fugas dos
revolucionários para cidades vizinhas, as tropas demoravam certo tempo para chegar. Leão
Leda e as autoridades boa-vistenses se instalaram em outro município maranhense, São
Vicente, de onde controlavam suas tropas. O conflito, então, de acordo com Palacín (1990),
ao ser transferido de Boa Vista, se interioriza ainda mais pelo sertão.
46
Na tentativa de amenizar a confusão, e não de solucionar o impasse da revolução, o
Tribunal Supremo do Estado concedeu aos líderes revolucionários um habeas corpus,
permitindo o retorno de padre João e seus aliados à Boa Vista, provocando uma cisão entre as
autoridades estaduais e o comando da tropa federal e também entre os Leda, que deixam a
cidade em dezembro de 1907.
Leão Leda retorna ao Maranhão, indo para a cidade de Conceição com a família e com
seus homens armados, causando insegurança na população local. Agia de forma autoritária,
não pagando as compras que fazia, apreendendo carregamentos, sem calcular a repercussão de
seus atos. Leda e seu filho Mariano foram assassinados em março de 1908, epidio contado
em diversas versões, coincidentes em linhas gerais, mas divergentes nos detalhes (explicações
dos fatos e nos meros apresentados). Tais diferenças são provenientes do “ponto de vista
pessoal na seleção dos fatos e na sua interpretação”. Destarte,
Para os dominicanos [...] e para os dirigentes de Conceição [...] Leão Leda
era simplesmente um bandido, e da pior espécie, por isso sua morte devia,
para ser exemplar, aparecer como um castigo merecido por seus crimes. De
acordo com este estado de espírito, consciente ou inconscientemente, suas
narrações destacam a baixeza e ignomínia dessa morte (Palacín, 1990, pp.
150-151).
Depois da apreensão do carregamento de um comerciante estabelecido, Sandoval
Aires Marano, sob o pretexto de que se tratava de um dos amigos do padre João, a
população local se revolta e as autoridades montam um cerco que termina no assassinato de
Leão Leda e seu filho. Aparentemente o incidente encerraria a segunda revolução; entretanto,
a luta pelo poder após a revolução preparava o terreno para a terceira revolução local.
Bernardes salienta que o chefe político de Conceição era “fanático do Padre João(PE, p.
147) e que, com o apoio do Bispo, pretendia matar Leda.
Num jornal de Carolina guardado por Armantino, depois de muitos dias de resistência
ao cerco montado pelas autoridades locais, a morte de Leda e Mariano foi narrada da seguinte
forma:
Fez um silêncio profundo quando a porta abriu e apareceu Leão Leda. A
barba crescida, cabelo esgadanhado, camisa pra fora das calças, ceroula
amarrada nos tornozelos e descalço. Dois cabras enfiaram dois punhais no
peito dele, e as pontas varando do outro lado fizeram esgolfar borbotões de
sangue. Por um instante ainda ficou de pé, sem poder cair, enganchado nos
dois punhais, mas já morto. Depois tombou de bruços, e no chão ainda levou
tiros e facadas. Mariano, atravessando a porta desesperado por ver o pai
47
morto, ainda deu dois tiros de brole, furou a perna de um cabra, e foi abatido
a tiros e facadas (PE, p. 149).
Armantino, que havia passado o jornal para o Dr. Wanderley, sobre o qual falaremos
mais adiante, acrescenta que aquilo ali era uma parte do passado de Boa Vista, mas que o
povo do lugar contava de maneira bastante diferente o ocorrido, tudo porque o padre João
Lima era tido na cidade como um santo.
Palacín (1990) destaca que entre a história oral e a historiografia oficial há grandes
divergências: nos primeiros, há a omissão de certos fatos, a ênfase mais amena em outros, e a
tendência à mitificação do passado daquelas figuras que acabam se tornando heróis. Estas
nuances variam de acordo com o envolvimento afetivo ou simpatia, entre os autores dos
eventos e aqueles que propagam a sua meria, bem como a distância temporal. Isso reforça
a seleção de determinados episódios e o esquecimento de outros. O que também explica o
cuidado de Armantino ao falar do passado da cidade, pois poderia despertar a inimizade de
algum morador.
A disputa contra Leão Leda fez com que o padre João mudasse de partido, passando
do partido republicano para o partido democrata, oposicionista nesta época. Nas eleições de
1909, o partido tem sua situação alterada: Leopoldo de Bulhões foi eleito senador, com 310
votos de Boa Vista, e Urbano Coelho de Gouvea, com a mesma quantidade de votos boa-
vistenses foi empossado presidente do Estado de Goiás, e padre João foi eleito deputado.
Durante o processo de luta com os Leda, vários grupos de origens diversas se uniram,
como, por exemplo, o do padre João, o de João Joe Aníbal Lopes, e o do Maquinista, os
três grupos de mais destaque. Com a ascensão do partido democrata ao poder ocorre o
primeiro racha entre eles. Assim, antigas divergências, até então em estado de latência, vêm à
tona, como os casos de extorsão de dinheiro. Padre Lima e o Maquinista se unem contra João
José, que foi perseguido e assassinado pelos homens de Maquinista, contrariando as
recomendações do padre.
Depois da morte de João José, as incompatibilidades entre o padre e o Maquinista
ficaram insustentáveis. Como o clérigo buscava ser visto como o defensor dos interesses do
povo e como seu pacificador, sua associão com o Maquinista, conhecido por antecedentes
violentos e criminosos, se tornara inviável. Pedro Maquinista foi morto em 1910. A tradição
oral conserva a versão de que o mandante teria sido o pároco; já no relato oficial, um
telegrama enviado ao presidente de Estado pelas autoridades de Boa Vista, coloca que o povo,
já cansado das lutas, se rebelou contra Maquinista, disparando contra ele uma chuva de balas.
48
De 1913 a 1930 temos a chamada “era padre João”, na qual o clérigo dirigiu a cidade
conforme seus próprios interesses, sob a justificativa de sempre visar o bem de seu povo. O
padre contava com o apoio e proteção dos coronéis, chefes do poder local, e, em troca, lhes
garantia apoio político:
Dos coronéis o padre podia esperar apoio político mediante o voto e por
isso ganhava invariavelmente todas as eleições -, contribuições em dinheiro;
quando necessário, homens e armas, se chegava a ocasião.
Aos coronéis, o padre devia, por sua vez, como chefe regional, apoio político
e representação diante do governo, um juiz benévolo em caso de litígio, uma
aplicação indulgente do rigor fiscal (Palacín, 1990, p. 172).
A chamada revolução de 1930
29
, desta forma, representou pela primeira vez, desde
1908, a possibilidade de questionamento da estrutura de poder estabelecida pelo padre João.
Como em Goiás os centros urbanos, nos moldes dos Estados de São Paulo, Minas Gerais e
Rio de Janeiro, eram praticamente inexistentes, a carência de partidos de base ideológica
diversa e com programas de governo diferentes, o apoio à revolução veio de personagens
descontentes da classe dominante.
Esta revolução não implicou em mudaas sociais: o regime de trabalho, o sistema de
propriedade, a distribuição de renda permaneceram os mesmos, o que, para aqueles que
defendem que a verdadeira revolução ocorre quando as bases sociais são modificadas,
invertendo-se as estruturas de classe, leva a questionar o movimento de 1930 como
revolucionário. No campo político, inicialmente, o movimento apresentou-se como
moralizador. Foi criada a Comissão de Sindicância para “apurar os crimes contra o patrimônio
do Estado, a coação e violência contra os ‘elementos liberais’, a violência e o abuso de
autoridade e fraude nas eleições” (Palan, 1990, p. 182).
Mas a práxis política não sofreu nenhuma alteração radical. Quando o partido da
revolução, Partido Social Republicano (PSR), foi fundado para concorrer às eleições para a
constituinte de maio de 1933, apesar de todo o repúdio aos métodos tradicionais, acabou
aceitando e apoiando os coronéis, que os redutos do interior mais distante continuavam
intactos.
29
Através da qual Getúlio Vargas, após um golpe de Estado, coloca fim à Reblica Velha, época em que Minas
e São Paulo se revezavam na presidência do país, por isso o período ficou conhecido como República Café-com-
Leite. O governo federal era quem indicava os governadores dos Estados (Política dos Governadores) que
poderiam destituir os deputados eleitos, caso houvesse alguma incompatibilidade. Como o voto da população era
aberto, ou seja, não secreto, a manipulação dos eleitores era constante (caracterizando o chamado voto de
cabresto), bem como as fraudes (Nadai e Neves, 1995).
49
No norte do Estado, devido às distâncias geográficas e às dificuldades de
comunicação, a presença do governo era menos atuante. Desta forma, as cassações,
primeiramente, atingiram a capital e alguns municípios do sul para, anos depois, atingir
apenas quatro dos dezessete municípios do centro. No norte os fatos se desencadearam de
forma similar. Se a revolução não podia intervir de maneira definitiva, também não seria
possível renunciar totalmente à intervenção. Assim, foi enviado à Boa Vista um delegado
militar, o Tenente Walfredo Campos Maia que chegou à cidade em 1932. E apesar da chegada
do delegado, padre João continuava chefe político inconteste da região. Com a notícia de que
os chefes locais deveriam se subordinar ao governo federal, através da figura do interventor,
padre João logo protestou, dizendo que não iria “andar pelo mando dum menino [o
interventor], fedendo a cueiro(PE, p. 106) e que era “Cada macaco no seu galho. Você
[interventor] no sul e eu no norte” (Palacín, 1990, p. 185).
Em outubro de 1934 ocorreram nos Estados as eleições para deputados federais e
estaduais, sendo que o presidente, senadores e governadores seriam eleitos pelas próprias
assembléias dos Estados. Em Goiás o clima político era de agitação e de elementos não
habituais: propaganda eleitoral, imprensa, partidos e candidatos, qualificação de eleitores,
além de um motivo extra a mudança da capital, que seria transferida de Vila Boa para
Goiânia, construída exclusivamente para este fim. Ressaltando que ao debate também era
acrescida a questão do abandono do norte do Estado.
Dois partidos disputaram as eleições: o Partido Social Republicano (PSR) e a
Coligação Libertadora, sendo que o primeiro obteve uma vitória esmagadora, elegendo três
dos quatro deputados federais e dezoito dos vinte e quatro estaduais. Pedro Ludovico, até
então o interventor federal em Goiás, em decorrência do movimento de 1930, foi eleito
governador. Sobre a questão do norte, o governo se defendeu, argumentando que a região até
a década de 1930 era praticamente inexistente, e com a revolução é que passou a se
desenvolver, que anteriormente as receitas produzidas não dariam nem para arcar com as
despesas dos funcionários.
Em Boa Vista, as eleições municipais de 1935 foram motivadas pelas diferentes
opiniões sobre o padre João Lima. Ao final, o coronel Manuel Gomes, conhecido
popularmente como major Paraibano, vence o candidato do padre, Francisco Queiroz, sendo
reconhecido e empossado prefeito. Esta primeira derrota política do clérigo, desde 1908, leva
à revanche, em 1936, anunciada como a terceira revolução de Boa Vista
30
. O pároco se retirou
30
Que, de acordo com as considerações de Palacín sobre o termo revolução, seria ainda menos revolucionária
(1990, p. 199).
50
para a região fronteiriça com o Maranhão, a fim de reunir um grupo considerável para ocupar
a cidade, obrigando as autoridades a se retirarem, abandonando os cargos. Com isso, o padre
Lima poderia, sem problemas, indicar as pessoas de sua confiança para os postos
“abandonados”.
No entanto, o governo do Estado envia um interventor para controlar a situação.
Assim, Manuel Gomes reassume o cargo. Em 1937 Getúlio Vargas proclama o Estado Novo,
suspendendo as eleições democráticas e nomeando interventores, com o retorno de Pedro
Ludovico para o cargo em Goiás, responvel pela escolha dos novos prefeitos no Estado.
Por volta de 1940, padre João, por intermédio de Colemar Natal e Silva
31
, em visita à
Goiânia para cuidar dos assuntos paroquiais, encontrou-se com Pedro Ludovico Teixeira. Por
volta de 1940, o padre retorna à cena política boa-vistense. No fim do Estado Novo foi
indicado e nomeado prefeito da cidade. Porém, deixa a direção dos trabalhos para Antônio
Gomes Pereira, seu secretário. Palacín salienta que
[...] a omissão do padre no exercício do cargo poderia ser interpretada como
uma conseqüência de sua avançada idade [quase oitenta anos]; mas na minha
opinião tinha uma origem mais profunda: sua falta de interesse pelos
aspectos burocráticos de toda organização e do próprio poder político (1990,
p. 212).
Em setembro de 1947 ocorreria a comemoração dos cinqüenta anos da chegada do
padre João à Boa Vista. Ele deixou a cidade para ser recebido de forma triunfal pela
população. Montado a cavalo, sofreu um acidente no qual perdeu o equilíbrio e caiu. Na
queda, uma das costelas quebrou-se, perfurando-lhe o pulmão e levando a uma hemorragia
interna, causa de sua morte.
Os livros paroquiais deveriam ser fontes conclusivas sobre as viagens de desobriga,
sobre os casamentos, batismos e peregrinações feitas pelo padre João Lima. Mas, como
vigário, foi bastante relaxado no aspecto burocrático de suas atribuições. Sua atuação é
caracterizada pela simbiose entre ação religiosa e apoio político. Recusava a admitir a
presença de outro religioso, provavelmente, para não ter que dividir os rendimentos
econômicos da paróquia. A pressão econômica também teria o levado, nos últimos anos de
vida, a realizar o segundo casamento religioso
32
, bem como a realização do casamento entre
31
Historiador nascido em Niquelândia (GO), foi secretário da Comissão responsável pela escolha do local para a
construção da nova capital. Professor da Faculdade de Direito da Cidade de Goiás, diretor da Faculdade Federal
de Direito, e o primeiro reitor da Universidade Federal de Goiás (Galli, 2007a).
32
O casamento é um dos sete sacramentos do catolicismo, sendo admitido apenas uma vez, a menos que um dos
njuges venha a falecer, explicitado na norma final da celebração: “até que a morte os separe”.
51
parentes
33
, sob o pagamento de algumas taxas. Por trás desta prática condenada pela igreja,
estavam os vínculos de amizade, os compromissos políticos, além da motivação econômica.
Carmo Bernardes retrata a questão dos coronéis: são autoridade na política e no
comércio e quando não se ocupa da primeira, garantia a um compadre que mora na
cidade, e ele mexe” (PE, p. 71). E da disputa entre os coronéis pelas terras, pelo gado, pelo
mando é que aconteceram as guerras que marcaram o sertão. A própria Boa Vista foi atacada
duas vezes por bandos liderados por coronéis afastados do mando: o primeiro ataque foi feito
pelo coronel Leitão e o segundo por Leão Leda.
Sobre o primeiro conflito, o narrador ressalta que Leio, um homem ressentido,
tentou tirar do cenário de mando um juiz (que pela descrição de Palacín seria o juiz Hermeto),
mas foi derrotado em vinte quatro horas, e ainda perdeu o irmão, o qual nem pôde enterrar. Já
o segundo embate, protagonizado por Leão Leda e o padre João de Sousa
34
Lima, como
descrito acima por Palacín. O narrador observa que o padre “nunca perdeu política
35
.
Enquanto viveu apoiou todos os governos, mandou em Boa Vista. Tinha centenas de cabras
que punham o nariz onde ele tirava o pé
36
”. O mandonismo do nego talvez pudesse ser
explicado por sua descendência: a família Lima chegada no local na época dos bandeirantes.
O padre é descrito da seguinte forma:
[...] era dos tais padres que na igreja, dizendo missa, são uns santos. Fora das
obrigações da religião, o o cão. Padre João era adorado pelo povo numa tal
medida, que bastava ele dar um aceno, para que a população de vinte léguas
em volta respondesse presente. O bolso da batina dele era furado no rumo da
coronha do revólver. Andava com uma cruz muito grande no peito, fala
mansa a dele, e tratava todo mundo de “meu filho!” Um santo que Deus
determinou que nascesse ali e viesse a ser um guia do povo (PE, pp. 72;
107).
Padre João, como registrado por Palan (1990), e reiterado por Bernardes em
Perpetinha, foi um dos maiores coronéis de Boa Vista, enquadrando-se no coronelismo do
tipo personalista, no qual o poder do coronel é proveniente de seu carisma pessoal, possuindo
33
O casamento consangüíneo, ou seja, entre parentes muito próximos, não é admitido pela igreja. A condenação
está expressa no livro bíblico Levítico: “Nenhum de vós se chegará àquela que lhe é próxima por sangue, para
descobrir a sua nudez [...]” (Lv 18: 6-16).
34
A diferença na grafia do texto de Palacín, Souza, e de Bernardes, Sousa, para o mesmo sobrenome talvez
ressalte o tom coloquial da narração feita pelo literato.
35
O que se explica devido às várias mudanças de partido por parte do sacerdote, como indicado por Palacín
(1990).
36
Palacín (op. cit.) assinala que, na tradição oral o padre João não matava seus rivais, mas consentia que seus
homens, ou cabras, como na linguagem popular usada por Bernardes, fizessem esse tipo de servo.
52
predicados que lhe são característicos, e que desaparecem com sua morte
37
. Se o padre Lima
não possuía grandes propriedades, parentela, tinha uma enorme quantidade de compadres,
afilhados e protegidos, o que garantia a manutenção de sua ampla autoridade. Como bem
sinalizado por Palacín, padre João é um bom exemplo do líder carismático, um dos tipos de
dominação legítima
38
propostos por Max Weber (1864 1920), no qual a autoridade não é
proveniente da lei, do respaldo social/ econômico, ou do cargo desempenhado, mas sim do
prestígio pessoal que leva os demais a pedirem conselhos e a aceitarem as ordens.
Sobre os coronéis, Bernardes aponta que:
Em toda parte no sertão dominava um chefe. Tinha um coronel mandão
reconhecido como maioral, que vivia cercado de jagunçada. [...]
Alguns deles, às vezes, eram instruídos. Passavam por conselheiros mansos,
mas não queriam que outro tomasse o prestígio deles nas comarcas. Desses
assim havia doutores, havia padres. [...]
[...] Os governos não tinham autoridade, não intervinham nos domínios
desses homens. Os chefes letrados, alguns de grande ilustração, eram fortes
na política, e tinham o apoio dos colegas atrabilitários (PE, pp. 101; 105).
1.2 “O índio é um vivente muito simplório” [!]
No início do século XIX, de acordo com o narrador do romance, um governador do
Maranhão mandou um bugreiro
39
, chamado Antônio Moreira da Silva, para fazer uma entrada
nos gerais
40
do Tocantins. Com um bando bem armado, ele entrou sertão a dentro, no rumo de
onde é hoje Carolina, para pegar índio e nesse percurso matavam muitas mulheres e
37
Informações disponíveis em: http://educaterra.terra.com.br/voltaire/500br/coronelismo3.htm.
38
A dominação é a probabilidade de obediência a um mandato. Divide-se em dominação tradicional, na qual a
obediência prom da fidelidade, da crença na santidade das ordens, fixadas pela tradição, e no poder do líder
(dominação patriarcal); dominação legal, na qual o mando é instituído por um estatuto (dominação burocrática);
e a dominação carismática, proveniente da devoção afetiva ao líder e aos seus dotes sobrenaturais (carisma),
como faculdades mágicas, revelações, heroísmo, oratória ou poder intelectual. (Weber, 1999).
39
Termo utilizado para designar os indivíduos que se especializaram em atacar e exterminar indígenas
brasileiros (pejorativamente chamados de bugres) a mando de colonos imigrantes ou do próprio governo.
Realizavam ataques surpresa, tendo os índios poucas chances de resistir e sobreviver. Também prestavam
servos de proteção a viajantes, tropeiros e agrimensores quando necessitavam atravessar ou permanecer em
territórios onde a presença indígena era freente. (Schieffelbein, s.d).
40
De acordo com o Dicionário Aurélio: Campos do Planalto Central; Lugares desertos e intransitáveis, no
sertão do Nordeste; Campos planos cobertos de erva ou grama; Campos extensos, inaproveitados e desabitados;
Lugar virgem, coberto de mato”, ou seja, zonas mais interiores do território, mais distantes dos núcleos urbanos.
53
crianças
41
. Escravizavam os homens mais fortes: este processo era conhecido por descer
índios”. E os descedores de índios, de acordo com o narrador, ainda são lembrados: “Têm
seus nomes nas ruas e nas praças das cidades, tidos como heróis, chamados de
‘Bandeirantes’” (PE, p. 54). Mais adiante se percebe a ironia do autor em relação à
brutalidade dos bugreiros: “Também o índio é um vivente muito simplório. Faz dó. o há de
ver que ele mesmo tem servido de guia dos bugreiros na preagem dos outros índios?” E conta
o caso de uma índia Caiapó que mais de uma vez ajudou os brancos cristãos a capturarem
índios de sua própria nação. E estas descidas ajudaram no aldeamento de Vila Boa de Goiás.
A cunha recebeu o nome cristão de Damiana da Cunha e os escritos que ficaram a seu
respeito não mencionam seu nome indígena. Assim, Damiana da Cunha ficou conhecida
como “benfeitora da causa cristã da escravização do índio. Em todas as cidades mais antigas
de Goiás consta o nome dela nas placas de ruas e praças” (PE, p. 55). Em Goiânia e também
em São Paulo há ruas com seu nome
42
.
Damiana foi adotada pelo governador da Capitania de Goiás, Dom Luiz da Cunha
Menezes. A menina era órfã e neta do grande cacique Angraíocha. Dom Luiz viu em sua
adoção uma possibilidade de dominar os Caiapó, tribo considerada como uma das mais
rebeldes da região; a adoção, portanto, poderia levar à convivência pacífica entre brancos e
índios. Para convencer o cacique, o governador afirmava que no palácio do governo a garota
teria maiores comodidades, além de poder transmitir à sociedade branca costumes e valores
indígenas. As duas partes tinham outras intenções com a adoção: Angraíocha pretendia usar a
menina como espiã, para que aprendesse coisas sobre o homem branco e, no futuro, pudesse
ajudar os Caiapó na luta contra os colonizadores. Dom Luiz pretendia demonstrar como um
índio poderia se tornar civilizado.
Como colocado por Carmo Bernardes, Damiana foi considerada uma heroína em
relação ao trabalho de catequização de outros índios. Nas expedições que acompanhava,
atuava também como mediadora de conflitos entre indígenas e brancos, além de exercer o
ofício de arrebanhar índios fugidos. Em Vila Boa, durante o século XVIII e XIX, amenizou
diversos conflitos entre os portugueses e os Caiapó. Foi casada duas vezes: a primeira com o
41
No norte do Estado do Tocantins, mais ou menos próximo à divisa com o Estado do Maranhão, os grupos
indígenas remanescentes são: Apinayé (Apinajé), Karajá do Norte (Xambioá, Ixybiowa, Iraru Mahãndu), Kra
(Craô, Kraô), Xerente (Acuen, Akwen, Akwê). no Estado do Maranhão, também em cidades mais próximas
do Tocantins, os grupos remanescentes o: Krikati (Kricati, Kricatijê, Põcatêjê, Kricatijê) e Gavião Pykopjê
(Gavião do Maranhão, Gavião Pukobiê, Gavião do Leste). Informações do Instituto Socioambiental (ISA),
dispoveis em: http://pib.socioambiental.org/pt/c/quadro-geral.
42
Sobre Damiana da Cunha, Maria José Silveira escreveu o romance Guerra no coração do cerrado, no qual,
assim como Carmo Bernardes, mescla os acontecimentos históricos à ficção, buscando narrar a história a partir
do mundo interno da personagem.
54
militar José Luiz da Costa, a quem acompanhou e ajudou nas incursões junto aos índios. Em
1809 fica viúva. Em 1822 casa-se a segunda vez com o também militar Manuel Pereira da
Cruz, também atuante na busca de índios fugidos. Falece em 1831, com mais ou menos 56
anos, sendo sepultada na Igreja de Mossâmedes.
Após esta digressão, voltemos à história de Boa Vista, relatada por Armantino. Em
1820 os índios são novamente expulsos de suas terras; desta vez por um bugreiro chamado
Venâncio de Tal, saído com seu bando de Pastos Bons, Maranhão, acompanhados de
mulheres e filhos. Os índios, poucos e encurralados, foram facilmente expulsos.
Posteriormente, Pedro José Cipriano (Pedro Cinza) vindo com sua família de Cametá, Pará,
termina de formar o arraial. De acordo com o narrador, Pedro Cinza fugiu do trabalho que os
portugueses da Companhia das Índias Ocidentais estavam obrigando aos brasileiros, para a
construção de um canal no rio.
Dispondo de tais informações, Armantino mostrou sua ilustração à dona Emerenciana
que simpatizou com o rapaz e lhe arranjou uma casa na qual pudesse estabelecer seu
consultório. Depois de ser bem acolhido por ela, logo Armantino foi fazendo amizade com as
outras pessoas. Jurupa, na verdade Ascenso do Rosário Bezerra, foi contratado pelo dentista,
que passou a chamá-lopelo nome.
Sobre as matanças de índios, o professor Pedro de Cássea também contou a Armantino
sobre uma liderada por Annio Correa, contra os índios Cara Preta
43
. Os moradores de Boa
Vista, como dona Merência e seo-Mariano Neves contavam o caso de forma muito diversa,
sempre colocando os caboclos como culpados, como ruins, como bichos ferozes que deviam
ser mortos. Correa criava gado nos campos do Mucambão, lugar em que viviam os Cara
Preta, e estava sempre em guerra com os índios. Saía para o campo de manhã e voltava no
fim do dia. Ia com seus cachorros para afugentar onças e outros animais que pudessem caçar o
gado e os cavalos.
Certo dia encontrou os restos de uma de suas éguas. Colocou os cachorros no rastro e
logo alcançou uma índia que, por estar com um bebê, não conseguiu acompanhar o grupo.
Subiu num baruzeiro, escondendo o filho no peito.
Diz que a cunhatã punha as mãos pro céu, engrolava um peditório, que a
gente via que era rogando misericórdia ao cristão, que ele não matasse seu
filhinho. Não foi ouvida. Recebeu um tiro certeiro, despinguelou-se de lá no
43
Também conhecidos por Avá-Canoeiro, Canoeiro, Carijó, pertencentes à família/ língua tupi-guarani. Os
remanescentes estão dispersos atualmente nos Estados de Goiás, Tocantins e Minas Gerais. Em 2006, de acordo
com a Funasa (Fundação Nacional de Saúde), estariam reduzidos a 16. Informações disponíveis em:
http://pib.socioambiental.org/pt/povo/ava-canoeiro.
55
chão de corpo largado. Caiu no feitio de um melão croá que despenca das
alturas. E a cachorrada montou em cima. O primeiro que eles estraçalharam
e saíram com ele de arrasto campo afora foi o curuminzinho. Mordiam e
sacudiam os peitos da índia, leite esguichava misturado com sangue, e ela
mal podia estrebuchar (PE, pp. 172-173).
Algum tempo depois, uma das filhas de Antônio Correa ia casar. A festa ia ser de
arromba com muitos convidados. A noiva, determinada hora, foi a uma fonte, que ficava meio
longe da casa, levando consigo o irmãozinho caçula, que ainda engatinhava. Como estava
demorando muito, a mãe mandou alguém ir atrás, quando chegaram à fonte a moça estava
morta a bordunadas, os seios tinham sido arrancados a dentadas e o irmãozinho também
estava morto. Para vingar a morte dos filhos, Correa mandou buscar o primo e compadre
Leobino Arcanjo dos Santos, matador de índio. Foram atrás dos índios e ficaram à espreita,
esperando o anoitecer para atacar. Mataram homens, mulheres e crianças.
Leobino, também chamado de Leoba, se vangloriava das matanças de índios, passava
horas contando os casos. Tomava conta do criatório da professora Leonor. Era muito temido
na cidade, por conta de sua fama de matador de gente. Armantino gostava muito dele, por ser
“tratável e respeitador” [?] (PE, p. 178). No episódio da chacina promovida por seo-Antônio
Correa o narrador afirma que Leobino saiu vivo devido
[...] ao seu sangue frio. Saltou de banda, ação em que encostou a boca do
rifle no ouvido do caboclão e arrastou o pinguelo, o tampo voou do outro
lado.
As cunhatãs é que fizerem um estrago medonho nos homens, jogando
pedras, uma coisa terrível. Arrancavam e rolavam calhaus enormes em cima
deles e escondiam nas junturas dos rochedos. Quando acabou, não teve um
dos companheiros de Leobino que não saísse com pornós nas canelas e
muitos galos no casco da cabeça, de pedradas que levaram. Os curumins
gritavam que macaco apanhando. Tudo correu de acordo com o
planejado, o faltando o que é comum nessas ações. Crianças jogadas pra
cima e aparadas na ponta dos punhais.
É fácil ter em mente o que o branco cristão faz com gentio que não é gente.
Gentio é um bicho feroz, que só serve para dar prejuízo. Que mal faz matar,
estumar cachorro neles?
Quando eles foram arrastar os defuntos para jogar dentro duma regueira, um
primo irmão de Antônio Correa, por nome Joaquim Pedro Santa Cruz, deu
com um curuminzinho dependurado no peito da mãe morta. Jogaram os
defuntos pra dentro da regueira e rolavam pedra em cima. Iam arrastando a
cunhatã com o filhote Santa Cruz arrancou ele a força, do peito dela, como
se arranca filhote de saruê da bolsa da mãe. Bonitinho, o bichinho,
redondinho de gordo. Joaquim Pedro falou assim com os companheiros:
- Vou levar este pra Lúcia criar. Ela não tem filho, vai achar bom! – Tiraram
ele de cabeça que não convinha.
56
- Convém não, Quinca. Daí ele cresce, fica sabendo de tudo, acaba fazendo
uma desgraceira com s. Tem havido muito exemplo, companheiro! Nesse
bicho não se pode confiar.
Leobino Arcanjo dos Santos contava essa história na Boa Vista, lá entre eles,
e que os companheiros não propalassem. Dizia que o gritinho do curumim,
quando Santa Cruz socou a faca no sangradozim dele e ele fez cuí... u!...”
foi escrito um letãozinho novo sangrando (PE, pp. 176-177).
Os Avá-Canoeiro foram chamados desta forma a partir dos anos de 1970, quando
passaram a ter um contato mais permanente com a sociedade envolvente. Do século XVIII até
a década de 1960 eram chamados apenas de Canoeiro, sendo que no século XIX também
eram denominados Carijó. Os Avá-Canoeiro falam uma língua da família Tupi-Guarani, do
tronco Tupi
44
. Atualmente são dois os grupos que vivem em contato permanente com a
sociedade nacional, que são os grupos da região do rio Araguaia e do rio Tocantins. Existem
ainda dois grupos não contatados pela FUNAI. Um deles provavelmente se desloca pela
região serrana dos formadores do alto rio Tocantins (GO), e o segundo deve habitar o norte da
Ilha do Bananal (TO), no interior da TI (Terra Indígena) Parque do Araguaia (Díaz, 1998
45
).
Nimuendajú e Rivet, em seus estudos lingüísticos e históricos, afirmaram que os Avá-
Canoeiro seriam descendentes dos Carijó de São Paulo e teriam sido trazidos para Goiás entre
1724 e 1726, pela bandeira de Bartolomeu Filho, para auxiliarem na defesa contra os índios
habitantes da região e também para trabalharem na mineração. Com a redução da atividade
desta bandeira, os Avá-Canoeiro teriam recuperado sua existência como grupo independente,
mas continuaram em território goiano. Estudos lingüísticos mais recentes, feitos por Aryon
Dall'Igna Rodrigues, entretanto,
[...] afirmam que a ngua dos Avá-Canoeiro tem mais ligação com dialetos
da família Tupi-Guarani do norte do país, o que contraria a explicação da
44
Atualmente são mais de 180 as línguas e dialetos falados pelos povos indígenas no Brasil; antes da chegada
dos portugueses, entretanto, deveriam ser por volta de mil. As semelhanças e diferenças entre as nguas são
expressas através das famílias e troncos lingüísticos. Os troncos são formados por línguas distintas, pois, apesar
da origem comum, ao longo dos anos ocorreram várias diferenciações. Já entre asnguas de uma mesma família
as semelhanças são bem maiores, pois as diferenciações/ separações ocorreram há menos tempo. Por exemplo:
do tronco indo-europeu fazem parte as famílias latina, celta, eslava e germânica. O português, uma ngua da
família latina, possui muitas similitudes em relação ao espanhol, outra língua latina; no entanto, é extremamente
diverso do alemão, língua da família germânica, ou do polonês, pertencente à família linística eslava. As
línguas indígenas no Brasil estão divididas entre dois grandes troncos: Tupi e Macro-Jê, sendo que “19 famílias
lingüísticas não apresentam graus de semelhanças suficientes para que possam ser agrupadas em troncos. Há,
também, famílias de apenas uma língua, às vezes denominadas ‘línguas isoladas’, por não se revelarem parecidas
com nenhuma outra língua conhecida”. Do tronco Tupi fazem parte as famílias Tupi-Guarani, Arikém, Aweti,
Juruna, Mawé, Mondé, Puruborá, Mundurukú, Ramarama e Tuparí. Do tronco Macro-Jê fazem parte as famílias
Boróro, Krenák, Guató, Jê, Karajá, Maxakali, Ofa, Rikbaktsá, Yatê. Algumas destas famílias se subdividem
emnguas e dialetos. Informações disponíveis em:
http://pib.socioambiental.org/pt/c/no-brasil-atual/linguas/troncos-e-familias.
45
http://pib.socioambiental.org/pt/povo/ava-canoeiro/194.
57
origem meridional do grupo e que e em dúvida também a adequação da
denominação “carijó”, que era o nome dos Guarani do litoral sul
aprisionados pelos paulistas e levados para o interior nas expedições
bandeirantes (Toral, 1998
46
).
Do início do século XIX datam os primeiros registros do contato, quando os Canoeiro
se distribuíam ao longo do rio Tocantins e de seus afluentes. Cronistas mencionam alguns
conflitos do grupo com habitantes da região, como garimpeiros e fazendeiros. A partir de
1820, os Canoeiros passaram a ser encontrados em outros lugares, como as montanhas entre o
rio Maranhão e os povoados de Santa Tereza e Amaro Leite, e ao longo do rio Canabrava. As
relações com a população regional continuou sendo hostil, o que levou o governo da
Província a organizar diversas expedições oficiais contra o grupo, pois se localizavam numa
área de expansão da pecuária e em meio “à rota de contato (o rio Tocantins) que ligava os
dois mais importantes los de desenvolvimento regionais (a capital da província e Porto
Real, hoje Porto Nacional)” (Toral, 1998).
Diante os conflitos, cada vez mais violentos, os Canoeiro começaram a se deslocar,
entre 1844 e 1865, em direção ao rio Araguaia, chegando, no fim do século, à Ilha do
Bananal. Outra parte permaneceu ao longo do rio Tocantins, marcando uma diferenciação
entre os grupos. O século XX, para os Canoeiro, continuou marcado por disputas violentas
com fazendeiros e moradores, além de enfrentarem a atuação ineficiente da FUNAI até a
década de 1980, o que, além da dizimação dos grupos, os levou a adoção de um regime de
intenso nomadismo.
Nada indica que seja um grupo com uma cultura plenamente adaptada a esse
regime [nomadismo intenso]. Ao contrário, tudo leva a crer que se trate de
um grupo com formas de subsistência - como agricultura combinada com
caça, coleta e abates de caça - que indicam um nomadismo sazonal, muito
distante do regime de contínuos deslocamentos a que vem sendo forçados
nos últimos cem anos (Toral, 1998
47
).
Sobre o contato entre colonizadores e índios, Ataídes (1998) destaca que, antes da
chegada dos portugueses, as “sociedades indígenas desconheciam o fato social da
escravização”. Os prisioneiros de guerra, feitos em disputas entre as tribos, quando não eram
consumidos em rituais antropofágicos, não eram obrigados a trabalhar mais do que os demais
membros do grupo vencedor, e se beneficiavam da distribuição igualitária dos bens destinados
à sobrevivência. Os cativos, com o processo de colonização do país, passaram
46
http://pib.socioambiental.org/pt/povo/ava-canoeiro/195.
47
http://pib.socioambiental.org/pt/povo/ava-canoeiro/198.
58
A ser trocados por produtos manufaturados de pouco valor para o branco.
Assim, comou a escravização dessa gente que muitas vezes era capturada
diretamente pelo europeu nas guerras, outras vezes era resgatada no
comércio mediante a troca ou ainda se vendia para escapar de atrocidades
maiores, criadas pelo colonizador, sem nenhuma limitação legal ou moral
(Ataídes, 1998, p. 19).
Nas primeiras décadas de ocupação, os portugueses dedicaram pouca atenção à nova
colônia, pois os esforços estavam voltados quase que unicamente à extração de pau-brasil.
Assim, a relação com as sociedades indígenas era relativamente “pacífica”, envolvendo a
prática do escambo, que era a troca de trabalho indígena no corte e transporte do pau-brasil, e
também de alimentos, por bugigangas (espelhos, apitos, chocalhos) européias. Com a decisão
da Coroa de ocupar o território, através do povoamento e exploração permanentes, a relação
entre colonizadores e índios sofre uma alteração significativa. “Agora era necessário apossar-
se das terras indígenas, bem como do seu trabalho escravo” (Ataídes, 1998, p. 20).
Palacín, Garcia e Amado (2001) observam que, no início do século XVI, a costa
brasileira era habitada por diversos grupos indígenas:
[...] tamoio, tupinambá, goitacaz, carijó, tupiniquim, tabajara... A maioria
pertencia ao grande grupo dos tupis
48
, e foram eles que forneceram aos
colonizadores as primeiras informações sobre os outros povos os tapuias
49
–, entre os quais se encontravam os índios de Goiás (p. 11).
Com a adoção de atividades de exploração das terras brasileiras, como o plantio da
cana-de-açúcar e a mineração, os colonizadores buscavam em Goiás a possibilidade de
obtenção de mais mão-de-obra para o comércio açucareiro do Nordeste e para as minas e
lavouras de São Paulo. As bandeiras que penetravam o sertão dos Goyazes eram motivadas
pela procura de ouro e a escravização dos índios, visto que o custo de um escravo africano era
quatro vezes mais alto. Deste modo, os índios eram aprisionados e vendidos como escravos
(Ataídes, 1998).
Logo a Coroa traçou diretrizes para a relação com os índios, publicadas num
regimento, em 1702, no qual o cativeiro era proibido, mas era permitida a administração por
aqueles que conseguissem atrair os indígenas do mato, por tempo indeterminado. Várias
48
A etnologia nos ensina que o nome dos grupos indígenas, bem como seus troncos e famílias lingüísticas
devem permanecer sempre no singular.
49
Tapuia, ou tapuio, era a designação genérica dada pelos Tupi aos outros índios que não possuíam seus
costumes, nem falavam a sua língua, sendo considerados perigosos, ferozes. Foi a primeira divisão da população
indígena no Brasil: índios da costa (Tupi) e índios do interior (Tapuia) (Palacín, Garcia e Amado, 2001).
59
foram as leis estabelecidas, mas constituíram uma política indigenista oscilante e incompleta,
na qual a Coroa ora favorecia o colono, ora tentava favorecer o índio, mas sempre atendendo
a seus interesses. Em Goiás, assim como no restante do Brasil, teoria e prática estavam
desvencilhadas: as leis que protegiam os índios não eram conhecidas pelos colonos ou então
eram desrespeitadas. Inicialmente, a Coroa defendeu a chamada guerra justa, ou seja, a
investida contra os índios, caso estes estivessem pondo em perigo os colonos, o que acabou
sendo distorcido.
Desde o século XVI, com o desembarque dos portugueses no litoral, a exploração dos
novos territórios levou à “ocupação das terras dos índios, escravização dos mais pacíficos,
choques intermitentes com as tribos indômitas, aldeamento de pequenos grupos, que
definhavam rapidamente no regime de semi-cativeiro, [...], degeneração e final extinção dos
índios”. Mas sempre houve tribos que resistiram a esta dominão, como os Kayapó, os
Canoeiro, os Acroa
50
, os Assus
51
, os Xacriabá
52
, os Javaé
53
, os Xavante
54
(Palacín, 1976, p.
95).
Da parte dos habitantes, continua [durante a época da mineração] a
manifestar-se o que o Conde dos Arcos chamava de “segundo pecado
original das Américas” a cobiça que via no índio exclusivamente um escravo
potencial. Era uma posição prática, mas que se arraigava num fundo obscuro
de desprezo: o bugre mal podia ser considerado um ser humano. Por motivo
das hostilidades no norte, pessoas das mais equânimes pressionavam o
governador para que desse ordem de matar a todo índio acima de dez anos.
A mesma opinião recolheu Pohl
55
, quase um culo depois: os índios eram
para os moradores apenas uns bichos” que deveriam ser exterminados, para
ocupar suas terras, as mais férteis da Capitania (Palacín, 1976, pp. 96-97).
50
Grafado também Acroá: nação indígena que ocupava, em termos percentuais, a maior parte do território do
Piauí, além de possuir o maior contingente populacional. Foram trucidados pelas missões colonizadoras oriundas
da Bahia e de Pernambuco que adentraram o território pelo caminho das águas dos rios Gurguéia, Piauí e
Canindé. Informações disponíveis em: http://www.estacaopiaui.com.br/index.php?doc_id=38&id_noticia=4.
51
Um dos grupos indígenas que habitava a região leste do Tocantins e que incomodava a população de Arraias,
Natividade e Cavalcante, sendo aniquilados nos confrontos armados e através da prática de aldeamento.
Informações dispoveis em: http://www.berohoka.com.br/materia.php?mat_id=320.
52
Grafia oficial: Xakriabá. Informações dispoveis em: http://pib.socioambiental.org/pt/c/quadro-geral.
53
Também conhecidos como Karajá, Itya Mahãdu. Informações disponíveis em:
http://pib.socioambiental.org/pt/c/quadro-geral.
54
Também chamados Akwe, Aúwe. Informações disponíveis em: http://pib.socioambiental.org/pt/c/quadro-
geral.
55
Johann Baptist Emanuel Pohl (1782-1834), médico, geólogo e botânico austríaco. Foi conservador do Real e
Imperial Gabinete de História Natural do Imperial Museu do Brasil, em Viena. Integrou a Missão Austríaca ao
Brasil entre 1817 e 1822, em decorrência do casamento da arquiduquesa Maria Leopoldina de Áustria com o
príncipe D. Pedro de Alcântara, futuro imperador D. Pedro I. Veio como encarregado da mineralogia, assumindo
depois a de botânica. Desligou-se da expedição e empreendeu uma viagem de quatro anos pelo interior do Brasil,
atravessando o Rio de Janeiro, Minas Gerais e Goiás. Da sua viagem resultou o livro Viagem no Interior do
Brasil, no qual descreveu as paisagens e costumes observados (Pohl, 1976).
60
Outro aspecto que contribuiu para a estereotipia negativa do indígena, bem como para
dificultar o real conhecimento dos mesmos, era o peso dos conceitos existentes, sobretudo nos
séculos XVIII e XIX, divulgados em obras literárias e científicas, e também nos documentos
oficiais, que os classificavam como incultos, selvagens, ferozes, hereges, inferiores, bestiais,
infiéis, bárbaros (Palacín, Garcia e Amado, 2001).
Para os jesuítas os índios deviam se catequizados, por isso se empenharam em sua
conversão ao cristianismo. O uso e recomendação explícita da mão-de-obra do negro africano
era uma estragia que visava afastar os colonos da exploração ingena. O interesse principal
não era defender a liberdade do índio, ou sua dignidade, o que interessava era a conversão dos
infiéis. Como os jesuítas permaneceram em Goiás por um curto período, as rivalidades com
os colonos não foram tão intensas.
A 1749 a política indigenista em Goiás era caracterizada pela escravização e
posterior dizimação do índio. A legislação estava sujeita a interpretações bias, fácil de ser
distorcida em favor dos colonos. A ação religiosa não foi capaz de proteger a territorialidade e
a cultura indígena. A partir de Pombal, o governo português passou a frisar a necessidade de
se utilizar os índios na ocupação efetiva do território, já que não haveria a quantidade
suficiente de colonos brancos para povoar as enormes extensões do país.
A partir da segunda metade do século XVIII, com o governo do Marquês de Pombal,
várias práticas mercantilistas foram adotadas. Na tentativa de obter um desenvolvimento
considerável, elevando Portugal novamente à categoria de potência, houve um rompimento
com os princípios religiosos de ocupação e educação, por isso os jesuítas foram expulsos do
país. Os princípios iluministas de cultura e civilização e povoar e produzir marcaram as
políticas indigenistas. Vistos como selvagens, os índios deveriam atingir a civilização, sendo
peças fundamentais no mecanismo de povoamento e estímulo da agricultura (Ataídes, 1998).
A legislação instruía o uso de métodos de suavidade e persuasão no contato com os
índios, mas, se houvesse necessidade, a guerra seria permitida. As leis pombalinas insistiam
na proteção aos indígenas e na sua aproximação pacífica com o colonizador. Os casamentos
mistos também foram estimulados, mas o foi suficiente para promover a miscigenação,
que o índio ainda era visto como um intruso ou um instrumento de trabalho.
Os primeiros aldeamentos, criados a partir de 1750, coincidiram com a fase mais
produtiva da mineração, o que levava a população a buscar explorar o máximo possível as
minas de ouro, enquanto o governo devia impedir o contrabando e proteger os colonos dos
61
ataques indígenas. Mas esta proteção se resumiu à criação de alguns aldeamentos
56
e à
contratação de sertanistas, que deviam evitar que os índios perturbassem a ordem na colônia.
A partir de 1770, há um resgate da política de pacificação e integração do índio através
dos aldeamentos, período que coincide com o declínio da atividade mineradora, o que levava
a novos estímulos para a busca de novas minas, quando novos índios seriam resgatados e
levados à civilização, de acordo com os métodos recomendados. Os modelos de aquisições e
reduções anteriores, promovidos por bandeirantes e jesuítas, custeados pela Coroa, foram
criticados. A melhor solução, e a mais econômica, seria passar os aldeamentos para a direção
leiga.
O objetivo era transformar o índio num elemento povoador do território e aprovei-lo
nos trabalhos da colônia, através da convivência pacífica e integrada com o colono. Mas as
leis, desde essa época, mostraram-se inoperantes diante da cobiça e do desrespeito do
colonizador. Em relação ao índio, a política pombalina, pautada pelo humanismo do século
XVIII, o afastou de seu primitivo habitat, para confiná-lo em aldeamentos administrados por
homens corruptos e que não compreendiam, nem queriam compreender, a cultura indígena,
que estavam muito ocupados em satisfazer seus interesses econômicos.
As políticas indigenistas pós-Pombal (iniciadas por volta de 1780) encontraram a
resistência indígena nas áreas onde se pretendia implantar a atividade agropecuária. Neste
momento também se pretendia integrar Goiás ao litoral norte através da navegação, o que
justificava as medidas governamentais no sentido de pacificar o índio, através do povoamento
e da defesa do território cortado pelos rios. Foram construídos, então, presídios militares e
fortes para promover o povoamento, proteger os colonizadores de ataques indígenas, além de
funcionar como local de abastecimento para os viajantes que percorressem a capitania de
norte a sul. Mas, devido à fragilidade econômica de Goiás, à falta de produtos exportáveis que
dinamizassem as relações com o norte da capitania, e às vantagens do desenvolvimento
agropastoril no sul e sudoeste goiano, a política dos presídios acabou fracassando (Ataídes,
1998).
Em 1811 a permissão à guerra contra o indígena, pelo colonizador, foi legalizada.
Oficialmente a política de pacificação é abandonada, adotando-se a dizimação do índio,
embora, nos séculos anteriores, isto já estivesse acontecendo. Pela primeira vez o colonizador
56
Os índios que aceitassem abandonar suas aldeias de origem e desistissem do seu modo de vida tradicional, sem
oferecer resistência armada. Esses índios, considerados índios amigos”, eram levados para outras terras, onde
eram aldeados, sendo retirados, periodicamente, para a prestação de serviço aos colonizadores. Interessava a
concentração indígena em locais que fossem próximos aos cleos produtivos, criando-se, assim, “celeiros de
mão-de-obra”, de onde eram retirados os índios necessários ao trabalho e à guerra. (Freire e Malheiros, 2007).
62
encontra adequação da lei à sua prática. Em 1832, diante da concluo do Conselho Geral da
Província de que todos os esforços para a civilização do índio eram inúteis, o método
proposto, considerado o mais adequado, foi a retirada das crianças indígenas de seus pais para
educá-las nas povoações.
Emerge uma política indigenista inescrupulosa: os índios são considerados ineficientes
para serem utilizados no trabalho, por isso seria melhor destruí-los, perpetuando a idéia de
que eram seres bárbaros e inferiores. Foram feitas guerras conta os Xerente, os Kayapó do Sul
e contra os Canoeiro. Em 6 de abril de 1832 o Conselho do Governo da Província de Goyaz
resolveu dizimar os Canoeiro de uma vez por todas, já que esta seria a decisão da maioria dos
habitantes da capitania. Vale destacar que, depois de tantas investidas violentas, alguns grupos
indígenas, como os mencionados mais acima, foram se tornando cada vez mais hostis em
relação ao “cristão branco” (PE, p.80)
Na década de 1840 novas bases legais foram estabelecidas para a política indigenista.
Novos núcleos de catequese foram criados, a administração passou de funcionários leigos ou
militares para os diretores gerais e missionários capuchinhos, buscando mudanças nos
métodos de assentamento e aproveitamento do trabalho indígena. Com as leis que reduziam a
entrada de escravos africanos, passou a se pensar sobre a criação de oficinas e escolas de
primeiras letras nos aldeamento, sob a liderança de pessoas capazes de treinar os índios em
ofícios mecânicos. Durante o século XIX os colonos também moravam entre os índios,
transformando os aldeamentos em arraiais, com a expulsão paulatina ou dizimação dos índios,
como o que aconteceu em Piabanha, hoje Tocantínea; Boa Vista, hoje Tocantinópolis; Santa
Maria, hoje Araguacema; Santa Leopoldina, hoje Aruanã, etc.
Outro elemento importante desse processo, visto que atingiu diretamente os
problemas dos povos indígenas, foi a lei de terras de 1850, que proibiu o
apossamento puro e simples da terra, como vinha acontecendo desde 1822,
com a abolição do sistema de concessão de sesmarias. A partir daí, a única
forma de aquisição de propriedades passou a ser a compra.
Esta lei regularizou o regime de propriedades de terras no Brasil, dividindo-
as em duas categorias: uma constituída pelas terras públicas, que pertenciam
ao Estado; e outra pelas terras particulares, provenientes de um título
legítimo de propriedade ou de simples posse legalizada.
As terras expressamente concedidas aos índios foram consideradas
particulares. Isto foi extremamente prejudicial a eles porque, ignorando que
providências tomariam para a consolidão de seus direitos, acabaram, na
maioria das vezes, perdendo a posse que tinham sobre as próprias terras
(Ataídes, 1998, p. 54).
63
Percebemos, a partir da exposição acima, que os índios, ao longo da história, foram
expropriados de suas terras devido aos interesses econômicos dos ditos civilizados. No século
XX a demarcação das Terras Indígenas continuou a esbarrar na ambição de fazendeiros, na
corrupção de alguns funcionários da FUNAI
57
, no descaso das autoridades estaduais e federal.
A cobiça encontra legitimação nos argumentos de que os índios são bárbaros, intrusos,
selvagens, “bicho brabo do mato, que Deus não adotou”, justificando a extrema violência e o
seu conseqüente extermínio, que, por serem selvagens, mais dia, menos dia, irão atacar,
como fica evidente no romance Perpetinha (PE, p.80). O uso da força em relação aos índios
era sempre “necessário” e “natural”.
As exceções em Boa Vista são Armantino, o Dr. Wanderley e as pessoas mais pobres:
[...] não nada que faça um sertanejo achar que bugre é gente. [...] Pensa
assim, e não nada que faça ele mudar de opinião. A não ser a gente da
pobreza. Essa cruza e se mistura, bom só, com os caboclos. Não se sabe por
que o caboclo não odeia o cristão humilde, que não tem nada. O que mais se
e se vê bastante é a índia enrabichada com o tabaréu, tendo uma cria
atrás da outra; e assim, elesm enchido o mundo de mameluco (PE, p. 80).
Armantino mantinha uma relação amistosa com os índios, comprando deles, às vezes,
o couro de algum animal ou trocando algumas garrafas de mel por cachaça de mandioca
brava: Os graúdos do lugar reparam muito e não aprovam é aquela amizade nojenta dele com
os caboclos. Também só os ricos que implicam. Os pobres nem tanto. É comum os pobres se
ligarem com as cunhãs, conviverem com elas e criarem filharada” (PE, pp. 199-200).
Parafraseando Ataídes (1998, p. 50): “jamais o índio foi encarado com dignidade,
como possuidor de um universo rico e distinto”, realidade tão comum durante a época do
Brasil Colônia e Império, mas que, ainda no século XXI, continua sendo ratificada.
1.3 Quem chegou primeiro foi a mulher do padre
Nos tempos coloniais, era comum, em Boa Vista e no sertão os padres terem
companheiras. Assim como o português, o brasileiro prosseguiu com o “culto faustoso de
57
Na década de 1970 alguns funcionários estavam envolvidos na compra e venda irregular das terras então
ocupadas pelos Avá-Canoeiro. Toral, 1998, Em: http://pib.socioambiental.org/pt/povo/ava-canoeiro/195.
64
Vênus. [...] particularmente o da Vênus fusca
58
”, inclusive por frades e eclesiásticos, que
mantinham a mesma proximidade que os senhores de engenho em relação às mulatas e negras
da casa. Talvez por isso o jesuíta italiano André João Antonil recomendasse que os capelães
morassem em casa à parte da casa-grande e, além disso, mantivessem para seu serviço
escrava em idade avançada. Assim, o intercurso sexual dos elementos “mais seletos e
eugênicos na formação brasileira”, inclusive eclesiásticos, com negras e mulatas foi notável e
dele resultou grande número de filhos ilegítimos: “mulatinhos criados muitas vezes com a
prole legítima, dentro do liberal patriarcalismo das casas-grandes; outros à sombra dos
engenhos de frades; ou então nas ‘rodas’ e orfanatos” (Freyre, 1975, pp. 441; 442; 443).
Durante o século XVI, grande número de padres e frades, com exceção dos jesuítas,
segundo Freyre “donzelões intransigentes”, se amancebaram com índias e negras: não os
senhores, mas também os religiosos ostentavam amantes. Nos séculos XVII e XVIII, e boa
parte do XIX, prosseguiu o “livre arregaçar de batinas para o desempenho de funções quase
patriarcais, quando não para excessos de libertinagem com negras e mulatas”. No entanto,
Os eclesiásticos libertinos padres e frades que andavam escandalosamente
com mulheres da vida, esquecidos de Deus e dos livros – não se pode
afirmar que tenham sido o maior número; houve sacerdotes que
impressionaram protestantes [...] pela sua vida pura e santa; [...] pelo seu
saber e por suas preocupações elevadas; [...] pela sua bondade e instrução.
Outros tiveram comadres; mas discretamente, quase sem pecado. Vivendo
vida como de casado; criando e educando com esmero os afilhados ou
sobrinhos. Sem perderem o respeito geral (Freyre, 1975, pp. 443-444).
Estas uniões não aconteciam somente com escravas, ex-escravas ou índias; se davam
também com moças brancas ou brancaranas. Freyre destaca que, se a vocação do clero
colonial para o ascetismo era fraca, era, no entanto, compensada pelas virtudes patriarcais que
desenvolveram e cultivaram: por isso, no Brasil, muitas famílias importantes foram fundadas
por padres ou “cruzada com sacerdote”, muitos filhos ou netos de padres tiveram destaque
considerável na política, na administração, nas letras, na jurisprudência. Desta forma,
percebe-se que o celibato e o ascetismo não eram cumpridos à risca pelo clero: “Raros entre
nós os eclesiásticos que se conservaram estéreis; o grande número contribuiu liberalmente
para o aumento da população” (Freyre, 1975, pp. 444-445).
58
Vênus é a deusa grega que representa o amor e a beleza; Vênus fusca seria, então, a versão negra da deusa.
o culto faustoso a ela, significaria a predileção da negra, por parte dos portugueses e brasileiros, para a atividade
sexual.
65
Para o narrador de Perpetinha, a mancebia entre os clérigos ocorria porque “eles não
tomavam o remédio posto no café e no chá indicado para esfriar o desatino dos rapazes e das
moças nos seminários. Chegavam cá, ordenados, nitrindo, feito cavalo pastor” (PE, p. 62).
Havia a crença de que mulher de padre acabava virando mula-sem-cabeça, mas quando
conseguiam convencer de que isso era besteira, arrumavam duas ou três comadres e enchiam
a casa de afilhados, como observou Freyre logo acima. Não se envolviam com mulheres
casadas para evitar problemas. De Minas saíram muitos padres desse tipo e Boa Vista teve
um, padre Malaquias José Fernandes, de família muito rica. Padre Malaquias, quando foi
ordenado, em Ouro Preto, tinha uma namorada, dona Maria do Bonfim, também de família
abastada. Certo dia, ainda de madrugada, os dois vieram fugidos para Goiás.
O frei anterior, Francisco do Monte de São Vitor, Frei Vito
59
, foi expulso pela
comunidade porque era contra o costume da mancebia, e excomungava, durante as missas, os
casais amigados. Isso causou indignação na população local, e como o padre Malaquias era
simpático com as pessoas e não implicava com ninguém, foi acolhido com carinho. Viveram
juntos muitos anos (aque tiveram uma briga grande e dona Maria do Bonfim resolveu se
separar), tiveram oito filhos e da família dos Fernandes Bonfim descenderam outras famílias
importantes de Boa Vista. De acordo com as informações blicas, Frei Vito foi mandado à
Boa Vista, por volta de 1840, para amansar os Apinajé, convertendo-os ao catolicismo. Em
1859, mais ou menos, teve que deixar o povoado devido a desentendimentos junto à
autoridade civil e secular
60
.
Sobre a relação entre nupcialidade e catolicismo, Silva (2003) destaca a atuação da
Igreja para repelir o casamento civil, aprovado em 1890. A Igreja Católica combatia também
as uniões ilegítimas, desde o século XVIII, quando eram enviados padres a zonas mais
afastadas para as desobrigas, isto é, viagens nas quais os sacerdotes celebravam casamentos,
batismos e outros sacramentos quando na localidade não houvesse clérigo capacitado para tais
celebrações. A população era avisada com antecedência para que pudesse se organizar.
Seguiam as recomendações papais, constituindo o chamado catolicismo ultramontano.
Mesmo quando as idéias liberais passam a ter mais defensores no Brasil, os
responsáveis pelo exercício religioso conclamavam
59
Palacín (1990) destaca que a chegada de Frei Francisco do Monte São Vítor, missionário italiano responsável
pela catequização dos Apinajé, trouxe à vila assistência religiosa permanente e em 1852 foi erigida a paróquia
que, até por volta de 1942, era a única da região. De acordo com Palacín: “a ação estabilizadora da presença de
Frei Francisco do Monte São Vítor ficou profundamente gravada na consciência das gentes da rego” (p. 20).
60
O site da Diocese de Tocantinópolis relata que o Frei foi expulso “por causa da oposição que fez às injustiças
dos locais e pela perseguição maçônica”. Dispovel em:
http://www.diocesedetocantinopolis.org.br/historia.html.
66
[..] os vigários e membros da Igreja e os goianos em geral a observarem a
doutrina cristã, considerando a importância da administração dos
sacramentos, especialmente o do matrimônio. Seu objetivo era evitar que a
população vivesse em estado de pecado como, digamos, a mancebia, ou
aderisse ao casamento civil, considerado concubinato (Silva, 2003, p. 127).
Entretanto, como podemos perceber através das observões de Gilberto Freyre e do romance
de Carmo Bernardes, as deliberações ultramontanas não eram seguidas com o mesmo afinco
em todo o território brasileiro. Frei Vito, representante das regras ultramontanas, foi
duramente criticado, ao ponto de ter que fugir de Boa Vista, sendo substituído por padre
Malaquias, figura muito benquista na cidade. Tanto em relatos hisricos, como na ficção, a
figura do padre como chefe de família não é de modo nenhum perturbadora.
Sobre as uniões, Palacín (1990) observa que nos povoamentos erigidos pela mineração
era comum os homens chegarem solteiros ou sem família, com a idéia de que logo deixariam
a região. Com o passar do tempo acabavam se unindo com alguma das poucas mulheres
disponíveis: escrava ou negra forra, e o casamento levaria ao rebaixamento social, questão
solucionada pela mancebia, inclusive entre as autoridades locais. Após o fim da escravatura e
com a sedentarização das populações rurais durante o século XIX, a família ganha novas
definições sem que, no entanto, a prática do casamento se universalizasse. Devido ao
isolamento de Boa Vista em relação às paróquias, ao alto preço da cerimônia e, em menor
parte, ao fluxo de imigração e emigração masculina mantiveram altos os casos de
concubinato. Assim como nos demais povoados, a ão pastoral em Boa Vista visava
combater as uniões irregulares.
Sobre o padre João, Palacín (1990), como colocado anteriormente, afirma que, devido
ao silêncio de seus opositores e inimigos, a conduta moral do religioso devia ser exemplar.
Contudo, no romance de Carmo Bernardes, os dois troncos familiares de Boa Vista, os Sousa
Lima e os Fernandes, eram descendentes de padres. Os Fernandes são do tronco do Frei
Malaquias. O outro tronco se desmembrou em duas famílias: os Sousa Lima e os Sousa
Neves, descendentes do padre João de Sousa Lima.
Para o narrador, a diferença é que o primeiro, apesar de ser sacerdote, expunha
publicamente sua união com dona Maria do Bonfim, e tendo se unido apenas a ela. Já o padre
João, além do caso com dona Januária, foi padrinho de muitas crianças, inclusive das
quebradeiras de coco, além dos muitos filhos que teria tido com as amásias que tinha nas
fazendas, por isso alguns cochicham que o padre “não mandava pro bispo, e outras grosserias
67
mais”. Dona Januária Gonçalves Neves, ou dona Jinu, morreu com cento e doze anos “assim
mesmo porque panhou uma pneumonia dupla. As más línguas debochavam dizendo que
estava sendo preciso botar cincerro no pescoço dela para a morte achar” (PE, p. 87).
A sociedade de Boa Vista ficaria dividida depois do casamento de uma filha de seo-
Octaviano Sousa Lima, comprador principal da bage
61
de coco, com um dos filhos de seo-
Epaminondas JoFernandes, principal comprador e exportador de pele silvestre. Quando os
noivos iam dizer o sim diante do juiz entra um jumento, atrás de uma jumentinha:
[...] vinha com o queixo enganchado na anca dela, descomposto. [...]
Derrubam bancos, tombaram a mesa, espatifou-se o livro do cartório [...].
Não tinha acabado o serviço, seo-Octaviano vem de lá, fulo de ódio, [...]
puxa o facão por cima da gola do paletó e empurra esse ferro afiadíssimo no
sangrador do infeliz do animal [...]. A jumentinha saiu levando panadas de
facão [...].
Por mal dos pecados, o jumento pertencia a seo-Epaminondas José
Fernandes, que não concordou com o gesto abrutalhado do outro. Eles eram
até compadres. Achou ruim aquilo, que era uma desconsideração, senão uma
afronta à sua pessoa. [...] Desse dia em diante, a amizade deles esfriou. Mal
cumprimentavam, e passaram a não respeitar mais os negócios um do outro
(PE, pp. 88-89).
Armantino acabou conhecendo mais a história de Boa Vista do que muitas pessoas da
própria cidade. Mas nas conversas, tinha bastante cuidado para não tocar num ponto que
pudesse causar desavenças. Em pouco tempo ficou conhecido e estimado na cidade por
pessoas de todas as classes sociais. Era simpático, “de altura mediana, 35 anos de idade,
moreno claro, cabelo liso, nariz grosso e meio selado” e causava interesse nas mulheres da
cidade. Logo conquistou também a amizade de padre Egídio, pároco de Boa Vista, que, para o
narrador, “Parecia mais um peão. Era queimado de sol e desses da cabeça grande, que a gente
chama cabeça de malho, pescoço enterrado, nariz redondo, quase baixote”. Seu sustento
provinha da criação de gado, com muitas rezes, as quais ele mesmo supervisionava durante a
semana toda, vindo aos sábados,
[...] chegava a tempo da reza na igreja, na boca da noite. Na manhã de
domingo, dizia a missa, comungava a fila de devotos, subia ao púlpito para o
sermão. É verdade que ameaçava os fiéis com as penas terríveis do
purgatório. Que aos que não cumpriam os mandamentos da Santa Igreja só
restava o caminho do inferno. Mas embrabecia, mesmo, contra aqueles
que, por sovinagem, deixavam de ajudar nas obras da igreja nova que ele
pretendia erguer (PE, pp. 74; 78; 75-76).
61
Parte extraída do coco, da qual se faz o leite do babaçu.
68
1.4 O drama nos babaçuais: o desaparecimento de Perpetinha
Mesclando acontecimentos do passado, ficção, descrições da paisagem, dos
personagens e dos costumes do sertão e da cidade, o narrador vai mostrando a adaptação de
Armantino ao local e afirma que depois de três meses o rapaz havia perdido a condição de
forasteiro, tornando-se um membro querido da população de Boa Vista. Percebemos que o
objetivo principal do narrador é denunciar as injustiças e desigualdades sociais que marcam a
cidade desde o seu surgimento. As pessoas mais ricas da cidade vivem do comércio e da
criação de gado, enquanto as mais pobres, ou seja, a maioria vive da extração do leite do coco
do babu, atividade exclusivamente feminina, da qual voltaremos a falar no terceiro capítulo.
No decorrer da história, Armantino e Lindalva se apaixonam; ela era quebradeira de
coco, e de Perpetinha, personagem que dá nome à obra, Manel e Ditinho. Certo dia os três
saem para pegar coco de bacaba
62
. Enquanto a irmã despencava os cachos, para caber mais
nas bruacas arreadas ao jumento, os garotos foram pegar mangaba
63
. Quando voltaram, já não
encontraram Perpetinha no local, mas o jumento pastava ali perto, por isso se puseram a
esperar, mas nada da irmã aparecer. Chamaram e nada de resposta. Em virtude da demora dos
filhos, Lindalva foi procurá-los. Como a companheira decidiu não voltar para casa, Armantino
tomou a iniciativa de também se embrenhar no mato, para procurar Perpetinha.
Para ajudar na busca por Perpetinha, foram chamados Leobino e João Visconde,
bugreiros conhecidos, famosos por suas matanças de índios. Ascenso foi escalado para fazer
parte do grupo de busca à menina. Primeiro foi examinado o lugar em que a garota havia
desaparecido, para que fosse confirmada a suspeita de que ela havia sido raptada por índios. A
62
Também conhecida como bacaba-açu. É uma palmeira nativa da Amazônia, encontrada com maior frequência
no Amazonas e Pará, sendo também encontrada nos matos e capoeiras de terra firme do Maranhão, Goiás e Mato
Grosso. O fruto é arredondado, de casca roxa e polpa branco-amarelada, que aos cachos, muito rico em um
tipo de óleo, de cor amarelo-clara, utilizado na cozinha. Com a bacaba prepara-se uma bebida muito apreciada
no Norte, conhecida como vinho de bacaba. A fruta é encontrada a partir de outubro, principalmente de janeiro a
maio, época das chuvas. Informações dispoveis em:
http://portalamazonia.globo.com/artigo_amazonia_az.php?idAz=424;
http://www.horti.com.br/home/curiosidades/frutas_do_norte_e_nordeste.htm.
63
Fruto da mangabeira, árvore que pode atingir cerca de sete metros de altura. Seu látex é utilizado na fabricação
de uma borracha de cor rosada. Comum nos Estados do Nordeste, nas vegetações abertas como cerrado e
caatinga. A mangaba é de cor amarelada, polpa doce e branca, muito rica em vitamina C e usada no preparo de
sucos, doces e sorvetes. Em tupi-guarani mangaba significa “coisa boa de comer”. Informações disponíveis em:
http://www.brasilescola.com/frutas/mangaba.htm.
69
princípio acharam que a menina fora aprisionada por índios Apinajé, aldeados próximo à Boa
Vista. Com a chegada e instalação de Armantino, alguns índios desta nação passaram a
freqüentar com maior constância a cidade, que o dentista os ajudava, comprando algumas
das coisas que vendiam, além de tratá-los bem, o que não acontecia com população local, para
os quais os índios eram perigosos e traiçoeiros.
Depois de invadirem a Aldeia Grande descobriram que a tribo também chorava o
rapto de duas cunhãzinhas e que os guerreiros estavam machucados. Leobino intima Horrori,
capitão da tribo a mandar dois de seus homens para entrar sertão a dentro e achar as três
meninas. O grupo de busca foi acrescido por mais três homens de padre Egídio. Os índios, por
conta da discriminação dos sertanejos, que não os consideravam gente, ficavam mais
afastados.
Aos poucos o grupo vai descobrindo pistas deixadas por Perpetinha, como a sua
assinatura numa casca de palmito, ou mensagens escritas em rochas. De acordo com certas
pistas deixadas, Leoba chega à conclusão de que se tratava de índios Canoeiro. Certo dia, os
Apinajé Condorim e Sororema sumiram, ainda de madrugada. Leobino resolveu não soltar os
cachorros da comitiva atrás dos caboclos até que Perpetinha estivesse e salva. Ascenso,
então, foi mandado à cidade para trazer mais mantimentos, já que os recursos estavam
acabando. Ao invés de voltar com os suprimentos, Ascenso volta com uma boa notícia e que
ninguém esperava: Perpetinha já estava em casa.
Sororema e Condorim tinham encontrado os índios que raptaram Perpetinha e as
índias Apinajé. Avançaram de surpresa, tomando deles as lanças e partindo para briga. As três
meninas aproveitaram a confuo para fugir; Condorim e Sororema esparramaram a maloca,
passaram em Boa Vista, entregaram Perpetinha à família e seguiram para sua aldeia, a Aldeia
Grande, levando as irmãs deles.
De Perpetinha vemos muito pouco no romance: o que se sobressai são as disputas
entre famílias, a distância social entre ricos e pobres, a exploração dos mais pobres, e o
etnocentrismo da população local em relação aos índios, expulsos e dizimados para que a
cidade fosse formada. O drama nos babaçuais não é, na verdade, o sumiço de Perpetinha, mas
sim a situação de opressão, marginalização, a violência e o abuso de poder em Boa Vista.
70
2. Reinventando o real, realizando o imaginado: o arraial de Santa Rita
Santa Rita (1995)
64
é também um romance ficcional, narrado pelo personagem
principal, Estevo, que, à medida que relata a formação de outro povoado goiano, Santa Rita,
Goiás, narra também a sua vida. Os capítulos curtos e seqüenciais retratam episódios de
motivação amorosa e política, que quebram a rotina do vilarejo, mesclando epidios de
aventura, suspense e humor. Tipos humanos, costumes, crenças, ecologia são sertanejamente
construídos
65
. Estevo, personagem-relator, faz divagações sobre sua própria vida, seus
sentimentos, mas também sobre o que o rodeia e acontece ao seu redor.
O arraial foi fundado por seu Francisco Vigilato Pereira Moreira, que se encontra
velho e doente. A família de seo
66
-Francisco é a que manda no lugar: formaram um grupo
chamado Conselho dos Notáveis, responsável por todas as decisões tomadas na cidade e desse
grupo apenas “dois vogais
67
(SR, p. 13) não pertencem aos Pereira Moreira; os outros dez
faziam parte desta família. Para fazer qualquer coisa, como construir uma casa ou castrar um
animal, a população tinha que pedir licença ao Conselho. Tudo na cidade pertence aos Pereira
Moreira e, depois que seo-Francisco adoeceu, Zezão Vigilato assumiu o comando local.
Seo-Francisco veio fugido do Jalapão
68
, por conta de um desentendimento com os
primos, na criação de gado. Durante muitos anos, viajou para a comarca da Meia Ponte para
vender gêneros do sertão e outros mantimentos. Nesse intervalo, que durou de quatro a cinco
anos, manteve um relacionamento ilegítimo com a professora da escola pública da Meia
Ponte, dona Philomena Ayres das Neves, do qual nasceram duas filhas. A falia legítima,
composta por sea-Lixandra e os filhos, foi trazida por seo-Pedro Pontes, amigo dos Pereira
Moreira e vizinho de Estevo:
64
Ao longo de nosso estudo, utilizaremos como abreviatura a sigla SR quando citarmos este romance.
Lembrando que se trata da publicação feita pela Editora da UFG (Universidade Federal de Goiás), em 1995.
65
Assim como em Perpetinha, o sertão é descrito como o interior mais distante do Estado, onde a vida segue um
ritmo mais lento que o da capital, menos urbano, mais rural.
66
Seo forma coloquial para senhor e sea para senhora.
67
Aqueles com capacidade de decisão.
68
Região a leste do Tocantins, que compreende os municípios de Ponte Alta do Tocantins, Mateiros, São Félix
do Tocantins, Lizarda, Novo Acordo, Santa Tereza do Tocantins e Lagoa do Tocantins. Os vários rios que
banham a região (rio do Sono, Soninho, Novo, Balsas, Preto e Caracol) permitem a existência de oásis em meio
à paisagem árida. Informações disponíveis em:
http://pt.wikipedia.org/wiki/Parque_Estadual_do_Jalap%C3%A3o.
71
Dizem que, quando seo-Francisco Vigilato Pereira Moreira veio para cá,
tudo isto aqui estava sem dono. Vizinhos eram uns poucos, arranchados
acolá no Passa Três, um povo atrasado, nem roça eles faziam. Dizem que
seo-Chiquinho mandou os cabras dele “alimpar” o terreno, e eles
confiscaram até uns tapuios
69
que apareciam por aqui, naqueles tempos (SR,
p. 29)
Conforme descrito no primeiro capítulo, Meia Ponte foi fundada em decorrência da
atividade mineradora. Palacín, Garcia e Amado (2001) destacam que o arraial foi fundado em
1731, às margens do rio das Almas, data corroborada por muitos historiadores e cronistas. No
entanto, a tradição local estabelece 07 de outubro de 1727 como a data de fundação da cidade,
com o nome de Minas de Nossa Senhora do Rorio Meia Ponte, devido a uma enchente que
derrubou parte da ponte erguida sobre o rio das Almas. No início do século XIX passa a ser
chamada de cidade de Meia Ponte e, em 1890, passa a ser chamada Pirenópolis. Foi fundada
pelo minerador português Manoel Rodrigues Tomar, ou Manoel Rodrigues Tomás, de um
grupo submetido ao Anhanguera Filho e guiado por Urbano do Couto Menezes. Por volta de
1800, a produção das minas decai e a população local volta-se para a atividade agro-pecuária
e para o comércio tropeiro
70
.
Diferentemente de Boa Vista, cuja localização geográfica é precisa, Santa Rita é uma
cidade que não se tem certeza sobre sua localização, sobre sua historiografia ou sobre sua real
existência. De acordo com as coordenadas de Estevo, nosso narrador, depois de muita
pesquisa em mapas geográficos, com base na hidrografia e algumas cidades próximas citadas,
podemos supor que se trata da cidade de Santa Rita do Novo Destino, um dos vinte e dois
municípios que compõem a microrregião de Ceres
71
e que fica relativamente próximo à
cidade de Pirenópolis. No site do IBGE não consta nenhuma informação a respeito do
histórico do município, como a data e o contexto hisrico da época de sua fundação
72
. No
entanto, a existência concreta ou fictícia da cidade em nada afeta nosso estudo, pois, mesmo
69
Tapuio: “Designação genérica do selvagem brasileiro. Nome dado outrora pelos tupis aos indígenas inimigos”
(Dicionário Aurélio).
70
Informações disponíveis em:
http://www.pirenopolis.tur.br/portal/index.php?id=historia;
http://www.pirenopolis.com.br/ExibeChamadas.jsp?pkLink=19;
http://pt.wikipedia.org/wiki/Piren%C3%B3polis;
http://www.pirenopolis.go.gov.br/a-cidade.html.
71
Divisão utilizada pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) que agrupa municípios limítrofes
que possuem características econômicas e sociais muito pximas. Informações disponíveis em:
http://www.ibge.gov.br/home/.
72
A este respeito, a única informação encontrada foi no site:
http://pt.wikipedia.org/wiki/Santa_Rita_do_Novo_Destino, no qual o município teria sido fundado em 27 de
dezembro de 1995.
72
retratando pessoas, fatos e locais concretos, o literato, ao selecionar acontecimentos,
personagens, paisagens, discursos, diálogos, recria de maneira diversa a realidade, ou seja,
acaba fazendo ficção.
2.1 A estória de Estevo
Estevo conta que quando chegou à Santa Rita, com sua tropinha, composta por poucos
burros e por seu cavalo de estima, Sereno, o arraial ainda estava começando. Nessa época,
vivia com Lucinda, “mulher à-toa, quando ajuntou comigo, dizendo que não queria mais fazer
a vida” e com a filha dela, Zoleta, de dois anos de idade (SR, p. 11). Logo Estevo se apegou
muito à Zoleta: pegava viagens para fazer frete que não fossem demoradas, por conta da
saudade que sentia da menina.
Quando Lucinda deixou Estevo, certamente porque tava abusada de dormir com
um homem só, se é que ela deveras dormia”, ele “ficou despeitado e os companheiros me
pegaram de empreitada, a caçoarem de mim [...]. Inventaram aque eu dormia com um
vestido que ela deixou pra mim, como recordação(SR, pp. 11; 17). Pela tristeza que sentia e
pelas recordações de Lucinda resolveu vender a casa, saiu em viagem e, quando retornou,
construiu uma nova casa.
Lucinda fugiu quando Estevo foi fazer uma viagem, de umas duas semanas: quando
voltou, encontrou a casa vazia. Recebeu de uma vizinha o bilhete escrito por Lucinda e dizia
que “estava com vontade de dar umas voltas no mundo, [...] que não reparasse sua atitude, e
teve muita satisfação em ter vivido esse tempo todo na minha companhia”. Ela não disse nada
aos vizinhos, saiu no meio da noite, às escondidas, sem dar notícias de para onde iria,
deixou o bilhete que não dizia quase nada, levando o narrador a concluir: “Como são volúveis
essas mulheres!...” (SR, pp. 25-26).
Depois de um mês deste episódio, Estevo passa a ouvir murmúrios de que, toda vez
que saia de viagem, a vizinha, com quem Lucinda deixou o bilhete, e um peão, chamado
Pedro Muriço, “pulavam pra dentro de minha casa, tomavam cachaça queimada até tardão da
noite”. E deduz “o bilhete, com certeza, foi obra do Muriço. Esse po foi meu camarada uns
dias, espancou boiada comigo [...]. Eu sabia que ele dava conta de garatujar, mais ou menos,
uma escrita” (SR, p. 26).
73
Certa vez, Estevo foi caçar e pescar
73
com seo-Pedro Ponte. Mataram duas pacas e um
veado e como ainda estava cedo, resolveram ir para o rio Maranhão, pescar
74
. Arrancharam-se
a beira de um poço chamado Jenipapo, que já havia sido um porto.
[...] entendemos de descer para a beira do rio, a lua vem subindo e clareia
[...]. Aproveitamos para jogar linha lá adiante na beira do fundo [...]. O
companheiro tinha crença de que os peixes, quando a noite, saem caçando
nos baixios. Fuçam entremeio as pedras, desenlocam os peixinhos, e correm
pro fundo quando pegam um (SR, p. 30).
Os anzóis começaram a ser fisgados:
- Será candiru
75
, companheiro?
- Capaz de ser. Nesse rio tem ele muito!
Meu anzol enroscou, dei sopapo, forcejei a linha, deslocou, o anzol veio
arrastando o enrosco. “Seja o que for, vem aí!” Era uma caveira de gente
[...]. Jogamos outras linhadas no mesmo lugar, arrastamos mais: ossadas das
arcadas das cadeiras, fios de costela, nós de espinhaço.
[...] O companheiro achava que estava azarado: o anzol dele arrastava
caveiras; puxei uma com a ossada mda e ele, duas. uma não tinha furo,
como que de bala. Sei que o dia amanheceu com o barranco do antigo
porto do Jenipapo coalhado de ossos, como se ali tivesse sido feita uma
grande mataa de gente (SR, p. 30).
Estevo comenta com seo-Pedro Ponte que deveria ser ali que os homens de seo-Francisco
Vigilato jogavam os corpos daqueles que, devido a alguma desavença, matavam; seo-Pedro
sabia de tudo, mas, por ser amigo de seo-Francisco, não queria contar, não queria se
comprometer. Isso deixava Estevo cismado, pois se é que houve mesmo esses crimes,
havia passado muito tempo, devia estar tudo prescrevido, por que então essas reservas?” (SR,
p. 31).
Este caso foi contado numa roda aos companheiros. Jirumim, um dos amigos do
narrador, disse que o poço do Jenipapo era o lugar dos homens Pereira Moreira matarem os
opositores. Outro companheiro tenta amenizar, dizendo que podia até ser, mas que ninguém
73
As histórias sobre caçadas e pescarias são recorrentes nas obras de Bernardes, como nos livros Perpetinha,
Idas e Vindas, Rememórias, e A ressurreição de um caçador de gatos. Nestes eventos, os compadres se reúnem e
passam alguns dias acampados no meio do mato. Geralmente saem à caça e à pesca de noite. Podem ser
encaradas como atividades masculinas, pois, geralmente, vão apenas homens para as caças e pescarias. Quando
as mulheres os acompanham, o que raramente acontece, costumam ficar nos acampamentos para cozinhar aquilo
que foi caçado e pescado.
74
Rio que banha Goiás, Distrito Federal e Tocantins. Após receber seu maior afluente, o rio Para, passa a ser o
rio Tocantins.
75
Também conhecido como canero, ou peixe-vampiro, o candiru é um peixe de água-doce, parasita: nada até as
cavidades das guelras dos peixes, onde se aloja, se alimentando do sangue das guelras do hospedeiro. É tão
temido como a piranha, pois pode penetrar na uretra, vagina, ânus e outras cavidades. Informações dispoveis
em: http://pt.wikipedia.org/wiki/Candiru.
74
ali tinha certeza, nenhum deles chegou a ver. Jirumim, então, retruca que desde pequeno
escuta do avô, seo-José Paulino, que era do tempo de seo-Francisco, que os homens eram
levados para lá a altas horas da noite. Depois de mortos, os cabras de seo-Chiquinho
amarravam uma pedra na cintura e jogavam o corpo no rio. Como tinha muito candiru
naquele rio, logo restava do defunto apenas os ossos.
Sobre este peixinho, tão temido pelos moradores de Santa Rita, vários casos são
contados, e Estevo lembra:
Contam que, uma vez, estavam passando um gado lá, a nado, e um boieco,
não se sabe que arrumação aprontou lá, no meião d’água, que enganchou-se
entre dois cabeços de pedras, não pôde continuar nadando. Deixaram ele pra
lá, por enquanto; quando o gado acabou de passar, que foram ver, o boizinho
estava era morto, e de carne só restava a da cabeça e um pedaço do pescoço
[...]. Tinha ajuntado miles e miles peixinhos, e, se gente caísse ali em pêlo,
era sujeito a praga enfiar pelos orifícios do corpo, desgramados que são para
escorregar.
[...] Nesses rios daqui é de jeito nenhum que a gente mergulha neles
desguarnecida de tudo. Tem que vestir um calção bem amigado no corpo.
Conheço um rapaz que, brincando n’água, mergulhou e [...] fez a besteira de
ficar de olhos aberto: veio um cardume de candirus, e um beliscou-lhe
bem na carúncula do olho, quase arranca. [...] As mulheres ficam com medo
de lavar roupa sentadas dentro d’água, pois tem havido casos de um
bichinho desses penetrar orifício a dentro delas, dar um trabalho maldito
para tirar.
Estou em dizer que o vivente daninho, quanto mais pequeno maior o estrago
que faz (SR, pp. 31-32).
Estevo conta que morava em Santa Rita há um bom tempo e que não tinha do que
reclamar: dava certo com os vizinhos, o lugar era calmo, se comparado a outros, e o povo do
vilarejo era muito cordato. O aspecto ruim consistia nas fofocas, muito comuns: a fuxicada
que é demais. Eu mesmo padeci da vez que andei feito galinha tonta, ausente da mulher. Fora
daí isto aqui não tem defeito(SR, p. 90). As discórdias, geralmente, ocorriam entre os
graúdos, o que para o narrador não era um problema, pois “eu vivo quieto no meu canto,
não freqüento ambientes” (SR, p. 33).
O Conselho também regulava a moral da cidade: em Santa Rita não havia mulheres da
vida, mas, de acordo com o narrador, de nada adiantava, porque os homens acabavam tendo
casos extraconjugais, com mulheres casadas. Um exemplo foi seo-Zezão Vigilato, que
manteve um romance com “uma senhora dona, dessas tidas como fazedeiras de caridade” (SR,
p. 34). Foi visto certa vez correndo, de madrugada, de ceroula, depois de ter sido
surpreendido por outro homem: uns contam uma vero, dizendo que era outro amante da
senhora, outros diziam ser o próprio marido.
75
Tempos depois de ter sido deixado por Lucinda, Estevo acaba se envolvendo com
Diolina, vizinha que o ajudava com os cuidados da casa. Quando Estevo viajava, Diolina
cuidava da limpeza e da arrumação. Quando ele chegava de viagem, ela ia aju-lo a
desarrear a tropa. Logo os dois estavam juntos, e ela passou a se comportar como esposa de
Estevo: tomar conta da casa, não era “esbanjadeira”, não contrariava o companheiro. Mas
Estevo assume que com a nova companheira o “regime de convivência” é outro:
[...] é ela na casa dela; na minha quando faz muito frio. Então ela vem
dormir comigo, e isto mais ou menos oculto. Compromisso, não quero.
Amigação propriamente dito é de jeito nenhum. Já basta o que a Lucinda me
fez. O bicho é volúvel, ainda mais esses que já ficaram com mais de um
homem (SR, p. 36).
O narrador conta que os homens do arraial costumavam se reunir debaixo dos pés de
baru
76
que ficam pximos à igreja para saber e dar notícia dos acontecimentos recentes.
Geralmente, as zombarias são feitas com as pessoas mais simples, um exemplo que o pprio
Estevo dá é o acontecido entre ele e Lucinda. as reclamações são feitas em cima “dos
graúdos”, em especial do Conselho dos homens notáveis, pois
[...] a gente mda aqui do lugar tem ódio desse Conselho. [...] Na hora de
fazer os benefícios, cada um de nós é intimado a entrar com uma parte das
despesas, seja em material, seja em dias de serviço, e quem não quiser
cooperar tem de comparecer e dar explicação. E na hora de apresentar, o
Conselho é que sai na frente: o nome de nenhum de nós é lembrado. A cafifa
do povo é por isso (SR, p. 40).
Estevo afirma que não tinha a mesma implicância que as outras pessoas em relação aos vogais
do Conselho, que nunca fora prejudicado. Na época em que buscaram a imagem de Santa
Rita, padroeira da cidade, todos tiveram que contribuir com alguma importância. Estevo
ofereceu uma egüinha sua, para ir como madrinha da tropa, trazer a imagem da santa.
Para a construção da estrada, todos tiveram que contribuir com algo. Estevo não estava
na cidade, mas, mesmo assim, teve que dar sua contribuição. E na festa da inauguração houve
festejo, muitas pessoas vieram de longe para conhecer automóvel. Seo-Francisco Vigilato,
76
Também conhecido como barujo, bugueiro, cambaru, castanha-de-bugre, coco-feijão, cumari, cumaru,
cumarurana, cumbaru, feijão-baru, feijão-coco, imburana-brava e pau-cumaru. O baruzeiro pode chegar a 25
metros de altura, sendo encontrado no cerrado e nas faixas de transição da Mata Atlântica para o cerrado. O
fruto, baru, é uma amêndoa cujo gosto se aproxima do amendoim, de alto valor nutricional. Dele pode ser
extraído o óleo, usado como aromatizante para o fumo e como anti-reumático. Recentemente se ampliam as
pesquisas sobre o baruzeiro, cada vez mais indicado para o reflorestamento, por ter um crescimento
relativamente pido e também devido à qualidade e resistência de sua madeira. Informações dispoveis em:
http://pt.wikipedia.org/wiki/Baru.
76
mesmo com dificuldades, foi buscado em casa, para andar na novidade. O chofer cobrava o
passeio por pessoa e só não passeou com mais pessoas porque o combustível estava acabando.
Como o personagem relator não estava presente na festa, ficou sabendo depois que o chofer
tinha cara de pilantra e
[...] namorou essas moças aí, a Ediléia; [...] levou ela com ele no banco de
diante. Na derradeira viagem que ele deu sumiu de vista, só voltou de
tardezinha. Antes disso ela já era falada, agora seu nome anda no baculeré da
maledicência. Nas conversas da rapaziada dos baruzeiros, ela não vale mais
nada, o chofer arrancou o tampo dela, se ela não estava de tampo
arrancado. Eu de minha parte não digo é nada. Ela é gente dos graúdos da
praça, e não estou por conta de ir fazer companhia com as caveiras que eso
formando o fundo do poço do Jenipapo, no rio Maranhão (SR, p. 42).
Um dia Estevo encontra em Santa Rita Lucinda e Zoleta, ficando surpreso, pois, há
anos atrás ele e Zoleta eram muito apegados, e no dia do reencontro pareciam dois
desconhecidos. Lucinda, que ainda estava com Pedro Muriço, que a esperava na sombra dos
baruzeiros, tinha ido à cidade apenas para visitar alguns amigos e logo iria embora. Quando se
afasta, o narrador expõe:
um tanto de cinismo da minha parte, no que falo sobre Lucinda. Bato
papo, digo que ela mais a filha são sapatos que calcei, no entanto quando
topo com o galheiro dela me sobre uma friagem, chega a me dar
estremecimento. Se a rapaziada marota que me cobria de zombaria, dizendo
eles que moí vidro com a bunda quando aquela mulher largou de mim para
acompanhar aquele homem de cara lanhada, pudesse me ver por dentro aqui
agora, virge-maria! Os malvados montavam no meu lombo, iam acabar com
meus dias de vida. Nego-me admitir uma desgraça dessa (SR, p. 87).
2.2 “Essa gente não respeita os cabelos brancos do homem”
Seo-Francisco Vigilato teve muita influência no Jalapão, mas a velhice acabou lhe
afetando a lucidez e a alegria:
[...] arranjou uma quebradura muito grande, e passa o tempo todo com a mão
socada por dentro do cós das calças coçando e acariciando aquelas farturas.
Não dá definição de mais nada, e sofre por falta deo ter com quem
77
conversar. E é muito custoso, por que os assuntos da sua predileção são de
passados muito distantes, os da geração de hoje não entendem (SR, p. 43).
Aqueles que se encarregam de dar notícia da vida alheia em Santa Rita acham que seo-
Chiquinho “de tanto pegar mulher alheia, é que ficou daquele jeito, carregando uma galinha
morta no vão das pernas. Essa gente o respeita os cabelos brancos do homem, e de tudo
fazem deboche”. Estevo, em certa visita a seo-Francisco observa: “me tortura a imensa pena,
vendo, em minha frente, embora prazenteiro e de feições alegres, uma sucata de homem em
que são restantes muxibas flácidas, enervando um esqueleto desengonçado” (SR, pp. 44; 113).
Sobre a questão do envelhecimento, Veloz, Nascimento-Schulze e Camargo (1999)
destacam que o fenômeno do envelhecimento populacional, a partir de 1950, passa a atingir
países desenvolvidos e subdesenvolvidos. Entre os fatores que contribuem para o fenômeno,
podemos destacar a diminuição da taxa de mortalidade
77
, o controle da fecundidade
78
e os
avanços no tratamento de várias doenças (Cardoso, 2006). Tanto gerontólogos
79
como
cientistas sociais se interessam cada vez mais em estudar as diferenças intergeracionais deste
processo.
A idade é uma das dimensões sociais que foram alteradas ao longo dos anos. Antes
da década de 1950, a idade mais avançada significava maior status para um indivíduo, tanto
por motivos quantitativos, por haver menos idosos, como qualitativos, pois a avaliação do
idoso era mais respeitada do que a inovação (Rifiotis, 1995; Wachholz e Fiamoncini, 2006).
As mudanças cio-culturais alteraram não as relações e os papéis de gênero, as relações
entre classes, e as relações entre etnias, mas também a relação entre gerações. Assim, os
papéis que os idosos exercem têm sido redefinidos.
Myriam de Barros (1998) coloca que a velhice, por estar associada à morte, sempre
assustou, mas, no contexto atual, onde o corpo são, vigoroso, ágil, sexualizado, é super
valorizado, a velhice causa mais incômodo devido á sua inexorabilidade, mesmo com os
vários tratamentos feitos no sentido de prolongar a juventude. Wachholz e Fiamoncini (2006)
salientam que o choque entre as gerações ocorre devido ao fato de que os mais velhos, através
da transmissão de seus valores, procuram justificar sua própria existência, enquanto os mais
77
Ou taxa bruta de mortalidade (TBM) que corresponde à relação entre o total de óbitos ocorridos durante um
ano e a população total (Cerqueira e Givisiez, 2004).
78
É a relação entre o número de bebês nascidos vivos e a população feminina em idade reprodutiva em
determinado ano (Cerqueira e Givisiez, 2004).
79
A gerontologia estuda as diferentes vertentes e especificidades do processo de envelhecimento,
compreendendo os aspectos fisiológico, social, cultural e psicológico. Desta forma, o gerontólogo seria o
responsável pela gestão das diferentes profissões que cuidam da saúde e da vida social dos idosos. Informações
dispoveis em: http://www.cuidardeidosos.com.br/2008/09/29/profissao-gerontologo/
78
jovens procuram estabilizar e legitimar seus próprios valores por meio de estratégias
compatíveis com o seu momento histórico. E é nesse âmbito que podemos inserir a apatia e
recluo de seo-Francisco Vigilato em se relacionar com pessoas de gerações mais novas.
2.3 A chegada do automóvel: virtudes do progresso [?]
Um dos acontecimentos que mexeram com a cidade foi a chegada do automóvel, e,
com ele, da estrada. As pessoas que quisessem dar uma volta pagavam determinado valor ao
chofer. Seo-Francisco também andou “de máquina”, e deve ter “achado tão bom quanto
balançar no cipó; e não sabe ele que muito mais bom deve ter achado a neta Ediléia na hora
que o chofer andou com ela pelos matos. Mas isso é uma das virtudes do progresso; que se há
de fazer” (SR, p. 44).
De acordo com Estevo a estrada trouxe muitas mudanças para o lugar: “umas pra bem,
outras pra mal. Têm havido uns roubos, aumentou a carestia e, volta e meia, estão fugindo
mocinhas, tonteadas pelo cheiro da gasolina. Estão derrubando matas [...]. Antes da linha
80
,
tinha nada disso” (SR, p. 44-45). Por conta dessas transformações, o Conselho se reuniu e
resolveu pedir destacamento de um soldado para o vilarejo; um dos vogais aproveitou a
brecha e também resolveu pedir que viesse um padre.
Em 1919 foi inaugurada a estrada rodoviária construída para receber, em solo goiano,
o automóvel. A Sul Goiana ligava as cidades de Rio Verde a Santa Rita do Paranaíba, hoje
Itumbiara, e sua construção foi empreendida por Belarmino Cruvinel (Galli, 2007b). A
chegada do automóvel no Estado significou o advento da modernização em Goiás, mas o se
deu da mesma forma em todo o Estado. No antigo norte goiano, o automóvel foi chegar
depois de 1930, sendo que em 1936 ele ainda não havia chegado a Porto Nacional e em
Natividade, município vizinho, só foi introduzido em 1944, devido às grandes distâncias, à
falta de estradas, à falta de gasolina e de manutenção (Palacín, 1990).
As mudaas advindas com a chegada do automóvel trouxeram um clima de
insegurança à cidade. Para cuidar dos furtos, garantindo a segurança em Santa Rita, foi trazido
cabo Altino, além de ter sido construída a delegacia, numa casa em que antes funcionava um
açougue. Soldado Antão era o auxiliar do cabo. Já para cuidar dar da moral e dos bons
80
Estrada de asfalto.
79
costumes, garantindo que o progresso não trouxesse tantos “estragos”, foi enviado ao arraial
padre Belote. No entanto, de início deixou o povo do local implicado, por ter levado
consigo um sacristão, sendo que poderia ter encontrado em Santa Rita, o que ainda renderia
muito falario, como veremos mais adiante. Padre Belote “Tinha a tis delicada e mimosa,
como a imagem de São Sebastião”, mas, apesar da aparência angelical, os gestos e a postura
eram antipáticos. Já o sacristão se chamava Ronaldo: “Era um moço bem aparecido, andava
na lerdeza, penteava o cabelo puxando uma pasta avançada pra frente por cima da testa curta,
só vendo que bonitão era o rapaz” (SR, pp. 45; 51-52).
2.4 A inconstância de Estevo
Cabo Altino quando chegou ao arraial conquistou a antipatia de muitos moradores,
após a invasão da cidade por um grupo de porco-queixada. Os homens, para que os porcos
não atacassem ninguém, pegaram suas espingardas e saíram à caça, mas Altino tomou as
armas dos homens, pois era “proibido dar tiros no perímetro urbano”. Isto fez com que Estevo
criasse implincia com o comandante, pois as armas eram usadas para defesa. “O soldado
Antão tomou a minha espingarda de arranco, brutalidade mesmo de meganha, jogou ela lá no
canto, como se joga um pau de lenha”. A espingarda de Estevo foi devolvida, e de forma
sigilosa, depois que seo-Pedro Ponte conversou com o cabo e, depois de saber que ele também
gostava de caçar e pescar marcou uma ida para a beira do rio. A arma ficou na casa de seo-
Pedro Ponte, pois se os outros ficassem sabendo desse arranjo seria briga na certa (SR, p. 48).
Apesar de Estevo tentar arrumar um bom pretexto para não ir caçar na companhia do
cabo, acabou não tendo coragem de dizer o à seo-Pedro Ponte: “Não tive como dizer a seo-
Pedro Ponte que não ia por repugnar a companhia indesejada do cabo Altino. Ele me
desfeitou, tomei negação de sua cara” (SR, p. 67). Negação que logo se desfez.
Durante a caçada, Estevo conversava com seo-Pedro quando Altino o estava por
perto. Certa hora da noite escutaram um barulho e logo os gritos do cabo, pedindo direção
dentro da mata. Ele tinha amarrado a rede numa árvore chamada lixeira, cuja madeira se
quebra como vidro. Despencou de cima e, na queda, acabou quebrando o osso do ombro.
Estevo cuidou dos primeiros curativos. Depois levaram, com cuidado, Altino para a cidade.
80
Depois desse dia, o cabo e narrador se tornaram amigos e companheiros de prosa.
Com a fratura, Altino passou a
[...] ficar colocando arnica
81
no cachimbo, pitando aquilo pra cortar as dores
do ombro, deu para embebedar e ficar doidão. está quase são, e continua
pitando arnica e ficando trapalhado do juízo. Pita de noite, sai andando
mareadinho de tudo, tiro na rua, toca o sino às meias-noites, o homem
fica doido varrido. Frei Germano cai nele de conselhos, na hora ele baixa a
cabeça com humildade, noutro dia está variado outra vez, zanzando na rua
todo arrepiado, malacafento, com os olhos abotecados e rasos d’água,
parecendo cachorro louco.
[...] Com a coisa do cabo cachimbar arnica e ficar delirando, aprontando
desatinos e brigando, o soldado [Antão] ajuntou as trouxas, passou a morar
de junto dos velhos seo-Francisco Vigilato Pereira Moreira e sea-Lixandra
(SR, pp. 84-85).
2.5 O futebol: “brinquedo muito apreciado”
Foi organizado um campo de futebol em Santa Rita. Quando foram “rapar o campo
capinado”, Estevo contribuiu colocando à disposição dois de seus burros, mas, quando o
campo ficou pronto, o narrador conta ter dispensado o convite para fazer parte do futebol, o
que o fez diferença, pois eram muitos os interessados em participar. Estevo conta que
“Ronaldo do padre” tomou a frente para organizar o campo e os jogos. Contou com a ajuda de
Jirumim, cabo Altino e Luiz Tarão, outro companheiro de Estevo (SR, p. 61).
Foram criados dois times, um, o time amarelo (Canarinhos), liderado por Ronaldo e o
outro, o time verde (Piriquitos), por Luis Tarão. Ediléia foi convidada para ser madrinha e no
dia da estréia deu o primeiro chute na bola, para começar a partida. As moças da cidade
comandavam as torcidas. As partidas aconteciam aos domingos e, durante quatro semanas,
não houve nenhum desentendimento, mesmo o time verde ganhando três dos quatro jogos. As
desavenças começaram depois: as moças da torcida canarinha, lideradas por Ediléia, vaiavam
81
Também chamada popularmente de quina-dos-pobres, tabaco-dos-alpes, tabaco-da-montanha, erva-dos-
pregadores, possui propriedades cicatrizantes e analsicas. Em aplicações mais específicas, é também indicada
para combater febres, hemorragias, disenterias, infecções renais, inflamações oculares, problemas circulatórios e
cardíacos. O uso interno, entretanto, não é recomendado, pois a planta possui substâncias tóxicas: doses baixas
podem originar irritações gástricas; doses elevadas podem produzir problemas de origem nervosa como
alucinações, vertigens, dificuldades respiratórias e até parada cardíaca. Informações disponíveis em:
http://www.terracha.com.br/plantas-medicinais/arnica/. No entanto, de acordo com a nomenclatura utilizada em
outros trechos pelo narrador, como veremos adiante, que se trata, na verdade, de uma variante eufemística para o
uso da maconha, que também possui princípios alucinógenos e analgésicos.
81
os piriquitos, que estavam ganhando. não xingavam o juiz de ladrão porque era cabo
Altino que estava no posto.
Num dos jogos, padre Belote decidiu participar. “Regaçou a batina aaos meios das
canelas, prendeu-a com alfinetes e entrou, naquele seu andar bamboleante, e ficou na posição
de receber bola mandada por Ronaldo, que jogava de centeralfo
82
(SR, p. 62). O
desentendimento começou quando padre Belote, que jogava como meio-esquerda
83
, foi em
busca da bola e acabou topando com o beque-de-avanço do time adversário, Luiz Tarão, que
caiu no chão, esfolando o rosto, saindo do campo carregado por Jirumim e soldado Antão,
com a face toda ensangüentada.
A confusão estava armada: os piriquitos, jogando em dez, começaram a chutar de
propósito as canelas dos canarinhos, até Ronaldo levar uma cotovelada nas costelas; depois
de recuperar o fôlego, pegou a bola, que era sua, encerrando a partida. Estevo conta que os
jogadores, mesmo os canarinhos, foram criando implincia de Ronaldo, porque
Ele só é que queria mandar, caçava arrelia com todo mundo, quando o
golquipa
84
dele deixava furar um golo ele caía nele a xingar, passava
descomposturas. E o que mais indignava os companheiros era ele passar a
mão na bola e sair do campo, no maior acinte, quando contrariado nas suas
vontades (SR, p. 62).
Sobre o futebol, vários estudos foram feitos na área das ciências sociais, nos quais,
além de características específicas no esporte, podemos observar o contexto histórico e
cultural no qual está inserido. Norbert Elias e Eric Dunning (1995) perceberam no esporte,
mais especificamente no futebol, uma forma de compreender o processo civilizador,
diferentemente da maioria dos sociólogos, para os quais o esporte não estaria relacionado aos
aspectos sociais mais racionais e mais sérios. O esporte seria um excelente exemplo do
82
Aportuguesamento da expressão center half, utilizada no futebol para designar o jogador que tem a função de
retirar a bola do time adversário, retornando-a ao ataque, fazendo, desta forma, a ligação entre a defesa
(zagueiros ou beques) e o ataque (atacantes). Sinônimos: volante, centromédio, médio-volante, cabeça-de-área,
mediano. Informações disponíveis em: http://pt.wikipedia.org/wiki/Volante_(futebol).
83
Sobre a composição de um time de futebol, temos: o goleiro, os zagueiros ou beques, responsáveis pela defesa,
que se dividem em centrais e laterais (direito e esquerdo), podendo também ser chamados de beque de avanço e
beque de espera, os meios-de-campo, responsáveis por retirar a bola do time adversário e voltá-la para o ataque,
que se dividem em volante, alas (direito e esquerdo), meia-armadores, meio-campistas laterais (direito e
esquerdo), também chamados de meia-direita ou meia-esquerda, e os meia-atacantes, no ataque temos o ponta-
de-lança, ou segundo atacante, e o centroavante. Atualmente os jogadores têm grande flexibilidade de
movimentação em campo, atuando tanto no ataque, quando em posse da bola, como na defesa, quando sem a
posse da bola. Informações dispoveis em:
http://pt.wikipedia.org/wiki/Posi%C3%A7%C3%B5es_no_futebol.
http://www.revistadeeducacaofisica.com.br/artigos/1983/futebolsistemasdejogo.pdf.
84
Uso popular da expressão aportuguesada golquíper (em inglês goal-keeper), o mesmo que goleiro (Dicionário
Aurélio).
82
controle das pulsões, no sentido de normatizar as condutas, uma das conseqüências do
processo civilizador. Para estes autores, o esporte teria surgido em fins do século XVIII e
meados do XIX, na Europa.
Nos séculos anteriores, o termo esporte, ou desporto, englobava e designava uma série
de divertimentos e passatempos. Com o passar do tempo, desporto passou a caracterizar
formas de recreação nas quais o desempenho sico era fator central, com regras que
controlassem as disputas (Elias e Dunning, 1995; Starepravo e Nunes, 2004; Capraro et al,
2005a e 2005b). Além dos modelos de produção industrial, de organização, de trabalho, a
Inglaterra também difundiu as formas de ocupação do tempo livre do tipo conhecido como
desporto: as modificações na forma de trabalho caminharam juntas com as transformações no
modo de se utilizar o tempo livre.
O esporte moderno é caracterizado por regras escritas; sanções intrajogo bem
definidas; disputas conduzidas por árbitros; órgão centralizador de elaboração e fiscalização
das regras, controlando a violência entre adversários e entre membros de uma mesma equipe.
Gradualmente o Estado passou a controlar o uso da violência e, desta forma, as práticas
esportivas passaram a eliminar a agressão física que pudesse acabar em morte entre equipes
rivais, gerando cada vez mais ordem e autodisciplina nas atividades desportivas (Elias e
Dunning; Starepravo e Nunes, op. cit.).
De acordo com Nascimento (2007), o futebol, hoje em dia com o status de ser a
manifestação esportiva mais praticada no mundo, oficialmente surgiu durante a primeira
metade do século XIX nas universidades públicas inglesas, praticado, mormente, pela
juventude da crescente elite industrial britânica. Para Capraro et al (2005a), o futebol se
transforma em esporte quando são criados os Clubes que, no início, “eram apenas associações
de cavalheiros onde eram delimitadas regras para prática do até então jogo de bola” (p. 03).
No Brasil, ainda de acordo com estes autores, não foram criados clubes exclusivos de futebol:
os clubes existentes, que promoviam atividades esportivas como a regata, o basquete, a
natação, o tênis, apenas incorporaram o futebol à sua lista.
Na década de 1930, o futebol no Brasil se consolida como fenômeno de massa
85
, a
partir das primeiras conquistas da seleção nacional e se dissemina pelo país através da atuação
dos times do eixo Rio/ São Paulo (Nascimento, op. cit.). Neste contexto ocorre também a
emergência das torcidas organizadas, que não mais se reúnem exclusivamente nos dias de
jogo, para incentivar um determinado time. O futebol atualmente não se caracteriza apenas
85
Ou seja, como um fenômeno que não se restringe mais a um determinado grupo ou classe.
83
pela habilidade, “força física, a velocidade e a ginga, mas também a violência que hoje está
presente em quase todos os jogos dessa modalidade”, assim, o futebol seria um espo
passível de agressões físicas e verbais (Bonin, 2008, p. 01). Para Dunning (1995) não a
completa extinção da violência no futebol, mas sim a alteração da violência emotiva,
irracional, para uma forma mais racional, instrumental.
Borges (2008) chama a atenção para o fato de que a existência da violência dentro e
fora de campo não anula, de forma alguma, a teoria de Elias (1995) de que, com o processo
civilizador, o uso da violência torna-se menos freqüente. Somente se o processo violento
passasse despercebido no interior de uma sociedade é que a teoria poderia ser questionada.
Também devemos ressaltar que o processo civilizador não se dá da mesma forma em todas as
sociedades, além das rias transformações pelas quais passou o futebol, e a sociedade, nas
últimas décadas.
Inicialmente, o futebol era um esporte exclusivamente masculino e a violência física
pode ser compreendida como uma forma equivocada de legitimação da masculinidade, ou
como exemplo de virilidade. Deste modo, percebemos que o futebol é uma manifestação
sócio-cultural através da qual podemos vislumbrar aspectos relacionados às questões de
gênero de uma determinada sociedade, numa determinada época. No romance, o esporte era
praticado apenas pelos homens de Santa Rita e às mulheres cabia participar como torcedoras.
2.6 “Homem com homem é nojeira”: a discriminação sexual
Diolina ajuda dona Silvana com a arrumação da casa e da comida do padre e do
sacristão, e ajuda também na limpeza e organização da igreja, deixando Estevo a par dos
acontecimentos. Um dia, quando foi varrer a igreja e tirar as flores murchas dos vasos,
escutou padre Belote e Ronaldo conversando na sacristia, parecendo briga de marido e
mulher: o padre, com uma voz melosa, chamava as mulheres da cidade de essas sirigaitas,
essas quengas(SR, p. 52). E como padre Belote não ficava longe de Ronaldo, o povo logo
passou a desconfiar que aquilo era ciúme.
O clérigo, durante as missas, defendia a urgência na construção da escola em Santa
Rita, porque as crianças, sem estudo, estariam crescendo como animais. Nos sermões
“xingava as crianças de bicho bruto do campo, ofendendo todo mundo”.
84
Quando ele começa e falar nisso a igreja vai se esvaziando, e ele fica lá
arreliando. Ergue o corpo na ponta dos pés e prega, com a mão mole
espalmada à altura do ombro, como quem carrega melancia. Não demorou
pegaram a murmurar que padre Belote era baitola
86
. Com aqueles chiliques
todos, só podia ser (SR, pp. 57-58).
Para a construção da escola, todos foram convocados a participar, de alguma forma.
Padre Belote defendia, inclusive em seus sermões, que as crianças deviam ter estudo. Mas
logo, de acordo com Estevo, foi revelada a real intenção do padre no empenho de erguer a
escola: o sacristão foi nomeado como professor. E se o discurso inicial animou a população a
colocar os filhos na escola, quando a escola começou a funcionar só os que tinham como arcar
com as despesas (uniforme, material, roupa diferenciada para os dias de festividades), ou seja,
os graúdos conseguiram dar continuidade aos estudos dos filhos.
Certo dia, Diolina conta para Estevo que o padre e o sacristão foram expulsos da
cidade por seo-Zezão Vigilato. Ela e Ediléia foram arrumar a igreja mais cedo do que o
habitual, pois Ediléia ia a uma festa. Entraram de forma silenciosa, para o atrapalhar padre
Belote, caso ele estivesse descansando: “A porta da sacristia aberta e lá dentro uma arrumação
muito esquisita: o sacristão fazendo bobagem no padre Belote de quatro pés com a batina
arregaçada” (SR, p. 72). Antes deste episódio, o sacerdote estava criticando os ricos do
lugar, excomungando os exploradores durante a homilia. Um dia “condenou a regra de cobrar
arrendo caro dos lavradores e xingou os proprietários de carrascos”, o que fez seo-Zezão e os
companheiros deixarem a igreja antes de a missa terminar (SR, p. 74). Além disso, o padre
também estava ajudando a organizar um grupo formado pelos trabalhadores de Santa Rita,
chamado de Sociedade de Lavradores, para dar força aos mais fracos, para que as injustiças
diminuíssem.
Outra coisa que, para Estevo, mexeu com o brio dos homens do Conselho era o fato de
Ronaldo ter mais voz ativa com a população de Santa Rita, mais do que qualquer um dos
notáveis, além de não aceitar certas ordens do Conselho. Resolveu que iria matricular “os
filhos da pobreza de graça, sem cobrar nada. Prometia que no próximo ano ia pôr essa medida
em prática”. Desta forma, os poderosos de Santa Rita, se sentindo ameaçados, aproveitaram
86
Na linguagem popular é utilizado, de forma pejorativa, como sinônimo de homossexual. De acordo com a
cultura popular, havia um engenheiro ferroviário inglês, Mr. Hull (nome de uma das mais importantes avenidas
de Fortaleza), reconhecidamente homossexual, no Ceará, trabalhando na linha do trem. O espaço entre os
trilhos, em português, tem a denominação de bitola e Mr. Hull pronunciava a palavra “báitóla”. Quando ele se
aproximava, os demais funcionários da estrada de ferro diziam: “Lá vem o baitola!”. Disponível em:
http://www.dicionarioinformal.com.br/buscar.php?palavra=baitola.
85
a ocasião de cortar a crista de padre Belote e dar uma sofreada no sacristão dele, que era
chamado por eles de baitola arrogante” (SR, p. 74).
Sobre o envolvimento de padre Belote e Ronaldo, Estevo diz:
Não condeno o ato dos dois; acho é que homem com homem é nojeira.
Não precisão disso, ainda mais que a mestre Ronaldo o que não falta é
mulher, por visto a ciumeira que padre Belote arde por ele. E a figura
bizarra da cena, os dois trelados feito cachorro, não me abandonava, e meus
ouvidos se viam permanentemente atordoados ouvindo a chiata dos dois na
hora do bem-bom (SR, p. 73).
Por isso, seo-Zezão estava esperando só um pretexto para expulsar o padre e o
sacristão. E Ediléia, responsável em divulgar o ocorrido entre padre Belote e mestre Ronaldo,
de acordo com Luiz Tarão, conhecido de Estevo, fez o alvoroço todo porque o sacristão não
aceitou ter nada com ela. O Conselho então manda trazer um novo padre: Frei Germano que,
de acordo com Estevo, daria muito bem com os poderosos de Santa Rita, que este padre se
preocupa quase que exclusivamente em rezar as missas.
Os nomes populares e pejorativos para se referir ao homossexual, como bicha, veado,
maricas, baitola, corresponde ao ideal do que um “homem de verdade” não deve ser. São
associados, sobretudo, a indivíduos com papel passivo, aqueles que são penetrados durante a
relação sexual. Esse homem passivo é associado à mulher, sofrendo uma efeminação
simbólica,o que corresponderia à perda de virilidade. Já o homem que, durante o intercurso
anal, assume a posição ativa continuaria mantendo sua virilidade, preservando sua dominação
hierárquica (Parker, 1991). Essa distinção ainda é freqüente no senso comum: para muitos
é considerado baitola o homem que assume o papel passivo na relação.
A condenação do amor e erotismo entre pessoas do mesmo sexo
87
não é recente e
ainda encontra justificativas religiosas, como no Antigo Testamento, no Livro do Levítico.
Com a extinção do Tribunal do Santo Ofício da Inquisição (1821), a homossexualidade
passou a ser tratada como patologia que devia ser medicada, e em 1869 é cunhado o termo
homossexual. A partir de então
[...] não mais os padres, mas os delegados de polícia passaram a reprimir os
infelizes, a que chamavam de “pederastas”, sob alegação de atentado ao
pudor e aos bons costumes. Para justificar e racionalizar a perseguição
policial, os cientistas da época inventaram teorias as mais estapafúrdias e
terapias as mais cruéis [...], tendo como inspiração a mesma ideologia
machista que obriga o homem ao desempenho de papéis sociais violentos,
87
Denominada homoafetividade.
86
castrando-lhe sentimentos delicados, antagonizando maniqueisticamente o
masculino e o feminino (Mott, 2006a, p. 510).
Assim, os inquisidores foram substituídos por médicos, advogados, juízes e juristas na
repressão aos amantes do mesmo sexo. Nesta mesma época, além das teorias sobre a
sexualidade, foram desenvolvidas por outros cientistas teorias que defendiam a inferioridade
natural, pautada por aspectos biológicos, de grupos minoritários, como os negros e ciganos.
As pesquisas multidisciplinares, décadas, atuam no sentido de esclarecer que a
homoafetividade não é doença, perversão ou distúrbio. Em 1993 a Organização Mundial de
Saúde (OMS) deixou de considerar a homossexualidade como desvio e transtorno sexual. Em
1999 o Conselho Federal de Psicologia promulgou uma portaria ratificando a normalidade da
homossexualidade, ao mesmo tempo em que condenou as teorias e terapias homofóbicas
88
.
Apesar de algumas conquistas, ainda é necesria muita discussão para que a sexualidade seja
compreendida como uma categoria plural, sendo a heterossexualidade apenas uma das suas
possibilidades. Sobre as possíveis justificativas para a homossexualidade, Shinmon, Guerra e
Tassigny (2008) colocam que
[...] sendo todo ser humano dotado de uma singularidade, talvez não seja
possível delimitar a homossexualidade a uma nese universal. Em cada
experiência pode haver uma nuance que a torne única, singular em seu
irrompimento, pelo menos para o sujeito que a vivencia.
Tentar estabelecer critérios nosogicos para a homossexualidade talvez
ainda seja um resquício do estigma de doença que ela carrega, pois até a
década de 70, a homossexualidade era classificada no Manual Diagnóstico e
Estatístico de Transtornos Mentais (DSM) como uma patologia pertencente
aos desvios sexuais (p. 159).
Sobre a relação entre igreja e homossexualidade, Mott (2006b) destaca que, no século
XVI, desde a chegada dos primeiros missionários ao Brasil, ministros católicos
89
tomaram
88
Aquele/a que possui fobia, medo, desprezo, repulsa aos homossexuais. Informações disponíveis em:
http://www.rea.pt/homofobia.html.
89
Além dos relatos dos missionários católicos, também alguns registros feitos pelo francês Jean de ry,
missionário calvinista, sobre relações homossexuais entre os índios. Em 1554, Nicolau Duránd de Villegaignon,
almirante francês, veio para o Brasil de forma sigilosa, fundando, em 1555, um estabelecimento colonial francês
na baía de Guanabara, que ficou conhecido como França Antártica. Como na Europa acontecia a Contra-
Reforma, houve a perseguição de rios protestantes, que buscaram fugir para outros lugares. Os huguenotes,
franceses calvinistas, vieram se refugiar no Brasil a partir de 1555, buscando exercer livremente sua religião,
além dos lucros advindos com a exploração de pau-brasil. Fizeram amizade com os índios Tupinambá, dos quais
obtiveram apoio na luta contra os portugueses. Mas a partir de 1560 o governo portugs passa combater e
expulsar os franceses, que se retiram, definitivamente, do Rio de Janeiro em 1567. no século XVII, entre
1630-1654, os holandeses que se estabeleceram no Nordeste representam a segunda experiência protestante no
Brasil. Contudo, foram extremamente efêmeras, já que, após a expulsão de franceses e holandeses do território
brasileiro, nenhuma igreja protestante conseguiu se manter. Desta forma, o início do protestantismo no Brasil
ocorreu, oficialmente, no século XIX, com a vinda da família real. Jean de Léry foi um dos franceses calvinistas
87
conhecimento da presença do mau pecado entre os indígenas de ambos os sexos, que, mesmo
com a explícita condenação papal, continuava a ser praticada. Ainda que o Tribunal do Santo
Ofício excomungasse e perseguisse praticantes da sodomia, clérigos em Portugal e suas
colônias constituíram 1/3 dos sodomitas e fanchonos
90
denunciados, presos, condenados, pelo
que ficou conhecido como vício dos clérigos.
A matriz hegemônica sexual ocidental é regulada pela moral judaico-cristã, fixadas
nas “Tábuas da Lei, no Levítico, nas Estolas Paulinas, nos Confessionais Medievais e no
Catecismo Católico promulgado pelo Concílio de Trento. No Brasil, esta matriz hegemônica
foi desordenada, sofrendo influências da cultura sexual dos índios, notadamente dos
Tupinambá, e dos escravos africanos, sobretudo os trazidos da Gui, dos Reinos do Congo-
Angola e do Benin (Flandrin, 1981 apud Mott, 2002, p. 08).
[...] Defendemos a hipótese de que o machismo nas colônias revela-se mais
virulento, e o patriarcalismo mais agressivo do que nas Metrópoles devido à
conjunção de dois fatores históricos um contingencial: a redefinição e
exacerbação da sensualidade no trópico dos pecados. O outro fator
consideramos essencial na cristalização do machismo latino-americano: o
reforço do patriarcalismo. Nesta colônia de dimensões continentais, os
brancos donos do poder representavam frágil minoria demográfica, numa
proporção de um branco para três ou quatro negros, índios, escravos e forros,
além dos mestiços de todos matizes.
[...] Nas colônias escravistas não havia lugar para efeminados, fracos,
pusilânimes, donzelões (Mott, 2002, p. 20).
Atos considerados nefastos, desta forma, eram punidos inclusive com a pena de morte, o que
levava os homossexuais a manterem suas práticas na clandestinidade.
No romance, os trechos transcritos nos ajudam a perceber o preconceito em relação à
homoafetividade. No ideário do narrador ela não podia ser aceita, não tinha justificativa
porque não faltavam mulheres correndo atrás de Ronaldo. A aversão de Estevo, mesmo
estando padre Belote e Ronaldo envolvidos em combater as injustiças de Santa Rita, revela
que a matriz heterossexual é um regulador social poderoso.
que se refugiaram no Brasil durante o século XVI. Escreveu o livro Viagem à Terra do Brasil, publicado pela
primeira vez em 1578, no qual descreve a natureza, a terra e os índios brasileiros e suas práticas. Registra entre
os Tupinambá a presença de índios que tinham práticas sodomitas (Mariz e Provençal, 2005; Peagle, 2005;
Salvador e Bruand, 1964).
90
Uso pejorativo: pederasta ativo, fanchão (Dicionário Houaiss). Expressão reservada “ao homossexual mais
espalhafatoso, que supomos equivaler hoje ao popular bicha ou mesmo à bicha louca, mas que guardava uma
crucial diferença face ao sodomita: o fanchono o praticava necessariamente o crime da sodomia perfeita
(penetração do pênis no ânus, com ejaculação), limitando-se aos ósculos, amplexos e molices (masturbação
recíproca) com parceiros do mesmo sexo” (Mott, 2002, p. 12).
88
2.7 O livro de Chernoviz: a prática da medicina popular
O novo sacerdote também entendia um pouco de medicina: chegou ao arraial trazendo
remédios de homeopatia, frascos de sais para manipulação e o “livrão de Chernoviz
91
”, um
manual de medicina popular. Medicou alguns moradores e logo ganhou fama de curandeiro
(SR, p. 80). Sobre a chamada medicina popular, Bariani Ortencio (1997), observa que no
sertão, devido à falta de médicos, de farmacêuticos, e de remédios alopáticos, a presença de
benzedores, curandeiros, raizeiros, parteiras é de grande valia, pois são eles quem dão apoio e
socorrem os doentes. A presença de bacharéis em medicina era praticamente inexistente no
interior do país. Normalmente eram as famílias mais abastadas e politicamente ativas que
conseguiam mandar seus filhos para estudar medicina e estes, quando retornavam,
procuravam abrir seus consultórios na capital do Estado.
Além de conhecedores dos princípios terapêuticos de plantas, alimentos e raízes, a
esses médicos populares são também atribuídos poderes mágicos, pois a cura também está
relacionada com a ligação entre o curandeiro e Deus. Com os avanços da medicina, com o
êxodo rural, com as transformações culturais, a crença nesses poderes sobrenaturais dos
curandeiros foi diminuindo. Atualmente inclusive certa dificuldade na sucessão dessas
atividades, pois os filhos não querem aprender a benzer, a fazer remédios caseiros com os
pais, muitas vezes por vergonha de tais práticas, mais um indicador do conflito intergeracional
(Ortencio, 1997).
No sertão, as crenças, rezas, sicas, causos, receitas, primeiros-socorros, remédios
caseiros são transmitidos de forma oral, de uma geração para outra. Em relação aos manuais
do Dr. Chernoviz, Santos (2008) destaca que, devido ao grande número de pessoas que não
tinham acesso à leitura, a transmissão do conteúdo destes livros também se dava oralmente,
que a linguagem e as explicações eram de fácil compreeno.
91
Dr. Pedro Luiz Napoleão Chernoviz (1812-1881), nome abrasileirado de Piotr Czerniewicz, nasceu na
Ponia, deixando o país,em 1831, ainda estudante de medicina, por ter participado de um levante contra o
domínio russo. Refugiou-se na França, onde concluiu seus estudos. No início de 1840 chega ao Rio de Janeiro,
buscando fama e fortuna. Percebeu que a população, quando procurava atendimento dico, recorria àqueles
mais renomados, que eram muitos na capital federal. No entanto, no interior do país a presença de médicos com
formação acadêmica era rara ao longo de todo o século XIX. Assim, teve a idéia de escrever um manual de
primeiros socorros, explicações e descrições sobre as doenças, indicações de procedimentos básicos,
manipulação das receitas que orientassem leigos e acadêmicos nos atendimentos corriqueiros. O manual foi
escrito em português, uma inovação, pois a maioria dos manuais da época era escrito em francês, e adaptado à
realidade brasileira, o que garantiu sucesso aos livros do Dr. Chernoviz (Guimarães, 2005).
89
No romance, percebemos a abrangência do manual de Chernoviz, com base no qual
frei Germano que “cura os enfermos e não usa cobrar nada” (SR, p. 81). No episódio da queda
de cabo Altino de cima da árvore, na qual fraturou o ombro quando foi pescar com Estevo e
seo-Pedro Ponte, também notamos o quanto é importante saber sobre as propriedades
terapêuticas de algumas plantas, num arraial em que não havia nenhum médico. Estevo foi
quem saiu à procura de ervas para que pudesse fazer um curativo no companheiro: “Panhei
resina de jatobá, que dizem que é bom para fazer pacho
92
e aplicar em fratura de osso, e saí
fora do caminho, arranjei arnica, mezinha indicada para tirar a dor de qualquer machucadura”
(SR, p. 69). Conhecimentos que Estevo aprendeu, certamente, com os pais e avós.
2.8 “Êêh! Chão parado!”
Para resolver a falta de professor em Santa Rita, seo-Pedro Ponte foi à Meia-Ponte
para contratar uma professora. Dona Philomena Ayres das Neves, que tinha o mesmo nome
da mãe e era filha ilegítima de seo-Francisco Vigilato, fato que praticamente todos em Santa
Rita desconheciam, foi escolhida e no final do mês estaria chegando ao povoado. Depois da
volta de seo-Pedro Ponte, a cidade especulava sobre a nova professora e os boatos corriam
soltos: que dona Filozica era boa professora, mas que às vezes “toma uns golos, pinta o sete”
e que era casada com um chichisbéu
93
, Alberto, que cuidava da lavoura de fumo da família
Ayres (SR, p. 85).
Santa Rita deu uma festa de boas vinda à nova professora, com muita música e dança:
Binidito Ofrazo na sanfona, cego Bregildo na viola e cabo Altino no violão. Os presentes
estavam vestidos com as suas melhores roupas. Filozica, como resposta à homenagem
recebida, tocou seu bandolim e cantou uma ária para os presentes. Estevo diz que o nome
Filozica sugere a imagem de uma mulher miúda, pequerrucha mimada, faces cor de jambo e
olhitos desenquietos. Vai ver encontra uma morena de bom corpo, olhos gateados enormes
que, em momento de ternura, derramam langorosos sobre quem ela se dedica(p. 97).
92
Curativo (Dicionário Aurélio).
93
De acordo com o Dicionário Aurélio chichisbéu é “aquele que corteja, com assiduidade, ou galanteia uma
mulher”; na obra assume um sentido pejorativo: seria o homem que não tem o pulso firme, que não assume o
comando.
90
Percebemos que a festa é uma forma de lazer na qual todos os grupos participam e
ajudam, quebrando a rotina do local. Para Durkheim (2001), todas as festas, mesmo aquelas
de origem exclusivamente laicas, teriam características comuns às cerimônias religiosas,
como a aproximação e a agitação entre as pessoas. Isto suscita um estado de efervescência
que rompe com as preocupações e ocupações cotidianas através da sica, do canto, das
danças, das comidas e bebidas, e que também transgride as normas coletivas. Nos
divertimentos coletivos, o grupo se sobrepõe ao indivíduo, reavivando os laços sociais. De
acordo com Amaral (2000), as festas estão associadas à dissolução das diferenças entre os
indivíduos participantes, o que, por sua vez, pode levar a situações de conflito e de violência,
já que a ordem é mantida através destas diferenças.
Para Roberto da Matta (1991) o espaço na sociedade brasileira está dividido entre o
mundo da casa e o mundo da rua e o outro mundo (o mundo regido pela religiosidade).
Assim, o sistema ritual brasileiro, compreendido pela festa, pelo cerimonial, pelo ritual, pelo
momento solene, relaciona dois conjuntos separados e complementares de uma mesma
organização social: a casa e a rua. Os ritos públicos, portanto, assumem
[...] aspecto legal, solene e que o controlados pelo Estado ou pela Igreja
sempre vêm da rua e, naturalmente, do “outro mundopara a casa, enquanto
todos os cerimoniais domésticos tradicionais nascimentos, batismos,
aniversários, casamentos e funerais fazem o movimento inverso: abrem a
casa para a rua, transformando o espaço doméstico da moradia em algo
público, área onde estranhos podem circular livremente (p. 68).
festas em que a ordem social é invertida, como ocorre nos carnavais e nas festas
populares em geral. Há também festas nas quais a sociedade se reúne pela renúncia e o
abandono às coisas deste mundo, como as festas da igreja, do outro mundo, nas quais se
verifica a tendência à neutralização. Há ainda as festas nas quais se verifica uma ordem
relacional marcada pela diferenciação, na qual as posições sociais externas são
indiscutivelmente acentuadas e reforçadas”, como as festividades patrocinadas pelo Estado
nacional (Matta, 1991, p. 69). Estes três focos de festividade podem ser interpretados como
discursos e apelos destinados a manter a coerência numa sociedade altamente heterogênea.
Depois de analisar o carnaval, o Dia da Pátria e as procises, Matta (1997) conclui
que
[...] os ritos não parecem ser momentos substantivamente diferentes daqueles
do mundo cotidiano, mas combinações desses momentos. O clima do ritual é
dado não por meio de transformações essenciais do mundo e das relações
91
sociais, mas por meio de manipulações dos elementos e relações desse
mundo. Os rituais seriam, pois, modos de salientar aspectos do mundo diário
(p. 83).
Nem todas as festas são pautadas pelo princípio de inversão da hierarquia social. É o
que percebemos em Santa Rita: nas festas promovidas pelas autoridades locais, como na festa
de boas vindas à Filozica, percebemos o reforço da ordem social através dos trajes
sofisticados: os homens do Conselho vestidos de terno, suas esposas “envoltas com muitos
panos, sumidas no meio das jóias” (SR, p. 99). Soldado Ano, que estava cuidando da
entrada, tinha ordens para não deixar entrar aqueles que estivessem mal vestidos. A divisão
dos espaços na festa se dava de acordo com a posição social: os mais ricos ficavam na sala
principal, onde Binidito Ofrazo e cego Bregildo comandavam as sicas. Lá fora, ao redor do
fogo, ficavam as pessoas mais simples, na “roda de contação de causos”, na qual seo-Arão,
que “tinha vindo a convite pra entreter os que não dançam”, contava rias histórias (SR, p.
99).
De acordo com Mauss (1974), as festas, por envolverem elementos políticos,
econômicos, estéticos, morais, religiosos, artísticos, podem ser analisadas como fenômenos
sociais totais, pautadas por regras de obrigatoriedade e reciprocidade. As festas seriam, desta
forma, trocas que envolvem dar, receber e retribuir. A festa oferecida por Santa Rita à
professora pode ser percebida como um presente da população local à nova moradora que,
além de aceitá-la, no momento oportuno deveria retribuir a dádiva recebida. Como fez
Filozica, em outros momentos.
Desde a festa de boas vindas, um interesse tuo entre cabo Altino e a professora,
sendo que os dois dançaram juntos por bastante tempo. Logo alguns homens de Santa Rita,
como Jirumim, estavam comentando debaixo dos baruzeiros que dona Filozica “estava
pegando fogo debaixo d’água” (SR, p. 100). Durante certo tempo, o envolvimento dos dois
era discreto e ninguém percebia. Mas depois os dois acabaram não fazendo mais questão
alguma de esconder o romance. Quando este envolvimento tornou-se público aos moradores
de Santa Rita, o Conselho dos Notáveis acabou intimando cabo Altino a não procurar mais a
professora, sob pena de ser repreendido de forma mais severa. Alberto então tomou
conhecimento do caso da esposa com o cabo; depois de audiência com o conselho, Filozica e
o marido concordam em ir embora da cidade.
No entanto, o Conselho repensa a decisão e, devido ao medo de a cidade ficar
novamente sem professor, pediram a Alberto que ficasse e tivesse mais um pouco de
tolerância com o cabo, pois este seria punido de acordo com seu atrevimento e o marido teria
92
sua honra lavada. Alberto, então, concorda em ficar. Filozica, no entanto, não sofre punições
ou represálias: continua amada e admirada pela população, além de continuar casada com
Alberto.
Um bito que, no início, não incomodava Estevo era o empréstimo de Sereno à
professora, que saia montada pelas ruas da cidade, quase todos os dias. Isso incomodava os
homens do Conselho e suas famílias, mas a maioria da população achava bonito. Tanto que
aos domingos passaram a vir rapazes dos sítios próximos para marcharem junto com ela.
Filozica montava vestida de terno de brim amarelo, com um lenço vermelho no pescoço,
chapéu comercial, barra das calças enfiadas nas botas que o marido engraxava todo dia. Certa
vez, Ediléia quis participar da cavalhada e chegou a se arrumar, vestindo o terno de um primo;
no entanto, a família não permitiu, pois aquilo seria um escândalo.
Em pouco tempo estes hábitos foram cada vez mais desaprovados pelo pessoal mais
rico. Aqueles que freqüentavam a casa de dona Silvana se reuniam para censurar a professora,
inclusive frei Germano, que se benzia horrorizado. Alguns vogais do Conselho afirmavam
que aquela postura era um desrespeito às famílias, que Filozica era depravada. Estevo diz que
a condenação à diversão inocente da professora era unânime pelos poderosos de Santa Rita.
Mas, para ele “ela faz é sacudir a pasmaceira aqui de Santa Rita”, opinião que, em pouco
tempo, mudaria (SR, p. 103).
Três dias depois de a cidade inteira tomar conhecimento do caso entre Filozica e
Altino, Estevo foi a uma reuno na casa da professora que, assim como o marido, se
comportavam como se nada tivesse acontecido. Havia muita gente e a anfitriã, como de
costume, se mostrava alegre e cuidadosa com as visitas. Alberto coou o café e fritou bolinhos,
os quais a esposa elogiava muito.
depois que o romance entre a professora e o cabo tornou-se de conhecimento de
todos em Santa Rita é que o Conselho se manifestou, talvez porque alguns dos vogais também
tivessem relacionamentos extraconjugais, inclusive com mulheres casadas, como o narrado no
episódio em que seo-Zezão Vigilato foi visto correndo pela cidade, na madrugada, de
botinas e ceroula. Altino foi advertido para que ficasse longe de Filozica, caso contrário
poderia ser punido de forma mais rigorosa, seria expulso da cidade, recolhido ao batalhão.
Aqui percebemos a presença de dois padrões morais: um estabelecido para os mais pobres e
outro seguido pelos graúdos da cidade, revelando os conflitos entre as classes, dos quais
falaremos mais adiante.
Desta forma, o cabo passa a ficar cada vez mais recolhido. Parou de ir ajudar a
professora na escola, onde exercitava os alunos, deixou de freqüentar os lugares de antes, cada
93
vez mais recluso à delegacia. Quando era visto andando pela cidade, não dava muita conversa.
Estevo e seo-Pedro Ponte é que iam visitar o companheiro, sem, no entanto, tocar no nome de
dona Filozica. De acordo com o narrador:
[...] aí foi que a professora se danou, redobrou as cavalhadas, o Sereno é que
pagou o pato. [...] Agora ela sai montada, passa na rua da delegacia, que o
povo fale á vontade, colhe as rédeas e despeja lá pra dentro olhares
compridos e pesarosos. Por último ela mesma cortou e costurou parelho
novo de montaria, calças largas que não requer botinhas, vai de cabelos
soltos, camisa xadrezada e a novidade: trinta-e-oito enchavecado no cinto,
cartucheira rodeado de balas. Dizem que é proibido andar armado na rua; e
daí?
[...] Moradores dali, umas mulheres, aprovam com arrufou: “êh... chão
parado!”, e ela desce de toda vaporosa, os cabelos esfarelados no ar, o
cheiro de patchuli ficando para ts. Num dia desses o de conteve:
disparou dois tiros no passar na porta da delegacia, valendo-se da hora que o
soldado Antão andava ausente (SR, p. 108).
Embora cada um em Santa Rita contasse de forma diferente o que teria acontecido na
audiência promovida pelo Conselho, para que Altino estivesse sumido daquele jeito, em todas
as versões era recorrente a possibilidade de seo-Zezão ter dado uma surra no cabo, na
tentativa de lavar a honra de Alberto. Estevo se indagava se seria possível que a valentia do
companheiro se resumiria a apenas
[...] torcer o braço dos presos, dar pontapé nos documentos dos pelegrinos,
mandar os bate-paus passarem a guaspa nos bêbados, todo dia de domingo,
de tarde. Alguma ação ele ainda vai fazer. Botar os podres dos graúdos pra
fora não será; podridão dessa gente não é segredo para ninguém, pouco ou
nada adianta puxar por elas. lhe resta, como recurso único de vingança,
astuciar um modo de desinquietar a população, flagelar a vida dos pequenos,
vingar neles as desfeitas que levou (SR, pp. 110-111).
Dona Filozica continua a cavalgar perto da delegacia, vestida com mais requinte: além
do cinto largo, no qual ia o revólver, o chapéu passou a ser seu adereço constante, alternando
o uso de fitas verde e vermelha, que, nas observações do narrador, significam esperança e
guerra. Duas vezes por semana ela ia para os lados do cemitério, disparava seis tiros e soltava
um “- Êêh... chão parado!...”. Estevo tenta arrancar de Diolina o que se passa com a
professora, que as duas são amigas. Mas Diolina afirma não saber de nada, apenas que a
patroa tem
[...] doidura para sair, conhecer mundos. Ela diz que não vai ficar enterrada
no sertão a vida inteira mas é nunca, estragando sua mocidade, gastando suas
94
forças. Tudo ela faz numa alegria esfuziante, quanto mais o povo fala mais
satisfeita ela se acha. Imagina as façanhas, se entusiasma e se emociona,
dispara gaitadas de beber fôlego, ao que figura certas passagens (SR, pp.
111-112).
Aos domingos Filozica levava os alunos à missa e frei Germano dava as aulas de
catecismo, presenteando as crianças com santinhos e verônicas. O narrador observa que a
professora tinha sempre um ar compenetrado, com o rosto coberto por um véu de crepe.
Confessava-se com o vigário e, como não recebia penitência, não devia ser pecadora: recebia
a hóstia consagrada como quem está de alma leve; “Suas molecagens ela o confessa, frei
Germano é magnânimo até mais não poder” (SR, p. 112).
Estevo fica curioso para saber qual a opinião de seo-Francisco Vigilato sobre a história
envolvendo a filha. Um dia vai até a fazenda e o encontra animado. Soldado Antão, que se
encontrava na propriedade, cortando lenha, diz a Estevo que seo-Chiquinho perguntava sobre
as travessuras da filha e dava boas risadas, dizendo que a mãe dela também era assim. A
professora chegou a procurar o pai, mas sea-Lixandra não a viu. Desceu do cavalo, pediu a
benção, conversou sobre formalidades e foi embora. Seo-Francisco não gostava de tocar neste
assunto, sempre desconversava
[...] talvez deva ser porque lhe dói recordar. Nisso ele é um que é diferente.
Os muitos outros adoram contar seus passados, as recordações sabem-lhes
bem à alma cansada, viver outra vez relatando façanhas, ou inventando-as.
Seo-Chiquinho levava-as para cova, vai restar do seu passado o que seus
contemporâneos têm para contar dele (SR, p. 113).
Com os avisos do Conselho, cabo Altino passou a ficar cada vez mais esquisito: era
visto andando de óculos escuros, num passo largo, “que nem esteja pulando enxurrada”, não
cumprimentava nem respondia aos cumprimentos. Depois da represália pelos graúdos, o cabo
passou a “encher o cachimbo de erva braba
94
”, o que explicaria seu comportamento estranho
(SR, p. 115). Até o dia em que raptou Filozica e a levou consigo para a cadeia, depois de ter
tentado atirar em Alberto. Quatro homens do Conselho ordenaram que cortassem a água e
mantimentos da cadeia e que se dona Filozica quisesse poderia sair. Cinco homens armados
faziam vigília e caso Altino tentasse fugir, as ordens eram para atirar e acertar.
A captura da professora era contada de diferentes formas: uns diziam que “cabo Altino
arrancou ela do canto de cama do marido, saíram os dois abraçadinhos, ela por sua livre
vontade, deixou se trancar com ele na delegacia”; outros diziam que os dois tinham se
94
Diamba, maconha (Dicionário Aurélio).
95
encontrado na casa da escola e foram passar o restante da noite na casa da delegacia, devido
ao cansaço, acabaram pegando no sono (SR, p. 116). Quando Alberto foi levar o café da
manhã para a esposa, como sempre fazia e acabou sendo surpreendido pelos tiros do cabo,
dados apenas para impedi-lo de se aproximar de Philomena.
Foram quatro dias de cerco à delegacia. Não se ouvia nenhum ruído. Estevo conta que,
no início, o ar das pessoas que observavam era respeitoso, mas, com o passar das horas,
começaram os chistes e as piadas de mau gosto, dirigidas ao cabo. As garrafas de pinga, que
foram sendo trazidas, só aumentaram as gozações.
Os homens do Conselho não se misturam aos demais, talvez porque, nos dizeres do
narrador, todos da nossa categoria ali reunidos somos do partido de cabo Altino” (SR, p.
118). No meio da noite os graúdos se debandam e resolvem deixar a guarda e as armas com os
simpatizantes do cabo que, como Estevo, se recusaram, dizendo não saber lidar com aquele
tipo de arma.
Alberto se mantinha quieto, sem reação: “Também ele, na qualidade de chichisbéu,
padecia lá seu tanto de queimor nas orelhas (SR, p. 119). De repente, Filozica sai da
delegacia
[...] com os cabelos bem penteados, somente as roupas se apresentavam meio
fuxicadas; e vinha com um ar de riso do seu natural brejeiro, sua mimosura
nas faces, doçura enorme nos olhos lubrificados. Faz um aceno largo de
saudação, como quem chega de feliz viagem. Recebe estrondo de palmas,
ela franqueou saudação amistosa, estendendo a mão a todos, indo-se de
braço dado com o marido [...] (SR, p. 119-120).
Assim, apenas o soldado Antão, devido às obrigões do cargo e às suas desavenças pessoais
com Altino, permanece na vigília, junto com os capangas trazidos para atirar no cabo. Os
demais acabam voltando para casa, já que “o interesse de ficar mingou” (SR, p. 120).
No caminho para casa, Estevo encontra Diolina, que fica muito satisfeita com a notícia
de que a professora tinha saído da delegacia, e se apressou para ir fazer um café para a patroa,
que Alberto deveria estar fritando os bolinhos de polvilho. Estevo ficou triste pelo
companheiro de pescarias e caçadas, por seu futuro estar nas mãos dos donos da “justiça”, e
divaga: “Má sorte, uma mulher estróina, trunca sua vida, com a metade vivida” (SR, p.
120).
Cabo Altino é assassinado, a mando de seo-Zezão Vigilato, mas a cidade inteira se
comporta como se nada tivesse acontecido, aliás, muito pior que isso, na visão do narrador,
qualquer referência ao cabo era proibida, ilícita, heresia. Estevo tenta conversar sobre o
96
ocorrido com seo-Pedro Ponte, mas este foge do assunto por ser “carne com unha” da família
Pereira Moreira. Outro que desconversa e que não toca no assunto é frei Germano “que
enterrou a cabeça na areia, nem o tantinho disto aqui uma pontinha de unha se dignou a
fazer em defesa de uma vida”. Tudo isso fez com que Estevo ficasse descrente: “Meu coração
já não é mais aberto, como dantes era; afora passar tempos sem ver seo-Pedro Ponte já não me
é mais sacrifício” (SR, p. 122).
Logo depois que dona Filozica se recuperou do “cativeiro”, ela e o marido deram uma
festa. A professora estava alegre, receptiva. Os presentes, mesmo com Estevo puxando
assunto, não queriam tocar na história de cabo Altino, Eram todos como se não tivesse
havido nada, a morte de animal seria sucesso mais notado e sentido [...] que eu tenho que ficar
danado? [...] Sou alguma coisa dele? Quem era para chorar e sentir está dentro
pagodeando(SR, p. 123). Filozica cantou, acompanhada por Diolina, algumas músicas que
denotavam sofrimento, saudade
Já fui amada e querida,
Já fui flor do jasmineiro,
Hoje ando desprezada
Qual cisco do terreiro,
Já tive amores de graça
Agora, nem a dinheiro... (SR, p. 124)
Estevo, que sempre escutava as hisrias, para depois formular sua própria versão,
percebe que os murmúrios sobre o cabo Altino, no início tão comuns, foram ficando cada vez
mais escassos. Mas, na verdade, o que acontecia é que evitavam falar na presença de Estevo.
O narrador, através das pistas, acaba identificando os autores e os cúmplices que executaram
Altino, entre eles Genor e soldado Antão. Estevo diz que, apesar de não lhes ter feito
nenhuma ofensa, os dois, antes tão camaradas, esfriaram, passaram a evitar a convivência, o
que levou à desconfiança de que estariam envolvidos na morte do cabo.
Com Diolina o narrador também passa a ficar desconfiado, pois ela passa mais tempo
com a professora do que com ele. Dona Filozica a levava na garupa nos passeios que dava
com Sereno. “Se de uma hora pra outra ela me desprezasse de todo,o me panhasse
desprevenido; escaldado, escaramentado, essa dnão ia acabar com minha alegria: Lucinda,
a outra, me exemplou” (SR, p. 133).
Desta forma, Estevo passou uns seis meses viajando, ajudando em lavouras,
transportando carga, ajudando na engorda de gado. Quando chegava de uma de suas viagens,
foi pego de surpresa por um bando que sitiou Santa Rita, não deixando ninguém sair nem
97
entrar. Mais ou menos quarenta homens tomaram o arraial e em poucas horas desarmaram
toda a população e prenderam os graúdos, com exceção daqueles que, ao ficar sabendo da
invasão, fugiram, como seo-Pedro Ponte. Capturaram inclusive dois vogais do Conselho. Pelo
jeito das roupas e por certos hábitos ficava claro que eram militares enviados para apurar a
morte de cabo Altino.
Alguns moradores foram intimados a ajudar o bando, como Estevo, que ficou
encarregado de conseguir alimento para eles. Alberto ficou responsável pela lenha. Como o
bando se instalou na escola, dona Filozica tomou conta da recepção do grupo. No outro dia
estavam interrogando as pessoas presas para saber sobre o fuzilamento de cabo Altino. Até
seo-Francisco Vigilato foi levado para ser interrogado. Jirumim, que tentou interceder por
seo-Chiquinho, para que não fosse maltratado por conta da idade, levou uma surra que acabou
o matando uns dez dias depois.
Em cinco dias, depois de terem julgado os mandantes e cúmplices na morte de Altino,
a expedição se dispersou. Dona Filozica deu um baile de despedida, no qual cego Bregildo e
Binidito Ofrazo tocaram para a força militar. Ediléia ficou responsável por convidar a
vizinhança e trazer moças para dançar. Dona Filozica e Diolina fizeram um dueto, cantando
uma modinha de despedida:
Amanhã eu vou me embora
É porque preciso i
Saio pro mundo girando
E nunca mais eu volto aqui (SR, p. 141).
Ao amanhecer, a soldadesca desarmou as barracas, arrumou as mochilas para partir.
Filozica e o marido chegam para embarcar. Alberto se arruma na carroceria do caminhão com
os solados, enquanto a esposa se acomodou, junto com Diolina, na boléia do comandante.
Estevo deixa seu último registro: “Tudo passou comigo tresvariado, ao que vislumbro daquela
temporada aziaga; vou me embora daqui, Santa Rita não presta mais” (SR, p. 141).
98
2.9 Conselho dos Notáveis X Sociedade de Lavradores
Se a autoridade em Santa Rita era a família Pereira Moreira, na Cabeceira do
Maxambombo
95
, povoado contíguo, o mando estava nas mãos de seo-Mané Baiano, e Estevo
afirma não querer confusão com nenhum deles, por isso realiza trabalhos tanto em Santa Rita
como no Maxambombo. Seo-Ma tinha lavouras e, nos dizeres de Estevo, “a gente dele é de
mais de 30 famílias”. Depois de ter atirado num boi de seo-Zezão, que estava dando prejuízo
na plantação de mandioca, os dois se desentenderam e se tornaram rivais e seo-Mané mandou
dizer a seo-Zezão “[...] que estava com a carabina cheia para descarregar na cara do dono. Se
ele achasse ruim e se arreminasse
96
” (SR, p. 75). Mas o desentendimento era mais antigo, pois
o sítio de seo-Mané era num terreno desejado pelos Pereira Moreira.
Estevo, na época da lavoura no Maxambombo, costumava ajudar puxando o
mantimento das roças. Ao conhecer seo-Mané Baiano, o narrador declara que “[...] aquele
homem é de peso, um negro de alma branca, como diz. É calmo, de conversa macia,
serviçal e prestativo, não sei por que ganhou a fama de brabo, que ninguém tira farinha com
ele (SR, p. 75). As desavenças com os Pereira Moreira se agravaram depois dele ter sido
eleito para a Sociedade dos Lavradores, um ajuntamento de gente miúda, dizendo que
para dar força aos mais fracos para que ninguém mais fosse prejudicado pelos patrões aqui na
Santa Rita” (SR, p. 74), e que contava com o apoio de padre Belote, Ronaldo e cabo Altino.
Machambombo foi o nome dado à cidade conhecida, atualmente, como Uruaçu, no
norte do Estado. O povoamento de Uruaçu começou a partir da descoberta de ouro nas jazidas
do Tocantins sendo que, por volta de 1730, a produção diminuiu consideravelmente. Os
moradores mais antigos da região
97
relatam que Amaro Leite Moreira, que tinha uma grande
quantidade de escravos trabalhando na mineração, estava descontente com o arrefecimento da
produção na região de Cocal. Por isso resolveu seguir o rio Maranhão, até o Porto das Lavras,
95
Machambombo, grafia oficial; grafado com x, Maxambombo, ressalta a informalidade da linguagem utilizada
pelo autor.
96
Arremiar-se: zangar-se (Dicionário Aurélio).
97
De acordo com as informações do Jornal Cidade, que criou um dossiê sobre a formação e fundação de Uruaçu,
com base em textos de historiadores locais, bem como relatos dos moradores mais velhos:
http://www.jotacidade.com/especiais/exibir.php?noticia_id=28&noticia_link=10&noticia_data=04-01-
2006%2023:01:24;
http://www.jotacidade.com/especiais/exibir.php?noticia_id=27&noticia_link=10&noticia_data=04-01-
2006%2023:01:08; e outros artigos referenciados na bibliografia.
99
a fim de explorar o ribeirão Passa Três, Grotão e Barreiro Rico. Subiu pelo Passa Três a
suas cabeceiras, na Serra do Pilar. Um de seus companheiros, de nome Antônio
Machambombo, ficou acampado, explorando os afluentes do rio Passa Três, onde,
supostamente, teria sido atacado por um grupo de índios Canoeiro. rias pessoas teriam
morrido neste ataque, incluindo Antônio, por isso o rio teria sido batizado, em sua
homenagem, com o nome Machambombo.
Outra versão contada pela população mais antiga é que o nome Machambombo teria
sido uma homenagem feita pelo primeiro fazendeiro a chegar ao local. Este fazendeiro
resolveu dar às terras goianas o mesmo nome daquelas que possuía em Minas Gerais. De
acordo com as informações do IBGE
98
, o povoamento do local se deu a partir da fazenda
Passa Três, adquirida pela família Fernandes, em 1910, ainda sob a jurisdição do município de
Pilar de Goiás. A fazenda, situada entre os rios Passa Três e Maranhão, estava às margens da
estrada real de tropeiros e comerciantes vindos do sul.
O coronel Gaspar Fernandes de Carvalho construiu uma igreja dedicada a Nossa
Senhora Santana, em 1913, e doou terras para que o povoado de Santana do Machambombo
fosse erguido. Em 1922 foi inaugurada a Capela de Santana e, em 1924, o povoado de
Santana foi elevado à categoria de distrito. Gaspar Fernandes construiu o cemitério local, a
cadeia pública e um prédio para o grupo escolar. Na década de 1930, com a supressão do
coronelismo, Gaspar organizou em Goiás a Aliança Liberal
99
, obtendo um corpo eleitoral
considerável. Em 4 de julho de 1931, Santana do Machambombo emancipa-se política e
administrativamente de Pilar de Goiás; Gaspar é nomeado juiz municipal e seus parentes
assumiram os demais cargos. Em 1953 o município passa a se chamar Uruaçu
100
.
Na década de 1950, a construção da Rodovia Belém-Brasília (Transbrasiliana), para
alguns autores, representa um momento de transformações, de integração e do renascimento
da cidade (Gandara, 2008). Como dito no primeiro capítulo, muitos estudos sobre Goiás o
pautados pela idéia do isolamento e, conseqüentemente, do atraso, da decadência. O norte do
Estado era percebido como uma área de vazio demográfico, e as análises buscavam identificar
os obstáculos ao desenvolvimento da região: isolamento geográfico, dificuldades com as vias
de comunicação, população escassa e dispersa, pecuária extensiva e agricultura de
98
Disponíveis em: http://biblioteca.ibge.gov.br/visualizacao/dtbs/goias/uruacu.pdf.
99
União de políticos descontentes: mineiros e gaúchos, de pequenos partidos, de civis e militares que se
opunham à candidatura de Júlio Prestes. Em 1929, Washington Ls contrariou a política café-com-leite: deveria
indicar um mineiro para a sucessão presidencial, mas Júlio Prestes era paulista, o que levou ao racha. Getúlio
Vargas, candidato da Aliança Liberal, através do movimento de 1930, assume a presidência do país (Nadai e
Neves, 1995).
100
Que significa, em tupi-guarani,ssaro grande:
http://biblioteca.ibge.gov.br/visualizacao/dtbs/goias/uruacu.pdf.
100
subsistência, a suposta preguiça do povo (acostumado às atividades voltadas à subsistência)
101
e o descaso das autoridades
102
.
Entre 1930 e 1960 as políticas governamentais passam a se voltar para a integração
nacional, incorporando Goiás às exigências de produção capitalista nacional. Com o Estado
Novo
103
, Pedro Ludovico foi nomeado interventor e buscou implementar uma série de
modificações na infra-estrutura, a fim de que o Estado fosse ocupado, já que os vazios
demográficos representariam um entrave. A Capital foi transferida da Cidade de Goiás, antiga
Vila Boa, para Goiânia; foi fundada a primeira colônia agrícola do Estado, em 1941, a
Colônia Agrícola Nacional de Goiás (CANG); estradas foram abertas e a rede ferroviária foi
ampliada. Esse movimento de ocupação, promovido pelo governo federal, com o objetivo de
alargar as fronteiras econômicas e humanas ficou conhecido como a Marcha para o Oeste
104
.
A construção da Transbrasiliana, através do escoamento de mercadorias, levou à
expano urbana de Uruaçu. Gandara (2008) afirma que esta rodovia foi outro indutor do
movimento migratório no município, direcionando a ocupação das terras tidas como
devolutas, com a conseqüente valorização fundiária. A cidade passou a ser parada obrigatória
para quem utilizava a auto-estrada, indo para o Norte ou para o Sul do país.
No romance, já havia um povoamento na região do Machambombo quando seo-
Francisco fugiu do Jalapão, em decorrência dos desentendimentos que tivera com seus
primos:
Esse seo-Francisco Vigilato, que os de fora que vêm chegando tratam de
seo-Coronel, é natural do alto do Jalapão, nas costaneiras do Estado da
Bahia; e segundo contam os antigos, ele veio de correndo, escaramuçado
por uns primos: descombinaram por conta de criação atentada - vaca
varadeira de cerca, bode estragando plantação, e briga de marruás, um
101
A esse respeito, Antonio Candido (1977) destaca que a agricultura familiar, voltada à subsistência, dispensa
cuidados e dedicação extensiva. Por obedecer o ritmo das estões da natureza, a lavoura o é cultivada o ano
inteiro, há uma grande margem de tempo livre, que não deve ser confundido, de forma alguma, com preguiça ou
indolência, sendo encarado como o resultado deste tipo de organização, pautado pelo o que o autor denomina de
mínimos vitais, dos quais falaremos mais adiante.
102
A este respeito, Alves (2009), por meio de seu estudo sobre o Tocantins, especificamente sobre a cidade do
Duro, atual Dianópolis, destaca como estes elementos perpassam as narrativas históricas sobre o antigo norte de
Goiás, em grande medida influenciadas pelas noções de atraso e decadência. Em 1988 essa região torna-se mais
um dos Estados da federação, a ser incorporado pela modernidade e integrado à lógica capitalista.
Conseqüentemente a negação do passado atrasado e um deslocamento do sertão. Se a modernidade chega à
região, então ela deixaria de pertencer ao sertão, e este deveria ser deixado para trás. Mas Guimarães Rosa nos
mostra que isso é impossível, que o categorema é complexo, sendo o sentido geográfico apenas um de seus
componentes: Sertão é isto: o senhor empurra para trás, mas de repente ele volta a rodear o senhor dos lados”
(1978, p. 218).
103
De 1937 a 1945.
104
Uma das propostas governamentais para o desenvolvimento e progresso do país, visando a migração de
populações de outras regiões para o Centro-Oeste e Amazônia, para ampliar os núcleos habitacionais já
existentes e explorar melhor os recursos da região (Oliveira, 2007).
101
empurrando o outro ribanceira abaixo -, foi dar o tom na Meia-Ponte, entrou
na sombra do chefe maioral de [coronel Felinho
105
]. Depois, com vagar,
requereu isto aqui, lugar que ele já conhecia dantes, como sendo o pouso do
Passo Fundo, no riacho Passa Três (SR, p. 13).
Esse povoado, conforme exposto no início deste capítulo, foi descrito como atrasado,
que “nem roça eles faziam” (SR, p. 29). As discórdias entre seo-Mané Baiano e seo-Zezão
iam crescendo cada vez mais. A família Pereira Moreira queria cobrar arrendo sobre todas as
plantações, inclusive no Maxambombo, o que irritou seo-Mané, que alguns terrenos que
não tinham donos (ou seja, que não estavam registrados em cartório como pertencendo a
ninguém), por isso “era roubo cobrar qualquer importância do que fosse plantado ali”. Seo-
Zezão, quando trazia “o nome de seo-Mané, tremia os bigodes e se referia ‘àquele negro, a
negralhada daquele crioulo’” (SR, p. 93).
Para a chegada de dona Filozica, seo-Mané também ajudou, enviando, através de
Estevo, cachos de banana, meio alqueire de arroz e um porquinho. O apoio à professora era
decorrente de um bilhete em que ela, diante do pedido de matrícula das crianças do
Maxambombo, respondeu dizendo que a escola estava aberta para todos. Além do costume de
andar a cavalo, outro ponto comentado pelas pessoas de Santa Rita para que Filozica e
Alberto não se dessem muito bem com o pessoal do Conselho era o fato de que a plantação de
fumo do marido da professora foi estabelecida no Maxambombo.
No decorrer da obra vários trechos que ilustram a desigualdade social e a
discriminação racial. O narrador diz que, no sertão, para evitar problemas da criação de um
invadir o espaço do outro, os criatórios têm que ser longe uns dos outros e “à gente pobre não
é dada a faculdade de ter criação nenhuma, os bichos dos agregados é que atentam o
vizinho” (SR, p. 15).
Sobre as melhorias feitas em Santa Rita, toda a população, como dito anteriormente,
deveria contribuir com uma parte nas despesas das obras. Quando foram construir a igreja
[...] até as velhinhas pobres das pontas de rua, viúvas desvalidas, segundo
eles contam, foram intimadas a cooperar: elas é que socaram as taipas das
paredes, uma por uma. Ainda tiveram que agüentar as imposições do feitor,
que passava todo o tempo aí, rente no pé do serviço, fiscalizando. As
mulheres socavam uma camada de terra, até bater no teso, as mãos-de-pilão
pularem pra cima, o feitor vinha examinar; batia um prego caibral no
pisoado: se ele enterrasse até o meio e eles dessem conta de arrancar com a
mão, tinha que socar mais, ainda não estava bom.
105
“Foi o tempo em que deu de amizade com um dito coronel Felinho que, enquanto viveu, foi o mandão não
da vila, mas estendendo sua autoridade em meio mundo” (SR, p. 14).
102
Todo material foi adquirido por subscrição; levantaram dinheiro para pagar a
ferragem e os oficiais que vieram de fora. O que me disseram que foi
crueldade é que o fogueteiro recebeu intimação, teve que entrar com a
foguetama por sua conta, queimada no dia que celebraram a primeira missa
na igreja nova. Material de fazer foguete é caro e o fogueteiro é pobre.
E depois os homens do Conselho é que ficam com as glórias, nome deles
consagrados nas prédicas do padre, e eles não tiveram uma só ação de louvor
para os trabalhadores e para os que entraram nas subscrições. Por causa
dessas coisas é que o povo desadora os vogais do Conselho (SR, pp. 40-41).
Para tentar amenizar as injustiças, os moradores de Santa Rita e Maxambombo se
organizam para formar a Sociedade de Lavradores, também chamada popularmente de
sociedade de gente miúda, que contava com o apoio de cabo Altino, vivo à época, e do padre
Belote e mestre Ronaldo, que ainda não tinham sido expulsos. Seo-Mané foi escolhido como
líder da Sociedade e, para diminuir o preço dos arrendamentos, sugeriu que não fosse pago
nada dos mantimentos plantados no meio do milho e do arroz, como o feijão, a fava, e o
gergelim. Os lavradores tinham que pagar impostos sobre tudo o que plantavam e, por isso,
acataram com facilidade a proposta de seo-Mané.
Quando Estevo, depois da morte de Altino, foi ajudar no feitio da rapadura no
Maxambombo, esteve novamente com seo-Mané, que estava supervisionando as atividades,
realizada pelos filhos e genros, e ele era a única pessoa de fora. Antenore é o genro que o
ajuda a lembrar de nomes e fatos, que o sogro não está com a memória muito boa: “Um
genro, que até é menos escuro, é predileto, sempre chamado pra isso” (SR, pp. 128-129).
Apesar de o preconceito racial ser denunciado na obra, percebemos que es diretamente
relacionado à questão das desigualdades sociais. Os personagens que se revoltam contra as
injustiças, além da marginalização política e econômica, têm a exclusão reforçada pela
discriminação racial.
Como o cenário do romance é um pequeno povoado no qual prevalecem as atividades
agro-pecuárias, é necessário tratar, ainda que de forma resumida, sobre a questão do
campesinato com base nos estudos de Em Brandão e Ramalho (1986), nos munipios de
Diolândia e Mossâmedes, Goiás. Em Diolândia, as poucas e grandes fazendas de criação de
gado passaram a ser divididas entre fazendas e sítios menores, cada vez mais dedicados à
lavoura, sobretudo de arroz, milho e feijão, o que a “aproxima de uma área tipicamente
camponesa” (Brandão, 1986, p. 41). Parte da produção de cereais é produzida para consumo
próprio e o restante vai para as mãos dos cerealistas intermediários locais, que fazem a
revenda desta produção. Na época do estudo, havia muitas pequenas e algumas médias
propriedades rurais, ocupadas por famílias, na sua maioria, nucleares (pai, mãe e filhos
103
pequenos e solteiros), que viviam nestas propriedades. Já os habitantes do concentrado urbano
ou das fazendas, classificados como não-propietários rurais, eram produtores parceiros de
cereais sob sistema de arrendo ou de meia.
Quando o município começava a ser organizado, as fazendas eram habitadas pelo
fazendeiro e, além da própria família, pelos agregados e suas famílias. As fazendas tinham um
preço baixo, o que atraiu a vinda de fazendeiros mineiros, que marcaram o crescimento da
cidade. O valor da produção agro-pecuária também não era alto: os cereais eram plantados
praticamente para a subsistência e o excedente era consumido na própria região, que as
condições de escoamento eram muito reduzidas. O gado tinha uma facilidade maior para ser
vendido.
Nas propriedades o fazendeiro cedia, tanto aos parentes não nucleares como as
agregados, o direito de uso de uma parte das terras para a sua própria lavoura, mediante o
pagamento do arrendo ou da meia. Pelo sistema de arrendamento, ou arrendo, um acordo
através do qual os proprietários de terra cedem a trabalhadores rurais, por certo tempo e por
determinado preço, o usufruto de um lote de terras. Já no sistema de meia,a parceria entre
o arrendatário e o proprietário das terras utilizadas, com a entrega, por parte do primeiro, de
uma parcela de sua colheita, geralmente a metade, ao segundo. Além disso, agregados e
parentes também tinham a permissão de construir uma residência, ou ocupar uma
construída, e criar algumas cabeças de gado em pastagens da fazenda. Como não havia, ainda,
a presença de grandes proprietários, as terras estavam nas mãos de médios proprietários, que
não ocupavam a totalidade das terras por o poder cultivá-las com o trabalho exclusivo da
família nuclear e por não ter dinheiro para sustentar muitos trabalhadores assalariados. Assim,
entregava a meeiros e arrendatários partes da fazenda, garantindo que obtivesse uma
porcentagem de lucros na safra de cereais.
Sobre a atividade feminina e infantil em Diolândia, Brandão (1986) destaca:
A distância de centros distribuidores de bens beneficiados de consumo e o
alto preço com que eles chegam até os centros urbanos próximos obriga,
logo de saída, a que as mulheres camponesas tenham uma atividade de
economia doméstica incomparavelmente maior do que a de esposas e filhos
moradoras nos centros urbanos.
[...] Desde muito cedo os filhos ajudam os seus pais nos trabalhos de casa e
na lavoura de cereais. duas razões para este uso precoce: 1º) o alto custo
do trabalho assalariado, para as atividades domésticas e principalmente, para
o trabalho agrícola; 2º) o fato de que boa parte do trabalho necessário, tanto
em casa (cuidado com os filhos menores, cozinha, limpeza), como na
lavoura (plantio, limpa do arroz, colheita) pode ser feito ou ajudado por
crianças e, com melhor rendimento, por adolescentes (p. 45).
104
Uma situação que se transforma, cada vez mais, com a vinda de imigrantes, com a introdução
de quinas nos servos agrícolas, e com a presença de grandes latifundiários. A tendência,
com estas modificações, é que as pequenas propriedades se tornem, por conta de herança,
cada vez menores, impossibilitando a partilha de terras entre todos os filhos, e estes por sua
vez se dediquem cada vez mais aos estudos, “para aprender uma profissão”, e nas duas
situações a procura pelo trabalho urbano e a mudança para cidades maiores (Brandão, 1986, p.
54).
Em Diolândia, a falia camponesa é uma pequena unidade de produção que habitava,
administrava e cultivava sua fazenda. A ordem familiar (relações sócio-afetivas) e a ordem
produtiva (relações empresariais) são necessariamente complementares. A identificação de
alguém como parente se dá em decorrência de seu reconhecimento como produtor e da
definição de direitos e deveres na produção.
Já em Mossâmedes, Ramalho (1986) se deteve ao estudo das relações de trabalho no
campo, pautadas pelo binômio dominação-dependência conseqüente da posse e do uso da
terra. Assim, temos a presença dos proprietários rurais que podem ser pecuaristas ou
cerealistas; o vaqueiro, ligado à criação de gado que, normalmente, trabalha para o pecuarista;
os produtores agrícolas não proprietários, divididos em: meeiros, arrendatários, agregados,
moradores na cidade (que, na época da safra são contratados, ganhando por dia de trabalho-
diarista), ou trabalhadores rurais assalariados (que vendem sua mão-de-obra a mais de um
proprietário ou arrendatário); e os proprietários rurais camponeses, que contam com o
trabalho permanente da família e utilizam diaristas no período da colheita.
No município, houve
[...] o aumento acentuado de trabalhadores rurais que migraram do campo
para as cidades (rurais), onde passam a morar com suas famílias. Sua força
de trabalho é vendida “como diaristas” aos fazendeiros do município, para
serviços como: limpa, plantio e colheita de cereais. Fora estes períodos de
empreitadas no campo, esses trabalhadores têm procurado algum tipo de
trabalho urbano (Ramalho, 1986, p. 105).
Ligados à comercialização de produtos agrícolas, sobretudo o arroz, encontra-se
algumas categorias de trabalho como os cerealistas, que geralmente possuem um armazém de
estocagem e são os intermediários na compra e venda de cereais entre lavradores e
compradores dos grandes centros. Em geral, o cerealista é também fazendeiro e revende os
grãos mais caro do que comprou dos lavradores, depois da seca e estocagem. Há também os
105
donos das máquinas de arroz, responsáveis pelo processo de beneficiamento, e os
comerciantes locais, normalmente provenientes de “uma situação de trabalho ou agrícola ou
com o gado, e que mantém uma relação de crédito com o lavrador bastante peculiar. [...] O
crédito é sempre mantido a fim de continuar a relação” (Ramalho, 1986, p. 105).
Em lugares em que as estruturas tradicionais foram pouco afetadas pelas inovações
tecnológicas, a terra continua sendo a principal fonte de riqueza. Os grandes proprietários,
com propriedades entre 500 e 600 hectares
106
, geralmente, não residem nas terras, nem no
povoado/ município próximo a elas, e sim em algum centro urbano (como Goiânia). Nas
terras ficam os funcionários que administram os negócios e, por isso, não possuem influência
na política do município. Sua dominão ocorre através das relações com a mão-de-obra
assalariada que trabalha na época das safras (já que a presença de meeiros é cada vez menor),
a quem são pagos salários muito baixos.
Os médios proprietários, com propriedades entre 200 e 300 hectares, por sua vez,
residem na parte urbana do município, e dominam a política local, através do exercício de
cargos burocráticos importantes ou da posse de maquinário e de estabelecimentos comerciais.
Sua posição de dominação ocorre no nível social, através da exploração do trabalho de
meeiros e arrendatários, como dos trabalhadores sazonais, empregados em suas propriedades.
O proprietário que exerce alguma função política municipal aumenta sua dominação pessoal
através da concessão de favores.
Já os pequenos proprietários, cujas terras possuem 10 hectares, não podem ser
considerados como membros de uma classe dominante. Em alguns períodos exercem algum
tipo de relação de dominação quando contratam, na época da colheita, o serviço de diaristas.
Mas, como a propriedade é muito pequena e insuficiente para sustentar a família, o camponês
acaba tendo que “‘tocar roça na meia’ e, às vezes a trabalhar como assalariado na ‘colheita
dos outros’” (Ramalho, 1986, p. 110).
A categoria sem-terra, ou seja, aqueles que não possuem nenhuma propriedade rural, é
composta pelos meeiros e arrendatários, totalmente dependentes da vontade do dono da terra.
Dela também fazem parte os trabalhadores rurais assalariados, que vendem sua força de
trabalho, como os vaqueiros (pecuária) e os diaristas (lavoura). Como o acesso à propriedade
das terras fica cada vez mais escasso, ficam cada vez mais a mercê dos grandes e médios
proprietários rurais, o que gera grande mobilidade de trabalho e habitação dos trabalhadores
rurais, de acordo com a oferta dos fazendeiros.
106
Um hectare (ha) possui dez mil metros quadrados (Dicionário Michaelis).
106
Antonio Candido (1977), em seu estudo etnográfico sobre uma comunidade caipira do
município de Bofete, São Paulo, nos anos de 1948 e 1954, buscou conhecer os meios de vida
de uma comunidade rural: quais são, como são obtidos, de que maneira se ligam à vida social,
como refletem as formas de organização e as de ajuste ao meio. O equilíbrio social, desta
forma, depende da correlação entre necessidades e a satisfação das mesmas. E, em cada
cultura, em cada momento, certos mínimos abaixo dos quais o pode haver equilíbrio:
mínimos vitais de alimentação e abrigo, mínimos sociais de organização para obtê-los e
garantir a regularidade das relações humanas.
A sociedade caipira tradicional elaborou técnicas que permitiram estabilizar
as relações do grupo com o meio (embora em nível que reputaríamos hoje
precário), mediante o conhecimento satisfatório dos recursos naturais, a sua
exploração sistemática e o estabelecimento de uma dieta compatível com o
mínimo vital – tudo relacionado a uma vida social de tipo fechado, com base
na economia de subsistência (Candido, 1977, p. 36).
O ajustamento do caipira
107
à natureza, ao meio, poderia, então, ser percebido através:
1) Da dieta cultivo quase exclusivo de produtos autóctones, como o milho, o feijão e a
mandioca, mais tarde substituída pelo arroz, sendo que para se formar as roças
requeriam-se a derrubada e queimada de algumas áreas de mata e que, depois de
alguns anos, estavam praticamente esgotadas o que levava à formação de novas roças;
2) Do tipo de povoamento grupos rurais de vizinhança, na área paulista conhecidos
como bairros, nos quais algumas ou muitas famílias se agrupam, vinculadas, em certa
medida, pela convivência, pelo sentimento de localidade, pelas práticas de ajuda
mútua e pelas atividades lúdico-religiosas, podendo estar as habitações próximas umas
das outras, ou então bastante dispersas;
3) Das formas de solidariedade – manifestas nos trabalhos coletivos, como o mutirão que,
além de ser uma solução para a questão da mão-de-obra, num sistema em que a
lavoura é de subsistência, consiste
[...] na reunião de vizinhos, convocados por um deles, a fim de ajudá-lo a
efetuar determinado trabalho: derrubada, roçada, plantio, limpa, colheita,
malhação, construção de casa, fiação, etc. Geralmente os vizinhos o
convocados e o beneficiário lhes oferece alimento e uma festa, que encerra o
trabalho. Mas não há remuneração direta de espécie alguma, a não ser a
obrigação moral em que fica o beneficiário de corresponder aos chamados
eventuais dos que o auxiliaram (Candido, 1977, p. 68)
107
Aqui compreendido da mesma forma que o sertanejo: o habitante do campo, dos pequenos arraiais do interior
do país.
107
4) Da cultura caracterizada pela posse de terras (proprietário, posseiro, ou agregado),
trabalho doméstico (a própria família era a unidade de produção, contando, quando
necessário com o auxílio vicinal), disponibilidade de terras, margem de lazer (já que o
trabalho na lavoura ocupava apenas uma parte do ano, além de haver dias de guarda,
nos quais não se devia trabalhar), isolamento (do grupo de vizinhança em relação aos
demais grupos), família do tipo patriarcal (que define a vida conjugal, as relações entre
os gêneros, a educação dos filhos).
Entretanto, as várias transformações ocorridas ao longo das décadas acabaram
alterando este panorama, que, para Candido (1977) correspondia a uma situação de
equilíbrio
108
. O desenvolvimento tecnológico levou ao emprego de máquinas no campo, os
não proprietários de terras acabaram forçados a migrar para as cidades mais próximas, em
busca de trabalho. O acesso à terra passa a se dar mediante a compra, sendo que o preço das
mesmas passa a se elevar. A presença dos latifúndios e dos latifundiários também restringe o
acesso às terras. A introdução da agricultura voltada para a exportação marca cada vez mais o
aprofundamento das desigualdades sociais. Esta situação de desequilíbrio tende a ser
resolvida com a migração para as cidades, ou pela permancia do caipira na lavoura,
ajustando-se, da forma que for possível, à nova situação.
As relações no meio rural, antes destas modificações, eram caracterizadas,
tradicionalmente, pela ajuda mútua, presente nas relações de vizinhança. Se, por um lado,
emergem fenômenos associativos, por outro há, numa cultura regulada pelos mínimos vitais, a
ampliação dos atritos e da violência empregada para resolvê-los, em decorrência da falta de
alternativas mais flexíveis. Emerge, desta forma, um código de conduta, código do sertão,
baseado na valentia, na coragem, na bravura e ousadia, sendo que afrontas e insultos não
108
Vale ressaltar que esta noção de equilíbrio, nas teorias contemporâneas, é questionável. Candido fazia parte
de uma geração de intelectuais oriundos da antiga Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da USP, nos anos de
1940, responsáveis por criar uma nova forma de pensar a cultura brasileira, a política e o próprio Brasil. Foi
influenciado pela antropologia inglesa de Malinowski e Radcliffe-Brown, entre outros. A sua concepção de
estrutura é similar à utilizada no funcionalismo na antropologia: a função de um indivíduo sustentaria a estrutura
social, permitindo assim a coesão dentro de um sistema de relões sociais, ou seja, uma interpretação
influenciada pelo positivismo (Vermeersch, s.d.). E é por isso que o a noção de equilíbrio social deve ser vista
com ressalvas. Em entrevista à revista Veja, em outubro de 1975, quando indagado se em suas alises a
categoria estrutura era tributária do estruturalismo francês, responde o seguinte: “Para mim, sempre foi
fundamental o conceito de estrutura, mas num sentido diferente e, aliás, bem anterior ao desenvolvido pelo
estruturalismo francês. Esquematizando, estrutura, para eles, é uma espécie de abstração genérica de grande
amplitude. De certo modo, fora da obra. Na análise concreta, cada obra se encaixaria naquele modelo geral. A
concepção que adoto é mais tradicional e corriqueira. Trata-se da articulação orgânica dos significados e seus
suportes formais: toda obra é una, isto é, tem sua coerência e individualidade. E a estrutura é a integração dos
traços que asseguram esta unidade. Tais traços estão em estado de convergência ou de tensão. Ela é, pois,
interior à obra, e cada obra tem sua estrutura, embora haja modelos estruturais gericos”. Disponível em:
http://rogersil.blogspot.com/2006/08/antnio-cndido-entrevista-concedida.html.
108
podem ser tolerados pacificamente: deve-se manter a honra, a dignidade, enfrentado-se os
riscos (como a morte) ddecorrentes . Mesmo com as alterações advindas do processo de
modernização do campo, este código continua, em certa medida, servindo de referência em
casos de desavenças (Franco, 1997).
E é sob este digo que podemos interpretar a postura de seo-Mané em relação a seo-
Zezão Vigilato, bem como o desentendimento entre seo-Francisco e os primos, por conta da
criação de gado no Jalapão. A família de seo-Chiquinho criava gado numa área comum; ele,
depois de algumas viagens, resolveu comprar um boi da raça zebu, muito caro, que logo passa
a disputar as fêmeas com outro boi, chamado Vesúvio, que pertencia a um dos primos. Os
dois bois se enfrentaram e o zebu levou uma chifrada na virilha, e, por isso, perdeu sua função
reprodutora. Seo-Chico mandou, eno, um ferreiro fazer uma testeira de ferro e mandou
vestir “aquela geringonça na cabeça dum touro menos raceado que ele tinha, que também era
bom de briga” e o soltou no pasto em estava o boi Vesúvio.
Os dois bois tamparam de briga, a testeira [...] afundou o osso da testa do
outro, em diversas alturas, a ponto de expulsar os miolos. Aí não teve mais
jeito: os primos treparam nas armas, e seo-Francisco Vigilato Pereira
Moreira teve que desocupar o Jalapão às pressas. Os cabras mataram no tiro
seu garrote de testeira, e todo dia carneavam uma rês sua (SR, p. 23)
No romance, apesar de não haver referências explícitas à questão do êxodo rural, da
mecanização do campo, ou dos latifúndios, podemos perceber que as terras em Santa Rita
estavam concentradas nas mãos das famílias que formavam o Conselho dos Notáveis,
assegurando-lhes, além do poder, o prestígio social do qual desfrutavam. Através da menção
do pagamento de arrendos dos lavradores à família Pereira Moreira, percebemos que a grande
maioria da população de Santa Rita era de arrendatários, talvez porque a família, apesar do
status social, não dispusesse de capital necessário para cultivar e ocupar todas as terras.
Os Pereira Moreira tinham uma considerável criação de gado, o que nos leva a pensar
que a agricultura era mais voltada para o consumo imediato, e não para a comercialização. Em
decorrência do preparo das terras para a pecuária, a agricultura, nas propriedades desta
família, ficava em segundo plano, talvez por isso seo-Zezão fizesse tanta questão de cobrar os
arrendos, inclusive de propriedades que não eram confirmadamente suas, dos lavradores.
Além da posse da maioria das terras em Santa Rita, o Conselho dos Notáveis eram os donos
de grande parte dos meios de produção e aqueles que exploravam a mão-de-obra local.
109
Seo-Chiquinho, quando jovem, viajava para a Meia-Ponte para vender gêneros do
sertão, assim como arrobas de açúcar, toucinho em rolo, sabão de fruta de tingui
109
, carne
seca”, atuando também como comerciante local (SR, p. 14). Depois o posto passa a ser
ocupado por seo-Pedro Ponte. Genor, um dos companheiros de Estevo, era o responsável pela
criação de gado de seo-Zezão. Estevo, por sua vez, trabalhava como tropeiro. Alberto era
produtor de fumo, empregando trabalho assalariado em suas terras, como o de Zé de Andreza.
Através da descrição do feitio da rapadura no Maxambombo, no qual Estevo ajudou,
percebemos que a família é a unidade produtiva dos pequenos proprietários, como seo-Mané
Baiano. Dona Filozica, Altino e Antão são os trabalhadores urbanos. Como Santa Rita é uma
cidade pequena, os aspectos urbanos, além de reduzidos, são fortemente mediados pela
cultura rural.
Em relação ao trabalho feminino, percebemos que as personagens femininas, como
Diolina e dona Silvana, quando trabalham fora de suas próprias casas, também exercem
atividades domésticas, como cozinhar, lavar roupa, organizar e limpar a residência de alguém,
como a casa paroquial, a casa de Estevo, ou a casa da professora Filozica, empregada nas
poucas atividades de prestação de serviços em Santa Rita. Como a cidade era muito pequena,
apesar de mesclar aspectos rurais aos urbanos, os primeiros eram predominantes e em torno
destes estava centrada a economia local. No próximo capítulo faremos uma análise mais
detida sobre o trabalho doméstico, que também nos ajuda a compreender a construção do
feminino nas obras estudadas.
109
Arvoreta vulgar nos cerrados, caracterizada pelas grandes cápsulas lenhosas e triangulares, e cujas sementes
são aladas e amplas, contendo óleo” (Dicionário Aurélio).
110
3. Pelas veredas de Santa Rita e Perpetinha
As duas obras apresentam muitas continuidades, muitos temas em comum, o que, de
certa forma, ficou aparente no decorrer dos dois capítulos anteriores. Carmo Bernardes era um
escritor comprometido com as questões sociais de sua época, e apesar de ter passado alguns
anos desde a publicação de suas obras, elas continuam ainda atuais, como as reflexões sobre
preconceito, discriminação e injustiças e desigualdades sociais. A temática de nero não é
abordada de forma explícita em Perpetinha e Santa Rita, mas acaba emergindo como temática
transversal, que as relações entre os gêneros também revelam as disputas de poder no
interior de um determinado grupo, numa determinada época.
3.1 Feminismos e os estudos de gênero: alguns esclarecimentos
Antes de passar ao estudo das personagens femininas e das relações de gênero
presentes nas duas obras, é interessante fazer uma digressão na forma de um retrospecto do
feminismo e dos estudos de gênero, explicando suas reivindicações e fases históricas. Os
estudos de gênero se iniciaram na década de 1960, na Europa e nos Estados Unidos, momento
de intensa efervescência social, na qual outros grupos, como os negros e homossexuais,
também se organizavam para reivindicação do direito à diferença. No entanto, o papel das
mulheres era considerado secundário, com os homens assumindo as funções de comando
dentro da militância, o que leva à problematização das questões de gênero nesse contexto.
o feminismo é anterior à década de 1960. Entre os séculos XV e XVIII é possível
encontrar na historiografia alguns relatos sobre a condição de repressão da mulher em
decorrência da dominação imposta pelos homens, com base na sua suposta superioridade
(Cancian, s.d.). Mas o que predominou, através do discurso da igreja e, em seguida, da
medicina foram os textos em que as mulheres eram interpretadas como física, moral e
psiquicamente frágeis. Devido à sua fisiologia e anatomia, ou seja, atras de critérios
biológicos como a menstruação e a gestação, a mulher foi circunscrita dentro da chamada
111
natureza feminina, que ajudou no controle do corpo feminino no Ocidente. Enquanto o
homem seria um ser histórico e cultural, a mulher, por oposição, seria um ser natural e
orgânico que deveria ter tutelada pela figura masculina: primeiro sob o domínio do pai, depois
sob o domínio do marido (Del Priori, 1997; Aureliano, 2008).
Para Matos (1999), “a construção natural de homens e mulheres está fundada em
características biológicas e em idéias e atitudes a elas associadas” (p. 22). O par binário
“natureza” e cultura” fornece o modelo para explicar e realidade: tudo que existe no mundo
ou é dado pela natureza (natural) ou elaborado pelo homem (cultural). E no plano empírico,
como também em vários campos de conhecimento, as relações entre homens e mulheres têm
sido colocadas como uma metáfora da dicotomia natureza/cultura.
Colocados como um par de opostos, natureza e cultura têm importantes funções de
poder: algo vai pertencer a um dos elementos desse par, de acordo com o que for classificado
como suas características essenciais. Se a mulher é encarada como da natureza, ela não será
da cultura. Ou seja, estará destinada à subordinação e imutabilidade, enquanto as
possibilidades de transformação, mudança e autonomia serão concedidas ao homem. E o
predomínio desse determinismo biológico é atuante até hoje.
O feminismo como movimento social surge em 1848, na convenção dos direitos da
mulher em Nova Iorque, no qual rias reivindicações são feitas com base nos lemas das
grandes revoluções (Industrial e Francesa). Com a Revolução Industrial, as mulheres passam
a trabalhar nas indústrias, o que aumenta a sua exploração, que am do trabalho fora de
casa, acumula ainda as atividades domésticas. Os lemas Igualdade, Liberdade e Fraternidade,
cunhados na Revolução Francesa motivam as feministas a reclamar que os direitos sociais e
políticos adquiridos a partir das revoluções deveriam se estender também a elas, como
cidadãs. Uma das conquistas da época, com a participação feminina, foi o divórcio.
O conceito de feminismo não é uno, não pode ser visto como singular, pois abrange
mulheres de diferentes orientações sexuais, diferentes grupos sociais, de diferentes raças/
etnias, de diferentes idades. Algumas reivindicações também não são consensuais, como, por
exemplo, a questão do aborto (Narvaz e Koller, 2006). Por isso é consensual colocá-lo no
plural: feminismos, movimentos feministas. De maneira geral, podemos afirmar que são
movimentos políticos que buscam a eqüidade de direitos entre homens e mulheres, além de
procurar desnaturalizar a idéia de que há um gênero superior ao outro.
Estes movimentos, historicamente, podem ser divididos em três ondas, ou seja, três
gerações. O termo onda foi utilizado na década de 1960, quando um novo momento se inicia
nas lutas políticas feministas. Retrospectivamente, o termo foi utilizado na delimitação da
112
primeira fase, que começou em fins do século XIX e início do século XX, na Europa e nos
Estados Unidos. Esta primeira geração
[...] nasceu como movimento liberal de luta das mulheres pela igualdade de
direitos civis, políticos e educativos, direitos que eram reservados apenas aos
homens. O movimento sufragista (que se estruturou na Inglaterra, na França,
nos Estados Unidos e na Espanha) teve fundamental importância nessa fase
de surgimento do feminismo. O objetivo do movimento feminista, nessa
época, era a luta contra a discriminação das mulheres e pela garantia de
direitos, inclusive do direito ao voto. Inscreve-se nesta primeira fase a
denúncia da opressão à mulher imposta pelo patriarcado (Narvaz e Koller,
2006, p. 649).
Em 1935, durante a primeira onda feminista, depois de estudar três tribos, os Arapesh
das montanhas, os Mundugumor habitantes do rio Yuat, e os Tchambuli habitantes de um
lago ligado ao rio Sepik, em Papua - Nova Guiné (uma série de ilhas e arquipélagos situados
no Pacífico Oeste), Margaret Mead buscou esclarecer a questão das diferenças sexuais. Chega
à conclusão de que é preciso entender como uma sociedade molda seus homens e mulheres de
modo que se aproximem de um comportamento ideal, ou restringe a um sexo um ideal de
comportamento que outra cultura atribui ao sexo oposto, para poder falar de forma
compreensiva sobre as diferenças sexuais. Mead procurou mostrar, através do contraste com
outras culturas, como cada um de nós pertence a um sexo e tem um temperamento que é
compartilhado com outros de nosso sexo e do sexo oposto. Os temperamentos que reputamos
naturais em um sexo são meras variações do temperamento humano às quais os membros de
um ou ambos os sexos podem ser, com maior ou menor sucesso, aproximados através da
educação (Mead, 2000).
A segunda onda inicia-se em 1960, nos Estados Unidos e na França, associando-se aos
movimentos de emancipação feminina. As feministas americanas denunciavam a opressão
masculina e a busca da igualdade, enquanto as francesas postulavam a necessidade de se
valorizar as diferenças entre homens e mulheres, enfatizando a especificidade da experiência
feminina, na maioria das vezes negligenciada. Estas divergências entre as propostas levaram a
duas correntes feministas: uma que defendia a igualdade entre os gêneros, conhecida como o
feminismo da igualdade, e a outra, que destacava as diferenças e a questão da alteridade,
conhecida como feminismo da diferença (Narvaz e Koller, 2006).
113
a terceira onda, inicia-se no final da década de 1980 e início da de 1990,
prosseguindo até o presente momento. Para alguns autores/as
110
seria a continuação das lutas
da segunda onda; para outros/as seria um momento de revisão crítica das falhas do momento
anterior. Nesta geração a
[...] proposta concentra-se na análise das diferenças, da alteridade, da
diversidade e da produção discursiva da subjetividade. Com isso, desloca-se
o campo do estudo sobre as mulheres e sobre os sexos para o estudo das
relões de gênero. Neste sentido é que algumas posições, ainda que
heterogêneas, distinguem os Estudos Feministas - cujo foco se dá
principalmente em relação ao estudo das e pelas mulheres, mantidas as
estreitas relações entre teoria e política-militância feminista - dos Estudos de
Gênero, cujos pressupostos abarcam a compreensão do gênero enquanto
categoria sempre relacional. O desafio nesta fase do feminismo é pensar,
simultaneamente, a igualdade e a diferença na constituição das
subjetividades masculina e feminina. Nesta terceira fase do movimento
feminista, observa-se intensamente a intersecção entre o movimento político
de luta das mulheres e a academia, quando começam a ser criados nas
universidades, inclusive em algumas universidades brasileiras, centros de
estudos sobre a mulher, estudos de gênero e feminismos (Narvaz e Koller,
op. cit., p. 649).
No Brasil os estudos de nero, ou relações de gênero, surgem nos anos 1970/80, em
torno da problemática da “condição feminina”. Acreditava-se, inicialmente, que havia um
problema da mulher, devendo ser pensado unicamente pelas mulheres, que os homens as
haviam silenciado e reprimido.
Na cada de 1980, deixa-se de falar em “condição feminina”, passando-se aos
estudos sobre as mulheres. Com os estudos anteriores ficou claro que o há uma única
condição feminina, mas várias diferenças. Contudo, ainda permanece a refencia a uma
unidade biológica: todas as mulheres se reconheceriam pela morfologia do sexo feminino
(seios, vagina, útero).
Através das pesquisadoras norte-americanas chega até nós o conceito de gênero. Elas
passaram a usar a categoria gender para falar das “origens exclusivamente sociais das
identidades subjetivas de homens e mulheres” (Grossi, 2000, p. 33). A antropologia feminista
tem mostrado que essas explicações de ordem natural não passam de uma formulação
ideológica, que serve para justificar os comportamentos sociais de homens e mulheres em
determinada sociedade. Gênero serve, dessa forma, para determinar tudo que é social, cultural
e historicamente definido. É mutável, pois está em constante processo de ressignificação
110
O uso da arroba (@) é comum entre as feministas brasileiras e assinala a inscrição dos dois gêneros numa
única palavra. (Rodrigues, 2006).
114
devido às interações concretas entre indivíduos do sexo feminino e masculino. Não é
sinônimo de sexo.
Numa determinada sociedade, os indivíduos se comportam de acordo com as normas e
os valores sociais e os padrões culturais, também relacionados ao gênero. Assim, os atributos
que estabelecem a feminilidade e a masculinidade, isto é, coisas e comportamentos que são
“típicosde mulheres ou de homens constituem os chamados papéis de gênero. Papel é aqui
entendido como a representação de um personagem. Tudo o que é associado ao sexo
biológico, fêmea ou macho, em determinada cultura é considerado papel de gênero. E estes
papéis mudam de uma cultura para outra.
a identidade de gênero remete à constituição do sentimento individual de
identidade. Nem sempre a identidade de gênero corresponde ao sexo biológico. Nossa
identidade de gênero se constrói ainda no útero, quando há a rotulação do bebê como menina
ou menino. A partir desse assinalamento do sexo, socialmente se esperará da criança
comportamentos condizentes com ele. A sexualidade é apenas uma das variáveis que
configuram a identidade de gênero, como os papéis de gênero e o significado social da
reprodução (Grossi, 2000).
Grossi conclui o seguinte: sexo é uma categoria que ilustra a diferença biológica entre
mulheres e homens. nero é um conceito que remete à construção cultural coletiva dos
atributos de masculinidade e feminilidade (papéis de nero). Identidade de nero é uma
categoria pertinente para pensar o lugar do indivíduo no interior de uma cultura. Sexualidade
é um conceito contemporâneo que está relacionado ao campo das práticas e sentimentos
ligados à atividade sexual dos indivíduos.
Faria e Nobre (1997) usam as expressões identidade de gênero e relações de gênero
para marcar que as desigualdades entre mulheres e homens são construções sociais não
determinadas pelo sexo. Para as autoras, compreender essa construção social não significa
ignorar que ela se dá em corpos sexuados. Mulheres e homens imprimem em seus corpos,
gestos, posturas e disposições, as relações de poder vividas a partir das relações de gênero.
Em nossa sociedade, na qual a moral ainda é pautada pelos valores judaico-cristãos, os
modelos do feminino oscilam entre dois símbolos antagônicos: o representado por Eva e o
representado por Maria, que se desdobra também nos pares bruxa e fada, mãe e madrasta. O
papel feminino tradicional é o da mulher que cuida da casa, do marido e dos filhos. As
atividades nas quais as mulheres se concentram, durante muito tempo, quando trabalham fora
de casa são consideradas uma extensão do seu “papel de mãe” (como as professoras primárias
115
ou as enfermeiras). Como se a maternidade fosse um papel de gênero feminino inquestionável
(Mott, 2006a).
O conceito de gênero foi trabalhado de maneira multidisciplinar, situando a construção
das relações de gênero na definição das identidades feminina e masculina, como base para a
existência de papéis sociais distintos e hierárquicos. É um conceito relacional: um em
relação ao outro e considera que estas relações são de poder e hierarquia dos homens sobre as
mulheres, não pautadas por critérios biológicos (Scott, 1995).
No Brasil, em 1932, as mulheres adquirem o direito de voto, no entanto,
predominaram os padrões da domesticidade feminina até os anos de 1960, quando há a
emergência de “um expressivo movimento feminista, questionador não só da opressão
machista, mas dos códigos da sexualidade feminina e dos modelos de comportamento
impostos pela sociedade de consumo”. Em 1964, através de um golpe ao governo de João
Goulart, as Forças Armadas assumem o poder, dando início ao período da ditadura militar,
que só se encerraria em 1985. Neste período temos o chamado milagre econômico
111
, um
processo de modernização acelerada, no qual se
[...] desestabilizavam os nculos tradicionais estabelecidos entre indivíduos
e grupos e a estrutura da familiar nuclear, as mulheres entraram
maciçamente no mercado de trabalho e voltaram a proclamar o direito à
cidadania, denunciando as múltiplas formas da dominação patriarcal (Rago,
2003
112
).
Ou seja, apesar da censura intensa durante o regime militar, algumas mudanças
econômicas possibilitaram, através da maior participação feminina no mercado de trabalho,
alguns questionamentos sobre a opressão das mulheres brasileiras. A chamada cultura de
resistência foi a responsável por contestar a ditadura, por meio da crítica política presente em
composições como as de Geraldo Vandré, Chico Buarque de Holanda, Milton Nascimento,
Caetano Veloso e Gilberto Gil, além dos modelos alternativos e libertários fortemente
111
Época em que se deu um crescimento ecomico excepcional, através do grande investimento estrangeiro no
país no setor industrial, beneficiando empresas estatais, privadas e transnacionais, gerando um considevel
crescimento do Produto Interno Bruto (PIB), sobretudo no governo de Emílio Garrastazu Médici (1969-1973),
também conhecido como os anos de chumbo. Neste mesmo período, houve um aumento da concentração de
renda e da pobreza, além da censura trazida pelo Ato Institucional 05 (AI-5), que dava plenos poderes ao
presidente da República e suspendia rios direitos políticos como: cessação de privilégio de foro por
prerrogativa de função; suspensão do direito de votar e ser votado nas eleições sindicais; proibição de atividades
ou manifestação sobre assunto de natureza política; liberdade vigiada; proibição de freqüentar determinados
lugares; suspensão da garantia de habeas corpus, nos casos de crimes políticos, contra a segurança nacional, a
ordem econômica e social e a economia popular; suspensão da liberdade de expressão (Nadai e Neves, 1995).
112
Texto publicado apenas em formato eletrônico, dispovel no site:
http://www.unb.br/ih/his/gefem/labrys3/web/bras/marga1.htm.
116
inspirados no movimento hippie. Os questionamentos foram estendidos, posteriormente, à
sociedade burguesa mais ampla. Neste panorama emerge o feminismo organizado, nos anos
de 1970, buscando novas formas de expressão da individualidade pelas mulheres da classe
média, intelectualizadas em sua maioria:
Acima de tudo, as primeiras feministas brasileiras questionavam
radicalmente as relações de poder entre os gêneros, que se estabeleciam no
interior dos grupos políticos de esquerda e lutavam para impedir que a
dominação machista fosse diluída ou subsumida pelo discurso tradicional da
Revolução. No entanto, muitas traziam uma referência ideológica marxista, a
partir da qual pensavam as relações entre os sexos.
Assim, logo que estabeleceram as estratégias e táticas de seu movimento,
definiram que o alvo maior de sua preocupação deveria ser as trabalhadoras,
consideradas não como o setor mais oprimido socialmente, mas como as
principais portadoras da Revolução Social (Rago, 2003).
Desta forma, a classe se sobrepunha ao gênero como estratégia de reconhecimento político e
social. Na década de 1980 novas questões são acrescidas ao debate político feminista, como
as questões relativas à esfera privada (corpo, desejo, sexualidade, saúde, família), a partir de
então politizadas e trazidas à esfera pública, valorizando a linguagem feminina, além das
novas questões relativas ao trabalho, como a dupla jornada.
Estas transformações políticas também são percebidas na esfera artística, que constitui
uma forma diferenciada de representação social. Para Zolin (1997), a cultura ocidental se
consolidou com base no saber masculino; por isso, na literatura, as imagens da mulher
seguiram, durante muito tempo, o estereótipo da sociedade patriarcal, caracterizada pela
submissão, pela resignação, espera, saudade, sofrimento, etc. Ao longo do tempo, de acordo
com a autora, foi a literatura de autoria masculina a responsável pelo “emparedamento da
mulher nesse silêncio” (p.42). No início do século XIX, Portugal (ou melhor, a aristocracia
portuguesa) ainda exercia fortes influências sobre o Brasil. A família era do tipo patriarcal,
comandada pela figura masculina do pai, que na camada dominante era detentor de grandes
propriedades, de muitos escravos, além de exercer grande poder sobre seus dependentes. As
mulheres deveriam ser puras, bondosas e submissas e por isso, “naturalmente”, suas tarefas
estavam ligadas à casa e à família, devendo exercer de forma exemplar os papéis de esposa e
de mãe. Seria da natureza da mulher ser dada aos sentimentos bem como ter uma sexualidade
menos desenvolvida. Já os homens teriam uma natureza ativa, seriam menos sentimentais,
mais racionais e dotados de instinto sexual mais desenvolvido; desta forma as atividades
reservadas a eles se situavam fora do âmbito doméstico.
117
na segunda metade do mesmo século, a sociedade brasileira passa por várias
transformações, como: a consolidação da ordem capitalista; o incremento da vida urbana, com
novas alternativas de convivência social; a ascensão da burguesia e de novos padrões sociais.
As cidades passaram a ser o símbolo de modernidade e civilidade. Com a passagem das
relações senhoriais às de tipo burguês, a casa passa a delimitar a distância entre a nova classe
e o povo: com casas mais aconchegantes, a família passa por um processo de privatização
marcado pela valorização da intimidade. As famílias mais ricas passam a promover saraus,
festas e jantares para um círculo restrito de familiares, parentes e amigos. Nesse contexto, a
leitura de romances românticos, cujas heroínas eram doces, sonhadoras e que sofriam por
amor, incentiva a idealização da mulher, das relações amorosas e das perspectivas de
casamento. A mulher, assim, adquiria status quando desempenhava a função de guardiã do
lar e da família (Del Priori; Araújo, 1997).
No século XX, após vários anos de luta, as mulheres conquistam muitas vitórias. A
discriminação e a opressão passam a ser discutidas e as explicações de ordem biológica
rejeitadas em certos contextos. Conquistam o mercado de trabalho, embora ainda haja vários
obstáculos a serem vencidos. O uso de métodos contraceptivos, além de possibilitar a vivência
do prazer permitiu também planejar o momento de ser mãe e o número de filhos a se ter,
ainda que o acesso a esses métodos não ocorra da mesma forma entre as classes sociais e as
regiões do país. O casamento passa a ser opção e não obrigação, e o divórcio emerge como a
possibilidade de se finalizar um casamento insatisfatório. As diversas formas de violência
contra a mulher se tornam visíveis, além de serem punidas e combatidas.
Bastos (2002) afirma que, atualmente, a crítica feminista tem sido uma forma de
“desvelamento do sistema de mistificação que, tendo historicamente condenado a mulher a ser
o Outro’ do homem, negou-lhe o direito ao discurso e à autoria(p.35). Para esta autora, a
lógica de exclusão ainda é presente, conferindo, até hoje, invisibilidade às obras produzidas
por mulheres.
Hahner (1981), em relação à historiografia, destaca que os homens, “transmissores
tradicionais da cultura na sociedade, incluindo o registro histórico, veicularam aquilo que
consideravam e julgavam importantes. [...] Por isso as mulheres permaneceram à margem das
principais relações do desenvolvimento histórico” (p. 14).
Alves (2002) afirma que, na literatura, tanto européia como brasileira, a representação
da mulher é tema recorrente. Durante a modernidade há uma representação (imagem) dual da
mulher: uma que insere a mulher no espaço doméstico (que corresponde ao modelo da virgem
pura e da mãe de família) e outra que corresponde à mulher livre (a prostituta, a livre
118
pensadora, que rejeita a família como espaço único). Apesar de a Igreja restringir, quando não
proibiu, a leitura do romance pela jovem de família, pois poderia levá-la a devaneios,
afastando-a da realidade e de seus afazeres, foi através da literatura, no Brasil, que o ideal
feminino (correspondente à mulher burguesa) se propagou. Esta representação feminina, da
mulher ligada ao ambiente doméstico, é o que aparece nos livros de José de Alencar, Joaquim
Manuel de Macedo, Bernardo Guimarães. Teria sido a partir da leitura destes romances, às
escondidas, que teria sido moldado e internalizado o modelo da mulher voltada aos afazeres
domésticos e aos cuidados familiares.
Na literatura, a representação feminina foi configurada e reduplicada através da
descrição do comportamento, do corpo, do vestuário. Dependendo das tramas amorosas,
também se estendia para a conduta: os escritores descreviam como as mulheres deveriam
demonstrar certas qualidades, como recato, castidade, inocência, doçura, ou seja,
conformavam a representação que controlava a imagem da mulher por meio de um modelo
idealizado.
No entanto, devemos destacar que no Brasil, os índices de analfabetismo até a cada
de 1950 correspondiam a mais de 50% da população brasileira. Em 1890, 84% da população
brasileira era analfabeta. Em 1920 os analfabetos correspondiam a 75% da população. Até
1930 a tiragem média de um romance era de mais ou menos 1000 exemplares (Canclini,
1997). Em estudos promovidos pela UNESCO (Organização das Nações Unidas para a
educação, a ciência e a cultura) nas décadas de 1920 e 1940, no Brasil, revelam que, em todos
os grupos etários, o índice de homens alfabetizados era superior ao de mulheres.
A partir da década de 1950 o índice de alfabetização na faixa etária dos 10 aos 19 anos
passa a ser praticamente equivalente (57,4% para as mulheres e 57,3% para os homens),
embora nos outros grupos etários o índice de alfabetização masculino continue superior ao
feminino. No Censo 2000 percebe-se uma modificação nestes índices: as mulheres
apresentam taxas mais elevadas de alfabetização em todos os grupos de 5 a 9 até 40 a 44 anos,
mas continuam em desvantagem em todos os grupos a partir de 45 a 49 até 80 anos ou mais
(Ferraro, 2008). Desta forma, podemos concluir que durante o século XIX e início do XX,
eram pouquíssimas as mulheres aprendiam a ler e escrever, inclusive as mulheres da classe
dominante, o que nos leva a perceber que a literatura não foi o principal meio de disseminação
deste ideal feminino, conforme o defendido por Alves (2002).
No século XIX as mulheres passam a conquistar, de forma gradual, seu espaço na cena
pública, com algumas escritoras publicando suas produções e desconstruindo a imagem
normatizada pela sociedade. Nos anos 60 do século XX estas conquistas se ampliam: as
119
escritoras elegem como narradoras e/ ou protagonistas personagens femininas que questionam
a beleza, a velhice, o amor, a repressão e suas próprias escolhas. Assim, os debates, lutas e
conquistas do feminismo atingem também a literatura. A escrita de autoria feminina, de
acordo com Sá (2005), passou por três fases até chegar aos dias de hoje:
1) imitação da escrita masculina pelas escritoras, muitas vezes com a adoção de pseudônimos
masculinos para conseguirem publicar suas obras;
2) surgimento da chamada escrita feminina (entre 1880 e 1920), quando as sufragistas
lutavam pelo direito de voto;
3) escrita assumidamente feminina, com as escritoras questionando de forma clara certos
papéis, valores, bem como suas próprias escolhas.
A literatura, tanto a produzida por mulheres como a produzida por homens, é atingida
por estas transformações culturais. Uma obra não pode ser interpretada descolada do contexto
histórico no qual foi escrita, mas também não pode ser concebida meramente como um
espelho (Velloso, 1988) da realidade na qual esinserida. Destarte, percebemos que as obras
em estudo, Perpetinha e Santa Rita, mesmo o contemplando de maneira explícita, nos dão
subsídios para analisar a relação entre homens e mulheres na sociedade goiana do século XX,
que iremos abordar nos próximos tópicos.
3.2 Resgatando os papéis e identidades de gênero em Perpetinha
Em Perpetinha (1991), Armantino, personagem principal do romance, se apaixona por
Lindalva, “uma criaturinha de moral bondosa, sossegadinha, ria com a cara toda esbanjando
meiguice”, tinha 28 anos, mãe de três filhos e abandonada pelo marido. Vivia do coco. Um
dia, depois de ir ao consultório de Armantino para arrumar alguns dentes que estavam
incomodando, os dois combinaram que ela começaria a lavar e passar a roupa de Armantino,
bem como arrumar a casa dele as quintas e aos sábados, já que Ascenso, companheiro e
ajudante de Armantino, por ser homem, não exercia bem estes serviços. Nisso começa uma
espécie de namoro. Lindalva é mãe de Perpetinha, que é “a cara da mãe”, tanto na aparência
física quanto na meiguice. Tinha treze anos e “já era hora de arrumar um moço trabalhador
para fazer ela casar” (pp. 125-126).
120
Sobre os papéis de gêneros tradicionais, a mulher aparece como a responsável pelos
cuidados com a casa e com a família, enquanto o homem é o provedor financeiro. Brasileiro,
Jablonski e Carneiro (2002) observam que com a emancipação feminina, ao invés de serem
substituídos os modelos tradicionais, houve apenas um acréscimo de valores que leva à
coexistência de padrões tradicionais e modernos na mesma cultura e num mesmo sujeito.
Neste modelo se enquadra o atual ideal da mulher contemporânea, cuja jornada de trabalho
costuma ser tripla: trabalho fora de casa, afazeres domésticos e cuidados com os filhos.
Até o século XIX o modelo familiar era do tipo patriarcal: “o marido autoritário,
rodeado de escravas concubinas, dominava seus filhos e a esposa submissa. Esta se
transformou numa criatura indolente, mantida em casa, que gerava muitos filhos e maltratava
os escravos” (Hahner, 1981, p. 28). Mesmo com as mudanças trazidas pela instalação da corte
real no Brasil, pelo movimento de Independência, pela abolição da escravidão, pela
proclamação da República, a mulher continuou incumbida dos cuidados com a família e a
casa (esfera privada); enquanto ao homem cabia garantir o sustento familiar (esfera
pública
113
).
O casamento era um imperativo e o objetivo principal para muitas mulheres. Assim,
mal passada a puberdade da filha, os pais já as encaminhavam para o matrimônio, de
preferência com homens de famílias importantes. As moças que chegavam ou ultrapassavam
os vinte anos sem se casar, eram consideradas encalhadas”, ou, no dizer popular, tinham
“ficado para titia”. Entre as famílias mais simples, os pais também se empenhavam no
casamento das filhas, pois, desta forma, teriam um dependente a menos. Sobre uniões
ilegítimas, o narrador do romance observa:
Na antiguidade acontecia isso demais. Atualmente também. Todo
governador que o Império mandava para Goiás vinha solteiro. Se tivesse
mulher ela não vinha. O bichado chegava e havia disputa. As moças davam
em cima, os pais e mães delas consentiam, fazendo gosto na amigação.
Amigar com o Senhor Governador, quem é que não queria? (PE, p. 153).
A mulher sertaneja é descrita pelo narrador como sendo comedida:
É raro ver uma desesperada. Ama quietinha, sem muito arroubo, e seus
carinhos são feitos de ternura e embevecimento. o tem lisonja com ela.
Nunca apresenta enfado. Cutucou pronta. Não carece ser amolengada,
113
Sobre a distinção entre público e privado, podemos citar os estudos de Roberto da Matta (1991) sobre a
divisão dos espaços brasileiros em dois mundos: o da casa, mundo no qual os relacionamentos se dão com base
em laços de sangue, idade, sexo e vínculos de simpatia e hospitalidade, e o mundo da rua, no qual prevalecem
relações impessoais, terra que pertence ao povo ou ao governo, regido pela lei.
121
apalpada e chopinhada de beijos como exigem as da cidade. Agora, se ela for
coberta de afetos, se encontra um homem carinhoso, que sabe fazer agrados,
que presentes cai de amores, e é um rabicho que não quem cerque.
Se desprezadas, endoidam. Muitas adoecem de paixão, definham e morrem.
Para ir ao encontro do homem que ela ama, não tem distância nem rio cheio
para empatar caminho (PE, p. 136).
Esta descrição, da mulher apaixonada e que move montanhas pela realização de seu amor, é
exemplificada pela história de Jeroma de Jesus, “um pedaço de mulher, desse tipo que eles
chamam de colchão-amarrado-pelo-meio, socadona, macia. Selvajona das canelas retas, sem
desponto, bichona clara parecendo um palmito de babaçu. Apaixonou-se por um sujeito de
nome Joaquim Braz, companheiro de trabalho de seu irmão, Honório Bispo. Depois de ter
acabado o serviço, Joaquim foi embora e Jeroma “Chatou o pé no mundo, venceu as cinco
léguas de mata virgem, trotando sem parar. Quando o dia amanheceu, [...] estava na rua,
grudada em Joaquim Braz, feito soim
114
na resina(PE, pp. 137-138).
Um exemplo de amor que acabou em decepção, por parte da moça, foi a história da
professora Leonor com um médico que morou durante um tempo em Boa Vista, JoSimões
de Vasconcelos. De acordo com o narrador, ele usava as drogas que prescrevia para alguns
pacientes, o que fez o médico endoidar e dar no pé, sem dizer para onde ia. Isso deixou dona
Leonor desenganada, “escabreadinha da silva” e, segundo o narrador, só não largou tudo para
ir atrás de José Simões porque era “muito ambicioneira. Agarrava-se com as unhas e com os
dentes à heraa que ela possuía. Gado muito, solto no campo, dinheiro rendendo juro e
muitas casas na cidade. Não largava à toa tanta fortuna mas era nunca” (PE, p. 164).
Nestes trechos observamos a presença do amor romântico, ou seja, a crença no “amor
verdadeiro, que nos levará à exaltação e total bem estar” (Freitas, 2002). Assim, o que pesa
sobre a mulher solteira é o preconceito de que não teve outra escolha, outra opção (Amaral,
2000). Talvez por isso, algumas mulheres solteiras aceitassem com maior resignação a
posição de amante.
Palacín (1990) observa que em Boa Vista, no fim do século XIX e início do XX, o
namoro tinha um jeito arcaico, acompanhando os demais aspectos da vida na cidade. No norte
do Estado “Os namorados não se tocam, nem se falam, comunicam-se pelo olhar; mas se
amam profunda e exclusivamente” (p. 34). Lógica que vai se alterando ao longo do século
XX, como fica perceptível em várias passagens dos dois romances de Carmo Bernardes.
Publicamente, os relacionamentos são discretos, talvez porque alguns envolvam homens
114
Nome popular do sagüi, um tipo de macaco pequeno, originário das florestas brasileiras (Dicionário Aurélio).
122
casados, de influência na cidade, outros talvez porque a mulher tenha sido casada, ainda
que as uniões não tenham sido oficializadas.
Algum tempo depois de Armantino ter se adaptado à cidade, chega o juiz Dr.
Wanderley de Campos Maia, com quem o dentista também faz amizade. Dr. Wanderley
deixara a esposa e os filhos em Goiás, estava em Boa Vista para cumprir as formalidades e
poder ser promovido, por isso não queria ser visto em certos ambientes. Na casa das
raparigas, vamos dizer” (PE, p. 151). Também não queria se envolver com uma mulher da
cidade porque ela poderia ser casada ou então porque ele poderia se apaixonar e colocar sua
promoção a perder.
Depois de certo tempo “retido e esfogueteado feito um bode”, o juiz manifesta a
vontade de descarregar “os tiros velhos nas megeras da Rua da Folha” e Armantino, para
evitar que o amigo fosse chantageado ou ficasse falado, resolveu bancar o proxeneta e
arrumar a professora Leonor para o doutor (PE, p. 161). Logo os dois estavam vivendo um
romance, às escondidas; apesar de ninguém falar publicamente, a cidade inteira sabia. Dona
Leonor Fernandes Bonfim é bisneta de Eulália, a caçula do padre Malaquias José Fernandes e
dona Maria do Bonfim. Eulália viveu 101 anos e deixou muitas terras e gado de herança para
os filhos.
Dona Maria do Bonfim, de acordo com o narrador, era tida como “a mulher mais
formosa que pisou nessas terras”, mas, depois de muitos anos de união com o padre
Malaquias, com quem teve oito filhos, resolveu se separar, saindo de casa dizendo que “não
queria mais saber dele nem pintado de ouro” (PE, p. 67). As uniões abordadas no romance,
em sua maioria, não eram oficializadas no cartório ou na igreja, talvez em decorrência das
altas despesas que este tipo de cerimônia gerava, ou porque o companheiro tinha uma
esposa legítima. Mas, ainda que não fosse oficializada, a mancebia, desde que entre pessoas
desimpedidas, era bem vista:
Nessas sociedades antigas era errado o homem ficar sem casar. O rapaz
ficando sem um encosto é sujeito ele dar para desinquietador de família.
Diziam que cachorro não enjeita lingüiça, e quem tem sua mulher bonita
traga ela na corrente. As moças de gente remediada crescem comprometidas.
Os casamentos são sempre um negócio. E na parte da pobreza havia muita
moça tirada de casa, levada para os retiros. O patrão tinha uma ou mais de
uma no retiro, e a legítima na rua. Nem os padres escapavam disso. Padre
João, mesmo, o teve três? Era assim: os homens tidos como considerados
do lugar, não contava esse que não tivesse um embelego pracolá. Sempre
moças tiradas das famílias que viviam do coco (PE, pp. 127-128).
123
Se publicamente os relacionamentos eram discretos, na intimidade são relatados de
forma menos comedida. Sobre Armantino e Lindalva, o narrador destaca:
[...] o seu sentido não saía da moça. Ela está lá, com o pano branco amarrado
na cabeça, prendendo os cabelos, cuidando do serviço. [...] Tudo nela lhe
cativava em demasia. Seu corpo cheira água da fonte. A fala tem um dengo
que nenhuma outra criatura tem. Ela é espigadinha e se vê que tem as carnes
firmes. Seu encanto maior é a simpatia de sorrir com os olhos e a alegria
tomar o rosto todo. Sempre demonstra enorme satisfação em estar em
companhia dele.
[...] Armantino encontra com Lindalva, de noite, quando não tinha mais
ninguém andando na rua. Panhava ela de perto da casa dela e vinham os
dois abraçados. Que ela o andasse sozinha a horas mortas. Ficavam na
esteira larga bordada, feita pelas mãos dela. Afogavam os dois na felicidade,
depois iam para dentro da rede, ferravam no sono doce entretecido de
carinhos, até o quebrar da alva, quando ele ia levar ela de volta, antes do
povo da rua acordar. Dali ele ia direto pro rio banhar. Amanhecia o dia,
ela estava de volta, vinha coar o cae arrumar a massa para o tira-jejum
(PE, pp. 129-130; 166).
Lindalva e Armantino, embora livres, não moravam juntos, embora ela tomasse
conta da casa dele. Vinha cedo, coava o ca, varria a casa. Dava o almoço. Depois fazia a
merenda e a janta. De noitinha é que voltava. Nesse meio tempo, a casinha dela era entregue
para Perpetinha” (PE, p. 152). Neste trecho percebemos a internalizão dos serviços
domésticos como papéis de gênero femininos. Perpetinha, uma menina de classe mais baixa,
na ausência da mãe, além da casa, cuidava dos dois irmãos caçulas, reforçando a naturalização
das diferenças de gênero. Assim, a menina, que estaria sendo treinada para as tarefas que a
aguardam no futuro, encara como natural tal divisão do trabalho (Kosminksy e Santana;
Marin, 2006).
Logo Lindalva deixa o trabalho de quebrar coco,
Ficou liberta. o precisou mais de andar na dependência dos donos dos
babaçuais e dos exportadores. Quebrava o da despesa e torrava aquela
quantinhazinha de farinha, para o pirão de jabuti. Armantino queria que ela
conservasse esse costume. Andava bem vestidinha, os meninos calçados. E
na arrumação da casa do dentista nada faltava. Ela fazia a comida dele com
iguarias que ele mais gostava, a tempo e a hora. Lavava a roupa dele e
passava a ferro, e trazia as toalhinhas do gabinete sempre limpinhas,
cheirando a flor de marcela. E ele nunca mais comeu sem o arroz, o passadio
que ele não podia ficar sem ele.
O arroz carioquinha, que era o que tinha na Boa Vista, um do grão
redondo, ela limpava no pilão até esfolar por completo, sair a pecula,
amolecer. Ela fazia o arroz com carne seca dentro e pequi, quando era tempo
dele. Fazia também carne de sol misturada com abóbora madura [...] (PE,
pp. 165-166).
124
No trecho acima percebemos, mais uma vez, a visão corrente de que os trabalhos
domésticos, quando executados por mulheres, são mera obrigação, bem como os cuidados
com o cônjuge e com os filhos, e uma ajuda para o homem. Só o trabalho fora de casa é que
aprisiona, escraviza; os afazeres domésticos sãos os atributos esperados da rainha-do-lar.
Nada mais natural do que ela, enquanto o companheiro garante o sustento da família, como
Armantino, trabalhando no consultório de dentista o dia todo, demonstre sua dedicação e
gratidão trazendo a casa e as roupas sempre limpas, os filhos e a si mesma bem cuidados e
bem vestidos.
Destarte, Armantino assume os gastos com os filhos de Lindalva: coloca-os na escola,
arca com as despesas para que estejam sempre bem arrumados. “Perpetinha era a mais
adulada. Armantino falava que ia fazer dela uma professora. Pretendia mandar ela estudar
fora, queria que ela aprendesse a tocar música para tocar o harmônio da igreja” (PE, p. 198).
Mas continuaram morando cada um na sua casa, e ela cuidando das duas. Lindalva parece ser
uma personagem de contos de fada que foi salva por um príncipe encantado: Armantino, um
homem bom, estudado, carinhoso, bonito, trabalhador, próspero, que sustentava a ela e a seus
três filhos.
Reiterando o estereótipo da mulher prendada, zelosa dos cuidados com a casa, temos
outra descrição de Lindalva:
Como é que uma mulher com a simpatia de Lindalva de Melo do Perpétuo
Socorro, que tinha uns olhos de mel, e derramava ternura pelo corpo todo,
mais tempo não tinha arranjado um gancho? Ela era raça de maranhense
115
.
Sabia fazer tudo quanto há. Era esteira, era balainho
116
, caroça
117
de vedar
chuva, peneira, tapiti
118
, choconã
119
, aió
120
. Do buritizeiro não tinha nada que
ela não fizesse, e muito bem feito. Para temperar uma panela era preciso de
ver. Buchada de bode, a galinha no tucupi, a fava e o feijão de corda. Em
tudo que ela punha a mão virava coisa boa. Panela em que ela mexesse
transformava em cadeado de prender marido (PE, pp. 152-153).
115
Ou seja, tinha ascendência indígena.
116
Balaio, cesto pequeno (Dicionário Aurélio).
117
“Capa confeccionada em tiras espessas de palhas soltas, presas na parte superior por trançado amarrado nos
ombros. Pode ser usada também como capa de chuva”. Disponível em:
http://www.cnfcp.gov.br/tesauro/00000748.htm.
118
Tapiti é uma espécie de coelho. Como o autor está enumerando utensílios indígenas, é provável que o termo
tenha sido grafado de forma equivocada: talvez o autor estivesse se referindo ao tipiti, “cesto cilíndrico, em que
se mete a massa de mandioca para ser espremida” (Dicionário Michaelis).
119
o encontrei definição para o termo.
120
“Bolsa de caça feita de fibras de caroá” (planta da família das bromélias da qual se extraem fibras xteis).
(Dicionário Aurélio).
125
Sobre as uniões ilegítimas, o narrador conta a história do governador Fernando
Delgado Freire de Castilho, também relatada na historiografia. Fernando Delgado foi
nomeado governador em 1806, tomando posse apenas em 1809, permanecendo até 1820,
quando foi atendido seu pedido de exoneração, em virtude de problemas de saúde
121
. Neste
período o governador viveu com a filha de um carpinteiro de Vila Boa, com quem teve dois
filhos.
[...] os Governadores de Goiás vinham de fora [...]. Eles vinham da Corte,
chegavam arrumavam uma cangancha
122
, e trazia ela para morar com ele
no palácio. E como sertaneja é triscar panha barriga, cada ano elas davam
uma cria, enchia o palácio Conde dos Arcos de filho natural. E eles não
reconheciam. No fim do tempo eram recolhidos, largavam ela em lágrimas e
a escadinha de órfãos sengracinha, espinhando o defunto vivo sumir na
curva da estrada.
Houve um caso, nesse tempo, que resultou num destranque muito triste.
Ficou foi a viúva com os órfãos de pai morto, deveras. Esse Governador
chamava Capitão General Fernando Delgado. Foi chegando e amigando logo
com a filha de um carpinteiro. No fim do tempo
123
, olha a encrenca. Os
validos do rei o podiam se apresentar no Paço real na condição de
amigado. Casar também ele não podia. Não tinha licença. Ele era nobre, e a
mulher dele era gentinha. Carpinteiro e todo trabalhador é gentinha. Pertence
a plebe, como eles diziam. O império consentia casar fidalgo com plebeu,
se o Rei concedesse licença de papel passado. E que a dona fosse declarada
de sangue limpo. Ela tinha que estar completamente livre de sangue eivado
de nativo, de mestiço, de indiano e de negro. [...]
Esse tal Capitão General chegou e foi encalacrando com uma goiana; e
em seguida, ela desovou duas crias. Um macho e uma feminha, e Fernando
Delgado ficou querendo bem a eles demais da conta. E com isso ela
encabestrou-o e passou barbicacho (PE, p. 187).
Quando foi chamado a Portugal, recebeu da companheira um ultimato: só iria com ele,
se os dois se casassem oficialmente. No capítulo 01 vimos que o casamento com mulheres
não brancas, pobres, levaria a um rebaixamento social, por isso a mancebia era tão freqüente
(Palacín, 1990). Diante do dilema de casar com uma simples mestiça ou perder a mulher que
amava”, Delgado se matou em 1821 (Oliveira, 2006). O narrador de Perpetinha coloca que,
contada deste prisma, a culpa do suicídio cai toda nas costas da mulher, que ela foi quem
pressionou o governador a tomar uma decisão: ou casar, ou deixá-la com os filhos no Brasil
(Bernardes, 1991).
121
Disponível em: http://www.gabinetecivil.goias.gov.br/notas.php?id=22.
122
“Mulher feia; desajeitada; desprezível” Disponível em:
http://www.dicionarioinformal.com.br/definicao.php?palavra=cangancha&id=7690.
123
No fim do governo.
126
Em Boa Vista a quebra do coco babu, como dito no primeiro capítulo, é uma
atividade exclusivamente feminina, na qual as crianças ajudam suas mães. Sobre as
quebradeiras de coco babaçu, no Maranhão, Rêgo e Andrade (2006) ressaltam que a sua
coleta e quebra, no Médio Mearim, passaram por várias mudanças, envolvendo
transformações de caráter produtivo e organizacional, próprios da movimentação das famílias
das quebradeiras de coco, e interesses de caráter comercial/econômico de órgãos
governamentais eo-governamentais.
Em 1957, através de um decreto do governo federal, foi criado o Grupo de Estudos do
Babaçu, sob a justificativa de racionalizar esta atividade extrativa. No entanto, as políticas
voltadas para a atividade agropecuária acabaram prejudicando os camponeses que
sobreviviam da extração do babaçu, como a Lei Estadual de Terras 2979, popularmente
chamada de Lei Sarney, que contribuiu para o avanço da pecuária no Maranhão, legitimando
a distribuição de vários hectares de terras públicas, supostamente devolutas, a particulares.
Com a expansão da pecuária, somada à grilagem de terras, muitos camponeses passaram
a enfrentar o problema da concentração de terras e da restrição de acesso aos babaçuais. Isto
leva à resistência e a conflitos travados entre famílias camponesas e vaqueiros, proprietários,
milícias particulares. Na década de 1980, surgiram e se fortaleceram algumas organizações de
defesa dos camponeses. E a elas as mulheres passam a se associar: embora uma atividade
predominantemente feminina, as associações, como, por exemplo, o Sindicato dos
Trabalhadores Rurais, eram lideradas exclusivamente por homens.
Em Perpetinha, todavia, não ocorre a mobilização das quebradeiras de coco babaçu. No
contexto atual, as famílias se unem para lutar pela preservação dos babaçuais e também pela
luta em prol do acesso à terra, aos recursos naturais e pela afirmação dos saberes locais na
utilização desses recursos, bem como a criação das cantinas: “espaços destinados à compra de
amêndoas de babu e à troca de mercadorias (gêneros alimentícios) diretamente nos
povoados” além de as próprias famílias camponesas, sócias da cantina, serem encarregadas da
administração, o que leva à eliminação da figura do “atravessador no processo de
comercialização da produção (Rêgo e Andrade, 2006, p. 50). as quebradeiras do romance
são descritas de forma resignada:
No seu ofício perpétuo de quebrar coco, as mulheres usavam poucas
ferramentas. Só um machado rundungue, um macete que elas mesmas
arrumam com um toco de pau roliço, de peso suficiente para abrir o coco
numa pancada só. [...]
127
Dia inteiro quebrando, elas vão colocando os corós numa camborona. Mais
tarde assa uma batelada deles para servir de almoço, comer com farinha de
puba. [...]
Quebração de coco é serviço de que os homens pouco se ocupam. É
ocupação de mulher, por tradição. Se entra homem como na panha de café,
nas terras do sul, o deboche é certo. [...]
Na sexta-feira vêm elas encordoadas no caminho da rua, voltam pra casa. É
regra não trabalharem dia de sábado. Tiram o sábado e o domingo para o
descanso
124
. Lavar roupa, ajeitar as coisas em casa, vender a bage e com o
resultado comprar os precisos
125
(PE, pp. 84-85).
Ao longo da obra, são apenas quatro passagens em que o narrador enuncia alguns
diálogos entre Armantino e dona Emerenciana. No primeiro ela informa sobre os dias que
padre Egídio está em Boa Vista (PE, p. 58). No segundo dona Merência afirma não saber se
os babaçuais algum dia pertenceram aos índios (PE, p. 82). No terceiro, mais longo que os
demais, ela defende que índio não é gente e que uma hora Armantino será traído por eles (PE,
p. 193). No quarto trecho, sobre o fato de o dentista algumas vezes ir brincar com os meninos,
ela diz que nunca viu um homem que nem Armantino: que cresceu e continuou com espírito
de criança (PE, p. 198). Lindalva tem seu discurso enunciado de forma direta apenas em uma
passagem, no dia em que Perpetinha some, quando percebe que estava ficando tarde e os
filhos ainda não tinham voltado. Ela pensa consigo mesma:- indo atrás, gente! Ver o que
aconteceu!” (PE, p. 209).
As demais conversas com as personagens femininas são enunciadas pelo narrador de
forma indireta. Perpetinha é uma personagem secundária; embora seja ela que dá nome ao
romance, não possui diálogo ou monólogo enunciado nem de forma direta, nem de forma
indireta. Lindalva, com exceção do breve monólogo, só manifesta expressão através dos
pensamentos e opiniões de Armantino, transmitidos pelo narrador. A única personagem
feminina que fala através do discurso direto, ainda assim, somente em quatro breves
passagens da obra, é dona Emerenciana, personagem de família tradicional e abastada no
local, o que revela as estratégias pelas quais os personagens, na obra de Carmo Bernardes,
alcançam visibilidade.
124
Grifos nossos: visão corrente em relação aos papéis de gênero femininos tradicionais, nos quais as tarefas
domésticas e cuidados com os filhos não são considerados trabalho.
125
Algumas famílias não tinham terras suficientes para realizar a agricultura e pecuária de subsistência, por isso,
artigos como o arroz, o feijão, a carne bovina, etc., considerados básicos à alimentação, deveriam ser comprados.
128
3.3 Recuperando os papéis e identidades de gênero em Santa Rita
Em Santa Rita (1995), Estevo, nosso narrador personagem Estevo se envolve, quando
chega à cidade, com Lucinda, que até então era quenga, mulher à-toa”, como diz o narrador
(SR, p. 11). Conforme dito no segundo capítulo, ela tinha uma filha pequena, Zoleta, por
quem Estevo se apegou bastante. De noite, antes da ceia, Estevo cantava para a menina ou
então brincava com ela na esteira, o que não agradava Lucinda:
Não gostava dos enjôos que a filha dela tinha comigo: uma espécie de
cme. [...]
Pode ser que seja maledicência: me contaram as companheiras dela que
Lucinda tinha aquelas implicâncias comigo, incucada de que eu era mal
intencionado com a filha; que eu estava era querendo criar a menina pra mim
mesmo desfrutar, quando ela crescesse e pusesse corpo de agüentar homem.
Acontece muito disso: caboclo amigar com mulher carregada de filhas, e daí
ir domando-as, levando-as pra cama uma por uma, à medida que vão virando
moças. Eu mesmo conheci um João Maria que tinha uma fala arrastada, que
deflorou suas quatro enteadas, antes mesmo delas estufar peitinhos. [...]
Nesse caso, ninguém dando parte à Justiça, fica por isso mesmo, e Lucinda
devera ser sabedora dalgum caso semelhante, e me julgava com cara desses
sacanas (SR, p. 18).
A ex-companheira é descrita por Estevo:
Sabe essas mulheres assim do recam largo, que pisa macio e bamboleia?
por vista a estampa de Lucinda. Vez por outra, à socapa, ouvi
companheiro dizer, quando ela passava, toda airosa:
- Essa mulher do Vico é um pancadão!...
[...] Devido ao hábito que, às vezes, tenha adquirido no tempo que foi
mulher de todo mundo, Lucinda era muito condescendente. Não tinha essa
hora que ela não estivesse pronta. Era dessas que não podem ser pedidas no
meio dos espinhos. Ainda bem o macho não acaba de dizer “me...”, ela,
sem esperar o “dá...”, vai deitando, se pondo na posição certa de dar o
serviço. Nessa parte eu o tenho nada a queixar de Lucinda, a o ser das
suas continências. Já pensou? Catorze dias no seco, todo mês? Sete dias
antes, sete dias depois dela ficar no Chico, eu tinha que passar em jejum
completo, sozinho na cama e ela dormindo na rede. Eu disse catorze dias?
Muito mais.
- Quando eras mulher dama tuo guardavas essas continências! –
[...] dizem que mulher que faz vida, recebe num dia mais de um homem,
não pega filho; um faz, o outro desmancha. E ela sair dessa vida, loguinho
começa a desovar, todo ano é uma barrigada, e era isso que ela não queria
(SR, pp. 18-19).
129
Quando Lucinda deixa Estevo, para ir embora, levando a filha, com Pedro Muriço, o
narrador fica muito triste, desgostoso. Sentia muita saudade, lembrava dos biscoitos que ela
assava no forninho feito num cupim, das brincadeiras que fazia com Zoleta. Com o passar dos
dias, o ressentimento vai diminuindo e Estevo conclui:
Sabe que Lucinda agiu certo? Debaixo dos meus mandos, ela perdeu as
liberdades que tinha antes, não podia fazer de sua vida o que quisesse, se
bem que, pouco a pouco, vou sabendo que ela era sossegadinha perto de
mim; que era só eu virar as costas essa bichinha pegava fogo debaixo
d’água, ajuntava as companheiras e caíam no fandango (SR, p. 27).
Tempos depois se envolve com Diolina, que, de acordo com Estevo, logo começou a
se aproximar. “Vinha, varria a casa, limpava as poeiras, lavava as vasilhas e reformava a água
do pote, e nós conversava. Falhava dois dias, tornava a vir; e, quando eu viajava, vinha todos
os dias” (SR, p. 35). Quando ele chega de suas viagens, ela vem, a o café e o ajuda a
descarregar os animais. Ela gosta muito do cavalo do narrador, Sereno, e, às vezes, dá
algumas voltas nele.
Com isto nós fomos tomando liberdade um com o outro, notei que ela
começou a despejar um olhar mole em cima de mim, os olhos lubrificados e
cheios de doçura, foi indo ficou dengosa comigo e, de minha parte, restava
propor. Eu havia domado ela bastante, nem careceu convidar. As paredes
do cômodo onde eu durmo são enchimentadas de palha, muito bem
fechadinhas. Numa tarde, quando cheguei e ela veio ligeirinha e pressurosa,
que pulou pra cima e pendurou no meu pescoço, de minha parte eu também
estava arretado feito um bode, puxei-a pelos braços, joguei-a na cama e,
estouvado demais, acabei arrebentando uma alça da sua anágua. Animal
abrutalhado e lúbrico.
Ficou por costume, e ela apresenta comigo todo sistema de mulher casada
(SR, p. 36).
Mas os dois continuaram morando cada um na sua casa. Encontravam-se à noite, como
Lindalva e Armantino, e ela voltava para sua casa, ainda antes de o dia raiar.
Albertina Vicentini (2007) ressalta que uma das temáticas da literatura regionalista é a
temática erótica, na metáfora da moça fruta do mato, nas histórias de amores violentos,
trágicos, arrebatadores, instintivos, “desintelectualizados pelas desmedida das ações, pelas
reações primárias do sertão sem escola ou disciplina, ao lado da representação contrária do
amor idílico, doce, angelical, exercido em lugares amenos, bucólicos, bonitos, líricos”, típicos
do imaginário quinhentista (p. 192). Esse erotismo fica perceptível na descrição das
personagens e na narração de algumas relações descritas acima.
130
Ediléia, filha de seo-Zezão, neta de seo-Francisco, era uma moça muito mal falada em
Santa Rita, mesmo sendo da família Pereira Moreira, a mais poderosa na cidade. Seu nome
estava em quase todas as conversas debaixo dos baruzeiros, ainda mais depois do episódio
com o chofer de automóvel, relatado no segundo capítulo. Ela, na última partida de futebol,
estava à frente da torcida dos canarinhos, que perdiam o jogo, “pulando pra riba dizendo
bofeiras, desbocada que ela” (SR, p. 62). Afastava-se do ideal de moça pura, reservada, o
que fica perceptível no comentário irônico do narrador, quando ela sumiu com o chofer: “Mas
isso é uma das virtudes do progresso; que se há de fazer” (SR, p. 44). Gostava muito de festas,
de dançar e não se importava que o povo da cidade dissesse que ela pegava fogo debaixo
d’água. Bem diferente da avó, sea-Lixandra, dedicada ao marido, aos filhos e à casa.
Seo-Francisco, durante a juventude, manteve alguns casos extraconjugais o que, para
uns, o teria deixado impotente, “carregando uma galinha morta no vão das pernas(SR, p.
44). Durante cinco anos teve um relacionamento, e duas filhas, com a professora da escola
pública da Meia-Ponte, dona Philomena Ayres. Ela foi quem colocou um ponto final no
relacionamento, dizendo que queria dar um bom exemplo às filhas e que não queria se
envolver com mais ninguém. A filha caçula, Filozica, de quem falamos no capítulo anterior,
foi batizada com o mesmo nome da mãe, seguindo a mesma carreira: o magistério.
Como vimos, Filozica foi levada à Santa Rita depois que padre Belote e Ronaldo
foram expulsos. Ela também não se enquadra nos padrões estabelecidos como ideais para uma
mulher. Andava a cavalo, se vestindo, para isso, de um jeito diferente do usual. Dava festas
nas quais cantava e tocava bandolim. Mesmo casada, teve um caso com cabo Altino, e o se
importou com os comentários, quando este se tornou de conhecimento público. Manifestava
sua vontade de conhecer outros lugares e não “ficar enterrada no sertão a vida inteira [...]
estragando a sua mocidade, gastando suas forças” (SR, pp. 111-112). Nelly Alves, no prefácio
da obra, destaca: “Vivendo e provocando desatinos, mostrava-se completamente livre,
voluntariosa, ignorando o próprio marido Alberto, adepta do que sugerisse escândalo, à
procura, sem dúvida, de afirmação” (Bernardes, 1995, p. 7).
As caçadas e pescarias podem ser percebidas como papéis de gênero masculinos,
que delas as mulheres eram excluídas. Estevo conta que, um dia, Diolina pediu para ir junto
em uma pescaria, na qual ele ficaria de pouso por três dias. Prometeu que não ia atrapalhar,
mas Estevo, como pretexto para não levá-la, contou a história da pescaria de ossos, lá no porto
do Jenipapo. Há uma inversão em relação às fofocas, geralmente associadas em nossa cultura
como “coisa de mulher”: em Santa Rita quem dá notícia da vida alheia e faz circular os boatos
e comentários são os homens que se reúnem à sombra dos baruzeiros. Talvez porque as
131
mulheres, limitadas ao espaço doméstico, não pudessem participar das rodas de conversa
formadas fora de casa, na esfera pública.
O futebol também é um papel de gênero masculino: as mulheres participam como
expectadoras ou torcedoras. Os argumentos utilizados para restringir a participação feminina
nas partidas de futebol, como jogadoras, ainda hoje, são fundamentados na suposta
masculinização da mulher, isto é, na pretensa perda da feminilidade e beleza. No século XX
as mulheres conquistam mais espaço nos esportes, considerados até então essencialmente
masculinos. A prática de exercícios físicos é bem vista, como uma forma de fortalecer a
mulher, preparando-as, desta forma, para gestações saudáveis. Mas o futebol, por ser
considerado muito violento, estava fora dos esportes recomendados. Somente em 1979 é que
o Conselho Nacional dos Desportos revoga a deliberação que proibia a prática do futebol e
futebol de salão pelas mulheres (Goellner, 2005).
Em relação ao trabalho doméstico, Kosminksy e Santana (2006) ressaltam que teve
origem no Brasil escravagista, praticado gratuita ou quase gratuitamente, por mulheres livres
ou escravizadas, sendo, posteriormente, delegado a mulheres jovens, pobres, de origem rural,
geralmente o brancas, cuja força de trabalho é subvalorizada. O emprego em atividades
domésticas é uma decorrência do treinamento pelo qual muitas mulheres passam durante a
infância.
Mães, avós e outras figuras femininas atuam na internalização dos padrões de conduta
que ainda são considerados, popularmente, como femininos: o cuidado com a casa e com a
família. Quando a mulher trabalha fora, acumula responsabilidades. Se tiver filhas, delega a
elas algumas obrigações. Quando tem condições econômicas, contrata uma funcionária para
realizá-las. Diolina, além dos cuidados com a casa de Estevo, também ajudava dona Silvana a
cuidar da comida, antes a de padre Belote, depois a de frei Germano, e a arrumar a igreja e a
casa paroquial. Também foi chamada para cuidar dos afazeres na casa de dona Filozica. Mais
uma vez, observamos a imagem da mulher vinculada às ocupações domésticas. Não
menção, nas duas obras, se estas atividades, quando realizadas na casa de outrem, são
remuneradas.
132
3.4 Explorando as continuidades nas relações de gênero nas duas obras
Em relação à sexualidade, percebemos, nos dois romances, a subordinação da mulher
às vontades sexuais de seus parceiros. Sociedades herdeiras de uma organização social do tipo
patriarcal-agrário, como a brasileira, conduzem a um duplo padrão de moralidade sexual: ao
homem cabe “todas as liberdades de gozo físico do amor”, enquanto à mulher fica a obrigação
de ir para a cama com o marido, sempre que ele quiser, acompanhada também pela obrigação
de “conceber, parir, ter filho, criar menino” (Freyre, 2002, p. 805).
O sexo, para os personagens masculinos, é uma das formas de afirmar a virilidade, o
que fica claro nas comparações feitas entre Estevo e Dr. Wanderley e um bode. Desta forma, à
mulher, como fêmea, como “cabra”, estar disposta sempre que o companheiro demonstrar
desejo. Tal submissão, no entanto, é minimizada com o argumento de que a mulher sertaneja,
em relação ao sexo, “Nunca apresenta enfado. Cutucou tá pronta”, não precisando receber
muitos carinhos do parceiro (PE, p. 136). Essa predisposição ao sexo justificaria alguns
“estupros nas duas obras:
[...] tinha aparecido um homem que ninguém soube de onde vinha, pegou
uma mulher dum Pereira Moreira que estava banhando [no rio], arrastou pro
mato, fez todo o que quis com ela. Os boateiros têm a cachimônia de fazer
maldade dizendo:
- O caso só não ficou às ocultas, porque umas companheiras foram chegando
para banhar e viram o finalzinho do brinquedo!
E acrescentava, que ela se vendo pilhada, saiu de debaixo gritando que me
acode, deu um empurrão “chega pra lá” no “agressor”, levantou e correu ao
encontro das outras fazendo-se de espavorida (SR, p. 52)
[...] Duas comadres de Padre João foram desrespeitadas por um cabra que
não considerava as famílias. Dizem que muitas mulheres sofreram,
agüentando aqueles cabras, se é que elas não achassem aquilo bom. O povo
tem uma indaca besta de que pegada à força mulher sofre. O mais que elas
fazem é espernegar e dizer não. Dão uns coices, mas logo quietam, fazem de
conta que desmaiam. Se não querem, então porque não fecham as pernas,
não viram lacraia debaixo do agressor? Taquem os pés nele, mordam,
oratabão! Se danarem a morder, dar coice, virarem uma lacraia, vai indo, no
exercício da luta, a espingarda do companheiro dispara, vem o desalento,
sossegam os instintos.
- Se umo quer, dois não brigam, oh xêm! (PE, pp. 114-115).
As discussões de gênero também nos ajudam a conhecer melhor alguns aspectos
ligados ao chamado impulso sexual. A sexualidade como impulso biológico instintivo é
historicamente aplicada mais à sexualidade masculina, que o homem seria o que domina,
133
que controla, sendo violenta porque o que é impulsivo é de difícil controle. Assim, o ato
sexual é visto como “expressão natural da necessidade do macho em conquistar e dominar a
fêmea”. A tradição de estabelecer e enquadrar os aspectos sociais em pares dicotômicos e
excludentes (cultura/natureza, razão/emoção, sujeito/objeto, mente/corpo, etc.), em relação à
construção dos gêneros,
[...] o dualismo afirma, em primeiro plano, que o homem é ativo e a mulher,
passiva. Aplicado à construção da sexualidade, ele funde a identidade de
gênero e a identidade sexual (ser homem é praticar sexo com mulheres, e
vice-versa), resultando na hegemonia heterossexual, baseada em dois tipos
de seres: homens sexualmente ativos e mulheres sexualmente passivas. Aqui,
um confronto entre opostos é a base da sexualidade: o homem vai fazer e à
mulher será feita (Giffin, 1994, pp. 150-151).
Sendo identificada com a natureza/corpo/emoção, a mulher é vista como a pecadora,
aquela que tenta sempre seduzir o homem (identificado com a cultura/mente/razão), devendo,
por isso, se controlar. É uma tradão contraditória, pois, ao mesmo em tempo que a mulher é
tida como possuidora de uma sexualidade bem menos desenvolvida que o homem, ela é a
responsável pela sedução, por desencaminhar o homem, assim como fez Eva com Adão, no
Gênesis bíblico. Esta contradição é sentida nos modelos femininos de conduta: Eva/ a mulher
da rua/ a prostituta, e a Virgem Maria/ a mulher da casa/ a mãe e esposa
126
. Se a mulher dá
vazão à sua sensualidade, então, pode ser culpada pelos ataques sexuais que ela mesma
provocou. “Se um não quer, dois não brigam, oh xêm!” (PE, p. 115).
A maternidade é vista como um impositivo às mulheres casadas ou amigadas. Estevo
estranhou o fato de Lucinda não ter sentido vontade de ter filhos com ele. Armantino ficou
cismado com o fato de que Lindalva, “tão nova, tinha o corpo esquio e os peitos firmes, era
viçosa como uma manga criada do lado que o sol sai”, não engravidava, talvez por conta de
alguma inflamação. Pensou em levá-la a algum médico, mas desistiu: “em certas moléstias
não convém mexer. Ia ficar assim mesmo. Ela não queixava nada, pra que incômodo?” (PE,
pp. 198-199).
O magistério também pode ser encarado como um papel predominantemente
feminino, que Ronaldo, que era homossexual, foi professor de Santa Rita durante um
126
Embora esta dualidade tenha sido, em certa medida, modificada, como evidenciam algumas revistas voltadas
para o público feminino, como Nova, Claudia, Criativa, etc., nas quais, ao lado de dicas de beleza, moda, receitas
culinárias, dicas de saúde, decoração, notícias sobre carreira profissional e mercado de trabalho, encontramos
informações sobre “como achar o ponto g”, “como enlouquecer um homem na cama”, posições sexuais, sexo
oral, sexo anal, orgasmos múltiplos, e várias outras, indicando que a mulher contemporânea, para ser completa,
além de ser boa dona-de-casa, bem cuidada, antenada nas tenncias da moda, bem sucedida profissionalmente,
também deve ser “boa de cama”.
134
tempo, sendo substituído, posteriormente, por Filozica. Esta e a mãe, dona Philomena Ayres,
eram professoras na Meia-Ponte. Em Boa Vista a função era exercida por dona Leonor. Ou
seja, por serem mulheres elas teriam mais atenção, mais afeto para ensinar e cuidar das
crianças. Outro aspecto que merece destaque é o envolvimento de Estevo com Diolina, e o de
Armantino com Lindalva. Em ambos, o relacionamento se inicia depois que elas o trabalhar
na casa deles, o que estabelece, de início, a hierarquia patrões-empregadas, e com ela a
subordinação, estendida, posteriormente, à conjugalidade.
Estevo e Alberto são personagens que fogem um pouco ao estereótipo do homem
duo, “cabra macho”, aquele que dá as ordens. Os papéis masculinos estão associados ao
poder, à autoridade, liderança, independência, força, racionalidade (e com ela o pleno controle
das emoções, como a idéia corrente de que “homem não chora”), sempre em oposição aos
papéis definidos como femininos em nossa cultura. Estevo, no entanto, quando é deixado por
Lucinda, afirma o seu sofrimento, a sua saudade, a sua mágoa (despeito) em ter sido trocado
por outro homem. Mas, na frente dos companheiros de prosa, disfarça o ximo que pode,
sem ter muito sucesso, pois eles percebem e fazem troça, dizendo que Estevo dormia
abraçado ao vestido que Lucinda deixou, ou que, de tanto chorar, acabou tendo conjuntivite
(bonitinha), “pintaram e bordaram comigo, botaram minha honra abaixo dos cachorros”. Com
Diolina tenta não se envolver tanto, “Basta o que Lucinda me fez”, “botei o atrás, [...] Se
de uma hora pra outra ela me desprezasse de todo, não me panhasse desprevenido; escaldado,
escaramentado, essa dnão ia acabar com minha alegria: Lucinda, a outra, me exemplou
(SR, pp. 17; 36; 133).
Alberto, marido de Filozica, era visto como um chichisbéu, ou seja, um homem mole.
Além de cuidar das plantações de fumo, na Meia-Ponte e as que adquiriu no Machambombo,
também cuidava de alguns serviços domésticos. Era ele, por exemplo, que coava o café e
fazia bolinhos para receber as visitas; era ele também quem fazia e levava as refeições para
Filozica, na escola. Quando o envolvimento da professora com cabo Altino “cai na boca do
povo”, ele passa a receber bilhetes anônimos, percebe cochichos e deboches. O narrador
afirma que, em casos de traição, quando o marido não sabe, as pessoas sentem dó, mas a partir
do momento em que ele toma consciência, deve tomar alguma atitude para não ficar
desmoralizado, para não ser “marido da goteira”
127
(SR, p. 106).
127
A Bíblia traz várias passagens, no livro de Provérbios, nos quais a mulher, briguenta, que não está sob a
missão do marido (isto é, submissa a ele) é comparada a uma goteira.
“O filho insensato é uma desgraça para o pai, e um gotejar contínuo as contendas da mulher” (Pv. 19: 13); “É
melhor morar num canto de telhado do que ter como companheira em casa ampla uma mulher briguenta” (Pv.
21:9); “O gotejar contínuo em dia de grande chuva, e a mulher contenciosa, uma e outra o semelhantes; Tentar
135
O “corno”, o homem que foi traído por sua mulher, é um estereótipo que vai de
encontro à imagem do “verdadeiro homem”. A traição é vista como “um ataque frontal à
identidade masculina do homem”, pois revela a incapacidade de proteger e controlar a mulher,
levando à emasculação simbólica, pois, ao ser enganado pela companheira, ele perde sua
posição ativa, passando para um papel passivo (Parker, 1991, p. 80).
De acordo com código do sertão (Franco, 1997), do qual falamos no capítulo anterior,
o adultério era um dos atentados contra a honra que deveriam ser punidos. Assim o ofensor, o
amante, poderia ser assassinado pelo ofendido, o marido, sendo que este, quando não matasse
a esposa, jamais poderia voltar a conviver com a causadora de sua desgraça. Altino foi
executado a mando do Conselho dos Notáveis de Santa Rita, com o conhecimento, e
consentimento, de Alberto, que perdoa Filozica e os dois continuam casados, contrariando o
código acima. Este casamento, então, pode ser concebido como um impositivo social.
Mesmo que dona Filozica divergisse de alguns dos padrões estabelecidos para as
mulheres, ela continua seguindo a convenção de que o casamento era uma das principais
formas de realização feminina. Ainda que ela desejasse conhecer outros lugares, se libertar do
sertão, cenário no qual seu comportamento era incompreendido e mal visto, ela deveria correr
o mundo ao lado do marido. A separação talvez significasse um grande impedimento à
realização de seus anseios.
Em relação à enunciação do discurso, notamos que as personagens femininas falam
muito pouco. As falas são reproduzidas, de forma muito breve, em seis passagens do
romance, duas a mais do que em Perpetinha, embora estejamos contando aqui os versos
cantados pela professora Filozica, em duas festas. As primeiras falas transcritas por Estevo,
através do discurso direto, são as de Diolina, quando ela pede para ir com ele a uma pescaria:
a primeira é o pedido e a segunda a interjeição diante da notícia de que o rio onde seria a
pescaria era cheio de ossadas (SR, p. 37). Na segunda passagem, Diolina diz a Estevo que
padre Belote e Ronaldo foram expulsos da cidade (SR, p. 72). Na terceira, Diolina diz ao
companheiro que não sabia que a patroa, Filozica, tinha um caso com o cabo (SR, p. 106). Na
quarta, ela reafirma ao narrador não conversar com a patroa, Filozica, sobre o envolvimento
com Altino (SR, p. 111). Na mesma página, o narrador reproduz a interjeição de dona
Filozica, quando ela andava de cavalo perto da delegacia, na esperança de ver Altino, que
estava recluso: “- Êêh... chão parado!...”. Nas páginas 124 e 141 temos as canções da
moderá-la secomo deter o vento, ou como conter o óleo dentro da sua mão direita” (Pv. 27:15-16). Goteira,
então, pode ser vista como falha de integridade, assim o marido da goteira seria o homem casado com uma
mulher voluntariosa, que não se submete às vontades e decisões do marido.
136
professora, transcritas no segundo capítulo. As demais percepções e falas são filtradas e
transmitidas por Estevo.
Discurso aqui é compreendido como a maneira pela qual os personagens têm sua fala
expressa, enunciada. Engelmann (1996) observa que na narrativa de ficção o narrador, ou
sujeito da enunciação, é a voz intermediadora entre o autor, sujeito-que-escreve, e os
acontecimentos. O autor inventa e dirige as criaturas que compõem seu universo romanesco:
narrador, personagens, eventos, etc. Ele pode criar diversas máscaras e, ao mesmo tempo, se
esconder atrás de todas elas. Mas, através do controle do sujeito-que-enuncia, pode também
estar inserido no discurso como consciência narrante, representada pela voz do narrador. Ou
seja, através da construção dos personagens, da forma como as falas são enunciadas,
selecionadas ou silenciadas pelo narrador, podemos compreender alguns aspectos da realidade
sócio-histórica do autor.
Os dois romances não são delimitados temporalmente, mas, através de algumas pistas,
como a chegada do automóvel, em Santa Rita; a menção à capital, Goiânia, e a permanência
do nome Boa Vista (em 1943 o município passa a se chamar Tocantinópolis), em Perpetinha,
deduzimos que as narrativas se situam provavelmente na década de 1940. A fundação da nova
capital e a chegada do automóvel são marcos no processo de modernização do Estado. Entre
1930 e 1960 várias medidas foram tomadas com o objetivo de incorporar Goiás à produção
capitalista nacional, através da agropecuária. Nas décadas de 1940 e 1950 o crescimento
demográfico, rural e urbano, registrou altos índices. Na década de 1960 a dinâmica entre
campo e cidade sofre alterações, culminando, na década de 1970, na preeminência
quantitativa da zona urbana sobre a zona rural, sem prejuízo da cultura que continuou rural.
Um dos aspectos da modernização do Estado foi a mecanização do campo, e com ela a
liberação de mão-de-obra. Estes trabalhadores antes estavam empregados na atividade
agropecuária, ao perderem seus empregos, migram para as cidades maiores, que também
estavam se modificando com o investimento no setor industrial e de serviços. Foram feitos
investimentos também na área da educação, tudo em função do desenvolvimento capitalista,
como uma forma de superar a imagem de atraso e isolamento aos quais Goiás estava
relacionado (Rabêlo, 1998).
A década de 1980 foi marcada pela redemocratização do país; o fim da ditadura militar
ampliava os debates sobre as opressões, entre elas a feminina. Em Goiás, neste período,
surgiram rias entidades voltadas às discussões sobre as discriminações de gênero e sobre a
violência (física) contra a mulher: GFE (Grupo Feminista de Estudos), que depois se dividiu,
originando o grupo Eva de Novo; CEVAM (Centro de Valorização da Mulher); Centro
137
Popular da Mulher; Grupo Transas do Corpo. Em 1985 foi instalada e Delegacia da Mulher
para apurar e punir especificamente os casos de violência contra a mulher (Costa, 2003).
A violência contra a mulher ainda esbarra num em dois traços culturais socialmente
estimulados: a “brabeza e a rudeza” para os homens – desde a vida de garimpeiro, de vaqueiro
ou boiadeiro; a timidez, o acanhamento, a submissão e a obediência da mulher ao homem,
traços que marcariam os ideais de virtude e feminilidade cobrados da mulher. Durante o
século XIX, as mulheres eram vistas raramente em público ou se dirigindo a estranhos. A
família goiana, de origem rural, mantinha sobre as mulheres um controle rígido, sendo a
autoridade patriarcal inquestionável no ambiente doméstico. As mulheres boas, virtuosas,
eram aquelas que se limitavam à esfera doméstica. Em Goiás, a primeira escola feminina, na
qual além de leitura, escrita e as quatro operações básicas, eram ensinadas habilidades
manuais necessárias ao trabalho doméstico, como bordado, costura, etc., foi fundada em
1889 na cidade de Goiás. Sessenta e cinco anos de defasagem em relação às escolas fundadas
no sul e sudeste. Se mesmo com a fundação do Lyceu de Goiás, a primeira instituição de
ensino secundário, em meados do culo XIX, a grande maioria da população goiana
continuava sem aprender as primeiras letras, não se pode imaginar que a possibilidade de
estudo às mulheres tivesse tido um alcance diferente (Abreu, 2003).
Com o advento da República a situação de reclusão feminina permaneceu, em especial
com o coronelismo. “O domínio dos coronéis mantém o poder masculino nas relações
interpessoais e, é de se supor, também sobre a falia, legitimando ainda mais o uso da
violência em defesa da honra, dos princípios de fidelidade, moral e costume” (Abreu,
2003
128
). Mesmo com o processo de modernização, iniciado nos anos de 1930, o padrão de
sociabilidade pautado pelo uso da violência quando necessário ainda persiste. É em
decorrência deste aspecto que o tema da violência masculina contra a mulher e o servilismo
são componentes culturais do movimento feminista em Goiás, a partir dos anos de 1980.
Como resultado dessa organização das mulheres em Goiás, Goiânia foi a segunda cidade
brasileira a criar uma delegacia especializada para o atendimento às mulheres vítimas da
violência (Idem, ibidem).
Em Perpetinha e Santa Rita fica patente que as mudanças não atingem todos os
lugares com a mesma intensidade. Há ainda lugares que parecem estar “parados no tempo”,
como as currutelas, que parecem ter seu próprio ritmo. A mecanização do campo, o uso da
128
Disponível apenas em formato eletrônico:
http://terra.cefetgo.br/cienciashumanas/humanidades_foco/anteriores/humanidades_1/html/sociedade_condicaof
eminina.htm.
138
energia elétrica, a presença da televisão e da antena parabólica, entre vários outros aspectos
que simbolizam o progresso, o são acompanhados por transformações significativas de
alguns padrões de comportamento. É o que acontece, por exemplo, com os papéis de gênero
femininos e masculinos.
Na zona rural, e nas pequenas cidades do interior, ou franjas do rural-urbano, o
trabalho doméstico ainda constitui um referencial importante na socialização das meninas. As
atividades femininas (limpar a casa, lavar e passar a roupa, cozinhar) ainda o vistas como
uma forma de se garantir a reprodução da força de trabalho, representada pelos homens
(Whitaker, 2002). Ou seja, o trabalho das mulheres é coadjuvante, auxiliar ao trabalho dos
homens. Se a atuação feminina é secundária, sua importância também o é, e, talvez por isso,
não seja essencial enunciar a sua fala, dar som à sua voz, a não ser quando se trate de
amenidades. É desta perspectiva que compreendemos os poucos, e breves, momentos nos
quais as personagens femininas dos dois romances ganham voz através do discurso direto.
Percebemos, mais especificamente em Santa Rita, que os papéis de gênero continuam
a seguir o modelo tradicional, relatado ao longo dos itens anteriores, embora haja algumas
rupturas no comportamento de alguns personagens, como Filozica, Estevo e Alberto,
registrando algumas mudanças sutis. Essa regularidade pode ser notada, nas duas obras de
Carmo Bernardes, através da filtragem das falas femininas, e, sobretudo, na omissão das
mesmas.
3. 5 Algumas considerações sobre literatura, região e sertão
A literatura não pode ser vista apenas como instância refletora da realidade, ou seja, a
produção literária não é o “reflexo imediato e diretamente condicionado pela ordem social”.
Nesta concepção, dominante no século XIX e parte do século XX, a obra literária é reduzida
ao mero testemunho da realidade. Mas, ao mesmo tempo, a realidade é objetiva e subjetiva:
“Se o escritor exterioriza seu ser no mundo social, ele também o interioriza como realidade
objetiva”, o que leva a vários deslocamentos. Se a literatura emerge de uma determinada
realidade histórica, isso não significa que deva ser o seu registro fiel, ou a sua fotografia. Ao
contrário: a literatura tende freqüentemente a insurgir-se contra este real” (Velloso, 1988, pp.
239-240). Mesmo que a literatura, bem como outras obras artísticas, capte uma parte da
139
realidade, ela o faz de maneira diversa, muitas vezes transfigurando o real, transformando-o
em aventura, em ficção.
A validade de um resultado literário, como o poema, o romance, o conto, não é
proveniente do fato de copiar a vida, mas sim porque transfigura uma dada realidade. O valor
e significado de uma obra não são dados pelo fato de representar/ plasmar a realidade, mas
sim através da maneira que o artista internaliza a realidade e externaliza o seu ser. O
importante é verificar como são dispostos, e como se configuram os aspectos sociais dentro da
realidade própria da obra, já que ela é
[...] uma realidade autônoma, cujo valor está na fórmula que obteve para
plasmar elementos não-literários: impressões, paixões, idéias, fatos,
acontecimentos, que o a matéria-prima do ato criador. A sua importância
quase nunca é devida à circunstância de exprimir um aspecto da realidade,
social ou individual, mas à maneira por que o faz (Candido, 1997a, p. 33).
A literatura, no Brasil, se inicia no século XVI, apesar de, neste momento serem ralas
e dispersas manifestações sem ressonância, mas foram importantes, pois estabeleceram um
como e marcaram posições para o futuro (Candido, 1997a). No século XVII, ela é ampliada
através da emergência de escritores de porte na Bahia. Para se configurar plenamente como
sistema articulado, ela depende da existência do trinômio “autor-obra-público” em dinâmica
interação e da fundação de uma tradição, através da qual ela se propala. Desta forma, a
literatura brasileira se configura, de fato, no decorrer do século XVIII.
No século XIX, com o processo de Independência do país, a atividade literária é
considerada como esforço de construção do país livre, cumprindo um programa que visava à
diferenciação e particularização de temas e maneiras de exprimi-los, pela tomada de
consciência dos autores quanto ao seu papel (escrever para a sua terra), encarnando, desta
forma, o espírito nacional. Assim, a literatura assume sentido histórico e extraordinário poder
comunicativo, tornando-se língua geral duma sociedade à busca de autoconhecimento
(Candido, 1997a, p. 27). Ou seja, a literatura vincula-se, de forma bastante estreita, à
formação da nação, uma vez que os escritores, por meio do sentimento de missão, também
chamado de nacionalismo infuso, se sentiam no dever de exprimir percepções de alcance
geral, além de descrever a realidade imediata.
As transformações ocorridas na sociedade brasileira ocorridas nos séculos XIX e XX
foram registradas pela literatura e também se transformaram em literatura, trazendo novos
modos de observar, sentir, compreender, nomear e exprimir os fenômenos históricos. Assim,
quem se dispusesse a servir às letras era compelido à atuação cívica (Sevcenko, 1983). Esse
140
compromisso em descrever a realidade imediata implicou no paradigma da objetividade: a
racionalidade e a sistematização suplantaram a imaginação e a invenção. Na ânsia de retratar
o Brasil, nossa literatura acabou voltando-se mais para tendências realistas do que para as
propriamente ficcionais. Literatura e história se confundiam na apreensão da nação
(Velloso, 1988, p. 241).
Deste modo, para interpretar a nossa nacionalidade era preciso eleger qual o saber
mais adequado: interpretação realista, que a interpretação literária estaria fadada aos erros
que a subjetividade implica. A nacionalidade também estava dividida entre duas realidades,
litoral X sertão, oposição geográfica que acaba se transformando também em oposição de
saberes: o Brasil visto literariamente, do ponto de vista do litoral, da cidade (corporificado por
Machado de Assis); e o Brasil visto sociologicamente, a partir do próprio sertão
129
, do interior
(corporificado por Euclides da Cunha).
A interpretação da nacionalidade, então, passa a ser representada pela forma
sociológica, valorizando-se a região e o rural em detrimento da cidade, que esta estaria
voltada para a cultura importada, dando as costas para o Brasil real (Velloso, 1988). Neste
momento o regional se sobrepõe ao universal
130
, com a descrição da terra, dos tipos humanos.
Para adquirir validade, a literatura passa a assumir os critérios de cientificidade
131
, tributários
do positivismo, perdendo quase que completamente sua função artística.
A correlação entre literatura e sociedade ocorre em vários e variados níveis (Candido,
1976). No Brasil, até a primeira metade do século XX, o valor e o significado de uma obra
dependiam diretamente do grau em que esta exprimia determinados aspectos da realidade
nacional. Já nos anos de 1950 chegou-se à posição oposta: a importância de uma obra
independeria de quaisquer condicionamentos, sobretudo social. Atualmente, entretanto, estas
duas tendências são percebidas como complementares, que a compreeno do fenômeno
literário ocorre de forma completa quando há fusão entre texto e contexto, numa
interpenetração dialética.
Não devemos nos esquecer que uma obra literária é, antes de mais nada, uma criação
artística. É claro que ela também pode ser vista como um fenômeno de civilização, isto é,
129
Euclides da Cunha fala pelo sertanejo, interpretando e explicando sua luta e sua terra a partir de seus
parâmetros de homem letrado, da ciência, da cidade, do litoral. Diferentemente do que acontece em Grande
sertão: veredas (1978), de Guimarães Rosa, no qual o sertão vira mar, ou seja, passa ser um local de fala contra-
hegemônica, com o autor cedendo a palavra ao sertanejo, mantendo-se apenas como presença simbólica
(Vicentini, 1998).
130
Candido (1997a) chama a atenção para o fato de que a literatura brasileira se forma como síntese de
tendências universalistas e particularistas, ora com o predomínio de uma, ora com o predomínio da outra, de
acordo com a ideologia que se pretende defender.
131
Observação, precisão, descrição, objetividade.
141
como produto de uma dada sociedade, num determinado momento histórico. Mas
arbitrariedade e deformação no diálogo travado entre o trabalho artístico e a realidade, mesmo
quando o objetivo é observá-la e transpô-la rigorosamente, que “a mimese é sempre uma
forma de poiese” (Candido, 1976, p. 12). Mesmo quando a pretensão é documental, buscando
o autor ser o mais objetivo possível, algum grau de fantasia, de transfiguração, pois cada
pessoa tem uma forma de apreender e exteriorizar a realidade que busca descrever.
A criação é fruto de uma determinada visão do mundo (fenômeno coletivo na medida
em que foi elaborada por uma classe social, de acordo com seu ângulo ideológico específico)
e nesse sentido o elemento social emerge como explicação do teor de idéias e da composição
da obra, fornecendo subsídios para determinar sua validade e o seu efeito sobre nós. Mas a
estrutura de uma obra também é composta por elementos de ordem subjetiva, os quais
Candido denomina de aspectos psíquicos, que dão a tonalidade específica de cada composição
artística (1976).
Nesse sentido é que buscamos interpretar as duas obras de Carmo Bernardes,
Perpetinha: um drama nos babaçuais (1991) e Santa Rita (1995). O valor de ambas não
provém da fidelidade com que descrevem a realidade do interior de Goiás, ou do fato de nelas
estarem presentes várias denúncias, como as desigualdades e injustiças sociais, o preconceito
e a discriminação daqueles que se distanciam da matriz branca, masculina, e heterossexual,
mas sim através da maneira como o autor as concebe e as enuncia. “A arte não dá respostas,
mas amplia o campo da investigação” (Lucas, 1970, p. 16).
O caráter social das obras de Bernardes vem do posicionamento crítico, da tomada de
consciência que o narrador e alguns personagens assumem diante de algumas questões, talvez
em decorrência da perseguição política que o autor sofreu ao longo da ditadura militar em
Goiás. Xambioá: paz e guerra (2005) e Visto do tempo (ainda não lançado) o livros nos
quais o autor faz um relato do período. Já na cada de 1960, em alguns livros, como
Rememórias e Rememórias 2, ambos livros de crônicas, Bernardes, algumas vezes de maneira
explícita, outras implícitas, tece suas críticas ao governo militar (Santos, 2005).
Aos trinta anos (1945) o escritor entrou para a carreira jornalística, em Anápolis,
depois de já ter exercido várias profissões, época em que também se distancia do Partido
Comunista, do qual tinha sido um entusiasta. Em 1965 passa a ser redator, em Goiânia, do
jornal Cinco de Março
132
, além de atuar em algumas rádios da cidade. No mesmo ano foi
132
O jornal Cinco de Março, de publicação semanal, foi fundado no dia 05 de março de 1959 por Batista
Custódio, Telmo Farias e Consuelo Nasser, devido à repressão do movimento estudantil no Estado. Nas décadas
de 1960 e 1970 o jornal atuou em favor da liberdade de expressão, da anistia, da cidadania, da democracia, da
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convocado para depor no Inquérito Policial Militar (IPM)
133
, em Juiz de Fora, Minas Gerais.
Bernardes morava na Macambira, região que corresponde ao setor Pedro Ludovico,
trabalhava em órgãos públicos (Secretaria de Viação e Obras blicas, Centrais Elétricas de
Goiás - CELG), freqüentava o Ca Central, ponto de encontro, debate e discussões dos
intelectuais goianienses. Publicava, diariamente, crônicas no Cinco de Março, além de
participar do jornal Quarto Poder, da Universidade Federal de Goiás (UFG):
Ao denunciar, diariamente, as injustiças e as incoerências da vida social,
Bernardes, muitas vezes lido apenas como um escritor de curiosidades, faz
de seu espaço no jornal um meio de ir revelando o que e o que sente.
Disfarçado em um displicente “caipira escritor” deixa claro, em pitorescas
crônicas, que reproduzem a cultura rural ou em histórias de anônimos
caipiras na cidade, os dramas vividos pelos homens do campo em Goiás
nesse período, especialmente a precariedade da vida rural e a expulsão dos
lavradores de suas terras; a incapacidade do mundo urbano em assimilar
esses recém chegados, considerados inaptos à vida na cidade; a falta de uma
estrutura que atenda às necessidades de alimentação, saúde, educação
emprego e moradia da população que está formando a nova capital.
Vê-se em Bernardes, um número crescente de crônicas com críticas à
sociedade na qual está inserido. Não é, pois, de se espantar as suspeitas
levantadas sobre o autor como subversivo. Observador do povo, Bernardes
não se acanhava em dizer que escrevia para esse mesmo povo em um
momento em que “o povo” poderia traduzir ou expressar o imaginário
circulante de possíveis revoltas e revoluções, que a ditadura militar viera
combater, como dizia os discursos dos militares (Santos, 2005, pp. 112-113).
Para não ser preso, fugiu, depois de dar o depoimento ao IPM, e se refugiou na Ilha do
Bananal, hoje pertencente ao Estado do Tocantins, trabalhando como diretor do hotel JK.
Estas experiências marcam a vida do autor e são percebidas em seu estilo de escrita e em suas
obras. Depois de retornar à Goiânia, diminui as críticas à ditadura, em virtude das dificuldades
enfrentadas por ter sido considerado subversivo, o que, no entanto, não o silencia em relação à
exposição de injustiças, opreses, desigualdades sociais, aos abusos de poder, a críticas em
relação a determinadas instituições. Em 1972 é convidado a trabalhar na Assessoria do
Governador Otávio Lage, ano em que o lançados seus livros Reçaga e Jurubatuba. Em
1973 foi eleito para a Academia Goiana de Letras, tomou posse na Cadeira 10, no dia 22 de
março de 1974, aos 59 anos de idade (Martins, 2003).
luta social no campo. Em 1980 o Cinco de Março transforma-se no jornal Diário da Manhã, com publicação
diária. Informações disponíveis em:
http://www.dm.com.br/materias/show/t/cinco_de_maro_recebe_homenagem_em_braslia;
http://www.dm.com.br/materias/show/t/cinco_de_maro_um_grito_sonoro_de_liberdade;
https://literaturadobrasil.websiteseguro.com/livro.php?livro=101&cap=3715;
(Teles, 2003, disponível em: https://literaturadobrasil.websiteseguro.com/livro.php?livro=35&cap=724).
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Que buscava apurar os supostos casos de subversão ao regime militar.
143
Percebemos que Carmo Bernardes é um autor preocupado em relatar e criticar as
desigualdades sociais. No entanto, verificamos que essa ctica se dá a partir da matriz
masculina e heterossexual, o que acaba ratificando alguns preconceitos, como os de gênero e
os de orientação sexual. A heteronormatividade é observável, nas obras, através da
predominância concedida aos homens como personagens, como narradores e como sujeitos
providos de fala e discurso.
Sobre os escritores e a literatura do sudoeste de Goiás, Rodrigues (2006) destaca a
[...] busca constante pela especificidade cultural, através da valorização de
temas locais e acontecimentos transcorridos nos lugares. Nas obras o
demarcadas as diferenças regionais a partir de vários elementos, entre os
quais destacam-se o processo de povoamento, a genealogia dos grupos
familiares, a geografia física, a constituição de tipos humanos, a ênfase na
memória social, etc. A forma descritiva em que esses temas o
desenvolvidos nas obras, sobretudo nos romances históricos, é uma opção
deliberadamente assumida pelos escritores, por possibilitar uma maior
aceitação e uma ampla acessibilidade aos leitores.
Nessa intensa procura por particularização, os escritores ligados às
localidades exercem uma função fundamental como atores nas relações que
se estabelecem entre os universos que eles mesmos ajudam a construir (p.
11).
Diferentemente de Basileu Toledo França e Maria Eloá de Sousa Lima, escritores
estudados por Rodrigues e que são naturais da região sudoeste do Estado, Carmo Bernardes
nasceu em Patos, Minas Gerais, em 1915, vindo, com a família, para Goiás em 1920. Morou
na fazenda Poções, em Formosa, nordeste do Estado. Em 1926 foi para a fazenda Cachoeira
dos Ivos, no município de Anápolis, na região central de Goiás. França e Lima são vinculados
aos seus municípios de origem (Jataí e Serranópolis, respectivamente) e ao caracterizar a
região sudoeste com base na importância cultural, política e econômica assumem a posição do
historiador local, construindo a região através da “idéia de compromisso para com o lugar”:
Ao discorrerem acerca do público a que se destina a obra, tanto Maria Eloá
quanto Basileu referiram-se à ppria realidade que deu origem ao livro e ao
interesse em informar e documentar a realidade particularizam-se para os
lugares das histórias, misturando sentimento e preocupação com a memória.
O pressuposto da ausência de história escrita dos lugares como justificativa
para a realização dos livros [Serra do Cafezal e Pioneiros, respectivamente],
defendida por esses autores [...] tanto pode assumir o sentido “fazer falaros
lugares e pessoas, desconsiderados por uma versão de história oficial, quanto
a de descrever a história. Mas, ao produzi-la acabam recorrendo à versão dos
que venceram (Rodrigues, 2006, pp. 147; 152).
144
Bernardes, em Perpetinha e Santa Rita, não estava tão interessado em construir uma
versão histórica para as cidades, pautada na memória de seus fundadores. O primeiro livro
recorre, algumas vezes, à formação histórica de Boa Vista, aproximando-se ora da
historiografia, ora da história oral, como vimos no primeiro capítulo. a cidade, ou vila, de
Santa Rita se trata, provavelmente, de um município fictício, conforme assinalado no segundo
capítulo. Quando a história das famílias pioneiras das duas cidades é mencionada, geralmente
é para trazer à tona os desmandos dos poderosos locais, os “podres” que os graúdos fazem
questão de omitir nas suas versões.
Os narradores das duas obras vão à procura das controvérsias, de interpretações
alternativas dos fatos relatados como oficiais pelos moradores influentes. A memória
oficializada esconde muitos episódios constrangedores, “oculta os sofrimentos, as dores da
maioria das pessoas, ressaltando aquilo que interessa ao poder” (Santos, 2005, p. 118). O
narrador de Perpetinha (1991) afirma que Armantino, tendo conhecimento dos episódios
omitidos pelas narrativas oficiais, ficava algumas vezes
[...] pisando em ovos, para não dar passo em falso. Há passagens terríveis em
que não convinha tocar, para não ferir melindres. [...]
Achavam muito ruim o velho Mariano das Neves ficar conversando com os
novatos que vinham morar no lugar. Ele não tinha trava na língua, botava os
podres deles pra fora. Ele sendo da nobreza local, no meter a ronca nos
outros não tinha reserva nem dos seus. Achavam ruim, mas mastigavam o
fumo e engoliam o caldo, calados. [...]
A História, que é contada pelos grandes, a gente nota que toda ela é uma
contrafação da verdade. Os que escrevem são da parte dos grandes, só
punem pelos grandes (PE, pp. 62; 121; 189).
A família Pereira Moreira e o amigo, seo-Pedro Ponte, também faziam questão de encobrir
alguns pontos de sua história, como a morte de seus inimigos, cujos corpos eram jogados no
porto do Jenipapo. Seo-Francisco Vigilato também fazia questão de esconder que era pai de
Filozica. Seo-Zezão tentava ocultar o episódio em que foi pego, apenas de ceroula e botina,
vagando pelas ruas da cidade, depois de ter sido surpreendido pelo marido, ou por um outro
amante, da mulher com quem tinha um caso extraconjugal.
Como Bernardes está inserido na literatura regionalista-sertanista, torna-se necessário
elucidar algumas questões. Na literatura brasileira, a temática do sertão determina um tipo de
corrente literária: literatura sertanista ou literatura sertaneja, que se situa numa corrente
maior: a literatura regionalista, cuja aceitação e conceituação são ainda polêmicas na área da
crítica literária. Isto porque ambas têm sua denominação a partir da matéria sobre a qual
escrevem (o sertão ou a região) e estes temas, geralmente, se referem a um determinado
145
espaço delineado de forma geográfica, paisagística e social. No regionalismo, o trabalho é
muito próximo ao mundo empírico por isso a tendência à mimese propriamente dita, o que
dificulta a “reinvenção do imaginário, objetivo máximo de qualquer literatura” (Vicentini,
1998, p. 42).
Assim, a literatura regionalista esmuito próxima da estereotipia da paisagem, dos
personagens, da reprodução da linguagem, da ação. E é por essa identificação que ela
consegue se firmar como regionalista-sertanista. As obras nas quais essa sintomatologia
ocorre de forma paralela ao tratamento literário singular de outros temas conseguem bem
representar o sertão, porque vão além da mera coleção de signos representativos de uma
região e, de certa forma, não retomam estereótipos de maneira acrítica.
Outro ponto problemático seria decorrência da construção deste mundo sertanejo,
construído pelo escritor citadino, “fingido de sertanejo, que escreve para um leitor também ele
citadino, a respeito de uma cultura diferente da sua”, caracterizando o problema da alteridade,
que o sertão, inicialmente, foi pensado a partir do ponto de vista do litoral, por homens da
cidade (Vicentini, 1998, p. 44). A palavra sertão, empregada primeiramente pelos
colonizadores, fazia referência ao “incerto, desconhecido, longínquo, interior, inculto (terras
não cultivadas e de gente grosseira)”, em oposição ao ponto de vista de um observador que
fala se e vê sempre no “certo, no conhecido, no próximo, no litoral, isto é, num lugar
privilegiado – a ‘civilização’” (Teles, 1996, p. 127). Estas concepções e enunciação, ao longo
das décadas vão sofrendo alterações e sendo relativizadas.
Com a Independência e o Romantismo, são buscados tipos humanos que exprimissem
o ideal de brasilidade que se pretendia constituir. Desta forma, emergem a figura do índio, o
habitante primitivo, anterior à chegada dos portugueses (apesar de sua europeização
freqüente, decorrente da influência do mito do bom selvagem
134
), e o sertanejo, o habitante do
interior do país, posteriormente.
No Brasil, manifestações do regionalismo na literatura são percebidas em alguns
sonetos de Claudio Manuel da Costa, poeta árcade de fins do século XVIII. Na prosa
romântica, ele também é percebido, embrionariamente, em José de Alencar, Bernardo
Guimarães, Franklin Távora, Taunay: o conto sertanejo propaga-se de forma surpreendente.
Candido (1976) afirma que, desde o início do nosso romance, o regionalismo foi umas das
134
Jean-Jaques Rousseau (1717 -1778): se é a civilização que corrompe o ser humano, por meio da propriedade
privada e da divisão do trabalho, instaurando uma desigualdade artificial de origem social, não natural, e uma
falsa moralidade, o homem primitivo, anterior à civilização, como eram considerados os indígenas, seria o ser
íntegro, tema retomado pelos escritores ronticos (Rousseau, 1973).
146
principais vias de autodefinição da consciência local. Nesta fase inicial, no entanto, ele é
considerado:
[...] artificial e pretensioso, criando um sentimento subalterno e fácil de
condescendência em relação ao próprio país, a pretexto de amor à terra,
ilustra bem a posição dessa fase que procurava, na sua vocação
cosmopolita, um meio de encarar com olhos europeus as nossas realidades
mais típicas (p. 114).
As representações do homem rural, do regional, desta forma, eram dadas sob o ângulo
pitoresco, sentimental, jocoso, contendo certas armadilhas perigosas tanto do ponto de vista
social, como do estético. Com a publicação de Os sertões, Euclides da Cunha, 1902, a
representação do sertão e do sertanejo vai sendo transformada. Com a geração de 1930,
durante o modernismo, esta obra é relida de forma crítica, desconstruindo estereótipos e
idealizações tanto do sertão quanto do sertanejo. Isso fica evidente em Grande sertão:
veredas, de Guimarães Rosa (1978). Destarte, o sertão passa a condensar uma pluralidade de
significados, um entremeado de imagens fugidias, algo através do qual o próprio nativo pensa.
É, simultaneamente, singular e plural, um e muitos, geral e específico, um lugar e um tempo,
um modo de ser e um modo de viver; “é aquilo que, dentro de nós, nos distingue, ontem e
permanentemente, como brasileiros” (Sena, 1998, p. 24).
Sob esta ótica, algumas obras regionalistas passam a discutir o eixo hegenico da
cultura:
[...] a boa literatura regionalista é uma subversão da ordem hegemônica
central da cultura, é uma voz da periferia para o centro, e adquire uma
função conativo-apelativa de chamar a atenção da sociedade para valores e
resoluções literárias autodeterminadas, ou para a denúncia social do
desequilíbrio e das diferenças culturais e regionais (caso muito comum) ou
até de renovar temas desgastados (Vicentini, 1998, p. 50).
Sobre a região, Sena (2003) aponta que a representação dual do Brasil (um Brasil
novo, o outro, arcaico) aparece como expressão de diferentes temporalidades, de diferentes
espacialidades e de diferentes formas de organização social. Desta forma, foram definidos
alguns espaços que seriam o centro da nação e da civilização (o litoral, o sul) e, em oposição,
estariam os demais espaços periféricos a serem totalizados pela nação, isto é, a região. De
acordo com a autora, os elementos simbólicos da região (paisagens culturais, espaços morais,
emblemas regionais, valores, crenças locais) especificam o homem abstrato num homem de
147
seu tempo e lugar (especificação que recebe o nome de identidade), por isso os regionalismos
não podem ser reduzidos à mera representação ideológica das elites regionais.
Nos últimos trinta anos historiadores e cientistas sociais têm desempenhado o papel de
redefinir a região Centro-Oeste (definida como sertão pelo pensamento social) e reverter
características estigmatizantes da identidade regional. Durante o período colonial, o sertão foi
definido como o selvagem, o lonnquo, o desconhecido. A partir de 1780 são somados a
estes atributos “o estigma da decadência e do atraso fixado pelos relatos dos viajantes, pelos
relarios dos administradores e pela ficção regionalista” (Sena, 2003, p. 139). Assim, esta
definição eurocêntrica da região passa a ser incorporada pelo senso comum, pelos políticos e
intelectuais locais, refletindo uma definição negativa.
O estereótipo é um discurso arrogante que define o que o outro é em poucas palavras,
apagando multiplicidades e diferenças individuais, que busca circunscrever, com base em
semelhanças superficiais, o que caracteriza determinado grupo. O discurso da estereotipia é
também assertivo, produtivo, pois ele se materializa ao ser subjetivado por quem é
estereotipado. Assim, a região é construída pelos de fora e reiterada pelos de dentro, como em
alguns programas de humor, nos quais o goiano é representado como matuto, chucro, jeca,
compondo o chamado regionalismo vitrine (Vicentini, 2007).
Carmo Bernardes, em Memórias do Vento, romance passado na cidade de Goiânia, no
qual o narrador-personagem, Manelino, observa, ao descrever uma festa junina promovida
pelo Governo do Estado para amparar a cultura popular:
Se há no mundo coisa que me causa antipatia de morte é essa caricatura
infame que esses diabos fazem da gente da roça. [...]
Passava um par estropiando uma dança imitando passos simplórios e
mocorongos, a dama com a saia remendada nos traseiros com uma plastra de
tecido de padrão diferente do original, e o fidumaégua do cavalheiro com um
chapéu de aba roída na cabeça e um chupete de palhas socado na algibeira da
bunda, e as calças remendadas nos joelhos. Nunca se viu isso na roça e em
parte nenhuma do mundo. E o cobre do contribuinte dissipado a grosso,
inclusive com as promoções dispendiosas da imprensa, os cofres públicos
patrocinando essas apresentações canalhas, e os demagogos impingindo a
contrafação besta ao blico mal avisado, dizendo que isso é cultura. Que
esses malandros entendem de cultura? (Bernardes, 1986, p. 21)
Diferentemente dos viajantes e cronistas, cuja ênfase era dada ao isolamento e atraso
de Goiás, e da literatura regionalista, com ênfase nos usos e costumes sticos do sertão, os
estudos mais recentes procuram salientar a mudança pela qual tem passado a sociedade
goiana. E esta transformação é entendida como decorrência de um processo de integração do
148
Centro-Oeste aos centros dinâmicos da economia. Percebemos nesses estudos o desejo de
neutralizar características estigmatizantes da identidade regional, construindo, então, uma
imagem positiva da região.
Albertina Vicentini (2007) busca mostrar quais os traços tornam uma obra, ou escritor,
regionalista. O sertão emerge como coordenada específica apenas de algumas literaturas
regionalista: no Sul, por exemplo, o sertão é substituído pelos pampas. A questão do
embasamento histórico do mundo fictício representado, por si não é suficiente para fixá-la
como regionalista. Toda narrativa é temporalidade, passada ou presente, com sucessão de
acontecimentos que ocorrem a um indivíduo-personagem, que age num certo contexto e
contracena com outros personagens. Ao lado disso, o discurso narrativo sempre cria, inventa
uma representação verossímil de mundo, ou seja, ela também expressa uma mentalidade, um
imaginário, uma visão de mundo, uma ideologia.
Além do embasamento histórico para a criação de mundos fictícios representados, a
literatura regionalista se distingue das demais literaturas através do caráter performativo pelo
qual apresenta uma identidade grupal, seja do campo ou da cidade. Por isso, o mundo
representado na literatura regionalista é o mais verossímil possível, que a falta de
verossimilhança pode levar à perda de reconhecimento do mundo representado e à destituição
do caráter regionalista do texto. É por isso que os próprios escritores regionalistas se
percebem como pesquisadores: recolhem em seus cadernos lendas, provérbios, dicionários de
termos, folclore, termos picos, receitas de comidas, descrições de plantas e animais picos.
E isto aparece em suas obras literárias, defendendo a posição de que o nativo ou enraizado
no local é capaz de ler, entender e transmitir essa identidade regional, que se afirma a partir do
locutor e do contexto.
No entanto o caráter documental da literatura regionalista também não é o único
aspecto que a delimita como tal. Ela depende, além disso, de um recorte temático que “aponte
de que grupo se quer mostrar a identidade, ao lado de como se fala desse grupo(Vicentini,
2007, p. 189). Este recorte temático principal da literatura regionalista, em torno do qual são
trabalhados os temas e conteúdos identitários, é, sobretudo, o mundo rural, no qual se
encontra inserido o sertão.
Historicamente, esse mundo rural é caracterizado por alguns pares que oscilam entre
positividade e negatividade. O primeiro par dicotômico é litoral X sertão (iniciado com a
Carta de Pero Vaz de Caminha ao governo português, culminando na obra de Euclides da
Cunha); o segundo: campo X cidade (iniciada com Taunay e José de Alencar, imperativa até
hoje na literatura e na sica, adquirindo com Guimarães Rosa, nos anos de 1940, expressão
149
ímpar). Com o surgimento dos estudos folclóricos e etnográficos de Couto de Magalhães e
Sílvio Romero temos o terceiro par: Norte X Sul, desdobrado, na década de 1930, em Norte,
Nordeste, Sul, Centro-Oeste e Sudeste, a partir do romance nordestino. De Monteiro Lobato
até o presente, o par interior X capital é apresentado como o âmbito básico do regionalismo
atual.
Os recortes do sero também são variados, podendo assumir um sentido espacial
(interior longínquo e despovoado, ou povoado por uma raça mestiça); sentido econômico
(economia agrária, distante da economia da metrópole e do litoral); o sentido social
(associação mais comunitária, com costumes diversos); o sentido político (o poder dos
coronéis, a luta dos Estados periféricos em busca de reconhecimento); o sentido histórico (a
partir do qual o desbravamento do sertão, com as bandeiras, marca genuinamente nossa
origem); o sentido antropológico (marcado pelos rituais e formas de pensamento); o sentido
do imaginário (sertão como local de vida identitária, marcada pela penúria ou pela fartura).
A literatura regionalista goiana, desta forma, é marcada por vários destes recortes,
associados, ainda, a outras temáticas que o diferenciam dos demais regionalismos. São elas: a
noção de sertão (extensão de terras que formam os povoados e cidadezinhas do interior,
distantes da capital); o sertão como terra a conquistar (expansão e integração econômica); o
coronelismo; o sistema de exploração das terras e da o-de-obra; o erotismo; a violência dos
sertões; o regionalismo como vitrine (marcado pelas estereotipias). As transformações no
campo (mecanização), o processo de êxodo rural, a urbanização, fazem emergir novas formas
culturais, cada vez mais associadas à urbanidade, o que torna ainda mais difícil saber onde
realmente fica o sertão, já que este também se apropria da cidade.
Isto significa que ele vem perdendo espacialidade e materialidade concretas, o que
também repercute na construção das identidades, pautadas cada vez mais em totalidades e não
em partes radicalmente opostas:
[...] muito do que constitui a cultura do sertão foi apropriado dos homens
citadinos que o desbravaram, que construíram e vêm construindo o seu
espaço historicamente. E muito do que constitui a cidade hoje também tem a
ver com os habitantes desses locais construídos, seja historicamente, seja
pelas condições sociais das migrações campo-cidade, por exemplo
(Vicentini, 2007, p. 193).
150
Mas, o sertão não se delimita apenas em termos espaciais, geográficos
135
, físicos, porque o
há um sertão total, mas sim sertões circunstanciais, pequenos, no campo, na cidade de interior,
e também na capital, afinal, O sertão está em toda a parte [...] O sertão é do tamanho do
mundo” (João Guimarães Rosa, 1978, pp. 9; 59. Grifos nossos).
Carmo Bernardes é um escritor regionalista-sertanista, pois se serve dos tipos
humanos, da linguagem, das paisagens, das plantas, das comidas típicas, dos costumes do
sertanejo, sem cair em estereótipos ou caricaturas. A narrativa é feita por um nativo: o sertão
assume em suas obras um local de fala conta-hegenica. A roça, o rural, as currutelas estão
presentes, mas não têm o peso estigmatizante do subdesenvolvimento, do atraso. Também não
é ufanista, não atualiza o mito do Jardim das Delícias
136
, nem o coloca como uma espécie de
Canaã
137
. As descrições, a nosso ver, atuam no sentido de situar o leitor no ambiente das
narrativas.
Percebe o sertão como um espaço de potencialidades, de riquezas, mas permeado de
muitas mazelas. Abundância e miséria estão presentes. O local o tom à descrição e à
narração, mas o autor vai bem além, retratando vários dramas humanos, como as
desigualdades econômicas, discriminações, injustiças, que não são características exclusivas
do sertão ou da região Centro-Oeste.
135
Geograficamente o sertão engloba os Estados do Piauí, Ceará, Rio Grande do Norte, Paraíba, Pernambuco,
Alagoas, Sergipe, Bahia, parte de Minas Gerais, Goiás, Tocantins, Mato Grosso do Sul e Mato Grosso (Almeida,
1998). Em Santa Catarina, a expressão sertão é usada em referência ao extremo oeste do Estado; em partes do
Paraná, a expressão identifica uma área do interior de outro Estado - o Paulo, próxima a Sorocaba
(provavelmente, uma reminiscência dos antigos caminhos das tropas); no Amazonas, “sertão de dentro” refere-se
à fronteira do Estado com a Venezuela, enquanto no interior do Rio Grande do Sul, “sertão de fora” também
nomeia área de fronteira, porém situada no Uruguai (Amado, 1995, p. 145).
136
Denominado biblicamente de Jardim do Éden, ou Paraíso, que popularmente remete ao ideal de fartura de
alimentos e da solidariedade das pessoas para dividi-los como, por exemplo, nos dias de festa (Lima, 2006).
137
Terra de fartura que teria sido prometida a Abraão e seus descendentes, depois de terem saído do cativeiro no
Egito, peregrinado por muitos anos pelo deserto, conforme o Antigo Testamento da Bíblia. Seria a recompensa
em virtude da fé, depois de um longo período de privações e sofrimento.
151
Considerações Finais
São muitas as questões que emergem da leitura de Perpetinha e Santa Rita, mas aqui,
devido ao tempo e ao espaço, tivemos que selecionar apenas aquelas mais recorrentes. A
temática central das duas narrativas literárias é a questão da desigualdade social, percebida
também em temas correlatos e complementares como a exploração do trabalho, a exclusão, a
injustiça. Como estas queses ficaram implícitas ao longo do trabalho, aproveitaremos o
espaço para tecer alguns comentários.
Em Perpetinha, Armantino, na sua ida de barco para Boa Vista, percebe a divisão
entre a população, fundada na questão da posse de bens (terra, gado). Temos seo-Lima, o
dono da embarcação, representante do grupo arremediado da população: tinha seus criatórios,
suas terras, além de ser um dos comerciantes mais importantes da cidade. O restante da
tripulação era Antônio Saracura, o cozinheiro, Jurupa, o bombeiro (cujo nome verdadeiro era
Ascenso) e Raimundo Seriema, o maquinista. Os três eram chamados de porcos d’água e seo-
Lima conversava, só quando extremamente necessário, com Raimundo. Conforme descrito no
primeiro capítulo, Armantino não se deu bem com seo-Lima, o que, segundo o narrador, “a
sociologia explica. O ódio de classe” (PE, p. 29), que fazia os indivíduos no barco se
repelirem, sendo que a camaradagem acontecia entre os chamados irmãos de classe.
Armantino, dentista, rapaz bem apessoado, de classe média, se deu melhor com Jurupa
e com Annio Saracura. Os apelidos, todos alusivos a animais do sertão, eram dados aos
trabalhadores, empregados, pessoas mais pobres da cidade, cujo nome legítimo, para os
arremediados, não merecia a menor consideração. Logo que chegam a Boa Vista, Jurupa se
oferece para ajudar o dentista a carregar a bagagem, a procurar um local onde pudesse se
estabelecer, e a ajudar em alguns serviços do consultório e os dois logo ficaram amigos, por
isso Armantino logo quis saber o nome do companheiro:
- A gente está labutando junto esse tempo todo e até agora não sei como é
que tu chamas. Como é teu nome, mesmo? – Era Ascenso do Rosário
Bezerra.
- Então vou te chamar de Ascenso, de hoje em diante. Não gosto de tratar
ninguém pelo apelido.
152
- Tem nada não, doutor! Não é agravo nenhum. Todo mundo me chama de
Jurupa, que qui tem? (PE, p. 59).
A população local estava dividida entre os da pobreza e os graúdos, possuidores de
terras e gado, detentores das decisões políticas, do discurso e na memória oficial da cidade.
Isso fica perceptível na divisão do rio (todos os moradores utilizavam o rio para lavar roupa e
louça, para tomar banho e também para obrar; mas os mais ricos utilizavam a parte mais alta
do rio, marcando a apropriação desigual das paisagens), nas festas (que geralmente tinham
dois ambientes), nas missas, na localização das casas. Os mais pobres eram empregados de
pecuaristas e agricultores, sendo que as mulheres eram empregadas, preferencialmente, na
atividade de extração do coco babaçu.
Ao se deslocarem para os babaçuais, muito comuns na região, as trabalhadoras
levavam seus filhos, pois, além de não terem com quem deixá-los, eles eram mão-de-obra
auxiliar, ampliando, mesmo que de forma reduzida, o rendimento. No fim de semana, dias de
descanso, elas cuidavam dos serviços domésticos, negligenciados durante a semana, por conta
da panha do coco.
Em Santa Rita (1995) a população também se encontra fortemente dividida entre ricos
e pobres. O Conselho dos Notáveis representa os detentores do poder da cidade, defendendo
seus interesses, arbitrários para o restante dos moradores. Por este motivo foi fundada a
Sociedade de Lavradores, composta apenas pelos pequenos, para dar força aos mais fracos
para que ninguém mais fosse prejudicado pelos patrões aqui na Santa Rita” (SR, p. 74). Esta
Sociedade também englobava trabalhadores do Machambombo, povoado contíguo, que estava
sob a jurisdição de Santa Rita.
Quando iam ser feitas benfeitorias na cidade, todos eram chamados a contribuir,
ajudando com mão-de-obra ou com o pagamento de alguma quantia. Mas, depois que a obra
estava pronta, como aconteceu na construção da igreja nova, ninguém, além dos integrantes
do Conselho era lembrado no discurso de inauguração, o que deixava os habitantes
inconformados. Quando Filozica chegou à cidade, deram uma festa de boas-vindas. Soldado
Antão estava de guarda na entrada, para, de acordo com Estevo
[...] excluir os maltrajados, barrar o povo sem qualificação que fosse
embocando de orelha chata. [...]
Cedo da noite eu estava lá, vestido num parelhinho mequetrefe, encostei
por ali, fiquei vendo quem chegava: a nata. Os homens notáveis do
Conselho, com suas mulheres envoltas com muitos panos, sumidas no meio
das jóias. Seo-Zezão de terno amarelo, andando com a vista alta, no trinque;
cabo Altino enfrajolado no trajo de gala, coturno brilhoso, casquete branco
153
posto torto de lado, rapaziada de roupa nova. Menor em categoria que eu vi
foi Benedito Ofrazo com a sanfona, puxando o cego Bregildo, decerto
porque o guia dele, um menino malacafento, não foi aceito (SR, p. 99).
A divisão entre ricos e pobres faz parte da própria definição de uma sociedade
capitalistas. Uma minoria é detentora dos meios de produção e a maioria, detentora da mão-
de-obra. No Brasil, a pobreza não tem a ver com o desenvolvimento econômico, mas sim com
a má distribuição - de renda, de terras, de conhecimento - refletida na impossibilidade de
incluo econômica, política, social de grande parte da população (Barros, Henriques e
Mendonça, 2001). Para Marx e Engels (1993) a sociedade
138
se divide com base nas relações
econômicas observadas em uma determinada época, ou seja, a sociedade se define de acordo
com a sua produção econômica, também denominada modo de produção.
Sobre esta base é erguida a superestrutura, isto é, um conjunto de ideologias
filoficas, jurídicas, políticas, religiosas e artísticas, ideologias estas da classe dominante e
que também servem de parâmetro para a classe dominada. Além de serem as detentoras da
propriedade privativa dos meios de produção, a classe dominante é a responvel por divulgar
os padrões de comportamento e pensamento. Mas esta dominação é também acompanhada
por vários conflitos, denominados de lutas de classe, que seria a mola propulsora da história
(Marx, 1992; Marx e Engels, 1993). Na sociedade capitalista, mais especificamente na
sociedade inglesa do século XIX, as classes sociais seriam os proprietários da força de
trabalho, os proprietários de terras e os proprietários de capital
139
(Santos, 2007).
Para Weber (2002) a ordem social é resultado de como está distribuído o poder
econômico e simbólico numa determinada sociedade e a divisão da sociedade em classes é
decorrente dessa distribuição do poder. Assim, verificamos que seriam duas as classes
principais: a classe dos proprietários (detentores do poder) e a dos o proprietários (não
detentores do poder). A competição gerada pelo mercado, na sociedade capitalista, leva a uma
distribuão desigual da propriedade material: os não proprietários ficam excluídos da
possibilidade de aquisição dos bens mais almejados e os proprietários acabam se constituindo
como os detentores do monopólio destes bens, o que leva à diferenciação das oportunidades
de vida.
Outros teóricos, como Bourdieu (2000, 2003), mostram que as diversas formas de
dominação presentes em uma sociedade não são provenientes, exclusivamente, da questão
138
Vale colocar o termo no plural, sociedades, além de ressaltar que são sociedades ocidentais, já que não são
todas as sociedades que estão divididas com base no critério econômico.
139
Na teoria liberal clássica o capital é um dos quatros fatores de produção, ao lado da terra, do trabalho e do
empreendedorismo. É uma riqueza financeira, necessária para iniciar e manter um negócio (Rossetti, 1985).
154
econômica. Os mecanismos de reprodução social que legitimam as forças dominantes são
provenientes da violência simbólica, através da qual os dominantes expressam seus gostos de
classe e estilos de vida, gerando distinções sociais. Os símbolos, encadeados pelos sistemas
simbólicos, possuem duas funções: a primeira, e principal, é a de integração social, conferindo
sentido ao mundo social e estabelecendo um consenso (consensus) sobre a ordem constituída;
a segunda é a função política, que ocorre atras da imposição legítima de significações e
ajuda a manter o consensus.
Além de estarem inseridos em determinados campos sociais (espaços onde as relações
são definidas objetivamente através da maneira como o distribuídos os diversos tipos de
capital cultural, social, econômico, político, artístico, esportivo), os atores sociais também
são detentores em graus diferentes de cada um destes tipos de capital. Disso decorre a
interiorização da exterioridade e a exteriorização da interioridade, por meio de um conjunto
de disposições que levam os atores a procederem conforme as possibilidades existentes na
estrutura de determinado campo, ao qual Bourdieu chamou de habitus (2003).
Nas duas obras estudadas fica evidente que Carmo Bernardes tinha conhecimento de
algumas concepções sociológicas sobre as relações e desigualdades de classes, como fica
perceptível naquilo que o escritor chama de “ódio de classes” (PE, p. 59), tema explicado pela
sociologia, como ele próprio aponta. Percebemos a presença de elementos da teoria marxista,
sobretudo, quando Estevo fala da formação da sociedade de lavradores, organizada em
decorrência da exploração dos trabalhadores rurais de Santa Rita (SR, p. 74).
Nos dois romances, as diferenças econômicas (a posse ou não de terras e de criações)
são as responsáveis pela inclusão ou exclusão na esfera política (os proprietários são aqueles
que administram e governam a cidade, de forma arbitrária, como no caso dos coronéis), na
esfera do conhecimento (os graúdos são os que têm mais condições de garantir a permanência
e continuidade nos estudos), na apropriação das paisagens (os dominantes são os que ocupam
os espaços mais privilegiados), e no discurso oficial (são os arremediados os responsáveis por
difundir e sustentar as histórias e memórias oficiais).
Poderíamos supor que as desigualdades de gênero também fossem determinadas pela
questão econômica, ou seja, a subordinação das mulheres seria decorrente da sua situação de
classe. Não podemos negar que as mulheres das camadas mais baixas estão mais sujeitas aos
efeitos da opressão, que estão concentradas, principalmente, em atividades subvalorizadas,
mal remuneradas. Mas as mulheres das camadas mais ricas também são oprimidas, pois, além
de ganharem menos que os homens para desempenhar as mesmas atividades, ainda estão
restritas às áreas da educação e saúde, enquanto outros setores, como a política, continuam
155
predominantemente masculinos, sendo que, em ambos os casos, uma sobrecarga de
trabalho, pois os serviços domésticos e os cuidados com a família ainda continuam
responsabilidades especialmente femininas (Dubet, 2001).
Perpetinha e Santa Rita narram a formação de duas cidades do interior de Goiás: Boa
Vista (atual Tocantinópolis) e Santa Rita (que devido à falta de informações precisas, como
no outro romance, nos leva a acreditar que se trata de um povoado fictício). Mas os narradores
não partem da perspectiva dos que venceram, da abordagem oficial dos acontecimentos: pelo
contrário, fazem questão de ressaltar os aspectos que a elite faz questão de esconder. Os
narradores, provavelmente por estarem situados à margem, por comporem o ponto de vista
dos vencidos, não se sentem muito compromissados em resgatar aspectos documentais das
cidades, a menos que estes ajudem a compreender as desigualdades locais.
As duas obras estão inseridas na literatura regionalista-sertanista, e trazem descrições
da fauna, flora, costumes, comidas, linguagem, tipos humanos muito comuns na região
Centro-Oeste e no Estado de Goiás. No entanto, Carmo Bernardes rejeita as caricaturas, evita
cair em estereótipos, dando fala a um nativo, um sertanejo que nada tem de chucro, que capta
e expõe várias injustiças presentes ao seu redor.
Se a crítica é bastante explícita diante de alguns assuntos, outros, contudo, acabam
ficando em segundo plano. Os narradores enfatizam a questão das desigualdades e das
disputas de poder entre as classes sociais, representadas pela exploração e opressão dos
trabalhadores. Ainda que não estejam sob a forma de denúncia, as relações de gênero nas
obras analisadas estão apresentadas, já que a questão é parte indissociável da dinâmica social.
Por ser uma categoria de análise relacional, procuramos observar como mulheres e
homens foram representados nos dois romances, quais são as características tidas como
naturalmente (essencialmente) femininas e masculinas. Buscamos observar como estão
dispostas e enunciadas as falas dos personagens, masculinos e femininos, para, depois,
enfatizar a fala (ou a ausência dela) entre as personagens femininas. Verificar como o
construídos os personagens na obra é de grande importância, bem como a maneira pela qual
ganham voz ou são, de certa forma, silenciados no decorrer da história. Tentamos relativizar
ao máximo a questão de gênero, procurando compreender que certos papéis o mais
imperiosos e menos questionados em determinadas épocas históricas.
A menos que os personagens sejam todos do mesmo gênero (feminino ou masculino),
não como não perceber como mulheres e homens estão dispostos ou hierarquizados num
romance. Na medida em que a literatura pode ser tomada como fonte de amplião do
conhecimento sobre a vida social, podemos verificar vários tipos de relação: entre classes,
156
gêneros, etnias e orientações sexuais diferentes. As representações da mulher estão expressas
na definição das atividades, remuneradas e/ou domésticas (oportunidades profissionais), na
questão do casamento, na definição de seus papéis sociais e sexuais, nas oportunidades de
educação, e através de alguns valores morais expressos nas observações dos narradores.
Nos dois livros os narradores são masculinos: em Perpetinha temos um narrador-
observador. Em Santa Rita o narrador é o personagem principal, Estevo, sendo que ambos
filtram e nos relatam os acontecimentos e os diálogos entre os personagens, manifestando
suas opiniões acerca dos fatos. Há, nas duas obras, mais personagens masculinos do que
femininos, sendo que os primeiros, ao longo das histórias, têm sua voz revelada pelo discurso
direto em mais situações do que as personagens femininas. Estas, quando têm sua fala
enunciada de forma direta, emergem com participações breves e sem muito destaque. Os
assuntos mais importantes são manifestados ou pelo diálogo entre os personagens masculinos
ou pelas observações e exposições do narrador, que, apesar de também filtrar as falas
masculinas, o faz com menor freqüência do que com as falas femininas.
Lindalva é o exemplo de mulher prendada: cozinha muito bem, é organizada e zelosa
com a casa e os filhos, sabe fazer vários trabalhos artesanais, além de trabalhar na extração do
coco babaçu. Inicialmente trabalhava na casa de Armantino, cuidando da limpeza e arrumação
da casa e da lavagem da roupa. Depois que os dois se envolveram, ela foi libertada” da
quebra do coco, mas continuou, de maneira exemplar, a cuidar da casa, do consultório e do
companheiro. Saiu da dependência dos donos dos babaçuais e dos exportadores, para se tornar
dependente, exclusivamente, de Armantino. Ele, mesmo sendo um homem de estudo, que
tinha posicionamento crítico diante de vários assuntos, reitera a figura da mulher como a
“rainha do lar”, por isso faz questão de arcar com todas as despesas para que a companheira
não precisasse voltar ao trabalho na extração do babaçu.
Perpetinha, personagem homônima à obra, tem pouco destaque: aparece como sendo,
praticamente, a versão mirim de sua mãe, ou seja, já tem grande domínio dos afazeres
domésticos. Com treze anos, já estaria na idade de casar, o que preocupava Lindalva e
Armantino, já que o casamento deveria ser com um rapaz trabalhador. Armantino queria que a
enteada desse continuidade aos estudos e se tornasse professora, por isso tinha a intenção de
mandá-la estudar em outra cidade.
Dona Emerenciana e dona Leonor são personagens da elite de Boa Vista: são
proprietárias de terras, de imóveis, de gado. Dona Merência é a única que tem algumas falas
transcritas no decorrer da história. Ao que tudo indica, não era casada, nem mantinha
envolvimento afetivo com ninguém, o que permitia que zelasse pelos bons costumes na
157
cidade, sobretudo condenando a aproximação de Armantino com os índios. dona Leonor
era a professora da cidade. Envolveu-se com um médico que passou por Boa Vista, mas que a
deixou sem aviso prévio. A professora, no entanto, preferiu cuidar dos bens que possuía, ao
invés de largar tudo e ir atrás do namorado. Anos depois, se envolveu com o Dr. Wanderley, o
juiz que foi mandado para Boa Vista. Por ele ser casado, o relacionamento dos dois era
mantido sob a máxima discrição.
Os outros personagens masculinos de destaque são Ascenso, trabalhador que “não
enjeita serviço”, padre Egídio, que, durante a semana, era fazendeiro, indo para Boa Vista
celebrar as missas aos fins de semana, e seo-Mariano, um dos representantes da nobreza local
(PE, pp. 59; 121).
Em Santa Rita (1995) temos algumas alterações na composição das personagens
femininas, embora a enunciação do discurso não sofra nenhuma alteração significativa. Os
personagens masculinos são a maioria, embora alguns tenham mais importância e destaque na
obra. A maior parte dos diálogos reproduzidos pelo narrador-personagem, Estevo é travado
entre os homens da cidade. Diolina é a única mulher que ganha voz, em trechos bastante
curtos. as sicas e a expressão pica da professora Filozica, quando saía montada a
cavalo, são reproduzidas de forma solta, apenas para ilustrar as impressões que o narrador
deseja destacar.
Além de Diolina, as outras personagens femininas são: sea-Lixandra, Lucinda, Ediléia,
dona Silvana e Filozica. Sea-Lixandra e dona Silvana são personagens coadjuvantes, ambas
pertencentes ao grupo dos graúdos de Santa Rita; a primeira é esposa do fundador da cidade,
seo-Francisco Vigilato Pereira Moreira, que, enquanto o marido ia para a Meia-Ponte, se
encontrar com dona Philomena, cuidava da casa e dos filhos. Dona Silvana era responsável
por cuidar da casa paroquial e da alimentação dos padres, bem como da limpeza da igreja.
Ediléia, neta de sea-Lixandra, filha de seo-Zezão, era a moça namoradeira da cidade, que
adorava festas, e, por isso, na maioria das vezes, era alvo de mexericos. Lucinda era “ex-
mulher da vida” quando se envolveu com Estevo, abandonando-o para ir viver, em outra
cidade, com Pedro Muriço. Diolina, companheira atual de Estevo, reitera a figura da mulher
dedicada aos serviços domésticos.
Filozica é a personagem que, de certa forma, rejeita os padrões de comportamento
estabelecidos para as mulheres. Filha de uma união ilegítima de seo-Francisco Vigilato, não
se preocupa em preencher os requisitos que a tornariam uma mulher prendada. Estava mais
preocupada em o perder a sua juventude enterrada no sertão. Talvez por isso tenha
escolhido ser professora, uma das poucas profissões à época que lhe permitiria conhecer
158
outros lugares. Alberto, marido de Filozica, e Estevo também são personagens, que não
correspondem ao modelo do homem machão, que mantém com violência sua honra.
Percebemos que, de maneira geral, predominam os papéis de gênero tradicionais: a
mulher como responsável pela casa, filhos e marido, e o homem responsável pelo sustento
familiar, sobretudo em Perpetinha. As possibilidades de trabalho feminino fora da esfera
privada estão relacionadas, para as mulheres das classes mais baixas, a atividades domésticas,
como cuidar da limpeza da casa de alguém, lavar roupa, ou trabalhar na extração do babaçu.
Quando a mulher tinha condições de estudar, a profissão que a esperava era o magistério. Já
os homens mais desprovidos trabalhavam na plantação ou na criação de algum fazendeiro. Os
mais ricos cuidavam do comércio local e de suas criações e propriedades. A questão de
prosseguir com os estudos, ao que tudo indica, o era vista como importante, pois,
aprendendo o básico (ler escrever, fazer contas) era suficiente para administrar as suas posses.
Nos dois romances os narradores filtram as vozes e diálogos femininos, indicando que
a timidez, o recato, o hábito de não falar em público (já que o público é a esfera composta por
homens desconhecidos) são valores positivos, marcando o ideal de virtude e feminilidade
esperado de uma mulher. E esta filtragem, por sua vez, também revela a posição ativa que o
homem deveria exercer. Se algum comportamento sai do controle, cabe ao narrador resgatar a
ordem, atras da forma como se desencadeia a narração.
Em Perpetinha, romance que talvez se passe no fim da década de 1930, início da
década de 1940, percebemos poucas transformações nas relações de gênero em Boa Vista,
com o predomínio dos chamados papéis tradicionais de gênero. A mulher ideal é aquela que
cuida com esmero e carinho da casa e de sua família, enquanto o homem deve ser o provedor.
Já em Santa Rita, romance que talvez se passe em fins da década de 1950, ou início da década
de 1960, percebemos, através do comportamento de alguns personagens, algumas
transformações, abordadas ao longo de nosso estudo, que, embora não representem rupturas
em relação aos papéis de gênero tradicionais, indicam possibilidades de padrões alternativos
para homens e mulheres. O que não ocorre, é claro, sem estranhamento e sem conflitos,
conforme percebemos no desenrolar das obras.
Os romances podem ser classificados como contra-hegemônicos porque, apesar das
descrições da fauna, flora e costumes sertanejos, transpõem o nível de coleção de signos
representativos da região Centro-Oeste e do sertão goiano, com alguns personagens fugindo
às estereotipias e às formulações acríticas (Vicentini, 1998). Ao longo de nossa análise
pudemos notar alguns dos vários eixos temáticos que compõem a literatura goiana, conforme
o assinalado por Vicentini (2007). O primeiro deles é a ambientação rural, o qual aparece nas
159
obras como sinônimo de sertão. Este, por sua vez, remete às coordenadas da formação
histórica do Estado, como a mineração e o bandeirantismo, como vimos em Perpetinha
(1991).
Neste livro está registrado, de forma muito evidente, o conflito com os índios desde a
chegada dos bandeirantes nas proximidades de Boa Vista. Dados historiográficos, como a
história da índia Caiapó Damiana da Cunha, se mesclam à ficção (não tão fictícia assim),
como o extermínio dos índios Avá-Canoeiro, mostrando que a violência e intolencia contra
os indígenas são uma constante na cidade de Boa Vista, um dos temas de análise do primeiro
capítulo desta dissertação. Vicentini (2007) observa que na literatura regionalista goiana não
há um cancioneiro expressivo com a temática das lutas entre bandeirantes e índios, talvez pelo
fato de esta literatura ter-se iniciado tardiamente, no século XX, com a priorização de
outras questões.
Mas Perpetinha (1991), a nosso ver, constitui uma exceção. As disputas, rivalidades e
hostilidades entre caboclos e cristãos não o relatadas de maneira superficial, pelo contrário:
as descrições destes episódios são densas e impressionantes. O narrador utiliza de ironia para
denunciar o etnocentrismo, como no relato de alguns episódios e também na construção
paradoxal de alguns personagens, como Leobino Arcanjo dos Santos, um dos mais temidos
exterminadores de índios de Boa Vista. A origem dos conflitos remete à época da chegada dos
bandeirantes e à edificação da cidade em decorrência da atividade mineradora, embora a
ênfase seja dada à contemporaneidade da narração. Esta busca por novos recortes, através da
abordagem de outros pontos, algumas vezes colocados em segundo plano, como a temática
indígena, mostra a capacidade do autor em restabelecer novos sentidos e significações,
renovando, de forma crítica, os assuntos sobre os quais versa a literatura regionalista.
A figura do vaqueiro, boiadeiro, ou tropeiro nos romances abordados, embora
presentes, não têm, como em outras obras de Carmo Bernardes e em outros autores
regionalistas, tanto destaque. Em Perpetinha e Santa Rita (1995) a figura que simboliza as
desigualdades e injustiças é o roceiro, que, como Estevo, é ciente da exploração que sofre.
Bem diferente da figura do Jeca Tatu, de Monteiro Lobato. Outro eixo temático presente nos
dois livros analisados é o coronelismo, isto é, a enorme autoridade que um poderoso local,
proprietário de terras, possuía em nível municipal, contando com o apoio, através das trocas
de favores, dos governos estadual e federal. Em Perpetinha temos a presença dos Volney,
autoridade na região de São José do Duro, o coronel Joaquim Gomes, mandante na Serra dos
Cristas e padre João, um dos maiores coronéis de Boa Vista. As famílias abastadas, como as
de dona Emerenciana e a de seo-Mariano podem ser consideradas como remanescência deste
160
tipo de poder político. O mesmo ocorre em Santa Rita, onde seo-Francisco Vigilato e o filho,
seo-Zezão, aliados ao Conselho dos Notáveis, por possuírem as maiores e melhores terras, são
os donos do poder.
Outro aspecto característico da literatura regionalista goiana é a forma de exploração
da o-de-obra rural, presente nos dois romances: em Perpetinha (1991) temos a exploração
das quebradeiras de coco babaçu, que sofrem uma dupla opressão: como mulheres e como
trabalhadoras rurais. em Santa Rita (1995), são os lavradores os explorados através do
pagamento de impostos sobre qualquer tipo de plantação, o que os leva a organizarem a
Sociedade dos Lavradores.
Seguindo ainda as coordenadas temáticas que diferenciam o regionalismo goiano dos
demais, propostas por Vicentini (2007), verificamos nas duas obras a presença de questões
que permeiam os diversos tipos de regionalismo, como a temática erótica e a temática dos
amores violentos, carnais, exploradas no terceiro capítulo. Outra é a temática da violência,
perceptível através do digo do sertão, através do qual os conflitos são solucionados com o
uso da força, mesmo entre parentes (Franco, 1997), exemplificado nos episódios de
desentendimentos entre seo-Francisco e os primos no Jalapão e entre seo-Zezão e seo-Mané
Baiano, conforme descrito no segundo capítulo.
Com base nas análises de Pierre Bourdieu (2000) sobre a idéia de região, a identidade
regional é resultado de uma visão de mundo social que garantem sentido e consenso da
unidade de um grupo, e não de classificações naturais. Desta forma, o discurso regionalista é
performativo na medida em que visa estabelecer como legítima uma nova definição das
fronteiras que a definição dominante, reconhecida e legítima, ignora. Sob este aspecto é
analisamos os dois romances ao longo deste trabalho: como uma forma de ruptura na
formulação de espaços tidos como periféricos, como a região Centro-Oeste, ou o Estado de
Goiás. Em Perpetinha e Santa Rita, as questões tidas como específicas do regionalismo
goiano são trabalhadas de modo crítico, sem reiterar estereótipos, sem buscar resgatar
tradições através de uma vitrine de signos, inventariando costumes e valores que estariam se
perdendo com o tempo.
Essa sintomatologia, apesar de secundária é funcional, pois se torna paradigma dentro
do qual se renovam os velhos temas do regionalismo goiano (Vicentini, 1998). A literatura
regionalista-sertanista de Carmo Bernardes pode ser interpretada como uma voz da periferia
para o centro, um local de fala contra-hegemônica onde emergem as diferenças culturais e
regionais. Mas, por outro lado, verificamos que outras questões, como as relações de gênero e
as diferentes orientações sexuais, continuam seguindo a matriz hegemônica masculina e
161
heterossexual. Ou seja, estas questões não o encaradas nas obras analisadas como
integrantes fundamentais das desigualdades e injustiças sociais.
162
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