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poema. Não se escreve só com palavras. Grava-se com o corpo, o gesto, a atitude, o
comportamento, sartreanamente, com as escolhas globais.
Tem poetas nos quais não importa, também, a peripécia contextual que cerca seu fazer
e seus feitos: a gesta total, o ser-signo inteiro.
O que se sabe de Torquato: um poeta de província (Piauí? Goiás? Santa Catarina?),
um dos letristas da Tropicália, suicidou-se, parece. Pouco se sabe de Torquato. Felizmente.
Mito que se preza não tem biografia. As biografias têm a irritante mania de reconduzir os
mitos das suas rarefeitas altitudes para as platitudes da humana condição. Vai ver, no fundo,
Torquato era pessoa como qualquer um de nós, esse Qualquer Um de Nós que pena atrás de
grana, engole cara feia de patrão e exulta, como os escravos, no dia da distribuição dos pães.
Conhece “aquela pessoa”. Deixa traços de sua passagem. E passa.
Ainda brilha o dia tropicalista, que raiou na poesia brasileira, nos idos de 68. Foi a
época em que nós todos começamos a nos tratar de loucos. Até ali, loucura era insulto.
Nós desfraldamos a loucura com o fervor de quem empunha uma bandeira. Freudianos,
a loucura foi igual para todos. Mas alguns foram mais loucos que os outros. Não há
democracia no reino da loucura. Torquato foi um príncipe da loucura, Ludwig da Baviera no
Posto Seis. E lá estava Torquato, nos alvores do dia tropicáusticos, tropicalmo, as mãos cheias
de versos, frases claras, frases raras, armas, araras. Torquato marca uma mudança radical, um
salto qualitativo, na história disso que se chama, na falta de termo melhor, poesia brasileira.
Poesia que, hoje, não apenas se lê nos livros, mas se escuta nas canções, nos discos,
nos rádios, na TV, na vida, enfim.
Torquato tem muito a ver com isso.
O sequestro da poesia pela literatura foi longo como o sequestro dos diplomatas norte-
americanos pelos iranianos do Aiatolá Khomeini. No Brasil, foi o tropicalismo quem a
libertou.
Com esse des-movimento (que cuidou do próprio enterro, encenado na TV, pelas suas
principais estrelas), irrompem na cena brasileira, como é de conhecimento de todos os leitores
do “Folhetim”, poetas de primeiríssima ordem, se expressando, não em livros mas em discos.
Bota Chico Buarque nisso. Absolutamente, Caetano, e seus companheiros, Gil, a seguir,
Capinã, Tom Zé, o que a gente tem a vontade de acrescentar, tudo de melhor que, em letra
veio algo depois: Galvão, dos Novos Baianos, Waly Sailormoon, Duda Machado, todos
letristas do período imediatamente pós-tropicália.