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analítica é mais uma tentativa de ver a filosofia como a parte da cultura que trata
dos fundamentos. A ênfase dada à linguagem não supera ou transforma os
problemas nos quais a filosofia tradicional (Descartes, Locke e Kant) está pautada.
Neste livro, Rorty indica que a filosofia da linguagem surge como uma
tentativa de ruptura com esta concepção tradicional, ao defender uma mudança da
compreensão da mente como fundamento para o conhecimento para uma
concepção onde a filosofia deveria realizar-se pela análise da linguagem:
“A virada lingüística foi uma segunda tentativa de encontrar um domínio
que abarcasse os domínios dos outros professores. Essa segunda tentativa
tornou-se necessária porque, no curso do século XIX, a biologia
evolucionista e a psicologia empírica tinham começado a naturalizar as
noções de “consciência” e “experiência”. A “linguagem” foi o substituto
que os filósofos do século XX encontraram para “experiência” por duas
razões. Em primeiro lugar, os dois termos possuem um escopo igualmente
amplo - ambos delimitam todo o domínio da investigação humana, dos
tópicos acessíveis ao estudo humano. Em segundo lugar, as noções de
“linguagem” e “significado” pareciam, no início do século, imunes ao
processo de naturalização.” (Rorty, 1999: 78).
Historicamente, Rorty acredita que o primeiro autor a tratar desta questão
foi Wittgenstein em Tratactus, sendo Michael Dummet o primeiro autor a
defender explicitamente que a filosofia da linguagem, com base no argumento
apresentado no parágrafo anterior, era a filosofia primeira. A filosofia da
linguagem desenvolveria condições de descritibilidade, que abarcariam as
condições para qualquer área de estudo. “Se alguém pudesse dar as condições a
priori da atividade de descrever, então ele estaria capacitado a oferecer verdades
apodíticas” . (Rorty, 1999:79)
Rorty, porém, afirma que, inicialmente, essa tentativa de romper com o
pensamento tradicional não se realiza de forma completa e radical, já que, neste
pensamento, o caráter fundacional é mantido, por não se abandonar a busca por
pressuposições a priori que possibilitariam a formação de toda a nossa cultura. O
que ocorre, somente, é a apresentação de uma variante de uma mesma idéia,
colocando a linguagem no lugar da mente, enquanto algo que se encontra sobre e
em contraposição à realidade. “Assim, a discussão deslocou-se da pergunta sobre
se a realidade material é “dependente da mente” para a questão sobre que tipos
de asserções verdadeiras, se alguma houver, encontram-se em relações
representacionais para com itens não-lingüísticos” (Rorty, 1991: 2).