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humores humanos), as imagens vivas das revistas, o cinema. Entretanto, de
todas as cores, acima de tudo, havia o azul do céu e minha vontade de
representá-lo; lembro-me do espanto que causou o desenho e a sensação
daquela massa de azul dura e crua que havia criado, ora mais, ora menos,
brilhante, mas sempre muito vibrante. Tão diferente e tão distante daquele
líquido fino e fluente animado pelas nuvens...Não era capaz de entender o
que acontecia quando minha contemplação se transformava naquele azul
consolidado que os lápis pintavam. Não era um simples fundo para minha
paisagem, era um objeto concreto e poético. Essa foi minha primeira
sensação cromática, a qual se tornou um conceito.
Após iniciar as anotações sobre minhas pinturas, essas imagens
ressurgiram. Entender o que não foi possível quando criança tornou-se uma
espécie de obsessão: a impressão de pintar o azul do céu e torná-lo parte
de um sonho materializado. O ar azul e seu devaneio têm talvez um
paralelismo: menos do que um sonho, menos do que uma fumaça...A união
do meio-sonho e do meio-azul se fez no limite do imaginário.
Assim são meus azuis: paisagens cambiantes como lembranças, um
espaço que não oferece nenhum pretexto, um espaço onde a ação
imaginativa da cor determina o resultado final. O azul do céu não representa
todos os azuis: existe o do outono, que é o azul de um estado de alma; o da
profundidade da água do lago e o esverdeado do movimento da água e dos
mares (Primeira quinzena de maio de 1998 - ELUF, 2004, pp. 112-113).
Assim como Rubens Matuck e Lygia Eluf relatam nos Diários fragmentos de
memórias, lembranças da infância, outros artistas passam pelo mesmo processo na
construção de seus Diários, é o caso de Sebastião Salgado
27
e Paul Klee
28
.
Salles (1998, p. 94) cita Sebastião Salgado (1997) quando o fotógrafo
rememora a infância com olhos de fotografia: ‘’ É claro que eu tenho de trabalhar
contra a luz. A minha cidade, Aimorés, tinha um sol incrível. A gente vivia na sombra.
Eu sempre olhei meu pai chegando em casa na contraluz. Eu na sombra, ele vindo
do sol. Numa fração de segundo, eu restituo tudo isso’’.
Paul Klee (1990) registra nos seus Diários o modo de se relacionar com o
mundo, ao longo do tempo. De sua infância, ele se lembra do emaranhado de linhas
petrificadas nos tampos das mesas de mármore. Klee dominava a forma, mas
buscava a cor.‘’Custa-me a avançar no trabalho com a cor; não consigo abandonar
tão depressa a visão formal’’. (SALLES, 1998, p.94).
Percebe-se através desses relatos, tanto da professora quanto dos artistas
citados que os Diários possibilitam estarmos mais próximos de sujeitos menos
fragmentados, pois através das lembranças e dos pensamentos conseguimos
apreender o que os sujeitos pensam do mundo e de que forma o representam.
27
SALGADO, Sebastião. 1997. ‘’O fotógrafo da luz’’. Veja, 12 mar.
28
KLEE, Paul. 1990. Diários. São Paulo: Martins Fontes.