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UNIVERSIDADE PRESBITERIANA MACKENZIE
SILVIA CACACE CUNHA
O
D
IÁRIO NA
F
ORMAÇÃO DE
P
ROFESSORES
São Paulo
2008
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2
SILVIA CACACE CUNHA
O
D
IÁRIO NA
F
ORMAÇÃO DE
P
ROFESSORES
Dissertação apresentada ao Programa de
Pós-Graduação em Educação, Arte e
História da Cultura da Universidade
Presbiteriana Mackenzie, como requisito
parcial à obtenção do título de Mestre em
Educação, Arte e História da Cultura
Orientadora: Profª Dra. Regina C. F. Giora
São Paulo
2008
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FICHA CATALOGRÁFICA – VERSO DA FOLHA DE ROSTO - ARQUIVO
4
SILVIA CACACE CUNHA
O
D
IÁRIO NA
F
ORMAÇÃO DE
P
ROFESSORES
Dissertação apresentada à Universidade
Presbiteriana Mackenzie como requisito
parcial para a obtenção do título de
Mestre em Educação, Arte e História da
Cultura.
Aprovada em:
Banca Examinadora
Dra. Regina C. F. Giora
Universidade Presbiteriana Mackenzie
Dr. Noberto Stori
Universidade Presbiteriana Mackenzie
___________________________________________________________________
Dra. Simonetta Persichetti
5
A minha família, pelo amor, presença e acolhimento sempre;
Ao meu marido André, pelo incentivo e paciência nos
momentos mais difíceis; pela escuta sempre atenta aos meus
discursos empolgados de uma pesquisadora iniciante;
A todos os alunos que convivi do lado de dentro e do lado de
fora desse país tão desigual, que me possibilitaram transitar
por diversos espaços, códigos, histórias e com isso provocaram
em mim a reflexão e o amadurecimento no meu processo
docente.
6
AGRADECIMENTOS
A minha orientadora Professora Doutora Regina C. F. Giora, por suas orientações
pontuais, pelo incentivo, respeito, compromisso, conhecimento e afeto, me
tranqüilizando nos momentos mais difíceis da pesquisa;
Ao Professor Doutor Norberto Stori, pelas sugestões pertinentes dadas na banca de
qualificação, pelo carinho durante todo o processo da pesquisa e das suas aulas no
programa, onde muitas conversas ficaram registradas na minha memória;
À Professora Doutora Simonetta Persichetti, pelas significativas contribuições a essa
pesquisa durante a banca de qualificação, além de me fazer pensar sobre o ‘’vazio’’
dos espaços culturais e de nós mesmos;
Ao Professor Doutor Martin Feijó, pelo conhecimento e sabedoria transmitidos, pela
honestidade e compromisso nas aulas dadas;
Ao amigo José Romero, pelas conversas filosóficas e artísticas no café da Pós, pela
cumplicidade e amizade sempre;
Ao amigo Eduardo Mosaner, pelo apoio constante durante todo o mestrado, pela
admiração e experiência de um amigo que sabe muito;
À amiga Silvia Uny, pela amizade, cumplicidade e companhia no nosso primeiro
congresso juntas;
Ao corpo docente da Pós-Graduação em Educação, Arte e História da Cultura, por
sinalizar novos caminhos e ampliar referenciais importantes na trajetória acadêmica;
À Professora Doutora Regina Lara, pelo acolhimento no estágio na graduação e pela
serenidade transmitida;
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À Professora Keller Regina V. Duarte, pela generosidade e confiança, pelo
empréstimo de textos fundamentais na reta final da pesquisa;
À Professora Doutora Mirian Celeste Martins, sempre presente como professora e
amiga, incentivadora da arte e da pesquisa;
À Professora Paula Modenesi, pela entrevista e amorosidade logo no primeiro
contato;
À Professora Mariza Szpigel, pela entrevista e afinidade, cumplicidade de
professoras que escrevem seus Diários;
Ao artista plástico Rubens Matuck, pelas duas horas poéticas que me foram
proporcionadas no seu ateliê durante a nossa entrevista; me transmitindo muita arte
e sensibilidade;
À secretária Elisama, pela ajuda constante no início da pesquisa, troca de e-mails e
contatos que sem ela não seriam realizados;
À Universidade Presbiteriana Mackenzie, através do Mack Pesquisa, por viabilizar
recursos de apoio à pesquisa;
À Bolsa Capes com parceria junto a Universidade Presbiteriana Mackenzie que
possibilitou seis meses de estudo isento da mensalidade.
8
GUARDAR
Guardar uma coisa não é escondê-la ou trancá-la.
Em cofre não se guarda coisa alguma.
Em cofre perde-se a coisa a vista.
Guardar uma coisa é olhá-la, fitá-la, mirá-la por admirá-la, isto
é, iluminá-la ou ser por ela iluminado.
Guardar uma coisa é vigiá-la, isto é, estar acordado por ela,
isto é, estar por ela ou ser por ela.
Por isso melhor se guarda o vôo de um pássaro
Do que um pássaro sem vôos.
Por isso se escreve, por isso se diz, por isso se publica, por
isso se declara e declama um poema:
Para guardá-lo:
Para que ele, por sua vez, guarde o que guarda:
Guarde o que quer que guarde um poema:
Por isso o lance do poema:
Por guardar-se o que se quer guardar.
Antonio Cícero
9
RESUMO
O presente trabalho investiga o exercício do registro na práxis do professor e do
artista, uma vez que a pesquisa transita no universo das Artes Visuais. A dissertação
apresenta um estudo de caso que busca compreender um processo de
representação social através dos registros de momentos da história pessoal e
profissional de uma professora de Artes Visuais e de um artista plástico
contemporâneo; situando a importância do registro na práxis dos sujeitos que estão
inseridos no campo da Educação e das Artes Visuais. As representações e
discursos dos dois sujeitos foram analisados através da técnica de Bardin (1977),
análise de conteúdo, onde foi possível identificar aspectos relevantes da formação
dos dois sujeitos, compreendendo dentro do contexto social, cultural e histórico que
estão inseridos. O papel da arte como registro e o despertar para linguagem visual
como forma de comunicação possível se fez relevante para a abordagem dessa
pesquisa. Neste contexto, verificar o papel do registro nos programas de formação
de professores e de outros profissionais, em especial o artista, que busquem outros
olhares, novos desafios, percebendo a importância e a riqueza do documento de
registro como uma forma de guardar nossa historicidade. Esta pesquisa não tem a
pretensão de concluir, generalizar. Pelo contrário, pretende-se reunir ações,
documentar, mostrar e apontar possíveis trajetórias em relação à formação de
professores de arte e disponibilizar para que possa ser visitado, pesquisado por
todos aqueles que se interessarem.
Palavras-chave: Registro, Diário, Linguagem, Consciência, Memória, Professor,
Artista, Educação.
10
ABSTRACT
The present work investigates the exercise of the register in the práxis of the
professor and the artist, a time that the research transits in the universe of the Visual
Arts. The dissertação presents a case study that it searchs to understand a process
of social representation through the registers of moments of the personal and
professional history of a teacher of Visual Arts and a plastic artist contemporary;
pointing out the importance of the register in the práxis of the citizens that are
inserted in the field of the Education and the Visual Arts. The representations and
speeches of the two citizens had been analyzed through the technique of Bardin
(1977), content analysis, where it was possible to identify excellent aspects of the
formation of the two citizens, understanding inside of social, cultural andhistorical the
context that they are inserted. The paper of the art as register and the wakening for
visual language as form of possible communication if made excellent for the boarding
of this research. In this context, to verify the paper of the register in the programs of
formation of professors and other professionals, in special the artist, who search
other looks, new challenges, perceiving the importance and the wealth of the register
document as a form to keep our historicidade. This research does not have the
pretension to conclude, to generalize. For the the opposite, it is intended to
congregate action, to register, to show and to point possible trajectories in relation to
the formation of art professors and to disponibilizar so that it can be visited, searched
for all those that if to interest.
Keywords: Register, Daily, Language, Conscience, Memory, Professor, Artist,
Education.
11
LISTA DE ILUSTRAÇÕES
Figura 1 Suicídio Urbano.................................................................................... 33
Figura 2 Livro de viagem à China....................................................................... 36
Figura 3 Diário .................................................................................................. 84
Figura 4 Poesia Chinesa .................................................................................. 85
Figura 5 Diário.................................................................................................... 87
Figura 6 Poesia chinesa .................................................................................... 88
Figura 7 Sobreposição da Categorias................................................................ 89
Figura 8 Diário.................................................................................................... 91
Figura 9 Cadernos de Viagem............................................................................ 95
Figura 10 Cadernos de Viagem............................................................................ 98
Figura 11 Revistas Kicker................................................................................... 102
Figura 12 Inglês para a Bela Vida Humana....................................................... 103
Figura 12a Altamente Carregado......................................................................... 103
Figura 13 Imprensa Oficial do Estado de São Paulo.......................................... 105
Figura 14 Diário................................................................................................. 106
Figura 15 Diário................................................................................................. 107
Figura 16 Cadernos de viagem......................................................................... 109
Figura 17 Cadernos de viagem......................................................................... 110
Figura 18 Jazz................................................................................................... 112
Figura 19 O diário de Frida Khalo..................................................................... 113
Figura 20 Frida Khalo........................................................................................ 114
Figura 21 La Prose du Transsibérien et de l apetite Jehanne de France......... 116
Figura 22 Imprensa Oficial do Estado de São Paulo........................................ 118
Figura 23 Diário................................................................................................ 122
Figura 24 Diário................................................................................................. 124
Figura 25 Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, 2004............................. 125
Figura 26 Anotações para a encenação de Medeia........................................ 126
Figura 27 O diário de Zlata: a vida de uma menina na guerra........................ 127
Figura 28 O diário de Zlata: a vida de uma menina na guerra........................ 128
Figura 29 O diário de Zlata: a vida de uma menina na guerra......................... 129
12
Figura 30 Diário................................................................................................ 132
Figura 31 Diário................................................................................................. 133
Figura 32 Diário................................................................................................ 137
Figura 33 Diário................................................................................................. 138
Figura 34 Diário................................................................................................. 139
Figura 35 Registro em memória para amigos e parentes................................. 141
Figura 36 Diário................................................................................................. 142
Figura 37 Diário................................................................................................. 143
Figura 38 Imprensa Oficial do Estado de São Paulo......................................... 146
Figura 39 Diário ............................................................................................... 149
Figura 40 Diário................................................................................................. 150
Figura 41 Diário................................................................................................. 153
Figura 42 Diário................................................................................................. 154
Figura 43 Diário................................................................................................. 155
Figura 44 Cadernos de viagem......................................................................... 157
Figura 45 Diário................................................................................................. 159
Figura 46 Diário................................................................................................. 161
Figura 47 Diário................................................................................................. 162
Figura 48 Diário................................................................................................. 163
Figura 49 Diário................................................................................................. 163
Figura 50 Cadernos de viagem........................................................................ 164
Figura 51 Imprensa Oficial do Estado de São Paulo........................................ 165
Figura 52 Imprensa Oficial do Estado de São Paulo........................................ 169
Figura 53 O diário de Zlata: a vida de uma menina na guerra......................... 172
Figura 54 Diário................................................................................................ 173
Figura 55 Cadernos de Viagem........................................................................ 174
Figura 56 O Sol e a Lua................................................................................... 176
Figura 57 Composição A.................................................................................. 177
Figura 58 Remembrance of a Garden.............................................................. 182
Figura 59 Number 8.......................................................................................... 184
Figura 60 Diário de Silvia Cacace Cunha......................................................... 186
Figura 61 Diário de Silvia Cacace Cunha......................................................... 187
Figura 62 O diário de Anne Frank..................................................................... 188
13
SUMÁRIO
APREENSÃO IMPOSSÍVEL DA VIDA ENQUANTO ACONTECE......................... 11
INTRODUÇÃO.......................................................................................................... 16
OBJETIVO................................................................................................................ 21
OBJETIVOS ESPECÍFICOS..................................................................................... 21
JUSTIFICATIVA........................................................................................................ 22
PROBLEMA.............................................................................................................. 23
1 RECIPIENTE DE IDÉIAS....................................................................................... 29
2 FRONTEIRAS ENTRE O LIVRO DE ARTISTA, LIVRO-OBJETO E DIÁRIO...... 48
3 DIÁRIO: ESPAÇO CRIADOR................................................................................ 57
4 ESTUDO DA CONSCIÊNCIA: ARTICULAÇÃO ENTRE O PENSAMENTO E A
LINGUAGEM............................................................................................................ 69
5 ERGUENDO OS OLHOS E OLHANDO O ENTORNO......................................... 71
5.1 UNIVERSO DA PESQUISA................................................................................ 72
5.2 CONTATOS........................................................................................................ 73
5.3 VISITAS.............................................................................................................. 74
5.4 OS MATERIAIS (ENTREVISTAS) ..................................................................... 77
6 HISTÓRIAS SOBREPOSTAS............................................................................... 79
CONSIDERAÇÕES................................................................................................. 190
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS....................................................................... 199
BIBLIOGRAFIA CONSULTADA............................................................................ 203
ANEXOS................................................................................................................. 205
14
APREENSÃO IMPOSSÍVEL DA VIDA ENQUANTO ACONTECE
Meu papel no mundo não é o de quem constata o que ocorre, mas
também o de quem intervém como sujeito de ocorrência. Não sou apenas
objeto da História, mas seu sujeito igualmente. No mundo da História, da
cultura, da política, constato não para me adaptar, mas para mudar
(FREIRE, 2000, p.79).
Depois de graduada no curso de Artes Plásticas na Faculdade de Belas Artes
de São Paulo, decidi ser arte-educadora, ou seja, unir arte e educação. A escolha
desse caminho aconteceu pelo fato de eu não me adaptar ao sistema institucional
de ensino desde o período em que era estudante universitária. Ao realizar estágios
em escolas privadas e blicas, foi possível presenciar situações e, conforme
aprofundava meus estudos sobre teorias de formação de professores, mais me
indignava com a realidade da escola.
Diante de algumas situações observadas durante o estágio em uma escola
privada, comecei a ter vários questionamentos para os quais não obtinha respostas.
Apesar de ser uma educadora iniciante, me posicionava criticamente e
incomodava outros profissionais superiores a mim e, por isso, corria o risco de ser
punida, uma vez que estava inserida em uma escola privada, vista como uma
empresa, portanto com o objetivo de formar alunos que tinham condições financeiras
de comprar uma mercadoria chamada “educação”
1
.
Logo em seguida, fui trabalhar na Organização não Governamental Projeto
Carmim, que tem como foco a humanização hospitalar através das artes visuais. O
Projeto Carmim é uma Ong que trabalha com artistas-educadores que levam arte
para os hospitais, com o objetivo de transformar e dignificar a vida das pessoas
doentes que lá se encontram.
Trabalhei no Projeto Carmim por dois anos, atuando em dois hospitais na
cidade de São Paulo, o Hospital de Infectologia Emílio Ribas e o Hospital das
Clínicas. No hospital Emílio Ribas, foi possível realizar um trabalho com pacientes
1
A expressão (grifo meu) se refere aos destaques salientados pelo pesquisador diante de “passagens relevantes
no texto, entre aspas”.
15
que tinham diagnósticos de HIV, tuberculose, leishimanióse, pneumonia, entre
outras e, no Hospital das Clínicas, atuei na seção de Hemodiálise.
Ademais lecionava na ONG no período da noite, capacitando pessoas de
diversas áreas do conhecimento a trabalharem com arte em comunidades pobres.
Neste curso, eu ministrava as disciplinas de História da Arte e Metodologia do
Ensino da Arte.
Este trabalho no Projeto Carmim foi extremamente enriquecedor e
fundamental na trajetória da minha vida profissional. Nesta época comecei a
perceber a distância entre o ensino da arte nas ONGs e nas escolas da cidade de
São Paulo, então sempre me senti motivada a entender quais as razões disso. Uma
das hipóteses talvez seja que as ONGs estão menos estruturadas que as escolas,
por isso o trabalho transcenda.
Após meu desligamento na ONG Projeto Carmim, fui lecionar no Colégio
Galileu Galilei, situado no bairro do Morumbi, em São Paulo. Trabalhei dois anos e
não consegui alcançar meus objetivos, pois os alunos não correspondiam às minhas
expectativas. A escola estava vivenciando um período de crise, sem identidade
pedagógica e com um grupo de professores desacreditados, beirando a
mediocridade da acomodação e alienação. S de e, logo depois, fui chamada
para lecionar no Ensino Fundamental II, na Escola Santo Inácio, onde trabalhei por
três anos. Esta escola tinha uma identidade clara e bem definida e sua concepção é
sócio-construtivista. Os alunos gostam da escola, bem como de estudar, tive muita
autonomia nas minhas aulas e todos acreditaram no meu trabalho. Além das aulas
no Ensino Fundamental II, recebi o convite para ser consultora de arte para
professoras da Educação Infantil e Fundamental I. O trabalho foi muito bom; eu e as
professoras compartilhamos conhecimentos e trocamos conceitos e práticas
pedagógicas aplicáveis em diferentes idades.
A função de assessora de artes na escola também me motivou para esta
pesquisa, uma vez que fiquei mais próxima de outros educadores e comecei a
aguçar o meu olhar sobre a forma que os professores percebiam e sentiam a arte,
bem como que conceitos tinham a respeito desta disciplina tão subjetiva e complexa.
O principal objetivo de ser uma arte-educadora no âmbito escolar era levar a escola
a reconhecer cada vez mais a importância da disciplina de artes e obter recursos
financeiros para a aquisição de materiais como: câmeras de filmagem, retro-
16
projetores, máquinas fotográficas, entre outros, além de recursos humanos como
colaboração de uma equipe para a realização de um bom trabalho junto aos alunos
e educadores.
No ano de 2004, tive a oportunidade de realizar um trabalho paralelo entre a
Escola Santo Inácio e o Centro Educacional Unificado CEU, sob a gestão da
Prefeita Marta Suplicy. Fui admitida pela Secretaria do Estado da Cultura depois de
uma longa seleção para atuar no CEU de Campo Limpo, onde pude trabalhar
durante seis meses com crianças de 5 a 14 anos, nos ateliês de artes. A equipe era
formada por um coordenador e cinco educadores de várias linguagens artísticas,
música, teatro, dança e artes visuais.
Apesar da “burocracia exagerada” da prefeitura, algo que não compete ao
nosso esforço e entendimento nesta pesquisa, poder-se-ia dizer que foi possível
realizar um bom trabalho, pois tive contato com outro universo e outra realidade,
visto que saía da escola particular na parte da manhã e percorria meu caminho até a
região do Campo Limpo, onde as crianças me esperavam sedentas para as aulas
de artes, pois queriam mexer nas tintas e pincéis e fazer desenhos que
expressassem suas emoções e histórias.
A possibilidade de realizar este trabalho tanto no sistema escolar privado
quanto no público me fez amadurecer como educadora e pessoa, e esta experiência
foi tão marcante para mim que guardo até hoje as fotos das crianças do Campo
Limpo, inclusive algumas delas estão fixadas na minha geladeira, lugar que meus
olhos percorrem todos os dias.
Atualmente atuo no Terceiro Setor, saí da escola particular onde trabalhava
em razão do meu ingresso, em 2007, no Mestrado da Universidade Presbiteriana
Mackenzie, pois não teria tempo para me dedicar aos estudos e realização da
pesquisa caso continuasse realizando os dois trabalhos. Sendo assim, optei mais
uma vez pela estrutura não formal de ensino; trabalho como arte-educadora na ONG
Posto de Orientação familiar POF, que atua com crianças e famílias na favela do
Paraisópolis, próxima ao bairro do Morumbi.
Nesta ONG eu trabalho com o ensino da arte para crianças e adolescentes de
quatro a quinze anos, idade limite para a permanência do adolescente na Instituição.
O nosso trabalho tem uma parceria com as escolas públicas da região; a criança
fica meio período na escola e meio período sob nossa responsabilidade tendo aulas
17
de artes, esporte, música (Projeto Guri), informática e quatro professoras
especialistas em alfabetização, além de uma equipe multidisciplinar, formada por
uma equipe de psicólogos e psicanalistas, uma terapeuta ocupacional, duas
nutricionistas, uma coordenadora pedagógica e uma coordenadora geral, todos
envolvidos para atender alunos, famílias e comunidade.
Tal experiência tem sido muitas vezes dolorosa por me levar a perceber a
condição em que se encontra a nossa educação na cidade de São Paulo, pois,
considerando que este é o estado mais rico do Brasil, é inadmissível aceitar
tamanha contradição. O que torna este trabalho mais difícil ainda é o fato de se
perceber que essas crianças são completamente negadas pelo sistema capitalista e
elas têm plena consciência dessa exclusão e sentem que seus sonhos estão muito
distantes de se realizar.
De acordo com o artigo 6, (Dos Direitos Sociais) da Constituição Brasileira,
“são direitos sociais a educação, a saúde, o trabalho, o laser, a segurança, a
previdência social, a proteção a maternidade e a infância, a assistência aos
desamparados, na forma desta Constituição (BRASIL, 1996, p.22)”.
Considerando um preceito constitucional que o Estado ofereça educação e
saúde a todos os cidadãos, é ainda incompreensível que o Estado de o Paulo
mantenha essa situação de miséria intelectual e humana dos cidadãos que vivem
nessa cidade. Portanto essa minha experiência tem sido duplamente dolorosa e tem
me levado à indignação.
Segundo Paulo Freire,
[...]de que é possível mudar, de que é preciso mudar, de que preservar
situações concretas de miséria é uma imoralidade. É assim que este saber
que a História vem comprovando se erige em princípio de ação e abre
caminho à constituição, na prática, de outros saberes indispensáveis
(FREIRE, 1996 p. 79).
O professor, nessa Instituição que trabalho hoje, muitas vezes, faz o papel do
pai, da mãe, do psicólogo, do médico, do assistente social, etc. A relação ensino-
aprendizagem da área do conhecimento específico de cada docente fica para
18
depois, pois as necessidades que demandam são outras, extremamente complexas
e duras de digerir, ou seja, o terreno que trabalhamos é muito árido.
Essas inquietações me levam à pesquisa, uma vez que tenho a intenção de
aprofundar meus conhecimentos sobre educação. Paulo Freire relata que o estudo
forma e conscientiza uma sociedade, abrindo alguns possíveis caminhos, uma vez
que o sujeito interioriza e pergunta “em favor do que estudo, em favor de quem,
contra que estudo e contra quem estudo? (FREIRE, 1996, p. 77)”.
Nessa trajetória da pesquisa e pelos diferentes espaços que transito, constato
que podemos intervir na realidade, tarefa incomparavelmente complexa, mas
geradora de novos saberes do que de simplesmente a de nos adaptar a ela.
Todas essas vivências sensíveis nos levam a ler o mundo de forma mais
atenta. Nesse percurso, dois motivos levaram-me a fazer esta pesquisa: primeiro,
porque percebi que, na escola, alunos e professores não fazem nenhum tipo de
relação entre cultura, arte e experiência estética; segundo, porque, através do
registro visual e verbal, o professor pode perceber e sentir coisas que nunca foram
sentidas, entendidas e apreendidas, dessa forma consegue compreender, unindo o
discurso a pratica na medida em que escreve, reflete, desenha, observa o que
escreveu, distancia-se, volta de novo, enfim; o registro possibilita a volta, o retorno
do vivido, à lembrança da história, ressignificando experiências vividas.
19
INTRODUÇÃO
Os educadores que optaram pela elaboração de Diários profissionais e
pessoais escolheram observar-se a si próprios, tomar a experiência em
consideração a tentar compreendê-la. A escrita dos Diários biográficos
constitui-se em ‘escrita sobre a vida’ (bios-vida, graphia-escrita), tentando
compreender e articular as experiências de uma outra pessoa. A escrita dos
Diários autobiográficos envolve o processo de contar a história de sua
própria vida. A escrita dos Diários biográficos e autobiográficos inclui,
geralmente, a reconsideração e a reconstrução da experiência a partir da
história de uma vida, quer seja sua própria (autobiografia) ou a de outras
pessoas (biografia). Uma das diferenças entre a teorização normal, ou
quotidiana, do professor e a escrita sobre as suas próprias experiências,
pensamentos e sentimentos, é que esta última demora muito mais tempo.
mais tempo para observar e refletir sobre o que se escolhe para ser
contado (HOLLY, 1992, p. 101).
A semente desse trabalho foi germinada no curso de especialização,
denominado “Formação de Professores” no Espaço Pedagógico
2
, ministrado pelas
professoras Fátima Camargo, Juliana Davini e Mirian Celeste Martins, que resultou
em uma monografia como conclusão de curso em 2005; sob a orientação da Profa.
Dra. Mirian Celeste Martins.
Através do olhar sensível da Profa. Dra. Mirian Celeste Martins
3
, docente da
disciplina “Formação do professor de arte”, houve o incentivo para transformar este
tema em uma monografia e posteriormente nesta pesquisa de Mestrado que versa
sobre o trabalho de registro que fazia na escola com os alunos do Ensino
Fundamental II, o qual era denominado “Diário Cultural”. Tal pesquisa é relevante,
uma vez que ressalta a importância do registro em Diário para compreensão das
representações sociais dos professores que atuam nas Instituições de Ensino e
como essas anotações resgatam a memória e podem contribuir para novas
2
Espaço educacional composto pelos docentes: Madalena Freire, Fátima Camargo, Mirian Celeste
Martins e Juliana Davini, tinha como objetivo a formação de professores do ensino público e privado
do interior e da cidade de São Paulo (1992-2005).
3
Atualmente é docente do curso de pós-graduação ‘’Educação, Arte e História da Cultura’’ na
Universidade Presbiteriana Mackenzie e sócia diretora do Rizoma Cultural. Assessora de
Instituições Educacionais e Culturais.
20
estratégias didático-pedagógicas na práxis do professor mais comprometido com a
realidade.
Diante deste contexto, esta pesquisa analisa a relação do Diário como um
espaço de expressão textual e visual do professor, contemplando as várias
dimensões da consciência e do inconsciente do professor, possibilitando a
realização de leituras de um professor não fragmentado, mas inteiro na sua
dimensão humana. A abordagem deste tema será sob a perspectiva analítica dos
teóricos sócio-construtivistas russos
4
.
A propósito, considerando-se que esse trabalho tem a linguagem verbal e não
verbal como eixo de todo processo educativo, assume-se, portanto, uma perspectiva
interdisciplinar, com a qual podemos estabelecer vários diálogos com outras áreas
do conhecimento, como a arte, educação e cultura, integradas na pesquisa de forma
significativa.
Percebendo o homem como um ser social, é importante observar nos seus
registros, toda uma linguagem, uma expressão que está impregnada de fatores
externos e internos, conscientes e inconscientes desse indivíduo, levando em
consideração tudo que será expresso através das palavras e das imagens,
destacando-se a arte como linguagem, pois essa será uma área do conhecimento
bastante explorada nessa pesquisa.
Ernst Fischer
5
(1967) destaca na arte que o homem é homem através da
linguagem; suas mãos são órgãos vitais para elaboração de ações e para sua
consciência.
O homem pré-letrado seus primeiros sinais de linguagem através de
expressões simbólicas, como gritos, imitações de sons de animais, de sexo,
imitações repetidas. Através das mãos cria seus primeiros objetos, o que lhe permite
evoluir, ser um sujeito ativo, criando um processo coletivo de trabalho,
conscientizando-o como um ser social.
Além de tudo que está escrito ou falado, considerando textos e falas como
produtos de reproduções das relações sociais, não podemos deixar de lado nessa
pesquisa, a linguagem simbólica, o que “não está dito”, que aparece nas entrelinhas.
4
Luria (1902-1977), Vygotski (1896-1934) e Leontiev (1903-1979). Sócio-construtivistas da Escola de Troika,
Rússia.
5
Ernst Fischer (1899 – 1972). Poeta, escritor, filósofo e jornalista austríaco.
21
Muitas vezes o homem utiliza, na sua linguagem, símbolos, sinais ou imagens
que não são estritamente descritivos, não é familiar na vida diária, embora possua
conotações especiais além do seu significado evidente e convencional. Alguns
símbolos implicam coisas vagas, desconhecidas ou ocultas para nós.
Segundo Jung
6
:
Uma palavra ou uma imagem é simbólica quando implica alguma coisa além
do seu significado manifesto e imediato. Esta palavra ou esta imagem tem
um aspecto “inconsciente” mais amplo, que nunca é precisamente definido
ou de todo explicado. Quando a mente explora um símbolo, é conduzida a
idéias que estão fora do alcance da nossa razão (s.d, p. 20).
Considerando o objeto da pesquisa como um espaço de criação e expressão
da linguagem consciente e inconsciente, haverá um olhar cuidadoso em relação à
produção das imagens, compreendendo suas subjetividades e alguns códigos
secretos de arranjos resultantes do acaso, na medida em que o homem consegue
decifrar.
Quando Jung (s.d, p. 264) interpreta símbolos nas obras de alguns artistas
modernos, destaca na obra de Jackson Pollock que “os quadros significam o nada,
que é tudo, isto é, o próprio inconsciente”. Portanto a linguagem da arte possibilita a
investigação da relação do sujeito com essa área do conhecimento, sua relação
estética com o objeto artístico e com o próprio objeto de estudo.
De acordo com Vázquez, (1999, p. 5), “estética é tudo o que é objeto de
relação, de comportamento ou da experiência de caráter estético. O estético em
suas diversas manifestações, natural, artificial, artesanal ou artística, técnica ou
industrial”.
Nesse sentido, o foco do trabalho é analisar a relação estética dos sujeitos
(professor e artista) com o objeto da pesquisa (Diário), e levar em consideração o
cotidiano desses sujeitos e suas percepções sobre o contexto em que estão
inseridos, sempre considerando que as várias formas de linguagem, como a
6
Carl Gustav Jung (1875-1961) Psiquiatra e Psicólogo suíço.
22
artística, a escrita e oral, seja ela qual for, são produtos construídos no seu meio
social e cultural.
De acordo com Moscovici
7
(2003) e Silvia Lane
8
(1994), a linguagem é
produto de uma coletividade, que reproduz uma visão de mundo ideal, e pode ou
não ser ideologizada. Chauí (2006) afirma que:
A ideologia é um conjunto lógico, sistemático e coerente de representações
(idéias e valores) e de normas ou regras (de conduta) que indicam e
prescrevem aos membros da sociedade o que devem pensar e como devem
pensar, o que devem valorizar e como devem valorizar, o que devem sentir
e como devem sentir, o que devem fazer e como devem fazer. Ela é,
portanto, um corpo explicativo (representações) e prático (normas, regras,
preceitos) de caráter prescritivo, normativo, regulador, cuja função é dar aos
membros de uma sociedade dividida em classes uma explicação racional
para as diferenças sociais, políticas e culturais, sem jamais atribuir tais
diferenças a divisão da sociedade em classes a partir das divisões na esfera
da produção. Pelo contrário, a função da ideologia é a de apagar as
diferenças como de classes e fornecer aos membros da sociedade o
sentimento de identidade social, encontrando certos referenciais
identificadores de todos e para todos, como, por exemplo, a Humanidade, a
Liberdade, a Igualdade, a Nação, ou o Estado (CHAUÍ, 2006, p.108).
Ainda para a autora, ‘’o idealista, por sua vez, considera que o real são idéias
ou representações e que o conhecimento da realidade se reduz ao exame dos
dados e das operações de nossa consciência ou do intelecto, como atividade
produtora de idéias que dão sentido ao real e o fazem existir para nós’’. (CHAUÍ,
2006, p.22).
Neste caso, vale destacar que se deve estar atento ao captar o ideológico e o
nível de consciência dos sujeitos da pesquisa. Este talvez seja o problema
fundamental para a pesquisa em Psicologia Social, quando o objetivo é conhecer o
indivíduo como ser concreto, inserido numa totalidade histórico-social.
7
Serge Moscovici nasceu no ano de 1928, é psicólogo social. Atualmente é diretor do Laboratoire Européen de
Psychologie Sociale (Laboratório Europeu De Psicologia Social), que ele co-fundou em 1975 em Paris.
8
Professora Doutora no Programa de s-graduação em Psicologia Social, Pontifícia Universidade Católica de
São Paulo. Morreu em 2006.
23
Como característica de uma pesquisa interdisciplinar, em que a Educação,
Arte e Cultura são os eixos principais deste trabalho, algumas disciplinas
colaboraram teoricamente com inquietações pertinentes durante o processo de sua
realização. A disciplina “Formação do docente: novas tecnologias e cidadania”,
ministrada pelo Prof. Dr. Marcos Tarciso Masetto, por exemplo, possibilitou a
percepção de novas leituras sobre questão educacional, enfatizando a relação
professor-aluno e a valorização do profissional de educação, proporcionando à
pesquisadora um olhar diferenciado sobre as análises metodológicas em relação a
este estudo de caso.
Freire (1996) ensina que o mundo não é estático, parado, ele está sempre em
movimento e o sujeito não é objeto da história, mas sim, sujeito, que se adapta e
muda, transforma e é transformado pela história.
Ambos, Vygotsky (1995) e Freire (1996), afirmam que o meio influencia e
transforma os indivíduos, por isso haverá um olhar atento ao estudo de caso
partindo do espaço, do momento histórico e de tudo que influencia na identificação e
significação de sentidos dos fatos pesquisados.
A disciplina “Cultura e artes: abordagens histórico-antropológicas”, ministrada
pelo Prof. Dr. Martin Feijó, foi o insight para saída da zona de conforto em relação a
esta pesquisa e início da prática sobre os conceitos adquiridos em relação à cultura,
modernidade, pós-modernidade, história e filosofia.
A pesquisa se estrutura em seis capítulos que se seguem:
O Capítulo 1 - Recipiente de Idéias: é o palco para uma preciosa discussão teórica
sobre a linguagem verbal e não verbal; conteúdo que nos suporte para analisar
devidamente os registros coletados.
O Capítulo 2 - Fronteiras entre o livro de artista, livro - objeto e Diário: discute os
conceitos dos três objetos.
O Capítulo 3 – Diário – Espaço Criador: apresenta o Diário como instrumento
expressivo, espaço de criação e de linguagem.
O Capítulo 4 – Estudo da Consciência - Articulação entre o Pensamento e
Linguagem: propõe o referencial da Consciência, sobre as seguintes categorias da
Psicologia: Pensamento e Linguagem.
24
O Capítulo 5 – Erguendo os olhos e olhando o entorno: descreve os aspectos
Metodológicos da pesquisa
E, por fim, o Capítulo 6 Histórias sobrepostas: apresenta o material de análise dos
sujeitos entrevistados.
Objetivo
O objetivo geral desta investigação é verificar que os Diários escritos por
professores apresentam uma especificidade, cuja formulação deve ser clara e
precisa. Partindo da idéia de que “o ensino é uma atividade profissional reflexiva”,
que “a perspectiva dos professores sobre o seu trabalho se autoclarifica através da
sua verbalização oral e escrita” e que “escrever o Diário pode ser um instrumento
adequado para conhecer o sujeito e seus problemas”.
Objetivos específicos
Esta pesquisa apresenta alguns objetivos específicos:
1) Situar os Diários num contexto conceitual e metodológico que os relacione
com a investigação qualitativa, enquadrando-os, além disso, no contexto dos
documentos pessoais como instrumento para aceder ao pensamento e ação dos
seus autores;
2) Assumir os Diários como instrumentos adequados para veicular o
pensamento dos sujeitos.
3) Apontar as representações sociais do professor e do artista com relação à
sua prática docente e artística, de modo a perceber o movimento de mudanças na
sua prática.
25
4) Identificar nos Diários os dilemas dos sujeitos e como estes os elaboram
mentalmente e com respeito ao seu discurso sobre a prática.
Justificativa
A escolha do estudo sobre Diários ocorreu pelo fato de esta ser uma prática
utilizada pela pesquisadora e, diante disso, esta considera o Diário como um registro
de experiências pessoais e observações diárias que incluem interpretações, opiniões
e sentimentos que aparecem, de alguma forma, explícitos neste tipo de escrita,
tornando-se, portanto, pertinente o estudo sobre este tema.
O problema da pesquisa foi investigado diante da seguinte questão: Em que
medida o registro, no Diário, altera a práxis do professor no decorrer da vida?
26
1 RECIPIENTE DE IDÉIAS
[...] As pessoas que não sabiam exatamente do que se tratava,
encontravam o choque pelo estranhamento. Eram livros, alguns que podiam
ferir as mãos. E era arte, e ela feria os olhos (SILVEIRA, 2001, p.16).
Nesta pesquisa usa-se a linguagem verbal e não verbal como construção do
conhecimento e, por outro lado, o objeto de análise também é a linguagem verbal e
não verbal, uma linguagem subjetiva que permite que se discuta sem ser dogmático,
pelo fato de estar trabalhando com representações sociais, percepção de mundo,
portadora de um ideário, com uma leitura crítica e uma consciência de que sem a
subjetividade essa pesquisa ficaria comprometida durante seu processo de
construção.
Vygotsky (1896-1934), Luria (1902-1977) e Leontiev (1903-1979) possibilitam
investigações em relação à linguagem, que é estimulada pelo pensamento, da
mesma forma que o pensamento é estimulado pela linguagem. Segundo Vygotsky
“não é o pensamento que pensa; é uma pessoa que pensa” (1995, p. 61).
Quando Vygotsky expressa seu pensamento, leva-nos a pensar que todo
sujeito é um indivíduo singular, que constrói sua história de acordo com sua cultura,
seu pais, sua época e suas memórias.
Se nessa pesquisa fossem analisados sujeitos de diferentes países, como
Brasil, África ou Estados Unidos, teríamos diferentes análises, com histórias muito
particulares de cada sujeito, compreendendo seus registros a partir da compreensão
social, histórica e cultural de cada um.
Luria (1986) e Vygotsky (1995) compreendem a linguagem como um produto
construído sócio-historicamente, sendo impossível compreender sujeitos que
pensam e comunicam sem compreender seu contexto de vida, inseridos num tempo
e espaço.
A linguagem é um instrumento importante da formação da nossa consciência,
sendo que a consciência não é algo que existe idealisticamente, ela é concreta, e
essa concretude se via linguagem, o importa se é linguagem escrita, gestual,
falada ou artística. Berger e Luckman entendem que:
27
Ela tanto é um aspecto da cultura, enquanto incorpora e transmite valores
culturais, quanto um aspecto da consciência individual empregada para
pensar e falar. Esse caráter duplo da linguagem resume a relação dialética
existente entre socialidade e indivíduo.
A linguagem social modela a consciência, mas a linguagem também é
gerada pela consciência e a representa. Como todas as objetificações, a
linguagem tem um duplo caráter de formar e exteriorizar a consciência
(BERGER; LUCKMAN apud VYGOTSKY, 1987, p. 40).
A linguagem é um instrumento que permite não a comunicação, mas o
desenvolvimento da consciência que pode ser estudada através da linguagem,
considerando que a menor molécula da linguagem como organismo é a palavra.
Segundo Vygotsky ‘‘pode-se comparar o pensamento a uma nuvem flutuando
no espaço que veste uma chuva de palavras’’ (1995, p. 41), mas jamais o
pensamento se expressa completamente em palavras, os dois processos
manifestam uma unidade, mas não uma identidade.
A representação do homem não é definida apenas por meios dos seus
pensamentos conscientes, mas através da relação do seu consciente com seu
inconsciente, ou seja, o homem que pensa é também o homem que sente e que
intui. Cassirer afirma:
O homem se diferencia do animal na medida em que se encontra em
condições de pensar e organizar sua conduta dentro dos limites das “formas
simbólicas” e não somente nos limites da experiência imediata. Esta
capacidade de pensar e agir em forma simbólica é resultante de que o
homem possui propriedades espirituais (CASSIRER apud LURIA, 1987, p.
15).
Sob a ótica sócio-construtivista, Vygotsky (1995) destaca que o homem se
diferencia do animal pelo fato de que, com sua passagem à existência histórico-
social, ao trabalho e às formas de vida social a eles vinculados, mudaram
radicalmente todas as categorias fundamentais do comportamento, o trabalho social
e a divisão do trabalho provocaram a aparição de motivos sociais de
comportamento.
Essa argumentação vygotskyana é a que mais interessa na perspectiva dessa
pesquisa, uma vez que a metodologia utilizada é estudo de caso, e as análises de
28
registros de representações sociais de professores terão como ponto de partida
essencial à linguagem, ou seja, o discurso produzido pelo indivíduo, que transmite a
representação que ele tem do mundo em que vive, isto é, a sua realidade subjetiva,
condicionadora de seus comportamentos e atividades.
A linguagem enquanto produto histórico traz representações, significados e
valores existentes em um grupo social, é como tal veículo da ideologia do
grupo, enquanto para o indivíduo é também condição necessária para o
desenvolvimento de seu pensamento (LANE, 1994, p. 41).
Diante disso, essa pesquisa não aborda apenas o aspecto cognitivo, mas
também avança na questão afetiva, mostrando a sensibilidade dos sujeitos.
Recorre-se à arte, porque esta também é uma linguagem que expressa os
sentidos apreendidos pelos indivíduos, sentidos esses do inconsciente, do simbólico,
em que a razão não conta de explicar. Se levarmos em conta que o simbólico
pode manifestar-se por imagens e por palavras que contêm uma plasticidade
organizadora que lhe é inerente, então as formas de conhecimento são tanto objeto
de comunicação verbal quanto visual e o pensamento visual, quando vinculado ao
social, torna-se questão de visibilidade, um tipo de conhecimento sobre
construtividade cultual e afetividade.
A cultura ocidental, com forte ênfase no Iluminismo, leva-nos a ler o que
está no consciente, sendo impossível fazer decodificações. Um excesso de palavras
nos aprisiona, por isso a arte ainda nos permite liberdade, pois são imagens
simbólicas que permitem diferentes formas de ler. A arte pode ser um meio ou pode
ser um fim e podemos entendê-la de diferentes formas, de acordo com nossas
referências e vivências.
A arte permite que o inconsciente coletivo forje signos que não são
completamente decodificados, ou que extrapolem o mundo intelectual. De acordo
com Fischer “a arte pode elevar o homem de um estado de fragmentação a um
estado de ser íntegro, total”. (1967, p. 57), Espera-se, portanto, que o Diário, permita
ao indivíduo esse estado de integração, do entendimento de sua psique relacionado
com sua prática, levando-o a refletir sobre seu discurso, permitindo-lhe sair da zona
29
de conforto, entrando em contato com o ser professor de uma outra maneira, sem
jogar nada fora, mas transformando e ressignificando seu olhar e sua postura.
Chegando ao inconsciente, algumas definições ficam mais claras quando
pensamos no objeto dessa pesquisa, uma vez que o Diário pode ser considerando
um espaço de criação artística e simbólica, permeado de arquétipos e
representações que serão identificados no processo metodológico dessa pesquisa.
O Diário demanda um fazer permeado de prazer misturado com angústia, ou
seja, espaço que convida o sujeito ao ato de criar, de ser criativo, de ousar, partindo
de uma linguagem muitas vezes desconhecida ou pouco praticada, mas que, no
embate entre sujeito criador e arte, muitos pensamentos podem surgir, conscientes e
inconscientes e é nesse momento que recorre-se à Psicologia do Profundo
9
, para
discutir representações do inconsciente.
Jung (s.d) afirma que toda palavra ou imagem tem um aspecto inconsciente
mais amplo, que nunca é completamente explicado, que nossa razão muitas vezes
não dá conta de definir tais códigos e símbolos. Quando a mente explora um
símbolo, é conduzida a idéias que estão fora do alcance da nossa razão, sendo que
muitas vezes quando nosso intelecto não acompanha, chamamos de divino, essa é
a razão pela qual todas as religiões empregam uma linguagem simbólica e se
exprimem através de imagens.
Jung (s.d, p.20) define símbolo como:
[...] um termo, um nome ou mesmo uma imagem que nos pode ser familiar
na vida diária, embora possua conotações especiais além do seu significado
evidente e convencional. Implica alguma coisa vaga, desconhecida ou
oculta para nós.
De acordo com Jung, os sonhos são o mais acessível campo de exploração
para quem deseja investigar a faculdade de simbolização do homem.
9
Jung (1875-1961).Psicologia analítica do Inconsciente.
30
Na arte os símbolos também aparecem de forma bastante pertinente, como
objetos de um mundo conhecido, que sugere alguma coisa desconhecida, é o
conhecimento expressando vida e sentido do inexprimível.
Nas análises metodológicas da pesquisa, é possível enfrentar algumas
resistências por parte dos sujeitos pesquisados pelo fato de não ter familiaridade
com a linguagem visual, fazendo desse campo do conhecimento algo de difícil
alcance, ou talvez, por um bloqueio de conceitos equivocados que foram
impregnados desde nossa infância, como por exemplo, “eu não sei desenhar”.
Jung (s.d, p. 94) ainda relata que o homem moderno é fragmentado,
guardado em compartimentos, gavetas, não se entendendo com um ser total,
integrado. Hoje esse homem caminha cada vez mais para a fragmentação, pois não
tem tempo para pensar, ouvir, ver, sentir. O homem moderno é acelerado, ansioso;
precisa opinar o tempo todo, não vive a experiência, no sentido da entrega, da
escuta, hoje o homem moderno faz somente experimentos, rápidos e rasos. De
acordo com o autor, o homem moderno não entende o quanto o seu ‘racionalismo’ o
deixou a mercê do ‘submundo’ psíquico, racionalismo que destruiu a capacidade
para reagir à idéia e os símbolos.
O Diário é um conjunto de signos visuais e verbais e muitos desses signos
visuais nem sempre são conscientes, estão registrados e vão no decorrer do registro
alterando a prática, que vai lendo, relendo, percebendo o movimento. A coerência no
ritual de diferentes signos no Diário permite um entendimento maior do sujeito inteiro
e não fragmentado.
Hoje temos uma sociedade que funciona apenas com a consciência indicial,
que só indica e não explica os objetos e seus fenômenos, mas condiciona os
sujeitos a serem operantes, constatando e não se indignando, talvez essa seja a
mola para a alienação da sociedade. O Diário propõe nesse caso a busca da
consciência simbólica, que problematiza, investiga e interpreta contrária ao que faz a
mídia, a TV, a indústria cultural; com seus programas fragmentados, rápidos e
consumíveis; apenas indicando o caminho, mas não discutindo o que vem antes dos
caminhos a serem percorridos. Peirce
10
relata que:
10
Charles Sanders Peirce (1839-1914). Semioticista americano.
31
[...] Consciência simbólica: trata-se de uma consciência interessada na
investigação do objeto em questão, uma consciência que produz as
convenções, as normas, que pretende conhecer as causas. o se
contenta com sentir ou intuir uma coisa, nem em constatar que ela existe:
quer saber por que existe. Se a icônica é analógica e intuitiva, enquanto a
indicial é operativa, a consciência simbólica é lógica [...] É a consciência que
transcende as sensações, a verificação daquilo que existe ou existiu, para
descobrir o que deve vir a existir (PEIRCE apud COELHO, 2006, p. 61).
Diante dessa concepção, o Diário é um objeto de pesquisa que oferece
diálogo e reciprocidade, na sensível possibilidade de inverter a ordem do sujeito e
conseqüentemente do mundo. Assim, se espera que os sujeitos desta pesquisa
explorem seus cadernos como algo livre para criar, sem o peso do erudito, do belo,
mas que descarregue simplicidade, poesia, algo muito singular de quem produz,
totalmente desprendido de juízo e de valores que carregamos a vida inteira por
alguém que nos fez acreditar que são os únicos e certos.
32
2 FRONTEIRAS ENTRE O LIVRO DE ARTISTA, LIVRO-OBJETO E
DIÁRIO
Feche os olhos e imagine um livro.
O livro imaginado é provavelmente o esperado: capa, páginas brancas com
texto em preto e uma boa lombada. Possivelmente você o imagina aberto.
E se a primeira página desse livro fosse a última, com ele começando pelo
fim? Isso nunca acontece. Isso pode ser considerado uma violação tanto
das práticas do bom senso (ou consenso) como das normas escritas. É uma
violação da ordem. Um livro com o menor grau de violação causa
estranhamento, para qualquer público. Essa é a premissa do livro de artista
contemporâneo, como o equilíbrio o foi dos seus antecessores.
Se você fechou os olhos, realmente, depois de ler a primeira frase acima,
então você está entorpecido pelos códigos de linguagem. Não é possível
parar: você tem a compulsão pela leitura. Tentar não ler é quase como
tentar não ver. Em vez de papel, você deveria folhear gina de lixa
(SILVEIRA, 2001, p.13).
Mesmo que se possa considerar uma questão simples, não para
considerar que exista um acordo geral sobre o que é um Diário, ou do que estamos
falando quando nos referimos aos Diários.
É importante dizer que existem diversas denominações para se referir a essa
técnica de documentação: Diário, caderno de bordo, portfólio, dossier, webfólio, etc.
Nem todas elas se referem exatamente ao mesmo tipo de processo nem acabam em
um documento similar, mas tem muitos pontos em comum e, com freqüência, são
utilizadas de forma indiscriminada.
A definição é voluntariamente aberta para conter os diversos tipos de Diários,
tanto pelo conteúdo que recolhem anotações como pela forma como se realiza o
processo de coleta, redação e análise da informação.
Segundo o teórico Zabalza
11
algumas observações podem ser esclarecedoras
para entender melhor a definição do Diário, este que nessa pesquisa seo espaço
mais ocupado e experimentado (2004).
O conteúdo do Diário pode ser coisa que, na opinião de quem escreve o
Diário, seja destacável, pode ficar plenamente aberto ou vir condicionado a algum
planejamento prévio.
11
Miguel Zabalza. Professor Doutor de Didática na Universidade de Santiago, Chile.
33
É importante esclarecer que nessa pesquisa o Diário é visto como algo que
transcende os registros da prática docente; é também espaço de criação e processo
poético de quem os faz. Uma vez que é parte integrante da pesquisa o discurso e a
prática de um sujeito que tem forte intimidade com a arte e outro que tem bastante
experiência com arte-educação; seria limitador ao leitor transitar num único espaço
de registro, escondendo outras riquezas que estão por trás de tantos registros e de
tantas páginas, mesmo sendo estas violadas, escondidas e proibidas.
Para não ocorrer nenhum tipo de equívoco em relação aos conceitos, é
necessário esclarecer que os registros fazem parte de enfoques ou linhas de
pesquisa baseados em documentos pessoais, esta corrente, de orientação
basicamente qualitativa, foi adquirindo um grande relevo na pesquisa educativa nos
últimos anos.
Nessa pesquisa três teóricos foram fundamentais para esclarecer alguns
aspectos em relação ao registro, ao processo de construção do artista e do
professor, a documentação viva que de alguma forma dialoga com objeto da
pesquisa: Os Diários.
Salles
12
(1998), Zabalza (2004) e Silveira
13
(2001) investigam conceitos sobre
documentos pessoais, no campo da educação e das artes visuais.
Salles (1998) amplia o conceito de Diário no sentido do processo, da
importância do documento para compreensão das marcas pessoais dos sujeitos que
criam.Iremos ler mais sobre isso no decorrer da pesquisa.
Zabalza (2004), no texto Diários de Aula - um instrumento de pesquisa e
desenvolvimento profissional nos dá diversas definições dos documentos pessoais:
É uma interpretação ampla da denominação de ‘’documento pessoal’’
chamaremos assim não só todo tipo de autobiografias, diários, memórias,
como também cartas, transcrições literais de declarações de testemunhos,
confissões, entrevistas, assim como todos os outros documentos que tem
como conteúdo uma cristalização de estados psíquicos de uma pessoa
qualquer (ZABALZA, 2004, p.32-33).
12
Cecília Almeida Salles criou o Centro de Estudos de Crítica Genética que se destaca no panorama mundial dos
estudos da gênese por sua originalidade. Professora Doutora no Programa de s-graduação em Comunicação e
Semiótica da Puc de São Paulo.
13
Paulo Silveira, Professor Doutor na Universidade Federal do Rio Grande do Sul, no programa de Pós-
graduação em Artes Visuais.
34
O uso que as diferentes parcelas do saber social fazem dos documentos
pessoais varia muito: a história reconstrói biografias e épocas por meio desses
documentos, a sociologia trata de inferir estruturas sociais por meio de descrições
detalhadas de múltiplos espaços pessoais, a antropologia supõe a forma de chegar
às vivências ideográficas e as formas de vida própria de grupos ou comunidades,
etc.
A questão conceitual básica que se estabelece nesse tipo de estratégia
metodológica é tratar de responder a dupla exigência: centrar a análise em situações
específicas integrando as dimensões referencial e expressiva dos fatos. E isso foi
resolvido de uma dupla perspectiva: tendo acesso ao objetivo da situação por meio
da versão subjetiva apresentada pelos sujeitos ou centrando o trabalho na
percepção subjetiva dada pelos autores, de maneira que o subjetivo se transforme
em objeto de si mesmo da pesquisa cuja interpretação se situa no âmbito dos dados
objetivos que o próprio documento pessoal proporciona.
Para ampliar o conhecimento do leitor, é importante definir logo no início da
pesquisa alguns conceitos que dialogam com o objeto da pesquisa, e perceber as
relações entre diversos tipos de registro.
Transitando pelo campo da arte, da linguagem e do pensamento chegando a
um suporte onde os três se encontram, é irresistível o ampliar o estudo a outros
tipos de objetos e práticas. Tais objetos e práticas escondem registros significativos
para chegar mais perto das singularidades dos sujeitos pesquisados e outros tantos
que transitam no mundo das artes visuais e da educação com seus ‘’cadernos’’
debaixo do braço.
No texto A gina violada Da ternura a injúria na construção do livro de
artista, Silveira (2001) investiga o conceito do livro de artista contemporâneo, no
sentido lato.
Ele é entendido como um campo de atuação artística e, simultaneamente,
como produto desse campo, um resultado específico das artes visuais.
Inclui-se aqui, o conceito de “livro-objeto”. Este exercício de compreensão tem
como eixo o problema plástico que a página oferece para a expressão de
sentimentos de apreço as conformações consagradas, por um lado, ou de violação
de seus princípios pelo gesto reformador, transformador ou desconstrutor, por outro.
O estudo pretende estabelecer um diálogo que muitas vezes aparece entre
tantos tipos de registros, sejam nos Diários de professores, nos cadernos de artista
35
ou nos livros-objeto, sem perder de foco o objeto de estudo: os Diários, este tratado
nessa pesquisa como espaço de expressão, de processo cognitivo, um documento
pessoal, em que o sujeito que escreve inclui interpretações, opiniões, sentimentos e
pensamentos, sob uma forma espontânea de escrita, com a intenção usual de falar
para si mesmo.
A proposta aqui é entender uma possível origem do choque ou
estranhamento que um grande grupo de objetos diferentes pode causar, quando
esse grupo de fato representa uma amostra adequada de um universo maior.
Silveira (2001) relata no início de seu texto “Página Violada sua admiração
por livros, mas especificamente para o volume, propriamente dito, do que pelo texto
que ele comporta (ou suporta). Gosta de observar as ilustrações, de perceber a
trama das retículas de impressão, de encontrar um desajuste nas cores: descobrir o
magenta e o amarelo por de trás do vermelho. Gosta de contar seus cadernos, ver
como são costurados e quantas páginas em cada um. Gosta das marcas de
tempo: as páginas amareladas, manchas de uso, anotações nas margens, os nomes
em esferográfica de seus donos. Tudo evidenciado que um livro é um objeto. Ele
não é uma obra literária. A obra literária é de escritores, pesquisadores,
publicadores. O livro é de artistas, artesãos, editores. É de conformadores.
Muitos artistas nos anos 90 utilizavam procedimentos alternativos ou da
adequação de seu pensamento ao livro ou ao caderno como suporte. É o caso de
Vera Chaves, Regina Silveira, Cláudio Goulart, Wilson Cavalcanti, e outros.
36
Figura 1
MORAN, Page. Suicídio Urbano. 1994
Prata niquelada, contas de borracha e canhões de ferro – molibdemo, ouro folheado.
5X4X5
Fonte: HORVITZ, Suzanne R; RAMAN, Anne R. ’’ Único em seu Gênero’’ – Livros de Artistas
Plásticos. Imagens tiradas do catálogo da exposição; organizada por Foudation For Today´s
Art/NEXUS, Filadélfia, PA, 1995, p.36.
FOTO: Sílvia Cunha
37
A artista faz uso de materiais inesperados. Eles nos lembram que o impulso
para gerar este tipo de arte, visual, verbal e tátil, cria referência para a
experiência particular que temos com livros. Diferentemente da experiência
formal da arte vista em paredes de galerias, os livros geram um sentimento
de participação (HORVITZ, RAMAN, 1995, p.7).
É utilizado o ‘’livro de artista’’ para designar um grande campo artístico (ou
categoria) no sentido lato, que também poderia ser chamado livro-arte ou outro
nome.
Também é usado ‘’livro de artista’’ no sentido strito, referente ao produto
específico gerado a partir das experiências conceituais dos anos 60.
A expressão ou palavra “livro de artista” não foi encontrada em dicionários
brasileiros, segundo investigação de Silveira (2001), das obras de referências,
apenas uma registra o tema, a Grande Enciclopédia Larousse Cultural, desde a sua
edição de 1988 até a última consultada, de 1998, sem alterações.
É assim definido: “Livro de artista, obra em forma de livro, inteiramente
concebida pelo artista e que não se limita a um tratado de ilustração (sob sua forma
mais livre, o livro de artista torna-se o livro-objeto)”.
Livro-objeto é o “objeto tipográfico e/ou plástico formado por elementos de
natureza e arranjos variados” (SILVEIRA, 2001, p.25).
Silveira (2001) investiga algumas possíveis definições:
(1) livro de artista pode mesmo designar tanto a obra como categoria artística;
(2) o conceito é ainda muito problemático, pondo em xeque pesquisadores com
pesquisadores, artistas com artistas, e pesquisadores com artistas, além de envolver
outras especialidades, como estética, literatura, comunicação e biblioteconomia;
(3) que a concepção e execução pode ser apenas parcialmente executada pelo
artista, com colaboração interdisciplinar;
(4) que não precisa ser um livro, bastando ser a ele referente, mesmo que
remotamente, e;
(5) que os limites envolvem questões do afeto expressada através das propostas
gráficas, plásticas ou de leitura.
O livro de artista é um alvo móvel, ardiloso, que pode ser atingido por
correção da paralaxe de nossa pontaria. A página é matéria plasmável por sua
38
interação positiva com o texto e a imagem, e também porque é rasgada, furada,
colada, feita, desfeita, ou refeita, por mutilação ou reciclagem. A página que, às
vezes não passa de uma remissão, uma menção, uma possibilidade. Ela o deve
ser confundida com uma folha solta no papel. Ela guarda consigo os sinais de ser
parte de um todo. A pagina é a menor unidade possível do suporte livro. Separada
dele, ou a obra se ressentirá em sua totalidade, ou, quem sabe, eles (o volume e a
página) instaurarão outro discurso.
É constatado no caderno de artista as ressonâncias dos dualismos do homem
nas ginas vincadas, nos duplos par e ímpar, frente e verso, capa e contra-capa,
letra e imagem, o abrir e fechar, o mostrar e esconder.
O conceito de livro de artista está fortemente relacionado com a delimitação
no tempo histórico, seu primeiro balizador. As evidências demonstram que podemos
retroceder no tempo quase indefinidamente na busca da origem do livro de artista
(ou, mais especificamente, livro-objeto). Assim como também são os livros de
William Blake, publicados entre 1788 e 1821, ou qualquer dos cadernos de Leonardo
da Vinci, executados no século XV e começo do século XVI, sem possibilidade de
publicação. Porém no final do século 20 que o entendimento da autonomia desse
tipo de obra de arte é legitimado. Principalmente nos anos 60 e 70 pela mutação
causada pela companhia do conceitualismo.
Os anos 80 foram frutíferos ao livro-objeto, subvertidos para colaborar com a
constituição de uma linguagem. O movimento foi mesmo muito intenso. Ficou
estabelecida uma marcante divisão da produção em obras que se comportam como
suporte e obras que se comportam como matéria plasmável, o que definirá como
bifacetato o universo.
Os livros-objeto normalmente são peças únicas, fortemente artesanais ou
escultóricas, tendentes para o excesso, muitas vezes se comportando como
metáforas ao livro, ou ao conhecimento consagrado, ou ao poder da lei.
O livro do artista incorpora símbolos, recordações, objetos que formam uma
espécie de linguagem, sinalizando a memória. que os artistas visuais recordam
as coisas visualmente, a inclusão de figuras, objetos e fontes de recordação
desperta imediatamente não só memórias ligadas àqueles objetos, como atinge
ainda textos, Diários, acontecimentos.
Segue abaixo o livro do artista
Isaiah Zagar
,
no qual o artista constrói uma
narrativa combinada encontrada em palavras e imagens.
39
Figura 2
ZAGAR, Isaiah. Livro de viagem à China. 1987
Colagem, fotografia.
9X12. aberto.
Fonte: HORVITZ, Suzanne R; RAMAN, Anne R.’’ Único em seu Gênero’’ – Livros de Artistas
Plásticos. Imagens tiradas do catálogo da exposição; organizada por Foudation For Today´s
Art/NEXUS, Filadélfia, PA, 1995, p.52.
À medida que as mensagens aparentam simplificar-se, muitas vezes as
estruturas tornam-se mais complexas.
Os artistas utilizaram o livro-objeto para capturar o efêmero, para celebrar um
fato, para protestar, para divertir, para comunicar uma experiência ou pensamento
particular, para transferir um debate para o mundo da arte, para examinar nossas
idéias preconcebidas sobre o processo de ler e olhar, além de muitos outros fins.
Desde uma folha em branco até páginas obscuras em que se acumulam diversos
FOTO: Sílvia Cunha
40
estratos de idéias, o bom livro de artista sempre recompensa a atenção cuidadosa e
leva o leitor a interagir com a obra, quer fisicamente, quer em imaginação. O melhor
livro de artista é aquele que, ao ser fechado, deixa no leitor a impressão de ter
estado numa longa viagem ou ter experimentado a atmosfera de uma outra pessoa.
Os artistas geralmente rendem homenagem a memórias de livros de infância,
tais como álbuns de família, periódicos, Diários e de cadernos de esboços.
Livros como álbuns ou caixas também constituem formas de livros de artistas,
repleto de objetos encontrados e memórias envoltas em material impresso.
O livro torna-se para o leitor um palco para emoções, sonhos, viagens e
narrativas visuais. O ‘’olhar do leitor’’ é muitas vezes despertado pelo artista de
estruturas complexas.
Muitos artistas têm usado a palavra e imagem, nova tecnologia, e uma
sensibilidade poética onírica, a fim de que a acumulação alcançada ao final de uma
vida possa obrigar-se num livro; um livro e muitos livros.
A investigação de Silveira (2001) em relação ao seu objeto de estudo é
compartilhado aqui nessa pesquisa em relação aos Diários, tratados o como obra
de arte, mas como um suporte que guarda a linguagem verbal e não verbal,
transitando no terreno da visualidade. Um suporte que não é para ser exposto nem
comercializado, ao contrário, é guardado e silenciado.
Os vestígios, registros deixados pelos documentos, parece ser uma
significativa unidade de representação de um evento, assumindo um papel de
materializador do tempo histórico pessoal e social no Diário ou no livro de artista.
Pequenas histórias narradas a partir do cotidiano se impõem a tradicional
história universal. São as histórias das tribos, dos grupos, do sujeito, em um enfoque
adaptado a nossa época de visualidade estrema, a ‘’imagem-testemunho’’, uma
nova possibilidade de documentação: ‘’a imagem que testemunha, que relata e que
contribui, Por si só, para construir o acontecimento em toda sua espessura política,
social e cultural’’ ( VOVELLE, 1917 apud SILVEIRA, 2001, p.91).
Os Diários são vistos por vários teóricos como um documento precioso de
investigação e aproximação da práxis de sujeitos inseridos nas diversas áreas do
conhecimento.
Salles (1998) no capítulo 2 explora muito mais o conceito do Diário como
documento importante do processo, sua investigação é tão rica que provoca no leitor
à vontade de fazer seu caderno de registro.
41
Nas artes visuais é necessário localizar ou identificar o livro de artista como
documento na produção contemporânea, que sob certas circunstâncias, o registro
da intimidade do artista e de seu mundo em um livro-obra pode produzir um grau de
estranhamento diverso da emoção propiciada por um Diário de textos e colagens,
esse é o momento em que o registro ou vestígio plástico subverterá a integridade
literária que se presume característica do livro comum, e atestará a singularidade
íntima de uma personalidade artística.
Por outro lado, tanto os Diários de professores, como os cadernos de artistas
persistem a memória, a evidencia da continuidade dos discursos e de componentes
fragmentados de um cotidiano individual.
A arte é o registro concreto de imagens, de pensamentos visuais, é a
representação do olhar sensível do indivíduo.Como linguagem verbal e visual, como
fala que também é interna e também se exterioriza, a arte se utiliza de formas
significantes que sustentam significados, conceitos, idéias, imagens mentais.
Entre o objeto da realidade e a nossa concepção deste objeto um longo
caminho interno, um processo cognitivo, afetivo, e social que se expressa através de
sua representação.
O que guardamos dentro de nós não é o real, mas a sua representação
simbólica. É ela que volta ao mundo, que representa o real, pela linguagem que se
estabelece com palavras, gestos, cores e formas.
A representação simbólica está presente em todas as culturas, em todas as
épocas. O desenho é o mais primitivo de seus recursos.A técnica do ‘’saber
desenhar’’ renascentista, muitas vezes aborta a expressão, o pensamento, a
subjetividade.
Esse mundo de transação simbólica pertence aos Diários e a todo tipo de
documentos que transitam na área da linguagem visual, do inconsciente de quem
cria e pode-se considerar uma obra aberta e quem vai ler é que vai dar a direção de
leitura.
Zabalza (2004) afirma que o Diário é um recurso certamente difícil, pelo que
implica de continuidade no esforço narrativo, pelo que supõe a constância e
possibilite o escrever após uma jornada de trabalho nas aulas, pelo esforço
lingüístico de reconstruir verbalmente episódios carregados de vida. Porém o autor
descobre no processo de suas pesquisas que, uma vez que os professores se
‘’metem’’ na dinâmica do Diário encontram, de modo geral, muito sentido e uma
42
grande utilidade para eles mesmos e, a partir desse momento, o Diário costuma
ultrapassar em muito os propósitos iniciais do pesquisador.
É necessário nesse percurso de apropriação do sentido do registro um
desprendimento do formato burocrata da Instituição Educacional; para os
educadores é preciso ser sensível e observar o registro como algo não burocrático,
não imposto, mas como uma forma de rever algumas estratégias de ensino-
aprendizagem de maneira mais poética, mas livre, esperando mais a surpresa e o
acaso.
Nesse sentido que o caderno de artista e o livro-objeto permitem a tragédia, o
porvir, o registro das palavras e imagens como guia e não camisas de força nos
espaços que transitam, mesmo considerando objetos muito diferentes. O Diário traz
consigo o fato da reflexão como condição inerente e necessária.
Como disse Bereiter (1980) “a escrita desenvolve uma função epistêmica em
que as representações do conhecimento humano se modificam e se reconstroem no
processo de serem recuperadas por escrito (BEREITER, apud ZABALZA, 2004,
p.44)”.
As unidades de experiência relatadas são analisadas ao serem escritas e
descritas de outra perspectiva são vistas sob uma luz diferente. É a idéia do
‘’distanciamento’’ brechtiano
14
: o personagem que descreve a experiência vivida se
dissocia do personagem cuja experiência se narra (o eu que escreve do eu que
atuou pouco; isto é, é capaz de se ver a si mesmo em perspectiva, em uma
espécie de negociação em três faixas; eu narrador, eu narrado e realidade.).
Segundo Zabalza (2004), essa é provavelmente a melhor possibilidade do
Diário. É o diálogo que o sujeito, por meio da leitura e da reflexão, trava consigo
mesmo em relação a sua atuação na prática pedagógica e artística.
A reflexão é, portanto, um dos componentes fundamentais dos Diários de
professores, a reflexão sobre o objeto narrado, o processo de planejamento,
características dos alunos, etc. E a reflexão sobre si mesmo, o indivíduo como autor
e, portanto, como protagonista dos fatos descritos, e como pessoa e, portanto, capaz
de sentir e sentir-se, de ter emoções, desejos, intenções, etc.
14
Bertold Brecht (1898-1956) Escritor e diretor de teatro alemão foi um dos nomes mais influentes do teatro do
século XX, não pela criação de uma obra excepcional, mas também pelas inovações teóricas e práticas que
introduziu. O "efeito de distanciamento", sugerido por Brecht, visava estimular o senso crítico, tornando claros
os artifícios da representação cênica e destacando conseqüentemente os valores ideológicos do texto.
43
O envolvimento pessoal na realização do Diário é, portanto, multidimensional
e afeta tanto a própria semântica do Diário (nele aparece o que os sujeitos sentem,
sabem, assim como as razões pelas quais o fazem e a forma como o fazem: isso é
na verdade o que torna o Diário um documento pessoal) como o sentido (o Diário é,
antes de mais nada, algo que a pessoa escreve desde si mesma e para si mesma: o
que conta tem sentido pleno para aquele que é, ao mesmo tempo, autor e principal
destinatário da narração).
É importante lembrar que os Diários são considerados espaços sígnicos, um
objeto paradoxo que convida o homem para uma pausa diante de si mesmo ao
convidá-lo a penetrar na sua trama íntima.
No Diário de Anne Frank
15
(s.d), num determinado momento ela escreve que
“o papel é mais paciente que o homem’’, assim como Zlata Filipovic
16
numa recente
entrevista ao Estadão (14/08/08) responde ao jornalista quando o mesmo lhe faz a
seguinte pergunta: qual era a necessidade de contar sua história, ainda que apenas
para você mesma?
Sempre me interessei em colecionar ingressos de cinema, cartões postais,
cartões de aniversário. Assim, ao guardar esses pequenos momentos da
minha trajetória, eu era uma autora de Diário por natureza. Essa é a
razão por que continuei escrevendo durante a guerra, obviamente sem a
intenção de ser publicada. Para mim, a escrita tinha também um enorme
efeito terapêutico ali, naquelas páginas, eu podia exteriorizar todos os
meus pensamentos, o que me ajudava a entender claramente o que se
passava ao meu redor (ZLATA, 2008).
15
No dia 6 de julho de 1942, Anne Frank ( 1929-1945) de treze anos viu sua vida se transformar de
maneira radical, sem entender por quê. Foi embora de Amsterdã com sua família para viver nos
fundos de um velho edifício de escritórios, passando ali dois anos sem abrir as janelas. Eram judeus e
viviam sob o domínio de um regime cujo ódio insano exterminou seis milhões de criaturas em
câmeras de gás, trabalhos forçados e maus tratos nos terríveis campos de concentração.
Com exceção do pai de Anne, todos os componentes do grupo morreram. Ela encontrou o fim no
terrível campo de Bergen-Belsen.
16
Zlata tem onze anos e vive em Saravejo. Em setembro de 1991, começou a escrever um diário.
Escreveu seu diário ao longo de dois anos, onde foi registrando seu cotidiano no meio da guerra na
ex-Iuguslávia. Ela e seus pais receberam permissão para deixar Saravejo pouco antes do Natal de
1993. A família está vivendo temporariamente em Paris.
44
A artista plástica Lygia Eluf relata sobre o sentido de seus cadernos de anotações:
Quando iniciei a série Os campos da cor, reuni os apontamentos, surgidos
durante o processo de trabalho, como um registro de reflexões que
pudesse, de algum modo, esclarecer aquelas realizações. Essa decisão
pela reunião de algumas anotações é uma tentativa de compreender a
essência de meu trabalho e tentar verbalizar seus fundamentos, que
entendo como a expressividade da cor pela cor (ELUF, 2004, p.15).
A artista Lenir de Miranda (1997) relata no texto de Silveira (2001) quando o
autor lhe pergunta: Que diferença você apontaria entre as possibilidades do livro de
artista e outros meios tradicionais?
O livro de artista é um objeto ainda estranho, que o se coloca na parede
como uma pintura ou desenho. Fica distante, por vezes, como que a
espreita, do observador desacostumado com uma obra mais reflexiva,
embora se ofereça cheio de possibilidades no espaço tridimensional. Em
suas formas interdisciplinares, técnicas variadas, sintaxes inesperadas,
mensagens engajadas social, politicamente ou apenas poesia em si mesma,
reflexivo, ele deverá se impor cada vez mais (SILVEIRA, 2001, p.263).
Nesse sentido, ambos, tratam a questão da reflexão, do sujeito que pensa,
envolto na névoa, com algum passado possuindo um elo com o leitor.
É complexo tentar descobrir o que contém cada imagem que aparece nos
Diários e nos livros de artista, pois elas foram depositadas imagens sobre imagens,
signos após signos, algo que foi se perdendo, mas é sempre procurado, oculto que
está em tantas memórias, imaginários, um desencadeamento sígnico infinito, uma
semiose. Eis como surge a linguagem visual, expressa nos livros de artista, nos
Diários e nos livros-objeto.
O conteúdo foge a objetivas informações, os símbolos atingem o imaginário
do espectador, do leitor. Ele abre um fluxo subconsciente, uma viagem não
proporcionada por meios eletrônicos.
Cada Diário tem seus mistérios, seus dilemas, suas aflições e inquietações.
Memórias depositadas sob densas questões, ginas após ginas, mescladas em
vivências sobrepostas.
45
Em cada Diário ou livro de artista, os signos nos fazem passageiros, nas
sobreposições de elementos aparentemente desconexos, desenhos, colagens,
objetos banais. E assim vai esse relato inconsciente em forma de livro, caderno.
Realmente um desafio ao imaginário acomodado ao universo do homem-máquina,
do microchip.
O Diário e o livro de artista, considerando suas diferentes linguagens e
anseios, é este espantoso encontro entre duas sensibilidades que se cruzam,
descobrindo-se mutuamente: a do sujeito que cria e do destinatário, caminhante
apressado.
Conforme Zabalza (2004), o Diário tem de ser situado teoricamente no marco
do interacionismo simbólico e da pragmática comunicacional. sempre no Diário
um jogo relacional em ação, uma negociação de expectativas: entre o autor e sua
obra, depois entre o autor e o destino real ou percebido de seu produto. E, segundo
o autor, essa lógica nem sempre acontece em termos lógicos e explícitos; nele
interagem evidências e perspectivas subjetivas, certezas objetivas e sensações
pessoais à margem de e inclusive contra tais certezas.
O estudo dos diferentes conceitos sobre Diário livro de artista e livro-objeto é
pertinente nesse trabalho para não confundir o leitor, é importante definir que cada
um tem sua origem, linguagem e finalidade, mesmo que haja, entre os três
semelhanças instigantes para outros estudos, em outras áreas do conhecimento.
Zabalza (2004) durante suas pesquisas de caráter formativo provoca no
professor a importância do Diário e do registro e ainda problematiza: “Quando pode
ser interessante escrever o Diário? (p.139-144)”.
Quando os sujeitos necessitam de certo distanciamento das coisas que estão
fazendo ou da situação que estão vivendo. “Escrever seja na forma textual ou visual
(colagem, desenhos, etc) obriga a reconstruir o evento ou a sensação narrada. Para
quem conta é como dar um passo atrás para poder observar em perspectiva o que
está narrando (ZABALZA, 2004, p.140)”.
O distanciamento permite ao sujeito um controle sobre a situação, como se
em vez de lhe pedir que nos conte, pedimos que “escreva’’, é um processo de
reconstrução ainda mais laborioso, o que permite obter uma maior distância da coisa
narrada e, com isso, um maior controle sobre ela.
46
Outra questão importante que o autor Zabalza (2004, p.141) aborda é ‘’a
possibilidade que o Diário permite de ‘’expressão pessoal’’, uma forma de tirar para
fora da gente o que se leva dentro’’.
Os Diários nesse caso oferecem essa porta aberta à expressividade,
relembrando aqui outros sujeitos que através de seus Diários puderam contar suas
histórias e democratizar conflitos e angústias inerentes a todo ser humano. É o caso
de Frida Khalo (1907-1954), Anne Frank (1929 -1945), Zlata Filipovic (1980), Paul
Klee (1879-1940), Jung (1875-1961), Darwin (1809-1882), Marcel Duchamp (1887-
1968), Paul Gauguin (1848-1903), Van Gogh (1853-1890), entre outros tantos que
marcaram história através de seus registros.
Quando escrevemos, não buscamos somente respostas únicas, mas sim
essencialmente perguntamos. Permanentemente inquietação de ser vivo, que nos
remete a nós mesmos e a essência de nossa existência.
Escrever deixa marca, registra pensamento, sonho, desejo de morte e vida.
Escrever dá muito trabalho porque organiza e articula o pensamento na busca
de conhecer o outro, a si, o mundo. Envolve, exige exercício disciplinado de
persistência, resistência, insistência, na busca do texto verdadeiro.
Ambos, Zabalza (2004) e Salles (1998) afirmam que toda técnica de
documentação tem como objetivo a idéia de desvendamento das próprias práticas,
do processo criativo, seja do professor ou do artista. O que antes eram idéias,
experiências, impressões, se transformam, por meio da documentação, em
realidades visíveis, acessíveis e que suportam a análise.
O registro do processo do cotidiano do professor e o registro do processo
artístico do artista vão dando sentido as coisas que ali são contadas. Quando
acabamos de registrar nossas impressões sobre o que aconteceu no dia, temos,
com certeza, um olhar mais claro e completo do dia. E, como o registro dos fatos se
torna algo visível e permanente, podemos regressar a ele para revisá-lo e analisá-lo.
Pensar sobre a prática sem o registro é um patamar da reflexão. Outro, bem
distinto, é ter o meu pensamento registrado por escrito. O primeiro fica na oralidade
não possibilitando a ação de revisão, ficando no campo das lembranças. O segundo
força o distanciamento, revelando o produto do próprio pensamento, possibilitando
rever, corrigir, aprofundar idéias, ampliar o próprio pensar. O registro permite que se
recupere o mundo das lembranças.
47
A reflexão registrada tece a memória, a história do sujeito e de seu grupo,
sem a sistematização deste registro refletido não apropriação do pensamento do
sujeito-autor e, dificilmente poderemos gestar esse sujeito alfabetizador, seja no
campo das imagens ou das palavras.
Sujeito alienado do próprio pensamento torna-se um mero copiador da teoria
de outros.
Zabalza (2004) defende o uso do Diário num outro tipo de situação bastante
oportuna, que é quando os professores sentem-se acumulados de tensão
pessoal.Nesse sentido, o Diário oferece um mecanismo de catarse protegida.
Afirma o autor:
[...] ao escrever, reelaboramos racionalmente os conteúdos emocionais, isso
nos permite ir controlando de maneira autônoma nosso próprio estado
emocional. E, por outro lado, trata-se de uma atividade realizada em um
contexto muito pessoal e autocontrolado. Ninguém tem por que ler o que
escrevemos, nem o fato de contar o que nos acontece nos submete a um
possível julgamento, ou crítica por parte dos demais, nem teremos por isso
nossa imagem abalada. No fundo, contamos as nós mesmos,
estabelecendo uma espécie de conversação terapêutica com nós mesmos.
(ZABALZA, 2004, p.142).
Enfim, como se pode ver é interessante escrever o Diário quando
consideramos conveniente registrar dados ou impressões sobre nosso trabalho,
nossas inquietudes, sobre os momentos que estamos vivendo com vistas a poder
voltar e analisar, sozinhos ou com alguém que compartilhe, nos ajudando a construir
uma imagem mais completa da situação a partir da narração, das imagens, das
colagens.
No contexto da formação reflexiva, é importante pensar nos Diários
transitando por outras mãos, por outros espaços; sem dúvida seria igualmente
interessante a iniciativa em que os Diários fossem desenvolvidos também pelos
alunos. O autor relata que:
Nesses casos, o Diário se torna um instrumento para poder racionalizar a
experiência e tirar dela o máximo partido: por meio da narração, pode-se
iluminar todo o processo seguido pelo estudante em formação, tanto no que
se refere a suas atuações como no que se refere as suas vivências
pessoais (suas expectativas, seus medos, suas satisfações, o tipo de
atitude com que enfrenta a atividade, etc.) (ZABALZA, 2004, p.143).
48
Num primeiro momento a reflexão passa por um movimento de
desintoxicação da visão autoritária que cada um viveu em relação à linguagem
escrita.
Escrever, registrar, refletir não é fácil. muito medo, provoca dores e a
pesadelos. A escrita compromete. Obriga o distanciamento do produtor com seu
produto. Rompe a anestesia do cotidiano alienante.
Com o registro, conquista-se, um redimensionamento da linguagem oral e
escrita, resgatando-se o próprio processo de alfabetização.
Re-descobre-se o significado do ato de escrever, não como habilidade mecânica,
‘’escrita de letras’’, como diria Vygotsky, mas como comunicação de pensamento.
A escrita materializa, concretude ao pensamento, dando condições assim
de voltar ao passado, enquanto se está construindo a marca do presente. É nesse
sentido que o registro amplia a memória e historifica o processo, em seus momentos
e movimentos, nas conquistas do produto de um grupo.
O registro obriga o exercício de ações operações mentais, intelectuais de
classificação, ordenação, análise, obriga a objetivar e sintetizar: trabalhar a
construção da estrutura do texto, a construção do pensamento.
Somente nesse exercício disciplinado, cotidiano, solitário (mas povoado de
outros interlocutores) do escrever pode-se evitar lutar contra, a vagabundagem do
pensamento.
Nesse contexto, acredita-se na potencialidade dos Diários na formação do
professor, como exercício para a experiência estética, da inauguração de um estado
de criação, este como possibilidade interna, de um estar na profissão de professor
de outra forma. Uma formação mais ampla, que possibilite o professor a
compreender melhor a produção artística dos educandos, tendo mais repertório para
fazer mediações e intervenções, repensando as práticas estereotipadas.
Considerar o Diário como uma espécie de pensamento em voz alta escrita
num papel, deve-se a quem com ele procura obter uma informação escrita sobre
aquilo que os professores e artistas pensam durante o processo de planificação ou
durante outro tipo de atividade por eles desempenhados.
Na medida em que o professor constrói seu Diário, o se conta de tantas
coisas que colaboraram para sua formação, tanto profissional, quanto pessoal; cada
exposição visitada, filmes assistidos, textos lidos, refletidos, marcas de caneta,
49
papéis colados, alguns sublinhados, enfim todas essas atividades representam um
acúmulo de experiências estéticas que alimentam a formação do sujeito e, no
decorrer desse processo de construção, muitas vezes, isso o é perceptível, mas,
no momento em que o professor para e observa as páginas escritas contendo
textos, imagens, pensamentos; é possível perceber a quantidade de experiências
adquiridas.
Talvez a preciosidade do registro seja esse encontro do que está sendo e do
que foi, a saudade embrulhada no presente, a apropriação de todos esses
sentidos vividos durante a construção dos Diários é muito significativo, assim deverá
considerar-se como um registro de experiências pessoais e observações passadas,
em que o sujeito que escreve inclui interpretações, opiniões, sentimentos, sob uma
forma espontânea de escrita, com a intenção usual de falar para si mesmo.
O Diário permite essa apreensão do todo, da construção poética e sensível,
que é refletida, pensada e argumentada, que leva professores a estabelecer
diálogos com todo esse universo estético que o alimentou, com ressonâncias nas
salas aulas, tecendo diferentes áreas do conhecimento e linguagens, sem receio de
se expor, de ser linear, de mostrar aos alunos algum tipo de autoridade, pelo
contrário, consciente de sua construção poética e estética, o professor desconstrói,
transforma, acolhe, no sentido do silêncio e da escuta. Nesse sentido, Paulo Freire
afirma que:
A importância do silêncio no espaço da comunicação é fundamental, de um
lado, me proporciona que, ao escutar, como sujeito e não como objeto, a
fala comunicante de alguém procure entrar no movimento interno do seu
pensamento, virando linguagem; de outro, torna possível a quem fala,
realmente comprometido com comunicar e o com fazer puros
comunicados, escutar a indagação, a dúvida, a criação de quem escutou.
Fora disso, fornece a comunicação (FREIRE, 1996, p.117).
O silêncio é fundamental no espaço da criação, no processo poético de quem
constrói, permitindo um entendimento maior do seu tempo e espaço e sua forma de
representar o mundo e as pessoas com quem convive. São princípios éticos e
estéticos que direcionam o fazer do sujeito, e as tendências poéticas vão se
definindo durante o percurso.
50
O manuseio de um Diário ou caderno de artista pode ser a forma de o artista
vivenciar o clima da obra em criação. Esses documentos agem como ‘reservas
poéticas’. Segundo Maiakovsky
17
, (1991, p. 24) “todas essas reservas ficam
depositadas na cabeça, e as mais difíceis anotadas num bloco (...). O “bloco de
notas” é uma das condições essenciais para fazer qualquer coisa de válido” e podem
oferecer a possibilidade de resgate desses efeitos a qualquer momento. Trata-se de
registros feitos daquilo que o artista pretende dizer na linguagem mais acessível que
disponibiliza no momento; por isso temos diagramas visuais de escritores ou
registros verbais de pintores.
Por todas essas razões justifica-se a pertinência do estudo sobre Diários,
como forma de registro dos professores, para repensarem suas práticas e discursos
pedagógicos, refletirem sobre suas representações dentro do contexto que estão
inseridos, refletindo com postura crítica sua profissão e compromisso com a
formação de sujeitos também críticos e reflexivos, com postura ativa e
transformadora na sociedade.
17
Vladimir Maiakovski (1893-1930), o maior poeta russo da era soviética, se expôs, como uma força
da natureza, a todo tipo de contradição: buscou destruir o passado literário, mas ao final defendeu a
tradição dos grandes poetas de seu país, como Alexander Pushkin e Andrei Biéli.
51
3 DIÁRIO: ESPAÇO CRIADOR
É comum no universo das artes, você ter um caderninho que te
acompanha onde quer que você vá. É comum também você sentir
saudades dele quando passados alguns anos você se recorda
daquela...Flor que colocou no meio daquele desenho que fez na noite
ou do insight que você anotou no meio da aula (...). E ao colocar
aquele diário novamente entre suas mãos sobre as pernas, depois
que o tempo passou, tudo vem à memória, acontece uma festa para
os sentidos! E as idéias-palavras-desenhos sobrevivem o Lugar, o
Cheiro, as Pessoas (...). Tudo se atualiza. Você tem nas mãos a
imagem de um tempo vivido. (ROMERO
18
, Caderno Oito Nova Dança,
2006).
No capítulo anterior foi investigado o conceito de livro-objeto, caderno de
artista e Diário; uma vez que a pesquisa transita nos rastros do artista e do
professor, percebendo as diferenças e semelhanças dos três objetos e suas
diferentes linguagens.
Neste capítulo é apresentado o estudo do Diário como um documento do
processo de criação do sujeito que cria, registra, guarda, reflete.
Cecília Almeida Salles escreveu, em 1998, “Gesto Inacabado: Processo de
criação artística”, que trata sobre o processo de criação do artista. É uma teórica do
campo da Crítica Genética, pois tem interesse em estudos sobre a criação do
homem.
O referencial “Gesto Inacabado: processo de criação artística” é
extremamente importante pelo fato de explorar de forma bastante pertinente à
questão do processo, que na perspectiva desse trabalho, é mais significativo que a
obra, que o resultado acabado, aqui o que está em questão o tempo todo é
justamente o “inacabado”.
18
José Romero faz parte da Cia. Oito Nova Dança, a Cia. é dirigida por Lu Favoretto. Fazem parte de
uma geração de artistas que optou pela pesquisa enquanto procedimento de criação e elaboração de
seus produtos cênicos. Uma geração que busca bases em uma práxis artística nomeada
‘’contemporânea’’. É uma Cia. da cidade de São Paulo.
52
Segundo Salles (1998 p. 17) “o crítico genético trabalha com a dialética entre
os limites materiais dos documentos e a ausência de limites do processo, conexões
entre aquilo que é registrado e tudo o que acontece, porém não é documentado”.
A autora reflete a respeito da questão dos documentos do processo,
afirmando que são registros materiais do processo criador do artista.
O Diário é aqui tratado como um suporte de criação, de idéias e pensamentos
que serão nele objetivados, além de ser tratado também como um documento, no
qual os registros expressados serão analisados e refletidos de acordo com o sujeito
que o construiu; as duas formas de tratamento dadas ao objeto de estudo
acontecem concomitantemente.
Os Diários o documentos que refletem o “retrato”, de uma forma detalhada,
de quem os escreve, a ponto de sendo usualmente escritos sob influência imediata
de uma experiência, poderem ser particularmente eficazes para captar os
pensamentos mais íntimos.
Para relevância deste trabalho, vale apresentar o significado literal da palavra
Diário, conforme consta no dicionário (Soares, 2000), sendo: Di.á.rio: adj 1. Que se
faz ou sucede todos os dias; cotidiano; 2. caderno em que se anotam os fatos que
sucedem diariamente.
Como é possível verificar no seu significado apresentado anteriormente, a
palavra “Diário” convida a palavra Memória, que encontra com a palavra História e
esta se constrói com a ajuda da palavra Processo.
Outra palavra que pode ser considerada importante e, certamente uma
palavra-chave da pesquisa, é a palavra processo, que significa: 1.O conjunto de atos
que se realiza determinada operação; 2. os diversos períodos da evolução de um
fenômeno; 3. técnica, método (Soares, 2000).
Todas essas palavras são importantes para a realização desta pesquisa e
saberemos mais sobre elas mais a seguir.
Segundo Salles “o processo é o meio pelo qual o artista aproxima-se de seu
projeto poético, que é um conjunto de comandos éticos e estéticos, ligados um
tempo e espaço, e com fortes marcas pessoais (1998, p. 17)”, Nesse caso, destaca-
se o processo e o registro como algo precioso para a formação dos professores no
53
decorrer da construção dos Diários, pois é possível perceber sua evolução durante
todo o processo, além de possibilitar novos olhares da pesquisadora sobre o seu
objeto de estudo.
O Diário é o espaço que permite que o sujeito guarde, muitas vezes, as
seleções feitas pela percepção, ou seja, o modo como ele apreende e se apropria da
realidade que o envolve. Ademais, trata-se de um documento que flagra e arquiva
registros da percepção: são as reservas passionais do artista; e, no caso dessa
pesquisa, que o foco é formação de professor, objetiva-se demonstrar que o Diário
seja um espaço de registro da percepção do professor, bem como o modo pelo qual
este percebe o mundo.
A autora cita Flaubert quando escreveu a um amigo que acabara de perder a
mãe:
Amanhã vais ao enterro de tua mãe. Não sabes quanto te invejo. Vais ver
ali, realmente, as atitudes das pessoas e alem do mais, vai poder examinar-
te. Vais poder saber o que estás sentindo frente a esse fato tão dramático e
frente às atitudes das outras pessoas. Que maravilhosos materiais para
escrever (FLAUBERT apud SALLES, 1998, p. 98).
Durante a realização do exercício pedagógico, observam-se inquietudes nos
aspectos filosóficos, pedagógicos e sociais; sendo assim, é possível haver um
espaço em que expressamos tudo que selecionamos, juntamos, recolhemos,
acumulamos, ou seja, que registramos tudo que nos apropriamos também do
mundo. Nessa perspectiva, o Diário leva o sujeito ao conhecimento de si mesmo, o
percurso criador é para o professor um processo de auto-conhecimento.
Salles destaca a importância do registro ao referir-se a Baravelli, quando este
escreve em seus cadernos de anotações:
Estes cadernos de notas, que faço habitualmente mais de vinte anos,
não são obras de arte, mas registros dessa individualidade [do artista], uma
espécie de circunscrição de imagens que por alguma razão me tocaram.
Algumas irão gerar diretamente obras de arte, outras servem para gerar o
artista. São escolhidas às vezes porque o feias, às vezes porque são
bonitas, sentimentais ou irônicas, porque são óbvias ou porque são
enigmáticas. Nesta tarefa permanentemente de unir o que antes não era
unido tenho a pretensão de sentado a minha mesa com um lápis e uma
54
tesoura na mão, embarcar desarmado na descoberta do mundo (SALLES,
1998, p.124).
A criação é, assim, observada no estado de contínua metamorfose, em que
se agregam idéias e pensamentos que vão mudando, alterando, alguns se
solidificam, outros vão embora, construindo assim uma realidade em constante
mobilidade. O processo de criação vive em permanente revisão, um trabalho
sensível e intelectual, em que a progressão e regressão, a estabilidade e a
instabilidade são fatores inegáveis.
Interessa compreender na pesquisa como se à construção das
representações dos professores durante seu processo de criação nos Diários,
considerando que “o trabalho criador mostra-se como um complexo percurso de
transformações múltiplas por meio do qual algo possa a existir (SALLES, 1998, p.
21)”.
Nesse caso, a arte está sendo abordada como uma linguagem, dentro do
contexto histórico, social e artístico e o fazer pode ser abordado como um
movimento de sensações, ações e pensamentos, sofrendo intervenções do
consciente e do inconsciente.
O professor durante sua relação com o objeto de estudo dessa pesquisa
expressa pensamentos, idéias e comportamentos dos quais muitas vezes não se
conta, e também se percebe expressando algo que é do outro.
O Diário como documento possibilita ao pesquisador analisar as coincidências
entre realidade e ficção, o que está mais consciente do que o sujeito possa pensar e
vice-versa. Segundo Salles “o escritor diz sempre mais ou menos o que realmente
pensa. O que escreve é mais rico e menos rico, maior ou menor, mais claro e mais
obscuro do que a realidade (1998, p. 101)”. Desta forma, o Diário como documento
de análise de representações sociais nos coloca bem próximos desse mundo
misterioso, peculiar e reservado que envolve cada sujeito.
Nesses registros podemos observar certas recorrências, temas que instigam,
que atraem o sujeito que escreve. Essas recorrências são marcas de um modo
pessoal e único de olhar o mundo.
55
Conforme Calvino (1990):
Quanto mais a obra tende para a multiplicidade, menos ela se distancia
daquele unicum que é o self de quem escreve, a sinceridade interior, a
descoberta de sua própria verdade. Ao contrário, “quem somos nós senão
uma combinatória de experiências, informações, de leitura, de imaginação?
Cada vida é uma enciclopédia, uma biblioteca, um inventário de objetos,
uma amostragem de estilos, onde tudo pode ser continuamente remexido e
reordenado de todas as maneiras possíveis (CALVINO APUD SALLES,
1998, p. 138).
O Diário leva o sujeito a lidar com suas imagens e textos em estado de
permanente inacabamento; levando-o a pensar sobre a questão da linearidade na
escola; durante o processo de criação, percebe-se que o tempo é contínuo eo linear;
d o entendimento da estica do inacabado e a possibilidade de se olhar para os
femenos como parte do processo.
Nesse aspecto é importante o professor perceber como a Instituição caminha
com alguns dogmas irredutíveis, contraditórios com o movimento esperado do
espaço escolar, onde deveria ser um espaço de vivências e experiências a serem
refletidas e discutidas no seu processo, sem verdades absolutas, mas em contínua
mutação.
A verdade que o sujeito busca ao construir o Diário tem um comprometimento
diferente da verdade científica: a verdade do professor em construção não está aqui,
mas adiante, a concretização dos projetos poéticos está sempre a se realizar.
Dias Gomes (1982) explica que, na verdade, o que vem primeiro não é a
idéia, nem a história ou os personagens, mas a angústia. “Vem àquela angústia,
aquela necessidade compulsiva que me leva a um estado de infelicidade, a um
descontentamento comigo mesmo insuportável (GOMES apud SALLES, 1998, p.
33)”.
Espera-se que durante o processo da relação do Diário e do professor, o
processo criativo e sensível provoque no sujeito a desconstrução do visto e
sabido para algo novo, com novas hipóteses, soluções, encontros e desencontros,
56
além de buscar novos conhecimentos, percebendo a relação entre pesquisa e
processo transformador. Dessa forma, o professor pode vir a construir seu projeto
pessoal, singular e único, certo de seus percursos éticos e estéticos.
Na medida em que observamos a relação dos artistas com seus documentos
de processo, compreendemos sua obra de arte e também compreendemos sujeitos
que, a partir de seus registros visuais e textuais, nos dão pistas de sua origem, de
seus gostos, modos de pensar, preferências cinematográficas, comportamentos,
costumes, etc. e com isso podemos perceber quais representações estão nas
entrelinhas desse contexto social e histórico que o Diário nos autoriza.
De acordo com a autora os documentos de processo muitas vezes preservam
marcas de relação do ambiente que envolve os processos criativos e a obra em
construção. A produção de imagens, textos e colagens consiste em uma rede de
situações cotidianas que se inter-relacionam, não engessamentos, mas sim
problemas, encontros, conflitos; e o movimento vai da seleção para a
experimentação. As representações vão se formando por meio de gestos, palavras e
imagens que constroem sujeitos com momentos de angústia e prazer, conflito e paz.
Nesse sentido, a autora comenta que:
O artista é visto em seu ambiente de trabalho, em seu esforço de fazer
visível àquilo que está por existir: um trabalho sensível e intelectual
executado por um artesão. Um processo de representação que a
conhecer uma nova realidade, com características que o artista vai lhe
oferecendo. A arte está sendo abordada sob o ponto de vista do fazer,
dentro de um contexto histórico, social e artístico. Um movimento feito de
sensações, ões e pensamentos, sofrendo intervenções do consciente e
do inconsciente. Interessa-nos, portanto, compreender como se dá a
construção dessas representões. O trabalho criador mostra-se como um
complexo percurso de transformações ltiplas por meio do qual algo possa a
existir (SALLES, 1998, p. 27).
É importante ressaltar que, “gestos construtores são, paradoxalmente, aliados
a gestos destruidores: constrói-se à custa de destruições (SALLES, 1998 p. 27)”.
Espera-se dos professores pesquisados um aprofundamento com o percurso
criador, tecendo relação com seu projeto poético, percebendo-se dentro e fora de
sala de aula, permitindo-se experimentações, relacionada ao conceito de trabalho
57
contínuo de registro no Diário, trabalho mental e físico, agindo permanentemente um
sobre o outro.
O Diário permite ao professor perceber a Instituição Escolar de outra forma, a
partir do momento que o sujeito também se permite à perda da identidade, à perda
da segurança, experimentando o desconhecido, abrindo mão dos experimentos
escolares para descobrir um novo espaço que, de fato, ressoem sentidos e
experiências estéticas.
O ato criador exige uma apreensão do conhecimento, que estabelece assim
um elo entre o pensar e fazer, “a criação é conhecimento obtido por meio da ação
(SALLES, 1998, p. 122)”.
O artista tem a necessidade de registrar, reter ou pôr na memória elementos
apreendidos do mundo, nos registros o encontrados: idéias e reflexões de toda
ordem, fotos, artigos de jornal, imagens; registros visuais, verbais e sonoros de
apropriação do mundo.
Nessa perspectiva da simbiose do artista com seus documentos, cadernos,
blocos, livros-objeto; espera-se do professor essa mesma relação, ou seja, que este
encontre uma maneira singular dentro e fora do espaço escolar que aproxime o
mundo a sua volta; que registre no Diário, seleções feitas pela percepção, ou seja, o
modo como apreende e se apropria da realidade que o envolve, fazendo relações
com sua prática pedagógica e com discursos que permeiam os espaços escolares.
No Diário encontra-se um espaço de silêncio, que alimenta o ato criador, que
busca a limpeza de toda essa verborréia rotineira que torna impossível qualquer
experiência. Nas Instituições encontramos apenas o silêncio de um calar intimidado
que se produz quando o poder é o único que fala, que deve ser visto como algo
muito pouco digno de confiança, algo que se desgasta, se converte em clichê e que
deve ser desmascarado.
Sujeitos mergulhados no ato criador, na experiência estética estão mais
sensíveis a indignar-se, a transformar seus espaços em diálogos menos autoritários,
menos dogmáticos e mais inacabados, no sentido do processo sempre em
construção, com pontos de partida, mas sem pontos de chegada.
58
O sujeito imerso no processo criativo compreende que a obra é sempre
inacabada, quem acaba é o outro, que participa da obra. Muitas vezes o artista não
dá conta de acabar aquilo que não é acabado.
Salles ao referir-se a Alberto Moravia (1991), destaca a relação do escritor
com as inquietações no momento da criação e do registro; “confessa que sempre
fica com a impressão de que, aperfeiçoando os livros, poderia torná-los melhores.
Mas é também verdade que nunca se sabe quando o aperfeiçoamento deve parar
(SALLES, 1998, p. 80)”.
O artista encontra problemas, conflitos, provas, preocupações e mesmo
desesperos. Valéry (1984) “fala das dificuldades que são, na verdade, de toda
ordem: desconforto de decidir, resistência dos limites ou busca da “palavra certa”
(VALERY apud SALLES, 1998, p. 82)”
Márquez (1982) diz:
Lembro-me do dia em que terminei com muita dificuldade a primeira frase
de Cem Anos de Solidão e me perguntei aterrorizado que merda viria
depois. Na realidade, até o achado do galeão no meio da selva, o
acreditei de verdade que aquele livro pudesse chegar à parte alguma. Mas
a partir dali tudo foi uma espécie de frenesi, aliás, muito
divertido.(MÁRQUEZ, apud SALLES, 1998, p. 82).
O Diário pode vir a ser um instrumento de alerta para o professor, que imerso
no espaço escolar não se conta de sua prática técnica, em que o resultado deve
se produzir segundo o que foi previsto antes de iniciar.
No Diário de Paul Klee, notamos a unidade existente entre o pedagógico e o
artístico no período em que atuou na Bauhaus: “aqui no ateliê estou pintando cerca
de meia dúzia de quadros, além de desenhar e de refletir sobre o meu curso, tudo
ao mesmo tempo. Pois tudo isso tem que caminhar paralelamente, do contrário não
tem sentido (WICK, 1989 apud SALLES, 1998 p. 325)”.
Durante o percurso criativo enfrenta-se o embate entre a ansiedade e um
acúmulo de informações, o Diário poderá vir a ser um espaço de descanso, de
expressão, de delírio, silenciando assim as angústias, na medida em que vai
expressando ações e pensamentos no suporte de criação.
59
Podemos concluir que o processo criador de todos os artistas plásticos,
cineastas, escritores, compositores, enfim, de todo e qualquer sujeito, leva-nos a
afirmar que a complexidade é inerente à nossa condição humana. Ninguém está
livre das dificuldades e possibilidades de uma vida criativa.
Por esse motivo, investigam-se nessa pesquisa os Diários como algo que
contemple as várias dimensões da consciência, é um estimulador para trazer novas
produções, levando o sujeito a refletir sobre seu comportamento, suas angústias,
suas alegrias, é uma obra aberta.
Por tais motivos, os Diários de professores e de artistas que registram, em
pormenor, as primeiras experiências de ensino e estética, constituem achados
importantes para os investigadores educacionais.
60
4 ESTUDO DA CONSCIÊNCIA: Articulação entre o Pensamento e a
Linguagem
A reflexão é o remédio adequado para combater a lavagem cerebral. A
reflexão equivale, em verdade, a isto: a uma hesitação, a um não responder
temporário, a um breve período em que a tendência de responder não se
converte, diretamente, em ação. E essa tendência de não responder torna-
se parte do significado da palavra e preserva a existência do significado
(TERWILLIGER, 1974, p.340).
Os conceitos utilizados nesta pesquisa são aqueles elaborados no campo da
psicologia sócio-histórica russa e da psicologia analítica. A princípio trataremos da
consciência, ou seja, falaremos de um sujeito que está inserido num determinado
local, tempo e espaço, que pensa, age e sente de acordo com esta inserção no
mundo, considerando aspectos culturais e sociais que o condicionam.
Para análise dos discursos desses sujeitos, serão investigadas questões
complexas sobre o pensamento e a linguagem. Por isso a teoria sobre a psicologia
analítica de Jung nos suporte para a compreensão da linguagem inconsciente e
simbólica, sendo extremamente importante no momento das análises dos Diários do
professor e do artista.
Ademais, para a realização desta pesquisa, é fundamental compreender a
linguagem como um aspecto de expressão do homem, tanto na sua forma
consciente, que é o pensamento como na sua forma inconsciente, que é tudo que
está nas entrelinhas do pensamento, daquilo que não é dito, mas é expresso e está
em todas as formas de signos.
Conforme afirma Luria, em seu texto “Pensamento e Linguagem”:
Diferente dos animais, o homem dominava novas formas de refletir a
realidade, não por meio da experiência sensível imediata, mas sim da
experiência abstrata racional. Esta é a particularidade que caracteriza a
consciência humana, diferenciando-a do psiquismo dos animais. Este traço,
a capacidade do homem de transpor os limites da experiência imediata, é a
peculiaridade fundamental de sua consciência (LURIA, 1987, p. 11).
61
Nesse sentido, Vygotsky foi quem muito influenciou no caminho do
desenvolvimento da Psicologia soviética das últimas décadas. Uma das teses de
Vygotski soa paradoxal: para explicar as formas mais complexas da vida consciente
do homem é imprescindível sair dos limites do organismo, buscar as origens desta
vida consciente e do comportamento “categorial”, não nas profundidades do cérebro
ou da alma, mas sim das condições externas da vida e, em primeiro lugar, da vida
social, nas formas histórico-sociais da exisncia do homem. Para o autor, a construção
do homem se na interão com a realidade.
O homem se diferencia do animal pelo fato de que, com sua passagem à
existência histórico-social, ao trabalho e as formas de vida social a eles vinculadas,
mudaram radicalmente todas as categorias fundamentais do comportamento.
Para Vygotsky, a atividade vital humana caracteriza-se pelo trabalho social e
esse, mediante a divisão de suas funções, origina novas formas de comportamento,
independentes dos motivos biológicos elementares.
O trabalho social e a divisão do trabalho provocam a aparição de motivos
sociais de comportamento. Outro fator decisivo que determina a passagem da
conduta animal a atividade consciente do homem é a aparição da linguagem.
No processo de trabalho socialmente dividido, surgiu nas pessoas à
necessidade imprescindível de uma comunicação estreita, a situação laboral na qual
tomavam parte, ocasionando a aparição da linguagem. Inicialmente a manifestação
da linguagem acontecia por meio de digos, que teve importância decisiva para o
desenvolvimento posterior da atividade consciente do homem.
Como resultado da história social, a linguagem transformou-se em
instrumento decisivo do conhecimento humano, graças ao qual o homem pode
superar os limites da experiência sensorial, individualizada as características dos
fenômenos, formular determinadas generalizações ou categorias.
Pode-se dizer que sem o trabalho e a linguagem, no homem não se teria
formado o pensamento abstrato “categorial”. Quanto a esse aspecto, Vygotsky
(1995, p. 22) afirma que:
62
As origens do pensamento abstrato e do comportamento “categorial” devem
ser buscadas o dentro da consciência nem dentro do cérebro, mas sim
fora, nas formas sociais da existência histórica do homem. Somente dessa
forma pode-se explicar a origem das formas complexas, especificamente
humana, do comportamento consciente.
A diferença radical entre este enfoque e o da psicologia tradicional é que as
origens da consciência humana não se buscam nem nas profundidades da alma e
nem nos mecanismos cerebrais, mas sim na relação do homem com a realidade, em
sua história social, estreitamente ligada com o seu trabalho e linguagem.
A linguagem humana se caracteriza por um complexo sistema de códigos que
designam objetos, características, ações ou relações; códigos que possuem a
função de codificar e transmitir a informação; introduzi-la em determinados sistemas.
O animal não possui essas características, é uma quase-linguagem; portanto a
linguagem desenvolvida do homem é um sistema de códigos suficientes para
transmitir qualquer informação, inclusive fora do contexto de uma ação prática.
Silvia Lane, no capítulo “Linguagem, Pensamento e Representações Sociais”
do livro Psicologia Social (1994), afirma:
A linguagem se originou na espécie humana, como conseqüência da
necessidade de transformar a natureza, através da cooperação entre
homens, por meio de atividades produtivas que garantissem a sobrevivência
do grupo social (LANE, 1994, p. 32).
O trabalho cooperativo, por exigir planejamento, divisão de trabalho, exigiu
também um desenvolvimento da linguagem que permitisse ao homem agir,
ampliando as dimensões de espaço e tempo.
Os homens agem sobre o mundo e o transformam, e são, por sua vez,
transformados pelas conseqüências de suas ações.
O homem, ao falar, transforma o outro e é transformado pelas conseqüências
de sua fala. A linguagem se originou na espécie humana como conseqüência da
63
necessidade de transformar a natureza, através da cooperação entre os homens,
por meio de atividades produtivas que garantissem a sobrevivência do grupo social.
A linguagem como produto de uma coletividade, reproduz dos significados
das palavras articuladas em frases os conhecimentos-falsos ou verdadeiros - e os
valores associados a práticas sociais que se cristalizaram; ou seja, “a linguagem
reproduz uma visão de mundo, produto das relações que se desenvolveram a partir
do trabalho produtivo para a sobrevivência do grupo social (LANE, 1994, p. 32)”.
Qualquer análise da linguagem implica considerá-la como produto histórico de
uma coletividade.
Vygotsky elaborou seus trabalhos sobre linguagem e o pensamento
demonstrando a importância do caráter mediacional de ambos no desenvolvimento
do psiquismo humano e na constituição da consciência e da atividade.
Vygotsky e Leontiev, entre outros, partindo da idéia de que ser humano
constitui-se como tal, ao longo da história da humanidade, pela cooperação com
outros homens no trabalho de sobrevivência (para o que desenvolveu as
ferramentas e a linguagem), criaram as bases sólidas para elaboração de uma
psicologia materialista-histórica e dialética.
De acordo com esta postura, o homem fisiológico e psicológico- mais a
sociedade e sua história são indissociáveis de tal forma que toda psicologia humana
é, necessariamente, social.
A idéia de Representações Sociais foi primeiramente apresentada como tal
por Serge Moscovici (1978), em sua obra “A representação social da Psicanálise’’.
Para ele esse é um fenômeno do cotidiano, que se produz num determinado
contexto social.
O indivíduo, ator participante da coletividade, se apropria da produção coletiva
acerca de determinados valores os quais a coletividade criou uma idéia comum.
Nesse sentido, a Representação Social é um fenômeno psicossocial, um conjunto de
conceitos, afirmações e explicações originados no cotidiano, no desenrolar de
combinações interindividuais.
Poderia se dizer que é como uma sociedade se apropria de algum
conhecimento dado a partir desse conhecimento o comportamento de seus atores
passa a ser determinado.
64
Moscovici (1978) afirmou que as representações são responsáveis por
comportamentos e atitudes dos indivíduos da coletividade, mas sofrem alterações a
partir da vivência na qual é forjada.
A construção das representações é multifatorial, e elas serão tão diversas
quantas forem às opiniões de onde nasçam e os objetos passíveis de
representação.
A representação, como um processo mental, carrega sempre um sentido
simbólico significante, e estudar representação social é buscar conhecer melhor o
modo como um grupo humano constrói um conjunto de saberes que expressam a
identidade de um grupo social, como conjunto de normas e regras de uma
sociedade. As representações sociais possibilitam tornar o desconhecido familiar; o
não familiar conhecido.
Segundo Jodelet (1989); colaboradora anos de Moscovici (1978) vem se
dedicando a precisar e sistematizar o conceito de representações sociais. A autora
afirma que “não é possível conhecer o ser humano sem considerá-lo inserido numa
sociedade, numa cultura, num momento histórico e em dadas condições políticas e
econômicas (JODELET apud SPINK, 2004, p. 61)”.
Na teoria da representação social de Moscovici (1978), a história é uma
sucessão incessante de diversas formas de relações sociais entre homens livres
que, em condições que nem sempre foram escolhidas, instauram a comunicação e
criam significados num processo de negociação constante.
As representações sociais são modalidades de conhecimento particular que
circulam no dia a dia e que tem como função a comunicação entre indivíduos,
criando informações e nos familiarizando com o estranho de acordo com categorias
de nossa cultura, por meio da ancoragem e da objetivação. “Ancoragem é o
processo de assimilação de novas informações a um conteúdo cognitivo-emocional
preexistente, e objetivação é a transformação de um conceito abstrato em algo
tangível (SPINK, 2004, p.76)”.
Jodelet (1989) proporciona a seguinte definição sintética, sobre a qual parece
existir hoje um amplo acordo dentro da comunidade de seus estudiosos:
“Representações Sociais o uma forma de conhecimento, socialmente elaborada e
partilhada, tendo uma visão prática e concorrendo para a construção de uma
realidade comum a um conjunto social (JODELET apud SPINK, 2004, p. 32)”.
65
Para Moscovici, citado por Spink ‘’o propósito de todas as representações é o
de transformar algo não familiar, ou a própria não familiriaridade, em familiar’’.
(SPINK, 2004, p.32)
Segundo o autor:
O que eu quero dizer é que os universos consensuais são lugares onde
todos querem se sentir em casa, a salvo de qualquer risco de atrito ou
disputa. Tudo o que é dito e feito apenas confirma crenças e
interpretações adquiridas, corrobora mais do que contradiz a tradição. (...)
No todo a dinâmica dos relacionamentos é uma dinâmica de familiarização,
onde objetos, indivíduos e eventos o percebidos e compreendidos em
relação a encontros ou paradigmas prévios. Como resultado, a memória
prevalece sobre a dedução, o passado sobre o presente, a resposta sobre o
estímulo, as imagens sobre a ‘realidade’ (MOSCOVICI apud SPINK, 2004,
p.36).
Dessa forma, estudar as representações poderia ser uma maneira de
desvendar a sociedade tal como ela é percebida por seus atores, explicariam como
alguns comportamentos vistos como naturais foram, em verdade, construídos
‘’naturalmente’’ através do contato social.
Falar de representações, coletivas ou individuais implica refletir sobre o
imaginário. E é com Jung que a psicologia passou a se preocupar com o social.
A base dos estudos junguianos é a análise dos sonhos e a interpretação dos
símbolos neles contidos, que permitiram ao ‘’inconsciente’’ manter comunicação com
o “consciente’’.
Essa mesma comunicação estaria presente nos contos de fada e nas lendas
populares. Mesmo que alguém deixe de ver alguns sinais claros do ambiente de
forma consciente, estes podem ser captados pelo inconsciente e transmitidos em
conteúdos oníricos ou de outros símbolos.
Existem símbolos que se repetem em todas as culturas, que são
compartilhados por todos os seres humanos, e são motivos típicos de comunicação
de perigo: a queda, a perseguição por animais ferozes, correr sem chegar a lugar
nenhum, lutar com armas inúteis, estar perdido no meio da multidão. Tais temas,
para Jung, deveriam ser considerados dentro de um contexto e não de cifras de um
código que se explicaria por si mesmo. Segundo Jung (s.d), além dos símbolos
particulares produzidos pelo inconsciente, há outros símbolos cuja natureza se dá de
66
forma coletiva e são então partilhados por todos os humanos. Exemplo disso o as
imagens religiosas que representam as crenças partilhadas da herança espiritual.
Para ele, compartilhamos, com nossos pares, sentimentos e pensamentos
adquiridos através do inconsciente coletivo.
Jung concluiu que há uma parte da psique humana que é comum, e a
chamou de inconsciente coletivo. Além do inconsciente individual, Jung teorizou um
inconsciente coletivo, formado de dois componentes: os instintos e os arquétipos.
Os instintus seriam os impulsos, determinam nossas ações. Do mesmo modo,
Jung teorizou que existem modos de compreensão inconscientes, inatos, que
regulam a nossa percepção. Estes são os arquétipos: formas inatas que determinam
cada processo psíquico. Os “arquétipos” determinam nossas percepções e os
instintos determinam nossas ações.
Ambos são coletivos porque se relacionam com conteúdos universais
herdados, que estão sujeitos as mudanças históricas e ambientais.
Segundo Mocovici apud Spink (2004, p. 60), “as emoções e os afetos o
estimulados pelos símbolos inscritos na tradição, nos emblemas-bandeiras,
fórmulas, etc., aos quais cada um faz eco”.
A elaboração das representações sociais implica, necessariamente, um
intercâmbio entre intersubjetividades e o coletivo na construção de um saber que
não apenas como um processo cognitivo, mas que contém aspectos
inconscientes, emocionais e afetivos tanto na produção como na reprodução das
Representações Sociais.
As representações sociais devem ser estudadas articulando elementos
afetivos, mentais e sociais e integrando, ao lado da cognição, da linguagem
e da comunicação, a consideração das relações sociais que afetam as
representações sociais e a realidade material, social e ideal sobre as quais
elas vão intervir (JODELET, 1989 apud SPINK, 2004, p.61).
Hoje é constatada a preocupação de muitos pesquisadores de integrar
aspectos afetivos e simbólicos nas ações dos sujeitos inseridos em sociedades.
Nesse sentido, as análises dos Diários permitem apontar as representações
sociais dos professores e artistas, através dos registros verbais e visuais.
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As imagens nos levam ao mundo inconsciente do professor e do artista, pois
a palavra é apenas um microcosmo da consciência humana; podemos ter acesso à
plasticidade do pensamento através das imagens e códigos muito mais complexos
que nos comunicam alguma coisa, permitindo fazer leituras que investigue a
subjetividade do sujeito, sua visão ética e estética do mundo, dando sentido e
significado ao que escreve e desenha.
Jung, no livro “O homem e seus símbolos”, relata:
Uma palavra ou uma imagem é simbólica quando implica alguma coisa além
do seu significado manifesto e imediato. Esta palavra ou esta imagem tem
aspecto inconsciente” mais amplo, que nunca é precisamente definido ou
de todo explicado. Quando a mente explora um símbolo, é conduzida a
idéias que estão fora do alcance da nossa razão (JUNG, s.d, p.20).
Neste caso, a arte como representação gráfica possibilita outras leituras do
pensamento dos sujeitos, possibilitando fazer uma análise do discurso
fundamentada nos símbolos que aparecem nos Diários, estes irão representar
conceitos que não podemos compreender integralmente.
De acordo com os estudos sobre representação social, conclui-se que o
indivíduo é concebido como um todo, em que o singular e a totalidade social são
indissociáveis, e o sujeito, ao elaborar e comunicar suas representações recorre a
significados socialmente constituídos e de sentidos pessoais decorrentes de suas
experiências cognitivistas e afetivas. A constatação dos conteúdos emocionais nas
representações sociais permitiu o avanço nos estudos na direção dos conteúdos
inconscientes.
De acordo com Leontiev:
Os significados atribuídos às palavras são produzidos pela coletividade, no
seu processar histórico e no desenvolvimento de sua consciência social e
como tal, se subordinam às leis histórico-sociais, por outro lado, os
significados se processam e se transformam através de atividades e
pensamentos de indivíduos concretos e assim se individualizam, se
“subjetivamna medida em que “retornam” para a objetividade sensorial do
mundo que os cerca, através de ações que eles desenvolvem
concretamente (LEONTIEV, 1978 p. 33).
68
Nesse sentido é importante apurar a sensibilidade na leitura e na escuta dos
discursos dos sujeitos para perceber o que realmente tem sentido quando falam e
expressam, que palavras são recorrentes, que momento mudam a entonação de
voz, que momento a fala é mais baixa ou mais alta, enfim, são condições de
produção do discurso que podem nos levar a algumas hipóteses de percepção do
discurso dos professores e suas representações no contexto de suas ações
pedagógicas e pessoais.
Lane afirma, “os significados produzidos historicamente pelo grupo social
adquirem, no âmbito do indivíduo, um ‘’sentido pessoal”, ou seja, a palavra se
relaciona com a realidade, com a própria vida e com os motivos de cada indivíduo
(LANE, 1981, p. 34)”.
Diante disso, a prática do registro exige do professor o resgate da memória e
da reflexão, sua postura crítica em relação a sua maneira de estar professor,
ressignificando sua prática docente.
Todo esse processo de reprodução das relações sociais está baseado em
como a criança ao falar constrói suas representações sociais entendidas como uma
rede de relações que ela estabelece, a partir de sua situação social, entre
significados e situações que lhe interessa para sua sobrevivência. A representação
social se estrutura tanto pelos objetivos da ação do sujeito social como pelos dados
que concordam ou que se opõem a eles.
Nessa pesquisa, em que a relação entre sujeitos e Diário será o objeto de
estudo, não podemos esquecer o contexto que este professor está inserido, a
Instituição Educacional da qual este faz parte e o grupo social que ali existe.
A relação da linguagem com o real necessariamente sofre a mediação das
posições sociais de grupo e classe social e, portanto, um discurso está sempre em
confronto com um mundo repleto de significações sempre ordenado,
socialmente arrumado; um mundo que é o efeito de “uma produção social de
sentidos que reproduz inevitavelmente a produção material, e pela inserção de cada
indivíduo, corpo e alma, neste universo (LANE, 1981, p. 37)”. Sem esquecer que
este universo traz em si todo um ideário de uma sociedade que se reproduzirá na
linguagem e nos discursos situados.
69
Conforme a autora, para compreender as representações sociais implica
conhecer não o discurso mais amplo, mas a situação que define o indivíduo que
as reproduz. O lugar que ele ocupa em relação aos outros, e através do discurso
como seu espaço se constituiu nesta relação, enquanto realidade subjetiva que se
insere no real, socialmente representado e reproduzido em termos de “todo mundo’’
(LANE, 1981 p. 37).
Na perspectiva dessa pesquisa, a análise ideológica é fundamental para o
conhecimento psicossocial dos professores, uma vez que a ideologia condiciona e
pode ser ou não determinada pelos comportamentos sociais dos sujeitos e pela rede
de relações sociais que, por sua vez, constituem o próprio indivíduo. Estudar a
ideologia é estudar os caminhos pelos quais a criatividade e o imaginário servem
para instituir relações sociais que estão ligadas ao poder, a heteronomia e a
instrumentalização do homem.
Para muitos o conceito de ideologia está ultrapassado, sua utilização é vista
como reafirmação de um sonho romântico, segundo o qual a superação da
propriedade privada dos meios de produção significa a liberdade, mesmo que o
paradigma do trabalho e da produção esteja em revisão pela história, a dominação e
a instrumentalização do outro não desaparecem, apresentando-se de forma mais
complexa e completa.
A ideologia coloca parâmetros entre o que se pode e não se pode desejar,
cria referências afetivas e atribui necessidades. Mas esse processo não é
automático e mecânico, ele é incerto e impetuoso, pois é singularidade, vivida por
indivíduos que não são passivos, sentem, pensam, agem e relacionam-se. Portanto,
é um processo em que as mediações psicológicas e as mediações sociais se
intervertem umas nas outras.
Nesse sentido, podemos compreender como professores podem se tornar
conscientes ao detectar as contradições entre as representações e suas atividades
desempenhadas na produção de sua vida material.
Alguns discursos nos permite apontar para uma função da linguagem que é a
mediação ideológica inerente nos significados das palavras produzidas por uma
classe dominante que detém o poder de pensar e conhecer a realidade, explicando-
as através de “verdades’’ inquestionáveis e atribuindo valores absolutos de tal forma
que as contradições geradas pela dominação e vividas no cotidiano dos homens são
70
camufladas por explicações tidas como verdades ‘’universais’’ ou ‘’naturais’’, ou
simplesmente, ‘’é assim que deve ser’’.
Muitas vezes a palavra é uma arma de poder, demonstrando o quanto à
imposição de um significado único e absoluto, a palavra é uma forma de dominação
do indivíduo. Essa arma de poder é dominada pelo confronto que o indivíduo
possa fazer entre diferentes significados possíveis e a realidade que o cerca.
Busca-se nas análises dos Diários poder identificar nos sujeitos os núcleos de
pensamento, as palavras repetidas, os discursos ideológicos que pertencem ao
grupo que estão inseridos, para assim poder contribuir na formação de professores
que refletem sobre sua prática, se este for o caso.
Uma análise concreta das representações sociais que um indivíduo tem do
mundo que o rodeia, é possível se as considerarmos inseridas num discurso
bastante amplo, onde as lacunas, as contradições e, conseqüentemente, a ideologia
possam ser detectadas. Este discurso amplo, para muitos autores, seria a visão de
mundo que o indivíduo tem, porém permanece a questão do que vem a ser, no
plano individual, esta visão de mundo.
É também importante nessa pesquisa, distinguir o nível de consciência social
e grupal de professores, na medida em que um grupo de professores se une, tendo
como característica a consciência de classe.
Segundo Lane, “é um processo essencialmente grupal e se manifesta
quando indivíduos conscientes de si percebem sujeitos das mesmas determinações
nas relações de produção que caracterizam a sociedade num dado momento (LANE,
1994, p. 42)”.
Além disso, é importante, nesse sentido, o pertencer a um grupo em uma
determinada Instituição, nesse caso, a escola, pois o fato de pertencer a um grupo
cujas ações expressam uma consciência de classe pode ser condição para que um
sujeito desencadeie um processo de conscientização de si e social. O contrário disso
seria o sujeito consciente o ter o apoio do grupo, que é alienado, assim esse
sujeito é impedido, em nível grupal, de qualquer ação transformadora.
Sendo assim, as representações sociais dos professores são realidades
subjetivas que estão inseridas no real, socialmente representado e reproduzido por
todo mundo.
71
Portanto o confronto entre o nível do discurso e o nível da ação é essencial
para se compreender o indivíduo, seja enquanto reprodutor de ideologia como para
análise de seu nível de consciência.
A contribuição do conceito de ideologia ao estudo da consciência está na
ética, no juízo de valor e na criticidade, que trazem em si a esperança da
emancipação dos seres humanos das humilhantes condições de vida.
Em resumo, unir ideologia e representação social é implodir ambos para
resgatá-los sob um novo paradigma, capaz de fundir ciências naturais e ciências
sociais sob a égide das humanidades, tendo como eixo de análise o indivíduo
enquanto questão ética, política e psicossocial, permitindo o encontro do
conhecimento com a virtude na busca do “paradigma de uma ciência prudente para
uma vida decente (SOUZA SANTOS apud SPINK, 2004, p.83)”.
72
5 ERGUENDO OS OLHOS E OLHANDO O ENTORNO
A pesquisa referente a este projeto foi desenvolvida mediante a utilização de
um Estudo de Caso, com uma abordagem metodológica qualitativa.
O material de análise da pesquisa constituiu-se do discurso de dois sujeitos,
um artista plástico e uma professora de arte, que fazem o uso do registro ao longo
se suas vidas profissionais e artísticas.
A razão pela escolha da pesquisa qualitativa se deu pelo fato da não
preocupação com modelos rígidos, estar aberta às descobertas que ocorrem durante
todo o processo, exigindo que o pesquisador deixe de lado os preconceitos, envolva-
se com a temática e fique atento às informações na análise dos conteúdos, tecendo,
assim, as subjetividades do sujeito e seu mundo objetivo.
De acordo com Luria (1992, p. 179), em seu texto sobre Ciência Romântica ‘‘é
de maior importância, para os cientistas românticos, a preservação da riqueza da
realidade viva, e eles aspiram a uma ciência que retenha esta riqueza’’. O autor
ainda relata que a observação é um elemento precioso nos estudos de caso e que
seu objetivo é “estabelecer uma rede de relações importantes” (p. 182).
Quando bem feita, a observação cumpre o objetivo clássico de explicar os
fatos, sem perder de vista o objetivo de preservar a multiplicidade de riquezas do
objeto.
As autoras Lüdke e André (1986) definem o estudo de caso:
O caso é sempre bem delimitado, devendo ter seus contornos claramente
definidos no desenrolar do estudo. O caso pode ser similar a outros, mas é
ao mesmo tempo distinto, pois tem interesse próprio, singular, naquilo que
ele tem de único, de particular, mesmo que posteriormente venham a ficar
evidentes certas semelhanças com outros casos ou situações (LÜDKE;
ANDRÉ, 1986, p.56).
Partindo do problema pesquisado, procedeu-se à análise de conteúdo como
método de tratamento e análise de informações do estudo de caso. Conforme Bardin
(1977, p. 42) é “um conjunto de técnicas de análise de comunicação que contém
73
informação sobre o comportamento humano atestado por uma fonte documental’’.
Ao passo que Trivinos (1987) explora ainda mais a conceituação de Bardin sobre
análise de conteúdo:
Um conjunto de técnicas de análise das comunicações visando, por
procedimentos sistemáticos e objetivos de descrição do conteúdo das
mensagens, obter indicadores quantitativos ou não, que permitem a
interferência de conhecimentos relativos às condições de
produção/recepção (variáveis inferidas) das mensagens (TRIVINOS, 1987,
p. 160).
Nesse caso a análise de conteúdo por meio do método da pesquisa
qualitativa aparece como uma ferramenta para a construção de significado que os
atores sociais exteriorizam no discurso. Analisada no presente estudo, sob o
enfoque da teoria das representações sociais; o que permitiu a pesquisa e ao
pesquisador o entendimento das representações que o indivíduo apresenta em
relação à sua realidade e à interpretação que faz dos significados a sua volta.
Admite-se que a realidade não existe no vácuo, mas é um produto social.
74
5.1 UNIVERSO DA PESQUISA
O universo desta pesquisa é composto por dois sujeitos que residem na
cidade de São Paulo. Rubens Matuck, arquiteto, artista plástico e professor.
Trabalha em seu ateliê, situado no Bairro de Perdizes. Marisa Szpigel, professora de
artes visuais, leciona na Escola da Vila, situada no Bairro Butantã. Atua como
formadora de professores de artes visuais da rede pública e privada no Instituto
Tomie Ohtake e na Organização Não Governamental - Cedac
19
.
Os dois sujeitos foram entrevistados de maneira informal. Para isso, foram
convidados a participarem de forma voluntária, narrando suas experiências de
registro em Diários, deixando clara a opção de não identificação, se assim
quisessem. A pesquisa foi desenvolvida no ateliê do artista e na residência da
professora.
19
CEDAC: Centro de educação e documentação para ação comunitária.
75
5.2 CONTATOS
Inicialmente, por intermédio da direção de uma escola particular, situada na
cidade de São Paulo, no dia 19/02/08, houve um convite para que os professores de
artes de nível I e II elaborassem um Diário de registro, sendo acompanhados por um
período de dois meses com encontros semanais na escola. Entretanto, não foi
possível realizar esta pesquisa, devido à falta de retorno da direção da escola, por
isso a pesquisadora optou por explorar outros espaços de ensino.
O contato com a segunda escola ocorreu no dia 14/03/08 e foi realizada
através de e-mail com a direção da escola que foi mais receptiva. Feito o convite aos
professores de artes da escola, uma professora interessou-se pela pesquisa pelo
fato de fazer Diários, se tornado um dos sujeitos desta investigação.
O interesse por investigar o Diário de um artista plástico surgiu devido à
dificuldade de o pesquisador conseguir penetrar na Instituição Educacional,
enfrentando diversos obstáculos burocráticos e também pela falta de interesse dos
professores pela pesquisa. Como o artista plástico foi muito receptivo e concordou
em ser um colaborador para esta investigação, se tornou o outro sujeito desta
investigação.
76
5.3 VISITAS
O contato com o artista foi feito através de telefone e e-mails. Em seguida,
foi realizada uma visita ao atelier do artista, no dia 26/03/08, no período noturno. Já,
o contato com a professora foi feito através de telefone e foram realizados dois
encontros, no período das férias de Julho, sendo o primeiro realizado no Instituto
Tomie Ohtake e o segundo na residência da professora.
77
5.4 MATERIAIS (ENTREVISTAS)
É confirmado pela comunidade científica o uso de documentos pessoais na
metodologia de investigação qualitativa. Com o nome de documentos pessoais
incluem-se várias criações pessoais escritas, orais ou gráficas, como: autobiografias,
cartas, Diários, questionários, entrevistas, portfólios, composições e arte, entre
outras.
Os documentos pessoais constituem uma classe de materiais de estudo de
caso, especificamente de documentos de caso escritos em primeira pessoa. É essa
pessoalidade, originária do sujeito, que torna rica e também multifacetada a
utilização de tais documentos. Por isso, pode-se afirmar que as potencialidades de
um documento pessoal são praticamente inesgotáveis. Tudo dependerá dos pontos
de vista ou perspectivas em que o mesmo se (re) interprete.
Neste percurso reflexivo, houve um olhar crítico sobre dois tipos de
documentos pessoais, que se julgou ser de reconhecido valor e aceitação atual no
domínio da Educação e da arte, o Diário e as entrevistas, ou seja, as falas dos
sujeitos sobre a produção de seus Diários ao longo de suas vidas.
Para a realização desta pesquisa, foi elaborada uma única pergunta:
Em que medida o registro, no Diário, altera a práxis do professor no decorrer
da vida?
A fala dos dois sujeitos foi gravada, o discurso de ambos levou
aproximadamente uma hora de gravação.
Segundo Ludke e André (1986), a grande vantagem da entrevista sobre
outras técnicas é que ela permite a captação imediata e corrente da informação
desejada. A entrevista permite correções, esclarecimentos e adaptações que a
tornam mais eficaz na obtenção das informações desejadas. A entrevista ganha vida
78
ao se iniciar o diálogo entre o entrevistador e o entrevistado. A utilização da
entrevista representa um dos instrumentos básicos para a coleta de dados, na
perspectiva da pesquisa qualitativa, possibilita a captação imediata das informações
desejadas e interpretações atentas nas representações que aparecem.
É um instrumento que permite a classificação, tabulação, propiciando
comparações com outros dados da pesquisa, além de ser algo concreto, que
possibilita recorrer quantas vezes quiser, fazendo outras possíveis leituras.
Em entrevistas semi-estruturadas, em que não uma ordem rígida de
questões, o entrevistador discorre sobre o tema com base nas informações que ele
detém e que no fundo é a verdadeira razão da entrevista. Na medida em que houver
um clima de confiança, estímulo e aceitação mútua, as informações fluirão de
maneira notável e autêntica.
Para Ludke e André (1986), deve-se ter um respeito muito grande pelo
entrevistado, sendo que esse respeito envolve desde pontualidade nos horários e
locais marcados a a perfeita garantia do sigilo e anonimato em relação ao
informante, se for o caso.
Alguns cuidados devem ser tomados para se conduzir uma boa entrevista.
Segundo Thiollent (1980) apud Ludke e André (1986), um desses cuidados é que
alguns autores chamam de “atenção flutuante”.
toda uma gama de gestos, expressões, entonações, sinais não verbais,
hesitações, alterações de ritmo, enfim, toda uma comunicação não verbal
cuja captação é muito importante para a compreensão e a validação do que
foi efetivamente dito (LUDKE; ANDRÉ, 1986, p. 36).
É necessário estabelecer critérios de como registrar os dados obtidos na
entrevista. A gravação direta e a anotação durante a entrevista serão usadas
concomitantemente. Além disso, foi pedido aos dois entrevistados que seus Diários
estivessem presentes no momento da entrevista, para assim obter mais elementos
que enriquecessem a investigação.
O gravador esteve presente nos encontros, considerando que não houve
timidez do professor e do artista, pois nem todos se sentem inteiramente à vontade e
79
natural ao ter sua fala gravada. As gravações foram transcritas posteriormente para
assim, fazer comparações entre as notas e as falas transcritas dos dois
entrevistados, tentando distinguir as menos importantes e aquelas realmente
centrais.
Em relação ao registro feito através de notas no momento da entrevista,
Ludke e André (1986) salientam que o entrevistador deixará de anotar muitas coisas
ditas, pois conduzir uma entrevista exige atenção e o esforço do entrevistador, mas,
em compensação, as notas representam um trabalho inicial de seleção e
interpretação das informações emitidas.
Ao optar pela realização da entrevista, assume-se uma das técnicas de coleta
de dados mais dispendiosas, especialmente pela questão do tempo e qualificação
exigidos do entrevistador. Por isso é importante haver o preparo do pesquisador em
relação ao seu objeto de estudo e de quem irá abordar, para ter uma coleta e
análise de dados mais significativa.
Algumas precauções metodológicas foram necessárias para validar as
entrevistas feitas com os dois sujeitos desta pesquisa. Suas falas gravadas foram
ouvidas incansavelmente, para assim conseguir perceber os núcleos de pensamento
dos dois sujeitos, bem como as imagens dos Diários que foram selecionadas de
acordo com as falas dos dois sujeitos, com o objetivo de apontar mais elementos
que colaboraram para a investigação.
Sobre a dialética privacidade-publicidade dos conteúdos revelados sobre os
Diários, tratou-se de conceituar o Diário não como documento privado, mas como
um documento pessoal com a autorização de seus escritores para a divulgação dos
dados.
80
5.5 ANÁLISE DOS DADOS
Do material analisado: as entrevistas e os Diários dos dois sujeitos
pesquisados.
Em relação aos discursos dos sujeitos da pesquisa:
Para a dimensão do estudo apoiada nos documentos pessoais ( entrevistas e
Diários), seguiu-se o paradigma de investigação qualitativa, inserindo esse estudo
nas metodologias referentes ao estudo de caso, cuja descrição e exploração
assentaram-se nas interferências organizadas a partir de conteúdo manifesto dos
“relatos” em análise.
Diante disso, pretendeu-se agrupá-los em categorias, para que fosse possível
avaliar os discursos do sujeito pesquisado e sua representação dentro do contexto
da pesquisa.
Os dados obtidos foram tratados tendo como base a análise de conteúdo
proposta por Bardin (1977), isto é, a análise a partir de leitura flutuante realizada,
sendo, posteriormente, estabelecidos os temas e as categorias em função das
respostas obtidas, bem como a análise do discurso que permite buscar a
compreensão da realidade do ponto de vista dos entrevistados a partir do discurso
declarado pelos mesmos, considerando todas as suas subjetividades.
No dizer de Bardin (1977, p.96):
Esta fase é chamada de leitura flutuante, por analogia com a atitude
psicanalista. Pouco a pouco, a leitura vai-se tornando mais precisa, em
função das hipóteses emergentes, da projeção de teorias adaptadas sobre
o material e da possível aplicação de técnicas utilizadas com materiais
análogos.
Ainda de acordo com essa mesma autora, o processo de análise de conteúdo
foi discriminado em diferentes fases: a pré-análise; a exploração do material e o
tratamento dos resultados; a interferência e a interpretação.
Trivinos (1987) explica as três etapas assinaladas por Bardin (1977), como
sendo básicas nos trabalhos com Análise de Conteúdo:
81
A pré-análise tem por objetivo a organização do material, quer dizer de todos
os materiais que serão utilizados para a coleta de dados, assim como também como
outros materiais que podem ajudar a entender melhor o fenômeno e fixar o que o
autor define como corpus da investigação, que seria a especificação do campo que
o pesquisador deve centrar a atenção.
A descrição analítica é a etapa que reunido o material que constitui o corpus
da pesquisa é mais bem aprofundado, sendo orientado em princípio pelas hipóteses
e pelo referencial teórico, surgindo desta análise quadros de referências, buscando
sínteses coincidentes e divergentes de idéias.
Interpretação referencial é a fase de análise propriamente dita. A reflexão, a
intuição, com embasamento em materiais empíricos, estabelecem relações com a
realidade aprofundando as conexões das idéias, chegando se possível à proposta
básica de transformações nos limites das estruturas específicas e gerais.
Trivinos (1987) explica a importância do método na pesquisa qualitativa como
um conjunto de técnicas. Afirma que não é possível fazermos a interferência se o
dominamos os conceitos básicos das teorias que estariam alimentando o conteúdo
das mensagens. Outro aspecto relevante é o da interferência que pode partir das
informações fornecidas pelo conteúdo das mensagens, ou das premissas que se
levantam como resultado do estudo dos dados que se apresentam a comunicação.
Deve-se ainda, aprofundar a análise e desvendar o conteúdo latente, revelando
ideologias e tendências das características dos fenômenos sociais que se analisam.
A análise de conteúdo não obedece a etapas rígidas, mas sim uma reconstrução
simultânea com as percepções do pesquisador com vias possíveis nem sempre
claramente balizadas.
82
6 HISTÓRIAS SOBREPOSTAS
“Para que serve um livro, pensou Alice, sem figuras ou diálogos?”
(Lewis Carroll, Alice no País das Maravilhas).
Nos capítulos anteriores ficaram claros os parâmetros teóricos da pesquisa
em que se inscreve o trabalho com Diários.
Nesse capítulo pretendeu-se investigar e analisar algumas possibilidades de
registro; combinando os registros coletados dos cadernos dos sujeitos entrevistados
e de outros sujeitos que dialogaram com esse trabalho através de elementos visuais
e textuais importantes no momento das análises. Foi feita uma análise comparativa
entre os registros da professora e do artista, uma vez que os dois sujeitos
entrevistados transitam em campos semelhantes - Mariza Zspigel na arte-educação
e Rubens Matuck na produção artística.
É importante considerar nas análises que, ambos entrevistados, estão
inseridos no campo da arte, o que permitiu a pesquisadora explorar muitos
elementos visuais, transitar pelas subjetividades dos sujeitos e alimentar-se de
diálogos ricos entre imagens e palavras em todo processo das análises.
Conforme foi relatado anteriormente, a análise é desenvolvida seguindo os
procedimentos habituais na análise de conteúdo, o qual permite identificar de que
maneira os sujeitos apresentam a realidade; ou melhor, de que maneira os sujeitos
expressam suas “representações” da realidade.
Segundo Zabalza (2004), existem diferentes níveis de complexidade na
análise de conteúdo dos Diários:
Nível básico: a análise pode ser realizada pela pessoa mesma ou em
companhia de algum colega. Não implica o emprego de dispositivos
técnicos.
Nível médio: requer um certo conhecimento das técnicas de análise de
conteúdo, mas, com uma adequada preparação, os próprios autores do
Diário (sós ou em contato com seus supervisores ou com outros colegas)
podem analisá-lo.
Nível complexo de análise: requer conhecimento avançados na análise de
conteúdo e também no tipo de situações abordadas pelo Diário (o ensino, o
83
funcionamento das escolas, o conteúdo das pesquisas que se es
documentando, etc.) (ZABALZA, 2004, p.147).
Nesta pesquisa, a análise percorreu o caminho das complexidades,
identificando, nos discursos dos sujeitos, o nível de consciência que os mesmos têm
de sua prática e aquilo que está no inconsciente, mas que aparece nos registros,
nos esboços, nas idéias soltas, nas colagens, prontos para serem analisados; e na
medida do possível, compreendidos para novas leituras e olhares em relação à
importância dos documentos de processo na vida das pessoas, guardando
memórias e fazendo histórias.
As análises das entrevistas dos dois sujeitos foram ouvidas e transcritas. A partir
da transcrição das falas dos sujeitos entrevistados foram identificadas as palavras
que se repetem inúmeras vezes, os principais temas, as frases que emergem sobre
o todo, bem como os pontos em comum entre os dois sujeitos entrevistados,
permitindo uma análise comparativa, pensamentos importantes que dialogaram com
o campo teórico da pesquisa, aspectos subjetivos relevantes, aspectos ideológicos,
pessoais e profissionais.
No primeiro momento, foi feita a leitura completa dos discursos dos dois
entrevistados, anotando em folha separada o assunto ou tópico que se trata
nesse ponto (por exemplo: a importância do registro, o escrever, desenhar,
formação, viagens, diário de bordo, blocos de notas, etc.) E assim foi se
fazendo uma lista dos assuntos que apareceram nas entrevistas e nos
Diários.
No segundo momento, nova leitura completa foi realizada em função de cada
tema identificado. Nesse momento, a leitura foi selecionada e foi-se
recolhendo o que os sujeitos disseram em cada um dos assuntos que foi
identificado no ponto anterior. O que disseram em relação ao desenho, a
escrita, a formação, ao registro, etc.
No terceiro momento, foi feita uma análise comparativa entre os tópicos que
apareceram nos dois sujeitos, o que se diz em cada um deles e como é visto
e interpretado por ambos determinados temas abordados.
84
Por fim, essa análise teve condições de apresentar uma espécie de mapa dos
tópicos presentes nas falas e nos Diários, de seus conteúdos objetivos e
subjetivos. Pôde-se fazer uma análise quantitativa (temas que apareceram
mais ou menos) e qualitativa (que idéias prevaleceram ao tratar de cada
assunto, que tipos de discurso ofereceram cada um deles; quais foram vistas
com mais valor para um ou para outro, o grau de subjetividades dos
discursos, etc.).
As entrevistas, somadas aos Diários, ofereceram possibilidades de desenvolver
análises mais agudas e profundas do conteúdo de suas contribuições, nesse caso,
às técnicas de análise de conteúdo permitiram “categorizar” o conteúdo das
entrevistas em:
Assuntos/temas que apareceram nos dois casos
Descrições dos fatos
Idéias implícitas sugeridas nos registros dos Diários
Pontos comuns entre os dois sujeitos
Pontos divergentes entre os dois sujeitos
Identificação da subjetividade dos sujeitos
De acordo com o teórico que, nesse trabalho, foi de extrema importância para a
ampliação do conceito Diário no âmbito da formação de professores, há três
importantes condições para análise dos Diários:
- Evitar análises superficiais (tomando frases ou idéias de forma
descontextualizada) [...]. O que está em jogo, pelo menos nesse caso, não é
a qualidade da produção, mas sua riqueza expressiva.
- Proporcionar sempre textos que validem as apreciações feitas sobre o
diário.[...] É freqüente ouvir quem uma entrevista a um jornalista dizer
que o que aparece publicado não reflete sua opinião, que ele não disse
isso. Como pode acontecer na análise do diário, que no final prevaleça a
visão ou a leitura de quem analisa o diário, e não de quem o escreveu. Para
evitar isso, é que devem se proporcionar esses textos confirmatórios.
- Nunca devemos esquecer a parte ética do trabalho com diários. Os diários
são documentos pessoais que pertencem a quem os escreve. [...] Não é
ético utilizar textos de um diário realizado em um determinado contexto em
contextos diferentes ou com intenções diversas das que condicionaram sua
85
elaboração (por exemplo, publicando textos dos diários sem a permissão do
autor, utilizando-o como modelo, positivo ou negativo, etc.). [...] (ZABALZA,
2004, p.150-151).
Segue, abaixo, cinco imagens: a imagem 1 e a imagem 2 são de autoria dos
dois sujeitos analisados. As imagens 3 e 4 o resultado de uma apropriação das
imagens 1 e 2, onde foram feitas, pela própria pesquisadora, intervenções através
de linhas, costurando os principais assuntos que os dois sujeitos transitaram, e que,
coincidentemente ou não, se cruzaram no caminho, permitindo a pesquisadora
investigar e refletir a relação da práxis com o registro de ambos, além de possibilitar
elementos importantes que indique a importância do registro nos dois casos.
Foi observado nos dois casos características comuns em relação ao ato de
registrar.
O artista percorre caminhos da investigação plástica de seus projetos, registra
situações reais, imaginárias e simbólicas. Em seu depoimento aparece a forte
relação que tem com a linguagem da História em Quadrinhos, com a escrita e o
desenho, além de suas pesquisas de campo por lugares inusitados, onde tudo é
sistematicamente registrado.
A professora percorre caminhos mais objetivos. O registro é a sistematização
da sua prática pedagógica, porém no discurso transcrito de suas aulas percebe-se
que é bastante aberta ao ensino da arte como processo poético e lúdico dos alunos.
Aparece em seu discurso, assim como o artista, a relação forte com a escrita e o
desenho, relatando o prazer que lhe dá o ato de escrever. Os códigos visuais e
verbais aparecem o tempo todo nas páginas de seus Diários.
Ambos compartilham também a idéia de pensar o espaço como pesquisa,
como ponto de partida para projetos de arte. Matuck e Zspigel citam em suas falas o
Diário de bordo, como um suporte que guarda as coletas, desenhos de observação,
os rascunhos, bilhetes, etc.
Na imagem 5 é possível observar a sobreposição das imagens 3 e 4,
formando um grande rizoma
20
onde as categorias foram se compondo, conectando
20
Deleuze e Guattari escrevem o livro Mil platôs (Rio de Janeiro: Editora 34, 1995).
Nesse livro aparece pela primeira vez a idéia de rizoma, um termo do vocabulário da botânica. Para eles, o
rizoma, é um processo de ramificação aberta e pode expandir-se em direções móveis e indeterminadas,
estabelecer conexões transversais sem que se possa centrá-los ou cercá-los.
86
por meio de um fio e compondo uma trama. A linha se fez presente ao percorrer o
trajeto, enquanto costura, existe vínculo, ponte, sustenta o trabalho e constrói a
obra.
A sobreposição das imagens permitiu ampliar os caminhos tecidos,
articulando sentidos num constante intercruzamento.
A partir das imagens 1, 2, 3, 4 e 5 um passeio será realizado por idéias,
pensamentos, olhares, que instigará o leitor a tecer histórias vividas.
87
IMAGEM 1 – MARIZA ZSPIGEL
F
igura 3
Mariza Zspigel. Diário, 1996.
88
IMAGEM 2 - RUBENS MATUCK
Figura 4
Poesia chinesa, 2008.
Tradução de Mario Spruviero62cm X 174cm
Aquarela sobre papel manual japonês
Fonte: MATUCK, Rubens. Duas partes: a imagem escrita. São Paulo: Type Brasil, 2008.
89
O desafio que se propõe, a partir das categorias que se destacaram de
ambos os sujeitos analisados, é o de reconstruir, por meio de um elemento simples,
trivial até, que atravessam todos os outros, mas também os conjuga; que lhes
forma, mas também textura, que os arrasta em direções imprevistas, os
pensamentos como um emaranhado de linhas.
Deleuze
21
privilegia a linha, pois ela se faz continuamente, está sempre no
meio, correndo e escorrendo entre as coisas, além de passar e fazer passar coisas
que antes não eram possíveis nem pensáveis. Mas também porque ela atinge o
impensável, e por vezes o invisível.
O filósofo afirma que cada sujeito tem seus hábitos de pensamento:
[...] pensar as coisas como conjuntos de linhas a serem desemaranhadas,
mas também cruzadas. Não gosto dos pontos, pôr os pontos nos is me
parece estúpido. Não é a linha que esentre dois pontos, mas o ponto que
está no entrecruzamento de diversas linhas. A linha nunca é regular, o
ponto é apenas a inflexão da linha. Pois não são os começos nem os fins
que contam, mas o meio. As coisas e os pensamentos crescem ou
aumentam pelo meio, é onde é preciso instalar-se, é sempre que isso
se dobra (DELEUZE, apud DERDYK
22
, p.288, 2007).
21
Gilles Deleuze: filósofo francês ( 1925-1995).
22
Disegno. Desenho. Desígnio / organização Edith Derdyk. São Paulo: Editora Senac São Paulo, 2007.
90
IMAGEM 3 – MARIZA ZSPIGEL
F
igura 5
Mariza Zspigel. Diário, 1996 com intervenção de Silvia C. Cunha.
Xerox, linha e papel.
91
IMAGEM 4 - RUBENS MATUCK
Figura 6
Poesia chinesa, 2008.
Tradução de Mario Spruviero 62cm X 174cm
Aquarela sobre papel manual japonês, com intervenção de Silvia C. Cunha.
Xerox, linha e tecido.
92
IMAGEM 5
As linhas são imanentes, estão emaranhadas. Elas nos definem e nos
constituem, mas também nos arrastam para longe de nós mesmos. Elas nos
prendem ou nos liberam, nos cristalizam ou inventam para nós uma saída.
Cartografar essas linhas, seja na vida individual ou coletiva, é uma tarefa
incessante e criadora, a própria criação poderia ser definida como o traçado
dessas linhas (DELEUSE apud DERDYK, 2007, p.285).
93
Inicia-se agora a transcrição das falas dos sujeitos entrevistados em relação
aos assuntos (palavras) acima costurados, e de que maneira ambos relacionam
esses assuntos com a práxis do registro e em que medida percebe-se a
transformação dos sujeitos.
Em relação ao registro, ao próprio fato de escrever o Diário:
A professora diz:
A prática reflexiva é uma condição do trabalho acontecer.
Tem uma coisa de... Quase não conseguir viver sem... Uma necessidade tão...
Nesse sentido a professora percebe que o registro permite a ela refletir
sobre sua prática, além de perceber do quanto se apropriou do registro. O fato de
expressar na sua fala “quase não conseguir viver sem”, leva a pensar que, para a
Zspigel a prática do escrever sobre o que faz virou um hábito, uma forma que ela
encontrou de pensar sobre suas aulas, seus alunos e a escola. A professora o
termina sua frase, talvez o Diário para ela seja a “necessidade da catarse”
23
, como
se escrever permitisse controlar de maneira autônoma seu próprio estado
emocional, dentro do contexto muito pessoal e autocontrolado.
Para Zabalza (2004, p.142) quando registros são realizados, se estabelece
“uma espécie de conversação terapêutica com nós mesmos’’.
Nesse caso, a professora permite-se voltar atrás, rever o que fez, analisar
pontos negativos e positivos de suas aulas e avançar. Por isso, é tão importante a
documentação.
Segundo Zabalza, (2004, p.137), “a boa prática, aquela que permite avançar
para estágios cada vez mais elevados de desenvolvimento profissional, é a prática
reflexiva’’.
23
Catarse:
momento de alívio; purificação
.
Dicionário crítico de análise junguiana. SAMUELS A.,
SHORTER B., PLAUT F. – Editora Imago – Rio de Janeiro – 1988, p.46.
94
Quando eu demoro pra fazer um registro... Eu recupero bem... Eu sei que é diferente.
Fazer registro assim sistemático, longitudinal, você faz, registra, faz, registra. Você
até anota algumas coisas num caderninho, depois eu retomo. E eu prefiro até anotar a
gravar, eu gravo e não recupero nunca mais.
F
igura 8
Mariza Zspigel. Diário, s.d.
FOTO: Sílvia Cunha
95
A professora tem consciência que o parar e escrever é importante para sua
prática reflexiva. Nos dias de hoje com muitas coisas para fazer, o registro requer
disciplina e tempo para gerar prazer e o obrigação. A professora relata que a
grande maioria dos professores não registra e quando registram percebe-se que:
Então eu tinha uma coisa de também de escrever e de colocar aqui, então tudo ta
meio ligado... Então quando eu mostro esse Diário... Ele é um pouco pessoal demais.
Então eu nunca mostro ele inteiro, ta vendo?Eu mostrei esse para as pessoas
perceberem essa dimensão tão íntima e pessoal, assim, que não perde nunca, no
Diário, na minha opinião, né? Mais... Senão sem isso vira o que eu vejo muito que é o
Diário Burocrático...Que tem que fazer e pra mostrar pro outro e que não tem...E o que
acontece é que a pessoa não escreve pra si própria, ela escreve para o outro, o que
ele quer ouvir. Então não vira um documento de reflexão.
Então essa dimensão...
Então é mostrar serviço. Eu trabalhei numa rede em que eu comecei a levar essa idéia
de fazer registro, de fazer Diário e eu via claramente, assim... Que elas escreviam pra
mim. E eu conversava muito com elas... Olha o Diário é seu. Tudo bem, eu posso ser
uma interlocutora, mas ele é... Tem que ser um instrumento pra você.Porque senão
ele não faz sentido, não tem significado pra você, não constrói.E a pessoa...Se a
formadora sai o Diário... Desaparece. Ele não tem... A pessoa não tem autonomia, não
se apropria disso como ferramenta de... Pessoal, né? De você avançar na sua prática
pra você mesmo, né? Então acho que isso é uma coisa que eu... Eu acho importante
de mostrar.
É curioso e contraditório no discurso da professora o olhar que tem sobre seu
Diário quando diz que é algo ‘’tão íntimo e pessoal’’ e que as professoras com as
quais ela trabalha não o percebem assim, porém a mesma não explica porque
separa nos seus Diários os registros pessoais dos profissionais fragmentando assim,
a professora inteira que pensa, escreve, sente e reflete.
Entretanto, a fala da professora permite analisar que o Diário é sim um
espaço de intimidade, uma vez que escreve para você mesmo, sem a intenção de
outros lerem, justamente por não ‘’selecionar’’ o que se pensa e se escreve.
96
É importante destacar que a linguagem é algo construído cio-
históricamente, que é um instrumento importante na formação da nossa consciência
e que esta não é algo que existe idealisticamente, pois é concreta e tal concretude
se via signo, seja a linguagem escrita, falada, artística ou expressada por gestos
e sinais.
Tal como cita Vygotsky,
[...] ‘’o pensamento’’ é estimulado pela linguagem, ressalta que o
pensamento não é idêntico à linguagem, mas transcende e geral linguagem,
a relação do pensamento com a palavra não é uma coisa, mas um
processo, um movimento que vai do pensamento para a palavra e da
palavra para o pensamento (VYGOTSKY, 1995, p.61).
A professora tem muita consciência do Diário como objeto de reflexão e situa
a dificuldade que os professores m em lidar com o registro de forma livre e não
burocrática.
De acordo com Salles, no capítulo 2 da obra “Diário Espaço criador da
pesquisa”, a autora afirma que o Diário é o retrato de quem o escreve e que nele
estão captados os pensamentos do autor.
Aparece no depoimento da professora a curiosa relação do registro quando
está numa situação atípica para essa prática:
Aqui são registros de avião... Também tem uma coisa assim... (risos) Muita coisa...
Não sei o que acontece nas alturas comigo, lá nas nuvens... Que eu começo a
escrever, escrevo muito no avião... (muitos risos). Acho até que meu ó. Notebook vai
dar uma ajudada nisso. Porque tem um monte de ‘’papérzinho’’ assim, sabe?
Talvez, essa situação de estar “lá nas nuvens’’ possibilite à professora certo
distanciamento das coisas que estava fazendo ou da situação que estava vivendo,
permitindo um descanso para contar o já vivido.
Na opinião do teórico sobre Diários de registro na vida formativa de
professores relata que:
97
Essa reconstrução da jornada ou de alguns de seus momentos possui a
qualidade do distanciamento de um duplo sentido: porque se trata de
reconstruir algo que passou e porque se trata de narrá-lo por escrito
(transformo a experiência e as vivências em um tema narrativo, algo que eu
construo mediante palavras). Nesse duplo sentido, o Diário permite o
distanciamento e é possível recuperar certa objetividade e controle sobre a
situação narrada (ZABALZA, 2004, p.140).
O artista relata no início da entrevista, no seu ateliê, que é “prato cheio’’ para
a pesquisa, pelo fato de ter sua vida documentada em muitos cadernos. Segundo
ele, já perdeu a conta de quantos já foram escritos.
No início da entrevista ele diz:
Não é um caderninho, né? É uma coisa importante, né?
No dia da entrevista, o artista dispôs sobre a mesa de trabalho do seu ateliê
vários cadernos de registro e livros publicados, que na verdade são, os cadernos de
registro.
Matuck publica alguns dos seus cadernos de registros; um deles que foi
bastante explorado no nosso encontro para coleta de dados foi o livro “Cadernos de
Viagem”
24
. O artista tem uma forte relação com todos os seus cadernos, pois é a
documentação de sua vida, e por essa questão a dimensão do caderno é algo
infinito e singular. Na contracapa do livro Matuck diz: ‘’ Para mim, uma página desse
caderno é uma vida’’.
Todas as capas dos cadernos do artista foram feitas artesanalmente pela sua
esposa Rosely Nakagawa.
24
MATUCK, RUBENS. Cadernos de Viagem. São Paulo: Editora Terceiro Nome, 2003.
98
Figura 9
MATUCK, Rubens. Cadernos de Viagem. São Paulo: Editora Terceiro Nome, 2003
FOTO: Sílvia Cunha
99
Das suas mãos recebi as sugestões várias dos caminhos.
Cada um foi pensado para ser uma espécie de porteira. A partir do
momento que os recebia, o desenho e os materiais de cada caderno
começavam a sugerir idéias que se relacionavam com o local da viagem
pretendida.
Os cadernos foram concebidos de acordo com a tradição oriental dos
artistas viajantes.
Rosely, em cada gesto, mostrava as pegadas desses viajantes. Ali estavam
presentes Pena Preta, Shi Tão, [...]. Um verdadeiro mapa da rota de seda.
O papel demorou mil anos para chegar ‘a Europa, mas, com Rosely, sinto
que valeu a pena.
O primeiro presente que dela recebi foi uma folhinha da Olivetti, com
reproduções de arte japonesa, conhecidas como arte Nanbam, onde são
mostradas imagens dos primeiros ocidentais que chegaram ao Japão.
Nesse presente admiravelmente embalado por ela se mostravam
qualidades que até hoje convivem numa relação que dura trinta anos
(MATUCK, 2003, p.7).
O artista continua:
Dessa história sai todo o meu trabalho de artista plástico. Se você olhar os cadernos,
os cadernos... Eles são... A sistematização de um aspecto do meu trabalho.
Que o caderno tem a idéia da seqüência. Eu quero manter em linha. É todo um
raciocínio, de forma...
Segundo Salles,
Estamos, portanto, no campo da rotina de trabalho: como e quando a obra é
construída. [...] Não se pode negar, no entanto, que a produção da obra vai
se dando por meio de uma seqüência de gestos e, ao se acompanhar um
processo, vão se percebendo certas regularidades no modo de o artista
trabalhar. São leis de seu modo de ação, com marcas de caráter prático.
São gestos, muitas vezes, envoltos em um clima ritualístico (SALLES, 1998,
P.60).
Em relação ao procedimento lógico dos registros, a autora diz:
A questão do método na criação deve ser observada, ainda, sob outra
perspectiva, certamente, mais rica no que diz respeito a descobertas
relativas a natureza do ato criador. Estou me referindo a método como série
100
de operações lógicas responsáveis pelo desenvolvimento da obra:
procedimentos lógicos de investigação.
Essas operações, que acontecem inevitavelmente ao longo do processo,
não conhecem na arte a consciência e explicitação da ciência. A arte vive,
portanto, um encontro de método que não implica, necessariamente, uma
busca consciente (SALLES, 1998, p.60).
É importante observar na fala do artista que os cadernos, independente de
sua materialidade, contêm sempre a idéia do registro, há, por parte do artista, uma
necessidade de reter alguns elementos, que podem ser possíveis concretizações de
suas obras. Os registros que o artista faz em todos os seus cadernos são
documentos do processo criador, são vestígios vistos como testemunho material de
uma criação em processo.
No diálogo com o artista, foi presente o tempo todo os cadernos. Conforme
Matuck falava sobre os registros, as imagens nas páginas dos cadernos iam
acompanhando seu raciocínio, assim como a professora. As imagens e os textos
acompanharam o pensamento dos sujeitos, permitindo a pesquisadora uma melhor
apreensão das idéias expressadas.
No final das entrevistas, além do depoimento gravado dos sujeitos, a
pesquisadora conseguiu alguns Diários e cadernos, gentilmente emprestados por
ambos, permitindo mais qualidade nas análises.
No livro “Cadernos de Viagem” (2003) o artista observa:
Olhar esses cadernos, essas formas, esses peixes embaixo d’ água, a vida
assim tão movediça, provoca em nós, que temos uma formação urbana, um
fascínio enorme. Nesse caderno, você sai numa corrida junto com a vida,
que esse movimentando, brotando em ritmos e tempos diferentes. Isso
me remonta ‘a descoberta do Brasil. Não ‘a descoberta como dominação,
mas aquela feita pela sensibilidade artística e pelo conhecimento científico.
Gente que esperava ver algumas coisas e viu outras... (MATUCK, 2003,
contracapa).
101
Figura 10
MATUCK, Rubens. Cadernos de Viagem. São Paulo: Editora Terceiro Nome, 2003.
FOTO: Sílvia Cunha
102
O artista diz como começou a sua história com os registros:
Quando eu comecei a registrar? Eu comecei a ilustrar, estava no primeiro colegial, eu
tinha uns 15 anos. Eu ilustrei meus livros didáticos. Livros de genética... É uma
loucura minha vida...
Pra você entender o caderno que faço você precisa entender isso daqui.
Isso daqui é uma história em quadrinhos que eu faço...
Quando eu comecei essa história de quadrinhos eu tinha cadernos. Eu ganhei um
caderno de um amigo, eu sempre carreguei um caderno...
Pra você ter uma idéia da importância da história em quadrinhos, essa tese começou
por causa do título da história em quadrinhos, comecei com a minha tese por causa
do título, eu comecei a fazer o título da HQ pra fazer... Não parei nunca mais.
E foi entrando todos os conceitos de...Que eu adoro, chinesa, alemão... E eu fui
trabalhando.
Se um dia você quiser ver, tem que marcar um dia. É tudo aquilo lá, tudo isso aqui é a
tese.
Têm três livros originais, livros mesmo, manuais. Você vai ver como são esses
livros...
Matuck conta nesse depoimento acima à relação com a linguagem da história
em quadrinhos e que foi o ponto de partida para todo o seu trabalho, de ilustrador e
artista plástico; a relação com a escrita, com as letras, com as cartas, com os
personagens.
É observada pela pesquisadora no momento da entrevista toda a
sensibilidade que permeia o processo dos registros, no encontro no ateliê do artista,
nosso pano de fundo era o som instrumental que o artista deixou tocando, sugerindo
uma tranqüilidade na conversa e na observação dos cadernos, como se tudo no seu
ateliê estivesse em perfeita harmonia.
É importante destacar que assim como Rubens Matuck, outros artistas
também transitam nas experiências das histórias em quadrinhos, pesquisam na
prática e na teoria essa forma de linguagem que interage com uma grande
variedade de pessoas, tanto no consumo, como na produção da obra de arte,
compartilhada por sujeitos comuns do cotidiano.
103
Simon Grennan e Christopher Sperandio são dois artistas citados no texto de
Silveira (2001), ambos declaram que o interesse na história em quadrinhos surgiu
pela curiosidade do comportamento das pessoas e
[...] ter-se tornados interessados de modo crescente com as maneiras com
que as pessoas se motivam a fazer escolhas sociais e estéticas.
Concentramos nossa atenção na análise do entretenimento como fenômeno
de estímulo ou motivação (SILVEIRA, p.144).
Durante a entrevista a pesquisadora faz a seguinte pergunta ao artista:
Tem também nos cadernos de artista essa relação da escrita, da palavra?
O artista responde:
Todos esses artistas que acham que é novidade... É a coisa mais velha que tem; não
tem nada mais velho que a pintura... Sempre teve um suporte, uma escrita e uma
imagem, sempre, sempre. Pictograma, Ridículo!
O artista de forma bastante honesta declara na sua fala que algumas
linguagens bastante antigas viram ‘’modismos’’, lhe irritando profundamente, aliás,
o artista o tempo todo transmite uma praticidade e uma clareza legítima para falar de
alguns conceitos de arte.
Matuck observa que o livro é algo que existe muitas décadas e que o que
ele faz não é novidade no universo das artes visuais, pois sempre foi presente nos
livros a imagem e o texto, sobre o suporte. O livro.
Alguns artistas entrevistados por Silveira (2001) no livro Página Violada,
relatam o que pensam sobre o suporte livro, escrita e imagem, compartilham com
Matuck alguns pensamentos, destacando aqui três artistas que trabalham com o
livro de forma diferente que Matuck, no caso, para os três artistas o livro é o objeto
de arte. Silveira entrevistou três artistas plásticos que trabalham com livro-objeto,
104
transitam entre os territórios da linguagem visual e verbal; segue abaixo as
respostas dadas pelos artistas em relação a seguinte pergunta:
O que é um livro de artista?
O artista Wlademir Dias Pino responde:
Para mim sempre existiu um livro, o livro de arte, aquele que traz
reproduções de obra de arte. Há o livro artístico em que ele tende mais para
o sentido não mais da reprodução, mas da ornamentação, em que pode ser
empregado trabalhos de artistas ou não, ou de conceber o livro como um
objeto específico, de inteiramente criação. E que nele muita dificuldade
de reprodução, ao passo que os outros estão subordinados diretamente aos
meios de reprodução. Por isso que o livro de artista tem essa
independência, e essa dificuldade. D o emprego muito grande da
expressão física. Para mim, por exemplo, as artes caminharam para
abstração justamente pela dificuldade de reprodução, para manter uma
distancia entre o que é pictórico e o que é gráfico. O livro de artista, não.
Mistura essas duas coisas, aquilo que é pictórico e o gráfico ao mesmo
tempo. E em que a fisicalidade é que vai dificultar a reprodução, como um
objeto único. O que choca, assim, em pleno desenvolvimento da
reprodução, é o indivíduo trabalhar com o objeto único, no caso. Parece até
anti-social essa coisa (in SILVEIRA, 2001, p.268).
A artista Vera Chaves Barcellos relata:
O livro de artista, para mim, é uma forma independente de criação. Ele não
reproduz nada, mas ele é autônomo, digamos. Ele é criado para isso, para
essa forma de livro. Então naturalmente ele vai obedecer a toda a questão
da seqüência das páginas... É tudo isso...Que vão formar um todo
independente de qualquer outro tipo de obra (in SILVEIRA, 2001, p.276).
A artista Neide Dias de Sá responde:
O livro de artista, e que eu chamo de livro - objeto, e que pode ser livro
poema, tem vários nomes, e você sabe disso, não é? Dependendo do texto
em que eu estou falando nos meus trabalhos, chamo de um ou de outro,
mas na verdade é tudo a mesma coisa. O importante é um espaço onde
você trabalha signos, imagens, linguagens [...] (SILVEIRA, 2001, p.265).
105
Figura 11
Revistas Kicker. 1995.
Fotocópia, pintura, colagem 10X 15
Fonte: HORVITZ, Suzanne R; RAMAN, Anne R. ’’ Único em seu Gênero’’ – Livros de Artistas
Plásticos. Imagens tiradas do catálogo da exposição; organizada por Foudation For Today´s
Art/NEXUS, Filadélfia, PA, 1995, p.50.
Percebe-se no depoimento dos três artistas entrevistados por Silveira
algumas semelhanças, em relação à linguagem, ao gosto pelo suporte, o espaço
que aparecem imagens, signos e a sobreposição do pictórico com o gráfico o tempo
todo.
FOTO: Sílvia Cunha
106
Segue a imagem do livro-objeto onde o artista explora o livro como uma obra aberta:
Figura 12
AMT, Katheen. Inglês para a Bela Vida Humana. 1993
Meios mistos. 8 3/4 X 6 1/4 X 1’’
Figura 12 a
AMT, Katheen. Altamente Carregado. 1994
Capas de argila de polímero, papel, texto. 5 ½ X3 ¼ X 5/8’’
Fonte: HORVITZ, Suzanne R; RAMAN, Anne R. ’’ Único em seu Gênero’’ – Livros de Artistas
Plásticos. Imagens tiradas do catálogo da exposição; organizada por Foudation For Today´s
Art/NEXUS, Filadélfia, PA, 1995, p.18.
FOTO: Sílvia Cunha
107
É justamente a relação da imagem com a escrita com o imaginário que instigou o
artista desde criança a gostar de HQ
25
, pelo fascínio da história, dos personagens,
tipos de letras, tipo de suporte...O olhar sensível do artista desde a infância.
Matuck observa:
A HQ é um caderno, o próprio caderno, objeto da HQ é um caderno e é muito bem
feitinho... Um grande caderno.
Os depoimentos do artista revelam alguns princípios de seus projetos
poéticos. Acompanhar um processo específico, comparando rascunhos, esboços
que o artista vai fazendo ao longo do percurso nos permite compreender alguns
desses princípios, que carregam consigo seu meio de expressão.
A partir do que o artista fala, escreve, desenha, conhecemos um pouco mais
de seu pensamento e de seus projetos.
É importante ressaltar aqui que os sujeitos analisados não estão isolados,
mas inseridos e afetados pelo seu tempo e seus contemporâneos. Ambos estão
imersos: no momento histórico, social, cultural e científico.
Assim como Matuck e Zspigel, outras pessoas do campo das artes, da
literatura, do cinema fazem seus registros, alguns extrapolam o suporte, outros
extrapolam os espaços limitadores das páginas, alguns trabalham apenas com a
escrita, outros buscam nas imagens o que a palavra não diz.
Transitando no universo das artes plásticas, recorreu-se ao registro de outros
artistas, como no caso de Lygia Eluf, que relata nos seus cadernos á necessidade
do registro como entendimento do seu processo artístico, dialogando o tempo todo,
inconscientemente, com a Lygia pessoa e a Lygia artista.
25
Abreviação de: História em Quadrinhos.
108
Figura 13
ELUF, Lygia. São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo
Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, 2004.
O Diário é o produto de um exercício cotidiano pelo qual tento compreender
a escolha do azul e do vermelho, duas cores, que dominaram o trabalho em
questão, não apenas como uma opção estética, simbólica ou histórica, mas,
antes de tudo, como resultado de um sentimento, de uma manifestação
perceptiva.
Nele, inscrevi meus estados de espírito, minhas inquietações, meus desejos
e decepções; reuni pensamentos e reflexões sobre pintura, desenho,
analisei minhas vivências estéticas.
Na verdade chego a acreditar que, ao escrever, não opero uma
invenção, como, acima de tudo, saio de meus próprios sulcos. Ataco, reajo:
reconstruo. (ELUF, 2004, s.p)
FOTO: Sílvia Cunha
109
Transita-se agora pelo desenho; um tema que aparece em ambos os
discursos; percebe-se que é algo importante para os dois sujeitos, uma vez que
consideram o ‘’desenhar’’ como o ‘’escrever’’ e o ‘’escrever’’ como ‘’desenhar’’, são
linguagens que dialogam o tempo todo.
A professora relata a importância que tem o desenho para ela:
Desde sempre eu gostei muito de escrever, desenhar e tal.
Eu queria fazer um desenho por dia, porque sempre eu entro numas crises de não
desenhar, então era um desenho por dia, não importava muito, mas tinha uma coisa
do... Acho que vai virando meio uma narrativa, um desenho vai puxando o outro.
Figura 14
Mariza Zspigel. Diário, 1996.
FOTO: Sílvia Cunha
110
Salles (1998, p.116) escreve que Fellini fazia desenhos no início de cada filme
como uma maneira de tomar apontamentos, de fixar idéias. A autora relata que
Fellini desenhava, esboçava os traços de um rosto, os detalhes de um vestido,
expressões, características. Esta era a maneira do diretor aproximar do filme que
produzia e compreender de que tipo é, começar a olhá-lo de frente.
Figura 15
Mariza Zspigel. Diário, 1996
.
FOTO: Sílvia Cunha
111
E por que... Esta vendo... Ó tem uma coisa aqui... Ta vendo...
Aí, o objeto que aparece na minha frente eu desenho, telefone... (risos)
Vale destacar a importância do professor de Artes Visuais não ficar somente
na sala de aula sem o exercício das diferentes linguagens das artes plásticas, como
o desenho, colagem, escultura, deo, fotografia, dessa forma consegue visualizar,
ajudar e compreender melhor o processo dos alunos.
É muito comum os professores de arte ficarem distantes de seus projetos
pessoais, dessa forma distanciam-se do ‘’estado de criação’’ tão importante e
alimentador com ressonâncias na sala de aula.
Nesse sentido, percebe-se que a professora consegue unir sua prática
artística a prática pedagógica, possibilitando aproximar-se do processo criativo e das
dificuldades encontradas pelos alunos.
O artista observa:
Eu gosto muito de desenhar, aprender a desenhar é desenhar todo dia... É um
processo longo. Isso é uma mitologia. Ah... Eu não tenho talento, isso é uma idiotice,
isso não existe, bobagem.
É um exercício cotidiano. Que nem comer.
Você não aprende a comer?
Você já imaginou uma criança se ela não aprendesse a comer como ela sentaria numa
mesa. Desenho é igual. Tem que aprender. Aprender a ver, o cheiro, o gosto da
comida. Você aprende a desenhar olhando, fazendo, trazendo o desenho para
conversar.
Nesta frase, ‘’trazendo o desenho para conversar’’, recorre-se a Vygotski; que
compreende a linguagem como um aspecto de expressão do homem, tanto na sua
forma consciente, que é o pensamento, como na sua forma inconsciente, os
símbolos e códigos que aparecem, muitas vezes sem o próprio sujeito se dar conta
disso.
112
Figura 16
MATUCK, Rubens. Cadernos de viagem. São Paulo: Editora Terceiro Nome, 2003.p.60.
O artista, assim com a professora, estabelecem uma forte ligação com o
desenho, apropriando-se da linguagem como uma rede de relações, que encontram
nessas imagens como um modo de penetrar em seus fluxos da complexidade.
Um retrato, um telefone, experiências de vida cotidiana, qualquer coisa pode
agir como uma luz. O fato que provoca o artista e a professora a representar algo
através das imagens nos Diários é da maior multiplicidade de naturezas que se
possa imaginar.
Ambos os sujeitos tem maneiras singulares de representarem aquilo que
observam do mundo, os cadernos de anotações, Diários, guardam as seleções feitas
pela percepção, ou seja, o modo como ambos apreendem e se apropriam da
realidade que os envolve.
FOTO: Sílvia Cunha
113
De acordo com Jung, os símbolos estão fora do alcance da nossa razão, as
imagens o códigos complexos de analisar, pois estão no campo do inconsciente
dos sujeitos.
Matuck e Zspigel, assim como outros artistas que aparecem nessa categoria –
Desenho, registram as imagens sempre acompanhadas de textos, onde ambos
conversam estabelecendo uma linha de raciocínio, de processo criativo, de
pensamentos e idéias que vão sendo construídas.
Sendo assim, os Diários permitem uma proximidade com as representações
sociais dos sujeitos, ou seja, através das páginas e páginas dos cadernos,
consegue-se perceber como ambos constroem sua forma de pensar e viver.
Figura 17
MATUCK, Rubens. Cadernos de viagem. São Paulo: Editora Terceiro Nome, 2003.p.45.
FOTO: Sílvia Cunha
114
A imagem anterior é referente à viagem que Matuck fez a Curaçá (Rio Grande do
Sul-Bahia) no ano de 1991. Nessa viagem Matuck conheceu ‘’Seu’’ Toinho, dono do sítio
onde vivia em liberdade a ararinha azul chamada Severino.
O caderno de registro acima é de ‘’Seu’’ Toinho; podemos observar o que é
significativo para ele e como o mesmo representa essas singularidades no seu caderno de
registro. A arara e a árvore são elementos importantes e simbólicos na relação com o
sujeito que vive na região e está inserido no universo que representa através de seus
desenhos.
Pode-se observar na escrita de Seu Toinho ‘’ caraibera arvore malalta darejiaõ i mal
valorizada du sertão nordestino. Como madeira di lei’’ características de uma pessoa que
não teve acesso à escola, muitos erros ortográficos aparecem, entretanto na sua relação
com o desenho observa-se sensibilidade e firmeza nas mãos. O texto que registra ao lado
da imagem nos leva a pensar que é um cidadão consciente preocupado com a natureza,
com a preservação das árvores da região, além do aspecto afetivo com a região que mora,
trabalha, vive.
As imagens seguintes são registros de artistas que documentaram seu processo
artístico e poético nas páginas de seus cadernos, através dos elementos plásticos
chegamos mais perto das idéias e investigações feitas por artistas dentro do universo da
linguagem visual.
Muitos dos Diários e cadernos de artistas não são publicados, ficando restritos
apenas aos espaços que são expostos, outros, são publicados, possibilitando aos leitores o
contato com o universo do artista e sua trajetória no campo da arte.
Segundo o autor de “Página violada”, a reprodução em fac-símile
26
de obras
esgotadas é uma valiosa colaboração ao permitir a disponibilização do objeto de arte em
grande escala, com grande território de distribuição.
Estão disponíveis no comércio varejista, postal ou virtual livros com Jazz, original de
1947, de Matisse; O diário de Frida Kahlo: “um auto-retrato íntimo”, originais de 1944 a
1954, publicado na íntegra postumamente a partir de 1995 em diversos paises, tornando-se
um best-seller da área; e talvez o mais importante entre os fac-símiles contemporâneos
(SILVEIRA, 2001, pp.191-192).
26
‘’Reprodução fotomecânica de uma peça gráfica ou plástica preexistente. A obra impressa obtida
por esse processo ‘’ (SILVEIRA, 2001, p.313).
115
Figura 18
Henri Matisse, Jazz, 1947, em exibição no museu de Arte do Rio Grande do Sul, 2000.
(exemplar do acervo da Biblioteca Nacional, Rio de Janeiro).
Fonte: SILVEIRA, Paulo. A Página Violada: da ternura a injúria na construção do livro de artista.
Porto Alegre: UFRGS, 2001. p.193.
FOTO: Sílvia Cunha
116
Figura 19
FUENTES, Paulo. O diário de Frida Khalo – Um auto-retrato íntimo. São Paulo: José
Olímpio, 1995.
FOTO: Sílvia Cunha
117
Figura 20
LAIDLAW, Jill A. Frida Khalo.São Paulo: Editora Ática, 2004.p.42
‘’Vou escrever para você com meus olhos’’
Frida Khalo
FOTO: Sílvia Cunha
118
A imagem a seguir é o livro em sanfona escrito por Blaise Cendrars e Sonia
Delaunay em 1913.
Segundo Silveira:
[...] ele eslindamente disposto de modo que se pode vê-lo do outro lado
de recinto como se fosse uma pintura elegantemente equilibrada, uma das
pinturas simultâneístas de Robert Delaunay, por exemplo. De perto, é mais
como cubo-futurismo: se você esteve num trem cortando a zona rural
russa no meio da noite, com grandes fachos de luz batendo
intermitentemente dentro de seu compartimento escuro, é sobre isso que é
esse livro. As cores de pochoir de Sonia Delaunay interagem com os tipos
multicoloridos do poema de Cendrars com um efeito maravilhoso, delicado.
O efeito do pochoir é de fato mais próximo da aquarela em sua liberdade, e
existem passagens de, digamos, pincelada vermelha sobre tipo rosa, cuja
textura nenhuma reprodução pode transmitir. Se você ama livros,o perca
esse (SILVEIRA, 2001, pp.152-153).
119
Figura 21
Sonia Delaunay e Blaise Sanders, La Prose du Transsibérien et de l apetite Jehanne de France, 1913
(Biblioteca Mario de Andrade - São Paulo).
Fonte: SILVEIRA, Paulo. A Página Violada: da ternura a injúria na construção do livro de artista.
Porto Alegre: UFRGS, 2001. p.152.
FOTO: Sílvia Cunha
120
A imagem que segue é referente ao Diário de anotações da artista plástica
Lygia Eluf, acompanha a imagem o registro escrito da artista, onde ambos se
complementam. O Diário da artista é um claro exemplo nessa pesquisa como
transitam os pensamentos conscientes e inconscientes, visuais e escritos dos
sujeitos que registram, pois ora a artista escreve sobre seus trabalhos, ora escreve
sobre suas inquietações íntimas, ora expressa suas angústias, e revela a questão da
cor no seu processo artístico. O percurso presente no Diário mostra-se as diversas
fases da construção, das tentativas e das emoções da artista.
A artista afirma:
algum tempo mantenho o hábito de anotar minhas dúvidas e escolhas
em cadernos de desenho. Quando iniciei a série Os campos da cor, reuni os
apontamentos, surgidos durante o processo de trabalho, como um registro
de reflexões que pudesse, de algum modo, esclarecer aquelas realizações.
Essa decisão pela reunião de algumas anotações é uma tentativa de
compreender a essência de meu trabalho e tentar verbalizar seus
fundamentos, que entendo como a expressividade da cor pela cor.
Escrever era como um registro do que projetava do real ou do que se
introjetava no imaginário. [...].
O Diário é o produto de um exercício cotidiano pelo qual tento compreender
a escolha do azul e do vermelho, duas cores que dominaram o trabalho em
questão, não apenas como uma opção estética, simbólica ou histórica, mas,
antes de tudo, como resultado de um sentimento, de uma manifestação
perceptiva (ELUF, 2004, pp.15-16).
121
Figura 22
ELUF, Lygia. São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo
Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, 2004.
Para manter-se unido, solidariedade.
K ´um, o receptivo tema
A união e nas receptivas leis
Manter-se unido traz boa fortuna
Indague ao oráculo mais uma vez se você possui elevação, constância e
preserverança, então, não há culpa.
Os inseguros gradualmente se aproximam àquele que chega tarde demais
encontra o infortúnio. [...].
FOTO: Sílvia Cunha
122
A artista explora no Diário a intensidade das cores através de suas
experimentações plásticas e pensamentos, devaneios. Relaciona a cor com estado
de espírito, memória, afeto, equilíbrio, para Eluf cada cor tem seu significado, sua
identidade.
A artista diz:
Preciso perceber e explicar a cor como substituta do objeto que represento
e também, mais difícil ainda, sua existência antes do pensamento.
Parecem-me questões importantes como exuberâncias do espírito ou
profundezas da alma, difíceis de ser objetivadas, intensas quando
sonhadas.
(ELUF, 2004, p.110).
A análise dos sujeitos da pesquisa e outros aqui citados nos faz pensar de
forma mais profunda e significativa sobre o registro das imagens, essas análises são
complexas pelo fato de estarmos lidando com símbolos, resultado de pensamentos
inconscientes dos sujeitos analisados.
De acordo com Jung,
É o consciente que detém a chave dos valores do inconsciente e que,
portanto, representa a parte decisiva. Só o consciente é competente o
bastante para determinar o significado das imagens e reconhecer o seu
sentido para o homem, aqui e agora, na realidade concreta do seu presente.
É apenas na interação do consciente com o inconsciente que este último
pode provar o seu valor e, talvez mesmo, revelar uma maneira de vencer a
melancolia do vazio. Se o inconsciente, uma vez ativado, for abandonado a
si próprio, o risco de os seus conteúdos se tornarem dominadores ou
manifestarem o seu lado negativo e destruidor (JUNG, s-d, p.257).
Para finalizarmos a categoria desenho conclui-se que todas as imagens que
apareceram nos Diários dos sujeitos investigados transcendem análises exatas, pois
todas essas imagens que apareceram são a expressão simbólica de um mundo que
se encontra por detrás da consciência. As análises e interpretações devem ser vistas
como possibilidades de um pensar e construir a práxis, e o como verdade única
de um pensar. A verdade da arte é uma verdade mutável, não absoluta ou final. O
que hoje é considerado verdadeiro pode deixar de ser amanhã. A verdade da arte
123
tem um comprometimento diferente daquele da verdade científica: é uma ficção
regida pelo projeto poético do sujeito. Segundo Salles (1998, p.137) ‘’ as
características da verdade peculiares de cada obra estão relacionadas à atitude
subjetiva do autor’’. Seguindo o mesmo raciocínio vale destacar aqui o pensamento
de quem também transita no universo dos registros e da documentação:
Podemos perguntar que espécie de verdade pode se encontrada em um
caderno de esboços ou caderno de notas, e que dano ao conhecimento da
biografia do artista a ficcionalização de suas memórias pode causar. Isso
pode implicar ferimento no grau de valor que tem o Diário de um artista
como documento para o pesquisador ou como obra para o público.
Afinal, existem diferentes graus de espontaneidade e verdade nos
diferentes tipos de Diário de artista.
Mas afinal, que é verdade plástica?
A resposta pode estar em nova pergunta: será que queremos a realidade,
ou queremos a ficção? (SILVEIRA, 2001, p.101).
Inicia-se agora um passeio pela escrita, tema bastante presente no discurso
dos sujeitos:
A professora observa:
Eu acho que eu tenho uma coisa com o escrever, eu gosto de escrever, acho que se
relaciona com...Com o desenhar, eu gosto de escrever no papel, eu escrevo no
computador, agora eu comprei essa maquininha aqui (risos), né? Eu escrevo, passo
depois para o computador coisas, outras eu não passo, prefiro no papel mesmo
(risos), uma coisa não substitui a outra, é diferente.
Acho que escrever no computador é completamente diferente de escrever...
Eu comecei a escrever com essas letrinhas. Eu comecei a experimentar uma coisa,
quase sem... Separar as palavras...Também são todos escritos de viagem.
No texto de Salles, no capítulo “Isolamento e Relacionamento”, a autora cita
Cesare Pavese (1988) que diz: ‘’Escrever, contém duas alegrias: falar sozinho e falar
a uma multidão (SALLES, 1994, P.81)”.
124
A professora diz que alguns Diários são muito íntimos e que estes não mostra
a ninguém e outros que são registros de sua prática cotidiana, aulas, planos
pedagógicos, viagens, etc. o artista observa que tudo que fazemos, que vivemos
é uma coisa única e que não dá para fragmentar.
O artista diz:
Não precisa dividir sua vida, a vida é muito ampla para ser dividida. Tem que dar um
passo à frente, né? Vonão acha?
Em relação à escrita, Matuck diz:
Aí, você falou em desenhar e escrever...
Porque antigamente o livro era o papiro. Você sabe a história?
Essa é minha tese sobre a história da escrita.
Eu tenho um trabalho que eu fiz dentro da FAU, que eu comecei a estudar a história
da escrita, depois eu te mostro o trabalho...
Aqui é manuscrito, ela é escrita à mão e tem a ver com todas as diagramações que eu
estudei, né?
A escrita para mim é uma loucura.
A escrita é uma loucura.
O significado da escrita, nossa senhora...Pra mim é uma loucura. O pessoal acha
graça, né?
Acha que é um delírio...
Para o artista a escrita, as letras, as palavras e o alfabeto são vistos como
elementos plásticos, como projeto poético e criativo. Nesse caso percebe-se nos
cadernos do artista uma narrativa visual que é reflexo do sujeito-artista, seus
pensamentos, idéias e criações.
para Zspigel a escrita é a maneira que a professora encontrou de
documentar sua prática na escola, de certa forma a professora quando escreve
reconstrói a experiência, dando a possibilidade de distanciamento e de análise, além
125
de facilitar a possibilidade de socializar a experiência, compartilhando com outros
professores e até mesmo alunos.
Torna-se através do registro uma professora consciente de sua práxis, de
suas ações, o que permite mudanças qualitativas nas ações pedagógicas e nas
suas inquietações pessoais.
Figura 23
Mariza Zspigel. Diário, s.d.
FOTO: Sílvia Cunha
126
Nessa sentido, Zabalza afirma que:
Os diários contribuem de uma maneira notável para o estabelecimento
dessa espécie de círculo de melhoria capaz de nos introduzir em uma
dinâmica de revisão e enriquecimento de nossa atividade como professores.
Esse círculo começa pelo desenvolvimento da consciência, continua pela
obtenção de uma informação analítica e vai se sucedendo por meio de outra
série de fases, a previsão necessária de mudanças, a experimentação das
mudanças e a consolidação de um novo estilo pessoal de atuação
(ZABALZA, 2004, P.11).
O desenvolvimento da consciência é um importante dado que o Diário
contribui; percebe-se que o sujeito que registra é mais consciente e mais critico, pois
o registro envolve pensamento e ação, que são mediados pela linguagem, seja ela
verbal ou não verbal, e através da linguagem conseguimos chegar mais perto do
que os sujeitos representam.
Através dos registros escritos de ambos sujeitos analisados percebemos o
sentido da escrita para Zspigel e o sentido da escrita para Matuck e os momentos
que esses se cruzam.
Jung afirma
:
Cada palavra tem um sentido ligeiramente diferente para cada pessoa,
mesmo para os de um mesmo nível cultural. O motivo destas variações é
que uma noção geral é recebida num contexto individual, particular. As
diferenças de sentido são maiores naturalmente quando as pessoas têm
experiências sociais, políticas, religiosas ou psicológicas de nível desigual
(JUNG, s-d, p.40).
É curioso observar nas páginas dos Diários dos sujeitos analisados e por
outros que, aqui passaram, que o registro é feito de uma diversidade infinita de
códigos, de símbolos que são complexos, entretanto, na proximidade investigativa
da pesquisa qualitativa com os sujeitos e seus Diários, conseguimos fazer uma
análise das representações construídas pelos sujeitos e percebemos que a escrita
não conta para ambos, pois sempre ao lado da escrita acompanha um desenho,
uma seta, um sublinhado, um círculo, uma linha curva, algumas pinceladas, um
127
desenho que representa o objeto comentado, enfim, a palavra nos Diários não
conta de expressar o que os sujeitos pensam e sentem.
Figura 24
Mariza Zspigel. Diário, s.d.
Aí esse daqui é o primeiro diário que eu, que... Eu selecionei. Não é o meu primeiro
diário da Vila.
Está vendo, ó? Então aqui estão os comentários da Cristina. Ela anotava muita coisa.
Então nesse diário não tinha aquela coisa de ser meu, ela escrevia, dái eu lia e a
partir do que ela fazia de devolutiva eu me alimentava; e ela gostava demais dessas
‘’coisinhas’’ que começaram assim...Sabe...Eu meio que colocava umas
ilustrações...né?
FOTO: Sílvia Cunha
128
O registro da artista plástica Lygia Eluf no Diário fundamenta de forma bem poética
essa questão:
Figura 25
ELUF, Lygia. São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo:
Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, 2004.
Não posso apresentar meus sentimentos na forma como eles existem.
Espero que apareça algo em meu trabalho que os denuncie. Talvez uma
mais completa harmonia nas cores: talvez cadencias mais ricas, efeitos de
cor mais curiosos, de ordem construtiva mais simples de, ao menos, uma
certa beleza.
Faço apontamentos perguntando-me por que não me limito apenas a
perceber e anotar. O registro verbal não basta: é preciso ir além, é
necessário construir meu trabalho com meios plásticos. Estes me desafiam
a encontrar a melhor materialidade, a melhor técnica, o melhor suporte, os
melhores resultados. Devaneios concretos... (ELUF, 2004, s.p).
FOTO: Sílvia Cunha
129
A imagem abaixo revela as anotações que os atores fazem sobre o texto do
dramaturgo, os atores registram em palavras aquilo que depois o corpo e a voz
concretizará. São registros verbais das artes cênicas; palavras e códigos que
passam a ter um determinado valor dentro do processo, para aquele artista.
Figura 26
Marlene Fortuna. Anotações para a encenação de Medeia, p.119.
Fonte: SALLES, C. A. Gesto inacabado: processo de criação artística. o Paulo: Annablume, 1998.
Tomando como exemplo a literatura, observa-se que o processo de criação
de poemas, contos ou romances não é feito só de palavras. a
intervenção de diferentes linguagens em momentos, papéis e
aproveitamentos diversos.
Nos documentos de processo são encontrados resíduos de diversas
linguagens. Os artistas não fazem registros, necessariamente, na linguagem
na qual a obra se concretizará. Ao acompanhar diferentes processos,
observa-se na intimidade da criação um contínuo movimento tradutório. [...]
Nosso olhar, no momento, volta-se para esse íntimo da criação que é
tocado pela trasmutação de códigos. As linguagens que compõem esse
tecido e as relações estabelecidas entre elas é um dos aspectos que dão
unicidade a cada processo
(
SALLES, 1998, pp.114-115
).
FOTO: Sílvia Cunha
130
O Diário é o objeto de um exercício cotidiano, resultado de sentimentos, de
manifestações perceptivas, estados de espírito, inquietações, desejos e decepções.
Alguns Diários são territórios muito íntimos, devaneios e refúgios ocasionais,
em muitos casos torna-se um espaço vital de desabafo, diálogo, um espaço mental.
Seguem os Diários de registro de Anne Frank e Zlata, duas meninas que
viram suas vidas transformarem radicalmente sem conseguirem entender muito por
quê.
Nas longas horas de silêncio obrigatório e de inatividade, liam, pensavam e
escreviam nos seus Diários, transpondo para o papel tudo o que não tinham
confidenciado a amiga que não possuíam.
Figura 27
FILIPOVIC, Zlata. O diário de Zlata: a vida de uma menina na guerra.
São Paulo: Companhia das Letras, 1994.
“O que esta guerra fez com meus pais! [...] Eles já não se parecem com meu pai e minha mãe
(ZLATA, 1994, s.p)”.
FOTO: Sílvia Cunha
131
Figura 28
FILIPOVIC, Zlata. O diário de Zlata: a vida de uma menina na guerra.
São Paulo: Companhia das Letras, 1994.
FOTO: Sílvia Cunha
132
Figura 29
FILIPOVIC, Zlata. O diário de Zlata: a vida de uma menina na guerra. São Paulo:
Companhia das Letras, 1994.
Nos depoimentos coletados observa-se de que forma os dois sujeitos pensam
a respeito da formação do aluno, a relação do ensinar-aprender.
Zspigel está inserida no espaço formal e informal de ensino, atua como
professora de Artes Visuais numa escola particular na cidade de São Paulo e atua
também como formadora de professores da rede pública para o ensino da arte
através da Organização Não Governamental – Cedac.
Matuck está inserido no espaço informal de ensino, aulas particulares de
desenho e pintura no seu ateliê, na cidade de São Paulo.
No relato de Szpigel conseguimos perceber sua concepção de ensino e sua
relação com os alunos no espaço escolar; Matuck relata sua insatisfação em relação
FOTO: Sílvia Cunha
133
à educação e as Universidades, o tema aparece no discurso de ambos, de formas
diferentes, devido à formação de cada um e o local de ensino onde cada um transita,
porém se complementam e faz sentido se pensarmos hoje o ensino das Artes
Visuais nas Instituições de ensino:
Em relação ao ensino a professora relata que:
E é coisa de você entender que o ensino e a aprendizagem são processos diferentes,
né? E a gente... Eu não entendia isso na época. A gente veio de uma, da escola
transmissiva e assim... Professores que não... Não aprende. É o processo ali que ta...
E não é. Hoje em dia a gente sabe que não é.
Alunos com cabeças diferentes, pensando coisas completamente diferentes. Isso é
uma coisa que me angústia muito.
Que é hoje, mas é que... Talvez a gente tenha vivido um momento da escola
diferenciada, que é trabalhar em escola mais alternativa, escola menor e morreram
todas, né? Porque a escola ela tem essa coisa de linha de produção, de muito...
Atender muito.
Eu falo você aprende, eu ensino, você aprende. E hoje em dia a gente vive um
caminho... Que é... Professor sabe que os projetos são outros, mas é escola. Acho
que esse é o problema, né? Do formato escola.
Já o artista observa:
Eu gosto muito da educação da criança, né?
Porque para mim não é diferente da do homem, né?
Para mim Educação Infantil não é diferente da educação. Acho que tem um engano
muito grande.
É muito perigosa, ela é muito pequena, pobre...
Eu dou aulas ultimamente, para alunos... Eu tenho um pequeno grupo de alunos
novos, comuns...Que eu vejo que está afim. E a maioria são alunos com necessidades
especiais. Eu tenho o Osmar santos, um professor cego...
134
No depoimento de ambos percebe-se que existe uma insatisfação com a
educação, devido o formato da escola e a maneira que os professores ensinam os
alunos.
Zspigel reflete sobre a questão do ensino-aprendizagem, relata sobre a
concepção de educação tradicional, conservadora, transmissiva, onde os alunos
recebem o conhecimento dado pelo professor sem o exercício da reflexão, no
sentido, de formar um cidadão crítico, menos alienado. A professora faz uma
comparação entre a escola e a indústria, quando diz que: “porque a escola ela tem
essa coisa de linha de produção, de muito... Atender muito.’’
A professora afirma a teoria de muitos pensadores no campo da educação
que até hoje a escola mantém-se equivocada em relação ao seu formato, concepção
e projetos pedagógicos, tentando acompanhar um complexo mundo que é mutável e
poroso, entretanto os próprios professores e toda comunidade escolar sentem-se
perdidos no meio de tantas mudanças.
A professora reflete também sobre os alunos quando diz: ‘’Alunos com
cabeças diferentes, pensando coisas completamente diferentes. Isso é uma coisa
que me angustia muito.’’
Os alunos são um reflexo do mundo que vivemos, um mundo de
entretenimento, de prazeres rápidos e a professora se angústia quando sente-se
perdida, sem saber por onde ir, pois essa é uma realidade que não depende só dela.
De acordo com o referencial teórico da pesquisa, destacou-se, um autor inquieto,
que problematizou o pensar, decidir e do optar para ação transformadora no campo
da Educação.
O autor afirma que, ‘”saber ensinar o é transferir conhecimento, mas criar
as possibilidades para a sua própria produção ou a sua construção’’ (FREIRE, 1996,
p.47).
Matuck no seu depoimento relata que existe um equívoco na educação hoje,
nos levando a refletir quando afirma que: Para mim Educação Infantil não é
diferente da educação. Acho que aí tem um engano muito grande. É muito perigosa,
ela é muito pequena, pobre...”
Na fala de Matuck aparece a representação do que ele acha da escola e a
forma que os professores educam as crianças, pois o mesmo pontua
especificamente a educação infantil. Refere-se à forma do pensar o educar como
’pequena’’ e ‘’pobre’’.
135
O olhar do artista transcende, talvez, o olhar dos que estão dentro da escola,
condicionados ao espaço, a rotina, ao cansaço.
O pensador do campo da Educação afirma,
O que importa, na formação docente, não é a repetição mecânica do gesto,
este ou aquele, mas a compreensão do valor dos sentimentos, das
emoções, do desejo, da insegurança a ser superada pela segurança, do
medo que, ao ser ‘’educado’’, vai gerando coragem (FREIRE, 1996, P.45).
Nota -se que cada sujeito tem um olhar sobre ensino-aprendizagem, nesse
sentido a professora explora mais a temática, indo e voltando várias vezes ao
assunto, lembrando dos alunos, da relação deles com o registro, a escola e as novas
possibilidades de aprendizagem; observa a página de um dos seus Diários e reflete:
Figura 30
Mariza Zspigel. Diário, s.d.
FOTO: Sílvia Cunha
136
Ele é mais um registro descritivo, das situações de sala de aula, se a gente for ler né?
Depois eu dei um curso sobre isso, Diários de professor... E eu retomei todos os
meus registros, li o Zabalza, então... Assim... Comecei a entender melhor o registro.
Então eles são bem pouco reflexivos.
A professora tem a preocupação de registrar da forma certa, ainda lhe
angustia a idéia de achar que seus registros são pouco reflexivos, perde-se entre os
tipos de suporte e os tipos de registro. Seus registros são diversos, não faz parte do
mesmo caderno os registros de viagem, pessoais e os registros da escola. Szpigel
separa os suportes e conteúdos, para cada história existe um caderno. A professora
nomeia de Diário de bordo os registros de viagens, nomeia de Diário os registros da
escola, os blocos de nota são anotações rápidas, que depois ela passa a limpo para
os Diários. Essa diversidade de cadernos existe no universo de Szpigel, e segundo
sua entrevista, percebe-se uma busca teórica para aperfeiçoar seus registros, pois
em alguns momentos mostra-se insatisfeita com os pensamentos registrados.
Zspigel, que também atua como formadora de professores recorre a Zabalza,
que é um autor bastante citado nessa pesquisa. A professora no contato formativo
com os professores observa uma questão significativa em relação aos Diários,
comenta que:
Figura 31
Mariza Zspigel. Diário,s.d
FOTO: Sílvia Cunha
137
Então, esses são do MAM...
Que é assim, óh... Depois, aí olha pra onde foi esse diário, está vendo?
E a gente fez o trabalho com a Ester, o caminho das artes em que a gente fez o diário
do professor e era assim... O diário do aluno. É que não sobrou, o diário do aluno.
É que era assim... O diário do aluno era pequenininho... E do professor tinha algumas
orientações didáticas aqui na lingueta.
Era uma página maior e esses espaços para o professor escrever.
Então... (pausa).
Aqui é o crachá. É que o meu eu fui usando durante os trabalhos.
Então ó... Está vendo? Essa parte cada educador.... Professor que fazia os encontros
com a arte que é um curso de formação para professores e pedia no início do curso,
eles tinham uma duração de três meses e recebia esse diário...
Agora é muito engraçado, né?
Então, eles não faziam, sabe o que eles faziam? O diário ficava limpinho, branquinho,
imaculado. Eles têm isso como um objeto, mesmo chamando diário... Isso daqui eu
fiz, acho que no terceiro ano desse trabalho pra mostrar pra eles como era para eles
usarem e se apropriarem... Desse objeto. Não, eles tinham uma coisa assim... Ai, mas
é lindo! E eles deixavam ali sem usar, (risos). É super difícil romper.
Eles faziam rascunhos... ‘’Mas depois a gente passa a limpo’’. Gente... Diário não tem
que passar a limpo, diário é direto, porque é rabiscar, riscar... Ai não... Eles tratam
como livro e não como diário. E a gente faz o inverso, né? Trata o livro como Diário,
vai rabiscando, escrevendo (risos). Os meus livros têm que ser meus, né?
Nesta fala “O diário ficava limpinho, branquinho, imaculado’’ percebe, tal
como cita LANE (1994, p. 42), que: “a questão da alienação – consciência só poderá
ser analisada, no plano individual, enquanto processo que envolve,
necessariamente, pensamento e ação, mediados pela linguagem produto e
produtora da história de uma sociedade’’.
Sendo assim, parte-se do pressuposto que as Instituições prescrevem os
papéis sociais e condicionam as relações sociais de cada indivíduo, mantendo a
alienação em relação ao que ele é como pessoa e, conseqüentemente, ao que ele é
socialmente.
A professora percebe essa alienação por parte dos professores quando
observa que não registram nos Diários, não tem o hábito da escrita e
138
conseqüentemente da reflexão. Ainda são extremamente resistentes, conservadores
e mantém práticas cristalizadas.
Zspigel tem consciência que o exercício do registro legitima sua prática
reflexiva e inacabada. A professora relata que Diários e livros devem ser riscados,
marcados, sublinhados, degustados, pois dessa forma se apropria da fala dos
autores estabelecendo um diálogo que sistematiza o conhecimento do docente e do
artista.
O artista relata num determinado momento da entrevista seu olhar em relação
ao ensino, é mais despojado para tratar do assunto e trata o tema com certo teor
crítico e irônico aos espaços de ensino:
A pesquisa eu adoro, eu não gosto da Universidade, é outra coisa.
Não me dou bem com a Universidade, eu acho caça-níquel e eu não gosto.
Eu prefiro dar aula particular. É ótimo.
Eu não consigo tirar ninguém.
Sabe essas coisas... Ah... Vamos tirar fulano, vamos fazer um grupinho de pesquisa.
Eu já dei aula em faculdade, na Universidade de Taubaté. Universidade de Arquitetura.
Foi um fracasso total. Eu realmente não consigo participar de grupo, né?
Tinha muito cara de esquerda que perseguia professor e os caras de direita que
perseguiam os de esquerda. Era um inferno. Deus me livre!
Matuck reflete que não se adaptou ao sistema de como funciona a
Universidade, faz um discurso transparente quando diz que as Instituições de ensino
muitas vezes caminham no sentido contrário da produção e democratização do
conhecimento.
É importante destacar aqui que a percepção do artista em relação às
Instituições é percebida também pelos professores, que muitas vezes se sentem de
mãos atadas em relação aos projetos pedagógicos, parcerias, extensões, pesquisas;
são profissionais tolidos por aqueles que não são da área da Educação, mas que,
por serem bons gestores administram as Instituições sem ter o conhecimento
específico dos cursos e programas que gerenciam, ficando a desejar um ensino de
qualidade e com incentivo à pesquisa.
139
Observa-se que o artista sente-se melhor ministrando aulas no seu espaço de
trabalho com alunos interessados, livre de políticas Institucionais que o mesmo não
tem vontade de se envolver.
Como a arte; a formação do professor e conseqüentemente do aluno, deveria
ser a consciência do inacabado, do sujeito sempre em construção. De acordo com
Freire (1996) mesmo sendo o sujeito um ser condicionado, tendo a consciência do
inacabado pode ir além, esta é a diferença profunda entre o ser condicionado e o ser
determinado.
Afirma o autor,
A diferença entre o inacabado que o se sabe como tal e o inacabado que
histórica e socialmente alcançou a possibilidade de saber-se inacabado.
Gosto de ser gente porque, como tal, percebo afinal que a construção de
minha presença no mundo, que não se faz no isolamento, isenta da
influência das forças sociais, que não se compreende fora da tensão entre o
que herdo geneticamente e o que herdo social, cultural e historicamente,
tem muito a ver comigo mesmo (FREIRE, 1996, p.53).
A professora registra nos Diários a lembrança dos discursos e processos
criativos dos alunos, faz uso de colagem de fotografias no qual registra os momentos
que seus alunos desenham e pintam. Ao mesmo tempo em que a professora reflete
sobre a produção dos alunos nas aulas de artes visuais, também observa o
comportamento e procedimentos dos professores quando atua como formadora:
A professora relata:
Aqui eram umas ‘’arvorezinhas ‘’ que eles fizeram... E da mesma criança...
E uma coisa que eu queria analisar com as professoras é das marcas
pessoais... Independente da modalidade... A colagem talvez fique mais difícil
porque, a marca fica mais escondida... Recortada, talvez perde um pouco.
Mas... A pintura é muito... Presente.
Então por exemplo... Essa árvore, a primeira é essa de observação, como ela
tem muitas marcas pessoais... Essa também... Cada aluno... Essa e essa... Essa
professora falava... Ele desenha muito bem, muito bem... Quando você coloca
numa situação de fazer desenho de observação ele continua com esse desenha
muito bem, mas com outro referencial... Olha essa!
140
Então é... Essa menina... É... Uma que estava do lado disse assim: ‘’Ela não
sabe fazer, Zá, por isso que eu to ajudando ela’’...Porque ela estava fazendo
uma outra árvore, assim, né?
Aí eu falei assim... ‘’ Não, mas essa árvore que ela está fazendo, que era essa, é
dela.’’
E ela disse... “Mais olha como ela está fazendo, no canto, não vai caber direito,
tem que fazer bem no meio...’’ (risos)
Que Aparecem bem umas concepções que você vê que é da professora (risos)
Aí eu disse... Não... Pode ser no meio, no canto, pode ser em cima, pode ser em
baixo... Como cada um ocupa é importante né?
Aí ela disse... Aí então ta bom!
Aí ela ficou fazendo... Eu disse, faz a sua e deixa ela fazer a dela, se você quiser
dar uma idéia, pode...Mas não precisa fazer por ela...Aí ela virou e retomou a
dela.
Aí na última que foi de observação, essa mesma criança... Olha como ela pega
daqui e joga pra cá...
Lindo, expandiu. Porque quando era uma árvore imposta pelo senso comum
ela intimidava, na hora que ela começou a se soltar e viu que podia, né? Que é
legítimo... Esse tipo de experiência ela mandou ver.
Figura 32
Mariza Zspigel. Diário, 2006.
FOTO: Sílvia Cunha
141
F
igura 33
Mariza Zspigel. Diário, 2006.
A professora observa que os procedimentos dos professores em sala de aula
estão mecanizados, observa que as falas das crianças são decorrências das falas
dos professores, ou seja, os alunos representam aquilo que os professores lhes
ensinaram que é certo fazer. Quando uma pessoa de fora, no caso o formador, faz
uma intervenção, acontece um movimento positivo em relação ao que a criança
pensa e fala.
Continua Zspigel...
FOTO: Sílvia Cunha
142
Figura 34
Mariza Zspigel. Diário, 2007
.
E essa oficina foi uma oficina que eu amei dar... Assim... Muito... Assim, na verdade eu
amo todas, né?
É porque é uma coisa tão incrível, assim... E... Que as pessoas chamam isso de
mágica, né? Eu não acho que é mágica, é muito trabalho... (risos) Mas é mágico
assim... Porque... Essa criança, de primeira-série, nunca tinha feito um desenho
assim, todos desenhos a na maioria das vezes são desenhos que a professora
direciona... É... Desenha na lousa para as crianças copiarem... Sabe?
Muito figurativo muito de ilustração, para ilustrar livro... Então, assim... É uma coisa
que é muito rápido, né? Quem de fora acha que é mágica, mas que é assim... A
intervenção certa na hora certa e assim... Muito cuidadosa.
FOTO: Sílvia Cunha
143
Nesta fala da professora, muito figurativo muito de ilustração, para ilustrar
livro’’, ela consegue perceber que as professoras de classe não conseguem tratar a
arte como linguagem, pois ficam apenas no plano da ilustração, algo que ‘’decora’’.
Zspigel relata que consegue transformar esse quadro através de muito trabalho,
pesquisa e olhar apurado, quando diz:as pessoas chamam isso de mágica, né?
Eu não acho que é mágica, é muito trabalho’’.
Tal como cita Paulo Freire,
Não posso ser professor sem me achar capacitado para ensinar certo e bem
os conteúdos de minha disciplina não posso, por outro lado, reduzir minha
prática docente ao puro ensino daqueles conteúdos. Esse é um momento
apenas de minha atividade pedagógica. Tão importante quanto ele, o ensino
dos conteúdos, é o meu testemunho ético ao ensiná-los. É a decência do
que faço. [...] A coerência entre o que digo, o que escrevo e o que faço
(FREIRE, 1996, p.103).
Os dois sujeitos analisados mostram-se cuidadosos em relação ao educar,
estão atentos e sensíveis às falas dos alunos e a relação de ensino-aprendizagem
da arte. Percebe-se nas entrevistas e nas páginas dos Diários o reflexo dessa práxis
viva e mutável que acolhe os pensamentos e as inquietações dos sujeitos em
constante construção.
Transita-se agora por outro tema que também aparece em ambos os
depoimentos: memória. Marcas do nosso tempo tornam-se documentos. Referente
a esse tema Salles afirma que,
Lembrar não é reviver, mas refazer, reconstruir, repensar com imagens de
hoje as experiências do passado. A memória é ação. A imaginação não
opera, portanto, sobre o vazio, mas com a sustentação da memória
(SALLES, 1998, p.100).
144
Figura 35
GILBERT, Jan. Pesquisa para o progresso - Registro em memória para amigos e
parentes.1984. Assemblagem de meios mistos. 10X10X8’’
Fonte: HORVITZ, Suzanne R; RAMAN, Anne R.’’ Único em seu Gênero’’ – Livros de Artistas
Plásticos. Imagens tiradas do catálogo da exposição; organizada por Foudation For Today´s
Art/NEXUS, Filadélfia, PA, 1995, p.25.
FOTO: Sílvia Cunha
145
A professora manifesta um sentimento de nostalgia quando observa as páginas dos
Diários mostrados a pesquisadora:
Figura 36
Mariza Zspigel. Diário, s.d.
Eu adoro esse. Adoro olhar. Esse aqui também tem uma coisa igual de diário de
bordo. De lembrar tudo que eu fiz com os meus alunos. E que ele é isso aqui que vai
sobrepondo, vai colando, vai pondo...
FOTO: Sílvia Cunha
146
Figura 37
Mariza Zspigel. Diário, s.d.
Isso aqui eram as lições que eles tinham toda aula, eles tinham a lição de casa no
caderno. Porque? Ta vendo, ó, isso era uma lição de casa...Porque como eles eram
bem pequenininhos e tinham aula uma vez por semana...A gente tinha esse sensação
que ficava tudo muito longe...Então eles não lembravam o que estava estudando,
então era uma forma de...Mantê-los alimentados.
Então as lições, elas tinham esse caráter de recuperar a memória. O que é memória.
Então relacionar o caderno à memória, ao registro.
Isso ficava pendurado assim na sala, ficava assim, então quando eles chegavam
fazia parte da rotina como se fosse um calendário, eles iam lá e olhavam...Ah...Então a
semana passada a gente viu isso.
FOTO: Sílvia Cunha
147
Podemos constatar que é preconcebido ao livro, caderno e Diário sua função
de curador dos registros temporais, constituintes de uma memória que se quer
preservada. (Silveira, 2001, p.111)
Percebe-se que o formato dos cadernos é o preferido em registros que envolvem
temas temporais, especificamente afetivos ou líricos.
O Diário, nesse sentido, permite o diálogo gráfico e plástico com alterações
de ritmo e estilo, cadenciados com histórias pessoais que, espera, sejam
relacionadas.
No texto de Silveira (2001) Cláudia de lemos comenta sobre o trabalho da
artista plástica Anésia Pacheco e Chaves e seu trabalho apresentado com panos,
desenhos, livros e outros materiais na 20ª Bienal de São Paulo, em particular o
trecho em que ela registra a presença dos livros:
[...] Aí, essa mania das mulheres de guardar as lembranças, os bilhetes, os
recortes, a flor seca do ramalhete do amante, uma mescla de cabelo e
cintos intactos de vestidos muito desaparecidos. [...] Anésia decreta a
morte dessas lembranças. Não nada para guardar. O que se guarda no
espaço-arte-pintura criado pela moldura é apenas teatralização do vazio de
que são protagonistas os fragmentos do feminino. (Catálogo da 20ª Bienal
de São Paulo, 1989, p.115, apud SILVEIRA, 2001, p.112).
A relação do registro com o guardar, historificar momentos vividos parece
ser algo comum entre aqueles que fazem Diários, como se o vazio fosse
tranqüilizado pela memória, por algo especial a ser lembrado, contado,
compartilhado, somado, com o próprio sujeito da história guardada. Silveira afirma
que os livros atraem ‘’porque eles são muito secretos’’ (2001, p.108). O registro pode
ser considerado também como testemunhal, descrevem fatos, anotações de
momentos históricos e sociais. É o caso do artista Carlos Scliar e seu caderno de
registros: “O caderno de guerra de Carlos Scliar”, 1969, que demonstra outra
possibilidade de registro da experiência pessoal, através de desenhos e poucas
palavras.
No texto de Silveira (2001, p.106) aparece uma citação de Scliar onde o
próprio ressalva, ‘’Foram esses desenhos que me salvaram, Todos os dias pareciam
148
os últimos, a tensão era permanente.[...] Sim, tenho certeza que posso classificá-los
como desenhos de salvação! ‘‘.
Assim como Scliar deve-se relembrar e foi aqui abordado na pesquisa o
caso das duas meninas que escreveram seus Diários no meio da guerra, onde o
registro transitou entre a catarse e a serenidade, o vivido e o lembrado, o privado e o
público, o solitário e o coletivo, enfim, um objeto da memória, do real e do
imaginário, da verdade e da ficção. A cumplicidade entre objeto –sujeito, afetos
envolvidos.
O artista também, assim como a professora, estabelece uma relação com o
registro de guardar história; o tempo todo no seu discurso resgata a memória de
outros cadernos, livros, publicações; sua história está literalmente documentada
muitos anos e conforme observa num dos seus cadernos de registro relata:
Decalque mania, colagem, tudo que eu gosto. tem tudo que eu gosto. Aí é minha
infância total, pura. Aquarela é tudo, né?Fala a verdade, é luminoso, né?
É importante. É muito lindo. Então a HQ é muito importante para mim. Ele é muito...
Muito importante, entendeu? Ela é muito geradora de...
A memória resgata a infância, que revivi a história, permite assim chegarmos
mais perto das biografias das pessoas que nos interessamos; nesse caso o artista
através de seus relatos nos pistas do que gostava quando criança e o quanto
isso é presente no seu trabalho, no seu processo poético. As colagens, os
desenhos, as letras, as histórias em quadrinhos devoradas na infância são códigos e
elementos plásticos que o artista utiliza até hoje.
A artista plástica Lygia Eluf resgata a lembrança da sua infância no momento
que pesquisa a cor azul nos seus projetos poéticos, ela registra no seu caderno:
149
Figura 38
ELUF, Lygia. São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo:
Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, 2004.
O azul e o céu azul...
Existem lembranças que constituem alguns dos principais elementos de
meu universo cromático. Essa memória, se exercitada, me remete a
sensações muitas vezes remotas, que de algum modo determinam minhas
escolhas atuais.
Lembro-me perfeitamente de quando era criança de minha intenção de
representar, em um desenho, o azul do céu. A sensação estérea de minha
contemplação precisava ser traduzida por meio de meu lápis de cor, e o
resultado, absolutamente diferente do azul aéreo do céu me intrigava tanto
quanto a observação daquele espaço. Tudo o que era vivamente colorido
atraía minha atenção: as flores, as asas de besouros, as pílulas que os
adultos tomavam compulsivamente (a cor, pela primeira vez, associada aos
FOTO: Sílvia Cunha
150
humores humanos), as imagens vivas das revistas, o cinema. Entretanto, de
todas as cores, acima de tudo, havia o azul do céu e minha vontade de
representá-lo; lembro-me do espanto que causou o desenho e a sensação
daquela massa de azul dura e crua que havia criado, ora mais, ora menos,
brilhante, mas sempre muito vibrante. Tão diferente e tão distante daquele
líquido fino e fluente animado pelas nuvens...Não era capaz de entender o
que acontecia quando minha contemplação se transformava naquele azul
consolidado que os lápis pintavam. Não era um simples fundo para minha
paisagem, era um objeto concreto e poético. Essa foi minha primeira
sensação cromática, a qual se tornou um conceito.
Após iniciar as anotações sobre minhas pinturas, essas imagens
ressurgiram. Entender o que não foi possível quando criança tornou-se uma
espécie de obsessão: a impressão de pintar o azul do céu e torná-lo parte
de um sonho materializado. O ar azul e seu devaneio têm talvez um
paralelismo: menos do que um sonho, menos do que uma fumaça...A união
do meio-sonho e do meio-azul se fez no limite do imaginário.
Assim são meus azuis: paisagens cambiantes como lembranças, um
espaço que não oferece nenhum pretexto, um espaço onde a ação
imaginativa da cor determina o resultado final. O azul do céu não representa
todos os azuis: existe o do outono, que é o azul de um estado de alma; o da
profundidade da água do lago e o esverdeado do movimento da água e dos
mares (Primeira quinzena de maio de 1998 - ELUF, 2004, pp. 112-113).
Assim como Rubens Matuck e Lygia Eluf relatam nos Diários fragmentos de
memórias, lembranças da infância, outros artistas passam pelo mesmo processo na
construção de seus Diários, é o caso de Sebastião Salgado
27
e Paul Klee
28
.
Salles (1998, p. 94) cita Sebastião Salgado (1997) quando o fotógrafo
rememora a infância com olhos de fotografia: ‘’ É claro que eu tenho de trabalhar
contra a luz. A minha cidade, Aimorés, tinha um sol incrível. A gente vivia na sombra.
Eu sempre olhei meu pai chegando em casa na contraluz. Eu na sombra, ele vindo
do sol. Numa fração de segundo, eu restituo tudo isso’’.
Paul Klee (1990) registra nos seus Diários o modo de se relacionar com o
mundo, ao longo do tempo. De sua infância, ele se lembra do emaranhado de linhas
petrificadas nos tampos das mesas de mármore. Klee dominava a forma, mas
buscava a cor.‘’Custa-me a avançar no trabalho com a cor; não consigo abandonar
tão depressa a visão formal’’. (SALLES, 1998, p.94).
Percebe-se através desses relatos, tanto da professora quanto dos artistas
citados que os Diários possibilitam estarmos mais próximos de sujeitos menos
fragmentados, pois através das lembranças e dos pensamentos conseguimos
apreender o que os sujeitos pensam do mundo e de que forma o representam.
27
SALGADO, Sebastião. 1997. ‘’O fotógrafo da luz’’. Veja, 12 mar.
28
KLEE, Paul. 1990. Diários. São Paulo: Martins Fontes.
151
Fica claro que o Diário é um objeto biográfico de sujeitos que são produtos e
produtores da história de uma sociedade.
Salles (1998, p.20) cita Klee (1990): ‘’Um Diário não é uma obra de arte, mas
uma obra do tempo’’. Pode-se, portanto, afirmar que esses documentos guardam o
tempo contínuo e não-linear da criação.
Agora entramos na categoria/tema das referências, a relação dos sujeitos
com filmes assistidos, com pessoas importantes que os influenciaram na trajetória
artística e docente, os artigos, as teorias que foram significativas para ambos no
processo formativo em relação à vida profissional:
A professora diz:
Eu tinha assistido Gabbeh
29
nessa época com aqueles tapetes... Eu escrevia muita
coisa de trama... A escrita, ela sempre caminha um pouco perto das coisas que eu
desenho... Bom... Aí... Com esse negócio de um puxa o outro eu comecei a trabalhar
com uma coisa de linha... Eu também... Depois eu posso te mostrar algumas coisas
que eu tenho feito atualmente... Muito forte de trabalhar com a linha. Mas a linha...
Porque aqui... Eu to trabalhando no desenho, mas eu estava pensando a linha que
costura, que alinhava, que tece, que borda, né?
29
Gabbeh: direção: Mahsen Makhmalbaf. Irã, 1996.
Proibida de juntar-se ao seu grande amor, uma jovem de uma remota aldeia iraniana tem seus desejos e
fantasias representados na forma de coloridos "gabbehs", os rústicos tapetes iranianos, mundialmente
admirados e colecionados. Ela é o fio condutor da fantasia que se narra e tece na forma de lindos tapetes, com
personagens que parecem conversar com os fios como se eles pudessem decidir o destino das pessoas.
152
Figura 39
Mariza Zspigel. Diário, 1996
FOTO: Sílvia Cunha
153
Assim como Zspigel; no Diário de Paul Klee, o artista expressa certo apego
quando afirma que, a certa altura, o que tinha de mais pessoal era suas linhas.
(SALLES, 1998, p.75).
Figura 40
Mariza Zspigel. Diário, 1996
.
FOTO: Sílvia Cunha
154
A professora relata uma questão importante para quem está inserido no
universo da arte educação; a importância do professor pensar projetos poéticos,
desenvolver trabalhos plásticos, pois assim fica mais próximo do processo dos
alunos, percebe as dificuldades, faz as intervenções nos momentos certos. É
importante para o professor de artes visuais estar engajado no meio artístico,
apreciar exposições, filmes, conhecer ateliês. As percepções feitas fora do espaço
escolar ampliam o repertório do professor em relação às aulas, ao espaço escola,
aos projetos, as exposições, possibilitando aos alunos um olhar diferenciado do
ensino da arte.
Diários e anotações deixam, que nos aproximemos de momentos de
desenvolvimento daquilo que o sujeito pretende dizer. É comum aparecer nos
Diários, bilhetes, lembretes sobre o vocabulário de um livro, o uso da luz em uma
pintura. Observamos muitos exemplos em que uma simples anotação registra um
fragmento desse projeto e o movimento criador do artista e do professor, guardado
pelos documentos do processo, mostra pensamento e ação em função desses auto-
comandos.
Matuck relata no seu depoimento a importância de pessoas que cruzou no
decorrer de sua vida, as referências que foram significativas na sua formação:
O Leonardo... A grande paixão da minha vida é o Leonardo.
Fiz um livro infantil, levei 16 anos para publicar, do Leornardo. Eu e o Nilson Moulin,
que é um amigo meu, agora saiu.
Meu irmão falou assim... Você tem que conhecer um artista que chama Flexor, que é
um pintor moderno.
Aí eu fui e aprendi aquarela com o Flexor. Aquilo foi um, foi uma explosão... Ele
tinha 70 anos e eu tinha 16... Imagina? Eu 16 anos e o cara 70.
E ele fala de igual para igual. Para mim foi uma loucura. Ele falava como se eu fosse
um... É impressionante. Uma pessoa muito importante.
O Aldemir Martins é meu pai, esse é meu pai, ele me ensinou tudo, tudo, tudo.
Eu li uma HQ do tio patinhas e eu enlouqueci!
Diante da dificuldade de escrever, de pensar o processo criativo, o artista
depara com intensos momentos de prazer e encantamentos, e também com
155
instantes que o oferecem resistência, mas facilidade, como a fluidez das
associações. São fluxos de lembranças e relações: pessoas esquecidas, cenas
guardadas, filmes assistidos, sensações são trazidas à mente sem aparente esforço.
O artista relata a importância dessas pessoas na sua vida, é inevitável a
presença de marcas pessoais na percepção e no modo como o artista trabalha.
De acordo com o referencial sócio–histórico da pesquisa sabe-se que
o sujeito é constituído de suas relações sociais, a linguagem visual e verbal
recorrente nos Diários traz representações, significados e valores existentes
em um grupo social, e como tal é veículo da ideologia do grupo; enquanto
para o indivíduo é também condição necessária para o desenvolvimento de
seu pensamento. (LANE, 1994, p. 41)
O artista relata:
Tem que ler muito. Eu tenho uma biblioteca disso. Meu amigo que está fazendo
pós-doutorado levou tudo, emprestado.
As bibliotecas dos artistas o fonte bastante interessante de estudo para
aqueles interessados nos mecanismos criativos. Os livros, jornais e recortes
anotados e preservados mostram aquilo que interessa aquela artista e o modo como
a informação é apreendida.
“Há muitos casos de processos que exigem do artista, pesquisas de campo,
que revertem em anotações (SALLES, 1998, p. 126)”.
Sebastião Salgado visita alguns dias antes os lugares que vai fotografar, para
conhecer o local e seus habitantes, Guimarães Rosa, se alimentou de anotações de
pesquisas sobre o sertão de Minas Gerais.
Artistas contemporâneos relatam que tudo que aparece dentro de seus ateliês
se relacionam com seus trabalhos; coisas que os impulsionam, que alimentam
idéias, desde uma propaganda de biscoitos, até revistas, jornais, cartões, etc.
Em relação ao Diário de bordo, ambos se utilizam desse suporte de registro
para as anotações das viagens, dos espaços visitados, caracteriza-se por ser um
espaço diferente do Diário, pois aparece no discurso da professora como um outro
tipo de Diário, o Diário de bordo é específico para as viagens e para as anotações
156
que vão sendo observadas durante os passeios; o artista não faz tanta diferença,
no seu discurso ora é Diário de bordo, ora é caderno de registro, ora é livro, a
relação que ele estabelece com o objeto é diferente da professora, o artista busca
no registro a qualidade plástica, a pesquisa, o processo de seus trabalhos artísticos,
o que não elimina a relação do registro como documento que guarda história, idéias
e memória. a professora utiliza o Diário de bordo apenas como documento de
seus desenhos de observação e suas impressões dos locais que transita, não
aparecem muitas reflexões sobre as viagens ou projetos poéticos em relação aos
espaços visitados. Entretanto, é sempre presente a relação do Diário com os alunos,
pois relata em vários momentos que mostra os Diários aos alunos e que o Diário de
bordo dialoga com a prática de educadora.
FOTO: Sílvia Cunha
157
Figura 41
Mariza Zspigel. Diário, 1996
.
Eu adoro galinha também, sou apaixonada por galinha.
Quando eu fui para Milho Verde (risos), eu fui sozinha para essa viagem, aí...Milho
Verde é um lugar que tem um monte de galinha andando na rua...Eu ficava pensando
será que Milho Verde é porque tem um monte de galinhas?
Aí eu comecei a viajar que era a cidade das galinhas, que as galinhas é que
caminhavam que nem pedestres, nas ruas... (risos).
Porque elas andavam mesmo...
Mas tem muitas galinhas. Eu ficava o dia inteiro só vendo galinhas. Eu nem ia
caminhar muito para cachoeira, eu adorava ficar lá com as galinhas.
158
Figura 42
Mariza Zspigel. Diário, 1996
.
A professora relata que:
Aí a gente foi fazer uma viagem de campo, isso era uma coisa que eu fazia, já
bastante, que era o diário de bordo.
Então a gente foi fazer estudo de campo e aí eu fiz este registro da viagem.
Ele é bem, bem bloquinho... Coisas que você vai anotando tipo, no... café, bolsa do
café...Aí tem uns deseinhos também, aqui...
Está meio desmontado porque eu mostro pra caramba para os meus alunos, está
vendo...Então assim, as situações do cotidiano...
FOTO: Sílvia Cunha
159
Figura 43
Mariza Zspigel. Diário, 1997.
Tanto que esse daqui é uma coisa que... Eu não mostro porque acho que não tem
nada a ver. Não mostro pra ninguém. (risos). Mais é... (pausa).
Aí, bom... Tudo isso aqui vai vir desembocar nesses que são os que eu faço
atualmente.
Hoje é um formato que eu... Fico mais feliz. Então esses são os Diários que faço e
acho que tem a ver por conta da característica desse trabalho que eu faço no CEDAC,
na Ong. Que é de viajar.
Então ele junta uma coisa que é o Diário de Bordo, porque eu viajo e daí tem um
monte de coisas que... E a minha prática como educadora. Então tem sim...Um monte
de coisas que se planeja antes e um monte de coisas que acontece que você tem que
lidar com o imprevisível.
FOTO: Sílvia Cunha
160
No discurso do artista percebe-se a relação forte que tem com seus cadernos
de viagens, quando lhe faço a seguinte pergunta:
E aqueles Diários, são os registros das viagens que você fez?
O artista responde:
É. Aqueles pontinhos são os lugares que eu visitei, eu comecei a viajar por causa dos
livros infantis, mais intensamente em 85.
Tinha uma professora chamada Nísia que conhecia muito o Pantanal e a gente
começou a viajar para o pantanal, só que...Eu fiz duas viagens para o Pantanal e agora
eu fui para o extremo norte do Pantanal.
E tudo, esses pontinhos, aí são cadernos, mas tem mais, muito mais que isso, né?
Aí eu comecei a viajar, fui para o Amazonas, fiquei em Aldeias, e atualmente estou
concentrado em MG, que é esse caderno aqui, ó!
Estou tentando fazer um livro que é sobre o buriti, que eu amo o Buriti. Tem um
caderno do Buriti e tem esse novo que já é uma compilação.
E quando eu vou muito para um lugar eu começo a desenvolver vários cadernos, um
atrás do outro com significado.
Meu sonho é fazer um livro sobre o assunto brasileiro abrangente , geográfico, étnico,
botânico geográfico.
Eu morro de rir que as pessoas falam, você parece àquelas viajantes europeus
que...As viagens com caderno fazem a dois mil anos e eles enxergam a
Europa...Acho tão impressionante isso.
Tem livros de constelações árabes, tem livros chineses...Nossa! Tem cada livro... Tem
um livro bizantino... da Nobreza.
Esse livro aqui é sobre viagens.
Esse ‘’plantando uma amizade’’ foi um dos livros que me deu mais felicidade na
minha vida.
Plantando uma amizade é um caderno de registro de um cara que plantou a rua. Por
isso que ele é legal. Depois desse livro ‘’plantando uma amizade’’ a Ruth Rocha fez
um livro sobre a plantação de árvore. É um livro sobre a história da plantação, né?
Eu acompanho as árvores. Eu não só planto, eu acompanho.
161
Figura 44
MATUCK, Rubens. Cadernos de viagem. São Paulo: Editora Terceiro Nome, 2003. p.41
Salles (1998) destaca a necessidade dos sujeitos que registram saírem em
busca de informações. Nos Diários da professora e do artista são encontrados
rastros de coletas sobre cnicas utilizadas, lembretes, recortes de jornais, livros
citados, paisagens, lugares e trechos copiados são todos documentos dessa
necessidade de pesquisa, o que faz toda a diferença em relação à práxis e discurso
de ambos, pois percebe -se de fato que teoria e prática caminham juntos o tempo
todo.
No organograma do artista aparece o tema viagem que é recorrente nos dois
discursos, sendo que a professora enfatiza mais o aspecto espaço, como um
elemento importante de registro e por isso a importância de analisar determinada
categoria, pois, talvez a relação das viagens - espaços seja um forte vínculo com o
registrar, o que nos leva a pensar que viagens instigam pessoas a tirar as molduras
dos olhares cristalizados, exercitando nossos olhares a serem mais estrangeiros,
FOTO: Sílvia Cunha
162
explorando o novo, o não conhecido. O olhar de forma diferente para as coisas pode
levar as pessoas a querer guardar, documentar, por isso as fotografias aparecem
com tanta intensidade, as cartas e cartões são trocados, é uma forma de registrar o
vivido e mantê-lo vivo.
Em relação ao registro das viagens a professora relata que:
Como o lugar é uma coisa importante para esse trabalho de... Olhar para o lugar,
então a gente sempre pesquisa na Internet como que é o Município e tal...Pra pensar
no planejamento antes em conexões significativas e tal... Mais também aparecem
coisas muito novas (risos)... Que você não espera.
Então também tem uma coisa... Esse trabalho aqui, esse caso desse Diário, eu fiz um
trabalho com professores, com diretores e supervisores, que são orientadores
pedagógicos. Então tinha um trabalho bem forte com os espaços da escola... Então
meu Diário aqui estava bem... Um olhar bem... Um olhar bem intenso para o espaço
escolar e todas as práticas nas oficinas levavam a pensar o espaço.
Nesse caso, percebe-se que a professora faz conexões transdisciplinares, o
espaço é visto por ela como objeto de reflexão dos professores de pensar a escola,
os espaços apropriados por eles, o sentido desses espaços, o uso que é feito deles,
é importante que a professora provoque nos professores a desconstrução do olhar
viciado, acostumado, instigando a olhar de outra maneira, criando outras
possibilidades de uso dos espaços da escola. O tema espaço faz parte do
planejamento, é importante notar no relato de Zspigel, que antes da professora
preparar seu projeto de aula, conhece o espaço, pesquisa na Internet, para ter mais
conhecimento do local e assim criar propostas pertinentes para discussão com o
grupo.
163
Figura 45
Mariza Zspigel. Diário, 2006
.
Então tudo isso aqui, ta vendo: A gente analisou, as listas, listas de nomes, o que era
possível ler, o que não era possível ler... Aqui tem as reflexões... Aí assim, por
exemplo, em Muxi... Tem 60% de crianças são negras e essas figurinhas que são
loirinhas, super... Então foram conversas muito profundas, sabe?
Essa imagem acima é uma fotografia no Diário da professora de uma oficina
em que foi discutida junto aos professores, o espaço da leitura, a sala de aula, os
papéis fixados nas paredes com os nomes dos alunos. A oficina foi uma
FOTO: Sílvia Cunha
164
desconstrução de atividades que os professores exercem completamente
condicionados, sem perceberem o real sentido das coisas.
Quando Zspigel observa que na escola 60% das crianças o negras e as
imagens fixadas nos cartazes são de crianças loiras, isso nos leva a perceber a
representação de uma cultura que não é real, mas é a representação daquilo que
vemos na televisão, nos programas de entretenimento, nas novelas e propagandas.
Zspigel continua:
Aí...Tinha nessa sala que era assim...O cantinho da leitura e a gente discutiu pra
caramba...E eu perguntei? Eram supervisores e tudo bem eu conversar, né? E
eu perguntei: Esse cantinho é utilizado, ele é atrativa enquanto espaço, ele chama...Aí
eles falaram...Aí, não chama nada, aqui só tem livro didático e revista velha...No
cantinho, tem uma cadeira e uma estante...Então na hora que elas pensaram como
que poderia ser um cantinho, na leitura te chamar...Aí elas fizeram um varal...Olha
como ficou?
165
Figura 46
Mariza Zspigel. Diário, 2006
.
Aqui eu comecei a usar a fotografia também como registro e coleta.
A então eu não usava fotografia. Então... Eu comecei a usar mais... E não era tão
fácil como é hoje em dia. Aqui era assim, analógica, mandava revelar... E tudo. (risos).
Foi aqui que eu comecei a usar fotos, eu não usava, você viu?
FOTO: Sílvia Cunha
166
Figura 47
Mariza Zspigel. Diário, 2006
.
Tinha assim lugares... Eles tinham que escolher uma imagem e escrever tudo para
pensar um pouco na relação subjetiva que se estabelece com os lugares.
Então eram coisas que tinham cultura, desenhos, fotos de lugares, paisagens.
Aí eu trabalhei as cidades invisíveis, que cada um tirava um ’papérzinho’’ aqui, que
era um trecho que eu selecionei que era bem descritivo e daí eles tinham que imaginar
o lugar e os desenhos ficaram... Coisas impressionantes.
Aqui são os trechos e os trabalhos de cada trecho.
FOTO: Sílvia Cunha
167
Figura 48
Mariza Zspigel. Diário, 2006.
Figura 49
Mariza Zspigel. Diário, 2007.
FOTO: Sílvia Cunha
FOTO: Sílvia Cunha
168
Ó, ta vendo... Isso aqui eles foram... Isso aqui é a Bienal, eles falaram... São várias
esculturas e eles fizeram essa, era uma coisa de que as pessoas queriam estar
dentro, mas não podiam estar... E deu uma super conversa também pra dialogar
com isso, né? Como o espaço diz...
Essa reflexão eu fiz, mas ela não ta... Eu não colei ela aqui...
O artista considera as viagens como algo importantíssimo no seu trabalho,
observa que:
Tem um caderno de viagem que é a ferramenta, que é a documentação, a história do
artesão, eu sou muito ligado nisso, né? E as esculturas são feitas à mão...
Então o que o livro vai mostrar é essa parte de artes plásticas, de objetos de artes.
Porque tem essa documentação toda.
Aqui são cadernos de plantas. Esse é meu trabalho com plantas, meu trabalho com
letras, né? Como elementos plásticos...
Figura 50
MATUCK, Rubens. Cadernos de viagem. São Paulo: Editora Terceiro Nome, 2003
.
p.7
FOTO: Sílvia Cunha
169
A artista plástica Lygia Eluf leva com ela seu Diário nas viagens e registra momentos
do cotidiano em lugares desconhecidos:
Figura 51
ELUF, Lygia. São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo:
Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, 2004. s.p.
FOTO: Sílvia Cunha
170
11 jan.
Hoje é dia de aniversário
- Alto Paraíso-
‘’Cheguei ontem exausta e dormi a noite inteira, com sono pesado e restaurado, sob
os barulhos do silêncio.
(o lugar é simpático e calmo, mas preferia pagar menos e ter o quarto sem aranhas).
O dia está nublado e meio frio... que é um bom começo. Não faz sol, mas também
ainda não chove. Chove, e isso facilita, de algum modo, as caminhadas’’.
No discurso dos sujeitos, coincidentemente, aparece de forma bastante
significativa o aspecto afetivo e simbólico do escrever cartas.
A professora relata que:
E tem muita carta, que eu não envio...Também tem uma coisa assim... Mesmo que eu
não envie as cartas ficam aí. Porque é um jeito de escrever para alguém, mas na
verdade é para você mesmo.
É importante mencionar, as trocas de cartas, fax, e-mails, cartões de obras
em processo dos artistas e dos sujeitos que registram.
Salles (1998, p. 45) cita Mario de Andrade para afirmar o valor das cartas no
processo criativo e ainda observa que é por meio das cartas que entramos em
contato com algumas obras em construção, assim como as de seus interlocutores.
Sabe-se de problemas enfrentados, dúvidas e prazeres. As cartas nos possibilitam
também nos aproximar, um pouco mais, do projeto poético dos artistas.
Mario de Andrade escreve a Drummond:
Procure evitar o mais possível os artigos tanto definidos como indefinidos.
Não porque evita galicismo e está mais dentro das línguas hispânicas
como porque mais rapidez e força incisiva para frase [...] Mesma
observação com possessivos e todos os berenguendéns que castram a
frase (SALLES, 1998, p. 45).
171
As cartas são consideradas documentos pessoais em que os traços humanos
e pessoais do autor expressam de tal forma que o leitor conhece o que ele opina
sobre os acontecimentos referidos no documento, é um relato em que se conta
da experiência de uma pessoa que expõe sua atividade como ser humano e como
participante da vida social. Nesse sentido, as cartas, assim como os Diários tem
como conteúdo uma cristalização de estados psíquicos de uma pessoa qualquer.
Através do depoimento de ambos os sujeitos em relação ao escrever cartas,
leva-nos a refletir a questão simbólica que a carta proporciona, uma vez que os dois
sujeitos não enviam as cartas; o destinatário são os próprios autores.
Matuck destaca:
Tudo com HQ, todo meu trabalho, é um percurso, uma história minha. Depois
eu comecei a escrever cartas... Você a escrita... A escrita com a imagem.
Isso você precisa também ver como você vai gostar, tem um diário
imaginário, e tem um dos personagens das HQ...
E a versão escrita eu escrevi com cartas mesmo. São todos os personagens
que eu criei. Essa carta... A história é essa daqui, né?
São várias letras, porque são vários personagens. Eu mudo as letras, é uma
coisa que eu sempre gostei. Eu gosto muito de mudar a letra. Porque a minha
letra é horrível.
Se a personagem muda, muda à letra. Isso aqui é uma versão plástica dessa
história. Aqui está o nome da cidade, a planta da cidade, são selos. E deu
um link com meu trabalho inteiro. Aqui é uma carta.
Eu gosto muito dessa linguagem, né?
Porque na HQ tem um navio que é um personagem dos sonhos que utiliza o
navio. Ele e o navio o a mesma pessoa. Ele de dia é uma pessoa e quando
vai dormir vira um navio, o navio vai visitando as pessoas... Então, isso
gerou um outro...Um sonho, eu comecei a prestar atenção nas cartas que lia.
É interessante observar no depoimento do artista a relação entre realidade e
ficção. Matuck diz sempre mais ou menos o que pensa, o que escreve é mais rico e
menos rico, mais claro e mais obscuro do que a realidade. Observa-se no seu
172
discurso a construção de um personagem imaginário, sobre o suporte Diário
imaginário.
O mundo misterioso, peculiar e reservado que envolve o artista, aparece nos
depoimentos, pois deixam transparecer certas recorrências; temas que instigam o
artista ou formas que atraem são exemplos de marcas de um modo pessoal e único
de olhar para o mundo.
No universo de Matuck, os temas, formas, relatos e registros são aproveitados
pelo mundo ficcional que o artista está construindo, o artista entra no mundo
imaginário, no entanto, algo é certo: à medida que esses elementos passam a fazer
parte da realidade artística, ganham natureza original.
Salles diz:
Embora concorde com Peirce que o homem passa a maior parte do seu
tempo em fantasia, para ele toda fantasia é baseada na teimosa insistência
do mundo ao seu redor. O laço que une a realidade externa à obra e a
realidade da obra em construção é, assim, atado. (SALLES, 1998, p.103)
O processo imaginário de Matuck passa a integrar uma nova realidade,
aquela que a obra de arte oferece. Uma nova realidade que contém suas leis
próprias. O discurso ficcional passa, portanto, a ter sua realidade, com
características que lhe são próprias.
Salles cita Lasar Segall
30
(1984) quando o mesmo ilustra:
Quantas vezes o espectador, diante de um quadro, exclama. Mas essa
paisagem o ar não é como na natureza e a vaca é muito diferente! Como é
possível fazer-lhes compreender que o ar na pintura não foi feito para
respirar e que uma vaca pintada não é destinada a dar leite? (SALLES,
1998, P.102)
30
SEGALL, Lasar. 1984. ‘’Escritos de Segall’’. Em Beccari, V. D. H. O Modernismo Paulista. São Paulo:
Brasiliense.
173
As cartas são registros bastante explorados por pessoas que construíram
seus Diários, é comum perceber no universo dos sujeitos que registram, o exercício
de escrever cartas, de guardá-las, degustá-las.
No Diário da artista Lygia Eluf observa-se uma conversa sensível e afetiva,
escrito para alguém, que seguramente esse registro não chegou ao destinatário
desejado. Talvez essa não fosse a intenção da artista.
Figura 52
ELUF, Lygia. São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo:
Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, 2004.
FOTO: Sílvia Cunha
174
A suave indiferença uniu-se a rígida inércia. É assim que era nossa vida e o
resultado disso só poderia ser a estagnação.
Ontem falei com você depois de muito tempo (não me lembro mais quando
foi a última vez) e senti que muito trabalho terá que ser feito para resolver o
que causou tudo isso. Sei que esse trabalho implica em sucesso, não sei
exatamente como fazê-lo. Não sei se é um trabalho em conjunto ou se é um
caminho solitário. O que se deteriorou foi por nossa causa ou culpa:
abusamos.
Não sei se as condições do momento são favoráveis para esse trabalho. Sei
de mim, não de você. Não tenho medo de enfrentar esse trabalho e,
sinceramente, gostaria de me empenhar nele com energia.Sei também que
o momento exige que eu faça as escolhas certas. Não sei se conheço as
causas exatas da deteriorização. É preciso ter muito cuidado e iniciar o novo
caminho com muita segurança para evitar qualquer retrocesso. Isso é vital,
a indiferença e a inércia devem ser substituídas pela decisão e pela energia.
Quando a neta de Getúlio Vargas, Celina Vargas do Amaral Peixoto
apresentou o texto: Getúlio Vargas: Diário
31
(1995), Volume I 1930- 1936;
afirma que conseguiu divulgar os Diários escritos por Getúlio Vargas
através do exemplo de sua mãe, Alzira Vargas do Amaral Peixoto, que
organizou, guardou e conservou os documentos de Getúlio Vargas.Dessa
forma a autora e neta de Getúlio aprendeu a valorizar e a respeitar a
linguagem documental.
Segundo Celina, Getúlio Vargas escreveu um Diário pessoal, escrevia todos
os dias e com continuidade. Registrava eventos, impressões, análises,
pensamentos e sentimentos. Descrevia viagens e opiniões sobre fatos,
pessoas e personalidades.
A autora escreve:
Getúlio Vargas escreve também para si mesmo, estabelecendo uma relação
de alteridade ao dialogar com o próprio eu. […] São freqüentes as
referencias a solidão e a necessidade de isolamento […] Registra
realizações, dificuldades, prazeres e dissabores vividos no público e no
privado. Revela sentimentos e questões de Estado. A emoção brota no
texto, no estilo, manifestando-se, em certas passagens, por omissões de
conteúdo, alterações ou falhas na caligrafia: quando Darci, após desastre
de 1933, tem a perna ameaçada de gangrena: ao receber a notícia da morte
de sua mãe; no episódio do atentado integralista ao Palácio Guanabara; e
quando toma conhecimento do desastre sofrido por sua filha, Alzira. Nesses
momentos, o diário se apresenta com características de um texto íntimo
(PEIXOTO,1995, p. X).
31
VARGAS, Getúlio. (1883-1954) Getúlio Vargas: Diário / apresentação de Celina Vargas do Amaral Peixoto;
edição de Leda Soares. São Paulo: Siciliano, Rio de Janeiro: Fundação Getúlio Vargas, 1995.
175
É importante destacar na pesquisa que assim, como foi para Getúlio Vargas e
para Lygia Eluf, o ato e ação de escrever é para Matuck e para Zspigel, uma forma
de organizar o pensamento, pois exige esforço reflexivo.O ato de escrever seja no
formato: cartas, cadernos, blocos, guardanapos, nos aproximam dos sujeitos
conhecendo-os de forma integrada, pois o registro privado e blico se sobrepõem,
permitindo conhecer os sujeitos analisados com mais profundidade.
Ao longo do Diário de Vargas, o político expressa um gosto cotidiano pela
vida, alimentava suas raízes rurais, visitando granjas e fazendas. Deslumbrava-se
com a tecnologia, gostava de corridas de cavalos e automóveis. Seu esporte
preferido era o golfe, era um homem culto, apreciava exposições e visitava museus.
conseguimos chegar mais próximo de Vargas e do seu lado íntimo do homem
público através de suas cartas e dos Diários que escreveu ao longo de 13 anos,
entre 1930 a 1942.
Nas primeiras páginas do Diário de Vargas, no dia 3 de Outubro de 1930
relata:
Se todas as pessoas anotassem diariamente num caderno seus juízos,
pensamentos, motivos de ão e as principais ocorrências em que foram
parte, muitos, a quem um destino singular impediu, poderiam igualar as
maravilhosas fantasias descritas nos livros de aventuras dos escritores da
mais rica fantasia imaginativa. O aparente prosaísmo da vida real é bem
mais interessante do que parece. Lembrei-me que, se anotasse
diariamente, com lealdade e sinceridade, os fatos de minha vida como quem
escreve apenas para si mesmo, e não para o público, teria um longo
repositório de fatos a examinar e uma lição contínua da experiência a
consultar.
Não o fiz durante a minha mocidade, cheia de tantos episódios
interessantes e dignos de anotar que vão apagando pouco a pouco da
memória. Depois, o trato contínuo com os homens e as observações feitas
sobre os mesmos em frases e circunstâncias deferentes nos habilitam a um
juízo mais seguro
(VARGAS, 1995, p.3).
Escrever história pressupõe a existência de documentação, porém este
exercício vai além dos papéis de arquivo, é um trabalho de remontar uma realidade
complexa a que muitas vezes não temos acesso direto.
176
Os Diários que são publicados, como no caso de Getúlio Vargas, Frida Khalo,
Paul Klee, Anne Frank, Gauguin, Zlata, Lygia Eluf permitem aos pesquisadores uma
compreensão da autoconsciência e dos papéis políticos, sociais e artísticos dos
sujeitos que fizeram parte da história.
Figura 53
FILIPOVIC, Zlata. O diário de Zlata: a vida de uma menina na guerra. São Paulo:
Companhia das Letras, 1994.p.63.
FOTO: Sílvia Cunha
177
Transita-se agora por outra categoria: O tema maternidade/paternidade
apareceu nos discursos dos sujeitos, ficando nítida a importância da simbologia
gravidez. No discurso tanto do artista, quanto da professora, quando ambos
registram esse momento significativo em suas vidas de forma muito simbólica nas
páginas dos cadernos, em forma de desenho, de imagens; nos leva a analisar que
talvez nessa categoria o caiba para eles a palavra, pois o sentimento é tão forte
que só a arte consegue expressar a forma como cada um viveu essa experiência.
Observa a professora, nas páginas viradas do seu Diário:
Isso aqui era uma época que eu estava grávida, eu acho... Não lembro.
Eu acho que eu estava grávida... Eu lembro um pouco por causa dessas
formas aqui...
Figura 54
Mariza Zspigel. Diário
FOTO: Sílvia Cunha
178
o artista expressa a sua relação simbólica do registro com a gravidez de
sua mulher e a importância das duas filhas. A experiência da paternidade também
está registrada:
Porque o caderno é assim, por exemplo... Quando nasceu minha filha eu
comecei a prestar atenção no movimento das coisas se abrindo, então pegava
uma flor e ficava observando... 8:30, 9:40 da noite, 10:00, 12:30, 1:00 da manhã,
2:45, 8:30 da manhã; o processo todo da mesma flor se abrindo.
Ela sobreposta.
Então, isso aqui foi quando eu vi minha mulher grávida eu fiquei pensando
sobre isso... Então esse é o caderno das ‘’flores de abrindo’’.
Depois desse livro que eu li uma frase que me tocou profundamente, é... ‘’Tudo
é semente’’, é o nome desse livro.
Aí eu comecei a me virar para sementes e fiz os cadernos de sementes. Tem
foto.
É comum aparecer nos Diários textos, frases, fotografias de familiares, o que nos
leva a afirmar que a família representa o maior vínculo afetivo que as pessoas têm.
Figura 55
MATUCK, Rubens. Cadernos de viagem. São Paulo: Editora Terceiro Nome, 2003
.
p.34
FOTO: Sílvia Cunha
179
Tem os cadernos das minhas filhas. Minhas filhas têm um caderno de cada
filha. rios cadernos delas, quando elas eram bem pequenininhas, tudo que
eu adoro, duas meninas que eu adoro.
É importante observar a semelhança das formas representadas pelos dois
sujeitos, formas circulares, arredondadas, sombreadas e com cores e texturas.
De acordo com Jung,
O círculo é um símbolo da psique; e o quadrado é o símbolo da matéria
terrestre, do corpo e da realidade. Na maior parte das obras de arte
moderna a conexão entre as duas formas primárias ou não existe ou é
absolutamente livre e acidental. (s.d. p.249).
Afirmou Jung, que o ‘’símbolo autentico aparece quando necessidade
de expressar aquilo que o pensamento não consegue formular’’. (p.247)
Muitos artistas modernos recorreram às formas geométricas: círculos e
quadrados para comporem seus quadros, como os quadrados do artista holandês
Piet Mondrian e os círculos do pintor francês Robert Delaunay.
180
Figura 56
Robert Delaunay (1885-1941) O Sol e a Lua
Fonte: www.artcyclopedia.com/artists/delaunay/robert/hhtp
181
Figura 57
Piet Mondrian (1872-1944) Composição A
Fonte: www.pt.wikipedia.org/wiki/Piet_Mondrian
182
Em relação a outros espaços de registro, a professora utiliza-se além do
Diário de bordo, que leva com ela nas viagens, registra também em blocos de
notas, que segundo ela:
Eu tenho vários bloquinhos também, depois se você quiser eu te mostro, são
essas as anotações que depois se transformam... O que eu chamo de coleta,
essas.
É importante perceber que as pessoas que registram não querem perder
nada, alguns fatos importantes devem ser escritos e desenhados, porém não é toda
hora que estão com seus Diários próximos, nesse caso, recorrem as ‘’blocos de
notas’’, um suporte menor que pode ser carregado dentro do bolso e que é essencial
para registros rápidos.
No Diário de Getúlio Vargas, Celina descreve que o político se deslocava com
freqüência, por vezes deixava de levar o caderno em que fazia as anotações,
segundo a autora, Vargas não abria mão do registro é relata:
Ao vir para Petrópolis, esqueci este caderno no Guanabara e continuei
tomando notas num bloco comum. Quando trouxe este, transcrevi as notas
avulsas, sobrando o espaço que fica em branco, porque havia
recomeçado as notas em outro caderno antes de trazer este para Rio
Negro’’. (20/1/33). Mas seus cuidados eram permanentes. Sabia que o
conteúdo desse registro poderia ser utilizado para os mais diversos fins:
‘’Perdi minhas notas e observações, ou antes, o pequeno bloco que as
continha e que me acompanhou na viagem a São Lourenço. Tê-lo perdido
não é o pior, mas cair nas mãos de pessoas que podem explorá-lo’’ (15/4 a
5/5/41) (VARGAS, 1995, p.X).
Já o artista Rubens Matuck não menciona em nenhum momento da entrevista
o uso de blocos de notas, seus registros sempre são depositados em cadernos e
livros, e como pude observar são suportes maiores que blocos de notas,
possibilitando talvez mais espaço para experimentações com suas aquarelas e
acrílicas.
O artista em determinados momentos da pesquisa, na verdade em muitos
momentos da pesquisa, leva a pesquisadora a desconstruir alguns conceitos
183
compreendidos como certos e únicos, pois de forma bastante despretensiosa brinca
com o processo do seu trabalho, explora um universo o penetrado por indivíduos
que não tem tempo de imaginar, fantasiar, serem lúdicos com sua própria postura de
observar o mundo.
O artista transcende o aqui e agora e através dos registros, brinca com seres
e situações imaginárias, escuta seus pensamentos inconscientes, levando-os para
um suporte que vire linguagem, que provoque no leitor a fantasia, a fábula e o
lúdico.
O Diário imaginário anteriormente citado nesse capítulo é escrito por
personagens criados por Matuck, todos imaginários. Esse percurso simbólico do
artista levou a pesquisadora investigar outro tema que é significativo no discurso de
Matuck, os sonhos. A professora Zspigel não transita por tal categoria.
Segue seu relato:
Mas não era um sonho tradicional, é um..São muitos micro, pequenos sonhos,
sonhos, pequeninos...dá um...dá um...Pingo. Eu costumo dizer que a minha
vida nunca foi uma vida de orquestra.
São pingos. Me referia sempre com pingos. Por isso que eu não gosto de
drogas, droga... Eu não gosto, nunca gostei. Eu gosto de receber e fazer as
coisas muito pequenas. Depois o conjunto delas é que gera o grande.
Eu recebia os sonhos... Eu peguei o telefone, liguei para o meu irmão e disse:
anota que chegou a história, aí...
Interessante.
Escapa tudo.
De acordo com Jung,
Há, ainda, certos acontecimentos de que não tomamos consciência.
Permanecem, por assim dizer, abaixo do limiar da consciência.
Aconteceram, mas foram absorvidos subliminarmente, sem nosso
conhecimento consciente. podemos percebê-los em algum momento de
intuição ou por um processo de intensa reflexão que nos leve a
subseqüente realização de que devem ter acontecido. E apesar de termos
ignorado originalmente a sua importância emocional e vital, mais tarde
brotam do inconsciente como uma espécie de segundo pensamento. Este
184
segundo pensamento pode aparecer, por exemplo, na forma de um sonho.
Geralmente, o aspecto inconsciente de um acontecimento nos é revelado
através de sonhos, onde se manifesta não como um pensamento racional,
mas como uma imagem simbólica (s.d. p.23).
É sob essa perspectiva que devemos examinar a importância dos sonhos,
das fantasias inconscientes do artista. É recorrente na fala de Matuck a palavra
‘’recebia’’, no sentido de receber algo de algum lugar que o homem, ser racional não
tem acesso.
Jung afirmou que o símbolo aparece quando necessidade de expressar
aquilo que o pensamento o consegue formular ou que é apenas adivinhado ou
pressentido.
Não é apenas para os outros que os artistas tentam explicar e justificar o que
estão fazendo; é também para si mesmos.
Salles (1998) afirma que todo o universo sociomaterial que vive o artista, é
produto da imaginação dele próprio, baseado na elaboração e estruturação de suas
experiências.
As coincidências entre realidade e ficção são comuns na história dos artistas,
por esse motivo os pesquisadores que pretendem analisar e reconstruir um artista,
escritor, poeta a partir de suas obras fabrica um personagem imaginário.
De acordo com o teórico que mais estudou a relação do homem e dos seus
símbolos, da relação do homem com seu inconsciente, afirmou que:
[...] a capacidade da nossa psique é particularmente significativa quando se
trata do simbolismo do sonho, desde que a sua experiência profissional
provou, repetidamente, que as imagens e as idéias contidas no sonho não
podem ser explicadas apenas em termos de memória; expressam
pensamentos novos que ainda o chegaram ao limiar da consciência
(JUNG, s.d. p.38).
Muitos artistas, filósofos e mesmo cientistas devem suas melhores idéias a
inspirações nascidas de súbito do inconsciente. “A capacidade de alcançar um veio
particularmente rico deste material e transformá-lo de maneira eficaz em filosofia, em
literatura, em música ou em descobertas científicas é o que comumente chamamos
genialidade (JUNG, s-d, p. 38)”.
185
É importante observar no depoimento do artista quando diz:
Eu recebia os sonhos... Eu peguei o telefone, liguei para o meu irmão e disse:
anota que chegou a história, aí...
Para Matuck é significativo o registro do sonho, diz na entrevista, que se não
registra, ’escapa tudo’’, e aí suas histórias se perdem.
Fica claro na fala do artista a importância do sonho, a simbologia no seu
processo criativo, para ele é algo maior que sua razão consegue decifrar.
Assim como Matuck, outros artistas estavam atentos nos seus pensamentos
inconscientes, mesmo sem se darem conta disso.
Jung, no texto “O homem e seus símbolos”; afirma que os artistas modernos
foram em busca da expressão simbólica nos anos que antecederam a catástrofe da
Primeira Grande Guerra. O autor observa que: [...] abrindo-se um abismo entre a
natureza e a mente, entre o inconsciente e o consciente. Esses contrários
caracterizam a situação psíquica que está buscando expressão na arte moderna.
(JUNG, s-d, p.253)
No texto de Jung “O Homem e seus Símbolos”; Klee escrevia no seu Diário no
início de 1915: ‘’Quanto mais horrível se torna o mundo, mais a arte se torna
abstrata; já um mundo em paz produz uma arte realística.’’ (Jung, p.265).
186
Figura 58
Paul Klee
,
1914.
Remembrance of a Garden 25.2 X 21.5 cm.
Fonte: www.catatau.blogsome.com/2006/08/01/paul-klee-pintura/
187
No relato de Jackson Pollock citado no texto de Jung percebe-se que seus
quadros são resultados do seu próprio inconsciente:
Quando pinto não me dou conta do que estou fazendo. após um período
de ’familiarização’ é que verifico o que resultou. Não receio fazer mudanças
ou destruir imagens, etc, porque o quadro tem vida própria. E tento deixá-la
surgir. Apenas quando perco contato com o quadro é que o resultado é
confuso. De outro modo harmonia pura, um cômodo tomar e dar, e o
quadro resulta bem
(JUNG, s.d, p.264).
De acordo com Jung, para conhecer e entender a organização psíquica da
personalidade global de uma pessoa é importante avaliar quão relevante é a função
de seus sonhos e imagens simbólicas.O sonho deve ser tratado como um fato a
respeito do qual não se fazem suposições prévias, a não ser de que ele tem um
certo sentido; em segundo lugar, é necessário aceitarmos que o sonho é uma
expressão específica do inconsciente (Jung, p.32).
Num determinado momento da entrevista, Matuck relata que:
Depois eu fui com 17 anos no Jornal da Tarde, fiquei 10 anos. Daí foi uma
maturação, do infantil para o... Uma alquimia. Eu não entendia nada o que era
Artes Plásticas.
De acordo com Jung,
Declarações desse tipo lembram o velho conceito alquimista do ‘’espírito da
matéria’’, que se considerava como sendo o espírito que se encontra dentro
e por detrás de objetos inanimados, como o metal ou a pedra. Em termos
psicológicos, este espírito é o inconsciente. Manifesta-se sempre que o
conhecimento consciente ou racional alcança. Seus limites extremos e o
mistério se estabelece, pois o homem tende a preencher o inexplicável e o
imponderável com os conteúdos do seu inconsciente: é como se ele os
projetasse em um receptáculo escuro e vazio (s.d. p. 254).
188
Os artistas, como os alquimistas, provavelmente não se deram conta do fato
psicológico que estavam projetando parte da sua psique sobre a matéria ou sobre
objetos inanimados. (Jung, p.254).
Os quadros de Pollock, por exemplo, são pintados praticamente em estado de
inconsciência, carregados de uma veemência emocional sem limites. Na sua falta de
estrutura são quase caóticos, um ardente fluxo de lava de cores, linhas, planos e
pontos. Podem ser considerados análogos àquilo que os alquimistas chamavam:
massa confusa, a prima matéria ou caos termos todos que definem a preciosa
matéria prima do processo alquímico, o ponto de partida da busca da essência do
ser.
Figura 59
Jackson Pollock (1912-1956) Number 8, 1949 Óleo, esmalte e alumínio sobre tela.
Neuberger Museum, State University of New York, USA.
Fonte: http: //
www.ibiblio.org/wm/paint/auth/pollock/pollock.number-8.ipg
189
É instigante pensarmos que a relação existente entre a arte e o inconsciente
poderiam ser também apropriados pelo professor, uma vez que é sabido no campo
da Educação que o processo de ensino-aprendizagem é um processo de
construção, criação e reflexão. Nesse sentido, a pesquisa busca provocar nos
professores a transformação da práxis em decorrência dos registros, estes como
testemunhos de uma vida docente e artística ousada, inacabada, criativa e poética.
Assim como o artista Rubens Matuck atenção ao seu inconsciente e as
simbologias do pensamento representadas nas obras e registros, os professores
também poderiam estar mais atentos ao sensível e aos discursos imaginários dos
alunos, pois não são falas soltas no nada, pelo contrário, são discursos que vem
carregado de códigos e símbolos que representam o repertório social do sujeito.
No depoimento da Zspigel a professora observa que a fala da criança é muito
importante, nos leva a pensar que o registro exercita o sujeito a prestar mais atenção
na escuta, na fala que é do outro, pois isso será mais alimento para os Diários e
conseqüentemente mais reflexão para práxis do dia a dia.
Chegando ao final das análises, gostaria de encerrar esse capítulo com
alguns registros da própria pesquisadora e também professora costurados com
registros dos alunos do Nível I feitos no ano de 2008.
A práxis da pesquisadora e professora nessa trajetória teórica, sistemática,
reflexiva e sensível foi transformada e alimentada durante todo processo da
pesquisa.
Meus Diários, assim como os Diários dos dois sujeitos analisados
despertaram em mim apreender melhor, através dos registros, o cotidiano escolar,
os alunos , os professores, as propostas pedagógicas, as exposições. Uma vez que
minhas percepções estão documentadas, consigo no distanciamento e no silêncio,
absorver os equívocos e os acertos desses espaços tão contraditórios.
O ‘’luxo’’ de descobrir enredos, ou de os construir, no ensino, de ‘’se
conhecer a si próprio’’, de tentar dar sentido a experiência, aos contextos e
as histórias que enformam a nossa vida e a das crianças é uma
necessidade, e não um luxo. Investigar o significado da vida quotidiana das
salas de aula é algo que já fazemos. Escrever proporciona documentação
para ulterior análise, mas, mais importante ainda, propicia uma base de
discussão e de colaboração com outras pessoas, em ordem a interpretar e a
criar o que as escolas podiam ser (HOOLY, apud, NÓVOA, 2000, p.108).
190
Figura 60
Diário da professora Silvia Cacace Cunha, 2008.
Essas ginas do meu Diário são fragmentos simbólicos das experiências
vividas junto aos meus alunos.
As minhas idéias foram apreendidas nos recantos subconscientes do meu
cérebro, analisadas e traduzidas para a vida de uma pesquisadora iniciante. Esses
registros de experiências vividas proporcionaram materiais abundantes de reflexão.
As tensões e sentimentos ambíguos foram freqüentes nesse processo,
percebi que o tipo de uma auto-reflexão essencial a uma transformação é difícil, se
não impossível, se não tivermos tempo para ela. É necessário guardar o tempo,
esse é o primeiro passo. Escrever Diários necessita de tempo para refletir. O
segundo passo, recordo-me de Clarice Lispector, quando dizia que seus leitores,
FOTO: Sílvia Cunha
191
para entendê-la, precisariam colocar-se entre as linhas do que ela escrevia. Como
espiões convidados, escondidos entre uma linha e outra, buscando compreender
sentidos velados.
Figura 61
Diário da professora de artes visuais Silvia Cacace Cunha, 2008.
FOTO: Sílvia Cunha
192
Para finalizar esse percurso de histórias sobrepostas, deixo para o leitor a
página de um Diário que muito marcou minha infância:
Há um ditado que diz: ‘’o papel é mais paciente que o homem’’. Lembrei-me
dele em um de meus dias de ligeira melancolia, quando estava sentada,
com a mão no queixo e tão entediada e cheia de preguiça a ponto de não
saber decidir se saía ou ficava em casa. Sim, não dúvida de que o papel
é paciente e como não tenho a menor intenção de mostrar a ninguém este
caderno de capa dura que atende pelo pomposo nome de diário – a não ser
que encontre um amigo ou amiga verdadeiros posso escrever a vontade.
Chego agora ao X da questão, o motivo pelo qual resolvi começar este
diário: não possuo nenhum amigo realmente verdadeiro (FRANK, s.d, p.14).
Figura 62
FRANK, Anne. O diário de Anne Frank. Rio de Janeiro: Record, 7ª edição.
193
12 de junho de 1942.
“Espero poder confiar inteiramente em você, como jamais confiei em alguém até
hoje, e espero que vovenha a ser um grande apoio e um grande conforto para
mim (p.12)”
194
CONSIDERAÇÕES
No início do movimento feminista, o Diário constituía para as mulheres um
modo de exprimir seus problemas, soluções e sentimentos cotidianos e
perenes. As mulheres reuniam estas preciosas migalhas de memória, esses
fragmentos de frases, imagens e fotografias, relacionando texto e imagem.
De início, bastava à simplicidade da palavra acompanhada de poucas
imagens; contudo, com a evolução da intimidade da forma artística e de seu
sentido de individualidade, as artistas mulheres passaram a sentir também
seu público. A confecção de livros únicos permitiu a artistas criar ‘’livros de
sonho’’, que representam Diários de impressões altamente pessoais,
tornando pública a experiência particular. Percebendo que o livro de artista
precisa de um ‘’leitor’a cada vez, o artista sente-se menos pressionado
pelo processo de tornar algo que é tão íntimo num evento público. Ao
contrário, o artista sente a toda hora que um diálogo entre a criadora
e o observador, mediante o uso da intimidade e silêncio como suas
ferramentas. O livro único torna-se uma acumulação tanto de memórias,
sempre fruto do experimento, muitas vezes autobiográfico, como de
explorações do passado e de novo, criando uma tela interessante para o
artista
(
CATÁLOGO: ‘’Único em seu Gênero’’- Livros de artistas plásticos /
Foundation For Today’s Art/Nexus, 1995, p.11).
Finaliza-se a pesquisa de uma maneira consciente que esse trabalho não se
esgota no sentido da compreensão dos sujeitos. Os registros são bastante
complexos, extrapolando a pesquisa.
Hoje coincidentemente acordei e fui para casa dos meus pais e quando
encontro a minha mãe a primeira coisa que ela me mostra é uma carta escrita em
1961 pela minha avó contando para o meu tio, que estava, nesse momento, nos
Estados Unidos a trabalho, que a neta dela havia nascido, no caso, minha irmã,
Paula. Essa carta foi escrita, foi enviada para meu tio contando sobre o nascimento
da minha irmã e quem escreve a escreve é minha avó e minha mãe. Minha mãe
guardou essa carta por mais de quarenta anos.
Coincidentemente ou considerando a teoria do Jung, a sincronicidade das
coisas, hoje pela manhã, acordei decidida a escrever as páginas das
Considerações. Logo cedo encontro minha mãe que me mostra essa carta de 1961,
sendo assim, parei para pensar da importância do registro, da importância da minha
mãe ter guardado-a e ter acesso; é toda a lembrança, a memória e voltar a um
tempo vivido, importante na história da minha família.
195
Pensando e fazendo uma relação com as cartas dos meus sujeitos e com
seus Diários, percebo o quanto é significativo às pessoas escreverem e guardarem
suas histórias, porque a memória está relacionada à história; então a pessoa que
não tem memória, não tem história; se a pessoa não a registra esquece e passa, ela
não guarda não dando às vezes tanto sentido às coisas que acontecem na vida da
gente, desde as coisas mais simples às coisas mais complexas. Quando a pessoa
tem os Diários, as cartas guardadas, um dia ela pode voltar a ler como, no caso
aconteceu hoje, com minha mãe com essa carta. É tão importante porque você
lembra de momentos, que por mais que sejam dolorosos, tristes, saudosos, é um
momento significativo.
A pesquisa transitou por questões muito importantes para a formação do
professor, que se refere à percepção, o quanto às vezes a sua prática passa
despercebido, porque ele o escreve o quanto a sua prática poderia ser melhor,
mais aperfeiçoada quando se escreve, porque se consegue voltar, refletir, pensar,
retornar; isso através da palavra e através da imagem.
A importância do desenho, do gesto, dos símbolos, quando às vezes escapa
uma palavra para um professor, porque não colocar um símbolo quando quer dizer
aquilo que ele não consegue?
Quando ele volta e retoma alguma imagem, um símbolo que só ele
compreende aquilo que ele quer dizer, e isso é muito importante na formação de
professores, uma vez que passa despercebido dentro das Instituições, das
Universidades, dos cursos de Pedagogia, das escolas, pois tudo é muito rápido, o
pensamento é raso, a reflexão não acontece porque tudo é meio pasteurizado, são
muitos alunos, são muitas classes, o professor no meio de tantos aspectos
burocráticos, tanta coisa que não faz sentido, que é obrigado a fazer porque alguém
acha que é certo.
E essa relação do registro, da escrita, do tempo para escrever, quando isso é
pedido, quando isso pode ser feito, às vezes o professor está tão cansado, tão
exaurido que ele não dá conta de fazer, de escrever o que pensa e o que faz.
Às vezes olhamos fotografias de aulas, registros, aulas que são filmadas, e
quando você retoma e olha quanta coisa se percebe que, no meio do turbilhão da
aula a gente não observa. A fotografia, por mais que possa ser ideológica, por mais
que conta uma história que não é a real, por congelar um momento, uma história que
196
passou, mas também pode perceber coisas que nos momentos vividos o se dá
conta.
Uma expressão, um olhar, um sorriso, um gesto, um desenho, muitas vezes a
máquina fotográfica registra, e a gente com tantos alunos em sala de aula, com tanta
coisa acontecendo ao redor, não conta, mas na hora que você volta, assiste ao
filme, observa as fotos, é fundamental para perceber como que foi esse tempo que
passou. Assim, no silêncio e tranqüilidade para fazer diversas análises
complexas e aí sim estudá-las para melhorar o que já foi feito.
Nesse sentido, a pesquisa é importante para os professores perceberem o
quanto a sua prática é relevante e necessária na medida em que ela é registrada,
transformando a vida do professor.
No momento em que o professor retoma, quanta coisa ele às vezes não se
deu conta, que é inconsciente, mas na leitura das palavras escritas, das imagens
desenhadas ele pode retomar e pensar o que foi bom e o que não foi bom.
Relembrando, Jung diz que as imagens entram quando as palavras o
conseguem mais dar conta do que o sujeito quer expressar. Dessa forma, é
interessante que os registros, tanto a Zspigel quanto o Matuck, tem muita imagem,
porque ambos se permitem expressar o que sentem através das imagens. A
imagem e a palavra estão juntas o tempo todo, dando possibilidades para muitos
pensamentos, para muitas análises. Por isso não tenho aqui a pretensão de fazer
uma análise exata, de congelar e afirmar que essa é a verdade absoluta, não. Até
porque é um assunto complexo que acredito que não tenha dado conta suficiente no
mestrado para analisá-las. Fiz o possível. Foi um desafio, um crescimento, ou seja,
uma aprendizagem enquanto pesquisadora. Entretanto, essas considerações não
têm a pretensão de ser concluída, dizer que foi isso que eu analisei e ponto. Ela
continua pela importância do tema e por lidar com questões conscientes e
inconscientes dos sujeitos; acredito que essa pesquisa deva continuar, ampliar e
amplificar para outros espaços.
No momento em que eu comecei a pesquisa, descobri quantas pessoas
fazem Diários; artistas, alguns professores, escritores, políticos, a importância do
Diário de Frida Khalo, que é referência para artistas, professores, a importância dos
Diários do Matisse, da Zlata, da Anne Frank, quanta história a gente ficou sabendo e
veio à tona por causa desses registros.
197
A contribuição dessa pesquisa é que tenha ressonâncias na sala de aula, nos
cursos de Pedagogia e que seja um incentivo para que os professores percam
menos tempo com questões burocráticas, obrigatórias, sem sentido na vida escolar
e na vida dos próprios sujeitos Que estes se coloquem e se permitam mais tempo
para escrever, todo dia, sobre suas aulas, sobre seus alunos, alguns conflitos em
sala de aula, alguns problemas de relacionamento entre eles, sendo algo sistemático
porque, em um ano, percebe-se o avanço ou não de determinados alunos, quais, no
registro, tinham problemas pedagógicos, os avanços de determinadas turmas, o
avanço em relação à arte, à imagem, ao fazer, ao processo, às questões estéticas e
às questões poéticas.
O registro permite, entretanto, esse contato mais próximo com o sujeito e
como ele cria, por meio de sua interioridade, entre ele e à arte, bem como com suas
inquietações.
Com a pesquisa percebi que é um tema muito extenso, para ir para outras
áreas do conhecimento, transitar na área da Psicologia, na Psicanálise, na Filosofia;
permitindo a todas as pessoas escreverem seus Diários, suas histórias. Sendo
assim, teríamos marcadas no tempo, histórias interessantes.
No final da pesquisa, para ajudar-me a escrever as Considerações recorri a Nise da
Silveira
32
, debrucei-me sobre o texto “O mundo das imagens” (1992),
especificamente no capítulo O mundo das imagens que a autora relata sobre a
importância das imagens quando ela mesma cria o Museu do Inconsciente no Rio de
Janeiro, no Hospital de Psiquiatria. Nise trabalha com essas pessoas consideradas
loucas, que pintavam o que eles chamavam de Arte Bruta. Lendo o seu texto,
confirma-se a importância que foi para essas pessoas a expressão das imagens
colocadas para fora, porque a única maneira que eles tinham de expressar era
através do desenho, da pintura, da colagem; e como era forte a relação do
inconsciente desses sujeitos que a ela teve contato; com a Arte, porque a Arte era
nesse momento a única forma de expressão dessas pessoas. Em nenhum momento
entrou a palavra; e a Nise conta que quando tentava conversar com os pacientes,
não conseguia. Então, a forma de diálogo com os doentes foi através da Arte; eles
32
Médica psiquiatra brasileira, aluna de Carl Jung. (1906-1999).No ano de 1952, ela funda o Museu de Imagem
do Inconsciente, no Rio de Janeiro, um centro de estudo e pesquisa destinado à preservação dos trabalhos
produzidos nos ateliês de modelagem e pintura que criou na instituição, valorizando-os como documentos que
abrem novas possibilidades para uma compreensão mais profunda do universo interior do esquizofrênico.
198
se comunicavam pintando e quanta coisa aparecia nas imagens desses sujeitos,
considerados ‘’doentes’’. Foi, então, que ela percebeu que era comum a todos os
‘’normais’’, o que Jung chamou de “arquétipos”, que são as emoções coletivas.
Fazendo uma relação com os Diários, pude observar que no Diário do Rubens
Matuck e no Diário da Mariza Zspigel, quantas coisas conversam, dialogam. A
relação do Rubens com os personagens imaginários, sua criação e crença nesses
personagens. A Zspigel que escreve para ela mesma, mas é como se escrevesse
para uma amiga, como a Anne Frank que fez a mesma coisa no seu Diário no
momento da Segunda Guerra. Nise da Silveira conta que essas pessoas, através da
Arte, faziam seus escritos de pintura, palavras de tinta, e escreviam isso,
expressavam-se através das pinturas.
Dessa forma, a psiquiatra chegava mais perto de seus pacientes e sabia
como tratá-los. Observando as imagens no Diário de Rubens Matuck, quando ele faz
uma relação do nascimento das filhas com as flores e as sementes, podemos
compará-los com os registros de Zspigel, no que se refere ao seu desenho das
maças e suas sombras na época que estava grávida, existindo uma relação da
imagem de ambos com a teoria de Jung, na qual todo símbolo representa alguma
coisa, no caso, ambas as imagens circulares, que tem forte relação com as
mandalas - símbolo bastante estudado por Jung.
Tudo é muito coerente entre desenho, falas, sujeitos e como tudo isso acaba
amplificando e multiplicando para outros espaços, outras vozes, outras histórias.
Os doentes, também considerados marginais, representam os próprios
sonhos no Museu do Inconsciente, e Nise, por sua vez, analisava essas imagens e
essas representações, numa constante pesquisa através dos estudos e relatos do
Jung e trocas de cartas que tinha com Spinosa.
Então é importante deixar claro aqui que essa pesquisa transitou entre alguns
Diários permeando questões muito particulares dos sujeitos e; por mais que eu
tenha me aprofundado ao máximo, com o suporte de autores como, Vygotsky, Luria,
Lane, Salles, Jung, vendo os Diários de Lygia Eluf, Matisse, percorrendo pelas
pinturas inconscientes do Pollock, fica impossível ter uma exatidão, porque foge do
controle do universo consciente do homem.
Nise da Silveira relata no texto “O mundo das imagens” (1992) que o
pensamento e os sentimentos fundamentais do homem derivam do inconsciente e
freqüentemente exprimem-se melhor em imagens do que em palavras, então, dessa
199
forma, consegue-se perceber porque nos Diários do Rubens Matuck e da Mariza
Zspigel o inconsciente com o consciente aparecem no Diário de forma latente; é o
espaço onde isso é completamente compreensível, entendido. Por ora a imagem
entra naquilo que os dois não conseguem exprimir, que é o que Jung afirma sobre o
inconsciente. E por ora eles, também, expressam através da palavra porque está
mais no plano da razão, da reflexão, conseguindo assim compreender e escrever
suas idéias no Diário. É interessante pensarmos na ambigüidade da palavra e da
imagem, o Diário tem a beleza de contemplar essas duas formas de linguagem do
homem.
E o rico disso é perceber, lendo os Diários dos dois e ouvindo as entrevistas,
quanto o registro foi fazendo sentido e significado na vida de ambos.
O Matuck quando relembra, nos Diários, a infância, a relação com a HQ, a
lembrança do pai, e a Zspigel, a relação dela com os lugares que viaja, quando
conta a história das galinhas. A relação das cartas, a questão simbólica do escrever
e não enviar.
A relação da Zspigel com a linha que está expressa nos Diários, quando
relembra o filme Gabbeh, a história dos tapetes e essa costura, o fio que ela vai
tecendo entre alunos, aulas, a relação dela com o desenho, com a linha, parece que
vai costurando a sua prática, refletindo através das suas ações, consegue
compreender sua práxis, quando pára e lê.
É importante também deixar registrado aqui que quando comecei a pesquisar
no texto do Paulo Silveira Página Violada, pude verificar que todos os artistas que
fazem os livros - objetos, suas histórias são muito parecidas com as das pessoas
que fazem Diários.
No processo criativo do livro, os artistas transitaram pelas memórias,
recorreram aos álbuns de infância, recorreram às cartas, aos documentos guardados
na história de vida de cada um, os quais levam também para o livro e que isso é
resgatado no momento de fazer o livro-objeto, independente se esse é a linguagem,
a própria arte ou se é o Diário como suporte dos registros guardados, lidos, às vezes
expostos, às vezes silenciado.
É interessante perceber que, independente desses suportes que pesquisei
para diferenciar alguns conceitos, eles estão muito misturados e ambos acolhem
memórias dos sujeitos que fazem, esse recordar de suas histórias de vida, nos
álbuns de fotografias, nas cartas, nos objetos, nas coisas antigas de família.
200
Através dos próprios títulos dos livros-objetos podemos perceber que tem
uma relação com a vida do sujeito que cria. A artista Lygia Eluf que faz parte da
pesquisa aparece no seu Diário, como aparece no Diário da Zspigel e também do
Matuck, a relação dela com as viagens que fez, quando foi para Chapada dos
Veadeiros, a relação com as cartas que escreve para alguém que o diz no Diário,
não aparece, é alguém que ela tem muito afeto, uma relação um pouco conturbada,
segundo aparece no Diário, e isso aparece nas análises. Ao mesmo tempo, Lygia
Eluf exprime no Diário a sua relação com as cores, o que ela investiga na cor azul, o
que quer do vermelho, ela leva isso para o Diário, recorrendo à infância, o que ela
achava do azul que era uma cor que gostaria de descobrir desde quando era
pequenina, como ela representaria o azul do céu. Ela relata isso nos Diários, que faz
parte da tese de Doutorado da Lygia Eluf , assim como Rubens Matuck também
conta numa das viagens que fez para Rio Grande do Sul, quando conheceu seu
Toinho que também tinha um caderno e isso vai parar no registro de Matuck.
É importante observar que os artistas que fazem seus livros-objetos têm uma
forte relação com a memória; tem um livro-objeto do Gilbert Jam, que está na
dissertação, que o título é “Registro e memórias para amigos e parentes”, o qual
apresenta uma simbologia porque coloca uma lupa no meio do livro que está aberto
e exposto para todos verem; então a relação da lupa, com o olhar e a memória, com
a abertura do livro para as pessoas fazerem intervenções, aberto, exposto para
todos olharem, é bastante interessante.
Eu me recordo no momento da entrevista com Zspigel, onde relata uma coisa
muito importante sobre a relação da arte com os alunos, do ensino da arte - Ela diz:
‘’ às vezes você não sabe exatamente o que aquela criança come, bebe, pensa, que
é completamente diferente de você dar aula para ela todos os dias, de dar aula para
uma sala de aula . Mas através dos registros e dos desenhos você consegue
perceber isso, você conhecer aquelas crianças pela produção delas ‘’.
É interessante o que Zspigel reflete sobre sua convivência com os alunos;
pega uma vez por semana cada sala, que é diferente da professora de sala, que é
aquela que fez Pedagogia, que trabalha com os alunos na alfabetização, que fica
todos os dias com eles. Enfim, o professor de Arte encontra os alunos uma vez na
semana, ele não tem forte conhecimento como a professora de sala, então, a
Zspigel aborda essa questão, que é curiosa, que através dos registros das crianças,
através dos desenhos você consegue saber o que aquele aluno come, o que ele
201
gosta; é a representação daquela criança no papel, é o registro daquela criança da
vida dele.
O que ele tem interiormente que é exteriorizado através da Arte, da imagem e
quando o professor observa essas imagens ele conhece melhor esse aluno, que é o
universo da criança, que está sendo expresso e registrado nas aulas de Arte.
Percebe-se então novamente a importância da imagem, que é o mesmo
abordado por Nise da Silveira com os doentes.
Através dos desenhos, daquilo que o doente coloca no papel percebe-se de
que mundo essa pessoa está falando, que é o que sai do inconsciente, que é
expresso, vai parar no papel e consegue-se perceber o que esses sujeitos pensam.
Finalizando essa pesquisa, quero deixar claro que essa dissertação não tem
fim, é um trabalho que deve ser continuado e explorado para outros espaços de
formação de professores, dividir isso com professores para que os mesmos saiam
dos cursos de Pedagogia e entrem nas escolas com o hábito e o exercício do
registro, porque assim irão conseguir observar a prática deles e transformar a
práxis a medida em que registram.
Termino essa dissertação com duas citações bastante pertinentes da Nise da
Silveira:
Um dos objetivos principais de nosso trabalho é o estudo dessa linguagem.
Não nos preocupamos em fazer o debulhamento da imagem simbólica, ou
dissecá-lo intelectualmente. Nós nos esforçamos para entender a linguagem
dos símbolos, colocando-nos na posição de quem aprende ou reaprende
um idioma (SILVEIRA, 1992, p. 94).
Nessa pesquisa, não tenho a pretensão de conhecer o universo dos símbolos
completamente, porque isso seria impossível, porém compreender essa linguagem
sempre aprendendo e reaprendendo algo importante se faz relevante. E
principalmente, estando consciente da deficiência do ensino da linguagem não
verbal nos cursos de Pedagogia e nas escolas.
A escola ensina apenas para um tipo de expressão e linguagem verbal. A
autora afirma, “o que é necessário é um treinamento sobre os níveis não-verbais de
202
nosso ser total que seja tão sistemático quanto o treinamento que atualmente é dado
a crianças e adultos no nível verbal (Silveira, 1992, p. 94)”.
A alfabetização visual e verbal deve ter o mesmo valor nos espaços de
ensino; dessa forma nossos alunos estarão mais sensíveis ao mundo das imagens,
no aspecto cognitivo e afetivo.
Muitas escolas ainda tratam a Arte como atividade acessória, nesse caso,
considero essa dissertação uma provocação para que as pessoas inseridas no
campo da Educação que não são da área de Artes Visuais percebam a necessidade
e importância da Arte nos cursos de formação de professores e nas Instituições de
ensino de Educação Básica.
203
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209
ANEXOS
210
ENTREVISTAS
Marisa Szpigel
Mora na cidade de São Paulo, no bairro do Butantã.Casada, tem um filho de quatro anos.
Formada em Artes Visuais pela FAAP.Professora e coordenadora do vel II da Escola da Vila na
cidade de São Paulo.Formadora de professores de artes no Instituto Tomie Ohtake com parceria com
o projeto Impaes.Selecionadora de dos projetos de artes do Concurso Professor Nota 10 da
Fundação Vitor Civita.Formadora de professores da rede Municipal e Estadual através da Ong
CEDAC, que atua em várias regiões do Brasil.
Nos falamos muitas vezes por telefone para agendar um encontro para a entrevista, algumas vezes
foram desmarcadas por conta das viagens e dos trabalhos da Zá, ficamos uns dois meses sem nos
falar e com a chegada das férias retornei a ligação para entrevista.
Nessa conversa por telefone, me convida para uma exposição no Tomie Ohtake onde os Diários
dos alunos seriam expostos.
Fui à exposição, dia 27/06, as 20:00, no Tomie Ohtake.
Logo encontrei a Zá, ficamos muito tempo juntas e iniciou um diálogo sobre seus trabalhos com
registro, ela me mostrou a exposição e a importância dos registros para a equipe do setor educativo
do Tomie.
Nos encontramos novamente na sua casa, dia 10/07, as 9:00 para nossa entrevista.
Ficamos no escritório da sua casa, os Diários estavam separados sobre uma mesa grande quando
eu cheguei.
Sentamos, liguei o gravador e deixei a entrevistada livre para falar, tentei não fazer muitas
interferências.
LADO A
ÓÓÓ...Eu pus os diários aqui.
Silvia: Ai, que legal...Esses são seus pessoais de...?
Zá: Tem mais ali...Eu já separei alguns...
Silvia: De aula, Zá? De...
Zá: Então...Ó...
211
Começou assim; desde sempre eu gostei muito de escrever, desenhar e tal. quando eu comecei a
trabalhar na Escola da Vila (pausa), tinha esse caráter de diário pessoal, né?
Quando eu comecei a trabalhar na Escola da Vila, talvez até antes, acho que na primeira escola que
eu trabalhei, acho que era Pirâmide, que depois virou Miguelin, a gente tinha já o hábito de registro...
É. Eu tenho esses registros, eu guardo todos...(risos)
É, é registro e eu acho que tem esse caráter, e eu sempre encarei desse jeito, então...
Agora eu acho que começou a ganhar um, um outro caráter na Escola da Vila, quando eu comecei a
trabalhar em 92 e daí..., Eu comecei porque eu acho que daí...Tinha uma coisa de um... (pausa).
Silvia: A Vila tinha isso?
Zá: Tinha, de uma prática reflexiva, né? Então todos os professores faziam diários, que eu tinha a
minha orientadora que era a Cristina Preta, ela... Ela era uma interlocutora que...é...Alimentava muito.
Então ela era uma pessoa que era uma leitora e tudo que eu fazia ela colocava comentário, acho que
é isso...Foi bem importante, então...(tosses).
Esse...que eu trabalhei, isso na Educação Infantil, eu dei aula na Educação Infantil por três anos e
meio.
Aí...na Educação Infantil...
Silvia: Aula de Artes?
Zá: Não. Na Educação Infantil eu dava aula de tudo.Quando eu entrei na Vila, eu que era formada em
artes, então eu fiz um monte de cursos, então o primeiro que eu fui fazer foi de alfabetização,
letramento, aí então eu fiz um ano de formação, aí depois matemática, ciências naturais, e fui fazendo
tudo, de todos os cursos de formação no Cevec, que tem no Centro de estudos, que até hoje tem,
né? Então...Isso foi bem tranqüilo.
E eu adorei, foi bem importante para minha formação também.
Acho que tudo que eu faço hoje em dia de formação assim, tem a raiz na Escola da Vila, minha
formação lá...Porque a faculdade dá uma formação, mas ela é uma formação mais básica e...
(pausa).
Na área que eu queria trabalhar que era na área de Educação, que eu, já desde a época da
faculdade...queria trabalhar.
É pouco, né?
As matérias pedagógicas não são a real, não são a real do que é o trabalho e tal, então eu acho que
na Escola da Vila foi importante.
Aí esse daqui é o primeiro diário que eu, que... Eu selecionei. Não é o meu primeiro diário da Vila.
Está vendo, ó? Então aqui estão os comentários da Cristina. Ela anotava muita coisa. Então nesse
diário não tinha aquela coisa de ser só meu, ela escrevia, i eu lia e a partir do que ela fazia de
devolutiva eu me alimentava; e ela gostava demais dessas ‘’coisinhas’’ que começaram
assim...Sabe...eu meio que colocava umas ilustrações...né?
212
Fazia esquemas. Era uma coisa bem...Simples.
Então por exemplo...’’circuito no parque’’, então o tipo de ...Fazer desenho, coisas que... Aqui,
ó...Outro circuito...(pausa).
Aí ela adorava, falava aiii que lindo, não sei o quê...(risos)
Então...Acho que isso foi me dando uma...(pausa) Foi como um estímulo, né? Um estímulo.
Bom...Aí...Isso aqui...
Em paralelo eu dava aula no Equipe. no Equipe eu dava aula de... Sétima e oitava-série, eu
acho...Começei com sétima e depois peguei...Não lembro direito, foi em 92 também.
a gente foi fazer uma viagem de campo, isso era uma coisa que eu fazia, já bastante, que era o
diário de bordo.
Então a gente foi fazer estudo de campo e aí eu fiz este registro da viagem.
Ele é bem, bem bloquinho...coisas que você vai anotando tipo, no... café, bolsa do café...
Aí tem uns deseinhos também, aqui...
Está meio desmontado porque eu mostro pra caramba para os meus alunos, está vendo...
Então assim, as situações do cotidiano...
Esse aqui, aqui ó...Tem uma coisa de contraste, né? Da arquitetura mais moderna e mais antiga no
centro de Santos. Na região central...é.
Aqui, ó...Rua XV de Novembro...Não, não é...Isso aqui é um endereço que eu anotei, não tem nada a
ver; mas isso aqui é em santos, mas isso aqui é um endereço que eu tinha que ir num lugar (risos)
em São Vicente.
Isso aqui também é uma coisa que eu acho importante... É curioso, né? Como o registro, acho que
nesses primeiros...Mesmo nesses...
Ele é mais um registro descritivo, das situações de sala de aula, se a gente for ler, né? Depois eu dei
um curso sobre isso, Diários de professor...E eu retomei todos os meus registros, li o Zabalza,
então...Assim...Começei a entender melhor os registros. Então eles são bem pouco reflexivos,
esse...Esse é um registro que trabalha muito com coleta, coleta de imagens, mas são coisas
importantes para mim. Porque...Depois que eu vim a trabalhar no MAM...eu...e eu gosto muito de
retomar os registros...Então várias propostas de situações com o público eu tirei desses registros.
Então por exemplo...Esse aqui eu me lembro bem assim..Que tinha uma coisa de...Numa exposição
que eu nem me lembro qual era, mas acho que era uma coisa de construtivismo, ligada ao
construtivismo, as correntes construtivas, né? Na arte. E...
eu fiz uma proposta que eles tinham que pegar em ‘’visorzinho’’ e olhar e foi exatamente essa
proposta que eu tinha feito, sei lá, há dez anos antes.
Que era selecionar na paisagem um lugar onde tivesse um encontro do velho e do novo e tinham que
fazer um desenho...E veio disso.
Silvia: Olha, que legal.
Zá: Então assim...Tem coisas, né, que...
213
Silvia: memória é uma coisa de registrar a memória, né, Zá? Isso que é legal, você buscar isso que
está guardado, né?
Zá: Principalmente a minha memória que não é...Que não é das melhores...(risos). Quer dizer, o é
assim...né? Outro dia estava discutindo com o Cão, meu filho, que tem cinco anos...Eu te contei essa
história?
Silvia: Não.
Zá: Ele falou...Mãe, os pedaços do seu cérebro da memória é minúsculo (risos)
Eu falei sabe o que é, filho... É que eu uso umas coisas para me ajudar em na memória, e segundo
que eu tenho memória seletiva, tem umas coisas que eu preciso tirar senão não cabe tudo.
Aí ele ficou me olhando com uma cara assim...Porque ele tem uma ótima memória, né?
Bom...
Então esse aqui, ele é meio simultâneo a esse. E assim, Silvia, você quer que eu te mostrando?
Depois você pergunta coisas...
Silvia: ta, ta...
Zá: Esse...Bom, eu...Aí já não sei mais se vai ser tão cronológico assim.
Então aqui tem esses registros desses diários de viagens, que o tem nada a ver com a parte
profissional. Tem a ver comigo, Zá, que gosta de desenhar.
Silvia: Está relacionado, né, Zá?
Zá: Totalmente. Tem uma coisa de...Quase não conseguir viver sem...Uma necessidade tão...(pausa)
Quando eu demoro pra fazer um registro...Eu recupero bem...Eu sei que é diferente.
Fazer registro assim sistemático, longitudinal, você faz, registra, faz, registra
Você até anota algumas coisas num caderninho, depois eu retomo.
Eu tenho vários bloquinhos também, depois se você quiser eu te mostro, são essas as anotações
que depois se transformam...O que eu chamo de coleta, essas.
Que é de anotar...Então durante a aula.
E eu prefiro até anotar a gravar, eu gravo e não recupero nunca mais.
Eu acho que eu tenho uma coisa com o escrever, eu gosto de escrever, acho que se relaciona
com...Com o desenhar, eu gosto de escrever no papel, eu escrevo no computador, agora eu comprei
essa maquininha aqui (risos), né? Eu escrevo, passo depois para o computador coisas, outras eu não
passo, prefiro no papel mesmo (risos), uma coisa não substitui a outra, é diferente.
Acho que escrever no computador é completamente diferente de escrever...
Silvia: No bloco, num caderno, né?
214
Zá: É.
É uma coisa engraçada que eu percebi uma vez fazendo um relatório lá na Escola da Vila...
Eram nos primórdios...Quando a gente começou todo mundo escrevia no papel, até os próprios
relatórios que a gente mandava para os pais, tal...Era escrito, manuscrito, né?
Mas a gente começou a usar o computador, depois que você começa a usar o computador você
começa a pensar d em outro jeito.
Então eu lembro que tinha num relatório que eu levei para a Cristina lê, que a gente fazia, aí...Vamos
recortar essa parte e colar aqui nessa outra parte, mas era em papel, mas a gente pensava no
recorte e cole do computador...E daí foi muito engraçado, que nosso relatório virou um pergaminho,
a gente tinha que abrir ele assim...Sabe?
Porque ele era todo de recorte e colagem.
Porque o computador é...
Depois eu li a história da leitura do Manguel que eu adoro...E ele fala sobre essa relação, né? Dos
pergaminhos...
Bom...aí, esse aqui...Coleta. Se vê, né? Então tem tudo a ver, isso tem a ver, acho...Que tem a ver
comigo, se vai colocando, colando.
Eu gosto, ó...Está vendo a minha parede. Isso aqui é o início de parede. Quando eu para essa casa,
demorei, sabe assim... Vou ser mais limpa, vamos trabalhar com a escassez...Tá vendo, aí já
começa, pega um ‘’durexinho’’ vai lá e cola, um ‘’durexinho’’...E vai colando...(risos)
E vai...Vai...Se construindo. (pausa)
Eu adoro galinha também, sou apaixonada por galinha.
Quando eu fui para Milho Verde (risos), eu fui sozinha para essa viagem, aí...Milho Verde é um lugar
que tem um monte de galinha andando na rua...Eu ficava pensando será que Milho Verde é porque
tem um monte de galinhas?
eu comecei a viajar que era a cidade das galinhas, que as galinhas é que caminhavam que nem
pedestres, nas ruas...(risos).
Porque elas andavam mesmo...
Silvia: Onde que é?
Zá: É Minas, Milho Verde é depois da Serra do Cipó.
Silvia: Perto de BH?
Zá: É, BH é...Dái vai entrando para o centro, né? De Minas...
Silvia: É o que, um vilarejo?
Zá: É uma cidadezinha mínima...Tem um lugar que se chama Lajeado, mesmo em Milho Verde,
lindo...Tem um lugar que dizem que foi mágico, porque tem pedras pretas assim, tem na seca,
215
mas dizem que na época do verão chove e alaga, mas umas pedras bem pretas com umas crateras
enormes assim...Vazias de água com um areinha branca, então era uma paisagem muito diferente,
que é em Milho Verde.
E assim, em Milho Verde tem uma rua, é uma rua cheia de galinha e , faz muitas caminhadas
para cachoeiras. É uma região bem linda. Eu gostaria de voltar.
Mas tem muitas galinhas. Eu ficava o dia inteiro vendo galinhas. Eu nem ia caminhar muito para
cachoeira, eu adorava ficar lá com as galinhas. (risos)
Aqui é São Gonçalo, que é uma cidadezinha até mais conhecida do que Milho Verde, porque ela é
uma cidade histórica, Milho Verde não é histórico, é no Vale do Jequitinhonha, isso aqui... Você vai
caminhando, você vai entrando, tem aqui o pessoal que trabalha nas cooperativas do Vale, a coisa
do artesanato local, que é lindo, né?
Um artesanato vermelho, pintado de branco... É uma coisa linda.
Aqui já é outra viagem, para Trancoso. Então ta vendo, esse aqui é desenho, esse daqui também,
esse é de 97. Esse é de 97 mesmo.
Porque esse daqui era uma coisa assim...Eu queria fazer um desenho por dia, porque sempre eu
entro numas crises de não desenhar, então era um desenho por dia, não importava muito, mas tinha
uma coisa do...Acho que vai virando meio uma narrativa, um desenho vai puxando o outro.
E porque...Esta vendo...Ó tem uma coisa aqui...Ta vendo...
Aí, o objeto que aparece na minha frente eu desenho, telefone...(risos)
Bom...aí...Com esse negócio de um puxa o outro eu comecei a trabalhar com uma coisa de linha...Eu
também...Depois eu posso te mostrar algumas coisas que eu tenho feito atualmente...Muito forte de
trabalhar com a linha. Mas a linha...Porque aqui...Eu to trabalhando no desenho, mas eu estava
pensando a linha que costura, que alinhava, que tece, que borda, né?
Eu tinha assistido Gabet nessa época com aqueles tapetes...Eu escrevia muita coisa de trama...A
escrita, ela sempre caminha um pouco perto das coisas que eu desenho...
Bom, aí, vai... Um monte de desenhos...(pausa)
Depois, Sil, se você quiser levar para fotografar tranqüila na sua casa eu te empresto tudo, você
fotografa.
Silvia: depois eu te trago.
Zá: Aqui já é outra época, dá para perceber, já é outra coisa, né? Tá vendo?
Isso aqui era uma época que eu estava grávida, eu acho...Não lembro.
Eu acho que eu estava grávida...Eu lembro um pouco por causa dessas formas aqui...
Silvia: É memória, tem algum de observação?
Zá: É tudo imaginação, nada...Então tem algumas coisinhas...
Silvia: Que talvez estava perto...
216
Zá: É...São essas daqui. São o telefone, o furador, e aquele prendedor de cabelo. Mas...é mais...De
imaginação mesmo.
Esses de viagem são mais de observação.
Aí, ó...Isso é uma coisa meio compulsiva. Aqui eu estava viajando em Lisboa, não me pergunte
porque eu arranquei..Deve ter dado alguma crise, de arranque, arranque. (risos)
Mas...O que eu queria te mostrar...Ó.Aqui olha, ta vendo...Eu comecei a escrever com essas
letrinhas. Eu comecei a experimentar uma coisa, quase sem...Separar as palavras...Também
são todos escritos de viagem.
(RELAÇÃO COM ARTISTA)
Isso aqui é uma amiga minha, não sou eu... É uma...Bem amiga minha, a gente foi viajar juntas e ela
começou a escrever junto. A gente vivia...
E tem muita carta, que eu não envio...Também tem uma coisa assim...Mesmo que eu não envie
as cartas ficam aí.
Silvia: Tem tudo a ver com registro, as cartas, né?
Zá: É. Porque é um jeito de escrever para alguém, mas na verdade é para você mesmo.
(pausa)
O que eu queria te mostrar? Está no outro... É, está no outro. Eu vou te mostrar depois. Que é um
que não é de viagem, quer dizer, é de viagem, mas é de viagem da própria cidade, aqui mesmo.
(risos)
Porque eu andava muito por São Paulo e...Com o meu caderno e escrevia um monte. Pode passar de
um para o outro, assim, né?
Silvia: Pode, tranqüilo.
Zá: Esse da Vila também era uma época que eu não dava mais aula de...Para sala de aula, educação
infantil, eu comecei a dar aula só de arte.
Grupo 04 que era o antigo pré... é alfabetização, e primeira e segunda série, não lembro...
Mas assim...Tinha uma coisa que quando eu fui dar aula de arte, não tinha mais essa exigência da
coordenadora, da minha coordenadora de ter os diários do jeito que era, porque na educação infantil
mesmo no fundamental...As professoras de classe tinham que escrever, fazia parte das funções do
professor. No de artes, não necessariamente, mas a gente queria.
Só que como era diferente, não tinha obrigatoriedade, e assim...Os professores de artes você já deve
conhecer como é, né?
‘’Ai...Eu vou lá, eu faço, dou minha aula, e tal.’’ E eu não...Como eu tinha toda uma formação, eu me
exigia muito assim, fazia planejamento, depois fazer reflexão, então, assim pra mim era importante e
necessário para minha prática, pra registro e tal.
Então como não tinha muita obrigatoriedade, ficou mais solto, quer dizer...Eu fiquei mais livre para
pensar o formato que eu queria. Então eu fui, eu comprei o caderno, já não era pautado.
217
Aí aqui eu fiz um diário mais...Pausa
Aqui é o currículo da escola...Caiu.
Isso aqui, Sil, esses cadernos estão um pouco assim, eu não sei se isso é bom ou ruim, por um lado
é bom, por outro lado é ruim (risos)
Por um lado é bom porque eu acho que as pessoas têm que ver, então, assim, curso que dou, eu
sempre levo, levo para meus alunos, agora eu voltei a dar aula para oitavo e nono ano, e eles vão
meio que largando o caderno, não querem mais...E aí quando eu levo, eles...
Obs. (o filho acorda e entra no quarto)
Bom então aqui o que eu fazia, eu colocava pautas de reuniões que a gente tinha, que eram
quinzenais. Colocava coisas da...
Silvia: Que era uma coisa só sua, né? Ninguém fazia intervenção, nada?
Zá: Só minha. Ninguém fazia intervenção e assim...Ele é um pouco telegráfico, assim...
(paramos um pouco por causa do Cao, entrou no quarto mais uma vez).
(Eu comentei com ela sobre as Festas Juninas do Porto e os trabalhos temáticos de artes,
relacionados com as datas festivas, com um caráter ‘’decorativo’’.)
A Vila é o inverso disso, não tem nada. É o inverso.
Não tem nada assim...Dia das Mães. Tem assim, se o professor quer fazer e quer...E aí tem que ter o
cuidado para fazer uma coisa caricata.
Mas tem professor que faz coisas ligadas...Por exemplo. Cão me mostrou o caderno dele, aí ele falou
que ele fez...Ah...Mamãe fiz desenho de observação do pátio que estava arrumado para festa junina.
Então tinha um monte de bandeirinhas...Mas ta vendo, é uma coisa que é o desenho de observação,
não é a festa junina.
Silvia: Lá no Porto ainda tem...
Zá: Na verdade são caminhos...Então, o que aconteceu...Quando eu comecei a me empolgar com a
parte visual do caderno, ta vendo?
Começou a virar muito assim...As lições que eu estava criando, tinha uma coisa bem intensa de
investir nos cadernos dos alunos, no registro deles. Então...Aqui eu comecei a usar a fotografia
também como registro e coleta.
Até então eu não usava fotografia. Então...Eu comecei a usar mais...E não era tão fácil como é hoje
em dia. Aqui era assim, analógica, mandava revelar...E tudo. (risos).
Foi aqui que eu comecei a usar fotos, eu não usava, você viu? Aqui não tem nada de foto.
Então, tinha uma coisa assim, eu comecei a fazer essas coisas, de anotar, palestras...
218
Mas era uma coisa muito, muito assim...Você que não tem reflexão...Não que eu estivesse bem
com tudo isso, eu ainda tinha uma angústia, mas acho...Eu tinha uma angústia porque eu sentia falta.
Mas eu estava fazendo cinqüenta milhões de coisas, essa época eu trabalhava no MAM. E no
MAM a gente, eu era coordenadora lá, dos educadores do setor educativo.
Então...ehh, todos os educadores, eu comecei também a levar essa idéia dos registros, de fazer
reflexão e, todos eles tinham seus diários, e tal...E foi uma coisa que foi pegando, não com todos,
acho que nunca foi unânime assim...Mas vamos dizer que 80% sim e outros tinham muita
dificuldade, e aí...Tinham muitos artistas na equipe, então esses que eram artistas, eu dizia pra eles,
ah, vocês podem fazer uma coisa mais ligada a seu trabalho, fazer registro fotográfico,
então...Tinham registros bem diversos assim...Trabalhava muito essa idéia da relação do percurso
deles como artistas e desse percurso como educador, como é que esse diálogo se estabelecia e tal...
Então alguns desenhavam, outros faziam fotos, outros vídeo, filmavam, a gente usava depois para
ver. Então sempre tinha essa coisa importante da interlocução.
Obs. (Maria entra com o café) pausa.
Silvia: E depois vocês conversavam, refletiam sobre isso?
Zá: Nossa...Muito. A gente não conversava, refletia, como brigava...Dava quebra pau, tudo
acontecia. Essa equipe que eu tinha, assim...Acho que foi a coisa mais interessante de trabalho que
já aconteceu, assim na minha vida. Por que assim...Era uma equipe...
Eu morro de saudade, porque era uma equipe assim, não que ela era...
Bastante gente ficou bastante tempo, uma coisa que não é normal num educativo de uma Instituição
Cultural, mas ficou bastante tempo, e...Era uma equipe que tinha assim uma diversidade, então
tinham pessoas muito diferentes, com formações diferentes, com pensamentos e idéias diferentes e
tal...
Só que tinham coisas que tinha que concluir em comum.
que como a gente estava construindo, né? Porque a gente que instituiu o educativo, né? A gente
que começou...Então...Ele tinha uma coisa muito intensa de todo mundo se sentir criador do projeto,
que era bom, mas tinha quebra pau...Porque por exemplo...Eu era uma coordenadora exigente nessa
parte...E não tem essa cultura, né? Nos educativos. Tem uma coisa muito de ficar um tempo, é
temporário.
Então tinha quebra pau e eu ficava super brava, acho que hoje em dia eu estou mais
tranqüila...(risos).
Silvia: Você não tinha paciência?
Zá: Não...Tinha muita paciência, até! Mas porque era assim...Não é que eu ficava brava rápido. Era
difícil...Demorava.
Mas sabe quando você vai fazendo um trabalho, você investe, investe, investe e que não tem
resposta.
219
Mas era uma equipe que quebrava o pau, mas estava sempre tudo bem, assim. Sempre todo
mundo...Porque era uma equipe que tinha vínculo muito forte. Todo mundo curtia o que fazia, fazia
bem feito...
Silvia: E até hoje continua o educativo, né?
Zá: Continua...Mas pessoas bem, bem diferentes. Mudou bastante. Porque eu já to fora do MAM.
Algumas pessoas da minha época, acho que todos já saíram.
Silvia: Tinha uma época...Como ela chamava, hoje ela esna Escola São Paulo na Augusta, sabe?
Vera...
Zá: A Vera Barros.
Então, ela também... Ela era coordenadora geral e eu coordenadora pedagógica.
Ela e o Barnack, você chegou a conhecer o Barnack no Tomie? A gente trabalhou anos juntos.
Trabalhamos na Bienal, a gente trabalhou depois no MAM e até na Escola São Paulo e eu e o
Barnack chegamos a dar aula, mas não deu muito certo. É porque a Escola São Paulo está
começando, então ainda tem algumas coisas confusas... (pausa).
Bom...Aí, Sil...Então esse aqui é isso que você esvendo, então eu tinha muito...É bem uma coisa
de coleta...Às vezes tem um esboço de reflexão, mas bem pouco. Eu adoro esse. Adoro olhar.
Esse aqui também tem uma coisa igual de diário de bordo. De lembrar tudo que eu fiz com os meus
alunos. E que ele é isso aqui que vai sobrepondo, vai colando, vai pondo...
Ta vendo, ó...Então, por exemplo, isso...Que é uma coisa de busca também de instrumentos e que a
gente compartilhava na equipe. Então por exemplo. Ah...eu dava uma lição por semana para várias
turmas, então... A gente perde o que vai...O que vai trabalhando, né?
Então a gente começou a inventar uns instrumentos que eram adaptados ao professor de área, o
era o professor de classe; aqui eram as lições de casa...Os cadernos dos meus alunos eram demais.
Nossa!
Silvia: Isso aqui vocês faziam com os pequenininhos? Legal fazer cadernos com eles?
Zá: Isso aqui eram as lições que eles tinham toda aula, eles tinham a lição de casa no caderno.
Porque? Ta vendo, ó, isso era uma lição de casa...Porque como eles eram bem pequenininhos e
tinham aula uma vez por semana...A gente tinha esse sensação que ficava tudo muito lá
longe...Então eles não lembravam o que estava estudando, então era uma forma de...Mantê-los
alimentados.
Então por exemplo...Eles levavam a lição de casa, tinha aula segunda-feira. Eles levavam a lição de
casa na segunda –feira, explicava a lição de casa na aula de artes, eles levavam os cadernos, eles
220
podiam usar os cadernos fora, na buraqueira, com a professora de sala também e ...Eles levavam o
caderno para fazer a lição de casa...quinta-feira.
Eles não levavam logo na segunda, eles levavam quinta-feira. Quer dizer, eles tinham quinta, sexta,
sábado e domingo e trazer na segunda.
Então, era assim...Eles tinham esse tempinho para retomar. Ah... ’Tô trabalhando arte popular, o
sei o que...’’ (risos).
Então as lições, elas tinham esse caráter de recuperar a memória. O que é memória. Então
relacionar o caderno à memória, ao registro.
Silvia: E o caderno ficava na sala das professoras?
Zà: Ficava na ‘’buraqueira’’, quando eu precisava para ver, para avaliar, ele ficava comigo na
oficina, mas ele ficava com as professoras.
E até hoje é assim! E olha que isso, o´...Faz tempo, muito tempo. (risos).
Até hoje é assim. E deu...Avançou em algumas coisas.
Eu acho que ter o meu caderno ajudou as pessoas o que seria o caderno deles.
Isso hoje em dia eu to trabalhando com os adolescentes.
Porque assim. Isso perde. Eles perdem o vínculo com caderno. E olha que são alunos que tiveram
todo esse trabalho com cadernos no Fundamental I e quando chega no sétimo, oitava e nono ano
eles tiveram três anos de cênicas, então tem uma ruptura.
Até agora eu to tentando...Como eu coordeno agora do sexto ao nono ano eu to tentando ver alguma
coisa mesmo na área de cênicas e dança, que eles tenham alguma coisa de registro, de relacionar
com o percurso deles, pra não ter essa ruptura, porque acho que é uma ruptura grande.
Mas, vamos ver a gente ainda está pensando.
Esse, esse...Essa idéia do caderno das crianças também surge um pouco como daqui, quer
ver...Esse caderno foi quando eu comecei a dar aula para o G4, que eu sentia isso. Eles chegavam
e... ‘’Oi, tudo bem?’’.
Silvia: G4 é?
Zá:É o pré, antigo pré.
Porque assim, como eles perdiam muito (?) eu comecei a trabalhar isso com eles. E também vem
muito dessa prática minha como professora de sala. De registrar, de ter um cadernão...
Então a gente foi anotando todos os artistas e movimentos, o que era estudado eu pus no mapa e
tinha a participação deles.
Então, eu...Eles iam anotando, a gente localizava e tal...
Então o primeiro estudo foi de arte popular, esse era um registro que inicialmente era feito por mim e
daí aos poucos eles também foram...Conquistando a base alfabética e tal...Então eles queriam
221
escrever e assim...Eu tinha nessa época quatro grupos de quatro e era um caderno para cada
grupo...(pausa) E eles eram parecidos, mas...Tinham coisas parecidas porque eu também não sou de
ferro, né? Então eu fazia umas coisas meio...Xerox igual para todo mundo, mas...O jeitão era meio
diferente.
Silvia: E eles vinham no caderno e faziam?
Zá: Isso ficava pendurado assim na sala, ficava assim, então quando eles chegavam fazia parte da
rotina como se fosse um calendário, eles iam e olhavam...Ah...Então a semana passada a gente
viu isso.
Então... (pausa)
Aí a agente trabalhou O David Hokney, uma coisa de cenário...
Então, esse eu fiz pra todos.
É bem antiguinho esse daqui, esse aqui tem um problema que não tem a data...
(pausa) cão entra no quarto.
E aí olha só a escrita deles, né?
Então, daí eu levava essa parte aqui pronta e eram meio legendas que eles escreviam...Das
imagens.
(pausa) Cão entra no quarto, pede para sentar ao lado.
Aqui começa a estudar coisas de retratos...
Então, dtem, depois se você quiser, até tem um vídeo, que a gente estudou, mas acho que o
vem ao caso, que a gente estudou os retratos, tem...Documentado em vídeo, a Tarsila...
Daí esse foi o último trabalho do ano que a gente trabalhou o tridimensional...A fala das crianças...
E também era uma coisa bem impactante também, que a gente trabalhou muito a fala das crianças.
Que também vinha da minha prática de professora de sala de aula...Para poder analisar...O que
estavam falando, como é que eles estão entendendo, a relação deles com o conteúdo.
(Pausa)
Bom, então esses...O caderno dos meninos, acho que também surge um pouco disso daqui que eu
deixei de fazer porque era uma coisa meio insana e nenhum outro professor queria fazer...Virou
uma coisa que eu fazia. Então, e eu fiquei anos dando aula para os pequenos...Então eu fazia,
mas acho que isso migrou para os cadernos deles, pessoal. Que eu acho melhor, porque cada um
fazia o seu, tinha o seu registro...(pausa)
222
Silvia: Todos fazem?
Zá: Todos fazem.
Cao, trás seu caderno para Silvia ver. Sabe aquele caderninho...O Cão está no G3, que é um ano
antes do G4, sabe? E o caderno entrou na Vila no G3.
(Pausa). Cão entra fica novamente com a gente no quarto.
Zá: Acha que vai dar certo?
Silvia: Não sei...Vamos tentar.
Zá: Bom...Aí, Sil, Ah...Esse daqui, ó, eu acho que talvez eu tenha feito antes desse...
(pausa) Interrompe de novo por causa do Cão. Tira o filho do quarto.
Aqui ele é , é mais preparadão, mas ele tem o mesmo caráter. Tem o caráter de anotar as coisas
que estavam sendo feitas com cada grupo. Até porque como eu dava aula...
Isso também era uma coisa nova pra mim. Como eu dava aula para muitas classes da mesma série,
eu ficava um pouco perdidona, assim...Igual às crianças, né? Talvez um pouco mais do que elas.
(risos).
E também tem uma coisa assim...Eu não sou muito linear, então assim...Tem uma coisa de como que
o planejamento vai encarnando em cada grupo...Então tinha coisas muito diferentes em cada grupo,
ritmos diferentes e às vezes de propósito eu fazia umas coisas assim...Eu trocava a ordem dos
conteúdos porque eu não queria ficar dando aula muito mecânica. Sabe?
Então ...eu trocava, começava, vai, sei lá, trabalhar retratos num grupo e o projeto seguinte com os
outros, depois eu trocava. Para não ficar muito...
Linha de produção, sabe? Se dá aula, dá aula...(risos).
É que era um pouco que eu discutia muito lá com a minha equipe do MAM, que eram os quebra paus
que davam.
Porque as visitas...Elas... cada educador tinha o sei eixo, que acabava ficando uma coisa que
ficava lá naquela mesmice...Um tempão...E já virava aquela coisa...’’Oi, tudo bem,?’’, ‘’Oi, tudo
bem.’’...Sabe? (risos).
É horrível!
Você percebe isso, né?
E acho que esse material ele ajuda a, a pensar sobre isso.
Então, aqui ajudava nisso...
Então, tem, bem, tem...Como aquele lá...As propostas...Aí, coisas que eu inventava...
223
Então eu inventei esse caderninho que era um caderninho de retalhos de papel...Aqui é outra lição de
casa...
Silvia: Eles tinham lição de casa toda aula?
Zá: Toda aula, até hoje tem. Até o quarto no na Escola da Vila, até hoje tem lição de casa toda aula,
que é uma vez por semana, que não é tão toda aula assim, né?
Bom, então esse é assim ta vendo, como ele é bem abertão...Esses meninos aqui estão tudo
formados (risos). Já estão lá...No terceiro ano do Ensino Médio. (risos)
(Pausa)
Aqui eu dava aula para o G4 e segunda-série.
Ah...Eu tinha também às vezes alguns estagiários que iam fazer estágios, faziam anotações, eu
pedia as anotações...
Silvia: E lá na Vila os planejamentos são feitos pela equipe, coordenador e professor?
Zá: É, isso.
Silvia: Cada nível tem um coordenador?
Zá: Então...Já foi de muitos jeitos diferentes...Olha eu aqui, que diferente...Então, ó...Mais ou menos.
((pausa) –olhando o diário)
Essa oficina era aconchegante, sabe...Anos eu dando aula nessa oficina, então ela foi meio...Tá
vendo...Todos os objetos que eu fui colocando...
Tinham coisas de várias turmas, que ficavam e me davam.
Então era assim... É... A Yara Carmona, coordenou um tempão, então ela que era a coordenadora de
tudo, menos Educação Infantil, eram as próprias coordenadoras de tudo que coordenavam artes
também.
Depois de um tempo eu comecei a dar assessoria de arte na Educação Infantil. Então eu dava aula e
dava assessoria de arte. Porque tinham algumas coisas que precisavam iniciar lá na Educação
Infantil.
E eu dava aula para o G4 e eu identificava. ‘’Olha tais coisas podem ser feitas assim’’...
depois que eu saí da escola, logo depois a Yara saiu também da coordenação e hoje em dia ela
coordena só o Cultural, a parte cultural. (tosse)
E a Karen...Você conhece a Má? Ela que coordena...O Fundamental I e coordenava até o ano
passado o nível II também, só que era muita coisa, então eu entrei esse ano para coordenar o II e ela
coordena o I e o Ensino Médio, que o André que é meu marido dá aula, á coordenação não é da área
224
, da área de arte, é uma coordenação mais ampla, então é língua portuguesa, é...Como se fosse
Humanas, é Códigos e Linguagens...Então tem um coordenador e a equipe..Então é um pouco
diferente.
Sivia: Você conhece a Laine, Gislaine...
Zá: Quando eu comecei a trabalhar na escola era desse tamanho, né? Não tinha...Estava
implantando quarta-série. Hoje em dia tem Ensino Médio. Então... É horrível, tem gente que você nem
conhece.
Bom...Está vendo...Retratos, os projetos são os mesmos. Ai...Que amor, Rafa! Hoje ele é meu
aluno...também no oitavo ano, ele desenhava muitos carros...
Aí...Tinha...Isso também, tem uma coisa...Só que eu perdi um caderno que era assim...Quando eu
dava aula no G3 tinha um monte de criança que tinha errei, errei, errei, errei.
Aí eu comecei a pegar os ‘’errei’’ deles e eu levava pra casa um monte de papel, uma pilha...E aí...Eu
faço..Desenhava em coma dos ‘’errei’’ e come...E levava pra eles...Daí...A gente fez uma caixa do
que é errado pra um podia ser o certo para o outro. Então eles aproveitavam os desenhos. Então
virou uma coisa que a gente tinha essa coisa do desenho com interferência, sabe? De começar a
partir de um desenho. E as interferências ao invés de eu ficar bolando um monte de interferências
tinha já um monte e ficavam uns desenhos maravilhosos...
Silvia: Porque eles têm isso, né? Errei, não sei fazer, apaga.
Zá: É...Com cinco anos que começa, não quer mais, não quer mais.
E aí isso era uma coisa bem legal, então eu fazia bastante isso. Isso aqui era uma coisa bem comum,
de, de...Fazer com eles, sabe?
De a partir de um desenho...
Aí...Voce me fez lembrar...Eu estava ontem discutindo com uma professora lá no prêmio que é
selecionadora também...Que é o primeiro ano que ela seleciona...O meu é o terceiro, né? Então...Eu
já tenho uma experiênciazinha acumulada...
É difícil, sempre é difícil, mas ter uma experiênciazinha já é...
Eu estava contando pra ela como ...é....Os professores tem um processo...Que a gente precisa
retomar o nosso também pra conseguir entender.
Então por exemplo...Ela está fazendo a seleção para alfabetização, e é bem difícil. Todos são
difíceis...
Mas acho que a alfabetização é bem difícil até porque tem uma tonelada, tem muito trabalho, né? E
aí...Ela estava falando como tem táticas muito híbridas, muito híbridas e aí eu comecei a falar um
negócio para ela e í eu me dispersei (dispertei ?) e eu comecei a lembrar de quando eu comecei a
trabalhar com educação e não sei o quê...Quando eu conheci a Escola da Vila, foi assim...Eu fui
numa, num simpósio de, de...Acho que era de Ensino de Arte e a Rosa foi falar nesse simpósio e o
225
que ela mostrou?...Ela mostrou todo o trabalho de arte, da concepção... que, eu que nem
conhecia...
Silvia: A Rosa Ilveb...?
Zá: É. A Rosa Ilveberg.
Eu que nem conhecia o, o...Trabalho direito da...Eu lia sempre o da Madalena Freire, que eu tinha
lido a ‘’Paixão de conhecer o mundo’’, e...
Silvia: Você fez Espaço Pedagógico, Zá?
Zá: Não, nunca fiz.
Silvia: Foi lá que tudo começou...
Zá: Você também vem da Madalena? Então, também tem essa coisa...’’da paixão de conhecer o
mundo’’, que é um diário, né?
Silvia: E a Madalena está agora meio que dando cursos particulares, assim, sabia?
Zá: Ah é?
Silvia: Eu tenho até vontade de fazer o ano que vem quando acabar o mestrado. Tenho duas amigas
que tem escola e estão fazendo com ela. Elas falam assim, que elas saem de lá...Sabe assim,
alimentadas...Porque é muito bom. É particular. Você e a Madalena. E você levar todos os seus
projetos para ela, todos os seus trabalhos...
Zá: Então a gente queria chamar a Madalena pra supervisionar o nosso trabalho lá no Tomie. Porque
a gente ta agora num ponto no Tomie, o trabalho já tem uma maturidade, não seio quê... É isso
que a gente conversou sobre os diários...A gente sente que tem uma coisa assim, de que os
professores estão lá, há bastante tempo, que tem algumas práticas que começam...Que ficam
cristalizadas e a gente quer mexer. E aí uma pessoa de fora ajuda muito.
a gente pensou em chamar a Madalena, o Jardim...A gente pensando ainda umas pessoas
assim...Também diferentes. Pra olharem de fora e falarem alguma coisa.
Então antes que eu esqueça...Precisei até anotar pra falar pra Cris que eu comecei a falar pra
ela...Que é assim...Aí quando eu fui ouvir a Rosa falar ela falou coisas...De diferentes...Dimensões,
assim...Coisas mais reflexivas, e tal...Só que eu que não conhecia...A minha atenção, ela se volta
para o que da fala dela se encaixa com o meu momento na época. Então o que me chamou a
atenção...
226
Isso...A coisa de trabalhar com interferências no suporte...Eu lembro que ela mostrou uma... Um
conjunto de atividades que me abriu...Eu falei...Caramba...Justamente numa época que a gente
questionava muito o ensino de técnicas com materiais...
Eu trabalhava na época numa creche, tinha essa coisa super forte, eu questionava, mas não sabia o
que pôr no lugar...Então quando ela mostrou...Então por exemplo se você colocar um círculo vazado,
como isso pode abrir pra criança...Não é um papel em branco...Mas também não é aquela coisa
super dirigida, mas...Isso foi o mais importante pra mim na fala da Rosa. E eu sei, eu tenho as
anotações do seminário, do simpósio...Que ela falou um monte de outras coisas...Mas eu estava
falando pra Cris isso...Como o que é significativo, é quer dizer...O que é significativo pra cada um,
é...Muito diferente e assim acontece com as crianças também.
E é coisa de você entender que o ensino e a aprendizagem são processos diferentes, ? E a
gente...Eu não entendia isso na época. A gente veio de uma, da escola transmissiva e
assim...Professores que não...Não aprende. É o processo ali que ta...E o é. Hoje em dia a gente
sabe que não é.
Alunos com cabeças diferentes, pensando coisas completamente diferentes. Isso é uma coisa que
me angústia muito.
Silvia: Porque não dá conta. E não dá conta mesmo. A gente não garante. Eu lembro que a Madalena
falava: Não garante mesmo e não se frustre. Nesse esquema da escola hoje, né?
Professor de artes pega quinze salas... É difícil.
Zá: Que é hoje, mas é que...Talvez a gente tenha vivido um momento da escola diferenciada, que é
trabalhar em escola mais alternativa, escola menor e morreram todas, né? Porque a escola ela tem
essa coisa de linha de produção, de muito...Atender muito.
Silvia: Identidade única.
Zá: É.
Silvia: Identidade da escola.
Zá: Eu falo, você aprende, eu ensino, você aprende. E hoje em dia a gente vive um caminho...Que
é...Professor sabe que os projetos são outros, mas é escola. Acho que esse é o problema, né? Do
formato escola.
Sivia: Professores angustiados, que não conseguem quebrar esse esquema da escola.
227
Zá: Porque não dá pra quebrar. Porque a escola também é...Como é que fala...’’empresa’’...Precisa
de aluno.
Silvia: Cliente...Os pais compram essa mercadoria, se agente for falar de escola privada...
Zá: É.
Silvia: Vira uma mercadoria...E aí a gente começa a pirar, né, Zá?
Se a gente for pensar nisso...Eu entro em altas crises.
Zá: Eu também, mas é que eu gosto tanto de trabalhar com aluno que...Isso me anima.Quando eu
lembro da cara de cada um...Porque...Depois eu vou te mostrar um pouco como que ta...Esse ano.
Silvia: Mas acho que isso que é legal, que essas crises faz você buscar.
Zá: Alternativas, né? Você fala ta bom...Não dá para fazer por aqui, mas...Dá por ali. Isso é uma coisa
que eu acho que tinha um mérito na professora do prêmio do ano passado. Porque...A Paula...Você
conhece ela?
Silvia: É...A Paula ela fez mestrado no Mackenzie também, ela terminou, um ano antes de eu
entrar, e aí ela foi dar uma palestra no Mackenzie. A Paula também fez diários...
Zá: É, então. Por isso que me chamou a atenção o trabalho dela. Porque ela falou que ela registrava
tudo em diários.
Silvia: ela foi dar uma palestra, eu estava fazendo, eu estava entrando no, no mestrado...Aí eu
assisti à palestra dela, no final eu fui falar com ela... ‘’Paula, eu vou precisar de você no final do ano
que a minha pesquisa é sobre isso e tal...Bom...Ai ficamos amigas, a gente conversou muito...
Zá: Ela é muito legal, né?
Silvia: Uma graça. E ela também me deu uma entrevista. Então as entrevistas do mestrado que eu
vou fazer é a sua, a da Paula e Rubens Matuck. Sabe, o Rubens Matuck...Que faz cadernos...
Zá: Eu adoro os livros dele. Também os diários de bordo.
Silvia: Eu fui ao ateliê dele...Tem diários lindos, muito registro. E aí a primeira pessoa que eu
entrevistei foi a Paula, aí ela me contou todo o processo do prêmio. Uma graça, ela.
Zá: Então...E isso é uma coisa que é raríssima. Ela me chamou a atenção essas duas coisas...
228
Primeiro é assim...Quando você olha na fichinha...O que a gente espera do prêmio, né? Que o
professor ele atenda uma...assim...que ele escreva pro prêmio, que inscreva um trabalho que é um
trabalho feito com trinta alunos, com uma sala de aula. 35, 40 que seja.
Mas os professores colocam lá...500 alunos.
Então como é que você como selecionadora consegue analisar...né? É muito difícil. E o dela era de
500 alunos. Então ela estava quase fora assim da pilha...Só que da gente selecionou os trabalhos,
fez uma primeira...Seleção. E ela entrou na minha primeira seleção. Mesmo com esse negócio de 500
alunos...Mas o trabalho tinha me chamado à atenção por vários aspectos...
Partir do que ela fez, ela...Primeiro ela tem a prática do registro, o que torna a prática dela
diferenciada de todos os trabalhos que eu li. Todos. Então isso fez com que ela demonstrasse ter
uma escuta atenta pras aprendizagens. E o próprio trabalho da sala de artes é muito importante. Que
é assim...Às vezes você não sabe exatamente o que aquela criança come, bebe, pensa...Que é
completamente diferente de você dar aula para ela todos os dias e de dar aula para uma sala de aula
só. Mas através dos registros e dos desenhos você consegue perceber isso, você conhecer aquelas
crianças, pela produção delas.
LADO B
Eu até tinha separado essa sacolinha, porque lembra que a gente ia se encontrar no Tomie? Os
diários estavam aqui, ó. (risos).
Ah...Eu queria te mostrar também uma coisa...
Silvia: Que aí eu levo, eu vou tirar cópia, eu quero mostrar para minha orientadora. A minha
orientadora, ela fez um trabalho, Zá...Ela analisou os dois livros das cartas do Getúlio Vargas que ele
escrevia. O primeiro foi das cartas do Van Gogh.
Zá: Uau, hein?
Zá: E o Doutorado?
Silvia: As cartas do Getúlio. (informação equivocada, rever.)
Zá: Nossa! Que legal né?
Deixa ver se está aqui o que eu queria te mostrar...(pausa).
Silvia: Já está desmanchando, né?
Zá: É efêmero, olha? Vários são assim...(pausa)
Esse eu vou te mostrar daqui a pouco que é do MAM. Então, esses são do MAM...
Que é assim, óh...Depois, aí olha pra onde foi esse diário, está vendo?
229
E a gente fez o trabalho com a Ester, o caminho das artes em que a gente fez o diário do professor e
era assim...O diário do aluno. É que não sobrou, o diário do aluno.
É que era assim...O diário do aluno era pequenininho...E do professor tinha algumas orientações
didáticas aqui na lingueta.
Era uma página maior e esses espaços para o professor escrever.
Então...(pausa).
Aqui é o crachá. É que o meu eu fui usando durante os trabalhos.
Então ó...Está vendo? Essa parte cada educad.... professor que fazia os encontros com a arte que é
um curso de formação para professores e pedia no início do curso, eles tinham uma duração de três
meses e recebia esse diário...
Agora é muito engraçado, né?
Silvia: E eles faziam, eles tinham essa...
Zá: Então, eles não faziam, sabe o que eles faziam ? O diário ficava limpinho, branquinho,
imaculado. Eles têm isso como um objeto, mesmo chamando diário...Isso daqui eu fiz, acho que no
terceiro ano desse trabalho pra mostrar pra eles como era para eles usarem e se
apropriarem...Desse objeto. Não, eles tinham uma coisa assim...Ai, mas é lindo! E eles deixavam ali
sem usar, (risos). É super difícil romper.
Eles faziam rascunhos... ‘’Mas depois a gente passa a limpo’’. Gente...Diário não tem que passar a
limpo, diário é direto, porque é rabiscar, riscar...Ai não...Eles tratam como livro e não como diário. E
a gente faz o inverso, né? Trata o livro como Diário, vai rabiscando, escrevendo (risos). Os meus
livros têm que ser meus, né? Porque... (pausa).
Então...Então esse daqui ele é assim...Daí...Tinha no final...(pausa).
no final tinha esses tickers, adesivos para fazer intervenções no espaço que era uma questão que
a gente estava trabalhando e tinha também uma...Aqui, ó, ta vendo? ...Uma agendinha cultural...
Silvia: Era legal analisar um Diário desses de professores, né? Depois do curso de formação, né?
Para ter o retorno disso...
Zá: É...Mais (tosse) não tinha...Esses projetos eram todos a toque de caixa, bem rápidos. (pausa)
(Cão entra no quarto)
E aí depois que eu saí do Mam ele virou...
É o mesmo, só que olha como mudou a cara.
Porque daí quando a gente saiu do Mam não podia mais usar, eles nem queriam mais usar esse
daqui era muito da época Vera, Zá e Barnack, aí eles mudaram toda a cara, ta vendo?
É o mesmo conteúdo, e me chamaram...Aí foi horrível essa parte. Está vendo, ó...Aí...Foi muito ruim
porque deu um monte de rolo. Eu nem gosto de olhar esse diário...
E o diário do professor era igual só que maior. Era a mesma coisa.
230
Com essa capa que...Eu não gosto... É couro (imitação), não...Sei...!?
Oh...Eu acho que ta mesmo. marquei porque a Lucila, é esse ó...Ela que deu aula de registro
esse ano no meu curso...
Então... Que a coisa da trama que eu queria te mostrar.
Então, olha tem uma coisa assim que vai meio que desmanchando, né? Mas também tem isso...Óh...
Eu adoro escrever em guardanapo...
Então eu tinha uma coisa de também de escrever e de colocar aqui, então tudo ta meio ligado...Então
quando eu mostro esse Diário...Ele é um pouco pessoal demais. Então eu nunca mostro ele inteiro, ta
vendo?Eu mostrei esse para as pessoas perceberem essa dimensão tão íntima e pessoal, assim,
que não perde nunca, no Diário, na minha opinião, né? Mais...Senão sem isso vira o que eu vejo
muito que é o Diário Burocrático...Que tem que fazer e pra mostrar pro outro e que não tem...E o que
acontece é que a pessoa não escreve pra si própria, ela escreve para o outro, o que ele quer ouvir.
Então não vira um documento de reflexão.
Então essa dimensão...
Então é mostrar serviço..Eu trabalhei numa rede em que eu comecei a levar essa idéia de fazer
registro, de fazer Diário e eu via claramente, assim...Que elas escreviam pra mim. E eu conversava
muito com elas...Olha o Diário é seu. Tudo bem, eu posso ser uma interlocutora, mas ele é...Tem que
ser um instrumento pra você.
Porque senão ele não faz sentido, não tem significado pra você, não constrói.
E a pessoa...Se a formadora sai o Diário...Desaparece. Ele o tem...A pessoa não tem autonomia,
não se apropria disso como ferramenta de...Pessoal, né? De você avançar na sua prática pra você
mesmo, né?
Então acho que isso é uma coisa que eu...Eu acho importante de mostrar.
Silvia: Dos meus diários...O que é meu e o que o outro pode ler. Penso em separar, o mais pessoal e
outro profissional.
Zá: É. Tanto que esse daqui é uma coisa que...Eu não mostro porque acho que não tem nada a ver.
Não mostro pra ninguém. (risos). Mais é... (pausa).
Aí, bom...Tudo isso aqui vai vir desembocar nesses que são os que eu faço atualmente.
Hoje é um formato que eu...Fico mais feliz. Então esses são os Diários que faço e acho que tem a ver
por conta da característica desse trabalho que eu faço no CEDAC, na Ong. Que é de viajar.
Então ele junta uma coisa que é o Diário de Bordo, porque eu viajo e daí tem um monte de coisas
que...E a minha prática como educadora. Então tem sim...Um monte de coisas que se planeja antes e
um monte de coisas que acontece que você tem que lidar com o imprevisível.
Silvia: O CEDAC é aquele do Vera?
Zá: Não, aquele é o CEVEC.
231
O CEDAC é Centro de Educação e Documentação para ão Comunitária. É uma ONG que faz um
trabalho que é...De... Quase todos os projetos que tem no CEDAC, né...Tem esse caráter documental
que também é importante. Então todos documentam. A prática reflexiva é uma condição do
trabalho acontecer. Então todos têm, não desse jeito; tem que ver assim...No CEDAC tem a
formação em língua, principalmente... É um dos carros chefe, matemática, em arte e ambiental,
educação ambiental. Porque...Vários projetos acontecem em regiões que precisam, tem
impacto...Forte no meio ambiental então tem trabalhos...
Aí...
Silvia: Em várias regiões do Brasil?
Zá: Várias.
depende também de quem, quem é o parceiro. Porque o CEDAC sempre faz parcerias com
alguns, com algumas empresas que financia o projeto de educação de formação, todos são de
formação de professores e sempre vinculados às secretarias de educação local.
Então é uma triangulação.
Silvia: rede pública?
Zá: Sempre rede pública, nunca privada. Ou Municipal ou Estadual. Depende da triangulação que é
feita. Então...Não sei se tem uma ordem...Acho que não tem muita ordem, eu vou mostrando...
Aí...Sei lá. Depois eu te falo.
Então, aqui...Então por exemplo...Tá vendo?
Como o lugar é uma coisa importante para esse trabalho de...Olhar para o lugar, então a gente
sempre pesquisa na Internet como que é o Município e tal...Pra pensar no planejamento antes em
conexões significativas e tal... Mais também aparecem coisas muito novas (risos)...Que você não
espera.
Então também tem uma coisa...Esse trabalho aqui, esse caso desse Diário, eu fiz um trabalho com
professores, com diretores e supervisores, que são orientadores pedagógicos. Então tinha um
trabalho bem forte com os espaços da escola...Então meu Diário aqui estava bem...Um olhar
bem...Um olhar bem intenso para o espaço escolar e todas as práticas nas oficinas levavam a pensar
o espaço.
Então era um...(pausa).
Silvia: E essa formação com professores de artes ou com professor...
Zá: Não. não tem. Quase nenhum município tem professor de arte; é professor de primeira à
quarta-série; que dá aula...Professor polivalente, que dá aula de tudo.
Então, assim, quando eu vou para esses lugares a gente dá várias oficinas.
A gente entra na sala de aula pra dar aula junto com a professora ou professor, tem pouco professor,
mas tem. (risos).
232
É...Com uma estratégia formativa...
Então aqui...Isso aqui é sala de aula, ta vendo...Ó. Primeira série. E a gente faz o
planejamento...Aqui nesse caso era um trabalho com ilustração...Aí as ilustrações que as crianças
fizeram e aqui o resultado do trabalho.
Então a gente entra assim...Numa sala de aula a gente entra e uma aula que... Trabalhando com
uma seqüência de atividades que poderia ser feito num mês, mas que a gente faz numa aula só, é
um concentradão.
E agente usa esse material para tematizar a prática na oficina com vários professores, daí.
Então essa situação ela é...Não é dar aula, é estratégia formativa.
Que é bem difícil para os professores entenderem, eles demorar um tempão...Porque elas ficam com
essa sensação porque ela foi à sala de aula dela e não foi na minha. É difícil.
Mais vai... Mas a relação vai se construindo...Você vai ficando...
Silvia: Os professores são resistentes?
Zá: Não. Ninguém é resistente...Ao contrário...São super abertos...
Aqui é no Pará, em Ipixuna do Pará, é uma comunidade Ribeirinha...Maravilhoso.
Aí eles fizeram...Tá vendo?
Uma oficina que tinha esses fantoches...Não eram muito bem fantoches, era...Eles Brincavam com os
desenhos de linhas.
E aqui tem toda uma coisa de...Reflexão.
Então, tá vendo? Esses aqui são os planejamentos e aqui estão as reflexões.
Silvia: É uma equipe? Vocês são uma equipe?
Zá: Uma equipe de oficineiros; que a gente discute. Tem uma coisa bem autoral na oficina. Então
cada um cria a sua oficina a partir dessa coordenação. Então..Ó...Isso aqui, por exemplo, de varais
tem muita coisa de...Que eu relacionei com os cordéis com os varais...Porque tem muito varal nessa
cidade e eu achava lindo assim. Eu andava ai vendo um monte de varal, eu parava, eu ficava
encantada...Assim...(risos)
Aqui são registro de avião...Também tem uma coisa assim...(risos) Muita coisa...Não sei o que
acontece nas alturas comigo, nas nuvens...Que eu começo a escrever, escrevo muito no
avião...(muitos risos).
Acho aque meu ó...Notbook vai dar uma ajudada nisso. Porque tem um monte de ‘’papérzinho’’
assim, sabe?
Aqui a gente fez coleta de folhas, eles desenharam e depois eles fizeram xilogravura.
Silvia:Ah, Ta, no isopor!
233
Zá:Aí agente fez todos os varais. Tinha uma coisa desse varais circularem por outras
turmas...Ficaram lindos esses trabalhos.
Isso é uma coisa bem importante assim que a gente percebe nesse trabalho, é que em tão pouco
tempo muito que acontece, né?
A gente reflete muito sobre isso...E aí, aqui, ó...Tudo isso é varal, ta vendo? A gente chama isso de
varal de imagens...
E os varais também foram uma coisa que... Ta vendo, ó...Então aqui eles vêem imagens de vários
lugares diferentes.
Tinha assim lugares...Eles tinham que escolher uma imagem e escrever tudo para pensar um pouco
na relação subjetiva que se estabelece com os lugares.
Então eram coisas que tinham cultura, desenhos, fotos de lugares, paisagens.
eu trabalhei as cidades invisíveis, que cada um tirava um ‘’papérzinho’’ aqui, que era um trecho
que eu selecionei que era bem descritivo e daí eles tinham que imaginar o lugar e os desenhos
ficaram...Coisas impressionantes.
Aqui são os trechos e os trabalhos de cada trecho.
Silvia: Era individual?
Zá: Era, esse era. Essa parte era.
Aquela outra parte não. Sabe aqueles que tinham que escolher um lugar...Das imagens do varal?
Essa era individual.
Silvia:Cada trabalho lindo?
Zá: São as bolas de cristal.
Silvia: Nossa! São soltos, super criativos, né?
Zá: É, então...Essa é uma coisa bem característica assim do lugar...
Essa aqui...Olha que legal. Da onde a professora, ela tirou...A cidade, teia...
Ela que grifou...Existe um princípio no meio das...Olha!?
Silvia: Não são desenhos tão estereotipados, né?
Zá: Não são, mas mesmo assim eu fiquei muito incomodada com os desenhos que eu achei
que...Porque...Foi tão puxada essa oficina, porque...Tinha uma coisa assim...Que eles falavam, né?
Que o texto era tão...Permitia tão mais do que as imagens que eles tinham criado, que deu uma
conversa super importante. Daí que a gente resolveu...
Eu falava para eles... ‘’Vamos desprender, gente! Vamos desprender...Desapego, desapego!’’
Então, a gente recortou tudo e montou uma cidade só.
234
Silvia: Com o desenho de todos?
Zá: É. Aí foi super difícil...
E demorou...E muitos não iam, sabe? A gente queria montar uma cidade só. eles não iam e ficou
um monte de coisas recortadas, eu falava que tinham que usar tudo. Cada pedacinho, cada detalhe
arquitetônico, a gente está reconstruindo uma coisa que é desse grupo.
Nossa! Eu saí de lá parecia que tinha passado um caminhão...As meninas que trabalham lá...Que são
supervisoras na cidade, que moram lá...Tal...Elas falavam, Zá...Parece que tem um caminhão na
sua cabeça! Porque é muito puxado, muito puxado...
Silvia: Quantos professores?
Zá: Então esses são supervisores, né? Eram supervisores...Ah, tem as vezes 30, 35...Depende do...
a gente fez umas coisas com o espaço da escola, ta vendo? Tem...Aqui a proposta era
desconstruir o espaço da escola, então eles tinham que trasformar... Num outro lugar.
Daí era assim, um grupo saia, então esse era um grupo e esse era outro grupo. Um grupo saia,
fazia...Aí o outro tinha que entrar e o que fez tinha que observar como que eles interagiam com o
espaço...Que é muito legal, que aqui era uma coisa só e aqui era fechado...Não dava para
entrar...Esses eram várias coisinhas pequenas...Foi tão legal esse trabalho.
Ó, ta vendo...Isso aqui eles foram...Isso aqui é a Bienal, eles falaram...São várias esculturas e eles
fizeram essa, era uma coisa de que as pessoas queriam estar dentro, mas não podiam estar...E
deu uma super conversa também pra dialogar com isso, né? Como o espaço diz...
Essa reflexão eu fiz, mas ela não ta...Eu não colei ela aqui...
Aí...Tinha nessa sala que era assim...O cantinho da leitura e a gente discutiu pra caramba...E eu
perguntei? Eram supervisores e tudo bem eu conversar, né? E eu perguntei: Esse cantinho é
utilizado, ele é atrativa enquanto espaço, ele chama...Aí eles falaram...Aí, não chama nada, aqui só
tem livro didático e revista velha...No cantinho, tem uma cadeira e uma estante...Então na hora que
elas pensaram como que poderia ser um cantinho, na leitura te chamar...Aí elas fizeram um
varal...Olha como ficou? ...Aí a professora entrou lá, olha , você entra, senta, fica mais a
vontade...(risos) Lê junto...(risos).
Então tudo isso aqui, ta vendo: A gente analisou, as listas, listas de nomes, o que era possível ler, o
que não era possível ler...Aqui tem as reflexões...Aí assim, por exemplo, em Muxi...Tem 60% de
crianças são negras e essas figurinhas que são loirinhas, super...Então foram conversas muito
profundas, sabe?
E aqui tinham que trazer um objeto de casa e aí tentar por no espaço...
Olha o contrário...Olha.Aqui é a entrada
Silvia: Quantos dias de...
Zá: A gente fica 4 , 5 dias...A finali...De 3 a 4 dias.
235
Olha...Depois daquele lugar entra por aqui, ó !?
Silvia: Tem umas escolinhas nesses lugares..Que você fala, nossa!
Zá: Tem umas que são boas, mas essa, essa é uma que eu saí da sala de aula e eu nunca saio da
sala de aula...Pra pedir socorro...Essa, não passou um caminhão, passou uma betoneira na minha
cabeça. (risos)
Porque assim, a escola, a sala de aula era, a sala de aula dava pra rua, três salas de aula, que
davam pra rua, as crianças brincavam no meio da rua, tudo bem que lá é assim de terra...Mas de
qualquer maneira...Então era assim.Meia parede, eu ouvia todas as crianças e todas as salas dentro
da sua sala. começou a chover, um calor de 40 graus e tinha goteira, chovia mais dentro do que
fora...E aí tinha assim...Um monte de criança, um monte de observador...Nossa! Eu achei que eu não
fosse sobr...Era essa professora, (?) de ser uma heroína...Isso assim...Ela falava, Zá...Não aula
aqui, dá aula na casa do professor que é mais confortável...Eu falava não. Caxias. Não tem que ser a
situação rela, é, não é uma situação normal...Então vamos fazer a situação real...Quase que eu
morri...Aí e falei...Como é que eles sobrevivem, né? (risos)
à tarde eu ia trabalhar com outra sala de aula, eu acho melhor a gente trabalhar na casa do
professor...(risos) Porque a gente estava fazendo uma coisa que eram com uns personagens em
tamanho natural, era essa que choveu dentro...Então tinha assim...A vovó deitado no chão, começou
a pingar no meio da vovó e as crianças começaram a ficar desesperadas...O lobo que estava num
canto...Cada personagem, ficaram lindos os trabalhos e começou a chover em tudo...Aí foi um
desespero total e absoluto e aí a tarde que era na sala de aula a gente foi pra casa do professor. Que
era muito mais espaçosa...Aí tudo deu certo...
Então...Que também serve para a gente pensar como o espaço é tudo, né? (risos)
Olha aqui a chapeuzinho?! Aqui tem uma coisa muito engraçada...Que eu levei várias imagens...De
chapeuzinho e tinha essa chapeuzinho aqui, né? Deu uma conversa super importante, né, de qual é a
chapeuzinho? Porque nenhuma dessas eles achavam que era a chapeuzinho, né? Eles achavam que
a chapeuzinho era loira, rosada... (risos).
Silvia: Xuxa.
Zá: É (risos).
...Tabalhos maravilhosos!
Essas são as aulas diferentes daquelas do começo, porque nessa que foi uma maratona, acho que
eu dei
20 milhões de oficina numa vez só...Porque é em outra cidade...Aquela é em Ipixuma e essa
daqui...Não. Aquela é em Ipixuna do Pará e esse daqui é um subdistrito de Ipixuna do Pará , porque é
antes de...É menorzinha.
236
Silvia: Quantos alunos têm nessas escolas?
Zá: Não tem muito, né? Porque nem cabe.
Essa daqui é o material do supervisor...Acho que essas reflexões...Você vai ver, acho que você vai
achar, elas estão num relatório só que eu não colei aqui, ó, ta vendo?
A reflexão ta num papel só...Esse relatório é legal de você dar uma olhada...
Você não vai ler tudo, né, Sil? Acho que não é esse seu objetivo, mas aqui tem uma coisa de
concepção de criança e de... Aluno... É uma atividade bem importante.
Então eles foram falando o que eles entendem por criança e por aluno e o professor, como que ele
estava no meio, né? ...
Olha...Eles que falaram...Professor dedicado, criativo, turista (risos), preguiçoso, preocupado..Da
gente começava ver o que gerava esse aluno que era, assim...Muito diferente da criança, né? Que
são as mesmas pessoas...Então foi uma...Proposta bem importante.
Ai essa oficina foi muito linda, eles fizeram toalhinas...E as toalhinhas viram estêncil...Tá vendo,
aqui é estêncil, sabe? Uma coisa com texto e imagem, mas tudo tá naquele relatório, lá!
Silvia: É um tipo de oficina para professor e outro para criança?
Zá: É. Mas... Aqui vai ficar claro quando você ler.
Esse ,essa é aquela proposta do varal que eles tinham que escolher um lugar...Dentro tem o texto
que eles escreveram. Que é coletivo. Então tem assim, cada imagem que eles escolheram, eram
imagens bem diferentes...
Silvia: Ai...Eu vou ler.
Zá: Bom...Aí Sil...Desses daqui tem 50 milhões desse tipo...Que são...Cada viagem eu faço um...
Silvia: Todos fazem, né, Zá?
Zá: Fazem, mas são muito diferentes. Por exemplo,...Eu tenho esse formato, quadrado (risos).
Ò, esse é um dos primeiros que fiz, que é de São Luiz, que é minha primeira viagem, mas a reflexão
não está aqui. Ele é imagem...Comecei nessa coisa de ‘’passar a limpo’’ e eu vi que não funciona
bem, porque eu escrevia e separava e até hoje eu não passei a limpo. Então ficou pela metade,
certo? Por isso que acho que tem uma coisa do, de... Achando que não é fácil fazer, ? Diário.
Diário é uma coisa que dispende muito...
Silvia: É o que o Zabalza fala, né? Chegar em casa, sentar e escrever...Um professor que deu aula o
dia inteiro, é complicado.
237
Zá: Mas esses...Tem...
Silvia: Tem que se apropriar mesmo, né, Zá? Começar a fazer e sentir falta.
Zá: É. E assim...Não ficar frustrado...Deu, deu, não deu, não deu. E toca bola pra frente.
Silvia: Exatamente.
Zá: Ó...Tanto que tem aqui alguns que estão começados e não estão terminados, ó...Esse é um que
não ta terminado, tá vendo?
Tem toda...Tem o relatório...Desculpa! Tem o Planejamento...Foi maravilhosa essa oficina, mas...
Não deu para finalizar, ó, está tudo aqui, ó...Um dia vai acontecer, um dia...Vai acontecer...Não sei
quando, né? (risos)
Porque...
Silvia: Esses cadernos você faz, não?
Zá: Não. Eu mando fazer. Esse aqui também é um que ficou quase terminado, mas não tá
terminado...
Silvia: Legal esse trabalho, hein, Zá? Legal essa experiência de conhecer várias escolas.
Zá: É, de lugares bem diferentes...E tem isso aqui também, que foi uma coisa que eu fui
descobrindo...Tá vendo...De escrever algumas coisas na hora, e ir guardando...Co, Coordenar, ?
Isso junto com o planejamento. Porque eu vou com isso pronto e isso eu vou construindo lá...E
quando eu chego eu meio que monto...Faz a edição, faz a edição (risos)...
E essa oficina foi uma oficina que eu amei dar...Assim...Muito...Assim, na verdade eu amo todas, né?
É porque é uma coisa tão incrível, assim...E... Que as pessoas chamam isso de mágica, né? Eu não
acho que é mágica, é muito trabalho...(risos) Mas é mágico assim...Porque...Essa criança, de
primeira-série, nunca tinha feito um desenho assim , todos desenhos a na maioria das vezes são
desenhos que a professora direciona...É ...Desenha na lousa para as crianças copiarem...Sabe?
Muito figurativo, muito de ilustração, para ilustrar livro... Então, assim... É uma coisa que é muito
rápido, né? Quem ta de fora acha que é mágica, mas que é assim...A intervenção certa na hora certa
e assim...Muito cuidadosa.
Silvia: Que a criança faz, que acontece, né?
Zá: Ela tem todas as condições, né? De... Responder...Mas que não vai, o é espontâneo. E é isso
que acho que é difícil, uma coisa sutil...Que a gente quer trabalhar bastante com os professores, né?
Mas...Por isso que a gente faz sala de aula...
238
Silvia: para os professores também perceberem...
Zá: É o que a gente estava conversando...Só que ta bom...A gente sabe que é isso que a tá...Que é
essa a intervenção é isso que a gente quer ensinar, mas não necessariamente é o que eles
aprendem...(risos) Porque é um processo...Paragominas foi um município que eu trabalhei muito
tempo e assim...Foi difícil...Quatro anos e a reflexão, ela, ela possibilitou...Só a reflexão possibilita
isso, né? A reflexão possibilitou, essa conclusão tomada por elas e não fui eu que pus as palavrinhas
na boca delas...
Tem coisas bem importantes do tipo...O que o professor especialista consegue e o professor
polivalente consegue? É... Sabe, são coisas bem importantes... É...
Silvia: Eles são alfabetizados?
Zá: Os professores são...
Silvia: Não! As crianças...
Zá: Ahhh, então...Como tem um projeto de língua que já acontece a bastante tempo, sim ...Os índices
são bons.
Essas daqui foram umas partituras, eu ia fazendo um som e cada criança tinha um caderninho e ia
fazendo a partitura...Então é o mesmo som e como cada um registra o som...
Esses redondinhos foram os assobios, são os únicos que eu lembro, os outros eu não
lembro...(risos).
Eu assobiei (ela assobia) e aí eles acharam que o assobio era redondo...(pausa)
Aí a gente relacionou isso com uma coisa dos ritmos, dos padrões, da cadência...
Silvia: Dá pra desdobrar, dá pra trabalhar com linhas...
Zá: Pois é...Nessa seqüência tinha uma seqüência bem, bem focada nisso, das linhas e tinha como
proposta a professora da turma dar continuidade ao trabalho, então...A gente deixa uns materiais...
E assim, né? No Cedac, além de fazer a exposição, cada visita tem a casa do professor, que é tipo a
sala de , a sala de professores...Então tem uma biblioteca super boa, quando a gente vai dar oficina,
se não tem um livro que a gente vai usar a gente leva, pra deixar para os professores e tem
computador...Então hoje assim...Quase todos os municípios do programa os professores tem, e-mail,
computador, tem acesso e...A sala de informática na casa do professor ela não fica restrita para o
professor, os alunos também podem usar...E a biblioteca também, ela é aberta.
Ela é a casa do professor, o professor planeja...Se encontram...Tem reuniões com as
coordenadoras locais...Com as coordenadoras que vem daqui para São Paulo para fazer a formação
lá, mas também tem um movimento...Então por exemplo...Paragominas era uma casa que eu ficava
muito impressionada, assim...Que eu chegava lá, às vezes sete da noite, aí eu ligava...Aí, ’’ tem gente
na casa’’? I...Zá pode vir que tem até umas nove. Trabalhando!! Isso mudou... Uma coisa no
239
município que mulher que trabalha fora (risos)...E vão todas com suas motinhos, porque elas usam
motinhos...
E vão...De pra cá...E tem um movimento muito legal...Fiquei tão impressionada a primeira vez que
eu fui.
Silvia: É bom a gente ver, né, Zá? Porque a gente tem uma idéia...
Zá: A gente tem uma fantasia, de que, ah...O lugar...Não sei o quê...E como é tudo um sistema, né?
Que constitui.
Silvia: Pra tirar essa idéia que a gente tem...
Zá: Que é atrasado, que não funciona...Paragominas é uma cidade hiper movimentada, ruas
constantes...Não sei o quê...
Paragominas é legal, né? Porque é Para, Goian, Goiás e Minas, por isso que é Paragominas, então
tem lugar..., Pessoas de vários lugares é uma mistureba forte, e lá é uma região indígena...
Lá não tem escola particular, só escola pública...Todo mundo estuda na escola pública.
Aqui é um jogo, tem que achar o padrão e onde que o padrão é aplicado. Foi um joguinho que eu
levei pra eles e eles que montaram, eu levei as imagens e eles montaram...
Silvia: Depois eles saem de lá para trabalhar?
Zá: Como assim, saem?...
Silvia: Eles saem da cidade?
Zá: Muitos continuam na cidade. (pausa)
Essa é outra sala de aula com trabalhos de mandala... Esse foi um..., esse...Olha como é...Também
uma coisa importante, que assim...
Como a gente tem liberdade pra criar, que é uma coisa muito importante...O professor... É...Aprender
com a área de arte, essa possibilidade da criação, de não fazer uma prática que é a prática do outro,
né? E aí, assim...Eu criei uma oficina bem...Como se relacionava com o lugar...Então tem muitos
indígenas, descendentes e paranam... E até, eu levei uma coisa que era completamente nova
(risos)
Pra ver o que acontecia e o resultado ele foi bom nas duas. Completamente diferentes...Mais por
exemplo, eu fiquei muito mais angustiada aqui, nas mandalas...Porque eu não sabia como começar,
não...Era antes...Não era lá, na hora...Eu não sabia como começar...Porque eu queria começar, claro,
240
né? DE algo conhecido, mas eu não sabia como...Trazendo um assunto, um conteúdo, Mandala...que
é...Completamente, tirando aquela novela que tinha lá ‘’Mandala’’ (risos), bastante da época...
Não tinha o que inventar. Então comecei com uma afirmação...Eu demorei um tempão pra achar o
ponto de partida...Aí eu falei assim: ‘’O olho é uma mandala’’, então a gente começou com o olho. Eu
queria partir de alguma coisa que tivesse...Que eles vissem e tal...Então eu parti de uma afirmação:
‘’O olho é uma mandala’’.
Então essa pergunta virou um problema...Eu falei, ó...: O olho é uma mandala e a gente vai ao longo
do dia hoje construir a idéia do que é mandala. Então vocês é que vão me dizer...Então várias
atividades eu vou ajudar vocês a pensar sobre o que é mandala. E aí...‘’Mandala é isso’’, ‘’Mandala é
isso’’...Então ficaram com esse problema...
Eu pedi para eles trazerem...A gente começou com isso, né? Que é esse caderninho...Tá vendo? O
caderninho sempre aparece! (risos) Aí eles fizeram vários registrozinhos ao longo da atividade.
Então eles começaram com olho, aí do olha, ta vendo...O que é mandala? Do olho o que é
mandala...E elês velaram vários elementos da natureza, folhas, flores, carambola...A gente recortava,
olha...via...Olha, o fruto é uma mandala, que tem... Aqui ele é uma mandala e aqui ele não é uma
mandala...Então a gente ia...
Eu levei uma mandala, sabe aquela mandala oriental, indiana?
Silvia: em São Luiz eles fazem as mandalas de corda, são lindas...De palha. As mulheres da
região fazem, né? Não sei se tem lá?
Zá: É verdade. Olha que legal, mais uma coisa...Que precisava...
Aqui olha só que legal, eles foram...Mandala dupla.
Das flores, tá vendo?
E isso foi no bem no meio da oficina, e agora vocês vão desenhar uma mandala e foram essas as
mandalas que eles desenharam...E eu levei o Richard Lon...Aqui é outro lugar, né?
Eu adoro esse artista, eu levei essas imagens e o falei nada pra eles...Eu dei para o grupo, para
o trabalho em grupos as mesmas imagens e eles tinham que...Das imagens retirar informações e daí
a gente socializava e daí quando eles foram socializando...E eles foram falando...Ah...Tem uma
mandala, olhando essas outras imagens ajudou, tem um cara...Eles achavam que ele era um
viajante...
Daí aqui ó...Tá vendo, aqui uma mandalinha que eu xeroquei...E esses são os trabalhos finais...Aí eu
dei um papel quadrado grandão...Então isso era uma coisa que eu queria, trabalhar com os materiais
que eles já tem...Isso é um fundamento para nós, são materiais disponíveis que... Então
assim...Cartolina branca...Então assim, não precisa mais cartolina cor de rosa, azul e amarela.
Cartolina branca é fundamental, se você quiser de outra cor tinge, pinta...O branco é importante.
Então era cartolina branca cortada em num formato quadrado, que pra eles era uma super novidade,
que é um material comum, tinta eles tem...
No final por eles terem cortado, olha só como ficou?
241
Isso foram às crianças que coletaram, eu mandei uma carta pra eles antes de chegar e eles
levaram tudo isso e a gente construiu uma mandala com os meninos.
No chão da escola. Isso aqui foi à última atividade. a gente construiu uma roda...E assim as
crianças que não estavam, acharam tudo estranho, né? Essas são as professoras, a partir daqui, ta
vendo o registro está mais ou menos porque eu não acabei aqui, né? Eu tenho o relatório escrito falta
agora editar.
Aqui também a gente fez uma coisa com jogos, tabuleiros e aqui era uma coisa de brincar com as
folhas, diferente...Aqui era assim, esse era o tabuleiro e essas as peças...Eles que inventaram esse
jogo, então tinha uma coisa de...?
Isso tudo é folha.
Essa é minha assistente, eu tenho sempre uma assistente de lá...Que a idéia é formar essas pessoas
para quando o programa não esteja mais lá que elas possam dar continuidade à formação.
E esse que ta completo é um dos últimos...Porque percebi que deixar incompleto ferrou. Até
retomar...Ele é recente, de 2006.
E eu vou te mostrar agora, estou fazendo alguns no computador, alguns eu faço no papel e outros no
computador. Pausa
Aqui é uma sala de aula, o formato continua o mesmo...
Então...Tá vendo aqui já tem muito mais fotografia o que facilita muito...
Então isso é uma coisa que acho que é bem bastante importante...
Ta escrito aqui, ó...
Olha que legal isso também é bem importante de tematizar com os professores depois. A gente viu
muita coisa e eu mostrei uma imagem do Klint e esse desenho aqui era um desenho depois de
imaginação...E olha como ficou na memória... E é importante que a gente tematizou aqui na oficina o
desenho de memória, de observação e de imaginação...Não é tão import...Não é tão não, não é
nada...As coisas se misturam todas...
Isso aqui é bem importante...(pausa)
Olha ta vendo isso aqui, era presente nesse Diário, eu vejo coisas...
Silvia: Que é teu né?
Zá: É. (risos).
Aqui eram umas ‘’arvorezinhas ‘’ que eles fizeram...E da mesma criança...
E uma coisa que eu queria analisar com as professoras é das marcas pessoais...Independente da
modalidade...A colagem talvez fique mais difícil porque, a marca fica mais escondida...Recortada,
talvez perde um pouco.
Mas... A pintura é muito... Presente.
Então por exemplo...Essa árvore, a primeira e essa de observação, como ela tem muitas marcas
pessoais...Essa também... Cada aluno...Essa e essa... Essa professora falava... Ele desenha muito
242
bem, muito bem...Quando você coloca numa situação de fazer desenho de observação ele continua
com esse desenha muito bem, mas com outro referencial...Olha essa!
Pausa.
Os tipos de linhas que apareceu, que aparece...
E essa que foi muito curioso...Eu entrei e ela fez essa primeira aí na segunda que era pintura, que era
idéia justamente de... trabalhar a pintura na segunda... Eu queria que eles vissem a possibilidade
de... Ocupar o espaço, com um material que... Não controlar tanto...Isso aqui é anilina, que é um
material super acessível que eu comprei lá mesmo.
Então é...Essa menina... É...Uma que estava do lado disse assim: ‘’Ela não sabe fazer, Zá,, por isso
que eu to ajudando ela’’...Porque ela estava fazendo uma outra árvore, assim, né?
Aí eu falei assim... ‘’ Não, mas essa árvore que ela está fazendo, que era essa, é dela.’’
E ela disse...’’Mais olha como ela está fazendo, no canto, não vai caber direito, tem que fazer bem no
meio...’’ (risos)
Que Aparecem bem umas concepções que você vê que é da professora (risos)
eu disse...Não...Pode ser no meio, no canto, pode ser em cima, pode ser em baixo... Como cada
um ocupa é importante né?
Aí ela disse...Aí então ta bom!
ela ficou fazendo...Eu disse, faz a sua e deixa ela fazer a dela, se você quiser dar uma idéia,
pode...Mas não precisa fazer por ela...Aí ela virou e retomou a dela.
Aí na última que foi de observação, essa mesma criança...Olha como ela pega daqui e joga pra cá...
Lindo, expandiu. Porque quando era uma árvore imposta pelo senso comum ela intimidava, na hora
que ela começou a se soltar e viu que podia, né? Que é legítimo...Esse tipo de experiência ela
mandou ver.
Rubens Matuck
Pra você entender o caderno que faço você precisa entender isso daqui.
Isso daqui é uma história em quadrinhos que eu faço...
Isso aqui é um dos livros, que fazia com lápis de cor desde que eu era criança; esse episódio atual,
os últimos oito anos, cada episódio levava uns oito anos mais ou menos.
Desde criança, eu tinha os personagens, eu não conseguia desenhar muito bem... A partir dos
dezoito anos eu consegui. Eu já tinha cadernos.
243
Quando eu comecei essa história de quadrinhos eu tinha cadernos. Eu ganhei um caderno de um
amigo, eu sempre carreguei um caderno...
Não é um caderninho, né? É uma coisa importante, né?
Dessa história sai todo o meu trabalho de artista plástico. Se você olhar os cadernos, os
cadernos...Eles são...A sistematização de um aspecto do meu trabalho.
Se você pegar um dos das viagens, da história...Um dos episódios foi essa viagem ao outro planeta,
existe cadernos que são imaginários. Deixa eu achar...
São cadernos de personagens. Esse caderno é dessa mulher; Bárbara... (?).
Então, esse caderno ele tem um cuidado e um desenho próprio, a biografia imaginária dela...Tudo
saiu do imaginário.
Esse é o conjunto de cadernos mais ambiciosos, não é um conjunto de cadernos corriqueiros, né?
Ele é ambicioso.
Ele é mais assim...Artes plásticas pura.
A idéia é fazer uma exposição, montar um museu chamado museu de arte interplanetária.
Silvia: lembrei do Museu do Inconsciente.
Rubens: É lindo aquilo. O Bispo eu não gosto, agora os outros eram maravilhosos.
O Bispo foi transformado em mercado, acabou. A arte acaba quando começa o mercado, só pensa
naquilo... Aí é impossível trabalhar, precisa ser uma pessoa muito versátil.
Silvia: E os cadernos corriqueiros?
Rubens: Aí, você falou em desenhar e escrever...
Porque antigamente o livro era o papiro. Você sabe a história?
Silvia: mais ou menos.
Rubens: Antigamente os romanos era mais fácil para guardar.
Essa é minha tese sobre a história da escrita.
Eu tenho um trabalho que eu fiz dentro da FAU, que eu comecei a estudar a história da escrita,
depois eu te mostro o trabalho...
[...]
Aqui é manuscrito, ela é escrita à mão e tem a ver com todas as diagramações que eu estudei, né?
Silvia: Tem também nos cadernos, nos Diários, nos cadernos de artista também essa relação da
escrita, da palavra...
244
Rubens: Todos esses artistas que acham que é novidade...É a coisa mais velha que tem; não tem
nada mais velho que a pintura...Sempre teve um suporte, uma escrita e uma imagem, sempre,
sempre. Pictograma, Ridículo!
Silvia: É diferente de livro-objeto?
Rubens: Eu tenho um pouco de ‘’bode’’ de arte moderna, né? Eu acho que a arte moderna começa a
criar uns nomes de coisa que já existe. Eu tenho um pouco de aflição, agora é um problema meu, não
sei...
Eu tenho muito ceticismo com a arte moderna, nem sei o que quer dizer arte moderna pra falar a
verdade...Eu acho um engodo...Uma...sabe?
E tem uma parte legal da arte moderna...Que sempre dura muito pouco, né? Já vira um...
Pra você ter uma idéia da importância da história em quadrinhos, essa tese começou por causa do
título da história em quadrinhos, comecei com a minha tese por causa do título, eu comecei a fazer o
título da HQ pra fazer...Não parei nunca mais.
E aí foi entrando todos os conceitos de...Que eu adoro, chinesa, alemão... E aí eu fui trabalhando.
Se um dia você quiser ver, tem que marcar um dia. É tudo aquilo lá, tudo isso aqui é a tese.
Têm três livros originais, livros mesmo, manuais. Você vai ver aí como são esses livros.
Silvia: Então, tudo vem da HQ?
Rubens: Tudo vem da HQ. Eu sempre gostei de HQ.
Uma vez eu fiz uma promessa, seu eu publicasse uma história que eu adorava, que eu ai estudar.
(risos)
Silvia: E aqueles Diários, são os registros das viagens que você fez?
Rubens: É. Aqueles pontinhos são os lugares que eu visitei, eu comecei a viajar por causa dos livros
infantis, mais intensamente em 85.
Tinha uma professora chamada Nísia que conhecia muito o Pantanal e a gente começou a viajar para
o pantanal, que...Eu fiz duas viagens para o Pantanal e agora eu fui para o extremo norte do
Pantanal.
E tudo, esses pontinhos, aí são cadernos, mas tem mais, muito mais que isso, né?
eu comecei a viajar, fui para o Amazonas, fiquei em Aldeias, e atualmente estou concentrado em
MG, que é esse caderno aqui, ó!
Estou tentando fazer um livro que é sobre o buriti, que eu amo o Buriti. Tem um caderno do Buriti e
tem esse novo que já é uma compilação.
Silvia: No Ceará tem muito Buriti, né?
Rubens: Tem. Ma sonde tem Buriti mesmo é Minas, Amapá, Ceará, Bahia, Piauí, Maranhão, São
Paulo, Goiás, Mato Grosso tem um pouco...
Eu comecei a mergulhar nisso aí.
Aí me chamaram para fazer isso aqui, ó! Me chamaram para fazer um logotipo, uns cadernos...
Eu faço um desdobramento que é quase infinito, né?
245
Me chamaram para fazer esse logotipo, aqui, né? E foi uma (?) anterior a essa, e eu fiz esses
cadernos...
Eu falei, eu não vou fazer um logotipo num lugar que eu não conheço...Aí na verdade o tema desse
caderno é tingimento de algodão, né? E o logotipo foi tingimento de algodão. E olha a delicadeza
desse livro, que eles produziram...
Eles produziram um livro respeitando integralmente o caderno.
Eles respeitaram o caderno...
O que é muito difícil quando faz isso, quando o diagramador...Percebe?
É uma piada, né? As pessoas não enxergam, eles enxergam direto o assunto, pouca gente enxerga...
É difícil.
E quando eu vou muito para um lugar eu começo a desenvolver vários cadernos, um atrás do outro
com significado.
Eu comecei agora a fazer esse trabalho com Ivaldo Bertazzo que era receber , escolher pelo Brasil
esses 47 artesãos e montar uma oficina com tudo para eles fazerem. Eu coordenei essa oficina.
Era uma oficina grande, era uma oficina enorme. Chamei quatro artesãos mestres, minha mulher e
a gente trabalhou...Mestre Cardoso que é um gênio. Era bem maior que isso, aqui é só uma parte.
tinha uma aula de manhã, a gente colocava todos os artesãos e explicava como que fazia as
coisas.
Uma parte ficou documentado lá e uma parte que ficou na oficina.
Aqui eu fiz esse núcleo que chama Buriti, né? Eu queria que chamasse oficina Buriti, mas eles não
quiseram.
Então, esse núcleo aqui é o núcleo do Buriti, então foi o primeiro contato que eu tive direto em Minas
com buriti, depois eu fui pra... pra...Apaetetuba, fiz um caderno em Apaetetuba, também
documentamos lá o pessoal.
Depois voltei para esse trabalho...Meu sonho é fazer um livro sobre o assunto brasileiro abrangente ,
geográfico, étnico, botânico geográfico.
Eu morro de rir que as pessoas falam, você parece àquelas viajantes europeus que...
As viagens com caderno fazem a dois mil anos e eles enxergam a Europa...Acho o
impressionante isso.
Tem livros de constelações árabes, tem livros chineses...Nossa! Tem cada livro... Tem um livro
bizantino... da Nobreza.
Esse aqui...Agora eu to fazendo muito livro só visual, o texto é completamente diferente, de letra...
É só visual. O importante é a letra como artes plásticas.
Continuando aqui...Ó, pra não te enlouquecer...Aqui começa o alfabeto, né?
As formas de fazer a letra, o instrumento.
Essa é a primeira parte que estudei isso, a humanização, a parte mais moderna, a letra romana e
vai...Aí num determinado momento eu peguei as imagens que eu tinha estudado e comecei a
viajar, fui para Roma, China, estudei a tipografia.
246
Comecei a fazer logotipos, a desenhar alfabetos, então...essa, esse momento meu é assim, depois
eu fiz uma série em papel cortado...Aí fiz as caixas de letras.
Então o que o livro vai mostrar é essa parte de artes plásticas, de objetos de artes. Porque tem essa
documentação toda.
Aqui são cadernos de plantas. Esse é meu trabalho com plantas, meu trabalho com letras, né? Como
elementos plásticos...
E eu fui colocando todo esse trabalho com letras durante minha vida, né? E aí...Esse aqui é o
original, aí entra a capa, né?
E aqui que entra a coisa nova, né?
Aqui são línguas ilustres, as pessoas que vem aqui eu peço para escrever...
É que eu adoro!
Tudo com HQ, todo meu trabalho, é um percurso, uma história minha. Depois eu comecei a escrever
cartas...Você vê a escrita...A escrita com a imagem. Isso você precisa também ver como você vai
gostar, tem um diário imaginário, e tem um dos personagens das HQ...
E a versão escrita eu escrevi com cartas mesmo. São todos os personagens que eu criei. Essa
carta...A história é essa daqui, né?
São várias letras, porque são vários personagens. Eu mudo as letras, é uma coisa que eu sempre
gostei. Eu gosto muito de mudar a letra. Porque a minha letra é horrível.
Se o personagem muda, muda a letra. Isso aqui é uma versão plástica dessa história. Aqui está o
nome da cidade, a palnta da cidade, são selos. E aí deu um link com meu trabalho inteiro. Aqui é uma
carta.
Eu gosto muito dessa linguagem, né?
Decalque mania, colagem, tudo que eu gosto. tem tudo que eu gosto. é minha infância total,
pura.
Aquarela é tudo, né?
Fala a verdade, é luminoso, né?
É importante.
É muito lindo.
Então a HQ é muito importante para mim. Ele é muito...Muito importante, entendeu?
Ela é muito geradora de...
Eu não entendi isso ainda, você acredita? Isso foi um artista que me ensinou, eu não entendia, eu
separava; o artista falou...Rubens, eu acho que você não entendeu essa história em quadrinhos
direito. Esse foi seu melhor trabalho, o mais importante.
247
Aí eu me virei..Eu fiz um processo, né?
Porque eu viajo, né?
Porque na HQ tem um navio que é um personagem dos sonhos que utiliza o navio. Ele e o navio são
a mesma pessoa. Ele de dia é uma pessoa e quando vai dormir vira um navio, o navio vai visitando
as pessoas...Então, isso gerou um outro...Um sonho, eu comecei a prestar atenção nas cartas que
lia.
Então comecei a elaborar...Tinha muita coisa de planeta na história. Aí conheci um astrônomo,
começou a fazer uns trabalhos para mim...
Mas não era um sonho tradicional, é um..São muitos micro, pequenos sonhos, sonhos,
pequeninos...dá um...dá um...Pingo. Eu costumo dizer que a minha vida nunca foi uma vida de
orquestra.
São pingos. Me referia sempre com pingos. Por isso que eu não gosto de drogas, droga...eu não
gosto, nunca gostei. Eu gosto de receber e fazer as coisas muito pequenas. Depois o conjunto delas
é que gera o grande.
Eu recebia os sonhos...Eu peguei o telefone, liguei para o meu irmão e disse: anota que chegou a
história, aí...
Interessante.
Escapa tudo.
O caderno ele se emancipou, né?
Porque o caderno é assim, por exemplo...Quando nasceu minha filha eu comecei a prestar atenção
no movimento das coisas se abrindo, então pegava uma flor e ficava observando... 8:30, 9:40 da
noite, 10:00, 12:30, 1:00 da manhã, 2:45, 8:30 da manhã; o processo todo da mesma flor se abrindo.
Ela sobreposta.
Então, isso aqui foi quando eu vi minha mulher grávida eu fiquei pensando sobre isso...
Então esse é o caderno das ‘’flores de abrindo’’.
Depois desse livro que eu li uma frase que me tocou profundamente, é... ‘’Tudo é semente’’, é o nome
desse livro.
Aí eu comecei a me virar para sementes e fiz os cadernos de sementes. Tem foto.
Silvia: É tudo desenho de observação? Alguns, não?
Rubens: É uma pergunta que acho que não existe. Essa pergunta não existe, né?
Silvia: Não?
Rubens: Não. Porque o processo é muito grande, tem momentos que é esse processo, é desenho de
observação, tem momentos que é desenho de memória, porque a criação é uma coisa meio
esquisita...Não tem desenho de criação, né? Mas tudo bem...Tem gente que acha que tem, né?
E tem essa concepção, por exemplo, do desenho...Que é uma questão. De como você
determinado fenômeno da natureza, né? Aqui é uma questão de luz e transparência, né? Então
existe uma convenção que isso tem a ver com geometria.
248
Então a gente coloca, nossos cadernos tem a ver com isso, com a concepção de luz e trasparencia
através das formas geométricas, que é o Pierre Binhac. Esse livro é exclusivo em semente, né?
Por exemplo, aqui, né? São umas sementes que eu trouxe da Amazônia...O tamanho como ela é
encaixadinha, esse é o fruto, a semente e como ela é encaixada.
Tem toda uma questão que é pra você mostrar para a pessoa, que é a questão da Renascença, né?
O Leonardo...A grande paixão da minha vida é o Leonardo.
Fiz um livro infantil, levei 16 anos para publicar, do Leornardo. Eu e o Nilson Moulin, que é um amigo
meu, agora saiu.
Interessante, é um livro bem interessante.
Os livros estão aqui. O pessoal acha que faço livros infantis, né? Mas na verdade eu sou artista
plástico, eu fiz livro infantil 15 anos depois que pintava.
Eu gosto muito da educação da criança, né?
Porque para mim não é diferente da do homem, né?
Para mim Educação Infantil não é diferente da educação. Acho que aí tem um engano muito grande.
É muito perigosa, ela é muito pequena, pobre...
(?) fala que aquilo é livro infantil, é de uma pobreza...
Monteiro Lobato também não é livro infantil, aquilo é um livro de literatura que atinge também as
crianças, então eu acho uma besteira isso aí...
Porque as pessoas criticam muito as técnicas...Não tem graça, né?
É ridículo. E a partir daí eu fiz as sementes de madeira, que é um trabalho...Eu te mostro pra você
entender...
Porque uma coisa gera a outra. A partir dessas sementes estudadas e guardadas tem uma coleção
enorme de sementes que eu adoro.
Eu tentei dar aula de madeira uma vez, porque eu sou especialista em madeira, né?
Porque além de tudo eu tenho uma coleção de ferramentas, gigantesca, porque na história eu
conheci um...Depois eu te mostro com calma.
Tem um caderno de viagem que é a ferramenta, que é a documentação, a história do artesão, eu sou
muito ligado nisso, né? E as esculturas são feitas a mão...
Eu gosto muito de desenhar, a prender a desenhar é desenhar todo dia... É um processo longo. Isso
é uma mitologia. Ah...Eu não tenho talento, isso é uma idiotice, isso não existe, bobagem.
É um exercício cotidiano. Que nem comer.
Você não aprende a comer?
Você já imaginou uma criança se ela não aprendesse a comer como ela sentaria numa mesa.
Desenho é igual. Tem que aprender. Aprender a ver, o cheiro, o gosto da comida. Você aprende a
desenhar olhando, fazendo, trazendo o desenho para conversar.
Eu dou aulas ultimamente, para alunos... Eu tenho um pequeno grupo de alunos novos,
comuns...Que eu vejo que está afim. E a maioria são alunos com necessidades especiais. Eu tenho o
Osmar santos, um professor cego.
249
Eu li uma HQ do tio patinhas e eu enlouqueci!
O Aldemir Martins é meu pai, esse é meu pai, ele me ensinou tudo, tudo, tudo.
Não, ele não dava aula, né?
Ele era uma figura engraçadíssima...
Na relação com os livros infantis, abre cadernos de viagem, depois vem um caderninho, e aqui vem a
história.
Esse livro aqui é sobre viagens.
Esse ‘’plantando uma amizade’’ foi um dos livros que me deu mais felicidade na minha vida. O livro
sobre plantação de árvores que eu fiz.
Terminei o Leonardo quando a Bia nasceu.
Plantando uma amizade é um caderno de registro de um cara que plantou a rua. Por isso que ele é
legal. Depois desse livro ‘’plantando uma amizade’’ a Ruth Rocha fez um livro sobre a plantação de
árvore. É um livro sobre a história da plantação, né?
Eu acompanho as árvores. Eu não só planto, eu acompanho.
Eu não sei como você vai organizar essa nossa conversa...
Olha o caderno de viagens do planeta imaginário, são obras de arte, né?
São encarados como obra de arte, como um trabalho plástico.
Está vendo? São animais de outro planeta que ele observou.
Não precisa dividir sua vida, a vida é muito ampla para ser dividida. Tem que dar um passo à frente,
né? Você não acha?
Cadernos de desenhos. Bichos de...
Esse desenho tem 10 anos...Parou aqui...Eu viajo...Eu adoro viajar...O caderno é assim...Você
começa, esse caderno existe.
O tempo fala do cara. A imagem é um meta-livro.
Aquarela, recolhe folhas verdadeiras, as sementes, a caneta que ele usou...Quando ele vai
descansar, ele abandona as folhas, ou coloca um óculos e dorme.
Então tem uma relação...Ninguém entendeu nada.Mas eu me diverti com esse negócio. Eu me
diverti...
Você não imagina o que foi esse livro, foi uma diversão máxima.
250
Eu escrevia o dia inteiro, eu tenho muita dificuldade de escrever, muita...Esse livro de letra que eu to
fazendo, eu chamei uma professora da Puc de filosofia, e ela es me ajudando a redigir porque
sempre tive muita dificuldade.
Eu gosto muito de discutir, de conversar.
Quando eu comecei a registrar?
Eu comecei a ilustrar, estava no primeiro colegial, eu tinha uns 15 anos. Eu ilustrei meus livros
didáticos. Livros de genética... É uma loucura minha vida...
Depois eu fui com 17 anos no Jornal da Tarde, fiquei 10 anos. Daí foi uma maturação, do infantil para
o..., Uma alquimia. Eu não entendia nada o que era Artes Plásticas.
Meu irmão falou assim... Você tem que conhecer um artista que chama Flexor, que é um pintor
moderno.
eu fui e aprendi aquarela com o Flexor. Aquilo foi um, foi uma explosão...Ele tinha 70 anos e eu
tinha 16...Imagina? Eu 16 anos e o cara 70.
E ele fala de igual para igual. Para mim foi uma loucura. Ele falava como se eu fosse um... É
impressionante.
Uma pessoa muito importante.
Eu entrei na faculdade com 21 anos, conheci o Flexor com 16. Foi muito importante eu fazer
arquitetura, muito importante.
Eu adoro HQ.
Eu adoro HQ.
As últimas caricaturas que eu fiz na minha vida, nunca mais...
Tem os cadernos das minhas filhas. Minhas filhas têm um caderno de cada filha
Vários cadernos delas, quando elas eram bem pequenininhas, tudo que eu adoro, duas meninas que
eu adoro.
Isso aqui é interessante. A marca d’água é um beija flor.
Canetas de todas as espécies. Isso aqui é interessante. Esse é um papel feito aqui, tem uma
peneirinha que eu adoro. A textura do papel é a coisa mais linda do mundo.
A escrita para mim é uma loucura.
A escrita é uma loucura.
O significado da escrita, nossa senhora...Pra mim é uma loucura. O pessoal acha graça, né?
Acha que é um delírio...
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Essa é outra coisa que eu adoro, retratos...Eu tenho várias, uma série de retratos. Eu tenho um
caderno só de mulheres. Todas mulheres que aqui viram desenhos, todas as mulheres que aparecem
no atelier. Tem faxineira, têm todo mundo, amigos, alunos...
Agora é muito interessante esse caderno. É um desenho em cada ano, de 68 até hoje.
Esse é um desenho que eu fiz na aula de modelo.
É um desenho do dia a dia mesmo, né? Nesse momento mesmo pensante...né?
Esse aí, por exemplo, pensando no animal...
São os papéis que ficam aqui...
Porque tudo eu desenho. Se você pegar...Esses quadradinhos. São todos desenhados aqui...Não
tem jeito, senão eu não consigo entender nada...Tudo tem livro.
A forma geométrica...A cor vem depois, primeiro é linha.
Tem uns 30 cadernos desse daí. Esse roxinho que você viu é um; né?
Esse é só de púrpura, eu tenho muitos cadernos...Esse é de púrpura.
Quer dizer...Que púrpura é uma idéia, né? Cada um acha...Que púrpura é uma cor não é uma cor
definida, né? É uma idéia...Ele pode ser roxo assim também...
Fantástico, né?
Fantástico.
... Que o caderno tem a idéia da seqüência. Eu quero manter em linha. É todo um raciocínio, de
forma...O jogo desse trabalho é mostrar como os sobrepostos você todas as faces. Se você não
ver todas as faces, ta errado, é um jogo!
É dificílimo.
Tem várias maneiras de você por o cubo dentro dos cubos, é pura geometria.
Para mim:
É muito amplo.
Pensa um pouquinho o que você quer fazer, é legal usar essa concepção mais aberta de caderno,
né? Senão fica uma bobagem, acaba uma bobagenzinha...
A HQ é um caderno, o próprio caderno, objeto da HQ é um caderno e é muito bem feitinho...Um
grande caderno.
Silvia: O que esses cadernos são significativos, sabe?
Rubens: Primeiro a gente tem que mapear, porque cada um tem um significado na obra, né? Meu
caso...Tem um significado. E são muito diferentes, entram nas artes plásticas, entram na HQ. É tudo
meio ligado e tem a tese que eu estudei a história desses cadernos, então...Fica um bate e volta
desgraçado.
252
Até nessa linguagem que a letra pintada com a história do texto é uma loucura. Começa com a
ranhura e a luz, o começo do texto fala é da ranhura. Porque a letra saiu da ranhura, né? Todos os
desenhos da letra saíram da ranhura. Todos os desenhos da letra têm a ver com a ranhura.
Tem que ler muito.
Eu tenho uma biblioteca só disso. Meu amigo que es fazendo pós-doutorado levou tudo,
emprestado.
A pesquisa eu adoro, eu não gosto da Universidade, é outra coisa.
Não me dou bem com a Universidade, eu acho caça-níquel e eu não gosto.
Eu prefiro dar aula particular. É ótimo.
Eu não consigo tirar ninguém.
Sabe essas coisas...Ah... Vamos tirar fulano, vamos fazer um grupinho de pesquisa. Eu já dei aula
em faculdade, na Universidade de Taubaté. Universidade de Arquitetura. Foi um fracasso total. Eu
realmente não consigo participar de grupo, né?
Tinha muito cara de esquerda que perseguia professor e os caras de direita que perseguiam os de
esquerda. Era um inferno. Deus me livre!
Eu tive que fazer um convite, oh...O convite é esse número que eu tinha que fazer, né? Então olha
como é que é...Olha...Eu desenhava a mão, ta vendo?
Olha como que é cada letra, uma loucura, né?
Aí eu fiz, desenhei assim, aí fotografamos, e ficou assim...Foi esse que eu escolhi. A arte final é essa.
E aí deu isso aqui ó. (...)
O ruim mesmo é você reproduzir, e você transformar isso. Por exemplo,...Discutir com o diagramador
que o caderno tinha que ser um objeto, tinha que ter isso, tinha que ter isso aqui.
Para as pessoas entenderem que isso é um caderno, porque as pessoas acham...Porque como o
diagramador não lê isso, como o diagramador não vê, ele vê direto o assunto, então isso daqui some,
esse objeto-caderno desaparece.. um problema, eu não consigo...Eu tenho que fazer
contrato...Quando uma pessoa me pede, depois eu vou te mostrar um, eu vou te mostrar como é.
Tem que fazer um contrato, olha eu quero...Eu vou dar a fotografia...Eu falo com um amigo, troco com
um amigo, inclusive, você tem que fotografar, senão eles não aceitam, eles acham que isso é caro,
que é frescura, que não sei o quê...
Silvia: Descaracteriza?
Rubens: Totalmente. Eles não sabem nem o que eles estão falando. É uma coisa de louco, né? A
pessoa o sabe o quê ta falando...Aqui é uma futura biblioteca...Tá uma bagunça desgraçada.
Depois você vai conhecendo o atelier devagar, aqui são as mudas das árvores, que eu planto, as
sementes...
Rubens: Onde você parou seu carro?
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