
Bem, a teoria luhmanniana coloca as comunicações sociais de sentido
277
antes do homem – antes do sujeito
278
, antes do indivíduo
279
–, na sua observação
sociológica, porque é a diferenciação dos sentidos (comunicacionais) que
permite observar distintamente os vários subsistemas. Aliás, Luhmann foi
acusado de que a sua teoria ignorava o homem, o que não corresponde
totalmente à verdade
280
. A observação luhmanniana coloca o indivíduo social
em segundo plano em relação às comunicações que estão no primeiro plano (o
da distinção) da observação: há sociedade, não porque haja homens, ou sujeitos,
mas por que há comunicações de sentido e são estas que definem o sistema
social e os (sub)sistemas sociais
281
. Também aqui a individualidade ou a
identidade é posta em segundo plano.
277
Tenha-se presente: “Si el contexto social de la vivencia y la acción – que deberían ser considerados
como dadores de sentido – producen la experiencia de la falta de sentido (o al menos la posibilitan),
entonces estamos, obviamente, ante otro concepto de sentido. Por consiguiente, sera necesario aclarar el
sentido en el contexto de lo carente de sentido, para obligar a la reflexión acerca del sentido de aquello
que carece de sentido.” (Luhmann, 1998a, p.88-89).
278
“La teoria de sistemas rompe con este punto de partida, de aquí que ya no necesite usar el concepto de
sujeto. Lo substituye por el concepto de sistema autorreferencial.” (Luhmann, 1998a, p. 51). Ainda: “De
esta manera, la afirmación de que las personas pertenecen al entorno de los sistemas sociales no contiene
ninguna afirmación valorativa con respecto a lo que la persona es para sí misma o para algo distinto; sólo
perfila la valoración excesiva dada al concepto de sujeto, es decir, la tesis de la subjetividad de la
conciencia.” (idem, p. 173).
279
“Por outro lado, é importante assinalar a necessidade de romper a lógica individualista, privatista,
patrimonialista e racionalista do direito e construir outra, pluralista, transindividual, personalista, flexível
e transdisciplinar, capaz de harmonizar os novos dilemas jurídicos oriundos das novas biotecnologias com
os velhos desafios socioeconômicos preesntes na sociedade brasileira. “ (Barreto, 2006, p. 272).
“Mas, de fato, o erro é também estratégico e implica a própria determinação das tarefas de uma filosofia
possível. Porque, se se trata hoje (com o que concordo absolutamente) de restituir seus direitos a um
pensamento autêntico da intersubjetividade ou da comunicação, o comportamento mais em conformidade
com tal objetivo consiste, sem dúvida, não em tentar fugir, mais uma vez e talvez uma vez a mais, do
paradigma do sujeito, mas de recompô-lo de maneira crítica (isto é, levando em conta as ilusões que ele
pode gerar), particularmente contra suas dissoluções individualistas.” (Renaut, 1998, p. 101-102).
280
“O ponto cego da teoria luhmanniana dos sistemas não está, como se presume frequentemente, onde
outros vêem o sujeito (indivíduo, homem) e criticam os sistemas sem sujeitos, anti-humanistas etc. (...) O
ponto cego dessa teoria encontra-se, portanto, não na falta de um sujeito, mas exatamente na
diferenciação entre dois ‘sujeitos’, na distinção comunicação/consciência, sociedade/indivíduo,
externo/interno, sistema de sentido/sistema de sentido.” (Teubner, 2005, p. 69). Antes, Teubner (1989,
p.741) tinha escrito: “It is plaily wrong to argue, as some critics do, that autopoiesis de-humanizes society
(Grünberger, 1987), has no place for actors and intentions (Schimank, 1985:734; Mayntz, 1986; Ost,
1988:87ff; Rottleuthner, 1988:122) does not account for the individual as epistemic subject (Podak, 1984:
734; Frankenberg, 1987:206), and represents a ‘deshumanisation totale du droit’ (Grzegorczyck,
1989:12)”. Traduz-se (retirando a menção ao nome dos críticos): É completamente errado arguir, como
alguns críticos fazem, que a autopoiese desumaniza a sociedade (...), que não dá lugar aos atores e às
intenções (...), que não leva em conta o indivíduo como sujeito epistémico (...), e que representa a
desumanização total do direito.”.
281
“Con el concepto de comunicación que utilizamos, estas posiciones quedan, por lo pronto atrás. Por
eso no retomamos ni una posición básica de la teoría del sujeto (teoría de la acción), ni una de la teoría
del signo (lingüístico, estructuralista), sino que tendremos que revisar, en todo caso, cuáles de las ideas
generadas desde estas perspectivas teóricas pueden retomarse.” (Luhmann, 1998a, p. 147).